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O PROBLEMA RELIGIOSO

DA AMÉRICA LATINA

Estudo dogmático histórico

por

EDUARDO CARLOS PEREIRA

1ª Edição - 1920
2ª Edição - 1949
Sumário
Introdução à 2ª Edição ...........................................................................................................5
Preâmbulo .............................................................................................................................53
A REFORMA ..............................................................................................................................57
Origens e Causas da Reforma ...............................................................................................58
Evolução do Romanismo ......................................................................................................59
I. Disciplina .......................................................................................................................61
II. Doutrina ........................................................................................................................68
III. Culto...........................................................................................................................72
Precursores e Prenúncios da Reforma ................................................................................74
Condições Mesológicas .........................................................................................................77
A Reforma .............................................................................................................................82
Os Três Princípios Fundamentais da Reforma....................................................................88
I. Supremacia da Bíblia sobre a Tradição .......................................................................89
II. Supremacia da Fé Sobre as Obras ................................................................................95
III. Supremacia do Povo Sobre o Clero ..........................................................................98
Origem do Nome Protestante ............................................................................................ 103
Simultaneidade e Progresso da Reforma ..........................................................................111
Perseguições ....................................................................................................................... 117
A Reforma e os Abusos .......................................................................................................119
A Reforma e o Cristianismo................................................................................................ 121
A Reforma e o Denominacionalismo .................................................................................124
A Reforma e o Racionalismo .............................................................................................. 134
A Reforma e o Cânon ..........................................................................................................138
Traduções............................................................................................................................ 141
Livros Apócrifos ..................................................................................................................143
A Fixação do Cânon.............................................................................................................146
Cânon do Velho Testamento .............................................................................................. 148
Fundamentos do Concílio Tridentino ................................................................................161
Cânon do Novo Testamento ............................................................................................... 171
A Reforma e a Liberdade ....................................................................................................173
Intolerância e Perseguições ............................................................................................... 174
A Reforma e o Progresso ....................................................................................................181
A Reforma e a Escola ..........................................................................................................191
O PROTESTANTISMO .............................................................................................................194
O Protestantismo ....................................................................................................................195
O Congresso Evangélico Panamericano de Panamá ......................................................... 201
O Panamericanismo............................................................................................................207
As duas raças ......................................................................................................................213
A Doutrina de Monroe ........................................................................................................221
Abertura do Congresso, saudações e teses .......................................................................230
A América Latina Através dos Relatórios ..........................................................................237
A Feição Moral do Congresso ............................................................................................. 242
Do Panamá ao Peru.............................................................................................................249
Do Peru ao Chile..................................................................................................................255
Do Chile à Argentina ...........................................................................................................261
Da Argentina ao Brasil ........................................................................................................268
O ROMANISMO ....................................................................................................................... 275
O Romanismo ......................................................................................................................276
O Papado e o Primado de S. Pedro .....................................................................................277
O Papado e a Primazia de S. Pedro ....................................................................................285
O Papado e o primado de S. Pedro, 2º elo .........................................................................304
Os títulos do Apostolado ....................................................................................................314
O Papado e o Primado de S. Pedro, o 3º e 4º elo, S. Pedro em Roma ............................... 320
O Apostolado ....................................................................................................................... 323
S. Pedro no Exercício de seu Apostolado...........................................................................327
Testemunho dos Padres Apostólicos.................................................................................347
Origens do Papado ..............................................................................................................367
O Episcopado ......................................................................................................................369
O Papado ............................................................................................................................. 373
Os Germens do Papado.......................................................................................................375
As pegadas do Papado ........................................................................................................382
A Contrarreforma ...............................................................................................................402
Os Jesuítas ........................................................................................................................... 405
Concílio Tridentino .............................................................................................................413
O Concílio do Vaticano........................................................................................................419
Pio IX ...................................................................................................................................425
A Imaculada Conceição.......................................................................................................426
Sílabo ...................................................................................................................................431
Infalibilidade Papal .............................................................................................................435
A Infalibilidade e o bom senso ........................................................................................... 440

3
A Infalibilidade e a história ................................................................................................ 447
Os velhos católicos..............................................................................................................454
O Vaticanismo .....................................................................................................................455
Sincretismo católico romano ............................................................................................. 470
Atitude do protestantismo para com a igreja católica romana ........................................474
Credo Niceno....................................................................................................................... 484
Decreto do Concílio de Éfeso ............................................................................................. 485
Doze artigos novos acrescentados ao credo por Pio IV em 1564 ....................................486
SOLUÇÃO DO PROBLEMA RELIGIOSO ..................................................................................494
A solução do problema da América Latina ........................................................................495
O dilema religioso da América Latina ................................................................................500

4
Introdução à 2ª Edição

“Sem certeza, não há


Cristianismo! O cristão deve
estar certo da sua doutrina e da
sua causa, ou não é cristão”.
Lutero

Há homens predestinados. Nascem em determinada


época e lugar para realizar a vontade de Deus. O caso de Ester
é típico. Não descobrira o sentido da vocação. É necessário que
Mardoqueu lhe mande o recado: “Quem sabe se não foi para este
momento que foste conduzida à realeza?”1. Convencendo-se que
havia um serviço que podia e devia prestar ao seu povo, Ester
agiganta-se, ao tomar aquela resolução heroica: “Depois irei à
presença do rei, ainda que isso seja contra a lei. Se for preciso
morrer, morrerei.”2. Sente-se convicta de que Deus a
encarregara de um trabalho difícil e enfrenta, com galhardia e
destemor, as dificuldades que surgem na sua realização.
O Mestre de Nazaré estava cônscio daquilo que ia realizar.
Interrogado, na antecâmara de Pôncio Pilatos, a respeito de sua
identidade e dos fins de seu trabalho, sem tergiversar,
responde imediatamente: “Foi para isso que nasci e vim ao
mundo, a fim de dar testemunho da verdade.”3. Realizou a sua
obra integralmente, embora lhe custasse o preço da morte
ignominiosa no Calvário.
Lutero, outro grande herói da vocação, graças a uma
circunstância gratuita — a tirania horrível que sufocando a
liberdade na Alemanha, lavava-a às raias do desespero — sai

1
Ester 4:14 (A21).
2
Ester 4:16 (A21).
3
João 17:37 (A21).

5
de uma vida tranquila para lutar as lutas de Deus. Diz Stefan
Zweig: — “Quanto a si, Lutero ouvia o apelo do Senhor e
possuía, portanto, uma consciência segura. Quem sou eu ou que
sou, por que espírito e intuitos travei lutas resolva-o Deus que
sabe tudo; o que estou realizando não depende do meu arbítrio,
mas da sua vontade divinamente soberana que o iniciou e o
vem desenvolvendo”4. Lutero, diz Schaff, nunca havia sido um
reformador, se tivesse seguido o conselho que João Natin lhe
dera no convento: “Irmão Martinho, deixa a Bíblia em paz: lê os
mestres antigos. Eles dão a substância da Bíblia. Ler a Bíblia é
procurar inquietação”5.
O homem, porém, verdadeiramente vocacionado — o
super-homem — não teme inquietação: “vive em sua obra e sua
obra nele”.
Eduardo Carlos Pereira foi um homem enviado por Deus.
Analisando o trabalho que realizou, o dr. William Waddell disse
que foi ele o que mais fez pela evangelização de nossa Pátria6.
Bem jovem era ainda, quando se encontrou, no caminho
da vida, com o Senhor Jesus. Abandonando o romanismo,
abraçou o Evangelho aos 19 anos de idade. Chegou a
matricular-se no primeiro ano da Academia de Direito, em São
Paulo. Estava escrito, porém, que o recém-convertido não
deveria estudar as leis humanas, mas sim as divinas. Luta
intensa ter-se-ia travado, sem dúvida alguma, em seu espírito.
É a luta que precede sempre às grandes decisões.
No caminho de Damasco, Saulo cai por terra. Vendo em
ruínas o seu farisaísmo pernicioso, tremendo e atônito, brada:
“Quem és tu, Senhor? O Senhor respondeu: Eu sou Jesus, a quem
persegues; mas levanta-te e entra na cidade; lá te será dito o que

4
Stefan Zweig , Erasmo de Roterdam, pg. 165.
5
David S. Schaff, Nossa Crença e a de nossos Pais, pg. 68.
6
O Estandarte de 07/01/1943, pg. 19.

6
precisas fazer.”7. E a Ananias, Jesus revela o que ia fazer de
Paulo: “Vai, porque ele é para mim um instrumento escolhido
para levar o meu nome perante os gentios, reis e israelitas”8.
Luta formidável experimenta o bispo de Hipona. Escreve
ele: “Armou-se então no meu interior uma tempestade imensa,
trazendo imensa torrente de lágrimas... Soltei as rédeas ao
pranto que me arrasava os olhos... E gemia: Até quando,
Senhor, continuas irado?... lança ao olvido as minhas
iniquidades de outrora!... Pois eu me sentia preso por elas. E
suplicava com voz miserável: Até quando?... Até quando?...
amanhã... sempre amanhã... e por que não agora... por que não
seria esta hora o fim das minhas torpezas?”9
“Tolle, lege! Tolle, lege!” Toma e lê, é a voz infantil que
Agostinho escuta. Volta ao lugar onde estava Alípio e onde
deixara o livro do Apóstolo. Toma-o; abre-o ao acaso e lê
baixinho:
“Vivamos de modo decente, como quem vive de dia: não em
orgias e bebedeiras, não em imoralidade sexual e depravação,
não em discórdias e inveja. Mas revesti-vos do Senhor Jesus
Cristo; e não fiqueis pensando em como atender aos desejos da
carne.”10.
Agostinho estava vencido. O filho de Mônica tornara-se
filho espiritual de Paulo.
Encerrado entre as paredes do convento dos Agostinhos,
o monge Lutero trava decisiva batalha espiritual. Do púlpito de
Wittenberg, irá contar, mais tarde, a sua experiência: “Durante
os quinze anos em que fui frade, martirizei-me, torturei-me,
com jejuns, pelo frio, com uma vida de austeridade”. Tal era o
seu comportamento que “um dos seus professores no

7
Atos 9:6 (A21).
8
Atos 9:15 (A21).
9
Humberto Rohden, Agostinho, pgs. 140-141.
10
Romanos 13:13, 14 (A21).

7
convento, homem severo para si mesmo e para os outros,
citava-o aos agostinhos de Toulouse como modelo de piedade,
de devoção, “comparável a São Paulo depois da conversão”11. E
Schaff afirma: — “Foi Paulo quem o conduziu e o dominou. As
palavras Apóstolo: “O justo viverá pela fé”, tomaram-se para
Lutero, como ele próprio o disse, “a porta do paraíso”12.
A luta repete-se com o jovem Carlos Pereira. É também o
apóstolo Paulo quem o vai convencer a tornar-se um digno
embaixador do Reino de Deus. O rev. Chamberlain, qual novo
Farel, coloca-lhe no coração o passo bíblico que, mudando o
rumo de sua vida, fará dele uma benção para o Brasil: “E ai de
mim, se não anunciar o evangelho!”13.
Abandona a Academia e ingressa no Seminário. Formado,
irá Carlos Pereira demonstrar, como São Paulo, o mesmo zelo,
a mesma coragem, a mesma intrepidez, a mesma fé na defesa
da Coroa Real do Salvador.
O seu batismo de fogo, no ministério, vai ser na cidade
mineira de Campanha, onde o ex-padre Conceição fora, alguns
anos antes, apedrejado. No seu campo de ação, diz-nos o ilustre
autor de “Os pretos norte-americanos”, “promoveu diversas
polêmicas sustentando com brilhantismo as teses defendidas e
assim enfrentou com galhardia, em muitas cidades mineiras,
padres, intelectuais e missionários”14. Assaltaram-no inúmeras
dificuldades e perseguições. “Frades e missionários seguiam
seus passos levantando o fanatismo da plebe e por duas vezes
correu o risco de ser linchado. Certa vez um heroico delegado
de polícia de faixa auriverde atravessada, ao peito à frente de
homens armados, o arrebatou das mãos do povo fanatizado.

11
Funck-Brentano, Lutero, pg. 36.
12
Ob. cit., pg. 79.
13
1 Coríntios 9:16 (A21).
14
F. Faria Neto, Fé e Vida, novembro-1945.

8
Isso se deu depois de uma, discussão, em público, com os frades
que, não resistindo à sua sabedoria, atiçaram a plebe”15.
Desejoso de servir à Igreja e à Pátria, enfrentou, “no
terreno fecundo da consciência religiosa”, o inimigo onde quer
que aparecesse. Não quis, para fugir à luta, aprender a arte,
convidativa, do silêncio. Tinha, como dever sagrado de
consciência, de confessar e de propagar a verdade que Deus lhe
revelara ao coração. Em seu ministério fecundo, teve que
“combater erros e danosos sistemas”, dentro e fora da Igreja. Aí
permanece de pé a sua inolvidável e irrefutável obra “A
Maçonaria a o Cristianismo”, fruto de combate a sistemas
perigosos.
Ama também estremecidamente a sua Pátria. Sonha com
um Brasil grande e forte, livres das garras do Romanismo que,
escravizando o seu povo, o infelicita. E para vir em seu auxílio,
deverá enfrentar o ultramontanismo. Terá de demolir os seus
erros doutrinários e de combater os ensinos morais
dissolventes da ética romana, antes que o caos moral domine o
país. O seu porte varonil é talhado para as lutas de Deus. “Os
grandes homens — diz o padre Rohden — precisamente por
serem grandes, são de Deus, e, portanto, do mundo de Deus”16.
Lamentavelmente é a atitude do cristão que por amor à paz a
qualquer preço, adota a política de Erasmo que “abominava
antes os conflitos e, como tático sagaz, evitava toda a oposição
inútil ao poder e aos poderosos”17.
O livro do Rev. Eduardo, O Problema Religioso da América
Latina, atesta a sua intrepidez ante o mal que corrói o Brasil.
No preâmbulo, postula: “A tolerância para com os homens,
companheiros nossos na fragilidade universal da natureza
decaída, não colide, entretanto, com a máxima intolerância no

15
O Estandarte de 07/01/1943, pg. 22.
16
Ob. cit., pg. 163.
17
Ob. cit., pg. 32.

9
repudio de falsos e perigosos princípios e instituições”. E, com
franqueza que lhe era peculiar, afirma do Romanismo: “No seu
governo é ele uma perpétua conjuração contra a liberdade e
democracia, escola de intolerância e absolutismo. No seu culto,
um polipeiro de superstições grotescas e cretinizadoras; de
idolatria e prodígios mentirosos. Tudo isto tem feito dele a
estrela funesta da raça latina e das nacionalidades sul-
americanas”18.
A sua obra foi publicada em 1920, após ter tomado parte
ativa no Congresso do Panamá, em 1916, e em diversas
reuniões posteriores que o Congresso fez realizar no Peru,
Chile, Argentina e Rio de Janeiro. Entretanto, não se pode
afirmar que o seu notável e erudito trabalho seja fruto
exclusivo do Congresso panamenho. O problema religioso da
América Latina, a situação moral e espiritual dos povos latinos
do Novo Mundo, desde bem cedo começaram a torturar o seu
espírito cristão. Em 1896, o grande líder de evangelismo pátrio
escrevia: “Vai neste fato o sincero desejo de trazer humilde
subsidio para a solução da questão religiosa, que é o angustioso
problema das democracias latinas”.
A solução definitiva desse magno problema não se
formula, segundo cremos, no domínio da política, da ciência ou
da filosofia, porém no próprio terreno teológico.
Evidencia isto o fato significativo que a questão religiosa
a dirimir não é entre a ciência e religião, entre o positivismo e
a teologia, entre o racionalismo e o supernaturalismo; porém,
sim, entre as aspirações religiosas do cidadão e o clericalismo
fatalmente político de um absolutismo infalível, cuja jurisdição
se estende à esfera universal da fé e da moral, bem como à
disciplina e governo da igreja. Nem selum in rebus, quae ad
fidem et mores... pertinent.

18
Carlos Pereira, O Problema Religioso da América Latina, pg. 418.

10
Caracteriza a fatalidade política da milícia ultramontana a
célebre resposta de um dos gerais da Ordem:
Sint ut sunt aut non sint.
Tais pretensões só podem ser debeladas eficazmente no
terreno da teologia. Diante das ingênitas e indestrutíveis
aspirações religiosas do coração humano, a tremenda
alternativa só pode cair, em última análise, entre o cristianismo
da Reforma e o cristianismo do Vaticano, entre a Bíblia e o
papa, entre o protestantismo e o romamismo.
A luta deve, pois, travar-se no campo da consciência e em
nome de Deus: luta de vida e de morte, porque não transigem
arraigadas convicções religiosas, nem conciliação possível
existe entre o espírito liberal de um cristianismo divino e o
sacerdotalismo absorvente de um paganismo batizado”19.
O Problema Religioso da América Latina, foi largamente
elogiado. O ilustre professor francês Roger Bastide, catedrático
da Universidade de S. Paulo, procurando apreciar a
contribuição do protestantismo indígena na história literária
do nosso povo, fez referência à obra de Carlos Pereira, no artigo
“A literatura protestante no Brasil” publicado em “O Estado de
São Paulo”, de 25 de maio de 1944.
O rev. James Perter Smith escreve: “Rev. Eduardo C.
Pereira, the scholar, writer and minister whe has been quoted,
published in 1920 a sane and scholarly study of Romanism”20.
O rev. Galdino Moreira assim se refere à obra: — “Era um
estudo dogmático-histórico, forte, vivo e justo, tanto quanto
justa é a própria palavra História imparcial, das índoles
visceralmente constitucionais do Protestantismo e do
Romanismo. A obra do consagrado mestre fora tecida com a
reverência e o carinho que requerem sempre todas as grandes
19
O Protestantismo é uma nulidade, pgs. V-VI.
20
An Open Door in Brazil, pg. 78.

11
e luminosas verdades, forradas de argumentação
perpendicular e tersa, e apurada com a linguagem invencível
da boa-fé, da sinceridade, da tolerância, da retidão, de envolta
a um raciocínio calmo e sereno, cristalino e bom, nobre e
morigerado.
Eduardo Pereira, no seu trabalho monumental, fez o
inventário seguro do que são as índoles históricas do
Protestantismo e Romanismo. Tudo o que fixou no seu tratado
fê-lo sob o peso de provas, de fatos e de evidências
respeitáveis”21.
O livro de Carlos Pereira abalou o clero romano; encheu
de “pânico e terror os arraiais católico romanos sob o comando
das cúrias, dos confessionários e dos círculos de ação católica”.
Um dos grandes luminares do clero é enviado a Roma de
onde, à sombra da grande e afamada biblioteca do Vaticano,
procura responder ao trabalho do grande paladino do
protestantismo nacional. É lamentável, sob todos os aspectos,
que a escolha do corifeu papal, tenha caído justamente num
jesuíta. É notória a artimanha dos jesuítas. Ao vestir o hábito
abdica da sua razão, tornando-se, nas mãos do seu superior, tão
passivo como um cadáver. “Para que possamos — diz o cardeal
Wiseman — em todas as coisas atingir a verdade, a fim de que
em nada erremos, devemos sustentar como princípio fixo que
o que eu vejo branco creio ser preto, se a Igreja hierárquica
(isto é os Bispos e o papa) assim o decide”. (Spiritual Exercises
of St. Ignatius, pgs. 173-175)22.
O rev. dr. Ortz Gonzales, editor da revista La Nueva
Democracia, ex-presidente do Colégio Seráfico de Benisa e ex-
Examinador Sinodal das dioceses de Madri, Valência, Segovia e
Teruel, afirma-nos o seguinte: “Segundo o fundador da
Companhia de Jesus, a obediência perfeita é a obediência cega,
21
Lisânias Cerqueira Leite, Protestantismo e Romanismo, pgs. VII-IX.
22
Apud Protestantismo e Romanismo, pg. XXIII.

12
e tão cega, que se estou vendo com os meus olhos que o sol está
brilhando, e meu superior, ou a Igreja, me disser que está
escuro e é noite, tenho que aceitar, como fato aprovado, que
meus olhos é que me estão enganando”23.
Os jesuítas são mestres na casuística, isto é, no “sistema
pelo qual através de linguagem ambígua e sutileza mental, e
pelo exagerado valor dado ao principio de conveniência, a
verdade cristalina se deturpa ou se suprime do modo que ao
tomam recomendáveis e legítimos atos que seriam, de outra
forma, pecaminosos. Da prática da casuística religiosa resultou
a filosofia do probabilismo, ensino segundo o qual os atos
morais, pecaminosos em si mesmos, perdem, em certas
circunstâncias, sua pecaminosidade e se tomam
permissíveis”24.
Continua ainda Schaff: “O sistema de casuística moral leva
ao princípio de que o fim justifica os meios, isto é, os atos
praticados para a sua consecução. A intenção, segundo tem
sido ensinado, toma bons os atos ruins, se um fim legítimo se
tiver em mente. O princípio de que o mal se pode fazer para que
venha o bem, repudiado por Paulo em sua Epístola aos
Romanos, tomou-se o lema da Ordem dos Jesuítas: “Tudo para
a maior glória de Deus — Omnia ad majorem dei gloriam25.
Baseado neste princípio diabólico, o seu adepto não
hesita em adulterar a história; por esta razão, Sarpi já advertia:
“que exatamente o contrário do que os jesuítas afirmam é o que
devia crer”.
E o antagonista do rev. Eduardo pertence a tal escola! É
jesuíta! Padre Leonel Franca, S. J.
A obra de Leonel Franca, publicada após a morte do
grande lidador protestante, intitula-se: A Igreja, a Reforma e a
23
D. P. Thomsem, Como achei a Cristo, pg. 43.
24
David S. Schaff, ob. cit., pg. 534.
25
Ob. cit., pg. 536.

13
Civilização. Discorrendo, no prefácio, sobre as qualidades
morais de quem se atreve a escrever um livro religioso, Franca
pontifica: “Que respeito religioso à verdade! Que prudência
circunspecta nas asserções! Que certeza absoluta e inconcussa
nas doutrinas que se querem inculcar às almas! Que delicadeza
de escrúpulos em fulminar anátemas contra convicções que
nutrem e confortam a vida espiritual de milhões dos nossos
semelhantes! Mais do que qualquer outro, um livro religioso
deve ser obra de ciência e obra de consciência”26.
O padre, inquestionavelmente, possui um estilo
primoroso e linguagem pomposa. Com desembaraço e mestria
maneja o nosso vocabulário. A impressão que se tem, ao ler este
belo trecho, é que este jesuíta não segue a escola de Loyola.
Nem exaltação do sofisma, nem ocultação da verdade. Parece-
nos ver nele um novo santo Agostinho a pregar: “... a verdade
toda a verdade e nada que não seja a verdade”; ou, então, um
adepto fervoroso do princípio aprovado pelo Protestantismo e
que foi definido por Wycliff — “de que a verdade sempre se há
de dizer e que a evasiva e o equívoco são sempre
condenáveis”27.
Que respeito à verdade, que delicadeza de escrúpulos não
deveria demonstrar, no seu trabalho, o prisioneiro do Vaticano!
É isso o que espera o leitor honesto, após ler o prefácio, de A
Igreja, a Reforma e a Civilização. Ledo e cego engano... Amor à
verdade, prudência nas asserções, certeza absoluta nas
doutrinas, delicadeza de escrúpulos, ele as deseja, sim, mas
para os seus adversários... Se, nessa grande controvérsia, ele
adotasse, de fato, os admiráveis princípios expostos na
introdução do seu livro, que de bênçãos, de luz, de
transformação, revolução espiritual não resultariam em
benefício de nossa Pátria! Franca escolhe o campo em que deve

26
Leonel Franca, A Igreja, a Reforma e a Civilização, pg. V.
27
Schaff, ob. cit., pg. 547.

14
combater. Restringe a luta em torno daquilo que considera,
“todo o nervo da controvérsia entre católicos e protestantes”.
As suas armas prediletas, diante da solidez dos argumentos
pereirianos, são bem classificadas pelo rev. Lisânias: “a
fealdade de rasteiros sofismas, a deslealdade com que falseia a
atitude de seu finado antagonista, a sem-cerimônia com que
falsifica até mesmo os textos sagrados”. É esse mesmo pastor
quem afirma: “A preocupação dominante de seu trabalho é
magoar, ferir, ridicularizar, o nobre adversário e com ele a
grande, causa de que foi impertérrito apologista. E para chegar
aos seus fins não faz escolha de meios. Não lhe treme a pena em
desfigurar, em torcer, em deturpar os pensamentos e as
palavras do indefesso paladino da verdade do Evangelho”28.
Acompanhemos Leonel Franca no seu prefácio. Recebe o
livro do rev. Eduardo. Eis a sua impressão:
“Fácil é de ver com que avidez nos atiramos a lê-lo. A
gravidade do assunto, o arrojo da novidade, o subtítulo “estudo
dogmático-histórico” a prometer-nos um trabalho de fôlego,
tudo nos solicitava, e prendia a curiosidade. Lemo-la
atentamente uma e outra vez. Foi uma decepção, uma triste e
amarga decepção. Contávamos com um livro de ciência;
deparamos coro uma obra de fancaria”29.
Obra de fancaria! Eis o juízo apressado, o julgamento
atabalhoando que o jesuíta fez de O Problema Religioso da
América Latina.
Obra de fancaria, mas para respondê-la, vê-se obrigado a
ir até Roma a fim de consultar a biblioteca do Vaticano.
Obra de fancaria, mas que obrigou o “jesuíta habilidoso e
versado nas solércias dialéticas” a escrever um livro de 543
páginas.

28
Ob. cit., pgs. XIX e XX.
29
Ob. cit., pg. VI.

15
Obra de fancaria, e, entretanto, através desse livro
volumoso de 543 páginas o jesuíta versou apenas o assunto por
ele previamente delimitado, a saber: os caracteres divinos da
Igreja católica, o papado, a reforma protestante e o campo
social.
Obra de fancaria, mas Franca deixa de contestar tudo
aquilo que julga ser “todos os erros e ilogismos do pastor
brasileiro”, porque “esta empresa nos levaria longe e
ensancharia matéria para mais de um volume”.
Obra de fancaria, e sua pretensa resposta, “não respondia,
de fato, ao livro do Rev. Eduardo. Trazia evidentes e
irrecusáveis indícios de uma obra Jesuíta, cujo método é
confundir encenando, e encenar confundindo”30.
A Igreja, a Reforma e a Civilização, sofreu ataques parciais
e generalizados em vários jornais evangélicos do país.
Corajosos francos, atiradores descobrindo no livro pontos
vulneráveis, citas duvidosas, remissas falsas, citações erradas e
truncadas da Bíblia, saem a campo para chamar a contas o
corifeu papal.
A primeira obra, porém, de largo fôlego vem a lume em
1931. Intitula-se Roma, a Igreja e o Anticristo. O seu autor é o
notável polemista evangélico rev. Dr. Ernesto Luís de Oliveira.
A sua arma predileta é a palavra do Deus, pois acha que — “A
doutrina, a organização e a política tradicional da Igreja de
Roma são, com efeito, indefensáveis em face da Sagrada
Escritura, dos grandes Doutores da Igreja e da História, nem
ainda com auxílio de uma biblioteca tão grande e tão rica
quanto a do Vaticano!”31.
O ilustre comentarista de Unitas, sr. Leopoldo Aires,
considerou a contra resposta do dr. Ernesto “manifestamente

30
Protestantismo e Romanismo, vol. I, pg. VI.
31
Roma, a Igreja e o Anti-Cristo, pg. 12.

16
fraca”32. Contra a sua opinião de crítico, levantam-se outras não
menos notáveis. O dr. Brás de Arruda citou-a “com os maiores
encômios, na preleção inaugural e em aulas subsequentes do
curso de Direito Internacional da Facilidade de Direito de S.
Paulo”. O ex-padre romano Marcelino N. Araújo considerou-a
como “uma das mais brilhantes defesas do Evangelho
aparecidas no seio da Cristandade”. O próprio padre Franca
não a considerou “manifestamente fraca”, pois dedicou-lhe
atenção especial na contra resposta dada: Catolicismo e
Protestantismo. Pouco antes de morrer, o rev. Ernesto já havia
preparado a tréplica a essa obra de Franca. É lamentável que
não tenha sido publicada33.
Em 1933, Frederico Hansen publica quatro interessantes
e bem documentados opúsculos, contra as sutilezas, as fraudes
e as confusões que pululam na obra do jesuíta. São os seguintes:
— Lutero, e o Padre Leonel Franca; A defesa do Padre Leonel
Franca; Lutero, a Bíblia e o Padre Leonel Franca; O Papado e O
Padre Leonel Franca. Frederico Hansen é pseudônimo do rev.
prof. Otoniel Mota.
Em 1936 vem a lume o 1º volume de “Protestantismo e
Romanismo”. O seu autor é o ilustre engenheiro e ministro do
Evangelho rev. dr. Lisanias Cerqueira Leite. A sua resposta vai
ser ao pé dá letra. O seu livro de 189 páginas responde apenas
às primeiras vinte e duas páginas da obra de Franca. E isto
assusta o padre, obrigando-o a escrever: “A continuar na escala
seguida achamo-nos na expectativa de uma verdadeira
biblioteca de vários milhares de páginas em grande formato”34.
Seguem-se-lhe o 2º e o 3º volumes publicados,
respectivamente, em 1938 e 1942. O terceiro e último volume
da grande e valiosíssima obra do dr. Lisanias — pois que a
morte o chamou antes de vê-la concluída — dá, nas suas 268
32
Unitas, novembro de 1948.
33
L. C. Leite, A Igreja, o Papado e a Reforma, pg. 19.
34
Franca, Protestantismo no Brasil, pg. 78.

17
páginas, resposta cabal aos argumentos e às contraditas que o
padre exarou em seu livro, da página 59 à 116. Em 1941,
publicou também, à margem da série Protestantismo e
Romanismo um opúsculo “A Igreja, o papado e a reforma”, que
é a “súmula da resposta e réplica ao padre L. Franca”.
Franca escreveu ainda “Lutero e o sr. Frederico Hansen”
e “O Protestantismo no Brasil”. Este último foi dividido em duas
partes: a primeira responde aos folhetos do prof. Otoniel e a
segunda ao 1º volume do rev. Lisanias.
Entende ainda o sr. Leopoldo Aires, no comentário que
teceu em Unitas, que a obra do rev. Lisanias é “prolixa e difusa,
falha em muitos pontos”. É pena que o douto crítico não tivesse
apresentado essas falhas.
Não negamos que ela seja prolixa. Sendo resposta ao pé
da letra, deveria, necessariamente, acompanhar todas as idas e
vindas do seu antagonista. O rev. Jorge Goulart também
discordou do método, do “plano da obra que o autor, orientou
no sentido de uma meticulosa investigação de passo após passo
do escritor adverso, o que não só prolonga demasiado o esforço
do analista como degenera, muitas vezes, repetições
fastidiosas e desnecessárias”. Esta discordância — fruto do
gosto individual — não o impediu de fazer jus ao mérito do
trabalho: “O dr. Lisanias está fazendo uma obra de gigante,
valiosíssima e digna de todo, o aplauso”35.
A obra do rev. Lisanias tinha de ser prolixa, pois enfeixa o
que tão bem sintetizou a pena brilhante de Galdino Moreira:
“exame, exame livre e sereno, exame árduo e reto; é exame de
pesquisador ansioso de defrontar unicamente a verdade; é
estudo; é trituração tranquila de enredos mal alinhavados,
embora, às aparências, bem tecidos e fascinadores.

35
Fé e Vida, outubro de 1942.

18
Não há nestas páginas medo da luz, da História, fuga dos
fatos. O Autor timbrou, nesta caminhada, em se deixar mesmo
conduzir pelo próprio adversário, em jungir-se à sua
carruagem, em prender-se ao seu braço para, com as armas
dele, dentro de seu quadrado e com suas próprias munições,
destroar-lhe a tática, destruir-lhe os planos, derrubar-lhe as
fortalezas.
Não há um só argumento do padre jesuíta que não sofra o
corte mortal da pena incansável do autor. Não é nesse ou
naquele campo do Novo Testamento que o adversário arma o
seu ataque? Pois, aí vai o ilustre escritor evangélico,
sobranceiramente, para demonstrar a vulnerabilidade do
guerrilheiro. Corre o jesuíta à História? À História se
encaminha o pastor. Rebusca o padre velhos alfarrábios,
remove arquivos antiguíssimos, pede citas a venerandos vultos
dos dias antigos? O Autor protestante não o detém; deixa-o ir
até o fim da arrancada penosa para, aí esbagaçar tudo,
evidenciando enganos, má visão, contradições, lapsos
irremediáveis de interpretação e pecados flagrantes contra o
contexto”36.
Dada esta impressão geral do que já produziu — no
campo da polêmica — a obra do rev. Eduardo Carlos Pereira,
queremos apresentar apenas alguns exemplos das graves
acusações que pesam sobre o método empregado pelo padre
Franca.

*
* *

36
Protestantismo e Romanismo, 1º vol., pg. IX.

19
Escreve o jesuíta: “Mas na Igreja do Céu não serão
recebidos sendo os que houverem pertencido à Igreja da terra.
Está escrito: quem não crer e não for batizado não se salvará”37.
A isto retruca o rev. Lisanias: “Leonel franca, entretanto,
empenhado em provar que só entram na Igreja do Céu os que
pertencem, por meio do batismo, à Igreja da terra, alterou,
escancaradamente, a palavra de Cristo, falsificou abertamente
o texto sagrado, acrescentando-lhe as palavras — o não for
batizado — para que o leitor inadvertido ficasse pensando que
Cristo ensinou ter o batismo d’água elemento salvador e sua
ausência, motivo de perdição.
Para que fique bem evidente a falsificação, damos aqui, ao
lado um do outro, o texto verdadeiro e o modificado:

O Texto verdadeiro O Texto falsificado


“...mas quem não crer será “... quem não crer e não for
condenado. “ (Marcos batizado não se salvará”.
16:16b). (Leonel Franca, IRC, pg. 4).

Como se vê, toda a cláusula — e não for batizado — que


sublinhamos é acréscimo da pena audaciosa do discípulo de
Loyola”38.
Como irá defender-se o padre, desta terrível acusação de
falsificação do texto sagrado? Depois de um circunlóquio,
procurando ensinar ao antagonista o que é citação e o que é
alusão e como se coloca cada uma na sentença: — “citação
coloca-se entre aspas e é seguida, no texto ou em nota, do nome
do autor citado, do título da obra, edição, páginas, etc.”, e, que

37
Ob. cit., pg 4.
38
Ob. cit., I vol., pg. 11.

20
“a alusão não está presa à minúcia destas exigências”, (sic)
entra no assunto:
“Trata-se no trecho que de falsificado averbou o sr. L. de
uma citação; ou de alusão simples? É só ter olhos de ver, e abri-
lo com vontade de enxergar. Há porventura alguns dos sinais
que indicam a presença de uma citação? Nem um só. Aspas?
Nada. Nome de S. Marcos? Tão pouco. Capítulo e Versículo do
seu Evangelho? Menos ainda, que há, então? Apenas os dizeres:
está escrito. E que significa esta locução? Encontra-se na
Escritura. Mas a Escritura não é só o Evangelho de S. Marcos é
também o de S. João. E neste, c. III. v. 5 poderá ler-se: “quem não
nascer da água e do Espírito Santo não pode entrar no reino de
Deus”39.
Eis a maneira pela qual o “modesto jesuíta”, acusado de
falsificar deliberadamente o texto sagrado, procura escapar a
essa responsabilidade! Não fez citação, pois não usou aspas,
nem nome do autor do Evangelho, nem capítulo, nem verseto,
etc., etc. Fez apenas.... uma alusão. S. s. disse: “está escrito”; e o
que colocou depois dos dois pontos não se encontra em
nenhuma parte da Bíblia. Alusão, diz o padre; mas, alusão a
quê? Àquilo que diz estar escrito? Mas onde se encontra esse
texto? Em João 3:5? Razão tinha o rev. Lisanias para escrever o
que escreveu: — “... não hesitou o padre Franca em dar, como o
que está escrito, o que jamais se escreveu, a não ser na tela
sombria da consciência, onde às dobras escutas das restrições
mentais tudo agasalham para glória do papado, sistema já
célebre como falsificador do decálogo, donde arrancou,
segundo provamos, o mandamento que proíbe dar culto às
imagens40.
É sui-generis o método gramatical do mestre-escola
Jesuíta! A regra por ele ministrada, deve ser adotada tão

39
O Protestantismo no Brasil, pgs. 128, 129.
40
A Igreja, o Papado e a Reforma, pg. 21.

21
somente pelos seus oponentes. Sendo ele mestre,
naturalmente, está acima da lei gramatical. A lei; ora a lei...
Vejamos um citação do padre, que está, de fato, na Bíblia Roguei
por ti para que a tua fé não desfaleça41. A citação é verdadeira,
mas... não vem entre aspas! Outra citação de Franca: — Cristo
disse: “tu és a pedra sobre a qual hei de edificar a minha
Igreja”42. A citação está colocada entre aspas, mas... é falsa! Não
citou em que parte da Bíblia se encontra, nem capítulo e muito
menos o versículo. Cristo, em Mat. 16:18, jamais pronunciou as
palavras que o padre, sem-cerimônia, lhe põe nos lábios. O
jesuíta usava aspas, ou deixava de usá-las conforme “a
conveniência do erro que pretendia transmitir”... E foi este
homem que teve a ousadia de querer descobrir desonestidade
em Carlos Pereira! Em desespero da causa, a pena de Leonel
Franca não trepida “quando esparrinha o lodo de suas
invectivas e aleives face honrada e limpa dos adversários
respeitáveis, que a morte emudeceu”. Por esta razão, no seu
“Ajuste de contas preliminar”, o dr. Lisanias escreveu: “... o
padre Franca é o homem de pena mais suscita que poderia
surgir no Brasil para realçar, com honestidade, qualquer
desonestidade de seus adversários”43. Até mesmo o prof.
Otoniel Mota, quase sempre calmo, em suas polêmicas, chegou
“A escrever: maneira de argumentar do adversário, e as suas
clamorosas citações, bolem com os nossos pobres nervos e nos
obrigam a uma constante vigilância e governo próprio para não
descarrilarmos... Terei às vezes de ser severo para com o padre
Franca; mas espero não deixar as linhas do cavalheirismo”44.

41
Leonel Franca, Catolicismo e Protestantismo, pg. 21, nota 1.
42
A Igreja, Roma e a Civilização, pg. 29.
43
A Igreja, o Papado e a Reforma, pg. 20.
44
Frederico Hansen, O Papado e o Padre Leonel Franca, pg. 4.

22
* *

Defendendo o primado de Pedro, escreve Leonel Franca:


“Comecemos pelos Padres e Doutores. Não são apenas
dois nem três, não somente os ocidentais nem os orientais, não
são exclusivamente os escritores que floresceram nas épocas
afastadas dos primórdios do cristianismo; é a voz constante,
unanime, universal no tempo e no espaço que depõe, com todo
o peso de sua irrefragável autoridade, em abono da
interpretação católica.
Entre os latinos lembramos Tertuliano, o vigoroso
polemista, Cipriano, bispo de Cartago, e primaz da África, os
grandes doutores Agostinho, Ambrósio, Jerônimo, Máximo,
Optato de Milévio, Leão Magno, para não citarmos senão os
mais antigos e os mais ilustres em saber e santidade”45.
E, no Apêndice, cita três passos de S. Agostinho,
favoráveis à tese que Pedro é a pedra fundamental da Igreja. Ei-
los:
“Quid erge incongruum si Petrus post hoc peccatum
factus est Pastor Ecclesiae, sicut Moyses post percursum
aegyptum factus est rector illius Synagogae?”. Contr. Faustum,
1. 22, c. 70 (ML, XLII, 445) — A Sé de Roma “ipsa est petra quam
nom vincunt superbae infererum portae”. Psalm. contr. partem
Donati (ML, XLIII, 30) — “Petrus qui paulo ante eum confessus
erat Filium Dei et in illa confessione appelattus erat petra supra
quam fabricaretur Ecclesia”. Enarrat. in Ps. 69, n. 4 (ML, XXXVI,
869)46.
Eis a tradução feita pelo dr. Ernesto, dos três passos
acima:

45
“A Igreja, a Reforma e a Civilização”, pg. 35.
46
Ob. cit., pg. 530.

23
“Que há de incongruente se Pedro, depois deste pecado,
foi constituído Pastor da Igreja, tal como Moisés, depois de sua
fuga do Egito, foi constituído chefe da sinagoga deles?”
“A Sé de Roma é a própria pedra a que não vencerão as
soberbas portas do inferno”.
“Pedro que, momentos antes, confessara ser ele o Filho de
Deus e que na mesma confissão foi qualificado de pedra sobre
a qual se edificou a Igreja...”47.
Foi sincero o padre Franca ao citar Agostinho como
defensor da tese romana? É o que vamos ver. Procuremos
testemunha insuspeita. Será possível encontrá-la no meio do
clero brasileiro? Graças a Deus que a podemos encontrar na
pessoa do ilustre padre católico, apostólico romano, dr.
Huberto Rohden. Em seu livro “Agostinho”, 2ª edição, 1946,
com o competente “Nihil obstat” do padre Frederico Didonet,
censor, bem como o “Imprimatur”, firmado pelo bispo de Santa
Maria, Antônio Reis, com data de 4 de julho de 1942, o padre
Rohden escreve:
“A fim de não sermos acusados por alguém de ocultar
pensamentos de santo Agostinho, como se temessemos a luz da
verdade, passaremos a reproduzir minuciosamente a opinião
do grande pensador sobre o versículo de São Mateus, 16:18:
“Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha igreja”.
Desde os primeiros tempos existem Interpretações
diversas dessas momentosas palavras de Jesus. O escritor
católico Launoy, depois de prolongados estudos, chegou a
elaborar a seguinte estatística: dos antigos Padres e escritores
eclesiásticos, 17 consideram Pedro como à rocha; 44
consideram a confissão de Pedro como a rocha; 16 consideram

47
Ob. cit., pg. 69.

24
Cristo como a rocha; enquanto 8 opinam que a igreja foi
construída sobre os apóstolos.
Deixando de parte a última opinião, que poucas simpatias
encontrou, ficam as três interpretações principais: 1) a pedra é
Cristo, 2) a pedra é Pedro, 3) a pedra é a confissão de Pedro.
Santo Agostinho é, entre os católicos, o principal
advogado da primeira tese, como se depreende dos textos que
vamos citar, embora numerosos autores o dêem como defensor
da terceira tese, defendida, de preferência, por São Crisóstomo.
Muitos protestantes, máxime da atualidade, só admitem a
interpretação de santo Agostinho, razão por que a consideram
patrono da sua escola. Entretanto, falso seria pensar que esta
seja a opinião exclusiva, ou mesmo precípua, da exegese
evangélica. Exímios luminares do protestantismo — como
Bengel, Barns, Schaff, Alford, Godet, Broadus, Bonnet, Bruce,
Plummer, David, Smith, Meffat, Cook, Farrar, Sunday, Hort,
Otoniel Mota, e o príncipe dos eruditos comentadores
reformados Meyer — sustentam, com o grosso dos atuais
exegetas católicos-romanos, que á pedra é Pedro, embora
divirjam quanto às conclusões que desta interpretação
costumam tirar os teólogos católicos.
Ouçamos as palavras de santo Agostinho:
“Quia tu dixisti mibi: Tu es Christus, Filius Dei vivi, et ego
dico tibi: Tu es Petrus. Simon quippe anisa vocabatur. Hoc
autem ei nomen, ut Petrus appellaretur, a Domino, impositum
est. Et hoc in ea figura, ut significaret Ecclesiam. Quia idem
Christus petra, Petrus populus christianus. Petra enim
principale nomen est. Ideo Petrus a petra, non tetra a Petro —
quomodo non a christiano Christus, sed a Christo christianus
vocatur. Tu es ergo, inquit, Petrus; et super hanc petram, quam
confessus es, super hanc petram, quam cognovisti, dicens: Tu
es Christus, Filius Dei vivi, aedificabo. Ecclesiam meam (Mat.

25
16, 13-18 — id est: Super me ipsum, Filium Dei vivi, aedificabo
Ecclesiam meam. Superme aedificabo te, nonme super te”
(Migne, Paris 1877, vol. V. pg. 479 ss., sermão 76).
“Pedro, caminhando sobre as águas, teme e titubeia.
Desconfiado, submerge. Confessando, torna a emergir. Ensina
este Evangelho que pelo mar devemos entender o presente
século, e que Pedro é o tipo da igreja única. Este mesmo Pedro,
o primeiro na ordem dos apóstolos, prontíssimo no amor de
Cristo, responde muitas vezes por todos, ele só. Quando o
Senhor Jesus perguntou a homens sobre ser o Filho do homem
e, havendo os discípulos aduzido opiniões de homens, tornou o
Senhor a interrogar, dizendo: “E vós quem dizeis que eu sou?”
Ao que Pedro respondeu: “Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo”.
Ele só respondeu por muitos — unidade entre muitos.
Disse-lhes então o Senhor: “Bem-aventurado, Simão, Bar-
Jona, porque não foi a carne e o sangue quem te revelou, mas
meu Pai que está no céu. “E acrescentou: “E eu te digo...” Como
se dissera: Porque tu me disseste: “Tu és o Cristo, o Filho de
Deus vivo”, também eu te digo: “Tu és Pedro...” Pois antes se
chamava Simão.
Ora, este nome Pedro lhe foi imposto pelo Senhor. E vai
nisto uma figura, para que significasse a Igreja. Porquanto a
pedra é Cristo; Pedro é o povo cristão. Pois, pedra é nome
principal. Tanto assim que Pedro vem de pedra, e não pedra de
— assim como Cristo não vem de cristão, mas cristão vem do
Cristo. Diz, portanto: Tu és Pedro, e sobre, esta pedra, que
acabas de confessar, sobre esta pedra, que conheceste dizendo:
“Tu és Cristo, Filho de Deus vivo”, edificarei a minha Igreja.
Quer dizer: Sobre mim mesmo, o filho de Deus vivo edificarei a
minha Igreja. Sobre mim é que edificarei, e não a mim sobre ti”.
E prossegue: “Pois quando os homens queriam edificar
sobre homens, diziam: Eu sou de Paulo, eu sou de Apolo, eu sou
de Cefas — que é mesmo que Pedro. Outros, porém, que não
26
queriam edificar sobre Pedro, mas sobre a pedra, diziam: “Eu
sou de Cristo”. Ora, quando o apóstolo viu que ele sendo eleito,
e Cristo desprezado, disse: “Porventura, está Cristo dividido?
Então foi Paulo crucificado por vós? Ou fostes batizados em
nome de Paulo? (I Cor. 1, 12). Assim como não o foram em
nome de Paulo, nem tão pouco em nome de Pedro, mas, sim, em
nome de Cristo: para que Pedro fosse edificado sobre a pedra,
e não a pedra sobre Pedro?” ...
Perguntou Jesus: Simão, filho de João, amas-me mais do
que estes? Respondeu ele, dizendo: — Sim, Senhor, tu sabes
que te amo. Disse-lhe Jesus: Apascenta os meus cordeiros...
apascenta as minhas ovelhas. Na pessoa única de Pedro vinha
figurada a unidade de todos os pastores, isto é, os bons que
sabiam apascentar para Cristo as ovelhas do Cristo, e não para
si mesmos. Será que Pedro era mentiroso? Será que era
mentira dizer que amava o Senhor? Não, ele falava a verdade
ao dizer isto, porque respondia o que via em seu coração... A
pedra fizera a Pedro verdadeiro. A pedra, porém, era Cristo” (1
Cor. 10, 4)”48.
Não é possível que Santo Agostinho fosse mais claro, mais
explícito em sua opinião sobre o assunto. O padre Franca, sem
dúvida alguma, conhecia este sermão do filho de Mônica, como,
também, conhecia o tratado, sob o título — Retratações — que
Santo Agostinho escreveu para corrigir os próprios erros,
esparsos nas suas numerosas obras. Eis o que Agostinho diz:
“Em certo passo, disse eu, do apóstolo S. Pedro, que a
Igreja fora fundada sobre ele, como sobre uma pedra, sentido
esse que celebra o mui espalhado hino do bem-aventurado
Ambrósio, nestes versos do “Canto do Galo”:
“Hoc ipsa petra ecclesiae

48
Ob. cit., pgs. 291, 292 e 293.

27
Canent culpam diluet,...”
Mas lembro-me de que, depois, e por muitas vezes, tenho
explicado esta sentença do Salvador: “Tu és Pedro e sobre esta
pedra edificarei á minha Igreja”, neste sentido: que a pedra é
Aquele que Pedro tinha confessado quando disse: “Tu és o
Cristo, o Filho de Deus vivente”. Assim foi que Pedro derivando
o seu nome desta PEDRA, figurava a pessoa da Igreja que sobre
ela foi edificada e que recebeu as chaves do Reino dos Céus.
Com efeito: Não diz ele: Tu és pedra (petra), mas, tu és Pedro
(Petrus): porque a pedra era o Cristo, Simão, tendo-o
confessado, como toda a Igreja o confessa, foi por isso chamado
Pedro. Que escolha o leitor destas duas interpretações a que lhe
parecer mais provável”49.
Atrapalhado com as “Retratações”, que o rev. Ernesto lhe
contrapõe aos três passos citados, Franca reza o seu mea culpa,
confessando a segunda opinião do célebre bispo de Hipona.
Mas isto vai custar caro ao “doutor da graça”, como é chamado
Agostinho. Se na réplica ao livro de Carlos Pereira foi ele
considerado o “grande doutor”, citado “entre os mais antigos e
os mais ilustres em saber e santidade”, agora, na réplica ao livro
de Ernesto de Oliveira vai ser chamado ignorante e velho
retórico! Eis as palavras textuais do padre Franca:
“Santo Agostinho que não sabia aramaico e conheoia
pouco o grego, pensava que Petrus era uma forma adjetiva
derivada de petra, e pela diversidade existente no texto latino
entre petra e petrus, foi levado — velho professor de retórica
— a concluir que no texto de S. Mateus os dois termos
designavam coisas diversas”50.
Notou o prezado leitor a que ficou a célebre “voz dos
séculos”, de “modesto jesuíta?” “A voz constante, unânime,
universal no tempo e no espaço que depõe, com todo o peso de
49
Apud “Roma, a Igreja e o Anticristo”, pgs. 69-70.
50
“Catolicismo e Romanismo”, pg. 92.

28
sua irrefragável autoridade”, em abono da interpretação
católica”, se reduz — Ó Céus! — a 17 doutores apenas! E contra
a interpretação católica 68!!! E quem o afirma é o católico-
romano, Launoy, citado pelo padre Rohden!
Vejamos agora uma contradição de Franca. Replicando ao
rev. Eduardo, escreve:
“Com que estará Cristo até a consumação dos séculos?
Com quem estava antes que nascesse o monge apóstata?
Necessariamente com Igreja: E como ou quando passou a sua
assinatura para os rebeldes à autoridade por Ele constituída? E
onde estão, as provas desta devolução de poderes? Pobres
protestantes, apelam obcecados para a Bíblia e é a Bíblia que os
condena irremessivelmente. Como outrora aos fariseus, pode
hoje a Igreja católica dizer aos seus adversários: “Examinai as
Escrituras; vós julgais ter nelas a vida eterna e elas são as que
dão testemunho de mim”. Joan. V. 3951.
“Como ousa — pergunta o rev. Ernesto — S. Revma. citar-
nos a Sagrada Escritura, como ousa a Igreja de Roma, por boca
de S. Revma., ordenar-nos que examinemos a Sagrada
Escritura, se não nos reconhece o direito de formarmos um
juízo próprio sobre o que lermos? O que devemos fazer é não
examinar coisa alguma; o que devemos fazer é lançarmo-nos
aos pés de S. Revma., ou aos pés do primeiro padre romano que
encontrarmos, joelhos em terra, mãos cruzadas sobre o peito,
orelhas caídas e tragarmos a beberagem que nos quiserem
impingir! Quando, porém, a Igreja de Roma nos ordena que
examinemos as Escrituras, “tal como ordenou Jesus aos
fariseus”, ou quando S. Revma. nos cita esse Livro para
convencer-nos dos nossos erros, reconhece, ipso facto, que
temos o direito de formar um juízo próprio sobre a matéria
lida, ou sobre o ponto controverso. Sucede que vem S. Revma.

51
Ob. cit., pg. 34.

29
a aceitar na prática o que condena pela doutrina, ou seja, o livre
exame individual!”52.
O sr. Franca, apesar de todo o seu malabarismo, cai
constantemente em contradição. Aqui, diz aos “pobres
protestantes”: “Examinai escrituras”; mas ali vai dizer-nos:
“Nada de livre exame das Escrituras; sempre o ensino oral feito
por mestres autorizados”. E mais esta ainda: “Jesus Cristo
nunca mandou aos seus discípulos que folheassem um livro
para achar a sua doutrina...”53. E, entretanto, é o Jesuíta que diz:
“Examinai”. Note bem o leitor: — o verbo empregado por ele
está no imperativo.
Carlos Pereira, defendendo a tese do livre exame faz a
seguinte citação: “Examinai as Escritiiras” — disse-o Cristo ao
povo da Judéia”. (João 5.39)54. Concorda o padre com o seu
antagonista? De modo nenhum. Eis o que ele diz, condenando
a citação do pastor protestante:
“O primeiro é de S. João, 5.39 “examinai as Escrituras”. O
seu significado nem do longe acena à tese protestante. Cristo
num discurso apologético prova contra seus adversários a
divindade de sua missão. Invoca primeiro o testemunho do
padre, depois o do Precursor, apela em seguida para os seus
milagres e finalmente num argumento ad hominem aduz a
verificação das profecias escritas: “Vós examinais as Escrituras
cuidando ter nelas a vida eterna, pois são elas dão testemunho
de mim”. E no rodapé da mesma página, a seguinte nota
explicativa: O contexto mostra evidentemente que scrutamini é
forma de indicativo, não de imperativo”55.
Diante do que aí está exposto, outra alternativa não temos
senão a de censurarmos o padre Franca com as suas próprias

52
Ob. cit., pg. 15.
53
“A Igreja, a Reforma e a Civilização”, pg. 234.
54
Ob. cit., pg. 36.
55
Ob. cit., pgs. 230-231.

30
palavras: — “E esta fé proteiforme, esta doutrina de camaleão,
que varia com as circunstâncias de lugar e de tempo, poderá
ser para o cristão o apoio inconcusso de suas convicções
religiosas, a norma de sua fé, o asilo seguro de sua consciência
atribulada nas incertezas, nos trabalhos e nos sofrimentos da
vida?”56. E não é isto que temos visto até aqui no snr. Franca?
Uma verdadeira doutrina de camaleão? À página 34, já citada,
Franca usa o verbo no imperativo e, agora, “sentindo a força
irresistível do argumento de E. C. Pereira, baseado neste texto,
muda a atitude, alerta o peso e a medida e julgando estar
escrevendo para mentecaptos imbecis ou amnésicos, impugna
a forma imperativa do verbo no texto que atirou contra os
protestantes e o emenda, dizendo: “scrutamini é forma do
indicativo, não do imperativo”57. E oportuno conselho lhe dá,
ainda, o rev. Lisanias: “Isso não é sério, padre! Isso não é digno
de quem não escreve obra de fancarial...”

*
* *

O padre Franca, também, não foi feliz nas estatísticas que


apresentou. Contra Carlos Pereira, escreve:
“Nos Estados Unidos, segundo as últimas estatísticas,
vivem cerca de 23 milhões de católicos... e 20 a 22 milhões de
protestantes”58. Na contra resposta a Ernesto de Oliveira,
afirma: “Os Estados Unidos, neste ponto, são como toda a gente
sabe, a maior babel que conhece o mundo. Nesta confusão

56
Ob. cit., pg. 246.
57
Ob. cit., vol. II, pg. 15.
58
Ob. cit., pgs., 317-318.

31
inextricável há, ao lado de 20 milhões de católicos, uns 30
milhões de protestantes...”59.
São tão singulares as estatísticas forjadas pelo corifeu
papal, que o rev. Ernesto, a sabendas, escreveu:
“As mentiras estatísticas, aventadas pelo rev. Franca,
terão por certo muito valor, mas não para nós: “acaso não
bastará a demonstração de que a maior parte das citações que
passaram pela sua pena saíram com a marca da fábrica?”60.

*
* *

Ruy Barbosa, o inolvidável Ruy, é o espinho na carne dos


católicos romanos brasileiros. É por isso que na nota
irascibilidade característica em Leonel Franca, todas as vezes
que os seus antagonistas o citam, como prova irrefragável de
uma proposição defendida. A diagnose exata desta reação
moral que o jesuíta sofre ante a presença de Ruy; é
inconfundível; alergia. Somente assim é que se pode explicar a
idiossincrasia de Franca, diante da simples citação do
monumental prefácio de Ruy à notável versão que fez da obra
de Jânus.
“Não há gente, instruída que ignore as origens e o valor
desta obra de Juventude do nosso grande escritor. Traduziu-a
e prefaciou-a Ruy, resistível do argumento de E. C. Pereira,
baseado neste texto, muda a atina inexperiência dos seus
primeiros anos... Mas a ilusão de Ruy não durou muito. Com as
anos, a reflexão e os estudos, foram-se-lhe transformando as
ideias e o Papa e o Concílio entrou a aparecer-lhe, como era na

59
Ob. cit., pg. 248.
60
Ob. cit., pg. 20.

32
realidade, uma obra injusta e caluniosa, filha de paixões
subalternas e inconfessáveis... É honesto projetar sobre o moço
mal informado e mal experimentado de 1877 a autoridade, a
glória, o esplendor do homem na plenitude dos anos
posteriores?.. . É honesto atribuir ainda a Ruy Barbosa, ideias e
atitudes por ele expressamente abjuradas, retratadas,
repudiadas nos escritos e nos fatos de toda a sua vida de
homem maduro e refletido?”61.
Sim senhor! Ruy tradutor de “obra injusta e caluniosa”;
prefaciou-a na inexperiência dos seus primeiros anos”, pois era
moço “mal inferido e mal experimentado”. O jesuíta é sempre
assim. Quando não tem argumentos para contrapor às
tremendas objurgações levantadas, volta-se contra o
adversário, ainda mesmo que morto. E isso já previa o moço
“mal informado”:
O sistema papal foi sempre esse: difamar sem escrúpulos,
espoliar implacavelmente o adversário vivo, e, morto,
persegui-lo ainda, negando-lhe ao cadáver o obséquio da
sepultura, nodeando-lhe a memória, eternizando nos seus
anais ímpios contra a vítima o ódio e a mentira”62.
Escreve ainda o moço “mal experimentado de 1877”:
“Ai, portanto, dos homens de bem que não se submeterem
a essa mutilação moral, que tem ainda na consciência a rigidez
bastante para rejeitar essa fé de eunucos! Ai dos que ousam
repelir face à face essa religião-atea; religião de mentira, essa
religião-ergástula! Das sacristias, da imprensa, dos púlpitos,
das pastorais, da cúria mesma, o clericalismo os há de
perseguir sem piedade, nem escrúpulo, nem descanso,
esparrinhar lhes o nome de lodo, inverte-lhes em escândalo as

61
“O Protestantismo no Brasil”, pg. 131 a 134.
62
“O papa e o concílio”, pg. 31.

33
obras mais puras, feri-los na memória, no cadáver, na
sucessão”63.
Por mais que se faça, porém, não se há de conseguir
inverter em escândalo essa notabilíssima obra pura de Ruy,
que revelou, através do prefácio e da versão, a política nefasta
do clericalismo romano. Fala-se muito na retratação de Ruy?
Mas por que não a apresentam? Onde se encontra? Quando foi
publicada? Essa lenda de retratação baseia-se exclusivamente
numa afirmação de Batista Pereira, genro do imortal patrício,
que proclama a abjuração de Ruy, sem, entretanto, apresentar
a imprescindível procuração. O documento mais recente sobre
“O Papa e o Concílio”, é do próprio Ruy. Ano e meio antes de sua
morte faz referencias a ele, numa carta que escreveu a um
amigo, e... nem uma palavra sobre a tão pretendida retratação!
Eis o que a respeito, escreve o rev. Lisanias:
“Em carta de 14 de Julho de 1921, dirigida a Mário
Barreto, dizia Ruy Barbosa, um não e meio antes de sua morte:
“... Sendo assim já se vê que não são muitos os escritos de minha
paternidade, por cuja exatidão tipográfica eu possa responder.
Entre as exceções, como por mim revistos, apontarei O papa e
o concílio, Os atos inconstitucionais, O estado de sítio, As cartas
da Inglaterra, os dois volumes sobre a reforma de ensino em
1882, os dois volumes sobre o código civil, o artigo 6º, A queda
do Império e Finanças e Política da República”. (Revista da
Língua Portuguesa, Ano III, número 13, set. de 1921)64.

*
* *

63
Ob. cit., pg. 115.
64
Ob. cit., II vol. pg. 234.

34
Roma não perdoa e não esquece o monge Lutero, e, por
isso, ao atacar o Protestantismo, procura sempre achincalha o
caráter e infamar a memória do grande reformador. Diz Schaff:
“Polemistas, e pontífices, desde João Eck a Leão X, começaram
prontamente a infamá-lo como instrumento do reino das
trevas e monstruosidade moral. Esse método foi francamente
usado pelo cardeal Belarmino. E em tempos mais recentes, tem
sido imitado por notáreis escritores católicos romanos de três
países, com o dr. Milner, Dollinger, em seu primeiro período, o
bispo Spalding. Ainda mais recentemente aquele método foi
reeditado pelo padre Denifle e por Herman Grisar, em suas
Vidas de. Lutero”65.
“Mas o padre Franca — diz o prof. Otoniel vai além. Parece
insaciável o seu furor contra a pessoa de Lutero. Sua rabies
theologica como que se compraz em partir a campa e exumar
os ossos do monge, para ser ele julgado e condenado, com fez o
papa Estevão ao cadáver do papa Formoso, para lhe condenar
a memória a uma perpétua infamia. Lutero foi “uma vida inteira
de desregramento profundo” diz sua reverendíssima à luz
meridiana e sob o Cruzeiro do Sul! Não é só caluniar: é
desrespeitar-se a si mesma e afrontar a nossa cultura!”66.
O ódio do “modesto jesuíta” não para aí. Ouçamo-lo:
“Em Lutero, a febre da concupiscência carnal era
estimulada pela embriaguez e pela crápula”67. “... este monge
devasso, beberrão, grosseiro e insultador...”68. “Lulero bebeu
sempre, bebeu muito, ultrapassando frequentemente do limite

65
Ob. cit., pg. 98.
66
“Lutero e o padre Leonel Franca”, pg. 17.
67
Ob. cit., pg. 198.
68
Ob. cit., pg. 201.

35
da temperança mais tolerante e chegando aos excessos da mais
completa embriaguez”69.
Eis até onde chega a ira do jesuíta que traz a cruz sobre o
coração... O grande reformador, já em vida, experimentara o
sabor de toda a infâmia, de toda a lama, de toda a podridão
moral que se queria lançar sobre o seu caráter. Ciente do que
se passava, escreveu em sua obra “O papado” — ed. Weimar
6:323, o seguinte: “As censuras com que minha pessoa está
sendo atacada, eu as deixarei sem resposta. Comigo não podem
lutar os meus caros romanistas, porque nunca experimentarei
medir-me pela estatura dos que censuram minha vida, minha
obra e minha pessoa; ridicularizem minha vida e pessoa tão
vigorosamente quando possam: tudo está perdoado no que se
refere a mim. De mim, entretanto, não espere indulgência o
homem, qualquer que seja, que procure tornar mentiroso o
Cristo Senhor, a quem sirvo e o Espírito Santo. Em assuntos
referentes, não a mim próprio, mas à Palavra de Cristo, eu não
estarei na defensiva”70.
Franca citou, em seu volumoso livro, inúmeras vezes o
seu colega o padre jesuíta Grisar. Por que sua reverendíssima
não citou o que Grisar escreveu a respeito do monge
agostiniano? Diz ele: “Se Lutero se tivesse entregue assim ao
vinho ou à cerveja, teria sido incapaz de desenvolver, como fez,
sua maravilhosa força criadora. Um ‘bêbado’ não escreve os
livros, os tratados que ele compunha, por assim dizer, ao correr
da pena, e que, por vezes, estão cheios de nobres e graves
pensamentos”71.
Um devasso, um beberrão, um devorado pela febre de
concupiscência carnal, não teria força moral para fazer o que
fez. Vejamos:

69
“Catolicismo e Protestantismo”.
70
Apud “Nossas Crenças”, pg. 111.
71
Apud “Lutero e o Padre L. Franca”, pg. 20.

36
É assombrosa a quantidade de livros de Lutero e sobre
Lutero. A edição definitiva Weimar de suas obras (Luthers
Werk, 1883-1939) consta de 67 volumes de 600 a 800 páginas
cada um, e ainda não está completa. Quanto aos livros sobre
Lutero, não se contam às centenas, mais sim aos milhares”72.
O escritor Funck-Brentano, da Academia Francesa, ao
concluir o seu livro sobre a vida do reformador alemão,
escreve:
“Qualquer que seja o julgamento formulado em torno de
Martinho Lutero, é preciso reconhecer nele uma das mais
poderosas personalidades que o mundo conheceu e que
exerceu a maior influência sobre uma parte notável da
humanidade. Sua energia, seu valor, sua poderosa ação — que
decorriam em grande parte da intensidade de suas convicções
— estão acima de todo o elogio. Calculou-se que seriam
precisos a um homem dez anos de vida para a simples cópia das
cartas, orações e inumeráveis escritos do reformador, e Lutero
não só redigiu suas obras, mas pensou-as, deu-lhes estudo e
reflexões, corrigiu-as, e isso entre ocupações múltiplas, quase
sempre absorventes e das mais diversas, suas prédicas, sua
atividade social e política, os cuidados e o tempo que consagrou
aos amigos e a família.
A energia de suas convicções vinha de seu caráter
concreto; os fatos de ordem espiritual e moral ganhavam no
seu pensamento realidade imediata. Tem visões, vê ao seu
redor anjos e diabos, e não duvida que essas visões
correspondam as realidades. O mais inteligente, o mais arguto
de seus discípulos, o mais talhado para as ideias filosóficas,
Felipe Melancton, não duvidava de que Lutero tivesse recebido
duma revelação celeste a doutrina que ensinava, seu famoso
princípio de redenção pela fé.

72
“El Predicador Evangélico”, outubro-dezembro pg. 122.

37
Mas , como se tem muitas vezes e justamente notado, não
é pelo aspecto dogmático, pela eficácia religiosa de sua obra
que Lutero foi grande e se impôs à nossa admiração: é pela
parte leiga, se é permitido falar assim, social e nacional , pelo
amplo e são patriotismo que glorificava a pátria alemã, mas
sem nada do pangermanismo atual que o teria enchido de asco;
seu culto da língua alemã e o monumento incomparável que lhe
ergueu com suas obras, pela sua admirável tradução dos dois
testamentos; sua exaltação do gênio alemão naquilo que
melhor o caracteriza, a arte musical; seu grandioso sentimento
da alma alemã o que tão fortemente exprimiu...
Quanto ao historiador-biógrafo, fazendo as reservas
acima formuladas particularmente sobre sua doutrina, às vezes
também sobre traços do seu caráter e a maneira de agir numa
e noutra circunstância, não pode senão louvar em Lutero a
sinceridade, o desinteresse, a maneira ampla e sadia de
compreender as satisfações e as alegrias da vida, seu gênio
literário, seu pensamento tão vivo e um grande coração
transbordante de bondade, de misericórdia e de caridade
cristã, quando as exigências de uma doutrina, que julgava
intensamente ser a da verdade, não surgissem para comprimi-
los e extingui-los”.73
Mesmo lá dentro da Companhia de Jesus, já há quem faça
justiça à obra de Lutero. Vejamos:
“O padre Ernesto Bominghaus, da Companhia de Jesus, na
revisto “Stimmen der Zeit” ano 61º 1930-31, p. 284 s., assim
escreve de Lutero:
“Nós católicos não pretendemos mais, certamente, negar
a seriedade e a profundidade religiosa de Lutero. Isso, só podia
ser feito num tempo de polêmicas violentas. Estamos prontos
a reconhecer que o que estava realmente no seu coração eram
as questões mais importantes da piedade cristã. Não nos
sentimos também constrangidos a negar a Lutero, que de um
modo tão sério e comovente procura a salvação, uma missão
especial em favor da vida religiosa e eclesiástica daquele

73
“Lutero, pgs. 315-316.

38
tempo. O assustador comércio das coisas religiosas, que então
se fazia com grande publicidade, podia exigir um grave
admoestador. E por que não podemos nós admitir a
possibilidade de que Lutero fosse destinado, na Igreja Católica,
não somente a opor-se à decadência, mas também a tirar novos
tesouros das inexauríveis profundidades da fé cristã católica e
a imprimir com a sua rica vida pessoal, novos lineamentos à
piedade cristã?”74:
Que os nossos oponentes tomem em consideração isto
que David Schaff escreveu sobre “A personalidade de Lutero,
pretenso descrédito da Reforma”:
“Nenhum protestante sonha com um Martinho Lutero
“autor do protestantismo”, assim como pensa que Copérnico
sela o autor da lei do movimento da terra ou que Newton seja
o autor do sistema de gravitação. O que o protestante diz é que
Lutero descobriu o sistema protestante. O que Lutero fez foi
revelar o que ele descobriu. Toda a importância do assunto
reside no saber-se o que ele descobriu na Bíblia, aquilo que ele
disse haver achado na Bíblia. Ensinam as Escrituras aquilo que
ele ensinou?... O Protestantismo não resultou da elaboração
do cérebro do Lutero. É um sistema religioso que trouxe para a
luz certos ensinos de Cristo, como um processo químico
reaviva num palimpsesto o escrito original, que tivera algumas
partes obscurecidas ou apagadas por algum escritor mais
recente. Considerando-se o Protestantismo como movimento
histórico, é legítimo dizer-se que Lutero foi, humanamente
falando o seu autor; mas, dizer que Lutero foi o autor do
Protestantismo, considerado como um conjunto de crenças, é
afirmar uma falsidade”.75

*
* *

74
Apud “A defesa de Padre Leonel Franca”, pg. 27.
75
Ob. Cit., pg 95.

39
Carlos Pereira, com linguagem candente, lógica
irrefragável, argumentação sólida, após revelar, com tintas
carregadas, a situação moral e espiritual dos povos do Sul,
acusa:
“Quem nos reduziu a este estado? A raça? O clima? Não,
por certo. É inevitável a inferência de que o fator religioso
entrou para isso com um largo quinhão. A educação jesuítica é
o nosso mal. A sua moral deletério, a casuística dissolvente de
seus moralistas, que regula a ética dos seminários e
universidades católico-romanos, é a fonte de nossos males.
“Ensinam os teólogos católico-romanos, declara o ex-padre
Chiniquy, a mentira e o perjúrio”, e com exuberantes citações
prova-o cabalmente. Em sua famosa obra Letres écrites a un
Provincial, demonstra o grande Pascal que esse tóxico da
mentira, bem como do perjúrio, roubo, traição e assassínio, são
consectários dos três grandes princípios da moral jesuítica, a
saber: a restrição mental, o probabilismo e o fim que justifica os
meios.
Na depravação da religião e da moral tendes a história das
desgraças latinas e a sina fatídica das repúblicas ibero-
americanas. É o papismo a prostituição da religião, e o
jesuitismo a da moral”76.
Excedeu-se, porventura, na acusação, o muito circunspeto
paladino do protestantismo nacional? De modo nenhum. Os
fatos atuais comprovam, de maneira absoluta, tudo quanto
afirmou o ilustre gramático, como iremos provar logo em
seguida. É fato incontestável o domínio do catolicismo romano
na América Latina. Os padres desembarcaram nas novas terras
descobertas juntamente com os conquistadores e aí
implantaram a sua fé. O que há, portanto, de bom ou mau na
América Latina, principalmente no Brasil, é fruto exclusivo da
Igreja Católica Romana. Passemos em revista, ligeira, a situação
espiritual de alguns países sul-americanos.

76
Ob. Cit., pgs. 439-440.

40
Num artigo intitulado “Poderá o Protestantismo
conquistar a América do Sul?”, o rev. Jorge. Goulart transcreve
o que determinado escritor sul-americano disse, diante do
descalabro espiritual reinante: “Vinte anos de cinema fizeram
o cômico Charles Chaplin mais conhecido dos sul-americanos,
do que quatro séculos de catolicismo-romano a Jesus Cristo”.
Nesse mesmo artigo o autor cita “o que diz o padre Alberto
Furtado Cruchaga, com aprovação da autoridade eclesiástica:
“Crê-se que quase todo o chileno tem alguma espécie de fé. Os
resultados das investigações e estatísticas, entretanto, nos
obrigam a pensar diferentemente. É verdade que a maioria do
nosso povo tem uma rudimentar fé religiosa, que se expressa
nos atos do batismo de crianças, na conservação de imagens
nos lares, e diversas outras práticas, a maioria das quais é mais
supersticiosa do que religiosa. A vida cristã, porém, é cada dia
menos aparente e em algumas regiões chegou a desaparecer”.
(“Es Chile un País Catolico?” — Ed. Splendor, Santiago, pg.
79)''.77
O rev. Santiago Canclini, no trabalho “Que mensagem de
evangelização necessita a nossa América?”, que apresentou no
XV Instituto de Pastores, em Buenos Aires, diz: “Na informação
Oficial do Congresso Evangélico”, celebrado em 1940,
congresso resultante da visita que o dr. John Mott fez a Buenos
Aires, 1940, lê-se, no relatório apresentado sobre a discussão
do tema “Evangelismo”, o seguinte : “. . . O ABC do Evangelho é
o que devemos repetir sem temor. Há na América Latina cem
milhões de pessoas que não conhecem o Evangelho”.78
O dr. John A. Mackay, no discurso que pronunciou, em
1944, sobre “O Protestantismo na América Latina”, afirma:
“Cada vez mais me persuado de que o grande sociólogo
argentino Bunge teve razão quando disse que o espírito ibérico
nunca foi domesticado; continua a ser o espírito mais
individualista da história. Há, historicamente, muito que dizer
sobre o fato de a alma ibérica jamais ter encontrado a seu
Senhor. A ordem dos jesuítas, entregou-se ao culto da Virgem;
77
“Fé e Vida”, outubro de 1945.
78
“El Predicador Evangelico”, vol. V, nº 19, 1948.

41
há imagens de Cristo em redor de todo o continente; temos
grandes santos patronos, mas, todavia, não temos tido o
símbolo, a imagem do divino dominando a vida humana e
projetando-se em todos os aspectos da vida”.79
O dr. John B. Teran, eminente catedrático da Universidade
Argentina, em “A saúde da América Espanhola”, diz: “Na
Argentina, a difusão do cristianismo pela palavra ainda não
alcançou nem a esfera espiritual nem a prática. A conversão da
América a Cristo não foi um ato consumado no tempo da
conquista. É antes um processo ainda incompletamente a se
realizar na massa do povo”.80
Justo Sierra em “México e sua Evolução Social”, cita a
seguinte sentença de Benito Juarez, o grande presidente índio:
“O índio precisa de uma religião que alfabetize e não que lhe
ensine a gastar suas economias com velas para os santos”.81
Vejamos agora o que se passa em nosso Brasil. Ouçamos
primeiramente o ilustre padre dr. Humberto Rohden:
“Há mais de um ano que estou viajando. Perlustrei 14
Estados: Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo,
Rio, Espírito Santo, Bahia, Sergipe, Alagoas, Pernambuco,
Paraíba, Rio Grande de Norte, Ceará, Amazonas. Fiz mais de
1000 conferências sobre assuntos da Ação Católica, Imprensa,
Literatura, Comunismo. Conheço milhares de zeladoras do
Apostolado, Filhas de Maria, Vicentinos, Marianos, Moços
Católicos, etc. E posso afirmar que vai por todas as latitudes e
longitudes do Brasil um sopro de promissora primavera
espiritual.
Entretanto, encontro por toda a parte um grande
impedimento: uma profunda e vergonhosa ignorância religiosa
da revelação divina.
Abri alguns inquéritos. Resultado? Entre 100 zeladoras
do Apostolado de certa paróquia encontrei uma só que tinha
em casa o Novo Testamento; e mesmo ela me confessou que

79
“El Predicador Evangelico”, vol. III, nº 9, 1948.
80
Apud “O Cristo Vivo”, pg. 119.
81
Apud “O Cristo Vivo”, pg. 121.

42
lera apenas “alguns trechozinhos” do Evangelho. O resto, tábua
rasa, ignorância absoluta! ...
Entreguei a uma filha de Maria — secretária da Pia União;
não se esqueçam entreguei-lhe um exemplar do Novo
Testamento, pedindo-me abrisse o capítulo XVI da Epístola ao
Romanos... Abriu o livro e começou a procurar antes dos
Evangelhos!... Capítulo, versículos — tenebrosos mistérios
para essa fervorosa católica...
Em todas as minhas viagens através do Brasil, raras vezes
encontrei, entre os católicos leigos, quem soubesse quais e
quantos são os livros do Novo Testamento — do Antigo, então,
nem falemos!
Aí está um fato profundamente. contristador! Aí está o
maior entrave ao triunfo definitivo da Ação Católica!
Como pode prosperar à Ação Católica, quando os católicos
ignoram a alma desse movimento? quando Jesus Cristo
continua ignorado desconhecido? — o “Deus ignoto’, de que S.
Paulo falava aos atenienses...
A ignorância do texto sacro é uma porta aberta para o
mais horripilante fetichismo religioso, para essa detestável
superstição, que campeia por toda a parte entre o nosso
povo”.82
Ouçamos, ainda, outra voz autorizada da Igreja Católica
Romana: o bispo d. Ernesto de Paula, que foi designado pelo
papa Pio XII para dirigir os destinos da diocese de Piracicaba.
A ilustre figura do episcopado nacional, que foi Vigário Geral da
Arquidiocese de S. Paulo e bispo da diocese de Jacarezinho,
dirigiu, ao tomar posse da diocese, no dia 8 de setembro de
1945, longa “Pastoral de Saudação'', da qual destacamos os
seguintes tópicos:
“No decurso do nosso ministério sacerdotal, e nestes
breves anos de episcopado, em visita pastoral à vasta diocese
de Jacarezinho, que vezes não tivemos o ensejo de averiguar
que o grande mal que se alastra por cidades e campos é a
ignorância religiosa. Como estra então que campeie o erro

82
“Pirilampos”, nº 45-1936.

43
multiforme? Que se multipliquem as abusões? Que tantos
católicos só de nome o sejam e trilhem caminhos que levam à
perdição? Que se menosprezem os Divinos Mandamentos do
Decálogo e os Preceitos da Igreja? Que tão facilmente se
esqueçam ou se posterguem as tradições de respeito, de honra,
de pudor que eram o timbre dos nossos maiores?
Multiplicam-se as escolas para o combate à praga do
analfabetismo e não seremos nós que não regatearemos
aplausos e encômios a tão necessária campanha. Há, porém,
outra praga, ainda mais funesta, que é o analfabetismo
religioso, causa de tantos males para as almas que desfibra,
corrói e perverte”.83
Outro sacerdote irá depor neste inquérito que estamos
fazendo. O cônego José Lafaiete Alvares, assistente Geral na
Arquidiocese de S. Paulo, ouvido pela reportagem da “Folha da
Manhã” a respeito da elevação constante do número dos
desquites ajuizados em Foro, entre outras coisas, disse:
“...Aliás, os fatores determinantes do aumento das separações
foram bem observados pelos juízes da capital. Tem sua origem
nesse modernismo mal-entendido, que se aprende na escola
misteriosa do cinema nas revistas dissolventes. A ignorância
religiosa, o desleixo na prática da religião, a futilidade que
avassala os costumes; trazem a descristianização crescente da
família... Também o jogo é quase invencível entre nós...
Crescem também em número os atentados à honra e ao pudor,
graças justamente a essa evolução dos costumes e à
complacência da sociedade...”.84
Encerremos esta página vergonhosa para a história
brasileira, com o testemunho de um jesuíta norte-americano.
Vamos transmitir a sua valiosa opinião, através da pena
brilhante de Huberto Rohden: “Tenho sobre a mesa o livro “A
Padre views South America” (um padre focaliza a América do
Sul), da autoria do padre jesuíta Peter Masten Dunne, chefe do
Departamento de História, da Universidade do São Francisco
da Califórnia. O livro traz o competente “Imprimi potest” do
83
“O Estado de S. Paulo”, de 12-9-1945.
84
“Folha da Manhã”, abril de 1949.

44
Superior dos jesuítas, Rev. Joseph J. King S. J., o “nihil obstat” do
censor diocesano, H. B. Ries, bem como o “Imprimatur” firmado
por Moses E. Kiley, arcebispo de Milwaukee, Estado de
Wisconsin, com data de 8 de fevereiro de 1945.
Editor The Bruce Company, Milwaukee, Wisconsin, 1945.
O autor do livro passou um ano na América Latina,
visitando também as principais cidades do Brasil e colhendo
informações in loco.
O padre Dunne revela agudo espírito de observação e
notável franqueza na apreciação de catolicismo, nos países que
perlustrou.
Julgamos prestar um serviço à Catolicidade — embora o
catolicismo talvez o desame — em transcrevermos e
traduzirmos alguns dos tópicos da obra.
Página 131: “O catolicismo do Brasil não tem sido
vigoroso em toda a parte. No meio da população pobre e
ignorante ele é, por vezes, eivado de superstição; nas ocasiões
festivas há excessivas exterioridades e deficiente devoção
genuína, como testificam as solenidades de Bonfim, na Bahia.
Alastra a ignorância no que tange ao verdadeiro sentido dos
dogmas da igreja. São relativamente poucos os católicos que
frequentam igreja; poucos fazem desobriga pascal. Em alguns
lugares talvez apenas cinco por cento, ou quiçá menos ainda.
Um velho missionário, que passou dez anos no interior do
Brasil, contou-me que, durante todo esse período, nunca ouvira
em confissão um só homem.
Em 1944, na base naval dos Estados Unidos, na Bahia, um
dos capelães e um oficial propuseram a um jesuíta brasileiro:
“Vamos apostar, padre, que aqui na base naval há maior
número de homens que vão à missa, confissão e comunhão do
que em toda a cidade da Bahia. O jesuíta riu-se — e disso que
eles tinham razão”.
Página 133: “Falai com vosso companheiro de
compartimento, do trem noturno, e ele vos dirá que é católico;
que em menino frequentou escola católica; mas que nunca vai
à missa nem recebe os sacramentos; que não tem lá grande
ideia do clero. Um dos. maiores intelectuais do Brasil, e ardente
45
católico. Alceu Amoroso Lima, ·vos dirá da atitude dos jovens
intelectuais da sua geração. Religião não vale nada para
eles...”.85
Procurando ignorar a triste situação moral e espiritual
que domina e infelicita a nossa Pátria, descrita por Carlos
Pereira e patenteada com lucidez pelos seus colegas de
sacerdócio, Leonel Franca escreve: “Está julgada a questão. O
Brasil é católico. Nasceu católico e católico há de viver. A nossa
civilização, as tradições do nosso passado, as glórias de nossa
história são inseparáveis da religião de nossos pais.”86
Carlos Pereira, tão ridicularizado pela pena agressiva e
injusta de Franca, apontou a causa do mal que infesta o Brasil:
— a educação jesuística; e é o mesmo jesuíta quem vai
confirmar: “O Brasil é católico. Nasceu católico e católico há de
viver”. Sim, há 440 anos o nosso país é dominado pelos jesuítas!
E a situação moral e espiritual é essa que, estarrecidos,
contemplamos. E, com mágoa e dor de alma, dizemos: não
podia ser outra... Cumpre-se, infelizmente, o que diz o rifão
popular: Tal pai, tal filho!...
É de pasmar a coragem de Leonel Franca, diante da
miséria moral que campeia desenfreada de norte a sul e de
leste a oeste do país, é de pasmar, repetimos, a sua coragem,
quando escreve: “Só o catolicismo forte na constituição social
que lhe deu o divino Fundador, opos sempre o intransigente
non possumus a todas as recalcitrações imorais das paixões
coroadas e das paixões populares. Só na Igreja católica se
encontram hoje os meios naturais e sobrenaturais capazes de
defender a moralidade evangélica” (sic)! E atacando a moral
dos países protestantes, cita a Chatterton Hill: “...no
protestantismo falecem princípios capazes de atuar como freio
suficiente sobre o indivíduo e subordiná-lo a fins mais
elevados”.87
Por que o “freio suficiente” não atuou, então, no Brasil
católico?

85
“Unitas”, vol. XI — num. 5 maio de 1949.
86
“A Igreja, a Reforma e a Civilização”, pgs. 525-526.
87
Ob. Cit., pg. 522-523.

46
Diz, ainda, sua reverendíssima; “A Igreja católica é a
grande educadora dos povos, a mãe venerável da nossa
civilização, a sábia impulsora do progresso intelectual, moral e
religioso das nações, a amiga sempre sincera da
humanidade”.88
Entretanto, a “mãe venerável da nossa civilização” deixou
o seu filho brasileiro dominado pela “praga do anafalbetismo”;
a “sábia impulsora do progresso intelectual, moral e religioso”,
legou à nossa Pátria “a ignorância religiosa”; a “amiga sempre
sincera da humanidade” consentiu que aqui imperasse “uma
profunda e vergonhosa ignorância da revelação divina”. A
verdade, a triste e dolorosa verdade é esta: a Igreja católica
romana fracassou completamente ao dirigir os destinos os
destinos este amado torrão natal.

*
* *

Protestantismo ou Romantismo, eis as “duas pontas do


dilema religioso, que à América Latina se apresentam. Qual dos
dois? A diferença entre os dois é realçada por David Schaff, em
sua monumental obra:
“O protestantismo considera o Cristianismo como sendo,
precipuamente uma disposição e atitude espiritual; o
Romanismo encara-o como profissão e obediência. O
Protestantismo toma a Cristo como caminho que leva à Igreja;
O Romanismo faz da Igreja a verdade que conduz a Cristo. O
Protestantismo exalta a Cristo; o Romanismo exalta a Igreja. O
Protestantismo é escriturístico; o Romanismo é eclesiástico. O
Protestantismo diz: “Onde está Cristo, aí está a Igreja”; diz o
Romanismo: “Onde está a Igreja aí está Cristo”. O Cristianismo
Protestante é Paulino e está pronto a admitir novas luzes, de
onde quer que elas venham; o Romanismo é Petrino e está
satisfeito com os velhas concepções. O Protestantismo realça a

88
Ob. Cit., pg. 527.

47
fé viva como prova da profissão cristã; o Romanismo dá
proeminência à submissão e às prescrições sacerdotais. O
Protestantismo dá ênfase à liberdade de consciência; o
Romanismo enaltece a autoridade da Tradição. O
Protestantismo é uma comunidade de crentes, constituída de
clérigos e leigos juntamente; o Romanismo é uma comunidade
de sacerdotes, em que se incluem os leigos. O Protestantismo
acolhe o racional e natural; o Romanismo excita o maravilhoso
e o estático. O Protestantismo é Cristianismo em marcha; o
Romanismo é o Medievalismo em estagnação. O lema do
Protestantismo é: A verdade qualquer que seja o lugar a que ela
conduza; o lema do Romanismo é: Semper eadem — “Sempre a
mesma”.89
Entre o Protestantismo e o Romanismo não há
conciliação. E nesta alternativa, uma esplendorosa
oportunidade se apresenta ao Brasil. Stefan Zweig, no seu livro
“Brasil, país do futuro”, profetiza para nossa Pátria uma
posição de relevo entre as grandes nações do mundo, desde
que supere os defeitos que o estiolam. O mal de nossa Pátria é
congênito: começou quando aqui desembarcaram os soldados
de Roma. Todas as nações que suportam a sujeição teológica
romana, estiolaram-se; outra sorte, pois, não poderia ter o
nosso país. Para que o Brasil venha a ocupar entre as nações da
terra a primazia, deve abraçar o Protestantismo. Afirma o dr.
Ernesto: “...no progresso ou na decadência das nações o fator
religioso é simplesmente preponderante sobre quaisquer
outros. Há, pelo menos, além da Bíblia, dois fatores do
progresso humano, o alfabeto e o livre exame, que são o
apanágio do Protestantismo, e que, por si, explicam a
superioridade dos povos onde prepondera este credo religioso
sobre aqueles onde impera incontrastadamente o
Romanismo”. 90 E o que o Protestantismo prega é a volta ao
Cristo dos Evangelhos. Exige que a doutrina que deve ser
apresentada acima de todas as outras é “Jesus Cristo e este
crucificado”. O Protestantismo, ao assentar o termo de
89
Ob. Cit., pgs. 146-147.
90
Ob. Cit., pg. 336.

48
redenção, regressou ao antigo mote de Tertuliano: “Fora de
Cristo não há salvação”. E onde está Cristo aí está a Igreja. É o
próprio Cristo quem no-lo afirma: “Onde dois ou três estiverem
congregados em meu nome, aí estou eu no meio deles”.91 Erra,
portanto, o Romanismo quando diz: “Fora da Igreja não há
salvação”. A Igreja não salva. Cristo é quem salva. A igreja é,
como disse bem certo escritor, “um sanatório em que os
enfermos estão sendo curados pelo grande Mestre”. Cristo
salva; e é o único Salvador. Pedro, cheio do Espírito Santo, diz
a Anás, o sumo sacerdote, e Caifás, e João, e Alexandre e a todos
quantos havia da linhagem do sumo sacerdote: e (Cristo) é a
pedra que foi rejeitada por vós, os edificadores, a qual foi posta
por cabeça de esquina. E em nenhum outro há salvação, porque
também debaixo do céu nenhum outro nome há dado entre os
homens, pelo qual devamos ser salvos''.92 E Paulo escreve:
“Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os
homens, Jesus Cristo homem”.93 A Bíblia, pois é a única regra
da fé. A Bíblia — disse Lutero — é o berço no qual dorme Jesus
Cristo. Eu creio em Cristo porque creio na Bíblia; creio na
Bíblia, porque eu creio em Jesus Cristo”.
“A Bíblia, só a: Bíblia, nada senão a Bíblia” eis a religião do
Protestantismo evangélico. Esta verdade desorienta o padre
Franca, levando-o a escrever: “Jesus nunca mandou a seus
discípulos folheassem um livro para achar d sua doutrina...”94
Fez mais que isso! Ele mesmo folheou a sua missão com o livro
divino. Eis o que diz o padre Rohden sobre Jesus e a Escritura
Sagrada: Inúmeras vezes recorre Jesus ao texto sacro então
existente. Prova a sua missão com textos do Antigo
Testamento. Manda os seus ouvintes perscrutar as letras
sagradas para se convencerem de que o Messias foi vaticinado
pelos Videntes de Deus. Desmascara a hipocrisia dos fariseus,
verbera a incredulidade dos saduceus, apelando para textos
bíblicos. Repele a tríplice a sugestão do tentador no deserto
com uma tríplice invocação do texto sagrado: Está escrito...
91
Mateus 18:20.
92
Atos 4:11, 12.
93
1 Timóteo 2:5.
94
Ob. Cit., pg. 235.

49
Está escrito... Está escrito... Ministrou aos discípulos de Emaús
uma profunda lição de Bíblia, como refere Lucas: “Principiando
por Moisés, discorreu por todos os profetas, explicando-lhes o
que a respeito d’ele se diz em todas as Escrituras...” As preces
que o Nazareno dirige ao Pai celeste, na sinagoga e no templo,
na solidão do deserto e nas alturas das montanhas, no cenáculo
e no Gólgota, se inspiram em textos sacros da lei antiga”.
Com referência aos apóstolos e à bíblia diz Rohden: “Os
apóstolos e evangelistas sobretudo Mateus, provam a missão
divina de Cristo à luz dos textos tirados do Antigo Testamento.
Vão para centenas os tópicos bíblicos que se encontram nos 4
Evangelhos, nas 14 Epístolas paulinas e nas 7 cartas “católicas”.
Os grandes tratados de São Paulo — Epístola aos Romanos e
aos Hebreus — são verdadeiros mosaicos de trechos bíblicos.
O apóstolo dos gentios95 não se cansa de recomendar aos seus
amigos e auxiliares o manuseio assíduo das letras sagradas.
Elogia o conhecimento profundo missão divina que delas
possuía o jovem Timóteo, seu grande discípulo: “Desde
pequeno, conheces as Sagradas Escrituras; delas podes haurir
o conhecimento sobre a salvação pela fé em Cristo Jesus.
Porquanto, toda a Escritura divinamente inspirada é útil para
ensinar, para refutar, para corrigir e para educar na justiça.
Destarte chega o homem de Deus à perfeição, habilitado para
toda a boa obra” (2 Timóteo 3:15).96
Interrogada por um príncipe hindu, em que repousava a
grandeza da Inglaterra, a rainha Vitória entrega-lhe uma Bíblia,
dizendo: “Este livro fez a grandeza da Inglaterra”.
Rendamos graças a Deus porque o Protestantismo tem
feito o máximo na difusão do Livro dos livros. Eis o que se tem
feito:
“A partir de 1804 e até 1º de março de 1927, a Sociedade
Bíblica Britânica e Estrangeira publicou 375.000.000 de
exemplares das Escrituras, ou partes delas, em 593 línguas e
dialetos, tendo havido um aumento de mais de 200 línguas a

95
No texto original constava “O apóstolo das gentes”.
96
Huberto Rohden, “O Livro Divino”, pg. 6. Traz o “Nihil obstat” de Mons. Pachoal Gomes Librelotto, e o
competente “lmprimatur” de Antônio Reis, bispo de Santa Maria (Reg. L. III. fls. 124).

50
contar de 1900. Durante os 111 anos de sua história, até o fim
do ano de 1926, a Sociedade Bíblica Americana publicou
184.028.960 Bíblias, ou partes da Bíblia, em 168 línguas e
dialetos, dos quais 108 se falam fronteiras adentro dos Estados
Unidos. Durante o ano de 1926, sua produção foi de 359 .989
Bíblias, 654.043 Novos Testamentos e 8.893.329 porções do
volume sagrado. As centenas de línguas para as quais o livro
tem sido traduzido pelas duas organizações, incluem os
idiomas dos povos mais remotos das ilhas dos mares do Sul e
as distantes tribos da África. Está em gritante contraste com
essa atividade o quase completo insucesso dos missionários
romanos em porém a Bíblia numa língua moderna sequer”.97
A Bíblia é ainda o livro mais procurado em todo o mundo.
“Segundo o Departamento de Comércio dos Estados Unidos,
entre os livros de maior publicação e procura, a Bíblia é ainda
o “best-seller” naquele país.
O recenseamento de 1947, no campo das indústrias do
livro, revela que um total de 9.248.000 exemplares da Bíblia e
o Novo Testamento foram vendidos naquele ano, duas vezes e
meia mais que em 1939, quando o total de vendas atingiu cifra
de 3.800.000 exemplares. É interessante acrescentar que
continua a tendência de aumentar ainda a busca do livro
sagrado, o que por certo se evidenciará por ocasião do
confronto de estatísticas, quando novo recenseamento for
levantado”.98
Louvado seja Deus porque no Brasil é cada vez maior e
mais vasta a circulação de Bíblias. 82.063 Bíblias, 101.331
Novos Testamentos e 1.071.371 porções. Neste resultado não
está incluído o movimento da Imprensa Bíblica Brasileira.
Por ocasião da última grande guerra, o Romanismo —
especialmente o Vaticano — experimentou o valor da Bíblia,
através do poderio do Protestantismo. Eis uma pequena
amostra: “Como Montgomery, Wavell e Churchill são leitores
assíduos da Bíblia. E dela fizeram uso constante, até em
telegramas cifrados. Em dezembro de 1940, por exemplo,
97
“Nossa Crença e a de Nossos Pais”, pg. 187.
98
“Folha da Manhã”, 14-5-1949.

51
Churchill quis comunicar a Wavell que mandaria tudo o de que
ele precisasse, para completar a perseguição contra os
exércitos fascistas no deserto da Líbia. E mandou-lhe um
telegrama, em código, que diz apenas isto: “São Mateus,
capítulo 7, versículo 7”. Ao que Wavell respondeu com outro
telegrama, também em código, dizendo: “São Tiago, capítulo 1,
versículo 17”. Em São Mateus, cap. 7, versículo 7, se diz o
seguinte: “Pedi, e dar-se-vos-á; buscai, encontrareis; batei, e
abrir-se-vos-á”. Em São Tiago, cap. 1, versículo 17, se diz o
seguinte: “Toda boa dádiva e todo dom perfeito vem do alto, e
desce do Pai das Luzes, em que não há mudança, nem sombra
de variação”. Com isto, Wavell não só aceitava a oferta de
Churchill, mas também afirmava a sua fé em Deus”.99
Nesta hora decisiva, em que há “indícios de aurora
anunciando um novo dia”, esperemos, em Deus, que a presente
edição da obra de Eduardo Carlos Pereira, que saiu incólume
dos terríveis ataques de Leonel Franca, apresente ao Brasil o
dístico Salvador:

FORA DE ROMA, DENTRO DO CRISTIANISMO.

Assis, 19 de maio de 1949.

Mário Amaral Novais.

99
“Folha da Manhã”, 26-3-1949.

52
Preâmbulo

A religião, impulso genial de nosso ser, é imortal.


Enquanto sobre o espírito humano pesar o mistério
do finito, ao Infinito levantará altares o espírito humano
— disse o grande Pasteur ao penetrar os umbrais da
Academia Francesa. É ela o problema dos problemas, a
chave do problema moral, e, consequentemente, dos
problemas sociais.
Neste nosso estudo do problema religioso, tivemos
que combater erros e danosos sistemas, sem perder de
vista o respeito que devemos a adversários sinceros. A
tolerância para com os homens, companheiros nossos
na fragilidade universal da natureza decaída, não colide,
entretanto, com a máxima intolerância no repudio de
falsos e perigosos princípios e instituições. Fortiter in re,
suaviter in modo.100
Partimos da Reforma do séc. XVI, perscrutando
suas causas remotas e próximas, e assinalando seu
caráter religioso e resultados políticos e sociais.
Seguimos depois as poderosas correntes bifurcadas,
que vieram desaguar na América: — o Protestantismo e
o Romanismo. Examinados imparcial e cuidadosamente
estes dois aspectos atuais do Cristianismo,
apresentamos a solução, que nos pareceu única
consentânea com os grandes destinos da América
Latina.
Nos resultados da Reforma, tivemos que incluir o
estudo do cânon bíblico, isto é, a fixação do catálogo dos

100
Firmeza na ação, suavidade no modo.

53
livros sagrados, ponto de capital importância na
controvérsia religiosa.
Com o intuito de apresentar, de um modo concreto,
a índole e estado atual do Protestantismo, servimo-nos
do congresso evangélico, celebrado em 1916, em
Panamá, de que fizemos parte. Levou-nos este estudo a
rápido excursus sobre panamericanismo, o monroísmo
e as duas raças, que se defrontam em nosso continente.
Quanto ao Romanismo, foi-nos necessário
acompanhar a sua evolução divergente; rastrear o
Papado em sua origem e desenvolvimento até a sua
plena revelação no concílio Vaticano; historiar a
Contrarreforma, o jesuitismo, o concílio de Trento;
delinear a figura de Pio IX, sob a fascinação
ultramontana; descrever a conspiração jesuítica nos
três grandes decretos do Vaticano: o dogma da
Imaculada Conceição, o Sílabo e a infalibilidade papal;
finalmente, caracterizar a metamorfose do Catolicismo,
discorrendo sobre o Velho Catolicismo e o Novo
Catolicismo, e sintetizando o resultado de todo esse
movimento secular em dois artigos: — O Vaticanismo e
Sincretismo.
Por último, concluímos nossa tarefa, frisando, em
breve cotejo, as pontas do dilema, em que se resume o
problema religioso da América Latina, e, relanceando
ligeiro olhar sobre os frutos do confessionário e da
moral jesuítica, alvitramos a fórmula resolutória do
magno problema.
Ensombram as sociedades latinas dois grandes
males — a ignorância e o indiferentismo religiosos. Daí
a superstição e o pessimismo.

54
Concorrerá, pela ventura, para adelgaçar, entre
nós, as sombras, a sinopse histórica do cristianismo
ocidental, gizada nestas páginas.
Nesta hora crítica, em que a sociedade, convulsa,
atira para frente os grandes problemas dos seus novos
destinos, não é lícito desconhecer a chave de todos eles.
Nutrimos, pois, a grata esperança de termos sido de
alguma utilidade a nossos amados patrícios,
maximamente às classes que sobre estes assuntos não
podem, sem gravíssimo inconveniente, trazer cerrados
os olhos e moucos os ouvidos, tais como:
a) — Os homens dirigentes — políticos, estadistas,
deputados, senadores, legisladores, juízes, advogados,
professores. Formou o Cristianismo a sociedade
moderna, e a Reforma trouxe profundas modificações
no regime político e social do Ocidente. Indecifrável
enigma é a história contemporânea para os que ignoram
as fortes correntes religiosas, que tem traçado os
destinos dos povos ocidentais.
b) — Os literatos e publicistas — romancistas e
poetas, críticos e psicólogos, cientistas e filósofos,
pedagogistas e sociólogos. Sem a profunda moral do
Cristianismo e os opulentos tesouros da Bíblia,
dificultosamente poderá librar-se nas alturas o gênio
humano.
c) — Os católicos romanos sinceros. Não serão estes
os últimos a tirar algum proveito do manuseio deste
nosso trabalho, esperamos. Melhor compreenderão o
nosso ponto de vista; terão acaso uma concepção mais
elevada do Cristianismo, e mais exata do
Protestantismo. O contraste lhes dará, com certeza, um
conhecimento mais completo do Romanismo, e é
possível que uma nova luz faça, resplandecer, no
55
espírito de muitos, as palavras do bendito Salvador:
“Conhecereis a verdade, e a verdade vos salvará, et
cognoscetis veritatem, et veritas liberabit vos (João 8:32).
d) — As almas religiosas, que por aí vagam como
ovelhas sem pastor. Talvez poderão elas encontrar,
neste fruto modesto de nossa fé, alguma claridade e
conforto.

São Paulo, 9 de julho de 1920.

Eduardo Carlos Pereira.

56
A REFORMA

57
Origens e Causas da Reforma

O estampido de uma grande explosão anunciou a


passagem da humanidade para os tempos modernos.
Foi a Reforma do séc. XVI.
Profunda revolução religiosa no grêmio da Igreja
Latina, traçou ela à Europa novos destinos, e, pela
Europa, ao mundo.
De todos os acontecimentos históricos, que hão
mudado a face da terra, nenhum a sobrepuja em
importância, feita exceção do próprio Cristianismo.
Com ela é que realmente se inaugura a idade atual,
como judiciosamente pondera Guizot.
Certo, intensas revoluções e imensas catástrofes
tem sacudido fortemente o arcabouço do edifício social
no decorrer dos séculos.
Hordas sucessivas de bárbaros, desde o séc. IV da
era cristã, fizeram baquear o Império do Ocidente,
talaram a Europa, e, superpondo-se às populações
romanizadas, esmagando-as, produziram profundas
modificações sociais.
Seis séculos mais tarde, as cruzadas, ao brado de —
“Deus o quer”, estendem imenso ossuário entre a
Europa e a Ásia, abala os fundamentos do regime social,
abrindo, no enfraquecimento de feudalismo, larga senda
à centralização da realeza.
Sete séculos depois, a revolução francesa sacode as
nações europeias, proclama os direitos do homem, e
golpeia de morte o regime político, que erguera a
Bastilha sobre as ruínas dos castelos feudais.

58
Todos esses magnos eventos, porém, que aos povos
modernos deram feição social e política, não teriam
legado à civilização de nossos dias o fruto de suas
conquistas, se, na esfera religiosa, não tivesse explodido
a revolução do século XVI. Veio ela trazer à marcha
dolorosa da civilização o poderoso concurso dos
princípios renovados do Cristianismo, e consolidar, na
consciência religiosa resgatada, as conquistas da
liberdade.
Não foi, portanto, o turco, ao arvorar o crescente,
em 1543, nas muralhas de Constantinopla, por sobre a
ruína do Império do Oriente, quem proclamou o fim da
idade média; foi a Reforma em um surto maravilhoso do
Cristianismo primitivo.
Como todos os largos movimentos do espírito
humano, que abrem amplo sulco na correnteza dos
séculos, tem ela suas causas profundas nos
antecedentes históricos, que a explicam e caracterizam.
“As grandes revoluções, observa F. Kuhn, tem sempre
grandes causas e raízes profundas.”
Longe, bem longe, deita a Reforma as suas: através
de doze séculos alastram-se elas até a época do grande
Constantino. Aí, no quarto século, surpreendemos-lhe
os germes, que, acrescidos de século em século,
constituem a evolução do Catolicismo Romano no
caminho da grande apostasia, prevista pelo Apóstolo
dos gentios.

Evolução do Romanismo

Estamos nos primeiros anos do século quarto.


59
Empunha o cetro do Império Diocleciano, que,
como imperador romano, reclama honras divinas,
apelida-se vigário de Jupiter Capitolinus, Pontifex
Maximus, Sacratissimus Dominus Noster, e, quando
sobre o trono, ninguém dele se aproxima senão de
joelhos, tocando com a fronte no pó. Instigado por
Galério, seu genro e sócio, tenta, em 303, em três éditos
sucessivos, afogar em sangue a Igreja cristã. Foi o último
arranco espasmódico do Paganismo em luta com o
Cristianismo. O sangue, porém, dos mártires tornou-se
a semente da Igreja, e contra ela não prevaleceram as
portas dos infernos, portæ inferi non prœvalebunt
adversus eam.
Ferido de terrível moléstia, reconhece Galério o
fracasso de sua cruel tentativa, e, em 311, assina o édito
de tolerância, que cerra o período das perseguições e a
época dos mártires.
Provação de outro gênero e mais perigosa estava
reservada à Igreja.
Morto Galério, disputa Constantino contra
Maxêncio a posse do Império. Simpático ao
Cristianismo, procura apoiar-se na invencível têmpera
de seus provados adeptos.
Um sonho veio em apoio da visão política do filho
de Constantino Cloro. Sonhou: no céu se lhe desenha a
cruz, com a inscrição: Hoc vince. Doravante o lábaro
cristão substitui a águias pagãs à frente de suas legiões.
Vence Constantino ao seu rival, e com ele sobe ao
trono a Igreja. Aquela que vencera, por trezentos anos,
os dentes dos leões, o ferro e o fogo de feroz
perseguição, vai sucumbir aos afagos do poder e da
riqueza.

60
Celebra-se o conúbio adulterino entre ela e o
Estado. A religião cristã tornou-se oficial, e o Paganismo,
em massa, batizou-se. Batizando-se, trouxe para o
grêmio católico a agem imensa de suas superstições,
erros, hábitos e espírito. Data do quarto século a larga
sementeira da cizânia, que irá medrando exuberante
pelos séculos em fora.
Na disciplina, na doutrina e no culto, operou-se a
tríplice paganização do Cristianismo em um lento e
largo afastamento da simplicidade e pureza da Igreja
primitiva. Afogaram-se as pompas bizantinas,
envolvendo em púrpura principesca os humildes
ministros da religião do Crucificado.

I. Disciplina

Na disciplina, foi a vertigem do poder e das


humanas ambições, que converteu a democracia da
Igreja apostólica na hierocracia romana, expressão
requintada do absolutismo.
Acomodou-se o governo eclesiástico ao governo do
Estado.
Em quatro prefeituras, dividiu Constantino seu
vasto império — a de Roma, a de Constantinopla, a de
Antioquia e de Alexandria. Os bispos, que já eram uma
expansão extra bíblica do presbiterado, equiparam-se,
nesses grandes centros, aos prefeitos pretorianos, e,
breve, assumiram o título judaico de patriarca.
Imitando-os, os bispos, que presidiam a mais de
uma província, tornaram-se exarcas, ombreando com os
exarcas civis.
61
Por sua vez, os que presidiam a uma só província e
residiam na metrópole ou capital, avocaram a dignidade
de metropolitanos.
Logo abaixo vinham os arcebispos, e só se
contentavam com o simples título de bispo os que
tinham suas sedes em lugares de pouca importância.
Quadrava às pompas aristocráticas da corte
imperial esta brilhante hierarquia eclesiástica da
religião do Estado.
Em séculos subsequentes, mudou-se a face do
Império com as grandes invasões dos povos bárbaros; e
sós, em frente um do outro, lutavam pela supremacia
universal os dois patriarcas, que ocupavam
respectivamente as capitais do Império do Ocidente e
do Império do Oriente — a velha e a nova Roma, Roma
e Constantinopla.
Em 451 o concílio de Calcedônia declarava iguais os
dois patriarcas: Sanctissimo Novæ Romæ throno œqualia
privilegia tribuerunt.
Não se conformou a velha Roma com essa
igualdade patriarcal, e obteve decretos sucessivos dos
imperadores Teodósio II, Valentiniano III (445), do
usurpador Focas (606), e de Justiniano, proclamando-a
diretora de toda a Igreja (rector totius Ecclesiæ).
Nestes decretos do poder temporal bizantino,
temos os germes do papismo, que Leão I, Gregório I,
Gelásio, Gregório VII, Inocêncio III e Bonifácio VIII
fizeram frutificar.
Pepino, tendo usurpado o trono com a aquiescência
e unção do papa Zacarias (750), toma, à frente de seus
francos, aos lombardos, o exarcado de Ravena e o
Pentápolis, e faz destes doação ao patriarca de Roma, e

62
assim a França institui “o poder temporal do papado”,
em 755.
Leão, o Grande (440-461), assistindo aos
paroxismos do Império do Ocidente, é o primeiro a
sonhar com uma monarquia universal, com sede em
Roma e por chefe o papa. É ele ainda o primeiro a aduzir,
aos decretos dos imperadores, o argumento fundado na
suposta primazia de S. Pedro.
Entretanto, um dos seus sucessores. Gregório I
apelida de profano, anticristão e infernal, em 587, o
título de bispo universal ou ecumênico, que lhe parecia
querer assumir João, patriarca de Constantinopla.
Todavia, anos depois, Bonifácio III, patriarca de Roma,
obteve que o usurpador e assassino Focas, conforme
Barônio em seus Anais do ano 606, transferisse para ele
esse título profano de rector totius ecclesiæ! Esse mesmo
papa consagrou à Virgem Maria o Panteão de Roma,
dedicado a Cibele e a todos os deuses.
Nesses tempos de profunda ignorância, depara-se
às ambições papais um novo ponto de apoio, para
reforçar os poucos seguros decretos imperiais.
Corria o século nono. Pelo vasto território do
Império, di-lo D’Aubigné, jazia em fragmentos a coroa
que Carlos Magno legara a seus fracos sucessores,
quando apareceram as Falsas Decretais de Isidoro.
“Essa fábula deslavada foi, entretanto, por séculos o
arsenal de Roma”. “Elas, escreve Fisher, deram forma e
falsa base histórica às tendências já amadurecidas das
arrogantes cobiças papais, exalçando a Sé de Roma a
uma altura desconhecida nas épocas precedentes,
colocando-a não só acima dos bispos, mas acima dos reis
e imperadores”.

63
Não reconheceram daí em diante barreiras as
pretensões absolutistas dos papas. Obsedava-os o
memento do poeta romano: Tu regere imperio populos,
Romane, memento.101
Gregório VII, o célebre monge Hildebrando, (1073-
1085), subindo ao trono pontifício, encerrou em suas
célebres máximas, o mais ferrenho despotismo, que é,
desde então, a essência do papado.
Nessas famosas “Máximas de Hildebrando”, leem-
se os seguintes princípios, que Roma está longe de
renunciar e o Sílabo reforçou.
“3º — só o pontífice de Roma tem direito de se
chamar universal.
6º — Nenhuma pessoa pode viver debaixo do
mesmo teto com outra excomungada pelo papa.
9º — o papa é a única pessoa deste mundo cujos
pés devem beijar os príncipes e soberanos.
10º — o papa tem autoridade para depor
imperadores, e privá-los de sua dignidade imperial.
13º — O papa não pode ser julgado por ninguém.
16º — Só a Igreja de Roma não erra jamais,
segundo as Escrituras.
17º — O papa tem direito de absolver e libertar os
súditos do juramento de fidelidade a seus soberanos.
19º — Com a licença do papa podem os súditos
processar a seu Soberano.”
Exemplificando esses princípios de humana
teocracia, junto aos portões fechados do Castelo de
Canossa, humilhou Gregório VII a Henrique IV,
imperador da Alemanha, obrigando-o, em pleno

101
Tu, ó romano, lembra-te de reger os povos sob o teu governo.

64
inverno, descalço e descoberto, a esperar três dias, para
que se dignasse a dar-lhe ingresso à sua presença!
Necessitando, para um tal despotismo, de uma
milícia pronta ao mínimo aceno, moveu guerra atroz
contra os padres casados, e fez prevalecer no Ocidente
o celibato clerical e obrigatório.
Seguindo-lhe a traça, fulminou Inocêncio III (1198-
1216) com excomunhão a João Sem-terra, rei da
Inglaterra; absolve seus súditos do juramento de
obediência, e depõe afinal, dando seu trono a Felipe
Augusto, rei de França. Amedrontado, faz o fraco rei, em
1212, doação do reino da Inglaterra e Irlanda a
Inocêncio e a seus sucessores, declarando-se vassalo do
papa, seu Senhor, a quem se compromete pagar o
tributo anual de 1000 marcos de prata; sendo 700 pelo
reino de Inglaterra, e 300 pelo de Irlanda.
Foi Inocêncio o instituidor do funesto tribunal da
Inquisição, que completado por Gregório IX em 1233, e
entregue aos dominicanos, só na Espanha, em 18 anos,
levou à fogueira, em públicos autos-de-fé, 10200 e à
infâmia 97000 infelizes!
Animado pelo mesmo espírito de inaudita
arrogância, declara Bonifácio VIII (1294-1303) a Felipe,
o Belo, rei de França, que o poder temporal está sujeito
ao espiritual, os reis aos papas, a quem deverão perfeita
obediência. Repele o rei tal doutrina e o papa fulmina-o
com a bula Unam Sanctam (1302), onde declara que a
Igreja, na pessoa do papa e do clero, maneja duas
espadas — a espiritual e a temporal: esta entrega-a o
papa aos reis e soldados para a vibrarem ao aceno e
vontade dos sacerdotes, e que sem sujeição ao pontífice
romano não há salvação para ninguém. Com tão altas

65
pretensões contrasta flagrantemente a ínfima moral de
muitos papas.
“O papado, diz Schaff falando da desmoralização do
séc. X, perdeu toda independência e dignidade,
tornando-se presa da violência, da avareza e da intriga,
uma verdadeira sinagoga de Satanás... E o que é pior
(incredibile, attamen verum), três mulheres atrevidas e
enérgicas, da mais alta classe e do mais baixo caráter —
Teodora e suas filhas Marozia e Teodora, puseram na
cadeira de S. Pedro a seus amantes e a seus bastardos...
Da Igreja de S. Pedro fizeram elas um covil de ladrões, e
da residência de seus sucessores um harém... Por isso é
este infame período chamado de Pornocracia ou
Heterocracia papal”.
“Rodrigo Bórgia (Alexandre VI, 1492-1503),
escreve D’Aubigné, depois de ter vivido com uma dama
romana, continuou o mesmo comércio ilícito com à filha
desta dama, Rosa Vanoza, e dela teve cinco filhos. Era ele
cardeal arcebispo em Roma, vivendo com Vanoza e
outras ainda, ... quando a morte de Inocêncio VIII deixou
vaga a sede pontifical. Soube obtê-la comprando cada
cardeal a certo preço. Entraram publicamente no
palácio do mais influente deles, o cardeal Sforza, quatro
mulas carregadas de dinheiro. Bórgia tornou-se papa
sob nome de Alexandre VI, e alegrou-se de ter chegado
ao fastígio dos prazeres.” No mesmo dia em que foi
coroado, fez arcebispo de Valença e bispo de Pamplona,
seu filho Cesar Bórgia, moço de costumes ferozes e
dissolutos. Celebrou no Vaticano os desposórios de sua,
famosa filha Lucrécia Bórgia com comédias e canções
impudicas.
Tal era o estado de decadência moral do papado no
séc. X, que deu origem ao que Schaff chama “o mito da
66
papisa Joana”, que cingiu a tríplice coroa por dois anos
e meio, entre Leão IV (487) e Benedito III (855). Corria
que uma mulher de Mogúncia estudara
disfarçadamente filosofia em Atenas, ensinara teologia
em Roma, e fora elevada à dignidade papal sob o nome
de João VIII. Surpreendida pelas dores do parto, em uma
solene procissão do Vaticano a S. João de Latrão, foi
descoberto o seu sexo, vindo a falecer. Outra versão diz
ter sido ela atada a um cavalo e arrastada fora da cidade,
apedrejada pelo povo, e na sua sepultura gravada
seguinte inscrição: Parce pater patrum papissæ prodere
partum.
Espalhada esta história pelos dominicanos e
minoristas, foi geralmente crida no séc. XIII e XIV, e até
o papa João XX chamou-se por isso João XXI (1276); no
princípio do séc. XV o busto de uma mulher-papa foi
posto ao lado dos bustos de outros papas em Siena, e
historiadores há, como Mosheim, que a tomam a sério.
Porém Schaff, Dollinger e outros creem que tal história
é apenas uma sátira do povo contra a corrupção
escandalosa dos infalíveis do Vaticano, no séc. X. — “Oh!
vergonha! Oh! miséria! — exclama Barônio, escritor
católico romano. Que monstros, horríveis de se ver, não
eram então elevados à Santa Sé.”
Tão poderosamente como as falsas decretais do
Pseudo-Isidoro, concorreram os bárbaros das grandes
invasões da idade média, para darem prestígio às
arrogantes pretensões do absolutismo papal. Entrando
no grêmio do Catolicismo, tributavam ao papa e ao clero
o mesmo temor supersticioso com que olhavam a seus
sacerdotes pagãos.
Ao influxo desta corrente bárbara, apressou-se a
transformação judaizante, que já em séculos anteriores
67
se manifestaram, dos ministros da religião cristã em
sacerdotes.
Surge na Igreja a casta sacerdotal. Os padres ou os
ministros da religião deixam de ser simples pedagogos
ou docentes, guias do povo ao trono da graça, para se
tornarem sacrificadores e mediadores entre Deus e o
homem. Eram antes simples portadores da Palavra
Divina, que absolve ou retém os pecados, conforme o
pecador aceita ou rejeita as condições de perdão nela
reveladas. Foi profunda a transformação: o ministério
cristão deixou de ser meramente docente e declarativo
para usurpar o lugar de Cristo, nosso grande sacerdote
e ergue-se sacrilegamente entre o homem e o seu Deus.
O papa, como sacerdote, arrogou-se o título judeu-
pagão de sumo pontífice, e, senhor das chaves do Céu e
do Inferno, transfigurou-se aos olhos de um
cristianismo paganizado em um vice-Deus ou Deus na
terra, cujos anátemas e excomunhões lançavam o terror
nas populações supersticiosas da idade média.

II. Doutrina

Transformada destarte a disciplina, breve


modificou-se também a doutrina, que veio prestar, a
esta transformação radical no governo da Igreja, o
prestígio do dogma.
O sacerdote é o sacrificador, e não pode subsistir
sem altar e sacrifício. Sobre este ponto eram acordes o
Judaísmo e o Paganismo.
Começa a aparecer em 590 o sacrifício e com ele o
altar. O papa Gregório I é o primeiro a transformar a
68
eucaristia, oferta de ação de graças, em sacrifício da
missa.
Foi, porém, só no séc. X que a inovação assumiu
feição positiva com a inaudita doutrina da
transubstanciação, inventada e aventada pelo monge
Radbert em 930.
No sacramento da Eucaristia ou Santa Ceia,
ensinava ele, o pão transubstancia-se no corpo e o vinho
no sangue de Cristo, de sorte que, sob as aparências e
propriedades de pão e de vinho, temos — “corpo, alma
e divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo tão real e
perfeitamente como estão no Céu.”
Novidade tão absurda e repugnante provocou
largos, ásperos e, por vezes, sangrentos debates.
O novo sacerdócio, porém, em que se ia
transformando o ministério cristão, percebe a excelente
oportunidade para dar plausibilidade e consistência a
essa transformação judeu-pagã.
Segundo essa nova concepção da Eucaristia, Jesus
Cristo, o Cordeiro de Deus, seria de novo a vítima. A
invocação do ministro-sacerdote, Ele desceria ao altar
de um novo sacrifício, e o padre, como os filhos de Arão
ou os druidas gentílicos, sacrificaria novamente essa
vítima divina pelos pecados dos homens!
Um tal poder transfigurava os padres em entes
divinos, ultra onipotentes, pois que, a seu nuto, obedecia
a onipotência, como outrora Isaque ao cutelo de Abraão.
Só em 1212, no concílio de Latrão, foi, por
Inocêncio III, sancionado o sacrílego dogma da
transubstanciação.
Nesta ligeira resenha dos principais acréscimos
doutrinários, convém não deixarmos de mencionar o

69
Purgatório, incorporado definitivamente no credo
católico pelo Concílio de Constança em 1417.
Virgílio na “Eneida” (L. VI 75-766) descreve as
chamas purificadoras das crenças gentílicas, e o livro
apócrifo dos Macabeus nos dá a entender que um tal
erro do gentilismo já havia aberto caminho entre os
próprios judeus, no segundo século antes de Cristo. (2
Macabeus 12:43).
O poeta latino assim se exprime sobre a doutrina
pagã de um fogo purgatório, na tradução de Odorico
Mendes:

O sopro último extinto, não se expurgam


Terrenas fezes e mundanos vícios:
Muitos, concretos longamente, é força
Que nelas durem por teor pasmoso.
Em tratos, pois, seus erros pagam todas:
Qual pende aos ventos; qual da culpa as nódoas
Lava em golfo espaçoso ou dile ao fogo:
A cada qual seus Manes atormentam,
Poucos de Elísio as doces veigas temos,
guando, perfeito o giro, a mão do tempo
Gasta o impresso labéu, depura a flama,
O senso etéreo e simples aura afina.

O Purgatório apresenta-se logo como um lucrativo


apêndice ao sacrifício do altar.
Ao calor desse fogo purificador ardentíssimo,
medraram e frutificaram, com espantosa exuberância,
as indulgências.
Pelas indulgências o papa aplicava aos vivos e ao
alívio das almas do Purgatório o excesso dos
merecimentos de Cristo e das obras super-rogatórias
dos santos, mediante espórtulas, taxadas em tarifas
70
oficiais, que se graduavam à ofensa espiritual do pecado
e ao valor material da espórtula. Esta comutação
pecuniária tornou-se riquíssima fonte de renda, cujo
varejo pertencia ao bispos e arcebispos, e ao papa por
atacado.
Tão ardilosa invenção foi plenamente desenvolvida
por S. Tomás de Aquino (1257-1274), e sancionada pelo
Concílio Tridentino, em 4 de dezembro de 1563.
A confissão perante a igreja, isto é, pública, como
expressão natural de arrependimento, tornou-se em
confissão auricular obrigatória por imposição do
Concílio Lateranense em 1215, sob Inocêncio III.
Impunha S. Bento aos seus monges a obrigação de
confessar os seus pecados ao abade, apenas como sinal
de humildade. Os bispos, saídos em geral dos mosteiros,
imitaram S. Bento em relação ao clero, e este em relação
ao povo. Já era isto uma especialização do costume da
confissão pública existente nos séculos primitivos da
Igreja, costume que é evidentemente oriundo do
preceito de S. Tiago de “confessarmos os nossos
pecados uns aos outros” (Tiago 5:16). Esta prática
degenerou-se no “padre penitenciário”, abolido pelo
bispo de Constantinopla, Natário (383), e a quem Leão I
proibiu revelasse à Igreja o pecado confessado, como
era costume.
Afirma Fleury, historiador católico romano, que a
invenção da confissão auricular, obrigatória, é obra de
Crodogang, bispo de Metz (763) unicamente como
disciplina de seu instituto monástico. “É esta, diz ele, a
primeira vez que encontro a confissão preceituada”.
(Hist. Ec. t. 2º, p. 300. Paris, 1761).
Só em 1215 é que Inocêncio III lhe deu os foros de
sacramento, e único meio para o perdão dos pecados!
71
III. Culto

O culto, por sua vez, sofreu profanos acréscimos da


corrente pagã que, irrompendo com Constantino,
engrossou com a incorporação dos bárbaros.
A simplicidade ritual da Igreja Apostólica teve de
ceder diante das pompas sensuais da Igreja oficial.
Os deuses, deusas e semideuses do Paganismo, as
suas imagens e estátuas sagradas, transformaram os
heróis do Cristianismo e as suas supostas efígies, em
objeto de culto idólatra, em padroeiros, protetores e
medianeiros. O politeísmo e a idolatria inundaram a
Igreja.
O culto dos santos, dos anjos, das imagens, das
relíquias e da cruz, inteiramente estranho ao culto
primitivo, em flagrante oposição ao Decálogo (Êxodo
20), agrava o elemento pagão que já se ostentava franco
na disciplina e na doutrina, como ligeiramente
mostramos.
A introdução de imagens, contra o claro dispositivo
do 2º mandamento da Lei de Deus (Êxodo 20:4-7),
provocou porfiada luta por mais de um século, do
princípio do século oitavo a meados do século nono.
Nesta luta ora prevaleciam os iconoclastas
(quebradores de imagens), ora os iconólatras
(adoradores de imagens).
O concílio geral de Constantinopla (754), e o
concílio de Frankfort (794), reunido por Carlos Magno,
72
e composto de bispos, e outro concílio reunido em
Constantinopla (815), condenavam, de acordo com o 2º
mandamento, o uso de imagens no culto divino.
Sustentou, porém, essa inovação idólatra o 2º concílio
de Nicéia (786), convocado pela imperatriz Irene,
assassina de seu esposo Leão IV, e o celebrado em
Constantinopla em 842, por ordem da imperatriz
Teodora, Regente na minoridade de seu filho. Apoiado
pelo exército dos monges e pelo pontífice romano,
triunfou afinal o culto das imagens, multiplicando-se os
milagres, as romarias, as relíquias, a aluvião das
grosseiras superstições do Paganismo.
Com razão escreve Garret no “Arco de Sant’Ana”,
sobre o culto católico romano. “Tudo quanto é
superstição adotaram de todas as religiões, nem seu
culto é mais do que a emendada mistura dos vários
cultos da terra.”
Da luz meridiana, que a história projeta sobre a
evolução papismo católico, no tríplice domínio da
disciplina, da doutrina e do culto, podemos compreender
a distinção que que entre Catolicismo e Romanismo faz
o grande historiador Philip Schaff.
“Devemos distinguir, diz ele, entre Catolicismo e
Romanismo. O Catolicismo abrange a antiga Igreja
Oriental, a Igreja Medieval, e, em mais largo sentido,
podemos dizer, todas as Igrejas Evangélicas modernas.
O Romanismo é a Igreja Latina voltada contra a
Reforma, consolidada pelo Concílio de Trento e
completada polo Concílio do Vaticano de 1870 com seu
dogma de absolutismo papal e papal infalibilidade.
Catolicismo medieval é o pré-evangelho olhando para a
Reforma; o Romanismo moderno é o anti-evangelho,
condenando a Reforma, sustentando, não obstante, com
73
incansável tenacidade, as doutrinas ecumênicas já
sancionadas, e assim procedendo mais em virtude de
sua pretensão à infalibidade”.

Precursores e Prenúncios da Reforma

À proporção que se ia Roma apartando da


ortodoxia evangélica, pela assimilação de elementos
estranhos, surgiram protestos de “pias testemunhas de
verdade”, que eram como que sentinelas perdidas na
noite sombria da idade média.
Nos fins do séc. IV e princípios do V, Vigilâncio,
presbítero em Barcelona (395), Espanha, ergue sua voz
contra as superstições pagãs, que começavam a
proliferar nessa época, contra o culto dos santos, de seu
ossos e relíquias, contra a licenciosidade nas igrejas,
contra o monaquismo, viveiro de superstições, que fugia
do mundo em vez de lutar no mundo.
Segue-lhe os passos, no séc. IX, Cláudio, bispo de
Turim (814-839), protestando contra o culto dos santos,
das imagens, da cruz.
“Quem quer, dizia ele, que busca, em qualquer
criatura do céu ou da terra, a salvação que deve buscar
só em Deus, é um idólatra.” No séc. XII, Pedro de Bruís,
Henrique, Arnaldo de Bréscia, Pedro Waldo, tornam
mais largo e intenso esses protestos contra o Paganismo
triunfante. No séc. XIV, Wycliffe, na Inglaterra, não só
protesta, mas dá começo a um movimento reformador.
No séc. XV, João Huss e Jerônimo de Praga, espalham na
Boêmia as ideias reformadoras de Wycliffe, e na Itália,
Jerônimo Savonarola faz soar sua palavra candente
74
contra as corrupções do papado. Neste século ainda se
ouviu, no terreno doutrinário, o testemunho autorizado
de João Laillier, João Wasália, João Goch, João Wessel e
outros.
Muitos destes tiveram de pagar com o martírio o
desassombro de seu testemunho. Huss foi queimado
(1415), e o clarão de sua fogueira jamais se apagará. O
mesmo aconteceu com Jerônimo de Praga (1416),
Tomás Conete (1432) e Savonarola (1498). Morrem no
calabouço da Inquisição, André, arcebispo de Crayn, e
cardeal (1482), e João Wasália (1842), por terem
lavrado por sua vez solene protesto contra a corrupção
dominante.
Entre estes precursores da Reforma, devemos
contar muitas seitas consideradas heréticas pela
autocracia reinante, tais como os albigenses, valdenses,
henriquianos, lolardos, hussitas etc.
“As assembleias dos paulicianos ou albigenses,
escreve Gibbon, foram extirpadas pelo fogo e pela
espada... porém o espírito invencível que eles tinham
acendido vivia ainda, e soprava no Mundo Ocidental. No
Estado, na Igreja e até no mosteiro, conservava-se uma
sucessão latente de discípulos de Paulo, que
protestavam contra a tirania de Roma, abraçavam a
Bíblia como a regra de fé, e purificavam seu credo de
todas as visões da teologia gnóstica. Os esforços de
Wycliffe na Inglaterra, de Huss na Boêmia, foram
prematuros e ineficazes, porém os nomes de Zwínglio,
de Lutero e de Calvino são pronunciados com gratidão
como libertadores das nações.”
Não podemos deixar de lado, como influência
precursora da Reforma, o misticismo da idade média.
No silêncio de seu retiro, e, frequentes vezes na
75
quietude das celas ou sob a crasta dos mosteiros, os
místicos se afligiam com a materialização grosseira do
Cristianismo e com a secularização da Igreja.
Todas essas vozes vinham denunciando a larga e
profunda apostasia de Roma, no tríplice domínio da
disciplina, da doutrina e do culto. Pairava sobre os
destinos do Cristianismo séria ameaça.
Reforma era o brado universal; reforma exigiam os
reis, pediam os povos e reclamavam os concílios, as
universidades e espíritos proeminentes e piedosos;
reforma “na cabeça e nos membros”, capite et membris.
Três concílios tentam realizar esse desejo da parte
sã da Cristandade — o de Pisa em 1409, o de Constança
em 1414, e o de Basiléia em 1431. Quebraram-se todas
essas tentativas ante a resistência da cúria romana, a
cuja frente se ergue a autoridade papal.
Entretanto, não se perderam os protestos dessas
testemunhas; ecoava, na Europa nascente, o brado
repetido dessas sentinelas fiéis, destacadas, pela
Providência vigilante, nas espessas trevas das
superstições medievais.
Provam estes fatos o que diz Schaff — que houve
muitos reformadores antes da Reforma; e ainda o que
declara M. D’Aubigné: Le protestantisme du seizième
siècle a reçu la Bible du protestantisme de tous les siècles.
Não se apagou de todo a chama da verdade religiosa no
seio do povo, houve, de século em século, até a Reforma,
uma sucessão de “pias testemunhas da verdade”,
depositárias da Palavra de Deus e herdeiras das
promessas divinas. Com eles principalmente estava a
Igreja, “o pequeno número”, de que nos falam Cristo e S.
Paulo, contra a qual não prevaleceram as portas dos
infernos. Foram, de fato, estes, muitos dos quais eram
76
prisioneiros do papado, que transmitiram a Bíblia a seus
irmãos do séc. XVI. Dentro e fora do grêmio oficial do
catolicismo romano, existia e gemia a Igreja.

Condições Mesológicas

Tendo passado em revista as causas gerais da


grande revolução religiosa, vejamos, de relance, as
condições mesológicas, que a favoreceram, tornando a
possível.
O ambiente moral da idade média era inteiramente
infenso a qualquer renovação. Aferrado servilmente ao
lega lismo tradicionalista, o espírito do medievalismo
erguia instransponível barreira a toda reforma. Ao pé
desta barreira devia bater, e expirar todo o nobre
esforço do século dezesseis, como aconteceu com as
reformas prematuras de Wycliffe, Huss, Savonarola,
Pedro Waldo, Arnaldo de Bréscia, se certas condições
históricas não criassem um meio protetor à propaganda
dos Reformadores.
Nessas circunstâncias favoráveis, houve uma
cuidadosa preparação providencial, para que, dessa vez,
não abortasse a reação secular contra a apostasia do
Catolicismo Romano.
Revela-nos o estudo do tempo que a previsão
divina criara uma mesologia apropriada tanto na esfera
política, como na esfera intelectual, social, moral e
religiosa.
Na política a miserável exploração de que por
séculos foram vítimas os povos germânicos,

77
predispunha os príncipes a uma certa independência
em relação à cúria.
Vinha de longe o conflito.
Cresceu o papado, como vimos, sob os auspícios e
protetorado do império bizantino.
Ao despontar no Ocidente o astro dos francos, o
papado compreendeu a necessidade de cultuar o sol
nascente.
Pepino, o Breve, usurpando o trono de Cilderico III,
rei dos francos, é chamado pelo papa Zacarias contra os
Lombardos, vence-os e toma-lhes o exarcado de Ravena
e o Pentápolis, fazendo desses territórios doação ao
papa (755), origem do “patrimônio de S. Pedro”.
A Carlos Magno, brilhante filho do usurpador, envia
o papa Leão III, traindo seu suserano bizantino, as
chaves e os estandartes de Roma, em sinal de
submissão, e as chaves do sepulcro de S. Pedro (798), e,
dois anos depois (800), pôs sobre a cabeça de seu
protetor, em Roma, a coroa do “Santo Império Romano”.
Não puderam os fracos sucessores de Carlos Magno
manter o brilho do “Santo Império Romano”, que
passou, com Oto I, o Grande (936-973), para os
imperadores teutônicos. Tornaram-se estes os novos
protetores da Santa Sé. Esta, quando se sentiu bastante
forte, travou com eles luta na porfiada questão de
investidura, que trouxe o imperador Henrique IV,
humilhado, às portas de Canossa (1077).
Soube a hábil e arrogante política do Vaticano, no
decurso dos séculos subsequentes até Carlos V, explorar
a paciência e barbaria dos povos germânicos, de modo
que seus príncipes, eleitores do império, no tempo da
Reforma, tais como Frederico da Saxônia, Felipe de
Hesse, João, o Constante, Jorge de Brandeburgo e outros,
78
conservavam viva à lembrança de Canossa, assumindo
atitude simpática à Reforma.
A queda de Constantinopla (1453) trouxe duas
consequências favoráveis aos Reformadores. O
estandarte de Islã ameaçava as fronteiras do império
teutônico, e o imperador Carlos V necessitava do apoio
dos príncipes alemães para defender-se contra o turco.
Por isso foi coagido a protelar o golpe, que lhe solicitava
o papa contra os que seguiam e defendiam o monge de
Wittenberg.
Ainda mais. Destruído o Império do Oriente pelo
turco vencedor, emigraram para a Itália e outros países
cristãos do Ocidente os sábios gregos, que vieram
inflamar amor às letras gregas. Desenvolveu-se o estudo
do grego, e com ele um prurido geral pelo conhecimento
das antiguidades clássicas. Irradiou-se da Itália esse
movimento intelectual, dando largas, na Europa
Ocidental, ao estudo do latim, do grego e do hebraico.
Chamou-se Renascença proeminentemente a este
movimento dos espíritos, e humanistas aos cultores
dessas línguas clássicas, entre os quais se celebrizaram
Erasmo, Reuchlin e Agrícola. A Bíblia começou a ser
estudada nas línguas originais, e o espírito crítico a
desenvolver-se, o que não podia deixar de trazer imensa
vantagem à Reforma, que na Bíblia se baseava.
Coincidiu com esse fato a invenção da imprensa. De
1455, a publicação, em Mogúncia, da Bíblia de
Gutenberg, podemos datar o desenvolvimento dessa
invenção, que deu asas ao pensamento e vitória à
Reforma. Sentiu isso Roma, e estremeceu. “Destruamos
a imprensa, exclamou então um padre inglês, ou a
imprensa nos destruirá”.

79
Ao lado da invenção da imprensa, que deu novo
impulso ao espírito de investigação e crítica, ponhamos
o descobrimento da América (1491) e do caminho
marítimo das Índias. Do pó surgia o mundo antigo,
transfigurado nas belezas da arte, e das águas mundos
novos, que alargavam o comércio, a indústria, as
riquezas; criava o espírito leigo o sentimento de
independência e liberdade, prenúncios manifestos de
novos tempos.
Agricola, Erasmo e Reuchlin, Colombo, Vasco da
Gama e Cabral, vinculados por Gutenberg, abriram, aos
povos, desconhecidos e largos horizontes; um sopro de
vida percorria a Europa, emancipando a humanidade do
legalismo medieval, em uma aspiração ardente de
liberdade e progresso.
No estudo das línguas e literaturas nacionais,
corporifica-se o sentimento de nacionalidade
independente.
Neste ambiente de aspirações e entusiasmos em
busca de novos ideais, não podia deixar de medrar com
vigor e pujança a ideia religiosa, que encerrava a divina
beleza do Cristianismo redivivo.
Não menos concorreu para preparar terreno à
Reforma o misticismo, que se desenvolvera às margens
do Reno. A religião se havia objetivado nos ritos
pomposos e sensuais da do Romanismo, e convertera-se
em frio formalismo. A escolástica dera-lhe o verniz de
um intelectualismo mecânico. Os místicos reagiram
contra esse mecanicismo atrofiante, e, em um
objetivismo contemplativo, buscavam o segredo da vida
religiosa na comunhão individual e direta com Deus. Os
místicos, escreve Gasparin, atacaram e arruinaram a
escolástica, apoderaram-se da Bíblia, amaram, lançaram
80
palavras de verdadeira espiritualidade no seio das lutas
estéreis da idade média, restituíram sentido às palavras
— pecado, salvação e obediência; surpreendem-se neles
suspiros que sobem ao céu. Seria faltar ao dever se,
antes de tocar na Reforma, se deixasse de prestar
homenagem, solene homenagem, a esses precursores e
bons cavaleiros de Deus.
Fundada nos fins do séc. XIV, florescia no séc. XVI a
sociedade dos Irmãos da vida comum, penetrada pelo
misticismo religioso. Do seu seio saiu, cerca do ano
1470, a famosa Imitação de Cristo, que teve oitenta
edições antes da Reforma e, no norte da Alemanha e nos
Países Baixos, possuía ela seminários frequentados por
1200 estudantes. Os Reformadores receberam o influxo
benéfico da espiritualidade dessa corrente mística, que
predispunha os ânimos à aceitação dos grandes
princípios da Reforma, fazendo consistir a religião na
vida interior e nas relações do homem individual com
seu Deus.
Todas essas correntes políticas, intelectuais, sociais
morais e religiosas, ao raiar do séc. XVI, punham em
evidência a corrupção da cúria e do clero.
O ascetismo dos monges reagia largamente na
sensualidade de grosseiros apetites. Escritor
contemporâneo, traçando-lhes com vigor a feição,
escreve: Quod agere veretur obstinatus diabolus,
intrepide agit reprobus et contumax monachus. O que o
próprio diabo obstinado recearia praticar, fálo-ia
intrépido o monge réprobo e contumaz.
As farpas dos humanistas cravaram-se fundo em
costumes tão soltos e crassa ignorância dos que
exploravam indignamente o povo, a pretexto de religião.
Erasmo, em seus Colóquios e Elogio da loucura, adquiriu
81
imensa popularidade, e as gargalhadas de Rabelais e os
sorrisos céticos de Montaigne teriam feito do
catolicismo romano o que Cervantes fizera da cavalaria,
se não fora o elemento cristão nele contido, que a
Reforma salvou.
Foi nessa atmosfera, batida de todos os ventos, que
apareceu a Reforma, como a luz radiante de um novo
dia, como o farol de esperança ao nauta perdido na
escuridão de agitados mares.

A Reforma

Abriu-se o séc. XVI em pleno reflorir da


Renascença. O renascimento das letras greco-romanas
revolucionara o espírito europeu. Por toda parte
esvoaçava a alma pagã de Virgílio e Homero, de Horácio
e Anacreonte, de Plauto e Sófocles, de Cícero e
Demóstenes. Este prurido geral de literatura clássica
reagiu sobre o sentimento religioso, e o negativismo
vassalou as classes do gentilismo. O movimento literário
penetrou o próprio Vaticano: Leão X e o Cardeal Bembo
eram seus adeptos entusiastas, e a eles se atribui a frase
ímpia: — Quantum nobis prodest hæc fabula Christi.102
Em Mogúncia, o imortal Gutenberg inventará a
imprensa no ano de 1440, e esta deu asas à Renascença.
Contudo esta sede de antigas letras trouxe um
poderoso subsídio ao movimento reformador. O estudo
do grego e do hebraico, por ela promovido, veio
patentear as fontes originais dos documentos cristãos,
escritos nessas duas línguas. Nelas vieram abeberar-se
102
Quão útil nos foi esta fábula de Cristo.

82
os humanistas, tais como Reuchlin, Erasmo de Roterdã,
Melancton, Huten, Lutero, Zwínglio, Calvino e muitos
outros.
Embora, em sua índole, fosse a Renascença crítica e
demolidora, pagã e cética, prestou ela, contudo,
relevantes serviços à Reforma. Indubitavelmente, ela
concorreu para a emancipação dos espíritos e deu um
passo para a luz, para a investigação desassombrada da
verdade.
Dada ao estudo das línguas antigas, deu ela ao
Mundo o Novo Testamento grego em 1516, no momento
em que surge Lutero.
Abertos os mananciais divinos pelo conhecimento
dos idiomas originais, fez-se intensa luz sobre os erros
e abusos do Catolicismo Romano, e do mundo das letras
partiu o influxo providencial, que, reforçando a corrente
política e eclesiástica, deu ao brado de Lutero a
intensidade do estrondo de um trovão.
Todas essas ideias novas e emancipadoras, que, nas
asas da imprensa, percorriam a Europa, arrancavam a
venda aos reis e aos povos, esmagados sob o férreo
guante do papado. Aos reis, constantemente ameaçados
no exercício de sua soberania, tornavam-se então
patentes os intuitos políticos e ambições terrestres dos
papas; e aos povos, empobrecidos pelos dízimos,
tributos e anatas, revelava-se a sua cobiça dos bens
mundanos. A proverbial “paciência do alemão”
esgotava-se, e Canossa não se poderia mais repetir.
Assim na esfera da cultura e da política, coma na
esfera religiosa, havia um cuidadoso preparo
providencial para o surto da Reforma, que veio a tempo
de salvar o Cristianismo de iminente naufrágio.

83
Logo no princípio do séc. XVI, um monge macerava-
se no convento dos Agostinhos. Jamais possuíra Roma
monge mais piedoso. Imbuído do ascetismo medieval,
buscava ele em vão paz para a sua consciência em
penitências corporais e obras meritórias.
Era Martinho Lutero.
A leitura da Bíblia, que acaso encontrara na
biblioteca do Convento, e ou evangélicos conselhos de
seu piedoso diretor espiritual Staupitz, superior de sua
Ordem, lhe foram trazendo luz sobre o verdadeiro
caminho da salvação, aberto pelos méritos de Cristo e
iluminado pela graça de Deus. “O justo vive da fé”.
(Hebreus 11) é sentença bíblica, que se lhe gravara no
ávido espírito; portanto a fé na obra redentora de Cristo,
a fé viva, que “obra por caridade”, que se afirma no
arrependimento e se revela nas boas obras, era para ele
a condição única de perdão, que abre ao pecador pleno
acesso ao trono de Deus.
Corria o ano de 1517. Era Lutero, por esse tempo,
professor e pregador na Universidade de Wittenberg.
Com grande reclame, percorria a Alemanha Tezel,
monge dominicano, vendendo indulgências por ordem
do papa Leão X, que necessitava de dinheiro para
completar a basílica de S. Pedro, em Roma.
Nas cidades e aldeias, alçava ele a grande cruz
vermelha do papa, e do alto púlpito, com voz de estentor
e linguagem escandalosa, apregoava as miríficas
virtudes de sua mercadoria.
“Vinde, bradava, e eu vos darei cartas munidas de
selos, pelas quais todos os pecados vos serão perdoados,
mesmo os que desejais cometer no futuro... As
indulgências salvam não só os vivos, mas também os

84
mortos... E apenas a moeda tine no fundo do cofre, voa a
alma libertada do purgatório para o céu”.
Opõe-se, indignado, Lutero contra tanta desfaçatez.
Ameaçado seriamente nesta deslavada simonia,
esbraveja o dominicano. Ao ataque, responde o frade
agostinho afixando à porta da Igreja de Wittenberg 95
teses contra a doutrina das indulgências, a 31 de
outubro de 1517.
Estava lançada a faísca à mina, e ia seguir-se a
grande explosão.
Refuta Lutero a doutrina das indulgências papais,
em nome da indulgência plenária promulgada no
Calvário a favor da humanidade arrependida. Embora o
professor de Wittenberg não estivesse ainda de posse
de toda a verdade evangélica, todavia, nessas teses
brilha, com intensa luz, a verdade central do perdão
gratuito, que nos concede a graça infinita mediante o
sacrifício expiatório do Filho. Não era a bula papal de
indulgência, exposta à venda na feira ambulante do
frade dominicano, que assegurava o perdão, mas era a
fé e o arrependimento, que de graça o alcançavam.
Do teor das teses vê-se que Lutero não estava
ainda, em 1517, emancipado de todos os erros e abusos
do credo papal, mas o seu espírito bebera já no
Evangelho a grande doutrina da graça e do perdão dos
pecados e a reconciliação do pecador pela Cruz de Jesus
Cristo.
“Querela de frades” — dizia Leão X ao saber do
incêndio; ciúmes de Ordens, que disputavam a honra
lucrativa do tráfico religioso — obtemperavam outros.
Enganavam-se: era a consciência cristã que se erguia,
desta vez, rija e forte, contra os abusos de Roma e a
simonia papal.
85
Estava lançada a faísca à mina, e ia seguir-se a
grande reno puramente religioso.
Não foi a disciplina, nem mesmo o culto, o ponto
inicial do movimento reformador do séc. XVI: foi a
doutrina.
Não há nas 95 teses uma referência sequer à
arrogância cobiça dos papas, antes há aí esforço
manifesto para salvar papa do desprestígio do
escandaloso mercado simoníaco. Tão pouco aí existe
qualquer alusão às pompas profanas e ritos idólatras do
culto romano.
Salienta-se, neste ponto de partida e em toda a
atitude dos grandes Reformadores do séc. XVI, o caráter
puramente religioso da Reforma.
E o que ainda acentua esse caráter de modo
iniludível que a revolução religiosa se inicia sem ciência
e consciência do piedoso frade agostiniano.
No seu zelo humilde, ele não se crê o instrumento
poderoso que foi, nem avaliou as tremendas
consequências de ato. Agiu, profundamente revoltado
com a traficância das coisas sagradas, no sentimento de
um imperioso dever, sem nem sequer consultar seus
amigos e seus superiores, que ignoraram o passo que ele
dera.
Uma mão mais poderosa que a de Lutero abria os
diques, e as ondas impetuosas arrastavam o próprio
monge, e, espantado e desapercebido, protestava ainda
obediência à Santa Sé.
Citado, comparece humilde em Augsburgo perante
o cardeal Caetano, legado do papa; porém recusa
retratar-se, a menos que o não convençam pela Sagrada
Escritura. Idêntica sua atitude perante Miltitz, novo
emissário.
86
Atacado amargamente pelos defensores das
indulgências, excomungado em 15 de julho de 1520 por
uma bula de Leão X, que, diz C. Cantu, “havia aprovado o
que tinham feito vendilhões de indulgências”, foi ele
levado a dirigir seus estudos para a disciplina e culto, e
a fazer assim progresso sua emancipação paulatina do
jugo secular do Romanismo.
Entretanto, as chamas, que devoraram Huss,
ameaçavam seriamente a Lutero.
Concitou o papa ao imperador Carlos V que o
entregasse a Roma. Lutero foi citado a que
comparecesse perante a Dieta Worms em 1521.
A despeito dos fundados temores de seus amigos,
lá compareceu, e compareceria, dizia ele, ainda que lá
houvesse tantos demônios quantas telhas sobre as
casas.
Intimado a retratar-se, proferiu, perante o
Imperador e os altos dignitários do Império, eloquente
discurso, terminando com estas celebres palavras:
“Refutai-me, pois, e convencei-me pelo testemunho
das Santas Escrituras, ou argumentos claríssimos, do
contrário não posso e não quero retratar-me, pois não é
seguro nem prudente agir contra a consciência”.
Era, como se vê, o brado da consciência religiosa
afrontando, em uma alucinação de heroísmo, todo o
poder de Carlos V, todas as iras de Leão X, e todo o ardor
devorante das fogueiras da Inquisição!
Em 1529, na segunda Dieta de Speyer, fez o
imperador passar um decreto tolhendo a liberdade de
consciência, e proibindo qualquer propaganda religiosa
dos novos princípios, qualquer mudança de religião, até
a decisão de um concilio geral. Protestaram contra esta

87
violência alguns príncipes, membros da Dieta, que
haviam abraçado a Reforma.
Deste novo brado da consciência emancipada, eco
de Worms, teve sua nobre origem a designação de
protestantes e protestantismo.
Em tudo isso se patenteia, em plena luz, o caráter
religioso da Reforma. Afirma-o ainda Alexandre, núncio
pontifício, que tinha feito citar o monge à Dieta de
Worms. “Diz-se, escreveu o núncio, que a
desinteligência entre Lutero e o papa é motivada
unicamente por alguns pontos de controvérsia,
especialmente relativas à autoridade da Santa Sé. É um
erro grave, porque em quarenta artigos condenados
pela bula poucos são os que dizem respeito à dignidade
pontifícia”.
Tão insuspeito testemunho prova, o que aliás
ressumbra de toda a história do movimento, o caráter
essencialmente religioso da Reforma, alheia em seu
início e no seu intuito fundamental a qualquer interesse
político e a mesquinhas rivalidades fradescas. Sobre
este ponto estão em completo desacordo com os fatos
históricos as opiniões de Bossuet, Voltaire e Hume.

Os Três Princípios Fundamentais da


Reforma

Se das lutas e dos embates, volvermos a nossa


atenção para os princípios, que deles saíram vitoriosos,
veremos ressaltar não só o caráter religioso da grande

88
revolução do séc. XVI, senão também seu alto valor
histórico.
Três, segundo Schaff, são os grandes princípios que
saíram triunfantes desse movimento de reação contra
as correntes da apostasia medieval.
Triunfou a Bíblia sobre a Tradição, triunfou a fé
sobre as obras, triunfou a Igreja sobre o Clero.
Tais triunfos anunciavam a supremacia da Palavra
de Deus sobre a dos homens; a supremacia da graça
divina da salvação, alcançada pela fé, sobre os méritos
humanos, obtidos pelas obras; a supremacia do povo de
Deus sobre os ministros da religião.
Estas três supremacias são a reivindicação do
espírito cristão contra as incursões heréticas judeu-
pagãs, que, na rudeza dos tempos, vinham, desde o
quarto século, levedando a religião de Cristo.

I. Supremacia da Bíblia sobre a Tradição

É chamado objetivo este primeiro princípio da


Reforma.
Lutero como Zwínglio, Calvino como John Knox,
como todos os reformadores da grande revolução
religiosa do séc. XV, apelavam para as Escrituras
canônicas, como tribunal de suprema instância. Acima
das tradições dos doutores da Igreja, acima dos bispos,
papas e concílios, estava para eles a Palavra de Deus, as
Santas Escrituras, a Bíblia, dada aos homens por divina
inspiração dos Profetas e dos Apóstolos do Senhor.
A Bíblia foi a fonte sagrada da Reforma, o
fundamento inconcusso dos Reformadores, que a
89
consideravam a “única regra infalível da fé e prática” e
“o juiz de controvérsia”.
Para o Romanismo “a regra de fé e prática” é a
Bíblia e a Tradição. Reconhece Roma que a Bíblia é a
Palavra de Deus, mas declara-se incompleta e obscura,
ensinando o sacrílego absurdo de que à Tradição
incumbe completa-la e interpretá-la.
A Tradição é, no sistema romanista, a Palavra de
Deus não escrita, o ensino oral de Cristo e dos Apóstolos,
transmitido de boca em boca, e registrado na vasta e
indeterminada literatura dos escritores eclesiásticos.
Como de pronto se percebe, essa palavra divina não
escrita não é mais que as opiniões e ideias de escritores,
bispos papas e concílios sobre a palavra escrita e sobre
assuntos morais e religiosos.
Como opinião, a Reforma não desprezou a
Tradição, mas subordinou-a francamente à Bíblia, e
afirmou apenas a supremacia das Santas Escrituras.
A opinião dos doutores e dos doutos sobre a
interpretação ou inteligência dos textos bíblicos é
valiosa na medida em que elucida evidentemente o
texto sagrado. A infalibilidade só compete à Palavra
inspirada aos Profetas, Evangelistas e Apóstolos no
texto original.
Roma arbitrariamente estende essa infalibilidade
aos infinitos e indefinitos documentos eclesiásticos, que
ela chama — tradição e “voz da Igreja”. Transviou esta
ficção as inteligências, e “a voz da Igreja, qual cabeça de
Medusa, tem petrificado o bom-senso de milhares.” Com
o decreto, porém, da infalibilidade papal, pelo concílio
do Vaticano, em 1870, a “voz da Igreja” fundiu-se na voz
do papa, e Pio IX, o primeiro infalível, assim

90
interpretando esse decreto, declarou: La tradizione son’
io! A tradição sou eu!
Operou-se uma franca evolução da autoridade
infalível no seio do Catolicismo Romano: das Santas
Escrituras passou ela virtualmente para a Tradição; da
Tradição passou nominalmente para a Igreja; a Igreja
restringiu-se ao clero, e o clero absorveu-se no papa, e
assim, de 1870 para cá, o papa tornou-se oficialmente o
órgão da infalibilidade divina na terra! Tal, no curso da
história, a marcha centrípeta da infalibilidade no
movimento centrífugo do Catolicismo Romano.
Como se percebe, esse movimento centrípeto da
autoridade infalível na esfera do dogma, seguiu a rota
das ambições do bispo de Roma na esfera política. Pio
IX, declarando — La tradizione son’ io, ecoa apenas o
absolutismo de Luís XIV, no famoso dito — L'État, c'est
moi.103
Todos os déspotas se parecem.
A tradição, porém, dos teólogos da cúria romana
tem os seus antecedentes históricos na tradição dos
doutores judaicos, marcados pelo Senhor com o ferrete
da apostasia nas páginas do Evangelho.
Seguiam os escribas e fariseus, com profundo
respeito, “a tradição dos antigos”, e chegaram mesmo
um dia a interpelar nosso Senhor Jesus Cristo, dizendo:
“Por que violam os teus discípulos a tradição dos
antigos?”. E o Senhor respondeu-lhes “E vós por que
transgredia o mandamento de Deus pela vossa
tradição?... Hipócritas, bem profetizou de vós outros
Isaías, quando disse: “Este povo honra-me com os
lábios, mas o seu coração está longe de mim. Em vão,

103
O Estado sou eu.

91
pois, me honram, ensinando doutrinas e mandamentos
que veem dos homens”. (Mateus 15:1-9)
Estas palavras de Cristo contra a “tradição” dos
doutores judaicos batem em cheio contra a “tradição”
dos doutores católicos-romanos.
A Reforma, seguindo a lição do Divino Mestre,
rejeitou grande número de tradições, que, como vimos,
se foram introduzindo na Igreja, com a invasão da
corrente judeu-pagã, durante o longo período da idade
média. Foram elas rejeitadas não só como extra-bíblicas,
mas como anti-bíblicas, tais são — o papado, a
hierarquia clerical, o sacerdócio, a transubstanciação,
missas, confissão auricular, oração pelos mortos,
indulgências, purgatório, obras super-rogatórias, culto
dos santos, das imagens e relíquias, celibato clerical,
votos monásticos perpétuos, práticas ascéticas, etc.
A Reforma deu a Bíblia a todas as classes. Traduzida
na língua do povo, foi ela mais lida em um ano do que
nos quinze séculos anteriores. Antes de 1518 tinha
havido dela quatorze edições.
A Bíblia aberta foi sempre o pesadelo de Roma: Pio
IV proibiu, em 1564, a leitura da Bíblia, sem a permissão
do bispo ou do inquisidor; Clemente VIII (1598) só
consentiu com a permissão da Congregação do índex;
repetiram essa proibição condicionada Gregório XV, em
1622, e Clemente XI, em 1713. Não só deram os
Reformadores a Bíblia ao povo, e lhe reconheceram a
roubada investidura e suprema autoridade em matéria
de fé e prática, mas ainda proclamaram o direito do livre
exame.
Ao pesadelo da Bíblia aberta trouxe mais a Reforma
o espantalho do livre exame. Roma tinha razão: a Bíblia

92
franqueada e interpretada livremente pelo bom-senso
universal era uma ameaça a suas falsas tradições.
Exaltou a Reforma a Palavra de Deus: a “Bíblia, só a
Bíblia, nada senão a Bíblia” — eis a religião do
Protestantismo evangélico. Solum verbum Dei condit
articulos fidei.
Código inspirado, tornou-se a Bíblia o que era
primitivamente — a pedra de toque das tradições. A
tradição sem a verdade, escrevia S. Cipriano, no séc. III,
ao papa Estêvão, a quem ele acusava de cegueira, dureza
e obstinação, a tradição sem verdade é a velhice do erro.
Consuetudo sine veritate vetustas erroris est.
Como código cristão, a Bíblia segue a sorte e os
intuitos de todos os códigos: ela se patenteia à
inteligência e interpretação de todos os interessados,
que são os homens de todas as classes.
Essa inteligência, porém, não é, nem pode ser
arbitrária. O “livre exame” não quer dizer arbítrio, como
a liberdade não quer dizer licença. O abuso, embora
inevitável na atual contingência humana, não proscreve
o direito básico da liberdade e livre exame.
Para dirimir dúvidas na compreensão de um artigo
obscuro da lei, recorre-se às luzes superiores de um
jurisconsulto; esse recurso, porém, é apenas um auxílio,
valioso muito embora, que não anula, nem substitui o
critério individual da parte interessada. Assim com a
Bíblia: nos passos de difícil interpretação buscam-se as
luzes de pessoas ou fontes autorizadas, sem que isso tire
o direito e a responsabilidade individual na reta
inteligência do texto sagrado. Em última análise, o
tribunal de suprema instância em matéria religiosa, o
judicium contradictionis, é a Palavra de Deus entendida
ou interpretada pela parte responsável.
93
“Se eu tenho de responder por mim, devo por mim
mesmo julgar: não pede haver imputabilidade, onde não
há discernimento.”
A responsabilidade individual em seguir a verdade
religiosa, implica forçosamente a liberdade individual
na aquisição inteligente dessa verdade. Sem liberdade,
não pode haver responsabilidade. Não se poderia
compreender que fosse o homem responsabilizado pela
prática de certas verdades ou erros, se lhe tolhessem o
direito de examiná-los livremente. O direito, pois, do
livre-exame e da interpretação privada da Bíblia, brota
espontâneo da responsabilidade pessoal.
Acima, porém, de tudo isso, temos o fato de que
esse direito reconhece-o a Palavra de Deus, e promete
guiar o seu exercício sincero com a assistência do
Espírito Santo. Basta considerar que as epístolas dos
Apóstolos são dirigidas ao povo cristão, a fim de que
cada um entenda, obedeça e siga aos seus ensinos. São
terminantes as seguintes passagens: (Romanos 1:7, 1
Coríntios 1:2, 2 Coríntios 1:1, Gálatas 1:2, Efésios 1:1,
Filipenses 1:1, 1 Pedro 1:1, 2 Pedro 1:1, 1 João 2:12-14).
“Examinai as Escrituras” — disse-o ainda Cristo ao
povo da Judéia (João 5:39). “Quem tem ouvidos de ouvir,
ouça” — dizia o Senhor ao expor suas parábolas (Mateus
13:9).104 “Bem-aventurado aquele que lê e ouve as
palavras desta profecia”, escreveu S. João no primeiro
capítulo do Apocalipse. (Apocalipse 1:3).105
Estes passos e muitos outros da Sagrada Escritura
importam em um reconhecimento formal do direito, e,
ainda mais, do dever do livre-exame e juízo privado no
estudo do código divino.
104
Na edição original constava Mateus 13:43.
105
Na edição original constava também João 2:27, possivelmente deveria ser 1 João 2:27.

94
Com a supremacia da Bíblia sobre as tradições dos
homens, proclamou-se a liberdade de consciência na
franca investigação dos documentos originais do
Cristianismo e na consequente inteligência ou
interpretação deles.
Foi esta a glória da Reforma, e que benefício imenso
não decorre daí para a humanidade? Quebraram-se as
cadeias seculares, forjadas pelo papado, nas trevas da
idade média, e o espírito humano pode inaugurar um
novo período na história.
De fato, negar, como faz o Romanismo, o direito
individual de indagação e compreensão das doutrinas
bíblicas é ferir de morte o sentimento de
responsabilidade pessoal, que é o nervo do caráter, e
converter o homem em um autômato facilmente
explorado pelo clericalismo ambicioso. Por isso, quando
o jesuitismo se levantou para combater a Reforma, em
seus princípios básicos, arvorou, como bandeira de
combate, um estandarte cujo símbolo significativo era
um cadáver, perinde ac cadaver.

II. Supremacia da Fé Sobre as Obras

É este o princípio subjetivo da Reforma. Não é ele


de modo nenhum a rejeição das obras, mas a sua
subordinação à fé, como a consequência está
subordinada às premissas, e a corrente à fonte.
Roma coordena as obras com a fé, como a tradição
com a Bíblia; a Reforma subordina as obras à fé, como a
tradição à Bíblia. Na teologia romana, o ato da
justificação do pecador, de seu perdão e aceitação,
95
opera-se pela fé e pelas obras, ou seja, pela graça de
Deus e pelos méritos do homem. Esse ato divino, porém,
segundo a teologia reformada, opera-se pela fé
unicamente e pela graça exclusiva de Deus. É o que
ensina S. Paulo: “Concluímos, pois, que o homem é
justificado pela fé sem as obras da Lei”. (Romanos 3:28.)
“Pela graça é que sois salvos mediante a fé, e isto não
vem de vós, porque é um dom de Deus. Não vem das
vossas obras, para que ninguém se glorie. Porque somos
feitura dele mesmo, criados em Jesus Cristo para as boas
obras, que Deus preparou para caminharmos nelas”.
(Efésios 2:8-10).
Pela fé somente, ensinam os Reformadores de
acordo com a clara doutrina da Bíblia, pela fé somente é
obtida a salvação, pela fé viva, fruto da graça divina, ou,
em outros termos, pela livre graça de Deus mediante a
fé viva em Jesus Cristo crucificado pelos nossos pecados.
As boas obras são a consequência necessária dessa fé
viva e salvadora, o fruto invariável da salvação; não a
causa meritória, mas o caminho que “Deus preparou
para caminharmos nele.” (Efésios 2:10).
A graça de Deus opera no coração dos homens, pela
Palavra, a fé; e, pela fé, as obras. A graça de Deus, que é
Deus em nós, não pode ser infrutífera. E o que exprime
Zwínglio, reformador suíço: Ubi deus, illic cura est et
studium, ad opera bona urgens et impellens.
Coordenar a fé com as obras, a graça de Deus com
os méritos humanos, é seguir francamente a heresia
pelagiana, vitoriosamente combatida por S. Agostinho.
Roma segue, pois, a Pelágio, e a Reforma a Santo
Agostinho.
O solifidianismo ou o sola fide de Lutero é o centro
da Reforma, porque é a essência do Evangelho. Ele
96
exalta a graça de Deus em Jesus Cristo, e leva paz à
consciência despertada do pecador. A fé que salva, como
diz um escritor, e, no sentido bíblico ou evangélico, a
força vital, que põe em atividade todas as faculdades do
homem apreende e apropria a mesma vida de Cristo e
seus benefícios. E ela filha da graça e mãe das boas
obras. E a causa eficiente dos grandes pensamentos e
dos grandes feitos. Separar, pois, a fé das obras ou as
obras da fé. “o mesmo é que separar o fogo do calor, ou
o brilho da luz”.
“O elemento característico do Cristianismo é a
grande ideia da graça, do perdão, da anistia, do dom da
vida eterna. O pecado separa o homem de Deus, e
impossível era o homem entrar, por si mesmo, em
comunhão com o ser infinitamente santo. A salvação
vem, pois, de Deus e não do homem. E, por isso que a
salvação pela graça distingue a religião de Deus das
religiões dos homens”. “A fé é apropriação subjetiva da
obra objetiva de Cristo”.
Roma, contaminada pela heresia pelagiana,
refutada pelo grande bispo de Hipona, obscureceu o
brilho intenso destas verdades básicas do Cristianismo.
“O justo vive da fé” (Hebreus 10:38) — é a grande
verdade bíblica, que iluminou de súbito o espírito do
humilde monge agostinho, quando, em Roma, se
arrastava de joelhos pelos degraus da escada de Pilatos,
a fim de ganhar indulgências e alcançar, pelas obras, a
vida, que, pela graça, Deus dá ao justo. “Justificados pela
fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus
Cristo”. (Romanos 5:1).
Por toda parte onde Deus constrói um templo,
Satanás levanta uma capela; onde Deus cria um homem,

97
Satanás faz um macaco, diz acertadamente notável
escritor.
Não há, neste mundo de misérias, verdades
preciosas, e não tenham sido deturpadas, sofismadas e
torcidas.
Tal tem acontecido com a grande doutrina bíblica
da graça salvadora de Deus em seu amado Filho.
Proclamada brilhantemente por S. Paulo, foi ela
pervertida por certos hereges, que julgavam que a graça
do Evangelho os dispensava de obedecer à Lei;
chamaram-se antinomianos, isto é, opostos à Lei moral.
Pressentira o Apóstolo o abuso e perguntou: “Logo
destruímos a Lei pela fé? De nenhuma sorte, antes
estabeleceis a mesma Lei”. (Romanos 3:31).
“Pois que? Pecaremos porque não estamos debaixo
da lei, mas debaixo da graça? Deus tal não permita”.
(Romanos 6:15).106
Contra tão abominável perversão da doutrina da
graça, escreve S. Tiago sua epístola, onde declara que “a
fé sem as obras é morta”. (Tiago 2:26).
Ao proclamar, no séc. XVI, essa grande doutrina de
S. Paulo, reaparecem os mesmos hereges.
Por estas satânicas perversões, porém, não são
responsáveis os Apóstolos, e tão pouco os
Reformadores.

III. Supremacia do Povo Sobre o Clero

É este o terceiro grande princípio da Reforma,


princípio social ou eclesiástico.
106
Na edição original constava Romanos 3-31.

98
Obscurecida a autoridade da Palavra de Deus e a
graça divina no plano da salvação, deu o pelagianismo
papal mais um passo, fortalecendo a hierarquia
eclesiástica, que, pouco a pouco usurpou as
prerrogativas da Igreja.
Houve uma dupla usurpação: a da autoridade
divina, que residia na Palavra de Deus, passou a residir
no clero, e a do clero, que, avocando a si os direitos da
Igreja, conseguiu dar maior prestigio a essa usurpada
autoridade, que deste do se impôs, nos rudos tempos
medievais, como o grande princípio de autoridade,
sustentáculo da ordem, do temor e do respeito social.
Se, na esfera religiosa, pudéssemos admitir o
princípio civil de prescrição, como quer Balmes, o clero,
e mormente o papa, deviam ser na terra, como
pretendem, a suprema autoridade pelo direito de
usucapião, se bem que o Dalai Lama lhe pudesse pôr
embargos à pretensão.
Sobre este terreno sagrado, porém, jamais se
poderá legalizar a usurpação, e a quem atraiçoa a Deus
e aos homens jamais conferirá direitos adquiridos a
tradição.
A Reforma não se revoltou contra a autoridade, mas
contra a usurpação da autoridade; não se insurgiu
contra a Igreja, mas contra a perversão de seu conceito.
De fato, o conceito apostólico de Igreja cristã é mui
diverso daquele que a cúria romana nos apresenta. Para
os Apóstolos da Igreja é “o povo de Deus”, “os fiéis, os
santificados em Jesus Cristo”, “a gente santa”, “o
sacerdócio real”, como se pode ver em 1 Coríntios 1:2, 2
Coríntios 1:1, 1 Pedro 2:9.
Tal conceito foi fundamentalmente alterado pelo
Romanismo, que o restringiu ao clero, absorvido no
99
papa, chefe da casta sacerdotal, senhora das chaves do
Céu e do Inferno, e mediadora entre Deus e os homens.
Assim o clero confiscou os direitos do povo de Deus e o
papa usurpou os direitos do clero. Per ecclesiam
intellegimus pontificem Romanum, Papa virtualiter est
lota ecclesia.
Ao sacerdócio universal do povo de Deus, de que
nos fala S. Pedro, substitui Roma o sacerdócio particular
de uma classe sagrada, que exclui os leigos de qualquer
participação na autoridade docente e regente da Igreja,
reservando-lhes apenas a obediência passiva, a fé
implícita.
Contra essa casta usurpadora reage francamente a
Reforma, e reivindica, para os fiéis, os direitos da Igreja,
conferidos pelo fundador do Cristianismo, os da Esposa
com acesso livre à presença do Esposo.
Ao brado enérgico dos Reformadores, caíram
cadeias seculares, e em vez de um povo passivo, sem
acesso direito a seu Deus e Salvador, criado para um
ministério ritualista, criou-se um ministério ativo para
um povo inteligente, no pleno gozo de franca entrada ao
Trono da graça.
Volveu-se à primitiva concepção evangélica dos
ministros do Senhor: deixaram eles de ser os senhores
da Igreja, para serem servos, “despenseiros das várias
graças de Deus”; deixaram de ser os sacrificadores da
corrente judeu-pagã, para se tornarem os guias eleitos
do povo na regência e docência da Igreja.
Completara-se, no movimento religioso da
Reforma, a supremacia da Bíblia e da fé pela supremacia
do povo escolhido, resgatado pelo sangue do Cordeiro
de Deus.

100
A hierocracia, que fechava a Bíblia, e encobria a
graça, cedeu o lugar a pastores que conduziam o
rebanho do Senhor às fontes das águas da vida.
O Evangelho “destronizou os padres, ídolos vivos
das nações, e levou o homem diretamente a Deus.”
Da Bíblia aberta irradiava-se intensa luz, que a
todos aclarava a senda da graça, a entrada franca ao
trono da infinita misericórdia. Às multidões
maravilhadas patenteavam-se os ricos tesouros do
amor de Deus, no dom inefável de seu amado Filho,
“para que todo o que crê nele, não pereça, mas tenha a
vida eterna.” (João 3:16)
Franqueavam-se ao povo sedento os mananciais do
Evangelho da graça de Deus. Soavam, por toda parte, os
convites do Salvador e os ensinamentos dos Apóstolos:
“Quem tem sede, venha a mim e beba.” (João 7:37) —
“Vinde a mim todos os que andais em trabalhos, e vos
achais carregados, e eu vos aliviarei”. (Mateus 1:28) —
“Aquele que vem a mim, eu não o lançarei fora.” — (João
6:37) — “Cheguemo-nos, pois, confiadamente, ao trono
da graça, a fim de acharmos graça e sermos socorridos
em tempo oportuno.” (Hebreus 4:16) — “Eu sou o
caminho, a verdade e a vida, ninguém vem ao Pai senão
por mim.” (João 14:6)
Tais ensinos eram uma ressurreição apostólica, um
sopro de vida, que arrancava o povo da letal modorra
em que o haviam sepultado os ritos estéreis, as pompas
sensuais, os métodos mecânicos de salvação, praticados
pelos hierofantes do paganismo batizado da idade
média.
Em palavras incisivas mostra E. Pelletan a
transformação religiosa produzida pela Reforma. “Entre
o padre e o fiel, escreve ele, há uma alma demais — a
101
alma do fiel. A Reforma restitui a alma ao homem, e com
a alma a faculdade de querer e agir em seu interesse. Da
liberdade interior à liberdade civil há apenas um passo.”
Traça D’Aubigné, com mão de mestre, o processo
secular do “mistério da iniquidade”, que deveria
prevalecer na Igreja até que surgisse rediviva no grande
terremoto do séc. XVI. “A Igreja, escreve esse grande
historiador, era a princípio um povo de irmãos; porém
estabeleceu, em seu seio, com o papismo, uma
monarquia absoluta.”
“Eram todos os cristãos sacrificadores de Deus vivo
(1 Pedro 2:9), oferecendo-lhe sacrifícios espirituais, sob
a direção de humildes pastores. Mas, no meio desses
pastores ergueu-se uma fronte soberba; uma boca
misteriosa proferiu palavras cheias de orgulho; uma
mão de ferro constrangeu todos os homens, grandes e
pequenos, ricos e pobres, livres e escravos, a receber a
marca do seu poder.
Perdeu-se a santidade e primitiva igualdade das
almas diante de Deus. À voz de um homem, partiu-se a
cristandade em dois campos desiguais: de um lado uma
casta eclesiástica, uma hierarquia de padres, que ousa
usurpar o nome da Igreja, e que se diz revestida, aos
olhos do Senhor, de grandes privilégios; de outro lado,
rebanhos servis, reduzidos a uma submissão cega e
passiva, um povo amarrado e amordaçado, entregue a
uma casta soberba. Toda a tribo, língua e nação da
cristandade sofreram a dominação desse rei espiritual,
que recebeu o poder de vencer.”
No grande movimento do séc. XVI, reagiu o povo de
Deus contra esse absolutismo hierocrático usurpador, e,
reivindicando os seus direitos, restabeleceu a república
cristã dos tempos apostólicos.
102
Origem do Nome Protestante

De um protesto solene em prol da liberdade de


consciência devia receber a Reforma o nome que
caracteriza o seu papel na história.
Corria o ano de 1529. Acabava de baixar ao túmulo
Frederico, o Magnânimo, príncipe da Saxônia, protetor
de Lutero.
Graves acontecimentos tinham, na Alemanha,
enfraquecido a Reforma e o prestígio de Lutero, tais
como a desinteligência dos príncipes, a revolta dos
nobres e a dos camponeses, a dissenção entre os
próprios Reformadores.
De outro lado, novos sucessos vinham fortalecer
seus adversários. Chegara o imperador Carlos V ao auge
de seu poder. Triunfara em Pávia de seu rival, Francisco
I, rei da França, que “tudo perdera, exceto a honra”;
repelira o turco nas fronteiras orientais.
Entretanto, por um ato inesperado da Providência,
a borrasca, que devia alagar a Reforma, desabou sobre o
Vaticano.
Indignado com a política traiçoeira do papa
Clemente VII, Carlos V anulou os decretos da dieta de
Worms (1521), concedeu na dieta de Speyer de 1526
amplas regalias aos partidários da Reforma. Captando
assim, o apoio deles invadiu a Itália com um exército
composto de alemães e espanhóis, em 1527. Tomou
Roma de assalto; o papa refugiou-se no Castelo de Santo
Ângelo, e a cidade foi, por dez dias, entregue ao saque,
que nada poupou. Foi só depois de terem arrancado um
103
despojo de dez milhões de escudos de ouro, e
sacrificado de cinco a oito mil vidas, é que “a ordem e a
paz começaram a se restabelecer um pouco.”
Vencido, humilhado e prisioneiro, pagou o papa o
resgate de quatrocentos mil ducados, e, a 29 de junho de
1528, assinou com o Imperador o tratado de Barcelona,
que encerava, o compromisso básico de destruir a
Reforma. A esse fim foi convocada a segunda dieta de
Speyer para 21 de ferreiro de 1529. O momento era de
angústia; pairava no ar séria ameaça.
Ia a Reforma acrisolar-se no cadinho de terríveis
provações. Contra ela mancomunaram-se em pacto
sangrento os dois despotismos que dominavam a
Europa, sem contraste. “Funestos presságios agitavam
os espíritos. Em pleno janeiro, uma grande luz
iluminava repentinamente noite profunda”, escreve
D’Aubigné. Ordens terminantes do Imperador ao rei
ornando seu irmão, que em seu nome devia presidir à
dieta, anunciavam a abolição das regalias concedidas na
dieta de Speyer de 1526 e a restauração do édito de
Worms de 1521. Eram cassados todos os decretos de
tolerância, todas as garantias aos reformadores; era
proibida a pregação da Palavra e Deus, a propaganda do
Evangelho e retirada, sob severas penas temporais, toda
liberdade de consciência.
O rei Fernando, da Hungria, irmão de Carlos V,
publicou, como nos conta D’Aubigné, a seguinte tarifa de
crimes e penas:

Crimes Penas
Deixar de ir a confissão. Prisão, multa.
Falar contra o purgatório. Banimento.

104
Falar contra os santos. Prisão, banimento e outras
penas.
Dizer que Maria era mulher Castigo corporal, confiscação
como as outras. ou morte.
Tomar a Santa Ceia à moda Idem; e confiscação ou
herética. arrazamento da casa onde
tivesse sido celebrada a ceia.
Consagrar o sacramento sem Morte pela espada, pela água
ser padre romano. ou pelo fogo.
Negar a humanidade ou Morte pelo fogo.
divindade de Cristo.

Diante desta intolerância papista, ameaças e franco


despotismo, ao lado de promessas e solicitações, alguns
príncipes, como sói acontecer, amendrontados,
bandearam-se, e uma maioria subserviente revelou, na
dieta, a extrema arrogância e violência do partido
católico-romano.
Nesta atmosfera borrascosa, pejada de raios, ergue-
se, entretanto, intrépida a minoria, composta de
príncipes representantes das cidades imperiais, e
perante a dieta lavra imortal protesto, em nome da
liberdade da consciência iluminada pela Palavra de
Deus, contra a revogação do decreto de tolerância da
dieta anterior e contra a anulação das formais
promessas da palavra imperial.
Eis o protesto em sua íntegra:
“Caros senhores, primos, tios e amigos! Tendo
vindo a esta dieta, por convocação de S. Majestade e
para o bem comum da cristandade da última dieta,
concernentes a nossa fé cristã, deverão ser suprimidas
e substituídas por outras resoluções restritivas e
embaraçosas.

105
Entretanto, o rei Fernando e os outros comissários
imperiais, impondo os seus selos ao “último decreto de
Espira, haviam prometido, em nome do Imperador,
cumprir sincera e inviolavelmente tudo quanto aí se
continha e não permitir nada que lhe fosse contrário. E
do mesmo modo, vós e nós, eleitores, príncipes,
prelados, senhores e deputados do Império, nós nos
comprometemos então a manter sempre, e com todas as
nossas forças; todos os artigos deste decreto.
Nós não podemos, pois, consentir em que ele seja
suprimido.
Não o podemos, primeiro, porque cremos que S.
Majestade Imperial, bem como vós e nós somos
chamados a manter com firmeza o que foi unânime e
solenemente resolvido.
Não o podemos, em segundo lugar, porque se trata
aí da glória de Deus e da salvação das almas, e porque
em tais assuntos devemos olhar antes de tudo o
mandamento de Deus, que é o Rei dos reis, o Senhor dos
senhores; tendo cada um por si de dar conta, sem de
nenhum modo nos importarmos com maioria ou
minoria.
Não formulamos nenhum juízo, caríssimos
senhores, sobre o que vos diz respeito; e nos
contentamos em orar diariamente a Deus que nos faça a
todos chegar à unidade da fé, na verdade, caridade e
santidade, por Jesus Cristo, nosso trono de graça e nosso
único Mediador.
Pelo que nos diz respeito, porém, aderir à vossa
resolução (julgue-o todo homem honesto) fora agir
contra a consciência, condenar uma doutrina que
julgamos cristã, e deparar que deve ela ser abolida em
nossos Estados, se o pulássemos fazer sem dificuldade.
106
Seria isso negar a nosso Senhor Jesus Cristo, rejeitar sua
Santa Palavra, e lhe dar justos motivos para que ele nos
renegue, por seu turno, diante de seu Pai, como nos
ameaçou.
Quê! Declararíamos, aderindo a este decreto, que,
quando o Deus todo-poderoso chama um homem a seu
conhecimento, não é este homem livre para receber o
conhecimento de Deus! Oh! de que mortais quedas não
nos tornaríamos deste modo cúmplices, não somente
entre os nossos súditos, nas também entre os vossos!
É esta a razão por que rejeitamos o jugo que se nos
impõe.
E, embora seja universalmente conhecido que, em
nossos Estados, o santo sacramento do corpo e do
sangue de nosso Senhor é convenientemente
administrado, não pode nos aderir ao que propõe o
decreto contra os sacramentários, uma vez que deles
não falava a convocação imperial, nem oram eles
ouvidos, além de que não se podem decidir pontos tão
importantes antes do próximo concílio.
Ademais, estabelecendo o novo decreto que devem
os ministros ensinar o santo Evangelho, explicando-o
conforme os escritos aceitos pela santa Igreja cristã,
julgamos que, para que esta regra tenha algum valor,
necessário seria que estivéssemos de acordo sobre o
que se entende por esta verdadeira e santa Igreja. Ora,
uma vez que há sobre este ponto grandes
dissentimentos; que não há doutrina certa senão aquela
que é conforme a Palavra de Deus; que o Senhor proíbe
ensinar diferentemente; que cada texto da Escritura
Sagrada deve ser explicado por outros textos mais
claros; que este santo livro é, em todas as coisas,
necessário ao cristão, fácil e próprio para dissipar as
107
trevas, nós estamos resolvidos, com a graça de Deus, a
manter a pregação pura e exclusiva de sua só Palavra,
tal como é contida nos livros bíblicos do Velho e do Novo
Testamento, sem nada lhe ajuntar, que lhe seja
contrário.
Esta Palavra é a única verdade; é ela a norma
segura de toda doutrina e de toda vida, e não pode
jamais falhar ou enganar.
É por isso, caríssimos senhores, tios, primos e
amigos, que cordialmente vos suplicamos que
pondereis com cuidado nossas queixas e nossos
motivos. Mas, se vós não atenderdes à nossa petição, nós
PROTESTAMOS, pelas razões expostas, diante de Deus,
nosso único criador, conservador, redentor e salvador,
e que será um dia nosso juiz, e diante de todos os
homens e todas as criaturas, que não consentimos nem
aderimos, de maneira nenhuma, por nós e pelos nossos,
ao decreto proposto, em tudo o que for contrário a Deus,
à sua Santa Palavra, à nossa boa consciência, à salvação
de nossas almas e ao último decreto de Espira.
Ao mesmo tempo, nos persuadimos que S.
Majestade Imperial procederá para conosco como um
príncipe cristão que ama a Deus acima de tudo, e nós nos
declaramos prontos a lhe prestar, assim como a vós
todos, graciosos senhores, toda a afeição e toda a
obediência, que são nosso justo e legítimo dever.”
Foi lavrado este célebre Protesto a 24 ne abril de
1529, e assinado por seis príncipes e quatorze cidades,
seguintes: João, eleitor de Saxe; Jorge, margrave de
Brandeburgo; Ernesto e Francisco, duques de
Luneburgo; Felipe, ladengrave de Hesse, e Wolfang,
príncipe de Anhalt; e as cidades: Estrasburgo,
Nuremberg, Ulm, Constança, Lindau, Memmingen,
108
Kempten, Nordligen, Keeilbronn, Reuttingen, Issny,
Wissenburgo e Winsheim.
Neste heroico protesto temos a nobre origem do
nome protestante dado aos adeptos da Reforma, e de
protestantismo ao movimento reformador.
É, pois, o nome, no decurso das gerações, o
depositário histórico de uma afirmação soleníssima da
liberdade de consciência, centro e vida de todas as
liberdades; é a repulsa firme magnânima da intrusão do
poder civil e do poder eclesiástico na esfera sagrada dos
direitos inalienáveis da personalidade humana. E mais,
porventura: é a afirmação sublime da soberania
exclusiva de Deus e de sua Palavra infalível sobre a
consciência moral do homem.
Foi um protesto de fé, antes de que de política. Nos
seus escudos e nos braços de seus servidores, traziam
esses nobres paladinos dos direitos do homem, na
esfera temporal e espiritual, a insígnia divina — V. D. M.
AE. — que significa Verbum Domini manet in æternum
— a Palavra de Deus permanece para sempre (1 Pedro
1:25). Neste lema sagrado temos o segredo de seu
heroísmo.
Pilatos e Caifaz, o trono e o altar, Carlos V e
Clemente VII, combinaram novamente a crucificação de
Jesus Cristo na pessoa de sua Igreja. Esta teve o seu
Getsemani nos três primeiros séculos. Palmilhou a via
dolorosa percorrida por seu celestial Esposo; e,
conduzida pelos esbirros do Sumo Pontífice, através da
noite medieval, passou do átrio do Vaticano ao pretório
do Imperador. Em Espira contra ela vociferou a
intolerância sangrenta do papismo. Foi então que se
ouviu o brado vitorioso da consciência emancipada, o

109
qual, oito anos antes, na dieta de Worms, irrompera dos
lábios frementes do monge de Wittenberg.
Do nome protestantismo tem-se dito que a
Reforma é meramente negativa. Mero sofisma de
advogados em apuros. O negativismo é estéril, e só a fé
positiva, que resplandece nesse documento, que
penetra e inspira cada uma de suas expressões, é que
pode explicar a robustez vital das raças, que abraçaram
a Reforma. Quatro séculos de vida intensa dos povos
reformados insurgem contra a falaciosa alegação.
As fórmulas negativas encerram, não raro,
enfáticas afirmações. Quem não vê no negativismo do
Decálogo a afirmação solene das mais sublimes
virtudes, e no non possumus do Vaticano a declaração
positiva do mais ferrenho absolutismo eclesiástico?
O brado triunfante de 89 foi um eco de Espira, e
antes que a revolução gravasse, no código da
humanidade, os “direitos do homem”, inscreveram-nos,
na consciência dos povos, os heróis de 1529.
Mas, o “Protesto” não foi tão somente a repulsa à
invasão tirânica do poder civil e eclesiástico no
santuário inviolável da liberdade individual; transpiram
desse documento, extremadas e amplas, urna afirmação
e uma negação soleníssimas: o reconhecimento positivo
da soberania exclusiva e direta da Palavra de Deus em
matéria religiosa, e a rejeição peremptória dos
elementos estranhos, acrescidos ao credo cristão na
romanização paganizante com o volver dos séculos
tenebrosos da barbárie mediévica. Há nesse documento
a discriminação nítida entre o catolicismo apostólico e o
romanismo anti-apostólico.

110
Diante, pois, da história imparcial, o
Protestantismo outra coisa não é que o Catolicismo
primitivo sacudindo de si o Romanismo papal.

Simultaneidade e Progresso da Reforma

É digno de nota o caráter simultâneo e harmônico


da Reforma nos diversos países da Europa. Sem acordo
prévio, rebenta, quase ao mesmo tempo, o incêndio, cujo
facho preparara a mão da Providência.
Em França, já em 1512, proclamara Lefèvre
d’Étaples o perdão dos pecados pelos méritos
exclusivos de Cristo, e logo aí apareceram como seus
cooperadores e continuadores — Farel, Calvino,
Roussel, Wolmar, Viret, Marot, Olivetan, Beza. Em 1555
formou-se a primeira congregação em Paris, e aí
reuniram-se o primeiro Sínodo em 1559.
Em 1558 fala Beza de haver em França 400000
membros de igrejas reformadas, as quais eram
computadas em 2150 a 2500, quartoze anos mais tarde
(1572).
Eram eles apelidados huguenotes, corruptela,
segundo opinião mais generalizada, do alemão
Eidgenossen — confederados.
Em 1516, substituiu Francisco I a Pragmática
Sanção (1438) por uma Concordata com a cúria romana,
que cerceava as regalias da igreja galicana, mas fazia
praticamente do rei o chefe da igreja. Nestas
circunstâncias a Reforma encontrava em França o que a
Igreja primitiva encontrou no império romano — a
dupla oposição do trono e do altar. Assim o movimento
111
reformador que não somente ganhava o favor do povo,
mas principalmente das classes nobres, chefiadas pelos
príncipes de Navarra, era considerado não somente
como uma rebelião contra Roma, mas contra o Estado.
Chefiavam os duques de Guise o partido papal que, em
três guerras civis, se propôs o extermínio da heresia
huguenote. Como nos séculos primitivos, o sangue dos
mártires foi a semente da Igreja, que se propagou
admiravelmente “sob a cruz”, até que com o despotismo
de Richelieu e a revogação do édito de Nantes em 1685,
sob Luís XIV, empobreceu-se a França pela larga
emigração de huguenotes, que foram levar a Holanda, a
Inglaterra, e à Prússia aquela prosperidade e força, que
provocou à catástrofe de 1870.
Na Suíça anuncia Zwínglio, antecipando Lutero, em
1516, a verdade evangélica aos monges de Einsiedeln,
seguido de Oecolampadius, Farel, e do grande Calvino,
que, perseguido na França, veio estabelecer em Genebra
(1536-1564) uma nova sede da Reforma. Foi ele o Paulo
do Cristianismo restaurado, de que Lutero era o Pedro.
Espírito organizador, gênio especulativo e profundo,
vontade perseverante e inquebrantável, sua influência
estendeu-se larga e intensamente no movimento
reformador.
Na Escócia, a voz forte de John Knox, P. Hamilton,
Wishart e outros, fez soar as boas novas de um
cristianismo escoimado de mescla pagã.
Na Inglaterra, encontrou a Reforma condições
especialíssimas, que convém de ligeiro narradas.
Antes que a reforma penetrasse no reino britânico,
operava-se aí uma reforma político religiosa de um
caráter inteiramente negativo.

112
Henrique VIII, segundogênito de Henrique VII,
destinado ao estado eclesiástico, subiu ao trono em
1509, por morte sucessiva de seu irmão e de seu pai.
Casara-se, por dispensa papal, com D. Catarina de
Aragão, viúva de seu irmão e tia do imperador Carlos V,
apesar dos protestos de Warham, arcebispo de
Cantuária, que julgava tal enlace contrário às Escrituras
Sagradas.
Exigiam os papas a vassalagem da Inglaterra, desde
que João Sem Terra a enfeudara ao trono pontifício.
Reagiram os reis e os nobres contra a afronta da
supremacia papal. Nesta luta patriótica empenhara-se o
altivo representante da casa dos Tudors.
Católico romano, imbuído na Suma Teológica de S.
Tomás de Aquino, em que se amestrara, o seu programa
de reforma religiosa não ia além de substituir o papa
pelo rei. Ele rejeitava tão somente a intromissão da
autoridade pontifícia nos domínios ingleses, e
constituía-se como chefe de Estado, cabeça da Igreja
inglesa, mantendo com aferro os dogmas do catolicismo
romano.
Mereceu-lhe o zelo ortodoxo o título de Defensor da
fé (Fidei Defensor), quando em 1521 desceu à liça para
se opor a Lutero, publicando o seu Assertio septem
sacramentorum contra O cativeiro babilônico da Igreja,
o que expôs às setas aceradas do reformador teutônico.
Clemente VII confirmou-lhe o título em 1523.
Auxiliado pelos humanistas Colet, Tomás More e
Erasmo de Roterdã, pelo ambicioso cardeal Wolsey, por
T. Cromwell e Cranmer, reagiu ele contra a cúria
romana, e à mão tente obrigou o clero inglês a
reconhecer a supremacia da coroa.

113
Nesta luta secular do poder civil contra as invasões
do poder eclesiástico, do Estado contra a Igreja, um
incidente veio inflamar o zelo de Henrique VIII.
Despertou-lhe o cardeal Wolsey escrúpulos sobre a
legitimidade de seu casamento com sua cunhada, e a
paixão, que concebera por Ana Bolena, exacerbara-lhe o
pungir da consciência. Pede ao papa anulação de seu
consórcio. De bom grado o faria Clemente VII, do que
deu prova, se não fora a espada vitoriosa de Carlos V, tio
de Catarina. Exasperado pela atitude dúbia do papa,
despreza a sua autoridade, e a anulação é proclamada
pelo Parlamento e pelo arcebispo de Cantuária, em
nome da Igreja inglesa. Desposou o rei em 1532 Ana
Bolena.
Uma série de decretos do Parlamento cortara breve
os elos que prendiam a Igreja da Inglaterra à cúria
romana. O decreto da Submissão do Clero, promulgado
em 1531, foi ratificado pelo Parlamento em 1543.
Estava criada a Ecclesia Anglicana e o rei declarado
“a única cabeça suprema, no mundo, da Igreja da
Inglaterra”.
Uma tal reforma política era apenas uma mudança
de cabeça terrestre, e a vitória do Estado contra a
supremacia política de Roma.
Para mostrar, escreve o historiador Lindsay, que
todos esses atos não tinham em vista reforma alguma
religiosa, mas somente uma separação política da Igreja
de Inglaterra quanto ao papado, promulgou o
Parlamento uma lei sobre heresia, condenando os
hereges à fogueira, e dando ao rei, como a cabeça da
Igreja, o direito de assim purificá-la, conservando-se fiel
aos métodos do papa.

114
Em virtude desse decreto, mandou Henrique VII
muitos adeptos da Reforma para a fogueira, tais como T.
Bilney, Bayfield, Tewhesbury e J. Bainham, e ao
cadafalso os que se conservavam fiéis a Roma, entre os
quais Tomás More e o bispo Fisher.
Para mostrar ainda mais o seu antagonismo à
Reforma, e a adesão aos dogmas romanistas, fez passar
o voto da Convocação, em 1536. Os dez artigos, que
afirmavam muitos dogmas e práticas repelidos pela
Reforma, tais como a regeneração batismal, a confissão,
transubstanciação, o uso de imagens, o culto dos santos,
a água benta, o purgatório e as orações pelos defuntos.
Em 1539, os chamados Seis artigos ou Artigos
sanguinários, como lhes chamava o povo, destinavam à
fogueira quem negasse as doutrinas supra, o celibato do
clero, a missa, a confissão auricular.
Nestes sentimentos católicos morreu, em 1547,
esse monstro de crueldade, deixando ainda
encomendadas, em seu testamento, missas em sufrágio
de sua alma. Viveu católico romano e católico romano
morreu, embora excomungado.
Chama-lo reformador da Inglaterra, e fundador do
protestantismo inglês é afrontar os fatos históricos. Por
isso escreve D’Aubigné: Dire que Henri Tudor fut le
réformateur de son peuple, c’est ignorer l’histoire.
Posteriormente, porém, apareceu, ao lado desta
reforma política e em oposição a ela, um movimento
genuíno de reforma religiosa, que obedecia
francamente ao apelo de Wittenberg e Genebra.
Em 1524 e 1525, começa a aparecer em Londres o
Novo Testamento traduzido em inglês por G. Tyndale e
em 1535 a Bíblia traduzida por Coverdale. É este o início
do profundo movimento religioso que deu a Inglaterra
115
à Reforma. Ao lado de Tyndale e Coverdale, surgem
Cranmer, J. Rodgers. T. Bilney, J. Fryt, J. Hoaper, Latimer,
Tewkesbury e outros.
Por morte de Henrique VIII, subiu ao trono seu filho
Eduardo VI (1547-1553). Tendo este abraçado
sinceramente o Protestantismo, deu forte impulso à
propaganda da Reforma na Inglaterra, durante seu
curto reinado.
Morto ele, foi coroada Maria, cognominada a
Sanguinária (1553-1558), filha de Catarina de Aragão,
fanática pelo Romanismo. Sangrenta foi a reação, que
atirou às chamas nobres mártires da Reforma. Seus
cruéis esforços, porém, atearam ainda mais o incêndio,
e no longo reinado de sua sucessora Isabel (1558-1603),
firmou-se de vez o Protestantismo na Inglaterra.
Não foi isolada a voz do monge de Wittenberg;
brados simultâneos reforçaram os másculos acentos de
seu verbo inflamado, um meio elástico repercutiu, por
toda parte, o nobre protesto de Espira.
Nessa simultaneidade maravilhosa descobre-se o
dedo de Deus.
Rápido e fulminante foi o progresso da Reforma.
Em poucos anos, dominou os Estados germânicos, a
Suíça, os países Baixos, a Dinamarca, a Suécia, a
Noruega, a Inglaterra, a Escócia; estendeu à Polônia, à
Áustria, à Boêmia; penetrou largamente em França, e
repercutiu na Itália, Espanha e Portugal.
Vejamos como o papado pode deter o passo
triunfante à marcha acelerada da Reforma, nos países
do ocidente e do sul da Europa.

116
Perseguições

Do regaço de seu absolutismo acordou o papado,


como Sansão do colo de Dalila. Sentiu tremer o sólio
pontifical, firmado apenas na terra fofa das superstições
medievais.
Não se tratava, como a princípio supusera Leão X,
de uma arenga de frades; tão pouco de ciúmes de
conventos, como levianamente declararam Voltaire e
Bossuet. Era a consciência ferida pela luz da verdade,
que reagia heroica contra o cesarismo papal e as
erronias judeu-pagãs, que haviam deformado a Igreja.
Séria era a ameaça; urgiam medidas enérgicas.
Importava circunscrever o incêndio, e jugular o
movimento reformista.
Ergue-se sangrenta a tiara; atiça as fogueiras da
Inquisição e a sanha dos reis, fulmina anátemas.
A seu aceno, desembainham contra a Reforma o
gládio temporal e movem-lhe crua guerra embriagando-
se com o sangue de milhares de mártires, Carlos V,
Francisco I, Carlos IX, Catarina ne Médicis, Felipe II,
Maria, a Sanguinária.
Soa a hora do martírio, e Roma papal leva a palma
a Roma imperial no número das vítimas e na crueldade
dos suplícios.
Tratando da intolerância do catolicismo romano, já
assinalamos os fatos que, na história, clamam aos céus
contra o espírito satânico de crudelíssimas
perseguições provocadas pela infalibilidade da Santa
Madre de Roma.

117
Apenas aduziremos aqui, de caminho, mais
algumas considerações sobre a intolerância feroz do
Romanismo.
O hórrido tribunal do Santo Ofício, fundado por
Inocêncio III, no concílio de Tolosa, em 1229,
representou papel proeminente na reação contra o
movimento reformador.
Nos seus anais registra ele, segundo Llorente, só na
Espanha até 1809, as seguintes vítimas: 31912,
queimados vivos 17659, queimados em efígie; 291450,
presos, etc., como penitentes. — Total — 341021.
Às chamas desse negro tribunal foram lançados
ilustres reformadores, tais como — Henrique Voes, J.
Esch, Wishart, Hamilton, Kaiser, Cranmer, Latmer,
Ridley e outros muitos.
Os autos-de-fé sufocaram a Reforma na Espanha e
em Portugal.
Na França, em solene procissão de desagravo, fazia
Francisco I queimar os huguenotes; a horrenda
carnificina de S. Bartolomeu ensanguenta Paris e a
nação, enchendo de festivo júbilo a Santa Sé; a cruel
revogação do édito de Nantes (1685) os horrores das
dragonadas cobrem a França de luto, e de pavor a
Europa.
Nos Países Baixos, o célebre duque de Alba
suplanta a Nero em requintes de maldade, sacrificando,
em seis anos, sobre o altar de Roma papal cem mil vidas!
Nesse banquete de sangue, teve o Brasil o seu
quinhão. Jacques le Balleur, que com outros ministros
viera ao Brasil, em 1555, trazidos por Villegagnon, Caim
da América, foi enforcado, auxiliando ao carrasco o Pe.
José Anchieta. Três outros companheiros seus foram
lançados ao mar, na baía do Rio de Janeiro.
118
Foi longo e abundante o batismo de sangue da
Reforma, e se não contou os trezentos anos de martírio
no Cristianismo primitivo, forneceu, em compensação,
mais número de vítimas.
Conseguiu o papado, com tais crueldades, paralisar
o movimento reformador nos países meridionais da
Europa; nos do Norte, porém, ele se consolidou e
desenvolveu.
Retemperado no heroísmo de seus mártires, a
Reforma deu às raças setentrionais a expansão e a
têmpera vitoriosa, que as distinguem.
Os quatrocentos anos decorridos até hoje lhe têm,
à larga, tirado a prova do valor de seus princípios
sociais.
Apregoa bem alto a valia de seu influxo civilizador
a hegemonia saxônica nas relações mundiais e a criação,
por ela, de uma nação ao norte do novo continente, que
tem deslumbrado o mundo com o assombro de seu
progresso.

A Reforma e os Abusos

Não foi, por certo, impecável a Reforma: abusos


houve e abusos tem havido na prática de seus grandes
princípios: errare humanum est. Nas grandes agitações
dos povos, não raro a liberdade se converte em licença,
e a tirania demagógica arremeda a opressão das
oligarquias ou o absolutismo dos despostas. O abuso,
porém, de um princípio tem nesse mesmo princípio a
sua condenação e corretivo, e em nada lhe deve tirar o
prestígio e o valor.
119
Quando o açoite da borrasca levanta as ondas
alterosas do oceano, estas se precipitam na praia,
revolvendo a vasa, e no seu vasto lençol cristalino flutua,
muitas vezes, o lixo que dormia no fundo, manchando a
limpidez das águas. Assim sempre nas grandes
revoluções, que agitam as sociedades humanas. Não se
julga a onda pela vasa revolta, nem as revoluções pela
escória agitada.
Onde e quando o sopro ardente de uma ideia nova
deixou de inflamar adeptos e despertar intolerância,
fruto inevitável da estreiteza humana? Ai da ideia, se a
formos aquilatar pelas manifestações espúrias do
farisaísmo inerente ao coração dos homens!
Seria injusto aferir os nobres princípios da
Revolução Francesa pelos excessos dos jacobinos ou
pelos instintos sanguinários de Marat e Robespierre. As
pobres vítimas da Gironda empaparam, com seu sangue
generoso, a praça, onde se erguia a guilhotina; porém
“os direitos do homem”, proclamados pelo grande
movimento revolucionário do séc. XIX, provocam o
respeito universal, e a tomada da Bastilha é no mundo a
festa da liberdade. É que a liberdade, como a chama, é
sempre pura, embora muitas vezes alimentadas na
escória da sociedade.
E que diríamos do próprio Cristianismo, se o
fôssemos julgar pelos heresiarcas, que surgiram em
barda, pelos “falsos irmãos” e “falsos apóstolos”, de
quem já nos fala S. Paulo, e que exploravam a candidez
dos discípulos primitivos? Entretanto, nada perdeu a
religião cristã com a hipocrisia e escândalos desses seus
pseudo adeptos.
Como todos os sistemas e todas as revoluções
sociais, seguiu a Reforma os trâmites e acidentes da
120
contingência humana. Deixara ela de ser humana,
providencial, sincera, verdadeira, se outra fora a sua
sorte.

A Reforma e o Cristianismo

No julgamento, porém, dos sistemas religiosos, que


têm reunido adeptos, incorporando-se no movimento
histórico de um povo, importa, antes de um juízo
sintético, separar, em um estudo analítico, os princípios
e os seus agentes, a teoria e a sua prática. A razão dessa
análise é que circunstâncias podem existir que impeçam
a natural correspondência entre os princípios e os seus
propagandistas e adeptos, entre a teoria e a prática.
Homens há que são melhores que seus princípios; e
outros inferiores a eles.
Julgada em si, independentemente de seus
promotores e seguidores, é a Reforma a reafirmação
solene das puras doutrinas do Cristianismo, e uma
repulsa enérgica de todos os usos e costumes, ritos e
práticas, doutrinas e ordenanças, contrários à Palavra
de Deus. E ela uma afirmação positiva por ocasião de
uma negação oportuna. Talvez melhor a
caracterizemos, dizendo que a Reforma é o próprio
Cristianismo reafirmando os seus grandes dogmas e
gloriosos princípios em face dos erros, que, na teoria e
na prática, o traziam deturpado.
A Reforma, como muito bem o disse o Conde
Agenor de Gasparin, não é nem uma ideia, nem um
sistema propriamente: ela é Cristo, Cristo nossa
salvação, Cristo nossa esperança, Cristo a quem abraça
121
inteiro a consciência em agonia. Ela nasceu, pois, das
profundezas do espírito humano.
Não havia entre os Reformadores, continua o
mesmo escritor, a pretensão nem de revelar uma
religião, nem de fundar uma Igreja.
O protesto da Reforma, que lhe adjudicou na
história o nome do Protestantismo, foi um mero
acidente em que ela se ergueu, cheia de dignidade e
coragem contra os opressores da consciência, que
tinham em Roma o seu chefe.
Fazer desse acidente histórico um argumento para
provrar que a Reforma é meramente negativa, como faz
Bossuet, Balmes, e os que lhes seguem a traça, é
evidentemente deturpar os fatos e zombar do bom
senso.
Longe de ser meramente negativa, como já
mostramos, foi a Reforma a afirmação que salvou a
Europa do negativismo da Renascença.
Medi, escreve o Conde de Gasparin, o abismo em
que nós teríamos precipitado, se não fora a Reforma.
As gargalhadas de Rabelais e o sorriso cético de
Montaigne mostravam a torrente de incredulidade, que
avassalava a Europa.
A Reforma salvou a Renascença e a fé religiosa.
Crítica e demolidora, a Renascença nada podia edificar.
Desfechou certeiros golpes na escolástica, mas os
golpes oram além dessa filosofia e feriram as crenças
religiosas, de que era ela o anteparo.
“Sem a Reforma, escreve ainda o brilhante escritor
acima citado, não ouso dizer que o Cristianismo teria
perecido, pois o Cristianismo não pode perecer; digo,
entretanto, que um eclipse o teria velado, um desses
eclipses que não apagam o sol, mas que lhe suprimem
122
os raios. Mais baixo ainda teria descido a Igreja Romana;
senhora absoluta do terreno, campearia a
incredulidade, por toda a parte teria triunfado o
paganismo antigo, já preponderante na Itália.
Expirara a idade média; que iria ser o mundo
moderno? Treme-se ao pensar.
De repente, no meio dessas trevas, no meio dessas
negações, retine uma afirmação. É a grande afirmação
de Lutero! É o grito da consciência humana, é o homem
que torna a encontrar o seu Deus, é o filho pródigo,
humilhado, desesperado, que toma o caminho da casa
paterna. Em frente ao “caminho fácil” de Rabelais e de
Montaigne, abre-se o caminho áspero do novo
nascimento, a via dolorosa da abnegação pessoal.
Em frente à controvérsia vulgar — sarcasmos
contra os abusos, contra os papas, contra os conventos,
ergue-se a grande controvérsia — Escritura soberana, o
perdão gratuito pela absoluta confiança no perfeito
Salvador!
Desde então tudo renasce; ao lado do verdadeiro
dogma, a verdadeira moral surge; ao lado de uma
verdade, todas as verdades reaparecem; tão completa
derrota sofre o ceticismo, que o seu século, o século
décimo sexto, cético por excelência, votado de princípio
à dúvida, esse século torna-se crente, esse século
pertence à fé, e tudo nele, a mesma política, a própria
guerra, tudo será religião”.
Se, pois, a Reforma negava, no protesto dos
príncipes, a autoridade do Imperador e do papa de
escravizar as consciências, ela o fazia em nome da
autoridade de Deus e de sua Palavra. Se se insurgia
contra o jugo dos homens em matéria religiosa, era para
proclamar submissão à Palavra de Deus, única
123
autoridade infalível em matéria de fé. Longe estava,
pois, ela de ser uma “revolta do orgulho humano”, uma
“explosão do racionalismo filosófico”.
“Aos grandes acontecimentos é triste ofício buscar
pequenas causas. A Reforma não veio da ação de um
homem, nem de um incidente; a Reforma nasceu de
Deus; a Reforma é a explosão de um imenso
despertamento moral. A sua simultaneidade dá-lhe o
traço de seu caráter. A mesma hora, sem comunicação,
e sem acordo, na França, na Suíça, na Alemanha ressoa
o apelo às Escrituras. Por toda parte prega-se a salvação
gratuita; por toda parte reaparece Jesus, crucificado,
vitorioso! Um espírito novo move-se sobre as trevas:
deixai-o agir, a vida desponta, vai irromper o jato, jato
heroico, poder regenerador, que nada doravante poderá
reter.”
É, pois, a Reforma, uma volta ao Cristianismo
apostólico.

A Reforma e o Denominacionalismo

Variações do Protestantismo

Pesada carga tem-se feito contra a Reforma das


variações do Protestantismo. Deu Bossuet o sinal do
ataque em sua Histoire des Variations des églises
protestantes (1688). Responde-lhe J. Basnage, P. Jurieu
e S. Edgar. Levanta este igualmente a luva arremessada
pelo bispo de Meaux contrapondo-lhe The Variations of
Popery, as mutações seculares do Romanismo. O
universus ecclesiæ consensus dos campeões católicos é
124
uma mistificação, o Catena Patrum um feito de Procusto,
e a imaginária divisa do Catolicismo Romano — quod
semper, quod ubique quod ab omnibus é uma afronta ao
senso histórico. Ficou isto patente na análise histórica,
que fizemos de sua metamorfose secular.
Variar é a lei da natureza, e, até a condição da vida
e da harmonia. Só não varia o que é estagnado e morto.
Sem variedade não se concebe movimento, beleza e
unidade, senão estagnação, monotonia e uniformidade.
Em todo sistema filosófico ou religioso, político,
social ou histórico, em torno das questões fundamentais
flutuam outras de ordem secundária, encaradas
variamente pelos espíritos vários, que as estudam. É isto
inevitável na presente constituição do espírito humano.
Franqueza, contingência ou necessidade, em nada
prejudica isto o valor dos sistemas, cujos princípios
básicos ou fatos centrais se impõem sem controvérsia,
aos seus adeptos. Não invalida ainda o valor desses
sistemas o fato comum de haver falsos adeptos, que
levam a controvérsia a esses mesmos princípios básicos,
e procuram lançar o descrédito sobre a interpretação ou
métodos de investigação desses sistemas. Estes são
dissidentes, hereges, erroristas cismáticos ou não-
conformistas.
Para se evitarem estas contingências, necessário
fora instaurar processo contra o espírito humano e
encerrá-lo nos cárceres subterrâneos de impossível
inquisição. Roma imperial e a papal, dispondo de um
tremendo poder, já o tentara e só pudera, com uma
crueldade, que horroriza, encerrar, torturar e queimar
os corpos. O espírito zombou sempre dos ferros da
escravidão.

125
Variar é a lei, e só a natureza das variações pode
afetar a essência do sistema.
As variações do Protestantismo, como as variações
do Romanismo, devem ser estudadas em sua natureza
com relação aos princípios básicos do Cristianismo.
As variações do Romanismo, como já fizemos ver,
ofendem os princípios essenciais do sistema cristão, e
têm sido incorporadas no credo misto do papado;
enquanto as da Reforma são de ordem secundária, e
assinalam apenas as idiossincrasias do espírito humano
na apreensão íntegra do Cristianismo. Certamente não
se devem lançar à conta do Romanismo e tão ouço do
Protestantismo as divergências heréticas dos que
negam dogmas considerados respectivamente
fundamentais pelos símbolos doutrinários dessas
corporações.
Estabelecidos estes preliminares, o que se deve
admirar no protestantismo não são as variedades
denominacionais de sua vida histórica, mas a unidade
fundamental dos credos de todas as numerosas
agremiações evangélicas ortodoxas.
A liberdade de pensamento não pode deixar de
produzir variedade de opinião, e é natural que as
opiniões ou afinidades mentais provocassem
diversidade de agremiações.
A diversidade, pois, de organizações protestantes
obedece a uma tendência inata, a um instinto de
sociabilidade humana, e não a meras paixões de
momento. No próprio seio do Romanismo, onde aliás a
esfera da liberdade é limitadíssima, irrompe esse
instinto social nas confrarias ou ordens religiosas.
Quebrada pela Reforma a unidade externa,
estabelecida pela disciplina papal na cristandade,
126
operou-se naturalmente uma larga fragmentação
determinada pelo novo espírito de liberdade e
independência. Estabeleceram-se igrejas nacionais na
Alemanha, na Suíça, na Prússia, na Inglaterra, na
Escócia, na Holanda, na Dinamarca, na Suécia, na
Noruega. Esta tendência natural de se constituírem em
unidades nacionais, com maior ou menor interferência
da autoridade civil, foi largamente perturbada e
enfraquecida pelo movimento de agremiações livres e
não conformistas, que tiveram o efeito de impedir que a
cristandade emancipada da atrofiante centralização
papal, viesse estagnar-se na centralização civil. Embora
muitas vezes a custo do espírito de fraternidade, salvou-
se o princípio vital de liberdade.
Todos esses agrupamentos nacionais regionais e
locais, porém, enlaçavam-se superiormente, pela
afinidade de ideias, em duas grandes famílias
evangélicas — os Luteranos e os Reformados.
Servia de linha divisória o modo de encarar a
presença eucarística, os elementos do pão e do vinho no
sacramento da Comunhão. Repeliam ambos esses
partidos a transubstanciação da Igreja Romana; porém
os luteranos com Lutero admitiam a consubstanciação,
isto é, uma espécie de presença real espiritual. Estas
duas famílias evangélicas, porém, acordes em todos os
outros pontos da Reforma, fizeram sérias tentativas
para que a solidariedade moral se traduzisse em uma
união formal, conseguindo, por vezes, tratados de
amizade e união.
Zwínglio, Lutero, Melancton, Calvino, Bullinger,
Bucer, Cranmer, envidaram sinceros esforços para reter
o movimento individualista da Reforma, e vincular o
espírito de liberdade em uma cooperação externa, que
127
melhor representasse a unidade substancial, que, de
fato, dominava as diversas confissões ou credos então
elaborados, tais como — a Confissão de Augsburgo
(1530), os Catecismos maior e menor de Lutero (1529),
os Artigos de Esmalcald, a Fórmula Concórdia (1577), a
Segunda Confissão Helvética (1536), o Catecismo de
Heidelberg (1562), os Trinta e nove Artigos da Igreja da
Inglaterra, os Cânones do Sínodo de Dort (1617), a
Confissão e Catecismos de Westminster, o Consensus
Tigurinus ou o Consensus de Zurich (1549), o Consensus
Genevensis (1552), a Fórmula Consensus Helvética
(1675).
Toda essa atividade confessional do
Protestantismo revela de modo incontestável, a sua
unidade dogmática, embora ásperas e tempestuosas
controvérsias teológicas baldassem reiteradas
tentativas de união formal.
Nos dias da Reforma, como hoje, é patente a
harmonia fundamental dos credos ou confissões de fé,
que, em diferentes nações e por todas as comunidades
evangélicas, têm sido elaboradas. Naturalmente, não
entram no quadro do protestantismo ortodoxo as seitas
heréticas, tais como os socinianos, os unitários e outras
de menos renome, embora se chamem evangélicas. A
florescência da heresia e da extravagância é
contemporânea de todas as épocas, e de todos os
sistemas, que se impõem à aceitação geral.
Esta unidade doutrinária é o fato histórico que
refuta cabalmente as variações apregoadas por Bossuet
e Balmes.
Prova isto que todos beberam na mesma fonte,
possuíram-se do mesmo espírito e acharam as mesmas
verdades.
128
A harmonia, escreve Samuel Edgar, dessas
declarações de fé é, na verdade surpreendente, e
constitui um acontecimento extraordinário na história
do homem. Não há exemplo de tal acordo nos anais da
religião e da filosofia. Cada nação ou povo organizava,
independentemente, sua declaração sobre os artigos de
fé sem combinação nem colisão.
Nenhum poder havia ou autoridade para fiscalizar
o outro. Além disso os clérigos e leigos, que
organizavam esses símbolos de fé, eram numerosos e
espalhados por um vastíssimo território. Certamente,
nesse progressivo desdobrar atividade doutrinária, vê-
se o dedo de Deus, a providência divina, que regula e
dirige. No padrão comum da divina Revelação, os
próceres do Protestantismo formaram os artigos de sua
fé, que, exceto em um ponto, para evidenciar a fraqueza
humana, apresentavam uma perfeita unanimidade. A
Confissão Zwingliana e a Luterana, na realidade, diz
Paolo, só diferiam quanto ao sacramento. Todos esses
epítomes compreensivos de doutrinas, ostentavam, em
várias línguas, uma admirável unidade, em pontos
capitais, sobre todas as questões doutrinárias, embora
pudessem divergir em matéria de disciplina e
cerimônia.
O absurdo da consubstanciação deformou, por
algum tempo, o Luteranismo. A pertinácia de Lutero em
sustenta-la inflamou a controvérsia sacramentaria, que
despertou uma série de disputas ruidosas e inúteis.
Essas discussões ofereceram a Bossuet assunto para
triunfos vazios. Não lhe adviesse esse tópico, por ele
decantado em todos os tons, grande armazém de suas
“variações”, o bom bispo ver-se-ia em lamentável
embaraço (The Variation of Popery, 28).
129
Não é, portanto, a variedade do Protestantismo,
que nos deve impressionar, é, ao contrário, a sua
unidade.
No movimento centrífugo, entretanto, e separatista
da Reforma, é evidente a ação da Providência, para
impedir que um papismo teutônico se erguesse diante
do papismo latino. Essa como diáspora da Reforma
evitou a centralização, e o que ela perdeu em prestígio
político, ganhou em espiritualidade e vida.
Demais, essa liberdade de agremiações autônomas
obedecia ao gênio da Igreja primitiva.
Primitivamente era a Igreja Cristã uma série de
igrejas locais autônomas, como a de Jerusalém, de
Antioquia, de Éfeso, de Esmirna, de Filadélfia, de
Alexandria, de Corinto, de Roma, etc. Os Atos dos
Apóstolos, as Epístolas e o Apocalipse dão testemunho
dessa autonomia, que fazia de cada igreja uma república
democrática. Como era natural, pouco a pouco, a
solidariedade moral e doutrinária dessas democracias
locais foram-se convertendo em federações regionais,
que, agidas pela força centrípeta de íntima
solidariedade, foram alargando o círculo e apertando os
laços de uma vasta confederação eclesiástica, a qual
degenerou em catolicismo organizado e mecânico ou
imperialismo papal. Esta unidade externa foi, como já o
mostramos, o resultado de uma evolução multissecular,
favorecida por circunstâncias históricas, que
paulatinamente causaram a expansão do presbiterado
apostólico ou episcopado pós-apostólico, do episcopado
no patriarcado, do patriarcado no papado, que é a
suprema centralização, a morte da democracia
primitiva pela imobilidade do cesarismo pontifício.

130
Tal, mui plausivelmente, a trajetória da Reforma
(que reivindicou as antigas liberdades do povo de
Deus), se não fora o movimento descentralizador do
Protestantismo. Na continência humana há males
necessários, que são bens reais.
Sob o influxo da liberdade e independência,
multiplicam-se as divisões ou livres agremiações
evangélicas, nos diversos países, em que a Reforma se
foi propagando.
Essas organizações no seio do Protestantismo tem
o seu paralelo nas ordens monásticas ou religiões no seio
do Romanismo. A unidade da Igreja Romana não fica
prejudicada com a coexistência das ordens religiosas,
tais como — beneditinos, franciscanos, dominicanos,
carmelitas, jesuítas, lazaristas, salesianos, e muitas
outras, pois todas obedecem ao papa e às leis canônicas.
Tão pouco a unidade do Protestantismo deixa de existir
pela coexistência de comunidades evangélicas, tais
como — luteranos, presbiterianos, episcopais, batistas,
metodistas, morávios, valdenses, e muitas outras; por
quanto todas obedecem ao mesmo Cristo, único Cabeça
da Igreja, ao mesmo Livro, e aos mesmos princípios
bíblicos fundamentais.
Não invalidam ainda essa unidade espiritual os
sentimentos mesquinhos, as rivalidades egoísticas, que
frequentemente surgem entre esses diversos
agrupamentos religiosos, tanto no seio do Romanismo,
como no seio do Protestantismo. Cá e lá más fadas há.
Fora também dar prova de espírito fraco ou parcial,
como aliás faz Balmes, achar argumento contra o
Protestantismo ou contra o Romanismo nas
designações ou nomes com que se distinguem essas
diversas organizações religiosas. O Protestantismo, bem
131
como o Romanismo, subsistem ou caem, não por causa
de nomes, que tomem ou que se lhes deem, mas pela
substância de seus credos.
Para se designarem imparcialmente, sem censura
ou louvor, essas associações ou igrejas evangélicas, um
termo foi adotado na América do Norte — denomination
e denominationalism, traduzido entre nós por —
denominação e denominacionalismo.
“Para quem olha de fora, especialmente para um
romano ou infiel, escreve o grande historiador Philip
Schaff, apresenta o Protestantismo o aspecto de um caos
religioso ou anarquia, que deveria terminar na
dissolução.
Porém a uma conclusão mui diferente leva-nos o
exame calmo de história dos últimos três séculos e a
presente condição da cristandade. E fato inegável que
exerce o Cristianismo a mais forte influência no povo, e
ostenta a maior vitalidade e energia na pátria e fora
dela, nos países onde se fala o inglês, que são
exatamente os países em que é ele mais dividido em
denominações e seitas. Comparando a Inglaterra com a
Espanha, ou a Escócia com Portugal, ou os Estados
Unidos com o México e Peru ou Brasil, veem-se logo as
vantagens de uma variedade viva sobre uma
uniformidade morta. A divisão é, de fato, um elemento
de fraqueza quando atacamos um inimigo consolidado;
porém tem ela a vantagem de multiplicar os
missionários e as agências de educação e evangelização.
Cada denominação protestante tem o seu campo de
utilidade, e a própria causa do Cristianismo seria
gravemente enfraquecida e restringida com o
desaparecimento de uma delas.

132
Nem devemos perder de vista que as diferenças,
que dividem as várias denominações protestantes, não
são fundamentais, e que os artigos de fé, em que elas
concordam, são mais numerosos do que os em que
discordam. Todas aceitam as Escrituras inspiradas
como regra suprema de fé e prática, a salvação pela
graça, e, podemos dize-lo, todos os artigos do Credo dos
Apóstolos; ao passo que, em relação ao cristianismo
prático, ensinam elas unanimemente que nossos
deveres estão compreendidos na lei real do amor a Deus
e a nosso próximo, e que a verdadeira piedade e virtude
consiste na imitação do exemplo de Cristo, Senhor e
Salvador de todos nós. Há, pois, no Protestantismo,
unidade na diversidade, bem como diversidade na
unidade.
A tendência à separação e divisão é nele
contrastada por uma tendência oposta: — a união cristã,
a intercomunhão denominacional, que se manifesta em
um grau crescente e em várias formas entre os
Protestantes do tempo presente, mormente na
Inglaterra e América, nos campos missionários, indício
certo de que ela triunfará por fim.
O espírito estreito, fanático e exclusivista deve
afinal ceder o lugar ao espírito de catolicidade
evangélica, que deixa, entretanto, livre cada
denominação para cumprir sua própria missão
conforme a sua carisma ou graça especial, e livre
igualmente para cooperar, em uma nobre emulação,
com todas as outras denominações, para a glória do
Mestre comum e estabelecimento de seu Reino.
O grande problema da união cristã não pode ser
resolvido por uma volta à uniformidade de crença e de
organização externa. Diversidade na unidade e unidade
133
na diversidade é a lei de Deus na história, bem como na
natureza. A cada aspecto da verdade deve-se dar
oportunidade para se desenvolver. Todas as
possibilidades da vida cristã devem ser realizadas.
O passado não o podemos perder; a história move-
se em ziguezague, como um navio singrando os mares,
porém nunca para trás. O trabalho da história da igreja,
quer grega, romana ou protestante, não pode ser vão.
Toda denominação ou seita tem de fornecer algumas
pedras para a edificação do templo de Deus.
E do meio da discórdia humana, trará Deus a mais
rica concórdia.” (Germ. Reform. pg. 48-50).
Nestas sensatas palavras e profundos conceitos do
exímio professor do Union Seminary de Nova York, está
traçada, com suma maestria, a natureza, índole e
destinação do denominacionalismo protestante. Aí
reina o conceito atribuído a Santo Agostinho: In
necessariis unitas, in dubiis libertas, in omnibus
caritas.107

A Reforma e o Racionalismo

Outra grave acusação contra a Reforma é a de ter


sido ela a mãe do Racionalismo. Dão-lhe este papel tanto
os escritores católicos romanos, como os próprios
racionalistas; estes louvando-a, e aqueles vituperando-
a.
A Reforma deu o primeiro passo, dizem, libertando-
nos da tirania da Igreja, e o Racionalismo deu o segundo
libertando-nos da tirania da Bíblia. Leão XIII, em sua
107
No essencial, unidade; nas diferenças, liberdade; e em ambas as coisas, o amor.

134
encíclica Immortale Dei (Nov. 1885), fala “das
perniciosas e deploráveis tendências revolucionárias,
que se ergueram no século XVI, e depois de levar a
confusão à cristandade, logo, por um curso natural,
entrou no domínio da filosofia e da teologia na esfera da
sociedade civil.” E neste tom lançam os autores católicos
romanos sobre a Reforma a responsabilidade de ter
desencadeado na terra a torrente das revoluções e
impiedade, que vai rasgando o abismo, que ameaça o
trono papal.
A injustiça de tais imputações ressalta do exame
atento dos fatos. Não é com certeza entre os povos
protestantes que reina mais largamente o espírito
revolucionário e irreligioso. E exatamente em países
católicos como na Espanha, México e outras repúblicas
hispano-americanas, que o estado revolucionário se
apresenta endêmico, e é ainda entre as populações
católicas que se nota maior incredulidade religiosa.
Explica-se naturalmente este duplo fato como “reações
desesperadas contra o despotismo hierárquico e
político”, e contra “o supernaturalismo excessivo” da
Igreja Católica Romana. O assunto, porém, merece mais
detalhado exame.
Mostra o antagonismo dos respectivos princípios
que não pode ser a Reforma a genitora do Racionalismo.
Racionalismo, a despeito de seus vários matizes, é a
corrente de pensamento, que, em relação à teologia,
encara a razão humana, como a fonte e medida de todos
os conhecimentos religiosos. Os racionalistas de várias
escolas negam o sobrenatural, a Revelação histórica, a
inspiração da Bíblia, o milagre, a imaculada conceição e
divindade de Jesus Cristo, o caráter grave do pecado, as

135
penas eternas, a trindade de pessoas na unidade de
Deus.
Ora, reconhece a Reforma tudo isso, porque para
ela a razão não é a fonte nem a medida do conhecimento
teológico, mas apenas o órgão ou o veículo desse
conhecimento. A fonte e a medida é para ela a Bíblia,
cujo inspirado conteúdo recebido e interpretado pela
razão.
Brilha com intensidade o sol, mas é esse brilho
apreendido, em maior ou menor grau, pelo órgão visual:
é a razão o órgão visual, mas não a luz. Da palavra de
Deus é que dimana a luz da verdade religiosa. Não é,
pois, a Reforma racionalista, e tão pouco revolucionária.
Repeliu ela o ceticismo da Renascença, e as
tendências anárquicas dos camponeses, dos
anabatistas, e dos libertários na Suíça. Pela explosão
dessas correntes demagógicas e heréticas não é ela
responsável.
Entretanto, importa confessar que o abuso é
inseparável do uso, e que toda virtude tem o seu vício
concomitante. São relações inevitáveis na presente
organização moral da humanidade. Tanto o
Protestantismo como o Romanismo não podem deixar
de produzir no meio social, em que dominam, reações
intelectuais e morais de acordo com as suas respectivas
índoles.
O Romanismo, enclausurando a inteligência
humana no ergástulo do absolutismo, e dando asas à
imaginação no seu exagerado simbolismo e excessiva
pompa cultual, agravada pelo poder mágico e
talismânico de seus ritos, dá ensanchas ao
desenvolvimento de duas correntes igualmente
perigosas: — de um lado, o sensualismo, o materialismo,
136
que tem sua plena florescência no desregramento e no
ateísmo; de outro a feitiçaria, superstições grosseiras
que vão desaguar no espiritismo. Basta lançarmos
rápido olhar para a América Latina, para que nos
impressionemos com a devastação social dessas duas
correntes. O ateísmo, ora franco, ora disfarçado no
positivismo ou no pessimismo cético, é a nota
dominante de nossa literatura, ao passo que o
espiritismo e o ocultismo fascinam e alastram, em
proporção tremenda, na classe baixa e na classe média.
Esses dois grandes males encontram, no meio católico
romano, facho para lavrar de modo assustador.
O Protestantismo, por sua vez, dando asas à
inteligência na proclamação do livre exame, abre
válvulas ao espírito crítico, que nem sempre reconhece
os limites naturais às suas investigações.
Abriu Noé a janela da arca, e soltou um corvo, que
não voltou, e uma pomba, que à tarde regressou com um
ramo de oliveira no bico. Assim a Reforma abriu a janela
da prisão, onde o Papado encerra o espírito humano, e
deixou-o sair livre. Sedentas de ar e de luz, ergueram o
voo as inteligências. Umas, como a pomba, voltaram à
arca da religião cristã, trazendo o ramo de oliveira da
reconciliação entre a filosofia e a teologia; outras, como
o corvo, não mais voltaram, perdendo-se pela solidão
das águas no voo incerto de uma razão altaneira e revel.
Não se culpe a Noé por ter soltado o corvo, nem a
Reforma por ter aberto espaço à razão do homem. Certo,
não voariam os pássaros, se não se lhes abrisse a arca,
nem se alçaria o espírito humano, se não se lhe
quebrassem os ferros. Quem, entretanto, deixará de
abençoar os proclamadores da liberdade espiritual, e

137
superpor as suas desvantagens aos benefícios da
tirania?
Destas considerações percebe-se a natureza da
conexão histórica da Reforma com o Racionalismo. Não
há negar que estes dois sistemas, que teórica e
praticamente se antagonizam, tem entre si, no dizer de
Schaff, afinidades intelectuais e críticas, tendo sido o
Racionalismo inseparável da história do
Protestantismo. O Protestantismo, porém, relaciona-se
com o Racionalismo, como nos diz ainda o escritor
supracitado, como o uso reto da liberdade intelectual se
relaciona com o excesso e abuso dela.
Queixa-se S. Paulo de ter um espinho na carne, que
era o anjo de Satanás a esbofeteá-lo. O Racionalismo é
esse espinho no corpo do Protestantismo evangélico.
Seitas heréticas convertem em licença a liberdade
espiritual, abusando do livre exame; o Protestantismo
liberal, assim chamado, chega a negar a divindade de
Cristo e outros dogmas fundamentais; o modernismo e
a enfatuação de certas ciências aumentam a calamidade
desse liberalismo negativo e racionalista.
Contudo, é justiça reconhecer que em seus próprios
extravios, nos próprios arrojos da alta crítica, esse
racionalismo especulativo e indagador tem prestado
serviços providenciais ao Cristianismo, estudando os
seus documentos originais e provocando um
conhecimento mais profundo da Bíblia.

A Reforma e o Cânon

A Bíblia

138
É a Bíblia o livro sagrado de toda a cristandade, que,
com profunda veneração, a considera “Palavra de Deus”.
Não discrepa deste conceito geral a Igreja Romana,
que, no concílio Tridentino, fulmina anátema sobre
quem negar a autoridade divina da Bíblia. Si quis libros
ipsos integros ... non susceperit... anathema sit (Conc.
Trid. 1. p. 88).108
É de origem grega o termo Bíblia, que significa
livros. Só do século quinto em diante é que começou a
ser aplicado aos 66 livros, de que ela se compõe.
Dá-se o nome de cânon da Bíblia ao conjunto dos
livros divinamente inspirados. São deste número
excluídos os chamados livros apócrifos.
Cânon é igualmente de procedência grega, e traz a
ideia de regra ou norma. Livros canônicos são, portanto,
os livros inspirados, que servem de regra infalível de fé
e de prática. São tais livros o padrão dos dogmas
cristãos, a pedra de toque da ortodoxia e heterodoxia
das doutrinas e instituições ditas cristãs.
Cumpre, porém, observar, com o cardeal Caetano,
que nem sempre a expressão livros canônicos teve esse
sentido restrito e técnico, que hoje lhe damos. Muitas
vezes, na linguagem dos escritores eclesiásticos,
designava não só os livros inspirados da Bíblia, mas
ainda certos livros religiosos, que eram publicamente
lidos na Igreja para a edificação do povo.
Serviam eles como que de norma de costumes, se
bem que não de fé. Eram abrangidos na designação mais
ampla de cânon eclesiástico.

108
Si quis autem libros ipsos integros cum omnibus suis partibus, prout in Ecclesia catholica legi
consueverunt et in veteri vulgata latina editione habentur, pro sacris et canonicis non susceperit, et
traditiones praedictas sciens et prudens contempserit: anathema sit.

139
Ouçamos o ilustre cardeal, que precedeu de poucos
anos o concílio de Trento.
“Neste lugar acabamos o comentário dos livros
históricos do Velho Testamento; pois o resto — a saber:
Judite, Tobias e os livros dos Macabeus, eram tidos por
Jerônimo como livros fora do cânon (extra canonicos
libros), e colocados entre os apócrifos com os livros de
Sapiência e Eclesiástico. Nem vos turbeis, noviço, se
nalguma parte encontrardes estes livros incluídos entre
os canônicos, quer por sagrados concílios, quer por
doutores sagrados; pois tanto as palavras dos concílios
como as dos doutores hão de reduzir se ao dizer de S.
Jerônimo, e, segundo o seu sentido, aqueles livros e
quaisquer outros semelhantes, que haja na Bíblia, não
são canônicos, isto é, não são de regra para firmar as
coisas que são da fé; podem, contudo, ser chamados
canônicos, isto é, de regra para edificação dos fiéis, de
maneira que são com este fim (ad hoc) recebidos no
“cânon” da Bíblia e autorizados. Por meio desta
distinção, pois, podereis descobrir tanto as palavras de
St. Agostinho (in lib. II, de Doct. Christ), como também as
coisas escritas no concílio Florentino, sob Eugênio IV, e
as coisas escritas nos concílios provinciais de Cartago e
Laodiceia, e pelos pontífices Inocêncio e Gelásio.” (Caj,
in omn, auth. Vet. Test. Hist., Lib. comm., p. 482, Paris
1545, ap. Rev. R. Holden).
São sobremodo importantes estas observações do
douto cardeal.
A mesma indiscriminação se nota às vezes no uso
das expressões Escrituras e Escrituras Sagradas.
De duas partes se compõe a Bíblia: — do Velho
Testamento (V.T.), escrito em hebraico pelos profetas
judeus, desde Moisés (1500 anos antes da E.C.), e do
140
Novo Testamento (N.T.), escrito em grego pelos
Apóstolos, durante os 70 anos, que se seguiram à morte
de Cristo.
O cânon do V.T. é constituído por 39 livros, que os
judeus reduziram a 22, número das letras de seu
alfabeto. Desta Bíblia Hebraica existe uma tradução a
grego, efetuada em Alexandria, no Egito, por iniciativa
do rei Ptolomeu Filadelfo (284-247), no séc. III antes da
E. C. Reza uma tradição duvidosa que a convite deste rei,
desejoso de enriquecer a célebre biblioteca de
Alexandria com a literatura religiosa dos judeus,
Eleazar, sumo pontífice; enviara de Jerusalém setenta
ou setenta e dois sábios para satisfazer a esta inspiração
real. É a célebre tradução dos Setenta (Lat. Septuaginta),
de largo uso entre os judeus helenistas no tempo dos
Apóstolos. Compreendia ela não só os livros canônicos
ou inspirados, mas outros de feição religiosa, extra
canônicos, tais como os Macabeus, Tobias, etc., de que
adiante trataremos.
O N.T. encerra 27 livros, escritos em grego pelos
Evangelistas e Apóstolos, e contém a história, doutrina
e instituições do Cristianismo, como o V.T. as do
Judaísmo.

Traduções

Nos primeiros séculos da E. C., corria uma tradução


latina da Bíblia, denominada Ítala. No séc. IV, porém, S.
Jerônimo (490-505) efetuou das línguas originais uma
tradução, que, conhecida com o nome de Vulgata Latina,
exerceu larga influência, na cristandade ocidental. Esta
141
tradução declarada infalível pelo concílio Tridentino, e,
apesar disso, revista e emendada por ordem de Sixto V
e Clemente VIII, constituí hoje o texto autorizado da
Igreja Romana, a Biblia Sacra vulgatæ editionis Sixti V
pontificis maximi jussu recognita et Clementis VIII
auctoritate edita.
O padre João Ferreira de Almeida, convertido ao
Evangelho, auxiliado pelo holandês Jacobus op den
Akker, verteu a Bíblia para o português dos originais
hebraico e grego, em 1748.
O padre Antônio Pereira de Figueiredo, 35 anos
depois, em 1783, fez o mesmo, tomando, porém, como,
base, o texto latino da Vulgata. É esta tradução,
autorizada pelo patriarca de Lisboa e pelo Arcebispo da
Bahia.
Ultimamente se fez no Brasil uma nova tradução
das línguas originais. Levou-a a efeito o Rev. W. C.
Brown, bispo da Igreja Episcopal, auxiliado por uma
comissão.
São estas as três traduções que as Sociedades
Bíblicas inglesa e americana espalham em Portugal e no
Brasil. Empenham-se estas beneméritas Sociedades, em
não somente por a Bíblia ao alcance do povo, mas
também em que o texto vernáculo exprima tão
exatamente quanto possível o sentido do texto
inspirado do original. Fundado todo nos textos bíblicos,
o Protestantismo não pode ter outro interesse senão
que a mente do Espírito Santo, fundida no original, seja
rigorosamente respeitada pelos tradutores. Ele não tem,
nem pode ter Bíblias falsificadas.

142
Livros Apócrifos

O termo apócrifo é de origem grega e significa —


oculto, escondido. É ele aplicado a certos livros ou
escritos religiosos, que acompanharam e seguiram o
fenômeno histórico da inspiração profética, tanto no V.
como no N.T. Conjetura-se que o termo fora aplicado a
tais escritos por ser oculta ou ignorada a sua origem, ou,
ainda, por pretenderem ter sentido obscuro, velado ou
mítico, segundo o gosto do tempo. O certo é, porém, que
o termo passou logo a significar espúrio ou falso. É este
hoje o seu valor. Livros apócrifos são, pois, certos livros
de autores desconhecidos, que, à sombra da ignorância
dos tempos, procuraram insinuar se no catálogo dos
livros inspirados da Bíblia.
Há apócrifos do N.T., como do V.T.
De quatro grandes divisões se compõe o N.T.: os
Evangelhos, os Atos dos Apóstolos, as Epístolas e o
Apocalipse, e em cada uma dessas divisões surgiram
escritos fraudulentos como p. ex.: Evangelho do Pseudo-
Mateus ou O Livro Sobre a Origem da Abençoada Maria e
a lnfância do Salvador, Evangelho da Natividade de
Maria, Evangelho de Nicodemus, Atos de Pedro e Paulo,
Atos de João, Carta de Abgar a Jesus e a Carta de Jesus a
Abgar, Apócrifo de João, Apocalipse de Pedro, Apocalipse
Copta de Paulo, Apocalipse de Maria.
Foi logo reconhecido o caráter espúrio e
fraudulento de todos esses escritos, e a Reforma os
encontrou e deixou em completo olvido.
Não sucedeu o mesmo com alguns apócrifos do V.T.,
que são:

143
1. Tobias.
2. Judite.
3. Sabedoria.
4. Eclesiástico.
5. Baruc.
6. I Macabeus.
7. II Macabeus.
8. Cap. X (do v. 4), XI, XII, XIII, XIV, XV, XVI,
acrescentados ao livro autêntico de Ester.
9. Cap. III de Daniel, do v. 24 até 90; cap. XIII, XIV,
todos acrescentados ao livro canônico de Daniel.

A Reforma os rejeitou; a Igreja Romana, porém, por


intermédio do concílio de Trento, os recebeu, “sem
qualquer indagação crítica ou princípio teológico
definido”, como diz Schaff. “Houve, entretanto,
acrescenta o mesmo historiador, vozes que protestaram
dentro do Concílio... Sarpi (historiador católico do
Concílio) censura-o por sua decisão (sobre o cânon) e
teólogos católicos há (como Sixtus Senênsio, Du Pin,
Jahn), que, a despeito da decisão, fazem distinção entre
livros protocanônicos e deuterocanônicos (da Bíblia
tridentina), isto é, canônicos em primeiro lugar e
canônicos em segundo lugar.
Maiores dificuldades oferece a discriminação
destes, e para isso concorre não só um certo tom de
seriedade, que, em geral, eles ostentam, mas ainda o fato
histórico de terem sido incorporados na versão grega
dos Setenta. Esta versão circulava largamente entre os
judeus de Alexandria no Egito e entre os helenistas da
diáspora ou dispersão.
As vastas conquistas de Alexandre Magno, no
Oriente, no terceiro século antes da era cristã,
144
generalizou de tal maneira a língua grega que esta
língua se tornou o veículo sagrado do Cristianismo. Em
grego foi escrito o N.T., em grego se redigiam as atas dos
primeiros concílios, e, até o quarto século da era cristã,
o grego era a língua oficial da Igreja, mesmo no
Ocidente.
Mais do que o texto hebraico, era o texto grego do
V.T. vulgarizado entre os cristãos primitivos. Os
próprios Apóstolos o citam, às vezes, de preferência
àquele. Nestas condições, os supramencionados livros
apócrifos mereciam dos judeus helenistas e dos cristãos
primitivos especial respeito. S. Jerônimo, o tradutor da
Vulgata Latina, informa-nos positivamente, no prefácio
de sua tradução, que a Igreja dos primeiros séculos os
lia publicamente, não, porém, para confirmar dogmas,
mas para edificar o povo, ad edificationem plebis, non ad
auctoritatem ecclesiasticorum dogmatum
confirmandam.
O mesmo declara Rufino (+410), em seu trabalho
Expositio Symboli Apostolici, segundo nos refere o Padre
Antônio Pereira, na Prefação à sua tradução da Vulgata.
“Tais livros, explica ele, a Igreja os lia aos fiéis como pios
e edificativos, mas não como livros donde ela tirasse os
seus Dogmas.”
Na escassa literatura dos tempos, era natural que
largo e grato acolhimento se desse a esses escritos
religiosos, e que um tal acolhimento, favorecido pela
profunda ignorância da idade média, se fosse
transformando, no espírito de muitos, em franca
canonicidade.
E se a todas estas circunstâncias acrescentarmos
que nesses livros encontram apoio alguns erros
acrescidos ao credo católico romano, teremos
145
percebido as influências preponderantes, que levaram o
concílio de Trento, em sua sessão 4ª, a catalogar todos
esses apócrifos com os livros canônicos do V.T.!
A Reforma, porém, eficazmente auxiliada pelo
estudo das fontes originais da Bíblia, de que eram
corifeus Agrícola, Reuchlin e Erasmo, e ainda pelo
espírito crítico da Renascença, repeliu tais livros, e,
excluindo-os da Bíblia, não negava a relativa utilidade
de sua leitura.
Numerosas e claras são as razões da Reforma para
recusar inspiração aos apócrifos. Vê-lo-emos mais
adiante.

A Fixação do Cânon

A fixação do cânon bíblico, isto é, a discriminação


dos escritos que têm o cunho divino é matéria de
suprema importância para a Igreja. A ela a verificação
cuidadosa dos limites do cânon sagrado.
Longo foi o processo de sua formação: de Moisés a
S. João estendeu-se, por um período de 1500 anos. O que
dificultou a fixação nesta sua integração secular, foi o
aparecimento, nesse longo período, de outros livros de
caráter religioso, que vieram confundir-se com os
genuinamente canônicos, produzindo na Igreja dúvidas
e vacilações, que para serem dirimidas, exigiram tempo
e acurado exame. A esses livros espúrios, como vimos,
dá-se o nome de apócrifos. Deu essa literatura apócrifa
origem ao problema histórico da fixação dos limites do
cânon bíblico.

146
Na solução desse magno problema não compete,
por certo, à Igreja dar inspiração divina, mas apenas
verificá-la. Não podem os doutores da Igreja, tão pouco
um concílio, por ecumênico que seja, tornar canônico ou
inspirado um livro que não foi originalmente escrito por
inspiração divina. Manifestamente a ação do Espírito
Santo não pode ter efeito retroativo. Está isto na
natureza das coisas.
É a Bíblia a revelação histórica, dada por Deus a seu
povo, por meio de homens escolhidos para isso.
Como documento histórico, está ela sujeita
naturalmente às leis da crítica histórica, que deve
examinar os seus títulos, verificando a sua autenticidade
e genuinidade, e só depois de seu veredictum, é que se
pode estabelecer a sua canonicidade, onde entra um
outro elemento, aliás importante, que é o testemunho
do Espírito Santo.
Ora, até o séc. XVI, não tinha sido ainda fixado por
um acordo geral o cânon do V.T., e só havia unanimidade
quanto ao cânon do N. Testamento.
Havendo ainda dúvidas entre os teólogos cristãos
sobre os limites do cânon hebraico, teve a Reforma de
resolver por si o problema. De resto, tendo ela
renunciado à autoridade da Igreja Romana, em nome da
autoridade divina da Bíblia, que ela colocara acima da
dos concílios e papas, forçoso lhe era examinar e firmar,
com muito cuidado, a canonicidade de cada um dos
livros do volume sagrado.
Esta atitude da Reforma provocou a Igreja Romana
a fazer o mesmo, e deste modo as correntes tradicionais
divergentes sobre o cânon, que se originaram no IV séc.
da E.C., tiveram a sua expressão positiva e oficial no
catálogo da Reforma e no catálogo do concílio de Trento.
147
Os dois catálogos coincidem quanto ao N.T., e,
quanto ao V.T., consiste a divergência nos chamados
livros apócrifos do V.T., que o concílio de Trento, com
gravíssimo prejuízo de sua pretensa inspiração,
declarou canônicos, em seu decreto de 8 de abril de
1546.

Cânon do Velho Testamento

O cânon do V. T., das edições protestantes da Bíblia


corresponde ao cânon judaico; ao passo que as edições
católico-romanas vão além, e acrescentam à lista dos
livros sagrados as nove partes apócrifas atrás
declaradas.
Para excluí-las do volume sagrado, estribava-se a
Reforma em razões de ordem externa e interna, que com
irresistível evidência denunciam o decreto do concílio
de Trento como atentatório da dignidade da “Palavra de
Deus.
Examinemos essas razões.

Provas Externas

1. Os judeus excluíram do cânon da Bíblia hebraica os


livros apócrifos.

Eis aí um argumento que por si só compromete


seriamente a infalibilidade do concílio Tridentino.
Eram os judeus, como diz S. Paulo, “os guardas dos
oráculos de Deus”, tiveram eles a grande vantagem,
explica o Apóstolo, de serem o povo a quem Deus
148
confiara os inspirados ensinos de seus profetas (Rm III
2). Deles, pois, deve a Igreja Cristã receber os livros
sagrados. Por isso lhes chama S. Agostinho os
“bibliotecários ou livreiros dos cristãos.”
É tradição que o cânon hebraico fora fixado pela
Grande Sinagoga, no tempo de Esdras.
Ora, é sabido que os judeus excluíram do seu
catálogo os apócrifos. Josefo, célebre historiador da
“Guerra Judaica”, nascido em Jerusalém, no ano de 37 ou
38 da era cristã, dá-nos a lista dos livros sagrados no
seguinte trecho citado por Eusébio (Hist. Eccl., lib. 3, c.
10): “Temos somente 22 livros, que contêm a história de
todo o tempo, que propriamente são tidos por divinos:
cinco destes são os livros de Moisés... Os profetas depois
de Moisés escreveram as coisas de seu tempo em 13
livros. Os 4 que restam, contêm hinos a Deus e preceitos
para a vida do homem. Desde os tempos da Artaxerxes,
porém, até o nosso tempo, tem-se escrito vários livros,
mas não são dignos da mesma fé que aqueles que os
precederam, porque não havia sucessão certa de
profeta.”
Distribui Josefo os 22 livros do V. T., nos três grupos
da divisão adotada pelos judeus — a Lei, os Profetas e os
Salmos, e dela exclui os apócrifos, que foram escritos
depois de Artaxerxes, e enchem o hiato aberto entre o
último profeta Malaquias e João Batista.
O Pe. A. Pereira de Figueiredo reconhece este fato,
e informa-nos como muitos autores católicos continuam
a não dar aos apócrifos a autoridade que dão aos outros
livros do V. T., classificando-os de deuterocanônicos. São
estas as suas palavras na Pref. Geral: “Chamaram e
chamam Protocanônicos aqueles que sempre em todas
as Igrejas foram tidos por divinos... Chamaram e
149
chamam Deuterocanônicos aqueles do Velho
Testamento, de cuja divina autoridade duvidaram por
muitos séculos algumas Igrejas, por causa de se não
acharem no Cânon Judaico, a saber, os livros de Tobias e
Judite, a Sapiência e o Eclesiástico e os dois dos
Macabeus.”

2. Jesus Cristo e os Apóstolos, aceitando o cânon


judaico, rejeitaram os apócrifos.

Se os judeus tivessem sido guardas infiéis dos


oráculos divinos, e houvessem truncado a Palavra de
Deus, o Senhor os teria repreendido por isso, como os
repreendeu fortemente por terem invalidado a Palavra
de Deus pelas suas tradições (Mateus 15:3, 7-9; Marcos
8:9).
Longe disso, o Senhor aceita a classificação tríplice
dos judeus, e declara aos discípulos depois de sua
ressurreição que: “era necessário que se cumprisse o
que de mim estava escrito na Lei de Moisés, e nos
Profetas, e nos Salmos!” (Lucas 24:44).
Mais ainda: há no N.T. 205 citações ditas do V.T., e
340 referências e alusões, mas nenhuma se refere aos
apócrifos. Este silêncio do Senhor e de seus Apóstolos
clama eloquentemente contra o ato absurdo do concílio
de Trento decretando uma inspiração retroativa e
gratuita!

3. O testemunho de S. Jerônimo não só exclui os


apócrifos do cânon judaico, mas do cânon cristão de
seu tempo.

150
Não menos valioso que o de Josefo é o testemunho
de S. Jerônimo, nascido nos limites da Dalmácia e
Panônia, no ano 340 ou 342, e morto a 30 de setembro
de 420, em Belém.
Era o mais erudito dos padres latinos e por isso
cognominado o Doutor Máximo. Viajou largamente pela
cristandade contemporânea e imortalizou-se, como já
vimos, pela sua versão da Bíblia, a Vulgata Latina.
Ninguém, pois, mais do que ele estava aparelhado
para conhecer os sentimentos da Igreja, no 4º e 5º
século, em relação aos apócrifos do V. T. Categóricas são
sobre este assunto as informações do Doutor Máximo.
No Prologus Galeatus, que se lê nas edições
autorizadas da Vulgata, enumera S. Jerônimo os 22
livros canônicos do texto hebreu, que correspondem
exatamente aos 39 das edições protestantes, e, em
seguida, declara: Quidquid extra hos est, inter apocrypha
est ponendum. Igitur Sapientia, quæ vulgo Salomonis
inscribitur, et Jesu filii Syrach liber, et Judith et Tobias, et
Pastor, non sunt in Canone; o que em vernáculo quer
dizer — que qualquer livro, fora dos enumerados, deve
ser posto entre os apócrifos, e nomeia o livro da
Sabedoria, Eclesiástico, Judite, Tobias, Pastor, que não
estão incluídos no cânon.
Mais adiante, no Præfatio in libros Salomonis,
escreve o douto tradutor: Sicut ergo Judith, et Tobiae et
Machabaeorum libros legit quidem Ecclesia sed inter
canonicas Scripturas non recepit sic et haec duo volumina
legat ad aedificationem plebis, non ad auctoritaten
ecclesiasticorum dogmatum confirmandam.
Como as antecedentes, são claras e decisivas estas
palavras contra a inclusão dos apócrifos no catálogo dos
livros inspirados. Aí se diz que assim como a Igreja lê
151
(leitura pública) Judite, Tobias e os Macabeus, não
obstante excluir tais livros das Escrituras canônicas,
assim também lê os livros de Sabedoria e Eclesiástico
para a edificação do povo e não para confirmar dogmas
eclesiásticos.
Explica facilmente a dúvida de alguns sobre o
caráter desses escritos religiosos não só o hábito de os
lerem as Igrejas primitivas em suas assembleias, mas
ainda o andarem incorporados na tradução alexandrina
ou dos Setenta, citada pelos Apóstolos, a veneração de
que os cercavam judeus e cristãos, a ignorância dos
tempos e a ausência quase completa do espírito crítico
nos dirigentes medievais.

4. Confirma o depoimento de Josefo e S. Jerônimo


contra a canonicidade dos apócrifos o testemunho
dos mais respeitáveis doutores da Igreja em todos os
séculos até o concílio de Trento.

Evidentemente essa nuvem secular de


testemunhos põe a toda luz o erro grave de Trento, e
justifica plenamente a Reforma em sua decisão sobre o
cânon. A voz potente do Doutor Máximo, ecoando, no 5º
séc., a crença dos primeiros séculos da Igreja, repercute,
com intensas vibrações, até o 16º séc.
Sigamos essas vibrações, a maior parte das quais
registradas no Dictionary of the Bible do Dr. W. Smith,
obra altamente cotada no mundo saxônico.
Contra a canonicidade dos apócrifos
pronunciaram-se:

1º séc.: (F. Josefo, já referido, além de Jesus Cristo e os


Apóstolos, que sancionaram o cânon judaico).
152
2º séc.: Melitão de Sardes (160).
3º séc.: Orígenes (183-253); ap. Eusebius.
4° séc.: Atanásio (296-373); Cirilo de Jerusalém (315-
386); Gregório Nazianzeno (300-391);
Anfilóquio (380); Epifânio (303-403); Hilário
de Poitiers (370); Rufino (380).
5º séc.: (Jerônimo, já referido).
6º séc.: Primásio, Commentarius in Apocalypsin IV.
Cosin. § 92; Lenotius (590) De Sectis.
7º séc.: Gregório, o Grande, papa, Moral XIX 21, p. 622.
8º séc.: Beda, o Venerável, In Apoc. IV; João Damasceno
(+750), De Fid. Orthox. IV. 17.
9º séc.: Alcuíno, ap. Hody 654, e Carm. VI, VII.
10º séc.: Radulphus Flaviacensis, In Leviticum XIV, Hody
655.
12º séc.: Pedro de Cluny, Epist. c. Petri, Hody 1. c.; Hugo
de S. Vítor, De Script. 6; João de Salisbury, Hody,
6.56, Cosin. § 130.
13º séc.: Hugo Cardinalis, Hody 656; Tomás de Aquino,
ap. Pref. Ger., p. XIX, Pe. A. P. Figueiredo.
14º séc.: Nicolau de Lira, Hody p. 657. Cosin. § 146;
Wycliffe,? comp. Hody, 658; Ocam, Hody, 657.
Cosin. § 157.
15º séc.: Tomás Anglico, Cosin. § 150; Thomas Netter, Id.
151; Antonino, arcebispo de Florença, S.
Theolog., Part. III, Tit. 18, e 6.°, § 2; Afonso
Tostado, bispo de Ávila, ap. P. A. P. Figueiredo.
16° séc.: Cardeal Ximenes, Ed. Compl. Pref.; Sixtus
Lenensis, Biblioth. i. 1.; Cardeal Caetano, Hody,
p. 662, Cosin. § 173.

Algumas observações nos sugere a lista supra.

153
1. Melitão, bispo de Sardes, é o primeiro escritor
eclesiástico, que, após diligentes viagens e pesquisas,
nos dá o catálogo dos livros canônicos do V.T.,
reconhecido em seu tempo, no 2º séc., poucos anos
depois da morte do último Apóstolo. Pelo tempo e por
ser o 1º catálogo, o seu testemunho é sobremodo
valioso. Ora, como Josefo, ele exclui os livros apócrifos.
2. Orígenes seguiu de perto a Melitão; é conhecido
pela sua vasta erudição, e, como o bispo de Sardes, dá-
nos o catálogo dos livros sagrados do V. T., excluindo os
apócrifos.
3. O grande Atanásio, adversário de Ário, pouco
depois de Orígenes, dando-nos o catálogo dos livros
hebraicos, escreve: “Além destes há também outros
livros do Velho Testamento, que não são canônicos... A
Sabedoria de Salomão, a Sabedoria de Jesus, filho de
Siraque, Ester, Judite, Tobias. Estes não são canônicos.
(Synops Sac. Scrip. Paris, 1627).
4. Ao testemunho de Atanásio e de outros célebres
doutores do séc. 4º, seguiu-se o catálogo do grande
autor da Vulgata, que mencionamos no parágrafo
anterior. E o que é importante é que, dois séculos
depois, no séc. 7º, mantém o papa Gregório, o Grande, a
tradução firmada por S. Jerônimo, e pede desculpas por
citar o livro dos Macabeus, que declara não ser canônico
(Greg. Moral lib. 19, cap. 17, apud Rev. Holden).
Aqui se vê a infalibilidade do papa, descoberta no
concílio do Vaticano em 1870, em oposição à
infalibilidade do concílio de Trento, cujo anátema, se
tiver efeito retroativo, deve ter feito estremecer os
ossos do santíssimo pontífice.
5. O protesto prévio, erguido através dos séculos
contra o decreto do concílio Tridentino, surgira nas
154
vésperas do mesmo concílio; proferiram-no teólogos de
nomeada no seio da Igreja Romana, tais como os três
mencionados pelo Pe. A. P. de Figueiredo — o cardeal
Ximenes, o bispo Afonso Tostado, o bispo Antonino,
canonizado, e o cardeal Caetano ou Cajetano, que atrás
citamos.

5. O concílio de Laudicéia (364), confirmado pelo


concílio de Trullo e pelo concílio geral de Calcedônia
(451), exclui do seu catálogo os apócrifos.

A primeira decisão sinódica sobre o cânon bíblico é


a do concílio de Laodiceia em 364, que plenamente
sanciona os catálogos particulares de Melitão, Orígenes,
Atanásio e outros, pela exclusão dos apócrifos. O
catálogo de Laodiceia é adotado pelo concílio de Trullo,
e pelo concílio geral de Calcedônia em 451. No parágrafo
antecedente vimos papa infalível contra concílio
infalível; surge agora concílio contra concílio: Laodiceia,
Trullo e Calcedônia (concílio geral) contra Trento!
Ouçamos o Pe. Antônio Pereira de Figueiredo,
tradutor da Vulgata: “De um e de outro Testamento
temos o Catálogo que no meio do terceiro século deixou
Orígenes, descrito por Eusébio, no Livro VI, da Hist., Cap.
25. O de S. Cirilo de Jerusalém na Catequese IV. O do
concílio Laudiceno da Frigia no cânon LX. O de Filiastro
de Bréscia na Heres. 88. O de Santo Atanásio na sua
epístola Festal. O de S. Gregório Nazianzeno no Poema
33. O de Santo Anfilóquio na sua Epístola Jâmbica a
Seléuco. O de Rufino de Aquiléia na Expos. do Símbolo.
O de S. Jerônimo na Epístola a Paulino, que também
costuma andar nas nossas Bíblias depois do Prólogo
Galeato. O de S. João Damasceno no Livro IV da Fé
155
Ortodoxa, cap. 17. Em todos esses Catálogos omitiram
seus Autores no Testamento Velho os Livros de Tobias,
e Judite, os da Sapiência e Eclesiástico e os dois dos
Macabeus.” (Pref. Geral, p. VI).
Estas palavras do Pe. A. P. de Figueiredo são ainda
confirmadas por outro autor católico romano de grande
nomeada, o Dr. Du Pin, que assim se exprime:
“O primeiro catálogo que encontramos dos livros,
das Escrituras entre os cristãos é o de Militão, bispo de
Sardes, dado por Eusébio no livro quarto da sua história
c. 26. E perfeitamente de acordo com o dos Judeus...
Orígenes também em certa passagem tirada da
exposição do Salmo I conta vinte e dois livros do Velho
Testamento... O concílio de Laodiceia o primeiro sínodo
que determinou o número de livros canônicos; S. Cirilo de
Jerusalém na sua quarta leitura catequética; S. Hilário,
no seu prefácio aos Salmos; o último cânon, falsamente
atribuído aos apóstolos; Anfilóquio citado por
Balsamon; Anastásio Sinaita, sobre o Hexâmeron lib. 7.
S. João Damasceno, no seu quarto livro da fé ortodoxa; e
autor da Sinopse das Escrituras, e da carta festiva
atribuídos a Atanásio; o autor do livro da jerarquia,
atribuído a S. Dionísio; e os Nicefórios; seguem o cânon
do catálogo de Militão. Gregório Nazianzeno é da mesma
opinião”. (Bibi. des auteurs Eccles. v. I, Dis. pret. secç. 2,
ap. R. Holden).

Provas Internas

156
Não menos concludentes contra a inspiração dos
livros apócrifos são as provas internas. Examinemo-las
sucintamente:
1. À primeira vista se oferece o fato singular de
terem sido os livros apócrifos escritos não em hebraico,
língua dos judeus, mas em grego. Não é absolutamente
crível que qualquer livro sagrado dos judeus fosse
escrito em língua estrangeira. A língua, em que estão
escritos os apócrifos, é por si um solene protesto contra
a sua canonicidade. E além de língua estranha, estranho
é ainda o estilo e o tom da linguagem. Neles não se
encontra aquela pureza de doutrina e dignidade de
linguagem, que caracterizam os livros genuínos da
Bíblia, como em seguida veremos.
2. ECLESIÁSTICO — O prólogo do livro apócrifo do
Eclesiástico mostra desde logo o seu caráter espúrio.
Declara nas primeiras linhas que — “merecidamente
convém louvar a Israel pela sua doutrina e sabedoria.” E
mais abaixo escreve: “Eu vos exorto... a que nos perdoeis
naqueles lugares, em que seguindo a imagem da
sabedoria parece que desfalecemos na contextura das
palavras.” O louvor e o perdão destoam por completo da
nobre linguagem dos escritos canônicos.
3. MACABEUS, a) — Ignorando o autor do 2º livro
dos Macabeus, como o do Eclesiástico, que falava por
inspiração do Espírito Santo, desce igualmente a
desculpar-se com os seus leitores: “Se a minha narração
está bem organizada e como convém à história, isso é
também o que desejo: mas se pelo contrário foi com
menos dignidade, devesse-me perdoar, si minus dignae
concedendum est mihi.” (2 Macabeus 15:39)
Tal perdão nunca pedem aos pecadores os que são
os órgãos legítimos do Espírito.
157
b) Em 2 Macabeus XIV.42, louva o autor o
procedimento de Razias, nobre judeu, que para não ser
preso por seu inimigo, rasga, como Catão, as próprias
entranhas, e, arrancando-as, lança-as sobre o povo, e
morre, “escolhendo antes morrer nobremente, nobiliter
mori, do que ver-se sujeito a pecadores!”
O louvor ao crime do suicídio, revela a ausência de
divina inspiração; o advérbio nobiliter trai a mão
profana, que escreve. (Êxodo 20:13)
c) Em Macabeus 12:40-46, Judas, fazendo enterrar
seus soldados mortos, por causa de ídolos que traziam
consigo (v. 40), manda oferecer “sacrifícios pelos
pecados dos mortos.” E termina: “É logo um santo e
saudável pensamento orar pelos mortos, para que
sejam livres de seus pecados.”
A ideia pagã do purgatório, exposta por Virgílio na
“Eneida” e oposta a todo o ensino da Bíblia, havia
contaminado o mosaismo dos Macabeus, como séculos
depois contaminara o catolicismo romano. É possível,
portanto, que os teólogos de Trento achassem, nessa
invasão do paganismo, a prova da canonicidade deste
apócrifo.
4. TOBIAS — O livro de Tobias revela, à simples
leitura, o seu caráter apócrifo. Nele se fotografam as
crendices, superstições e feiticismo de trevosos tempos.
Basta, para nos convencer, expormos seu entrecho.
O velho e piedoso Tobias deitou-se um dia cansado,
ao pé duma parede, onde moravam imprudentes
andorinhas. Mais imprudente que elas, parece que o
velho Tobias dormiu com os olhos abertos e em posição
perigosa. O fato é que alguma coisa quente, que veio de
cima, lhe cegou ambos os olhos. (Tobias 2:10,11).

158
Cego e pobre, envia a seu filho, o jovem Tobias, a
Rages, longínqua cidade dos medos, a receber de
Gabelo, seu parente, dez talentos, que lhe emprestara.
Deus envia o anjo Rafael para guiar o moço. (Tobias 3:25
e 4:21, 22). Prestes para a viagem, apresenta-se o anjo,
como um galhardo mancebo, e declara conhecer
perfeitamente o caminho de Rages. — Quem és? — Lhe
perguntou o velho. — Sou Azarias, filho do grande
Ananias — lhe responde o Anjo. (Tobias 5:8,16-18)
Partem. Pousam ao pé do rio Tigre. Ao nele lavar o
jovem Tobias os pés, investe-o monstruoso peixe. Clama
por socorro. — Pega-lhe pelas guelras — brada-lhe o
companheiro. O moço o tira para fora, e, por ordem do
Anjo incógnito, rasga-lhe o ventre e tira-lhe o coração, o
fel e o fígado, explicando o Anjo que um pedacinho do
coração, posto sobre brasas, produz uma fumaça, que
afugenta demônios, ao passo que o fel dá vista a cegos!
(Tobias 6.4-89).
Pousando na casa de Raguel seu parente, pede-lhe
a filha em casamento. Lúgubre fado pesa sobre Sara! Um
demônio Asmodeu enciumara-se por ela (Tobias 3:8), e
na noite de núpcias matara-lhe sucessivamente sete
maridos!
Casa-se o jovem Tobias, e à noite queima, em vivo
braseiro, um pedacinho do coração do peixe, e o
demônio tonto pelo fumo, é preso pelo Anjo Rafael e
ligado no deserto do Alto Egito! (Tobias 8:2, 3).
Feliz e rico, regressa à casa paterna, guiado sempre
por Azarias, filho do grande Ananias. Chegado, aplica o
fel do peixe nos olhos do pai, que recobra a vista. (Tobias
11:13-15). Por fim o Anjo descobre o seu ardil!
Eis a lenda ridícula, que o decreto do concílio de
Trento declarou de divina, inspiração!
159
Obcecados os padres de Trento, não trepidaram na
blasfêmia de fazer o Espírito Santo responsável pelo
extraordinário da Cegueira, pela mentira do Anjo, pelo
feitiço do peixe, pelos ciúmes assassinos do demônio
Asmodeu, preso no Alto Egito!
É incrível como até hoje endossa, a Igreja Romana
tricas e feitiçarias tão grosseiras!
5. JUDITE — Não menos eloquente contra a
infalibilidade do concílio de Trento é o livro apócrifo de
Judite. É uma lenda patriótica, dessas que alimentam o
orgulho e a coragem dos povos.
Viúva, ainda moça e bela, é Judite surpreendida
pela notícia alarmante de que Holofernes, general de
Nabucodonosor, bloqueara Betúlia, cidade de sua
residência. Estimulada pela sua fé religiosa e gloriosas
tradições de seu povo, ora e alenta os seus apavorados
concidadãos. Veste-se de gala, orna-se de ricos enfeites,
realça a sua nativa formosura, e o Senhor lhe acrescenta
gentilezas. (Judite 10:3, 4). Penetra no acampamento
inimigo, e em astucioso discurso convence a Holofernes
de que ele é o glorioso instrumento para castigar o seu
povo, que ela repudia. Com tais enganos e o fulgor de
seus olhos, subjuga o terrível general dos Assírios, e,
acedendo aos convites deste, corta-lhe, à noite, a cabeça,
a ele, que dormia em profunda embriaguez. Transpõe
em seguida o arraial, entra na cidade, e entrega a seus
concidadãos a cabeça do seu inimigo, fruto de seu
heroísmo, astúcia e deslealdade!
Como no livro de Tobias, revela o caráter espúrio
deste a mentira, aqui agravada pela hipocrisia e traição!
E possível que os teólogos de Trento, na canonização
deste apócrifo se aspergissem com o imoralíssimo
princípio de que o fim justifica os meios.
160
Fundamentos do Concílio Tridentino

Em sua Prefação Geral, reconhece o tradutor da


Vulgata, Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, que foi o
concílio Tridentino que fixou o cânon sagrado para os
católicos romanos. Achavam-se presentes, na IV sessão,
em que se votou o decreto sobre o cânon, apenas 5
cardeais e 48 bispos segundo nos informa o dito padre,
instruído por Sarpi, historiador da célebre assembleia
(Pref. Ger. p. 17, 18). Número este, por certo,
insignificante para justificar-se o sacro approbante
œcumenico concilio.
Se exíguo era o número dos representantes da
Igreja Universal, mais exíguas eram as provas em prol
da canonicidade dos apócrifos, que o concílio,
entretanto, sob pena de anátema, ordenou fossem
recebidos pari pietatis affectu ac reverentia.
Sentindo a necessidade de provar que o concílio era
ecumênico ou geral, não obstante a exiguidade da
representação, traz o Pe. A. Pereira, à página XXI da Pref.
Geral, o argumento admirável de que esta era a
convicção de “todos os Católicos”, mormente o era dos
apoucados representantes, e para o mostrar narra o
seguinte incidente altamente significativo, que se deu na
mesma memorável sessão IV, quando um dos membros
do concílio teve escrúpulos de receber a tradição sobre
os apócrifos “com igual afeto e reverência”. “E foi que
duvidando Jacques Naclanto, bispo de Chiozza, assentir
a cláusula do Decreto das Tradições, em que se dizia,
que elas se deviam receber e venerar pari pietatis
161
affectu, que as Escrituras: todos os outros Padres do
Concílio o levaram tanto a mal, e o interpretaram tão
rigorosamente, que pouco faltou que não dessem a
Naclanto por Herege. Por último ou atemorizado, ou
convertido, subscreveu Naclanto sem alguma exceção
ao Decreto, dando o sim não pela palavra que era do
costume, Placet, mas dizendo, Obediam.”
Dá-nos este incidente, narrado por pessoa
insuspeita, a conhecer o espírito de intolerância e
tirania, que soprava no ânimo dos que, arrostando toda
a evidência externa e interna lavraram na canonização
dos apócrifos do V.T., imperecível documento de sua
falibilidade.
É debalde que, no cap. II de sua Prefação Geral, se
esfalta o tradutor da Vulgata por justificar o Concílio em
agregar ao volume sagrado livros que não pertenciam
ao cânon judaico, recebido por Cristo e seus Apóstolos.
Acompanhemo-lo nos fundamentos que apresenta
a favor da decisão do concílio Tridentino.
1. SANTO AGOSTINHO (354-430), contemporâneo
de S. Jerônimo, é citado como um dos patronos dos
teólogos de Trento.
A sua atitude, de fato, quanto à extensão e número
dos livros do cânon do V. T., parece divergir da do
Doutor Máximo, de sorte que estes dois vultos
proeminentes do 4º séc. chefiam, através da idade
média, as duas correntes tradicionais, que no séc. 16º se
fixaram, uma na Reforma, que abraçou o cânon estreito
de Jerônimo; a outra no conc. de Trento, que adotou o
cânon largo de Agostinho.
Sobre isto escreve autoridade competente: “A real
divergência em relação ao conteúdo do cânon do V. T.,
deve ter tido sua origem em Agostinho, cuja linguagem
162
vacilante e incerta sobre o ponto fornece abundante
material de controvérsia.
Em virtude de sua educação e caráter, ocupava ele
posição especialmente desfavorável à crítica histórica, e
contudo, quando dela tratava em seus trabalhos
ordinários, sua influência dominante dava consistência
e força à opinião que parecia advogar, pois, com justiça,
pode-se duvidar que tenha ele divergido
intencionalmente de Jerônimo a não ser apenas na
linguagem.” (Dr. W. Smith. Dict. of the Bibl., vol. I, p.
362).
Realmente, não há discrepância entre S. Jerônimo e
Santo Agostinho, desde que aceitemos a explicação do
cardeal Caetano, de que este nos fala dos apócrifos como
pertencentes ao cânon eclesiástico, onde se incluíam
esses livros, que eram lidos na assembleia pública da
Igreja. E isto explica, em grande parte, as vacilações e
incoerências desse luzeiro do 4º século, quando se
esforça por fixar o cânon. Tornam ainda esta solução do
cardeal Caetano mais plausível as seguintes palavras
com que ele prefacia o seu catálogo, citadas e
comentadas pelo Rev. R. Holden:
“O método seguinte deve observar-se em
referências às escrituras canônicas; as que são
recebidas por todas as igrejas católicas devem ser
preferidas às que algumas das igrejas ainda não
reconhecem; e no caso também desta última classe, as
que são recebidas pelas igrejas mais numerosas e
importantes, devem ser preferidas.” (De Doctr. Christ.
liv. 2 c. 8.).
“É manifesto que a solução de Caetano é própria, e
que a palavra “canônica” nesta passagem, não sinônimo
de inspirada, porque Agostinho seria o último que caísse
163
a engano igual ao falar em dar preferência a uma parte
da obra da inspiração mais do que a outra, quando tudo,
sendo de Deus, havia de ter a mesma autoridade.”
As opiniões de Agostinho prevaleceram nos dois
concílios regionais, do que abaixo trataremos,
celebrados no norte da África, a que file pessoalmente
assistiu. O concílio de Hipona (393), na própria cidade
de sua residência, e o de Cartago (397), interpretando
evidentemente o seu pensamento, tratem dos livros que
devem ser lidos publicamente nas Igrejas, o que vem
confirmar a hipótese do erudito cardeal supracitado.
Alude o Pe. Figueiredo à tradição das Igrejas
africanas em abono do cânon tridentino. Esta tradição,
como se vê, são as opiniões de Santo Agostinho, que,
aferrado por seu turno às tradições provocadas pela
tradução dos Setenta, feita em Alexandria e corrente
naquela região, não podia deixar de prestar certo
respeito e veneração a essa literatura religiosa inocente,
sem que isso aprovasse o sacrilégio pari pietatis affectu
de Trento.
Finalmente, para remover o último resquício de
dúvida sobre a atitude de S. Agostinho e as igrejas da
África, aqui transcrevemos o que escreve o Rev. R.
Holden, à pág. 26 do seu interessante tratado “Os Livros
Apócrifos.”
“Quanto à Igreja em África, há dois Bispos africanos
do século 6º que, juntamente com o famoso Agostinho,
devem ser ouvidos.
Junílio, falando nos livros de Tobias, Judite e os
Macabeus, pergunta e responde: “Por que não correm
estes livros entre as escrituras canônicas? — Porque
também entre os Hebreus foram recebidos com esta

164
diferença, como testificam Jerônimo e outros mais”
Junil. African, de part. div. legis lib 1 c. 3.
Primásio, Bispo de Adrumeto, no seu comentário
sobre o Apocalipse c. XV. diz que pelas vinte quatro asas
e vinte e quatro anciãos, São João faz referência aos
“livros do velho testamento, que naquele mesmo
número recebemos pela autoridade canônica.”
2. O CONCÍLIO DE CARTAGO (397) e o de
HIPONA (393), de que acima falamos, são aduzidos pelo
Pe. A. P. de Figueiredo, como um dos fundamentos da
decisão do conc. de Trento. Mui frágil fundamento, por
certo, diante do que acabamos de dizer. Ambos estes
concílios, expõem os sentimentos de S. Agostinho,
presente a eles, e ratificam a suposição razoável de que
o apoio deste bispo de Hipona se refere ao cânon
eclesiástico, e não ao cânon inspirado”, porquanto o
conc. de Cartago, que ecoa o hiponense, tratados livros
que se devem ler em público nas assembleias
eclesiásticas e determina que só se leiam as Escrituras
canônicas, e entre estas menciona os apócrifos. Prœter
Scripturas canonicas nihil in Ecclesia legitur. Este legitur
está indicando que a mente do concílio não era repelir o
testemunho de S. Jerônimo, nem o do concílio de
Laodiceia (364), apoiado pelo concílio de Trulo e pelo
concílio geral de Calcedônia (451), nem rebelar-se
contra o sentimento unânime dos doutores da Igreja
desde o 1º século. A explanação do sábio cardeal
Caetano se impõe: não trataram esses dois concílios
africanos, senão de coartar ou evitar abusos na leitura
pública de livros piedosos, fixando cânon eclesiástico. O
próprio teor do decreto supõe essa intenção.
Como observa o conspícuo cardeal, a expressão
canônico, não tinha na patrística o sentido restrito e
165
técnico, que hoje lhe damos, e o mesmo acontece,
pondera o Rev. Ricardo Holden, com as palavras —
Escrituras, Sagradas Escrituras, que igualmente, em um
sentido lato, abrangem a literatura religiosa de que, nas
congregações dos primeiros séculos, era permitida a
leitura pública.
O decreto de Cartago não discrepa, portanto, como
faz o de Trento, dos sentimentos universais da Igreja, e
o próprio texto do decreto 47 sugere esta solução, pois
trata, da leitura pública, legatur.
Desnecessário é ainda mencionar que há razões
para se supor espúrio esse cânon ou decreto, pois além
da confusão na redação, existe aí um anacronismo de 21
anos, porquanto menciona o papa Bonifácio, que só
subiu ao pontificado em 418 (Livr. Apoc., R. Holden, p.
28). Reconhece o Pe. A. P. de Figueiredo este
anacronismo, atestado por Labbé (Pref. Ger., p. XV). Fica
assim completamente desvalorizado este fundamento,
que é apenas um prolongamento da atitude de Santo
Agostinho.
3. O PAPA INOCÊNCIO I é invocado pelos
defensores do ato irrefletido dos teólogos de Trento. Em
uma carta deste papa, datada de 405, vem apenso um
catálogo dos livros canônicos, incluindo os apócrifos. É
um cânon eclesiástico, explana o cardeal Caetano, onde
os apócrifos figuram como norma de costumes, e não de
dogmas. E o que dá grande valor a esta explanação é que
o papa Gregório, o Grande (590-604), sucessor de
Inocêncio no século seguinte, como já vimos, repudia a
ideia de inspiração divina dos apócrifos.
O que é porém, probabilíssimo é ser o catálogo
falso, pelas seguintes concludentes razões: a) o catálogo
é um mero apêndice da carta, facilitando a ação
166
fraudulenta de mão estranha; b) o apêndice só no século
nono, 460 anos depois, é que se tornou conhecido,
exatamente no século em que foram forjados por
Isidoro Mercator uma multidão de documentos, de que
se serviu o papado, e que hoje são repelidos por todo
escritor respeitável da Igreja Romana; c) Cassiodoro, no
6º séc., escrevendo sobre o cânon, não faz a mínima
alusão ao catálogo de Inocêncio, e o mesmo faz, no 7º
séc., Crescônio, que tratando dos livros apócrifos, e
tendo citado seis vezes Encarta de Inocêncio, não alude
sequer ao apêndice, que era então certamente
desconhecido. (R. Holden).
É, pois, nulo esse documento.
4. O PAPA GELÁSIO (492-496) e um concílio de
70 bispos reunido em Roma, publicam um catálogo dos
livros canônicos, que abrangem os apócrifos.
Não é necessário socorrer-nos da interpretação do
cardeal Caetano, para invalidarmos este documento.
a) Em primeiro lugar nada se sabe ao certo sobre
tal concílio, b) Depois, o testemunho citado do papa
Gregório, grande pelo seu saber e piedade, ainda com
mais razão, do que com respeito a Inocêncio, anula este
documento, por quanto não é crível que ignorasse a
decisão de um concílio em sua própria Sé. c) Finalmente,
tal documento deve o conhecimento de sua existência
ao mesmo falso Isidoro, do Século nono. Só isto basta
para destruí-lo.
5. O PAPA EUGÊNIO IV é o último chamado a
depor em prol do decreto do conc. de Trento.
Em um catálogo que este papa publicou em 1441,
depois do conc. Fiorentino, mencionam-se os apócrifos.
É sobremodo moderna tal lista, e por isso de valor muito
secundário. Quanto mais se afasta do testemunho
167
primitivo, tradição favorável aos livros espúrios do V. T.
vai-se tornando mera repetição do que disseram outros,
e, como em geral acontece com toda a tradição dos
antigos, converte-se em uma cadeia de elos fictícios.
Este catálogo de Eugênio IV, publicado depois do
conc. Florentino, contém, segundo a douta opinião do
cardeal Caetano, que floresceu poucos anos depois, o
cânon eclesiástico, e isto se deve dar por provado pelo
testemunho de dois bispos que fizeram parte do concílio
de Florença, Antonino e Tostado, que já citamos.
Ouçamo-los:
“Antonino (canonizado por Adriano VI) diz: “Os
hebreus contam 22 livros em tudo como autênticos.
Chamam apócrifos os livros de Sabedoria etc. A igreja,
contudo, recebe a apócrifa também como verdadeira, e
útil e moral, ainda não válida para prova em
controvérsias sobre coisas que são da fé.” (Anton. Sum.
Hist. P. I. Tit. 3 c. VI.)
Afonso Tostado diz: “Nenhum daqueles livros
apócrifos, ainda que seja escrito entre os mais livros da
Bíblia, e lido na igreja, tem tanta autoridade que a igreja
argumente para provar qualquer verdade, em quanto a
isso não os recebe. Neste sentido é que Jerônimo diz:
apocrypha nescit ecclesia”. (Tosta, enarr, praefat, in
Paralip, 9. 7.)
De areia, pois, são os fundamentos em que se
basearam os 53 membros, que formaram o concilio, na
celebre Sessão IV, em que foram canonizados os livros
apócrifos do V.T.
Ensina o cardeal Belarmino, acérrimo defensor da
infalibilidade papal, que “a Igreja não pode de nenhum
modo fazer canônico um livro, que não o é; mas somente
declarar quais são os canônicos; e isto não a seu talante,
168
mas segundo antigos testemunhos, a semelhança de
estilo com os livros não controvertidos, e sentido e
apreciação dos cristãos. (De Verb. Dei Tit. I, c. 11).
Ora, como mostramos, nada disso se deu.
1. Os antigos testemunhos são eloquentemente
contra o concílio. Até o 4º século, o testemunho era
absoluto; apenas neste século as opiniões dúbias de S.
Agostinho trouxeram fraca perturbação, que, aliás,
segundo o douto cardeal Caetano, pois apenas um mal-
entendido sobre o cânon eclesiástico. A lista de
testemunhos, que demos, mostra que em todos os
séculos ergueram-se vozes numerosas e respeitáveis
para proclamarem o erro e o sacrilégio do concilio de
Trento.
2. A semelhança de estilo com os livros não
controvertidos, aos quais os próprios teólogos
romanistas dão primazia, denominando-os
protocanônicos, a despeito do anátema tridentino, não
existe, como já mostramos com Eclesiástico, Macabeus,
Tobias e Judite. Há, ao contrário, um contraste frisante
entre o tom da linguagem entre os canônicos ou
protocanônicos e os apócrifos ou dêuterocanônicos.
Naqueles o tom nobre e firme revela o dedo de Deus;
nestes o temor, a vacilação, as desculpas e as
superstições manifestam de plano autores
inconscientes da própria inspiração!
3. O sentido e apreciação dos cristãos é, por certo, o
assentimento geral da Igreja. Ora, o assentimento geral
era exatamente o contrário, como, aliás, nos faz
conhecer o próprio cardeal Caetano nas vésperas da
reunião do concílio.
Coisa curiosa é que uma Igreja, que avoca para si a
infalibilidade, nada tivesse dito sobre o número dos
169
livros sagrados até o século XVI, e que, no seu próprio
seio, reinasse á dúvida sobre matéria de tão
fundamental importância.
“Muitos, escreve Palavicini, famigerado historiador
do Concilio, viviam a este respeito (de quais eram os
livros canônicos) na mais deplorável incerteza, o
mesmo livro era adorado por uns como a expressão do
Espírito Santo, e execrado por outros como obra de um
impostor sacrílego”. Tal era o dissentimento e
divergências no seio do Romanismo na época do
próprio Concílio. No meio dessas dúvidas confessadas
por Palavicini, dominava a corrente jeronimiana entre
vultos eminentes do clero romano nas vésperas de se
reunir a assembleia de Trento, como podemos ver com
o cardeal Caetano, e os bispos Antonino e Tostado.
Diante, pois, dos próprios princípios lançados pelo
insuspeito cardeal Belarmino, arenosos e movediços
são os alicerces do decreto do concílio Tridentino
igualando os livros apócrifos aos livros divinos da
Palavra de Deus.
Em sua reação cega contra a Reforma, que havia
adotado o cânon judaico, recebido por Cristo, pelos
Apóstolos, pela Igreja primitiva e pela tradição de todos
os séculos, os padres de Trento foram “impelidos a um
ato sacrílego, incidindo no anátema divino, inscrito ao
encerrar-se o cânon bíblico: “Porque eu protesto a todos
os que ouvem as palavras da profecia deste livro: que se
algum lhe ajuntar alguma coisa, Deus o castigará com as
pragas que estão escritas neste livro. E se algum tirar
qualquer coisa das palavras do livro desta profecia,
tirará Deus a sua parte do livro da vida, e da cidade
santa, e das coisas que estão escritas neste livro

170
“imponet Deus super illum plagas scriptas in libro isto.”
(Apoc. 22:18, 19).
Sobre o conc. de Trento e a Igreja de Roma incidem
diretamente estas pragas apocalípticas. Entretanto, sem
o mínimo critério histórico, apelidam truncadas as
edições protestantes da Bíblia, por não conterem os
apócrifos; apoiados no veredictum seguro da crítica
histórica e textual, nós é que com razão tachamos de
acrescentadas as edições católico-romanas do volume
sagrado.
Não contente com a imputação falsa de truncadas,
atira ainda o clero sobre as edições e traduções
protestantes da Sagrada Escritura a acusação caluniosa
de Bíblia falsificada. E levam o sacrilégio e impiedade ao
ponto de lançar publicamente às chamas a Palavra de
Deus!
Mas, os que assim resistem à verdade, homens
corrompidos de coração, réprobos acerca da fé, não irão
avante, porque a todos se fará manifesta a insipiência
deles, insipientia eorum manifesta erit omnibus (2
Timoteo 3:8).

Cânon do Novo Testamento

Sobre o cânon do N.T., não há divergência entre a


Reforma e o concílio Tridentino. Contêm as edições
protestantes da Bíblia e as católicas os mesmos livros
em número de vinte e sete: 4 Evangelhos, 1 Atos dos
Apóstolos, 13 Epístolas de São Paulo, 2 de S. Pedro, 3 de
S. João, 1 de S. Tiago, 1 de S. Judas, 1 dos Hebreus, 1
apocalipse.
171
Os apócrifos do N. T., foram escrupulosa e
concordemente joeirados.
Morosa e sucessiva foi a formação do cânon do N.T.,
como tinha sido a do V.: os escritos inspirados tiveram
de passar pelo cadinho de um reconhecimento universal
da Igreja. Na consecução paulatina de um consenso
geral, foi o cânon expurgado dos escritos apócrifos. Mais
de dois séculos foram necessários para a aceitação plena
e unânime dos vinte e sete livros de que consta o N.T.
Foram estes livros distribuídos, no século III, por
Orígenes e Eusébio, em dois grupos, a que chamaram
homolegumenes (geralmente recebidos) e antilegomenes
(duvidosos). Os desta classe eram cinco: as Epístolas de
Tiago, de Judas, 2ª Pedro, 2ª e 3ª João. Alguns
acrescentam — Hebreus e Apocalipse. Do séc. III em
diante, os seus direitos ao cânon foram reconhecidos
por toda a Igreja.
Reabrindo, de necessidade, o problema da fixação
do cânon a Reforma teve de examinar com cuidado os
títulos dos antilegomenes. Lutero teve suas dúvidas
sobre a inspiração ou grau de inspiração da epístola de
Tiago, de Judas, da epístola aos Hebreus e do Apocalipse.
Não só as dúvidas da antiguidade cristã sobre estes
escritos, mas principalmente o seu conteúdo, levaram-
nos a aventar essas dúvidas precipitadamente. Zwínglio
levantou objeções apenas ao Apocalipse.
Ecolampádio dá a seis antilegomenes (exclui a epist.
aos Hebreus) lugar inferior, “porém apela não obstante
para o testemunho deles!”
Mantém Calvino, o mais profundo teólogo da
Reforma, uma atitude moderada e conservadora sobre
a cânon, e suas opiniões prevaleceram em todos os
credos da Reforma. Dissiparam-se as dúvidas
172
passageiras de Lutero e outros, como se dissiparam as
incertezas subsistentes entre os doutores cristãos até
fins do século terceiro. A liberdade crítica dos
Reformadores era apenas um reflexo da liberdade do
criticismo dos padres primitivos, e revela, em uns e
outros, o sentimento de responsabilidade na
determinação ou verificação do cânon sagrado.

A Reforma e a Liberdade

“A Reforma, no dizer do eminente professor de


Union Seminary de Nova York, foi um grande ato de
emancipação da tirania espiritual, e uma vindicação dos
sagrados direitos da consciência em matéria de fé
religiosa. A atitude de Lutero na Dieta de Worms, em
face do papa e do imperador, é um dos mais belos
acontecimentos da história da liberdade, e a eloquência
de seu testemunho ressoa através dos séculos.
Quebrar a força do papa, que se chamava vigário
visível de Deus na terra, e que como tal era crido, e que
segurava em suas mãos as chaves do reino do céu,
requeria mais coragem moral do que para combater
cem batalhas, e foi isso feito por um humilde monge no
poder da fé.”
Filho da consciência emancipada pelo heroísmo
dos Reformadores, tornou-se a Reforma o sopro
vivificador de todas as modernas liberdades sociais.
Lançada a semente sagrada da liberdade religiosa, foi
ela frutificando, “pouco a pouco, e dissipando a
intolerância perseguidora desses tempos de fé e
fanatismo, de zelo e barbaria. A fogueira dos mártires da
173
liberdade ia projetando luz intensa na consciência
entenebrecida da humanidade.
Além disso, a Reforma pôs a alma em contato direto
com o seu Deus, entregou ao povo o Livro Divino;
restituiu-lhe o direito de o ler, entender e seguir; fez
pesar sobre o indivíduo a responsabilidade de sua
crença e de seu destino, e conseguiu a discriminação
analítica entre o indivíduo e as suas opiniões, a
compatibilidade cristã entre a intolerância para com os
princípios e a tolerância para com as pessoas.
E que imenso progresso operou-se, na esfera da
liberdade religiosa, a atitude da Reforma do séc. XVI
para cá?

Intolerância e Perseguições

O espírito de intolerância e perseguições, era a


alma arte do fanatismo e barbárie da idade média. O
conúbio adulterino da Igreja com o Estado, no quarto
século, fez do braço secular o manejador do punhal
assassino do Catolicismo Romano. Para isso concorreu
o gênio de Tomás de Aquino (Summa Theol, Secunda
Secundæ, Quœst. X. Art. 11, e XI. Art. 3), que provou com
especiosos argumentos, que os hereges e os corruptores
da fé cristã, depois de excomungados pela Igreja,
deviam ser postos à morte pelo Estado (... non solum
excommunicari, sed et juste occidi). Roma sancionou esta
opinião do Doutor Angélico, e a proclamou no Sílabo. É
doutrina vigente do Romanismo.
De acordo com estes princípios, instituiu o papa
Inocêncio III, “um dos melhores” (Schaff), o execrando
174
tribunal da Inquisição, que era, no dizer de Castelar, “o
punhal da Igreja”, e apregoou a sangrenta extirpação
dos albigenses no sul da França. Nos anais da crueldade
humana, ocupam lugar saliente as atrocidades do Duque
De Alba contra os protestantes dos países Baixos (1567-
1573). Declara Gibbon que o número de protestantes
executados pelos espanhóis excedeu em muito, em uma
simples província, no curto reinado do célebre Duque,
agente de Felipe II, o número dos mártires no espaço de
três séculos, no Império Romano.
Segundo Grotius, subiram a 1.000.000 os mártires
holandeses. No saque de Haarlem, 300 cidadãos, atados
dois a dois, costa a costa, foram arremessados no lago,
em Zutphen 500 foram afogados no Yssel. “As
barbaridades cometidas entre o saque e ruínas de
cidades esfomeadas e abrasadas vão quase além do que
se pode crer: crianças eram arrancadas do ventre dos
corpos vivos de suas mães; mulheres e crianças violadas
aos milhares, e populações inteiras queimadas e
espatifadas pelos soldados, por todos os meios que
podia descobrir a crueldade em seu engenho diabólico.”
(Motley, Rise of the Dutch Rep., II, 504).
A noite de 24 de agosto de 1572 assinala a horrível
carnificina do S. Bartolomeu, que se estendeu a toda a
França, contra os Huguenotes. As vítimas são
variamente calculadas de 10.000 a 100.000. O Papa
Gregório XIII festejou o acontecimento com públicas
ações de graça e com uma medalha, onde n efígie do
papa e de um anjo vingador, trazia esta inscrição: —
Ugonottorum strages. E consta que o sombrio Felipe II,
campeão do papado, soltou pela primeira vez franca
casquinada!

175
“Na sala régia, escreve Castelar, onde está a Capela
Sixtina e a Paulina, há um fresco em que um emissário
do rei de França apresenta ao papa a cabeça de Coligny;
há um outro em que estão no meio dos anjos os
assassinos da noite de S. Bartolomeu.”
A perseguição continuou, em mais larga escala, com
as infames dragonadas de Luís XIV, com a violação e
revogação do édito de Nantes (1598-1685).
Crudelíssimos eram esses processos para a extirpação
do Protestantismo na França, que mereceram,
entretanto, a aprovação do clero e do próprio Bossuet.
Expatriaram-se 800.000 outros dizem 400.000
franceses industriosos, mas outros 1.000.000, que
foram levar sua atividade aos PaísesBaixos, à Inglaterra,
mormente à Prússia e Berlim, combatendo os seus
descendentes contra a França nas guerras napoleónicas
e concorrendo para o tremendo revés de 1870.
Em 1655, o violento morticínio contra os humildes
valdenses, no vale de Piemonte, provoca o horror do
mundo protestante e um protesto vigoroso de
Cromwell.
Roma jamais repeliu arrependida “sua
cumplicidade com esses capítulos negros e satânicos da
história da Igreja.” Muito pelo contrário, o Sílabo papal
(1864) sanciona esses princípios de sangrentas
perseguições, justificados por Tomás de Aquino. Leão
XIII, em sua Encíclica de 1º de nov. 1885, apoia a atitude
de Pio IX nesse compêndio de anátemas contra o
espírito de tolerância e de liberdade.
Por infelicidade, a semente de liberdade e
tolerância, lançada heroicamente no seio de uma
geração, que respirara por séculos uma atmosfera
impregnada de fanatismo e barbárie, e, nos próprios
176
países reformados, ora o odium theologicum, provocado
por discussões doutrinárias e disciplinarias, ora
ambições políticas e tiranias dinásticas, fizeram
aparecer, muitas vezes, públicas violações do grande
princípio básico do movimento emancipador do séc.
XVI.
A mais grave dessas violações incoerentes dos
reformados é a de consentir Calvino no suplício, em
Genebra, de Miguel Serveto, médico espanhol, que
negava e ridicularizava o dogma da S.S. Trindade.
Condenado ao fogo pelo tribunal da Inquisição em
Viena, França, foge ele para Genebra, onde, denunciado
por Calvino, é preso e condenado, segundo as leis
medievais, e o sentimento unânime da Cristandade
europeia, naqueles tem os de áspero fanatismo, à
fogueira, e supliciado a 27 de outubro de 1553, por
“crime de heresia e blasfêmia”.
Erro fatal de Calvino, que mereceu então o apoio
universal de católicos e protestantes! E, coisa singular!
O próprio Serveto, em carta a Calvino, reconhece, em
parte, a justiça da teoria, que o fez sofrer, dizendo que a
obstinação incorrigível e a malícia mereciam a pena de
morte (hoc crimen est morte simpliciter dignum. Calv.,
Opera VIII, 708).
O suplício, pois, de Serveto foi antes um crime do
tempo, que do homem.
Parece até, como diz Gaussen, que a voz de Calvino
foi a única na Europa, que mostrou alguma consideração
pela sorte de seu adversário. Procurou ele convencer,
em vão, o magistrado para mitigar a penalidade legal do
fogo pela espada. A Farel escrevia ele em 20 de agosto
de 1553: Spero capitale saltem fore judicium, poenae
vero atrocitatem (ignem) remiti cupio.
177
Contra essa obsessão do medievalismo a Reforma
pode protestar por boca de Lutero: Quode, escreve,
quoeris, an liceat magistratui occidere pseudoprophetas?
Ego ad judicium sanguinis tardus sum, etiam ubi meritum
abundat... Nullo modo possum admittere, falsos doctores
occidi: satis est eos relegari.” “Por que perguntas se é
lícito ao magistrado condenar à morte os falsos
profetas? Tardo eu sou para sentença de morte, ainda
mesmo lá onde abundem motivos justos. De modo
nenhum posso eu admitir que sejam postos à morte os
falsos mestres. Basta que sejam afastados.”
De modo nenhum, como se vê, admitiu o grande
Reformador a pena de morte aos herejes, elevando-se
destarte muito acima do seu tempo.
O Protestantismo, porém, não se contentou com
essa nobre expressão dos altos princípios da liberdade
espiritual, que é a sua mesma vida.
A 27 de outubro de 1903, no lugar em que se ergueu
a fogueira de Serveto, erigiu-lhe ele um monumento
expiatório, onde, de um lado, se lê a data do nascimento
e da morte de Miguel Serveto, e de outro os seguintes
dizeres:

FILS
RESPECTUEUX ET RECONNAISSANTS DE CALVIN
NOTRE GRAND RÉFORMATEUR
MAIS CONDAMNANT UNE ERREUR
QUI FUT CELLE DE SON SIÉCLE
ET FERMEMENT ATTACHÉS
A LA LIBERTÉ DE CONSCIENCE
SELON LES VRAIS PRINCIPES
DE LA RÉFORMATION ET DE L’EVANGILE
NOUS AVONS ÉLEVÉ
178
CE MONUMENT EXPIATOIRE
LE XXVII OCTOBRE MCMIII

O monumento foi custeado pelas Igrejas


Reformadas da Suíça, França, Holanda, Inglaterra e
Estados Unidos.
Por ocasião de sua inauguração, o Prof.
Dourmergue de Monlauban, proferiu, no discurso
oficial, as seguintes palavras:
“Suponde que esta manhã dessem os jornais diários
a seguinte notícia: “O Núncio Papal em Paris chegou a
Roma, e Pio IX comunicou-lhe logo um projeto, que,
parece, tem ele muito a peito realizar. O assunto se
relaciona com um monumento em expiação da
carnificina de S. Bartolomeu.
A fim de proclamá-la e repudiar em nome da Igreja
os seus atos de perseguição e intolerância nos séculos
passados, resolveu o Papa erigir, em frente do Louvre, e
à sombra de Saint Germain l’Auxerrois, cujo sino deu o
sinal daquela terrível carnificina, um bloco de granito
com esta simples inscrição: Em nome da Igreja e da
Cristandade Católica: “Peccavimus”. O monumento será
inaugurado a 24 de agosto próximo.”
“Que espanto dominaria então o mundo político e o
mundo religioso! Com quanta ânsia não tirariam os
jornais das mãos dos vendedores! A princípio
recusariam crer aos próprios olhos. E que imensa força
e prestígio de chofre ganharia Roma! Desarmados
seriam os seus mais perigosos adversários. O livre
pensamento não mais a exprobaria por causa da
Inquisição. Obrigados seriam os Protestantes a calar
suas acusações contra as Dragonadas e a Revogação do
Édito de Nantes. Depois da Reforma do séc. XVI,
179
nenhuma revolução seria tão completa nem de maior
alcance.” (Rev. C. H. Irving, J. Calv., p. 169-171).
Enclausurada, porém, em sua infalibilidade, Roma
jamais se penitenciou nem se penitenciará da mancha
sangrenta, que nodoa a história secular de sua
intolerância. Ainda hoje, no juramento de seus bispos,
ela exige deles a declaração de que hão de perseguir os
hereges, usque ad mortem: Hœreticos, Schismaticos et
rebelles eidem Domino nostro (o papa) vel successoribus
prœdictis pro posse persequar et impugnabo.
O Papado, que exige dos bispos este juramento de
combater e perseguir com todas as suas forças os
dissidentes, e que instituiu, no séc. 13º o negro tribunal,
que levou à fogueira milhares de infelizes, o de que são
os bispos os inquisidores natos, não pode renegar o
passado de horrores, para poder guardar intactas suas
pretensões ao infalibilismo. O concílio do Vaticano
fechou-lhe a porta ao arrependimento, e Gregório XVI
(1832), Pio IX (1864), Leão XIII (1885), reafirmam,
contra toda a corrente liberal da moderna civilização, a
intolerância perseguidora no domínio sagrado da
consciência.
Como os raios do sol nascente dissipam as névoas
acumuladas durante a noite nos largos vales dos nossos
grandes rios, assim o grande princípio da liberdade
individual, promulgado pelo Cristianismo e proclamado
pela Reforma, reagiu eficazmente nos países
reformados, e projetou sua influência, em maior e
menor grau, nos povos que se conservaram sob o jugo
da tirania papal, provocando muito embora constantes
protestos do Vaticano, que, no Sílabo, lançou o anátema
sobre todo o movimento liberal das sociedades
modernas.
180
Os próprios erros do Protestantismo, suas
transgressões, no começo, do nobre princípio da
tolerância, suas revoluções e grandes sofrimentos,
serviram para radicar mais profundamente, na
consciência pública dos povos evangélicos, o magno
princípio da liberdade espiritual. O monumento
expiatório de Genebra e a estátua da liberdade do porto
de Nova York são símbolos gloriosos do triunfo
definitivo do espírito cristão nas relações do indivíduo
com a sociedade, espírito que é o gênio da Reforma.

A Reforma e o Progresso

Quatrocentos anos há que o Protestantismo e o


Romanismo se acham, face a face, dirigindo cada um os
destinos de povos. O estado atual desses povos deve
revelar, com segurança, o gênio dessas duas religiões.
Neste largo lapso de tempo, devem ter cias
demonstrado suas respectivas aptidões para o
progresso, para o desenvolvimento moral e intelectual,
político o econômico das nações.
Para conhecermos as tendências sociais desses
dois ramos da cristandade, ouçamos Macaulay,
historiador inglês.
“As mais belas e férteis províncias da Europa, sob o
seu domínio (romanista) caíram em pobreza, em
escravidão política, e em torpor intelectual; ao passo
que os países protestantes outrora de proverbial
esterilidade e barbarismo, se tornaram, com a aptidão e
indústria de seus habitantes, em jardins, e podem

181
gloriar-se de uma longa lista de heróis e estadistas,
filósofos e poetas.
Qualquer que conhecer o que a Escócia e a Itália
naturalmente são e o que realmente eram, quatrocentos
anos atrás, poderá comparar a região em torno de Roma
com a região em torno de Edimburgo, e será deste modo
habilitado a formar juízo aproximado das tendências da
dominação papal.
A mesma lição é proclamada não só pela queda da
Espanha, a primeira dentre as monarquias, à mais
profunda degradação, mas também pela elevação da
Holanda, a despeito de tantas desvantagens naturais, a
uma altura que jamais atingiram comunidades tão
pequenas.
Quem quer que, na Alemanha, passa de um
principado católico romano para um protestante, ou na
Suíça de um cantão católico romano para um
protestante, sente logo que tem passado de um grau
inferior de civilização a um grau superior.
Do outro lado do Atlântico prevalece a mesma lei.
Os protestantes dos Estados Unidos deixaram muito
atrás os católicos romanos do México, Peru e Brasil. Os
católicos romanos do Baixo Canadá permanecem
inertes, ao passo que o continente inteiro, em torno
deles, fermenta com a atividade e empresas constantes.
A França parece uma exceção. Os franceses têm
dado indubitavelmente tais provas de energia e
inteligência, que, mesmo quando mal dirigidos, lhes dão
o direito de serem chamados um grande povo. Esta
aparente exceção, porém, quando examinada de perto,
vem confirmar a regra; porquanto, em nenhum país
chamado católico romano, tem tido, a Igreja Católica

182
Romana, durante gerações, menos autoridade, que na
França.”
O oferecimento da Reforma foi feito a todos os
povos, observa Carlyle: à Áustria, à Espanha, à Itália, à
França, à Boêmia, e é curioso ver a sorte das nações, que
não a quiseram aceitar.
É por certo admirável que Jaime Balmos, clérigo e
filósofo espanhol, em sua obra “O Protestantismo
comparado com o Catolicismo em suas relações com a
civilização europeia”, se mostre surdo ao clamor dos
fatos, e cego às condições sociais de seu próprio país!
Toca E. Peletan na causa da hegemonia das nações
protestantes. “A Reforma, diz ele, desenvolveu o eu,
motor sagrado da máquina humana, e na mesma
medida o sentimento do trabalho; povo protestante,
povo trabalhador, povo sábio, industrial, comerciante,
pioneiro. Por toda parte onde a história assinala um
rasgo de heroísmo ou um glorioso golpe de mestre em a
natureza — a Holanda arrebatada ao mar, a floresta
virgem transformada em ricas searas, é a Reforma que
aí pôs a picareta, e operou o milagre. A Reforma
desenvolveu finalmente o amor da liberdade... “Entre o
padre (romano) e o fiel há uma alma de mais: a alma do
fiel. A Reforma entregou a alma ao homem, e com a alma
a faculdade de querer e de agir, segundo os seus
interesses. Da liberdade interior à liberdade política, há
apenas um passo.” (La Mère).
Mais que Peletan, penetrou E. de Laveley na causa
íntima da superioridade social do Protestantismo sobre
o Romanismo, em quatrocentos anos evidentemente
demonstrada. Economista belga e professor em Liège,
em seu estudo de economia social, intitulado “De
l’Avenir des peuples catholiques”, aplicando o método
183
científico de uma observação imparcial, mostra que a
decadência dos povos latinos não é devido à raça, mas à
religião.
Não contesta o eminente professor que a raça e o
meio explicam frequentes vezes o destino diverso dos
povos. Em se tratando, porém, de nações, cuja
população tem sangue tão misturado como os europeus,
ou de povos que, ocupando o mesmo meio, descendem
de um mesmo tronco, desaparecem esses dois
elementos na comparação de seu respectivo destino.
Estabelecidas estas premissas, passa ele a
examinar os fatos.
Escoceses e irlandeses são da mesma origem; estes,
porém, católicos e aqueles protestantes. Até o século
dezesseis, sobrepujavam os irlandeses; de então para
cá, como mostra Macaulay, os escoceses levaram
decidida vantagem não só aos irlandeses, mas aos
próprios ingleses, e isto a despeito de seu inóspito clima,
e solo ingrato. Cannaught e Ulster são duas províncias
da Irlanda, que se defrontam; a primeira é católica, e
segunda evangélica. Que grande não é a diferença entre
elas!
“Ulster está rica pela indústria, Cannaught
apresenta a imagem da última extremidade da miséria
humana”. Duas populações, lado a lado, da mesma raça,
sob o mesmo regime político, que outro fator pode
explicar o contraste se não os respectivos sistemas
religiosos?
Na Suíça, os cantões de Neufchatel, de Vaud e de
Genebra são latinos e protestantes, e grande é a
dianteira que levam, no progresso, aos cantões de
Lucerna, do Alto-Valais e aos florestais, germânicos e
católicos!
184
Mais ainda: o cantão de Appenzell, habitado por
uma população germânica idêntica, compõe-se de duas
partes, uma católica e outra protestante — Rodes
interiores e Rodes exteriores. Que é que se vê? Na
primeira, católica — a ignorância e a pobreza; na
segunda, protestante — a instrução, a atividade, a
indústria, a riqueza!
Haverá situação mais triste do que a da Espanha? A
França é também digna de ser lastimada. O
ultramontanismo é a causa de sua desgraça; ele tem
enfraquecido o país pela ação deletéria de que o autor
tratará mais adiante. Foi ele quem, pela imperatriz
Eugênia, instrumento do partido clerical, determinou a
expedição do México, para levantar as nações católicas
na América, e a guerra da Prússia, para pôr obstáculo ao
progresso dos Estados protestantes na Europa.
Enquanto os povos protestantes se desenvolvem
rapidamente, conclui Laveley, os povos católicos
parecem atacados de esterilidade. Thiers caracterizou a
capital do Catolicismo Romano pela expressão viduitas
et sterilitas! e um patriota italiano escreveu: I popoli di
religione papale o sono già morti, o vanno morendo!
Fato tão estupendo, que interessa vivamente os
destinos da sociedade, não basta expendido, necessita
estudado em suas causas íntimas. É o que faz o
conspícuo economista belga. Eliminado o fator da raça e
do meio, pelo modo já mencionado, desce ele a indagar
das razões de um contraste social tão manifesto entre
povos católicos e protestantes. Encontra ele quatro
razões.
1ª A difusão da instrução pública. — A primeira
condição do progresso é a difusão das luzes. O trabalho
é tanto mais produtivo, quanto mais inteligente. Além
185
disso, a instrução é indispensável à prática das
liberdades constitucionais. Importa que o eleitor tenha
consciência de seu voto, sem o que o país será mal
governado e terá a inércia ou a desordem. É, pois, ela a
base da liberdade e prosperidade de um povo. Ora, é
sabido, continua ele, que os países protestantes levam
imensa dianteira em instrução aos países católico-
romanos.
A razão é clara. O culto reformado repousa sobre
um livro — a Bíblia: o protestante deve, pois, saber ler.
O culto católico romano repousa sobre os sacramentos
e sobre certas práticas, que não exigem leitura. Para isso
não é preciso saber ler, é antes um perigo, porque abala
o princípio de obediência passiva, sobre que se apoia
todo o edifício católico romano: a leitura é caminho que
conduz à heresia. É por isso que a organização da
instrução popular data da Reforma.
2ª A moralidade. — A moralidade, diz Laveley, é a
força das nações. Quando os costumes se corrompem, o
Estado está perdido. Ora, está averiguado que o nível
moral é mais elevado entre os povos protestantes, do
que entre os povos católicos. Compare-se a literatura
francesa com a inglesa, e ter-se-á a prova concludente.
No fundo de todas as obras literárias ou do teatro
francês encontra-se sempre o adultério em todas as
suas variedades, e seus romances e comédias devem ser
severamente banidos do círculo das famílias honestas.
Tal não sucede na Inglaterra.
A corrupção da literatura deita suas raízes na
corrente provençalesca e na Renascença. A Reforma pôs
um dique a esses desregramentos e o puritanismo
protestante salvou o mundo da completa dissolução dos

186
costumes, “dando aos homens uma têmpera moral
incomparável.”
De dois modos pode-se combater a Igreja Romana:
ou mostrando ter-se ela desviado do Evangelho, e
pregando-se esse Evangelho, ou insurgindo-se pela
ironia contra seus dogmas. Os Reformadores seguiram
o primeiro, Rabelais e Voltaire o segundo. Firmaram os
primeiros o sentimento moral; arruinaram-no os
segundos.
Na França são católicos e absolutistas os que
respeitam a moral; ao passo que, na Inglaterra e na
América, os puritanos e os quakers, rígidos seguidores
da moral, são os mais decididos partidários da
liberdade.
Enfraquecido o sentimento religioso nos países
católicos pela necessidade da reação do espírito liberal
contra o absolutismo ultramontano, enfraqueceu-se
com o mesmo golpe o sentimento da moralidade.
A Reforma foi incomparavelmente mais eficaz que
a Renascença para a libertação da humanidade.
Os países que abraçaram a Reforma tomam
manifestamente a dianteira àqueles que ficaram com a
Renascença.
É que a Reforma tinha em si uma força moral que
faltava à Renascença. Ora, a força moral é com a ciência
a fonte de prosperidade das nações. A Renascença é uma
volta para a antiguidade, a Reforma para o Evangelho.
Sendo o Evangelho superior à tradição antiga, devia dar
melhores frutos.
3ª Instituições livres. — Além da instrução e
moralidade, acrescenta o ilustre publicista as
instituições políticas livres.

187
A Reforma leva os povos a um governo
democrático, liberal, ao passo que o Romanismo conduz
ao despotismo ou à anarquia, ou, alternadamente, a um
e outro. O governo despótico ajusta-se à sua índole.
Quando os povos dominados por ele, tentam sacudir as
cadeias do despotismo, caem na desordem e se
enfraquecem. As revoluções da Inglaterra, Países
Baixos, América do Norte, deram bons resultados;
enquanto a revolução francesa parece ter encalhado.
Voltaire deu a razão disso, dizendo: “A Inglaterra
sacudiu o jugo vergonhoso de Roma, ao passo que um
povo mais leviano o tem suportado, afetando rir, e
dançando com os seus ferros”.
Verdade é, porém, que o próprio Voltaire excitava o
riso, e dirigia a dança.
Tão profunda é a ação que exerce a religião sobre
os homens, que eles sempre se inclinam a dar à
organização do Estado formas tiradas da organização
religiosa.
Ora, o catolicismo romano é uma monarquia
absoluta e teocrática, sua projeção na sociedade civil é
necessariamente o despotismo dos reis representantes
diretos da divindade.
O cristianismo primitivo, pelo contrário, era uma
instituição altamente democrática e livre.
Todos os poderes emanavam do povo. “As
primitivas igrejas cristãs eram verdadeiras repúblicas
democráticas.”
“Os defensores e os adversários da igreja romana,
confundem, tanto uns como outros, o cristianismo e o
catolicismo romano. Os que atacam o cristianismo lhe
atribuem os princípios, os abusos e os crimes da igreja
romana, e os que defendem a igreja romana, invocam os
188
méritos, as virtudes e os benefícios do cristianismo. Erro
de lado a lado. O cristianismo é favorável à liberdade; o
catolicismo romano é seu inimigo mortal, e seu chefe
infalível é quem o afirma”.
Sua marcha na história è a de uma concentração
constante de poderes, até culminar no absolutismo da
infalibilidade papal.
A projeção do seu despotismo na sociedade civil foi
formulada na seguinte proposição de Bossuet: “O
príncipe não deve dar contas a ninguém do que ordena.”
Assim, logicamente, conclui E. Laveleye, em um país
católico o governo deve ser despótico, porque tal é o da
igreja que lhe serve de tipo e, depois, porque os reis,
recebendo o poder diretamente de Deus ou do papa,
este poder não pode ser limitado, nem fiscalizado.”
“A Reforma, pelo contrário, sendo uma volta para o
cristianismo primitivo, gerou, por toda parte, o espírito
de liberdade e resistência ao absolutismo.”
Os protestantes não se inclinam diante da
autoridade infalível de um homem porém diante da
autoridade infalível de um Livro, que eles examinam e
discutem por si: onde triunfam, estabelecem
instituições livres.

4º O sentimento religioso está mais enfraquecido nas


classes inteligentes e dominantes nos países católicos, do
que nos países protestantes.

Afirma Laveleye que não há quem negue este fato.


Estudando este fenômeno, acha para eles duas
explicações.
1ª “O catolicismo romano por seus dogmas
multiplicados, cerimoniais pueris, milagres e
189
peregrinações, coloca-se fora da atmosfera do
pensamento moderno.” Ao contrário, a simplicidade do
protestantismo fá-lo adaptar-se a esse pensamento.
“Os excessos de superstição conduzem
inevitavelmente à incredulidade.” Daí a apatia e o
ateísmo dos países católicos romanos.
Sobre este ponto não podemos furtar-nos ao desejo
de transcrever uma nota ao texto que vamos
sumariando. É de Agassiz em sua Voyage au Brésil e
trata da influência do catolicismo em nosso país. “O
padre é o instrutor do povo. Deve-se deixar do crer que
o espírito possa se contentar, por único alimento, com
procissões grotescas, com santos coloridos, velas acesas
e ramalhetes baratos. Enquanto o povo não reclamar
outro gênero de instrução religiosa, se irá deprimindo e
não se levantará.”
2ª A segunda explicação do indiferentismo
religioso nas classes letradas dos países católicos
romanos é a hostilidade da igreja romana às ideias e
liberdades modernas.
“O grito de Voltaire — Écrâsons l’infame — é, por
toda parte, a senha patente ou oculta do espírito liberal.
Sem descanso, o liberal ataca e deve atacar os padres e
os frades, porque estes querem sujeitar a sociedade ao
papa e a seus delegados, os bispos.”
Daí a incredulidade, daí a padrefobia.
O ódio ao padre torna-se uma das formas do
instinto de conservação nas lutas seculares da
liberdade.
Concluamos: instrução, moralidade, liberdade, vida
religiosa, são as causas da superioridade social do
protestantismo; obscurantismo, imoralidade,
despotismo, apatia religiosa, são as razões da
190
inferioridade social do catolicismo romano. É na índole
dos dois sistemas religiosos, e não na raça, nem em
condições mesológicas, que devemos assinalar as
causas dos destinos diferentes dos povos da Europa e da
América.
É esta a tese, são aqueles os pontos que discute e
exuberantemente prova o sapientíssimo professor de
Liége.

A Reforma e a Escola

Ao lado do templo a Reforma ergueu a escola.


Da Reforma, di-lo Laveleye, data a organização do
ensino público. Ao movimento religioso imprimiram os
Reformadores um sério impulso educativo.
“A Reforma, escreve Guex, que exerceu tão
profunda influência na vida religiosa, fez ao mesmo
tempo penetrar um espírito novo na escola.” (Hist. de
l’Inst. et de l’E’duc, p. 61).
O ministério evangélico é um magistério público, e
o púlpito a cadeira do pedagogo. “Se eu não fosse
ministro, dizia Lutero, quereria ser mestre-escola; e não
sei ainda qual melhor; ninguém deveria ser pastor sem
ter sido professor.”
A causa dessa índole pedagógica da Reforma, no-la
deu o insigne publicista belga atrás citado; no-la dá
ainda o eminente pedagogista francês Michel Bréal, no
seguinte trecho:
“Tornando o homem responsável por sua fé, e
colocando a fonte da fé na Escritura Santa, contraiu a
Reforma a obrigação de por cada um em estado de se
191
salvar pela leitura da Bíblia... O estudo da língua
materna e o do canto se associaram à leitura da Bíblia e
ao serviço religioso.” (Apud. F. Guex, p. 62).
Lançando sobre o indivíduo a responsabilidade de
seu destino, a pedagogia evangélica firma o caráter,
fortalecendo-lhe a independência e cultivando o
sentimento do dever.
No polo oposto, agita-se a atividade pedagógica de
Roma.
O analfabetismo é a vida concerosa da Igreja
Romana; a ignorância a condição de seu florescimento.
Demonstrou cabalmente o publicista belga, mencionado
no capítulo anterior. Ao Protestantismo deve ela o
movimento educativo em seus arraiais.
Propondo-se a lutar contra a Reforma, perceberam
logo os jesuítas a necessidade de opor aos
estabelecimentos educativos protestantes, instituições
educativas católico romanas, para poder reter a
mocidade.
Desprezando o ensino primário, fundaram, por
toda parte, colégios secundários. São eles o expoente
máximo do critério educativo do Romanismo.
Criticando a pedagogia jesuítica, escreve o
abalizado pedagogista suíço, F. Guex:
“Descobre-se facilmente as lacunas (do programa
de ensino dos jesuítas). Pouco ou quase nada de estudos
concretos. Fechados ficam ao menino a natureza e os
seus tesouros! A história quase banida do ensino! “A
história é a perdição do que a estuda”, disse um padre
jesuíta. Aparece, é verdade, esta disciplina,
discretamente, na explicação dos textos latinos e gregos,
na medida em que é necessária à inteligência do trecho
estudado; porém, nada de história nacional, nada de
192
história moderna; e igualmente nada de ensino
científico nas classes inferiores. Desta estreiteza de
espírito é penetrado todo o ensino dos jesuítas. Inimigos
do progresso e de toda a novidade, se têm eles esforçado
por formar fiéis alapar obedientes e cegos, e não
pensadores, espíritos emancipados. Expurgaram
autores antigos a ponto de darem deles ideias falsas aos
alunos. Negligenciam o juízo e raciocínio, para darem
exclusiva atenção à cultura da forma, da imaginação, do
gosto e da arte da palavra.” (Hist. de l’Inst. et de l’E’duc.,
p. 95,96).
Sobre inimigos, são falsificadores da história os
padres da Companhia. Afirma-o Janus, a que para isso
sobeja competência. Useiros o veseiros são eles em
forgicar a história da Igreja. Basta lembrar a falsificação
da história eclesiástica da Espanha, autenticada por
milagres apócrifos em barda inventados e divulgados
(Vide O Papa e o Concílio, p. 49).
O valor dessas duas correntes didáticas
divergentes, oriundas da Reforma e da Contrarreforma,
destacasse nítido, no estado atual, nos respectivos
campos de quatro séculos de experimentação.
A ninguém é lícito, diante da teoria e dos fatos,
desconhecer que os colégios jesuítas são o túmulo moral
e intelectual da mocidade.

193
O PROTESTANTISMO

194
O Protestantismo

Imperecível é o Cristianismo — imortal a Igreja.


Não os revocou a Reforma dos sepulcros da história,
mas dos cárceres de Roma.
No séc. XVI, prosseguiu sua marcha histórica o
Catolicismo Apostólico, tendo repelido de si o espúrio
Romanismo.
Não foi o Protestantismo uma inovação, mas uma
renovação; a designação nova de uma nova fase da
Igreja. Não houve solução de continuidade na vida
secular da Esposa do Cordeiro. Os nomes não mudam a
essência das coisas: são meros acidentes, que podem
apenas assinalar aspectos vários na evolução dos seres.
É, pois, capciosa a pergunta: — “Onde estava a
Igreja antes de Lutero?” — “Estava onde outrora esteve
o povo de Deus, estava cativa em Babilônia. Gemia nos
ergástulos da Cúria, e alguns de seus filhos errantes nos
desertos, nos montes, e escondendo-se nas covas e nas
cavernas da terra”, “sofrendo ludíbrios e açoites, e, além
disto, cadeias e prisões; apedrejados, serrados pelo
meio, tentados, mortos ao fio da espada, necessitados,
angustiosos, aflitos.” (Hebreus 11:37, 38). Perseguidos a
ferro e fogo pela apostasia predita, realizavam, em sua
fidelidade de mártires, as previsões do Mestre, que
declarou vir tempo em que aqueles que os matassem
julgariam prestar serviço a Deus.
Em todos os séculos se fizeram ouvir as vozes dessa
Igreja prisioneira nos protestos das “pias testemunhas
da verdade”, que foram os precursores da Reforma.

195
A apostasia oficial do Catolicismo Romano não
impediu que se cumprissem as promessas de Cristo de
estar sempre com a sua Igreja, até a consumação dos
séculos.
A Igreja, na acepção bíblica e rigorosa, é o aspecto
concreto do Cristianismo, a reunião ideal de todos os
cristãos verdadeiramente convertidos. Objeto do eterno
amor de Deus, é ela, neste aspecto, edificada sobre a
Rocha dos séculos, “o Filho de Deus vivo”, e “contra ela
não prevalecerão as portas do inferno”, jamais sobre ela
baqueará a campa da sepultura.
Cativa, por séculos, na Babilônia espiritual do
Romanismo, sede da apostasia triunfante, libertou-se, e
saiu.
Exite de illa, populus meus.
Não criaram religião nova os Reformadores; tão
pouco fundaram de novo a Igreja de Cristo. O herdeiro
de um trono é lançado nas masmorras de infecta prisão
por uma conjuração de falsos pretendentes. Um dia,
porém, de lá o tiram seus amigos. Que diferente o
aspecto do infeliz príncipe! Esquálido, desgrenhado,
maltrapilho, não tinha realmente parecença de que fora
e do que era. Mas, ei-lo transformado e restituído ao seu
estado, no garbo e majestade de um rei sobre o seu
trono! Tal a Igreja. Onde estava ela antes da Reforma?
Onde estava o rei antes da restauração? Ao rei não lhe
privou dos direitos a violência de seus inimigos; à Igreja
não lhe arrancou a vida e tão pouco a dignidade a
crudelíssima opressão da hierarquia papal.
Reformar a Igreja, libertando-a das excrescências
judeu pagãs, expurgando-a da liga romanista, era o
intuito modesto, que visavam os Reformadores.

196
“Quando Martinho Lutero, diz Oncken, iniciou a
Reforma religiosa, nem ele nem seus êmulos pensaram
em introduzir uma separação no seio da Igreja Católica
do Ocidente, sendo apenas a sua ideia reconstituir o
mundo católico sobre as bases do primitivo
cristianismo.” (G. Oncken, Hist. Univ., XIII, p. 587).
Não falharam, pois, as promessas de Cristo à sua
Igreja, ela existiu ininterrupta desde o dia de
Pentecoste, subsistiu aos esforços sangrentos da
Contrarreforma, e subsistirá eternamente.
A Reforma dividiu a cristandade ocidental, no séc.
XVI, em duas grandes parcialidades opostas: — o
Romanismo e o Protestantismo.
Apoderou-se o Protestantismo principalmente das
raças do Norte, constituindo hoje a religião dominante
no Império Britânico, Alemanha, Suíça, Holanda,
Dinamarca, Suécia, Noruega, Estados Unidos, e
estendendo sua atividade missionária sobre todas as
terras pagãs.
Se tomarmos em globo a população atual desses
países deverá atingir a 200.000.000 a população
protestante do mundo. É ele incontestavelmente a parte
mais ativa e progressiva da cristandade.
Livre em sua agremiação externa, assume ele,
desde os dias da Reforma, três grandes modalidades
diferenciadas pela sua organização exterior, a saber, a
Igreja Anglicana, na Inglaterra; a Luterana, na
Alemanha; e a Reformada, Calvinista ou Zwingliana, na
Suíça, Holanda, Escócia e França. Sob o influxo de ampla
liberdade, subdividem-se estes grandes ramos da
cristandade protestante em organizações autônomas ou
denominações, constituindo todas uma unidade moral

197
pela harmonia fundamental de seus credos, firmados
todos na Bíblia.
Esta unidade moral e dogmática, afirma-se
frequentemente em convenções ou congressos
ecumênicos, em que milhares de delegados de todas as
denominações e países se congregam para o estudo e
deliberações relativas aos grandes problemas, que
interessam a vida e o desenvolvimento do
Protestantismo no mundo.
Um desses congressos foi a célebre Conferência
Missionária Mundial (World Missionary Conference),
celebrada em Edimburgo em 1910. Foi uma assembleia
imponente: 1.200 delegados afluíram de todas as
denominações evangélicas e de todas as partes do
mundo, número que jamais reuniram todos os concílios
ecumênicos da cristandade.
A “Enciclopédia Britânica”, no artigo The Christian
Church, fornece-nos os seguintes dados estáticos da
influência relativa mundial dos três grandes ramos da
Cristandade — grego, latino e saxônico.
A influência política ou ascendência do
Cristianismo no mundo cresce prodigiosamente, e no
ramo saxônico ou protestante é que ele ostenta o seu
maior vigor.
a) A área do mundo é aproximadamente calculada
em 50.000.000 de milhas quadradas, assim
distribuídas:
Nações não cristãs 9.684.000
Nações gregas ortodoxas (cristãs) 8.752.000
Nações católico-romanas (cristãs) 14.147.000
Nações protestantes (cristãos) 17.417.000

Dá isso a seguinte porcentagem:


198
Nações não cristãs 19,37%109
Nações gregas ortodoxas 17,50%110
Nações católico-romanas 28,29%111
Nações protestantes 34,83%112

b) A população relativa presta-se às seguintes


informações:
Sob governo cristão 890.000.000
Sob governo grego ortodoxo 128.000.000
Sob governo católico romano 242.000.000
Sob governo protestante 520.000.000

Da marcha relativa da população, nos dois últimos


séculos, dá-nos ideia o seguinte quadro:

Data Grega Católica Protestante Total


Ortodoxa Romana
1700 33.000.000 90.000.000 32.000.000 155.000.000
1900 128.000.000 242.000.000 520.000.000 890.000.000

c) A difusão das línguas nos últimos 100 anos é um


indício não desprezível da relativa influência mundial
das nações. Em 1800 eram falados:
Francês por 31.000.000
Alemão e Russo por 60.000.000
Espanhol por 26.000.000
Inglês por 20.000.000

Em 1890:
Francês por 51.000.000
Alemão e Russo por 150.000.000
109
Na publicação original 18%.
110
Na publicação original 18%.
111
Na publicação original 28%.
112
Na publicação original 36%.

199
Espanhol por 42.000.000
Inglês por 111.000.000

Porcentagem:
Francês por 14,41%113
Alemão e Russo por 42,37%114
Espanhol por 11,86%115
Inglês por 31,36%116

Dá-nos ainda, o importante estudo, curiosas


informações sobre a grande superioridade atual das
nações protestantes na população relativa e influência
econômica.
Bastam estes dados estatísticos para contrastar o
atrofiamento sucessivo dos povos que vivem sob o cetro
papal, e o vigor e pujança crescente dos que obedecem
livremente ao influxo vital da Bíblia aberta.
Proclamam esses algarismos que, na marcha da
civilização, a história tem cominado sentença de morte
aos povos» que se abrigam à sombra do Romanismo.
Da grande atividade missionária do Protestantismo
atualmente assaz nos fala a convenção de Edimburgo
em 1910, acima referida.
Nessa mesma reunião, planejaram alguns
delegados um congresso semelhante para a América
Latina.
Discutida essa ideia em Nova York, em 1913 e 1914,
pelas juntas missionárias, ficou assentada a convocação
de um congresso “missionário panamericano” para a
cidade de Panamá, que posteriormente se denominou
113
Na publicação original 64,5%.
114
Na publicação orginal 150%.
115
Na publicação orginal 42.000.000.
116
Na publicação original 111.000.000.

200
“Congresso da Obra Cristã na América Latina”. Foram
designados os dias 10 a 20 de fevereiro de 1916,
devendo celebrar-se em seguida congressos regionais
em Porto Rico, Lima, Santiago, Buenos Aires e Rio de
Janeiro, presididos por uma comissão do congresso
original de Panamá.
Nesta assembleia podemos surpreender melhor a
atitude, índole e caráter do Protestantismo hodierno, e
mormente do protestantismo americano, que mais nos
interessa conhecer.
Em companhia de mais quatro delegados do Brasil,
partimos para o congresso religioso panamericano de
Panamá. Aí, nessa pequena capital da república do
mesmo nome, que, à sombra do pavilhão estrelado, se
queda embevecida na contemplação silenciosa do
imenso panorama do Pacífico, busquemos apreender os
traços salientes do Protestantismo contemporâneo e o
modo por que a raça saxónica está desempenhando a
sua missão providencial, como depositária dos oráculos
de Deus.

O Congresso Evangélico Panamericano de


Panamá

Do Rio a Nova York

Nove horas da noite eram já passadas, quando a 11


de janeiro de 1916, levantando âncoras, começou o
“Vasari” a deslizar-se mansamente pelas quietas águas
da baía do Rio de Janeiro.

201
A um súbito estremecimento, seguiu-se um ruído
surdo e contínuo, como as pulsações que marcam o
compasso da vida, e, propelido pela hélice, aproou o
vapor barra fora.
Chovia. Tremeluziam festivas as luzes da Avenida,
no espelho escuro de Guanabara.
Como vedeta do porto, ergueu-se logo em frente o
Pão de Açúcar, e lá das alturas, parecia enviar-nos o
Corcovado, através da escuridão, o adeus da Pátria.
Um tiro de canhão quebrara o silêncio augusto,
anunciando a partida.
Transpostas as fortalezas da barra, breve o embate
forte das ondas no costado nos fazia sentir que se
empegava o “Vasari” no Atlântico, qual fantasma
perdido no denso negrume da noite.
Era tempo. Descido ao camarote, dentro em pouco
cerrávamos os olhos, e sobre cuidados, saudades e
temores correram do Letes as frias águas.
Quando de seu tálamo de púrpura surgia radiante
o sol, percorríamos, com o olhar embevecido de viajante
noviço, o espetáculo empolgante do alto mar.
Vasta planície movediça ia perder-se, de todos os
lados, na linha longínqua e indecisa do horizonte, e, no
azul escuro do móvel plaino, abria o astro nascente uma
como estrada rutilante ao país da aurora.
Irrequietas e marulhosas, superpondo-se umas às
outras, vinham as ondas rasgar-se em alvas rendas e
verde gaze nos flancos do “Vasari”, deixando pela popa
uma esteira esmeraldina, rendada de brancas espumas.
Às vezes, ao sopro mais rijo da brisa, encarneirava-
se o mar, e a vasta planície se transformava em um como
imenso prado, onde saltitavam alvíssimas ovelhas de
um infindo rebanho. E, o que era mais curioso, em certa
202
altura, longas e estreitas faixas de algas, de cor terrosa,
fingiam, com admirável semelhança, os carreiros ou
trilhos, que faz o gado em nossas pastagens.
No fundo de nosso ser acorda a solidão um
sentimento indefinível, que é, em sua essência, o horror
do isolamento, do nada, da morte.
Por isso, no largo e agitado deserto, buscam os
nossos olhos, com vivo interesse, uma manifestação de
vida real fora de nós, com que nos possamos associar em
um protesto mudo contra as falsas aparências de vida,
que nos rodeiam. Com que satisfação acompanhamos o
voo cansado da gaivota, que, acaso, aparece como que
perdida na vastidão dos mares! Com que júbilo agitamos
os lenços ao veleiro, que passa, de velas enfunadas,
trepando e descendo corajoso no dorso irrequieto das
vagas! Com que curiosidade assestamos o binóculo ao
penacho negro que, lá ao longe, denuncia a presença de
seres humanos, em direção a outros mares!
É que há uma solidariedade mais larga que a da
família humana: é a solidariedade da vida universal.
Mais frequentemente, nas solidões do Atlântico,
eram os humildes peixes voadores, que, voando à flor
das águas, nos vinham revelar esse lago misterioso, que
prende os seres vivos.
Infelizmente, destas e de outras cogitações
filosóficas, que em nós evocava o mar oceano em sua
grandeza, fomos chamados logo a uma das mais tristes
realidades da vida, em que se perdem todos os nobres
instintos de solidariedade.
A brisa feria mais de rijo as ondas encrespadas, e o
mar engrossava, obrigando o “Vasari” a altear a proa e
afundá-la de pronto, semelhante ao poldro bravo
montado pelo gaúcho nas pampas do sul. Mas, sem
203
nenhuma dubitação, o gaúcho se sentia mais à vontade
nos lombos do poldro bravo, aos corcovos pelas
planícies do sul, do que nós no largo dorso do “Vasari”,
aos pinotes pelos plainos do mar.
Afortunadamente, como não há mal que sem pie
dure, lançamos âncoras no terceiro dia diante da
histórica cidade de S. Salvador.
A velha capital espreguiça-se em uma longa e
abruta elevação de terreno, a cavaleiro da baía,
contemplando sonolenta o esplêndido panorama, que a
seus olhos se desdobra.
Em rápido passeio, chamaram-nos a atenção
edifícios de construção moderna; mas o que nos
impressionou foi a feição vetusta e colonial de algumas
ruas estreitas e tortuosas, de becos escuros, ladeiras
rápidas e mal calçadas, velhos e sólidos templos, vastos
conventos despovoados, casas cor comidas pelo dente
roaz dos séculos. Tudo isso evocava, de súbito, a visão
de nossos arrojados avós a implantar no Novo Mundo a
civilização ibérica.
Fazendo-nos ao largo, em poucos dias, vimos surgir
de um mar manso e belíssimo, no meio de suavíssimos
cambiantes de um cromantismo admirável, a ilha de
Barbados, cujo nome contrasta com a formosura de seu
aspecto.
Acudiu logo, em vozeria ensurdecedora, multidão
de barqueiros, que, em um inglês duro e retumbante,
apregoavam a excelência de seus batéis. Meninos e
rapazes, seminus, cuja pele ia do ébano reluzente ao
branco sardo, em chusma, de seus barquinhos feitos de
táboas de caixão mal ajustadas, lançavam-se de
mergulho ao mar, e traziam contentes na boca as
moedas, que lhes atiravam os passageiros. Um deles do
204
alto do vapor, de uma altura aproximadamente de doze
metros, em voo atrevido, desapareceu nas águas
marulhosas, para emergir logo, risonho, sacudindo
triunfante da melena encarapinhada as gotas do mar.
Dois terços da população da ilha são negros. Foi ela
descoberta em. 1536 por portugueses, que lhe deram o
nome de “Los Barbudos”, por causa de certas figueiras,
que aí eram cobertas do que chamam nossos caboclos
— “barba de pau”. Em 1605 dela tomaram posse os
ingleses, que até hoje a governam.
É curioso o aspecto da capital Bridgetown, onde se
cruzam 12.000 habitantes de todos os matizes
pigmentados. Enxameiam nas ruas homens e mulheres,
na sua maioria da cor do ébano. Estas, à moda daqueles,
trazem chapéus e bonés; como eles, não se incomodam
as senhoritas e muito menos as matronas com duas
coisas que torturam, aliás, o belo sexo em nossas
capitais: — a moda e a elegância. Felizes por se verem
livres destes dois tiranos, ostentam elas na cabeça os
mais variados e fantásticos sombreiros.
Não havendo na ocasião transporte direto daí a
Panamá, objetivo de nossa viagem, fomos os delegados
brasileiros obrigados a ir primeiro a Nova York, onde
chegamos domingo de manhã, 30 de janeiro.
O frio era intenso, e um espesso nevoeiro cobria o
porto, deixando, entretanto, entrever margens baixas e
sem encantos.
Como os cavaleiros da média idade, que se
apresentavam na liça cobertos de armas defensivas,
assim de dentro de uma armadura de dobrada lã
sentíamos estimulantes brios contra os rigores do
inverno dessa zona setentrional. Algo esmoreciam,
entretanto, tais estímulos, ao soprar da brisa fria, os
205
pavilhões laterais desguarnecidos e a extremidade nasal
nas mesmas condições.
É um colosso o empório comercial da grande
república. Seis milhões de habitantes formigam dentro
dele, e já em seu precipitado crescer, ameaça lançar o
guante vitorioso ao gigante secular, que se banha nas
águas do Tâmisa.
Essa multidão, porém, acode dos quatro ventos da
terra, e torna Nova York uma cidade cosmopolita de
variadíssimo aspecto moral e físico. Só de judeus
contém mais de um milhão. A população nativa cede, em
número, o passo à estrangeira.
Seus edifícios, muitos de 15 a 50 andares, são
gigantescos pombais, e deles existem em que agravam a
escassa elegância da fachada longas escadas em
ziguezague, para a ascensão dos adestrados bombeiros
na emergência de um incêndio.
Por cima da terra, em baixo e acima, correm com
elétrica velocidade, apinhados vagões, no “fervet opus”
do “make money”.
Em quatro dias apenas pouco pudemos ver.
Assistimos, contudo, a uma festa curiosa. No vasto
salão da Guarda Nacional, mais de seis mil pessoas
enchiam, o recinto e as galerias, em noite chuvosa e fria.
Era a Associação Cristã de Moças, que celebrava o
seu jubileu.
Três bandas de música, romperam, quando 3.250
moças, agitando bandeirolas de variegadas cores,
penetraram no salão. O espetáculo era imponente.
Na plataforma, ao lado da presidenta, miss Hazel
Mac Haye, achavam-se o prefeito da cidade, J. P. Mitchel
e o Coronel Teodoro Roosevelt. A este apresentou
influente amigo os delegados brasileiros ao Congresso
206
Evangélico de Panamá. Saudou-nos ele em termos de
franca amizade e entusiástica admiração pelo Brasil,
recordando os agradáveis dias, que entre nós passou, e
declarando que considerava a atitude das igrejas
evangélicas no Brasil uma poderosa força regeneradora
em nosso meio social. No seu discurso fez menção dos
brasileiros presentes, e do que viu em nosso belo país.
Antes falara o prefeito, cavalheiro simpático,
espírito largo e tolerante, que, embora católico romano,
salientou, a importância da associação protestante
como um elemento poderoso de educação moral e
cívica, e lhe assegurou todo apoio do poder municipal.
Ocuparam ainda a plataforma muitas senhoras e
senhoritas, e, entre estas, uma chinesa, falando todas “ex
abundantia cordis”.
Afinal, em larga companhia de delegados, ao
declinar do quarto dia, embarcamos para Panamá.
Caía a neve mansa e mansa sobre o enfumaçado
colosso, e diante de nós iam passando os “sky scrapers”
quando pela direita nos surge, de braço erguido, a
estátua agigantada da liberdade.
Salve, liberdade, que, com Washington, Bolívar, San
Martin, José Bonifácio, Bocaiuva, Constant, Deodoro e
Peixoto, surgiste imortal no Novo Mundo!
Irradia tua luz, e, nesta hora sombria da marcha
ascensional da humanidade, mostra a sonda da paz no
amplexo fraternal das duas Américas.

O Panamericanismo

207
Antes de encararmos o Congresso de Panamá,
merece ligeiro estudo sua feição pan-americana.
O panamericanismo está na ordem do dia.
Amiúdam-se os congressos, os discursos, os
artigos, os livros, que exaltam o seu nobre ideal.
Algures disse certo orador que de Júpiter, Marte,
Vénus, podia formar conceito definido, não assim do
deus Pã da mitologia grega; do menino modo o
“panamericanismo” não lhe suscitava, no espirito ideia
definida.
É natural, não pelo caráter incerto da divindade
mitológica; mas porque esse neologismo híbrido é ainda
a expressão de um ideal vago de confraternização e paz,
que nasceu, entretanto, na alma americana aos
primeiros clarões da independência.
É ele a afirmação da consciência continental, que se
vai clareando à luz da liberdade e do progresso; é o
nobre sentimento de solidariedade dos povos do
hemisfério ocidental, que balbuciam paz e amor, neste
momento angustioso, em que um continente inteiro se
afoga no sangue de uma guerra bárbara e fratricida.117
Lição tremenda são as grandes desgraças da
Europa, que não podem deixar de imprimir cunho sério
e caráter de urgente atualidade às nossas aspirações
pan-americanas.
Essa explosão medonha de ódios de raças, de
ambições dos governos, das rivalidades e desconfianças
dos povos, da cobiça mercantil, dará, não há dúvida, uma
feição mais positiva e prática aos grandes ideais, que se
adivinham em nosso neologismo híbrido — o
panamericanismo.

117
Escrito este livro em 1916, faz o autor referência à grande guerra 1914-18.

208
Tal expressão generalizou-se, segundo o insigne
publicista peruano Dr. Anibal Maurtua, de 1889 para cá,
substituindo a expressão — “União e Liga Americana”,
que, desde 1818, vinha manifestando esse movimento
de aproximação dos povos americanos, determinada
por certos interesses comuns.
De fato, compreenderam os dois grandes
libertadores da América espanhola, Dom José de San
Martin, argentino, e Dom Simon de Bolívar,
venezuelano, a necessidade de aliarem-se os povos
recentemente libertados contra as ambições do
imperialismo europeu.
Iniciado esse movimento de união, em 1818, por
San Martin, e secundado, em 1824, por Bolívar, tem ele
provocado uma série de congressos, cronologicamente
enumerados pelo ilustre publicista supracitado, que
são: o congresso de Panamá, em 1824; o projetado em
Tacubaia, México, em 1826; os de Lima, em 1864 e 1877;
o segundo de Panamá, em 1882; o sul-americano de
Montevidéu, em 1888; o primeiro Panamericano em
Washington, em 1889; o do centro americano da paz, em
1892; o congresso americano do México, em 1896; o
segundo Panamericano do México, em 1901; o 3º
Panamericano do Rio de Janeiro, em 1906; o quarto
Panamericano de Buenos Aires, em 1910. E a estes
devemos acrescentar o financeiro e o científico em
Washington, em 1915, e o religioso em Panamá e o
financeiro ainda em Buenos Aires, em 1916.
Como se vê, o panamericanismo, de um modo ou de
outro, nunca deixou de preocupar os espíritos
pensantes do nosso continente, desde os primeiros dias
das nacionalidades americanas.

209
Porém, antes mesmo da emancipação da América
Latina, já o presidente dos Estados Unidos, Thomaz
Jefferson, escrevia, em outubro de 1808: “Nós
consideramos os interesses destas colônias (da América
espanhola) idênticos aos nossos, e, conseguintemente,
nosso propósito deve excluir ia a influência europeia
neste hemisfério (“to exclude ali european influence
from this hemisphere”).
O ideal panamericano, nascido de interesses
comuns aos países deste vasto continente, já é, pois,
secular, e tempo é que se lhe dê o batismo de uma
consagração prática na realização de uma aliança, que
assegure a paz e a harmonia na marcha progressiva da
humanidade.
Menos vago e ambicioso que o panislamismo, o
paneslavismo e o pangermanismo, tem o
panamericanismo, nos limites geográficos de suas
aspirações, uma base racional de legítimo e nobre
escopo. Não é ele uma religião ou uma raça, que,
desconhecendo fronteiras políticas, ameace outras
religiões ou outras raças; mas apenas encerra a natural
aspiração da aproximação amigável de povos, que tem
um destino comum a realizar no seio da humanidade;
aproximação, que se concretize em uma federação ou
aliança de interesses recíprocos, e que seja para todos
um penhor de paz interna e externa, em nosso
continente.
Nada há que seriamente impeça a realização de tão
levantado ideal de união e de amor; nada que obste que
palácio de Haya, erguido na América, traga inscrito em
sua fachada a divisa da bela Hevéltia: “Todos por um, e
um por todos”.

210
Um pacto continental, em que todas as nações
americanas, animadas, como são, dos mesmos
sentimentos democráticos, generalizassem o princípio
liberal da Constituição Brasileira, arbitragem
obrigatória em nossas pendências internas;
estabelecessem, em artigos positivos, a doutrina de
Monroe, de recíproca defesa no caso de invasão
estrangeira, criassem um tribunal central jurídico, que
regulasse o nosso direito público internacional, é, com
certeza, o sublime ideal Panamericano, que, na hora
angustiosa e ameaçadora, que corre, se impõe às sérias
cogitações de todo espírito pensante e humanitário.
Ao encerrar-se o Congresso Financeiro
Panamericano, em Buenos Aires, foram proferidos
eloquentes discursos sobre as generosas aspirações
pan-americanas, pelo ministro das Finanças, da
Argentina, o Sr. Murature, pelo senador Flitcher,
delegado norte-americano, e pelo ministro da Fazenda,
o sr. Pandiá Cológeras, delegado brasileiro.
Do discurso do ministro argentino aqui
transcrevemos os seguintes tópicos, onde, ao lado de
grandes ideias, fulguram nobres sentimentos:
“Observai, senhores, que cada vez são mais
frequentes e cada vez também mais fecundas estas
expressões sintéticas da confraternização internacional.
É uma tendência espontânea do sentimento
coletivo que as promove, entre os nossos povos; é uma
compreensão justa do interesse comum que as revigora.
À medida que avançamos no desdobrar do
progresso, se dilata, para todos, a visão dos nossos
destinos, e compreendemos a necessidade de
multiplicar, pelo apoio recíproco, as forças que
impulsionam a nossa marcha.
211
As afinidades que nos ligam tomam raízes nas mais
remotas distâncias de nossa história. Todos os povos da
América — tanto o que já chegou ao apogeu da
grandeza, como os que lutam ainda com as dificuldades
da elaboração interna — todos foram, em sua origem,
iluminados pelo mesmo generoso ideal de liberdade,
que mais tarde, nem um só instante, se apagou no
decurso de uma existência secular. E, qualquer que seja
a altura do caminho em que hoje se encontrem, podem
todos dizer com igual convicção do passado e com igual
fé pensar no futuro: que se sofreram tropeços e
cometeram erros; se pagaram com um tributo de dor e
de estrago o noviciado da independência — jamais se
consumou na terra americana uma defeção irreparável
contra o dogma democrático pregado pelo verbo de
Washington e de Bolívar.
Vivemos muito tempo num isolamento relativo,
porque as preocupações da formação nacional eram
demasiado absorventes para não monopolizar por
inteiro as nossas energias.
Chegou, porém, o momento em que, estabelecida a
normalidade funcionar de nossos organismos políticos,
sentirmos a conveniência de coordenar propósitos e de
unir vontades para darmos à nossa ação toda a
potencialidade que uma política de fraternal
inteligência lhe pode imprimir”.
A consecução, porém, de tão alto e oportuno
objetivo, declama o estudo de duas questões viscerais
encerradas no panamericanismo, a saber: as relações
das duas raças dominadoras do continente e a doutrina
de Monroe.
Nos dois capítulos subsequentes lançaremos sobre
uma e outra rápido olhar.
212
As duas raças

Dois problemas de extrema relevância, dissemos,


suscita o panamericanismo: as relações das duas raças
dominadoras do continente e a doutrina de Monroe.
Ambos oferecem margem a curiosa indagação. Para
o primeiro, volvamos agora a nossa atenção.
É corrente a distinção entre raça latina e raça
saxónica. São esta os dolicocéfalos do norte da Europa,
e aquela os dolicocéfalos do sul. Se o indício cefálico não
as discrimina, afinidades específicas as distinguem.
Para o nosso continente, transportou-se a
diferenciação étnica da velha Europa: o norte,
colonizado pelos ingleses, é a América saxónica ou do
Norte; o sul e o centro, povoados pelas nações ibéricas,
é a América latina ou do Sul.
O conceito de raça antropologicamente incerto, e
historicamente confuso, mantem-se pelas
nacionalidades e condições físico-sociais das existências
dos povos.
Ninguém se revolta mais, em nome da ciência,
contra o monogenismo da família humana, desde que o
transformismo estabeleceu a possibilidade de um
hipermonogenismo, em que não só as raças humanas,
mas todos os animais, através de uma cadeia indefinida,
teriam tido sua origem em protoplasma primitivo.
Nada pode, portanto, no domínio das especulações
científicas, obstar que todas as raças humanas sejam
concebidas como variedades de uma só família
primitiva, chefiadas pelo patriarca, bíblico. Cresce disto
213
a evidência desde que a doutrina transformista admitiu
a possibilidade de terem sido nossos primitivos pais
Adão e Eva o primeiro casal de sáurios, ofídios ou
batráquios, que, de rasto ou aos saltos, passeavam nas
praias ignoradas de mares primevos, isolados e
melancólicos, sem terem antegostado o justificado
orgulho da brilhante linhagem, que de seu frios lombos
encheria de glória a terra, num longo e esplêndido
futuro!
A esta hora deveria ter entrado em coma o
poligenismo das raças humanas, e a ciência
contemporânea, de mãos dadas com a religião cristã,
estaria proclamando a fraternidade de todas assacas, a
igualdade original de todos os ramos da família humana,
se dominasse exclusiva a solução darwiniana.
De fato não há distinção absoluta fisiológica e
psicológica entre os diversos agrupamentos étnicos, a
que chamamos raças. Nos indivíduos de todos eles, há
os mesmos órgãos e funções, as mesmas faculdades
intelectuais e morais, os mesmos pensamentos e
sentimentos essenciais.
Não há dúvida que existem diferenciações
importantes no aspecto secundário desses
agrupamentos, como as há entre os indivíduos de uma
família; porém, essas diferenciações étnicas,
determinadas, evidentemente, pelo meio físico social e
mesologia histórica, mormente quanto às qualidades do
espírito, não constituem elementos exclusivos, mas
apenas desenvolvimento especial de aptidões comuns.
Estabelecidos estes preliminares, é lógico concluir
que as duas grandes raças, a teuto-anglo-saxônica e a
latina, depositárias dos destinos da América, são duas
grandes variedades da família humana, que possuem
214
fundamentalmente as mesmas paixões e sentimentos,
as mesmas ideias e aspirações, e que os traços
secundários que as distinguem, não podem ser
impecilho real à efetiva cooperação de ambas, em o
nobre escopo da solidariedade continental pan-
americana.
Contrastemo-las, e veremos que é na comunicação
recíproca das respectivas qualidades e aptidões
características que se poderá realizar o ideal futuro de
nossa civilização continental.
A nota geral desse contraste parece nô-la dar o
“individualismo” de uma, e o “coletivismo” de outra.
Caracteriza manifestamente a raça saxónica da
América do Norte a tendência individualista, a nota
pessoal; e a raça latina da América do Sul, incluindo a
América Central, a tendência coletivista, a nota social.
Destas tendências fundamentais, decorrem
consequências graves e importantes.
Na vasta e fecunda esfera da vida intelectual, o
individualismo se revela congruentemente na aptidão
analítica, e o coletivismo na aptidão sintética.
Caracteriza, pois, a raça saxônica o analitismo, e a
latina o sintetismo.
O maior desenvolvimento respectivo destas
qualidades, aliás, comuns, dá-nos a média diferencial
destes dois agrupamentos, que se acampam, face a face,
no vasto continente americano.
Estas aptidões ou tendências características dão
origem a uma série de qualidades boas e más, que torna
o contato de ambas as raças alapar útil e perigoso.
O individualismo saxônico gera homens fortes,
enérgicos, autônomos, que encontram na suficiência
própria poderosos elementos de independência
215
individual. Daí sua expressão favorita “help yourself”;
cada indivíduo deve contar consigo mesmo no —
“struggle for life”, na luta pela vida.
Como não há, porém, virtude sem seu vício
concomitante, não raro nasce dessas preciosas
qualidades o egoísmo, a arrogância, a violência, a
rispidez, que tanto escandaliza aos seus irmãos latinos.
Sob o influxo analítico, não os impressiona tanto o
conjunto das coisas, como cada coisa em si.
Não se preocupam muito com teorias, buscam
fatos; são homens do fato, “matter of fact men”,
essencialmente práticos, positivos, realistas, utilitários.
Abona singularmente estas conclusões a corrente
do pensamento filosófico insular de Rogério Bacon a
Hebert Spencer. Predomina com insistência nos
corifeus do filosofismo britânico o método experimental
e analítico, a corrente sensualista. Rogério Bacon, no
século XIII, Francisco Bacon, Locke, Hobbes, David
Hume, Stuart Mill, Huxley, Herbert Spencer, e na
América, Emerson, são nomes que assinalam o decidido
pendor sensualista ou positivista do espírito saxônico.
Esta corrente, que não vingou no ramo germânico,
requintou na América do Norte, que, nas aptidões
práticas, leva vantagens, parece, à antiga metrópole. Na
própria construção de suas casas, desatendem não raro
o conjunto estético do exterior, porém jamais se
esquecem do confortável e segurança: safey first, é entre
eles expressão comezinha.
Suficientes a si próprios, são, em geral, reservados,
autoritários, infensos a controvérsias e discussões, que
facilmente os irritam, tornando-os, não raro, ríspidos e
intolerantes.

216
Em política, são congruentemente
presidencialistas, porém, contra o abuso possível do
presidencialismo federal, ergue-se a barreira do
presidencialismo individual, local e regional.
O gênio da raça latina ao contrário é unionista
coletivista, social.
Simpatizantes e comunicativos, afetivos e
mutualistas, tem os latinos nestas belas qualidades o
ponto fraco de seu caráter: a miúdo superpõem eles
seus afetos e simpatias aos princípios básicos da justiça
e da verdade.
Esta corrente de sentimentos altruísticos fá-los,
com certeza, refratários ao particularismo exclusivista
da outra raça, porém enfraquece-lhes os estímulos de
independência pessoal, colocando o indivíduo na
exagerada dependência da comunidade.
A degenerescência do individualismo anglo-
saxônico é a insolência e o egoísmo, e a degenerescência
do coletivismo ibero-americano é a indolência e o
parasitismo.
No domínio intelectual, o pendor unionista da raça
latina assume feição sintética.
Impressiona-nos mais o conjunto das coisas, do que
cada coisa em separado, e, por isso, mais o geral do que
o particular.
Faz-nos esta tendência mais especulativos e
teóricos, ao passo que o analitismo de nossos vizinhos
fronteiriços fá-los mais ativos e práticos.
Buscamos de preferência a harmonia, a estética, o
ideal, as generalidades; e eles, o confortável, o útil, o
real, as especialidades.
Universalistas e entusiastas, a palavra obedece de
pronto a nosso espírito andejo; enquanto eles,
217
particularistas e fleumáticos, são frios e tardos de
língua.
Em política temos pendores unitários e contra o
abuso do poder central não possuímos, em regra,
suficientes energias individuais, locais ou regionais.
O senso moral é proeminente na raça saxônica, na
latina o senso estético.
M. Keane, ilustre antropólogo, caracterizando os
saxões acha-os — sérios, resolutos, enérgicos, robustos,
pesados (stolid); e aos latinos altivos, brilhantes, vivos,
sutis, impulsivos inconstantes. Aqueles são “reservados,
refletidos, profundamente religiosos”; estes “sociais,
corteses, sem estabilidade e sem palavra”, “de senso,
estético elevado e de senso moral pouco desenvolvido,
bravos, imaginosos, músicos e ricamente dotados do
lado da inteligência.” N. Colajani, Lat, et. Angl-Sax., p.
45).
Se estas idiossincrasias étnicas promanam de um
fundo atávico primitivo, ou são o resultado apenas de
uma evolução determinada por especial mesologia
geográfico histórica, ou, ainda, se são o produto de
ambos esses fatores, problema é que não nos compete
discutir.
Entretanto, as condições históricas, em que essas
raças se desenvolveram, parece darem-nos a chave de
sua atual índole respectiva.
Toquemos de leve nesta feição atraente do
problema.
Habitando a raça anglo-saxônica as ásperas regiões
do norte da Europa, pode, em antigos tempos, guardar,
mais ou menos, sua bárbara independência contra os
esforços centralizadores do império romano.

218
Durante o longo período da idade média,
conservou-se independente e isolada na pequena ilha,
onde, após lutas seculares, se constituiu o império
britânico.
No século XVI, o seu personalismo autônomo,
forjado no longo padecer de sangrentas guerras, dentro
e fora do país, recebeu poderoso influxo da revolução
religiosa, que abalou a Europa. A Reforma, pondo em
evidência a feição individual do Cristianismo, lançando
sobre o indivíduo a tremenda responsabilidade de seu
próprio eterno destino e de suas relações pessoais com
a Divindade, encontrou terreno preparado no espírito
desses povos do Norte, que, através dos séculos, tinham
lutado, corpo a corpo, com a dureza das coisas e dos
homens, retemperando na frágua dessas lutas épicas as
êneas fibras de seu caráter individual.
Representada pelos Puritanos, que, mais que
ninguém, tinham absorvido o princípio de
independência individual, lançou essa raça do norte os
fundamentos da grande nação da parte setentrional de
nosso continente.
O individualismo atávico aí vibra com toda a sua
intensidade, é, na vida social como na vida religiosa, o
conceito básico do caráter.
Outra foi a educação histórica da raça latina. Roma
moldou-lhe a feição unitária do discorrer de dois mil
anos.
Da centralização imperial passou para a
centralização papal, e para o absolutismo unitário, em
que se foi fragmentando o império dos Césares.
Sob o influxo histórico desses regimes
centralizadores, desapareceu o indivíduo, desenvolveu-
se o instinto da sociabilidade, criou-se um ambiente de
219
íntima solidariedade e mútua simpatia, desabrochou a
flor da fraternidade, do entusiasmo e do amor.
A geografia deu a mão à história na formação de
nosso caráter social; o meio cósmico nos favoreceu: o
clima do sul da Europa, donde procederam as correntes
migratórias dos iberos americanos, era doce, a terra
fértil, a brisa fagueira, os mares mansos, o ar puro e o
céu azul. Favorecidos da terra e do céu, faltou-nos o
látego estimulante de um meio áspero e implacável,
para dar às energias individuais poder de reação contra
o atrofiamento de regimes centralizadores.
Com a asfixia do indivíduo, alastrou-se a miséria,
cresceu o pauperismo, e o povo, como a antiga plebe
romana, espera de seus dirigentes panes et circenses.
O ideal de uma civilização perfeita não está,
manifestamente, no individualismo exclusivo da raça
anglo-saxônica, nem tão pouco está no exclusivo
coletivismo mutualista da raça latina; mas na
combinação harmônica das qualidades características
das duas raças.
Uma delas nos dá a variedade e a outra a unidade;
e a unidade na variedade é a harmonia.
O individualismo de uma gera a análise, que encara
cada coisa em si, na sua utilidade; o coletivismo da outra
determina a síntese, que contempla as coisas no seu
conjunto e relações.
Na vida íntima do pensamento, o individualismo é
o real, o concreto, o objetivo, a experimentação e a
prática; o coletivismo é o ideal, o abstrato; o
subjetivismo, a generalização, a teoria.
A civilização dos povos recebe a sua feição do gênio
das raças, depositárias respectivas do patrimônio da
humanidade.
220
Do exposto, conclui-se que a aproximação das duas
raças dominantes deste continente não pode deixar de
trazer mútuo benefício, na promoção dos grandes ideais
da civilização americana.
O intercâmbio das ideias, dos sentimentos, das
tendências, das qualidades étnicas, deve de ser fecundo
no prospecto dos grandiosos destinos reservados ao
hemisfério ocidental. O isolamento seria fatal moral e
politicamente aos dois povos.
Nas diferenças aparentemente antagônicas das
duas raças existe, na realidade, um estímulo ao
generoso escopo do panamericanismo.

A Doutrina de Monroe

Nas aspirações panamericanas de paz e concórdia,


de civilização e progresso, duas questões flutuam, de
palpitante interesse: as duas raças e a doutrina de
Monroe. Prende-se a primeira às relações morais, e a
segunda às relações políticas dos povos, que habitam o
continente.
São elas as antíteses de uma síntese superior, que
encerra os grandes destinos de nosso hemisfério.
Das raças já tratamos, procurando demonstrar que
a sua mesma divergência deve determinar a sua
convergência no ideal da futura civilização americana;
da doutrina de Monroe trataremos agora, relanceando
rápido olhar pelo seu aspecto histórico e alcance
prático.
O monroísmo é anterior a Monroe. Antes de o
presidente dos Estados Unidos, Jaime Monroe,
221
proclamar, em 1823 a doutrina de que a América era um
continente intangível às ambições europeias, já em
outubro de 1808 declarava o presidente Thomaz
Jefferson que “considerava os interesses das colônias
espanholas idênticos aos dos Estados Unidos, e,
consequentemente, era seu propósito excluir toda a
influência europeia neste hemisfério.” (La Idéa Pan-
americana, Anibal Maurtua, p. 17).
Tais princípios assumiram vulto, quando, em 1818,
o governo norte-americano declarou que não permitiria
a intervenção europeia nos negócios da América (Ib).
Afinal, em 3 de dezembro de 1823, em sua
mensagem ao Congresso Nacional, formulou o
presidente Jaime Monroe sua declaração pan-
americana, em que dizia: “Com os movimentos de nosso
hemisfério estamos de necessidade mais
imediatamente interessados por motivos que são claros
a todo o observador ilustrado e imparcial...
Devemos... declarar que consideramos qualquer
propósito de sua parte (das potências europeias) de
estender o seu sistema a qualquer porção deste
hemisfério como perigoso à nossa paz e segurança ....
com relação ao governos americanos que hão declarado
e mantido a sua independência, a qual temos
reconhecido por graves considerações e justos motivos,
não podemos deixar de considerar qualquer
intervenção, com o fim de oprimi-los ou de exercer
qualquer outra influência sobre seus destinos, senão
como uma manifestação de inimizade que atinge os
Estados Unidos” (Ib., p. 21).
Tão generosos princípios de autonomia pan-
americana concretizou-se mais tarde na conhecida
expressão: — “A América para os americanos”.
222
De plano se vê que o monroísmo, embora possua
uma feição simpática de altruísmo continental, não
pode deixar de ter, por motivo basilar, os interesses e
conveniências nacionais; porém essas conveniências e
interesses são recíprocos.
Reconheceram essa reciprocidade os libertadores
da América espanhola, San Martin e Simon Bolívar, e
todos os estadistas, que, posteriormente até nossos dias,
têm promovido reiterados congressos panamericanos.
Em duas datas foi posta à prova a sinceridade da
doutrina de Monroe, em 1895 e em 1902.
Na primeira dessas datas, litigava a Inglaterra com
a pequena República de Venezuela sobre limites. Eis que
como um raio aparece uma mensagem do presidente
Cleveland, em nome da doutrina de Monroe,
compelindo o governo britânico ao arbitramento. Os
ânimos se sobressaltaram aquém e além do Atlântico;
felizmente a Inglaterra cedeu.
Em 1902, o caso não foi menos característico.
Particulares venezuelanos deviam grossas quantias a
capitalistas alemães, ingleses e italianos.
Exigiram os respectivos governos o pagamento
pronto, e, aliados, resolveram estabelecer na Venezuela
um “bloqueio pacífico”; o que fizeram, cortando com ela
relações, a 8 de dezembro de 1902.
J. Hay, ministro dos Estados Unidos, mostrando o
absurdo de um “bloqueio pacífico”, propôs o
arbitramento. Cederam a Inglaterra e a Itália, resistiu a
Alemanha.
Roosevelt, que então ocupava a presidência, manda
chamar ao embaixador alemão, o Dr. Helleben, e declara
que se não consentirem no arbitramento, dará ordem ao
almirante Dewey que siga com a esquadra para a
223
Venezuela, pois estava decidido a manter a doutrina de
Monroe.
Protesta o embaixador, dizendo que tal alvitre já
fora rejeitado. Insiste Roosevelt. Uma semana depois,
interpela este de novo ao representante do governo
teutônico. Nada havia ele recebido do seu governo, foi a
resposta. Calmo, porém firme, marca-lhe o presidente
48 horas para comunicar-se de novo com seu governo,
e em 36 veio a resposta designando a Roosevelt árbitro.
Este atirou o arbitramento para o tribunal de Haya, que
resolveu o litígio pacificamente.
Tais fatos, embora generosos, têm, não há dúvida,
uma feição desagradável de protetorado americano
unilateral; porém, é chegado o tempo de se lhes dar
cunho diverso. E natural que, no passado, o isolamento
e instabilidade dos Estados do Sul tenham deixado a
República do Norte agir sozinha; agora, porém, a sua
ação isolada na manutenção do princípio de Monroe
seria o desprestígio deste.
E nem podemos nós supor que outra interpretação
queiram seriamente dar nossos irmãos do Norte,
provocando dês se modo o inteiro fracasso do
monroísmo.
Citam-se, é verdade, certos fatos e mormente o ato
recente do governo americano em relação ao canal do
Panamá, de que se queixa amargamente o governo
colombiano.
Os governos das nações não são vestais, nem
isentos de graves erros políticos; são vários, e
dominados quase uniformemente pelo egoísmo dos
interesses nacionais. Os governos, que se têm sucedido
na grande República americana, não pretendem, com
certeza, abrir exceção nesta corrente geral: Porém, não
224
raro, a feição moral dos fatos muda, quando mais de
perto os observamos.
Tomemos, por exemplo, o fato recente, que
determinou a abertura do canal do Panamá.
Tentar absolver inteiramente o Sr. Teodoro
Roosevelt, que dele foi o protagonista, fora baldado
esforço: pois americanos do norte e do sul são acordes
em lhe malsinar neste ponto a política violenta.
Entretanto, o caso não tem a gravidade que parece ter;
porquanto assim correu ele nos seus elementos
essenciais.
A companhia francesa concessionária do Canal,
dizimada pelas febres de mau caráter, não pôde levar a
cabo a colossal empresa. Neste ínterim, acordou o
governo americano sobre a alta inconveniência política,
para ambas as Américas, de estar o Canal sob domínio
de potência estrangeira.
A defesa das costas banhadas pelo Atlântico e pelo
Pacífico, a doutrina de Monroe e o comércio mundial
reclamavam a abertura do Canal pelos Estados Unidos,
já que a Colômbia, senhora da região, não estava em
condições de arcar com tão gigantesco
empreendimento.
Entra então o governo americano em negociações:
promete pagar à Companhia do Canal 40 milhões de
dólares pela transferência do contrato e materiais
existentes; assina em 1903, com o representante da
Colômbia, o tratado Hay-Henan, de acordo com o então
ditador colombiano Maroquim, em que se propunha dar
à Colômbia 10 milhões de dólares, e, após 9 anos, um
quarto de um milhão anual, com outras regalias.
Contra toda a expectativa, rejeitou o Congresso
colombiano o tratado, sem qualquer outra proposta.
225
Tal rejeição fez péssima e profunda impressão em
Roosevelt, que francamente a atribuiu à desmarcada e
crescente ambição de políticos sem escrúpulos.
Nesta emergência, os panamaenses, que se
julgaram diretamente prejudicados, sem qualquer outra
perspectiva, revoltaram-se, aliás, não pela primeira vez;
proclamaram a sua independência, e chamaram a si as
negociações para a abertura do Canal.
Roosevelt, cuja intervenção não se prova,
aproveitou, sem hesitação, como os próprios
panamaenses, a oportunidade, e, mais depressa do que
talvez se dera em condições normais, reconheceu a
independência da pequena república, entrou em
negociações imediatas com ela, concedeu-lhe todas as
vantagens que havia proposto à Colômbia, e não
consentiu que as tropas colombianas atravessassem a
zona do Canal, em que já tinha direitos e grandes
interesses empenhados.
Tal atitude impediu a guerra civil, e garantiu a
independência da nova república.
Saneada a pestífera região, foi o Canal aberto ao
comércio mundial.
Eis como Roosevelt resolveu a intrincada questão.
Levado pelo ímpeto de seu caráter impulsivo e
desassombrado, e pelo individualismo de sua raça,
qualquer outra solução protelatória, nas circunstâncias
expostas, seria para ele, sobre absurda, ridícula.
John Hay, o grande estadista e auxiliar de
Roosevelt, cujo caráter moral se impõe ao respeito
universal, deu ao ato a sua sanção. Isto basta para que
tal procedimento político, embora aberto à coima de
precipitado, não possa ser atribuído ao imperialismo
ianque.
226
É por certo, perigoso em política o brocardo —
“salus populi suprema lex”, e muito mais a máxima
imoral de que o “fim justifica os meios”. Entretanto, no
curso da vida das nações, como nas dos indivíduos,
surgem, por vezes, angustiosos problemas, em que os
ditames da moral se põem em conflito com as praxes do
direito.
O espírito humano vacila, e pergunta se não é dever
optar pela moral, sotopondo o direito.
Feriu-nos a imaginação infantil o episódio de um
pequeno drama, a cuja representação assistimos,
quando de tenra idade.
Levava-o à cena a rapaziada letrada da cidade de
Baependi, como soia acontecer naqueles bons tempos,
em ocasião de festa. Aparecia no palco um velho frade,
de longas barbas, e, grave, propunha um problema
moral: “É lícito matar um para salvar a dez?”
Não se sabe se John Hay, auxiliar de Roosevelt na
questão de Panamá, sentiu alguma coisa semelhante à
perplexidade do bom do frade; o que se sabe é que ele
aprovou plenamente a decisão que seu governo teve de
tomar de pronto contra a invasão das forças
colombianas, evitando, assim, o derramamento de
sangue e ressalvando os interesses do Canal.
Viajamos, de Panamá ao Chile, com o distinto
general Rafael Reys, ex-presidente da Colômbia, que era
então o comandante das forças encarregadas de
subjugar a revolução panamaense. Foi ele particular
amigo de D. Pedro II, e sincero admirador do Brasil. Em
seu belo livro “Las dos Américas” exalta com
entusiasmo as belas e fidalgas qualidades da raça latina,
e detende o Brasil contra certos exageros de Brice.

227
Personagem de alto destaque e cavalheiro de fino
trato, fez ele larga propaganda de uma aliança ibero-
americana, que sirva de anteparo aos pendores
imperialistas da grande República saxónica do Norte.
Percebe-se, de pronto, que uma tal propaganda
encerra em si uma grave ameaça para o futuro.
Assim entendeu um importante semanário de
Lima, o “Variedades”, que, dias depois de chegarmos a
essa capital, a 4 de março (1916), escreveu:
“Nosso distinto hóspede colombiano, o general
Reys, empreendeu uniu viagem pelos países da América
latina, seguindo um ideal multo nobre, como é a
solidariedade do espírito americanista, baseado na
comunidade de raça, de tradição histórica, de idioma e
de interesses políticos. Já antes do general Reys,
percorreu os diversos Estados americanos o conhecido
escritor argentino Manuel Ugarte, fazendo propaganda
ativa do mesmo ideal, por meio de artigos, livros e
conferências, e hoje já não se discute, em parte
nenhuma, a conveniência comum, que traria a
consolidação dos interesses do continente, mediante
uma vinculação estreita... Outro erro que sem dúvida se
comete é o deixar perceber com bastante clareza, uma
finalidade concreta de defesa e de hostilidade contra a
influência ianque. Manuel Ugarte, com animosa
franqueza, buscava a vinculação latino-americana, não
tanto para dar uniformidade à ação dos Estados
americanos contra as emergências do futuro, contra os
perigos gerais, que, com respeito à integridade e
autonomia política, geram os atrativos de nossas
riquezas naturais, de nosso vasto e despovoado
território, que podem estimular, no futuro, planos
expansionistas do Japão ou das nações europeias; não.
228
Ugarte assinalava, como único e formidável perigo, o
imperialismo yankee.
“Em nosso conceito, tem sido um grande erro dar a
este ideal da vinculação latino-americana um sentido
defensivo particular, um valor de previsão contra os
avanços imperialistas de “alguém”, porque isso é ferir
esse alguém e buscar sua natural hostilidade, coisa que
não é político nem oportuno fazer, e muito menos deve
ser o núcleo central de um ideal tão vasto e generoso de
solidariedade... Não é dos Estados Unidos, como nação,
que devemos precaver-nos: é de seus milionários, de
seus negociantes, seus industriais... Seria tolice querer
afugentar o capital norte-americano... nem todos os
capitalistas, nem todos os industriais da América do
Norte são um perigo de ação má, nem de
intervencionalismo oficial...; e englobar dentro de uma
desconfiança geral para com a influência norte-
americana, a ação vivificante e fecunda do esforço e do
capital dessa nação, será, pelos menos, uma injustiça e
uma indignidade. É do capital dos “trusts”, é dos
industriais sem escrúpulos, é do capital-polvo, que
devemos precaver-nos; e, por isso, agora que esse
“trust” do petróleo, que se chama “Standart Oil” — que
devorou o México — tem lançado garras neste país,
havemos chamado a atenção e soltado o brado de
alarma.
“Se, pois, o grandioso ideal, que acaricia o general
Reys, se depura de suas finalidades íntimas, para
significar o abraço, da raça, a amálgama dos interesses
comuns e solidariedade do continente, claro é que
achará, em toda parte simpático acolhimento; e, quando
desaparecem os obstáculos circunstanciais, que o fazem
difícil hoje, terá ele completa realização.”
229
Estas sensatas palavras do hebdomadário peruano
mostram o gravíssimo erro político de se opor um
imperialismo a outro imperialismo, aplicando à cura
dos males internacionais a terapêutica homeopática do
“similia similibus curantur”, que neste caso poderia dar
uma dinamização fulminante. Contra tão desastrada
propaganda aí se ergue, em aviso solene, a conflagração
europeia.
O imperialismo das grandes potências, como a
fatuidade, ambição e protérvia aos poderosos, é um
produto mórbido pletórico, que tem o seu corretivo
eficaz no bom senso nacional, nas relações
internacionais amistosas e nos tratados de aliança.
Dada a corrente imperialista no gigante do norte, e,
sob seu influxo, a interpretação unilateral do
monroísmo, não é certamente o meio de evitarmos
futuras desgraças assanhar o touro com a bandeira
vermelha de um latinismo exclusivista; mas é, antes,
estreitar os atuais laços de amizade, em pacto solene,
em que seja codificado o direito internacional
americano, assentada, de modo formal, a interpretação
bilateral da doutrina de Monroe e erguido o tribunal da
paz sobre o firme fundamento da arbitragem
obrigatória. O que importa é completar o alfabeto
continental pelo fraternal amplexo das duas raças, e
erguer na América a estátua da liberdade com a legenda
helvética: “Todos por um e um por todos.”

Abertura do Congresso, saudações e teses

230
A 10 de fevereiro de 1916, abriu-se o Congresso na
cidade de Panamá, no salão do grande Hotel Tivoli.
Enchiam o espaçoso recinto, onde se viam as cores
variegadas de todos os países da América, 300
delegados e uns 200 visitantes de 21 nações. A
estreiteza da cidade limitara o número de delegados.
Mais de trinta juntai missionárias achavam-se aí
representadas.
Por unânime aclamação, foi eleito presidente
efetivo do Congresso o Sr. Roberto E. Speer, e da
Comissão de Negócios (“Business Committee”), por
onde deviam passar todos os papéis endereçados ao
Congresso, o Dr. John Mott.
Ambos são vultos de alto relevo no mundo
evangélico da América do Norte; sua influência no
movimento religioso é mundial, não só pela atividade e
fascinação pessoal, mas ainda pelas obras escritas, onde
se estampa a grandeza e lucidez de seus espíritos, a par
da magnanimidade e piedade de seus sentimentos.
Ambos já honraram o Brasil com a sua presença.
O Sr. Robert Speer é presidente da junta de missões
estrangeiras da Igreja Presbiteriana em Nova York e
membro da diretoria que dirige os grandes institutos de
educação em São Paulo — o Mackenzie e a Escola
Americana.
O Dr. John Mott é o grande espírito que se acha à
testa do movimento mundial em favor da mocidade —
da Associação Cristã de Moços e da Federação dos
Estudantes.
Foi eleito presidente honorário do Congresso o Dr.
Eduardo Monteverde, lente da Universidade de Uruguai
e representante de seu país no Congresso Científico de
Washington. Largo espírito humanitário e de extrema
231
modéstia, o Dr. Monteverde impõe-se logo à simpatia
dos que dele se acercam. Os três brasileiros, que daqui
partiram, foram igualmente distinguidos na vice-
presidência, secretaria, comissão da imprensa, e um
deles entre os historiadores do Congresso.
Para proferir o discurso de abertura, ergue-se na
plataforma, em meio de respeitoso silêncio, a pessoa do
presidente, o Sr. R. Speer. A figura é simpática, o ar
modesto, os gestos sombrios; a voz, porém, é timbrada
e forte. Sente se em seus másculos acentos o férreo
caráter de um genuíno saxão. Vibra no discurso a nota
intensa de uma piedade pessoal. Não há, entretanto,
rasgos; o discurso corre calmo e profundo, e o orador,
como que de propósito, tolhe à imaginação o voo
aquilino. Singelo e ungido, ele fere o diapasão sagrado
por onde se afinam todos os oradores subsequentes —
a devoção pessoal a Cristo, o Filho de Deus. É esta para
ele a plataforma de Panamá. Espírito lúcido, positivo e
profundamente cristão, não lhe faltava, por certo,
coragem moral ou intelectual para enfrentar, em
qualquer terreno, os grandes problemas da América
Latina, mas, para ele, como espécimem exímio da raça,
o Congresso era uma conferência ou conjugação de
forças e esforços para a solução efetiva dos problemas
concretos, que se relacionam com a vida moral e
religiosa dos povos sul-americanos.
A forma e a substância de seu discurso inaugural, a
sua atitude humilde e modesta na abertura dos
trabalhos, assaz condiziam com a concepção prática,
que, aliás, já havia formulado dos intuitos construtivos
do Congresso.
“Algumas doces palavras do amado Salvador”, era o
que um crente nas Filipinas desejara dele, e era o que ele
232
trazia à atenta assembleia, que ali se deliciava com o tom
reconfortante de seu discurso.
O primeiro que se levantou a saudar o Congresso,
foi o Sr. Ernesto Lefévre, ministro do Exterior da
República de Panamá, que em nome do governo, dava as
boas vindas, e, apesar de católico, fazia sinceros votos
pelo bom êxito do Congresso, no qual reconhecia um
elemento de progresso e civilização.
Subiu à plataforma, para responder, o Dr. John
Mott. Porte ereto, rosto franco e desbarbado, fronte
erguida, e, sob espessas e eriçadas sobrancelhas, olhos
vivos e bondosos.
Em voz solene e ponderada, saúda o grande orador
a s. exc., e lhe agradece as amáveis e francas palavras,
que acabava de proferir, fazendo, por sua vez, ardentes
votos pela prosperidade do nobre governo da jovem
República de Panamá.
Uma outra saudação sobremodo significativa
recebe-a o Congresso do juiz Dr. Emílio del Toro,
membro do Supremo Tribunal de Porto Rico. Declara ele
que veio ao Congresso na firme convicção que dele
resultaria um grande bem para sua raça latina, uma luz
nova, uma nova inspiração de elevado progresso em
todos os departamentos da vida.
Embora católico, ele cria na eficácia do
Cristianismo que tinha feito a grandeza dos Estados
Unidos. Julgava ele ainda que “aqueles que amam o
progresso das nações, que estudam a história
desapaixonadamente, que têm fé no progresso da
humanidade, não podem deixar de sentir profunda
simpatia pelo fato do que a Reforma se espalha, de que
a livre investigação abre horizontes mais largos ao
espírito humano, de que o Cristianismo, pregado e
233
interpretado por todos, dissemina sua benéfica
influência e levanta o nível da sociedade.”
“Ouvi nestes dias, acrescenta o nobre orador, a voz
da América expressa cm três línguas, e por minha
imaginação passou seus vasto território, suas muitas
raças seus complicados problemas, e com mais brilho
luziram em minha consciência as palavras de Jesus no
Sermão do Monte: “Ouvistes o que foi dito aos antigos:
Amarás a teu próximo e odiarás a teu inimigo; porém,
eu vos digo: amai vossos inimigos e orai por aqueles que
vos perseguem, para que possais ser filhos de vosso Pai,
que está no Céu, que faz brilhar o sol sobre maus e bons,
e cair a chuva sobre justos e injustos.”
Termina o generoso representante de nossa raça
declarando que o espírito de amor, essência do
Cristianismo, deve inspirar trabalhadores e “leaders”.
“Somente o amor, sem o qual a caridade, fé e religião são
meros corpos sem alma, pode impressionar a América
Latina.”
Correu libérrima a discussão dos relatórios, nas
três línguas oficiais — o inglês, o espanhol e o
português. A cada orador eram concedidos sete
minutos. Um espírito e oração e fraternidade permeava
a assembleia. No fim da primeira sessão de cada dia,
celebrava-se o culto, em que um sermão, feito pelas
notabilidades do Congresso, versava os grandes temas
da teologia, e exaltava a pessoa divina de nosso Senhor
Jesus Cristo.
As noites eram reservadas para a apresentação de
teses.
O bispo Francisco J. M. Connell, da Igreja Metodista
Episcopal, de Colorado, homem de ciência e autor de
livros que tratam das relações, da vida cristã com o
234
pensamento moderno, discorreu com fluência e
proficiência sobre — “A fé cristã em uma época
científica”.
Nestes últimos cinquenta anos, disse o orador, a fé
cristã e o espírito científico têm se penetrado
mutuamente, de modo notável. Por três estádios bem
caracterizados tem evoluído o ponto de vista científico,
desde a proclamação, em 1859, da teoria da evolução de
Darwin, e da Publicação dos “Primeiros Princípios”, de
Spencer.
A princípio, a hipótese evolucionista apresentou-se
com um caráter francamente materialista. Tyndall, por
exemplo, afirmava que podia prolongar sua visão
retrospectiva até poder ver na matéria a promessa e a
potencialidade de todas as coisas. Porém esta explosão
de materialismo não durou muito. Seguiu-se um
período de agnosticismo, de que é exemplo o prof.
Goldwin Smith, que aceitava os princípios científicos,
porém confessava-se em completas trevas em relação a
Deus, à liberdade e à imortalidade.
Ao estádio agnóstico seguiu-se um período de
regresso à fé. Sir Oliver Lodge, reconhecido cientista,
proclama-se substancialmente cristão ortodoxo.
Esta evolução do pensamento científico tem sido
determinada pela pressão do ambiente cristão. Por sua
vez, as influências do ambiente científico não têm sido
menos sensíveis sobre o pensamento religioso. O estudo
moderno das Santas Escrituras, embora deixasse de pé
os fatos nela contidos, deu-nos, contudo, maior luz na
inteligência deles. O estudo crítico da Bíblia não lançou
fora a Cristo de sua posição de inerente supremacia
espiritual.

235
Desta reciprocidade de espírito científico e
religioso na vida do pensamento humano, conclui o
orador a cooperação da religião e da ciência no
progresso humano. O Cristianismo e a Ciência devem
conquistar a natureza física em nome da humanidade, e,
juntos, resolver os urgentes problemas da saúde do
pauperismo, bem como os problemas sociais da
organização e moralidade.
Em suma, o Cristianismo e a Ciência devem
capturar as forças materiais deste mundo e faze-las
brilhar com toda a intensidade sobre as nossas trevas, a
fim de dar a revelação da glória de Deus, na face de Jesus
Cristo.
Sobre ciência e religião, ergue-se ainda na
plataforma a figura respeitável e cativante do Dr. Henry
Churchill King, presidente do Colégio de Oberlin, em
Ohio, de alta reputação científica, pelas várias obras que
tem publicado.
Definiu ele o espírito científico como a maneira
honesta de encarar os fatos, a atitude de um espírito
aberto à observação do mundo com um sentimento de
profunda integridade. Este verdadeiro espírito
científico nos tem dado uma visão mais ampla de Deus.
Nada conhece o orador no mundo intelectual moderno
que possa racionalmente impedir a qualquer homem de
ser, no mais profundo e verdadeiro sentido da palavra
um seguidor de Jesus Cristo. Não há conflito entre a
verdadeira religião e a verdadeira ciência. Ciência e
religião são duas correntes paralelas, ou, melhor, são
duas forças convergentes no aperfeiçoamento da
humanidade.
Sobre este importante assunto, outros espíritos
eminentes, como o Dr. Charles T. Paul, diretor do
236
Colégio de Missões, de Indianópolis, ocuparam
proveitosamente a atenção do escolhido auditório.
Mostraram todos que não há incompatibilidade entre a
ciência e a religião, não há antagonismo entre a fé e a
razão, as quais são duas forças que se completam na
realização dos destinos do homem.
A luta que se apregoa é apenas o conflito passageiro
entre os intérpretes Incompetentes de uma e de outra:
é o fanatismo da ciência às garras com o fanatismo da
religião, trombeteado pelo espírito revel de um
racionalismo barato.

A América Latina Através dos Relatórios

Dezenove nações americanas tiveram no congresso


de Panamá seus representantes, e, sobre elas, oito
relatórios volumosos, forneciam abundantes dados
estatísticos, informações e considerações sobre todos os
ramos da vida social. Três grossos volumes encerram
esses relatórios e outros trabalhos do congresso. Deles
extraímos breves informações.
Vinte repúblicas, com uma área de 8.459.081
milhas quadradas e uma população de 80.203.902,
formam a América Latina, ocupando a América Saxônica
uma área de 6.557.700 milhas, com uma população de
108.679.000. Contém, pois o nosso hemisfério, uma área
de 15.016.781 milhas quadradas, uma população de
188.882.902.
Calcula Calderon que, no fim do século XX, teremos
250.000.000, e Reclus acha que a América poderá
manter 2.000.000.000 de habitantes.
237
Divide-se a população da América Latina nas
seguintes classes:
Brancos 18.000.000
Índios 17.000.000
Negros 6.000.000
Mestiços de branco e índio 30.000.000
Mestiços de branco e negro 8.000.000
Mestiços de negro e índio 700.000
Hindus, japoneses e chineses 300.000
Total 80.000.000

A América Latina é um campo aberto à imigração


estrangeira. No Brasil, em 1913, desembarcaram
193.000 imigrantes, e, no mesmo ano, nos países da
América do Sul, um milhão.
Assinalam-se, na parte meridional, grandes
estadistas, como Rio Branco, no Brasil; Gonzalo Ramiro,
no Uruguai; Sarmiento, na Argentina, têm horado a
América Latina não só pela capacidade intelectual, mas
também moral. San Martin coloca-se na altura de
Washington, pelo desinteresse pessoal.
Os estadistas do Brasil tornaram impossível a
escravidão, sem qualquer convulsão política ou
econômica.
Porém, uma onda de incredulidade ou
irreligiosidade ameaça as repúblicas do sul. O surto da
ciência moderna no século dezenove pôs em crise o
mundo religioso.
O pensamento cristão tem estado enfrentado um
novo racionalismo, materialismo e pessimismo, em toda
a sua sutileza e virulência.

238
O Espiritismo é outra onda do mal, que vai
enchendo o vácuo aberto pela incredulidade e
indiferença religiosa.
Agrava estes males sociais um outro, que aflige a
América Latina: é o analfabetismo, que atinge de 50 a 80
por cento.
Um em vinte era a média da assistência à escola em
1912; na Alemanha um em seis, no Japão um em sete, na
Colômbia um em vinte e dois, na Bolívia um em
quarenta, na Argentina um em dez.
Contra todos esses males públicos, opina o
relatório, deve erguer-se o Cristianismo, e, em torno da
pessoa histórica de Jesus Cristo, prender as
inteligências, iluminando-as. É ele a verdade e o bem, e
necessidade não tem de apologia: basta apresentar-se
em seu fulgor nativo e primitiva beleza.
Indispensável é, porém, que para isso se vulgarize
entre o povo o livro admirável, que o contém e revela —
a Bíblia. Esse livro divino tem sido a grandeza dos povos
do norte, se-la-á do sul. De suas páginas inspiradas jorra
a única luz de fé e esperança capaz de varrer do espírito
sul americano o pessimismo e o desânimo, que ora nos
acabrunha.
Dada ao povo, lida, conhecida, amada, obedecida, a
Bíblia produz ricos frutos de justiça, afasta os homens
do pecado, condú-los a Deus, proclama o Salvador,
fornece o programa de seu Reino terrestre, alistando
seus súditos em um serviço do amor e abnegação. “A
existência da Bíblia, escreveu Emanuel Kant, é o maior
benefício que jamais experimentou a ruça humana”.
Convém espalhá-la do México ao estreito de Magalhães.
A Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira, em
1915, publicou 10.165.413 Bíblias e partes da Bíblia. E
239
ela impressa em 487 línguas. A Sociedade Bíblica
Americana, em 1914, publicou 6.406.323, e, desde sua
fundação em 1916 109.926.214, em 85 línguas. Todas as
sociedades bíblicas imprimem, por ano, uma média de
21.000.000.
Trata ainda o Relatório do estado sanitário, social e
político, das raças, das línguas, da liberdade de
consciência, do espírito de tolerância e mútua
compreensão dos povos ibero-americanos. Merecem-
lhe especial cuidado os selvícolas dos diversos países.
É estudado o trabalho de evangelização dos índios,
e exposta a necessidade de se lhe dar maior amplitude.
Do relatório “Mensagem e Método” colhemos
profundas observações. “O Evangelho para a América
Latina, como para todo o mundo, é uma mensagem de
vida suficiente, abundante, inexaurível.”
Deste fato fundamental conclui o relator que não é
somente direito, mas inevitável obrigação de as Igrejas
Evangélicas proclamarem, interpretarem e praticarem
o evangelho de Cristo na América Latina, como em toda
parte, em sua pureza e plenitude, e implantar seus
princípios e espírito na vida individual, social e nacional.
Declara que na proclamação da mensagem divina o
mensageiro deve “falar verdade em caridade”, e que a
Bíblia é a fonte inspirada dessa mensagem de salvação.
Não há maior autoridade que esse Livro, sobre a
natureza do Cristianismo, e suas verdades salvadoras;
não há fora dele outro fundamento histórico, nenhum
outro tribunal de apelo para a exposição e defesa dos
ensinos de Jesus Cristo e dos Apóstolos, sobre que foi
fundada a Igreja. A própria Igreja Romana apela para
esse Livro, como Palavra de Deus, nos decretos do

240
Concílio de Trento, nos ensinos de seus teólogos, e na
encíclica do falecido papa contra o modernismo.
Em seguida o Relatório expõe a graciosa
paternidade de Deus, a pessoa e a obra de Jesus Cristo, a
nossa comunhão direta com Deus e com Cristo,
afirmando o grande fato de livre acesso do pecador ao
Pai por meio do Filho, como único mediador entre Deus
e o homem.
Estuda depois, nas repúblicas sul-americanas, a
complexidade das raças, o espírito dominante, o
isolamento político o idealismo democrático,
estabelecendo o caráter social do Evangelho.
Substanciosos estudos sobre a educação, a
literatura, a posição da mulher, as igrejas nacionais, as
missões estrangeiras, a catequese dos indígenas, abrem
amplas discussões e largo escopo aos generosos intuitos
do protestantismo americano.
Ao discutir-se, por fim, o problema da “cooperação
e promoção da unidade cristã”, é que se revela a
largueza e generosidade dos intuitos do congresso
evangélico Panamericano de Panamá.
No nobre esforço paro se promover “a obra cristã
na América Latina”, externavam esperança e intenção
de aliciar a cooperação da Igreja Romana em certos
aspectos sociais de beneficência.
Se louváveis eram esses intuitos, que de princípio
ostentavam, força é reconhecer, com muitos
congressistas, que excessiva era a esperança e
desmemoriada a intenção.

241
A Feição Moral do Congresso

Busquemos agora a feição moral do Congresso


Evangélico Panamericano de Panamá, que assumiu, por
último, o modesto título oficial de Congresso da Obra
Cristã na América Latina.
Um congresso dessa natureza não é certamente um
corpo deliberativo, e muito menos o é legislativo. Não é
um concílio para resoluções disciplinares ou definições
dogmáticas.
Porém, não deve ser tão pouco uma simples
comissão para a investigação de fatos, organização de
estatísticas, estudo de certos processos e recomendação
de certos métodos. Sem dúvida, isso entra no seu
programa; mas limitá-lo a isso, exclusivamente, fora
convertê-lo em mera comissão encarregada de dar
relatório a um poder competente.
Acima dos fatos, das estatísticas, dos problemas
particulares, é de esperar que haja um ponto elevado de
reunião, uma síntese superior, em que essa coletividade
moral possa afirmar a sua unidade. Nesta possibilidade
está, parece, o caráter diferencial que separa um
congresso de uma mera comissão nomeada para
investigações e estudos.
Embora, pois a natureza dessas assembleias as
iniba de serem deliberativas ou legislativas, nada
impede que sejam declarativas, e afirmem a sua unidade
superior, a sua solidariedade íntima, na esfera elevada
de princípios comuns. Expostos estes preliminares,
volvamos nossos olhos para os diversos aspectos
morais do Congresso religioso de Panamá.

242
O primeiro, que nos fere, é o espírito de
confraternização, que domina a assembleia.
O Protestantismo dividido, fragmentado, sectário, é
um espetáculo que sobremodo escandaliza aos latinos.
Entretanto, ali, como na convenção de Edimburgo, se
manifesta, no seio dele, uma grande força de coesão, que
aproxima e une, em uma afirmação consoladora de
amor fraternal, de unidade moral e dogmática, trinta a
quarenta denominações diferentes. Presbiterianos,
metodistas, batistas, episcopais, luteranos, morávios,
fazem tábua rasa de seus nomes particulares, e todos,
em torno do divino Mestre, repudiam o sectarismo, que
é a negação da unidade substancial do Cristianismo.
Vozes chegam a erguer-se contra os próprios
nomes distintivos desses agrupamentos morais no seio
do Protestantismo evangélico, e a favor da fusão de
todas as denominações em uma só igreja evangélica
nacional, em cada país.
É possível que esta seja a visão gloriosa do Milênio,
porém, dada a atual constituição moral do homem, e, se
quiserem, a contingência de nosso estado imperfeito,
esses grupamentos eclesiásticos respondem a uma
exigência natural, espontânea.
Quem diz liberdade de pensamento, diz variedade
de opinião. Ora, as afinidades intelectuais, que
constituem as correntes várias de opinião, provocam
espontaneamente diversidade de agremiação.
Na história do Cristianismo, as afinidades
doutrinárias, disciplinares e ritualísticas têm sempre
determinado agrupamentos distintos, que mantêm a
nota de diversidade na unidade superior do sistema
geral.

243
No próprio catolicismo romano, ferrenho
pregoeiro da unidade da Igreja, observa-se este
fenômeno histórico nas agremiações, ordens, confrarias
ou “religiões” (no dizer de nossos bons escritores
eclesiásticos), que nos dão uma prova convincente de
que tais organizações particulares não são, de
necessidade, frutos das paixões do homem; antes são
tendências irresistíveis no estado atual da humana
contingência, cujo perigo, como o de muitas outras
coisas, está apenas no abuso e na perversão de nobres
intuitos.
O mal está no partidarismo egoísta, no espírito
orgulhoso de seita, na intolerância e exclusivismo
arrogante de homens acanhados, incapazes de absorver
e assimilar o generoso espírito da vocação cristã.
Querer eliminar nomes e destruir agremiações
particulares, não será porventura tomar o eleito pela
causa, confundir a uniformidade com a unidade, e
procurar substituir um individualismo divergente e
vivo, por uma espécie de dualismo coletivo atrofiante?
Entre o individualismo protestante e o coletivismo
romano, oscila a solução do problema da unidade da
Igreja. É evidente que devemos procurar a desejada
solução não na paralisação regulamentar, mas na livre
movimentação da consciência cristã.
Em todo caso, esse mesmo exagero de alguns
membros do Congresso era a expressão enfática do
espírito de unidade fundamental e harmonia de
sentimentos que reinava em todos os Representantes
das várias comunidades evangélicas.
Se, porém, ao cálido ambiente da piedade cristã,
evaporava o sectarismo religioso no vasto salão do hotel

244
Tivoli, o mesmo não sucedia com o temperamento
dispar das duas raças, que ali se defrontavam.
A essas tendências étnicas divergentes serviram de
pedra não de escândalo, mas de toque, as relações com
a Igreja de Roma.
Reunido com o fim de estudar o problema religioso
da América Latina, não podia o Congresso desconhecer
o fato capital de que a Igreja Católica Apostólica Romana
domina esta parte do continente.
Aos latinos, apoiados por alguns missionários,
parecia que a assembleia, em declaração formal e
solene, deveria reconhecer este fato, e, diante dele,
definir franca e lealmente a sua atitude. A oportunidade,
no parecer deles, era grande para uma exposição de
princípios, que dignificasse o Congresso acima de uma
comissão de estudos e de uma convenção
fraternizadora, aos olhos abertos da América do Sul.
Assim, porém, não sentiam os irmãos do Norte.
Julgavam eles que sobre o assunto era suficiente o que
esparsamente se dizia nos relatórios.
Havia ali um conflito latente de temperamentos.
Eles a temer a loquacidade latina, nós a recear a
taciturnidade saxônica; eles a temer que se
comprometesse o prestígio do Congresso falando-se
demais; nós a recear que isso se fizesse falando-se de
menos. A fecundia de uns e a reserva de outros
miraram-se por alguns dias.
Para eles era o Congresso uma reunião de estudos
práticos e conhecimentos recíprocos, para a união de
pensamentos, de sentimentos e esforços, e, por isso,
afastavam cuidadosamente qualquer assunto que
pudesse trazer divergência, polêmica ou controvérsia.

245
Para nós, a tudo isso devera acrescentar-se uma
exposição de princípios, uma declaração formal de
atitude e intuitos.
Circunstâncias adventícias vinham agravar esta
oposição latente de índoles étnicas.
Em primeiro lugar, a uns se afigurava haver na
reunião de Panamá certo compromisso moral de um tal
pronunciamento, desde que ela fora convocada como
uma reação contra a atitude da grande convenção
missionária de Edimburgo. Depois, por maior que seja a
caridade, tolerância e largueza de vista dos missionários
evangélicos em países latinos, eles serão sempre
interpelados sobre sua missão e acoimados de intrusos
em casa alheia. Nesta conjuntura, era de esperar
apresentassem ao reputado dono suas credenciais, ou o
mandato do juiz, que os autorizasse à penhora dos bens,
à confiscação das almas.
Por último, era a primeira vez, após a Reforma, que
o Protestantismo evangélico se encontrava assim, face a
face, com o Romanismo, a sós, em um continente, cuja
posse moral é, em última análise, de suprema
importância para um e para outro. Excluída, por
conseguinte, a ideia de uma posse pacífica em comum, e
sendo inevitável a luta de princípios e métodos, o
momento providencial apresentava, sobremodo
propícia para os destinos dessa luta sagrada, a
publicação de um documento claro, leal, incisivo e
caridoso, em que o Congresso consubstanciasse os seus
nobres princípios e generosos intuitos. Ninguém, por
certo, nesta livre América, se escandalizaria com um tal
documento.

246
Outro era, entretanto, o pensar dos representantes
da América do Norte, na sua maioria. O arrojo topava
com a relutância da raça.
Antes de tudo, já haviam eles traçado, em reunião
prévia, o programa prático do Congresso. Fixando o seu
espírito e propósito, haviam eles determinado que a
“Conferência de Panamá não era uma reunião para
legislar sobre questões eclesiásticas ou mesmo sobre
assuntos de política missionária. Não tinha ele tal
autoridade. Era uma reunião para a investigação
honesta dos problemas do trabalho missionário na
América Latina, e para uma conferência plena e
fraternal sobre o modo como as necessidades da
América Latina podem ser mais efetivamente satisfeitas
pelo Evangelho de Cristo”. E quanto às conferências
regionais, “o seu objeto era comunicar inspirações e
sugestões, bem como o espírito e a mensagem do
Congresso de Panamá aos irmãos nos campos da
América do Sul, e estudar em plena simpatia e, tanto
quanto possível, de primeira mão, o meio, as obras e os
problemas de cada campo visitado.”
Adstritos a este programa prévio, era natural a sua
perplexidade diante de questões de outra ordem, já
afastadas.
Além disso, a atitude da parte ritualista da Igreja
Episcopal nos Estados Unidos e a de outros lementos
evangélicos aconselhavam prudência aos promotores
do Congresso de Panamá. Receavam eles que no
conceito de muitos pudesse o Congresso ser encarado
como uma simples cruzada contra a Igreja Romana, o
que o amesquinhava e os vexava. Neste sentido já os
seus promotores tinham sofrido vivos ataques, e

247
sentiam necessidade de provar o contrário com um
largo espírito de cooperação, amor e tolerância.
Finalmente, é possível que um outro elemento de
boa política internacional soprasse ali na mesma
direção conciliatória. Todos os nobres espíritos nos
Estados Unidos, a, esta hora, se acham empenhados
numa interpretação generosa do monroísmo e no
congraçamento das repúblicas do sul; acaso um leve
temor haveria de melindrar as populações latinas.
Tal o ambiente moral quando se abriu o Congresso.
Três papéis, que se relacionavam com a questão
romana, foram à comissão de negócios, para serem
apresentados ao Congresso.
Cheios da candura das pombas e vazios da
prudência das serpentes, os diretores do Congresso
mostraram-se perplexos em introduzir direta e
oficialmente a questão, embora modificassem a sua
atitude cooperativa, com a Igreja Romana. Foram
retirados os papéis, sendo um deles apresentado ao
congresso regional do Rio. Se não pôde o espírito latino
erguer o Congresso à visão ampla de um mundo novo,
animou-o todavia, o espírito prático, caridoso e forte da
raça anglo-saxônica. Não pode deixar de encerrar
grandes promessas a união dos dois espíritos, o
amplexo das duas raças.
Panamá não será somente, para o surto da
civilização americana, o elo que prende dois oceanos,
mas será mais: será o vínculo sagrado que prenderá dois
mundos em um novo mundo, com que apenas sonhara
Colombo.

248
Do Panamá ao Peru

A 21 de fevereiro partimos da curiosa capital da


pequena república panamaense.
Éramos quarenta, entre delegados e delegadas, os
que nos dirigíamos aos congressos regionais de Lima,
Santiago, Buenos Aires e Rio de Janeiro.
O sol já começava a derramar a flux seus vívidos
raios, quando o “Huállaga”, levando âncoras, nos
conduzia serenamente através do largo golfo do
Panamá.
Pelas bandas do norte sucediam-se escarpadas e
verdejantes ilhotas, como mudas atalaias da remansosa
baía.
O dia era esplêndido e esplêndido o panorama.
O céu de um azul puríssimo arqueava, inundado de
luz, sobre o vasto oceano, que, rivalizando as belezas da
supernaimensidade, se espreguiçava, manso e amplo, a
perder-se nas brumas longínquas do ocidente. Como um
imenso lago betado de ouro, cintilava em revérberos
ofuscantes, ao beijar-lhe a inquieta superfície, o astro
que, pouco havia, se desprendera radiante dos róseos
braços da Aurora.
O tempo era bonança, e o galerno, aquecido, nos
açoitava docemente a face.
À medida que o Pacífico nos ia abrindo,
hospitaleiro, o vasto seio, ia-se adelgaçando, pelas
bandas do oriente e do norte, o longo perfil recurvo da
estreita faixa, que corre a entroncar-se na república de
Costa Rica.

249
Afinal, aproamos ao sul, e breve à esquerda nos
surgiram os contrafortes verde-negros dos Andes
colombianos.
Reinava a bordo expansiva alegria. Cercados de
tanta beleza e esplendor, sentíamos todos a doçura, de
que, com tão suave poesia, nos fala o cantor de Israel:
“Oh! Quão doce e suave é habitarem os irmãos em
união!”.
Há na troca de afetos, de sorrisos de simpatia, de
palavras de amizade e fraterna confiança, um perfume,
que enleva a alma, um fresco orvalho, que refrigera o
coração.
Quanta formosura e quanta felicidade nas obras de
Deus!
Mas oh! Contraste doloroso! Nesse mesmo dia
começava a horrenda batalha de Verdun!
A medonha hecatombe dessa luta titânica vinha
ajuntar mais uma nota de horror à pavorosa carnificina
europeia, que desonra a civilização, a justiça e a religião
de Cristo.
Qual a visão dantesca que pudera antecipar o
quadro terrífico e abominável, que ao mundo e aos anjos
oferece a Europa civilizada?118
“Mãos poderosas, brada um dos nossos mais
eloquentes tribunos, desencadeando a procela,
quebraram as amarras eternas do futuro das nações,
ameaçadas agora pelas incertezas de uma situação, que
aboliu todas as garantias da confiança dos homens nos
homens, dos povos nos povos. Terríveis surpresas
vogam no oceano tenebroso do inesperado, onde até as
nuvens do céu cospem destruição, e os recessos do

118
Refere-se o autor, ainda, à guerra 1914-18.

250
abismo se associam à cegueira destruidora, que lhe
coalha a superfície, ao largo, dos destroços de todas as
tradições cristãs. Nega-se o direito, bane-se a justiça,
elimina-se a verdade, contesta-se a moral, prescreve-se
a honra, crucifica se a humanidade, o vendaval de ferro
ataca os símbolos sagrados, a arte, os tesouros da
ciência acumulada, os grandes arquivos da civilização, o
santuário do trabalho intelectual. Nada mais subsiste de
todas as leis, senão a lei da necessidade, a lei da força, a
lei do sangue, a lei da guerra. O Evangelho substituisse
pela religião da pólvora e do aço.”
Há, por certo, nessa guerra ciclópica das nações,
algozes e vítimas, tiranos e mártires; há uns que lançam
mão do direito de defesa e outros que acometem,
calçando aos pés, o direito, a justiça e a misericórdia; há
uns que são arrastados aos campos sangrentos de
batalha pelo sentimento de dever e obediência às
autoridades superiores, e outros que para aí marcham
inflamados do fogo infernal do orgulho e das ambições
humanas; há uns que assassinam e outros que são
assassinados! Há inocentes e há culpados.
O Supremo Juiz saberá distinguir entre uns e
outros; a nós o lamentar a sorte de ambos, o chorar com
as vítimas, com as mulheres c as crianças por toda parte
cobertas de luto e de tristeza; o suplicar que o Senhor
detenha a espada do Anjo Exterminador, que ora vinga
a escandalosa infidelidade dos povos, que assumiram
perante o mundo a responsabilidade ostensiva da
civilização cristã; a nós o levantar o nosso ardente
protesto, em face dos responsáveis, quaisquer que
sejam, contra a iníqua barbaria e inominável
perversidade de um tal conflito!
Volvamos, porém, ao Pacífico.
251
Prazenteira e tranquila correu nossa viagem, na
amável convivência fraterna.
Tendo estacionado por algumas horas no belo
estuário de Guiaquil, no Equador, aportamos afinal, a 29
de fevereiro, em Calao, onde, desembarcados, tomamos
o trem, que, em vinte minutos, nos conduziu a Lima,
capital do Peru.
Não conta esta bela cidade mais de 120.000
habitantes, porém é uma bela cidade, “precioso relicario
de las galanterias y esplendor coloniales”.
De fato, fundada em 1535 por Fernanado Pizarro,
sente-se um quê saudoso dos antigos tempos, coloniais,
no rico aspecto de seus numerosos templos, entre os
quais avulta a famosa catedral; na vetusta aparência de
muitas de suas ruas e casas; nas salas, corredores,
retratos e inscrições do edifício de sua Universidade,
fundada em 1551 por Carlos V, e no próprio trajar de
suas mulheres, envoltas em negras e longas mantilhas
espanholas. Na rica e velha catedral me foi mostrado o
esqueleto de Pizarro, e no Museu a mesa onde
funcionava o horrendo tribunal da Inquisição.
Muita é a pobreza que ostenta pelas ruas, o que lhe
dá certa expressão melancólica de desânimo. Domina
negro pessimismo os seus intelectuais. São numerosos
os homens e mulheres de minúsculas proporções, e a
pouco trecho topa-se com rostos inexpressivos e
deselegantes de chineses e indígenas. Em compensação
cruzam nas mesmas ruas frequentes tipos airosos e
senhoris da nobre prosápia ibérica, que não raro se
revela emoldurado de rendada mantilha a flutuar
graciosamente, presa de leve ao penteado, e a confundir
o seu negrume com o das enroladas tranças e com a
brilho dos aveludados olhos.
252
Ao lado desses belos vestígios da nobre raça, de que
faz timbre a aristocracia peruana, sente-se ainda na
fidalguia do trato as finas qualidades do cavalheirismo
castelhano.
Em Lima nunca chove; cercada de desertos,
alimenta-lhe a secular existência o pequeno Rimac, que,
precipitado e murmurejante em pedregoso leito corre
de longe, entre áridos e escalavrados montes, e vem
fertilizar perto da cidade um longo vale.
Em Chosica, pequeno povoado na extremidade
desse vale, existem abundantes vestígios da larga
população indígena anterior à conquista. Muros de
pedra, sepulturas, crâneos e ossos esparsos à superfície
do solo, trapos de tecidos, cestos, pedaços de cerâmica,
anunciam um povo varrido pelo furacão da Providência.
No Museu de Lima, grande quantidade de despojos não
nos fazia conhecer o grau de desenvolvimento
industrial dessas tribos, mas também da corrupção
moral a que tinha chegado. Dos incas ruínas megalíticas
proclamam, em Cusco, Arequipa e outros lugares, o
desvanecido esplendor.
São seus atuais descendentes os quíchuas, que
constituem grande parte da população interior.
Em 4.500.000 é computada a população do Peru.
Nesse país, como em todas as repúblicas hispano-
americanas, com exceção do Uruguai, a Igreja Romana é
a religião, do Estado, porém aí, como em todas as outras,
sopra uma aragem de liberdade, que vai anulando a
intolerância dessa união.
Assistiu ao congresso regional, aí celebrado, uma
das simpáticas vítimas dessa intolerância.
Francisco G. Penzotil foi o primeiro que penetrou
no Peru como humilde colportor em 1890. Pregou ao
253
povo, e reuniu em torno de si um grupo de crentes
dedicados. Foi preso em Arequipa e transportado para
os calabouços subterrâneos de Calao, permanecendo aí
detido por nove longos meses, e só pode ser solto por
influência de cônsules estrangeiros. Felizmente, foi
modificado, no sentido da liberdade de culto, o art. 4º da
Constituição, que regula a união da Igreja Romana com
o Estado, após tenaz oposição do elemento católico.
Esteve o Congresso reunido de 29 de fevereiro a 4
de março. Cordiais e instrutivas foram as discussões.
Tratou se, como em Panamá, da ocupação missionária
mais efetiva do território, do trabalho entre os índios
quíchuas, da educação e da formação cuidadosa do
ministério nacional, da literatura evangélica, do
trabalho entre as mulheres, da união e cooperação das
diversas denominações evangélicas.
Três sociedades missionárias trabalham no Peru: a
Igreja Metodista, a Igreja Cristã (União Evangélica da
América do Sul), e o Exército de Salvação. A heresia
sabatista (Adventistas do Sétimo Dia) tem aí os seus
propagandistas.
O trabalho começado em 1891 tem até agora
agremiado 1.030 crentes professos. Publicam-se em
Lima dois pequenos semanários e um pequeno
periódico mensal; “El Cristiano”, em tipografia própria.
Há vários estabelecimentos de educação, porém a
educação ministerial tem sido inteiramente descurada.
Sobre este ponto, porém, deixou o Congresso boas
esperanças.
A 8 de março, a bordo do “Aysen”, abraçando os
simpáticos irmãos, deixamos saudosos as plagas
peruanas em derrota para o sul.

254
Do Peru ao Chile

Findos os trabalhos do Congresso Regional de


Lima, eis-nos de novo a caminho em demanda de
Valparaíso.
Correndo ao longo da costa, via-mos erguerem-se à
esquerda, nus e escarpados, os socalcos da grande
cordilheira, cujos píncaros nevados se entreviam, a
lugares, envoltos na gaze brumosa de longínquos e
altivos horizontes.
Aves aquáticas em nuvens, peixes em piracema,
atraíam e distraíam, a cada passo, nossos olhares.
À tarde, ao imergir-se nas águas do Pacífico o disco
rubro do deus dos incas, quando as sombras iam caindo
do lado dos Andes, coleava, no espaço, por sobre as
ondas inquietas, como uma serpente aérea, uma longa
fila de patos bravos, de pescoços tendidos e pandas asas,
em busca de pouso nas altas e alcantiladas penedias, que
ouriçavam a costa.
Ostentava-se aí então a natureza na plenitude de
sua majestade, e evocava nas almas cismadoras a
saudade misteriosa de uma beleza infinita.
No ocaso, nuvens afogueadas, franjadas de
deslumbrante púrpura, eram uma como muralha de
ouro a reter as águas do oceano e a enxotar, ao mesmo
tempo, as sombras, que, a pouco e pouco, as iam
cobrindo.
Breve e lúcido arrebol desmaiava em um
avermelhado triste, e logo apenas tênue clarão
assinalava o túmulo do astro rei.

255
Acendiam-se, nesse momento, os círios no céu; la
das alturas derramava a lâmpada da noite tristonha
claridade, é, na vasta superfície silenciosa do mar,
tremia a luz pranteada de fúnebre cortejo.
E a natureza, em sua bela majestade, envolta na
suave melancolia do crepúsculo vespertino e no crepe
transparente da noite constelada, semelhava a uma
noiva ainda toucada para as núpcias, que chora em
silêncio a morte do noivo ansiosamente esperado.
Há, de fato, nos esplendores da terra uma nota de
profunda tristeza, um contraste melancólico, que tem
inspirado aos poetas sentidas elegias, suaves endechas
e amargos, trenos. E todos esses gemidos dos poetas não
são mais do que os suspiros dolorosos da alma escrava
da morte nas magnificências da criação.
Ouve o Apóstolo dos gentios os queixumes da
natureza casando-se, em íntima solidariedade, com os
gemidos do gênero humano: Omnis creatura ingemiscit...
et ipsa intra nos gemimus.
Comentando S. Paulo neste passo, diz Godet: “Eis o
que dizia Schelling, em uma de suas admiráveis lições
sobre a filosofia da revelação: “A natureza, em seu
encanto melancólico, é semelhante a uma noiva, que, já
toda adornada para a hora do himeneu, viu morrer no
mesmo instante do casamento o esposo a que ela se ia
unir.”
“A alma do filósofo poeta encontrou aqui a do
Apóstolo. Os antigos pensadores falavam muito em uma
alma do mundo. Não era isto um mero sonho. A alma do
mundo era o homem. Toda a Bíblia, mormente este
passo, repousa sobre esta ideia profunda.”

256
Em mar bonançoso continuamos a derrota para o
sul, recreando nossos olhos nas cenas sublimes, que
apresentava a terra e o mar, o dia e a noite.
Porém, em poucos dias o Pacífico, fustigado por
ventos ásperos começou de encrespar o largo dorso e
fazer de nossa embarcação mareante gangorra.
Advertido por biliosa experiência, só levantamos a
cabeça do travesseiro, quando, descida, mordia a âncora
o fundo do porto de Valparaíso.
Em leque aberto, trepa a bela cidade pelos montes,
que marginam o porto.
Conta ela 270.000 habitantes, e está entregue em
grande parte ao comércio inglês e alemão.
O Rev. David Trumbull foi o primeiro missionário
do Chile, que, a esta cidade chegando, cerca do ano 1845,
em 1860 fundou a primeira escola protestante.
Aí trabalham presbiterianos e metodistas, a A.C.M.,
o Exército da Salvação. Há, além disso, duas grandes
igrejas inglesas e uma alemã. Existe, como em Santiago,
uma Igreja União (The Union Church), frequentada pelos
anglo americanos, com exceção dos anglicanos. Tem-se
desenvolvido um numeroso grupo, separado da igreja
metodista, chefiado por um missionário que se deixou
levar por certos princípios pentecostais. E um grupo
forte, que se mantém por si mesmo. Conta-se ainda
trabalho entre os marinheiros, um hospital anglo-
americano, um albergue noturno, e um asilo de órfãos
anglo-saxão.
No belo templo da Igreja Anglicana existe um
esplendido órgão no valor, cremos, de 40 contos,
ofertado pela colônia inglesa, em sinal de gratidão a
Deus pelo fato de, anos há, não ter morrido um só inglês

257
num grande terremoto na cidade, onde pereceram mais
de 5.000 pessoas.
Recebido hospitaleiramente pela A.C.M., tomamos
o trem ao escurecer, e à meia-noite, mais ou menos,
desembarcamos em Santiago, populosa capital do Chile,
onde devíamos celebrar o segundo congresso regional.
Fundada por Valdívia em 1541, conta ela hoje 450
a 500 mil habitantes. É uma bela cidade e grande centro
intelectual do Chile. Ruas extensas, largas, limpas,
planas, uniformes; belos edifícios, porém de monótona
arquitetura, poucos jardins e um esplêndido cemitério.
O pequeno monte de Santa Lúcia é o mais lindo passeio
da cidade. Surge ele abrupto em uma extremidade da
cidade, do lado da Cordilheira. Transformado em um
logradouro público, domina ele do alto toda a cidade,
que se apinha em larga explanada. Fronteiriço, a curta
distância, empina-se, nu e desbarrancado, um outro
monte, em cujo topo se avista uma imagem da Virgem,
padroeira da cidade, que à noite é iluminada. Nessa
mesma direção, no fundo do horizonte, ao longe,
alvejam os cimos nevados dos Andes. Logo, a meio
caminho, em subindo o largo e calçado passeio, que
ladeia as escarpas de Sta. Lúcia, vê-se à esquerda uma
estátua de mulher, em cuja peanha se lê: “Aos
expatriados do Céu e da terra, que jazeram por meio
século, 1820-1872”. O lugar fora por esse tempo
cemitério protestante.
Ao estrangeiro revela essa inscrição a persistência
no Chile do espírito de intolerância católica, combalido,
aliás, pelo espírito de liberdade, que vai dissipando essa
herança do fanatismo peninsular dos tempos coloniais.

258
O cemitério católico, que não longe está de Sta.
Lúcia, é notável pela riqueza e beleza arquitetônica de
seus variados monumentos.
Em uma de suas formosas ruas, ostenta-se, sobre
uma elevada coluna, o busto do grande Andrés Belo,
tributo de gratidão do Chile ao insigne colombiano, que
difundiu, na universidade de Santiago, a luz intensa de
seu saber, como jurista, gramático e literato.
Não conta q Chile mais de 3.500.000 habitantes,
divididos, em geral, em duas classes — os nobres e os
rotos. Nesta é visível o predomínio do sangue indígena,
e naquela o sangue azul da linhagem castelhana. O negro
é aí uma exceção rara. A abundância e excelência do
vinho, que dos melífluos racemos se fabricam, está,
parece, ameaçando de irmanar as duas classes na
abjeção do vício.
Em conúbio precário o Catolicismo Romano,
religião do Estado, aí se une com o espírito republicano,
que, militarizado por instrutores alemães, se revela de
um patriotismo ardente.
O clero, entretanto, saído da classe nobre, é
geralmente instruído e liberal, garantindo-lhe
predomínio nacional o espírito feminino
profundamente religioso.
Como acontece, porém, em todas as democracias
sul americanas, um sopro ardente de liberdade e
racionalismo agita o espírito dos homens, e sacode os
grilhões de Roma.
Os presbiterianos contam em Santiago duas
animadas igrejas, sob o pastorado de ministros
nacionais, um bem frequentado e bem dirigido colégio,
El Instituto Inglês, fundado em 1877, que conta uns 80 a
100 internos, outros tantos meio-pensionistas e uns 50
259
ou 60 externos. Desde 1887, tal estabelecimento
sustenta-se a si próprio.
Os metodistas mantêm igualmente um bom
trabalho na cidade, já de propaganda, já de educação.
Em 1913 uniram-se eles com os presbiterianos em um
seminário comum, e fundiram os seus respectivos
órgãos El Heraldo Evangélico e El Cristiano em um jornal
semanal comum — El Heraldo Cristiano. Também
entraram em um amigável acordo quanto à divisão do
território. Todos esses movimentos, porém, indicam
apenas a boa vontade dos missionários: a igreja
nacional a eles assiste, naturalmente edificada.
A preparação séria de um ministério nacional e de
leaders nacionais é ali ainda um problema a resolver,
apesar do bem dirigido colégio presbiteriano El Instituto
Inglês e do Seminário comum — Union Theological
School.
Como em Valparaíso, há na cidade uma Igreja União
(Union Church), mantida pelo elemento estrangeiro aí
residente, em cujo amplo recinto celebrou o Congresso
suas sessões.
Existe aí ainda a Igreja Anglicana e a Igreja
Luterana.
As forças protestantes em atividade no Chile, em
sua ordem histórica, são: presbiterianos, metodistas,
anglicanos, Aliança Cristã, batistas, Exército da
Salvação, Sociedades Bíblicas Americana e Inglesa e a
Associação Cristã de Moços.
Missionários e clérigos existem 34; missionária, 1;
esposas de missionários, 34; professores missionários
estrangeiros, 54; internatos, 9; escuelas populares, 12;
pastores nacionais, 51; auxiliares nativos, não
ordenados, 78; igrejas (inglesas e espanholas), 53;
260
capelas e centros de pregação, 125; comungantes —
ingleses, 550 e espanhóis, 5.700.
O elemento nacional revelou-se piedoso,
inteligente e dedicado.
O país está aberto à causa evangélica.
Homens de importância social reconhecem a
necessidade de ser ela difundida, e um missionário
presbiteriano, o Rev. Maclean, ocupa uma cadeira na
Universidade.
Uma tal ou qual falta de coordenação na
propaganda, e a barreira social subsistente entre os
rotos, aquecidos pelo sangue araucano, e os aristocratas,
banhados pelo sangue azul de Castela, tem retardado o
passo ao Evangelho, na sociedade chilena.
Um dia, porém, a democracia da livre América
abrirá largas sendas triunfais às verdades fundamentais
do Cristianismo, e a luz serena de um novo dia virá
iluminar as numerosas estátuas patrióticas de suas
belas praças, que proclamam os fastos gloriosos de sua
história.

Do Chile à Argentina

Já no poente morrera o último clarão do dia, e a


orgulhosa capital do Chile se adereçava com as luzes
cintilantes de uma esplêndida iluminação. Grande
multidão de viajantes invadia azafamada o transandino,
que, em quarenta e oito horas, os devia conduzir a
Buenos Aires. Entre eles nos aboletamos e alguns
delegados, que dos companheiros tomamos a dianteira.

261
Soou afinal o sinal da partida, e começarmos a subir
o declive das encostas ocidentais da grande cordilheira.
Breve os haustos fortes da possante máquina
denunciavam mais áspera ascensão. Contorneando
dificuldades, vencendo rampas, transpondo gargantas,
fomos, pouco a pouco, atingindo as alturas solitárias,
onde reina a morte e o silêncio.
Alçados finalmente ao dorso imano, onde paira
altivo o voo do condor, vimos, a curta distância, acima
de nossas cabeças, a neve eterna, que coroa as arestas
da Cordilheira. De lá escorriam numerosos filetes, que
iam alimentar correntes pobres e turvas, as quais,
precipites, buscavam, em seus leitos profundos,
longínquas planícies.
Em certo lugar dessas alturas desertas, refletia um
pequeno lago, no espelho trêmulo de suas águas, o azul
do céu vizinho, e os píncaros nevados, que dele em torno
se erguiam.
Ao aproximar-se da linha divisória, mergulhamo-
nos nas trevas do grande túnel, em que correm os
limites do Chile com a Argentina. Em cima, onde se
tocam os dois territórios, no silêncio da solidão, ergue-
se uma estátua colossal de Cristo; segurando com uma
mão a cruz e com outra alçada, olha para o Norte,
constituindo-se o penhor sagrado de um pacto eterno
de paz entre as duas democracias limítrofes. No
pedestal da brônzea estátua, lê-se:
“A pó reduzir-se-ão estas montanhas, antes que
violem chilenos e argentinos a paz jurada aos pés de
Cristo, o Redentor”.
Oxalá do Norte venha a mensagem de paz, que
consolide a paz entre as democracias americanas.

262
Da banda do nascente, como do poente, o aspecto
trágico do terreno denuncia, por toda parte, as
pavorosas convulsões geológicas do mundo primitivo,
ao emergirem, rasgando a crista, as formações
plutônicas, cujo imenso acervo constitui a altiva
cordilheira.
O conjunto ciclópico dessas montanhas desnudas
vai-se inclinando e abaixando até morrer nos pampas
argentinas.
Nosso comboio, em carreira vertiginosa, serpenteia
por largos desfiladeiros escalavrados, boqueirões
rochosos, taludes ameaçadores, cortes arrojados,
estreitos vales, onde, à beira de escassa corrente, esboça
vegetação raquítica pálido sorriso de vida.
Em rochas tombadas à borda da estrada, lia-se, de
espaço a espaço, o texto bíblico, que aí escrevera mão
piedosa em alvas letras garrafais: “La sangre de
Jesucristo nos limpia de todo pecado”.
Nessas regiões de uma desolação patética, vívida
imagem de nosso mundo moral, o texto grava-se na
mente como um consolo supremo no supremo
sentimento de nossa miséria.
Caíra a noite, quando cortávamos rápidos as
numerosas ruas iluminadas da cidade de Mendonza,
que, ao sopé dos Andes, olha para as planuras infindas,
batidas pelo pampeiro.
Aí, após algum repouso, tomamos um trem
gigantesco e confortável, que, transpondo célere a
extensa faixa de ubertoso terreno de aluvião,
inesgotável tesouro da Argentina, nos conduziu em uma
noite e um dia à famosa capital portenha.
Na elétrica travessia, como em um caleidoscópio
fantástico, estâncias sucediam a estâncias, quais ilhas
263
em um mar de verduras; ricas pastagens a flavas searas;
o gado vacum, repousado e nédio, ao cavalar anafado e
altivo; o rebanho numeroso de gordos e lanudos
carneiros ao bando pensativo de mansos avestruzes.
Nuvens de aves aquáticas de vivas e variegadas cores
confundiam-se, ao longe, com os nenúfares, que
matizavam as frequentes lagoas.
Afinal, no negror de uma noite tempestuosa, surge,
banhada de luz cintilante, a rainha da América Latina, e
na suntuosa estação de Buenos Aires desembarcamos.
A população da Argentina é computada em
7.500.000 habitantes, se bem que a estatística de 1895
lhe dê apenas 4.044.911.
A sua bela capital é considerada a mais populosa
cidade da América Latina, apesar de, em 1899, ser a sua
população calculada apenas em 795.323.
De alguns anos a esta parte, tendo cessado os
“pronunciamientos” revolucionários, atirou-se essa
filha “primogênita” das democracias sul-americanas, à
estrada franca de um admirável progresso.
No seu rápido crescer, há grandes esperanças,
porém também graves perigos.
O multiplicar das riquezas fomenta ardentes
ambições e irrita o prurido do prazer, que sufoca os
nobres instintos da humanidade, e o Romanismo,
religião do Estado, não tem, para a onda, que cresce,
paradeiro moral. Lá, como no Brasil, nos grandes
centros, alastra-se a prostituição, desenvolve-se a
criminalidade, desprestigiam-se os tribunais, campeia a
imunidade, levanta o colo a anarquia, e avassala as
inteligências a impiedade e o pessimismo.
O futuro torna-se pejado de negras ameaças. Em
mares tão incertos e tenebrosos, brilha, como única
264
esperança da Argentina e da América do Sul, a Estrela
de Belém.
Uma reação poderosa no seio da população ibero-
americana de nosso continente, determinando o
ressurgimento de um Cristianismo puro, é o único meio
de se conjurarem os graves perigos do futuro.
Mas esse movimento de reação só poderá ser
provocado e dirigido pelas forças evangélicas, que
infelizmente não têm ainda na Argentina, como em toda
a América do Sul, consciência de sua missão e de sua
responsabilidade. É de esperar que o apelo de Panamá
desperte essa consciência na evangelização de nosso
grande continente.
Data de 1867 a propaganda evangélica em língua
espanhola na República Argentina, pela Igreja
Metodista. Desde 1820, entretanto, colonos
protestantes ingleses, alemães e suíços tinham aí
estabelecido o culto evangélico.
Porém a ambição do lucro e os casamentos mistos
têm quase anulado o testemunho dessa colônia. Todavia
a igreja presbiteriana escocesa mostra uma certa vida
expansiva, e o Dr. Flaming, pastor de uma poderosa
igreja em Buenos Aires, em cujo suntuoso templo se
celebrou o Congresso, mostra vivo interesse e empenha
frutíferos esforços no desenvolvimento da propaganda.
Igualmente o bispo anglicano dói-se aí da apatia
religiosa da Igreja Episcopal.
Domina o campo a Igreja Metodista, que em Buenos
Aires começou a propaganda em 1867; conta
atualmente uns 4.400 comungantes. Vêm depois os
batistas com uns 800 comungantes, 8 missionários e 7
pastores nativos; o Exército da Salvação com 35
missionários; a Igreja Cristã e as Sociedades Bíblicas.
265
Além dos Adventistas do Sétimo Dia, 14 sociedades
trabalham em desenvolver aí o Reino de Deus. Existem
uns 6.500 comungantes como resultado deste trabalho.
Entre as forças evangélicas devemos contar a
colônia Valdense, cujos pastores, presentes ao
Congresso, mostraram se espíritos ativos e entusiastas.
Um contraste impressiona no trabalho evangélico
na Argentina: são os poderosos elementos em atividade
em confronto com o parco resultado obtido.
Existe, em Buenos Aires, uma escola evangélica
gratuita, dirigida pelo Dr. Morris, cuja frequência sobe a
5.000 alunos e a mais. Na literatura é grande a vantagem
da propaganda argentina sobre a do Brasil. Grande
número de brilhantes penas nacionais têm versado, em
livros e obras de fôlego, os variados assuntos e
problemas da propaganda evangélica. Numerosas obras
importantes estão traduzidas em castelhano. O
jornalismo reflete os poderosos recursos morais e
materiais, que dão impulso ao movimento literário. O
movimento espiritual, porém, não tem correspondido a
este prospecto animador. Algum vício profundo deve de
existir ai nos métodos de trabalho, que convém indagar.
Abriu-se no dia 26 de março o Congresso, no vasto
salão de uma sociedade italiana.
Uma bem adestrada banda de música do Exército
da Salvação realçou ó cântico dos hinos.
Os oradores oficiais, o Dr. E. Monteverde, o Rev. F.
Barroetavena e o escritor destas linhas foram recebidos
com entusiástica salva de palmas, apresentados
sucessivamente pelo Dr. Halsey, ilustre presidente do
Congresso.
A sala estava repleta e o auditório respeitoso. As
outras sessões foram celebradas no vasto salão anexo
266
ao espaçoso e rico templo da Igreja Presbiteriana
escocesa.
Logo na primeira sessão levantou-se o Rev. Juan C.
Varetto, distinto ministro batista, e reclamou, calmo e
enérgico, a apresentação de um discurso seu sobre a
Igreja Romana. Ergueu-se forte oposição, porém,
triunfou a liberdade de expressão, como havia triunfado
em Panamá.
Com voz clara e vibrante, criticou o simpático
orador a mudança de nome de Congresso Missionário
para Congresso da Obra Cristã. Com leal franqueza
verberou a indulgência no modo de encarar o
Romanismo, indulgência que o orador atribuía a causas
várias e perigosas, e defendeu, com elevada e calorosa
eloquência, a controvérsia como meio necessário de
propaganda.
Animada e fraternal, correu a discussão sobre os
vários relatórios apresentados.
Ao tratar-se da educação ministerial, tornou-se
evidente que a orientação missionária da Argentina era
a mesma que a do Chile: ligeira instrução teológica sem
um ensino sério e regular de preparatórios.
O magno problema de um ministério nacional
idôneo encerra todo o futuro da propaganda. O brado
missionário — “adelante, adelante!” — sem se cogitar
de organizar e consolidar a parte já conquistada, é a
grande ameaça das missões na América Latina.
Já se fazia sentir essa ameaça. Alguém disse no
Congresso que — “para ter gente para a igreja, é preciso
ter igreja para a gente.”
Sobre o trabalho entre os índios do Paraguai foram
interessantes as informações dadas.

267
A Associação Cristã de Moços, sob a sábia direção
do dedicado secretário o Sr. Shuman, conta para cima de
mil sócios, e entre estes intelectualidade evangélica de
primeira ordem.
Ao despedir-nos do Congresso, antecipando a
nossa partida, asseguramos-lhes que trazíamos para o
Brasil, com os sentimentos de um amor mais intenso, a
impressão forte do espírito másculo dos queridos
irmãos argentinos, revelado na voz sonora e vibrante,
que por dias nos encantara os ouvidos, e edificara o
coração. Na pátria guardaríamos saudosa lembrança do
espirito obsequioso e amável de tão bondosos, irmãos.

Da Argentina ao Brasil

Pela tarde desaferrou o “Frísia” do cais portenho, e


pela manhã do dia seguinte, surdíamos diante da
graciosa capital do Uruguai.
Horas depois, empegámo-nos de novo no Atlântico,
não mais, porém, como marinheiro de primeira viagem.
Abría-se-nos, em mar de rosas, a líquida estrada; o
vento mareiro afagava-nos suavemente o rosto.
Era viva a hilaridade a bordo e expansiva a alegria.
Breve, envolto em gaze vaporosa, delineia-se, na
penumbra do horizonte, o vago perfil das terras
saudosas da pátria, e, a pouco e pouco, foi emergindo
das ondas, guapa e altaneira, a Serra do Mar.
Finalmente, à pequena distância, ergue-se à nossa
vista a formosa Paranapiacaba, coberta de espessas
matas, antigo miradouro dos selvícolas, anteparo
secular do planalto de Piratininga.
268
Na renovada e próspera cidade de Brás Cubas, nos
detivemos um dia.
Após quatro meses de um constante rodar por terra
e por mar, foi-nos dado fechar o ciclo de peregrinações,
entrando na abrigada baía do Rio de Janeiro. E ao
contemplar sua encantadora beleza, sentíamos que em
muito sobrepujava ela à magia de todos os panoramas,
que a nossos olhos revelara a parte percorrida do
continente.
O arrojado e fantástico de suas montanhas, o viço e
exuberância de suas matas, as rochas ciclópicas,
esparsas na terra e no mar, as ilhotas graciosas,
semeadas pelo vasto golfo, as águas tranquilas
espelhando um céu profundo e uma vegetação de um
verde-negro carregado e luxuriante, tudo isso forma um
conjunto incomparável, onde a natureza se ostenta com
toda a pompa e galas de seu noivado, e a mão do Criador
com a glória majestosa de sua munificência.
Entramos.
De pé lançava o Corcovado sobre nós as bênçãos da
pátria, ao estrondo festivo da fortaleza de Santa Cruz,
antecipado pelo fumo lúcido de suas peças.
Ao atracarmos, os repórteres agrupavam-se a
bordo em torno dos passageiros e nas proximidades do
cais apinhava-se a multidão. Grande era a azáfama e o
burburinho: amistosas despedidas, abraços e protestos
corteses de amizade, solicitações curiosas dos
representantes da imprensa, o movimento afanoso dos
carregadores, o encontro ruidoso de saudosos amigos,
constituíam uma cena de indescritível vivacidade, que
intensificava o gozo de quem curtiu, por largos meses a
saudade dos seus.

269
O Rio de Janeiro ia encerrar a série dos congressos
regionais da América Latina. Convinha-lhe fechar com
chave de ouro tão auspicioso movimento.
No dia 12 de abril, celebrou-se a sessão inaugural
no vasto templo presbiteriano da antiga Travessa da
Barreira. Presidida pelo eloquente bispo da Igreja
Episcopal do Rio Grande do Sul, o Rev. L. L. Kinsolving,
coube ao Sr. C. J. Ewald, simpático e dedicado secretário
geral da América do Sul, da Associação Cristã de Moços,
e a nós expormos ao auditório, que enchia o amplo
recinto, as impressões e lições do Congresso da Obra
Cristã de Panamá.
Salientamos então a sua importância como um
movimento de união e confraternização, estudo e
cooperação, na grandiosa obra da evangelização da
América Latina. Na história fragmentada das
denominações protestantes, marcará Panamá uma
época de amor, de inteligência mútua, e solidária
convergência de esforços do Protestantismo evangélico
mundial.
Pacíficos e vivos, correram os debates sobre os
diversos assuntos desenvolvidos nos relatórios
Impressos.
Foi logo consignado nas atas um voto de profundo
pesar pela guerra europeia, que continuava a cobrir de
luto, de confusão e de sangue países cristãos, levando a
miséria a todos os membros da família humana. Neste
voto de simpatia e solidariedade na dor, ia uma súplica
pela paz e concórdia da família humana.
Em seguida foi proposto ao Congresso um
documento que definia a atitude do Protestantismo em
face do Romanismo.

270
Era justo que, em uma movimentação das forças
protestantes, na América Latina, definíssemos com
clareza a nossa atitude diante da Igreja Romana,
ocupadora do campo, declarando lealmente os nossos
nobres intuitos. Era uma sucinta declaração de
princípios, que procurava remover do espírito latino
qualquer suspeita sobre os intentos e métodos do
Protestantismo.
Em Panamá, como no Rio de Janeiro, recebeu esse
documento plena aprovação dos elementos radicais, e
apenas sofreu, lá como aqui, uma certa oposição, como
inoportuno e precipitado, por parte de certos elementos
moderados, que receavam o amargo espírito de
controvérsia.
Duas correntes opostas se vão discriminando, na
propaganda do Evangelho na América Latina, que
obedecem, parece, ao influxo das duas raças. Uma latina,
viva, impulsiva, veemente, irônica, mordaz, que zurze o
adversário com o látego implacável de uma linguagem
acrimoniosa e rude; a outra fria, tolerante, inofensiva,
tímida, infensa à polêmica, que se filia, pela índole, ao
saxonismo individualista e pacato.
O documento apresentado procurava traçar a linha
média entre os dois extremos: levava para o erro a
vivacidade intolerante latina; e para os erroristas a
brandura tolerante saxónica. É esta a orientação, que
obedece à índole do Cristianismo, e que poderá fazer
com que a propaganda protestante na América Latina,
fugindo de Cila, não sucumba em Caribdes.
“Em todas as nossas discussões com a Igreja
Romana, pondera sensatamente The Cristian Advocate,
não devemos perder de vista a discriminação entre
Roma como um sistema, uma organização político
271
religiosa, manipulada por astutos cardeais e bispos, e a
Igreja Católica como uma reunião de pessoas, muitas
das quais são puramente religiosas e sinceras e todas
(pelo menos grande número) praticamente inocentes
da chicana, da política, e, às vezes, até vítimas de
perseguição por parte dos leaders da Igreja.
Tais ponderações do órgão metodista
recomendam-se ao sentimento de justiça e caridade e ao
bom senso universal.
Teve o Congresso o grande prazer de ouvir, em uma
das suas sessões, a palavra autorizada de simpática
saudação do Dr. José Carlos Rodrigues, ex-redator e ex-
proprietário do Jornal do Comércio do Rio de Janeiro.
O eminente brasileiro, que por largos anos exerceu
profunda e benéfica influência nos círculos intelectuais
e políticos do nosso país, manifestou-se ardoroso crente
na palavra de Deus, e recomendou, com a força que lhe
dava a própria experiência, a divulgação da Bíblia e de
seus passos admiráveis. Contou-nos o vivo interesse
que de toda a parte acolhia seus artigos sobre a vida e a
morte de nosso Senhor Jesus Cristo, e revelou-nos que,
em nossa sociedade, muitos homens intelectuais e
sinceramente religiosos, mais do que podíamos supor,
liam a Bíblia com reverência. Deu-nos ainda a grata
notícia de que ele tinha entre mãos um estudo largo
sobre a Bíblia e seus livros, que breve publicaria.
Figurou o Brasil em Panamá com 500 igrejas
organizadas, 3284 templos, 185 ministros nacionais,
47.000 membros comungantes, 289 missionários,
sendo 92 ministros ordenados. Trabalham no Brasil 12
sociedades missionárias estrangeiras.
Votadas as conclusões e recomendações, encerrou-
se o Congresso regional do Rio de Janeiro.
272
Despedindo-se a delegação norte-americana de
Panamá, residida pelo venerando e amável Dr. Holsey,
um dos delegados brasileiros, em nome de seus
patrícios, exprimindo a sua profunda gratidão pelo
esforço desinteressado de seus irmãos do Norte, espera
que a “união e cooperação”, nota simpática e fecunda do
movimento de Panamá, tivessem plena realização na
propaganda no Brasil.
Eis aí o Protestantismo em ação. No campo de
atividade melhor lhe podemos surpreender a índole.
Transportado pelos Puritanos para o Novo Mundo
em 1620 e 1630, aí medrou, e, em três séculos, modelou
o povo admirável, que ao nome de Washington, que
salvou a independência da América, reuniu o de Wilson,
que salvou a Independência do mundo.
Cinzelou ele o caráter viril da jovem nação
saxônica. Livre dos entraves europeus, o gênio do
Protestantismo, em rápido surto, transformou os
humildes fugitivos da intolerância fratricida do velho
continente em uma potência de primeira grandeza na
escala das nações mundiais.
O espírito que domina a sua organização religiosa,
é, segundo Tocqueville, o baluarte de suas instituições
democráticas, a fonte de sua grandeza, prestígio e força.
O espírito prático da raça tem desenvolvido
espantosa energia nas empresas missionárias, nas
obras de beneficência, sociabilidade, educação e bem-
estar da humanidade.
Há, como se viu em Panamá, uma sincera e
entusiástica consagração à divina pessoa de Jesus Cristo
e um ardente desejo de servir aos nobres ideais da
caridade cristã.

273
Se a religião, porém, agiu sobre a raça, sublimando-
a, reage a raça sobre a religião, tolhendo, por vezes, o
voo idealista do gênio cristão.
Embora fortalecido e santificado, o individualismo
étnico tende a ultrapassar os marcos sagrados, sob o
impulso autoritário e empírico, que não raro trava as
rodas do carro missionário.

274
O ROMANISMO

275
O Romanismo

Estudemos o Romanismo mais de perto.


É ele, como já mostramos, uma mistura, à larga, de
princípios, práticas e superstições pagãs com as
doutrinas e ritos do Cristianismo. Alterou
completamente a massa do catolicismo ocidental o
fermento pagão.
Não passa, pois, o Romanismo de um Cristianismo
corrompido por elementos corrosivos e pompas
sensuais do gentilismo.
Vimo-lo emergir, a pouco e pouco, das multidões
pagãs, que, desde o século de Constantino, vieram, na
pia batismal, selar um pacto nefando entre a Igreja e o
Mundo.
Ao tratarmos do sincretismo católico romano,
teremos oportunidade de especificar os acréscimos
romanistas ao credo cristão, aliás já assinalados no
rápido esboço das causas determinantes da Reforma.
Em Roma é que se firmou o pacto, em Roma é que
se forjou o neopaganismo, que traria encerrada a Igreja
no longo cativeiro da nova Babilônia, até que, no séc.
XVI, volvesse à liberdade.
Foi o Papado o autor desse crime histórico; ao
Papado, pois, volvamos agora especial atenção.
Passemos primeiro em revista os seus títulos,
examinando-os à luz do Novo Testamento, dos pais
apostólicos e pós-apostólicos; pesquisemos em seguida
suas origens: rastreemos suas pegadas, e assinalemos a
sua evolução, até a infalibilidade proclamada pelo
concílio do Vaticano. Encerraremos esta parte
276
denunciando o credo incongruente, fruto singular do
híbrido conúbio da Igreja com o Paganismo.

O Papado e o Primado de S. Pedro

Três textos e uma cadeia

Vigário119 de Cristo é o título de que se ufana o


papa, avocando, entre os homens, o prestígio e a
autoridade do eterno Filho de Deus.
“O papa é Jesus Cristo na terra” — afirma-o
eminente prelado católico, Monsenhor de Ségur. “E
Deus na terra”, declarou-nos um padre em discussão
pública.
O Papado é, portanto, no sentir da ortodoxia
católica, a teocracia de um “procurador inamovível” da
Divindade; a monarquia absoluta universal do vice-
Deus romano; a ditadura incontrastável do rector orbis,
que estende seu domínio não só sobre os corpos, senão
também sobre as almas dos homens. Para castigar estas
e punir aqueles, coruscam em suas mãos infalíveis dois
gládios ameaçadores — o gládio espiritual e o temporal.
Declara-o Bonifácio VIII.
Cingindo em sua fronte inerrante a tríplice coroa da
realeza papal no Céu, na terra e no inferno, descreve o
mesmo papa, nos seguintes termos, a sublimidade de
sua ditadura teocrática: “Tão grande é a dignidade do
papa e tão excelente, que ele não é mero homem, porém
um como Deus e o vigário de Deus (non simplex homo,
sed quasi Deus et Dei vicarius). Só o papa chama-se
santíssimo... O papa é de tão alta dignidade e poder,
119
Vicarius, o que faz às vezes de outro, substituto. (S. Saraiva).

277
que ele constitui com Cristo um e o mesmo tribunal
(faciat unum et idem tribunal cum Christo), de sorte que
tudo quanto o papa faz parece proceder da boca de Deus
(ab ore Dei)... O papa é como Deus na terra (papa est
quasi Deus in terra).120
Por mais incríveis que se nos afigurem o arrojo
dessas pretensões, elas se acham todavia em pleno
vigor. Confirmadas pelo Concílio do Vaticano que, em
1870, decretou a infalibilidade papal, estão elas ainda
abrigadas pelo 23º artigo do Sílabo, quo fere de anátema
quem disser terem papas exorbitado.121
Elas, entretanto, implicam a abdicação de Cristo, a
alienação de suas divinas prerrogativas, a negação de
seu Pontificado pessoal, a rejeição de sua mediação
direta, a incrível anulação de sua Pessoa no seio da
cristandade.
Monstruoso crime de lesa-majestade divina serão
essas inauditas pretensões, se, em apoio delas, não
forem apresentados documentos autorizados, formais,
irrecusáveis.
Onde estão esses documentos? Qual a origem e o
divino fundamento da teocracia papal?
Os documentos autorizados afirmam eles estarem
nas páginas inspiradas do Novo Testamento; a origem e
o fundamento dizem encontrarem-se no primado oficial
de S. Pedro.
Cristo — ensinam os defensores do Papado —
nomeou S. Pedro chefe dos Apóstolos, primaz de seus
colegas, superior hierárquico da ordem clerical, papa da

120
Romanism and the Reformation, by H. G. Guinness, F.R.G.S., pg. 25.
121
Romani Pontífices et Concilia Ocumenica a limitibus suoe potestatis recesserunt, jura principum
usurparunt, atque etiam in rebus lidei et morum deliniendis errarunt.
Quem isto afirmar, seja anátema! (Sílabo, 23).

278
cristandade. S. Pedro morrendo, transmitiu estas suas
altas prerrogativas aos bispos de Roma.
Mas, onde estão em o Novo Testamento os títulos
dessa nomeação e dessa transmissão hereditária?
A importância do Papado e o arrojo de suas
pretensões reclamam títulos claros, incontestáveis,
tanto de nomeação, como de transmissão original.
Onde estão eles?
O Pe. Bergier, em seu Diction. Theol., tom. III, pág.
579, cita três passos do Novo Testamento, como a base
do direito divino e original do Papado.
O Revmo Sr. Conego Ezequias Galvão da Fontoura,
em suas Liç. de Dir. Ec., vol. I, pág. 118, apresenta os
mesmos lugares, como a fonte sagrada da hierarquia
suprema do bispo de Roma.
Ei-los em seguida os três títulos divinos da criação
do Papado:
1º — S. MATEUS 16:18-19:
“Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre, esta
pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não
prevalecerão contra ela.
“E eu te darei as chaves do Reino dos Céus. E tudo o
que ligares sobre a terra, será ligado também nos Céus: e
tudo o que desatares sobre a terra, será desatado também
nos Céus.”
2º— S. LUCAS 12:31-32:
“Disse mais o Senhor: Simão, Simão, eisaí vos pediu
Satanás com instância, para vos joeirar como trigo: mas
eu roguei por ti, para que tua fé não falte: e tu enfim
depois de convertido, conforta a teus irmãos.”
3º— S. JOAO 21:15-17:
“Tendo eles pois jantado, perguntou Jesus a Simão
Pedro: Simão, filho de João, tu amas-me mais de que estes?
279
Ele lhe respondeu: Sim, Senhor, tu sabes que eu te amo.
Disse-lhe Jesus: Apascenta os meus cordeiros.”
Três vezes lhe dirige o Senhor a pergunta e três
vezes lhe ordena de apascentar os cordeiros e as ovelhas
do seu rebanho.
Por mais que rebuscassem, não encontraram os
imaginosos teólogos ultramontanos outra origem
divina do Papado, senão esses três passos célebres do
Novo Testamento.
Deixando para mais tarde o exame da divina
instituição do pontificado romano, aplainemos agora o
caminho com algumas considerações preliminares.
1ª Antes de mais nada, convém observar que não
contestam os protestantes o primado moral de S. Pedro,
mas o primado de jurisdição ou supremacia oficial.
Sendo o apóstolo mais antigo e de um
temperamento arrojado, era ele no colégio apostólico o
primus inter pares.
Em todas as assembleias, há homens que exercem
sobre os outros certa preeminência moral, já pelos seus
talentos, já pela sua idade ou posição social. Os leaders
das câmaras deliberativas, os deputados, que se
impõem pelo seu caráter e influência, exercem
espontaneamente um certo primado moral, sem que isto
lhes dê direito a um primado jurisdicional, a uma
supremacia hierárquica sobre seus colegas. Há, pois, um
abismo entre o primado moral ou de honra e o primado
de jurisdição ou supremacia hierárquica.
Não negamos o primado moral de Pedro, mais
tarde ofuscado pela primazia de Paulo; porém é claro
como a luz do dia, para os que leem o Novo Testamento,
que Pedro não exerceu nenhuma autoridade
jurisdicional sobre seus colegas.
280
2ª Das três passagens acima catadas, a primeira, a
de S. Mateus, é realmente a única importante. As de S.
Lucas e S. João são apenas subsidiárias; são meros
reforços à interpretação ultramontana do — Tu és
Pedro.
À própria imaginação vivíssima do cardeal
Balarmino não leria ocorrido arvorar em título de
nomeação ao Papado ama simples recomendação feita a
Pedro, em Lucas, de confortar a seus irmãos, e, em João,
de apascentar as ovelhas e os cordeiros de Cristo.
O eminente arcebispo de S. Luís, Kenrick, no seio do
próprio concílio do Vaticano, mostrou que nenhum
apoio tem o Papado nesses dois passos. Em Lucas,
explica ele, Cristo anuncia apenas a queda de S. Pedro,
que naquela noite o negaria três vezes, como aliás é
evidente do v. 34: promete orar por ele: para que não
lhe falte DE TODO a sua fé, como faltou a Judas caindo
no desespero, e recomenda-lhe que conforte a seus
irmãos com a experiência da graça, que o ergueria em
virtude da valiosa intercessão dele, Cristo.
Em João, a tríplice recomendação de apascentar as
ovelhas e os cordeiros do rebanho, corresponde à tríplice
negação, foi apenas a restauração solene de Pedro ao
apostolado, de que decaíra. O ilustre arcebispo firma a
sua interpretação, que é a nossa, nas seguintes palavras
de S. Agostinho: “A tríplice confissão corresponde à
tríplice negação”.122
Conseguintemente, os dois textos subsidiários de
Lucas e João não oferecem nenhum subsidio real à
criação e transmissão do Papado.Os títulos divinos, as
credenciais do Papado, perante a consciência de

122
An inside view of the Vatican Council, págs. 115, 116.

281
católicos esclarecidos, só se acham afinal na famosa
passagem de S. Mateus 16:18-19. Nela, pois,
concentraremos este nosso estudo.
De fato, o Tu es Petrus et super hanc petram é o
grande texto do papismo, a clava vibrada a cada
momento contra mil cabeças dos que impugnam a
autoridade do papa.
Esse texto é, em última análise, a única fonte
primitiva donde dimana o poder papal. Estancada ela, o
Papado torna-se na história o leito seco de um rio
cavado pela aluvião turva da ambição, do orgulho, da
ignorância, da apatia religiosa e do fanatismo. Ora, à
priori, antes de discutirmos o assunto, é
improbabilíssimo que um poder tão elevado, tão
intimamente ligado à existência da Igreja, tenha,
entretanto, por fundamento isolado uma declaração
única de J. Cristo! Isto já nos faz perceber a fraqueza
original dos defensores do pontificado romano.
3ª Mais: essa declaração única, esse incidente
isolado da vida de Cristo, é apenas narrado por S.
Mateus. Dos quatro evangelistas, só ele se lembrou de
registrá-lo.
Esses quatro biógrafos sagrados de J. Cristo
referem, em geral, os fatos importantes da vida do
Mestre. Entretanto — coisa admirável — o grande fato
da instituição do Papado só é referido por um dos
historiadores sagrados! Os outros esqueceram-se de
mencionar a nomeação do Vigário de Cristo, do
representante infalível de Deus, do soberano Senhor da
cristandade e do mundo!
Fatal esquecimento para a interpretação romana do
texto de S. Mateus!

282
Porém, este silêncio dos três evangelistas é
sobremodo agravado pelo silêncio de todo o N.
Testamento sobre tão relevante assunto.
O texto de S. Mateus, única credencial apresentada
pelo Papado no Livro de Deus, acha-se em cerrado
bloqueio de silêncio altamente significativo.
Hão de convir em que é intuitivamente contestável
um título de tão fundamental importância que, em
última análise, só tem em seu favor uma única
declaração de Cristo, registrada por um único
evangelista e bloqueada pelo silêncio universal das
Escrituras Sagradas.
4ª Mais aflitiva se torna a situação dos doutores
papais em referência a esse insulado texto, quando
consideramos seu caráter altamente figurado ou
tropológico.
O ilustre jesuíta J. Perrone, em seu compêndio de
teologia, declara que o supremo poder de Vigário de
Cristo na Igreja visível foi dado a Pedro — sub gemina
fundamenti et clavium metaphora, isto é, sob a dupla
metáfora de fundamento e de chaves.
Ora, é princípio comezinho de hermenêutica e do
bom senso que textos figurados, linguagem metafórica,
expressões tropológicas, suscetíveis de interpretações
várias não podem servir de títulos válidos de nomeação
para cargo nenhum, muito menos para o cargo de um
tremendo domínio universal.
Em resumo, uma passagem única, isolada,
metafórica do Novo Testamento é a credencial divina
que o Papado apresenta à consciência cristã da
humanidade, como o fundamento original de seus
direitos!

283
Esta circunstância faz-nos pressentir a suprema
fraqueza de suas grandiosas pretensões, e suspeitar da
validade do título.
5ª Finalmente, embora título tão duvidoso fosse
aceito, ainda necessário seria provar três coisas para
que ele pudesse aproveitar às atuais pretensões do
Papado: seria necessário provar a) que, sendo Pedro a
pedra e o dono das chaves, era, por isso, chefe dos
Apóstolos; b) que na cidade de Roma, não em Jerusalém
ou Antioquia, estabeleceu ele a sede de seu governo; c)
que aos bispos de Roma instituiu ele seus herdeiros.
Quatro são, de fato, os elos da corrente que deve
prender a metafórica barca de S. Pedro ao cais de uma
instituição divina. São eles os seguintes:
1º Pedro é a pedra fundamental de que trata o texto
de S. Mateus, 16:13-19, e o senhor exclusivo das chaves
do Reino dos Céus.
2º Pedro foi o superior hierárquico dos Apóstolos.
3º Pedro estabeleceu em Roma a sede de seu
Episcopado e a catedral de sua soberania universal.
4º Pedro instituiu os bispos de Roma seus
herdeiros.
Um só desses elos falhos exporá a célebre barca,
sem leme, aos vagalhões inclementes da crítica
histórica. Encerram os dois primeiros elos a grande
herança de S. Pedro, que dizem contida no famoso texto
de S. Mateus, e os dois outros as condições
indispensáveis de sua transmissão aos pretensos
herdeiros. Examinemos nos elos sucessivos o metal da
corrente.

284
O Papado e a Primazia de S. Pedro

O Primeiro elo

“E veio Jesus para as partes de Cesaréia de


Felipe: e fez a seus discípulos esta pergunta,
dizendo: Quem dizem os homens que é o Filho
do Homem? E eles responderam: Uns dizem
que João Batista, outros que Elias, e outros que
Jeremias, ou alguns dos Profetas. — Disse-lhes
Jesus: E vós quem dizeis que sou eu?
Respondendo Simão Pedro, disse: Tu és o
Cristo, Filho do Deus vivo. — E respondendo
Jesus, lhe disse: Bem-aventurado és Simão
filho de João: porque não foi í. carne e sangue
quem te revelou, mas sim meu parque está nos
Céus. Também eu te digo que tu és Pedro, e
sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as
portas do inferno não prevalecerão contra ela.
— E eu te darei as chaves do Reino dos Céus. E
tudo o que ligares sobre a terra, será ligado
também nos Céus, e tudo o que desatares
sobre a terra, será desatado também nos
Céus”.
Mateus 21:13-19.

Encaremos esse célebre texto de S. Mateus.


É ele, em última análise, o único texto inspirado em
que o Papado procura seu ponto de apoio na Palavra de
Deus. E pelo menos a cidadela central, o baluarte mais

285
importante, a trincheira proclamada inexpugnável das
usurpações papais.
Toda a dificuldade, se dificuldade pode haver na
compreensão deste texto, consiste na interpretação das
duas metáforas, mencionadas pelo jesuíta Perrone —
pedra e chaves. Quem é a pedra? e que são as chaves?
Elucidemos sucessivamente as duas metáforas.
Ao terminar seu célebre discurso da Montanha,
fala-nos Cristo de duas casas: uma “edificada sobre
rocha” (supra petran), e a outra sobre areia. Aquela
resiste à chuva, aos rios transbordados, aos ventos rijos;
esta é arrastada ao desencadear destes elementos
(Mateus 7:24-27).
A Igreja que “Cristo, Filho de Deus vivo”, ia edificar,
é chamada na Escritura “Casa de Deus vivo, coluna e
firmamento da verdade” (1 Timóteo 3:15). A “pedra”,
pois, do texto é a rocha ampla e firme sobre que assenta
a “Casa de Deus”, que deve, através dos séculos, resistir
aos vendavais destruidores, que no pó precipitam todos
os artefatos humanos.
A pedra da Igreja representa, portanto,
metaforicamente aquele poder incontrastável que, em
todo o tempo, tem sido o seu sustentáculo.
Esse poder é a pessoa divina de Cristo, confessada
por Pedro; declara, porém, Roma que é a humana pessoa
de Pedro rediviva nos seus sucessores.
Vejamo-lo.
De caminho com o Apóstolos, interpela-os Jesus:
“Quem dizeis vós que sou eu?” “Tu és o Cristo, Pilho do
Deus vivo” responde Pedro, tomando a dianteira a seus
colegas é confessando a divindade e o caráter
messiânico do Filho do homem. — Bem-aventurado és,
Simão Barjona, porque foi meu Pai quem te revelou este
286
grande mistério, objeto constante das visõ5es dos
Profetas. Eu também confesso o teu nome: tu és Pedro,
e sobre esta rocha (Mateus 7:24), que acabaste de
assinalar na confissão que meu Pai pôs em teus lábios, e
de que tens a honra de ser um fragmento (petrus),
edificarei minha Igreja, que assim firmada, prevalecerá
contra todas potências destruidores da morte (hades).
A confissão de Pedro, reconhecendo Jesus como o
divino Messias dos Profetas, o Cristo de Deus, é
incontestavelmente a “pedra” fundamental sobre que se
apoia a fé e a esperança de todos os filhos de Deus, cuja
totalidade constitui a Igreja. A verdade dessa exegese
ressalta nítida a) do confronto dos textos paralelos, b)
da tropologia profética e c) das leis da gramática e da
linguagem.
1. Confrontemos os textos sobre a “pedra”; porém
antes notemos o fato providencial de que é exatamente
S. Pedro o encarregado de tirar toda a dúvida sobre o
uso metafórico dessa palavra. Ele o faz em um discurso
perante o Sinédrio e em sua primeira epístola.
Dois anos seriam apenas passados depois de
proferidas as palavras, que têm sido o cavalo de Tróia
do Papado. Pouco havia, ocorreram em Jerusalém as
cenas da Paixão, em que Cristo fora rejeitado e
crucificado pela nação judaica. Pedro pregava nas
praças da cidade deicida. É preso, e, perante as altas
dignidades, declara, falando de Cristo:
“Esta é a pedra, reprovada por vós, arquitetos, que
foi posta pela primeira fundamental do ângulo, e não há
salvação em nenhum outro, porque do céu abaixo
nenhum outro nome foi dado aos homens pelo qual nós
devamos ser salvos”. (Atos 4:11-12).

287
Temos nesta declaração a interpretação
autorizada, de que a pedra rejeitada, pelos arquitetos
judaicos foi, entretanto, lançada por Deus como pedra
do ângulo, que sustenta todo o peso do novo edifício.
Cita o Apóstolo o Salmo 118:22-23, que diz: “A
pedra que desprezaram os edificadores, esta foi posta
por cabeça do ângulo. Pelo Senhor foi feito isto, e é coisa
admirável nos nossos olhos”.
Não se satisfaz S. Pedro em citar a profecia
messiânica do Salmista, mas, referindo-se ao profeta
Isaías, escreve em sua lª Epístola, cap. 2:4-6: “Chegai-vos
para ele (Cristo), como para a pedra viva, que os homens
tinham sim, rejeitado, mas que Deus escolheu e honrou.
Também sobre ela vós mesmos, como pedras vivas, sede
edificados em casa espiritual em sacerdócio santo, para
oferecer sacrifícios espirituais que sejam aceitos a Deus
por Jesus Cristo. Por cuja causa se acha na Escritura
(Isaías 28:16: “Eis aí ponho eu em Sião a principal pedra
do ângulo, escolhida, preciosa; e o que crê nela não será
confundido. Ela é, pois, honra para vós que credes; mas
para os incrédulos, a pedra que os edificadores
rejeitaram, esta foi posta por cabeça do ângulo” (Isaías
8:14-15).
Não podia ser o Apóstolo mais explícito em
justificar a interpretação protestante do famoso texto
de S. Mateus, e arredar a interpretação papista.
Antes de Pedro, já o Senhor tinha citado e aplicado
a si essa figura messiânica, em que se compraziam os
videntes do A.T.: “Nunca lestes, pergunta o Senhor aos
doutores judaicos, nunca lestes nas Escrituras: a pedra
que foi rejeitada pelos que edificavam, essa foi posta por
cabeça do ângulo? Pelo Senhor foi feito isto e é coisa
maravilhosa nos nossos olhos”. (Mateus 21:42).
288
Traz ainda S. Paulo valioso subsídio à interpretação
dessa “pedra misteriosa” das visões proféticas. Falando
da “pedra” do deserto, que jorrava água ao ser ferida
pela vara de Moisés, escreve este Apóstolo aos coríntios:
“Todos beberam de uma mesma bebida, espiritual
(porque todos bebiam da pedra misteriosa, que os
seguia; e esta pedra era Cristo” (1 Coríntios 10:4).
Diante destas citações, como podiam deixar de
estar presentes ao espírito do Senhor Jesus essas
profecias, quando declarou aos Apóstolos — “sobre esta
pedra edificarei a minha Igreja?”
São elas evidentemente a chave interpretativa da
solene declaração de Cristo, e, só na ignorância da idade
média, e perante quem não abre a Bíblia, pode a Igreja
de Roma pretender que S. Pedro seja a “pedra”!
Se necessário fora corroborar ainda a interpretação
que os evangélicos dão à pedra da Igreja, poderíamos
aduzir o que escreve S. Paulo aos coríntios e aos efésios.
Segundo a graça de Deus, que me foi dada, lancei o
fundamento como sábio arquiteto... veja cada um como
edifica sobre ele. Porque ninguém pode pôr outro
fundamento, senão o que foi posto, que é Jesus Cristo”.
(1 Coríntios 3:10-11).
E aos efésios escreve:
Vós sois (os fiéis)... edificados sobre o fundamento
dos Apóstolos e dos Profetas, sendo o mesmo Jesus
Cristo a principal pedra angular”. (Efésios 2:19-22).
E não se refuja à clareza destes textos, dizendo-se
que Cristo é a pedra primária e Pedro a secundária; pois,
neste caso, os outros Apóstolos e os Profetas são
chamados englobadamente “fundamento”, são do
mesmo modo pedras secundárias, e, assim sendo, lá se

289
vai o primado de S. Pedro, e, com ele, as pretensões
papais!
O confronto dos textos paralelos derrama, pois
vivíssima luz sobre o famoso texto, e varre, por
completo, toda a dúvida que possa incutir a autoridade
de uma tradição forjada nas trevas de tempos de
barbaria, onde apenas lampejava, a espaços, a luz furtiva
da verdade divina!
2. Os passos do A.T., que acabamos de citar em
abono, têm valor literário, que não é de somenos
importância no estudo do assunto, que nos ocupa.
Os aspectos da natureza e a história do povo
forneciam à tropologia hebraica imagens prediletas de
especial beleza.
As rochas altaneiras que ouriçavam os cimos do
Horeh e os píncaros do Sinai, afrontando impassíveis
com os furacões do deserto; as fragosas penedias,
inabaláveis contrafortes das montanhas, de cujo seio
manavam frias águas cristalinas; os empinados
penhascos, que emergiam de medãos de areia,
projetando fresca sombra sobre o cansado beduíno nos
ardores do verão, despertavam a imaginação poética
dos cantores de Israel, sugerindo-lhes expressivas
metáforas da eterna firmeza do infinito poder,
fidelidade e doçura de Jeová. Opulenta-se a literatura
hebraica com belos tropos, que ressaltam da formação
plutônica do terreno, e pena é que nem sempre o nosso
Pe. Antônio Pereira de Figueiredo tenha conservado as
formosas imagens do original. Além das já mencionadas,
é comum encontraremse figuradas expressões como
estas: “O Senhor é o meu rochedo e o meu esforço é o
meu Salvador!” “Que Deus há senão o Senhor? e que
rocha senão o nosso Deus?”
290
Tais figuras, porém, aplicam-se uniformemente a
Deus e a suas obras poderosas, e nenhum judeu,
conhecedor de sua literatura, se lembraria de aplicar a
expressão “pedra” ou “rocha” dag palavras de Cristo a
um homem, embora fôsse ele apóstolo ou profeta.
Viria isto corroborar, se preciso fôsse, a aplicação
que dessa expressão consagrada da poesia hebraica,
fazem Cristo S. Pedro e S. Paulo.
3. Longe de rebelar-se a sintaxe contra essa
interpretação diretamente patrocinada pelo próprio S.
Pedro, tem ela a seu favor a própria crítica gramatical e
as leis fundamentais da linguagem como órgão do
pensamento.
Sobre a gramática, basta apenas dizer que em —
“Tu és Pedro e sobre esta pedra eu edificarei a minha
Igreja” — esta, demonstrativo da primeira pessoa vai
melhor com Cristo, que falava, do que com Pedro, com
quem ele falava. Ora a 1ª pess. gramatical é, no texto,
logicamente idêntico com a 3ª, isto é, com a coisa de que
se falava, que não podia deixar de ser a confissão de
Pedro — “Cristo, Filho de Deus Vivo”. Assim,
independentemente do “gesto no espaço elucidativo do
pensamento”, de que nos fala Bréal, inerente à índole
dramática da palavra, o adjetivo pronominal esta
melhor se acomoda com Cristo do que com Pedro.
Quanto às leis da linguagem, observaremos apenas
que a diferença genérica significativa existente entre
petros e petra mostra que Cristo estabelece um
contraste entre esses dois têrmos. “Tu és Pedro e sobre
esta pedra” — não encerra um mero trocadilho ou jogo
de palavras, mas um recurso poderoso de linguagem,
para indicar com ênfase ou salientar pelo contraste o
fundamento da Igreja. Petros é masculino, e significa um
291
fragmento de rocha, uma pedra de pequenas
dimensões; petra é feminino, e significa uma pedra de
maiores dimensões, uma rocha.123
A interpretação papal, fazendo de Pedro, a pedra,
identificando petros com petra, amesquinha a
linguagem elevada, de Cristo, reduzindo-a a mero
trocadilho, destrói a beleza a energia do contraste entre
os dois termos, e despreza, sem motivo lógico, a
diferença de gênero e de significação, que existe entre
as duas palavras originais.
Respeitando a conexão lógica e o valor gramatical
dos termos, a elevação da linguagem e a grandeza do
pensamento, bem como a tropologia profética e as
declarações peremptórias de S. Pedro, S. Paulo e do
próprio Cristo, afirma a Igreja Evangélica, com a maioria
dos “santos padres” que não a pessoa de Pedro, mas a
pessoa teantrópica de Cristo, exalçada na “confissão de
fé”, que nos lábios do Apóstolo imprimira o Espírito do
Senhor, “o Cristo, Filho de Deus vivo”, é pedra, a rocha,
o amplo fundamento indefectível da Igreja.
A distinção que se costuma fazer entre a “confissão
de Pedro” e a “pessoa de Cristo”, no texto estudado, é
meramente gramatical e não tem valor lógico. A
dualidade verbal funde-se forçosamente numa unidade
real.
Considerar, como fazem muitos doutores antigos e
certos comentadores protestantes, a fé de S. Pedro tipo
da fé do povo de Deus, como a pedra da Igreja, é diferir
apenas aparência da interpretação acima; pois o mesmo
é dizer Cristo e a fé em Cristo. É evidente que as duas
123
— Sobre o valor significativo dos termos gregos petros e petra, dado no texto, temos a opinião
abalizada dó seguinte léxicon:
Petros — a stone, piece of stone, fragment of a rock.
Petra — a rock, large stone; a mass of stone. A Greek and English Dictionary, by the Rev. John Groves.

292
expressões interpretativas são dois aspectos de uma
verdade fundamental: um, o aspecto objetivo, o outro, o
aspecto subjetivo.
A verdade objetiva — “Cristo, Filho de Deus vivo”,
Deus e homem verdadeiro, Salvador do mundo pelo
sacrifício de sua cruz, subjetivamente apropriada pela fé
sincera de cada membro da família de Deus, é o que
constitui a Igreja, e lhe dá eterna firmeza de “uma casa
construída sobre a rocha” (Mateus 7:24), contra a qual
não prevalecerão as “portas ou poder de hades”, região
dos mortos. A morte, que tudo aniquila, Satanás, o gênio
do mal, jamais poderão eliminá-la da face da terra. A
Igreia não é infalível, mas é imperecível.
Launoy, Du Pin, Calmet, autores católicos romanos,
encontram entre os doutores antigos quatro classes de
interpretação sobre pedra; todas, porém, em última
análise, reduzem-se a duas — a pessoa de Cristo e a
pessoa de Pedro: Interpretação protestante ou a
interpretação romana.
Reconhece o Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, em
nota que insere ao capítulo 16, verso 18, de S. Mateus,
que a interpretação seguida pela Igreja Evangélica é a do
grande S. Agostinho e de muitíssimos outros doutores
antigos. Eis as suas palavras, que vem no fim do Ev. de S.
Mateus, na edição de Lisboa:
“Santo Agostinho no Tratado 115 sobre S. João
entende por esta pedra não a Pedro, mas a Cristo, em
quanto confessado Deus por Pedro, como se Cristo
dissera: Tu és Pedro, denominado assim da pedra, que
confessaste, que sou eu, sobre a qual edificarei a minha
Igreja: Ecclesia fundata est super petran, unde Petrus
nomen accepit... Ideo quippe ait Dominus: super hanc
Petran œdificabo Ecclesiam meam; quia dixerat Petrus:
293
Tu es Christus Filius Dei vivi. Super hanc ergo, inquit,
petran, quam confessus es, œdificabo Ecclesiam meam.
Pelas mesmas palavras de Santo Agostinho expôs o
nosso Santo Isidoro de Sevilha este lugar no Liv. VII das
Origens, Cap. IX. E é uma intepretação comuníssima dos
outros Padres, quer anteriores, quer posteriores a Santo
Agostinho. Veja-se o meu Apêndice da Tentativa
Teológica, pág. 240 e seg.”
De alta relevância é esta confissão leal do Pe
Antônio Pereira de Figueiredo, abalizado tradutor da
Vulgata, que mostra o fundamento de areia em que
assenta o artefato colossal do Papado.
Indaguemos agora o sentido da expressão —
chaves do Reino do Céu.
“E eu te darei, acrescenta o Senhor a Pedro, as
chaves do Reino dos Céus. E tudo o que ligares sobre a
terra, será ligado também nos Céus; e tudo o que
desatares sobre a terra será desatado também nos
Céus.”
Ora, não é mistério para ninguém, que toda chave
serve para abrir e fechar. “As chaves do Reino dos Céus”
servem naturalmente para abrir e fechar o Reino dos
Céus.
Que é o Reino dos Céus, no texto? É, todos
concordam, a Igreja, que ia ser edificada sobre a rocha
dos séculos. A Igreja de Jesus Cristo é chamada por S.
Paulo: “Casa de Deus vivo, coluna e firmamento da
verdade” (1 Timóteo 3:15); é também comparada com
uma cidade, a cidade de Deus, do grande Rei, a Nova
Jerusalém (Gálatas 4:26, Apocalipse 21:9).
As cidades antigas, cercadas de muros, tinham,
como as casas, portas que se fechavam de noite e se
abrim de dia.
294
Esse uso das chaves de abrir e fechar é
significativamente: expresso no texto, por ligar e
desligar ou desatar.
As chaves, que abrem e fecham a Casa de Deus,
ligam os homens à Igreja, ou delas os desligam, são as
leis do Evangelho, as condições da salvação aceitas ou
rejeitadas por ele. A proclamação do Evangelho, dos
têrmos propostos para a salvação eterna dos pecadores,
foi primeiro confiada a S. Pedro.
Tendo sido ele o primeiro a proclamar esse
Evangelho na pessoa de “Cristo, Filho de Deus vivo”,
perante seus condiscípulos, teria a honra ainda de
primeiro proclamá-lo perante os judeus e depois
perante os gentios. E assim sucedeu. Na festa de
Pentecoste, celebrada cinqüenta dias após a morte de
Cristo, foi Pedro o primeiro a pregar o Evangelho aos
judeus, abrindo, com a chave da Palavra de Deus, as
portas do Reino dos Céus a três mil jedeus, que se
converteram (Atos 2:14-41), e, mais tarde, foi ele ainda
o primeiro a anunciar aos gentios, reunidos na casa de
Cornélio, centurião romano, em Cesaréia, “a paz por
meio de Jesus Cristo Senhor de todos”, segundo a
“palavra enviada por Deus aos filhos de Israel” (Atos
10), ligando então à Igreja, pelo batismo, a primeira leva
de gentios convertidos.
Nisto apenas consistiu o privilégio de São Pedro no
uso das chaves, porque mais tarde foi esse uso
formalmente concedido aos outros Apostolos no
capítulo dezoito, nos seguintes termos: “Em verdade vos
digo (a todos os discípulos, vid. v. 1) que tudo o que vós
ligardes sobre a terra será ligado também nos Céus; e
tudo o que desatardes sobre a terra será também
desatado nos Céus” (Mateus 18:18).
295
É evidente, diante deste texto, que as chaves não
foram dadas a Pedro, como propriedade exclusiva ou
prerrogativa especial, pois os outros Apóstolos
receberam o poder das chaves nos mesmos termos. Se,
pois, a eles foi dado a mesmo poder de ligar e desligar,
de abrir e fechar as portas do Reino do Céus, é intuitivo
que Pedro só teve a precedência cronológica sobre seu
colegas, e igualmente intuitivo é que essa não podia ele
legar a seus pretensos herdeiros. Logo ruem por terra
as altas pretensões do Papado baseadas na absurda
primazia jurisdicional das chaves.
Desnecessário parece documentarmos a
interpretação que acima demos, de que na mente de
Cristo a metáfora das chaves indicava a autoridade de
exporem os Apóstolos as condições de entrada na Igreja
e de exclusão dela, e, de acordo com elas, receber ou
excluir os homens.
Contudo, essa documentação têmoia no seguinte
passo: “Ai de vós, doutores da lei, exclama Jesus, que
depois de terdes arrogado a chave da ciência nem vós
entrastes, nem deixastes entrar os que vinham para
entrar” (Lucas 11:52).
Em S. Mateus assim se exprime o Salvador: “Ai de
vós, escribas e fariseus hipócritas, que fechais o Reino
dos Céus diante dos homens, pois nem vós entrais, nem
aos que entrariam deixais entrar” (Mateus 23:14).
Do confronto destes textos com as palavras ditas a
Pedro, cóncluise o que já expusemos, isto é, que a chave
é a “ciência” do plano de Deus, e que o seu uso é a
proclamação desse plano aos pecadores, recolhendo-se
no grêmio da Igreja os crentes e penitentes, e excluindo
pela palavra ou pela disciplina os incrédulos e
impenitentes.
296
Existia na autoridade das chaves, dada aos
Apóstolos de necessidade, não só um poder declarativo,
mas também um poder legislativo; pois o plano da
salvação concretizado no Evangelho, os termos ou
condições do perdão, que havia trazido à terra “o Cristo,
Filho de Deus”, deviam destacar-se das instituições
mosaicas, despojar-se dos ritos judaicos, despir-se das
roupagens levíticas, para revelar-se em toda a sua
plenitude e beleza no Cristianismo. Os Apóstolos
receberem nas chaves autoridade para ligar e desligar
na Lei de Moisés.
Mostra Ligthfoot, autoridade acatadíssima na
literatura bíblica, que entre os rabinos “ligar e desligar”
era sinônimo de “proibir e permitir”.
Competia a esses doutores judaicos decidir, pela
“chave da ciência”, que se arrogavam, como disse o
Divino Mestre, o que era lícito e o que era ilícito, segundo
a Lei de Moisés. Jurisperitos na legislação teocrática da
velha dispensação, traziam eles uma chave como
símbolo de sua autoridade profissional de ligar e
desligar, atar ou desatar no Livro da Lei.
Nas palavras, que estudamos, confere o Senhor a
seus Apóstolos, nos próprios têrmos da jurisprudência
de seu tempo, o poder legislativo de estabelecer a Lei da
liberdade sobre os escombros da escravidão legalista do
judaísmo, sendo para isso inspirados. Nos Atos dos
Apóstolos e nas Epístolas exemplificam eles
abundantemente o duplo simbolismo das chaves —
abrir às inteligências os tesouros da Graça, e às almas as
portas do Reino dos Céus.
Pelo poder legislativo completaram e firmaram o
credo cristão, o culto e a disciplina, segregando-se do
judaísmo, e pelo poder declarativo fundaram e firmaram
297
a Igreja, sobre o “único fundamento que foi posto (2
Coríntios 3:11), Jesus Cristo, Filho do Deus vivo”.
Com os Apóstolos completou-se e desapareceu o
poder legislativo. Ao escrever o último capítulo do Novo
Testamento, registra o Discípulo Amado o seguinte
aviso: “Eu protesto a todos os que ouvem as palavras da
profecia deste livro: que se algum lhe ajuntar alguma
coisa, Deus o castigará, com as pragas que estão escritas
neste livro. E se algum tirar qualquer coisa das palavras
do livro desta profecia, tirará Deus a sua parte do livro
da vida, e da cidade santa, e das coisas que estão escritas
neste livro” (Apocalipse 22:18, 19).
O Novo Testamento é suficiente, a Palavra de Deus
é completa.
Mortos os Apóstolos, cumpria à Igreja, na pessoa de
seus ministros e de todos os seus membros, empunhar
“as chaves do Reino dos Céus”, e, no exercício do poder
declarativo, “pregar o Evangelho a toda a criatura, para
que todo o que crer, e for batizado, seja salvo, e o que,
porém não crer seja condenado” (Mateus 16:15, 16. Vid.
Mateus 28:19, 20).
Declara o concílio de Trento (Sessão IV), que o
poder das chaves, de ligar e desligar, prometido a Pedro
(e, aliás, aos outros Apóstolos — Mateus 23:18 —), foi
conferido por Cristo no Evangelho de João 20:22-23, na
noite mesma do dia de sua ressurreição. Jesus aparece
inesperadamente no meio dos Apóstolos e outros
discípulos, e assoprando sobre eles, diz: “Recebei o
Espírito Santo. Aos que vós perdoardes cs pecados, ser-
lhe-são perdoados; e aos que vós os retiverdes, ser-lhe-
são eles retidos”. Em sua Sessão XIV, declara o concílio
tridentino que nestas palavras temos especificado o
poder das chaves. “... para que, diz o Concílio, pelo poder
298
das chaves (pro protestate clavium) pronunciem
sentença de perdão ou retenção dos pecados (cap. V)” ...
“as chaves dos sacerdotes lhes foram concedidas não
somente para desatar, mas também para ligar” (Conc. de
Trento, Tom. I, Sess. XIV, cap. V. e VIII).
A prerrogativa das chaves já não é, segundo o
Concílio, privativa de S. Pedro, mas de todos os bispos e
padres. Portanto, o bispo de Roma, pseudoherdeiro de
S. Pedro, não pode, fundado no donativo das “chaves”,
invocar a seu favor prerrogativa especial de domínio
sobre os outros bispos, nem sobre a Igreja Católica.
Generalizando, como é de justiça, o poder das
chaves, iralhe, entretanto, o Concílio o caráter
declarativo, e imprime-lhe um caráter sacerdotal. Feito
isto, ergue o confissionário, e arma cada representante
do absolutismo papal do poder judicial, de absolver ou
condenar por uma sentença sacramental, de decidir, por
um poder intrínseco ao ofício de sacerdote, da sorte
eterna dos homens!
A tão pavorosa interpretação do texto de S. João
opõe o Protestantismo fundamentados embargos.
1. Em primeiro lugar, não traz esse texto uma
referência direta às “chaves”, pois estas, como vimos,
dizem respeito a doutrinas (o que ligares), e em S. João a
pessoas (aos que perdoardes). Não é, pois, segura a
relação estabelecida pelo Concílio; porém que o fôsse,
não havia razão para tirar ao„ uso das chaves o caráter
meramente declarativo de perdão, de que já tratamos e
que adiante mostraremos.
2. Do confronto de S. Lucas 24:33 e S. João 20:19,
vê-se que estavam reunidos não só os onze Apóstolos,
nessa primeira noite da ressurreição, mas os outros
discípulos, e que o poder de perdoar e reter foi por
299
Cristo coníenuo a todos. É um poder que pertence à
Igreja, a seus ministros especialmente; e a todos os
membros em geral. Não pode, portanto, haver aí a
instituição de um tribunal judicial, nem a criação de uma
casta sacerdotal.
3. Tratando S. João (20:19-22) e São Lucas (24:33-
49) claramente do mesmo acontecimento, é evidente
que S. Lucas deve explicar a S. João e não S. João a S.
Lucas, pela razão suficiente de ser S. Lucas mais simples,
explícito e claro. Ora, S. Lucas assim explana o
pensamento do Senhor, expresso no supracitado texto
de S. João. “Então lhes abriu (Jesus) o entendimento
para alcançarem o sentido das Escrituras, e disse-lhes:
Assim é que estava escrito, e assim é que importava que
o Cristo padecesse, e que ressurgisse dos mortos ao
terceiro dia, e que em seu nome se pregasse penitência
(arrependimento) o remissão de pecados em todas as
nações, começando por Jerusalém (Lucas 24:45-57).
Exprime S. Lucas com clareza o pensamento do
Senhor, e elucida as expressões de S. João. O perdoar e
reter os pecados, segundo João, é, segundo S. Lucas, o
mesmo que pregar o arrependimento de Cristo. É, como
se vê, não o poder legislativo, mas o poder declarativo
das chaves.
A linguagem de João obedece ao gênio das línguas
antigas: é sintética, atribui ao mensageiro a eficácia da
mensagem; a de Lucas é analítica, distingue a.
mensagem do mensageiro, e atribui o perdão dos
pecauos à aceitação, pela fé, da pregação da remissão
deles em nome de Cristo, Filho do Deus vivo”.
O sintetismo de S. João é, como se sabe, o caráter
distintivo entre as línguas clássicas e as línguas
modernas. Estas são o resultado de uma evolução
300
analítica, que acusa o esforço constante do espírito
humano em exprimir, com mais discriminação e clareza,
o pensamento. A linguagem de Lucas manifestamente
obedece a este esforço, e por isso deve ser explanatória
da de João, que revela, na ousadia de sua expressão o
gênio da língua hebraica. De fato, encontramos no A.T.,
de que é o hebreu a língua original, expressões idênticas
às de S. João, que, justificando, as considerações que
acabamos aduzir, vêm, por sua vez, projetar luz sobre o
texto, em que Roma tem baseado o seu tribunal de
penitência. Em Jeremias 2:9, 10 encontramos igual
espécime da ousada síntese do Discípulo Amado. “Eis-aí
te pus, diz o Senhor a Jeremias, na tua boca as minhas
palavras. Eis-aí te constituí eu hoje sobre as gentes,
sobre os reinos, para arrancares e destruíres, e para
arruinares e dissipares, e para edificares e plantares.”
Aqui, como em S. João confundese o mensageiro
com a mensagem, e atribui-se àquele o que pertence a
esta. Quem arranca e destrói, planta e edifica reinos, não
é, por certo, a pessoa do profeta, mas a palavra de Deus
de que era ele portador autorizado. Assim também
quem “perdoa e retém pecados” não são os Apóstolos e
outros discípulos do Senhor, mas a palavra do
Evangelho de Cristo, de que eram eles pregadores. É o
que S. Lucas explica, como mostramos acima.
O poder de perdoar e reter pecados, conferido aos
Apóstolos, e à Igreja em geral, não é, portanto, um poder
sacerdotal, porém ministerial e declarativo; não é ele
inerente ao pregador, mas à pregação; não cria um
tribunal exterior de penitência, mas ergueo no foro
íntimo da consciência. “Ce qui sauve une âme, ce n’est
pas l’homme qui porte la Parole, c’est la Parole que
l’homme porte.” Este belo conceito de D’Aubigné
301
exprime a grande e preciosa verdade de que aquilo que
salva uma alma não é o homem que prega a Palavra, mas
a Palavra que o homem prega.
É este o ensino de todo o N.T., que Cristo
concretizou no grande mandato, já contido nas
memoráveis palavras proferidas na noite do primeiro
dia da ressureição supracitada. “Ide, disse Ele, ide por
todo o mundo, pregai o Evangelho a toda criatura. O que
crer e fôr batizado será salvo; o que porém não crer, será
condenado” (Marcos 16:15-16).
— Que faremos? perguntam três mil pessoas
convertidas, quando pela primeira vez abriu S. Pedro as
portas do Reino dos Céus na festa de Pentecostes, em
Jerusalém. — “Arrependei-vos, responde-lhes o
Apóstolo, exemplificando o poder das chaves, em
obediência ao grande mandato, arrependeivos, e cada
um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo, para
remissão de vossos pecados (Atos 2:38).
“A doação das chaves, escreve Edgar, mencionada
por 8. Mateus, e aduzida como prova da supremacia
(papal) por Barônio, Belarmino, Bínius e os seus
partidários, oferece um outro tópico de opinião
diversificada entre os amigos do Ro manismo. Este
argumento, se tal nome merece, forma um dos mais
miseráveis sofismas, que afrontam as páginas da
controvérsia”.
As chaves, que conferem o poder de ligar e desligar,
de perdoar e reter pecados, foram dadas, conforme os
antigos e muitos modernos, aos Apóstolos e a todos os
cristãos, que pertencem à comunidade eclesiástica. Tem
sido isto demonstrado, fora de toda a dúvida, pelos mais
ardentes amigos do Papado, tais como Du Pin, Calmet,
Maldonat e Alexandre. A prova da doação das chaves a
302
todo o colégio apostólico e a toda a comunidade cristã,
foram coligidas por Du Pin e Maldonat. Os da Sorbona e
os jesuítas declaram a unanimidade dos antigos sobre
esta opnião (Antiqui, unanimi consensu, tradunt, claves
istas, in persona Petri, toti ecclesiæ datas, Du Pin 308.) Du
Pin, para exemplo, cita os santos Cipriano, Jerônimo,
Ambrósio, Agostinho, Leão, Fulgêncio, e os santos
padres Tertuliano, Otatus, Gaudêncio, Teofilato,
Eucário, Beda, Raban, Hinemar e Odo.
Maldonat especifica, em favor da mesma
interpretação, os nomes de Crisóstomo, Ambrósio,
Orígenes e Teofilato... O sistema, portanto, ora repelido
pela escola italiana do Roma nismo, foi patrocinado por
toda a santidade desde Cipriano até Fulgêncio e
Crisóstomo” (V. of. Popery, Samuel Edgar, D. D., p. 168,
169).
As “chaves”, como a “pedra”, não contêm, como
mostramos, nenhum apoio ao suposto primado de S.
Pedro. S. João, elucidado por S. Lucas e Jeremias (2:9,
10), e por todo o ensino do N.T., não oferece nenhum
endosso ao tribunal de penitência, nem a prerrogativas
exclusivas de S. Pedro.
É falho, completamente falho o primeiro elo da
cadeia papai. O texto único, isolado, metafórico de S.
Mateus 16:13-19, não oferece sombra sequer de abono
às altas pretensões do Papado. E ele o objeto de uma
mistificação forjada na conspiração medieval do
patriarcado latino, e que tem petrificado o bom senso
dos que renunciam toda a atividade intelectual na esfera
religiosa.

303
O Papado e o primado de S. Pedro, 2º elo

Tiago, e Cefas (Pedro), e João, que pareciam ser


as colunas, conheceram a graça que se me havia
dado.
S. Paulo.

Desfaçamos agora o segundo elo da cadeia papal:


provemos que S. Pedro não foi o chefe dos Apóstolos.
Parece ocioso discutirmos este ponto, pois já se
acha éle prejudicado pela discussão do primeiro. De
fato, provado que Pedro não é a pedra fundamental da
Igreja, fica destruído o ponto de apoio de seu primado
de jurisdição.
“Sendo constituído o fundamento da Igreja,
recebeu (Pedro) o primado de jurisdição,” afirma o Sr.
Con. E. Q. da Fontoura, em suas Lições de Direito
Eclesiástico. “Ora, tendo sido cabalmente demonstrado
que Pedro não foi constituído fundamento, por terra se
acha sua supremacia oficial e com ela as pretensões
papais. Mas, como a árvore tem deitado fundas raízes no
solo da ignorância, superstição, indiferença e apatia
religiosa de nossa malaventurada pátria, convém
excavar o terreno e acompanhar pacientemente as
bifurcações, que se entranham com terrível tenacidade.
Demais, este segundo ponto nos abre um novo
aspecto da grande questão, dandonos uma nova
oportunidade de patentear os fundamentos arenosos do
soberbo edifício do Papado.
Vamos, pois, particularmente provar que — S.
Pedro não foi chefe dos Apóstolos, porque estes eram
iguais sob a jurisdição exclusiva de Jesus Cristo.

304
O papa, dizem, é o sucessor de S. Pedro como os
bispos io sucessores dos Apóstolos; logo os bispos estão
para o papa, imo os Apóstolos para Pedro.
Diante do Novo Testamento, é completamente falsa
esta roporção católica do governo eclesiástico. Pedro
nunca posuiu ou exerceu qualquer supremacia
jurisdicional sobre seus alegas do Apostolado.

Fácil é demonstrá-lo.

1. Contanos S. Mateus no cap. 18:18 que Cristo deu


a todos os apóstolos o poder, o qual na famosa passagem
lo cap. 16:19 dera a Pedro, isto é, o poder de ligar e
desligar: “Em verdade vos digo que tudo o que vós
ligardes sobre a erra, será ligado também no Céu: e tudo
o que vós desabardes na terra será desatado também no
Céu.”
Ora, o tremendo poder de ligar e desligar é o poder
das “chaves do Reino dos Céus” dadas a S. Pedro. Nisto
concor ia o concílio tridentino ensinando que a
promessa feita a Pedro de lhe dar as “chaves” cumpriuse
no cap. 20:23 de S. João, onde o Senhor deu a seus
“discípulos” o poder de pérdoar e reter os pecados.
É intuitivo que, tendo sido dado o poder das chaves
áos outros apóstolos, nenhum argumento pode ser
legitimamente tirado da promessa de Cristo em favor da
supremacia de S. Pedro. Qualquer que seja o poder das
chaves, ele não pertence exclusivamente a S. Pedro: a
mesma autoridade que o conferiu a Pedro, o conferiu
igualmente aos outros Apóstolos.
Além disso, já deixamos patente, na interpretação
do célebre texto do S. Mateus, que o poder das chaves de
atar e desatar, de perdoar e rotor, de abrir e fechar o
305
Reino de Deus, não é um poder aderente a Pedro e aos
mais Apóstolos, mas inerente ao Evangelho por eles
pregado e transmitido. A promessa especial de um
poder comum feita a Pedro, cumpriu-se em ter sido ele
o primeiro a anunciar esse Evanlho aos judeus e aos
gentios (Atos 2:14, Atos 10:34).
Teve ele, pois, a primazia em abrir com as gloriosas
chaves do Reino dos Céus aos que primeiro creram e
entraram pelo batismo.
Seja este ou não o sentido da expressão metafórica
— chaves, pouco importa para nossa argumentação:
basta-nos o fato incontestável de que S. Pedro não foi
possuidor exclusivo delas.
Vê-se, por conseguinte, que nenhuma das
expressões figuradas do texto de S. Mateus autoriza as
sacrílegas pretensões dos bispos romanos.
2. Contanos ainda o evangelista São Mateus, no cap.
19:28, que Cristo fez a todos os seus apóstolos a
seguinte promessa: “Em verdade vos afirmo que vós,
quando no dia da regeneração estiver o Filho do Homem
sentado no Trono de sua Glória, vós, torno a dizer que
me seguistes, também estareis sentados sobre doze
Tronos, e julgareis as doze Tribos de Israel.”
Não há na promessa um trono mais elevado para
Pedro: a igualdade dos tronos, símbolos do poder real,
indica com clareza a igualdade jurisdicional dos
Apóstolos.
A mesma igualdade aparece na visão apocalíptica
de S. João: “E o muro da cidade tinha doze fundamentos
e neles os doze nomes dos doze apóstolos do Cordeiro”
(Apocalipse 20:14).
Na linguagem do profeta de Patmos, já Paulo tinha
proclamado a igualdade absoluta dos Apóstolos,
306
dizendo: “(Vos sois) edificados sobre o fundamento dos
Apóstolos e dos Profetas, sendo o mesmo Jesus Cristo a
principal pedra angular” Efésios 2:20.
Tal não seria a linguagem da Escritura, se entre
Pedro e os outros Apóstolos existisse a mesma distância
que ora existe entre o papa e os bispos.
3. Contanos S. Lucas que por duas vezes se levantou
a questão de primazia entre os apóstolos, Lucas 9:46,
22:24-30. Esta última vez realizou-se na Ceia, na noite
em que Senhor foi preso.
“E excitou-se — diz Lucas — entre eles a questão
sobre qual deles se devia reputar o maior. Porém, Jesus
lhes disse: Os reis dos gentios dominam sobre eles: e os
que tem sobre eles autoridade chamam-se benfeitores.
Não há de ser, porém, assim entre vós outros: mas o que
entre vós é o maior faça-se como o mais pequeno: e o
que governa, seja como o que serve.”
A questão do primado debate-se franca e
formalmente entre os Apóstolos na presença de Cristo,
conforme se vê no trecho supra. Claro é que essa
questão não podia debaters-se, se Cristo de fato, tivesse
já nomeado Pedro primaz na declaração prévia
registrada no célebre texto de S. Mateus. É, portanto,
evidente que os Apóstolos até o dia da prisão de seu
Mestre não sabiam ainda do primado oficial de seu
colega.
Suponhamos — o que não é provável — que eles
não tivessem compreendido a dupla metáfora da
nomeação papal, de que fala Perrone. Neste caso era
urgente, e magnífica a oportunidade, para o Senhor
corrigir o engano, por fim ao debate secular,
restabelecer, sem figuras, a instituição do papado e

307
confirmar a nomeação de Pedro como papa, supremo
hierarca da cristandade, e chefe dos Apóstolos.
Entretanto — coisa admirável! — nada disso. Ao
contrário, o Senhor declara que entre os Apóstolos não
haverá o domínio hierárquico da sociedade civil, onde o
rei impera com poder absoluto. Entre eles só haverá a
superioridade moral do mais humilde, e, no exercício de
sua autoridade apostólica, eles deviam governar a Igreja
como se fossem servos seguindo neste particular as
pisadas do Mestre.
Nestas últimas palavras, o Senhor confirma
solenemente o que já lhes havia dito: — “Mas vós não
queirais ser chamados Mestres, porque um só é o vosso
Mestre, Cristo, e vós todos sois irmãos. ... E a ninguém
chameis pai (papa) vosso sobre a terra, porque um só é
c vosso Pai que está nos Céus” (Mateus 23:8, 9).
Não podem ser mais contrárias ao pseudopapado
de Pedro, do que são, as palavras e a atitude de Cristo,
resumidas nos três pontos acima. A igualdade dos
Apóstolos sob a suprema jurisdição exclusiva de Cristo
aí se apresenta com iniludível clareza.
Mas continuemos a folhear o N. Testamento, e
passemos dos Evangelhos para os Atos e as Epístolas.
4. No cap. 8:14 dos Atos dos Apóstolos se lê: “Os
Apóstolos, porém, que se achavam em Jerusalém, tendo
ouvido que Samária recebera a palavra de Deus,
mandaramlhes lá a Pedro e a João.”
Com indubitável certeza, os subalternos não
mandam a seu superior. Logo, se os Apóstolos
mandaram a Pedro pregar o Evangelho em Samária,
depois da morte de Cristo, é que continuavam a ignorar
o seu primacio dele de jurisdição. Absurdo seria supor
os bispos reunidos em Roma e mandando ao papa
308
pregar o Evangelho em qualquer outra cidade da Itália.
Esse absurdo iguala ao dos que supõem ser Pedro chefe
ao mesmo tempo que recebe ordens de seus inferiores!
5. No cap. 16 dos Atos história se a reunião do
concílio de Jerusalém, o protótipo dos Sínodos, na frase
do Cónego Galvão da Fontoura. Se Pedro fosse papa, a
ele competia convocar o concílio, presidilo sancionar-
lhe os decretos e promulgar-lhes os cânons. Os decretos
de um concílio, diz-nos o supracitado cônego em suas
Lições de D. Eclesiástico, devem ser aprovadas pela
Santa Sé para serem fontes de direito eclesiástico.
Da leitura do cap. absolutamente não consta que S.
Pedro convocasse o concílio, nem que o presidisse, nem
que sancionasse individualmente seus decretos, nem
que promulgasse os seus cânons.124
Apenas se diz que — “congregaram-se os Apóstolos
e os Presbíteros para examinar este ponto, e, depois de
se fazer sobre ele um grande exame,” Pedro levantou-se
e tomou a Palavra.
Falou por último Tiago, que pôs fim ao debate,
propondo um alvitre, o qual foi aceito pelo concílio (vs.
6, 7, 13, 22).
O decreto do concílio foi promulgado em nome dos
“Apóstolos e dos Presbíteros irmãos” (v. 23).
Com certeza ou os Apóstolos não sabiam o que era
o direito eclesiástico, ou então os modernos
fabricadores de direito eclesiástico dão a Pedro uma
função papal, que ele e seus colegas completamente
desconheciam.

124
— Entretanto, lê-se à página 48, vol. I, das Lições do Dir. Ecles, do Snr. Cônego Ezequias Galvão da
Fontoura: “Pedro, o chefe dos apóstolos, convoca seus irmãos no apostolado, reune um concílio sob sua
presidência, e envia o decreto decisivo à Igreja de Antioquia”.
Ora, nada disto se encontra nos Atos dos Apóstolos!

309
6. S. Paulo em dois lugares de sua 2ª epístola aos
Coríntios, é frisantemente explícito contra a suposta
supremacia de S. Pedro. “Mas eu cuido — diz ele — que
cm nada tenho sido inferior aos maiores dentre os
Apóstolos.” (2 Coríntios 11:5, 12:11).
Entra pelos olhos que esta asserção absoluta de
Paulo é incompatível com a teoria romana, e vibra golpe
mortífero na herança papal do primado de S. Pedro.
7. Na epístola aos Gálatas, é o Apóstolo dos gentios
porventura ainda mais cruel contra as pretensões
papais.
Explica ele, logo no cap. I, que recebeu seu
apostolado “não dos homens, nem de algum homem,
mas diretamente de Cristo e de Deus Pai.”
Três anos depois veio a Jerusalém para “ver”125 a
Pedro, e ficou com ele quinze dias. (v. 18).
Quatorze anos mais tarde, subiu ele novamente a
Jerusalém para consultar com os outros Apóstolos sobre
questões suscitadas pelos judaizantes (2:1, 2).
Ouçamo-lo.
“Mas quanto àqueles que pareciam ser mais
consideráveis, (quais tenham sido noutro tempo nada
me toca: Deus. não aceita a aparência do homem), a mim
certamente os que pareciam ser alguma coisa, nada me
comunicaram. Antes pelo contrário, tendo visto que me
tinha sido encomendado o Evangelho do prepúcio, como
também a Pedro o da, circuncisão: (porque o que obrou
em Pedro para o Apostolado, da circuncisão, também
obrou em mim para com as gentes) e como Tiago, e
Cefas (Pedro), e João, que pareciam ser as colunas,

125
Com soberano desprezo pelos fatos declaram os advogados do papismo, à cata de argumento em
abono de seu constituinte, que Paulo viera a Jerusalém receber as ordens de Pedro! Assim uma mera
visita de cortesia é arteiramente convertida em um ato de submissão.

310
conheceram a graça que se me havia dado, deram as
destras a mim e a Barnabé, em sinal de companhia; para
que nós fôssemos aos gentios e eles à circuncisão
(judeus)...
Ora, tendo vindo Cefas (Pedro) a Antioquia: eu lhe
resisti na cara, porque era repreensível.” (Gálatas 2:6-
11).
Como podem os doutores do papismo conciliar,
esta linguagem e atitude de S. Paulo com o papado de S.
Pedro?
Declara aí Paulo que “não recebeu comunicação
alguma dos que pareciam ser alguma coisa” na igreja de
Jerusalém!
O verbo pareciam clama duplamente contra o
papado àe Pedro, não só quanto à sua significação, mas
também quanto ao seu número.
Mais: Paulo aí coordena e não subordina o seu
apostolado ao de Pedro. Ambos tiram a sua autoridade
da mesma fonte e do mesmo modo. Paulo é constituído
por Cristo apóstolo dos gentios o Pedro apóstolo dos
judeus. Roma, capital do ffentilismo, está por ordem
divina na circunscrição particular de Paulo; como
Jerusalém, capital do judaísmo, está na de Pedro.
Os bispos — dizem os teólogos da cúria — são
sucessores dos Apóstolos, como o papa é o sucessor de
S. Pedro. Os bispos recebem seu apostolado ou
episcopado do papa: Paulo devera receber o seu de
Pedro. Tanto mais que ele fora chamado ao apostolado
à última hora, quandc Pedro devera éster na plena posse
de seu poder.
Porém Paulo desconhece por completo essa
engrenagem ultramontana, e mostra a miragem

311
perigosa dessa fonte fantástica do direito eclesiástico,
chamada o Papado.
Ainda mais: “Tiago, Cefas (Pedro) e João pareciam
ser as colunas”, da igreja de Jerusalém, declara Paulo.
Aí se acha de novo o verbo pareciam a clamar
duplamente contra o primado de Pedro. Se Pedro fôsse
realmente o Vigário de Cristo, a nova encarnação do
Verbo Eterno, o Deus na terra, o chefe supremo dos
Apóstolos, a coluna vertebral da igreja, poderia acaso S.
Paulo englobar os três Apóstolos e dizer, pondo Tiago
na frente — “Tiago, Pedro e João pareciam colunas” da
igreja em Jerusalém? Certamente que não.
Finalmente, para coroar sua obra de campeão
antipapal, escreve S. Paulo que repreendeu
publicamente a S. Pedro em Antioquia. Esta repreensão
que S. Paulo se viu obrigado a publicar nas igrejas, não
fala com menos eloqüência, do que o verbo pareciam
duas vezes repetido, contra o imaginário papado de S.
Pedro.
8. A toda esta multidão de provas devemos ajuntar
a atitude humilde do próprio S. Pedro. Como Paulo e os
outros colegas seus, ele ignorava inteiramente possuir a
posição e os títulos pomposos que, em seu nome. os
papas sacrilegamente assumem. Em suas epístolas não
há o mínimo vestígio dessa autoridade única a que os
pontífices romanos invariàvelmente alardeiam em suas
bulas e encíclicas.
Entretanto, como os papas, Pedro deveria sentir a
alta conveniência de reforçar suas ordens com os títulos
de seu supremo poder. Se Cristo lhe tinha, de fato,
delegado, a ele, exclusivamente, sua divina autoridade,
se ele era o vicere gente de Deus onipotente, supremo
hierarca da cristandade, cujo braço invencível devia
312
manejar contra os espíritos e contra os corpos dos
homens a dupla espada do papa Bonifácio VIII, corrialhe
o sagrado dever, sempre tão vivo na consciência de seus
pseudosucessores, de apresentar esses tituios à
obediência dos povos, maxime havendo nos seus
colegas do apostolado absoluto esquecimento dessas
suas prerrogativas.
Porém, nada, realmente nada em suas epístolas que
se pareça com um decreto do Vaticano. Em palpável
contraste com os anátemas e o autoritarismo
vanglorioso das bulas papais, escreve S. Pedro: “Simão
Pedro, servo e Apóstolo de Jesus Cristo”... “Esta é a
rogativa que eu faço aos presbíteros, eu presbítero
como eles”.
A humildade de Pedro e o inteiro desconhecimento
de suas próprias prerrogativas papais revelamse ainda
eloqüêntemente na escolha do substituto de Judas
Iscariotes. (Atos 1:25, 26).
Pedro não assume aí nenhuma jurisdição papal.
Apenas lembra ele a conveniência da escolha. Os
“irmãos” propõem dois, e a sorte decide.126
A atitude humilde de Pedro é a cabal justificação do
procedimento de Cristo e dos Apóstolos, tratando o em
pé de perfeita igualdade oficial com seus colegas.
Concluindo, diremos com distinto escritor: — a
ausência do sol ao meiodia não é mais notável do que a
ausência da supremacia oficial de S. Pedro nas páginas
do Novo Testamento.

126
Desrespeitando a verdade histórica, afirma ainda o Snr. Con. E. G. da Fontoura: Depois da ascenção
de Jesus Cristo, Pedro reúne os Apóstolos e dá um sucessor a Judas!” Ib. pág. 119.

313
Os títulos do Apostolado

O Papado, para manterse como instituição cristã


perante a consciência esclarecida da humanidade,
necessita provar, pelas Santas Escrituras, que S. Pedro
possuía o primado universal como uma herança
transmissível, e que ele possui legítimos títulos a essa
herança.
Em conexão com os quatro elos da cadeia papal,
estabelece o historiador P. Schaff os seguintes pontos,
que, para a legitimidade de suas pretensões, devem os
papas provar:
1º — Que a controvertida primazia ou supremacia
de Pedro não era um privilégio pessoal, como os de
Paulo e João, mas era oficial, hereditária e transferível.
2º — Que ela fora transferida por Pedro não ao
bispo de Jerusalém ou ao de Antioquia, mas ao bispo de
Roma.
3º — Que Pedro não só estêve em Roma, mas aí agiu
como designou sucessor.
4º — Que os bispos de Roma, como sucessores,
possuíram e exerceram a jurisdição universal.
Antes de descermos ao terreno dos iatos históricos
para demonstramos à posteriori a falsidade dos títulos
papais à herança apostólica, consignaremos aqui
algumas considerações à priori, para o mesmo efeito.
Demonstramos a inexistência dos dois primeiros
elos da cadeia papal: nem Pedro foi a “pedra” angular da
Igreja, nem possuía exclusivamente as “chaves” do
Reino dos Céus, nem .sobre os seus colegas exerceu
supremacia jurisdicional. Agora, antes de examinarmos
os dois últimos elos, e mostrarmos que éle nem sequer

314
estêve em Roma, nem deixou testamento instituindo
herdeiro o bispo desta cidade, abramos breve parêntese
para algumas observações sobre cs títulos papais do
Apostolado.
Em primeiro lugar, os títulos são falsos, porque
falsa é a herança.
Demonstrado, como se acha, que fantástico é o
legado de S. Pedro, excusado seria examinar os
documentos do pretenso legatário.
Em segundo lugar, suposta a herança divina, são
falsos os títulos, porque são meramente humanos.
O Papado se vê obrigado a sair da esfera da
Revelação, para tentar estabelecer seus direitos divinos
ao cobiçado tesouro.
Não encontrando um único versículo da Palavra de
Deus que assegure a transferência dos imaginados
direitos de S. Pedro aos bispos romanos, é ele
constrangido a lançar mão do testemunho falível dos
homens, como base infalível de suas tremendas
pretensões, e apelar para a tradição.
A falibilidade da tradição de ter estado S. Pedro em
Roma por vinte e cinco anos, tradição em que a crítica
sensata não reconhece sequer os foros de autenticidade
histórica, a falibilidade dessa tradição é, não obstante, o
fundamento único da infalibilidade do bispo de Roma.
As credenciais do patriarca latino são, pois,
confessada mente humanas e não divinas.
É debalde que o Papado, sentindo a humana
fragilidade de seus títulos ao primado de Pedro, procura
satisfazer aos reclamos da consciência divinizando essa
tradição, elevando sacrilegamente a palavra do homem
à categoria de Palavra de Deus.

315
O estratagema é sutil e profano; é uma calva
mistificação com que o Papado procura sair-se
airosamente da humilhante contingência de reclamar
com testamento humano uma herança divina.
Decretando, porém, ele próprio a revalidação de
seus documentos, é claro que se torna procurador em
causa própria, e se arvora em juiz incompetente de
direitos, que gratuitamente se arroga.
Uma herança divina tão rica e prodigiosa reclama
intuitivamente títulos divinos, que o Papado claramente
não possui.
Em terceiro lugar, são falsos, porque, suposta ainda
a herança apostólica, os bispos de Roma não possuem
os requisitos bíblicos para entrarem no gozo dela.
Para herdarem os papas o primado, necessário é
que herdem o apostolado, sejam sucessores de apóstolo,
antes de o serem do primaz.
Os papas, na verdade, reclamam essa função
apostólica; porém, para ser alguém apóstolo de Jesus
Cristo, rio sentido próprio, técnico, oficial do termo,
exige manifestamente o Novo lestamente os seguintes
requisitos:
1º — Ter visto Jesus Cristo, ser testemunha ocular do
Filho do Homem ressuscitado.
S. Pedro e S. Paulo são os que nos revelam a
necessidade deste requisito.
Propondo o substituto de Judas, diz S. Pedro:
“Convém, pois, que destes varões, que têm estado juntos
em nossa companhia todo o tempo, em que entrou e saiu
o Senhor Jesus... que um dos tais seja testemunha
conosco de sua ressurreição” (Atos 1:21).

316
Provando o seu apostolado, diz S. Paulo: “Não sou
eu Apóstolo? Não vi eu a nosso Senhor Jesus Cristo?” (1
Coríntios 9:1).
Com toda a certeza o papa não pode apresentar esta
prova essencial ue seu pretenso apostolado.
2º — Ser pessoalmente infalível no ensino religioso.
(1 Coríntios 14:37).
Ora, a pretensa infalibilidade papal, ultimamente
proclamada (1870), é irrisória para os que conhecem a
história do Papado.
3º — Ter o dom de fazer milagres.
“Entre vós se têm visto os sinais do meu apostolado
em todo o gênero de tolerância, nos milagres, e nos
prodígios, e nas virtudes”. (2 Coríntios 12:12).
“Acaso pode o papa apresentar estes sinais do seu
apostolado?
Querer ser Apóstolo sem possuir evidentemente
esses três requisitos essenciais é querer ser profeta sem
o dom da profecia, ou mestre das crianças sem o
conhecimento do alfabeto, como reflexiona Hodge.
Quem não pode o menos, não pode o mais: quem
não tem as notas de Apóstolo, não pode possuir as
regalias de Príncipe dos Apóstolos.
4º — Em quarto lugar, os títulos são falsos, porque
aos pretensos legatários, falece mais uma condição
essencial, além das já mencionadas, para entrarem na
posse do suposto legado.
De fato, o legado exige que o legatário, além. de
Apóstolo, seja também a cabeça da Igreja.
Ora, apesar de reclamar o bispo de Roma para si
esta função, o Novo Testamento a atribui exclusiva e
insistentemente a Jesus Cristo.

317
“Ele (Jesus) é a Cabeça do corpo da Igreja, Ele é o
Principio, o Primogênito dentre os mortos: de maneira
que éle tem a primazia em tòdas as coisas, porque foi do
agrado do Pai que residisse nEle toda a plenitude”.
(Colossenses 1:18. Vede Efésios 1:22).
Manifesta é, diante destas formais declarações do
Novo Testamento, que o papa não pode assumir a
função de Cabeça do corpo místico da Igreja, sem se
apresentar perante a consciência da cristandade como
um usurpador blasfemo ou AntiCristo.
Não podem, portanto, deixar de ser
antecedentemente falsos os títulos a uma herança
divina não existente, e que, se existisse nas proporções
anunciadas pelos pretendentes, envolveria condições
que os ditos pretendentes não poderiam absolutamente
satisfazer, diante dos positivos ensinos do Novo
Testamento.
Acresce, além disso, a circunstância importante que
os pretensos possuidores desses títulos são pessoas
incompetentes, destituídas de inspiração, isto é, de
autorização divina.
O Papado, cremos havê-lo demonstrado, é uma
excre cência ou superietação no singelo organismo
eclesiástico da religião cristã.
Desnudados os alicerces, o Papado se apresenta a
nossos olhos admirados como um edifício de estrutura
gigantesca repousado, entretanto, sobre a areia
movediça da ignorância supersticiosa e da indiferença
interesseira dos homens.
Ao espírito crítico, e refletido, que pesquisa a razão
das coisas, erguese ele na sociedade moderna, como, no
campo de Dura, a estátua colossal de Nabucodonosor.
Fascina pela sua grandeza, e impressiona pela rijeza
318
metálica de seus membros; porém, descansa em pés de
barro.
As três passagens do Novo Testamento citados
pelos corifeus da monarquia teocrática do bispo de
Roma absolutamente não fornecem apoio bíblico a suas
tremendas pretensões. A principal delas, única, isolada,
metáfórica e em manifesto antagonismo com todo o Novo
Testamento na interpretação romana, entra, quando
legitimamente interpretada, na corrente harmônica dos
textos inspirados, que proclamam, de uma a outra
extremidade do Livro da Divina Revelação, a CRISTO
FILHO DE DEUS VIVO como a Rocha secular de nossas
mais caras esperanças, o fundamento inabalável da fé
imperecível do povo de Deus, o Rei dos reis, o Senhor dos
senhores, “o Santo e o Verdadeiro que tem a chave de
Davi: que abre e ninguém fecha: e que feçha e ninguém
abre” (Apocalipse 3:7), o Esposo e a Cabeça de sua Igreja,
que tem “todo poder no Céu e na terra”, “ontem, hoje e
para sempre”. (Mateus 28:18. Hebreus 13:8).
O Papado é a impossível abdicação do Sumo
Pontífice da cristandade, Jesus Cristo, em um Vigário de
que não há sequer sombra de menção nas páginas
inspiradas do Novo Testamento, apesar de cingir ele a
tiara de tríplice coroa, símbolo de sua realeza universal.
O Papado, instituição essencialmente humana, é a
suprema mistificação do Cristianismo, legada aos
tempos modernos pela superstição caliginosa dos
tempos medievais.
O Papado é a culminação da apostasia vaticinada
com Insistência pelos Apóstolos do Senhor (2
Tessalonicensses 2:3, 1 Timóteo 4:1, 2 Timóteo 3:1-9);
a origem dos grandes infortúnios de nossa nobre raça
latina.
319
É ele, no decorrer dos séculos, a evolução lenta do
“mistério de iniqüidade”, assinalado por S. Paulo (2
Tessalonicensses 2:7); o desdobramento paulatino dq
princípio de dominação revelado a Daniel na sucessão
dos quatro grandes impérios da antiguidade (Daniel
8:21, 25); a tremenda realização histórica do grande
Anti Cristianismo contemplado nas visões apocalípticas
do profeta de Patmos (Apocalipse 13:17).
Completamente estranho à humildade e
simplicidade do Cristianismo genuíno do Novo
Testamento, o Papado não é uma nova encarnaçãodo
Filho de Deus, na blasfema suposição de Manning; e
antes a transubstanciação do paganismo imperialista, a
continuidade histórica do cesarismo romano.
O Papado não é o legado de Pedro, porém de Nero.
Roma papal é a personificação histórica de Roma
imperial. Uma e outra são manifestações de uma mesma
corrente do espírito, cuja nascente assinala Daniel no
orgulho arrogante da antiga Babilônia.
Cumprida a sua missão nos destinos da
humanidade, na luta tremenda das trevas contra a luz, o
ídolo do Vaticano será precipitado no seio da história
com o ímpeto de uma pedra arremessada no fundo do
mar.

O Papado e o Primado de S. Pedro, o 3º e


4º elo, S. Pedro em Roma

Esteve S. Pedro em Roma? — eis o problema de


visceral importância às pretensões do Papado.

320
Sendo o papa o declarado herdeiro de São Pedro,
importa provar que não somente S. Pedro possuía
herança transmissível, mas, ainda, que ele a transmitiu
ao bispo de Roma, e não ao bispo de Jerusalém, de
Antióquia, de Efeso ou de Corinto.
Da herança de S. Pedro já tratamos na primeira
parte, desta obra, restanos agora supor a existência
dessa herança, e examinar os títulos que o bispo de
Roma apresenta para reclamá-la.
É evidente que ele necessita provar três coisas: lª
que S. Pedro esteve em Roma; 2ª que S. Pedro fez de
Roma a sede de seu governo apostólico; 3ª que ele legou
aos bispos seus sucessores a sua autoridade de primazia
apostólica.
Poderia S. Pedro ter estado em Roma de passagem,
ou poderia ter estabelecido a sede de seu apostolado em
Roma, e não ter passado a sua autoridade apostólica,
por intransferível, aos bispos, seus sucessores no
governo da igreja estabelecida em Roma.
Admitida mesmo, a supremacia jurisdicional de S.
Pedro no colégio apostólico, resta ainda ao Papado
justificar as Suas altas e tremendas pretensões firmando
perante o senso histórico da humanidade os três elos
acima expostos.
Longa e erudita controvérsia tem levantado o
interessante problema histórico da estada de S. Pedro
em Roma, no caráter de bispo universal, de todas as
igrejas cristãs.
Historiadores católicos e protestantes têm lançado
mão diligente de todos os recursos da crítica histórica,
do talento e erudição, no estudo do debatido problema,
e, graças às profundas investigações desses homens da

321
ciência, temos hcje dados seguros para resolvermos a
questão.
Dizem os teólogos católicos romanos, advogados
das pretensões papais, que S. Pedro, no primeiro ano do
reinado de Cláudio, pelos anos de 41 a 43, veio a Roma
com S. Paulo e aí estabelecera a sede de seu governo, e
que, tendo governado a Igreja por 25 anos, aí faleceu
mártir com S. Paulo, sob o reinado de Nero, no ano 67 da
era cristã.
Se, de fato, isso aconteceu, devem conter provas
disso os documentos históricos dos tempos apostólicos
e sub-apostólicos.
Os documentos históricos do tempo dos Apóstolos,
por eles escritos, são os escritos sagrados do Novo
Testamento, e destes os Atos dos Apóstolos e as Epístolas
são as fontes onde podemos colher dados sóbre as
viagens e atividade missionária dos Apóstolos, depois
da ascensão do Senhor Jesus.
Os Atos dos Apóstolos foram escritos por S. Lucas,
que não é um apóstolo, no sentido técnico do termo, mas
um companheiro e discípulo e S. Paulo, reconhecido
pela Igreja entre os escritores inspirados.
Não descreve ele propriamento os atos de todos os
Apóstolos, mas só os de S. Pedro na primeira parte e os
de S. Paulo na última. Sua narração cobre um período de
trinta anos, mais ou menos, desde a ascensão do Senhor,
no ano 33, até a chegada de Paulo preso em Roma no
ano 65.
O escopo manifesto do elegante escritor dos Atos é
darnos a fundação e os primeiros desenvolvimentos da
Igreja, fazendonos conhecer a sua marcha triunfante de
Jerusalém a Roma, do centro dó judaísmo ao centro do
paganismo. Pedro é o campeão proeminente da
322
primeira fase, e Pauio o da segunda. Termina ele
abruptamente, deixando S. Paulo em um quarto alugado
ena Roma, pregando livremente por dois anos o Reino
de Deus, com uma sentinela à vista.
Compulsemos, pois, os Atos e as Epístolas, que tem
sobre o assunto alto valor, como documentos sagrados
que são.
Para maior clareza, estudemos ós fatos em sua
ordem cronológica, firmando-nos em críticos de
reconhecida competência.
Cumpre-nos, entretanto, notar de passagem que há
um erro de 4 anos, mais ou menos, sobre a data do
nascimento de Cristo, segundo as modernas
autoridades na matéria. Conforme estas, Cristo nasceu 4
anos antes da era vuigar, de sorte que a sua morte e
ressurreição no ano 30 correspondem realmente ao 34.
Antes, porém, de acompanharmos S. Pedro através
dos Atos e Epístolas, fixemos nossas ideias sobre a
natureza do Apostolado.

O Apostolado

O apostolado, que o Senhor Jesus Cristo criara em


torno de si, tinha uma missão extraordinária e
intransmissível: fundar a Igreja sobre a Rocha dos
séculos.
Como fundadores da Igreja, eram os Apóstolos
oficiais extraordinários, testemunhas oculares de Cristo
ressuscitado (Atos 1:23), que “foi declarado Filho de
Deus pela ressurreição dentre os mortos” (Romanos
1:4).

323
Não sofre contestação que é nas páginas inspiradas
do N. T. que devemos procurar conhecer a natureza e
caráter do Apostolado, ou do ofício de Apóstolo de
Cristo.
Do grego, língua sagrada do N. T., nos vem o termo
apóstolo, de apo—de, ponto de partida, e stolo de
stellô—enviar. O valor etimológico é, pois, de enviado,
mensageiro, embaixador.
No N. T. tem o têrmo tríplice aplicação: aplicase, em
um sentido particular, a Cristo como enviado do Pai, é
ele chamado — o “Apóstolo e Pontífice de nova
confissão” (Hebreus 3:2); aplica-se, em um sentido
geral, aos cooperadores dos Apóstolos no trabalho do
Evangelho (Atos 14:13); e, finalmente, designa, em um
sentido técnico, especial e restrito, aos doze homens e
mais tarde a Paulo, enviados por Cristo para levarem a
todas as nações a boa nova ou o Evangelho de um
Salvador universal erguido da casa de Davi, para revelar
aos judeus e aos filhos extraviados no gentilismo o
caminho perdido da casa paterna, abrindo de par em par
as portas que fechara o pecado.
É esta a ideia saliente dada pelo Divino Mestre,
quando pela primeira vez aparece aos Apóstolos
reunidos no mesmo dia de sua ressurreição: “Paz seja
convosco — diz Ele —; assim como meu Pai me enviou,
também eu vos envio a vós” (João 20:21).
E quarenta dias mais tarde, no momento de sua
gloriosa ascensão, declarando que ele recebera todo o
poder no céu e na terra, enviaos a todas as nações,
dizendolhes: “Ide por todo o mundo, pregai o Evangelho
a toda criatura: quem crer e for batizado, será salvo; mas
quem não crer será condenado” (S. Marcos 16:15, 16; S.
Mateus 28:18, 19).
324
S. Pedro e S. Paulo completam a ideia do
apostolado, dandonos a nota fundamental do ofício
apostólico.
Narranos S. L,ucas que S. Pedro, levantandose no
meio dos Discípulos, cujo número subia a cento e vinte
pessoas, propos, logo depois da ascensão do Senhor,
que, entre os varões, os quais haviam convivido com
Jesus desde o batismo de João Batista, fôsse escolhido
um para ser “conosco, diz ele, testemunha de sua
ressurreição” (Atos 1:21, 22).
Os Apóstolos, portanto, tinham por missão especial
ser testemunhas oculares e auriculares da ressurreição
de Jesus Cristo.
Reconhece S. Paulo esta característica essencial do
apostolado, quando, defendendo em Corinto sua
autoridade apostólica, pergunta: “Não sou eu Apóstolo?
Não sou livre? Não vi eu ao Senhor Jesus?” (1 Coríntios
9:1).
O ter visto Cristo ressuscitado era condição
fundamental do ofício apostólico.
Além disso menciona S. Paulo, como um dos sinais
do apostolado — “a tolerância, os milagres, os prodígios
e as virtudes” (2 Coríntios 12:12). E, em outro lugar,
autoridade divina para o que ele prescrevia (1 Coríntios
14:37).
Os Apóstolos eram, portanto, funcionários
extraordinários, especiais, que não tiveram, nem
podiam ter sucessores. Eram os embaixadores de nosso
Senhor Jesus Cristo, portadores das credenciais
supramencionadas, para exporem a todas as condições
de perdão, e reconciliação com Deus, a fim de “tomar o
Senhor, dentre os povos gentílicos, um povo para o seu
nome” (Atos 16:14), que constituísse a sua Igreja.
325
Dado, pois, o caráter do Apostolado, e dos
Apóstolos, como embaixadores extraordinários,
munidos de credenciais intransmissíveis, é evidente
sprem completamente vãs as pretensões do bispo de
Roma e dè todos os bispos católicos romanos de
possuírem na igreja autoridade apostólica.
Em judeus e gentios era então dividida a população
do mundo, e correspondentemente em duas secções
coordenadas se dividia o Apostolado de Cristo: o
Apostolado dos judeus ou da circuncisão, e o Apostolado
dos gentios ou do prepúcio. Este pertencia proeminente
a S. Paulo, e aquele a S. Pedro, como se vê em Gálatas
2:6-8. Não implicava, porém, esta divisão do Apostolado
funções exclusivas ou limites territoriais. O que, porém,
afirma sem a mínima dúvida o Apostolo dos gentios é
que ele era igual a S. Pedro no exercício de sua função
apostólica.
S. Pedro e S. Paulo, iguais e independentes no
Apostolado, apenas se distinguiam dos outros onze
como primi inter pares.
Eram os Apóstolos cofno bispos ecumênicos ou
universais, sem qualquer supremacia jurisdicional de
uns sobre os outros, possuindo cada um a plenitude dos
poderes espirituais em qualquer parte do mundo em
que se achasse.
Os bispos ou presbíteros do N. T. eram ministros
locais, que com o andar dos tempos, se tornaram bispos
diocesanos, metropolitanos, patriarcas e papas. O
episcopado, pois, atual diverge radicalmente da
instituição apostólica, e vaise his tòricamente prender
não ao Apostolado, mas ao presbiterado primitivo.
Acompanhemos agora S. Pedro através dos trinta
anos do seu apostolado, cobertos pelos Atos dos
326
Apóstolos e Epístolas, a ver se o podemos encontrar em
Roma. Antes, porém, de rastrear as pegadas do Apóstolo
dos judeus, notemos a) a grande distância geográfica
que separa Jerusalém de Roma, e b) a grande distância
moral e oficial que separa o Apóstolo dos bispos da
mesma cidade.

S. Pedro no Exercício de seu Apostolado

1. No ano 33, cinquenta dias depois da ressurreição


e dez depois da ascensão do Senhor, estava S. Pedro em
Jeru salem cora os seus colegas e condiscípulos, em
oração perseverante, aguardando a promessa do
Espírito Santo, o batismo de fogo.
Celebrava-se em Jerusalém a grande festa agrária
de Pentecoste. Enxameavam nas ruas os israelistas
dispersos pelas mais longínquas nações (Atos 2).
Subitamente se ouviu o estrondo de um como vento
impetuoso, e, no cenáculo onde estavam reunidos os
Discípulos, apareceram línguas de fogo, que
repousavam sobre cada um. Era o cumprimento da
promessa, e o “poder lá do alto”, que baixava sobre os
novos embaixadores.
Pedro, pondo-se de pé no meio da multidão
aglomerada, é o primeiro a dar o testemunho de Cristo
crucificado para a salvação de todo o que crê.
Aberto o Reino dos Céus com as chaves da
pregação, entraram, pelo batismo, três mil pessoas, e
fundouse a Igreja sobre a “Pedra” da esquina. Cumpriu-
se a recompensa prometida a S. Pedro na prioridade do
uso das “chaves”. A palavra apostólica aceita pela fé e
arrependimento absolveu os pecados dos novos
327
conversos, e condenou os incrédulos e impenitentes. O
mesmo fizeram os outros Apóstolos.
2. No ano seguinte, 34, encqntrase ainda S. Pedro
em Jerusalém, e é enviado juntamente com S. João, pelos
outros Apóstolos, a pregar o Evangelho em Samária
(Atos 8:14). Até essa época era ignorada a sua
supremacia.
3. No ano 40 está ainda S. Pedro na Judéia, e é
visitado em Jerusalém por S. Paulo.
Este Apóstolo é quem nos dá conta desta visita em
sua epístola aos Gálatas 1:18.
Logo depois de sua conversão no caminho de
Damasco, fato que, segundo os críticos, se realizou no
ano 37, partiu S. Paulo para a Arábia (Gálatas 1:17),
provavelmente a fim de preparar-se para o Apostolado
que acabava de receber não “de homens, nem de algum
homem, mas de Jesus Cristo” diretamente (Gálatas 1:1).
Três anos depois, isto é, no ano 40 é que foi visitar
seu colega Pedro e com o qual permaneceu quinze dias
em Jerusalém (Gálatas 1:18).
4. Quatorze anos mais tarde, no ano 51, sobe ele
outra vez a Jerusalém, e ali encontra os Apóstolos e
entre eles S. Pedro (Gálatas 2: 2).
É por ocasião dessa visita que ele faz as solenes
declarações, já consideradas, contra o primado de
Pedro. Diz ele que os Apóstolos em Jerusalém
reconheceram que ele fôra encarregado do Apostolado
dos gentios, do mesmo modo que Pedro fôra
encarregado do Apostolado ds judeus, que Aquele que
dera autoridade a Pedro, lhe dera também a ele, e que
Tiago, Pedro e João, os quais pareciam ser as colunas da
igreja em Jerusalém, lhe deram as destras de companhia

328
para que ele fôsse aos gentios e eles aos judeus (Gálatas
2:7-9).
Destas datas e da frisante linguagem do Apóstolo
dos gentios se deduz claramente que S. Pedro não só
nesses tempos estava longe da cidade de Roma, senão
também mui distante da teoria romana do primado de
S. Pedro.
5. Cerca do ano 41, assistimos à partida de S. Pedro,
não para Roma, segundo a tradição católica, mas para
Cesaréia, a chamado do centurião Cornélio (Atos 10).
É interessante esta viagem de S. Pedro para os
nossos intuitos, e merece narrada.
Cornélio, centurião da corte italiana, destacada em
Cesaréia, era, apeõar de gentio, “varão piedoso e
temente a Deus, com toda a sua casa”, fazia muitas
esmolas ao povo e velava de contínuo em oração.
Era ele provavelmente um prosélito do judaísmo,
ou um converso ao Deus de Israel.
Seriam três horas da tarde, quando ele, posto em
oração, teve a visão ciara de um anjo de Deus, que lhe
chamou pelo nome: “Cornélio!” Atemorizado, responde:
“Que é, Senhor?”
“As tuas orações e as tuas esmolas — disse-lhe o
mensageiro divino — têm subido em memória diante de
Deus. Manda a Jope, e faze vir a Simão Pedro e ele te dirá
o que deves fazer”. (Atos 10).
Obedece Pedro, e ao entrar na casa de Cornélio,
cailhs éste aos pés. “Levantate, bradalhe o Apóstolo, que
eu também sou homem” (Atos 10). Igual procedimento
teve Paulo (Atos 14:14), e o Anjo (Apocalipse 22:9).
Que contraste entfe Pedro e o ídolo do Vaticano,
cujos pés beijam aviltados outros homens!

329
À pregação de Pedro na casa de Cornélio,
convertemse os primeiros gentios, a quem se abrem as
portas do Reino dos Céus.
6. Pelos anos de 41 a 44, segundo Godet, aparece S.
Pedro preso em Jerusalém, por ordem de Herodes
Agripa (Atos 12:3-7).
Libertado pelo Anjo, vai bater à porta de Maria, mãe
de Marcos, onde irmãos reunidos oravam por ele.
Tendolhes contado sua libertação miraculosa, “saindo
dali partiu para outro lugar”, diz o escritor sagrado (v.
17).
Desta expressão — partiu para outro lugar, conclui
Thiersch que ele partiu para Roma.
Com razão observa Godet, eminente crítico, que tal
conclusão é interamente gratuita. Por que ocultaria o
escritor tão importante e longínqua viagem?
“Demais — continua Godet — nesta época (41 a
44), Pedro dificilmente poderia ter chegado até Roma,
pois, em Antióquia, na Ásia. O próprio Paulo, o grande
pioneiro do Evangelho do lado do Ocidente, não havia
ainda, em 42, posto pé no continente europeu e pregado
na Grécia... A combatem hoje a ideia da residência de S.
Pedro em Roma sob o reinado de Cláudio”. (Com, sur
l’épitre aux Romains, págs. 86, 87).
7. Em 50 ou 51, reuni-se o célebre concílio de
Jerusalém, conforme Schaff, Godet e a generalidade dos
teólogos (Atos 15:1-34). S. Pedro estava presente, e
mais uma vez mui distante de Roma, e do papa, seu
pseudo-sucessor.
Os cristãos de origem judaica, ergueram-se contra
os ensinos de Paulo e Barnabé, que não sujeitavam os
conservos do gentilismo à obediência de certos
preceitos da lei de Moisés, tais como a circuncisão, a
330
páscoa, os sacrifícios, e outros ritos levíticos do
cerimonial religioso.
Tolerava S. Paulo que continuassem a observar
esses ritos os que a eles estavam afeitos pela educação,
mas recusava absolutamente admitir que se impusesse
esse jugo legal à liberdade dos cristãos de ordem
gentílica, como queriam os fariseus (Atos 15:1).
Forte controvérsia ia cindinco o cristianismo
apostólico em dois grupos — o judaico e gentílico.
O partido judeu-cristão ou judaizante olhava pra
Pedro, Tiago e João, como seus chefes, e desprezava a
Paulo como um intruso no Apostolado.
Paulo teve uma revelação íntima (Gálatas 2:2) para
ir conferenciar com os Apóstolos e irmãos em
Jerusalém, e também a Igreja de Antioquia, em cujo seio
brotara vivo o conflito, resolveu enviar a Paulo, Barnabé
e alguns outros irmãos para, no seio da igreja-mãe de
Jerusalém, decidirem a questão (Atos 14:26).
É evidentemente fantástica a contradição
imaginada por Baur, chefe da escola de Tübingen, entre
a revelação de Paulo e a resolução da igreja de
Antióquia: a coincidência entre o fato subjetivo de que
nos fala S. Paulo em sua epístola aos Gálatas (2:2), e o
fato objetivo de que trata S. Lucas nos “Atos dos
Apóstolos” (15:2), indica apenas a unidade do Espírito
quw dirigia a Igreja.
Dois eram os pontos controversos, que se deviam
resolver nesse primeiro sínodo da igreja primitiva: 1º as
relações da Igreja cristã com Judaísmo; 2º as relações
com S. Paulo com S. Pedro e os outros Apóstolos.
Reune-se o concílio, os Apóstolos e os anciãos (Atos
15:6) examinam o assunto. Não ocupa S. Pedro nessa
assembleia eclesiástica nenhuma das posições que o
331
papa ou seus legados reclamam séculos depois. Ele não
a preside, não fala primeiro, nem por último resolvendo
a questão.
A presidência parece ocupá-la Tiago, que fala por
último propondo a solução aceita.
Após largo debate (v. 7), é que Pedro se levanta
para falar.
Rejeita ele francamente a posição que o partido
judaízante lhe queria dar (v. 10), e apoia, sem reserva a
atitude assumida pelo seu colega Paulo.
S. Paulo nos dá conta, no supramencionado capítulo
segundo de sua epístola aos Gálatas, do segundo ponto.
Foram solenemente reconhecidos os direitos de
Paulo ao apostolado dos gentios no mesmo pé de
igualdade que os direitos de Pedro ao apostolado dos
judeus (v. 7, 8).
Os dois apostalados receberam a autoridade direta
do mesmo Senhor (v. 8), e “Tiago, Pedro e João que
pareciam ser as colunas... deram a Paulo e a Barnabé as
destras de companhia” (v. 9).
Como se vê, a nobre atitude de S. Pedro neste santo
concílio, não somente confundiu os doutores
judaizantes de Jerusalém, senão também os de Roma,
que, no decurso dos séculos, se tem revelado nas
pretensões do papismo.
8. Em 51 ou 52, logo depois do concílio de
Jerusalém, segundo Schaff, S. Pedro e São Paulo se
encontraram em Antióquia, capital da Síria.
A igreja desta importante cidade da Ásia, fundada
por Paulo e Barnabé, tornou-se a mãe da cristandade
gentílica, no dizer do ilustre historiador acima citado,
assim com a igreja de Jerusalém era mãe e o centro da
cristandade judaica.
332
Foi em Antióquia que os discípulos de Cristo
deixaram de ser conhecidos como a “seita dos
nazarenos”, e receberam o nome de cristãos (Atos
11:26).
S. Paulo é que nos narra o seu encontro com S.
Pedro nessa cidade, em sua epístola aos Gálatas 2.
Em sua narrativa conta-nos o Apóstolo dos gentios
a colisão que teve com seu colega, com o fim de assinalar
aos judaizantes da Galácia, que lhe eram infensos, a
independência de seu apostolado em face do mais
antigo e respeitável dos Apóstolos.
Estudemos o incidente, que vem ao encontro de
nosso propósito.
O concilio de Jerusalém, adjudicando a palma da
vitória a S. Paulo, apenas abrira tréguas na guerra tenaz,
que lhe movia o espírito exclusivista dos judalzantes.
De acordo com os princípios liberais, que
francamente expuseram no concílio, S. Pedro não se
recusava em Antióquia a comer com os seus irmãos de
origem gentílica, à mesa do Senhor provàvelmente
(Gálatas 2:12), imitando neste particular o
procedimento correto de S. Paulo.
Eis que chegam em Antioquia os enviados de Tiago,
bispo de Jerusalém, representantes das ideias
conservadoras e exclusivistas dos judeu-cristãos.
S. Pedro vacila mais uma vez “com mêdo de ofender
aos que eram da circuncisão”, subtrai-se, separa-se das
mesas de seus irmãos incircuncisos, no que é
acompanhado por muitos e, até, por Barnabé,
companheiro de Paulo (vs. 12, 13).
Era manifestamente uma incoerência prática de S.
Pedro, que punha em perigo os grandes princípios
liberais do Cristianismo apregoados por seu eminente
333
colega, e já firmados nos decretos do sínodo de
Jerusalém.
Ergue-se, pois, Paulo e resiste a Pedro “na cara”,
publicamente (v. 11). Mostra a sua incoerência, em
querer agora, pela sua simulação, obrigar seus irmãos
gentios a judaizar, negando assim mais uma vez o Divino
Mestre, que pelo seu sacrifício nos libertou, mediante a
fé, das obras da Lei (vs. 14-16).
O golpe foi vibrado com mão de mestre, e calou
fundo no ânimo dos judaizantes. Paulo terá de pagar
caro a sua coragem, ousadia e zêlo pela verdade: na
Galácia e em Corinto terá de verter lágrimas em acirrada
luta contra seus adversários despeitados, que
procurarão em Roma cobrir de des prêzo e ridículo a sua
memória veneranda.
A S. Pedro, entretanto, não cabe nenhuma censura
nos sofrimentos de seu colega. Portou-se ele com suma
humildade na repreensão pública de seu igual no
Apostolado, e não guardou em seu coração o mínimo
vestígio de ressentimento, pois escrevendo, doze ou
treze anos, mais tarde, a sua segunda epístola, refere-se
a Paulo, chamando-o de “caríssimo irmão Paulo”.
Todavia Pedro demonstrou mais uma vez que apesar de
significar pedra o seu nome, não oferecia a sua pessoa a
solidez necessária para sobre ela edificar-se a Igreja
imperecível de nosso Senhor Jesus Cristo.
“A inconsistência — reflexiona P. Schaff — é a
característica de sua têmpera impulsiva, que o faz
tímido ou corajoso, conforme a natureza da impressão
do momento”.
Em todo o caso, a atitude enérgica de São Paulo e a
nobre submissão e santa humildade de S. Pedro em

334
Antioquia fazem “explodir a ficção romana da
supremacia e infalibilidade papal”.
9. Temos ainda no N. Testamento uma prova segura
de que em 58 da era cristã não estava S. Pedro em Roma,
nem podia ter aí estado até essa data.
É ela fornecida pela importante epístola aos
Romanos escrita por Paulo nesse tempo, segundo o
consenso dos críticos.
De Corinto, onde se achava, escreve o Apóstolo dos
gentios a. sua mais importante epístola doutrinária e
prática à igreja cristã, que já nessa época florescia na
cidade de Roma, grande centro dp paganismo.
Esse importantíssimo documento justifica várias
considerações pelas quais se vê que S. Pedro ali não
residia, nem residira, como fundador e bispo daquela
igreja.
Em primeiro lugar, se Pedro ali tivesse a sede de
seu episcopado, S. Paulo não invadiria anàrquicamente
diocese alheia. Haveria na igreja quem autorizadamente
doutrinasse e exortasse o povo. Tanto mais que na
mesma epístola declara S. Paulo que ele tinha por
princípio “não edificar sobre fundamento alheio”
(Romanos 15:20.).
Não é, pois, crível que ele se tivesse esquecido de
seus próprios princípios e da cortesia devida a seu
colega.
Além disso, a epístola termina saudando
nominalmente para mais de vinte irmãos, e, entre estes,
não se lê o nome de S. Pedro (Romanos 16:1-15).
Absolutamente é incompreensível que fossem saudadas
as ovelhas e não o pastor.
Admitida ainda a hipótese, aliás improvável, de que
S. Paulo soubesse estar S. Pedro ausente de Roma,
335
quando enviou a carta por mão da irmã Febe (Romanos
16:1), não se justificaria mesmo assim o ter ele escrito a
sua pastoral, e muito menos que nela não fizesse
menção cortês ao alto dignitário daquela igreja.
A epístola aos Romanos varre, pois, a hipótese de
ter estabelecido S. Pedro, até o ano 58, sua sede
episcopal em Roma.
Revelanos ainda esta importante epístola,
monumento teológico do Cristianismo, que, vinte e oito
anos depois da Ressurreição, já existia na longínqua
capital do paganismo uma igreja cristã numerosa, “cuja
fé era divulgada em todo o mundo” (Romanos 1:8).
Quem foi o seu fundador?
Problema interessante é este, aberto às conjeturas
dos sábios investigadores dos velhos arquivos.
S. Pedro e S. Paulo são, pela unânime tradição dos
primeiros séculos, proclamados os fundadores dessa
igreja, que deveria mais tarde reclamar, como
recompensa aos reais serviços que prestou à
cristandade primitiva, o título blasfemo de “mãe e
senhora de todas as igrejas cristãs”.
A alta crítica moderna de abalizados historiadores
tem demonstrado à saciedade o nulo fundamento de tão
generalizada tradição.
Do resultado dessa crítica nos temos valido para
mostrar que Pedro e Paulo, como fundadores da igreja
de Roma, são um mito semelhante ao de Rómulo e Remo
fundadores da cidade.
Conjeturam Godet, Greenwood e muitos outros
conceituados autores que a igreja em Roma teve a sua
origem em alguns dos “forasteiros de Roma”, que, na
festa de Pente coste, em Jerusalém, ouviram pela
primeira vez o Evangelho dos lábios inspirados de S.
336
Pedro, e, convertidos, foram, na providência de Deus, os
anônimos fundadores da comunidade, a qual, por causa
da grandeza e importância, adquiriu ràpidamente larga
notoriedade e influência no seio da cristandade, a ponto
de atrair a atenção e cuidadosa solicitude do grande
Apóstolo dos gentios, manifestada na epístola que
acabamos de considerar.
Esta plausível hipótese tem a vantagem de explicar
como é que o nome de S. Pedro está sempre ligado à
fundação de Roma sem haver, prova nenhuma positiva
de sua presença nessa cidade, pelo menos trinta e tantos
anos depois desse fato, isto é, até as vésperas da morte
de S. Paulo, como veremos.
10. Em 60 d.C., estava S. Pedro em Babilônia, pois
dessa cidade data ele a sua l.a epístola: “A Igreja que está
em Babilônia vos saúda, e Marcos meu filho” (1 Pedro
5:13).
O cardeal Barônio, segundo Eliot, dá a esta epístola
a data improvável de 45 d.C., porém a maioria dos
críticos opinam pelo ano 60.
Ele endereça a carta “aos estrangeiros que estão
dispersos pelo Pôrto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia”
(1 Pedro 1.1).
Assim, pois, em 60 ou mesmo em 45, S. Pedro
estava liem distante de Roma, em longínqua cidade da
Ásia, e, no exercício de seu apostolado da circuncisão,
dirigese aos judeus dispersos pelas várias regiões do
Oriente.
Querem, entretanto, os teólogos do Papado tirar da
expressão — “Igreja de Babilônia” — a prova de que S.
Pedro estava em Roma, pois Babilônia é o nome místico
ou figurado de Roma.

337
Sobre este assunto escreve o Dr. W. Smith em seu
Dictionary of the Bible:
“Em apoio da opinião de que Babilônia designa
tropicamente Roma (em 1 Pedro 5:13), citam uma
tradição narrada por Eusébio (H. E. II-15) com a
autoridade de Papias e Clemente de Alexandria, para
mostrar que a 1 Pedro foi escrita em Roma. Œcumenius
e Jerônimo afirmam que Roma era figurada por
Babilônia”.
Esta opinião, diz ele, deve ser rejeitada, visto que
nada há que indique ser o nome (Babilônia) aí usado
figuradamente, maxime porque a data de uma epístola é
o último lugar em que se deve esperar encontrarse úma
designação mística.
“De todas as conjeturas, a mais natural, continua
Smith, é que Babilônia indica a velha Babilônia da
Assíria, que nesse tempo era largamente habitada por
judeus (Josefo, Ant. XV-3 § 1; Filo, De Virt, p. 1023, ed.
Franc. 1691)”.
O eminente professor de Cambridge e bispo de
Durham, o Rev. John Lightfoot, opina no mesmo sentido
que Babilónia da Assíria era nesse tempo o maior centro
ou nó (knot) dos judeus no mundo, e S. Pedro era o
ministro da circuncisão.
De fato, não é crível que no estilo epistolar, que se
distingue pela simplicidade e singeleza didática,
empregasse Pedro uma figura que traria
necessariamente ao espírito dos “estrangeiros
esparsos” por várias regiões da Ásia, a confusão sobre o
lugar onde ele estava, e sobre quem os saudava.
Além disso, só quarenta e tantos anos mais tarde é
que a figura recebeu a sanção do N. T. com a publicação
do Apocalipse, no fim do primeiro século. Antes do
338
Apocalipse, não consta, segundo observa Eliot, que
escritor algum chamasse Roma de Babilônia.
Assim se desfaz, como o pó diante do vento, a
melhor prova que os defensores do Papado possuem da
estada de S. Pedro em Roma. É, de fato, a única que eles
podem invocar no N. T.
11. Em 63 ou 61 d.C., chega S. Paulo preso a Roma.
S. Lucas, seu companheiro e historiador, depois de
descrever a penosa travessia do Mediterrâneo e o
naufrágio junto à ilha de Malta, diz que eles embarcaram
em navio de Alexandria que levava por insígnia Castor e
Polux, chegaram, a Régio e daí a Puzzolo, “onde —
continua — como achamos irmãos, eles nos rogaram
que ficássemos em sua companhia sete dias, e, passados
eles, tomamos o caminho de Roma, donde, porém, tendo
os irmãos novas que chegávamos, saíram a receber-nos
à Praça de Ápio, e às Três Vendas. Paulo, como os viu,
dando graças a Deus, cobrou ânimo” (Atos 28:11-15).
S. Pedro com certeza ali não se achava nessa
ocasião; do contrário, S. Lucas teria assinalado
nominalmente a sua presença entre os irmãos, que
vieram ao encontro do velho Paulo trazer-lhe a palavra
de amor e conforto.
Ainda mais: três dias depois de sua chegada,
gozando de certa liberdade em sua prisão, convoca S.
Paulo os principais dos judeus e estes lhe pedem que
lhes fale sobre a “seita” a respeito da qual nada sabem,
se não que “em toda. a parte, a impugnam” (Atos 28:17-
22).
Ora, não é absolutamente crível que, sendo S. Pedro
bispo naquela cidade desde o ano 41 (havia, portanto,
mais de 20 anos), conforme quer a tradição romana, e
sendo o Apóstolo dos judeus, tivesse deixado,
339
entretanto, os representantes da colônia judaica na
completa ignorância sobre a “seita dos Nazarenos”, isto
é, sobre o Evangelho de Jesus Cristo.
Diante destes fatos, afirmar que S. Pedro nessa
ocasião residia em Roma, como bispo exclusivo daquela
diocese, é representa-lo sob uma luz mui desfavorável a
seu caráter apostólico.
12. Em 66 d.C., ainda S. Pedro não residia em Roma,
pelo menos aí não se achava, como vamos ver. É esse o
ano do martírio de S. Paulo e de S. Pedro nessa cidade, a
crermos na tradição papal.
A hipótese natural é que em 63 não tinha ainda S.
Pedro estabelecido a sede de seu imaginário governo na
“cidade eterna”.
A maioria das autoridades colocam, de fato, o
martírio de S. Paulo em Roma entre A. D. 64 e 66.
Conibear e Howson o colocam em 68.
Escrevendo a Timóteo nas vésperas de seu suplício,
diz o grande lutador: “Eu estou a ponto de ser
sacrificado, e o tempo de minha morte se avizinha” (2.
Timóteo 4:6).
E, continuando, diz, cheio de tristeza: “Nenhum me
assistiu na minha primeira defesa, mas todos me
desampararam; permita Deus que isto lhes não seja
imputado. Mas o Senhor me assistiu e me confortou,
para que fôsse cumprida por mim a pregação e a
ouvissem todos os gentios, e assim, fui livre da bôca do
leão”. (2 Timóteo 4:16-17).
Ora, S. Pedro não pode estar envolvido nesta queixa
de seu colega, e nem por longe podemos nós supor que
ele tivesse medo da “boca do leão”.
Logo ele não podia estar em Roma nesse tempo.
Dirseá, porém, que estava, mas prêso como seu colega,
340
e assim se explica a razão por que não lhe assistiu na sua
primeira defesa.
Não satisfaz a hipótese, pois não é plausível que
Paulo, derramando suas queixas no coração de seu
amigo Timóteo, por se achar isolado nas prisões de
Roma, se esquecesse de mencionar, entretanto, que com
ele gemia nas mesmas prisões o mais velho dos
Apóstolos, aguardando como ele a hora do sacrifício.
O nobre caráter do Apóstolo dos gentios, o largo
amor e infinda ternura, que se abrigava em seu amplo
peito, autorizam a forte presunção moral, de que S.
Pedro não estava, prêso e muito menos livre na cidade
de Roma quando S. Paulo desaba ava, em carta íntima, o
seu coração contristado pelo indigno procedimento de
seus irmãos.
De seu cativeiro em Roma, enquanto esperava o
resultado do processo a que foi submetido como o
instigador de insurreições entre judeus e chefe das
seitas dos Nazarenos (Atos 24:5), S. Paulo, além da
epístola a Timóteo, a que nos referimos, escreveu
quatro outras, entre os anos de 61 e 63 — aos
Colossenses, Efésios, Filipenses e a Filemon. Em
nenhuma delas faz referencia a S. Pedro, embora se
declare nelas “o prisioneiro de Jesus Cristo”, e transmita
aos Filipenses as saüdacões de seus irmãos da “casa de
César” (4:22).
A presunção moral, pois, é decisiva contra o fato
tradicional de ser S. Pedro nesse tempo bispo de Roma.
Uma dupla impressão recebe o que segue atento as
pegadas de S. Pedro nos trinta anos da história
apostólica do N. T.: é a grande distancia geográfica que
o separa de Roma e a grande distância moral e religiosa
que o separa do pontífice romano.
341
Nem histórica, nem moral nem dogmaticamente o
venerado Apóstolo tem, nos escritos divinos do
Cristianismo, laços especiais de solidariedade dos
títulos apostólicos do bispo de Roma.
Acompanhando cronologicamente os passos de S.
Pedrop através dos documentos canônicos da religião
cristã, e apoiado em abalizados críticos modernos,
assinalamos a presença do célebre Apóstolo da
circuncisão bem longe da sede papal, em vários lugares
da Ásia, nas seguintes datas:

A. D.
Em Jerusalém 33
Em Samária 34
Em Jerusalém 40
Em Jerusalém 44
Em Jerusalém 48-50
Antioquia 52-54
Não estava em Roma
na data da epístola aos Romanos 58
Em Babilônia, na data de sua lª Epístola 60
Não estava em Roma durante a prisão de
S. Paulo nessa cidade 61-63
Não estava ainda na data do martírio de
S. Paulo 64-66

São, pois, legítimas as seguintes conclusões:


1ª Não há, nos documentos inspirados do N. T., o
mínimo indício de ter S. Pedro estado em Roma até o
ano de 63 ou 66 d.C. E se ele aí esteve antes dessa época,
o que, como se viu, é altamente problemático, só poderia
ser de passagem ou com pouca demora. Ao Papado, pois,
falta mais este elo na cadeia de suas altas pretensões.
342
Sobre este assunto ouçamos abalizado historiador
eclesiástico.
“O completo silêncio dos Atos dos Apóstolos, no cap.
28 (chegada de S. Pedro a Roma) a respeito de Pedro,
bem como o silêncio de Paulo em sua epístola aos
Romanos, e nas epístolas escritas de Roma durante a
sua prisão aí, nas quais Pedro não é mencionado nas
saudações, são provas decisivas de que ele estava
ausente daquela cidade a maior parte do tempo entre 58
e 63. Antes do ano 58 é possível que tivesse havido
alguma visita casual, porém é isso extremamente
duvidoso em vista do fato que Paulo trabalhava
independentemente, e nunca edificava sobre
fundamento de outro (Romanos 15:20, 2 Coríntios
10:16); donde se vê que ele provavelmente nunca teria
escrito sua epístola aos Romanos, e, se a escrevesse,
nunca sem fazer alusão a Pedro, caso tivesse ele sido, no
sentido próprio, o fundador da Igreja de Roma...
Concluímos, portanto, que a presença de Pedro em
Roma antes de 63 é extremamente duvidosa, se não
impossível, por causa do silêncio de Lucas e Paulo,
quando falam ou escrevem de Roma, e que a presença
dele nessa cidade depois de 63 não pode ser provada
nem improvada pelo N. Testamento, mas só pode ser
decidida por testemunhos pós-bíblicos” (P. Schaff, H. of
the C. Church, V. I., págs. 250, 251).
2ª Absolutamente não podia S. Pedro ter sido bispo
de Roma 25 anos, de 42 ou 44 a 67 ou 69.
“A tradição romana de 20 ou 25 anos de episcopado
de S. Pedro em Roma é sem contestação um erro
cronológico colossal”, diz o mesmo ilustre historiador
supracitado.

343
Se admitirmos a hipótese absurda, de ter sido S.
Pedro bispo de Roma durante 25 anos, força seria convir
em que ele não soube cumprir os deveres rudimentares
de bispo, assinalados por S. Paulo (Atos 20:28). Em
prolongadas ausências de sua diocese, nas constantes e
longínquas viagens missionárias no Oriente, não pode
ele vigiar o seu rebanho contra os lobos vorazes. Ora,
reconhece a Igreja Romana que o dever primordial de
um bispo é estar sempre à testa de seu rebanho.
Acode o cardeal Barônio, para salvaguardar a honra
episcopal de S. Pedro, no mau exemplo de andar sempre
ausente de sua diocese, com a hipótese de que, quando
Cláudio expulsou os judeus de Roma, em 42, S. Pedro foi
obrigado a ausentar-se por todos os longos anos sobre
que projeta luz o N. T. (An. LVIII. § 51. apud., Dr. Salmon,
pág. 350). E quanto às subsequentes ausências,
acrescenta ainda o ilustre historiador romano,
explicam-se pelos deveres que lhe impunham os
cuidados de todas as igrejas, como chefe que era dos
Apóstolos.
Sobre ser inteiramente gratuita a primeira
hipótese, poder-se-ia dizer com o Dr. Salmon — por que
assumiria então Pedro deveres diocesanos em Roma,
que ele não podia desempenhar? A verdade é que Pedro
absolutamente não foi bispo de Roma, onde a história
inspirada da Igreja não oferece o mais ligeiro indício de
ter sido a sede de seu governo. E não o foi por duas
razões mais: a) o Apostolado era incompatível com o
episcopado, e b) não havia ainda, nos tempos
apostólicos, episcopado, em sentido técnico e restrito da
palavra, no governo hierárquico da Igreja.
Sobre este assunto escreve o régio professor de
teologia na Universidade de Dublin: “Não só julgamos
344
absurdo falarse de um Apóstolo como bispo de Roma,
mas também, sem de modo nenhum querer negar a
origem apostólica do episcopado, cremos ser um
anacronismo falarse de quem quer que seja como bispo
de Roma em 42” (The Infallibility oi the Church, pág.
357).
Os Apóstolos eram superiores hierárquicos e
exerciam não só os poderes exercidos pelos bispos em
tempos posteriores, mas ainda maiores. Eram eles, por
assim dizer, bispos universais, cuja diocese era o
mundo, e pela natureza de seus próprios cargos não
podiam prenderse a igrejas ou dioceses particulares.
Absurdo é, portanto, ser Pedro, na qualidade de
Apóstolo, bispo universal e mais do que bispo de todas
as dioceses da cristandade, e ser ao mesmo tempo bispo
local ou particular de Roma. O mesmo fora dizer que o
Presidente federal poderia ser simultâneamente
governador do Estado de São Paulo, ou o governador
estadual, ao mesmo tempo, prefeito municipal. Demais
o episcopado, tal como hoje existe na Igreja Romana e
na Igreja Anglicana, só aparece no segundo século, como
reconhece von Dóllinger, iliistre historiador católico (E.
Primitiva, II. 130, apud. Dr. S., 356). Os bispos de que
trata o N. T., são equivalentes a presbíteros, podendo
existir mais de um em uma igreja particular (Filipenses
1:1; Atos 20:28).
É, pois, um anacronismo falar-se no bispo de Roma
em 42 d.C.
3ª Não sondo S. Pedro bispo particular da igreja de
Roma, mais do que o foi de Jerusalém ou de Antioquia,
não podia ter por sucessor o bispo daquela igreja, nem
a ele transmitir qualquer autoridade apostólica
peculiar, que porventura possuísse.
345
Ainda mesmo que os bispos romanos fossem
sucessores dos Apóstolos, como o declara o concílio
Tridentino, e S. Pedro fosse o chefe dos Apóstolos, como
quer o Papado, não teria, mesmo assim, o bispo
particular de Roma títulos à herança dos Apóstolos dos
judeus. Nenhuma razão histórica legítima ou de
qualquer outra natureza tem o bispo particular, que há
séculos sustenta o seu cajado às margens do Tibre, para
arvorar-se em “bispo universal”, e a sua igreja em “mãe
e senhora” de todas as igrejas da cristandade. O Papado
é, pois, perante o Cristianismo puro do N. T., perante a
Igreja Apostólica, uma usurpação ousada uma
mistificação colossal.
Falece-lhe, por completo, base dogmática e
histórica no Livro de Deus, falecelhe inteiramente a
autoridade divina para exigir da cristandade obediência
sob pena de eterna maldição. Com que direito, em nome
de quem ou de que princípio, reclama o “papa”
reconhecimento de sua autoridade espiritual e
temporal, como condição necessária para a. salvação
eterna das almas imortais?
Mas, se é vedado às pretensões papais o terreno
sagrado do período apostólico, busca ele refúgio nas
tradições pós-apostólicas, e apoio na autoridade
extrabíblica.
Batido no campo da autoridade divina, vai o Papado
entrincheirar-se no testemunho falível da autoridade
humana.
Coisa estranha! a infalibilidade papal busca apoio
na falibilidade de tradições humanas, que a crítica não
pôde sequer firmar no terreno digno da história.
Acompanhêmo-lo, entretanto, no terreno
escorregadio das tradições patrísticas.
346
Testemunho dos Padres Apostólicos

O período apostólico vai até a morte de S. João,


cerca do ano 99 da era cristã.
Nerva baixava ao túmulo e Trajano assumia o cetro
do vasto império, quando se encerrava, com o último
suspiro do Discípulo Amado, a idade apostólica da
Igreja.
Rebusquemos nos documentos extracanônicos dos
escritores desses tempos o testemunho que não
encontramos nos documentos canônicos em abono da
estada de S. Pedro em Roma como sede do seu governo
episcopal e apostólico.
Em sua obra monumental — Cathedra Petri,
História politicai do grande Patriarcado Latino, o Dr.
Tomás Green wood, notável historiador alemão, analisa
todos os documentos invocados pelos defensores dos
títulos papais à famigerada herança de S. Pedro.
Nos amplos mananciais dessa obra prodigiosa
iremos buscar abundantes subsídios para o nosso
estudo.
Clemente de Roma, Papias de Hierápolis na Frigia,
Inácio de Antioquia, são os três nomes invocados no
período apostólico em abono da estada de S. Pedro em
Roma.
Clemente foi, segundo Bunsen, bispo de Roma pelos
anos de 78 e 86. Julga-se ser o mesmo mencionado por
S. Paulo em Filipenses 4:13.
“Como Pedro e na mesma causa, Paulo também
recebeu a recompensa da paciência: sete vezes foi
lançado em prisões, muitas vezes açoitado com varas, e
347
apedrejado; de sorte que, tendo sido o arauto do
Evangelho no Oriente e no Ocidente, recebeu as honras
da fé; porquanto, depois de ter ensinado a justiça por
todo o mundo, e alcançado os extremos limites do
Ocidente, deus ele seu testemunho diante dos supremos
magistrados, e assim passou deste mundo e entrou na
morada dos bemaventurados, tendo deixado para todos
um nobre exemplo de paciência.”
Há neste trecho manifestamente uma alusão ao
martírio de Pedro e ao de Paulo, mas não se diz onde
nem se foram simultâneos. Ao martírio de Pedro é vaga
a alusão, e, parece, até, não coincidir ele com o de Paulo.
Tirar, pois, deste tópico da epístola de Clemente a
conclusão de que Pedro e Paulo morreram juntos em
Roma, é levar a conclusão muito além das premissas.
Papias, bispo de Hierápolis e discípulo, segundo se
crê, do Apóstolo S. João, pouca luz traz ao ponto em
questão. Seus escritos se perderam, e apenas Eusébio,
historiador eclesiástico do meado do 4º séc., nos
informa ter ele declarado que ouvira de “João o
Presbítero” ter Marcos, secretário de S. Pedro, escrito o
seu Evangelho exatamente como ouvira dos lábios de
Pedro. Contanos ainda Papias, segundo Eusébio, que S.
Pedro, seguindo Simão Mago (Atos 8:18-20) a Roma,
onde este sc fizera adorar, fez tais milagres que acabou
com a impostura e a vida de Simão. Os ouvintes de Pedro
maravilhados podem a Marcos que lhes deixe alguma
memória escrita dus doutrinas daquele. Pedro,
informado “por uma revelação do Espírito Santo” do que
fizera o seu discípulo e do santo zelo de seus ouvintes,
deu solene sanção ao escrito.
Pouco adianta esta notícia fragmentária e confusa,
que mais de três séculos depois extrai Eusébio dos
348
escritos perdidos de Papias. Demais o mesmo Eusébio
dá pouco valor às narrações maravilhosas e anedóticas,
observando que — “ele lhe pareceu ter sido um homem
de fraca inteligência, como é evidente de seus livros (H.
E. lib. III., cap. 39).
Inácio, bispo de Antioquia, é a terceira testemnnha
do período apostólico invocada pelos teólogos do
Papado.
Eleito bispo em 69 da era cristã, logo depois da
morte de Pedro e S. Paulo, e em vida ainda de S. João, foi
condenado pelo imperador Trajano a ser lançado aos
leões no Coliseu, em Roma, entre os anos de 107 e 116,
pela firmeza com que confessara a sua fé em Jesus
Cristo.
Em seu longo trajeto ao lugar de seu martírio,
escreveu ele cartas de exortação a várias igrejas. Na
carta que escreveu à igreja em Roma, diz ele: “Eu não
sou vosso mestre como Pedro e Paulo o foram; pois eles
eram apóstolos e eu um condenado; eles eram homens
livres, porém eu sou um escravo até esta hora; mas se
eu sofro, torno-me um liberto de Jesus Cristo, e nele eu
me erguerei homem livre.”
O que aí temos é apenas a associação dos nomes de
Pedro e Paulo, como mestres ou doutores dos cristãos
em Roma.
Esta íntima associação, porém, que se nota
igualmente em seu contemporâneo Clemente de Roma,
“não tem, pondera Greenwood, um caráter tão positivo
que exclua explanações de outras fontes de informação.
Alega-se com grande plausibilidade que os ministérios
distintivos de cada um deles — o de Pedro da
circuncisão e o de Paulo da incircuncisão —
reconhecidos por eles mesmos (Gálatas 2:7), tornara-se
349
assunto de notoriedade em toda a Igreja. Estas duas
funções reunidas compreendiam um ministério
completo, de sorte que a associação dos nomes era antes
uma associação de ideias, do que de pessoas. Os nomes
Pedro e Paulo viriam assim representar a comunidade
ou união do ministério dos judeus e dos gentios,
fundamento ou coluna dupla da dispensação evangélica,
sentido este que frequentemente tem em vista
escritores cristãos subsequentes” (Co. Petri, Liv. I. pág.
24).
Realmente, este tópico da carta de Inácio não
afirma positivamente que Pedro estivesse
pessoalmente doutrinando em Roma, mas apenas
declara que ele, Inácio, escrevia aos cristãos judeus e
gentios, que reconhecidamente compunham a igreja
cristã dessa cidade, não com a autoridade com que
escreveram Pedro e Paulo, os mestres inspirados do
mundo judaico e gentílico. Onde chegaram as epístolas
destes dois representantes do Apostolado, aí foram eles
realmente mestres, sem haver, em rigor, necessidade da
presença pessoal deles.
Escrevendo hoje a qualquer igreja cristã na
América, poderíamos usar com toda a propriedade da
mesma expressão, principalmente se quiséssemos,
como Inácio contrastar a humildade de nosso ensino
com o desses luminares do Cristianismo.
Eis tudo quanto nos padres chamados apostólicos
podem respigar em abono da estada e residência de S.
Pedro em Roma. Ao silêncio dos escritores sagrados e às
provas categóricas da cronologia do Novo Testamento,
apenas opõem frases vagas que não autorizam
nenhuma conclusão segura, dos escritores
contemporâneos dos Apóstolos.
350
Assim, pois nos escritos dos Apóstolos e dos padres
apostólicos nada há que justifique a afirmação de ter
estado S. Pedro em Roma, e muito menos de ter ele feito
dessa cidade a sede de seu governo episcopal e
apostólico.
O período apostólico encerra-se com a morte do
último Apóstolo, S. João, em 99 da era cristã. Segue-se o
período pós-apostólico, que contém o sub-apostólico, o
qual vai até a morte de Policarpo em 155, último
discípulo dos Apóstolos.
No período apostólico nada encontramos, quer nos
documentos bíblicos, quer nos documentos
extrabíblicos, que possa dar plausibilidade à tradição
romana do episcopado de S. Pedro em Roma.
O papa Bonifácio VIII declarou ser condição
necessária, à salvação eterna, submissão ao Papado,
obediência ao papa, que é Deus na terra, Deus in terris. E
este ainda o ensino dos teólogos infalibilistas da Igreja
Romana e o sentimento geral dos católicos
ultramontanos.
Como é, pois, que tão tremendas pretensões não
encontram sequer sombra de apoio nos documentos
canônicos e extracanònicos do período apostólico?
Falece inteiramente aos títulos do Papado, durante
a vida dos fundadores do Cristianismo, enquanto
viveram e respiraram na terra Cristo e seus Apóstolos,
qualquer fundamento dogmático ou histórico.
Julgamos tê-lo demonstrado cabalmente nas
páginas que até aqui temos escrito.
Para os católicos sinceros que ainda crêem existir
uma base dogmática para o Papado no Tu es Petrus, não
pode deixar de impressionar a completa ausência de
fundamento histórico, exatamente no tempo em que a
351
história poderia oferecernos alguma certeza divina no
caráter sagrado ou semisagrado dos escritores.
É evidentemente fatal à teologia infalibilista este
silêncio sistemático da história da Igreja primitiva.
Exclusivamente entregues ao testemunho humano
dos tempos pós-apostólicos se acham os supremos
interesses papais!
Nas tradições meramente humanas devemos
buscar os títulos divinos do Papado!
Triste ironia nos séculos! a infalibilidade do papa
tem por sustentáculo o testemunho falível de uma
tradição confusa e contraditória, a que a crítica histórica
não pode dar os foros de fatos comprovados, e onde teve
de desvendar muitas fraudes manifestas.
Teremos ocasião de demonstrálo no decorrer deste
estudo; por agora passemos em revista os autores pós-
apostólicos citados em abono da presença de S. Pedro
na sede do Papado.
Abre-se um claro significativo na tradição durante
a primeira metade do segundo século, que compreende
os tempos sub-apostólicos, já estudados.
Após Clemente, Papias e Inácio, emudece por algum
tempo a vaga e incerta tradição da estada de Pedro em
Roma. Em Barnabé, Policarpo e Hermas, escritores
eclesiásticos, sub-apostólicos, contemporâneos
daqueles, não encontramos dela vestígios (C. Petri Co. II,
pg. 29).
Na geração seguinte de escritores cristãos, aparece
na primeira linha Dionísio, bispo de Corinto, como o
esteio principal da tradição romana.
Este escritor floresceu em 170 d.C., e, dele
conservou Eusébio (325) um fragmento de uma carta
dirigida a Soter, bispo de Roma, onde se lê o seguinte
352
tópico: “Assim também agora vós por esta vossa
admoestação tendes de novo misturado em uma aquela
plantação dos romanos e coríntios, que foi a princípio
semeada por Pedro e Paulo; pois ambos, tendonos
plantado aqui em Corinto, ensinaramnos da mesma
maneira, e então tendo ensinado na Itália da mesma
maneira e lugar, deram eles seu testemunho (martírio)
cerca do mesmo tempo”. (C. P. 1. I, c. II. pg. 30). Este é o
documento mais antigo e positivo em abono da
presença de Pedro em Roma, que, entretanto, nada
aproveita à tradição papal, visto que associa S. Paulo à
fundação da Igreja de Roma, prejudicando a ideia de um
episcopado exclusivo de S. Paulo, a que aliás nem sequer
alude.
Entretanto, a simples presença de S. Pedro em
Roma, única inferência legítima deste documento
fragmentário, é enfraquecido pelas seguintes
ponderações:
1ª O trecho é confuso e os termos vagos; grande
divergência tem provocado a sua tradução (do original
grego).
2ª Pedro é aí considerado como fundador da igreja
de Corinto, quando sabemos pelos Atos dos Apóstolos
(18:11) que São Paulo é o seu exclusivo fundador.
3ª Pedro e Paulo são aí considerados plantadores
ou fundadores na igreja de Roma, quando sabemos
igualmente pelos Atos dos Apóstolos (28:15) e pela
epístola aos Romanos, que antes de Paulo desembarcar
em Roma já aí existia uma igreja numerosa. Mui
provavelmente cabem aqui as considerações de
Greenwood que atrás transcrevemos sobre a associação
dos dois Apóstolos dos judeus e dos gentios. Um
elemento judaizante ou petrino e um elemento gentílico
353
ou paulino, existentes em Corinto e Roma, reclamavam
a invocação dos dois nomes como o fundamento
completo desses dois grandes centros do Cristianismo
primitivo. E se Pedro podia ser invocado como
plantador ou fundador da igreja de Corinto, sem que o
fôsse no sentido rigoroso do têrmo, e o mesmo podia
acontecer em relação a Roma, é claro que o mesmo
raciocínio podemos aplicar a Pedro com respeito à
fundação da igreja de Roma. As expressões de Dionísio
não nos autorizam a concluir a presença pessoal de
Pedro no início da igreja em Roma, mais do que a sua
presença nas mesmas condições em Corinto, ou a de
Paulo na cidade dos sete montes.
4ª As vagas expressões do bispo de Corinto não nos
dizem se os dois Apóstolos foram plantadores das duas
igrejas pelo ensino falado ou escrito, pela palavra
pregada ou escrita em suas imortais epístolas, que
incontestavelmente circulavam em todas as igrejas
apostólicas, doutrinando a todos nos fundamentos
imperecíveis do Cristianismo. As considerações do
parágrafo antecedente nos levam a julgar que o autor
não fazia distinção essencial entre o ensino oral e o
escrito. Deste modo os Apóstolos eram de fato os
plantadores de todas as igrejas cristãs, quer estivessem
presentes quer não, pois os seus ensinos é que eram o
fundamento autorizado. E Pedro e Paulo eram os
representantes do Apostolado, sendo, como tais,
constantemente citados na literatura patrística. Disto
concluímos que o testemunho de Dionísio, bispo de
Corinto, não oferece base segura para afirmarmos a
presença pessoal de Pedro em Roma.
Examinemos agora um outro de grande valor: é o
de santo Irineu, bispo de Lião, na Gália, diseipulo de S.
354
Policarpo, que o foi de S. João. Pelo ano de 178, tendo
vindo ele do Oriente, foi eleito bispo nessa importante
comunidade do Ocidente.
Ativa polêmica teve ele de sustentar contra as
heresias gnósticas, que formigavam em seu tempo.
Contra as igrejas heréticas teve de manter os direitos
das igrejas ortodoxas, como as legítimas representantes
do verdadeiro Cristianismo. Dos seus escritos só existe,
informanos Greenwood, uma obra contra os hereges, e
esta em uma imperfeita versão latina.
Em um tópico dessa obra, escreve ele: “Para não
enumerar a sucessão tepiscopal de todas as igrejas,
temos por costume confundir os adversários
opondolhes as tradições que a maior, a mais antiga (?) e
mais bem conhecida de todas as igrejas, a igreja fundada
pelos gloriosos apóstolos Pedro e Paulo em Roma
(Maxima et antiquissima et omnibus cognita, a
gloriosissimio apostolis Paulo et Petro Romœ fundita et
constituta ecclesia) recebeu dos próprios Apóstolos; e
transmitiu por uma sucessão regular de bispos até
nossos dias. Conseguintemente é dever de cada um
recorrer a essa igreja por causa de sua preeminência
mais autorizada (potentiorem principalitatem) neste
respeito; e tal deve ser o procedimento do fiel em
qualquer parte em que se ache, porque naquela igreja as
tradições transmitidas dos Apóstolos são recebidas por
todos (C.P., Liv. I., c. II pg. 32).
Irineu, como se vê, repete a Dionísio, quanto à
fundação da igreja em Roma, portanto a ele se aplicam,
mutatis mutandis, as ponderações que sobre este
fizemos.
De fato, a associação insistente de Pedro e Paulo na
origem da igreja em Roma, que encontramos em Irineu,
355
Dionísio, Clemente e Papias, afasta a ideia de um
episcopado exclusivo de Pedro: o testemunho desses
santos padres primitivos dão o mesmo direito a Paulo,
coordenando-o com Pedro na implantação e
doutrinamento da “maior e mais antiga das igrejas
cristãs”.
Para o episcopado romano de S. Paulo teríamos
argumentos ponderosos, que falecem inteiramente para
o de S. Pedro. Em primeiro lugar, S. Paulo era apóstolo
dos gentios, e Roma a sede no gentilismo. Depois existe
uma pastoral de S. Paulo aos romanos, e não existe
nenhuma de S. Pedro; e, finalmente, há provas bíblicas
de ter estado S. Paulo em Roma, e não as temos em
relação a S. Pedro.
Incontestavelmente assinalado serviço prestou ao
Protestantismo o partido judaizante, que prevaleceu em
Roma na escolha de Pedro, como chefe; pois outras
seriam as dificuldades da polêmica, se a escolha tivesse
caído em Paulo, o grande e ativo Apóstolo do gentilismo.
Não somente Roma, senão também Antióquia,
Corinto e Alexandria reclamam S. Pedro como fundador
das respectivas igrejas. Também Efeso, onde S. João
residiu em seus últimos anos, invoca no mesmo sentido
o nome deste Apóstolo. Entretanto, sabemos dos Atos
que estes Apóstolos não foram os iniciadores dessas
comunidades cristãs.
Deste fato e no valor do têrmo original grego,
conclui o ilustre autor de Cathedra Petri que —
fundador, na literatura patrística, nem sempre indica o
iniciador de qualquer comunidade, mas também
designa uma personagem de grande distinção e mérito,
que toma parte em seu doutrinamento e consolidação.
Assim sendo, percebese a razão por que S. Pedro é, na
356
tradição patrística, considerado o fundador da igreja em
Roma, apesar de não abonarem os fatos a sua presença
nessa cidade.
Tendo essa igreja o seu início mui provavelmente
nos “forasteiros” convertidos por S. Pedro no dia de
Pentecoste em Jerusalém (Atos 2), o nome deste
Apóstolo ficou indelevelmente ligado à nova
comunidade, de que ele fora indiretamente fundador.
Ajuntai a esta consideração a circunstância,
geralmente reconhecida pelos críticos, de que o
elemento judaico era numeroso na jovem comunidade,
e que este elemento se instruirá com especial cuidado
nas epístolas do Apóstolo dos judeus, e tereis a chave
interpretativa da contínua associação de S. Pedro a S.
Paulo na fundação da igreja de Roma. Quanto ao grande
valor que Irineu dá à tradição apostólica na refutação
das pretensões gnósticas ao grêmio cristão, releva fazer
duas observações:
1º Irineu não se refere à igreja de Roma como “a
fonte exclusiva da tradição autêntica”. “Ele poderia —
escreve Irineu em parágrafo precedente ao tópico
citado — se lhe conviesse, enumeiar os bispos
instalados naquelas igrejas e seus sucessores até seus
dias, para mostrar que eles não tinham ensinado nada
de tudo aquilo com que sonharam os hereges; sendo,
porém, esse um processo por demais tedioso, escolhera
as tradições da igreja de Roma com que confutar as
falsidades e dissipar as ilusões dos hereges” (C. P. L. I, c.
II., pg. 33).
A preferência dada às tradições da igreja de Roma,
não se refere à pureza e autenticidade, mas à
contiguidade e notoriedade delas.

357
2º Na memória de Irineu, discípulo de Policarpo,
que o fora do Apóstolo S. João, como na memória de seus
contemporâneos da segunda geração, conservaram-se
vivos os ensinamentos orais dos Apóstolos do Senhor. A
torrente dos séculos não tinham ainda turvado a
límpida corrente, que as ficções e as heresias,
entretanto, já começayam a corromper.
Além disso poucos eram os que no seu tempo
podiam recorrer aos raros manuscritos canônicos,
existentes nos centros cristãos.
Era, pois, natural que, em tais condições, ele
apelasse, para repelir as perversões do gnosticismo
herético, ao ensino tradicional das igrejas cristãs, que
tinham gozado da vantagem da presença pessoal dos
Apóstolos ou de seus discípulos imediatos, ou que
possuíam as melhores oportunidades de coligir
informações autênticas dos fatos e doutrinas da
Revelação (Ib. p. 32).
O valor, portanto, que Irineu dava à tradição para
confundir os que se diziam falsamente seguidores dos
Apóstolos, nada tem de comum com a importância
decisiva que o Romanismo dá à tradição dos santos
padres.
Em relação ao testemunho de Irineu sobre a estada
de Pedro em Roma, convém ainda mencionar dois fatos
por ele relatados, não de somenos importância.
Em um fragmento conservado do original grego da
obra de Irineu, lê-se:
“Pois na verdade Mateus publicou para os hebreus,
no próprio dialeto destes, um escrito do Evangelho,
enquanto Pedro e Paulo estavam evangelizando e
fundando a igreja em Roma. Após a partida destes,
Marcos, discípulo e secretário de Pedro, transmitiu-nos
358
os assuntos e coisas pregadas por Pedro”. (Irinœus adv.
Her. libr. III., c. I., ap. Greenwood).
Ora, o Evangelho de S. Mateus, segundo cs melhores
críticos, foi divulgado antes de A. D. 60 ou 65, talvez,
observa Greenwood, cinco ou seis anos depois da
Ascensão do Senhor. Já demonstramos que em tempo
tão primitivo não há no N. T., nenhum vestígio de S.
Pedro ter estado em Roma, onde só no ano 61 chegou
preso S. Paulo (Atos 28:11-16).
Conta-nos ainda Irineu que depois de ter fundado
(?) Roma, S. Pedro e S. Paulo ordenaram primeiro bispo
a Lino, a quem S. Paulo menciona na epístola a Timóteo
(2 Timóteo 4:21). Anencleto, acrescenta ele, recebeu o
episcopado de Lino; e, depois dele, Clemente foi
escolhido para o episcopado em terceiro lugar desde os
Apóstolos. “Fundantes igitur et instituentes beati
Apostoli Ecclesiam Lino episcopatum administrandœ
Ecclesiæ tradiderunt.”
Eusébio, historiador do IV. séc., provavelmente
firmado em Irineu, dános a mesma lista dos três
primeiros bispos de Roma, assim se exprimindo,
segundo Greenwood (Ib. p. 53, Nat. d. ): “Lino foi eleito
bispo da igreja romana depois do martírio de S. Paulo e
S. Pedro; Clemente foi constituído bispo em terceiro
lugar, e, quanto a Anencleto, o episcopado lhe foi
entregue por Lino, depois de o haver este tido por doze
anos; e depois que Anencleto o reteve por doze anos, foi
sucedido por Clemente”. (Euséb. H. E., libr. III., C. 2, 4, 13,
15).
Esta lista autorizada dos três primeiros bispos de
Roma, dada por Irineu e Eusébio, estão pedindo as
seguintes observações em referência à transmissão da

359
tremenda herança de S. Pedro, de domínio universal e
absoluto:
1ª Lino, segundo Irineu, foi ordenado bispo não só
por S. Pedro, mas também por S. Paulo. Portanto, se por
esse fato é ele sucessor de Pedro, o é também de São
Paulo. Irineu manifestamente ignorava a herança
especial do colega de S. Paulo, pois não só a ela não alude
neste primeiro ato de transmissão solene, em vida ainda
do testador (!), mas também dá a S. Paulo a mesma
função no ato de se constituir o primeiro sucessor de S.
Pedro. Vem Eusébio agravar a situação das pretensões
papais, declarando que Lino foi eleito bispo depois do
martírio de S. Paulo e de S. Pedro. Segundo este
conceituado pai da história eclesiástica, S. Pedro nem
tempo teve de fazer seu testamento em favor de Lino.
Tudo isto é fatal à transmissão da famigerada herança.
2ª Lino é considerado o primeiro bispo, tanto por
Irineu como por Eusébio. Ora, se ele era o primeiro no
consenso destes santos padres, seguese que eles não
consideravam S. Pedro primeiro bispo de Roma. Para
estes primitivos doutores da Igreja, O Apostolado era
incompatível, como realmente é, com o episcopado
diocesano, assim como o exercício da realeza é
incompatível com o cargo de governador de província.
Sucede, porém, que a herança papal do bispo de
Roma é “baseada na ficcão do episcopado de S. Pedro,
que, como bispo residente em Roma, transmitiu a seus
sucessores sua supremacia apostólica. Se S. Pedro não
fôra bispo localizado em Eoma, não poderiam os bispos
desta cidade, mais que os de Jerusalém, Antioquia ou
Corinto, reclamar os direitos pontifícios, que atribuem a
este Apóstolo.

360
A exclusão, pois, que fazem estes dois eminentes
doutores da antigüidade cristã, do nome de Pedro da
lista dos primeiros bispos de Roma, dá em terra com as
pretensões destes.
3ª Na instalação de Lino e de seus sucessores, não
há, como seria de esperar, a menor “declaração, algum
ato decisivo, alguma asserção explícita de direito”, que
impusesse às igrejas da cristandade o sentimento de
obrigação ou dever de submissão ou obediência à igreja
de Roma e a seu bispo.
Não há nenhuma indicação formal nesses velhos
arquivos da Igreja da solene investidura do poder
universal, que posteriormente se arrogaram os
humildes pastores do Tibre.
Trinta e dois bispos se sucederam na sé romana,
segundo uma lista apresentada ao concílio de Nicéia
(325), e nenhum incidente de mínima importância, com
a só exceção de dois ou três, veio revelar, nesses trinta e
dois bispos, trinta e dois potentados, dominadores
infalíveis e absolutos da cristandade oriental e
ocidental.
Absolutamente não houve nenhum testamento,
título ou formalidade externa que, na morte de S. Pedro
ou tempos subseqüentes, fizesse a cristandade
primitiva suspeitar que o bispo particular de Roma
ficara investido com o episcopado universal, e se
tornara, por determinação divina, o bispo dos bispos, o
bispo ecumênico.
O testemunho de Santo Irineu, pois, apenas
autoriza, como o de Dionísio e Clemente, a vaga
inferência da presença de S. Pedro em Roma, porém é
contrária à ideia de seu episcopado, transferido a seu
pseudo-sucessor.
361
Passemos agora a examinar o depoimento de uma
outra testemunha arrolada pelos advogados do Papado.
Cita Eusébio, a quem devemos estas notícias
fragmentárias, sobre a vinda de S. Pedro a Roma, a um
certo Gaius ou Caius, que viveu nos dias de Zefirino,
bispo de Roma, entre 202 e 219, nos seguintes termos:
“Eu posso mostrarvos o monumento dos Apóstolos;
pois, se quiserdes acompanharme até o Vaticano ou até
a Via óstia, vereis os troféus daqueles que fundaram esta
igreja”. (C. P. p. 41).
As igrejas da Ásia Menor, que apelavam para seus
mártires, responde Caio, presbítero da igreja em Roma,
apontando para alguma pedra memorai, existente em
seu tempo, que assinalava o martírio de S. Pedro e S.
Paulo nessa cidade; pois é impossível supor — observa
criteriosamente Karl von Rase — que nos jardins do
Vaticano, palácio dos imperadores, que continuavam
nessa época a perseguir os cristãos, e mesmo diante da
Porta Ostiensis, onde diz a tradição ter sido S. Paulo
morto à espada, se construísse, nesse tempo, qualquer
monumento proeminente do martírio dêsees dois
Apóstolos.
Em todo o caso, o testemunho de Caio nos dá a
conhecer que nos princípios do segundo século (210),
cêrca de 140 anos depois da morte desses Apóstolos, a
igreja de Roma já mostrava, como troféus de sua glória,
dois monumentos humildes nos lugares onde hoje se
erguem os soberbos templos de S. Pedro e S. Paulo.
O testemunho de Caio vem apenas confirmar a
tradição, que aparece pela primeira vez com Dionísio
(St. Denis) de Corinto em 170 da era cristã, pouco mais
de 100 anos depois da morte dos Apóstolos, e cerca de
40 anos antes de Caio, isto é, que S. Pedro e S. Paulo
362
fossem martirizados em Roma na primeira perseguição
de Nero em 67 ou 68.
Resta-nos mais uma testemunha do segundo século
e princípios do terceiro, citada em abono da tradição
romana.
É esta Clemente de Alexandria, o eminente
fundador da escola teológica desse centro vital do
cristianismo primitivo, para onde confluiam as
correntes filosóficas do Oriente e do Ocidente.
Foi ele contemporâneo de Caio e Irineu e de uma
obra sua, já não existente, cita Eusébio algumas palavras
que parecem a repetição do testemunho de Papias sobre
a origem do Evangelho de Marcos. Diz Eusébio, citando
Clemente:
“Depois que Pedro em público proclamara a
palavra em Roma, e anunciara o Evangelho pelo
Espírito, as pessoas presentes, sendo numerosas,
procuram a Marcos, que, por ter sido companheiro de
Pedro, por muito tempo, se lembrava de suas palavras,
a fim de que escrevesse o que o Apóstolo tinha pregado.
Marcos, portanto, tendo escrito seu Evangelho,
entregouo àqueles que o tinham procurado para esse
fim. O que, quando Pedro soube, não proibiu nem
animou”. (C. P., p. 39).
Deste trecho, como do de Papias e de Clemente de
Roma, apenas se poderá inferir a presença pessoal de
Pedro em Roma. Esta mesma inferência, observa
Greenwood, não é muito segura diante do verbo grego
traduzido — proclamar, —visto que o termo original
significa proclamar como arauto, e não implica
necessariamente a presença do proclamador.
Temos passado em revista todos os escritores e
santos padres do primeiro, segundo e princípio do
363
terceiro século, dados como origem autorizada da
tradição romana de ter estado S. Pedro em Roma e de
ter aí estabelecido a sede de seu governo episcopal de
25 anos.
Bergier, ardoroso patrono dessa tradição escreve:
“Pendant longtemps les protestants se sont
obstinés à soutenir que Saint Pierre n’est jamais venu à
Rome, qu’il n’y a donc jamais établi son siêge; mais le fait
contraire est prouvé par les lémoignages de Saint
Clément, de Saint Ignace et de Papias, tous trois
disciples des apôtres; Caïus, prêtre de Rome, Saint Dinis
de Corinthe, Saint Clément dAlexandrie, Saint Irinée,
Origène, ont attesté la même chose au seconde et aux
troisième siècle; aucun de Pères n’en a douté dans les
siècles suivants”. (Bergier. Dict. de Theologie Pièrre).
Menciona Bergier, entre as testemunhas originais
da tradição, a Orígenes.
Orígenes foi discípulo e sucessor de Clemente de
Alexandria, floresceu na primeira metade do terceiro
século. Escreveu, diz S. Jerônimo, mais do que um outro
homem pode ler; calcula Epifânio em seis mil as suas
obras. Destas chegaram até nós algumas em traduções
latinas.
Se, nesses fragmentos da obra colossal de Orígenes,
encontrou Bergier algum tópico em abono da tradição
papal, deve ter sido insignificante, pois nada
encontramos a este respeito em Greenwood, K. von
Hase, Schaff, Elliott, Salmon, autores que estudam
cuidadosamente o assunto.
Resta-nos agora examinar duas tradições apócrifas,
que mais do que esses escritores primitivos
favoreceram o mito católico-romano sobre S. Pedro.

364
Pululam, nos armis primitivos da Igreja, escritos
espúrios ou apócrifos, que revelam a tendência perigosa
para a ficção e para as lendas, que degeneraram
largamente nas fraudes pias dos tempos mediévicos.
A ardente imaginação dos judaizantes fez de S.
Pçdro o herói de um ciclo interessante de lendas
romanescas: apareceram escritas espúrios sobre —
“Pregação de S. Pedro”, “Evangelho de Pedro”, “Atos de
Pedro”, e “Apocalipse de Pedro”. Estes e muitos outros
escritos apócrifos circularam nas igrejas, e, às vezes,
como canônicos, até que os concílios estabelecessem
definitivamente o cânon sagrado do Novo Testamento.
Num desses documentos apócrifos (Atos de Pedro e
Paulo), encontra-se a seguinte lenda que, pelo seu teor,
deve antedatar à glorificação de Pedro, como pondera
Schaff. Estando encerrado na prisão Mamertina em
Roma, Pedro subornou o carcereiro, poucos dias antes
de seu suplício, e fugiu; porém, quando chegou a um
certo lugar, fora da Porta de S. Sebastião, apareceulhe o
Senhor com uma cruz. Pedro, surprêso, perguntoulhe:
“Aonde vais, Senhor? (Domine, quo vadis?)” —
Respondeu-lhe Jesus “Vou à Roma, para ser de novo
crucificado (venio Roman iterum crucifigi)”. Voltou o
discípulo profundamente humilhado, e entregou-se ao
carcereiro para ser crucificado de cabeça para baixo,
julgando-se indigno de parecer com o Divino Mestre.
Orígenes, informanos Schaff, é o primeiro a fazer
alusão a esta velha lenda, e talvez por isso o arrola
Bergier entre as testemunhas da tradição papal.
Facilmente se reconhece nesta tradição uma bela
lenda sem nenhuma pretensão à verdade histórica,
observa von Hase. Entretanto, em uma pequena capela
levantada na Via Apia com a legenda — Domine, quo
365
vadis? — é conservada “como singular relíquia uma
pedra ou a reprodução de uma pedra, na qual se vê
profundamente impressa a pegada do Salvador
Ressuscitado”.
Uma outra lenda de tipo francamente judaizante
surge no meio do segundo século da era cristã nas
Homilias Clementinas, obra reconhecidamente apócrifa,
falsamente atribuída a Clemente de Roma.
Nela Simão Mago, batizado pelos Apóstolos em
Samária e asperamente repreendido por S. Pedro,
segundo a narração de S. Lucas (Atos 8:32) figura de
pseudo-apóstolo da mentira, pai das heresias,
samaritano possesso de demônio. Segue-lhe os passos
Pedro, o grande apóstolo da verdade, de Cesaréia
Estratonis, a Tiro, Sidon, Berito, Antióquia e Roma.
Nesta cidade, diante do Tribunal de Nero, discute com
ele seus erros, e quando o terrível feiticeiro tem a
presunção de partir para o céu, erguido no ar por
demônios, a oração de Pedro falo precipitar-se
miseravelmente para terra, o que põe termo a suas
imposturas.
Nesta fábula romanesca do segundo século, Schaff,
von Hase e outros, baseados no texto do velho
documento, enxergam uma alegoria do conflito entre as
duas correntes do cristianismo primitivo — a petrina e
a paulina.
Simão Mago, esse Dr. Fausto da antigüidade cristã
na irase de Hase, é a caricatura judaizante de São Paulo,
o Apóstolo dos gentios ao passo que S. Pedro é o
campeão da ortodoxia mosaica no seio da cristandade.
A malignidade judaizante, que tanto fez sofrer o
Apóstolo Paulo, revela-se nesse “romance tendencioso”.

366
“Fado é da Sé de Roma, diz Hase, com suas
ilimitadas pretensões, muitas vezes no curso de seu
desenvolvimento, como no caso de sua própria
fundação, repousar sobre uma ficção!”
Chegando à mesma conclusão, escreve Du Pin,
honesto historiador católico romano: De primatu Petri
nihil apud Justinum, Irineum, Clementem, Alexandrinum
et alias antiquissimos (Du Pin, 313).

Origens do Papado

Roma não se fez num dia, di-lo o prolóquio popular.


Assim o Papado, filho de Roma, “é incontestavelmente o
resultado de um processo histórico” lento e gradual,
determinado pela fatalidade dos tempos. É ele o elo
último de uma evolução secular, a expressão suprema
de uma concentração do poder.
Nada há, como vimos, no governo ou disciplina da
Igreja primitiva, nada há que, sequer de longe, se
aproxime do pa pismo da Igreja Latina. Nas páginas do
N. T., nos anais dos tempos apostólicos, sub-apostólicos
e pós-apostólicos, procuramos debalde vestígios de tão
assombrosa instituição; mais de quatro séculos
decorrem sem que surgissem, na história, os primeiros
sintomas de seu advento.
É pois, o Papado uma superfetação em relação ao
Cristianismo. Semelha a certas parasitas, que vicejam na
copa das árvores, vivendo a custa de sua vítima.
Superpõem, à verde copa, exuberante folhagem, a cuja
sombra repousam indiferentes homens e feras. Tal o
Papado superposto à arvore do Cristianismo. Parasita
secular, vive ele de seu prestígio dela, sugalhe a seiva e
367
paira nas alturas, resistindo com a força das raízes,
entranhadas no Calvário, ao sopro impetuoso de
perenes borrascas.
Quando sobre aságuias romanas triunfou o lábaro,
e vieram os reis beijar os pés aos discípulos de Cristo,
abriu-se o campo às ambições humanas, e no seio da
cristandade alçou o colo o orgulho apóstata. Tomou asas
“o mistério de iniquidade”, e de Roma desferiu seu vôo
altivo.
Da democracia pura evolveu o governo da Igreja
para a oligarquia episcopal, e desta, através do
arcebispado, metropolitano e patriarcado, veio
culminar na monarquia papal.
O étimo de papa temo-lo no grego pappas — pai.
Era título primitivamente aplicado a todo clérigo, como
ainda hoje o é na Igreja Ortodoxa Grega. No quinto
século, foi restringido aos patriarcas, e posteriormente
ao bispo e patriarca de Roma, quando vingou no
Ocidente a sua pretensão de pai de toda a Igreja.
Oficialmente usado por Leão I (440-461), só no século
décimo, foi declarado por um decreto de Gregório VII
(1073-1085), direito exclusivo do Papado. Pontífice
Máximo ou Sumo Pontífice é outro título do Papado, que
significa — o principal construtor de pontes, à
semelhança dos imperadores romanos, que uniam
funções civis e religiosas; também Vigário de S. Pedro
(Bonifácio, em 722, assim chamou o papa), Vigário de J.
Cristo ou de Deus (Inocêncio III, 1198-1216), servus
servorum Dei (Gregório I. 590-604). Ao ser coroado,
recebe ele a coroa das mãos de dois cardeais-diáconos,
que, pondo-a sobre a sua sabeça, dizem: “Recebei a tiara
ornamentada pelas três coroas, e sabei que sois o pai
dos bispos e dos reis, o governador terrestre do mundo
368
o vigário de nosso Salvador Jesus Cristo, a quem seja a
honra para sempre”. (Schaff).
Busquemos agora na história as pegadas do
Papado.

O Episcopado

Eram os Apóstolos, na Igreja primitiva, uma classe


extraordinária de oficiais especialmente encarregados
de testemunharem a ressurreição do Senhor e
fundarem sobre a Rocha dos séculos a Igreja Cristã
(Atos 1:22).
Fundando-a, moldaram seu governo pela sinagoga
judaica, estabelecendo democracias locais autônomas,
que se relacionavam pelos laços da íntima solidariedade
de uma mesma fé, amor e esperança, que era “a
comunhão dos santos”.
Nessas comunidades ou igrejas locais, aparece
apenas duas ordens de oficiais, eleitos pelo povo — os
presbíteros ou anciãos e os diáconos. Àqueles pertencia
a esfera espiritual, e a estes as temporalidade e
socorros.
No N. T., presbítero é sinônimo de bispo, como se
vê em Atos 20, 17 e 28; Tito 1:3 e 7. E esta sinonímia que
nos explica a saudação de S. Paulo “aos bispos e
diáconos” da igreja da cidade de Filipos (Filipenses 1:1).
O governo de cada igreja primitiva era dirigido por um
conselho de presbíteros, anciãos ou bispos. O presidente
deste conselho era, com certeza, o presbítero

369
predicante, a quem S. Paulo recomenda “dobrado
estipêndio” (1 Timóteo 5:17).
Os anais dos tempos sub-apostólicos nos mostram
que o título de bispo (—vigilante) foi-se restringindo a
este presbítero presidente ou predicante, de sorte que
já no segundo século era um tal uso geral. A
diferenciação significativa denotava uma forte
tendência, que breve extremou em duas ordens
distintas uma só classe de oficiais primitivos.
Tal a origem do episcopado, do qual nos falam as
páginas do N. T.
Com o desenvolvimento do episcopalismo,
cresceram rapidamente as pretensões da nova ordem,
considerando-se os bispos sucessores dos Apóstolos,
muito antes de aparecer com Leão I, no séc. V, o primado
de S. Pedro. Inácio (+ 107 ou 115), Irineu (+ 202) e
Cipriano (258) assinalam três fases no desenvolvimento
progressivo do conceito episcopal.
Brotou o episcopado espontânea e instintivamente
do espírito centralizador dos tempos, da necessidade de
uma unidade mais íntima diante das grandes
perseguições e do formigar das heresias. E tão
espontâneamente brotou ele e tão depressa, que a
muitos se afigura ter tido a sanção apostólica. Clemente
de Alexandria declara tê-lo S. João instituído, quando
saiu de Patmos, para onde fora desterrado, e Irineu,
Tertuliano, Eusébio, e Jerônimo acreditam ter sido
Policarpo por ele ordenado bispo de Esmirna.
Todavia, apesar da distinção geral que no segundo
século já se fazia entre o episcopado e o presbiterado,
reconhecia-se ainda, no tempo do S. Jerônimo (+ 420), a
identidade apostólica desses dois termos.

370
É pois, mais provável, como observa Lightfoot e
Schaff, que o episcopado, como ordem superior ao
presbiterado, se tivesse desenvolvido por escala
ascendente e descendente, isto ê, por uma expansão do
presbiterado e por uma contração do apostolado.
É o que se percebe nas três fases acima assinaladas.
a) Para Inácio de Antioquia, no princípio do 2º séc.,
os bispos eram os centros de unidade da “Igreja
Católica”, os vigários de Cristo ou de Deus, para quem se
devia olhar como para o Senhor. Os bispos, porém, no
seu sentir, eram coordenados, sem nenhuma primazia,
como centro de simples congregações.
b) Para Irineu, no princípio do 3.° séc., o episcopado
é diocesano, uma como continuação do apostolado,
veículo da tradição católica, sustentáculo da unidade
doutrinal contra os hereges. Na luta acirrada que teve
de manter contra os heresiarcas, outro argumento
melhor não havia, que apelar para a unidade tradicional
dos grandes centros cristãos, onde ainda se conservava
vivo o ensino dos Apóstolos.
Contudo, nele, como em Clemente de Roma, bispo e
presbítero são ainda termos equivalentes. Em
Tertuliano já se nota distinção, favorecida pela corrente
judaica, que ia transformando o ministério em
sacerdócio.
c) Para Cipriano, no meado do 3º séc., o bispo é o
portador do Espírito Santo, que passou de Cristo aos
Apóstolos, e destes aos bispos, por uma linha
ininterrupta de sucessão, dando deste modo eficácia aos
serviços religiosos por eles ministrados. Neste célebre
bispo de Cartago, o episcopado atinge a maturidade. “O
bispo está na Igreja, diz ele, e a Igreja está no bispo, e se
algum não estiver com o bispo, não está na Igreja”.
371
Christianus non est, qui in Christi ecclesia non est. (Epis.
56. 3; 55. 20).
Corporificam estes três bispos o período áureo da
autocracia episcopal, que tomou vulto com a corrente
judaizante, cedo fornecida peia origem histórica do
Cristianismo. Esta corrente buscava no templo, e não na
sinagoga, como fizeram os Apóstolos, o modelo para o
governo e direção da Igreja. Na organização mosaica do
tabernáculo e mais tarde do templo, distinguiamse três
ordens de oficiais — levitas, sacerdotes e pontífice. Breve
as duas ordens de oficiais da Igreja Apostólica,
moldadas no governo da Sinagoga, donde se destacou a
Igreja, desdobraramse na tríplice hierarquia de —
diácono, presbítero e bispo.
Os bispos, porém, eram locais e eleitos pelo povo,
como foi Cipriano, bispo de Cartago, e nisto não podiam
ser sucessores dos Apóstolos, que eram bispos
universais, e não eram eleitos “nem por homens, nem
por algum homem, mas por Jesus Cristo”. (Gálatas 1:1).
Coordenados, porém, entre st, desconheciam primazias,
e apenas aos bispos dos grandes centros cristãos, como
Roma, prestavam a homenagem natural do primus inter
pares. Foi o que demonstrou o bispo de Cartago em sua
luta com Estêvão, bispo de Roma, sobre o batismo de
hereges.
Os bispos dos grandes centros começaram depois
da união da Igreja com o Estado, no tempo de
Constantino, a distinguir-se com o título de
metropolitanos, e com o novo título se foram
superpondo aos bispos de centros menos influentes, e a
sua jurisdição local tornou-se diocesana.
No quinto século (como nos ensina Mosheim),
Jerusalém, Antioquia, Alexandria, Constantinopla e
372
Roma constituíam cinco grandes centros da
cristandade, cujos bispos eram chamados patriarcas.
Estes cinco patriarcados eram, porém,
coordenados, como os bispos entre si; não haviá
primazias jurisdicionais entre eles; o concílio de
Calcedônia, em 451, declarou serem iguais os patriarcas
de Roma e Constantinopla, (æqualia privilegia
tribuerunt). Nesse século ainda o bispo ou patriarca da
velha Roma não tinha nenhuma supremacia
jurisdicional sobre o da Nova Roma. No séc. VII, a
cimitarra dos califas subjugou jerusalém (637),
Antioquia (638), Alexandria (640). Roma e
Constantinopla ficaram sós em face uma da outra.

O Papado

Do patriarcado para o Papado era apenas mais um


passo. Esse, breve seria dado.
Dessa concentração sucessiva do poder
eclesiástico, surgiria naturalmente um monarca, que
encontrasse, em suas mãos, todo o poder, que fosse a
representação viva da unidade católica. Nessa
centralização evolutiva, o bispado da cidade eterna
transformar-se-ia, por uma fatalidade histórica, no
papado infalível.
Entretanto, eruditos historiadores e teólogos
católicos romanos tem procurado, com grande
diligência, nos documentos dos primeiros séculos,
provas ou indícios da existência, na Igreja, dessa
monarquia absoluta, que encerra em suas mãos de ferro
373
os destinos de todos os bispos e de todos os fiéis, pois
que é necessário, para a salvação, que estejam todos sob
o império teocrático do pontífice romano.
Du Pin, eminente historiador, o cardeal Belarmino,
Alexandre e outros perscrutaram, com grande cópia de
erudição, os monumentos das antiguidades cristãs, e
tiveram de reconhecer o silêncio dos primeiros séculos
sobre um fato tão estupendo. De Petri primatu, escreve
Du Pin, nihil apud Justinum, Irineum, Clementem,
Alexandrinum, et alias antiquissimos. (Du Pin 313). De
fato, acrescenta Samuel Edgar, nada se encontra sobre a
supremacia de S. Pedro e muito menos do bispo de
Roma, nos escritos dos padres primitivos: — de
Clemente Romano, Hermas, Barnabé, Inácio, Policarpo,
Justino, Irineu, Clemente de Alexandria, Antenágoras,
Taciano, Teófilo e Tertualiano.
Os historiadores católicos romanos supracitados só
encontram referência ou alusão à dignidade pontifical
do bispo de Roma cerca do ano 370.
É por certo extraordinário que esses defensores do
Papado reconheçam que por quase quatro séculos não
se deparam sequer vestígios, nenhuma tradição; nem
um simples monumento da antigüidade que perpetue a
memória do governo da mais estupenda das
monarquias, que espanta o mundo com as suas
inauditas pretensões. Passou ela completamente
despercebida por quatrocentos anos a seus súditos, e
atravessou silenciosa e desconhecida mais de oito
gerações!

374
Os Germens do Papado

Mais claras e autênticas que as cabeceiras do Nilo,


são as origens do Papado. Brotou ele do orgulho do
homem, e, por um determinismo histórico, foise lenta e
seguramente formando e consolidando como uma
excrescência no organismo eclesiástico.
Se dele não há vestígio, como provamos, nos
primeiros séculos da era cristã, encontramos, todavia,
circunstâncias e fatos históricos, que são como que os
germens ou células, que, no decurso dos séculos,
determinam fatalmente o seu aparecimento na
cristandade do Ocidente.
Fixemos, por um momento, nossa atenção nesses
como embriões do Papado.
1. A cidade de Roma, pela sua importância, tradição
e prestígio no Ocidente, era um meio apropriado para
metamorfosear o humilde pastor das margens do Tibre
no autocrata do Vaticano.
Roma havia dominado o mundo, e se constituirá o
centro político de um império universal. Em sua marcha
do Oriente para o Ocidente, a civilização estabeleceu a
sua sede na cidade eterna, e Roma fascinava o mundo
antigo pelo prestígio mágico do poder e das ideias. Era
ela o grande centro de unidade política, donde irradiava,
para todas as raças, juguladas a seu carro triunfal, o
direito, a justiça e a ordem. O senatus populusque
romanum era o terror das nações, e feliz quem pudesse
dizer — civis romanus sum. Já ligado com correias, para
ser posto a tratos, interpela S. Paulo ao centurião se lhe
era permitido açoitar um cidadão romano.

375
Amedrontado, volve o centurião ao tribuno, e lhe dá o
aviso: Quid acturus es? hic homo civis Romanus est. E
imediatamente de Paulo se apartaram os que o iam por
a tormento. (Atos 22).
Pela vastidão do Império, “que abrangia as partes
conhecidas na Europa, Ásia e África, levavam aguerridos
legionários as águias imperiais.
A quarta alimária da visão de Daniel fartara-se de
carnagem, conseguindo prender os povos e as raças em
uma gigantesca unidade.
Chegou, entretanto, o dia da retribuição. No quinto
século essa mole imensa esfacela-se aos crebros e duros
golpes dos bárbaros, que caem, como matilhas
esfaimadas de lobos, sobre o gigante moribundo.
Em 330, transportara Constantino, o Grande, a
capital do Império de Roma para a velha Bizâncio,
transformada na luxuriosa Constantinopla, e a antiga
capital, assim evacuada, deixou o campo aberto às
ambições do patriarca romano, já envolvido na púrpura
principesca com a união adulterina da Igreja com o
Estado, desde a ascensão de Constantino ao trono
imperial.
Quando mais tarde o bárbaro Odoacro desfechou o
último golpe no Império do Ocidente, e hórrida confusão
transtornou por completo a sociedade européia, era
humanamente impossível que a sugestão do meio não
propelisse o hierarca da Cidade Eterna a procurar entre
os escombros do Império a coroa dos Césares.
Foi o que sucedeu. Já no meado do séc. V, sonha o
papa Leão I com uma monarquia universal, tendo por
chefe o suposto herdeiro de S. Pedro.

376
2. A Igreja estabelecida cm Roma veio trazer às
tradições da cidade um novo elemento sugestivo, que
constitui um novo germem do Papado.
Era ela a igreja-mãe apostólica do Ocidente, como
Jerusalém e Antioquia o foram do Oriente. Foi honrada
com uma das mais importantes epístolas doutrinais dos
apóstolos e com a presença e o túmulo de S. Paulo e,
como julgava, de S. Pedro, de sorte que o nome dos dois
principais Apóstolos estava tradicionalmente ligado a
suas origens.
Davam-lhe ainda mágico prestígio — (a) a
preeminência política da metrópole do mundo, o sangue
dos mártires, que nela fora abundantemente derramado
na perseguição nerônica, o largo socorro, que pode
prestar ao resto da cristandade, como um dos maiores
centros da antiguidade, socorro, que fora o fruto não só
de sua primitiva beneficência, mas ainda do instinto
ortodoxo de seus primitivos pastores.
É evidente que toda estas circunstâncias históricas
fariam volver para a igreja, que estava em Roma, os
olhares agradecidos da cristandade de todo o mundo.
Nos escritos dos padres primitivos, como Clemente,
Inácio, Irineu e Cipriano, são visíveis os germens do
papismo nessas influências históricas.
3. Clemente era presbítero em Roma, pelos fins do
primeiro século (+ 102). A ele se atribui uma epístola
que a “igreja de Deus, que mora (como estrangeira) em
Roma”, dirige “à igreja de Deus que mora (como
estrangeira) em Corinto.” Este precioso documento,
escrito em nome da congregação, ao lado de belos
conselhos e exortações, respira um certo tom de
superioridade, que é a manifestação inconsciente do
espirito dominante do antigo povo-rei.
377
De resto, epístolas como esta, escreveram-nas
Inácio de Antioquia, Policarpo de Esmirna, Dionísio de
Corinto e Irineu. Ela apenas indica a direção em que
soprava o vento. Um século mais tarde, salienta-se essa
tendência hierárquica em Vitor, um dos sucessores de
Clemente, que em seu próprio nome, como observa
Schaff, ex-comunga as igrejas da Ásia Menor, por dele
discordarem em certo rito, sendo por isso repreendido
fortemente por Irineu.
Bem cedo, pois, se revela o virus romano, que tem
de explodir em Leão, Hildebrando, Bonifácio e
Inocêncio, e consumar-se em Pio IX.
4. Em Inácio, Irineu, Tertuliano, Cipriano, como em
Clemente, descobrimos os germens ou começos
inocentes do Papado. Tiveram esses padres primitivos
de lutar asperamente contra as heresias e cismas, em
tempos de tão profunda ignorância; era-lhes mister
argumento mais sensível, que não só ferisse a morosa
inteligência do povo, senão também a sua imaginação.
Um se lhe oferecia: — a unidade católica no espaço
e no tempo. Eis a cidadela que convinha aos tempos,
contra a qual deviam quebrarse as ondas irrequietas
dos elementos dispersivos da cristandade dos
primeiros séculos.
Católico é termo de origem grega e quer dizer geral
e universal; era primitivamente empregado pelos
cristãos para distinguir o Cristianismo do Judaísmo, que
era nacional, c mais tarde para designar a cristandade
ortodoxa em oposição às seitas heréticas. Surgiu o
catolicismo como o conceito de uma reunião ideal da
fraternidade cristã, que obedecia não à mesma
organização eclesiástica, senão ao mesmo credo, o qual
mantinha no Oriente e no Ocidente uma certa
378
solidariedade na interpretação prática do Cristianismo.
Mas esta unidade moral e doutrinária no espaço estava
reclamando unidade no tempo, de modo que se
prendesse ao ensino dos Apóstolos. Não bastava a
unidade católica, era necessário que fosse apostólica,
que de geração em geração, por uma tradição
ininterrupta, se verificasse e provasse, contra os
ataques de hereges e cismáticos, ser ortodoxo o credo
católico.
A tradição sem a verdade, dizia S. Cipriano, é a
velhice do erro, consuetudo sine veritate vetustas erroris
est.
Daí a importância que a tradição foi assumindo dos
fins do segundo século em diante. Acontecia
naturalmente que essa tradição apostólica devia ser
encontrada, em sua pureza ideal, nas igrejas
diretamente fundadas pelos Apóstolos, tais como as de
Jerusalém, Antioquia, Corinto e outras, apelidadas por
isso sedes apostólicas. Nessas igrejas o ensino oral dos
pastores ou bispos, em sucessão comparativamente
breve, deveria encontrar a prova viva do credo católico,
ou geralmente adotado pelas comunidades cristãs na
Ásia, ca Africa e na Europa. Ouçamos, sobre o ponto
Tertuliano, bispo de Cartago, na África, contemporâneo
de Irineu e seu autorizado intérprete:
“Vem agora tu, que queres aplicar a tua curiosidade
no bom proveito de tua salvação; vai pelas Igrejas
Apostólicas, nas quais subsistem, até o dia de hoje, as
próprias sedes dos Apóstolos; nas quais se lêem seus
próprios escritos, que fazem soar a voz de cada um
deles, e como que tornam presente a sua mesma face.
Moras acaso perto da Acaia? Aí tens Corinto. Ou não está
longe de ti Macedónia? La tens Filipo, lá tens
379
Tessalônica. Se puderes viajar na Ásia, lá encontrarás
Efeso. Mas se vives perto da Itália, aí tens Roma como
nós também, autoridade a vosso alcance. Que feliz igreja
esta! sobre a qual os Apóstolos verteram toda a sua
doutrina com seu sangue; onde Pedro teve paixão
semelhante à do Senhor; onde Paulo, por coroa, teve a
mesma sorte que João Batista; onde o Apóstolo S. João
foi lançado em uma caldeira de óleo fervendo, nada
tendo sofrido, sendo depois banido para uma ilha.
Vejamos o que ela (a Igreja Romana) tem aprendido e o
que tem ensinado.” (De Præser. 20, 21; ad. Marcion IV. 5,
apud J. C. Robertson, P. Lectures, p. 20).
Roma aí aparece, entre as sedes apostólicas, apenas
como o primus inter pares, não só por ser a única sede
apostólica no Ocidente e a grande capital do mundo de
então mas pelas respeitáveis tradições apostólicas, que
Tertúlia no menciona, a respeito de S. Paulo, S. Pedro e
S. João.
Esta concepção da unidade moral e doutrinária da
cristandade no espaço e no tempo entra como artigo de
fé na chamado Credo dos Apóstolos, e aparece no quarto
século no credo nicenoconstantínopolitano na
expressão — Uma Santa Igreja Católica Apostólica. E
desta “uma santa, católica, apostólica” é parte
integrante a ecclesia romana, como a de Jerusalém,
Alexandria, Antioquia, Constantinopla, como ramos
proeminentes.
Com o correr dos séculos através das trevas
medievais,, este conceito universal da unidade da Igreja
dos primeiros tempos do Cristianismo deverá ser
absorvido, por um absurdo admirável, em um conceito
local e particularista, para tomarse — Uma Santa Igreja
Católica Apostólica ROMANA. Dará depois mais um
380
passo, e transformarseá, por uma alquimia histórica
pasmosa em um conceito individual — o papa! E a este
truc espantoso de um papa-igreja, dá Pio IX franca
expressão, dizendo: La tradizione son io!
5. Não concorreu menos para o desenvolvimento
posterior do Papado a mudança do ministério cristão
em sacerdócio, de que já tratamos. Com Tertuliano e
Cipriano, sob o influxo judeu-pagão, começa esse
movimento secerdotal, que faz do padre ou bispo um
ente divino misterioso e mágico, que, medianeiro entre
Deus e os outros homens, obtém para estes o lavor
divino, ou fulminaos com os raios de sua ira.
Esta evolução do ministério seguiu na esteira do
movimento centralizador da disciplina eclesiástica:
subiu do simples sacerdote ao sacerdo magnus, ao sumo
pontífice. O papa, sumo sacerdote, absorveu
eminentemente o mago prestígio do sacerdócio. E assim
o sacerdócio universal, de que nos fala S. Pedro, evolveu
para o sacerdócio particular de uma casta, e, desta, para
o sacerdócio individüal do papa, de cuja obediência
ninguém se pode eximir sob pena de eterna perdição.
Este papismo sacerdotal não podia deixar de
culminar no papado pontifical.
6. A invasão e cristianização dos povos bárbaros
não constituem um germem de somenos importância
para a incubação do Papado romano. Ignorantes e
supersticiosos, como bárbaros que eram, afeitos ao
temor de seus feiticeiros ou sacerdotes, era natural que,
ofuscados com a pompa pontifícia e o prestígio político
da cidade de Roma, transportassem para o vice-Deus do
Vaticano todo esse temor de suas almas recém-
convertidas à voz dos emissários papais.

381
7. Finalmente, não influiu pouco na evolução do
Papado a circunstância de ser o bispo de Roma, em
razão de sua posição no grande centro político e
religioso, procurado, como árbitro, nos constantes
litígios sobre matéria eclesiástica e doutrinária. Não só
os bispos, mas os próprios imperadores buscavam
captar o apoio de sua opinião, e não pouco pesou na
balança dos destinos do episcopado da cidade de Roma,
em marcha para a monopolização do poder eclesiástico,
o coincidirem, em geral, as suas decisões com o lado
ortodoxo. Para Roma imperial eram todos os apelos e
recursos — Cæsarem appello, bradou S. Paulo a Festo,
governador romano. — Cæsarem appellasti? ad
Cæsarem ibis, respondeu-lhe Festo (Atos 24). Que muito,
pois, que, arrastada pela tradição política, se tornasse
Roma papal, com o andar dos tempos, uma corte de
apelação?

As pegadas do Papado

Todas estas influências históricas, que acabamos


de mencionar, atuaram como um incubador do papismo
latente, donde foram saindo Leão I, Gregório VII,
Inocêncio III, Bonifácio VIII, Pio IX.
Vejamos de ligeiro como se operou essa incubação
secular, e assinalemos as pegadas do Papado na
superfície da história.
Tratando das origens e causas da Reforma,
esboçamos, em largos traços, a transformação da
democracia cristã na hierocracia romana. Vamos agora
apenas dar relevo a esses traços.
382
As pretensões do bispo do Homa de ser o chefe
universal da Igreja em tempo nenhum foram
reconhecidas pela catolicidade cristã.
As igrejas do Oriente protestaram contra essa
sacrílega usurpação e as do norte da Europa repetiram
esse protesto no séc. XVI.
De modo que o Papado, judiciosamente observa
Schaff, como um fato histórico ou até onde tem sido
reconhecido, outra coisa não é senão o patriarcado
latino precipitando-se para a monarquia absoluta.
Emerso do episcopado, vai-se o Papado
desenvolvendo gradualmente na fermentação histórica
da idade-média. Com Vitor I (190-202), temos o
primeiro movimento do feto papalino no seio da
história. Não querendo concordar as igrejas da Asia com
a igreja de Roma sobre a época de se celebrar a Páscoa,
rompe o atrabiliário bispo de Roma comunhão com elas.
Era uma excomunhão, porém humilde, mui longe das
atuais excomunhões papais: consistia apenas em serem
privadas de comungar com a igreja local de Roma.
No princípio do século 3º, portanto, ignorava o
bispo de Roma, por completo, a sua autoridade de bispo
universal.
Vem a isto dar maior evidência o famoso bispo de
Portus, na embocadura do Tibre, Hipólito (198-236?),
incluído no catálogo dos santos e mártires, pela sua
enérgica atitude contra dois sucessores de Vitor, a
saber, Zeferino (202-218) e Calisto (218-223). Acusa-os
ele em sua obra Philosophu mena ou Refutação de todas
as heresias, de pendor para a heresia patripassiana, de
relaxados na disciplina, de ignorantes e desonestos.
Com certeza valeu a S. Hipólito o não se terem ainda
forjado os raios do Vaticano. Esta célebre obra de
383
Hipólito só foi descoberta em 1851, e só então se
conheceram os escândalos destes dois papas.
Cipriano, célebre bispo de Cartago, discípulo de
Tertu liano (200-258), acérrimo defensor da autoridade
episcopal, da unidade da Igreja, e do sacerdotalismo,
encarava o bispo de Roma como sucessor de S. Pedro,
como ele e os outros bispos eram os sucessores dos
outros Apóstolos, poderes que receberam, pela
ordenação, através de uma linha ininterrupta de bispos.
Foi este bispo africano o primeiro a dar a célebre
passagem de S. Mateus 16:16 o sentido de que mais
tarde se serviu o papa Leão I para nela afirmar o
Cathedra Petri. Cipriano, porém, era extrênuo defensor
da igualdade e independência dos bispos, do que deu
eloqüentes provas no tom com que se dirigiu ao Papa
Estêvão. É ele citado, entretanto, como patrono da
primazia jurisdicional do bispo de Roma, e, para este
efeito, foram feitas várias interpolações em seus
escritos. O contrário, porém, se vê, primeiro, no
tratamento que ele dá ao bispo de Roma, apelilando-o
em suas epístolas de “irmão” e “colega”; segundo, na
maneira com que ele se levanta contra o papa Estevão
na questão do batismo de hereges: acusa-o de erro e de
abuso de poder, declarando que a tradição sem a
verdade é a velhice do erro. A igreja e o bispo de Roma
tinham para ele e para muitos padres primitivos, como
Pedro entre os Apóstolos, uma certa primazia moral,
símbolo proeminente da unidade da Igreja Católica,
como a grande e única sede Apostólica no Ocidente.
Impertérrito mantenedor da igualdade episcopal no
seio do catolicismo apostólico, era o bispo romano, para
ele, apenas um primus inter pares. Longe estava, pois, de

384
referendar as prerrogativas reclamadas hoje pelo
Vaticano.
Três concílios ecumênicos ou gerais confirmaram
no IV e V séc., esta supremacia honorária do patriarca
de Roma e a sua igualdade jurisdicional aos patriarcas
seus colegas: — o de Alexandria, o de Antioquia, o de
Constantinopla e o de Jerusalém. O concílio de Nicéia, o
de Constantinopla e o de Calcedónia ratificam, no quinto
século, o governo oligarca do patriaicado, e reprimem as
pronunciadas tendências monárquicas do patriarca de
Roma.
O concílio de Nicéia, o primeiro concílio geral (325),
equipara, no cânon sexto, ao bispo, de Roma os de
Alexandria e Antioquia. Só posteriormente ao concilio
surgiu o patriarcado de Constantinopla e de Elia
Capitolina ou Jerusalém. Mão criminosa acrescentou, no
manuscrito latino, a este canon, à guisa de preâmbulo, a
frase — Ecclesia Romana semper habuit primatum. O
caráter espúrio deste acréscimo é geralmente
reconhecido.
O segundo concílio geral, reunido em
Constantinopla, em 381, concede, no cânon terceiro, ao
bispo de Constantinopla, um lugar de honra logo depois
do de Roma. A razão é política: Constantinopla fora
elevada, em 330, à capital do Império e residência do
imperador. Trata-se, pois, apenas de uma supremacia e
subordinação honorárias em razão da importância
relativa das duas grandes cidades.
Vai além o quarto concílio geral reunido em
Calcedónia, em 451, e, no cânon vinte e oito, cento e
cinquenta bispos conferem as prerrogativas episcopais,
que possúia a velha Roma, como cidade imperial, à nova
Roma, que se havia igualmente elevado à dignidade
385
imperial. Novaœ Roma throno œqualia privilegia
iribuerunt. Igualando assim, em honra e jurisdição, os
dois hierarcas, o de Roma e o de Constantinopla, o
concílio ecumênico de Calcedônia lançou fogo ao
estupim, que deveria, no século nono, produzir a grande
explosão do cisma do Oriente e do Ocidente.
Debalde contra o cânon vinte e oito protestaram os
legados papais e o próprio papa: confirmou-o
expressamente o imperador Justiniano I, e solenemente
o renovou o concílio Trulano no cânon trinta e seis.
Fornece ainda o concílio de Nicéia uma outra prova
concludente de que no 4º século não possuía ainda o
patriarca de Roma a jurisdição universal, que se arroga,
de episcopus episcoporum. Consiste a prova no fato
histórico incontestável de que esse concílio ecumênico
não foi convocado nem presidido pelo papa ou seu
delegado, mas foi convocado pelo imperador
Constantino, que se dizia “bispo do exterior”. Ora, este
fato depõe evidentemente contra o reconhecimento, ao
tempo, de sua autoridade suprema na Igreja.
Uma lenda criou-se mais tarde com o fim, sem
dúvida, de atenuar o efeito dessa atitude do imperador
Constantino, e é que Constantino, ferido de lepra, a
conselhos médicos, deveria banharse em sangue de
crianças; porém, cedendo às lágrimas das mães, fora
divinamente dirigido ao papa Silvestre, que o teria
purificado de seu mal nas águas do batismo. O
imperador, agradecido, lhe fizera doação da cidade de
Roma e regiões próximas. É sabido ser isto uma lenda
forjada no século oitavo.
Sobe Leão I, o Grande, ao trono papal, no quinto
século (440-461), e uma fase nova se abre na evolução
do Papado. A arrogância hierárquica, no período
386
anterior, de Vitor, Calisto e Estevão, encontrara enérgica
repressão em Irineu, Hipólito e Cipriano. No meio de um
silêncio pesado e triste, tanto na esfera religiosa como
política, ergue-se na velha Roma, embuído de seu
espírito altivo de domínio universal o vulto agigantado
do patriarca latino.
Os padres ante-nicenos e pós-nicenos receberam
como verdade histórica a tradição mais que contestável
de ter estado S. Pedro em Roma e de ter sido aí
crucificado de cabeça para baixo. A cidade, que recebera
o sangue de S. Pedro, recebera também o de S. Paulo.
Roma, pois, era a grande sede apostólica, que sobre ser
a única no Ocidente, é a única que fora honrada com o
martírio dos dois grandes Apóstolos. Profundo respeito
para com a Igreja Romana e o seu bispo, mais tarde
patriarca e depois exclusivamente papa no Ocidente,
despertara esta crença em toda a cristandade. As
tradições políticas intensificavam a tradição religiosa. O
gênio de Leão soube tirar proveito destas fortes
correntes tradicionais.
Já em 343, o concílio regional de Sardica na lliria
(hoje Sofia na Bulgária) dera ao bispo de Roma Júlio, em
reverência à memória do Apóstolo Pedro, a faculdade de
receber apelo de bispos em litígio e dar autorizada
decisão. Era este um passo decisivo para se constituir
em definitivo em Roma um tribunal arbitral. Em 445,
Valentiniano III confirma esta decisão conciliar, dando
ao bispo de Roma suprema autoridade legislativa e
judicial. (Hase, v. I, p. 227).
A todas essas primazias de honra e favores
imperiais deu o gênio diplomático de Leão o impulso
poderoso que o devia transformar, pelos séculos
adiante, em primazia de jurisdição.
387
O momento era propício. Desabava sobre a Europa
a grande invasão dos bárbaros, levando por toda a parte
a assolação e o terror.
Átila, flagelo de Deus, repelido de Châlons, lança-se
sobre a Itália, e ameaça Roma (452). Sai-lhe ao encontro
Leão, com dois companheiros, de cruz alçada, e por sua
eloquencia e hábil diplomacia, faz recuar o bárbaro.
Genserico (445), chefe dos vandalos, mostra-se mais
duro que o chefe dos hunos, e não pode Leão salvar
Rema de um terrível saque, mas obteve alguma
atenuação à ferocidade barbárica.
Aproveitando a confusão geral, a ausência de
doutores eminentes na Igreja, e certas circunstâncias
locais, estende Leão a sua diocese às Gálias, à Espanha,
à África e à Ilíria.
Contra as suas pretensões de domínio universal, de
primus omnium episcoporum, levanta-se, é verdade, o
cânon 28 do 4º concílio geral de Calcedónia, igualando o
trono do patriarca de Constantinopla ao patriarca de
Roma. Leão protesta.
Nos trabalhos do mesmo concílio, uma parte do
clero alexandrino, em oposição a seu bispo Dióscuro,
com o desejo de aliciar os legados romanos, aplica pela
primeira vez ao bispo de Roma um título que daí por
diante vai aparecer mais frequentemente (Robertson, p.
108).
Apelida-o “Arcebispo ecumênico, e Patriarca da
Grande Roma”. Entretanto, é possível que a palavra
ecumênico, que significa universal, seja apenas uma
expressão bombas uca da linguagem inflada do Oriente,
pois tanto o patriarca de Roma como o de
Constantinopla assumem o título de “Arcebispos e
Patriarcas Ecumênicos”, sem o intuito de recíproca
388
invasão, e o imperador Justiniano (527-565) trata-os a
ambos de “Cabeças de todas as Igrejas”.
O papa Félix, em carta ao imperador Zeno, chama-
se “Vigário de S. Pedro”, e posteriormente passaram
seus sucessores a intitular-se “Vigários de Cristo”.
Gelásio I (492-496) que sucedeu a Félix, deu enfase
às pretensões da autocracia papal proclamando o
princípio de que o poder sacerdotal estava acima do
poder reai e imperial, e que das decisões da cadeira de
S. Pedro não havia apelo. Ao mesmo tempo possuímos
deste papa um bem testemunho contra o “sacrilégio” da
communio sub una specie, isto é, de se negar o cálice aos
leigos.
Dionísio Exígus. cita de nascimento, abade de um
convento em Roma (556), fêz uma compilação dos
cânons dos concílios gerais e dos mais famosos dos
concílios provinciais, e a esta coleção reuniu um certo
número de cartas papais. O figurar tais epístolas ao lado
de cânons de venerandos sínodos deu-lhes mais amplo
prestígio e autoridade, concorrendo para impulsionar o
movimento ascedente do Papado.
Em 590 é elevado ao sólio pontifical Gregório I, o
Grande, o último dos santos padres latinos, e o primeiro
dos papas. Os largos domínios territoriais não só na
Itália, mas na Gália, Ilíria, Dalmácia, África e Ásia,
puseram em contacto com igrejas e soberanos dessas
regiões, e sobremodo ampliou a influência e prestigio do
Papado. É certo que ele repeliu, como anticristão,
arrogante e infernal, o título de “bispo ecumênico” ou
universal, assumido, em 587, pelo patriarca de
Constantinopla, João, o Jejuador; não, impediu, porém,
isso que os seus sucessores incorporassem o mesmo
título na bagagem da evolução absolutista do papismo.
389
Oitenta anos mais tarde, o 6º concílio geral, reunido
em Constantinopla (680), confere ao papa Agátio esse
título “anticristão e infernal”, e ao mesmo tempo
condena como herege o papa Honório (625-638), que
sancionara a “impia doutrina” dos monotelitas.
Focas, imperador bisantino, usurpador e assassino,
con ieriu ao papa Bonifácio III (606-607) o título
arrogante de rector totius ecclesiœ.
Intrigas e perseguições, traições e fraudes, pejara
os anais do Vaticano, como elementos eficazes da
evolução do Papado. Até o século 8º, eram os papas
eleitos pelo povo e pelo clero, e súditos dos imperadores
de Constantinopla, de quem obtiveram regalias e
favores.
O papa Zacarias (741-752), porém, diante do poder
nascente dos francos, mais próximo de Roma,
atraiçoando a seu suserano, recusa receber a sanção
imperial de sua eleição, volta-se para Pepino, o Breve, o
mordomo infiel, que usurpa o trono de Cilderico III,
abençoa a sua usurpação, pede-lhe auxílio contra os
lombardos, e de suas mãos aceita a doação do exarcado
de Ravena e o Pentápolis arrancados a Luitprando, rei
dos Lombardos, que por sua vez os arrebatara das mãos
do imperador de Constantinopla. Funda-se, nesta série
de traições, o “Patrimônio de S. Pedro”, e a realeza
temporal do papa no século oitavo, pelo fundador do
Império Carlovigiano.
Grato por tão alta proteção do novo braço
temporal, o papa Leão III agrava a traição de seu
antecessor, enviando ao fillio e sucessor de Pepino,
Carlos Magno, os estandartes de Roma e as chaves do
sepulcro de S. Pedro (796), e completa o seu
rompimento com o Império do Oriente, colocando,
390
sobre a cabeça do seu novo soberano, a coroa do “Santa
Império Romano”.
Para consolidar esse pacto de perfídias e ampliar as
suas conseqüências, aparecem, por esse tempo, duas
célebres fraudes — a Doação de Constantino e as Falsas
Decretais.
No último quartel do século nono (868) espelhouse
a lenda de que o imperador Constantino, entre 328 e
330, deixando Roma e transportando a capital para
Constantinopla, doou o Palácio Laterano, a cidade de
Roma, todas as províncias da Itália ou os países do
Ocidente, ao papa Silvestre, dando-lhe por isso e a seus
sucessores o direito de cingir uma coroa de ouro. Só no
século quinze, com o despertar do espírito crítico, é que
tal impostura foi decoberta e denunciada, depois de ter
servido largamente aos intuitos filauciosos dos papas.
Mais ainda concorreu na linha desses intuitos a fraude
colossal das Falsas Decretais, de que já tratamos.
Recebem aí as ambições descomunais dos papas a falsa
sanção dos séculos mais remotos, e a Sé de Roma, por
uma fingida tradição, é guindada acima dos bispos, reis
e imperadores.
Por muitos séculos foram elas o arsenal de Roma,
até que em tempos modernos as letras protestantes
desvendaram esse logro secular da teologia católico-
romana.
“Veio então a surdir, escreve Janus na sua
importante obra “O Papa e o Concílio”, pelos meados do
séc. IX a monstruosa falsificação das Decretais de
Isidoro.... Não cremos que na história inteira se possa
encontrar segundo exemplo de uma falsidade que
vingasse tão perfeitamente, e que fosse, todavia, tão
grosseiramente concertada... Cerca de cem pretensas
391
decretais dos mais antigos papas, com escritos de outros
chefes da igreja e atas de alguns sínodos foram a esse
tempo falsificadas, nos países francos situados à
margem esquerda do Reno. Desses papéis apoderou-se
logo com avidez o papa Nicolau I (858-867), e os fez
servir de base, como documentos autênticos, às novas
pretensões aventadas por ele e seus sucessores”.
Não se encerrou com as aleivosas decretais o ciclo
das fraudes. Informanos ainda o mesmo ilustre autor de
“O Papa e o Concílio” “que completaram, com outras
falsificações, a obra do pseuctoIsidoro Anselmo de Luca
(1080), sobrinho do papa Alexandre II e fundador do
direito gregoriano, o cardeal Deodato, Bonizo e o
cardeal Gregório de Pávia (1118)... O mais poderoso
instrumento do novo sistema papal foi o Decreto de
Graciano, emanado, no meio do século doze, da primeira
escola de direito, que houve na Europa, a de Bolonha,
oráculo jurídico da cristandade do Ocidente. Agrupadas
estavam nessa obra as falsificações de Isidoro às dos
gregorianos Deodato, Anselmo e Gregório de Pávia, e às
que o próprio Graciano acrescentara. Tornou-se ele o
manual dos canonistas e dos teólogos escolásticos... Aí
está o respeito que votavam a essa obra (Decreto de
Graciano) , semeada, de um a outro lado, de mentiras e
erronias; e foi essa compilação de falsidades que,
cravada como cunha robusta na fábrica da Igreja, a
desconjuntara, e fizera estalarlhe os membros, pouco a
pouco — não sem que, todavia, deixasse, em vez dessa,
outra construção valente no seu gênero”.
Com a invasão das superstições gentílicas no séc.
IV, começaram a formigar as fraudes pias. Antecipando-
se à moral jesuítica, arraigou-se o princípio, impugnado
por S. Paulo (Romanos 1:32), de que o fim justifica os
392
meios. Enganar e mentir, era já nesse século, como nos
ensina Mosheim, virtude, desde que por esse meio se
pudessem promover os interesses da religião. Filho do
ascetismo de falsas filosofias, o exército dos monges
servia de veículo à propagação das superstições
grosseiras e das artimanhas burlescas dos sacerdotes
do paganismo. Milagres e prodígios mentirosos, ossos
de santos, relíquias talismânicas, amuletos, bugigangas,
sórdidas feitiçarias, pesada bagagem do gentilismo,
alimentavam a religiosidade do povo embrutecido e o
tráfico desfaçado da solidez monacal, que, formando o
tesouro da piedade medieva, enriquece o Fios
Sanetorum e cretiniza os praticantes do Romanismo.
Não era, pois, de estranhar que dessas fraudes pias
lançasse mão o patriarca latino em sua luta tenaz contra
a independência do episcopado e do poder civil, em sua
marcha ascendente para o absolutismo papista. É assim
que tão fraudulenta faz interpolação nos escritos de
Cipriano e acréscimos ao 6º cânon, edição latina, das
atas do concilio áe Nicéia.
Ao contemplar-se a fraude presidindo e
determinando o desenvolvimento do poder papal desde
os seus primórdios, é inevitável a convicção de que ao
pai da mentira se devem adjudicar os louros
conquistados pela autocracia do Vaticano.
Mas continuemos a assinalar os rastos do papismo
na superfície da história.
Na desintegração do império carlovigiano,
ofereceu-se oportunidade ao potentado de Roma de dar
passos decisivos na realização de suas ambições.
Era o papa eleito pelo povo e pelo clero romano e
confirmado pelo imperador. Em 816 dirigi-se
pessoalmente à França o papa Estevão IV, para
393
defender-se perante o fraco Luís, o Piedoso, por ter
assumido a dignidade papal sem consentimento do
imperador. Não esperou este pela submissão do papa, e
saindo a seu encontro, uma milha além das muralhas de
Reims, prostrou-se a seus pés, antes de abraçá-lo, e de
sua mão recebeu no domingo seguinte uma esplêndida
coroa de ouro, que lhe trouxera de Roma. E desta
maneira, pondera Robertson, resignouse Luís a pender
aquela independência de toda a sanção terrestre, que
Carlos Magno, seu pai, tão cuidadosamente conservara
para si.
Contudo, Lotário, seu filho mais velho, enviado a
Roma, em 824, para por termo ao conflito na eleição do
papa, reconheceu Eugênio II, e por juramento obrigou o
povo a não consentir na consagração do nenhum papa,
sem que este não tivesse jurado primeiro submissão ao
imperador, como seu suserano.
Animado pela fraqueza dos sucessores de Carlos
Magno, deixou Leão IV (847-855) de ajuntar ao nome
dos soberanos, a quem escrevia, o prenome Dominus (—
Senhor), como até então se fazia, e, contra as praxes,
começou, no endereço, a pospo-lo ao seu próprio nome,
significando com isso que o papa não mais reconhecia
autoridade terrestre superior à sua. Deu mais um passo
ousado seu segundo sucessor Nicolau I (858-867).
Tratava os reis, como se fosse o senhor do mundo, e
cingiu na sua consagração, segundo geralmente se crê,
uma coroa de ouro, baseado, como é suposto, no forjado
direito que Constantino conferira ao papa Silvestre e
seus sucessores. Só mais tarde, no século doze, é que
Alexandre III começou a trazer, em torno da mitra, uma
coroa no uso ordinário, a que Bonifácio VIII (1294-
1303) adicionou uma segunda, e Urbano V (1370) uma
394
terceira. Tal a origem da tríplice coroa, que adorna hoje
a tiara, e que é interpretada como significando o poder
maravilhoso do papa no céu, na terra e nos infernos,
mas que talvez originalmente denote pretensão mais
humilde de domínio sobre as três partes do mundo,
então conhecidas — Europa, Ásia e África.
Mais um assinalado triunfo ganhou Gregório V
(996-999) contra Roberto I, rei de França. Armado de
excomunhão, anátema e interdito, obrigou o fraco rei a
separar-se da rainha. Berta, sua mulher, pois que era
com ela aparentado em quarto grau, e com ela contraíra
afinidade espiritual por ter sido padrinho de um seu
filho do primeiro matrimônio.
Não só conseguira o Papado superintender a vida
privada dos reis em França, mas ainda a independência
dos bispos, dos metropolitanos e dos sínodos
provinciais. Assumindo o título de bispo universal, que
tanto escandalizara Gregório I, continuavam os papas a
envidar persistentes esforços para a concentração de
todo o poder eclesiástico em suas próprias mãos, pela
destruição completa da independência episcopal e em
detrimento, cada vez mais grave, do governo: antigo da
Igreja apostolicamente instituído.
Tocava a seu apogeu o conflito secular entre o bispo
de Roma e os outros bispos da cristandade. Foi nesse
momento que surgiu o célebre monge Hildebrando,
exalçado ao sólio pontifício de 1073 e 1085. Italiano de
nascimento e de antepassados germanicos, reunia ele
em sua pessoa a vivacidade latina com a tenacidade
teutônica. Era a encarnação viva do autoritarismo da
idade média e das ambições teocráticas do Papado. Seu
programa se resumia em subordinar o Estado à lgreja e
a Igreja no papa. As máximas (dictatus) de um
395
absciutlsmo incrível, que correm em seu nome, são a
expressão genuína de sua vida e de seu caráter. Ja delas
traiamos. Nelas o papa é declarado o único bispo
ecumênico ou universal, soberano dos bispos, reis e
imperadores, que devem beijar os seus pés e de cuja
sorte ele dispõe a seu ta lante. Para realizar tão
estupendo programa, necessitava de uma milícia
internacional, que obedecesse de pronto os seus acenos
no vibrar as armas terríveis naqueles tempos: a
excomunhão, o anátema e o interdito. Essa milícia
procuroua no clero celibatário. “Não pode a Igreja ser
libertada da servidão ao leigo, enquanto não forem os
padres libertados de suas esposas” — eis, segundo Hase,
o pensamento de Gregório VII, que soa através dos
séculos, e que só pode dar hoje valor militante ao grito
de guerra do Vaticano.
Foi imposto o celibato clerical, e criado um exército
sem família e sem pátria, à obediência discricionária de
um soberano estrangeiro, de cuja tríplice coroa eram
feudos as nações da terra, segundo a ousada declaração
do inflexível monge.
Subjugado o clero, enfeudada a mitra à tiara do
supremo hierarca, lança Hildebrando o cartel de desafie
aos débeis representantes do Santo Império Romano, na
disputada questão da investidura, per annuliun et
baculum. Humilhaa Henrique IV junto às portas de
Canossa, triunfando do poder temporal, e subtraindo
para sempre o direito de confirmarem os imperadores a
eleição do papa.
Estas conquistas do Papado permaneceram a
despeito da reação temporária, que levou Gregório VII
ao exílio, onde morreu.

396
De 1095 a 1270, um sopro de entusiasmo religioso
ergueu as massas européias e arremessouas contra a
Ásia para libertar o Santo Sepulcro e a cidade santa do
domínio maometano.
Discípulo e sucessor de Gregório VII, o papa Urbano
II, em Clermont, na França (1905), rodeado de
arcebispos, bispos, abades, de inumerável multidão de
clérigos, e leigos de todas as classes, solta o grito de
“Deus o quer” (Deus vult), ti dá início ao movimento das
cruzadas, que por quase duzentos anos despovoou a
Europa.
Lucraram os papas imensamente em prestígio,
riquezas e poder com as cruzadas, que, por tantos anos,
abalaram os fundamentos da Europa, e fizeram
empalidecer o crescente de Islã, que ameaçava a
cristandade. Desertados os castelos feudais e
empobrecidos os reinos, erguia-se o papa como chefe
sem contraste na cristandade ocidental, tendo
estendido seu báculo imperial sobre largas regiões no
Oriente.
Adriano IV (1154-1159), prosseguindo na
campanha contra o poder civil, constrangeu Frederico
Barbarroxa, imperador, a tomar-lhe o estribo,
exasperou-o fazendo-o sentir que o Império era um
feudo da Santa Sé; mandou enforcar Arnaldo de Bréscia,
e doou ao rei de Inglaterra, Henrique II, a Irlanda, sob o
fundamento falso de doação feita por Constantino ao
papa de todos os países e ilhas ocidentais. Com o mesmo
suposto direito, traçou mais tarde Alexandre VI uma
linha divisória, que, no tratado de Tordesilha (1494),
distribuía, entre Espanha e Portugal, o mundo novo,
que, aos olhos de navegantes espanhóis e portugueses,
ia surgindo ao Ocidente.
397
Realiza Inocêncio III (1198-1214) o sonho de
Hildebrando, e toca ao apogeu do cesarismo papal. Em
seu sermão inaugural e em uma de suas cartas, declara
que ao papa “fora entregue não somente toda a Igreja,
mas também todo o mundo” com “o direito de dispor
finalmente da coroa imperial e de todas as outras”. O
papa, dizia ele, é o sol, os reis e imperadores são a lua;
como esta recebe luz da quele, assim os reis do papa
recebiam o poder. Mais: o sol è a lua, que regula o dia —
as coisas espirituais, e a lua, a noite — as coisas carnais:
tal a diferença entre os pontífices e os reis. Adotada esta
comparação de Inocêncio nas decretais compiladas sob
Gregório IX, calcula um comentador astronômicarnente
a distância entre o papa e os reis, dizendo que o papa é
mil setecentas e quarenta e quatro vezes mais exaltado
do que o imperador e todos os reis.
Em todos os reinos da Europa fez Inocêncio sentir
vigor e vigilância de sua administração. Obrigou Felipe
Augusto a unir-se a sua mulher divorciada Ingeburga,
lançando o interdito sobre toda a França. Ex-comungou
João, rei da Inglaterra, e obrigou-o a humilhar-se, e, para
conseguir absolvição, a declaiar-se vassalo do papa, no
qual reconhecia seu soberano feudal e se comprometia
a pagar o tributo anual de mil marcos de prata. Na
Alemanha, Oto de Brunswick, candidato ao Império,
procura o apoio de Inocêncio, e publicamente confessa,
como preço do favor papal, “que cingia, a coroa imperial
pela graça de Deus e da Sé Apostólica”. Em Aragão, o seu
príncipe, reconhecido rei por Inocêncio, “põe a sua
coroa e seu cetro sobre o altar de S. Pedro era sinal de
submissão feudal”. Na Hungria, a rivalidade de
candidatos reais deu ao papa oportunidade de
adjudicação, e o próprio princípe da Bulgária, embora
398
pertencente à cristandade oriental, teve de assegurar a
sua dignidade real aceitando a investidura papal” (M.
Cowan). No sul da França levantou a cruzada contra os
albigenses, que cobriu de sangue e horror o nome de
Montiorte e a tiara papal. Estabeleceu contra as heresias
o negro tribunal de Inquisição, que, com as suas
crudelíssimas torturas e autos-de-fé, estendeu o sangue
e o horror na Europa por séculos, deixando na história,
com as indizíveis agonias de milhares de vítimas, a
execração pública contra a intolerância feroz do
cesarismo papal.
Animado peias circunstâncias políticas, que o
tinham feito árbitro da Europa, envia à corte da Rússia,
oferecendo ao príncipe Roman, com a espada de S.
Pedro, título e investidura real. Responde-lhe o russo: “E
arma como a que tenho a que possui vosso Senhor? —
Se assim é pode ele então dispor de reinos; enquanto,
porém, sobre minha coxa trouxer esta espada, não
preciso de nenhuma outra”. (Cowan).
Sancionando as ordens mendicantes dos
dominicanos e franciscanos, criou dois agentes
poderosos para promover o prestígio de seu trono na
ignorância dos tempos. Em 1215, presidiu ao concilio
geral no palácio de Latrão, porém, já se denunciam os
sintomas claros da dissolução moral dessas assembleias
conciliares que tão conspícuo papel representaram na
cristandade primitiva. Ante o fulgor triunfante do
patriarca latino apagam-se os clarões da Igreja
Apostólica. Os membros do concílio são apenas seus
assessores e conselheiros, e os decretos são
promulgados em nome do papa. Dois dogmas vêm
oficialmente aumentar o credo católico — a
transubstanciação e a confissão auricular. Com as duas
399
ordens mendicantes, os dois novos dogmas deviam
consolidar para sempre no animo e na consciência
entenebricida das gerações medievais o despotismo
incontrastável do Papado absorvente, A
transubstanciação, o poder estupendo de transformar
uma hóstia em Deus, de fazer baixar do Céu a Divindade,
a um gesto mágico do celebrante, devia dar aos olhos da
turba uma transfiguração de apoteose à pessoa do
sacerdote, mormente do sacerdos magnus, ao mesmo
tempo que a confissão auricular obrigatória lhe armaria
com uma espionagem bem organizada para sufocar, na
perseguição inquisitorial, qualquer veleidade de
revolta. Corre com certa plausibilidade que o papa
Alexandre pusera o pé sobre os ombros do imperador
Frederico Barbarroxa, quando este se achava prostrado
diante dele, exclamando nas palavras do Salmo 90:13:
“Sobre o áspide o basilisco andarás, e pisarás ao leão e
ao dragão”. Inocêncio II pusera, de fato, seus pés sobre
a cerviz da Europa, enfeudando o Estado à Igreja, e a
Igreja, ao Papado.
O imperador Frederico II (1215-1250),
excomungado, anatematizado e deposto por Gregório
IX, teve de segurar a sua cora e bradar que ela não cairia
sem que corressem rios de sangue. Fortalecido em seu
direito de príncipe temporal pelos jurisconsultos de
Bolonha, reagiu contra a jurisprudência teocrática de
seu adversário, e manteve-se no trono. Tênues raios de
luz começavam a espancar as travas da ida demédia. A
voa de Abelardo (1079-1142), desponta a Renascença
na alta madrugada dos tempos modernos. Era o
individualismo que se erguia em face da autoridade
absoluta da Igreja e do Estado. Os direitos da
consciência individual, que iria explodir na Reforma,
400
balbuciava contra o despotismo do poder eclesiástico e
do temporal. O livre exame, o espírito crítico penetrava
nas escolas e universidades, e o espetro do Vaticano
começava a esbater-se e diluir-se na vaga claridade,
precursora de um novo dia. Os cânons eclesiásticos iam
esbarrando com os brocardos jurídicos, e o grande ídolo
da autoridade medieva sentia os primeiros golpes do
camar telo da liberdade.
Sentiu o papa Bonifácio VIII (1294-1303) este
estado dos espíritos. Ardendo no zelo e arrogância de
Gregório VII e Inocêncio III, teve o infeliz papa de
reconhecer, na prisão e na morte, que a onipotência da
hierarquia encerrara o seu ciclo.
Proíbe ao clero pagar, sem sua permissão, tributo
ao Estado, e fulmina contra Felipe, o Belo, rei de França,
a famosa bula Unam Saneiam. Nela expõe a teoria papal
de que a Igreja Católica Romana dispõe de duas espadas
— a espiritual e a temporal; uma é manejada por ela e a
outra para ela, ao aceno do padre, da nutum et
potentiam sacerdotis, pois a autoridade e a espada
temporal deve estar sujeita ao poder espiritual. Além
disso, declarava que era artigo necessário de fé que toda
a humana criatura esteja sujeita ao Sumo Pontífice,
subesse Romano Pontifici omni humanæ creaturæ
declaramus, dicimus, definimus et pronunciamus omnino
esse de necessitate fidei.
Em uma outra bula ordena a todas as pessoas de
qualquer classe que sejam, comparecer, quando
pessoalmente citadas, perante a audiência ou tribunal
apostólico de Roma: “desde que tal é nossa vontade, que,
por missão divina, rege o mundo”.
Excomunga a Felipe, e ia depo-lo desligando seus
súditos do juramento de obediência, quando enviados
401
do rei o surpreendem em seu próprio quarto,
maltratam-no e o lançam em prisão. Libertado, morre
logo depois de febre, que a paixão lhe causara.
Nem Hildebrando em todo o arrojo de suas
audacíssimas pretensões, nem Inocêncio III na
embriaguez, de seus incomparáveis triunfos,
ultrapassaram a ousadia de linguagem de Bonifácio, ao
apregoar as inalienáveis prerrogativas do Papado.
Governador temporal e espiritual do mundo, senhor dos
senhores e rei dos reis, ninguém podia salvar-se sem lhe
prestar obediência, reconhecendo á sua soberania
universal. Era o delirium tremens da embriaguez do
poder, o frenesi das ambições seculares do patriarcado
latino, e, ao mesmo tempo, o espasmo estertoroso de
uma longa agonia. Desvanecera-se o quebranto do
poder papal, e “de Bonifácio VIII deve-se datar o declínio
sensível do papismo (Halam)”. O pontificado do altivo
adversário do rei de França foi o Icabod da pretensa
Cathedra Petri.
“Aqueles, escreve Halam, que sabem o que Roma já
foi, melhor podem apreciar o que agora ela é; aqueles
que viram o raio nas mãos dos Gregórios e dos
Inocêncios, dificilmente poderão intimidar-se com os
surtos da decrepitude, com os dardos impotentes de
Priamo no meio das ruínas estrondosas de Tróia”.

A Contrarreforma

A Contrarreforma foi uma reação tremenda do


conservantismo medieval contra o movimento de
liberdade, movimento, que, na alvorada de novos

402
tempos, se salientou brilhantemente na Renascença e na
Reforma.
Roma e Madri, a Itália e a Espanha, constituíram-se
o bloco de resistência. Carlos V e o Papa se deram as
mãos: o despotismo religioso e o despotismo político se
conluiaram ante o surto ameaçador do espírito humano
proclamando a sua emancipação na esfera intelectual e
na esfera religiosa.
Para a Itália, encerrouse a Renascença, quando
assinaram o pacto de Bolonha (1530) Clemente VII e
Carlos V. Proclamava um tal pacto o princípio do
absolutismo monárquico, sustentado pela autoridade
papal, por seu turno monarquicamente absoluta. Teve
ele larga influência na Europa até o rompimento da
Revolução. Dirigiu-se a reação imediatamente contra a
Renascença, como contra a Reforma.
O concílio de Trento, aberto em 1545 e encerrado
em 1563, decretou uma reforma exterior (formal
purgation) da Igreja, afirmou as doutrinas do
Catolicismo, fortaleceu a supremacia papal, e inaugurou
o movimento de resistência conhecido com o nome do
Contrarreforma. Esse esforço complexo de avanço das
nações modernas que na ltália se caracterizava pela
Renascença, e na Alemanha pela Reforma, ergueu as
forças do conservantismo. Quatro foram os
instrumentos da reação: — o papismo, que, entretanto,
muito fizera pelo despertamento do espírito
humanístico, que ora temia; o poder da Espanha, e duas
instituições espanholas plantadas no solo romano — a
Inquisição e a Ordem de Jesus. O princípio defendido e
estabelecido por esta reação era o absolutismo em
oposição à liberdade — absolutismo monarquico,
absolutismo papal, a supressão das energias libertadas
403
pela Renascença e pela Reforma. (Encycl. Britan., vol. 20
pag. 389).
Importante foi o papel da Espanha, em sua
mancumunação com o Papado, nesta conspiração
histórica contra o movimento triunfante da Reforma.
Unidas as coroas de Castela e Aragão, vencida
Granada, a expulsos os mouros, descobertos os veios
auríferos do Novo Mundo, a Espanha, no auge do seu
poder, sente lavrar em si, cruel e intenso, o fanatismo de
suas crenças ultramontanas. Por toda parte, no seu
vasto império, iluminam a chamas da Inquisição,
reorganizada com sólidas bases, a magnificência do
Escurial!
Da Inquisição, odioso instrumento da
Contrarreforma, já falamos em capítulo antecedente.
Deixaram sanguinolenta fama na Espanha Domingos de
Gusmão (+ 1221), Torquemada (+ 1483), e o cardeal
Ximenes (1507-1517). Atesta Llorente lerem sido, nos
dez anos deste último inquisidor, supliciados 2536,
queimados em efígie 1368, e torturados, de vários
modos, 47263!
Em 1521 promulgou Carlos V vigorosos éditos
contra os hereges, e, em 1545, havia em cada província
um inquisidor. De 50 a 100.000 vítimas calculam terem
perecido sob Carlos V. O seu sucessor, o sombrio Felipe
II, e o afamado Duque de Alba, sob a inspiração papal,
continuavam com mais ardor a execranda carnificina. E
assim esmagaram a Reforma na Península, cavando o
abismo, em que se sepultou, há quatrocentos anos, a
gloria da civilização ibérica.
Mas volvamos agora a nossa atenção para os dois
grandes fatores da Contrarreforma: — os Jesuítas e o
concílio de Trento.
404
Os Jesuítas

Triunfara a Reforma.
Estremecem os fundamentos do Vaticano, e contra
a onda avassaladora da liberdade em vão revolve planos
a tríplice coroa. Lentas e ineficazes são as chamas do
negro tribunal. Na terra nativa, porém, dessa hedionda
instituição evoca o gênio da idade-média, do seio
convulso da sociedade européia, um vulto singular, cujo
olhar de Medusa sustará o império da liberdade,
petrificando o coração de seus filhos.
É Inácio de Loiola.
Descem à arena os janízaros do Papado: surgem os
jesuítas. Salva está Roma pontifícia; perdida, porém, a
Europa meridional. Nasceu Inácio de Loiola de uma
família nobre de Guipuscoa, na Espanha, em 1492, e em
1556 faleceu. Fitemo-lo por um instante. Tão cheio de
ardor marcial e aventuras cavalheirescas, quão vazio de
letras, foi ele gravemente ferido no cerco de Pamplona
em 1521, e viu, aos trinta anos, varrerem-se-lhe da
ardente imaginação castelhana os sonhados ideais
mundanos.
Encerrado, por longos e tediosos meses, no castelo
de seu pai teve por companheiros o Flos Sanctorum e o
Amadis de Gaula, que lhe povoaram a mente enfermiça
de híbridas visões do Céu e da terra.
Sarara, mas, deformado das pernas, atingidas por
um projétil fatídico, já não podia cantar triunfos entre as
damas gentis da corte de Fernando e Isabel, de que fora
pagem.

405
Inflamara-lhe o sentimento religioso a história dos
santos, e exaltaram-lhe o espírito aventureiro as
façanhas dos cavalheiros andantes do ciclo do Amadis, a
disputar, em requestas sangrentas, as belezas de sua
dama e senhora.
“Em Monserrate, diz Cantu, fez a vigília de armas
aos pés da Virgem, depôs sobre o altar o vestuário
mundano, envergou o burel de um mendigo, e consumiu
três dias numa comissão geral. Para merecer a
absolvição, inflingiu-se as mais cruéis penitências. Em
Manresa recolheu-se a um hospital, e começou a viver
como um faquir. Jejuava a pão e água, e só aos domingos
se permitia o regalo de umas ervas cuzidas.
Disciplinava-se três vezes por dia, trazia um cilício sob
o burel e uma cadeia de ferro ao pescoço. Ainda não
contente com tais mortificações, meteu-se numa cova,
para se purificar e ser digno da empresa que ia tentar.
Nesta solidão, teve visões. O bem e o mal apareciam-lhe
quais guerreiros combatendo na sua alma como em
estacada; um montado num cavalo de luz, vinha de
Jerusalém, guiado por Jesus; o outro, cavalgando um
corsel de trevas, partira de Babilônia, impelido por
Satanás. No desespero produzido nor estas alucinações,
quis matar-se; a fome, as noites veladas com a boca
cheia de terra e o corpo a escorrer água, a pavorosa luta
interior, enlouqueceramno de todo. Deus apareceu-lhe
então. Viu a Trindade, desvendaram-se-lhe todos os
mistérios das Escrituras. Encontrou a beata de Manresa,
uma vidente que o próprio rei consultava; cobrou
alentos para continuar a sua peregrinação, e partiu,
iluminado, de Barcelona”. (Hist. Univ. C. Cantu vol. 13
pág. 417).

406
Êmulo de Lutero, passou Loiola pelas mesmas
experiências espirituais que o reformador saxônico.
Quão diferente, porém, o resultado!
Embuídos ambos do mesmo ascetismo mediévico,
buscaram no mau tratamento do corpo a salvação da
alma. Na raiz desta corrente asceta, que penetrou no
Romanismo, está o princípio pagão da reabilitação do
homem pelos méritos próprios. Nas trevas do
paganismo, brotou, como produto natural do orgulho, a
ideia de que o homem pelos merecimentos intrínsecos
de suas próprias obras, poderia eliminar e sobrepujar
suas faltas, obtendo do juiz supremo absolvição plena. É
a rejeição da graça de Deus e a negação do Evangelho.
Dominados por este princípio, rivalizaram Loiola e
Lutero nas macerações do corpo, nos jejuns, cilícios,
penitências exteriores.
Mas, que agonia! Quem lhes diria o quatum satis de
sofrimentos e boas obras para contrabalançar os seus
pecados? Para essas consciências assim despertadas
não pode haver segurança na salvação pelas obras e
méritos pessoais, na satisfação à lei divina violada, por
meio de sofrimentos voluntários.
O monge de Wittenberg achou em Staupitz
superior de sua ordem, um conselheiro sábio, que lhe
mostrou a cruz do Calvário, única e plena satisfação
pelos pecados da humanidade. Envergonhado de seus
fantásticos merecimentos, achou Lutero paz em Cristo,
e nele encontrou poderosíssimo estímulo e graça para
as boas obras. Não teve essa felicidade o herói de
Pamplona, que enlouqueceu no natural desespero de
seu esforço, acenando-lhe para o abismo o espectro
sombrio do suicídio. Alucinado, apareceram-lhe a S. S.
Trindade e a Virgem, dama de seus pensamentos
407
cavalheirescos, tipo de formosura e perfeição, como
outrora o anjo Rafael aparecera ao fundador do
Islamismo.
Confirmado em sua ilusão, lançou-se no polo
oposto ao do seu êmulo saxônico, e organizou uma
companhia de férrea disciplina, de um secretismo
impenetrável que, comandada por um general, o papa
negro, defendesse a cidadela do Romanismo, assediada
pelo movimento fulminante da Reforma.
Em 1540, foi reconhecida oficialmente a
Companhia de Jesus pelo papa Paulo III. Nos Exercícios
espirituais, atribuídos ao fundador, fotografa-se o
espírito da Ordem. Requer-se ai dos seus membros uma
disciplina supra-militar. Anulam-se eles nas mãos do
General (ou geral), “como a cera nas mãos dos que a
afeiçoam”, “como o báculo nas mãos de um velho”,
“como um cadáver (ut cadaver), sem vontade nem
entendimento, ou como um pequeno crucifixo, que s,e
volta para um ou outro lado à vontade do que o segura”,
É isto a eliminação do homem, o aniquilamento da
individualidade.
Três máximas da Companhia reduzem a trapos a
moral. Encerram elas os princípios — do probabilismo,
da restrição mental, da justificação dos meios pelos fins.
(Encycl. Brit. vol. 13, pg. 651).
O “probabilismo” justifica o criminoso desde que, na
prática do delito, tenha ele por si a opinião de algum
autor contra o caráter delituoso do ato. A “restrição
mental” surte o mesmo efeito por meio de um mero ato
subjetivo. Mais odioso, o úitimo sanciona todos os
crimes uma vez que o fim contemplado seja bom: “o fim
justifica os meios”. Sobre este perigosíssimo princípio
discorrem os moralistas da Companhia: Cum finis est
408
licitus, etiam media sunt licita. Finis determinat
probitatem actus. Cui concessus est finis, confessa est sunt
mediam ad finem ordinata (Ibidem).
Tão subversivos princípios, deu lugar à casuística,
em que os teólogos do jesuitismo acham meio de
linsonjear as paixões, dissipar os temores dos menos
endurecidos, e arruinar a moral.
E para completar a obra nefanda de destruir as
nobres faculdades da natureza humana, prescrevem na
Ordem a iegra aviltante da espionagem entre os seus
membros. Manifestare sese invicem — Quæcunaque per
quamvis manifestentur (Reg. societ, p. 2, apud. E. Quinet).
A suspeita é a norma, a delação a lei.
A noção do bem e do mal, santelmo da humanidade
no mar tenebroso das paixões, confunde-se e se anula
na noite criada por essas máximas subversivas. Os
jesuítas, dilo acertadamente E. Quinet, são os fariseus do
Cristianismo, como os fariseus são os jesuítas do
mosaísmo.
“Eis, escreve o mesmo autor, um cristianismo
inteiramente novo, pois os milagres de Cristo se faziam
para chamar os mortos à vida, mas os milagres de Loiola
se fazem para conduzir os vivos à morte. Vida — é a
primeira e a derradeira palavra de Cristo; cadáver — é a
primeira e a última de Loiola. Cristo faz sair Lázaro do
sepulcro; Loiola quer de cada homem fazer um Lázaro
no sepulcro. Que há, pois, de comum entre Cristo e
Loiola?”
Eis o jesuitismo: vasto “sepulcro branqueado”,
onde o Romanismo pretende celebrar as exéquias da
humanidade.
Cedo começaram os povos a perceber o perigo
social da Ordem. Lançada na arena em 1540, foram
409
expulsos como perturbadores da tranqüilidade pública
e corruptores da sociedade, da França em 1549, 1765,
1830, 1880, de Antuérpia em 1578, da Holanda em
1598, 1816, de Veneza em 1606, da Boêmia em 1618, da
Morávia em 1619, de Maita em 1643. da Rússia em
1723, 1813, 1820, de Portugal em 1759, de Espanha em
1767, 1820, 1835, de Sicília e Nápoles em 1767, de
Parma em 1786, da Suiça em 184748. (Vid. Larousse.
Encycl. Britan sob o título jesuítas, E. Quinet. Les Jésuites,
p. 54).
Urgido por esses clamores, o papa Benedito XIV, “o
mais erudito e capacitado dos últimos papas” (the most
learned and able of the later popes, Encycl. Brit.),
promulgou em 1741 um breve severo em que
denunciava os jesuítas como “réprobos, capciosos,
contumazes, desobedientes”. (Encycl. Brit. vol. 13, p.
654).
Completando a iniciativa de Benedito XIV,
Clemente XIV, a 2l de julho de 1773, suprimiu, em seu
famoso breve Dominus ac Redemptor, a Ordem dos
jesuítas. Nesse importante documento esboça o papa a
história dos membros da Companhia, expõe suas
intrigas políticas, seu antagonismo para com as outras
ordens religiosas, a grande ruma das almas produzida
pelo seu espírito metediço e perturbador, sua falta de
escrúpulo em se conformar com as práticas pagas no
Oriente, a instigação à revolta e à perseguição em países
católicos. Finalmente, uma vez que soberanos católicos
já os tem expulsado de seus domínios e muitos bispos e
personagens eminentes pedem a sua extinção, o papa
resolve, por amor à paz da Igreja, “a suprimi-la, extingui-
la, aboli-la, e ab-rogá-la para sempre, com todos os seus
ritos, casas, colégios, escolas e hospitais.”
410
Anos depois, em 1814, Pio VII revogou o ato de
Clemen. te XIV, e restaurou a Companhia, olvidado
inteiramente da infalibilidade do seu colega!
No concílio de Trento e no concílio do Vaticano,
representaram os jesuítas papel preeminente e
decisivo. No primeiro destes concílios, Lainez, Fáber e
Salmeron, três membros da Ordem, eram os teólogos
escolhidos pelo papa, que exerceram considerável
iníméncia nas definições dogmáticas, com que essa
assembleia fixou o credo católico-romano, até então
vago e vacilante. Melhor que ninguém, caracteriza Huy
Barbosa esses negros janízaros do Papado:
“Repudiando todos os escrúpulos de moralidade,
subordinando impudentemente os meios aos fins, essa
milícia inumerável e infatigável tem enchido a terra, há
três séculos, com os seus feitos em prol da supremacia
teocrática de Roma. Instigando no Piemonte e na
Calábria o morticínio dos valdenses; alma da alma do
sombrio demonio do meio dia”, Felipe II; senhoreando o
ânimo de Fernando de Áustria; para dominar, por trás
do rei, a côrte e a universidade vienense; exercendo, na
Boêmia, proscrição atroz contra os protestantes;
cooperando com a mais decisiva influência para a
assoladora guerra dos trinta anos; aprovando e
glorificando a carnificina de S. Bartolomeu, a que
chamaram “noite imortal”; abençoando, como
confessaram, o punhal de Jacques Clément;
concorrendo no mais alto grau para a revogação do
édito de Nantes; aconselhando na Suíça, por exemplo,
mediante as máximas da sua indigna imoral, como
direito dos povos católicos, a deslealdade aos pactos
mais solenes, contraídos, com estados infiéis; cerrando,
cúmplices, olhos na Inglaterra, “à conspiração da
411
pólvora”; governando Portugal pelo braço de Sebastião
e Pedro II; reinando sob Sigismundo e por Sigismundo
sobre a Hungria; inspirando o concílio de Trento; em
toda a parte, em todos os tempos, de todo o modo, nunca
foram os jesuítas outra coisa que uma representação
fiel, tenaz, inteligente do espírito romano, o
ultramonlanismo em atividade.
“Nem contra esta maneira de ver é argumento a
resistência da Companhia a alguns papas e a
condenação proferida por alguns bispos de Roma,
contra o instituto da Ordem e a sua moral. E que os
papas, nesses lúcidos interva-los, discreparam das
tradições do papado, e a Companhia, em que eles
desconheciam assim a divina predestinação, que inculca
e que a cúria tantas vezes lhe reconheceu, de
incomparável defensora da autoridade romana, resistiu
aos pontífices para servir melhor ao pontificado,
protestava contara os indivíduos, em nome das
instituição. Daí o recalcitrarem os jesuítas a Paulo IV e a
Pio V; daí a advertência ameaçador de Belarmino a
Paulo V; daí a oposição deles a Clemente XIV. Se disso
alguma prova se houvesse mister, bastaria lembrar as
retratações estrondosas em que o papado reabilitou
depois os discípulos de Inácio, restituindo à Ordem os
títulos, as vantagens, os privilégios de filha predileta de
Roma”.
“Quando pregaram, na China, o catolicismo, como
um desenvolvimento da religião confuciana; quando na
Índia se Jaziam brâmanes e, afogando os preconceitos
da casta sacerdotal, iam depor no chão, sobre o
soalheiro da choupana do pária, a hóstia da eucaristia;
outra coisa não havia nesse escândalo mais que uma
aplicação, audaz, sim, mas lógica, da teoria que confunde
412
a fé com a discipilna, com a sujeição exterior, com a
prática formalística e supersticiosa de um culto
materializado. Considerados à luz do puro cristianismo,
tão impia é a aliança das superstições bramânicas ao
culto de Deus, como a consagração das “fraudes pias”,
dadas à luz pelo jesuitismo, ainda no século XIX, para
manter nas ciasses iletradas a superstição pagã.
Encarada, porém, ao aspecto da moral jesuítica, tão
invejável e digna do céu é a ignorância do hindu, vendo
no símbolo da imolação do Cristo uma revelação
misteriosa de Brama, como a simplicidade ininteligente
do católico esquecido do Pai em espírito e verdade e
ajoelhando, em fervorosa prece, diante do altar do
Sagrado Coração da Senhora de Salete ou virgem de
Lourdes”. (Ruy Barbosa, Introd. ao “O Papa e o Concílio”,
págs. 23 e seguintes).

Concílio Tridentino
1545 — 1563

Firmada na Palavra de Deus, a Reforma apelara


para um concílio geral, que se reunisse na Alemanha,
sem a presidência do papa.
Aquiescera o Imperador Carlos V ao apelo na
esperança de evitar o cisma, que indubitavelmente
enfraquecera sua autoridade imperial.
Clemente Vil, sucessor de Leão X, resistia, “temendo
que o concilio se arvorasse em tribunal para o julgar a
ele e julgar o Papado” (Hist. Univ., C. Cantu, v. 13, p. 421).
Seu sucessor, Paulo III, cedeu à presão do
imperador. Convocou o concílio primeiro para a cidade
de Mântua, a reunir-se a 7 de maio de 1537. Ninguém
413
compareceu. Convocou-o então o para para Vicência, a
1º de maio de 1538. Aí esperaram os legados papais por
três meses, os bispos. Ninguém apareceu. Foi
transferida a convocação para abril de 1539, e,
posteriormente, por uma bula, adiada indefinidamente.
Em começos de 1542, uma bula papal convoca o
concilio para Trento. Comparecem os legados do papa e
alguns bispos, e, depois de sete meses de espera,
dispersam-se.
Finalmente uma nova bula de Paulo III marca, para
a reunião, 15 de março de 1545, na mesma cidade de
Trento. A 13 aí chegam os legados papais e só a 13 de
dezembro houve número para se abrir o concilio.
Aludindo à série de dilatados embaraços para a
reunião do célebre concilio, escreve Bungener:
“Desconfiança, intrigas, mal-entendidos e querelas de
toda espécie, violências, baixezas, inextricável
amontoado de interesses, de opiniões, de paixões
manifesta e grosseiramente humana — eis de que caos
ia surgir o concilio; eis sobre o que se iria firmar a
cadeira donde, como se julgava, Deus falaria” (His. du C.
de Trente, t. I, p. 29).
Estudando o seu funcionamento, escreve ainda o
mesmo erudito historiador: “A autoridade do concílio
de Trento só realmente começou depois de seu
encerramento.”
Vinte e cinco anos levou o concílio para se reunir, e
a sua frequência relativamente diminuta não justifica o
titulo que tem de concílio geral, universal, ecumênico.
Funcionou por dezoito anos com intervalo, determinado
por três convocações: a primeira, sob Paulo III, 1545-
1547; a segunda, sob Júlio III, 1551-1552; a terceira, sob
Pio IV, 1562-1563.
414
No dia da abertura do concílio, só compareceram
25 bispos, posteriormente 60 e 70, que segundo
Bungener, raramente se reuniam, sendo muitas vezes
abaixo de 50 o número presente. E, entretanto, foi nesse
período que resolveram pontos fundamentais, tais
como — Escritura, Tradição, Pecado original, Graça,
Sacramentos etc. “Que loucura, exclamou Paulo IV, em
um momento de mau humor e franqueza, o enviar-se
sessenta bispos, dos menos hábeis, em uma pequena
cidade montanhosa, para aí resolverem tantas coisas!”
(F. Bung. Hist. du C. de T., v. I, p. 34)
Apenas pelo fim o número de votantes elevou-se a
250, ainda insuficiente para uma representação
universal, pois só a Itália possuía mais que esse número
de bispos.
Se a infaübilidade do concílio, como dizem,
depende de ama representação ecumênica da Igreja, é
evidente que há sérios motivos para o católico duvidar
da infalibilidade co concílio de Trento, não só pela
insignificância da representação, mas ainda pelo caráter
dos representantes, que não foram eleitos pela Igreja,
isto é, pelo corpo dos fiéis.
Além destas considerações, fervilhavam em seu
seio rabiosas facções políticas. O papa e o concílio
fiscalizavam-se mutuamente, e o mesmo acontecia com
o papa, Carlos V e Francisco I. Os embaixadores das
grandes potências colocavam-se, como nos mostra E.
Castellar, à frente das respectivas facções nacionais,
ameaçadoras e perigosas à unidade do pontificado. “Los
obispos se anatematizaron y ex comulgaron unos á
otros”. Os legados papais vigilantes comunicavamse
diariamente com Roma, e, como então se dizia —
“llegaba todos los dias el Espiritu á la ciudad y á la As
415
sembléa metido en una balija” (E. Castellar, La Rev. Rei.,
vol. 4, p. 305, 306).
O Jesuitismo, atalaia do Papado, “influiu de um
modo extraordinário na segunda parte do concílio de
Trento e em suas últimas determinações”, diz-nos ainda
o eminente escritor espanhol, e acrescenta: “Enemigo
de toda reforma y partidário de toda esta estabilidad
nadie ganó tanto com él . n que la Iglesia, y el antiguo
Estado quedaron sobre sus bases inconmovibles y
seculares. Lainez y Salmeron repre sentaron la
irreconciliable oposicion dei catolicismo intransigente á
todo humano progreso. Para ellos el ideal estaba en
extender las atribueciones dei Pontífice hasta los
últimos limites imaginables y condenar y destruir
qualquier género de restricion neccssaria. Con
fundamento les han llamado ios genízaros y los
mamelucos dei Papa”.
Nestas circunstâncias, que absolutamente não
recomendam a seriedade e muito menos a infalibilidade
do concílio, tiveram os bispos de enfrentar duas fortes
corrente de opinião provocadas pela Reforma, e
intensificadas pelo Imperador e pelos embaixadores das
potências européias. Diziam elas respeito à reforma dos
costumes e à revisão das doutrinas.
O desregramento do clero, sua corrupção e crassa
ignorância, os abusos e arrogância dos altos dignitários
da Igreja, clamavam, havia séculos, reforma da cabeça
aos membros, in capite et membris. Mas lá estava o papa
encastelado em Roma e nas prerrogativas de abusos
seculares, e lá estava a guarda pretoriana, vigilante e
ousada, nas intrigas da assembleia; quem se a atreveria,
pois, a tocar na ironte que cingia a tríplice coroa? Quem
ataria o guizo ao pescoço do gato? Lainez se levanta e
416
declara ao concílio que itoma poderia reformar todas as
igrejas nacionais e nenhuma delas poderia reformar a
Roma, porque jamais os discípulos reformaram ou
instruíram o mestre. E quando, escreve ainda Castellar,
lhe arguiam sobre os abusos excessivos do poder
pontifício, respondiam que coisas, más, quando vistas
de longe, tornavam-se úteis e boas, quando
contempladas de perto. Os bens da Igreja são donativos
diretos de Deus aos pontífices, como propriedades
absolutas, para que delas usem ou abusem à vontade.
“Para los jesuítas Iglesia, dogma, disciplina, cânons, todo
se absorbia y condensaba á una en el Pontífice, vice-Dios
sobre la tierra… Así, pues, confabularonse á una en el
Concilo para destruir el poder antiguo de los obispos y
condensarlo todo entero en la cabeza de los Papas,
contribuyendo al estabelecimiento del absolutismo
pontifício, tan nefasto para el movimiento de las
sociedades numanas como para la pureza y santidad dei
dogma católico”.
Com estas frisantes palavras, mostra o eloquente
autor de “La Revolucion Religiosa”, como em Trento
tolheu o jesuitismo o passo à reforma dos costumes, e
desbravou caminho para o Vaticano, onde completou a
sua obra nefasta lançando à face da história do escárnio
supremo da infalibilidade papal.
Se na reformação do clero pouco conseguiu o
concílio de Trento, muito fez, “entretanto, pela fixação
do credo e codificação das doutrinas do Romanismo.
Mesclado de abundante subsídio judeu pagão e
invencionices mediévicas, flutuava o vasto credo
católico romano nas crenças mais ou menos vagas e
indefinidas do séc. XVI. A voz forte dos Reformadores

417
denunciaram-no, e os padres de Trento viram-se
coagidos a fixa-lo.
Esparsos pelos escritos dos doutores, pelas bulas
dos papas, pelos cânones de concílios, boiavam ideias,
opiniões, doutrinas, completamente estranhas ao credo
primitivo, que não tinham recebido uma sanção formal
da Igreja toda.
O credo dos Apóstolos é um dos fragmentos mais
respeitáveis da antiguidade cristã. Contém ele os
dogmas fundamentais da Igreja nos primeiros tempos.
Na simplicidade o esse documento venerando nada se lê
do papado, purgatório, limbo, missa, confissão,
transubstanciação, sacerdócio culto a santos, e muitas
outras coisas que Roma julga essenciais para a salvação.
A Reforma abriu a Palavra de Deus, e convidou o
clero a reformar a si e ao credo, sob pena de apostasia
definitiva.
O concílio de Trento respondeu à Reforma
procurando diminuir os abusos e sancionando
definitivamente todos os erros flutuantes, emergidos do
paganismo e judaísmo.
Aceitos os decretos de Trento como a expressão
oficiai de um concílio ecumênico ou universal,
constituem eles diante de Deus e dos homens, a sanção
autorizada e definitiva da apostasia católico-romana.
O patriarcado latino recusou ouvir a voz da
Providência, e rejeitou a Reforma, e a Reforma, repelida
nos seus intuitos santos, foi levada a segregar-se, e a
organizar-se no Protestantismo.
Lança um dia o Senhor tremendas apóstrofes
contra o clero judaico, que o crucificou; lamenta que
Jerusalém, arrastada pela perversidade do farisaísmo
clerical, matasse os profetas, apedrejasse os enviados de
418
Deus, rejeitasse os apelos de sua misericórdia, e,
despedindo-se do judaísmo, exclama: “Eis aí vos ficará
deserta a vossa casa!” “Ecce relinguetur vobis domus
vestra deserta. (Mateus 13:37-38). — Repetiu-se a
história: Cristo em Trento despede-se do Catolicismo
Romano.

O Concílio do Vaticano
1870

Assinala o concílio do Vaticano o pináculo da


pirâmide da hierocracia papal. Das mãos de Pio IX,
sustentadas pelo geral dos jesuítas, receberão a
consagração suprema as infindas ambições de Leão I,
Gelásio, Gregório I, Gregório VII. Inocêncio III, Bonifácio
VIII, Paulo IV.
Mas, altos desígnios da Providência! Quando a
coroa da infalibilidade cingir, afinal, a fronte do Sumo
Pontífice, fugirá dela para sempre a fascinação da
teocracia: Sombra errante nos vastos salões do
Vaticano, o papa, como outrora o imperador romano,
clamará debalde a Loiola que lhe restitua as suas
legiões. Foi mais feliz Alexandre Magno ao se proclamar
filho de Júpiter.
Continuava a flutuar a pretensa infalibilidade entre
o concílio e o papa. Trento tergiversou e deixou ir
resoluto o problema. Ia derimir o pleito secular o
concílio do Vaticano.
A infalibilidade do papa, diz o eminente historiado
eclesiástico Philip Schaff, a doutrina de que o Bispo de
Roma em seu caráter oficial quando fala ex-cátedra
sobre questões de doutrina, católica e de moral, é livre
419
de erro, sem necessitar de qualquer confirmação de
concílio ecumênico, é coisa completamente ignorada
dos antigos padres, credos e concílios, e a Igreja Grega a
rejeita como blasfema.
Surgiu tal opinião na idade média em conexão com
as falsas Decretais do pseudo-Isidoro. É, pois,
significativa a gênese de tão arrogante opinião, que
deste modo lhe imprime o labéu infamente de uma
fraude ímpia.
Defendeu-a, não obstante, o anjo da escolástica,
Tomás de Aquino. Repeliram-na fortemente os concílios
ecumênicos reformadores de Pisa, Constança e Basiléia,
que estabeleceram a supremacia da autoridade sinódica
sobre a do papa.
O concílio de Trento não tocou nas decisões desses
três concílios gerais, e deixou aberto o conflito, que se
tornou um pomo de discórdia entre a igreja galicana e
os jesuítas. O galicanismo era pela infalibilidade do
concílio, e o uitramon tanismo pela do papa. Os jesuítas
apoiavam ardentemente a escola ultramontana,
enquanto os jansenistas, a galicana.
Rude e acrimoniosa se agitava a controvérsia.
Era espantosa a incerteza de quem fosse o sujeito
infalível, depois de dezoito séculos de existência!
Nenhum católico, até 1870, sabia ao certo onde residia
a suprema autoridade, o plenitudo potestatis. Andavam
tateando nas trevas, em busca de um ponto fugidio de
apoio.
Era isso indicio seguro, de que ambas as
parcialidades laboravam em erro, tendo perdido o
sólido fundamento da Palavra infalível de Deus. A
infalibilidade não era do papa, nem do concílio: era da
Palavra de Deus inspirada aos Profetas e aos Apóstolos.
420
Cristo prometeu, de fato, estar com a sua Igreja, contra
a qual não prevaleceria as portas dos iniernos. Isto
garante a imperecibilidade da Igreja, ou, mesmo, se o
quiserem, a sua infalibilidade, sem garantir, entretanto,
a infalibilidade doutrinária, de qualquer indivíduo ou
corporação eclesiástica. Ele saberá preservar, na
verdade salvadora, pela assistência de seu Espírito, até
a consumação dos séculos, os seus escolhidos (Mateus
16:18, 28:20), sem ser necessário revesti-los de
infalibilidade pessoal ou coletiva.
A Bíblia é a autoridade infalível na Igreja, é a fonte
divina da verdade religiosa sempre presente, é o juiz
imparcial de controvérsia.
Era natural que desconhecessem essa suprema
autoridade séculos de tão profunda ignorância, e que
aos próceres do tempo não conviesse autoridade tão ao
alcance de todos. Era mais consentâneo com os seus
interesses uma herança que pudessem adjudicai ao seu
patrimônio especial.
Nesta disputa escandalosa do infalibilismo,
levavam os concílios ecumênicos vantagem aos papas,
no pressuposto aceito de que a promessa fora feita à
Igreja, da qual eram delegados os bispos.
Assim sendo e de harmonia com as mais antigas
tradições da cristandade tanto do Oriente como do
Ocidente, decreta o concílio de Constança (1414-1418),
em sua 4ª e 5ª sessão, a superioridade da autoridade
sinódica, nos seguintes termos:
Todo concílio ecumênico regularmente convocados
assume de Cristo a sua autoridade: todos, incluído o papa,
lhe estão sujeitos em assunto de fé; todos, na hierarquia
eclesiástica, do primeiro ao último grau, devem

421
obediência, quer no extinguir o cisma, quer no reformar a
Igreja. (Jânus, O Pap. e o Cone. p. 226).
“Decisão esta, acrescenta Jânus, antiga e primitiva
em sua concepção, fértil de consequência, prenhe de
futuro, tal como nenhum concílio formulará jamais
outra, e conforme aos sentimentos que a Igreja
professava antes do Pseudo-Isidoro”. É evidente que ela
decretava a falibilidade papal, pois, se “o papa está
sujeito ao concílio em assuntos de fé”, não pode ser ele
infalível. E o concílio que isso declarava é, com razão,
reconhecido oficialmente como ecumênico ou universal.
Convocado pelo papa João XXIII e pelo imperador
Sigismundo, abriu-se ele com a presença do papa e 29
cardeais, 3 pratriarcas, 33 arcebispos, cêrca de 150
bispos, mais de 100 abades, e 500 monges de diferentes
ordens e outros tantos professores e doutores em
teologia, e em leis canônicas, além de príncipes, nobres,
embaixadores, etc. Calcula-se em 50.000 visitantes
durante o concílio, sendo um terço desse número
banqueiros, agiotas, atores e prostitutas.
Um dos fins do Concílio era acabar com o cisma. Em
1409, reunira-se o concílio de Pisa para por termo ao
escândalo de dois papas, que haviam dividido a Igreja, a
se anatematizar reciprocamente — Gregório XII em
Roma, e Benedito XIII em Avlnhão. Depostos, ambos,
elegeu o concilio Alexandre V, e, por morte deste a João
XXIII. Aumentou o escândalo: três cabeças doutrinavam
infalivelmente a Igreja, e se mimoseavam com epítetos
infalíveis O concílio de Constança depõe os três, e elege
Martinho V, demonstrando praticamente a
superioridade da autoridade sinódica sobre a
autoridade individual do papa.

422
Triunfou o Concílio contra as pretensões
infalibilistas usurpadoras do bispo de Roma. Nem por
isso se deu este por vencido.
Em 1431 — 1449, reúne o concílio de Basiléia, e a
luta entre os dois rivais explode de novo. Receoso o
papa Eugênio IV da atitude do concílio, expede uma bula
dissolvendo-o (18 de dez. 1431), e lança excomunhão
contra os que se dirigem a Basiléia. O concílio protesta,
e lhe nega competência para tanto. Ia vibrar o golpe da
deposição, quando intervém o imperador Sigismundo.
Retrata-se o papa, e reconhece que o concílio estava no
direito de resistir à sua infalibilidade, e prometeu aderir
às deliberações tomadas na assembleia “com a maior
devoção e amor”. “Retratamo-nos, declara o papa, das
três bulas, a fim de mostrar com estrondo ao mundo a
pureza de nossas intenções, e quão sinceramente somos
delicados a toda a Igreja e ao santo concílio ecumênico
de Basiléia” (Jânus, o Pap. e o Conc. p. 233).
“Completa a humilhação do homem e o revés do
sistema”.
Altera-se novamente a situação neste torneio
interessante entre o papa e o concílio. Em julho de 1437,
instaura este, processo contra Eugênio IV, em janeiro de
1438 suspendeo, e em 25 de junho de 1439, é ele
deposto, e eleito em seu lugar Félix V.
Mais diplomata, porém, que os padres do “santo
concílio ecumênico”, reúne Eugênio IV um
contraconcílio em Ferrara, apelidando “bando de
Satanás” ao sínodo de Basiléia. Obteve o apoio de Carlos
VII, rei de França, peitou o chanceler do Império Schlick
e o secretário, e Félix V viuse constrangido a resignar.
Saiu vitorioso o papa, se bem que com a honra em
frangalhos e a infalibilidade desfeita.
423
Declinava o tremendo poder papal, em conflito
permanente com o poder civil e com as prerrogativas
episcopais, mas não declinava a política fraudulenta da
Cúria nem a arrogância ambiciosa dos papas.
Paulo IV, em 1558, reedita as máximas de
Hildebrando, a tirania de Inocêncio III e as loucas
pretensões de Bonifácio VIII, proclamando na bula Cum
ex apostolatus officio, “na plenitude de sua jurisdição”:
1º O papa, que, na qualidade de “Pontifex maximus”,
é representante de Deus na terra, qui Dei et Domini Jesu
Christi vice gerit in terris, com poder absoluto impera
sobre os povos e reinos; sentencia a todos, e de ninguém
pode ser sentenciado.
2º Monarcas, príncipes, bispos, todos, apenas caiam
em heresia, ou separaremse da Igreja, ficam no mesmo
ponto irrevogavelmente depostos, independente de
qualquer formalidade legal, privados absolutamente
dos direitos soberanos, e condenados à pena de morte.
No caso de arrependimento e conversão, cumpre sejam
enclausurados num mosteiro, para se penitenciarem a
pão e água a vida inteira.
3º A ninguém é lícito, seja como for, socorrer um
príncipe declarado herege ou cismático, nem com ele
usar, sequer, de humanidade. O monarca que contravier
esta proibição ficará imediatamente privado do seu
reino ou territorio. que tocará em quinhão aos príncipes
obedientes ao papa, os quais se apossarão do senhorio.
4º Se algum papa ou bispo tiver concebido
sentimentos heréticos ou cismáticos, e só mais tarde se
vierem a descobrir, nulo e írrito será quanto esse
prelado tiver feito desde aquela época.
Em 1627, Urbano VIII, na bula In Cæna Domini,
fulmina, a granel, excomunhões e anátemas, que vinham
424
sendo lançadas desde Gregório XI, em 1372, com a
mesma proterva altivez e largueza. Porém o delírio
papal devia subir mais alto. A milícia negra tramava a
sua apoteose, e o vaticanismo marcaria a suprema
alucinação do papismo.

Pio IX

Uma paixão infeliz levou à Igreja e ao trono


pontifical (1846-1878), Giovani Maria Mastai Ferreti,
sob o apelido de Pio IX.
De fidalga estirpe e apoucados meios, maneiras
bizarras, porte esbelto, compleição mórbida de fundo
epiléptico, parca s letras, escassa teologia, e rígido
autoritarismo, tal o papa que devia ultimar a pirâmide
satânica da hierarquia eclesiástica. Soprava intenso, no
segundo quartel do século nono, o espírito
revolucionário, c uma sêde ardente de liberdade agitava
as massas e perturbava os governos. Espírito entusiasta,
havia-se Pio IX filiado à Maçonaria, deixando+se
arrastar pelas aspirações populares. Aos novos ventos
do liberalismo, levantaram Cavour. Mazini, Garibaldi, a
bandeira sagrada da unificação da Itália. Do solo da
pátria varriam a dominação estrangeira.
Colhido pelo tufão, inaugurou o papa reformas
liberais nos Estados Pontifícios. Libertou milhares de
infelizes, que, em fétidas e verminosas masmorras,
amaldiçoavam a crueldade despótica do papa-rei.
Coagido pelo povo, promete um regime constitucional,
que para sempre deveria quebrar o jugo odiosíssimo do
absolutismo teocrático inquisitória!

425
O partido ultramontano, alarmado, apoda-o, por
boca dos jesuítas, de Robespierre de tiara. A camarilha
dos cardeais reage, e um levante popular (1848) fá-lo
fugir para Gaeta, onde renega as suas promessas, e se
entrega aos jesuítas.
Carbonários do ultramontanismo, descem os filhos
de Loiola à arena, e numa tremenda reação, desfecham
contra o liberalismo três golpes sucessivos — o dogma
da Imaculada Conceição, o Sílabo e a Infalibilidade
papal.

A Imaculada Conceição

Distingue a teologia romana entre culto de dulia,


hyper dulia e latria. Cultua-se aos santos com o culto de
dulia, à Virgem com o de hiperdulia, a Deus com o de
latria. Distinções meramente teóricas, absolutamente
negativas na prática.
Demais, o culto das criaturas beatificadas é
completamente estranho ao Cristianismo. Dele não
existem sequer sombras na Palavra de Deus, nem no N.,
nem no V. T. Todo ensino da Bíblia sobre este ponto
resume-o Cristo nestas palavras, repelindo a tentação
satânica: “Vai-te, Satanaz, pois escrito está: Ao Senhor
teu Deus adorarás, e a ele só servirás” — Vade, Satana;
escriptum est enim: Dominum Deum tuum adorabis, et illi
soli servies (Mateus 3:10).
Não soube Roma imitar ao Divino Mestre, e Satanaz
a induziu ao culto idólatra das criaturas. Prende-se o
culto de dulia e hiperdulia, ao culto dos heróis e semi-
deuses do paganismo. A analogia é flagrante. Com
especialidade o culto da Virgem-Mãe, filia-se, de seguro,
426
à paganíssima corrente naturalística das religiões
antigas. É o culto da mulher na dupla idealização de
virgem e de mãe.
O seu protótipo, como mãe, têmo-lo em Cibele ou
Réia, esposa de Saturno, filha do Céu e da Terra, a Mãe
dos Deuses, a Boa Deusa, a Rainha dos Céus; como
virgem, em Vesta que se apresenta como uma das
transmutações mitológicas da própria Cibele; donde as
Vestais, que, em perpétua virgindade, deviam manter
sempre aceso o fogo sagrado. Cibele é adorada sob
várias invocações, entre outras Ops, que quer dizer
riqueza, porque ela é distribuidora de auxilios, socorros,
assistência. Os seus sacerdotes são os coribantes e
semíviros, geralmente eunucos.
A semelhança entra pelos olhos, e se agrava com o
que nos narra o profeta Jeremias sobre a penetração
desse culto pagão no povo de Deus de seu tempo “Os
filhos ajuntam a lenha, e os pais acendem o fogo, e as
mulheres misturam a manteiga com os mais adjuntos
necessários para fazerem tortas à Rainha do céu (Regina
cœli), e para sacrificarem a. deuses estranhos e para me
provocarem à ira”. (Jeremias 7:18, 44:17).
Semelhantemente, a Virgem Maria é chamada
Rainha do Céu, Mãe de Deus, Deipara, Mãe dos homens,
(Boa Deusa), e é cultuada sob variadíssimas invocações.
Vivo impulso recebe o culto da Virgem do espírito
cavalheresco do ciclo arturiano, quando os pálidos
clarões de uma nova época esbatiam as sombras de urn
medievalismo rudo e belicoso. Era então Maria, como
donzela e como mãe, a idealização sublime da mulher, a
personificação arrebatadora da dama, que iluminava a
mente apaixonada dos cavaleiros andantes, e inspirava
o cântico enamorado dos menestréis.
427
Sob o influxo desta corrente poético-religiosa,
ergue-se o cavaleiro de Pamplona, que encontrou, na
dlátese de Pio IX, o meio de cumprir os ardentes vutos,
depositados, ao velar as armas, ao pés da imagem de
Nossa Senhora.
Paladinos da Virgem-Mãe, foram os discípulos de
Loiola os grandes propulsores da Mariolatria, a fôrça
que apressou a metamorfose do Cristianismo em
Marianismo, no seio do Catolicismo Romano.
Dominado por eles, decretou Pio IX, em 1854, por
exclusiva autoridade própria, “que a bem-aventurada
Virgem, no primeiro momento de sua concepção, por
uma graça especial e privilégio de Deus Onipotente, em
virtude dos méritos de Cristo, foi preservada imaculada
da mancha do pecado original (ab omni originalis culpœ
labe preservatam imnunem).
Quem lhe revelou fato tão intmo e misterioso,
ninguém o sabe.
Era natural que Maria, como “mãe do Senhor”,
ainda que não precisamente “mãe de Deus”, “cheia de
graça” e do favor de Deus fazendo ressaltar a beleza de
sua pessoa na humildade encantadora do seu carater,
fosse chamada bem-aventurada por todas as gerações.
Apesar, porém, do justo entusiasmo e veneração, que ela
provocou, nunca se lembraram os doutores ortodoxos
de po-la fora do quadro dos remidos, como fez Pio IX”.
No seu belíssimo cântico, a Magnificat, ela se compraz
em estar incluída no número dos resgatados pelo
sangue de Jesus, louvando “a Deus seu Salvador, por ter
posto os olhos na baixeza de sua escrava (in Deo salutari
meo quia respexit humilitatem ancillœ sua Lucas 1:47-
48). Foi, portanto, uma surpresa ao orbe católico a
invenção de um tal dogma, imposto, por iniciativa
428
individual, na bula Ineffabilis Deus, sob pena de
excomunhão.
Era o primeiro ensaio da infalibilidade a invenção e
imposição de um dogma d fé pela insólita iniciativa do
bispo romano. Entretanto, tal dogma do imaculatismo
foi ignorada ou despercebido pelo concílio de Trento,
cuja infalibilidade timbrou, entretanto, em rubricar
todos os dogmas desconhecidos aos Apóstolos, e
elaborados nas retortas da alquimia rcmana. Tem ele a
blasfema pretensão de colocar a Virgem Maria fora da
família dos remidos, contra a sua expressa declaração, e
contra o ensino positivo de S. Paulo: “Todos pecaram em
Adão” (Romanos 3:23, 5:12-14-18). Em oposição a toda
a teologia bíblica, e à própria tradição, por uma
arbitrariedade patológica, Pio IX, insentando-a de
qualquer parte com a queda de Adão e as suas
consequências, iguala-a, em pureza original, ao Filho de
Deus, nosso Senhor Jesus Cristo, cuja conceição é
declaradamente imaculada. “É isso uma das mais fortes
expressões do erro fundamental romanista de exaltar
indevidamente os fatores ou instrumentos humanos da
redenção, obstruindo ou tornando inútil o acesso
imediato do crente a Cristo, desviando-o para
mediadores subordinados”.
O silêncio do N. T. sobre o nascimento e morte da
Virgem Maria, a parcimônia das referencias que nos
Evangelhos e encontram à sua pessoa, despertou cedo a
imaginação romanesca em numerosos Evangelhos
apócrifos, “que punham mitologia no lugar da história
real, e nutriam a superstição antes que a fé racional”.
Não obstante esses romances da literatura
apócrifa, só no século doze (1139) aparece nos cânons
de Lyon, sul da França, a ideia da imaculada conceição
429
de Maria. Contra ela se insurge S. Bernardo, o maior
doutor e santo de seu tempo, e pergunta onde
desencavaram fato tão escondido. Repeliram
igualmente tal invenção os escolásticos — Anselmo,
Boaventura, Alberto Magno,Tomás de Aquino.
Inscreveu-a, entretanto, na teologia franciscana ou
escotista, Duns Scotus, o “doutor sutil”, a que
tenazmente se opuseram os dominicanas ou tomistas.
Não ousou por termo ao conflito entre as duas
Ordens o concílio de Trento. Glória foi dos jesuítas
vibrar o golpe final contra a crença dominicana, que
representava, nesta parte, o ensino bíblico e a boa e
geral tradição mantida por tão eminentes doutores da
grei católica.
Resta ainda uma surpresa: é a dogmatização de um
outro fato apócrifo, a assunção, que, apesar de não ser
ainda matéria de fé, é, todavia, festejada a 15 de agosto.
O intuito da festa, diz Bergier, é “honrar a morte, a
ressurreição e a entrada triunfante da Santa Virgem no
Céu”. Se a tremenda crise, que está quebrando os
moldes do passado, não, opuser o seu veto, completará,
o jesuíta, com mais esse dogma, a empresa de
transportar o feminismo da esfera da cristandade para
o domínio do cristianismo.
Importa isso na divinização herética da humilde e
bem-aventurada mãe do Filho de Deus, enquanto
homem, e na sua elevação prática à categoria de quarta
pessoa da S. S. Trindade, a mais simpática e influente!
Vem a ponto as seguintes palavras do grande
escritor português Alexandre Herculano: “Quando os
jesuítas tentaram dar, pela mão de Pio IX, um golpe
mortal no catolicismo, desvirtuando a redenção e
tornando problemática a necessidade do sacrifício do
430
Homem-Deus, com o ímpio dogma do imaculatismo.
reconheceram, malgrado seu, que um dogma, cuja
existência se não pudesse fszer remontar, pela tradição,
aos tempos apostólicos, ünha o valor ... de dois caracóis”
(Cart. v. I, p. 14).
A divinização da mulher em Maria preparou o
caminho para a divinização do homem no papa. Quem
não protestou contra aquela, embora por surpresa ou
indiferença, perdia o direito de se erguer contra esta.

Sílabo

Feito o primeiro ensaio, convinha um segundo,


antes do arriscado golpe da infalibilidade.
O mundo eclesiástico recebeu submisso o decreto
da imaculada conceição da Virgem Maria; importava
agora sondar com o Sílabo o mundo leigo.
A 8 de dezembro de 1864, promulga Pio IX o sílabo,
onde compendia “os principais erros do tempo
(præcipus nostrœ œtatis errones).
Nesse célebre documento, dogmatizado pela
infalibilidade individual do papa, condenam-se as mais
nobres conquistas da civilização, todo o movimento de
liberdade de consciência, e termina declarando o
Pontífice Romano incompatível com o progresso, o
liberalismo e a civilização modernas (Art. 80.)
São oitenta os artigos do Sílabo, em que, na frase do
príncipe de Broglie, o partido ultramontano declara que
a Igreja (romana) é inimiga (1) da razão humana, (2) da
sociedade moderna, (3) da liberdade religiosa, (4) da
liberdade política.

431
Extratemos algumas provas, e para maior clareza e
brevidade demos apenas, em forma afirmativa, o
conteúdo implícito de algumas proposições negativas
do Silábo.
ART. 15. Aqui concena Pio IX órgão infalível da
Igreja, o direito de cada um, guiado pela própria razão,
abraçar e professar a religião, que julgar verdadeira.
— Estigmatiza, pois, a mais bela das liberdades: a
liberdade de consciência!

ART. 24. Afirma ter a Igreja o direito de exercer o


poder temporal, e lançar mão da força.
— “A Igreja castiga hereges pela orça, quando
pode, onde pode, e quando pode”. Haja vista os anais
sangrentos da Inquisição e os cárceres dos Estados
Pontifícios.
Está o Romanismo ionge de fazer ato de penitência
por todos os horrores crudelíssimos do passado!

ART. 34. Proclama a vigência do poder, que tmham


os pontífices na idade-média, como soberanos, agindo
livremente no seio da Igreja universal.
— Afirma a supremacia do poder papal sobre o
poder civil. Perpétua ameaça à independência dos
Estados.

ART. 41. Nega aos governos, em seus respectivos


territórios, qualquer autoridaae em assuntos religiosos,
como o direito de exequatur e appellatio ab abusum.
— É a declaração de uma soberania estrangeira
incontrastável no dominio dos Estados.

432
ART. 42. No caso de conflito entre o poder civil e o
eclesiástico, deve prevalecer este.
— In conflictu legum utriusque potestatis jus civile
prevalet.
— Incrível negação das soberanias nacionais!
ART. 47 e 48. Repelem o ensmo leigo, e condenam
a exclusão de toda a fiscalização clerical, autoridade,
influência, interferência ou governo eclesiástico nas
escolas públicas.
— Intromissão de inaudito arrojo nos direitos do
poder civil!

ART. 54. Estabelece que os reis e os príncipes não


somente estão sujeitos à jurisdição da Igreja, mas ainda
lhe são inferiores em dirimir questões de jurisdição.
— Desfaçada e crua proclamação de autoridade
hierárquica do papismo, por antonomásia Igreja, sobre
os governos civis!

ART. 55. Condena a separação da Igreja e do


Estado:
— Ecclesia a Statu, Status ab Ecclesia sejungendus
est.
— Roma deu-se bem com o conúbio adulterino e
prostituição espiritual com os poderes deste mundo,
que lhe serviam de príncipes-consortes!

ART. 66 e 68. Repelem o casamento civil e negam o


direito do Estado de regular as suas condições.
— Ao casamento civil chamam mancebia, à lei
cospem ò desprestígio, e à família honesta, santo e
sólido fundamento da sociedade, cobrem de afrontas e
desprezo!
433
ART. 77. Afirma que o Catolicismo Romano deve ser
a única religião do Estado, com a exclusão de todos os
outros cultos.
— Descomunal intolerância, que agrilho-a o
espírito humano à cadeira giratória do papado!

ART. 78 e 79. Condenam as leis, que garantem, em


países católicos romanos, a liberdade de culto, e a livre
e pública manifestação de opiniões e ideias.
— Nesta proposição “se declara dogmaticamente
ser um artigo de fé para todo católico romano a
intolerância civil, e aer heresia a liberdade religiosa”!
Os frutos podres de um tal regime ostentam-se,
como solene aviso aos povos nos antigos Estados
Pontifícios, no Paraguai, Equador, Espanha e Portugal e,
em geral, por toda parte onde tem pesado o jugo fatídico
da Santa Sé.

ART. 80. Finalmente, lança franca reprovação


contra o católico liberal e c ingênuo adepto de outro
credo que julgar possível a reconciliação do Pontíf ce
Romano com o “progresso, liberalismo e civilização
moderna. Romanus Pontifex potest ac debet cum
progressu, cum liberalismo et cum recenti civilitate sese
reconciliare et componere (Vid. W. E. Gladstone, Roma et
le Pape, p. 342).
— Chave de ouro com que Pio IX fecha o
tremendo manifesto dos jesuítas!
Foram as 80 proposições do Sílabo não só um golpe
de morte aos católicos liberais, mas um cartel de desafio,
lançado à face de todas as conquistas da civilização. Sem
nenhuma dúvida, um tal manifesto assinala
434
flagrantemente os inimigos da soeidade moderna, da
liberdade religiosa e da liberdade política. Não se
mostraram, entretanto, os reis e governos da terra tão
passivos e subservientes em defender a sua autoridade,
como os bispos as suas regalias. Na Alemanha provocou
o Kulturkampf, e oposição em toda parte. Mas, afinal, foi
fraca a resistência dos governos, e a porta ficou aberta
ao terceiro golpe.
Dada a ebulição das ideias dc emancipação política,
que revolucionava eniâo a Europa, o manifesto papal
impõe-se não só pelo absurdo, mas também pela
audácia.

Infalibilidade Papal

Desbravado o caminho pelos dois rescritos papais


da Imaculada Conceição e do Sílabo, reuniu-se o concílio
do Vaticano (de 8 de dez. a 18 ou 20 de iulho de 1870)
que devia dar vitória definitiva à escola ultramontana,
capitaneada pelos filhos de Loiola. Estiveram presentes
759 prelados. Um concilio ecumênico, para se revestir
deste caráter deve ser composto não somente de bispos,
mas de bispos que representem legalmente seus
rebanhos, e a universalidade dos fiéis do Oriente e do
Ocidente; e além disso devem eles ser livres na
discussão e no voto. Ora, isso não se deu no concilio do
Vaticano.
Estiveram presentes: 50 cardeais, que não
representavam dioceses; 100 bispos in partibus, sem
dioceses e demissíveis ad nutum do papa; 50 gerais de
Ordem e abades mitrados; 100 e tantos bispos da
Propaganda; 276 italianos, dos quais 143 pertenciam
435
aos Estados Pontifícios. A maior parte destes prelados
foram preparados com anos de antecedência, e
nomeados a dedo pelos que tramavam na sombra a
conspiração da infalibilidade.
O concílio foi organizado como uma “sociedade
secreta”. (Vid. An inside view of the Vatican Council). Aos
próprios delegados guardouse profundo segrêdo sobre
o assunto especial da reunião (Pág. 51). Com terrível
juramento, “sub pœna gravi”, deviam todos guardar
absoluto segredo sobre tudo o que se passasse no
Concílio. Os processos da assembleia, ordens do papa,
embaraços de todo genero, tiravam a liberdade aos
membros do Concílio, e indicavam que a minoria
dissidente estava jugulada nas mãos impiedosas de uma
maioria adrede preparada para arrancar, por uma
“unanimidade moral”, a infalibilidade de arrogante
mortal. Contra esses processos imorais protestaram, no
seio do concílio, Pere Hyacinthe, superior dos
Carmelitas descalços de Paris, cuja eloquência
arrebatadora chamava à Notre Dame sofregas
multidões; e Strossmayer, bispo da remota província da
Croácia, na fronteira da Turquia, cujas palavras
candentes e corajosas provocaram turbulenta
intolerância e explosões de cólera dos humildes
comparsas de uma inaudita empreitada.
Observa ainda o autor do citado artigo, que uma tal
divergência de opinião como esta, pelas teorias
canônicas dos concílios, tornava vã e nula a decisão da
maioria, pois, em se tratando de decretos dogmáticos,
reclamava-se prática unânimidade, visto como não se
pode impor como matéria de fé o que não pudesse
aduzir as notas de uma crença universal e continuidade
histórica.
436
Mais ainda: representando os bispos aos leigos, o
valor de seus votos deve estar em relação ao número
destes. Ora, a oposição incluía os bispos das mais
populosas dioceses: “o arcebispo de Paris com
2.000.000 de católicos, o de Breslau com 1.700.000, o de
Colônia com 1.400.000, o de Viena com 1.400.000 mais
ou menos, e o de Cambrai pom 1,800.000; ao passo que
os 62 dos Estados papais, por exemplo, não
representavam mais de 700.000 todos juntos, feita
abstração dos cento e tantos titulares, que não possuíam
rebanho nenhum. Podemos, pois, resumir assim a
matéria: cada voto lançado a favor do novo dogma
representava 142.570 católicos leigos; cada voto, porém
contra ele representava 492.520”.
E nem isso é tudo, acrescenta o Rev. Dr. Littledale,
autor do supramencionado artigo: o concílio que
pretende ser ecumênico deve falar em nome dos
representantes do Oriente e do Ocidente. Tal não
sucedeu quanto ao Oriente: os patriarcas de Antioquia,
de Babilônia, os arcebispos de Tiro, de Sidônia, de
Beirute e de Alepe, e outros distribuíram-se entre os
três grupos dissidentes, e deste modo anularam os votos
do Oriente na maioria.
No dia 13 de julho de 1870, foi apresentado a uma
votação prévia o famoso documento Pastor Æternus da
infalibilidade papal. Era longo e continha as seguintes
proposições: (1) a Pedro foi conferida uma primazia de
jurisdição, direta e individualmente, sobre toda a Igreja;
(2) esta primazia petrina foi transferida por instituição
e direito aos Pontífices Romanos; (3) a jurisdição do
papa é imediata em todas as igrejas, isto é, é ele o bispo
real de cada sé, todos os outros bispos são seus
deputados, de sorte que não somente em questão de fé
437
e moral, mas de disciplina e governo,” todos os fiéis
pastores e leigos, são obrigados, individual e
coletivamente, a se submeter a ele; (4) não é lícito
apelar-se para um concílio ecumênico das decisões dos
Pontífices Romanos; (5) o Pontífice Romano, quando
fala ex-cátedra, e define uma doutrina de fé ou de moral
para ser aceita pela Igreja Universal, é infalível, e tais
definições são consequentemente irrevogáveis por si
mesmas, e não por causa do Consentimento da Igreja.
Finalmente assim reza o celebérrimo decreto do
papa sobre a sua própria infalibilidade: Nos.. Sacro
approbante Concilio, docemus et divitus revelatum
dogma esse definimus. Romanum Pontificem, cum ex
cathedra loquitur, id est, cum omniurn Christianorum
Pastoris et doctoris munere fungens pro suprema sua
Apostolica auctoritate doctrinam de fide vel moribus ab
universa Ecclesiam tenendam definit, per assistentiam
divinam, ipsi in beato Petro promissam, e a infallibilitate
pollére, qua Divinus Redemptor Ecclesiam suam in
definienda doctrina de fide vel moribus instructa esse
voluit; ideoque ejusmodi Romani Pontificis definitiones
ex sese, non autem ex consensu Ecclesiæ, irreformabiles
esse. E quem não se submeteu a este decreto, seja
excomungado. Si quis... anathema sit.
Votaram pela afirmativa 451; pela negativa 88; com
placet juxta modum, isto é, que aceitariam o decreto se
fosse ele seriamente modificado, 62; não votaram 70
(Vide Encycl. Brit. Val. Council, vol 24, p. 112).
Imediatamente após esta votação preliminar,
quase todos os bispos da minoria deixaram
abruptamente Roma, depois de terem lavrado um
protesto contra os processos do concilio. Determinou a
fuga o receio de sua segurança pessoal. Deuselhes a
438
entender que, na sessão seguinte, Ines seriam
apresentados à sua assinatura dois papéis — um
contendo a profissão de adesão ao dogma da
infalibilidade, e o outro a resignação de sua diocese,
caso recusasse a adesão. E boas razões tinham eles para
crer na coerção do papa, que declarara querer ser
proclamado infalível senza condizione, sem limitação, e
que já mostrara aberta inimizade a membros da
minoria. Demais, o papa era ainda rei despótico em seus
Estados.
O resultado desta fuga, foi que na sessão pública de
18 de julho de 1870, ao votar-se a constituição do Pastor
Æternus, do 535 votantes, só dois, o bispo Ajácio e de
Little Rock, tiveram coragem de proferir o non-placet. O
papa confirmou o decreto, e o “mistério da iniquidade”
consumou-se. Notável coincidência! — observa o
eminente historiador do Concílio — no mesmo dia
declara Napoleão III guerra contra a Prússia, e se atira
ao grande conflito, que deu em resultado a perda do
poder temporal do papado, e a ocupação de Roma pelo
rei da Itália dois meses depois (20 de setembro).
Coagido pelos acontecimentos, o recém-infalível
Pio IX, a 20 de outubro, prorroga formalmente o concílio
e se mete prisioneiro no Vaticano. A prorrogação
zombou da infalibilidade incipiente e equivaleu a uma
dissolução; o “prisioneiro” até hoje tem aguardado
debalde que os governos católico-romanos ou os
teutônicos lhe viessem quebrar as férreas grades (Vide
Brit. Encyclop., Vat. Council).
Sabido é que, impelida pelos jesuítas, a imperatriz
Eugênia, ao mesmo passo que influía no decreto
infalibilista do Vaticano, instigava o infeliz esposo,
Napoleão III, “a uma marcha triunfal a Berlim”, com o
439
intuito de esmagar o Protestantismo. Saiu-lhe ao revés
o trama político. Deu ele à: Prússia protestante a
hegemonia política da Europa, e lançou germes à
tremenda catástrofe, que abalou o mundo.
Entretanto, triunfou no seio católico-romano a
conspiração sinistra da Ordem jesuítica: o bispo de
Roma ergueu orgulhoso sobre os seus pares a fronte
infalível; foram esmagadas as nobres aspirações liberais
da igreja galicana, aniquilada a independência do
episcopado, rebaixados os bispos a meros esbirros da
Cúria romana, lastimosos simulacros dos primitivos
vigias do rebanho do Senhor! Vitória de Pirro, repto
insolente do jesuitismo à história e ao bom senso da
humanidade.
Tem desses contrastes imprevistos a política dos
ambiciosos; nos planos mais bem gizados encontram
não raro os políticos a rede que os tolhe, como ao leão
da fábula, sem a ventura de dentes roazes, que os
possam libertar da ruína. Colhe o Senhor os sábios na
sua própria astúcia.

A Infalibilidade e o bom senso

Primeiro que a história, consultemos o bom-senso


sobre a infalibilidade papal.
1. Infalível o papa! Quem o disse foi ele próprio.
Escutai-o: Nos docemus. definimus. O Concílio apenas
aderiu sacro approbante concílio. Só ele, o próprio papa,
era competente para surpreender em si mesmo, por
uma autovisão, o dom divino da infalibilidade, revela-lo,
defini-lo, sem qualquer “consenso da Igreja”, frisou ele:

440
indeoque ejusmode Romani Pontificis definitiones ex sese,
non autem ex consensu Ecclesiæ, irreformabiles esse.
Por si, ex sese, não pelo consenso da Igreja, são
irreformáveis as decisões e definições do pontífice
romano!
Por dezenove séculos existiu o dom da
infalibilidade larvado na subconsciêncla de seus
antecessores, que, de tempos a tempos, tinham dele
graves suspeitas.
Lobrigando algo, arrogavam para si os bispos a
chispa divina, em sua capacidade coletiva e resoluções
sinódicas. É uma tradição multisecular, doutrina Jânus,
que, até o concílio de Trento e o do Vaticano, se dava
razão aos bispos em suas pretensões infallbilistas.
Ao concílio geral e ecumênico incumbia regular
dogmas e costumes, sob a infalível direção do Espírito
Santo. Ouçamos sobre o ponto o Santo concílio de
Trento:
Œcumenica et Generalis Tridentina Synodus, in
Spiritu Sancto legitime congregata, præsidentibus in ea
eisdem Apostalicæ Sedis Legatis... haec statuit, fatetur,
declarat, decernit, interdixit.
Assistido pelo Espírito Santo e cercado de todas as
condições canônicas, proclama-se o concílio de Trento
revestido de autoridade infalível e assim estatui,
proclama, declara, prohibe.
O concílio do Vaticano corrige o erro do de Trento,
erro que é o eco de uma tradição muitas vezes secular,
como adiante mostraremos. Contra os bispos em
reunião conciliar, avoca Pio IX para si individualmente a
fagulha divina, acaba com o perigo de uma duplicata da
infalibilidade, embora se exponha à interpelação

441
episcopal: Per quam viam transivit spiritus domini a me
ut toqueretur tibi? (II par. XVIII.23).
Quem, pois, investiu o bispo de Roma de suprema
autoridade infalível na Igreja? Foi Cristo? os Apostólos?
O Novo Testamento? Não, nem vestígio disso aí
rastreamos, como provamos. Foram os padres
apostólicos ou sub-apostolicos? Tão pouco. Foi a
tradição medieval? Nem ela. Foi o concílio do Vaticano?
Também não; ele apenas assistiu à explosão da
infalibilidade, com o espanto e o protesto de uns, e
aplauso de outros, que apenas aderiram à definição
papal, ivreformável, não por causa “do consenso da
Igreja”, mas em virtude de seu valor intrínseco, ex sese.
É, pois, o papa o que se declara a si mesmo infalível.
Mas ele é suspeito, não pode ser juiz em causa própria.
Declarava Cristo aos judeus que ele era filho de Deus, e,
portanto, infalível. E, aparando a objeção razoável de
que ele dava testemunho de si próprio, disse: “Se eu dou
testemunho de mim mesmo, o meu testemunho não é
verdadeiro”. (João 5:31).
Mostra em seguida que ele tem por si o testemunho
de João Batista, que gozava de alto conceito entre o
povo; mas acrescenta imediatamente que nesta matéria
tinha ele maior testemunho que o do Batista: era o
testemunho de seu Pai nos milagres que ele operava (Ib.
vs. 32-37).
Ora, o sacro approbante concilio, é um frágil João
Batista para Pio IX, pois não somente não era unânime,
mas nem sequer gozava de indispensável liberdade.
Em assunto, porém, de tão transcendental
importância, pois comina penas eternas a quem não se
submete, era indispensável que o papa, como Cristo,
apresentasse o testemunho irrecusável de milagres e
442
profecias, que trouxessem o cunho evidente do poder de
Deus.
Nada disso, porém; antés as suas esperanças
manifestadas na proteção da Virgem, foram
completamente frustradas nos desastres provocados
pelo pretensioso dogma.
O papa é, pois, infalível, porque ele próprio o diz, e
ele o diz porque é infalível. É este o círculo vicioso, que,
para estupor da humanidade pensante, é o alicerce em
que se afirma o dogma estupendo da infalibilidade
papal!
É incrível e inominável crueldade que se mandem
oficialmente para o inferno católicos e acatólicos, que,
embora acatem a palavra honrada do interessado,
exijam, por cautela, de acordo com as normas firmadas
em todas as sociedades organizadas, outras credenciais
de sua missão de dncente infalível, que não
simplesmente a própria declaração!
Felizes, mil vezes felizes os membros da
cristandade, que viveram antes de 1870, antes que Pio
IX, auxiliado pelos clarividentes membros da
Companhia, localizasse na pessoa do bispo de Roma o
tesouro escondido por tantos séculos. Oxalá ficasse ele
sempre escondido; a infalibilidade iria produzindo
inconscientemente os seus benéficos efeitos, e, com
gáudio geral, ficariam menos povoadas as regiões
infernais.
Tempora mutantur et nos in ellis...
2. Sobre a falta de sanção divina, um outro vício
original malsina a infalibilidade do papa: é a dúvida
angustiosa, entre teólogos, de quando é o papa infalível.
Ele só é infalível quando fala ex-cátedra, como pastor e
doutor da cristandade inteira, sobre questão de fé e de
443
moral. Esta restrição é que veio complicar o assunto.
Levanta ela sérias interrogações: que significa ex-
cátedra? quando deixa ele de ser pastor e doutor da
cristandade inteira? quais as questões que escapam à fé
e à moral? Eis aí dúvidas que, em rigor, só a
infalibilidade podia dissipar, e não o fez. Suscitou-as
envencilhou-se nelas, emaranhou-se nas mil argúcias de
seus causídicos, e anulou-se.
E tudo isso porque tremeu o braço audaz ao
desferir o golpe.
Em teoria é aceitável uma infalibilidade como a de
S. Pedro, corrigido por S. Paulo em certo procedimento
particular, uma infalibilidade apostólica ou profética,
que deixa o sujeito exposto a erros em atos de caráter
inteiramente estranhos à sua missão. É isto evidente, e
por isso não há na Bíblia especificações de, quando são
inspirados os mensageiros divinos. Qualquer
especificação levantaria a dúvida. Os Apóstolos eram
razoávelmente infalíveis sempre que desempenhavam a
sua missão de ensinar, toda vez que abriam a boca ou
tomavam a pena, e se dirigiam a um ou a muitos em
público ou em particular. Restringindo-se, a
infalibilidade papal amarrou-se; especificando,
garroteou-se.
Vislumbrando esse desastre, queriam Pio IX e os
seus conselheiros uma infalibilidade senza condizione,
sem declaradas restrições ou especificações, absoluta,
que porejasse em todas as suas palavras e atos.
Dava isto, porém, de rosto com mil contradições de
seus imprudentes antecessores. O senza condizione era
um escolho perigoso. Dai um expediente: o papa só era
infalível ex-cátedra, e desta maneira poderia a
infalibilidade sobrenadar às erronias e descaídas
444
papais, que enxameiam a história do Vaticano. A
plenitude do poder, o plenitudo potestatis, só a possui o
papa quando da cadeira magistral fala como Pastor e
Doutor de toda a Cristandade, ex-cathedra loquitur. Mas
quando fala ele excátedra? Insolúvel dificuldade,
intrincatissimœ difficultates; disputam teólogos e
disputarão sempre, afirma o bispo Dupanloup.
Como a de Dupanloup, vozes se ergueram no
concílio do Vaticano para assinalar a fórmula vaga,
inapreensível às próprias argúcias teológicas, em que se
apresentava ao mundo a latente infalibilidade papal. A
fórmula, dizia-se aí, encerra evidentissima vitia et
formidanda pericula, pois não fixa condições de
infalibilidade. “Por que sinais saberemos se o pontífice
exerce o ofício de doutor? por enunciar-se numa bula,
num breve, numa alocução, etc? .... Quando fixa o que,
em pontos de fé e costumes, deve crer a Igreja toda;
universa Ecclesia. Mas quem vem a ser a Igreja toda?
Podem-se acaso, acerca de um ponto de fé, proferir
decretos para uma fração apenas de fiéis? E que vem a
ser costumes? ... Onde termina a infalibilidade
pontifícia? ... Esta concessão assim de uma indemarcada
infalibilidade ao pontífice romano é cheia de perigos”.
(Friedrich, Monumenta, apud. O Papa e o Concilio, pg.
LXXXX).
No mesmo sentido fala Dupanloup, bispo de
Orleans. “Debalde criareis uma definição expressa da
infalibilidade pontifical, diz o mesmo bispo... Quando
será e quando não será infalível?.... Falou o papa como
pessoa privada ou como pessoa pública? .... Questões
todas essas muito vivamente agitadas até aqui não só
pelos teólogos avessos à Infalibilidade, mas até pelos
mais pios defensores da infalibilidade, e que se
445
renovarão sempre, indesisæ manebunt”. (O Pap. e o
Conc., Introd. R. Barbosa, p. 75).
Não se sabe, pois, com segurança, onde começa e
onde termina, a infalibilidade catedrática do papa. É,
pois, uma infalibilidade, que traz em si o cunho de sua
mistificação palmar, como incerta e falível.
É natural o caos das disputações teológicas. Não se
inventam infalibilidades a sabor de sistemas
políticoreligio sos; uma vez, porém, inventada, não
podem teólogos falíveis, muito menos incultos fiéis,
julgála, chamála a contas, deterlhe o ímpeto divino,
traçarlhe, sob qualquer pretexto, a órbita de sua ação.
To be or not to be, brada do Vaticano o novo Hamlet. A
infalibilidade é o divino, o infinito, e o infinito não se
jugula, é, de sua natureza, senza condizione. Sint ut sunt
aut non sint. O próprio papa que descobriu o infinito em
si, é exclusivamente o que sabe quando emana de si a
centelha luminosa da verdade divina. Inépcia é apegarse
à fórmula da definição, que afinal, é apenas um engodo
a consciências timoratas, um penhor jesuítico aos
espíritos liberais, e poremse peias ao arbítrio do papa,
comissário de Deus, único juiz de si próprio.
Não puderam clamar aqui-del-rei ao pairar no ar o
perigo da infalibilidade os que haviam aceitado sem
protesto os decretos da Imaculada Conceição e do
Sílabo, tão pouco podem, em qualquer tempo, pedir
socorro, nas exorbitâncias cio poder papal, os que
aceitam o dogma da infalibilidade. Só resta à hierarquia
anulada, aos prelados convertidos em meros
serventuários do teocrata italiano, flexionar-se como
faziam os súditos de Diocleciano, Pontifex Maximus da
velha Roma.

446
Um dia, entre os nobres de Israel, anunciou-se que
Jeú, um deles, fora ungido rei por um dos enviados do
Profeta. Imediatamente toda a nobreza caiu de joelhos
ante o filho de Nansi, e diante de sua vontade suprema
emudeceu-se a nação. Tal a atitude de clérigos, bispos,
arcebispos, patriarcas e de todo o orbe católico ante o
Senhor de seus irmãos, o novo viceDeus no governo
soberano do globo terráqueo.
O papa, como declara um de seus teólogos, é a
Igreja, papa virtualiter Ecclesia; o papa é a tradição, la
tradizione son io; ficou o credo católico-romano
reduzido a um só artigo; — Creio no papa.
Ficou adiado o concílio do Vaticano, desde 1870, e
adiado ficará, pois dessa data em diante são afanosas
inutilidades concílios, teólogos e doutores: Roma locuta
est causa finita est.
A unidade tornou-se absoluta: Deus na terra,
concentra o papa toda a vida, toda a ciência, toda a
verdade. Todos os espíritos indagadores, as doutas
corporações, que seguiam a senda do trabalho nas
profundas locubrações da moral e religião, podem
apenas agora desempenhar o papel secundário e fácil de
meros instrumentos percucientes para fazer saltar da
divina pederneira a fagulha luminosa.
No vasto orbe latino reina o silêncio, a mudez, o
estupor e a morte! I popoli de religione papali o sono giá
morti o vanno morendo.

A Infalibilidade e a história

Vozes autorizadas se fizeram ouvir no seio da


oposição, como a de Dupanloup, Kenrick, Strossmeyer,
447
Hefele, Dollinger e outros, mostrando o absurdo
histórico da infalibilidade diante dos erros evidentes de
muitíssimos papas na esfera vária de suas atribuições
oficiais.
“Para provar, escreve Jânus, com a história da
Igreja a doutrina da infalibilidade, mister será que
cometam falsificar essa história de um a outro cabo.”
Sumariemos o libelo histórico contra a sacrílega
divinização do bispo de Roma, em breve catálogo
cronológico de seus erros e graves quedas.
1. — O papa Vitor (192) aprovou o Montanismo,
e depois condenou-o (Dupanloup, Observ.)
2. — O papa Marcelino (296-303), para fugir à
perseguição, tornou-se idólatra: entrou no templo de
Vesta, fazendo ofertas a esta deusa.
3. — O papa Libério (358) professou o arianismo,
que nega a S. S. Trindade, e condenou S. Atanásio, o
grande campeão da ortodoxia. Sobre O que escreve o Pe.
Antônio Pereira de Figueiredo: “No mesmo tempo o
Papa Libério (como escreve S. Jerônimo) vencido do
tédio do seu desterro em Beréia, consentiu na heresia
Ariana e declarou que se separava de S. Atanásio: que
naquelas circunstâncias era o mesmo que declarar-se
separado do partido católico. (Comp. das Époc. e Suc.
mais ilustres, p. 167).
4. — O papa Calixto (218-223), verberado por S.
Hipólito por causa de seus costumes relaxados, abraçou
a heresia patripassiana, que negava a personalidade do
Filho.
5. — O papa Zósimo (417-418) reprovou a
condenação da heresia pelagiana por seu antecessor
Inocêncio, e, depois, retratou-se.

448
6. — O papa Gregório I (578-590) chama de
Anticristo a quem assume o título de bispo universal, e o
papa Bonifácio III, um de seus sucessores, obtém, em
607, esse título de Focas, imperador parricida.
7. — O papa Honório, em 625, aderiu à heresia
chamada monotelismo.
8. — Os papas Pascoal II (1088-1099) e Eugênio
III (1145-1952) autorizaram o duelo; Júlio II (1509) e
Pio IV (1560) proibiram-no (An Inside View of the Vat.
Council, p. 189).
9. — O papa Adriano II (867-872) declara válido
o casamento civil; Pio VII (1800-1823) condena-o. Sixto
V (1585-1590) publica uma edição da Bíblia e
recomenda a sua leitura por uma bula; Pio VII o reprova.
(Ib. ibs.)
10. — O papa Eugênio IV (1431-1439) aprovou o
concílio de Basiléia e a restauração do cálice à igreja
boêmia; Pio II (1658) revoga-a. (Id. ib.)
11. — O papa Clemente XIV (1700-1721) aboliu a
Ordem dos jesuítas, aprovada por Paulo III; Pio VII
restaurou-a.
12. — O papa Estêvão VII mandou desenterrar o
cadáver do papa Formoso (861-896), e, servindo de
instrumento de vingança, fê-lo sentar na cátedra papal
e por meio de um sínodo julgou-o, condenou-o, declarou
nulos todos os atos de sua infalibilidade, cortou-lhe os
dedos, e atirou-o ao Tibre. Vingou-o o povo prendendo
a Estêvão, envenenando-o e estrangulando-o. A questão
complica-se ainda mais para a infalibilidade, pois os
papas Sérgio III e João X reconheceram válidos os atos
monstruosos do sínodo convocado por Estêvão, ao
passo que os papas Teodoro II, João IX e Benedito IV ao
invés os consideram nulos e vãos. Não só pulularam na
449
história, concílios contra concílios, mas ainda papas
contra papas. Como se vê, são infalibilidades mais que
falíveis.
13. — Cismas. Eis mais um sério embaraço à
infalibilidade papal. Os cismas ou divisões, os papas e os
anti-papas no seio da catolicidade, mostram ainda, à luz
da história eclesiástica, a insensatez das inovações do
Vaticano.
O cisma do Oriente consumou-se em 1054. Os
patriarcas de Constantinopla, de Antioquia e de
Jerusalém viam com maus olhos a enfatuação crescente
do seu colega de Roma e a transformação paulatina do
credo primitivo no Ocidente. Com o papa Nicolau IX e o
patriarca de Constantinopla Miguel Cerulário, rompeu a
cisão latente. Nicolau excomunga a Cerulário, que lhe
exproba os desvios; retruca-lhe o patriarca oriental do
mesmo modo, e a cristandade cindiu-se em duas
grandes igrejas, entre as quais cavou o orgulho papal
intransponível abismo.
O cisma do Ocidente explodiu em 1378. Transferiu
o papa Clemente V, 1309, sua residência de Roma para
Avinhão, na França. Por 70 anos aí permaneceu a sede
apostólica. É o período ironicamente chamado “o
cativeiro babilónico” do papado, que se escravizou à
influência dos reis de França. Instrumento nas mãos do
rei, levou Clemente V à fogueira o intrépido Jacques
Molai, grão-mestre da ordem dos Templários.
A corte de Avinhão infecionava o reino, e a sua
depravação moral denunciou-a Petrarca, em cores
vivas.
Com a eleição de Urbano VI, em 1378, rebentou o
grande cisma do Ocidente, que por 38 anos abriu os

450
olhos da Europa sobre a política mundaníssima do
pontificado.
Despeitados com a arrogância de Urbano, elegeram
os cardeais um outro papa, Clemente VII (1378-1394).
Fulminaram-se reciprocamente os dois infalíveis, tal
qual “dois cães a rosnar ao mesmo osso”.
Em sua Crônica de D. Fernando, Fernão Lopes, o
grande cronista português do séc. XV, referindo-se às
intrigas na côrte de Portugal cansada pelo duelo
escandaloso dos dois infalíveis rivais, retrata, em sua
linguagem hoje arcaica, o efeito moral do cisma: “Outros
afirmavam que fora muito melhor nenhuum Rei, nem
Prinçipe nom declarar por alguum delles; ca se os
Senhores todos se teverom sem fazer nenhuuma
declaraçom, nom durara tamto a çisma na egreia, como
ouvjrees que durou: mas cada huuns amdando a
escolher, teverom com Urbano o Emperador, e os seus
isso meesmo, e elRei de Imgraterra, e outros Reis e
senhores; e com Clemente, elRei de Framça, e elRei de
Castella, e elRei de Portugal, e elRei Daragom: e desta
guisa, por nossos peccados, foi estomce o corpo mistico
da egreia feito com duas cabeças, assi como corpo
momstruu, que era fea cousa de veer”. (Ined, de His. Port,
t. IV, p. 379, Chron. del Rei D. Fern.).
Para curar a monstruosidade das duas cabeças no
corpo místico da Igreja dividida, reuniu-se o concílio
ecumênico de Pisa (1409).
Reunido contra a vontade dos infalíveis em
duplicata, o concílio geral de Pisa proclamou a
supremacia do concílio sobre o papado, depôs os papas
rivais, e, por um conclave de cardeais, elegeu Alexandre
V — (1409-1410).

451
Cresceu o mal: Gregório XII, em Roma, e Benedito
XIII, em Avinhão, zombaram da supremacia conciliar, e
em vez de duplicata, houve triplicata de infalibilidades.
O escândalo tocou ao auge: era a orgia da
infalibilidade. Coriscavam os anátemas, cruzando-se
sobre as cabeças dos três herdeiros de S. Pedro.
Acodem a Constança (1414-1418) numerosos
prelados, que se reúnem em concílio ecumênico. Como
o de Pisa, proclama a sua superioridade sobre o papa,
depõe, em 1415, João XXIII, homem depravado, por cuja
influência se crê ter sido envenenado o seu antecessor
(Alexandre V, 1410); no mesmo ano, Gregório XII
abdicou e Benedito XIII foi deposto. O concílio elegeu
Martinho V. Apesar da vitória da infalibilidade sinódica
sobre a papal, continuaram às rebatinhas pela posse da
cobiçada suposta herança.
Convocado novo concílio em Basiléia, (1431-1439),
foi novamente decretada a superioridade sinódica.
Breve, os dois poderes que lutavam à compita, se
engalfinharam. Sobre a cabeça de Eugênio IV relampeja
o raio da deposição. Humilha-se o papa e se apressa em
se desdizer e fazer ato público de dedicação “ao santo
concílio ecumênico”. Infiel às suas promessas, é deposto
pelo concílio, e eleito Félix V. Desta vez, porém, pode
aparar o golpe e equilibrar-se no trono. O suborno e a
astúcia o fizeram levar vantagens ao santo concílio,
obrigando Félix V a resignar.
Como impedir que, diante de todos estes fatos, e
muitíssimos outros, nos venha ao espírito a convicção
profunda de que a infalibilidade papal é uma burla, uma
mistificação colossal, com que embaíram a cristandade
latina os bispos italianos, sob o influxo nefasto do
jesuitismo?
452
Demais, examinemos os títulos da suposta herança
de S. Pedro, pesquisemos os germes e as pegadas do
papado na história, e, através de mil fraudes, perjúrios,
homicídios, bacanais, intrigas, políticas, guerras
sangrentas, deposições de reis e crudelíssimas
perseguições, não encontramos, no silêncio dos séculos
primitivos da Igreja e nas tradições dos séculos
posteriores, vestígio ao menos que coonestasse, perante
a consciência cristã, as inauditas pretensões do bispo de
Roma, sequer ao primado, muito menos à infalibilidade!
Em seu eloquente tratado “Os Decretos do
Vaticano”, de larga repercussão na Europa, provou o
primeiro ministro da Inglaterra, o grande estadista W.
E. Gladstone, as teses seguintes:
I. — Roma abandonou sua altiva divisa —
Semper eadem, para inaugurar uma política de violência
e de transformação em matéria de fé.
II. — Roma afiou e brandiu de novo as espadas
enferrujadas, que nos comprazíamos em crer já fora de
seus hábitos.
III. — Ninguém se pode converter ao “Credo”
romano sem renunciar a sua liberdade moral e
intelectual, e pôr a sua lealdade e deveres civis à mercê
de outrem.
IV. — Roma repudiou ao mesmo tempo o espírito
moderno e a história antiga.
Há, na abrupta metamorfose do velho em novo
Catolicismo, algo de anormal, que aberra de todas as
extravagâncias imagináveis em nossos tempos, que
transcende as raias do heroísmo e do entusiasmo, que
ultrapassa as fronteiras prescritas à própria enfatuação
humana, e que só se explica pela herdada vesânia de

453
Loiola e pela tara epiléptica de Pio IX. Quos Deus vult
perdere prius dementat.

Os velhos católicos

Nem tudo foi subserviência e passividade ante os


decretos do Vaticano. Operou-se no seio de Catolicismo
Romano forte reação semelhante à da Reforma do séc.
XVI. Quarenta e dois professores da universidade de
Munich, chefiados por Dollinger e Friedrich,
repudiaram as inovações ultramontanas e jesuíticas do
Vaticanismo,” e deram princípio ao movimento dos
Velhos-Católicos, que, firmados nos seis primeiros
concílios gerais, eram os continuadores do velho
Catolicismo ou do Catolicismo tradicional. Oscilou o
movimento a princípio entre o Protestantismo e a igreja
Grega Ortodoxa, fixando-se em seguida na organização
eclesiástica do Velho-Catolicismo. Aboliram de seu
credo os espúrios acréscimos do celibato clerical, jejuns,
confissão auricular; baniram o uso do latim no culto;
reconheceram a distinção entre Igreja visível e invisível,
e declararam Cristo a única cabeça da Igreja.
Estendeu-se o movimento de reação pela
Alemanha, Holanda, Suíça, Áustria, e mesmo na França,
onde o Pe. Michaud o defendeu em escritos polêmicos
de alto valor, e onde ainda se fez ouvir o verbo
eloquentíssimo de Père Hyacinthe. Despontou também
na Itália e no México. No Brasil, anos há, surgiu o
movimento em Itapira, Estado de S. Paulo; o seu
promotor, porém, o cônego Amorim, desapareceu
454
rápida e misteriosamente do cenário. Com a sua morte,
entretanto, não cessou a propaganda da ideia, que vai
caminhando paulatinamente.
Nos últimos tempos, um grande movimento
político-religioso explodiu na Áustria ao brado
significativo de Los von Rom (fora de Roma), e milhares
vieram engrossar as fileiras do Velho-Catolicismo e as
do Protestantismo. O Neocatolicismo, porém, apoiado
na política dos governos europeus, na apatia religiosa
dos povos e na ação eficaz da Companhia, manteve-se, e
a reação tão auspiciosamente começada e
eloquentemente defendida não pode derribar o colosso
de pés de barro. É que não tinha chegado a sua hora.
Merece, entretanto, especialmente estudada, em
suas causas e efeitos, a profunda metamorfose operada
no Catolicismo tradicional pelos decretos do Vaticano.
Ao Neocatolicismo, oriundo desses decretos, apelida-se,
nas rodas intelectuais, de Vaticanismo. Lancemos sobre
ele um olhar mais demorado.

O Vaticanismo

Vaticanismo é o Neocatolicismo, que surgiu, em


1870, aos golpes, três vezes repetidos, da vara mágica
do Jesuitismo, manejada por Pio IX.
Aferrado à corrente do velho Catolicismo
tradicional, escreve o egrégio escritor Alexandre
Herculano: “É o Catolicismo estribado na razão, que me
afasta invencivelmente do da nova religião do

455
marianismo e do infalibilismo, heresias recentes,
heresias de especulação” (Cart., I, p. 6).
Era velho católico o austero solitário do Val-de-
Lobos.
Como ele, M. l’abbé E. Michaud repele com suma
energia a nova religião do Vaticano, em seus numerosos
e eloquentes escritos, mormente em sua importante
obra Le mouvement contemporain des E’glises.
Eclesiástico, doutor em teologia, melhor que nosso
grande escritor, pode ele avaliar o alcance da
transformação, que ao seio do Catolicismo Romano
trouxeram as inovações do Vaticanismo.
“O dogma da Imaculada Conceição, escreve o
corajoso padre, devia agradar ao piedoso sexo, e
desenvolver nas imaginações doentias das mulheres
uma recrudescência de misticismo absurdo, que não
concorreu pouco para, mais tarde, fazer passar o
absurdo dogma da infalibilidade papal. Em vez de fazer
definir esse dogma por um concílio ecumênico, foi ele
definido pelo papa só, em presença dos bispos
convocados para Roma, simplesmente para assistirem a
uma cerimônia. Essa presença, dos bispos em Roma,
enquanto o papa, só, definia o dogma, salvava as
aparências e disfarçava a crueza da definição papal” (pg.
6).
Em 1865, escrevia profeticamente Bordas-
Demoulin: “O neocatolicismo ou marianismo tornou-se
dogmaticamente incompatível tanto com o progresso
científico, como com o progresso político e social.
Retirando-se das clases esclarecidas, tornar-se-á ele a
religião dos campos ou das populações rurais, como o

456
primeiro paganismo romano.127 Poderão abrigar-se
ainda à sombra do velho santuário, algumas almas de
escol, presas pelos preconceitos do hábito e da
educação, alguns metafísicos do passado; para as
massas, a vida intelectual e moral esgotou-se desse lado.
O reinado de Pio IX terá assinalado a data fatal da
suprema decadência (Ap. Michaud, p. 7).
No segundo capítulo de seu livro, prova Michaud a
identidade entre o Romanismo e o Jesuitismo. “Creem
ainda muitos espíritos, diz ele, que o Jesuitismo é apenas
um acidente estranho à própria essência da Igreja
Romana. Enganam-se. De 18 de julho de 1870 para cá,
não há mais diferença entre bispos romanos e os
jesuítas... Nessa data se operou uma revolução, que,
alterando o dogma e a constituição da Igreja Católica,
cavou um abismo entre o Catolicismo e o Romanismo...
É evidente que o Romanismo atual não é mais o
Catolicismo de outrora, mas o Jesuitismo... No
Romanismo atual a hierarquia parece ainda existir; mas
é apenas uma aparência. Não é mais uma hierarquia, é
um exército de serviçais, ou antes uma gradação de
criados (valets). O fiel não é mais que uma máquina cega
e passiva do padre diretor; o padre, do bispo; o bispo, do
papa. De sorte que, em última análise, tudo se resume
no papa. É ele o único vivo, todos os outros são
cadáveres; é ele o pensamento e a vontade de cada um.
A todo o que pensa ou quer diferentemente dele,
anátema! Chamava S. Paulo a cada cristão templo do
Espírito Santo; agora, porém, só há um templo do
Espírito Santo, o papa; e todo o cristão é apenas o
templo do papa. Ao papa é que todo cristão deve imolar

127
— Pagani, rústicos, os habitantes das aldeias (peragus), que resistiram à ação do Cristianismo.

457
seus pensamentos e seus sentimentos; a ele é que deve
pedir luz e fôrça; a ele é que deve dar, no caso de
necessidade, o seu ouro e o seu sangue. Logo, todos para
um só e todos por um só, é a última palavra do
Romanismo.
A constituição do Romanismo é, como se vê, a
própria constituição do Jesuitismo; a fórmula de um e a
do outro são perfeitamente idênticas. Ressalta esta
identidade da própria essência dos novos dogmas e de
tudo o que simultaneamente foi feito no concílio do
Vaticano, pela corte de Roma e pelos jesuítas... A Ordem,
que se diz a guarda pretoriana do papado, guardou-o tão
pacientemente para dominá-lo afinal. E domina-o hoje,
de modo que o papado, que parece seu senhor, na
realidade é seu servo, ou antes sua vítima.... Sabido é
que, se os jesuítas quiseram assegurar ao papa a
infalibilidade e dominação universal, foi para que,
tornando-se senhores de um só, fossem senhores de
todos. Foi o cúmulo de sua habilidade executar a
confiscação do papado, parecendo, entretanto, fazer sua
apoteose?
Teve o papado de aceitar o jogo da esperta
Companhia, e agora a identificação do Romanismo e do
Jesuitismo é um fato consumado, oficial, inegável, que se
acentua nos compêndios de teologia e moral, usados
geralmente; no jornalismo, capitaneado pelo órgão
jesuíta Civiltá cattotica; no seu grande colégio em Roma,
para onde enviam bispos a flor de suas dioceses, a fim
de moldá-la na fôrma jesuítica. O Jesuitismo não é só o
braço direito do papado, mais ainda a cabeça e o
coração. Não é ele uma mera produção ilógica do
papismo: é o fruto inevitável e necessário da sua própria
essência.
458
Mostra, em seguida, com abundante luz de seu
estilo perspícuo e eloquente, que o papismo moderno é
uma nova forma do paganismo, a que dá o nome
expressivo e justo de papolatria.
“O novo catolicismo romano, dogmaticamente
proclamado a 18 de julho de 1870, é uma nova religião,
que lança por terra a base da antiga religião católica,
contradiz a mesma essência do Cristianismo, e constitui
uma verdadeira volta ao paganismo.” É esta a tese,
palpitante de interesse, que o eminente e abalizado
polemista desenvolve com lúcida demonstração.
A tremenda realidade enunciada na tese escapa ao
espírito simples dos fiéis. A aparência externa não
mudou. Os templos, as cerimônias do culto, os cantos
litúrgicos, são os mesmos. Mas aqui é que está a
suprema habilidade dos jesuítas. Consiste o truc dos
escamoteadores vulgares era mudar as aparências e a
forma das coisas; eles, pelo contrário, deixaram as
mesmas formas, as mesmas aparências à religião,
porém lhe escamotearam a essência. Com o tempo,
pouco a pouco, espera o piedoso eclesiástico, a luz se
fará nos meandros desta triste e sacrílega comédia.
Em linguagem concisa e frisante, põe ele a nu o
fundo pagão do atual catolicismo romano, mostrando o
abismo que o separa do Cristianismo.
Que é o Cristianismo em sua essência, pergunta, se
não a união da alma com Cristo, para se chegar à união
da alma com Deus? “Cristo vive em mim” — dizia S.
Paulo: nesta expressão resumia ele todo o Cristianismo.
Quem quer ser cristão, e ter parte com Cristo, deve fazer
viver Cristo em seu espírito, em seu coração. Cristo vive
no espírito do homem pela fé, e no seu coração pela
esperança e pela caridade.
459
Daí se depreende a absoluta necessidade dessas
três virtudes teologais.
De fato, o cristianismo de S. Paulo possui intensas
vibrações de entusiasmo pela pessoa adorável do
Salvador. A sua gratidão, o seu amor, a sua admiração
pelo Filho de Deus não tem limites. “Longe de mim o
gloriar-me a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus,
Cristo, por quem o mundo está crucificado para mim e
eu crucificado para o mundo, per quem mihi mundus
crucifixus est, et ego mundo (Gálatas 6:14) e se eu vivo,
vivo na fé do Filho de Deus, que me amou e se entregou
a si mesmo por mim”.
E toda essa vida religiosa do grande Apóstolo não
eia apenas um poderoso movimento efetivo, mas uma
afirmação intelectual da própria substância do
Cristianismo, que ele sintetizou na seguinte proposição:
“Só há um Deus, e só um mediador entre Deus e os
homens, Jesus Cristo” (1 Timóteo 2:5). Quão larga a
distância entre o cristianismo de Paulo e o marianismo
dos jesuítas!
Salientando assim ligeiramente o caráter essencial
do Cristianismo, dá-nos Michaud, em traços rápidos e
vigorosos, o doloroso contraste com o Neocatolicismo.
Em o novo Catolicismo, escreve, não é Cristo que é
o mediador entre Deus e os homens, é o papa. Não se
trata aí mais nem da união com Cristo, nem mesmo da
união com Deus, mas antes da união com o papa. É ele
que deve viver em cada um de nós. Deve ele viver nos
espíritos, pela palavra infalível, que agora é a regra da
fé. É ele que é o senhor da doutrina revelada, tendo
sobre Cristo a seguinte superioridade: Cristo, relegado
no Céu, nada pode mais ajuntar ao texto desta doutrina,
ao passo que o papa, vivo na terra, pode a ele ajuntar
460
todas as explicações, que lhe aprouverem, dar a estas
explicações igual valor às do texto seja qual for a
contradição que existiu entre elas e o texto.
O novo Catolicismo é, pois, na esfera do dogma, a
suplantação de Cristo pelo papa, visto como a palavra de
Cristo não tem vida nem sentido senão conforme as
explicações que dela der o papa.
Acontece o mesmo com a moral. O papa, que é a
regra de fé, é também a regra, da virtude. Todo o
verdadeiro romanista não espera, senão no papa, não
ama senão a ele só, ao menos oficialmente, coram
populo. Para Veillot, hábil jornalista ultramontano, a
Europa, se estava de pé, devia-o ao divino prisioneiro do
Vaticano, chave da abóbada, fundamento, pedra angular
de todo o edifício terrestre. Com ele tudo está salvo, sem
ele, tudo perdido. A cruz de Jesus Cristo estava fora de
tempo, servira outrora, hoje a substitui a cruz de Pio IX,
crux de cruce. É, pois, o papa o centro da esperança. “Se
alguém não ama Jesus Cristo, exclamava S. Paulo, seja
anátema” (1 Coríntios 16:22); mas os novos católicos
bradam: “Se alguém não ama o papa, seja anátema”
Aborrecer o papa é caminhar em linha reta para o
inferno, por mais virtudes que alguém pratique. Amar o
papa é ter já o céu aberto sobre a cabeça.
O novo Catolicismo ou o ultramontanismo é, pois,
conclui Michaud, a papolatria. Ora, a papolatria é a volta
ao paganismo. De fato, compreendia o paganismo dois
graus de adoração: a adoração dos objetos inanimados,
e a adoração do homem deificado. Não contentes os
novos católicos de dobrar os joelhos diante do papa e de
ter por insigne honra beijar o seu chinelo, proclamam
ainda que o papa é infalível em toda a força da
expressão. Que significa uma tal proclamação se não a
461
apoteose e a deificação do papa? Que é o que um
homem-Deus poderia impor, que não o pudesse fazê-lo
um homem infalível?
Impelidos pelo mesmo erro, os neocatólicos
entram já no grau inferior do paganismo, isto é, no
feiticismo (fetichisme). Que é, afinal de contas, esse culto
de estátuas brancas, de estátuas negras, medalhas,
águas de toda a sorte, rosários, bentinhos, verônicas,
escapulários de todas as cores, velas e palhas bentas,
imagens milagrosas, todas essas superstições
grosseiras, toda essa feitiçaria boçal, em tão larga escala
praticada hoje na Igreja Romana, que é todo esse
materialismo, se não um verdadeiro feiticismo, que em
nada difere do feiticismo pagão?
Dirige depois o clarividente padre a sua rápida e
cortante análise para o terreno político.
Esta deplorabilíssima consequência religiosa dos
decretos do Vaticano repercute-se com o mesmo caráter
na esfera política. A religião e a política, embora
distintas, seguem caminhos paralelos. Boa religião, boa
política; má religião má política. Sendo o Neocatolicismo
a pior das religiões (la pire des religions), é igualmente a
pior das políticas.
Efetivamente, a política do Neocatolicismo é a
antiga política pagã do direito reputado divino. Era o rei,
no paganismo, uma espécie de emanação da divindade:
em sua pessoa concentrava todas as autoridades
possíveis, religiosas e políticas; e tudo o que praticava
era, por direito divino, considerado bom e justo.
Degolado era todo o que pensasse diversamente. Ora,
sobremodo clara é a política ultramontana, e dispensa
explicações pormenorizadas. Consiste ela em fazer de
um só homem, o papa, rei universal da terra. Os que
462
trazem o nome de rei, imperador ou presidente, são
apenas seus vigários ou delegados do ponto de vista
político, como os bispos o são do ponto de vista
religioso. Ele só, o papa, seria a fonte de toda autoridade,
o senhor supremo de todos os homens, e de todos os
povos. Seria o paparei, como é o papa Deus. Ensinava
Jesus Cristo, filho de Deus, dar a Deus o que é de Deus e
a César o que é de César; fugia para não ter que aceitar
a realeza que se lhe queria conferir. Ao invés, os
neocatólicos, fiéis aos dogmas do Vaticano, ensinam que
ao papa, a um tempo Deus e César, é que tudo se deve
dar; e o papa, obumbrado por esta insensata adoração,
longe de fugir, reclama-a. Ai dos cristãos, fiéis à palavra
de Cristo, que lhe negam! Não podendo mais queimá-los,
o papa os excomunga e anatematiza!
É de direito divino, segundo Cristo, a distinção do
poder secular e do poder religioso, um em César, outro
em Deus; para o neocatolicismo, porém, o direito é a
concentração, ou, melhor, a identificação, dos dois
poderes na única pessoa do papa — único verdadeiro
César, único verdadeiro Deus.
Assim, pois, o Neocatolicismo é essencialmente, de
acordo com a própria substância dos novos dogmas, não
somente uma volta à religião pagã, mas ainda uma
restauração da política pagã.
Melhor que ninguém nessas palavras que aí ficam
condensadas, o ilustrado e nobre doutor em teologia. M.
l’abbé E. Michaud, caracteriza, com irrefragável lógica, o
Vaticanismo. E não somente pela maestria do seu estilo,
pelo calor de sua linguagem, pelo acertado de seus
conceitos e pela força de sua argumentação, deve ser ele
ouvido; mas principalmente por ter sido ele um dos
poucos vultos heroicos, que, no mundo latino, se
463
ergueram impávidos ante a tremenda revolução
religiosa de 1870, e não se acobardaram ao surgir, entre
aclamações universais, a face irada da nova Divindade!
Eis aí esboçada, com pincel de mestre, na tela da
história, a nova religião vaticana, que representa até
hoje o último elo da evolução apóstata do Cristianismo
latino.
Carreguemos as tintas do quadro, e sobre o
Vaticanismo projetemos mais alguma luz.
No Paraíso Perdido de Milton, há uma cena trágica
de impressionante beleza. Junto aos portões do inferno
sentam-se o Pecado e a Morte, mãe e filha, ao serviço de
Satanás, pai e avô. Fala a mãe ao hórrido filho, que cinge
real coroa, e lhe chama sua sombra inseparável, for
Death fron Sin no pow’r can separate. Do mesmo modo
nasceu o Jesuitismo das entranhas do Papado, e tornou-
se a sua sombra inseparável, seu filho unigênito, sinistro
resplendor de sua glória. Como o seu genitor, tem ele
aparência de cordeiro e voz de Dragão, é o servus
servorum Dei, e, simultaneamente, o Dominus noster. Em
Trento, como no Vaticano, foi ele o Verbo do Papismo, e,
como tal, encarnou-se no seio da Igreja Católica
Romana, por obra e influxo do Ultramontanismo, que é
o espírito procedente do Papado.
Assim, pois, Papismo, Jesuitismo e Ultramontanismo
são três entidades distintas, mas uma só substância
verdadeira. É uma como trindade político-religiosa,
esboço histórico da trindade infernal apocalíptica,
anunciada para os últimos tempos: — Dragão, Anticristo
e Falso-Profeta (Apocalipse 19-20; 20-2).
Faz ao ponto o dito de Godet que quando Deus cria
um homem, Satanás faz um macaco; onde edifica um
templo, constrói ele uma capela.
464
Resume-se praticamente o Vaticanismo em dois
dogmas: Maria e o papa, Maria no Céu, e o papa na terra,
Em Marta abdicou Deus, no Céu, toda a sua bondade, e,
na terra, toda a sua autoridade no papa. Quem não crê
no papa está condenado às penas eternas; fora do papa
não há salvação. Como se percebe, é o Cristianismo
metamorfoseado, por um passe satânico, em
Mariolatria e Papolatria.
No concílio de Trento, foi a apostasia medieval
oficialmente sancionada, e o Protestantismo continuou
a marcha histórica do Cristianismo Apostólico; no
concílio do Vaticano, a apostasia se agravou, rompendo,
em um acesso de loucura, os últimos fios que a podiam
ainda prender às lídimas tradições cristãs, e os Velhos-
Católicos prosseguiram na senda aberta pelos seis
concílios do Catolicismo primitivo.
Revelam documentos, recentemente descobertos,
que à dogmatização da Infalibilidade, seguir-se-ia a
dogmatização do poder temporal do papado. A
hegemonia protestante da Prússia e a entrada triunfal
de Vitor Emanuel em Roma, impediram o novo golpe, e
converteram a infalibilidade em uma túnica de Nesso,
para o pobre prisioneiro do Vaticano, que, descoroado,
meditava solitário sobre a vaidade do incenso com que
o embriagara a turba servil de encomendados titulares.
Debalde nobres espíritos liberais, dedicados à
Santa Sé. seguindo a esteira aberta pela brilhante
imaginação romanesca de Chateaubriand, lançaram-se
no ingrato afã de harmonizar o papado com a civilização
e a liberdade, e conciliá-lo com os vitais interesses da
sociedade moderna. Debalde a voz eloquente de
Lamenais, Lacordaire, Montalembert, Dupanloup,
Loison, Dollinger, Hefele, reagia contra o programa
465
absolutista do partido ultramontano, arremessado pelo
Jesuitismo à face da Revolução. A Cúria, com uma
ingratidão inominável, os cobriu de baldão, de
humilhações e amargura.
Divorciado definitivamente da sociedade moderna,
só resta ao papado, como diz Larousse, isolar-se mais e
mais nas trevas solitárias, que se constituirão no seu
túmulo.
Entretanto, não se pejou a Cúria de entrar em
negociações políticas com a nação protestante vitoriosa,
que ela pretendera esmagar, sacrificando a nobre
França, para o efeito da restauração do seu poder
temporal perdido com a unificação da Itália.
Logo em novembro de 1870, apenas mês e dias,
após a incorporação dos Estados Pontifícios à nação
italiana, o Arcebispo Ledochowski, em poupalers com
Bismarck, prometeu-lhe o auxílio do clero francês para
a conclusão da paz, se o Chanceler de ferro fizesse com
que o governo italiano largasse a presa.
Em 18 de fevereiro de 1871, pleitearam deputados
católicos, em Versailles, perante o imperador
Guilherme, a restauração dos Estados da Igreja e do
poder temporal do papa. Em 6 de março recebe o
Imperador congratulações do papa pelo
estabelecimento do Império Germânico.
Leão XIII, sucessor ne Pio IX, continuou a olhar para
a Alemanha protestante, na esperança da restauração
do poder temporal; chegou mesmo, por intermédio de
Galimberti, a lembrar a Bismarck a solução da “questão
romana”, a que o chanceler respondeu que desconhecia,
tal questão. Com certeza removeram ou enfraqueceram
as esperanças do papa as duas visitas que lhe fez o

466
Kaiser, mormente depois de feita a tríplice aliança
austro-germano-italiana.
Isto não obstante, surgiram vivas essas esperanças
ao rebentar a grande guerra, o dão-nos elas a chave no
angustioso enigma do apoio moral e ardente que o clero
católico, no Brasil, e em toda a parte, deu aos Impérios
Centrais.
Impelindo a França ao desastre de Sédan e, em
seguida, rojando-se aos pés do vencedor, deu a Cúria
razão a que Gambeta, nas angústias de sua alma, perante
as grandes humilhações na pátria, soltasse o brado de
indignação, que é um solene aviso: “Le clériealisme, volià
l’ ennemi”.
Inspirado peia trindade do Vaticano, é o clero um
partido político-religioso, a serviço de um soberano
estrangeiro, ao qual subordinam os interesses da pátria.
Sob a epígrafe Vaticanismo, escreve o Dr. Kraus
substancioso artigo na “Encliclopédia Britânica”, onde
estuda as consequências dos decretos do Vaticano, que
lançaram na arena mundial o Neocatolicismo.
Epitomando as suas conclusões e aduzindo outras,
aqui resumimos, em alguns itens, os graves efeitos das
decisões proclamadas no seio do concílio do Vaticano.
1º — Foi o primeiro o consumar-se o processo
secular de absorção dos poderes eclesiásticos: o
episcopado havia absorvido o presbiterado e com ele a
Igreja; o papado absorveu o episcopado e a Igreja.
Completaram-se os ciclos das ambições profanas no
seio da cristandade. Seguiu-se na terra um grande
silêncio, preságio da temerosa borrasca. Calaram-se
povo, ministros e concílios; só se ouve o estrépito das
palavras arrogantes proferidas ex-cátedra, e um
murmurinho servil da cristandade latina: placet, placet!
467
2º — Nota-se em seguida um declínio visível
(unmistakable decline) do fervor religioso na vida da
Igreja Católica Romana, como resultado inevitável dessa
unificação absoluta. O papado infalível confiscou toda a
atividade intelectual e moral da Igreja, que ficou
reduzida a um vasto cemitério de “sepulcros
branqueados”, repletos de ossos e asquerosidades. Com
raras exceções, converteu o jesuitismo os fiéis, pondera
Michaud, em duas classes: — céticos e supersticiosos.
Tem dominado este resultado sem contraste de 1870
para cá.
3º — Manifesto é que, no clero, se intensificaram e
fomentaram paixões e práticas, intrigas e ambições
políticas, absolutamente incompatíveis com o ofício de
ministros da religião. A última palavra da religião de
Roma, diz um outro não menos alumiado escritor, é a
política, Omnia pro dominatione. Resume-se toda a
tática de Roma, acrescenta, nos seguintes pontos: 1º
fazer servir a política dos povos à sua religião; 2º fazer
servir a religião desses mesmos povos à sua política.
Caracterizando essa nefasta política, escreve pressensé:
“Ora, a política romana é flexível e humilde, serpit humi:
enlaça mais do que fere, quando se sente suspeita e
detestada; ora, ordena, fulmina, inflama as paixões
populares ou se deixa arrastar por ondas furiosas de
uma reação insensata”. — A política tem sido a força e a
vida do Romanismo, desde os dias de Constantino; será
um dia a sua ruína total.
4º — É visível a alienação dos elementos cultos e
nobres da sociedade, que vão sendo substituídos pelos
rudes e incultos, a que o Dr. Kraus chama ecclesiastical
Trotori.

468
Olhai para o culto, para as procissões, para a
literatura polêmica, para o jornalismo católico-romano,
e verificareis a verdade deste assêrto do ponderado
colaborador da “Enciclopédia Britânica”. Na literatura
polêmica tendes Ségur e seu prosélito o Neófito, no
jornalismo Veillot, tipos eméritos de legiões. A mentira
e a calúnia, o escárnio e o ridículo, a afronta soez e o
ditério suspeito, a emboscada traiçoeira do anonimato
ou a máscara covarde da pseudonimia, a mofina abjeta
a tresandar despeito, ignorância e maldade, tais as
armas prediletas e métodos preferidos dos advogados
do Neocatolicismo. Contra tão ignóbeis processos
ergueram-se indignados, em França, nobres e sinceros
católicos-romanos, tais como Lamenais, Lacordaire,
Montalembert, no início da nova fase.
5º — Uma outra natural consequência da
infalibilidade papal é a paralisação da inteligência e das
pesquisas científicas, que a Cúria romana condena ou
dificultosamente tolera.
Assinalando este fato, põe o Dr. Kraus o dedo na
chaga do Neocatolicismo.
A paralisia intelectual arrasta de necessidade a
paralisia de todas as outras faculdades. Eis porque, do
México à Argentina, no vasto e belo sarcófago da
América do Sul, estende-se o grande cadáver latino.
Triunfou o gênio sinistro de Loiola: perinde ac cadaver.
6º — Finalmente, aponta o Dr. Kraus a decadência
crescente (increasing decay), a crescente corrupção das
nações românicas (Romance nations), e o alastramento
de um estado mórbido social, que tantas vezes se tem
revelado em França, como no caso Dreyfus, no
movimento anti-semítico, etc.

469
É flagrante a realidade deste testemunho, e só a
cegueira sistemática pode desconhece-la. Um caso
típico dessa espantosa cegueira têmo-la em Balmes,
padre e filósofo espanhol, no seu estudo comparativo no
Protestantismo e do Romanismo. Deve, porém, tirar-lhe
a catarata o seu ilustre conterrâneo E. Castelar nas
comoventes palavras com que mais adiante descreve a
decadência dos povos ibéricos.
Tais os efeitos dos decretos do Vaticano.

Sincretismo católico romano

Sincretismo traz, geralmente em teologia e


filosofia, o sentido de amálgama de princípios
heterogêneos na unidade fictícia de um sistema.
De nosso estudo ressalta, nítida e irrecusável a
infiltração secular de elementos judeu-pagãos na Igreja
Católica Apostólica Romana. Vítima do ambiente
histórico, apresenta ela, no seu vasto credo, complicado
ritualismo e liturgia, elementos vários e antagônicos.
Favoreceram esse processo de absorção as correntes
filosóficas do tempo, de sorte que o Catolicismo romano
é hoje um composto incongruente de Cristianismo,
Judaísmo e Paganismo.
É a isto que chamamos sincretismo católico-
romano, que outra coisa não é senão um ecletismo
religioso abrangendo, na homogeneidade aparente de
um grandioso sistema os desencontrados retalhos de
crenças várias. E o que já havia percebido Almeida
Garret, quando, em “O Arco de Sant’ Anna”, da Igreja
Romana escreve: “Tudo quanto é superstição adotam de

470
todas as religiões — nem o seu culto é mais do que a
remendada mistura dos vários cultos da terra”.
Antes de positivarmos o sincretismo, já
historicamente exposto, esbocemos de passagem as
correntes de ideias, que o apressaram.
Oferece-se logo ao nosso estudo a escola teológico-
filosófica de Alexandria, no Egito, que floresceu, com
intenso brilho, nos tempos primitivos da difusão do
Cristianismo na Europa.
Fundada em 326 antes de Cristo, na foz do Nilo,
tornou-se logo a cidade de Alexandria, pela sua posição
geográfica, o empório do comércio e das ideias entre o
Oriente e o Ocidente.
Era aí o rendez-vouz, o toco de convergência,
embates, lutas e cruzamentos das locnbrações
filosóficas e teosófica.: dos espíritos dessas duas partes
do mundo.
Breve o ecletismo filosófico arrebatou os espíritos,
e o sincretismo nas especulações neoplatônicas
ameaçou seriamente o exclusivismo cristão.
Anterior ao aparecimento do Cristianismo,
florescera, nessa cidade uma colónia judaica. Aí
fundaram os Ptolomeus a famosa biblioteca, precioso
arquivo da antiguidade reduzido a cinzas no séc. VII,
pela invasão árabe.
Batido pelos largos ventos de ambos os
hemisférios, o particularismo judaico da colônia sacudiu
os grilhões pátrios, e voou a altas especulações
filosófico-teológicas.
Contemporâneo de Cristo, surge aí o gênio de Filo,
que busca harmonizar o judaísmo com as locubrações
da filosofia grega. No estudo do V. Testamento antevê a

471
misteriosa doutrina do Logos, explanada por S. João no
primeiro capítulo de seu Evangelho.
Funda-se aí por S. Marcos, segundo se crê, uma
escola de catequistas, onde brilham, no segundo século
da era cristã, como estréias de primeira grandeza entre
os padres pós-apóstólicos, Clemente e Orígenes.
Ocupando o centro da cultura grega, não puderam
escapar esses ilustres doutores primitivos do
Cristianismo, ao influxo da filosofia helénica, e, com Filo,
procuram em um esforço sincrético, a harmonia da
revelação bíblica com as correntes filosóficas, que, do
Ocidente e do Oriente, vinham cruzar em Alexandria.
Alando-se a regiões superiores do pensamento,
buscaram harmonizar a razão com a fé, o pistis com o
gnosis, a ciência com a religião. Ao influxo destas
pesquisas, como uma rápida e ameaçadora epidemia,
surge a epopéia teosófica do gnosticísmo, é, com ela, e
ao lado dela, alastra e domina uma filosofia eclética,
chefiada por Amônio Sacas. É o néoplatonismo, que,
fascinou a mente de muitos doutores da Igreja, fazendo
pairar sobre eles grave ameaça à sua ortodoxia.
Procuravam unir o misticismo oriental com a metafísica
grega, afirmando que a verdade religiosa se encontra
em todas as seitas, e que, entre estas, a diferença estava
apenas na maneira de exprimi-la. Desta corrente de
pensamento, originou-se o ecletismo neoplatônico, que
escolhe, em tocos os credos — cristão, judeu e pagão, os
elementos da verdade religiosa, para prende-los em
vasta síntese e amplo sincretismo.
Os sucessores de Amônio Sacas, Plotino (204-269),
Porfírio (+ 304), Jamblico (+ 333), Porclo (+ 485),
levaram para Roma, grande mercado dc todos os
sistemas do mundo antigo, estas especulações
472
sincretísticas, que aí deitaram raízes, medraram,
floresceram e foram frutificando, no andar dos séculos,
ostentando hoje todo o seu vigor nas doutrinas, no culto,
nos ritos e na disciplina do vasto sistema político
religioso da Cúria romana.
À influição desta corrente, ajuntai o ambiente
histórico da cristandade ocidental.
Com a conversão oficial do imperador Constantino,
a nobreza pagã alagou a Igreja, pesando fortemente em
seu destino o paganismo batizado. Pelo número e
influência o elemento gentílico não podia deixar de
atuar como fermento a levedar paulatinamente a massa
cristã. O próprio Constantino só na hora da morte
renunciou formalmente a sua filiação pagã pelo
batismo, apesar de se ter declarado bispo anterior.
Além desse íntimo contacto com o paganismo,
prendia-se o Cristianismo ao judaísmo, donde
procedera, por meio do V. Testamento. Cedo, como nos
atesta a epístola de S. Paulo aos Gálatas, começou o
fermento judaico a corromper o Cristianismo, em
contínuas reações judaízantes. Se a esta mesologia
religiosa, acrescentardes a ignorância dos tempos, os
interesses subalternos dos homens e as ambições do
clero, tereis escrito a história do sincretismo católico-
romano.
Qual bola de neve, que, desprendida e rolando pela
encosta da montanha, vai crescendo pela aderência dos
flocos encontrados no caminho, até ostentar no vale
enormes proporções; tal a Igreja Romana na rampa do
medievalismo até nossos dias.
Em abril de 1916, no congresso evangélico regional
do Rio de Janeiro, ligado ao de Panamá, apresentamos o
seguinte documento, que expõe o sincretismo da Igreja
473
Romana, e define a atitude do Protestantismo para com
ela, o qual foi adotado.

Atitude do protestantismo para com a


igreja católica romana

O Congresso Regional, reunido no Rio de Janeiro,


em continuação do Congresso de Panamá sobre a Obra
Cristã na América Latina, julga de bom conselho
declarar, com leal franqueza, a sua atitude para com a
Igreja Católica Apostólica Romana. Durante
quatrocentos anos tem decorrido sob sua direção e
responsabilidade os interesses religiosos nesta parte do
mundo, e agora que vamos encarar os grandes
problemas, que se prendem a esses interesses, bom
seria se com ela pudéssemos unir os nossos esforços em
larga cooperação para o levantamento moral e religioso
dos povos deste continente. Não sendo isso possível,
convém, entretanto, reconhecermos com justiça e
caridade o seu caráter e influência, e acentuarmos os
nossos intuitos essencialmente espirituais na difusão
em mais larga escala, dos princípios salvadores do
Cristianismo.
Reconhecemos, em primeiro lugar, que a Igreja
Romana, como parte integrante da Cristandade,
professa em seu credo e em suas práticas todos os
grandes dogmas e instituições do Cristianismo.
Como todos os outros ramos cristãos, ela crê na
Bíblia como Palavra de Deus; na Santíssima Trindade,

474
na pessoa do Pai, como Criador de todas as coisas, na
pessoa do Filho, como Deus-homem, Senhor e Salvador
da humanidade; na pessoa do Espírito Santo, como
regenerador e santificador do homem decaído; ela crê
na divina instituição da Igreja, do ministério, dos
sacramentos, do culto, na ressurreição, no juízo e no
eterno destino do homem.
Em suma, ela mantém o Credo dos Apóstolos, e
todas as doutrinas e práticas da religião cristã.
Apraz-nos ainda confessar que as verdades cristãs
do credo católico-romano tem alimentado, no seio dessa
Igreja, nobres e santos caracteres, já no domínio da vida
particular, já na esfera ampla dos benfeitores da
humanidade.
Com prazer declaramos também que ela tem sido,
na Providência de Deus, uma força para manter no
mundo a ideia cristã, um grande baluarte do princípio
da autoridade e da ideia fundamental de unidade cristã,
e que, na atividade e consagração de seus missionários,
em suas largas obras de beneficência, tem ela prestado
assinalados serviços à humanidade.
Reconhecida com justiça esta feição favorável do
Romanismo, manda a mesma justiça que encaremos
com calma e leal franqueza a outra feição.
Infelizmente para a humanidade, a Igreja Romana
encerra, em seu amplo credo e poderosa organização,
muitos princípios e práticas em flagrante antagonismo
com o elemento cristão, que acabamos de reconhecer.
Às grandes verdades do seu credo opõem-se
grandes erros, que as desvirtuam, e mesmo as anulam
na vida religiosa do povo e da sociedade.
Em rápida sinteso, firmaremos nosso assêrto.

475
A Bíblia, a Palavra de Deus, dada para a regra de fé
e prática do povo cristão, é por ela fechada, e substituída
pela Tradição, que a regula e suplementa.
As Sociedades Bíblicas, que se esforçam
piedosamente por coloca-la na mão do povo, são
tachadas de pestes.
Nas grandes cidades da América Latina, com
assentimento das autoridades csclesiásticas, é ela
publicamente queimada em auto-de-fé.
O dogma inefável da Santíssima Trindade sofre
praticamente concorrência vitoriosa de uma outra
trindade mais popular — Jesus, Maria, José — cuja
pessoa central absorve o afeto filial do povo.
A obra redentora de Cristo, como o único Mediador
e única esperança da humanidade, é completamente
desvirtuada pelas obras meritórias e super-rogatórias
dos santos, pelas indulgências remissoras, pela
mediação e absolvição sacerdotal, pelo Purgatório,
pelas missas, pela mediação dos cantos e dos anjos,
mormente pela mediação da Virgem Maria, apelidada,
nos agiológios e devocionários, “Corredentora, Rainha
dos Céus, Mãe de Deus, mãe dos homens, mãe de
misericórdia, vida, doçura e esperança dos degradados
filhos de Eva”!
É tal o fervor, encómio e exaltação do culto da
Virgem Mãe, que o Cristianismo é praticamente
absorvido pelo Marianismo.
A obra regeneradora e santificadora do Espírito
Santo é igualmente desvirtuada: torna-se o Espírito
monopólio do clero, e preso, pelo ex opere operato à
matéria dos sacramentos.
A sua ação livre é anulada, e fica ele adstrito à
influência mágica das manipulações sacerdotais.
476
A divina instituição da Igreja de Jesus Cristo é
despojada de seu caráter espiritual, e a sua catolicidade
se restringe à comunidade visível dos batizados sob a
obediência do Bispo de Roma, sendo a Igreia de Roma
proclamada a “Mãe e Senhora de todas as igrejas
cristãs”.
Esta concepcão material e restrita do Reino de Deus
é ainda absorvida no clero, e este no papa, declarado
Sumo Pontífice, infalível, vice-Deus na terra.
Uma tal maneira de se encarar a natureza da Igreja
de Cristo a faz um reino deste mundo, superposto aos
outros reinos, e a põe em conflito com as soberanias dos
Estados da terra, arrastando-a em lutas políticas, que a
desviam de sua missão benéfica de paz, de amor e
abnegação.
Da ordem ministerial, instituída por Cristo, faz o
Romanismo uma casta sacerdotal, em cujo poder estão
os destinos eternos das almas.
O padre romano é um sacerdote, que tem em suas
mãos as “Chaves do Reino dos Céus”; “que abre e
ninguém fecha, e que fecha e ninguém abre”; que perdoa
ou retém os pecados; que lança o interdito, e ameaça
com as penas do inferno a populações inteiras; que tem
o poder de chamar a Cristo sobre o altar e sacrificá-lo
todos os dias, consumindo-o em seu próprio corpo.
Com essas prerrogativas, o padre é um mediador
entre Deus e os homens, e no tribunal da Penitência é
um substituto de Cristo, com as tremendas atribuições
de juiz.
Aí o pecador, de joelhos a seus pés, recebe a
sentença que decide o seu destino eterno!
No fastígio dessa hierarquia sacerdotal, está o papa.
sumo sacerdote; pontífice máximo, santíssimo e
477
infalível, árbitro supremo, Cristo na terra, e, como tal,
Senhor absoluto dos reis, e, portanto, rei dos reis,
possuidor soberano da espada espiritual, como da
temporal.
Ora, uma tal concepção da ordem ministerial faz do
ministério cristão uma ameaça perene às sociedades
políticas; é a tirania organizada, a escravidão do povo, a
asfixia da Igreja, a anulação das soberanias terrestres,
das autoridades políticas, que se tornam meras
delegações do papado.
Uma tal maneira de encarar o ministério cristão,
faz, dele uma teocracia perigosa, e sobremodo
atentatória da realeza sacerdotal de Jesus Cristo, comó
o único Mediador entre Deus e os homens.
Segundo tais princípios, o Filho do Altíssimo
abdicou no papa e no clero, e entrega-se passivo às
manipulações dum sacerdócio onipotente.
A Igreja, por sua vez, despojada de todos os seus
privilégios, vegeta esmagada na completa ignorância de
seus destinos, e torna-se mera prisioneira dessa classe
sacerdotal, que no cibório conserva preso seu celeste
esposo.
Não há sociedade, não há povo, não há nação, não
há raça, que, na vigência efetiva de tais princípios de
absolutismo religioso, de ditadura eclesiástica, possa
prosperar moral e espiritualmente.
Além das objeções contra este esclesiasticismo
ditatorial, outras e graves temos sobre o culto e a moral.
Quanto ao culto, é manifesto o divórcio entre a
simplicidade apostólica e a pompa externa do
Romanismo.
A multidão dos ritos e vistosas cerimônias
converte-se em uma nuvem de superstições, que
478
impede a adoração em espírito e verdade, reclamada
pelo Senhor.
Juntamente com o culto às pessoas divinas, presta
o Romanismo culto idolatra às criaturas, às relíquias, e
às imagens.
Tal culto ostenta infelizmente, na América Latina,
franca feição pagã: a água-benta, a bandeira do Divino
em mãos de foliões, procissões com numerosos andores,
onde se vêem imagens representando as pessoas da S. S.
Trindade, a Virgem, os santos e os anjos; romarias
constantes e preconizados santuários, e imagens
milagrosas, são a escola, onde se afervora o sentimento
religioso do povo.
Aos dois sacramentos acrescenta a Igreja Romana
mais cinco, e na celebração de todos é o povo ensinado
a enxergar uma virtude talismânica no elemento
material, o que constitui a fonte originária das grandes
superstições da crudelidade popular.
O batismo não é só rodeado de cerimônias
supersticiosas inteiramente alheias à instituição
primitiva, mas a própria matéria do sacramento é
desvirtuada com o acréscimo de “óleo místico da
unção”, sem o qual não é lícito, em condições normais,
celebrar-se o rito do batismo.
O sacramento da Comunhão é completamente
disfigura do pelo dogma da transubstanciação; no
sacrifício da Missa, o pão e o vinho são oferecidos à
adoração dos fiéis, como o proprio Cristo tangível —
“corpo, alma, divindade, tão real e perfeitamente como
está no céu”!
Na celebração deste rito, Roma não só recusa o
cálice aos leigos, mas subverte a instituição
identificando o sinal com a coisa significada, e
479
transformando, por magia transcendental, um
fragmento de pão em Deus, que entrega à manducação
material dos homens!
Sobre a moral, a “casuística de seus doutores tem
introduzido princípios francamente dissolventes, como
mostra o sábio autor das “Provinciais”.
O celibato clerical, sobre ser contrário à lei natural
e à divina, não poderia deixar de ser, como realmente é,
um elemento perigoso à moralidade pública.
O confessionário ou a confissão auricular, por sua
vez, é mais um acréscimo às instituições cristãs de
perigoso efeito.
Interpondo-se o padre celibatário, nesse tribunal
de penitência, entre o pecador e o seu Deus, com o
polder de dissipar agonias de consciência com uma
simples palavra sacramental, tem impedido a
manutenção de um padrão moral elevado, no meio em
que domina.
A tudo isto, acrescem três grandes decretos
modernos do Vaticano, que vieram agravar o estado de
coisas, contra o qual se ergueram os reformadores do
século XVI.
1. O dogma da Imaculada Conceição de Maria,
promulgado por Pio IX, em 8 de dezembro de 1854, com
a lenda da Assunção, veio completar a divinização da
Virgem, colocando-a não só a par do Filho de Deus,
concebido por obra e graça do Espírito Santo, mas ainda
superior no afeto e confiança do povo.
2. A infalibilidade papal, decretada em 1870, veio
contrastar a divinização da mulher pela divinização do
homem, tornando-o sobre santíssimo, infalível, e
fechando destarte a porta a toda a reforma no seio do
Romanismo.
480
3. O Sílabo, promulgado por Pio IX, a 8 de dezembro
de 1864, é realmente “uma declaração de guerra à
civilização moderna e ao progresso”, pois condena toda
a liberdade civil e religiosa, e fecha a porta a qualquer
conciliação possível entre a sociedade política e a
religião.
Exposta sucintamente, a dualidade antagônica do
credo e das práticas da Igreja Romana, como acabamos
de fazer, passamos a assinalar nossa atitude e intuitos.
É evidente, diante do exposto, que nossa atitude
para com a Igreja Romana não pode deixar de ser dupla:
a) de simpatia e íntima solidariedade para com o
elemento cristão, e b) de repulsa para com o elemento,
que julgamos anticristão.
Afirmando as verdades do Cristianismo e repelindo
os erros contrários, declaramos que os nossos intuitos
são francamente espirituais e religiosos, e de
cooperação sincera com todos os ramos da Cristandade,
que mantêm e professam todos os dogmas cristãos em
sua pureza evangélica.
Herdeiros do nobre impulso religioso do século
XVI, procuremos, no seio da Cristandade, ser fiéis
testemunhas: a) da supremacia da Palavra de Deus
sobre as tradições dos homens, b) da supremacia da fé
sobre as obras, c) da supremacia do povo de Deus sobre
o clero.
Na manutenção destes grandes princípios, objetivo,
subjetivo e social, julgamos poder apresentar uma visão
mais clara do Reino de Jesus Cristo, até que Ele venha.
Cônscios da nossa missão, na obediência da ordem
do Divino Mestre, dada a toda a sua Igreja, é nosso fim
supremo levantar na América, como em todo o mundo,
Cristo crucificado, única esperança da humanidade.
481
Os nossos intuitos não são, pois, destrutivos, mas
construtivos; não são negativos, mas positivos; não são
polêmicos, mas afirmativos. Todavia, não nos
furtaremos ao dever de dar testemunho oportuno
contra todo o erro, que encontrarmos em nosso
caminho, crendo com Vinet que o silêncio sobre um
sistema falso é cumplicidade. Na direita a trolha, na
esquerda a espada, é a condição de todo o obreiro do
bem neste mundo extraviado.
O nosso fim, entretanto, não é “destruir, mas
construir.
Acima das raças e das nações, do progresso e da
civilização, acima dos grandes interesses temporais,
estão os interêsses ainda maiores das almas imortais no
conhecimento das grandes doutrinas, do Cristianismo, e
esses interesses espirituais são o nosso objetivo, ao lado
de todos os que trabalham para realizar no seio da raça
humana o pensamento do Pai de nossos espíritos, que
de “tal maneira amou o mundo que deu o Seu Filho
Unigênito, para que todo o que crê nele não pereça, mas
tenha a vida eterna”.
Para maior clareza, damos em seguida a lista
especificada dos principais erros, inoculados no
Cristianismo latino, e refugados pelo Protestantismo,
por sua incongruência original com o credo e práticas
cristãs. Ei-los:
1. — A falsa concepção da Igreja.
2. — O Papado: a supremacia e infalibilidade do
bispo de Roma.
3. — A Tradição equiparada à Bíblia.
4. — As condições exclusivas da Salvação.
5. — A Transubstanciação.
6. — O Sacrifício da Missa.
482
7. — A Ordem sacerdotal.
8. — As Indulgências e obras superrogatórias.
9. — Sete sacramentos em vez de dois.
10. — A doutrina da intenção e a do ex opere
operato.
11. — A Comunhão em uma só espécie.
12. — A confissão auricular, penitência e absolvição
sacerdotal.
13. — A Extrema Unção.
14. — A distinção de pecado venial e mortal.
15. — O Purgatório.
16. — Culto dos santos e dos anjos.
17. — O uso e adoração de imagens.
18. — O culto em língua desconhecida.
19. — Encomendação de defuntos e oração pelos
mortos.
20. — O celibato.
21. — O sistema conventual.
22. — Canonização.
23. — Água benta, rosários, relíquias, benzeduras,
sinal-da-cruz.
Esses 23 erros, enxertados no Cristianismo latino,
na fermentação da idade-média, não só são
absolutamente desconhecidos nas páginas do Novo
Testamento, fonte inspirada do Cristianismo, mas ainda
nas tradições dos primeiros séculos, como já em parte o
demonstramos.
Ressalta ainda o caráter espúrio desses 23
principais acréscimos, da notável circunstância de
nenhum deles ser encontrado nos credos da Igreja
elaborados até o 8º século. O primeiro credo foi
elaborado pejo primeiro concílio ecumênico no
princípio do 4º século, o concílio de Nicéia (325). Além
483
deste, temos o credo chamado dos Apóstolos, o de
Calcedôniâ, o de Constantinopla (681). Todos esses
credos os protestantes aceitam, pois neles não se
encontram as supra indicadas erronias. Logo esses
erros se foram condensando em séculos posteriores ao
concílio de Constantinopla.
Para amostra abaixo damos o credo de Nicéia, do
princípio do 4º séc. da era cristã. Verseá que o credo dos
Apóstolos é dele uma variante.

Credo Niceno

Creio em um Deus, Pai onipotente, criador do Céu e


da terra, e de todas as coisas visíveis e invisíveis; e em
um Senhor Jesus Cristo, Filho unigênito de Deus, gerado
de seu Pai antes de todos os mundos, Deus de Deus, luz
de luz, verdadeiro Deus de verdadeiro Deus, gerado, não
feito, sendo de uma substância com o Pai, por quem
todas as coisas loram feitas; o qual por nós homens, e
para nossa salvação, desceu do Céu, e encarnouse pelo
Espírito Santo na Virgem Maria; e se fez homem; e foi
também crucificado por nós, sob Pôncio Pilatos. Ele
sofreu e foi sepultado, e ao terceiro dia ressuscitou
conforme as escrituras; e subiu ao Céu, e sentou-se à
direita do Pai. E do novo Ele virá com gloria para julgar
tanto vivos como mortos: cujo Reino não terá fim.
“E creio no Espírito Santo, Senhor e doador da vida,
que procede do Pai e do Filho, que é como o Pai e o Filho
adorado e glorificado; que falou pelos Profetas. E creio
numa Igreja Católica e Apostólica. Reconheço um
batismo para a remissão de pecados; e espero a

484
ressurreição dos mortos, e a vida do mundo por vir.
Amém.
Tal o credo mais antigo da Igreja, que, com o
antiquíssimo credo dos Apóstolos, nada conhece dos
mencionados — acréscimos do Romanisnio!
Mais uma circunstância poderosa: o concílio de
Efeso (431), aceito pela Igreja Romana, como ecumênico
e infalível, proibiu, sob graves penas, acrescentar-se
qualquer artigo ao credo de Nicéia.

Decreto do Concílio de Éfeso

“Lidas estas coisas, o Santo Sínodo decreta — que


não é lícito a ninguém professar, escrever ou compor
qualquer outra forma de fé diferente da definida pelos
santos Padres, que, com o Espírito Santo, reuniram-se em
Nicéia. Aqueles, porém, que se tiverem atrevido a
compor ou professar ou oferecer qualquer outra forma
de fé, aos que desejarem converter-se ao conhecimento
da verdade, quer do paganismo ou judaísmo, quer de
qualquer sorte de heresia; que estes, se forem bispos ou
clérigos, sejam depostos, os bispos de seu bispado e os
clérigos de seu ofício clerical; se forem porém, leigos,
sejam sujeitos ao anátema.” (Mans’s Councils, p. ,1362, t.
IV, apud. Prot. Catech.)
É isto um protesto e condenação prévia ao
procedimento da Igreja de Roma, que se acha sob o
anátema de um concílio ecumênico!
Pio IV, em 1564, descurando os anátemas de Efeso,
e resumindo os decretos do concílio de Trento, incurso

485
igualmente na condenação de Efeso, acrescenta ao credo
niceno os doze seguintes artigos:

Doze artigos novos acrescentados ao


credo por Pio IV em 1564

I. — Firmemente admito e abraço as tradições


Apostólicas e Eclesiásticas e todas as outras
observâncias e constituições da mesma Igreja (romana).
II. — Admito também as Santas Escrituras,
conforme aquele sentido que a Igreja, nossa Santa Mãe,
tem mantido e mantém, à qual pertence julgar do
verdadeiro sentido e interpretação das Escrituras; nem
eu as receberei ou interpretarei senão conforme ao
consenso unânime dos Padres.
III. — Igualmente professo crer que há verdadeira
é propriamente Sete Sacramentos da Nova Lei,
instituídos por Jesus Cristo, nosuo Senhor, e necessários
para a salvação da humanidade, pôstq que não todas
para cada um; a saber — Batismo, Confirmação,
Eucaristia, Penitência, Extrema Unção, Ordem e
Matrimônio; e que eles conferem graça; e que destes o
Batismo, Confirmação e Ordem não podem ser
repetidos sem sacrilégio; e também recebo e admito as
Cerimônias recebidas e aprovadas pela Igreja Católica,
usadas na solene administração dos sobreditos
sacramentos.

486
IV. — Abraço e recebo tódas as coisas e cada uma
das que foram definidas e declaradas no Santo Concílio
de Trento, tocantes ao pecado original e à justificação.
V. — Professo igualmente crer que na Missa há,
oferecido a Deus, um sacrifício verdadeiro, próprio e
propiciatório pelos vivos e pelos mortos; e que no
sacrifício sacratíssimo da Eucaristia há, verdadeira, real
e substancialmente, o corpo e o sangue juntamente com
a alma e divindade de nosso Senhor Jesus Cristo; e que
se faz uma conversão de toda a substância do pão no
corpo, e de toda substância de vinho em sangue,
conversão que a Igreja Católica chama
Transubstanciação. Confesso também que, sob uma ou
outra das espécies, é Cristo recebido todo inteiro, e é um
verdadeiro sacramento.
VI. — Sustentarei constantemente que há um
Purgatório, e que as almas nele detidas são auxiliadas
pelo sufrágio dos fiéis.
VII. — Do mesmo modo sustento que os Santos,
remando com Cristo, devem ser honrados e invocados;
que oferecem orações por nós e que as suas relíquias
devem ser tidas em veneração.
VII. — Declaro firmissimamente que as imagens de
Cristo, da Mãe de Deus, sempre virgem, e também de
outros Santos, podem ser tidas e conservadas, e que a
elas se devem prestar devida honra e veneração.
IX. — Afirmo também que o poder de
Indulgências foi por Cristo deixado na Igreja, e que o uso
delas é muito salutar ao povo cristão.
X. — Reconheço a Igreja Santa Católica
Apostólica Romana por Mãe e Senhora de todas as
Igrejas; e prometo verdadeira obediência ao bispo de

487
Roma, sucessor de S. Pedro, Príncipe dos Apóstolos e
Vigário de Jesus Cristo.
XI. — For semelhante modo recebo sem nenhuma
dúvida e professo todas as outras coisas entregues,
definidas e declaradas pelos Sagrados Cânons e
Concílios Gelais, e particularmente pelo Santo Concílio
de Trento; e condeno, rejeito e anatematizo todas as
coisas a eles contrárias, e todas as heresias condenadas,
rejeitadas e anatematizadas pela Igreja.
XII. — Eu. F. F., pela presente declaração,
livremente professo, e sinceramente sustento esta
verdadeira fé católica, sem a qual ninguém pode ser
salvo, e prometo, com toda a perseverança, reter e
confessar a mesma inteira e inviolável, com o auxílio de
Deus, até o fim de mi