Falo somente com o que falo

:
com as mesmas vinte palavras
girando ao redor do sol
que as limpa do que não é faca:
de toda uma crosta viscosa,
resto de janta abaianada,
que fica na lâmina e cega
seu gosto da cicatriz clara.
Falo somente do que falo:
do seco e de suas paisagens,
Nordestes, debaixo de um sol
ali do mais quente vinagre:
que reduz tudo ao espinhaço,
cresta o simplesmente folhagem,
folha prolixa, folharada,
onde possa esconder-se na fraude.
Falo somente por quem falo:
por quem existe nesses climas
condicionados pelo sol,
pelo gavião e outras rapinas:
e onde estão os solos inertes
de tantas condições caatinga
em que só cabe cultivar
o que é sinônimo da míngua.
Falo somente para quem falo:
quem padece sono de morto
e precisa um despertador
acre, como o sol sobre o olho:
que é quando o sol é estridente,
a contrapelo, imperioso,
e bate nas pálpebras como
se bate numa porta a socos.

.

.

Aliás. de superação dessa realidade desigual e injusta.Além disso.. A riqueza integral da obra de Graciliano Ramos só pode ser entrevista na medida em que verificamos a sua íntima relação com o panorama social da época. de transformação.] O quadro brasileiro denunciado é aquele .. é preciso que ela seja instrumento de tomada de consciência. são esses dois aspectos que fazem com que uma boa literatura possa ser reconhecida como tal. [.

vinte anos depois. Caetés é a reconstrução literária de Palmeira dos Índios. na aceitação complacente do seu próprio destino. Desse modo. vinte anos depois. a socialização do homem em seu contexto histórico-geográfico. assim como S. Segundo Rui Mourão. 2006. no qual contingentes da população humilde e analfabeta. Graciliano Ramos escreve sua literatura. sua posição diante da própria criação literária. com um olhar para dentro e outro para fora. transitavam de fazenda em fazenda. o Nordeste serão sempre a matéria-prima da sua obra. 2003. Bernardo o é de Maniçoba. Neles. lembranças a recuperar vivências em passado remoto ou próximo. refletir o real.que vinha se delineando desde os primeiros dias da República e acabou responsável pelos conflitos armados do tenentismo. a socialização do homem em seu contexto histórico-geográfico. retaguarda da revolução de 30. a grande maioria das leituras da obra de Graciliano Ramos procura distanciá-lo dos recursos estilísticos vastamente empregados na literatura . Para o escritor. sua posição diante da própria criação literária. 201). anterior ao rádio e a televisão. No entanto. ou do sítio de seu Paulo Honório conforme diz em Infância. a “percepção que no caso se procura passar é de um Nordeste ainda envolto em atmosfera précapitalista. Vidas secas e Insônia são flashes. por sua vez. p. em um espaço distante das máquinas e do progresso. aos vinte e um anos. p. assim como S. transmitindo de boca em boca a saga de uma região de mistério e encantamento”. (Malard. surpreende ao adentrando por caminhos menos referenciais. refletir o real. Angústia reconstrói fragmentos de Maceió. lembranças a recuperar vivências em passado remoto ou próximo. o Nordeste serão sempre a matéria-prima da sua obra. 2003. 201). a influência e o clima cultural da capital da república de princípios do século XX estão evidenciados. mesmo que tenhamos a presença de listas como a citada acima. menos voltados às contradições históricas do capitalismo num Brasil também ele contraditório. (Malard. a realidade que o cerca. a experiência vivida. 164) Essa mesma obra. p. a realidade que o cerca. a influência e o clima cultural da capital da república de princípios do século XX estão evidenciados. Neles. Vidas secas e Insônia são flashes. a experiência vivida. Para o escritor. 2006. há 13 textos datados de 1915 e escritos para o periódico Paraíba do Sul. As suas histórias se passam em um tempo remoto. Já nas crônicas-artigos de Linhas tortas. Ao afirmar que a poesia / literatura tem de pautar-se pela verossimilhança. 138) Ao afirmar que a poesia / literatura tem de pautar-se pela verossimilhança. Caetés é a reconstrução literária de Palmeira dos Índios. p. aos vinte e um anos. ou do sítio de seu Paulo Honório conforme diz em Infância. com a publicação do romance Caetés. Angústia reconstrói fragmentos de Maceió. (Mourão. (Mourão. Já nas crônicas-artigos de Linhas tortas. Graciliano adiantava. há 13 textos datados de 1915 e escritos para o periódico Paraíba do Sul. com a publicação do romance Caetés. Graciliano adiantava. Bernardo o é de Maniçoba.

” O artigo que se segue é de Nelly Novaes Coelho e aproxima Graciliano Ramos de Sartre quando fala de um mundo conflituoso e das relações humanas que se processam sob o signo da luta. 1992. 1991. condição imprescindível para o escritor que faz parte de uma tradição descentralizada. A nossa fortuna crítica começa justamente com um livro da coleção Fortuna Crítica. foi interpretado por Ricardo Piglia a partir de uma imagem que nos faz lembrar Alexandre: la mirada estrabica. contudo. um relato quase jornalístico. p. ao que ele responde: “Que idéia! Enquanto os rapazes de 22 promoviam seu movimentozinho. o escritor latino-americano (no caso específico. 1997. em pleno sertão alagoano. à sua escrita econômica. que considera Caetés uma crônica. Por isso o escritor “hay que tener un ojo puesto en la inteligencia europea y el otro puesto en las entrañas de la patria”. um fait divers. Angústia.. 61). O artigo seguinte é de Carlos Nelson Coutinho.regionalista de 1930. o capitalismo que não chegou na região da seca. ou seja. 13). No país de Piglia. segue-se o artigo de Wilson Martins. Não será difícil entrosar os seus livros [. O livro chama-se Graciliano Ramos e tem a seleção de texto de Sônia Brayner. que mantém um constante diálogo com a tradição européia sem. foi editado pela editora Civilização Brasileira (1978). distanciar-se daquilo que se denomina “localismo”. p. de trabalhar com a consciência de uma história rasurada. reportagem. argentino) está sempre às voltas com a obrigação de resgatar uma tradição perdida.. S. declaradamente anti-retórica. p. o avanço do capitalismo no campo. que teve a direção de Afrânio Coutinho. enfim. uma tendência psicológica. crônica. O texto seguinte é uma entrevista que Graciliano Ramos concedeu a Homero Sena de onde destacamos uma resposta de Graciliano Ramos sobre se ele se considera um modernista.” (Filho. Na primeira parte aparecem textos de Otto Maria Carpeux que diz que a “mestria singular” de Graciliano Ramos reside no estilo. um escritor que possui esse tipo de olhar é Jorge Luis Borges. achava-me em Palmeira dos índios. empreende a sondagem da alma humana através da auscultação de uma determinada zona geográfica. Na mesma linha. fora dos antigos e grandes centros letrados. partindo do localismo para o universal. as contradições do capitalismo na cidade e com Vidas Secas. Esse distanciamento se deve principalmente ao fato de o autor ser “pouco afeito ao pitoresco e ao descritivo” (Candido. ao seu estilo seco. vendendo chita no balcão. Segundo Piglia. de combate à paisagem. de destaque de estilo.] ao complexo painel que. Bernardo. Esse universalismo retirado do mais tradicional. O artigo final desta primeira parte . No texto seguinte Hélio Pólvora diz-nos que Vidas Secas parece deprimente. Estudos de caráter geral 2.7 “Graciliano Ramos trouxe a ficção nordestina para o círculo exato em que se move o romance moderno. Wilson Martins diz que Graciliano Ramos trata do “homem dentro de si mesmo”. Estudos sobre livros 3. Abordagens específicas. O livro está dividido em três partes 1. (Piglia. 164).

. em estudo de grande análise e aprofundamento crítico das obras e da crítica sobre Graciliano Ramos. em Ramos. que escreve uma crítica direcionada à metalinguagem utilizada por Ramos. pois Verdi (1989). op. Verdi (1989) cita Abdala Júnior. Abdala Júnior (apud VERDI.é de Raul Lima e aponta o memorialismo e a autobiografia em Graciliano Ramos. que faz um estudo relacionando a obra ficcional de Ramos às funções da linguagem de Jakobson. ainda. Cabe importância e interesse especial “a suprema expressividade da linguagem”.114) que constata outros ângulos da questão: A obra do romancista alagoano é uma forma aguda de refletir sobre o mundo através de uma reflexão anterior sobre a própria linguagem da literatura e da sociedade. desvenda uma preocupação da crítica em considerar a linguagem o leitmotiv na obra ficcional deste escritor. Diferente da abordagem de Abdala Júnior é a critica de Cintra (apud VERDI.cit. como a metalinguagem.cit. podendo nos revelar um universo rico em tensões e mensagens.. p.) a linguagem é o leitmotiv na obra ficcional de Graciliano Ramos enquanto objeto de referência constantes nos seus vários romances e em diferentes níveis. Para tanto.. p. porque estabelece uma adequação entre os códigos do escritor e do leitor.. . (. op.113) mostra nos. é Fator de eficácia na comunicação estética. como um de seus procedimentos lingüísticos mais importantes e Cintra.

166). De qualquer modo. que recorre ao seu passado interiorano quando alguma paisagem da urbana Maceió lhe dá margem para isso De um lado. A principal característica do regionalismo tradicional. acostumamo-nos a enxergar no procedimento metalingüístico um componente experimentalista – sobretudo com a ânsia de inventividade do Modernismo – e imaginar que o texto ao voltar-se para si mesmo estaria se fechando para o mundo. no qual o modelo artístico será o Realismo Socialista – com um procedimento muitas vezes associado ao grupo paulista de 1922. Luís da Silva. Lembremos. p. (Bulhões. acostumamo-nos a imaginar na figura biográfica de Graciliano Ramos uma aspereza que parece afastar qualquer experimentalismo. confere à atividade metalingüística o poder de intervenção na relação entre texto e mundo. o conflito do personagem no romance Angústia. para recompor o antigo mundo do campo que se quer contrapor à perda das tradições da vida na cidade. era o “apego nostálgico a um passado rural cuja perda se lamenta e cujos aspectos são descritos minuciosamente. 1999. em diferentes níveis e com várias funcionalidades. a propósito. Todavia. o que torna complicado imaginar a aproximação daquela figura difícil – o Graciliano Ramos militante do PCB. que o processo de discussão acerca da linguagem.”24. . o percurso que percorremos evidencia. segundo Lucia Helena Vianna. a ingenuidade está na identificação necessária entre metalinguagem e experimentalismo estético.A crítica confirma-nos a preocupação de Ramos em buscar uma linguagem que abrangesse várias dimensões ao mesmo tempo e se articulassem em seus vários romances. De outro lado. a nosso ver. cuja conseqüência será a contestação do discurso dominante.

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