Falo somente com o que falo

:
com as mesmas vinte palavras
girando ao redor do sol
que as limpa do que não é faca:
de toda uma crosta viscosa,
resto de janta abaianada,
que fica na lâmina e cega
seu gosto da cicatriz clara.
Falo somente do que falo:
do seco e de suas paisagens,
Nordestes, debaixo de um sol
ali do mais quente vinagre:
que reduz tudo ao espinhaço,
cresta o simplesmente folhagem,
folha prolixa, folharada,
onde possa esconder-se na fraude.
Falo somente por quem falo:
por quem existe nesses climas
condicionados pelo sol,
pelo gavião e outras rapinas:
e onde estão os solos inertes
de tantas condições caatinga
em que só cabe cultivar
o que é sinônimo da míngua.
Falo somente para quem falo:
quem padece sono de morto
e precisa um despertador
acre, como o sol sobre o olho:
que é quando o sol é estridente,
a contrapelo, imperioso,
e bate nas pálpebras como
se bate numa porta a socos.

.

.

são esses dois aspectos que fazem com que uma boa literatura possa ser reconhecida como tal.] O quadro brasileiro denunciado é aquele . de superação dessa realidade desigual e injusta.Além disso. [. Aliás.. de transformação. A riqueza integral da obra de Graciliano Ramos só pode ser entrevista na medida em que verificamos a sua íntima relação com o panorama social da época. é preciso que ela seja instrumento de tomada de consciência..

mesmo que tenhamos a presença de listas como a citada acima. em um espaço distante das máquinas e do progresso.que vinha se delineando desde os primeiros dias da República e acabou responsável pelos conflitos armados do tenentismo. aos vinte e um anos. 2006. refletir o real. há 13 textos datados de 1915 e escritos para o periódico Paraíba do Sul. a experiência vivida. Angústia reconstrói fragmentos de Maceió. Neles. lembranças a recuperar vivências em passado remoto ou próximo. no qual contingentes da população humilde e analfabeta. Caetés é a reconstrução literária de Palmeira dos Índios. p. assim como S. ou do sítio de seu Paulo Honório conforme diz em Infância. com um olhar para dentro e outro para fora. vinte anos depois. Angústia reconstrói fragmentos de Maceió. a experiência vivida. (Malard. 164) Essa mesma obra. a socialização do homem em seu contexto histórico-geográfico. a grande maioria das leituras da obra de Graciliano Ramos procura distanciá-lo dos recursos estilísticos vastamente empregados na literatura . Bernardo o é de Maniçoba. Já nas crônicas-artigos de Linhas tortas. Ao afirmar que a poesia / literatura tem de pautar-se pela verossimilhança. a “percepção que no caso se procura passar é de um Nordeste ainda envolto em atmosfera précapitalista. Bernardo o é de Maniçoba. assim como S. retaguarda da revolução de 30. 138) Ao afirmar que a poesia / literatura tem de pautar-se pela verossimilhança. anterior ao rádio e a televisão. menos voltados às contradições históricas do capitalismo num Brasil também ele contraditório. transitavam de fazenda em fazenda. p. por sua vez. a influência e o clima cultural da capital da república de princípios do século XX estão evidenciados. Já nas crônicas-artigos de Linhas tortas. Graciliano adiantava. a influência e o clima cultural da capital da república de princípios do século XX estão evidenciados. Desse modo. 2003. No entanto. 201). na aceitação complacente do seu próprio destino. As suas histórias se passam em um tempo remoto. Vidas secas e Insônia são flashes. surpreende ao adentrando por caminhos menos referenciais. 201). 2003. Vidas secas e Insônia são flashes. Graciliano Ramos escreve sua literatura. a socialização do homem em seu contexto histórico-geográfico. (Mourão. o Nordeste serão sempre a matéria-prima da sua obra. (Malard. com a publicação do romance Caetés. p. Segundo Rui Mourão. há 13 textos datados de 1915 e escritos para o periódico Paraíba do Sul. Neles. Para o escritor. refletir o real. p. ou do sítio de seu Paulo Honório conforme diz em Infância. o Nordeste serão sempre a matéria-prima da sua obra. Para o escritor. vinte anos depois. a realidade que o cerca. sua posição diante da própria criação literária. aos vinte e um anos. a realidade que o cerca. Graciliano adiantava. Caetés é a reconstrução literária de Palmeira dos Índios. (Mourão. transmitindo de boca em boca a saga de uma região de mistério e encantamento”. 2006. lembranças a recuperar vivências em passado remoto ou próximo. com a publicação do romance Caetés. sua posição diante da própria criação literária.

vendendo chita no balcão. O livro está dividido em três partes 1. O artigo final desta primeira parte . Esse distanciamento se deve principalmente ao fato de o autor ser “pouco afeito ao pitoresco e ao descritivo” (Candido. em pleno sertão alagoano. o avanço do capitalismo no campo. o capitalismo que não chegou na região da seca.7 “Graciliano Ramos trouxe a ficção nordestina para o círculo exato em que se move o romance moderno. de combate à paisagem. 61). Abordagens específicas. Esse universalismo retirado do mais tradicional. argentino) está sempre às voltas com a obrigação de resgatar uma tradição perdida. 1997. condição imprescindível para o escritor que faz parte de uma tradição descentralizada.. O texto seguinte é uma entrevista que Graciliano Ramos concedeu a Homero Sena de onde destacamos uma resposta de Graciliano Ramos sobre se ele se considera um modernista. achava-me em Palmeira dos índios. que considera Caetés uma crônica. Na mesma linha. Na primeira parte aparecem textos de Otto Maria Carpeux que diz que a “mestria singular” de Graciliano Ramos reside no estilo. Estudos de caráter geral 2. um relato quase jornalístico. que teve a direção de Afrânio Coutinho. 1991. O artigo seguinte é de Carlos Nelson Coutinho. crônica. Não será difícil entrosar os seus livros [. 13). (Piglia. Angústia. reportagem. p. enfim. p. ou seja. ao que ele responde: “Que idéia! Enquanto os rapazes de 22 promoviam seu movimentozinho. segue-se o artigo de Wilson Martins. A nossa fortuna crítica começa justamente com um livro da coleção Fortuna Crítica. No texto seguinte Hélio Pólvora diz-nos que Vidas Secas parece deprimente.” O artigo que se segue é de Nelly Novaes Coelho e aproxima Graciliano Ramos de Sartre quando fala de um mundo conflituoso e das relações humanas que se processam sob o signo da luta. partindo do localismo para o universal.” (Filho. declaradamente anti-retórica. Por isso o escritor “hay que tener un ojo puesto en la inteligencia europea y el otro puesto en las entrañas de la patria”. Estudos sobre livros 3. empreende a sondagem da alma humana através da auscultação de uma determinada zona geográfica. o escritor latino-americano (no caso específico. uma tendência psicológica. de destaque de estilo. à sua escrita econômica. fora dos antigos e grandes centros letrados. contudo. O livro chama-se Graciliano Ramos e tem a seleção de texto de Sônia Brayner.] ao complexo painel que. distanciar-se daquilo que se denomina “localismo”. um escritor que possui esse tipo de olhar é Jorge Luis Borges. Bernardo. 1992. as contradições do capitalismo na cidade e com Vidas Secas. Segundo Piglia. No país de Piglia. foi interpretado por Ricardo Piglia a partir de uma imagem que nos faz lembrar Alexandre: la mirada estrabica. S. um fait divers.regionalista de 1930. que mantém um constante diálogo com a tradição européia sem. Wilson Martins diz que Graciliano Ramos trata do “homem dentro de si mesmo”. foi editado pela editora Civilização Brasileira (1978).. 164). p. de trabalhar com a consciência de uma história rasurada. ao seu estilo seco.

que escreve uma crítica direcionada à metalinguagem utilizada por Ramos. ainda. como um de seus procedimentos lingüísticos mais importantes e Cintra. podendo nos revelar um universo rico em tensões e mensagens. p. Cabe importância e interesse especial “a suprema expressividade da linguagem”.. em Ramos. Diferente da abordagem de Abdala Júnior é a critica de Cintra (apud VERDI. . Verdi (1989) cita Abdala Júnior. é Fator de eficácia na comunicação estética. Abdala Júnior (apud VERDI. porque estabelece uma adequação entre os códigos do escritor e do leitor.cit. p. op. que faz um estudo relacionando a obra ficcional de Ramos às funções da linguagem de Jakobson. op.é de Raul Lima e aponta o memorialismo e a autobiografia em Graciliano Ramos.. desvenda uma preocupação da crítica em considerar a linguagem o leitmotiv na obra ficcional deste escritor.cit. (.113) mostra nos.. pois Verdi (1989)..) a linguagem é o leitmotiv na obra ficcional de Graciliano Ramos enquanto objeto de referência constantes nos seus vários romances e em diferentes níveis. Para tanto.114) que constata outros ângulos da questão: A obra do romancista alagoano é uma forma aguda de refletir sobre o mundo através de uma reflexão anterior sobre a própria linguagem da literatura e da sociedade. em estudo de grande análise e aprofundamento crítico das obras e da crítica sobre Graciliano Ramos. como a metalinguagem.

A principal característica do regionalismo tradicional.”24. que recorre ao seu passado interiorano quando alguma paisagem da urbana Maceió lhe dá margem para isso De um lado. . 166). a propósito. a ingenuidade está na identificação necessária entre metalinguagem e experimentalismo estético. Lembremos.A crítica confirma-nos a preocupação de Ramos em buscar uma linguagem que abrangesse várias dimensões ao mesmo tempo e se articulassem em seus vários romances. o percurso que percorremos evidencia. o que torna complicado imaginar a aproximação daquela figura difícil – o Graciliano Ramos militante do PCB. em diferentes níveis e com várias funcionalidades. o conflito do personagem no romance Angústia. (Bulhões. Luís da Silva. era o “apego nostálgico a um passado rural cuja perda se lamenta e cujos aspectos são descritos minuciosamente. no qual o modelo artístico será o Realismo Socialista – com um procedimento muitas vezes associado ao grupo paulista de 1922. acostumamo-nos a imaginar na figura biográfica de Graciliano Ramos uma aspereza que parece afastar qualquer experimentalismo. que o processo de discussão acerca da linguagem. cuja conseqüência será a contestação do discurso dominante. a nosso ver. Todavia. acostumamo-nos a enxergar no procedimento metalingüístico um componente experimentalista – sobretudo com a ânsia de inventividade do Modernismo – e imaginar que o texto ao voltar-se para si mesmo estaria se fechando para o mundo. 1999. p. segundo Lucia Helena Vianna. confere à atividade metalingüística o poder de intervenção na relação entre texto e mundo. De qualquer modo. De outro lado. para recompor o antigo mundo do campo que se quer contrapor à perda das tradições da vida na cidade.