Falo somente com o que falo

:
com as mesmas vinte palavras
girando ao redor do sol
que as limpa do que não é faca:
de toda uma crosta viscosa,
resto de janta abaianada,
que fica na lâmina e cega
seu gosto da cicatriz clara.
Falo somente do que falo:
do seco e de suas paisagens,
Nordestes, debaixo de um sol
ali do mais quente vinagre:
que reduz tudo ao espinhaço,
cresta o simplesmente folhagem,
folha prolixa, folharada,
onde possa esconder-se na fraude.
Falo somente por quem falo:
por quem existe nesses climas
condicionados pelo sol,
pelo gavião e outras rapinas:
e onde estão os solos inertes
de tantas condições caatinga
em que só cabe cultivar
o que é sinônimo da míngua.
Falo somente para quem falo:
quem padece sono de morto
e precisa um despertador
acre, como o sol sobre o olho:
que é quando o sol é estridente,
a contrapelo, imperioso,
e bate nas pálpebras como
se bate numa porta a socos.

.

.

] O quadro brasileiro denunciado é aquele ...Além disso. de transformação. [. são esses dois aspectos que fazem com que uma boa literatura possa ser reconhecida como tal. de superação dessa realidade desigual e injusta. A riqueza integral da obra de Graciliano Ramos só pode ser entrevista na medida em que verificamos a sua íntima relação com o panorama social da época. é preciso que ela seja instrumento de tomada de consciência. Aliás.

com um olhar para dentro e outro para fora. (Malard. transmitindo de boca em boca a saga de uma região de mistério e encantamento”. por sua vez. surpreende ao adentrando por caminhos menos referenciais. (Mourão. 2003. No entanto. no qual contingentes da população humilde e analfabeta. Graciliano Ramos escreve sua literatura. Vidas secas e Insônia são flashes. a socialização do homem em seu contexto histórico-geográfico. Caetés é a reconstrução literária de Palmeira dos Índios. Angústia reconstrói fragmentos de Maceió. ou do sítio de seu Paulo Honório conforme diz em Infância. ou do sítio de seu Paulo Honório conforme diz em Infância.que vinha se delineando desde os primeiros dias da República e acabou responsável pelos conflitos armados do tenentismo. sua posição diante da própria criação literária. Vidas secas e Insônia são flashes. mesmo que tenhamos a presença de listas como a citada acima. sua posição diante da própria criação literária. aos vinte e um anos. (Malard. anterior ao rádio e a televisão. com a publicação do romance Caetés. com a publicação do romance Caetés. menos voltados às contradições históricas do capitalismo num Brasil também ele contraditório. 201). 2006. Segundo Rui Mourão. a experiência vivida. Bernardo o é de Maniçoba. aos vinte e um anos. a experiência vivida. Já nas crônicas-artigos de Linhas tortas. vinte anos depois. Desse modo. retaguarda da revolução de 30. Neles. p. Angústia reconstrói fragmentos de Maceió. o Nordeste serão sempre a matéria-prima da sua obra. assim como S. há 13 textos datados de 1915 e escritos para o periódico Paraíba do Sul. p. Neles. 201). lembranças a recuperar vivências em passado remoto ou próximo. (Mourão. Já nas crônicas-artigos de Linhas tortas. há 13 textos datados de 1915 e escritos para o periódico Paraíba do Sul. 138) Ao afirmar que a poesia / literatura tem de pautar-se pela verossimilhança. a “percepção que no caso se procura passar é de um Nordeste ainda envolto em atmosfera précapitalista. refletir o real. a realidade que o cerca. 164) Essa mesma obra. Graciliano adiantava. Para o escritor. a realidade que o cerca. Graciliano adiantava. a influência e o clima cultural da capital da república de princípios do século XX estão evidenciados. em um espaço distante das máquinas e do progresso. assim como S. Caetés é a reconstrução literária de Palmeira dos Índios. Bernardo o é de Maniçoba. na aceitação complacente do seu próprio destino. p. Ao afirmar que a poesia / literatura tem de pautar-se pela verossimilhança. transitavam de fazenda em fazenda. 2003. lembranças a recuperar vivências em passado remoto ou próximo. a influência e o clima cultural da capital da república de princípios do século XX estão evidenciados. a socialização do homem em seu contexto histórico-geográfico. o Nordeste serão sempre a matéria-prima da sua obra. p. 2006. vinte anos depois. As suas histórias se passam em um tempo remoto. Para o escritor. refletir o real. a grande maioria das leituras da obra de Graciliano Ramos procura distanciá-lo dos recursos estilísticos vastamente empregados na literatura .

p. S. um fait divers. ao que ele responde: “Que idéia! Enquanto os rapazes de 22 promoviam seu movimentozinho. que considera Caetés uma crônica. enfim. declaradamente anti-retórica. p. de destaque de estilo. que teve a direção de Afrânio Coutinho. em pleno sertão alagoano. 1991. Bernardo. Na primeira parte aparecem textos de Otto Maria Carpeux que diz que a “mestria singular” de Graciliano Ramos reside no estilo. Estudos de caráter geral 2.. No país de Piglia. reportagem. distanciar-se daquilo que se denomina “localismo”. à sua escrita econômica. de combate à paisagem. Segundo Piglia. uma tendência psicológica.” O artigo que se segue é de Nelly Novaes Coelho e aproxima Graciliano Ramos de Sartre quando fala de um mundo conflituoso e das relações humanas que se processam sob o signo da luta. Esse distanciamento se deve principalmente ao fato de o autor ser “pouco afeito ao pitoresco e ao descritivo” (Candido. partindo do localismo para o universal. segue-se o artigo de Wilson Martins. as contradições do capitalismo na cidade e com Vidas Secas. vendendo chita no balcão. que mantém um constante diálogo com a tradição européia sem. contudo. 13).7 “Graciliano Ramos trouxe a ficção nordestina para o círculo exato em que se move o romance moderno. O livro chama-se Graciliano Ramos e tem a seleção de texto de Sônia Brayner. Wilson Martins diz que Graciliano Ramos trata do “homem dentro de si mesmo”. condição imprescindível para o escritor que faz parte de uma tradição descentralizada. Não será difícil entrosar os seus livros [. argentino) está sempre às voltas com a obrigação de resgatar uma tradição perdida. crônica. No texto seguinte Hélio Pólvora diz-nos que Vidas Secas parece deprimente. p. 1997. foi editado pela editora Civilização Brasileira (1978). achava-me em Palmeira dos índios. A nossa fortuna crítica começa justamente com um livro da coleção Fortuna Crítica.. Na mesma linha.regionalista de 1930. empreende a sondagem da alma humana através da auscultação de uma determinada zona geográfica. ou seja. 164). um relato quase jornalístico. foi interpretado por Ricardo Piglia a partir de uma imagem que nos faz lembrar Alexandre: la mirada estrabica. Estudos sobre livros 3. Abordagens específicas. O artigo final desta primeira parte . um escritor que possui esse tipo de olhar é Jorge Luis Borges. 1992.] ao complexo painel que. o avanço do capitalismo no campo. o escritor latino-americano (no caso específico. 61).” (Filho. Esse universalismo retirado do mais tradicional. fora dos antigos e grandes centros letrados. Por isso o escritor “hay que tener un ojo puesto en la inteligencia europea y el otro puesto en las entrañas de la patria”. Angústia. ao seu estilo seco. (Piglia. O livro está dividido em três partes 1. o capitalismo que não chegou na região da seca. de trabalhar com a consciência de uma história rasurada. O artigo seguinte é de Carlos Nelson Coutinho. O texto seguinte é uma entrevista que Graciliano Ramos concedeu a Homero Sena de onde destacamos uma resposta de Graciliano Ramos sobre se ele se considera um modernista.

podendo nos revelar um universo rico em tensões e mensagens. (. op. pois Verdi (1989). em estudo de grande análise e aprofundamento crítico das obras e da crítica sobre Graciliano Ramos.cit. op. como a metalinguagem. Cabe importância e interesse especial “a suprema expressividade da linguagem”. Para tanto.é de Raul Lima e aponta o memorialismo e a autobiografia em Graciliano Ramos.113) mostra nos.) a linguagem é o leitmotiv na obra ficcional de Graciliano Ramos enquanto objeto de referência constantes nos seus vários romances e em diferentes níveis. que faz um estudo relacionando a obra ficcional de Ramos às funções da linguagem de Jakobson. p. é Fator de eficácia na comunicação estética.. que escreve uma crítica direcionada à metalinguagem utilizada por Ramos. ainda. . Diferente da abordagem de Abdala Júnior é a critica de Cintra (apud VERDI. desvenda uma preocupação da crítica em considerar a linguagem o leitmotiv na obra ficcional deste escritor. porque estabelece uma adequação entre os códigos do escritor e do leitor.114) que constata outros ângulos da questão: A obra do romancista alagoano é uma forma aguda de refletir sobre o mundo através de uma reflexão anterior sobre a própria linguagem da literatura e da sociedade.cit. Verdi (1989) cita Abdala Júnior.. Abdala Júnior (apud VERDI. p.. como um de seus procedimentos lingüísticos mais importantes e Cintra. em Ramos..

p. . De qualquer modo.A crítica confirma-nos a preocupação de Ramos em buscar uma linguagem que abrangesse várias dimensões ao mesmo tempo e se articulassem em seus vários romances. cuja conseqüência será a contestação do discurso dominante. confere à atividade metalingüística o poder de intervenção na relação entre texto e mundo. o que torna complicado imaginar a aproximação daquela figura difícil – o Graciliano Ramos militante do PCB. (Bulhões. 1999. Lembremos. 166). o conflito do personagem no romance Angústia. acostumamo-nos a imaginar na figura biográfica de Graciliano Ramos uma aspereza que parece afastar qualquer experimentalismo. acostumamo-nos a enxergar no procedimento metalingüístico um componente experimentalista – sobretudo com a ânsia de inventividade do Modernismo – e imaginar que o texto ao voltar-se para si mesmo estaria se fechando para o mundo. em diferentes níveis e com várias funcionalidades. no qual o modelo artístico será o Realismo Socialista – com um procedimento muitas vezes associado ao grupo paulista de 1922.”24. a ingenuidade está na identificação necessária entre metalinguagem e experimentalismo estético. a propósito. que o processo de discussão acerca da linguagem. o percurso que percorremos evidencia. segundo Lucia Helena Vianna. que recorre ao seu passado interiorano quando alguma paisagem da urbana Maceió lhe dá margem para isso De um lado. A principal característica do regionalismo tradicional. Todavia. para recompor o antigo mundo do campo que se quer contrapor à perda das tradições da vida na cidade. De outro lado. a nosso ver. era o “apego nostálgico a um passado rural cuja perda se lamenta e cujos aspectos são descritos minuciosamente. Luís da Silva.

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