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Paciente terá tratamento de transtorno afetivo bipolar.

PODER JUDICIÁRIO DO ESTADO DO RIO GRANDE DO NORTE

JUÍZO DE DIREITO DA 1ª VARA DA FAZENDA PÚBLICA

Proc: 001.10.005403-0

Autor: Pedro Góis de Medeiros

Advogado: Fabrícia C. Gomes Gaudêncio - Defensora Pública

Réu: Estado do Rio Grande do Norte e outro

DECISÃO

Pedro Gois de Medeiros, qualificado na inicial e representado por advogado,


ajuizou AÇÃO ORDINÁRIA com pedido de antecipação dos efeitos da tutela
contra o Estado do Rio Grande do Norte, pleiteando provimento jurisdicional que
lhe assegure o recebimento da medicação consistente em 2 caixas por mês de
Seroquel XRO 200 mg e 3 caixas por mês de Depakote 500 mg, por ser portador de
transtorno afetivo bipolar (CID F31) de difícil controle.

Alegou que necessita da medicação especificada, consoante demonstra as


declarações médicas acostadas à inicial, não possuindo, entretanto, condições
econômicas de arcar com a aquisição dos medicamentos. Informou ainda que os
remédios não são fornecidos pelo SUS.

Sustentou sua postulação no direito constitucional à saúde. Depois da


fundamentação, requereu a antecipação dos efeitos da tutela, nos termos do art. 273
do CPC, tendo em vista a verossimilhança do direito postulado e o perigo da
demora na prestação jurisdicional, de modo que os produtos lhe sejam fornecidos
gratuitamente, sob pena de multa a ser arbitrada.

Antes de apreciar o pedido de antecipação dos efeitos da tutela, este juízo


determinou a intimação da parte ré e do Secretário Estadual de Saúde e do
Procurador Geral para esclarecerem a situação descrita nos autos, tendo em vista a
existência de distribuição regular de medicamentos pelo SUS, na rede de saúde
pública do Município e do Estado.

Embora devidamente intimados, conforme lavra dos Oficiais de Justiça,


permaneceram inertes ao cumprimento da diligência requerida.

É o relatório. Passo a decidir.

A par da declaração da parte autora de que não possui condições financeiras de


arcar com as despesas processuais, sem prejuízo do sustento próprio e da família,
defiro o pedido de justiça gratuita formulado à exordial, nos termos da Lei nº
1.060/50, com suas alterações posteriores.
Do compulsar dos autos, verifica-se que a parte ré, através do Secretário Estadual
de Saúde e do Procurador Geral, não se manifestaram acerca do pedido de
provimento jurisdicional requerido initio litis, não restanto outra alternativa, senão
a análise do pedido antecipatório da tutela.

Sendo assim, no que concerne ao pedido de tutela antecipada, busca-se a concessão


dos medicamentos especificados na exordial, sob o argumento de serem essenciais à
garantia da saúde da autor.

Sobre a tutela antecipada, sabe-se que o instituto se distingue em duas espécies.


Acompanha-se, neste particular, a linha do autorizado ensinamento de Kazuo
Watanabe:

"O art. 273, nos incisos I e II consagra duas espécies de tutela antecipatória: a) a de
urgência (nº I), que exige o requisito do fundado receio de dano irreparável ou de
difícil reparação; b) a de proteção ao autor, que muito provavelmente tem razão e
por isso não deve sofrer as conseqüências da demora do processo, decorrente do
abuso do direito de defesa ou de manifesto propósito protelatório do réu (nº II).
Para ambas as hipóteses, porém, exige o legislador o juízo de verossimilhança
fundado em prova inequívoca". (1)

A hipótese sob exame refere-se à tutela antecipatória de urgência (art. 273, I do


CPC).

No que diz respeito à urgência ou "periculum in mora", afigura-se plausível em face


da concreta situação pela qual passa o autor, uma vez que a demora na utilização
dos medicamentos pode acarretar-lhe graves prejuízos à saúde, causando
dificuldades às suas atividades cotidianas. Se o autor tiver que esperar pelo
julgamento final do processo - o qual, se favorável, se sujeita, em regra, ao duplo
grau de jurisdição, impedindo a eficácia da decisão enquanto não houver o
reexame pelo Tribunal de Justiça, ainda que não haja recurso voluntário - o longo
período já terá lhe trazido graves transtornos.

Quanto à prova inequívoca suficiente para o convencimento da verossimilhança da


alegação, a considerar o momento no qual se faz o exame do processo, deve
corresponder ao conceito de probabilidade, na dicção do Mestre Cândido R.
Dinamarco(2)

Em sendo o direito à saúde um direito amplo e universal, os motivos apresentados


pela demandante revelam-se, numa primeira análise, convincentes, mais do que
simples "fumaça".

A Constituição Federal, em seu art. 196, diz que a saúde é "direito de todos e dever
do Estado", que deverá ser garantido através de políticas públicas que possibilitem
o acesso universal e igualitário às ações e aos serviços. Basta este dispositivo
previsto no texto Constitucional para que se tenha como dever da Administração
garantir o direito de todos à saúde. As normas infraconstitucionais que procuraram
dar efeito integrador ao texto Constitucional, seriam até despiciendas se existisse a
consciência, por parte de todos os responsáveis pelas administrações dos entes
federados, de que a Constituição Federal não é apenas um pedaço de papel como
chegou a dizer Lassale(3). A Constituição, com sua força normativa, constitui força
que deve influir na realidade, merecendo, neste aspecto, ser transcrita a seguinte
lição de Konrad Hesse:

"Embora a Constituição não possa, por si só, realizar nada, ela pode impor tarefas.
A Constituição transforma-se em força ativa se essas tarefas forem efetivamente
realizadas, se existir a disposição de orientar a própria conduta segundo a ordem
nela estabelecida, se, a despeito de todos os questionamentos e reservas
provenientes dos juízos de conveniência, se puder identificar a vontade de
concretizar esta ordem" (4)

O dever da Administração de concretizar o direito à saúde dos cidadãos, imposto


pela Constituição, não pode ser inviabilizado através de entraves burocráticos ou
qualquer outra justificativa, pois o que a Constituição da República impõe é a
obrigatoriedade do Estado de garantir a saúde das pessoas, seja através de uma boa
e eficiente qualidade do serviço de atendimento ou pela aquisição de
medicamentos, quando indispensáveis à efetiva garantia da saúde de qualquer
cidadão, para melhor lhe servir e não para aumentar seus sofrimentos e angústias.

Diante do exposto, defiro a antecipação dos efeitos da tutela requerida quanto ao


pedido formulado na inicial, determinando ao Estado do Rio Grande do Norte que
garanta e viabilize, imediatamente, o fornecimento de 02 caixas por mês do
medicamento SEROQUEL XRO 200 mg e três caixas do remédio DEPAKOTE
500 mg, em igual freqüência, enquanto durar a prescrição médica, ou aqueles que
contiverem o mesmo princípio ativo e que possam ser substituídos, no caso
concreto da paciente, sob avaliação médica, para evitar que se imponha ao Estado
o dever de comprar determinada marca de produto, quando for possível a
substituição por outro, em respeito ao que dispõe a Lei de Licitações Públicas (n°
8.666/93) - que regulamenta o art. 37, XXI da Constituição Federal, dispondo
sobre a forma de aquisição de bens e serviços pela Administração para garantir a
aplicação do princípio constitucional da isonomia e a proposta mais vantajosa para
o ente público contratante - vedando a adoção do critério marca nas compras
efetuadas: "Art. 15. Omissis § 7°. Nas compras deverão ser observadas, ainda: I - a
especificação completa do bem a ser adquirido sem indicação de marca".

Não pode então o Juiz conceder provimento jurisdicional que vincule a


Administração Pública ao fornecimento de uma determinada marca ou laboratório
de fabricação, se existe à disposição do jurisdicionado medicação com o mesmo
perfil de atuação sendo distribuída nas unidades de saúde.

Fica estipulada a multa diária de R$ 500,00 (quinhentos reais), até o limite de R$


10.000,00, a ser aplicada em caso de eventual descumprimento. Para o
cumprimento desta decisão, o Sr. Secretário de Saúde do ente demandado deverá
ser notificado pessoalmente.

Cite-se o demandado para responder à ação no prazo legal, observando-se, quanto


ao mandado, o disposto nos art. 285 e 225, ambos do CPC. Se a defesa contiver
matéria preliminar ou apresentar documentos, intimar a parte autora para se
pronunciar, conforme preceitua o art. 327 do referido Código. Após, dê-se vista ao
Representante do Ministério Público. Conclusos a seguir.

Publique-se e intime-se.

Natal, 26 de março de 2010.

Ibanez Monteiro da Silva

Juiz de Direito em Substituição legal

1 - Tutela antecipatória e tutela específica das obrigações de fazer e não fazer.


Reforma do Código de Processo Civil. São Paulo: Saraiva, 1996. p. 33. coord. Min.
Sálvio de Figueiredo Teixeira. [Voltar]

2 - A reforma do código de processo civil. 3. ed. São Paulo: Malheiros, 1996, p.


145. [Voltar]

3 - Apud GILMAR FERREIRA MENDES. apresentação à monografia A FORÇA


NORMATIVA DA CONSTITUIÇÃO de KONRAD HESSE. Porto Alegre:
Sérgio Antonio Fabris Editor, 1991. p. 05. [Voltar]

4 - Op. cit.; p. 19. [Voltar]