Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG

2º Módulo Regional Nordeste
Aracajú (SE), 04 a 10 de novembro de 2007.
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Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG

ÍNDICE SUMÁRIO

Textos

Página

01

Matriz Pedagógica do I Módulo do Curso de Formação de Educadores
e Educadoras em Concepção e Prática Sindical e em Metodologias

01

02

Herança de diferenciação e futuro de fragmentação
fragmentação
Tânia Bacelar

06

03

Ascensão e Queda do Coronelismo
Voltaire Schilling

31

04

Contexto e Diversidade das agriculturas Familiares no Nordeste semisemiárido
Patrick Caron e Eric Sabourin (organizadores)

40

05

Origem e papel dos sindicatos
Altamiro Borges

49

06

História do movimento sindical – Cartilha da CNTE

55

07

Concepções e correntes sindicais no Brasil
Amarildo Carvalho de Souza e Domingos Corcione

67

08

A historia das nossas raízes: itinerário das lutas dos trabalhadores (as)
rurais no Brasil e o surgimento do sindicalismo rural
Maria do Socorro Silva

83

09

Trajetória política da contag - as primeiras lutas

98

10

Participação das mulheres na luta dos trabalhadores e no movimento
sindical
Maria Valéria Junho Penna

111

11

A mulher e a emergência da
da seca no nordeste do Brasil
Izaura Rufino Fischer e Lígia Albuquerque

119

12

Muito trabalho e nenhum poder marcam as vidas das agricultoras
familiares
Taciana Gouveia

127

13

Margaridas nas ruas: As mulheres trabalhadoras rurais como categoria
política
Maria Dolores de Brito Mota

135

14

Potencial e limite das disputas políticas: pontos para reflexão
Sara Pimenta e Domingos Corcione

146

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Aracajú (SE), 04 a 10 de novembro de 2007.
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Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG

2°MÓDULO DO CURSO DE FORMAÇÃO DE EDUCADORES E EDUCADORAS EM CONCEPÇÃO, PRÁTICA SINDICAL E METODOLOGIA DA FORMAÇÃO.
(REGIÃO NORDESTE
ORDESTE)
Data: 04 a 10 de novembro de 2007
Local: Hotel Beira Mar
Endereço: AV. ROTARY S/N - ATALAIA VELHA, ARACAJU (SE), FONE / FAX: 79 - 21062106-8989

MATRIZ PEDAGÓGICA
Objetivo Geral:

Contribuir com a formação de militantes do MSTTR, de modo que aprimorem sua capacidade multiplicadora e
potencializadora da ação formativa em suas áreas de atuação.

Objetivos Específicos:



Socializar e aprofundar referenciais teóricos, políticos e ideológicos que fundamentam e alimentam os ideais e a luta
sindical e popular.
Re-avaliar e fortalecer a luta sindical, numa visão e ação sindical transformadoras, estimulando processos de mudanças de
atitudes, comportamentos e práticas individuais e coletivas, coerentes com as exigências de implementação do PADRSS.
Favorecer a experimentação, sistematização e apropriação de novas metodologias pedagógicas que realimentem a prática
formativa do movimento sindical.
Contribuir para a constituição de uma rede de formadores/as que assumam e implementem o projeto de formação do
MSTTR.

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Aracajú (SE), 04 a 10 de novembro de 2007.
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convidados Reafirmar os compromissos. quanto os fatos significativos vivenciados individual e coletivamente. geração. CONCEPÇÃO. 04 a 10 de novembro de 2007. e motivação para militância. avaliação. Articular Rede de educadores (as) de com a mística do I Módulo (elementos da natureza) Sergipe e equipe ENFOC Abertura Política do II Curso Coordenação Política da ENFOC. diálogos pedagógicos) Comissões de trabalho: Organização e apoio. Obs: agrupar por gênero. EIXOS PEDAGÓGICOS: PEDAGOGIA PARA UMA NOVA SOCIABILIDADE E MEMÓRIA E IDENTIDADE. Regional da CONTAG. Dia 04 de novembro novembro de 2007 (Domingo) Período Tema e SubSub-temas. MANHÃ Roteiro. a identidade de grupos. favorecendo a percepção de construção histórica tanto das concepções presentes na sociedade. Rede de educadores (as) TARDE Contexto e origem do sindicalismo no Brasil Brasil até o inicio da década de 30 Amarildo Carvalho – assessor Compreender a formação da classe trabalhadora no da CONTAG Brasil. Memória e Identidade – Perfil de militância Estabelecer a partir das identidades individuais. Estado e politicas públicas. mística e animação. sistemas de sociedade. Objetivos Responsáveis Mística de acolhida Avançar no processo de integração do grupo. -4- . ReRe-apropriação do I Módulo Estimular uma releitura do I Módulo e a compreensão da inter-relação entre o I e II módulos (identidade.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG EIXO TEMÁTICO: HISTÓRIA. organização e lutas. acordos. NOITE Sessão de Cinema Exibição do Filme “VIDAS SECAS” 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). princípios e objetivos da ENFOC. raça-etnia. relatoria e sistematização. ESTRUTURA E PRÁTICA SINDICAL. Observação: utilizar a linha do tempo como principal recurso pedagógico. trabalho. tempo de movimento e fatos significativos. comissões de trabalho.

04 a 10 de novembro de 2007. lutas e organização das entidades sindicais do MSTTR) Rede de educadores (as) Dia 06 06 de novembro novembro de 2007 (Terça (Terça Feira) Período MANHÃ E TARDE Tema e SubSub-temas. . políticas. Compreender as relações sociais. temas. econômicas e de lutas no Nordeste.  Concepções e correntes políticas na fundação das FETAGs. Socorro Silva – colaboradora da ENFOC TARDE Formação da estrutura sindical oficial Organizações de de trabalhadores no campo brasileiro (das LIGAS Camponesas à ULTAB) Compreender o papel do Estado na organização sindical e nas relações capital e trabalho. Compreender o processo de organização e as principais bandeiras de luta das organizações nesse período Socorro Silva – colaboradora da ENFOC Memória da constituição e organização do MSTTR no nordeste Preparar as apresentações do Tempo Comunidade (história.  As mudanças na organização e bandeiras de luta das Federações até os dias atuais. organização e lutas das entidades do MSTTR. Objetivos Responsáveis MANHÃ Contexto regional até a década de 30.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Dia 05 de novembro de 2007 (Segunda Feira) Período Tema e SubSub-temas. Objetivos Responsáveis Diálogos pedagógicos Reapropriação dos temas trabalhados nos dias anteriores Equipe ENFOC e Comissão de sistematização Memória da constituição e organização do MSTTR no nordeste (Apresentação das federações e exposição dialogada) Favorecer uma leitura critica da historia.  Principais demandas e bandeiras de luta. explicitando: Socorro Silva – colaboradora da ENFOC  As formas anteriores de organização. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). -5- Comissão de Sistematização uma síntese das fará apresentações.

Moderação de Beto Novaes (luta dos assalariados assalariados na região) região) Comissões e equipe ENFOC TARDE Organização das centrais sindicais no Brasil e o dialogo com a CONTAG Testemunho de Francisco Urbano Filho – exex-presidente da CONTAG e José Carmo – Colaborador da FETASE Favorecer maior compreensão sobre a formação das centrais sindicais no inicio dos anos 80 e a participação da CONTAG nesse processo. raça e etnia.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG No dia 06 (noite). Dia 08 de novembro de 2007 (Quinta Feira) Período Tema e SubSub-temas MANHÃ Livre TARDE Memória da Luta das mulheres trabalhadoras abalhadoras rurais no Nordeste. tr Objetivos Responsáveis Favorecer maior compreensão sobre a trajetória organizativa e de luta das mulheres trabalhadoras rurais nordestinas. Testemunhos:  Rita – CUT/PB  Vanete Almeida – REDELAC Trazer as dimensões de classe. haverá lançamento de filme sobre migração nordestina para o corte da cana em São Paulo – Professor Beto Novaes Dia 07 de novembro de 2007 (Quarta Feira) Período Tema e SubSub-temas Objetivos Responsáveis MANHÃ Diálogos pedagógicos: Leitura critica de duas importantes e estratégicas frentes lutas Memória das lut as dos assalariados e de luta no Nordeste: pela reforma agrária de finais da  Reforma Agrária década de 70 aos anos 80  Organização e Luta dos Assalariados/as. 04 a 10 de novembro de 2007. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). -6-  Raimunda Celestina Mascena – CONTAG de .

Amarildo Carvalho – assessor da CONTAG Refletir sobre princípios e estratégias da PNF do MSTTR. considerando nexos e pontes para as etapas seguintes. . 04 a 10 de novembro de 2007. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). -7- Equipe ENFOC. Estrutura e Prática Sindical Explicitar a importância do PADRSS enquanto referencia de mudanças na organização do MSTTR.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Dia 09 de novembro de 2007 (Sexta Feira) Período Tema e SubSub-temas Diálogos Pedagógicos MANHÃ Objetivos Responsáveis Reapropriação dos temas trabalhados nos dias anteriores Equipe ENFOC e Comissão de Sistematização Manoel José dos Santos Presidente da CONTAG Memória da organização do MSTTR a Favorecer uma leitura critica sobre a trajetória do MSTTR de 1990 aos nossos dias. Construir passos para a realização as atividades inter módulos e GES Equipe Equipe ENFOC Encaminhamentos Reapropriação do Módulo (linha do tempo) Discutir encaminhamentos dos próximos passos. Diálogos Pedagógicos: Pedagógicos: Política Nacional de Formação (PNF) do MSTTR Resgatar o histórico da formação sindical do MSTTR e refletir sobre os princípios políticos do PADRSS enquanto referenciais dessa formação. partir de 1990 TARDE Reflexão sobre a organização e pratica sindical do MSTTR Manoel José dos Santos ontem e hoje Presidente da CONTAG Organização. Visualizar o 2º Módulo na sua totalidade. Avaliação / Encerramento Possibilitar uma reflexão avaliativa do 2º Módulo. Dia 10 de novembro novembro de 2007 (Sábado) Período MANHÃ MANHÃ Tema e SubSub-temas Diálogos Pedagógicos: Tempo Comunidade Objetivos Responsáveis Refletir sobre o tempo comunidade na estratégia da formação. comissões de avaliação e de sistematização.

A heterogeneidade e a complexidade da dinâmica nordestina aparecerão. que durante muitas décadas caracterizou o ambiente econômico nordestino (GTDN. Daí a questão posta no título do artigo: o rumo será o da fragmentação? Caracterização inicial Na região Nordeste (20% do território brasileiro) vivem 29% da população do país. Esforço especial será dedicado à observação das mais importantes articulações econômicas regionais e sub-regionais. O Nordeste e seus subespaços serão percebidos. continua a ser uma das características mais marcantes do Nordeste. Levantamento recente do Instituto de Planejamento Econômico e Social – IPEA mostra que. em suas tendências de ligações com o exterior e com as demais regiões do próprio Brasil. 14% da produção nacional total (medida pelo PIB). com maior clareza. observa-se o Nordeste do Brasil por sua economia. ao total regional. analisando-se ainda sua inserção nos contextos nacional e mundial. 04 a 10 de novembro de 2007. utilizando-se portanto dados globais referentes.características principais. dos 32 milhões de brasileiros indigentes. com 46% da população rural brasileira. Apresenta-se inicialmente sucinta descrição da dinâmica geral das atividades econômicas: a região será abordada em seu conjunto. Finalmente. É um traço antigo que o dinamismo econômico das últimas décadas não conseguiu alterar significativamente. Dos indigentes urbanos do país. especular-se-á sobre a hipótese do aprofundamento das diferenciações e desigualdades internas. A pobreza. 12% da produção industrial e quase 21% da produção agrícola. como se verá a seguir. foi substituído pelo forte dinamismo de numerosas atividades que se desenvolveram recentemente na região. aproximadamente. O lento crescimento econômico. tendências atuais e perspectivas econômicas. então. quando visto no contexto nacional. Cabe destacar que na região residem 23. -8- . assim. quase 46% estão no Nordeste (IPEA .5% da população urbana do Brasil e 46% de sua população rural. Serão analisados ainda os movimentos de mercadorias e de capitais focalizando-se as décadas de 60. Num segundo momento. em 1990. Assim. 70 e 80. enfocando-se suas . diferindo da classificação feita pela Sudene que inclui parte do estado de Minas Gerais (região polarizada de Montes Claros). 1993).Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Herança de diferenciação e futuro de fragmentação Tânia Bacelar de Araújo NESTE ARTIGO. 17. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). porém. o Nordeste tem 63% dos indigentes brasileiros que vivem nas áreas rurais. em sua grande maioria.3 milhões estavam no Nordeste (55% do total nacional) e mais de 10 milhões residiam na zona rural da região. a análise será feita com referência às diferenciações existentes dentro da própria região Nordeste. O Nordeste aqui considerado congrega os estados que vão do Maranhão à Bahia. Originam-se. 1967). Concluir-se-á com uma reflexão sobre as tendências atuais da economia nordestina e os primeiros impactos da opção brasileira por uma inserção passiva no mercado mundial em globalização. destacando-se os novos subespaços dinâmicos e os focos de resistência a mudanças.

No total. Entre 1967 e 1989 a agropecuária reduziu sua contribuição ao PIB regional de 27.6% para 29. Enquanto a indústria comandava o crescimento econômico no Sudeste. nacionais e multinacionais. a indústria passou de 22. passando de US$ 8. Uma das propostas centrais do relatório do GTDN – como ficou conhecido aquele documento – era estimular a industrialização no Nordeste como forma de superar as dificuldades geradas pela velha base agroexportadora nordestina.6 bilhões para US$ 50 bilhões (Araújo. complementados com créditos públicos (do BNDES e BNB. Tais investimentos tiveram importante papel para o posterior dinamismo dos investimentos nas atividades privadas. Vários estudos recentes confirmam esse comportamento. Enquanto isso.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Dinamismo econômico: uma herança recente Apesar de vista como região problema pela maior parte dos brasileiros. De 1960 a 1988 a economia nordestina suplantou a taxa de crescimento média do país em cerca de 10%. -9- . 1992).9% para 58. particularmente) e com recursos próprios de importantes empresas locais. e o setor terciário cresceu de 49. 04 a 10 de novembro de 2007. por investimentos de empresas estatais do porte da Petrobrás (na Bahia e Rio Grande do Norte) e da Vale do Rio Doce (no Maranhão). a economia nordestina apresentou entre 1960 e 1990 um excelente desempenho.1% (Sudene. nas décadas recentes.3% ao ano) mais que o do Japão no mesmo período (5. o Nordeste foi a região que apresentou a mais elevada taxa média de crescimento do PIB no país.1%. Usando dados que comparam o desempenho da economia brasileira no seu total com o de sua parte localizada no Nordeste. 1996). impulsionadas por incentivos fiscais – 34/18-Finor e isenção do imposto sobre a renda.3%.4% para 18. e entre 1965 e 1985 o PIB gerado no Nordeste cresceu (média de 6. tal percentual caiu para 12. constatava ter sido o seu fraco dinamismo nas décadas anteriores a característica mais importante da base produtiva instalada na região. concentrou esforços e recursos federais na realização de estudos e pesquisas sobre a dotação de recursos naturais do Nordeste (em particular de recursos minerais) e na ampliação da oferta de infra-estrutura econômica (sobretudo transportes e energia elétrica). principalmente –. recém-criada. Coordenado por Celso Furtado no final dos anos 50.9% e em 1990. que afetou consideravelmente a produção na zona semi-árida. tanto no setor industrial quanto no terciário. No global. A partir dos anos 60. rompendo a fraca dinâmica preexistente. entre 1960 e 1990.6%. o velho setor primárioexportador implantado no Nordeste dava mostras de sua incapacidade para continuar impulsionando o desenvolvimento econômico regional. ano de seca.5% ao ano). verifica-se nítida melhoria nos indicadores de participação relativa dessa região na economia do país: entre 1960 e 1990 a participação no PIB aumentou de 13. No início dos anos 60 a Sudene. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). o relatório do Grupo de Trabalho para o Desenvolvimento do Nordeste (GTDN) que fundamentou a estratégia inicial de ação da Sudene. as atividades urbanas – e dentro delas.2% para 17. segundo dados da Sudene para o período. as atividades industriais – ganham crescentemente espaço no ambiente econômico do Nordeste e passam a comandar o crescimento da produção na região. o PIB do Nordeste quase sextuplicou. segundo estudo realizado por Maia Gomes (1991).

e nesse novo momento. apresentando taxas de crescimento anual positivas e superiores à média do país. crise que afetou mais fortemente o setor industrial e. especialmente a partir da segunda metade dos anos 80. por exemplo. Ora. como ressaltaram em seus estudos Oliveira (1990) e Guimarães Neto (1989).10 - . Acompanha. implantou moderna agricultura de grãos e importantes pólos de fruticultura. enquanto o Centro-Sul vai bem. 04 a 10 de novembro de 2007. destinando parte importante às exportações. uma das teses centrais do GTDN ficou ultrapassada: não se verifica mais o fato de a economia do Nordeste ir mal. As atividades agropecuárias vêm perdendo peso relativo no PIB do Brasil e também no do Nordeste. E é justamente em função das particularidades das estruturas produtivas de cada região brasileira que o Nordeste foi menos atingido pela crise dos anos 80. Naturalmente. Conforme dados da Sudene (1992). mandioca e sisal. Ao mesmo tempo algumas culturas não-tradicionais na região. Mudanças ocorreram. o que o ajuda a resistir aos efeitos da retração da demanda interna. em 1990) do que no Nordeste (30%). dentro dele. o Nordeste continua sendo relativamente mais importante como região produtora agropecuária (20% do total nacional) do que industrial (12%) ou terciária (15%). Dessa forma. segundo dados da Sudene (1992) para o ano de 1990. tais segmentos não têm grande presença no tecido industrial do Nordeste. Sob tal perspectiva. a indústria recentemente instalada no Nordeste resistiu melhor aos efeitos da desaceleração da economia brasileira. em sua porção oeste. ambos para exportação. No entanto. com as atividades urbanas avançando mais nos dois casos. Embora as taxas se diferenciem. no perfil produtivo da agropecuária nordestina: a partir dos anos 70. às margens do submédio São Francisco e no vale do Açu (RN). O movimento de integração econômica comandado pelo processo de acumulação de capitais do Brasil nas últimas décadas havia atingido o Nordeste e solidarizado sua dinâmica econômica às tendências gerais da economia nacional. apresentaram peso crescente na produção regional: 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). expandia-se a que era ocupada com cana-de-açúcar. mamona. Nordeste: mudanças no perfil produtivo Nas últimas décadas a região promoveu mudança importante na composição de sua produção. as tendências gerais da economia brasileira. quando visto no ambiente econômico nacional. Paralelamente. enquanto se reduzia a área cultivada com algodão. A integração produtiva articulara a dinâmica econômica nas diversas regiões brasileiras. arroz.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Cabe salientar que quando se compara o desempenho das atividades econômicas do Nordeste com a média nacional. Permaneceram diferenciações importantes. a integração econômica não homogeneizou as estruturas produtivas das diferentes regiões do país. também o setor de serviços tem tido desempenho bastante razoável na região. feijão. as tendências são semelhantes. também nesse ponto. . podendo localizadamente melhor enfrentar a crise nacional. verifica-se que a dinâmica regional tendeu a acompanhar as oscilações cíclicas da produção total do país. apesar de suas especificidades locais. laranja e milho. ao especializar-se mais na produção de bens intermediários. a indústria tornou-se relativamente mais importante no total da produção brasileira (34%. os segmentos produtores de bens de capital e bens de consumo duráveis. por seu valor de mercado relativamente alto. Assim.

1992). melancia. ou da soja. Como o movimento de desconcentração busca também utilizar recursos naturais disponíveis nas diversas regiões do país. e a Companhia Vale do Rio Doce implementou o complexo de Carajás. passando de 13% do total nacional em 1970 para 17% em 1985 (superior à sua participação no PIB brasileiro). enviadas in natura para o mercado consumidor externo. que inclui investimentos da administração pública e das empresas do governo. como anteriormente ressaltado. na Bahia. 1990. Oliveira. Esse movimento atinge também o Nordeste (Guimarães Neto. no Maranhão. processada por agroindústrias instaladas na região. 1993).5% em 1989 (Congresso Nacional. demonstra tal perfil: foram os segmentos produtores de insumos que receberam a maior parte dos recursos provenientes do sistema 34/18-Finor. realizou importante programa de investimentos públicos e com ele sustentou a dinâmica da economia nacional num contexto internacional de crise. 04 a 10 de novembro de 2007. quando o Estado brasileiro. e do complexo minero-metalúrgico. café e soja (em áreas favoráveis do São Francisco. contabilizada pelo IBGE/FGV. respectivamente). 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). na Bahia.11 - . o Nordeste engata na dinâmica nacional. que serão analisados com detalhes adiante. com parte do projeto localizado no Maranhão. Nessa fase. com destaque para a instalação do pólo petroquímico de Camaçari. No total da formação bruta de capital fixo. De tradicional região produtora de bens de consumo não-duráveis (têxtil e alimentar. Nesse contexto.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG é o caso de frutas como melão. inclusive da atividade industrial. Tais produtos representavam. A nova base agrícola da região também tem a vocação para ofertar produtos cujo beneficiamento se dará fora do Nordeste ou até do país. dentre outros. salvo em casos como o das frutas tropicais. Nos anos 70. 1981). 1990. do Agreste e do Cerrado. quando se examinarem os focos de modernidade surgidos na região nas últimas décadas. principalmente). Merecem também referência os investimentos do sistema Eletrobrás. o Nordeste também se incluiu nessa tendência quando a Petrobrás comandou. Fundaj. uva (nas áreas irrigadas pelo São Francisco e Açu). Por outro lado. crescendo para 13. a implantação do pólo petroquímico de Camaçari. manga. financiada pelos incentivos da Sudene. nos anos em que a economia brasileira consolida o mercado interno nacional e promove sua integração produtiva. . da uva. verifica-se a posição do Nordeste como região recebedora de recursos. transformada em vinho também no Nordeste. apenas 3% do valor da produção agrícola do Nordeste. coube ao Nordeste assumir novo papel no contexto da divisão inter-regional do trabalho do país. a partir da estratégia definida no II Plano Nacional de Desenvolvimento (II PND). além do pólo de fertilizantes de Sergipe. em 1970. vai se transformando nos anos pós-60 em região industrial mais especializada em bens intermediários (Araújo. do complexo da Salgema em Alagoas. o perfil industrial do Nordeste mudou significativamente com a perda da posição relativa da indústria de bens não-duráveis de consumo e com o crescimento relativo do segmento voltado à produção de bens-intermediários. o Nordeste comparece abrigando alguns pólos importantes de desenvolvimento agroindustrial e industrial. capitais privados buscam novas frentes de investimento em espaços localizados para além do centro mais industrializado do país – o Sudeste. No caso da indústria. da produção de alumínio no Maranhão. A indústria. Verifica-se a desconcentração da atividade produtiva. abacaxi (em manchas favoráveis do sertão e agreste) além de tomate.

as atividades financeiras.5 bilhão). mas por aumentar sua já predominante importância no total vendido pela região no mercado internacional: em 1975. houve excepcional crescimento no Nordeste nas décadas recentes. bens imóveis e serviços às empresas. A heterogeneidade econômica intraintra-regional Deve-se ressaltar que nunca houve um Nordeste economicamente homogêneo e que. Como se observa do exposto. atividades como bens imóveis e serviços às empresas. o Nordeste tendeu a reproduzir tal padrão. expandiram-se na proporção de 10% ao ano. É evidente que o Estado patrocinou fortemente o crescimento econômico nas diversas regiões brasileiras. . serviços comunitários sociais e pessoais.5 bilhão. que passou de US$ 1. porém. certas especificidades importantes. No Nordeste também se observou a mesma tendência. No Nordeste. triplicando seu valor exportado (de US$ 525 milhões para US$ 1. a tendência à perda de importância dos produtos básicos e ao maior crescimento dos bens manufaturados no valor exportado também se verificou nesse período. 04 a 10 de novembro de 2007. Entre 1975 e 1990 o Brasil expandiu suas exportações. o investimento público foi fundamental.6% ao ano. nos anos 80. maior peso na formação bruta de capital fixo total do que na média nacional. Segundo dados da Sudene (1992). Enquanto a economia brasileira desacelerava. Aliás. em 1990. a atividade de intermediação financeira crescia. no geral. No Nordeste. as atividades econômicas do Nordeste tendem. sua economia gerava um terço das exportações nordestinas. o Estado se fazia presente com grande intensidade na promoção do crescimento da economia nordestina. duplicando seu valor exportado. Uma das características importantes da economia do Nordeste é o relevante papel desempenhado nos anos recentes pelo setor público. o estado da Bahia merece referência especial não só por ter acompanhado o padrão nacional. foi o setor público quem puxou o crescimento das atividades econômicas que mais se expandiram na região nos anos 70 e 80. até mais que no Brasil. produção de energia elétrica e abastecimento de água. pode-se afirmar que sua presença foi fator fundamental para explicar a intensidade e os rumos do crescimento econômico ocorrido nas últimas décadas.1 bilhões. destacaram-se como atividades muito dinâmicas e. criando infra-estrutura econômica e social.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Finalmente.6 bilhões de vendas anuais para US$ 31. no Nordeste. Enquanto nos anos 70 e 80 a economia da região cresceu em média 7. para US$ 3 bilhões. Dentro dele. Guardam. a acompanhar bem de perto as principais tendências da economia brasileira. era possível destacar subconjuntos sócio-econômicos diferenciados. no entanto. algumas das quais aparecerão com destaque em outros tópicos deste trabalho. incentivando. em 1975. No que se refere às atividades de intermediação financeira. atividades financeiras.12 - . na maioria delas. mais que as quadruplicando: passam de US$ 7. o setor público tem. em 1990 respondia pela metade do valor exportado pela região. historicamente. em virtude de variados processos de ocupação humana e econômica : 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Investindo. como contabiliza a Sudene (1992). Direta ou indiretamente. quando a crise se aprofundou excluindo de seus efeitos negativos as atividades de intermediação financeira e os segmentos voltados para a exportação. O Nordeste também produziu mais para o exterior. produzindo.

que convivem atualmente com as tradicionais áreas agrícolas ou agropastoris da região. o pólo têxtil e de confecções de Fortaleza. a crescente heterogeneidade de suas estruturas econômicas. onde o complexo gado-algodão-agricultura de alimentos conformava uma oligarquia sertaneja que se expandia na acumulação comercial e não existia o complexo canavieiro. Nesse sentido. Nordeste sempre ávido por verbas públicas. onde desde cedo se desenvolveu uma burguesia banqueira. Áreas dinâmicas de modernização intensa Como vem se tentando demonstrar ao longo deste texto. Tais estruturas são tratadas na literatura especializada ora como frentes de expansão. mas não apreendem os fatos novos dos anos mais recentes. focos de dinamismo em grande parte responsáveis pelo desempenho relativamente positivo apresentado pelas atividades econômicas na região. é mister ressaltar os novos focos de dinamismo da economia regional. e mesmo demográfico. Revelam parte da verdade sobre a realidade econômica e social nordestina. No campo. 1978) e até o final dos anos 50 visto como área aberta à expansão da fronteira agrícola regional (GTDN. • o Nordeste de Sergipe e Bahia. Nas últimas décadas mudanças importantes remodelaram a realidade econômica nordestina. Embora traços gerais possam ser identificados. ora como manchas ou focos de dinamismo e até como enclaves.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG • o Nordeste que se estendia do Rio Grande do Norte até Alagoas. 04 a 10 de novembro de 2007. Uma análise que perceba as diferentes trajetórias econômicas dos diversos subespaços nordestinos.. onde a economia açucareira e a pecuária gestavam poderosas oligarquias e incipiente burguesia industrial. era chamado por alguns estudiosos de meioNorte (Melo.. Essas são apenas visões parciais sobre a região nos dias presentes. quando não comandadas pelo Estado brasileiro. era comandado por Salvador. até décadas recentes. verdadeiro poço sem fundo em que as tradicionais políticas compensatórias de caráter assistencialista só contribuem para consolidar velhas estruturas sócio-econômicas e políticas perpetuadoras da miséria.13 - . no que se refere a atividades industriais. cidade portuária e mercantil. a percepção da realidade econômica nordestina exige análise mais detalhada. o complexo minerometalúrgico de Carajás. 1967). o cacau e as zonas de combinações agrícolas sertanejas eram predominantes. importantes movimentos da economia brasileira tiveram fortes repercussões na região Nordeste nos anos recentes. a cana. ora como pólos dinâmicos. questionando inclusive visões tradicionalmente consagradas sobre a região. • dele já se distinguia o Ceará. mais conhecido como espaço de transição entre o Nordeste seco e a região amazônica. cabe destaque para o complexo petroquímico de Camaçari. O oeste baiano era um vazio econômico. caracterizado pela Fundação IBGE durante certo tempo como integrante da região Leste. Nordeste região problema. como já o fizemos. Nordeste da seca e da miséria. Não refletem a atual e crescente complexidade da realidade econômica regional e não permitem desvendar uma das mais marcantes características do Nordeste atual: a grande diversidade. . Tendências da acumulação privada reforçadas pela ação estatal. • o Nordeste do Piauí e Maranhão. fizeram surgir e se desenvolver no Nordeste diversos subespaços dotados de estruturas econômicas modernas e ativas. além do pólo agroindustrial de Petrolina-Juazeiro (com base na agricultura irrigada do submédio São 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). É o que se tentará fazer no próximo tópico do trabalho. Dentre eles.

enquanto os ligados à confecção passavam de 152 para 850. Entre 1970 e 1985 o número de estabelecimentos têxteis do Ceará cresceu de 155 para 358. mais recentemente.5 bilhões e. O encadeamento do pólo cearense com a base agrícola da região é reduzido. o pólo cearense reunia cerca de três mil empresas. merecem referência ainda os tecnopólos de Campina Grande (PB) e do Recife (PE). O parque têxtil e de confecções de Fortaleza é competitivo nacionalmente e. concorreu para alterar estruturalmente a economia baiana (aumentando o peso do setor secundário de 12%. há espaços para um reforço do setor de tecelagem (60% dos tecidos são adquiridos fora do estado). Pesquisa recente realizada pelos professores Policarpo Lima e Frederico Katz. sendo de 32. 1993). Menos por seu dinamismo e mais pelo fato de desenvolverem modernas atividades de base tecnológica. caracterizando-as e analisando seus novos impactos e suas perspectivas de expansão (Lima & Katz.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Francisco). nos efeitos para a frente conta-se com a perspectiva da instalação de pequenas e médias malharias que se beneficiariam das fiações já existentes. tentou melhor identificar essas áreas. 1993).8% o seu peso na receita do ICMS gerado pela indústria de transformação. da UFPE. contando com fontes de financiamento diversas. 1993). o sul dos estados do Maranhão e do Piauí). O pólo petroquímico de Camaçari. 04 a 10 de novembro de 2007. A abertura comercial pode ter implicações negativas sobre a tecelagem e as confecções. contribuindo também para a elevação das exportações do estado. Além disso. tanto em âmbito regional como nacional. e dos diversos pólos turísticos implantados nas principais cidades litorâneas do Nordeste.6% da receita tributária do estado da Bahia. gerava 60 mil empregos diretos e era responsável por 12% do ICMS do Ceará (Lima & Katz. Implementado ao longo dos anos 70. vale registrar que em 1990 o pólo petroquímico de Camaçari contribuiu com 13. como descrevem Lima e Katz (1993). chegará a US$ 6 bilhões.14 - . bem como para o crescimento de unidades fornecedoras de aviamentos e linhas (cerca de 80% destes são comprados fora) (Lima & Katz. . constitui um dos principais pilares da crescente importância da produção de bens intermediários no Nordeste. no caso da fiação. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). dado que nesses segmentos existe uma defasagem tecnológica a ser superada. para quase 30% do PIB estadual em 1990). importou em investimento total de cerca de US$ 4. No que se refere ao segmento das confecções. desponta como um dos importantes centros do setor. O pólo têxtil e de confecções de Fortaleza. Contudo. segundo o Sindicato da Indústria de Confecções do Ceará. devido à drástica diminuição na produção de algodão no Nordeste. das áreas de moderna agricultura de grãos (que se estendem dos cerrados baianos atingindo. do moderno pólo de fruticultura do Rio Grande do Norte (com base na agricultura irrigada do Vale do Açu). Embora as repercussões esperadas fossem maiores. com o programa de ampliação previsto. Quanto aos seus impactos. o que já vem sendo estimulado por empresários ligados ao setor. internacionalmente. Esse complexo industrial foi viabilizado com a participação de capitais privados nacionais e multinacionais e com o suporte estatal (Petrobrás). por sua vez. em virtude de sua atualização tecnológica. em 1960. Em 1991. o pólo de Camaçari representa hoje uma possível base para a esperada verticalização da matriz industrial da petroquímica regional.

tendo ainda articulações a montante via absorção de bauxita do rio Trombetas. externo inclusive.100 empregos diretos. na economia de São Luiz. As áreas de moderna agricultura de grãos se estendem dos cerrados do oeste baiano ao sul do Maranhão e do Piauí.15 - . O projeto da Alumar também tem grande peso atualmente na indústria maranhense. gerando na fase atual um milhão de toneladas de alumina e 350 mil de alumínio. . pelo menos para os padrões locais. 1993). Tiveram importante papel 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). de soda cáustica de Alagoas. 1990). e mais três mil no reflorestamento. tendo o produto da indústria ampliado sua participação no total estadual de 14. Além disso. impactos importantes já se notavam nos anos 80: o PIB total do estado aumentou de US$ 2 bilhões em 1980 para US$ 3 bilhões em 1987.220 os indiretos. a Alumar é responsável por significativo fluxo mensal de rendimentos. a Companhia Vale do Rio Doce (CVRD) desempenhou um dos papéis principais. O complexo agroindustrial de Petrolina-Juazeiro surgiu nos anos 70. após avanços tecnológicos que viabilizaram o cultivo do produto nos cerrados.8%. Nessa época. Constatou-se o cultivo cada vez maior de produtos de elevado valor comercial. embalagens. o setor industrial gerava cerca de 24 mil empregos (Galvão. da energia elétrica de Tucuruí. materiais de construção. já que são exportados 95% do produto (Lima & Katz. mesmo. A expansão da economia do oeste da Bahia está associada à introdução e à rápida expansão da soja. Cortando regiões anteriormente isoladas. As articulações pelo uso do alumínio são reduzidas. implantada na área por agricultores do Sul do país. Em função desses investimentos. além dos serviços de manutenção refletidos nos empregos indiretos. estimando-se em 1. uma vez que montou a maior parte da infra-estrutura de captação e distribuição de água. a Estrada de Ferro Carajás ajudou a dinamizar a instalação de usinas de ferrogusa e de ferroliga ao longo de sua extensão. gerando diretamente 800 empregos. onde a produção de soja se expande. Também neste caso. com base na implantação de grandes projetos de irrigação. que resultou em projeto de investimento da ordem de US$ 2 bilhões para a produção de três milhões de toneladas/ano de alumina e 500 mil de alumínio. quanto ao processamento local em plantas industriais. De forma semelhante ao caso da CVRD. implantando a infra-estrutura para exploração-exportação de minério de ferro. equipamentos para irrigação. 04 a 10 de novembro de 2007. 1993).200 empregos indiretos (Lima & Katz. fertilizantes e rações (Lima & Katz.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG O complexo minero-metalúrgico do Maranhão está associado aos desdobramentos do Programa Grande Carajás (PGC) e ao interesse do capital multinacional em diversificar suas fontes de abastecimento de matérias-primas. Ao mesmo tempo deu-se a implantação de grandes projetos de médias empresas nacionais e. além de cerca de 3. O projeto criou 4. que tem a CVRD como sócio. 1993). a Estrada de Ferro Carajás (EFC) integrou-as ao circuito da produção mercantil e contribuiu para dinamizar o pólo agrícola do sul do Maranhão. a presença do Estado foi fundamental. Para a montagem desse pólo.3% para 21. bens de capital. instalaram-se na área diversas plantas industriais de ramos variados: processamento de alimentos. produção estimada em 420 mil toneladas/ano. Trata-se de uma associação de várias empresas. em Imperatriz. de cal do Ceará. Enquanto eram incorporados à agricultura cerca de 56 mil hectares. internacionais. O projeto Celmar.2 bilhão. com investimentos de US$ 1. destina-se a produzir celulose. destinados tanto à venda in natura para o mercados de maior poder aquisitivo.

impulsionadas pelo Proálcool. No início da atual década (safra de 1991/92) foram produzidas 800 mil toneladas de grãos no oeste da Bahia. Nos anos 90. milho. em outras áreas a resistência à mudança permanece sendo a marca principal do ambiente socio-econômico: as zonas cacaueiras. as políticas associadas ao Plano Real) contribuiu para tornar ainda mais difícil e frágil a sobrevivência do imenso contingente populacional que habita os espaços dominados pelo complexo pecuária-agricultura de sequeiro. arroz e feijão. canavieiras e o sertão semi-árido são as principais e históricas áreas com tal característica. Começam a se desenvolver também atividades de produção de insumos (fertilizantes. mais do que na elevação dos padrões de produtividade.16 - . enquanto crescia também a produção de arroz. feijão e mandioca). . o algodão era a principal (embora reduzida) fonte de renda dos pequenos produtores e trabalhadores rurais desses espaços nordestinos. 04 a 10 de novembro de 2007. O pólo de fruticultura do Vale Açu (RN) cresceu comandado por grandes empresas (com destaque para a Maísa). Uma nova vaga de centralização de capitais promete deixar vivas apenas as menos resistentes à mudança. no padrão tecnológico e empresarial da indústria têxtil modernizada na região e. Áreas tradicionais Ao mesmo tempo em que diversos subespaços do Nordeste desenvolvem atividades modernas. Essas áreas não conhecem crise ou recessão. o que ajuda a manter um padrão dominantemente tradicional. a crise do algodão (com a presença do bicudo e as alterações na demanda. que se especializam na exportação. suinocultura. Para o processamento da significativa produção de soja. As zonas canavieiras expandiram-se muito nos anos 70. 1990) e os investimentos públicos em infraestrutura. Entre 1980/81 e 1985/86. produziu-se no Piauí e em Tocantins cerca de um milhão de toneladas). Na ausência do produto. A produção também se estende para o sul do Maranhão. Pelo exposto. especialmente soja (460 mil toneladas). Quando ocorre. implanta-se na região todo um conjunto de atividades e práticas ligadas à agricultura moderna. frigorificação de carnes. mais recentemente. seletiva.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG os subsídios governamentais (Galvão. pode-se inferir que as mencionadas áreas são pontos de intenso dinamismo econômico implantados no território nordestino. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). diversas usinas são paralisadas. a modernização é restrita. As potencialidades agrícolas e minerais reveladas na região com grande evidência. Com a soja. calcário) e de equipamentos próprios para a agricultura. constituem um Nordeste que não existia há poucas décadas. esses pequenos produtores são obrigados a levar ao mercado o reduzido excedente da agricultura alimentar tradicional de sequeiro (milho. a área plantada com soja expandiu-se 143 vezes e a produção em 848 vezes. Mas o crescimento se fez com base na incorporação de terras (a área cultivada rapidamente duplica). Nelas despontam atividades como avicultura. No caso do semi-árido. com a crise financeira do Estado (velho protetor da ineficiência) e a intensificação da concorrência. foram instaladas no município de Barreiras duas plantas industriais. No arranjo organizacional local. uma vez que a pecuária sempre foi atividade privativa dos grandes proprietários locais. Nos anos mais recentes a produção de grãos vem crescendo bastante (em 1992.

continuavam a beneficiar-se dessa opção conservadora. Como a estratégia brasileira das últimas décadas foi concentrar a expansão da agropecuária em áreas novas (especialmente no Centro-Oeste). após tantos anos de dinamismo econômico. Na região cacaueira. e as que aconteceram. em áreas da antiga fronteira agrícola da região.17 - . A questão fundiária é mais dramática e vem se agravando. os velhos sustentam os jovens nessa parte do Nordeste. portanto. 1989). cabe destacar que são áreas de ocupação antiga. Em algumas sub-regiões (como no sertão pernambucano) a maconha tem avançado bastante. Nesse quadro. Primeiro. são incapazes de dispor de reservas para enfrentar um ano seco. mas permanente) a muitas famílias sertanejas. inclusive da estrutura fundiária. tiveram impactos negativos. No semi-árido. que sempre foi a principal da unidade produtiva típica do sertão e do agreste nordestino. De positivo. a modernização foi conservadora. "o capim expulsa a policultura alimentar e o gado tange o homem". 04 a 10 de novembro de 2007. cita-se a extensão da ação previdenciária. aprofundando a crise na subregião. Simultaneamente. o processo de concentração fundiária tem aumentado nos anos recentes. há importantes traços comuns. os pequenos produtores. apesar da miséria alarmante que domina nas áreas rurais do 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). em geral. Na Zona da Mata. cobrindo parte da população idosa e assegurando renda (mínima. A base técnica modernizou-se. Mesmo onde a irrigação introduziu uma agricultura moderna no semi-árido. como a redução da produção de alimentos e a intensificação da emigração rural. proprietárias das áreas de antiga ocupação e sempre bem situadas nas estruturas de poder. a questão fundiária agravou-se (Graziano da Silva. mas não conseguem acumular: descapitalizados ao final de cada ciclo produtivo. gerando renda ilegal mas capaz de compensar o desaparecimento da renda do algodão.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Não é sem razão que nos momentos de irregularidade de chuvas ocorridos nos anos recentes. não houve mudanças significativas. como bem explica Andrade (1988). e o monopólio da cana sobre as áreas cultiváveis se amplia. também verifica-se o agravamento da já elevada concentração das terras em mãos de pouquíssimos produtores: "na seca. Crise ainda sem solução nos anos 90. A hegemonia crescente da pecuária nos moldes em que foi realizada agravou a questão fundiária do Nordeste. . pequenos proprietários inviabilizados vendem suas terras a baixos preços e os latifúndios crescem". apresentada ao país como desnecessária em muitos fóruns (inclusive nos acadêmicos) com base no sucesso da ocupação de novas terras. por exemplo. nos anos de chuva regular. Nos anos 60 e seguintes a proposta da reforma agrária foi abandonada na prática pelos sucessivos governos militares e civis. a resistência à mudança convive na fase mais recente com importante queda nos preços internacionais do cacau. rendeiros e parceiros produzem. nas quais as velhas estruturas foram criando sucessivos mecanismos de preservação. As oligarquias nordestinas. as tradicionais frentes de emergência (como são chamados os programas assistenciais do governo) alistam enorme número de agricultores (2. os incentivos à pecuária fortaleceram e modernizaram tal atividade. além de provocar outros consideráveis efeitos. Na lúcida afirmação do geógrafo Mário Lacerda de Melo (1980). no Nordeste também se assistiu a um grande dinamismo agropecuário e agroindustrial no oeste baiano e no sul do Maranhão e do Piauí. a questão fundiária permanece praticamente intocada. portanto. como o desaparecimento da cultura do algodão. com freqüência. Hoje. Nas áreas em que predominam a rigidez das velhas estruturas econômico-sociais e o domínio político das oligarquias tradicionais da região. das secas.1 milhões de pessoas em 1993). E. Nessas áreas.

da qual adquire 66% das matérias-primas e 58% dos serviços que consome. a situação é agravada pela presença de latifúndios maiores: lá a área média de 1% dos maiores estabelecimentos (1. 04 a 10 de novembro de 2007. mantém estreitas articulações econômicas com outras regiões brasileiras. em 1985. passando de 27% em 1970 para 32% em 1985. sendo a diferença relativa maior no Nordeste. Ligações econômicas do novo parque industrial O novo parque industrial. Os dados confirmam que a concentração fundiária aumentou no Nordeste nas últimas décadas. como já mencionado. caracterizando maior instabilidade e registrandose maior presença de posseiros em comparação com as demais regiões nordestinas (Graziano da Silva. Na zona semi-árida. no sentido de elevar a desigualdade da distribuição.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Nordeste. de acordo com os censos agropecuários realizados pela Fundação IBGE. dois terços dos indigentes rurais do país estão no Nordeste. essa participação caiu para 28%. Esse fato reforça a hipótese de que as formas peculiares de exploração da terra no Nordeste lhe conferem uma estrutura de posse da terra diferenciada da existente na média do Brasil.914 hectares. em 1985) é superior ao tamanho médio desses no resto do Nordeste (1. suas sub-regiões (prioritariamente as que experimentaram maior dinamismo nas últimas décadas). 40% vêm do Sudeste (90% desses de São Paulo). 1989). muitas vezes registradas como imóveis distintos para evitar seu enquadramento como latifúndio por dimensão" (Graziano da Silva. aqueles com mais de mil hectares (0. Estudo da Universidade Estadual de Campinas – Unicamp destaca. um caso ilustrativo é o de grandes fazendas que reúnem áreas de posse e áreas de diferentes escrituras. Dos serviços que usa. as velhas estruturas sócioeconômicas e políticas têm na base fundiária e no controle do acesso à água seus principais pilares de sustentação e de dominação (política e econômica).002 hectares). No semi-árido o acesso à terra é feito por formas precárias (parceria. onde se reproduz a estrutura desigual do resto do Nordeste. 17% são produzidas no Sudeste (dois terços em São 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). a área total ampliou-se de 74 milhões de hectares para 92 milhões de hectares. A recente especialização nos bens intermediários reforça essa ligação.18 - . Em 1970 os estabelecimentos com menos de 100 hectares (94% do total) ocupavam quase 30% da área. tanto no Nordeste como no Brasil. outras macrorregiões brasileiras e o resto do mundo. Segundo o Mapa da Fome feito recentemente pelo IPEA. Do ponto de vista da origem dos insumos que transforma no processo produtivo e dos serviços que utiliza. para o mesmo período. das matérias-primas que processa. que "a desigualdade da posse da terra é maior que a da propriedade. instalado a partir dos anos 60 com o apoio dos incentivos federais. Mas o novo parque industrial desenvolveu também importante fluxo de aquisição de serviços e insumos com o Sudeste (em especial com São Paulo). Novas articulações econômicas do Nordeste Busca-se examinar neste tópico as articulações econômicas estabelecidas entre Nordeste. Nesse contexto. Ao mesmo tempo. Nesse período. . há forte relação com a base econômica nordestina. por exemplo). Nesses espaços resistentes a mudanças. 1989). mais particularmente com o Sudeste.4% do total) aumentaram sua participação na área total.

a construção de um porto (Ponta da Madeira. Outro exemplo dessa articulação especial com o exterior é o projeto da Alumar. Tal característica é ainda mais forte no segmento extrativo mineral. 1992). segundo pesquisa da Sudene-BNB. a relação é predominantemente extra-regional. 1992). planejado para produzir anualmente 3 milhões de toneladas de alumina e 500 mil de alumínio. . Apenas 10% dos equipamentos foram adquiridos das indústrias instaladas no próprio Nordeste (Sudene-BNB. Articulações dos modernos pólos agroindustriais Os novos pólos agrícolas também têm estabelecido importantes relações econômicas extra-regionais. em particular com o mercado internacional. Do exterior vêm apenas 10% dos insumos que aqui são transformados pela indústria (Sudene-BNB. O mercado extra-regional também tendeu a ser o destino da produção de alguns segmentos da indústria de transformação. O destino principal é o Sudeste. 1993). além da implantação da estratégica ferrovia de quase 900 km de extensão. no Maranhão. que compra 44% da produção da indústria incentivada (71% dos quais adquiridos por São Paulo). A sub-região nordestina que vai do oeste baiano ao sul do Piauí e Maranhão tem experimentado um processo de ocupação comandado por agentes econômicos extra- 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). 1992. Não é por acaso que o Projeto Grande Carajás incluiu. e agora do sul do Maranhão e do Piauí. especialmente de São Paulo (80%). e do exterior (33%). onde se localiza a maior base industrial do país (o Sudeste). produzia 1. com destaque para a região Sudeste e. na região de São Luís do Maranhão). material elétrico-eletrônico e de comunicações (79%) e química (61%). até 1995. em grande parte. Por outro lado. Portanto. que destina ao mercado nordestino apenas 20% de sua produção. a prioridade à exportação é marca dos empreendimentos localmente instalados. São Paulo.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Paulo). os equipamentos utilizados na montagem desse novo parque industrial foram importados do Sudeste (49%). No que se refere ao mercado de produtos. que comprou 53% da produção mineral da indústria instalada com os incentivos federais nas últimas décadas. de cuja produção atual exporta cerca de 95% (Lima & Katz. destina-se em grande parte a atender à demanda externa. A soja do oeste baiano. há novos fluxos comerciais (de mercadorias e serviços) que se intensificaram nas últimas décadas e que articulam a indústria incentivada instalada no Nordeste com outros segmentos da economia brasileira e com o exterior. por exemplo. O mercado internacional participa com apenas 10% das vendas totais desse segmento da economia nordestina. A predominância da produção de bens intermediários está na base dessa vocação para fora da nova indústria: os insumos que produz são transformados. mais uma vez exportando o excedente predominantemente para a região Sudeste do Brasil. Estima-se que apenas o oeste baiano. caso de fumo (99%). 04 a 10 de novembro de 2007. devendo destinar um milhão de toneladas de derivados ao mercado internacional (Queiroz. No complexo minero-metalúrgico do Maranhão. borracha (88%).19 - . pouco mais de um terço se destina à própria região Nordeste (36%). couros e peles (87%). As produções maranhense e piauiense orientam-se basicamente para o exterior. 1992).7 milhão de t / ano. Das vendas realizadas pela indústria incentivada. dentro dela.

97% transportados por vias internas e apenas 3% por cabotagem. 1996). Das 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). que exportaram em 1990 valor menor do que o de 1975 (Sudene. Mais uma vez seguindo a tendência geral da economia brasileira. Da mesma forma.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG regionais e recebido capitais e capitalistas predominantemente não-nordestinos. que das exportações totais do Nordeste. as informações são insuficientes. para 1980. dentre as demais regiões. para US$ 443 milhões em 1990. dependendo da forma como consolidar-se-á a malha de transportes. a produção agroindustrial. as relações comerciais do Nordeste com o resto do mundo se dão cada vez menos pela venda dos chamados produtos básicos e mais por oferta de produtos semimanufaturados e manufaturados. apresentaram maior volume na venda de manufaturados (64. instalada tanto no vale do São Francisco (BA e PE) quanto no vale do Açu (RN).20 - . instabilidade e retração da demanda interna: ampliar suas articulações com o exterior. na pauta do Nordeste o peso relativo desses itens cresceu de 12. segundo dados do BB/Cacex. maior peso relativo que o mesmo item na pauta brasileira (16. . respectivamente). Apenas o Sudeste e o Sul. Mudanças nas articulações comerciais O exame da dinâmica comercial da região. implantando processos econômicos e construindo uma paisagem que se assemelha muito mais à macrorregião Centro-Oeste do Brasil. as exportações de todas as regiões brasileiras tiveram crescimento significativo. O Brasil mais que quadruplicou o valor anual de suas exportações.1%) tenham tido.7 milhões em 1975. No caso do Nordeste a Sudene estimou. o crescimento das relações com o exterior via venda de manufaturados no caso do Nordeste é notável: enquanto no total das exportações do Brasil os manufaturados passavam de um terço para pouco mais da metade (54. sua vinculação futura com o Centro-Oeste poderá ser ampliada.1 bilhões entre 1975 e 1990. o Nordeste duplicou seu valor exportado. mostra que o Nordeste tentou acompanhar a tendência mais geral da economia brasileira nos recentes anos de crise. Aliás.7%) da participação nas vendas externas entre 1975 e 1990.6 bilhões para US$ 31. em particular no que se refere ao destino de sua produção. passando de US$ 7. e as pesquisas disponíveis não são atualizadas. os estados do Piauí e de Sergipe quintuplicaram suas vendas ao mercado internacional.9% para 44.3% e 47. 04 a 10 de novembro de 2007. um terço se destinou ao mercado internacional e dois terços a outras regiões brasileiras. Suas ligações econômicas e semelhanças geo-socio-econômicas com asdemais sub-regiões do Nordeste são muito tênues. e portanto visualizar melhor as tendências desse tipo de relação econômica entre o Nordeste e os demais espaços do país. As exceções corresponderam aos estados de Alagoas e de Pernambuco. desenvolve importantes articulações econômicas extra-regionais. e os da Bahia e do Ceará triplicaram-nas. Para avaliar os fluxos comerciais inter-regionais. em 1990. No mesmo período. Embora na pauta nordestina os produtos semimanufaturados (30. O comércio por vias internas (especialmente rodovias) é predominante no Brasil.9%. passando de um modesto valor exportado de US$ 5. por exemplo. Desse total. Até os estrangulamentos à continuidade de seu desenvolvimento são mais parecidos com os de Tocantins ou Mato Grosso do que com os do lado oriental nordestino: infra-estrutura de transporte. No mesmo período. Dentro da região.5%). especialmente a associada à irrigação. o estado do Maranhão intensificou fortemente seus laços econômicos com o mercado externo. particularmente as relações estabelecidas com o mercado internacional.4%.

pois nos anos 50 as compras efetuadas de outras regiões representavam 1. Portanto. apenas 18% vieram do exterior e.4% no mesmo período (embora sua economia fosse 20% do total nordestino). 1985). E isso é tendência crescente. a rápida intensificação do movimento de oligopolização da economia brasileira e o papel de correia de repasse desempenhado pelos incentivos federais aplicados no Nordeste – como menciona Oliveira (1981) – atuaram no sentido de alterar a orientação desse fluxo econômico. 1985). A partir dos anos 60. piauienses. 1985). No período 1975-1980 tal relação havia aumentado para 2. nos anos 40 e 50. ano em que se classificou como o segundo exportador regional para o mercado nacional. por sua vez. Sua participação nas exportações interregionais caiu de 30. . O inverso acontecia com Pernambuco. 1967). Paraíba.3% para 8. não parece ter sido revertida nos anos 80 à luz dos dados disponíveis sobre a composição e dinamismo de suas atividades econômicas.2 vezes as vendas do Nordeste para o resto do país. O relatório que precedeu à criação da Sudene. também atingiu o Nordeste ao se intensificar no espaço do Brasil ao longo das últimas décadas. o mais provável é que a articulação comercial dessa parte mais ocidental do Nordeste com o Centro-Oeste e com o Sudeste tenha se ampliado. 85% chegavam por vias internas (Sudene. As importações de outras regiões (especialmente do Sudeste) eram quase cinco vezes maiores que o valor importado do exterior em 1980. cuja economia representava. o estado do Ceará demonstrava tendência semelhante. baianos e sergipanos. dos 82% originados em outras regiões do país. a menor articulação comercial com o resto do país. era a forte emigração de capital produtivo em direção ao Centro-Sul. que perdera seu papel de intermediário atacadista. à medida que o dinamismo industrial daquela região abria oportunidades para rentáveis investimentos (GTDN. Pernambuco e Alagoas. analisou corretamente que um dos problemas nordestinos. como vinha acontecendo nos anos 70. No que se refere ao subespaço compreendido pelos estados do Rio Grande do Norte. Os saldos comerciais do Nordeste têm-se mostrado historicamente positivos nas relações com o exterior e altamente negativos nas trocas inter-regionais. cearenses. 04 a 10 de novembro de 2007. Como as áreas dinâmicas recentemente instaladas repercutiram com maior intensidade nos espaços maranhenses. essa forte tendência surgiu mais recentemente.5 vezes (Sudene. invertendo-o.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG importações totais. Embora com percentuais bem mais modestos. pouco menos de 40% do PIB regional. surgida como tendência na década anterior. na época.21 - . Os dados da Sudene para 1980 já revelavam uma economia baiana fortemente orientada para o mercado nacional: quase 70% das vendas do Nordeste para outras regiões brasileiras tinham origem na Bahia. Todavia. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). enquanto as exportações para o resto do país não chegavam a representar duas vezes o valor das mercadorias mandadas para o mercado internacional. posto que na década anterior o estado da Bahia representava apenas 25% nas exportações inter-regionais do país (Sudene. pois sua participação nas vendas nordestinas para o resto do Brasil passava de 3.5% em 1975 para 9% em 1980. Integração via movimento do capital produtivo O movimento do capital produtivo. o Nordeste surge predominantemente como região-mercado (sobretudo para o Sudeste) quando visto no contexto nacional.

Paralelamente. as relações do Nordeste com outras regiões do país e com o exterior. 1992). que a presença do grande capital na região já era muito seletiva. reformas profundas na ação do Estado e implementação de um programa de estabilização que já dura três anos. Além disso. frutas e pecuária) sua recente presença é marcante. em 1990. Ao contrário. Outros segmentos que merecem referência são as indústrias de alimentos e as dedicadas à produção têxtil. em sua maioria extraregionais. nas últimas décadas. Dados referentes às mil maiores empresas no país demonstram que.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG A crescente presença de grandes grupos empresariais no Nordeste. a oligopolização se firmado e grandes cadeias de magazines e supermercados se fizeram presentes no Nordeste.22 - . enquanto os empresários nordestinos concentram seu controle sobre empreendimentos de menor porte. Na construção civil (impulsionada pelo Sistema Financeiro de Habitação – SFH e por programas de obras públicas importantes) e nos complexos agroindustriais (ligados especialmente à produção de grãos. Paralelamente. a indústria de transformação produtora de bens intermediários. Bahia (46%). a pesquisa constatou que tais grupos dirigem e controlam os empreendimentos de maior porte da indústria incentivada. Tendências nacionais atuais e o Nordeste Como a economia do Nordeste havia aprofundado sua inserção no contexto nacional. 04 a 10 de novembro de 2007. Dentre as principais destacam-se intensa e rápida política de abertura comercial. tanto espacialmente quanto nas atividades econômicas para as quais se dirigira. em especial a indústria química. não se restringe ao setor industrial. Pernambuco (18%) e Ceará (11%) concentravam a maior parte (75%) dessas empresas. Do ponto de vista setorial. outras não. Nesse contexto. a maioria das empresas incentivadas fazia parte de grandes grupos econômicos. também na atividade comercial o capital tem se centralizado. umas concentradoras. como também ocorre em outras regiões. novas forças atuam. no entanto. . cerca de 35 são empresas industriais produtoras de bens intermediários e dessas. o ambiente econômico brasileiro sofreu grandes mudanças nos anos 90. priorização à integração competitiva. 1993). Num contexto mundial marcado por importantes transformações. a articulação inter-regional via fluxo de capital produtivo ampliou. o setor privado promove. Cabe destacar. como acontecera em diversas regiões do país. Dados disponíveis em pesquisa (Sudene-BNB. 1992) demonstram que a recente expansão industrial não é produto da ação de investidores locais. Dentre as que atuam no sentido de induzir à desconcentração espacial destacam-se: a abertura 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). o entendimento das suas atuais tendências remete necessariamente à compreensão do que se passa no país como um todo. uma reestruturação produtiva. 23 são indústrias químicas" (Guimarães Neto. também de forma intensa e rápida. tem destaque na atração de tal tipo de empresas: "das 105 grandes empresas sediadas na região. Aspecto relevante a ser destacado diz respeito ao controle do capital no moderno segmento industrial instalado no Nordeste com o apoio dos incentivos federais. É grande o controle do capital por grupos privados ou por sistemas de empresas estatais com sede no Sul e no Sudeste (Guimarães Neto & Galindo. Portanto.

as duas maiores bases econômicas do país. proximidade com os mercados consumidores de mais alta renda. em especial. a importância da proximidade do cliente final para diversas atividades. No caso da indústria. "a globalização reforça as estratégias de especialização regional" (Oman. um papel ativo no processo.23 - . Estimativas do PIB industrial por macrorregião. 1994). ao contrário do que se poderia esperar. dadas a crise do Estado e as novas orientações governamentais e empresariais. A nova organização dos espaços nacionais tende a resultar por um lado. por outro. da dinâmica da produção regionalizada das grandes empresas (atores globais) e. tanto por suas políticas explicitamente regionais e de corte setorial/nacional (mas com impactos regionais diferenciados) quanto pela ação de suas estatais. Atuam nesse sentido. a ação ativa de governos locais oferecendo incentivos. estudo recente da Confederação Nacional da Industria. maior e mais eficiente dotação de infra-estrutura econômica. Nos anos 90 tende-se a romper o padrão dominante no Brasil das últimas décadas. quando a prioridade era dada à montagem de uma base econômica que operava essencialmente no espaço nacional – embora fortemente penetrada por agentes econômicos transnacionais – e lentamente desconcentrava atividades para espaços periféricos do país. as mudanças tecnológicas que reduzem custos de investimento. confirma a hipótese de que. as decisões dominantes tendem a ser as do mercado. O Nordeste volta a perder posição (CNI. Autores como Carlos Pacheco (1996) chamam a atenção também para os condicionantes da reestruturação produtiva.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG comercial podendo favorecer focos exportadores. estudos e dados recentes permitem pressupor a tendência à concentração do dinamismo em determinados espaços do território brasileiro. os estudos realizados têm convergido para sinalizar. entre 1990 e 1995. com base em dados da Fundação Getúlio Vargas. constatam que nos anos 90 as regiões Sudeste e Sul deixam de perder posição relativa na produção industrial nacional e 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). No presente. os novos requisitos locacionais da acumulação flexível. como ocorreu no Nordeste. maior proximidade com centros de produção de conhecimento e tecnologia. Embora as tendências ainda sejam recentes. Mesmo sem ir tão longe. para a interrupção do movimento de desconcentração do desenvolvimento na direção das regiões menos desenvolvidas. há forças atuando no sentido da concentração de investimentos nas áreas mais dinâmicas e competitivas do país. o mesmo acontecendo com os estados de São Paulo e do Rio de Janeiro. em particular para a forma como vem se dando a inserção internacional do Brasil. 04 a 10 de novembro de 2007. Alguns estudiosos chegam a mencionar a reconcentração para o caso da atividade industrial (Campolina Diniz & Crocco. Enquanto isso. no mínimo. 1996). da resposta dos Estados nacionais para enfrentar os impactos regionais seletivos da globalização. . especialmente no que diz respeito às estratégias das grandes empresas frente ao cenário da globalização da economia mundial. como melhor oferta de recursos humanos qualificados. Tais autores constatam que. o que é confirmado por recentes estimativas da Sudene (1996). O Estado nacional desempenhava. entre outras. 1996). se interrompeu a desconcentração e. no mínimo. a região Sudeste não só deixa de perder posição relativa da produção nacional – trajetória que percorrera nas duas últimas décadas – como volta a ganhar importância na economia brasileira (passando de 60% a 63% seu peso no PIB do Brasil). elaboradas pelo IPEA. o crescente papel da logística nas decisões de localização dos estabelecimentos.

cabe analisar as tendências das exportações brasileiras. Tendências e preferências que beneficiam as regiões mais ricas e industrializadas do país (Sudeste e Sul). juros elevados e prazos curtos de financiamento) têm impactado negativamente vários segmentos da indústria instalada no Brasil e afetado especialmente o Sudeste (São Paulo. localizou os atuais centros urbanos dinâmicos do país em termos de crescimento industrial. para competir com concorrentes externos (principalmente com os países asiáticos).7 bilhões em 1993 para alcançar US$ 13. por sua vez. 04 a 10 de novembro de 2007. desce na direção de Maringá (PR) até Porto Alegre (RS) e retorna a Belo Horizonte via Florianópolis (SC). para 24. química (NE-Oriental). e São José dos Campos (SP).6% em 1990 e para 9. não alteram significativamente as tendências e as preferências locacionais identificadas pelos estudos. US$ 8. É evidente também que algumas empresas de gêneros industriais mais mão-de-obra intensivos têm buscado se relocalizar no interior do Nordeste. Tais fatos. Por sua vez. No momento em que a política governamental opta por promover rápida e intensa abertura comercial. da ufmg. Piauí e Maranhão).5% em 1995.5% em 1990. que respondia por 17% das exportações brasileiras em 1975. já mencionados. Tendência oposta é verificada no Nordeste. fruticultura (vales do São Francisco e do Açu) e a soja (Bahia. Esse percentual era de 68% em 1975 e passara para 81. aliadas a aspectos relevantes da política de estabilização (câmbio valorizado. US$ 3. cai para 9.24 - . O Nordeste abriga cerca de 15% desses centros dinâmicos. porém. onde historicamente se concentrara a indústria brasileira. Também identificando forte tendência à concentração espacial do dinamismo industrial. incremento de 50% apenas entre 1993 e 1995. em particular). Uma reflexão particular merece o Mercosul.6 bilhões em 1990. de Campolina Diniz. Curitiba (PR).1 bilhões em 1995. O maior dinamismo no período pós-abertura acelerada verifica-se na base exportadora da região Sul. atraídas pela superoferta de mão-de-obra e baixos salários. para 8% em 1994. reduz seu peso na indústria nacional de 12% em 1990. que amplia sua presença no total vendido pelo país ao exterior de 21. O valor das trocas do Brasil com o Mercosul cresceram de US$ 1. 1994). O Nordeste. mas em valores muito pequenos: US$ 420 milhões 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). dos quais 80% estão no Sudeste-Sul. segundo a mesma fonte. como a indústria de papel e celulose (BA).1% em 1995. . Dados disponíveis demonstram que 82% (em 1995) das exportações do Brasil se originam nas regiões Sul-Sudeste. O comércio brasileiro com os demais países do bloco aumentou intensamente nos últimos anos. o mesmo acontecendo com o estado de São Paulo.5% em 1990 (Campolina Diniz. É certo que as conseqüências espaciais de políticas importantes como a de abertura comercial e a de integração competitiva comandada pelo mercado.7 bilhões em 1985. da perspectiva regional. trabalho elaborado pelo economista Campolina Diniz (1994). apesar do dinamismo de segmentos com tendências exportadoras. No mesmo período. as exportações nordestinas para o Mercosul cresceram 84% e as importações 64%. por exemplo). alumínio (MA).Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG voltam a ampliar sua presença em tal atividade no contexto do país. além da possibilidade de flexibilizar as relações de trabalho (adotando subcontratação. vai a Uberlândia (MG). Haddad (1996) tem chamado a atenção para o reforço dado pelo Mercosul a essa tendência de arrastar o crescimento industrial para o espaço que fica abaixo de Belo Horizonte. Constatou que a grande maioria deles se encontra num polígono que começa em Belo Horizonte.

6%. Assim. Guimarães Neto (1996) examina algumas informações. E isso sem mencionar a provável instalação de uma montadora de veículos naquele estado.2% em São Paulo). No caso nordestino.25 - .4%. A tendência parece ser. No que se refere às tendências do investimento no país. deve-se favorecer investimentos cruzados e associações de empresas instaladas no Sudeste e no Sul com os demais países do bloco. Comércio e Turismo sobre as intenções de investimentos industriais da iniciativa privada. no Sul. O exame de parte relevante dessas informações permite destacar o caráter espacialmente seletivo dos investimentos industriais que privilegiam alguns espaços específicos nas regiões. os segmentos mais leves da indústria. simultaneamente. uma vez que é razoável supor: • deve-se promover uma articulação comercial mais intensa dos outros países do Mercosul com o Sul-Sudeste brasileiro. mais uma vez. Em relatório recentemente elaborado para o Ipea. para as demais regiões. produtos alimentares e bebidas. automobilístico e químico – segmentos básicos da chamada indústria pesada – para o Sudeste e. da consolidação dos segmentos básicos e estratégicos no Sudeste. além da indústria eletro-eletrônica e material de comunicações. por razões muito específicas (Zona Franca de Manaus). através 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). seguramente. De outro lado. conseguiram. o avanço. tende agora a se redirecionar para o Mercosul. e setores têxtil. percebe-se o fortalecimento de especializações em outros estados que. 04 a 10 de novembro de 2007. Os dados mostram claramente uma divisão de trabalho entre as regiões brasileiras. com base nos dados do Ministério da Indústria. Tal dinamismo geral está encobrindo diferenciações.3% deverão se concentrar no Sudeste (sendo 28.4 bilhões dos investimentos – que podem ser regionalizados até o ano 2000 e cujos investidores potenciais podem ser identificados – cerca de 64. no futuro imediato. Comércio e Turismo. de menor densidade de capital. Vale lembrar que o PIB do Mercosul (sem o Chile e sem o Brasil) é mais que o dobro do PIB do Nordeste e do Norte brasileiros juntos. possibilita à industria de minerais não-metálicos. 17. notadamente o levantamento do Ministério da Indústria. • em termos de investimentos. 9. papel e celulose. o movimento de integração produtiva que buscava o Nordeste e o Norte nas décadas anteriores. embora fora da região industrial tradicional. geralmente de padrão de localização mais desconcentrado. Comércio e Turismo antes referidos revelam que dos US$ 73. de menor custo de mão-de-obra. sem dúvida. os dados do Ministério da Indústria. Guimarães Neto destaca que há. além de indicadores da ação de alguns bancos oficiais relativos ao financiamento dos investimentos. as informações disponíveis não permitem mais que esboçar algumas possibilidades referentes à futura distribuição espacial da atividade econômica no contexto brasileiro. Enquanto isso. a se concentrar nas regiões onde teve início e se consolidou a indústria moderna brasileira. mais de metade dos investimentos previstos destinam-se a um único estado: a Bahia. no Nordeste. pois importante parcela dos segmentos produtivos que definem a dinâmica da economia nacional tende. calçados. . procuram as regiões de menor nível de desenvolvimento e. Na análise da distribuição regional dos investimentos segundo os segmentos produtivos mais importantes. tornando-as extremamente heterogêneas na medida que não se difundem. Em termos macrorregionais. uma divisão espacial de trabalho que induz os investimentos dos grupos metal-mecânico.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG de exportações e US$ 478 milhões de importações.

8 bilhões em 1991. em quantidade e qualidade. crescimento gradativo dos valores investidos. com a particularidade de que a região registra. 04 a 10 de novembro de 2007. mostra uma tendência ascendente entre 1991 e 1995. para US$ 9. os indicadores sobre os investimentos privados em curso indicam grande seletividade na escolha dos espaços nos quais se darão os investimentos no país.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG de fatores os mais diversos (recursos naturais. notadamente quando é orientado para as demais regiões que não o Sudeste. na maior parte dos anos. esconde mais que revela a realidade do país. Em síntese. As atividades mais estratégicas – e que definem a dinâmica da economia nacional – estão se concentrando no Sudeste. Tal tendência não parece estar sendo compensada pelo financiamento dos bancos oficiais. dotadas de boas condições de acessibilidade (importante em tempos de abertura comercial e globalização intensas). que se torna bem mais patente quando são considerados os valores absolutos dos recursos aprovados. vêm sendo freqüentemente apontadas a existência de mão-de-obra qualificada e a presença de competentes centros de ensino e pesquisa científica e tecnológica. pela importância relativa dos recursos envolvidos. muitas vezes em contextos nos quais prevalecem. fortes incentivos regionais. subáreas tradicionais e estagnadas. No Nordeste. De fato. os demais segmentos da indústria. 1996). cada vez mais. o Nordeste perde posição relativa (caindo de 24% para 15% a sua participação entre 1991 e 1995). similar ou um pouco maior que sua participação na geração do produto interno do país (BNDES. no conjunto do panorama nacional. No que se refere ao grande investimento industrial. Ainda segundo Haddad. dentre os novos elementos portadores de capacidade de atração de atividades e investimentos. Relativamente à atuação dos bancos oficiais. bem maior que o encontrado no Norte. Outro ponto importante a se observar atualmente é a tendência de localização de investimentos em infra-estrutura econômica e nos desenvolvimentos científico e tecnológico. fica nítida uma grande seletividade espacial. que indicam a distribuição regional dos recursos aprovados. condições de infra-estrutura) atrair segmentos específicos que definem subáreas dinâmicas e modernas. essa escolha seletiva está tendendo a privilegiar o estado da Bahia. de menor densidade de capital.7 bilhões em 1995. localizadas próximas a eixos de transportes e. as informações mais interessantes. O mesmo ocorre no Sul. marcam presença em alguns estados específicos e em certos pontos de seus territórios (os focos de competitividade). a geografia industrial dos grandes projetos de investimentos privados. referem-se aos aprovados pelo BNDES para investimentos nos próximos anos. Como bem destaca Haddad (1996). embora registre menor percentual na participação dos recursos aprovados do que a sua participação na economia nacional. em todo período. a partir de 1991. anunciados no período posterior ao Plano 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Nordeste e Centro-Oeste brasileiros. especialmente no que diz respeito às atividades industriais. Deve-se ressaltar que a divisão do território brasileiro em macrorregiões. Em meio a essa tendência ascendente do total das aprovações. percentual bem maior do que a sua contribuição na geração do produto interno do país. ainda. demonstram estar havendo. as aprovações passam de US$ 3. portanto. Isso porque. O Sudeste. Os dados do seu último relatório. não resta dúvida de que. o potencial locacional de áreas do Sul-Sudeste para atrair os novos investimentos é.26 - . embora seu peso no total ainda continue. Tornam-se particularmente atraentes nesse novo contexto cidades médias daquelas regiões. .

ou os tradicionais investimentos autônomos. destacando-se obras prioritárias de infra-estrutura. seguindo os espaços que vêm concentrando maior dinamismo nos anos recentes. tomem-se os projetos de infra-estrutura que têm capacidade de definir articulações econômicas inter-regionais ou internacionais e. por não ter sido apresentado com o detalhe da localização regional de seus investimentos (orçados em R$ 16 bilhões para o biênio) e o Programa de Recuperação de Rodovias. Na opção do Brasil em Ação. o governo busca ampliar a competitividade de espaços já competitivos. Para o que interessa nesse trabalho. também sem localização definida no documento oficial. em especial ao Mercosul e ao restante da América do Sul. . Essa é uma das orientações centrais do Programa Brasil em Ação.27 - . agropecuários ou industriais).7 bilhões. com impacto no Nordeste). com recursos que totalizam R$ 54. mas de impacto localizado. os espaços mais atraentes tendem a estar situados em áreas concentradas no Sul-Sudeste. na fronteira Noroeste. Por sua vez. estratégicos para a futura organização territorial do Brasil. capazes de influir na organização territorial do Brasil em tempos de globalização. enquanto com os investimentos autônomos se antecipam a ele. o Estado segue o mercado. apenas 3% do total. no qual o governo federal define os 42 projetos prioritários de investimentos para o biênio 1997-98. revelam algumas características importantes : • Têm uma opção prioritária clara pela integração dos espaços dinâmicos do Brasil ao mercado externo. Os projetos prioritários de infra-estrutura econômica. portanto. ou seja. fica fora dessa análise o Programa de Desenvolvimento das Telecomunicações (Paste). de grande importância para a modelagem territorial do Brasil.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Real. restritos a uma ou outra região do país (a exemplo da conclusão de Xingó. agroindustriais. pelos quais o Estado patrocina infra-estruturas que potencializam dinamismo econômico futuro. e em pontos dinâmicos do Nordeste e do Norte. Na opção atual. • Priorizam dotar de acessibilidade os focos dinâmicos do Brasil (agrícolas. Se. do ponto de vista das tendências de mercado. consistente com a opção brasileira de promover a integração competitiva. Essa orientação estratégica secundariza a integração interna. 04 a 10 de novembro de 2007. do ponto de vista dos restritos investimentos patrocinados pelo governo federal era de se esperar ação efetiva no sentido de evitar a ampliação de disparidades já gritantes no Brasil e assegurar a compatibilidade entre inserção na globalização e integração dos diversos espaços do país. Outro investimento igualmente estratégico. enquanto os demais ficam com apenas R$ 195 milhões para o biênio 1997-98. face aos novos paradigmas tecnológico e produtivo e às novas condições de concorrência num mercado mundial em globalização. deixando em segundo plano as áreas menos dinâmicas. é o destinado a geração e difusão de conhecimentos científicos e tecnológicos e a formação 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). • Concentram os investimentos no Sul-Sudeste. justamente nas áreas dinâmicas apontadas por Campolina Diniz. Os demais são projetos importantes. Mas os dados parecem sinalizar para tendência a fortalecer (ao invés de contrabalançar) a concentração de novas atividades e de novos investimentos em certos focos competitivos. Os espaços mais dinâmicos atraem projetos federais de infra-estrutura (que ampliam sua acessibilidade) com investimentos da ordem de R$ 5.4 bilhões. revelam evidências inequívocas de que tais projetos (especialmente os de montadoras de veículos) tendem a se concentrar no Sudeste-Sul (de Belo Horizonte para baixo).

28 - . Rio Grande do Sul. Como ficou evidenciado pelas análises até aqui procedidas. 82% do gasto total em C&T ainda cabem ao setor público (sendo 57% de responsabilidade do governo federal. 04 a 10 de novembro de 2007.5% dos artigos publicados em periódicos nacionais e estrangeiros por pesquisadores do Brasil. Um interessante indicador de concentração é o que revela que em apenas cinco estados (São Paulo. Pernambuco e Paraíba) a participação no total dos Grupos de Pesquisa do país é maior que a participação desses estados no PIB do Brasil (IPEA/DPRU/CGPR. muitas delas abrigam significativo contingente de pessoas (como o grande espaço semi-árido não passível de abrigar focos de agricultura irrigada. 81% eram de natureza pública. das 158 instituições de pesquisa cadastradas pelo CNPq. especialmente em São Paulo (40. Por sua vez. no Brasil dos anos recentes. os mais fortes ao concentrar seus financiamentos nas bases científica e tecnológica instaladas no Sudeste brasileiro (62% do total. a relativa ausência de investimentos privados. 95% da área total dessa subregião nordestina). dados relativos a 1994 revelam que. forte concentração no Sudeste (com destaque para Rio de Janeiro e São Paulo).7% do PIB) quando comparado aos países do G7 e a alguns tigres. com sua presença. A região responde por 85. metade delas localizadas em uma única região: o Sudeste. dos quais 1/3 só em Pernambuco). também nesse campo.7% do total nacional). Nota Técnica. e não se concentrar onde o ente privado já prefere se localizar. mais uma vez. nenhuma outra unidade da Federação fora do Sudeste e Sul conseguiu tal intento. onde o dinamismo conduzido pela lógica do mercado já é mais intenso.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG de recursos humanos qualificados. . é histórica a concentração espacial dos centro produtores de conhecimento no país (IPEA/DPRU/CGPR. Finalmente. a distribuição das patentes outorgadas para produtos gerados por grupos de pesquisa no Brasil mostra que. O último levantamento efetuado pelo CNPq registrava sete mil grupos de pesquisa ativos no país no primeiro semestre de 1995. 17% dos governos estaduais e 8% das estatais). já no novo contexto de abertura. contra apenas 9% no Nordeste. parece se confirmar a tendência a interromper a desconcentração espacial do 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). que despendem entre 2 e 3% de seus PIBs para promover os desenvolvimentos científico e tecnológico. dados fornecidos pelo CNPq para 1994 (último disponível) revelam que a alocação regional dos investimentos em C&T confirma a União tender a fortalecer. Rio de Janeiro. Nota Técnica. em termos financeiros. 1996). predomínio da integração competitiva e estabilização. ou seja. O papel esperado do Estado é o de contrabalançar. Locais bem dotados desses atributos são apontados como atrativos para investimentos. Cabe destacar que o dispêndio em C&T realizado no Brasil nos anos 90 continua muito baixo (0. constata-se uma distribuição espacial ainda mais concentrada no Sudeste considerando-se a distribuição dos grupos de pesquisa. Por outro lado. A distribuição espacial dos produtos e processos tecnológicos desenvolvidos revela. 1996). fortemente concentrados no Sudeste (69%). Por sua vez. A preocupação que deriva de tais fatores refere-se ao destino das chamadas áreas não-competitivas. Como se percebe. no Brasil. onde os novos fatores de competitividade já são abundantes. O Nordeste abriga 20% das instituições cadastradas (50% das quais em dois estados: Pernambuco e Bahia). Considerando a produção desses grupos no biênio 1993-94. à exceção de PE e DF. No Nordeste.

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crescimento que ocorria nos anos 70 e 80, quando a análise é feita em escala
macrorregional. Essa interrupção vem sendo comandada pelo mercado e referendada
pelas políticas públicas federais de corte nacional/setorial. Em termos regionais,
sobrevivem instrumentos e políticas herdados do passado, com reduzida capacidade de
impactar as realidades regionais e contrapor-se às novas forças que tendem a se
consolidar.
A ausência de explícitas políticas regionais por parte do governo federal abriu espaço à
deflagração de uma guerra fiscal entre estados e municípios, que buscam contribuir para
consolidar alguns focos de dinamismo em suas áreas de atuação. A combinação desses
dois fatos, vai deixando grandes áreas do país à margem: são os ditos espaços nãocompetitivos.
Por sua vez, as tendências prováveis dos investimentos sugerem que, após a fase de
modesta desconcentração, poderá ocorrer no futuro imediato um processo de
concentração espacial do dinamismo econômico em algumas sub-regiões (focos
dinâmicos) do país.
A conclusão preocupante que emerge das observações e análises aqui apresentadas é a
de que, muito provavelmente, a inserção do Brasil na economia mundial globalizada tende
a ser muito diferenciada, segundo os diversos subespaços econômicos desse amplo e
heterogêneo país. Tal diferenciação tende a alimentar a ampliação de históricas e
profundas desigualdades. Certamente não se repetirão as formas pelas quais se
materializaram essas desigualdades ao longo do século XX, mas provavelmente se
observará aumento da heterogeneidade no interior das macrorregiões. Essa é uma forte
tendência pois o próprio estilo de crescimento da economia mundial é profundamente
assimétrico, como supõe Pacheco (1996), e aos atores globais interessam apenas os
espaços competitivos do Brasil. Espaços identificados a partir de seus interesses privados
e não dos interesses do Brasil.

Rumo à fragmentação?
Face ao exposto, parece evidente que as tendências recentes atuam no sentido de
aprofundar as diferenciações regionais herdadas do passado e, destacando os focos de
competitividade e de dinamismo do resto do país, fragmentar o Brasil para articulá-los à
economia global. A aguda crise do Estado e o tratamento não-prioritário concedido ao
objetivo da integração nacional, nos tempos atuais, sinalizam nessa direção.
Pelo que já é possível apreender, Furtado (1992) chegou a mencionar a construção
interrompida da nação brasileira. A inserção seletiva promovida pelas novas tendências
terão como contra-face da mesma moeda, o abandono das áreas de exclusão (ditas nãocompetitivas). Poderia estar sendo traçado, assim, o roteiro da fragmentação brasileira. E
pelo que já se observa no Nordeste, a região acompanhará a tendência geral, num espaço
em que a herança de desigualdade é muito grave.
No Brasil, a emergência de focos de um novo tipo de regionalismo, intitulado
paroquialismo mundializado por Vainer (1995), sinaliza nessa direção. São locais de
grande dinamismo recente, dotados dos novos fatores de competitividade que montam
sua articulação para fora do país e tendem a romper laços de solidariedade com o resto,
passando a praticar políticas explícitas de segregação contra emigrantes (nordestinos, na

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maioria dos casos), vindos de áreas não-competitivas. Buscam, assim, evitar manchar a
ilha de Primeiro Mundo que julgam constituir (Vainer, 1995).
O futuro parece apontar, especialmente quanto ao Nordeste, para o aprofundamento da
heterogeneidade herdada do passado recente. E tenderão a se ampliar as diferenciações
dentro das macrorregiões, cada uma delas podendo conter distintos tipos de sub-regiões,
como: sub-regiões de áreas dinâmicas, sub-regiões em processo de reestruturação, subregiões estagnadas ou sub-regiões e áreas de potencial pouco utilizado.
É importante considerar que o desenvolvimento regional recente, sobretudo na fase de
desconcentração da segunda metade dos anos 70 até a primeira dos anos 80, reforçou a
heterogeneidade de cada macrorregião, tornando mais nítidas e mesmo maior as
diferenças entre as sub-regiões de cada grande região. Também neste aspecto, o
Nordeste acompanhou e continua a acompanhar o Brasil.
A heterogeneidade crescente vai consolidando dinâmicas particulares no interior dos
diversos estados do Nordeste. Em Pernambuco e no Rio Grande do Norte, por exemplo, o
dinamismo das áreas de fruticultura (de Petrolina ou do vale do Açu) contrasta com a
passividade com que se assiste à crise das áreas do antigo complexo gado-algodão
(embora geograficamente as duas estejam próximas, nos dois estados). O dinamismo do
oeste baiano contrasta com a lentidão com que se buscam alternativas ao cacau, na parte
oriental-sul do estado. Com a ferrovia Norte-Sul e a hidrovia do São Francisco, e sem a
ferrovia Transnordestina (tal como está previsto no Brasil em Ação), a porção ocidental
dinâmica do Nordeste amplia suas chances de interação privilegiada com o Centro-Oeste
e Sudeste. E isola-se, crescentemente, o Nordeste oriental.
Rumamos, agora, para aprofundar as diferenciações pré-existentes, cada um olhando
para si próprio, cada subespaço buscando suas próprias definições e montando suas
articulações. Os atores globais também farão suas escolhas. Rumamos à fragmentação?

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2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Identificado com o Brasil do passado. Para ser integrante dela era preciso.33 - . cultural. tenente-coronel e coronel da Guarda Nacional (não havia o posto de general. prerrogativa exclusiva do Exército). . insiste em manter-se vivo e atuante. feitos e as façanhas deles foram transmitidos. Assim é que com o tempo. musical e literário que fez da sua figura um participante ativo do imaginário simbólico nacional. a maioria sobre História e História das Idéias Políticas. criada em 1831. caracterizado pelo enorme poder concentrado em mãos de um poderoso local. 04 a 10 de novembro de 2007. pois ser alguém de posses. um grande proprietário. pela história oral do avô para o seu coronéis neto. um fazendeiro ou um senhor de engenho próspero. geralmente. que tivesse recursos para assumir os custos com o uniforme e as armas necessárias (200 mil réis de renda anual nas cidades A Guarda Nacional. responsável pelo Projeto Cultural do Curso Universitário. Ele não só marcou a vida política e eleitoral do Brasil de então como fez por contribuir para a formação de um clima muito próprio. o cidadão em armas e 100 mil réis no campo). desconsiderando as razões do tempo e da época. rústico e arcaico. As Origens Remotas do Coronelismo O coronelismo institucional surgiu com a formação da Guarda Nacional. Não só os homens de letras procuraram reproduzir em seus livros o que era viver sob o domínio de um coronel. 1Professor de História e Mestrando na UFRGS. Inspirada na instituição francesa. forjada pelos acontecimentos de 1789. Escreveu 8 livros (*) e mais de 40 polígrafos. a "guarda burguesa" era uma milícia civil que representava o poder armado dos proprietários que passaram a patrulhar as ruas e estradas em substituição às forças tradicionais.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Ascensão e Queda do Coronelismo Voltaire Schilling1 O coronelismo foi um sistema de poder político que vicejou na época da República Velha (1889-1930). major. capitão. como os Barões do café. uma espécie de velho barão feudal que. um dono de latifúndio. agrário. podendo então os proprietários e seus próximos adquirir os títulos de tenente. Coronel. ele ainda sobrevive em certas comarcas e em certos estados do Nordeste brasileiro como o poderoso "mandão local". Sinônimo de Poder Poder O governo da Regência (1831-1842) colocou então os postos militares à venda. derrubadas pelos revolucionários. o coronel passou automaticamente a ser visto pelo povo comum como um homem poderoso de quem todos os demais eram dependentes. de antepassados dos lamparinas e de lâmpadas. fazendo com que quase todo mundo soubesse de uma "história" ou "causo do coronel". como resultado da deposição de dom Pedro I. ocorrida em abril daquele ano. a luz de velas.

O caudilhismo nasceu na Espanha medieval em luta contra os mouros. Esta expressão de clara influência vinda da América serviu para definir a situação que um chefete municipal passou a usufruir dentro do sistema político da monarquia espanhola desde então (desaparecido com a implantação da Ditadura Franquista. interiorano. que ao outorgar uma significativa parcela de poder aos municípios. ou a zoológica "cria" (sou "cria" do coronel fulano). Coronelismo. . sendo desde então considerado como o patriarca de todos os caudilhos que se seguiram. ou na sela do cavalo. Toda a vez que na Península Ibérica. a fazenda e a estância. balsa. promoveu a emergência do cacique. Na verdade. o do caudilhismo ou do caciquismo. a não ser que por perto outro coronel o desafiasse. Foram célebres as façanhas de Cid. dominado pelo latifúndio. que lutou e integrou Valencia ao reino da Espanha no século XI. etc. Quanto à geografia desse fenômeno político. puxando os arreios da mula ou do jerico. 04 a 10 de novembro de 2007. que o autorizava a recrutar homens e a arrecadar recursos para lutar na cruzada contra os homens do califa muçulmano. especialmente na região do Rio da Prata. O Cenário do Coronelismo O cenário que envolvia e promovia o coronelismo era o do mundo rural brasileiro. Nasceu da Constituição liberal adotada na Espanha de 1837. personificação mais acabada do poder privado no Brasil. contra a posição centralista dos conservadores. por uma razão qualquer. bem afastado das grandes cidades. uma Os moradores eram-lhe inteiramente obedientes. sendo comum entre os considerados alfabetizados apenas 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Um universo próprio. feitas por canoa. ficando o México como o principal centro do poder dos caciques. o coronel. deu-se a ascensão do chefe provincial ou local que adquiria expressão militar e jurídica própria. o engenho. Delmiro Gouvea. o poder político central ficou abalado. Praticamente ninguém ao redor dele era instruído. A Geografia do Mandonismo Local O caciquismo é historicamente bem mais recente. major. isolado do mundo.) enquanto que os dominados pelo coronel o eram pela visível identificação genérica de "gente".34 - . quando um rei dava a um chefe militar ou um aventureiro qualquer que o solicitava uma "carta de partida". As comunicações eram raras e difíceis. Caudilhismo e Caciquismo O coronelismo na história política nacional nada mais foi do que a expressão brasileira de um fenômeno tipicamente ibérico. carro de boi. barco. Coronelismo.. pode-se dizer que enquanto os coronéis imperavam pelo Brasil afora. o campeador. os caudilhos eram comuns na América hispânica.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Configurou-se no Brasil daqueles tempos uma clara distinção social onde os representantes dos dominantes eram identificados pelo ranço militar (coronel. charrete. entre 1936-1975). enfraquecido. Poucos ousando raridade desafiar-lhe a autoridade ou disputar-lhe o mando. mandava num pequeno país do qual ele era um imperador com poder de vida e morte sobre os seus (ainda que não reconhecido juridicamente).

o mais famoso líder do catolicismo popular e ídolo dos sertanejos). o tribal. sendo simultaneamente o detentor do poder político. sendo. a riqueza dos indivíduos era medida pela extensão da propriedade. de Alagoas). . que ele não se compunha apenas por proprietários de terras. permitindo que sua autoridade se espalhasse para regiões bem mais distantes do que a do seu feudo. Ele era um pode – tudo. aqueles que são mais estáveis. Apesar de ampliarem os direitos de voto. fazendo com que sua autoridade cobrisse todos os espaços daquela geografia da solidão que era o seu feudo.35 - . geralmente desaparecendo com sua morte. havendo igualmente coronéis com outra posição social. As bases do seu poder são: a) A terra. cujo poder se espalha por vários municípios e deriva dele pertencer a uma família tradicionalmente poderosa. 04 a 10 de novembro de 2007. Na ausência quase que absoluta do Estado. o suficiente para que se tornassem eleitores fiéis dos candidatos propostos pelo coronel. rapidamente verificaram que a universalização do sufrágio não redundou no enfraquecimento dos coronéis. a ter certos atributos que são só dele e são impossíveis de transmitir por herança. Estudos posteriores sobre o coronelismo mostraram. portanto compreensível que o coronel exigisse daqueles que se qualificavam como votantes. quando não miséria dos moradores. jurídico e legislativo do município que lhe cabia. Num país de dimensões agrárias tão vastas. o coronel-padre (como o padre Cícero no Ceará. b) A família. A Política do Coronelismo Os republicanos de 1889 ficaram surpreendidos pelo vigor do sistema coronelístico.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG saberem desenhar o nome no papel. compadres. O personalista deve tudo ao seu carisma pessoal. e que dirigem os negócios políticos em comum acordo com outros coronéis sem que haja grandes desavenças entre eles. tais como o coronel-comerciante. afilhados e demais protegidos do coronel. Por último. Escassez e Solidão Materialmente o mundo dos coronéis era povoado pela escassez de tudo e pela pobreza quase que absoluta. a quem era preciso recorrer nas mais diversas situações. o compromisso da fidelidade. permitia ao coronel por meio de casamentos arranjados ampliarem seu domínio. colocando gente do seu sangue e da sua confiança em todos os escalões do poder municipal e estadual. c) Os agregados. que ajudavam a estender o poder dele para fora da família núcleo (a gente do seu próprio sangue). o personalista e o colegiado. A imensa quantidade de parentes distantes. ou a parentela. Logo era fundamental para a afirmação e continuidade do poder do coronel ele possuir significativas extensões de terra. O tribal parece um patriarca de um clã. era o coronel quem exercia as mais variadas funções. como prefere Maria Isaura Pereira de Queiroz. assegurando aos alfabetizados poderem tornarse eleitores. A Estrutura do Coronelismo Os estudiosos dividiram o coronelismo em três tipos. o coronel-industrial (o célebre Delmiro Gouveia. que explica a enorme dependência que todos tinham dele. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). entretanto.

O voto de cabresto foi decorrência disso. incapaz de reagir ao despotismo do manda-chuva. especialmente no interior do País.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Ao contrário. remédios. um século atrás. consulta médica. etc. mal atingisse os 20% da população inteira). O resultado das eleições quase sempre passava pelo crivo de um seu representante no conselho eleitoral. portanto.). por assim dizer. Observe-se que a não existência do voto secreto (adotado após a Revolução de 1930). e mais toda uma série de trapaças outras que pertencem ao riquíssimo folclore político brasileiro. a comportarem-se com docilidade. em detrimento dos poderes regionais e. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Ao O padre. Em outros acasos.) ou algum tipo de obséquio (atendimento médico. enfim. classe. em seu nome. . Mecanismos de Poder Para chegar ao povo votante. como os cidadãos votantes eram poucos (talvez os que soubessem ler e escrever. 04 a 10 de novembro de 2007. tornaram-se comuns práticas ilícitas de manipulação eleitoral. chapéus. assumia o papel de porta-voz das inclinações eleitorais do coronel. Dentre muitas. fazendo deles "defuntos cívicos" que levantavam da tumba para irem até as juntas eleitorais). o universo político do coronel movia-se pelo cochicho. o coronel ativava o cabo eleitoral. Se nas cidades ainda funcionavam os empolgantes comícios.36 - . alguém que. podemos destacar o eleitor-peregrino (sujeito que votava diversas vezes) ou o eleitor-fantasma (não davam baixa dos mortos das listas eleitorais. fizeram o processo eleitoral republicano funcionar a favor deles. Esta placidez obediente dos que tinham direito a votar fazia com que eles fossem integrantes do curral eleitoral. pelo conchavo e pelo cambalacho. Para ampliar ainda mais o seu mando. demonstrativo da impotência e das limitações da democracia brasileira. convocava algum líder local próximo para que também arrebanhasse os votos para o seu candidato. Fraudes e Folclore Os coronéis. colaborando para isso o fato do desaparecimento do poder unitário (representado pelo imperador). em troca de favores. bolsa de estudos. dos municipais. facilmente eles foram conduzidos pelos apaniguados dos mandões. era os três poderes do Brasil inevitável que os considerassem como gente de segunda arcaico. a expressão acabada do mandonismo dos coronéis. vigiava para que o resultado final satisfizesse os partidários do coronel. em seguida. alguém prestativo do seu meio que. etc. permitindo que alguém votasse em nome deles. verba para enterro. matrícula em escola. o militar e o coronel. ela era. O eleitor trocava o seu voto por um favor. A fraude. Este poderia ser um bem material (sapatos. facilitava o controle sobre o eleitor. comportarem-se nas eleições tais como bois mansos. aumentando-lhe o constrangimento. imperava na época da República Velha. roupas.

partindo do executivo federal. instrumento de "paz Inúmera vez como mostrou Guimarães Rosa (Grande Sertões: veredas. o sertão era tão bravo que "Deus mesmo. envolvendo todos eles num sistema mútuo de fidelidades e compromissos. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). ameaçadores. como assegurou o seu personagem Riobaldo. fazendo com que também eles mandassem para a assembléia legislativa na capital do estado. os monarcas se sustentavam com o apoio dos condes. vivendo à sombra da sua autoridade. ele sustentava as propostas regionais dos governadores (inclusive com apoio militar se fosse preciso). geralmente um capanga da sua confiança. ele contava com dois elementos básicos: o pistoleiro contratado para atuar a seu serviço. dá cá. Estes por sua volta se articulavam. que venha armado!" O Apogeu do Coronelismo Ao legar ao seu sucessor um mecanismo político mais estável do que aquele que herdara o presidente Campos Salles fundou um sistema de troca de favores que. lembra. Em troca. quando não criminosos.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Instrumentos de Coerção: o Pistoleiro e o Jagunço O coronelismo nunca foi um sistema pacífico. De certa forma aquilo que se convencionou chamar de política dos governadores. estes dos barões. . 04 a 10 de novembro de 2007. Naqueles tempos. O presidente da república exigia que os governadores lhes enviassem bancadas concordes com a sua política. As linhas da violência dirigiam-se em dois sentidos. o mataréu brasileiro foi ensangüentado pela batalhas travadas por esses exércitos de jagunços. Porque. na sua simplicidade. Para o exercício efetivo disso. espalhou-se pelo país inteiro. praticado nos antigos reinos medievais. social" 1956). deputados acertados com os interesses políticos do governador. quando vier. no horizontal quando o coronel travava uma disputa qualquer com outro rival do seu mesmo porte. o toma lá. e assim sucessivamente até chegar-se ao vilão ou ao pároco da aldeia. implementada em 1902. pelos favores e pela macheza do coronel que os comandava. O rebenque. quando ele desejava impingir alguma coisa aos de baixo ou que se negavam a aceitar a sua guarda.com os coronéis do seu estado. e no vertical.37 - . atraídos pela aventura. A própria natureza do tipo de dominação que ele exercitava implicava na adoção de métodos coercitivos. ou um grupo de jagunços dedicados ao ofício das armas que lhe serviam como uma milícia privada.

o presidente fez com que o Congresso por ele controlado instituísse a Comissão de Verificação de Poderes (diz-se por sugestão do senador gaúcho Pinheiro Machado). ser reconhecido é outra". formada por cinco parlamentares com a função de apurar se os deputados eleitos nos estados realmente estavam comprometidos em vir dar o seu apoio ao presidente. Valorizando o sufrágio urbano. governador da Paraíba. Portanto. mas unicamente se ele estava disposto a cumprir com o acertado entre o governador do seu estado e o presidente da república. Pecava-se contra a educação democrática do povo. não havia maior significado o parlamentar ter recebido ou não os sufrágios necessários. durante os quinze anos seguintes Vargas praticou medidas para o irreversível esvaziamento do poder dos coronéis. resumiu e antecipou o que iria ocorrer no Brasil a partir do sucesso da Revolução de 1930. agentes do governo central enviados para administrar os estados e os municípios foram inevitáveis o encolhimento da autoridade local. passando antes pelo palácio do governador. funcionárias) ao dos potentados rurais. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). . Frase que é uma variação daquela outra atribuída a Pinheiro Machado. Mesmo quando ele foi sacudido pelas várias revoltas promovidas pelo Movimento Tenentista (em 1922. que assegurou a um oposicionista "eleito o senhor foi. trouxe pelo menos certa estabilidade invejável à turbulenta e instável crônica política brasileira. desde que tomara posse em outubro de 1928.38 - . Com a adoção dos interventores e dos intendentes. dá cá Um enorme mecanismo de favores e contra favores principiando nas fraldas de qualquer município brasileiro estendia-se assim. ao viciar completamente os resultados eleitorais. liderada por Getúlio Vargas. opôs-se ao coronelismo A Crise do Coronelismo A Guerra da Princesa. Para a comissão. ter dito. contra um poderoso coronel do sertão chamado José Pereira.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG A Comissão de Verificação A fim de garantir-se do cumprimento dessa política. ele contrapôs o poder das novas forças emergentes (operários. 1924 e O centralismo de Vargas 1926). 04 a 10 de novembro de 2007. O voto secreto e o voto feminino (inicialmente somente de funcionárias públicas) foram dois dos instrumentos utilizados para isso. "ser eleito é uma coisa. Centralizador e autoritário. Isso é que explica porque o governador da Bahia. aumentando-lhe a presença eleitoral. Durante quase um trintênio esse sistema funcionou a contento. ao redor de 1920. ele mostrou-se hábil em sobreviver. travada por João Pessoa. José Bezerra. foi fundamental para que o coronelismo se eclipsasse a emergência de um executivo federal forte e cada vez mais poderoso." Um toma lá. até chegar ao centro do poder no Palácio da Guanabara do Rio de Janeiro. o Zé Pereira. o que não vai ser é diplomado.

. mudou de lado. ajudaram e fortaleceram as velhas oligarquias. derrotados pelas urnas da democracia recém-reconquistada.39 - . que derrubou o governo de João Goulart. O cacique político local. ele de imediato rearticulou-se com a nova elite civil que substituiu os militares em Brasília. ao mesmo tempo. o crescimento demográfico. o ex-prefeito e governador Antônio Carlos Magalhães (que fizera sua carreira política aplicando todos os truques perversos do coronelismo ao tempo em que servia como sustentáculo civil local ao regime militar). A industrialização. e. ACM rompeu com os militares e aderiu à campanha das "diretas já". entre 1937-1945) (.. no Ceará. ao recorrerem aos casuísmos eleitorais. com o objetivo de implantar o seu Projeto do Brasil Grande (a ambição de tornar o país uma potência de médio porte). o país conheceu entre 1969-1979 um impressionante desenvolvimento econômico. Os militares que ascenderam ao comando do país naquela ocasião. marcado pela eleição indireta de Tancredo Neves à presidência da república em 1984. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). no Rio Grande do Norte. porém. A Revivência do Coronelismo Com o Golpe Militar de 1964. neutralizarem a força das massas urbanas que lhes eram hostis. promoveram uma atualização do poder dos coronéis: o neocoronelismo. Representando a versão mais atualizada do coronelismo. especialmente no Nordeste. trataram de aliar-se.). um por um os coronéis foram sendo afastados da política. Na Bahia. Em 1984. na Paraíba. isso não sucedeu. simultâneo ao quase total fechamento político (o mais sufocante que o país conheceu desde os tempos do Estado Novo. ao contrário dos tenentes de 1930. a imigração para as cidades. 04 a 10 de novembro de 2007. ocorreu um estranho e contraditório fenômeno. O Carlismo Antônio Magalhães Com a fim do regime militar. Desta forma. ele mostrou-se mais ágil em perceber o significado das mudanças que se operaram naquela época. Talvez por ele ser um caso raro de coronelismo urbano (grande parte da sua fortuna e dos que a ele estão ligados está associada aos meios de comunicação e aos negócios industriais e Carlos imobiliários). em Pernambuco e na Bahia. características do Brasil pós-1945. Unindo uma proposta de modernização da economia com as esdrúxulas práticas que remontavam ao Brasil arcaico. Os generais de 1964..Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Situação que se reforçou ainda mais com a proclamação da ditadura do Estado Novo em novembro de 1937. com os remanescentes do coronelismo. só fizeram por acelerar ainda mais o declínio do coronelismo. que culminou no afastamento dos generais do poder. num lance ousado e surpreendente.

Edgar . SP. Jorge Amado. . a montadora da Ford). O mundo rural. se bem que oportunista. SP.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG O Condestável da Nova República Esta posição.) Bruno. 04 a 10 de novembro de 2007.40 - . 1987) Eul-Soo Pang . que fosse promovido às antecâmaras do poder como o condestável. Notáveis descrições do cenário em que eles viveram e lutaram encontram-se no Os Sertões de Euclides da Cunha.Formação política do Brasil (Pioneira. ou o do Coronel e o lobisomem de José Cândido de Carvalho).1959. e no popularíssimo Gabriela cravo e canela). 1971) Casalecchi.A República Velha: evolução política (Difel. Cacau. Ele sempre teve consciência de que o seu prestígio local devia-se ao apoio escancarado que ele dava a quem estivesse no comando executivo da União. recuperado graças ao fidelidade por favores prestados ao Estado da Bahia (polo prestígio de ACM petroquímico de Camaçari. os analistas prevêem que o rompimento dele com as fontes das verbas federais terminará por secar.. verba para a recuperação do Pelourinho.O partido republicano paulista : 1889-1926 (Brasiliense. RJ. e no já citado Grande Sertões: Veredas de Guimarães Rosa. Paula . se num primeiro momento trocou a sua Pelourinho. 1967. 10 vols. no futuro.. • • • • • Bibliografia Beiguelman. Ernani Silva .. de Aureliano Figueiredo Pinto. ACM foi ministro das comunicações no governo de José Sarney. eminência parda no governo do presidente Fernando Collor de Mello e o principal avalista do pacto do PFL-PSDB. quando não os próprios coronéis tornaram-se personagens centrais da obra (como no caso de São Bernardo de Graciliano Ramos.Coronelismo e oligarquias (Civilização Brasileira. permitindo-lhe.. SP. 2 vols. violento e rústico. Desta forma.SP. o escritor brasileiro de maior expressão internacional. Coronelismo e Literatura Como não poderia deixar de ser a literatura brasileira foi pródiga neste século em abrigar as façanhas e malvadezas dos coronéis. a influência dele junto aos seus conterrâneos. 1979) 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). mereceu copiosas descrições. em seguida à formação da Nova República. abordou o coronelismo em todas as suas facetas nos seus romances do chamado ciclo do cacau (São Jorge de Ilhéus. que garantiu por duas vezes a eleição do presidente Fernando Henrique Cardoso). e os "causos" em que eles foram participantes ativos viraram contos ou histórias dos romancistas e dos roteiristas das telenovelas brasileiras. José Ênio . granjeou a ele enorme estima e respeito por parte considerável da população.História e paisagens do Brasil (Cultrix. encontra-se no Memórias do coronel Falcão. esta virada do carlismo em favor da redemocratização. onde eles se moviam. Numa situação onde o autor assume a identidade do coronel para registrar-lhe as impressões.) Carone. o homemforte dos sucessivos presidentes que desde então se sucederam (nos 15 anos seguintes.

1985..1930.. 04 a 10 de novembro de 2007. Gilberto.Poder local na República Velha (Nacional..O mandonismo local na vida política brasileira (Alfa-Omega. RJ. 1981) Nosso Século: Brasil (Abril.Terras devolutas e latifúndio: efeitos da Lei de 1850 (Unicamp. vols.Sobrados e Mocambos (José Olympio. 1975) Martins. 7ª ed.O cativeiro da terra (LECH. SP. SP. Victor Nunes . de 1900-1930) Silva.41 - . Maria Isaura . RJ. 1985.Coronelismo.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG • • • • • • • • Freyre. 1977) 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). a revolução traída (Civilização brasileira. 1976) Leal.. . enxada e voto (Alfa-Omega.) Queiróz. 1996) Telarolli. 1966) Silva. Hélio . SP. José de Souza . SP. Rodolpho . Lígia Osório .. Campinas.

se bem que dois episódios tenham contribuído para diversificar a base econômica regional: o cultivo do algodão que permitiu uma ocupação mais densa da zona semi-árida. Foi no litoral que se constituiu a primeira ilha do "arquipélago brasileiro" e onde o primeiro dos grandes ciclos econômicos do Brasil se desenvolveu (Thery. então.0 a 4. região de migração em direção ao sul e à Amazônia (Garcia júnior. No século 20. EMBRAPA Informação Tecnológica. 2). prática cada vez mais freqüente. modificar muito essa situação. dedicada às necessidades do mercado europeu. desde a colonização. em seguida. Patrick Caron e Eric Sabourin/org. Garcia júnior. 1990) . Em contrapartida. Porém. a não ser por compra. Entretanto. Com efeito ela regulariza a situação dos ocupantes. semi--árido2 Contexto e Diversidade das agriculturas Familiares no Nordeste semi A agricultura brasileira esteve. e que essa mão-de-obré constitui uma reserva utilizada ocasionalmente. porém. estas jamais compensaram as grandes transferências de capital e de recursos humanos do Nordeste para o Sudeste (Oliveira. e nelas instalar-se com seus rebanhos. também. Permite. Mas a concentração das riquezas nas mãos de uma minoria e o caráter excêntrico da economia (importação de produtos de luxo graças aos recursos advindos das culturas de exportação) frearam o desenvolvimento da Região. A lei é votada sob a pressão de grandes proprietários cuja preocupação é limitar a ocupação ilegal de terras. pelo assentamento de inúmeras famílias. Essa é a origem da agricultura familiar no Nordeste semi-árido (Prado júnior. aos vaqueiros dos fazendeiros comprarem terras. Certamente outros mercados se abriram. O Nordeste. 1990). muito cedo conheceu a prosperidade. essa lei se traduz.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG I. a escolha é feita pelo proprietário. Brasília. outras culturas contribuíram para um certo dinamismo econômico. a integração econômica é limitada. Em 1850.2 milhões de pessoas. 1995a. constituídos graças ao sistema de remuneração usado pelos grandes proprietários3. a Lei da Terra torna impossível a obtenção de terras. Como bem destaca Martine (1992). o sertão assume o papel de pulmão demográfico do Brasil. "nenhum dos ciclos posteriores veio. Fig. 1967). 2003 3 O vaqueiro recebe como remuneração um bezerro em cada quatro que nascem. 1960. as transferências financeiras oriundas da União para o Nordeste foram constantes no decurso dos 2 últimos séculos. segundo Thery (1995a). no início do século 19. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). graças a exportações de açúcar para a Europa. 2 IN: Camponeses do Sertão: Mutação das agriculturas familiares no Nordeste do Brasil. Instaura-se. pois é capaz de absorver ou reter contingentes significativos de população. 04 a 10 de novembro de 2007. A crise do mercado açucareiro no século 18 só fez reforçar essa situação. Cuert-Muller (1994) mostra que entre 1970 e 1985 a população trabalhando no setor agrícola passou de 3. Porém. 1981. A produção agrícola alimentar era limitada (Andrade. de fato. . o desenvolvimento das plantações de cacau no sul do Estado da Bahia". primeira região colonizada pelos portugueses.42 - . voltada para o comércio. 1986). o mercado fundiário. e. Andrade. o Nordeste torna-se a região "rejeitada" do Brasil.

depois de um período extremamente seco.Sudene -.993 km2 (Thery. Expansão territorial: frentes pioneiras e ciclos econômicos. 1995a). controlada pela elite local. tornada produtiva por dependentes. à Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste . facilitando a transformação dos latifúndios4 e de pequenas um idades agrícolas camponesas em empresas rurais5. em particular Celso Furtado. procuraram promover a industrialização.43 - . 2. foi criado um grupo de trabalho que daria origem. 1981). 04 a 10 de novembro de 2007. ditada por relações do tipo paterna lista. desafio que explica suas ampliações sucessivas em 1946 e 1951: hoje essa área estende-se por 936. definindo a área onde a ajuda do governo federal poderia ser concedida. Alguns evocam a indústria da fome para explicar os lucros que daí retiram. foi delimitado um perímetro de 620 mil km2. quanto a seus dependentes. e modernizar o setor agrícola.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Fig. Fonte: Thery. reforça o poder indiscutível dessa elite. 1991 b). no ano seguinte. 1995a. Empresas rurais: forma de organização reagindo essencialmente a uma lógica econômica. Sua distribuição. O montante da ajuda da União é diretamente proporcional à extensão das crises climáticas das secas (Molle. administração encarregada pelo governo federal do "planejamento regional global" (Oliveira. Em 1958. . remunerados por um proprietário frequentemente ausente. "Em 1936. subexplorada. Os intelectuais que a dirigiam. 4 5 Latifúndio: propriedade de grande porte. o Polígono das Secas. por meio de lima política de incentivos fiscais. A rentabilidade do investimento é o 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). O proprietário segue uma lógica territorial.

04 a 10 de novembro de 2007. uma maioria significativa dos produtores das comunidades do sertão. sobretudo. As relações de trabalho organizam-se em torno dos assalariados. São Vicente. tabaco ou cana-de-açúcar) ou temporárias. alguns anos mais tarde. a extensão da rede rodoviária foi triplicada. resolver os problemas ligados à pobreza. surgiu. ao mesmo tempo.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Foi. e ainda são.44 - . agricultura camponesa. por discursos recorrentes sobre a escalada da violência. então. O temor suscitado pelos movimentos sociais de ligas camponesas junto às elites regionais do Nordeste muito contribuiu para o golpe militar de 1964. A implantação de infra-estruturas marca os primórdios dessa política e mobiliza o essencial dos meios financeiros. Está associado à permanência de uma sociedade camponesa no sentido usado por Mendras (1976)6. 1995a). pode~se falar em agricultura camponesa onde subsiste uma sociedade camponesa marcada por relações de proximidade e de interconhecimento. a de estradas asfaltadas foi decuplicada (Thery. Em contrapartida. após o golpe militar de 1964. Apesar de sua conotação política ou ideológica desfavorável. do cofinanciamento de infra-estruturas comunitárias (escolas. armazéns. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). no Sertão nordestino. As inquietações em relação ao modelo de desenvolvimento brasileiro. e aquele da agricultura familiar em particular. os índices de desenvolvimento foram menos evidentes. Essas denominações não têm todas o mesmo sentido. postos de saúde. específica ao contexto brasileiro7. e os recursos financeiros corriam em abundância. minifúndio. esse apego é real. Chapéu de Couro. Projeto de Apoio ao Pequeno Produtor Rural (Papp). o apego ao campo na região de origem continua relativo. As migrações de agricultores do Sertão foram por muito tempo essencialmente sazonais (colheita do café. logo se tornaria um verdadeiro tabu. de modo mais amplo. a sociedade tomou conhecimento das dificuldades com as quais se depararam esses projetos. o papel do setor agrícola em geral. O êxodo rural não se estanca. etc. A demanda de mão-de-obra no sul é grande. De modo clássico. porém. por uma autonomia relativa quanto ao mercado e pela mediação de poderosos locais. caracteriza. Ao final de alguns anos. Inúmeras denominações são utilizadas quando se evoca a agricultura familiar: pequeno produtor. No sertão. Sertanejo. geralmente. Os movimentos da população rural sempre foram. Em sua origem. excluindo as pequenas empresas familiares. a incapacidade de controlar a hipertrofia das metrópoles com a redução do êxodo rural e de travar os fenômenos de empobrecimento. O termo agricultura camponesa qualifica somente uma parte desse universo. O modelo de desenvolvimento imaginado é um compromisso que alia modernização e emprego rural por intermédio do apoio à agricultura comercial e da organização de comunidades rurais de pequenos produtores. são questões dirigidas à pesquisa nacional. com o retorno à democracia. No Brasil. em escala nacional. entre outros. considerada a possibilidade da reforma agrária. se a implantação das infra-estruturas foi satisfatória. agricultura de subsistência. Foi a época do milagre econômico brasileiro. . esses projetos visavam reforçar a emergência de pólos de desenvolvimento.). O conjunto da classe política e. o sentimento de crise traduz-se. O assunto. tratou-se. ainda. 1985). No decurso dos anos 60. principalmente nas frentes pioneiras e nas regiões de êxodo. então. o período dos projetos públicos e do crédito subsidiado: Polonordeste. poços e açudes. vem o tempo das dúvidas. construídas essencialmente pela mobilização gratuita da mão-deobra local (Amman. Nos anos 80. Após o mito da modernidade. o objetivo principal. em particular com a implantação de perímetros públicos de irrigação e. importantes. 6 7 Segundo a definição de Mendras (1976).

Houve igualmente litígios entre o Estado e a Igreja. . 04 a 10 de novembro de 2007. A colonização foi caracterizada pela concentração.aos nobres. chamados de coronéis ou fazendeiros.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG agricultor voltava à sua região natal para comprar um pedaço de terra ou um rebanho. surgido nas últimas décadas. para evitar misturas de gado e outros litígios (Garcez & Sena. correspondendo às terras aluviais dos vales ou várzeas. entretanto. As vias naturais de acesso. em 1927. 1989). "mais de 340 8 9 Uma légua corresponde a 6 km. A separação entre a Igreja e o Estado. as sesmarias. os primeiros conflitos eclodiram. No Sertão central. a presença de recursos hídricos. em 1710. Muito rapidamente. alvos preferenciais da política de modernização. não concedida a ninguém. concedidas pelas capitanias _ representando a Coroa portuguesa . aos grandes proprietários rurais. às margens da zona semi-árida (ver mapa 1 em anexo). É em função desses elementos que parece pertinente definir agricultura familiar. A agricultura sertaneja continuou por muito tempo apenas produtora de víveres e marginal ou concentrada nas zonas mais elevadas e úmidas do Agreste e do brejo. situadas nas falhas geológicas (Mal/e.45 - . ( Município de Juazeiro. 1992)9 A ocupação efetuou-se em diferentes datas. sem limites físicos determinados. reagrupa expressões sociais e modos de produção muito diversificados. nos iin do século 19. Tais litígios diziam respeito ao direito de recolher impostos. como a valorização da mão-de-obra familiar e a autonomia da gestão dos meios de produção (Sidersky. Eram de natureza feudal e colocavam as grandes famílias umas contra as outras ou contra as comunidades indígenas (Garcez & Sena. No caso de luazeiro. pelo absenteísmo dos proprietários das terras e pelos fracos investimentos no setor agrícola. aos senhores da terra. com o pequeno capital amealhado durante o exílio. com a proclamação da República. A agricultura irrigada é recente e seu potencial é limitado a 5% dos 940 mil km2 da região. pela demarcação dos respectivos perímetros: o da paróquia e o do municípic 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). pela imprecisão dos limites territoriais. de cada um dos lados dos riachos. 1992). A agricultura familiar. certas características comuns. Agricultura familiar: uma história de resistência e adaptações A história da agricultura familiar do Sertão se confunde muito com aquela da evolução dos sistemas de pecuária (Caron. entre dois domínios. Eram verdadeiros impérios. As sesmarias eram medidas em léguas8. Como nos mostra Silva (1999). as características mais ou menos hostis do meio local. nas terras das tribos indígenas dos Tupis. agravou ainda mais a situação. segundo as regiões de Sertão. assim identificada. quanto a concessões anteriores ieita pela colônia portuguesa às ordens missionárias encarregadas de catequizar a comunidades indígenas. A colonização do Sertão Os primeiros domínios fundiários do Sertão foram conquistados no século 17. 1998). como o conjunto de formas de produção que se opõem aos latifúndios e às empresas rurais. 1991b). Era comum manter uma margem de uma légua. às margens do São Francisco. a localização estratégica de determinados locais no cruzamento de eixos de comunicação foram critérios determinantes. as migrações definitivas constituem um fenômeno recente. apresentando. pelos meados do século 17. opôs-se a partir de 1840 à paróqui local. na falta de melhores termos. o litígio só ioi resolvid. a maioria da~ terras pertencia a duas famílias: Guedes de Brito e Dias D' Ávila Esta última possuía.

1977). Localidades mencionadas na descrição do processo de colonização. Fig. Os enormes latifúndios começaram a fracionar-se em virtude do absenteísmo dos proprietários e da crise da pecuária bovina. . enquanto as regiões: vizinhas (Mundo Novo. em épocas mais tardias A região de Pintadas. no centro do Estado da Bahia. Baixa Grande) já haviam sido ocupadas desde o século anterior.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG léguas de terras à~ margens do Rio São Francisco e de seus afluentes" (Andrade. fonte permanente de água. Pintadas situa-se numa região menos chuvosa. 3). 3.46 - . 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). muitas vezes. 04 a 10 de novembro de 2007. foi explorada a partir do século 19. 1986) A ocupação aconteceu porém. por exemplo. (Fig. fora dos eixos de comunicação e não dispunha de nenhum. O recuo econômico e o surgimento dos camponeses No decurso do século 18. o crescimento do setor mineiro de Estado de Minas Gerais e a crise no setor açucareiro acarretaram uma crise na economia nordestina e o deslocamento da bacia pecuária para o Sul do Brasil (Furtado.

cada vez mais numerosas. Os meeiros produziam algodão nas terras dos fazendeiros. eram preferidos aos bovinos. 1993). Nas zonas mais áridas. em 1850. Começa a apropriação individual de recursos explorados. para prover as necessidades de consumo. enfim. As cercas necessárias à proteção devem ser de madeira. a apropriação do espaço e a modernização agrícola Desde o início do século 20. sal.223 a 93. a indústria inglesa investiu· no Nordeste. cujos rebanhos valorizavam os restos de culturas. Hoje seus membros são os descendentes dos primeiros ocupantes ou dos compradores das antigas fazendas. mestiços. coletivamente. graças aos meios financeiros dos quais dispõem ou que podem mobilizar por meio dos projetos 10 As áreas de cultura anuais continuam escassas e raramente ultrapassam 2 ou 3 hectares por unidade familiar. tecidos. É. A difusão de plantas perenes permite aproveitar novas oportunidades de mercado. A estrutura fundiária local e a presença ou ausência de grandes fazendeiros condicionam as dinâmicas pioneiras. A presença de fazendeiros acentua a pressão sobre o espaço e seus recursos. enquanto as áreas agrícolas só aumentam em 50% (Bazin. O arame farpado que substitui as cercas de madeira. As incertezas climáticas tornavam aleatória qualquer atividade agrícola praticada. os pequenos proprietários estabeleceram-se. no Sertão central da Bahia. como o capim-buffe/ (Cenchrus ci/iaris). mais adaptados às secas e às necessidades de consumo das famílias camponesas. Eles são os primeiros que historicamente cercam os pastos. Certos produtos como queijo.382 20 anos mais tarde. a partir dos anos 60. Em razão da Guerra de Secessão e do desmoronamento da produção norte-americana. É. No Estado do Ceará. o número de unidades agrícolas passa de 16. Numerosos vaqueiros. ainda mais porque os primeiros zebus introduzidos nessa época são menos resistentes às condições climáticas do Sertão. em particular sobre os percursos na Caatinga. café. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). nos anos 70. na maioria dos casos. mesmo quando as cercas são construídas na época das secas. Nas zonas mais favorecidas pelas chuvas.) e. desde a Guerra de Secessão. Elas exigem menos mão-de-obra do que as culturas alimentares anuais10. até então. a partir de 1950. 04 a 10 de novembro de 2007.47 - . o caso da produção de forragem a partir dos anos 30. Segundo Silva & Lima (1982). A falta de forragem na época das secas leva grandes proprietários a cercar suas terras a partir da década de 20. O algodão estendeu-se rapidamente. logo sua construção e manutenção representam uma obrigação significativamente onerosa com mão-de-obra. 1960). entre outros. Comunidades apareceram e materializaram-se em sítios nas proximidades dos poços. sementes de mamona e pequenos ruminantes eram vendidos para comprar outros produtos: pimenta-do-reino. a pecuária era consolidada pela cultura do algodão "Mocó" (arbustivo). o caso do sisal ou da mamona. a partir do século 19. para a palma forrageira (Opuntia sp.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Com a Lei da Terra. Uma economia camponesa surgiu e desenvolveu-se a partir das pequenas unidades agropecuárias. Paraíba e Pernambuco. por exemplo. permite cercar mais rapidamente grandes áreas e demanda pouca manutenção e mão-de-obra. Rio Grande do Norte. As frentes pioneiras. As culturas ocupavam pequenas áreas cercadas. escravos alforriados ou ex-condenados tomaram posse de terras situadas entre as sesmarias ou mesmo inexploradas (Prado Júnior. . É o caso do algodão "Mocó".6% da área total do Sertão. a demanda de mão-de-obra é grande e é essencialmente familiar e os contratos de meeiros são quase inexistentes (fora aqueles com os fazendeiros). O algodão sempre esteve associado à pecuária. para as gramíneas. As roças e as técnicas para as culturas são manuais. De fato. também. os caprinos. O plantio de alguns hectares a cada ano permite marcar o território e estender as áreas em "propriedade privada". a área de extensão do algodão jamais ultrapassou 21. o crescimento demográfico traduz-se por uma pressão sobre o espaço. Essa evolução concerne principalmente aos Estados do Ceará.

provoca uma reconversão de inúmeros produtores para a pecuária. muito tardiamente. no Nordeste. em vez de cercar suas pastagens com 7 a 10 fios de arame farpado para impedir a entrada de pequenos ruminantes. suficientes para os seus bovinos. O aparato regulamentar do Estado é deficiente. em alguns municípios. Assistimos à generalização das cercas de 3 ou 4 fios de arame farpado. Grileiro (aquele que se apropria das terras) e grilagem vêm de grilo. na estação seca.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG públicos de desenvolvimento. que se traduz pela expulsão dos ocupantes destas terras.48 - . não há mais novos espaços a serem colonizados e os patrimônios fundiários continuam a dividir-se em ritmo acelerado. que quase sempre acaba em banho de sangue ou na resignação do proprietário lesado. pela colocação selvagem de cercas em terras alheias. em apropriação: "a terra pertence àquele que a cerca". para aqueles que dispunham dos meios. Em alguns provocados. coriáceas e espinhosas. que dão à vegetação um aspecto sombrio e cinza durante a estação das secas. Tal obrigação transformou-se. evoluem. em certos casos. os minifúndios. geralmente divididos por cercas. Essas evoluções são acompanhadas pelo crescimento rápido do número de pequenas propriedades rurais. hoje. suportes e conseqüências dessas transformações. a partir dos anos 80. pois os fazendeiros que usavam essa prática colocavam os falsos títulos das propriedades em gavetas cheias de grilos. bromeliáceas terrestres. O desflorestamento e o cultivo das áreas de Caatinga12 aumentam. industrial e urbano. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Aqueles que não conseguem se adaptar tornam-se assalariados agrícolas ou migram para o sul. frequentemente violenta. Os espaços diversificam-se. Conflitos eclodem freqüentemente. prevalecendo a lei do mais forte. impedindo-os de vaguear. alimentam-se da produção de forragem dos pastos cercados. Seus animais pastam. É uma formação extremamente diversificada em função do tipo de solo e nela encontram-se árvores e arbustos freqÜentemente providos de espinhos e do tipo caducifólios. que foram seguidos de conflitos. Eles permitem o aumento da capacidade de pastoreio e. No Nordeste. no centro da Bahia. Trata-se da grilagem11. Assim. Estas imprecisões legais acarretaram conflitos jurídicos nos quais se vê o ressurgimento de títulos de propriedade datando da monarquia. Enquanto anteriormente a situação que prevalecia obrigava aquele que cultivava a proteger seus campos. freqüentemente. Outros têm como base novas regras jurídicas: a lei do "pé alto" é especialmente exemplar a esse respeito. Tais imprecisões são acompanhadas por uma ausência de delimitação física: os limites fundiários estão freqüentemente sujeitos a conflitos. em terras não cercadas e. mas proibindo o deslocamento dos animais dos pequenos criadores. É em tal contexto que surge a irrigação. Os sistemas técnicos de produção. Molle (1991 b) 11 Grilagem é o nome dado à apropriação fraudulenta de terras. uma generalização rápida de cercamentos. referência a seu aspecto durante a seca. Na verdade. durante a estação chuvosa. Até os anos 80. grande consumidora de espaço. 12 O termo Caatinga é formado por duas palavras da língua Tupi que significam floresta branca. a reconversão para a produção leiteira. Os pastos de gramíneas forrageais espalham-se consideravelmente. Assim. a maioria dos pequenos ainda não possuía títulos de propriedade. ou para as frentes pioneiras da Amazônia. . em 1964. Estas evoluções e recomposições acontecem em um contexto fundiário muito incerto. 04 a 10 de novembro de 2007. como Pintadas e Ipirá. que obrigava os criadores a controlar seus animais. O desmoronamento da cotação dos produtos agropecuários de cultivos de sequeiro. para que ficassem amarelados. eles podiam reduzir o investimento a 4 fios. bem como uma capa herbácea constituída de espécies anuais. eles são. então. surgiram inúmeros casos de grilagem. A pressão sobre os recursos acarreta. apresenta também plantas suculentas (cactáceas e euforbiáceas). os pecuaristas conseguiram fazer votar um decreto municipal para a aplicação de uma lei federal.

ou seja. Engloba. depois nas dos peões ou dos meeiros.) e de exportação (cacau. este atraso: a rigidez da estrutura fundiária. os espaços geográficos e econômicos "desprezados" pelos grandes proprietários e empresas. Desde meados dos anos 80. As instituições públicas de pesquisa e desenvolvimento implantadas nos anos 70 foram planejadas como instrumentos da política de modernização que visava promover o modelo da revolução verde (variedades selecionadas. as políticas hídricas foram prioritariamente voltadas para o abastecimento de água. irrigação.5 milhões de unidades de produção agropecuária. Elas foram globalmente eficazes e a produção agrícola aumentou consideravelmente. seja para os homens ou para os animais. técnicos. desvios dos esforços empreendidos pelo governo federal. essas instituições constatam que não conseguem acompanhar a demanda da agricultura familiar no âmbito social. Os esforços de modernização da agricultura não puderam impedir a concentração dos investimentos públicos e privados e a marginalização da agricultura familiar. 1998). e concedem uma atenção particular ao contexto econômico e às condições ecológicas da produção (meio ambiente e qualidade dos produtos). As características das estruturas sócio-políticas regionais e locais que predominaram até os anos 70 explicam. elas são beneficiadas com apenas 15% dos financiamentos públicos. .. Elas são responsáveis por cerca de 30% da produção agrícola nacional. sociais e políticos do modelo dominante (Tonneau et aI. Sua importância é não somente social. etc. ela reagrupa cerca de 6. Molle (1991 a) lembra que a agricultura foi desprezada. 1996). Segundo ele. 04 a 10 de novembro de 2007. mecanização. No Brasil. cerca de 40% das unidades agrícolas de todo o Brasil (FAO. freqüentemente. aproximadamente três milhões de famílias. feijão. batata. ela encobre uma realidade pouco conhecida: somente há pouco tempo passa a ser objeto de atenção por parte dos organismos de apoio ao setor agrícola. Apesar de sua importância demográfica e econômica. ainda uma parte significativa da população nordestina. porém.FAO. graças à construção de grandes barragens (ver o capítulo Manejo da água nos sistemas de sequeiro). Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística -IBGE . a agricultura familiar subsiste no contexto das rupturas e dos limites ecológicos. a agricultura familiar reúne a maioria da população rural. arcaismo e imobilismo das estruturas sociais herdadas da colonização. etc. deixada nas mãos dos índios ou dos mestiços.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG evoca vários fatores para explicar este atraso no desenvolvimento de uma sociedade hidráulica. econômico e mesmo técnico. lugar em uma sociedade voltada para a pecuária extensiva. entretanto.). utilização intensa de adubos e pesticidas. seletiva e fonte de marginalização social e geográfica. as unidades agrícolas familiares ocupam 56% da população agrícola ativa. também. 1996). banana.) quanto pelos recursos e empregos que ela proporciona (Veiga. Entretanto.49 - . econômicos. tanto por sua presença de peso nos mercados de produtos alimentares (milho. Elas entram em processo de avaliação e de redefinição de suas metas (Abramovay. 1996). em absoluto. Dos fins do século 19 aos anos 70. 1994). No Nordeste. laranja. mas também econômica. a agricultura irrigada representa um estágio de intensificação da atividade agrícola que não encontra. A modernização foi. o que corresponde a 15 milhões de pessoas. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). etc. desde o início da colonização.(Censo 1985). café. mais da metade localizada na Região Nordeste (FAO. Ela ocupa. salvo por algumas situações isoladas. por 22% do total da área agrícola (o tamanho médio das unidades agrícolas no Nordeste é de cerca de 13 ha . 1997). Alguns números permitem precisar essa importância social e econômica. Um interesse renovado pela agricultura familiar brasileira Hoje.

as divergências sobre as modalidades de implantação de um conjunto coerente de ações são importantes. este modelo de desenvolvimento. Um consenso político real manifesta-se em torno do apoio que ela deveria receber. Enfim. apesar do aumento da produção global. quer no campo técnico. As condições e as formas de acúmulo e da reprodução da agricultura familiar e a gestão de sistemas diversificados são. traduziu-se por uma deteriorização dos mercados urbano e rural do emprego. pela ocupação desordenada do território nacional. que seriam justificados pelas evoluções recentes do mundo agrícola e pelo contexto político. Entre outras coisas. entre duas visões. . Ela tem por objetivo ancorar a análise no diferente e no complexo." (Embrapa.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG A Embrapa. uma social e outra neoliberal. reduzir o êxodo rural. pelo aumento dos preços dos alimentos perecíveis. criar empregos. os produtores e os agentes de desenvolvimento não tinham vínculos com a definição e a aplicação prática dos temas e das atividades de pesquisa. Ao Estado e às instituições faltam. diminuir os preços dos alimentos perecíveis. pela marginalização de mais de dois terços da população rural. pela degradação do meio ambiente. o discurso inflamado freqüentemente toma a dianteira. econômico ou social. Essa constatação leva a propor dispositivos específicos de apoio à agricultura familiar. "A modernização provocou modificações indiscutíveis das características técnicas e econômicas da agricultura brasileira. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). informações e dados sobre as múltiplas realidades encobertas pelo termo genérico "agricultura familiar". sem levar em conta a diversidade ecológica (Embrapa. visavam à concepção de modelos com alta produtividade biológica e com grande utilização de insumos. Entre a necessária redistribuição inter e intra-regional e a adaptação forçada a um mercado competitivo. A exclusividade concedida às pesquisas disciplinares realizadas em estação experimental não levava em consideração as condições de produção. reorganizar o espaço. 04 a 10 de novembro de 2007. Os objetivos são. como nos países desenvolvidos.50 - . em geral. A agricultura familiar está cada vez mais presente nos discursos. porém não foi capaz de fazê-Io sem a exclusão de um número significativo de pequenos produtores. A insuficiência dos conhecimentos disponíveis deixa o caminho livre para debates antes de tudo ideológicos. manejar os recursos naturais de modo sustentável e atenuar a miséria. reconhece que a pesquisa se mostrou ineficaz em virtude da orientação de seus trabalhos que. Os programas de pesquisa trataram por muito tempo de uma cultura ou de um produto em particular. Entretanto. por exemplo. 1994a). principal entidade brasileira de pesquisa agronômica. principalmente. temas pouco explorado. 1994a). Essa síntese adota um caminho diferente. sem valorizar a diversificação da produção da unidade agrícola nem as pesquisas econômicas e sociais sobre as "racionalidades" dos produtores e sobre os processos de inovação. as instituições questionam-se sobre as formas que esse apoio poderia tomar para ser eficaz e sobre as condições da implementação de um programa de reforma agrária.

Os latifundiários e industriais contratam os operários. Compreende-se que os patrões tratem de reduzir o salário. dirigente da revolução russa de 1917. 13 Jornalista 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Não aparecem por inspiração de “subversivos”. não trabalha para si. A palavra surge do francês . por isso. mais lucro lhes sobra. no feudalismo e ocorre até hoje no capitalismo. matérias primas etc. enquanto a massa do povo não possui nenhuma ou quase nenhuma propriedade e deve. a massa do povo trabalha para os outros. entre patrões e operários há uma constante luta pelo salário”. as fábricas. o patrão embolsa isso: isso constitui o seu lucro. os operários tratam de receber o maior salário possível para poder sustentar sua família com uma alimentação abundante e sadia. que surgem as primeiras formas de organização dos trabalhadores. alugar sua força de trabalho. pertencem a um pequeno número de latifundiários e capitalistas. Para elevar os seus lucros. Com a queda do feudalismo na Europa. A expressão proletariado vem do latim da antiga Roma e designa os cidadãos que viviam à beira da miséria e que tinham uma prole numerosa. num longo processo iniciado a partir do século 17. quanto menos aos operários. a história das sociedades é marcada pela luta entre explorados e exploradores. obrigado a vender a sua força de trabalho aos capitalistas.os germes dos futuros industriais. no modo de produção asiático. Portanto. “Denomina-se capitalismo a organização da sociedade em que a terra. entretanto. que a luta de classes atinge a sua plenitude. Isto ocorreu no sistema escravista. na economia capitalista. objeto de nosso estudo. O termo burguesia deriva de burgos. inerente ao capitalismo. É nesse último sistema econômico. e o faz por um salário. a sociedade se divide claramente em duas classes. o capitalista necessita extrair o máximo de mais-valia.syndic . Os patrões pagam aos operários exclusivamente o salário indispensável para que estes e suas famílias mal possam sub-existir. Elas nascem como resultado do esforço espontâneo dos operários para impedir ou atenuar a exploração. o proletariado. é um fenômeno típico desse sistema. desprovido de tudo. após a superação da comuna primitiva. Tudo o que o operário produz acima dessa quantidade de produtos necessária a sua manutenção. É dessa luta cotidiana. a burguesia. viver numa boa casa e não se vestir como mendigos. De um lado. os instrumentos de produção etc. Do outro. dona dos meios de produção instalações. obrigando-os a produzir tais ou quais artigos que eles vendem no mercado. mas para os patrões. .. 04 a 10 de novembro de 2007. Portanto. Em compensação. que eram as pequenas localidades nos arredores dos feudos. Ele só surge no modo de produção capitalista. como a burguesia propaga.que significa “representante de uma determinada comunidade”. que é o trabalho excedente não repassado ao operário na forma de salário. sintetiza de maneira simples as características desse sistema. Lênin. máquinas. onde viviam os comerciantes e os artífices . O Sindicato.51 - . mas sim por uma necessidade natural dos que vivem de salário.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Origem e papel dos sindicatos Altamiro Borges13 Desde a divisão da sociedade em classes.

são constituídos enormes contingentes de desempregados nos centros urbanos. Por sua vez. acumulou capital e pode realizar a primeira revolução industrial . aptos ao trabalho assalariado. ela não necessita mais de mão de obra especializada do artesão. Posteriormente. Os salários serão os mais reduzidos e as condições de trabalho. Nessa luta. O capitalismo inglês vai viver a partir daí um intenso processo de desenvolvimento. Nesse período. fonte dos lucros. o depoimento de uma criança de 11 anos a uma comissão do parlamento inglês. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Através desses novos instrumentos. por exemplo. Ele cita. focos de resistência à exploração capitalista. em que a concorrência leva os empresários a uma incessante busca por maiores lucros . Para extrair a mais-valia. O desenvolvimento do capitalismo deixará evidente a contradição desse sistema. que tinham grande poder de barganha. certa vez”. meados do século 18.com a redução dos custos operacionais e a elevação da produtividade. pelo aumento do seu poder aquisitivo. que representa a consolidação definitiva desse novo modo de produção. eles se generalizam. expulsando os servos das glebas rurais para torná-los “homens livres”. Para cumprir esse papel. É nesse momento. em 1816: “Sempre nos batiam se adormecíamos. com a superação do trabalho artesanal. são também importantes como meio organizado para a abolição do sistema de trabalho assalariado”. Num primeiro momento. Berço do capitalismo Os primeiros sindicatos nascem exatamente na Inglaterra . dobrá-la e dar-lhe em nós. Leo Huberman. O Capataz costumava pegar uma corda da grossura do meu dedo polegar. e por condições humanas de trabalho. os trabalhadores têm a necessidade de lutar pela diminuição da taxa de mais-valia. A introdução das novas máquinas. os que produzem diretamente as riquezas . o operariado conta com a vantagem de se constituir em grande quantidade. nos séculos 17 e 18. com o surgimento das grandes fábricas. “se os sindicatos são indispensáveis para a guerra de guerrilhas cotidianas entre o capital e trabalho. Com as máquinas. Após muitas marchas e contramarchas.considerada o “berço do capitalismo”. pode introduzir a mulher e o menor no mercado de trabalho. descreve esse brutal processo de rebaixamento do nível profissional. ela promoverá os famosos “cercamentos” no campo.no século 18. a partir da introdução de novas máquinas. como forma de baratear o custo do trabalho através da concorrência. Foi nesse país que se realizou a primeira revolução burguesa da história . com salários mais aviltados e em piores condições de trabalho.dirigida por Cromwell. atingindo outros setores econômicos. a burguesia golpeia os artesãos e suas corporações. eles vão congregar os operários das oficinas e das fábricas. a burguesia inglesa imporá jornada de trabalho que atingiam até 16 horas diárias. as mais precárias. que Marx chamará de exército industrial de reserva.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Essa é a lógica do sistema. com o desenvolvimento do próprio sistema. no livro “História da Riqueza do Homem”.52 - . a burguesia se consolidou no poder. 04 a 10 de novembro de 2007. Trabalhei toda a noite. que o capitalismo encontra plenas condições para se expandir e virar o sistema predominante. . em 1640. posteriormente da produção manufatureira e. os sindicatos se tornam centros organizadores dos assalariados. também agravará as contradições entre capital e trabalho.o setor dinâmico da sociedade capitalista. Com o objetivo de atrair mão-de-obra livre. Para Marx.

Glasgow.53 - . discutiu o assunto e aprovou. mas sim o uso que o patrão fazia dela. reduzindo-se a pequenos grupos de trabalhadores que destruíam máquinas e espancavam os cientistas que as inventavam. não aparecerão num estalo de dedos. Antes. aparentemente a máquina é que era responsável pelo desemprego dos trabalhadores especializados. será o boicote . da Irlanda. Um das principais formas de luta foi o Luddismo. Que era um erro se contrapor ao desenvolvimento do próprio conhecimento humano. próprias do novo sistema econômico. reproduzido no livro de Leo Huberman. que nunca tratara da questão operária. As greves e os sindicatos. Outra forma de luta que será utilizada na infância da classe operária.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Todas essas condições de exploração. que quatro anos depois foi retomado com novas máquinas quebradas em Londres. A legislação repressiva não conteve o Movimento Luddista. A revolta operária repercutiu também entre a intelectualidade da época. a classe operária passará por um longo processo de aprendizado até encontrar as formas mais eficientes de luta e concluir que sua união é fundamental para se contrapor ao poder do patronato. “De pé ficaremos todos/E com firmeza juramos/Quebrar tesouras e válvulas/E arrasar todas as máquinas”. esse operário destruiu totalmente os teares mecânicos da fábrica num sinal de revolta contra os efeitos da Revolução Industrial. cidade próxima de Londres. também conhecido como o movimento dos quebradores de máquinas. em 1812. entretanto.palavra que deriva do nome de um oficial inglês encarregado de administrar os negócios do conde Erne. ela constatou que não era a máquina a sua inimiga. os Luddistas espantaram a burguesia”. 04 a 10 de novembro de 2007. pela inserção da mulher e do menor nas fábricas em condições degradantes etc. Em pouco tempo. autor do livro “O Movimento Operário: O Sindicato e o Partido”. O movimento dos quebradores de máquinas também caiu no isolamento diante da sociedade. refletia o estado de espírito dos artesões. expresso os avanços da tecnologia. Preston. a jovem classe operária viu nas máquinas o seu principal inimigo. “Os homens da Inglaterra”. Aos poucos. começou a dar sinais de assimilação dessa forma de luta. que trabalhava numa pequena oficina em Nottingham. seu gesto foi imitado em várias cidades da Inglaterra e atingiu também a França. Inexperiente. propondo que os moradores do povoado não 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). vão gerar resistências entre os explorados. A própria burguesia que num primeiro momento aprovou a pena de morte. Afinal. Segundo pesquisas. Mas experiente. “A História da Riqueza do homem”. O parlamento Inglês. apesar de individual. o Luddismo começou a ser superado como forma de luta da jovem classe operária. uma lei que punia com a pena de morte os “quebradores de máquinas”. Newcastle. “Entre 1811 e 1812. Sua atitude. O termo Luddismo deriva do nome do operário têxtil Ned Ludd. Dundee e outras cidades. Esse processo de luta passará por longas experiências. informa José Cândido Filho. Sir Boycott era conhecido por seus métodos truculentos no tratamento com os empregados. por exemplo. Ele se recusava a negociar e os trabalhadores passaram a fazer o mesmo. Dessas primeiras lutas da classe operária nasceram belos escritos e poemas. que passou a dar maior atenção às condições de vida e de trabalho do proletariado. Segundo José Cândido. como o de Shelley. É nesse período que se generalizava o seguro de patrimônio na Inglaterra e alguns patrões inclusive são flagrados destruindo suas máquinas para adquirir outras mais modernas. os Luddistas ingleses costumavam cantar uma música que se tornou conhecida. . quando quebravam as máquinas.

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consumissem os produtos do Conde Erne. Este teve um grande prejuízo e afastou o oficial
inglês do cargo. A sabotagem também será usada nesse período como mecanismo de
pressão dos trabalhadores por seus direitos. O termo tem origem francesa e significa
"tamanco". Os operários franceses usavam esse tipo de calçado para danificar as
máquinas, emperrando a produção.
O salto na ação desse jovem proletariado vai se dar com o recurso da greve uma forma de luta mais avançada para pressionar o patronato. Segundo José Cândido, “A
origem do termo, liga-se à Praça da Greve (place de grève), atualmente praça do Hotel De
Ville, em Paris. Quando desempregados ou para tratarem de assuntos relativos ao
trabalho, os operários costumavam reunir-se ali. Faire grève (fazer greve) significava,
portanto, reunir-se na praça da greve. A greve foi o recurso de luta de maior eficácia nesse
período, tanto na Inglaterra, como nos demais países em que o capitalismo foi
introduzido. Esse recurso se espalhou pelo mundo, sendo encarado de diversas formas.
Para alguns, defensores da manutenção do sistema capitalista, como simples mecanismo
regulador do mercado de trabalho. Para outros, no caso dos Anarquistas, como um fim em
si mesmo. “A greve é tudo”, dirá Bakunin - um dos principais teóricos do movimento
ácrata.
Já para os revolucionários, a greve será vista como uma das principais
armas na luta de guerrilha entre capital e trabalho e como poderoso instrumento de
elevação da consciência e do nível de organização do proletariado. O dirigente da
revolução russa de 1917, Vladimir Ilitch Lênin, escreveu um texto sobre as greves.
Sindicato Clandestino
É nesse processo da luta que a classe operária sentirá a necessidade de se
organizar. É dele que surgirão os sindicatos que na Inglaterra têm o nome de trade-unions
- que significa união de ofício, de profissões. Essas jovens entidades de trabalhadores não
terão as mesmas características dos sindicatos atuais - que conquistaram o
reconhecimento legal, têm sedes, diretores afastados e gozam do direito de negociar com
o patronato. Pelo contrário. No século 17, período de surgimento das trade-unions, elas
serão clandestinas, com muita dificuldade de atuação. A burguesia verá nelas um grande
perigo. Seu temor é que elas unam o grande número de trabalhadores, até aqui dispersos
e vivendo em concorrência entre si pelo emprego. Há registro de associações de
trabalhadores com caráter sindical desde 1699. Nesse ano em Londres, uma greve dos
operários têxteis assustou o governo e a jovem burguesia - que ainda se constituía
enquanto classe. É só no século 18, quando a revolução industrial tomou impulso na
Inglaterra, que os sindicatos vão se generalizar para evitar seu crescimento, o parlamento
inglês aprova em 1799 a combination law, a lei sobre associações que proíbe o
funcionamento de sindicatos.
A violência da burguesia se dará em vários terrenos. No campo legal, elas
serão proibidas. A primeira lei que garantirá a livre associação dos trabalhadores só será
aprovada em 1812, na câmara dos Lordes, em Londres. Além de usar o aparato policial
do Estado para reprimir essas entidades, a burguesia inglesa - e posteriormente de outros
países - também utilizará as milícias privadas. Os jagunços, que hoje são uma marca do
campo em nosso país, já foram muito usados pelo patronato nos centros urbanos. Alguns
se tornaram famosos como o bando Pinkerton, dos EUA - uma poderosa agência de
pistoleiros contratada para reprimir greves e assassinar lideranças operárias.

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Para se proteger dessa violência, no inicio as trade-unions agem totalmente
na clandestinidade. As reuniões são secretas; não há sedes sindicais, campanhas
massivas de sindicalização, nem mesmo negociação direta com o patronato. Algumas
trade-unions inclusive formulam “códigos de participação”, com normas para garantir a
sobrevivência da entidade. Elas fixam a triagem dos trabalhadores que devem ser
convidados para as reuniões clandestinas. A entidade dos têxteis, por exemplo, prevê um
período de observação de dois anos para avaliar se o trabalhador não é dedo-duro,
infiltrado do patrão. Só depois ele é convidado a participar das reuniões. O seu código fala
também de justiçamento dos delatores, compondo um braço armado para amedrontar os
traidores em potencial.
Aos poucos, no entanto, as trade-unions inglesas vão se consolidando. Elas
dirigem mais greves, maiores protestos. Deixam o patronato num dilema. Já que são
proibidas, o empresário não tem como negociar em momentos de greve. Isso gera
grandes prejuízos, principalmente quando não há estoques e surgem encomendas de
produtos. Diante desse crescimento das lutas operárias, é que o parlamento da Inglaterra
irá aprovar, em 1824, a primeira lei sobre o direito de organização sindical dos
trabalhadores. Essa conquista permitirá um poderoso aumento da força do sindicalismo.
Em todos os ramos industriais formam-se trade-unions. Também surgem as “caixas de
resistências” para apoiar financeiramente os grevistas.
O outro avanço nesse período será a organização de federações que
unificam várias categorias. Em 1830 é fundada a primeira entidade geral dos operários
ingleses - a associação nacional para a proteção do trabalho. Ela reunirá têxteis,
mecânicos, ferreiros, mineiros e outras profissões. Chegará a ter cerca de 100 mil
membros e editará um periódico, A Voz do Povo. Na vanguarda do movimento operário
inglês dessa época estarão os têxteis, principalmente os da concentração industrial de
Lancashire. Em 1866, com o avanço da industrialização em outros países, será realizado
o primeiro congresso internacional das jovens organizações de trabalhadores de vários
países. Ela representará um grande salto na unidade dos assalariados, que será
materializado com a fundação da associação internacional dos trabalhadores (AIT),
também conhecida como a primeira internacional.
Apesar de possibilitar um avanço da organização sindical, a lei de 1824 é
contraditória, tendo duas características distintas. Em primeiro lugar, reflete a própria
pressão organizada dos trabalhadores. Em segundo, também indica uma mudança
estratégica da burguesia inglesa. Tanto que a lei foi aprovada na câmara dos Lordes, que
reunia apenas a aristocracia inglesa. Com ela a burguesia procura novos métodos para
controlar o movimento operário. Ela não poderia abandonar o seu projeto de dificultar a
luta e a união dos trabalhadores - fundamental para sua sobrevivência enquanto classe.
Como não era mais possível proibir as trade-unions, ela adota novos meios
de interferir. Como a história vai demonstrar, mesmo legalizados, os sindicatos podem ser
reprimidos. Neste período, muitos industriais pressionarão os operários exigindo a
renúncia formal à participação das trade-unions, como forma de garantir o emprego. A
força policial continuará a ser acionada, deixando um rastro de sangue em toda a
trajetória do movimento sindical. A legalização também permitirá identificar as lideranças,
o que pode facilitar o trabalho de cooptação e corrupção - processo muito usado até hoje
pelo patronato. Além disso, é possível implantar toda uma legislação de controle dos
sindicatos - como a que existiu no Brasil após o governo de Getúlio Vargas.

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Ainda nesse período, fruto da experiência concreta, o proletariado também
desenvolverá a luta política, superando a pressão apenas por reivindicações de caráter
econômico e específico. Surge o movimento cartista na Inglaterra, que representou um
salto na ação operária. O nome deriva de uma “carta”, elaborada em 1837-38, em que os
trabalhadores reivindicam maiores liberdades políticas: direito de voto para todos,
abolição do sistema pelo qual só podiam se candidatar os que tivessem renda, voto
secreto etc. Em seu conteúdo, o cartismo já expressara a luta por liberdades
democráticas e socialistas. Ele será duramente reprimido - com inúmeros cartistas,
sofrendo processo criminal - de “alta traição” - e muitas condenações.
Em outros países, o proletariado participará de ações políticas, sendo a mais
célebre participação na Comuna de Paris. Essa foi a primeira experiência em que a classe
operária alcançou o poder político. Sua duração foi curta - de fim de março a fins de maio
de 1871. Num primeiro momento, a sede do novo poder se instalou na Câmara Federal
dos Sindicatos franceses que também era o local de reuniões da sessão parisiense da
AIT. Essa experiência, que não se alastrou e serviu de base para novos estudos dos
marxistas, foi violentamente reprimida. As tropas do exército francês, que pouco antes
havia sido derrotadas e tornadas prisioneiras pelos alemães, foram libertadas e colocadas
a disposição do governo da França, de Thiers, por ordem e Bismarck. A burguesia
superava as suas divergências para esmagar o movimento operário. A luta contra a
comuna durou uma semana. Mais de 14 mil combatentes foram mortos na guerra ou
foram sumariamente fuzilados; 5 mil operários foram deportados e outros 5 mil
encarcerados.
O próprio Karl Marx, um dos idealizadores da AIT, já havia apontado essa
necessidade de ação política ao proletariado. “O fim imediato dos Sindicatos concretiza-se
nas exigências do dia a dia, nos meios de resistência contra os incessantes ataques do
capital”. Numa palavra, na questão do salário e da jornada de trabalho. Essa atividade
não só é justificada, como necessária. Não podemos privar dela enquanto perdure o modo
atual de produção. Ao contrário, é preciso generalizá-la, fundando e organizando
sindicatos em todos os países. Por outro lado, os Sindicatos, sem que estejam
conscientes disso, chegaram a ser o eixo da organização da classe operária. “Se os
sindicatos são indispensáveis para a guerra de guerrilhas cotidianas entre o capital e o
trabalho, são também importantes como meio organizado para a abolição do próprio
sistema de trabalho assalariado”.
Papel dos Sindicatos
Nessa primeira fase de existência, o sindicalismo vai demonstrar que é um
instrumento indispensável para os assalariados. Com a expansão do capitalismo, que se
torna o sistema predominante a partir do século passado, os sindicatos vão se espalhar
pelo mundo. Deixam de ser um fenômeno na Inglaterra. Num processo dialético, em que o
capital impera, suas contradições aparecem, as lutas operárias têm início e,
conseqüentemente, surgem os sindicatos. Todos os avanços sociais, mesmo que
pequenos ou parciais, serão fruto dessa luta e da formação dos sindicatos. Nada será
dado de mão-beijada pelo capital; nada cairá do céu. Cada nova reivindicação
apresentada pelos trabalhadores representa, num primeiro momento, a redução da taxa
de mais-valia do patrão. Por isso, depende de luta, de pressão organizada. A história da
legislação trabalhista no mundo será a história da luta de classes, em que os sindicatos
jogarão um importante papel.

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tem logicamente desempenhado um papel importante na história política nacional. Os trabalhadores e trabalhadoras enfrentaram. desmantelando as estruturas já construídas anteriormente e impedindo qualquer tipo de articulação dos operários que intuísse a formação de um grupo opositor organizado. afastando os seus dirigentes que. a luta sindical perdurou durante um grande período do pós-64 sem atingir plenamente os seus objetivos. uma forte repressão às organizações que lutavam contra as políticas salariais que arrochavam o poder de compra e as condições de vida de toda a classe. As fortes repressões não permitiram que entre 1964 e 1977 houvesse praticamente nenhuma greve ou outras formas quaisquer de manifestação. Jones Dori Goettert 15 Cf. Por outro lado.57 - . é importante registrar o papel que a União Nacional dos Estudantes (UNE) desempenhou nesse período. não conseguiram disciplinar as entidades com a ordem social vigente15. em sua opinião. mesmo sobre forte pressão os trabalhadores e trabalhadoras se organizam e realizam. 2001. SANTANA. Em vários 14 Cartilha de Formação CNTE. e com os metalúrgicos de Osasco que. sobretudo. O movimento dos trabalhadores e trabalhadoras organizados em sindicatos ainda conseguiu causar grandes problemas para os ditadores em 1968. Em 1969. . o Ministro Jarbas Passarinho através de um decreto intervém em vários sindicatos. com a greve dos trabalhadores e trabalhadoras da Belgo Mineira em Contagem-MG. por mais “irrelevantes” que fossem. fundada em 1937. A UNE. No entanto. 04 a 10 de novembro de 2007. a II Conferência Nacional de Dirigentes Sindicais.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG HISTÓRIA DO MOVIMENTO SINDICAL14 De 1964 aos nossos dias O golpe militar de 1964 colocou às escuras os movimentos sociais e grevistas que tiveram grande atuação no período 1959/1963. Essa situação de perseguição de lideranças e de intervenção nas entidades por parte do governo ditatorial continuou. desempenharam um papel importante na organização das ações dos trabalhadores e trabalhadoras. mesmo com a manifestação contrária de alguns grupos de trabalhadores e trabalhadoras que paralisavam isoladamente algumas fábricas afrontando e contestando a política econômica do governo militar ditador. quando as manifestações ganham as ruas e o interior das fábricas. desde a instauração da ditadura militar no Brasil em 1964. O governo ditador procurou atacar as cúpulas dos sindicatos realizando intervenções nas organizações. marcando posição contrária à política de arrocho salarial e buscando construir junto aos operários as comissões sindicais de trabalhadores e trabalhadoras. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). mas sem eliminar totalmente o “germe” da subversão que se manteria vivo e crescente até o final dos anos 70. Mas. com um forte sindicato. em 1967. As ações do governo também se tornavam duras em relação a qualquer manifestação ou postura de contestação.

trilhando em conjunto o caminho da luta pela redemocratização. que claramente se posicionavam contrárias ao regime ditatorial militar imposto em 1964. nenhuma melhora em suas condições de vida17. um pouco distantes da dura realidade vivida pelos trabalhadores e trabalhadoras.58 - . a violência sem limites. como inimigos da ordem estabelecida. em que o país viveu um momento político e econômico conturbado. sindicalistas. Ao fechar o Congresso e instituir um bi-partidarismo que forjava uma falsa idéia de democracia com o MDB como “oposição” consentida à ARENA. SEGAL. trabalhadores e trabalhadoras e intelectuais. Apesar das suas várias tendências internas. que procurava remodelar e enquadrar o movimento estudantil na “nova ordem social” ditada pelos militares16. à tortura e. manifestações e organizações contrárias à ditadura. firmou-se como uma entidade de força política na coordenação das mobilizações e ações dos estudantes. e mesmo sendo formada em grande parte por estudantes de classe média. em diversos casos. e claramente para a grande parte da classe trabalhadora. O AI-5 anulou o Estado de Direito no Brasil firmando um governo de direita autoritário. a UNE procurava demarcar as suas posições ideológicas considerando. quando os trabalhadores e trabalhadoras. 1986. A perseguição e repressão sobre os estudantes. PSB. a UNE se uniu aos demais oposicionistas à ditadura (como o PCB. PTB. estavam institucionalizadas. partido do governo. Suas práticas.5 instaurou a prisão arbitrária. Já para os militantes de esquerda envolvidos em ações políticas. é claro. principalmente num passado recente. através da organização no “chão das fabricas” fazer frente ao processo de controle sobre o aumento de salários baseado no AI-5. o AI . .Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG momentos dessa história. mesmo que timidamente. orientar as bases para continuar reivindicando e se contrapondo às políticas de arrocho salarial. 17 Cf. a diversidade interna dos grupos que a compunham. de 1968. Uma ordem que não trouxe para a maior parte da população. já no máximo de sua condição de exploração e percebendo o momento 16 Cf. 04 a 10 de novembro de 2007. agora. SANFELICE. práticas de repressão política contra todos aqueles que pudessem ser enquadrados ou que se caracterizassem minimamente como subversivos. organizando manifestações e sofrendo uma violenta repressão como resposta. a ditadura militar demonstrava ainda mais sua truculência e arbitrariedade. acentuou-se drasticamente com o Ato Institucional número 5. o assassinato. mesmo durante esse período vários sindicatos tentaram. 2001. FPN. o AI – 5. Confederação Geral dos trabalhadores e trabalhadoras e as Ligas Camponesas). No período pós-60. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). com a manifestação constante do operariado e com a insatisfação dos trabalhadores e trabalhadoras rurais exigindo reforma agrária. Mas. mas comungando com os ideais de transformação social (o que pouco tempo depois colocaria a entidade na mira dos ditadores). A posição da UNE frente ao governo continuou sendo a de desaprovação. As greves começaram a ressurgir no ano de 1978.

os metalúrgicos. Com a greve iniciada em 1978 o movimento expande-se e ganha força em outros estados brasileiros. alcançando Minas Gerais. de forma a aumentar a participação e a atuação dos trabalhadores e trabalhadoras na política nacional. As manifestações dos trabalhadores e trabalhadoras que se avolumam no final da década de 70. constitui-se um amplo movimento social de massas. As greves passaram a ter um crescimento anual considerável. no Brasil. começam a se manifestar e a exigir melhorias no salário que possibilitassem a melhoria das suas condições de vida e de trabalho. mesmo com a decisão do Tribunal Regional do Trabalho de considerar a greve ilegal. . O “novo sindicalismo” extrapolava.59 - . que os trabalhadores e trabalhadoras são a espinha dorsal do movimento democrático brasileiro”. lutam pela democracia: fala-se hoje. 2001. com início em 12 de maio de 1978. é em seu “centro nervoso”. A greve estende-se para o interior e o governo a declara ilegal. que também procurava abarcar outras questões. nos momentos de negociação de salários (a data base de cada categoria). o ABC paulista. No início de março de 1979. O movimento alastrou-se extrapolando o ABC e chegando a outros municípios como São Paulo e Osasco. de inserção no processo de luta da democracia. e redefiniu-se em face do conjunto de agentes que. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). porque sem eles qualquer “abertura” ou “liberalização” apenas reconstruiria o círculo vicioso da crise do regime autoritário18. abertamente. que passou a ser o momento mais propício para o enfrentamento político. em 1977. SANTANA. Nascia o “novo sindicalismo”. portanto.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG político favorável. acabando por atingir outros setores da economia. Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. Essas manifestações aconteciam e continuaram seguindo esta lógica durante algum tempo. mesmo assim os trabalhadores e trabalhadoras mantêm a posição e conseguem novas adesões ao 18 MOISÉS. p. de democratização interna. Contudo. envolvendo cada vez mais categorias de trabalhadores e trabalhadoras e tendo à frente os operários das fábricas produtoras de automóveis. 19 Cf. os trabalhadores e trabalhadoras do ABC entram em greve: são por volta de cinqüenta mil trabalhadores e trabalhadoras parados. “o terreno de suas funções sindicais. 31. O acontecimento primeiro desse período de grande movimentação foi à greve dos trabalhadores e trabalhadoras da Saab-Scania. de confronto com os limites impostos pelo autoritarismo no Brasil ao pleno exercício da cidadania dos trabalhadores e trabalhadoras. Os operários enfatizavam que a empresa não havia cumprido o acordo de readmissão de trabalhadores e trabalhadoras dispensados em protestos anteriores. e que tem o ABC paulista como palco inicial. 1982. indo além das questões trabalhistas dos primeiros movimentos e estabelecendo a bandeira da democratização política do país19. que o movimento dos trabalhadores e trabalhadoras assume outros patamares. estão ligadas não só à resistência política contra a ditadura. 04 a 10 de novembro de 2007. mas também se contrapõem às investidas políticoeconômicas do capital que arrochavam os salários e aumentavam a exploração do trabalho. A partir de 1978. além das salariais. Estas manifestações continuariam crescendo durante o ano de 1979.

A ascensão da CUT. que colocavam em questão o regime de governo autoritário dos militares. no começo dos anos 80. criada em 1983. 04 a 10 de novembro de 2007. que continua nos anos 80 do século XX.Central Única dos Trabalhadores. elaborando propostas que não convencem os trabalhadores e trabalhadoras. sempre articulado a outras formas de luta organizada como os sindicatos e demais associações populares. Com o passar de dias de greve o Ministério do Trabalho resolve intervir na negociação. A inflação crescente combinadas ao baixo rendimento dos salários deteriorava as condições de vida dos trabalhadores e trabalhadoras. que se baseava de forma clara em um projeto político anticapitalista. sinalizando para uma nova forma de sindicalismo. dos 16 membros que a compunham. na esfera da política institucional. sem explorados nem exploradores20. fazendo frente às políticas de degradação das condições de vida da classe trabalhadora. É nesse momento de agitação e de organização dos trabalhadores e trabalhadoras que surgem a Central Única dos trabalhadores e trabalhadoras . estabelecendo-se nesse período como uma importante organização política e social e fazendo frente de forte oposição ao governo Figueiredo e depois ao governo Sarney. O contexto de formação do Partido dos Trabalhadores. aglutinava as correntes sindicais mais ativas. O PT surge como instrumento necessário de organização e de luta dos trabalhadores e trabalhadoras na política nacional. assim como o crescimento do PT. Já a CUT . então. tiveram então como grande elemento aglutinador da classe trabalhadora a questão salarial. tem como pano de fundo o crescimento dos movimentos sociais organizados no Brasil e as intensas lutas dos operários do ABC paulista. declara a intervenção nos sindicatos e deflagra uma série de confrontos em praça pública entre trabalhadores e trabalhadoras e policiais. que estabelecia o prazo de 45 dias para negociação de um piso satisfatório. que tem gravado em seu manifesto de fundação as idéias básicas de um projeto que visa à construção de uma sociedade igualitária. O movimento continua até o dia 27 de março quando os trabalhadores e trabalhadoras resolvem aceitar a proposta feita pelo patronato. ainda no regime militar. e em alguns dias são mais de 170 mil trabalhadores e trabalhadoras parados.PT. nos anos 80. Segundo Ozai da Silva (2000). é impulsionada pelo momento histórico-político de grandes 20 Cf. em especial. O PT levanta bandeiras que extrapolavam as questões salariais e que visavam transformações políticas e sociais bastante profundas. esta a tendência do PT: a busca da democracia plena exercida pela massa organizada e participativa. contudo. A CUT tornou-se o inimigo número um das políticas governistas e se firmava como a Central que aglutina o maior número de entidades filiadas.60 - . SILVA. A insubordinação dos sindicatos e o crescimento do movimento grevista. que era composta por 12 dirigentes sindicais. O governo. 2000.CUT e o Partido dos Trabalhadores e trabalhadoras . de 1979. que viam o seu poder de compra diminuído a cada mês. sendo a participação dos sindicalistas o elemento fundamental para a formação e a caracterização do partido. Será. . demarcando fortemente nesse período uma tendência ideológica socialista. essa afirmação pode ser feita com base na análise da formação da primeira Comissão Nacional Provisória.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG movimento que se espalha para o interior. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE).

a crítica recaia sobre um sindicalismo de “radicalismo estéril”23 (crítica.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG transformações. hoje abrange todo território brasileiro. Enquanto nesses países os sindicatos entravam em depressão por falta de participação e por perder poder político.669. livre. mas também do governo e do empresariado.forçasindical. A superação dessas formas de sindicalismo seria possível na medida em que se lançasse “o movimento dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiros à modernidade.br 22 Site: www. classificado como “sindicalismo defensivo”. Antes de prosseguirmos. filiadas que representam 8. com a implantação do modelo econômico neoliberal. capaz de endurecer quando preciso. após o seu IV Congresso realizado em São Paulo. elaborando propostas de políticas que poderiam ser discutidas em fóruns que contassem com a presença de representantes não só dos sindicalistas. o que corresponde a 2. datando de 1929. representados por: 1. O 21 Site: www.000 trabalhadores e trabalhadoras (dos quais 30% são sindicalizados. então. a empreender esforços no sentido de pragmatizar as lutas com “conquistas reais para os trabalhadores e trabalhadoras”. surge a partir de críticas ao sindicalismo em curso no Brasil. para construir uma central forte. à CUT) e. para Confederação Geral dos Trabalhadores e trabalhadoras. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). em 1945.CGT21. para Comando Geral dos Trabalhadores e trabalhadoras (esmagado pelo golpe de 1964). A Confederação Geral dos Trabalhadores .056 entidades sindicais. aberta ao debate interno e com a sociedade”.org. segundo informações em seu site. de acordo com Alves (2000).000 filiados). A Força Sindical passou. uma ação estratégica mais propositiva. mantendo uma postura reivindicatória e que tinha como principal instrumento de ação e pressão e a greve.600. é importante destacar a criação das duas outras maiores Centrais Sindicais brasileiras: a CGT – Confederação Geral dos Trabalhadores e trabalhadoras e a FS – Força Sindical. 04 a 10 de novembro de 2007. passou a Confederação Geral dos Trabalhadores e trabalhadoras. a CUT procurou na década de 1980.org. mas também de saber negociar. o sindicalismo brasileiro caminha na contramão dos sindicatos no resto do mundo. A CGT. com o fim da ditadura e com a crise do Estado e da economia hiperinflacionada. Com as mudanças políticas e econômicas ocorridas até o começo dos anos 90. com filiais em 21 Estados e conta com 1.br 23 A referência base das informações sobre a Força Sindical foi o site da Central. em 1962. Nesse período. firmar um projeto de organização e ação dos trabalhadores e trabalhadoras. De um lado. . pluralista. segundo informações em seu site. a CUT procurou estabelecer. por outro. em especial. para Central Geral dos Trabalhadores e trabalhadoras (início da reestruturação) e 1988. sobre um sindicalismo de “conformismo paralisante”. inclusive em relação a alguns países na América Latina como a Argentina.cgt. quando foi criada a Confederação Geral dos Trabalhadores e trabalhadoras Brasileiros passando por mudanças. em 1986. em 1991. Com uma atuação política constante. no Brasil vivia-se o que se denominou a década de explosão do sindicalismo. é uma sigla histórica. autônoma.61 - .017 sindicatos de base. 04 confederações nacionais e 35 federações nacionais /regionais e estaduais A Força Sindical22. foi criada em 1991 a partir de Congresso em São Paulo.

ele permitiu um significativo aumento da liberdade de organização e ação sindical. Essa resistência dos trabalhadores e trabalhadoras ia de encontro às políticas de exploração do trabalho estabelecidas pelo capital industrial brasileiro da época. A Força Sindical se assenta sobre um discurso que acentua o moderno. 17.62 - . Apesar do crescimento e da força do movimento operário dessa época. em nível internacional. Essa reestruturação tinha como um de seus principais aspectos a inserção de novas tecnologias que visavam à diminuição quantitativa da exploração da força de trabalho e a verticalização da exploração qualitativa. embora a proposta pela qual os setores de ponta do sindicalismo vinham lutando ao longo de todos esses anos – de superação da estrutura sindical corporativa e de sua substituição por uma institucionalidade sindical democrática. tendo em vista que suas bases fundamentais – como o imposto sindical. que se utilizava dos baixos salários pagos ao operariado como principal elemento da competitividade da indústria nacional. o princípio da unicidade sindical e a estrutura confederativa – foram mantidas. nesse sentido. política. portanto. 17. 1997. os sindicatos viviam um processo generalizado de enfraquecimento”25. Essa reestruturação produtiva do capital que começava a se desenhar no Brasil nos anos 80 e que já estava a pleno vapor nos países de centro da economia capitalista. foram resultados dessa forma de se construir e de se fazer sindicalismo. tornando-se um dos elementos mais importantes da constituição da hegemonia do capital sobre o trabalho nos anos 80 e 90 do século XX. quando. suas lutas deixaram marcas”24 profundas. Com isso. começava a sofrer as transformações nas relações de trabalho e de produção que sinalizavam para transformações que iriam reestruturar o processo produtivo fabril. a Qualificação Profissional. “que o movimento sindical brasileiro esteve na contramão da tendência histórica predominante durante a década de 1980. fiscal e sindical e pela flexibilização das leis trabalhistas – dando-se status à negociação livre entre empregadores e empregados com o apoio dos sindicatos e das centrais”.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Centro de Solidariedade ao (a) trabalhador (a). . p. não era visto como um bom negócio para o capital. o monopólio da representação pelo sindicato. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). do judiciário. agrária. Educação e Qualificação Profissional”. assim como “a luta pela aposentadoria. Na verdade. a pluralidade e a democracia. o “1º de Maio pelo Emprego” em 1998. baseada no contrato coletivo de trabalho – tivesse sido derrotada pelo empresariado e pelos setores mais conservadores do próprio movimento sindical. Mesmo que o processo de surgimento e desenvolvimento do “novo sindicalismo” “não tenha sido suficiente para desmontar totalmente a estrutura sindical corporativa erigida desde os anos 30. conseguia colocar seus produtos no mercado a um preço menor que os internacionais. p. sobretudo o operariado fabril dos anos 80. a classe trabalhadora. Pode-se afirmar. O aumento de salário requerido pelos trabalhadores e trabalhadoras. 25 LEITE. 1997. pelas grandes reformas – previdenciária. ao conquistar uma capacidade de intervenção política inédita na história do país. 04 a 10 de novembro de 2007. vinha a reordenar a organização e a gestão da produção fabril que até então 24 LEITE. em 1999. e o “1o de Maio pelo Brasil – por Emprego.

com a abertura e a liberalização da economia realizada por Fernando Collor de Mello. sem dúvida. era candidato Fernando Collor de Melo. Implanta uma política de importação de bens de consumo e de produção.63 - . no segundo turno. Mas o estrago já estava feito. sindicatos e demais organizações. colocando em risco o processo de acumulação e reprodução do capital. Devemos lembrar que. possibilitando a luta dos trabalhadores e trabalhadoras concomitantemente às transformações. Mas. com amplo e irrestrito apoio da imprensa nacional (leia-se Rede Globo). É claro que os prejuízos desse processo foram transferidos para a classe trabalhadora. o processo eleitoral que elegeria. com a reformulação tecnológica de parques industriais em pouquíssimo tempo. e que ganharia força no Brasil a partir dos anos 90. que procurava fazer resistência à ação avassaladora do capital. Um dos mais importantes fatos desse momento foi. esse era o começo da implantação da acumulação flexível baseada no toyotismo. fantoche criado pela burguesia e pelo poder político conservador e demais larápios nacionais. Dois anos depois tem o mandato cassado por corrupção. procurando minimizar os danos e os prejuízos que o operariado sofreria com esse novo modelo de produção. Em 1989 tivemos o enfrentamento. do outro lado. fatores que colaboraram para uma diminuição das ações reivindicatórias dos trabalhadores e trabalhadoras que se viam pressionados pelo crescente desemprego estrutural. 04 a 10 de novembro de 2007. dando os primeiros retoques para liberalização da economia ao iniciar o processo de privatização das empresas estatais brasileiras. no Brasil as transformações aconteceram rapidamente. se esse movimento seguiu um processo temporalmente mais lento nos países de primeiro mundo. É que. o ritmo de instalação das novas tecnologias foi bastante forte e agravado pela falta de condição e de tempo que os trabalhadores e trabalhadoras tinham para se contrapor a esse movimento. organização do processo produtivo criada no Japão e exportada como modelo para os demais países capitalistas. Nesse modelo o descontentamento e a organização dos operários era crescente. . a década foi também um período de inflação muito alta e de recessão econômica com aumento do desemprego. O desfecho não poderia ser pior: Fernando Collor de Melo é eleito presidente com o discurso da necessidade da abertura econômica. de duas frentes bastante diferentes. o novo presidente do Brasil. pelo voto direto. o período de 1980 a 1990. que mais uma vez se viu arcando com o ônus 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). é marcado pelo fim da ditadura militar (1985). Por outro lado. e pela instalação de um governo civil proclamada como a retomada da democracia no Brasil. ex-líder operário e um dos fundadores do PT. Uma das formas de resistência foi à proposição da instalação das Comissões de Fábrica e a intervenção sindical no processo de decisão da inserção de novas tecnologias no processo produtivo. Esse novo arranjo do capital encontra ainda uma força de trabalho organizada. Uma que tinha como candidato Luís Inácio “Lula” da Silva.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG estava montada totalmente nos moldes do esquema de produção taylorista/fordista. que contava com o apoio de uma ampla gama de organização dos trabalhadores e trabalhadoras. Para os capitalistas. O processo de abertura da economia brasileira seguiu tornando-se mais agudo com os governos posteriores.

também. forçou as empresas a acelerar seus processos de reestruturação produtiva. que de acordo com os princípios liberais não deveria intervir no movimento do mercado. com a eleição do Presidente. tornou a relação entre capital e trabalho mais injusta no Brasil. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). 04 a 10 de novembro de 2007. 26 LEITE. sobretudo as regiões de grandes indústrias. As ações das instituições governamentais revelaram a face intervencionista das instâncias burocráticas do Estado. que se contrapunham às Leis Trabalhistas vigentes. acabar com os “entraves” gerados pelas leis trabalhistas na relação Capital/Trabalho. como a automobilística. Conseqüentemente. a política adotada foi a de continuidade da implementação das políticas neoliberais iniciadas por Fernando Collor de Melo. mais trabalhadores e trabalhadoras buscam na informalidade formas de ocupação. com o governo se empenhado em seguir amplamente a “cartilha” do Fundo Monetário Internacional. mas o faz. a situação do movimento operário muda significativamente com a chegada dos anos 90. pp. 17-18. não se encontrava preparado”26. As transformações do modo capitalista de produção têm se realizado no Brasil com mais força no âmbito da implantação de políticas de cunho neoliberal e procuraram. impedindo que este tivesse qualquer benefício estipulado por Lei.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG necessário a ser pago para o “bom desempenho” dos indicadores da economia nacional. dentre outras ações. .64 - . Com a criação de contratos temporários que deixaram o trabalhador e a trabalhadora desprovidos de qualquer direito. favorecendo sobremaneira o primeiro. Neste novo contexto de reestruturação do capital mundial. garantindo às empresas maior flexibilidade no uso e desuso da força de trabalho. Fernando Henrique Cardoso. tem-se um aumento da miserabilidade de grande parcela da população brasileira. Montado no discurso de geração de postos de trabalho. aumentando de maneira extremamente rápida os níveis de desemprego no país. “A política econômica neoliberal inaugurada pelo governo Collor em 1990 jogou o país numa profunda crise recessiva. um fenômeno que afetou e afeta. diminuindo gastos na esfera social e contribuindo na soma das transformações estruturais do processo de produção capitalista em nível mundial. noutras regiões e setores do país devido à implantação de políticas econômicas que abrem o mercado brasileiro para produtos externos. desde que seja para utilizar o poder político institucional para a otimização das condições de reprodução do Capital. as ações do governo FHC procurou estimular o surgimento de relações de produção. de maneira geral. A partir de 1994. 1997. que tem reflexos. ao mesmo tempo em que. Nesse sentido. ao abrir abruptamente a economia brasileira. agora na era da mundialização dos capitais. Mas. A implementação pelo governo federal de um modelo político econômico centrado no neoliberalismo. Isso acabou barateando o custo do Trabalho para o Capital. diminuindo o consumo de produtos internos e desencadeando um processo gerador de mais desemprego. privatizando as empresas estatais. gerando novos desafios para os quais o movimento sindical. Com as dificuldades políticas e econômicas conjunturais locais. sem impedimento legal e reduzindo a contestação no campo institucional formal por parte dos sindicatos. houve um número crescente de trabalhadores e trabalhadoras brasileiros vivendo o drama do desemprego.

a sofrer pressões sobre os seus salários e seus direitos trabalhistas. que são em sua maior 27 Cf. que de outra maneira só poderia ser conseguido com o crescimento econômico. da desregulamentação e do desmantelamento do aparato institucional que garantia alguns direitos básicos à classe trabalhadora.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Nesse período. o discurso ideológico que sustentava as ações governamentais estava fundado no liberalismo econômico. Desta forma. reduz o poder de luta organizada da classe trabalhadora. é no crescimento do desemprego. como forma de evitar o aumento do desemprego. SINGER. para melhor colaborar com o atual contexto organizativo do Capital. contando muitas vezes com a participação de algumas organizações sindicais. Esse fato pode ser constatado se analisarmos os projetos que visavam modificações nas leis que regiam os contratos de trabalho. corrobora sem disfarce à sua vinculação com o Capital. o governo FHC sempre procurou justificar a aceitação do crescimento contínuo da precarização das relações de trabalho alimentando uma política de desregulamentação do mercado. o que colabora para a degradação das condições de trabalho daqueles que continuam formalmente empregados. cuja existência passa a ser denunciada como obstáculo à expansão do emprego formal27. ficou evidente uma outra contradição na forma de atuação do Estado. ou que permitiam que houvesse contratos de trabalho que não atendessem aos princípios da legislação. longe de serem uma anormalidade pelas forças econômicas e políticas dominantes. 1998. Assim. se refletindo no esvaziamento dos sindicatos. Enquanto o discurso oficial pregava a regularização e a regulamentação dos trabalhadores e trabalhadoras e das transações econômicas informais. que se mostra o desgaste e a fragilidade das atuais formas de organização dos trabalhadores e trabalhadoras. os pronunciamentos e as atitudes tomadas pelo governo. .65 - . Os que continuam formalmente empregados passam. conseqüentemente. estimulando a ampliação das condições para o aproveitamento e exploração da força de trabalho. Pautado em pressupostos liberais. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). O mesmo Estado que em outros momentos procurou mostrar-se como mediador ou imparcial frente ao confronto Capital X Trabalho. Desta forma. foram de estimular a informalidade e a precarização do trabalho. tornou-se crescente o desemprego. até pelos discursos oficiais. como conseqüências naturais da nova ordem política e econômica estabelecida para a organização e participação dos atores econômicos no mercado capitalista. são vistos. frente à “intempéries” do mercado e das investidas extremas de espoliação dos empregadores. que precariza o emprego e. 04 a 10 de novembro de 2007. O fenômeno crescente do desemprego e da precarização do trabalho. Esta situação demonstra o poder de influência da classe dominante sobre os aparelhos do Estado. no trato das questões relativas ao Trabalho e à economia informal. que tem como diretriz a desregulamentação. neste contexto de precarização das relações de trabalho. fica evidente o desmonte do já insuficiente aparato institucional de proteção ao trabalhador e a trabalhadora. Neste sentido. que se reconfiguram modificando a legislação ou mesmo desobedecendo-a. do trabalho informal.

Combinada a terceirização ao desemprego. a precarização torna-se um elemento corrosivo da base sob a qual se assenta a legitimidade e representação dos sindicatos. estes trabalhadores e trabalhadoras. As greves. que privilegia a dimensão de categoria e profissional. Há uma preocupação maior em reintegrar o desempregado ao mercado de trabalho. que tem no avanço tecnológico uma maneira de poupar quantitativamente a força de trabalho. com o enfraquecimento da entidade representativa. sobretudo no que diz respeito aos direitos trabalhistas conquistados através da luta organizada. como acontece atualmente com os metalúrgicos do ABC. estão fora da sua área de atuação legal. ou não tornam interessante. temos que considerar a fragmentação existente entre os sindicatos instituídos de acordo com a categoria de trabalho.66 - . organizando. e não um projeto de organização dos trabalhadores e trabalhadoras para o enfrentamento da atual política econômica. 04 a 10 de novembro de 2007. Com o aumento do desemprego e da informalidade do trabalho tem uma diminuição considerável de sua base de representação. Logicamente. No aumento da informalidade e de seus efeitos sobre os sindicatos. E por estar organizado política e estruturalmente desta forma fragmentada e institucionalizada. uma categoria específica e não a todos os trabalhadores e trabalhadoras. o que tem impedido por vezes a participação conjunta de toda a classe trabalhadora em suas reivindicações. têm deixado de ser um instrumento de luta dos trabalhadores e trabalhadoras frente ao Capital para passar a 28 Atualmente os sindicatos têm lutado muito mais para a manutenção do emprego do que por melhorias nas condições de trabalho e de salário. Todo esse novo contexto. em tese. que por serem reconhecidamente institucionais trabalham dentro de normas que não permitem. A diminuição da participação dos trabalhadores e trabalhadoras nos sindicatos. pareça não dizer respeito a outras categorias de trabalhadores e trabalhadoras.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG parte sindicatos que organizam. a maior exposição de algumas categorias de trabalhadores e trabalhadoras às investidas dos capitalistas no sentido de diminuir o custo do trabalho. em grande medida. somada à insegurança no emprego gerada pela reestruturação produtiva. seja pelo desemprego ou pela informalidade. tem se refletido nas atuações dos sindicatos. pelos motivos aqui apontados. como não poderia deixar de ser. . ou no não-enfrentamento por parte destes das atuais condições de exploração do trabalho. organizar os trabalhadores e trabalhadoras que estão fora do mercado de trabalho formal. leva. informais. é que os sindicatos perdem atualmente o seu poder de representação. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Esta fragmentação colabora para que os problemas enfrentados por determinada categoria que cumpre sua função na divisão social do trabalho. estão fracionados para representar as diferentes categorias. também legalmente contratados como uma força conjunta frente ao capital. já que os desempregados e os trabalhadores e trabalhadoras precarizados. os sindicatos. pois como sabemos os sindicatos acabam por representar um fragmento da classe trabalhadora. representam e defendem os direitos de determinada categoria28. Como instituição. a representatividade sindical é corroída à medida que sua pretensão de falar pelo mundo do trabalho ou ao menos de sua parcela majoritária torna-se crescentemente insustentável.

o número de grevistas nesta greve dobrou em relação à de 1987. As greves gerais arquitetadas pela CUT resultaram em fortes movimentos de contestação e foram de grande importância política. A primeira acontece em 1983. principalmente em relação às greves. que procurava a manutenção do controle sobre o trabalho no lugar da produção. pró-imperialistas e pró-latifundiária do governo. Adotava uma postura oposicionista franca e direta de maneira a construir uma estratégia sindical combativa em relação à política pró-monopolistas. protestando contra mais um plano de estabilização do governo. 29 Cf. em protesto contra o Plano Cruzado II. contrapondo-se ao Plano Bresser e que tinha como motivação as modificações nas políticas salariais. 30 Cf. tendo a participação de dois a três milhões de trabalhadores e trabalhadoras. semana de quarenta horas e estabilidade de emprego. composta nesse período pelas correntes sindicais mais ativas. nas técnicas utilizadas nas fábricas japonesas e que correspondiam melhor as vontades do capital internacional. O sindicalismo do Brasil nos anos 80 inovava nas suas reivindicações pela criação das comissões de fábrica e desafiava o capital. os professores da rede pública de ensino federal e estadual. enquanto forma de organização unificada dos trabalhadores e trabalhadoras. Ao todo foram quatro greves gerais nesse período. Essa última greve também contou com a participação ativa de vários setores: os metalúrgicos e trabalhadores e trabalhadoras da indústria automobilística e química. reforma agrária. ainda. 2000.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG realizar ações.67 - . ALVES. sobretudo. Necessário se faz. chegando a vinte milhões de trabalhadores e trabalhadoras29. A quarta greve aconteceu em 1989. . particularmente contra o fim do congelamento de preços. A CUT. A segunda aconteceu em 1986. que visavam dar maior espaço e criar melhores condições para o desenvolvimento capitalista no Brasil30. entre outros. organizando as greves gerais em oposição às políticas adotadas pelo governo brasileiro. que o surto de reestruturação produtiva no Brasil sofre um novo avanço. É justamente no período dos anos 80. colocando em questão o controle exercido durante todo período de implantação do capitalismo industrial no Brasil. A principal característica da greve foi a de ser uma reação ofensiva da classe trabalhadora brasileira no sentido de se contrapor às investidas do capital e conquistar direitos para a classe trabalhadora. teve grande expressividade no movimento operário dos anos 80. em pleno regime militar e protestava contra um decreto que modificava a política salarial. como temos visto nos últimos anos. A terceira greve geral comandada pela CUT realizou-se em 1987. 04 a 10 de novembro de 2007. os petroleiros. BOITO. apresentar com maior profundidade a atuação da CUT nas décadas de 1980 e 1990. que nesse período também sofria as conseqüências das ações políticas e econômicas comandadas pelo governo. de maneira a incorporar as novas tecnologias nos processos produtivos e implementar novas formas de gestão e controle da produção baseadas. mas o movimento dava também ênfase a palavras de ordem como: não ao pagamento da dívida externa. de manutenção de empregos e de alguns dos direitos conquistados historicamente. 1999. que modificava a política de indexação dos salários. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). o Plano Verão.

Tais fatores.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG A partir dos anos 90. para o enfraquecimento das formas organizativas e de luta da classe trabalhadora. Com a vitória de Fernando Collor de Mello nas urnas e pelo voto popular. As greves deste período foram muito mais na busca de manter os direitos sociais conquistados historicamente. e logicamente a CUT. do que movimentos de reivindicação e de tomada de controle do processo produtivo ou de contestação ideológica. Um projeto que visava criar as condições para instauração do neoliberalismo e que. o desmantelamento do parque industrial nacional e o crescimento da miséria e do desemprego. o aumento das importações. mesmo com a saída vergonhosa de Collor via Impeachment. continuou a ser orquestrada pelos seus sucessores Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). somados à reestruturação do processo produtivo com base na aplicação de novas tecnologias. a luta sindical. A abertura da economia para o capital estrangeiro. nos anos 90 desarticula-se e se torna debilitado em sua capacidade de movimentação e organização da classe trabalhadora. é eleito também um projeto neoliberal para a política econômica brasileira. pois. o que permitiu uma investida mais dura do capital sobre os trabalhadores e trabalhadoras. apoiado pelas políticas do governo nacional que estimulou e legalizou a precarização das relações de trabalho. conseqüentemente. Essa crise da organização sindical brasileira acabou por colaborar para a instauração do novo modelo político e de acumulação.68 - . o sindicalismo classista e unificado que havia sido obstáculo durante os anos 80. são produtos conhecidos e visíveis desse processo de liberalização da economia. participam de um novo contexto histórico e social no Brasil. tem colaborado para a precarização das relações de trabalho no Brasil e. . 04 a 10 de novembro de 2007. ou na intenção de manter os empregos existentes.

econômicas. é reveladora do grau de desenvolvimento da luta de classes. Os trabalhadores e trabalhadoras não são um todo homogêneo e monolítico. construída ao longo dos seus 43 anos de existência. disposto a lutar de forma unânime pelas mesmas bandeiras. e de geração. luta não apenas por melhores salários. A ENFOC não se propõe a aprofundar todas as concepções e correntes politicas. étnicas. as organizações sindicais e os movimentos populares. pela superação das desigualdades sociais. deve ser implantado o socialismo. constituem-se em espaços privilegiados de enfrentamento de interesses. melhoria e desenvolvimento do capitalismo”. como alternativa. parte da identidade política do Movimento Sindical dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais. aliás. no campo e na cidade. Quanto à Sociedade e ao Estado. AS PRINCIPAIS IDÉIAS DO ANARQUISMO Anarquismo vem da palavra grega ANARQUIA. raciais. no campo e na cidade. de gênero. revela o grau de independência e maturidade política da classe trabalhadora brasileira. Nesse sentido. na perspectiva de uma maior compreensão da trajetória e contemporaneidade do sindicalismo no Brasil. A reflexão e aprofundamento dessas concepções e correntes. Foi feita a opção de nos debruçar sobre 04 concepções e correntes. Existem diferentes níveis de consciência de classe. a pesquisar. muitas vezes distintos. de visões de mundo e de projeto de sociedade. . os Anarquistas defendiam as seguintes idéias:  O capitalismo deve ser derrubado e. que significa “contra o governo. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Inclusive. refletir e compreender as ‘idéias’ que promoveu a constituição e consolidação do movimento sindical brasileiro. A classe trabalhadora. a autoridade e a dominação”.69 - . mais que isso. no campo e na cidade. existem segmentos que muitas vezes expressam programas de “conservação. Esperamos que estes textos estimulem aos participantes do 1º Curso da ENFOC. 04 a 10 de novembro de 2007.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG CONCEPÇÕES E CORRENTES SINDICAIS NO BRASIL Amarildo Carvalho de Souza e Domingos Corcione A trajetória das concepções e correntes políticas que constituíram e constituem o movimento sindical brasileiro. mais também. politicas.

como classe que se opõe à classe dos patrões. Devem ser organizados em pequenos grupos de fábrica ou por ofício. polícia. Os anarquistas assumiam uma posição antiparlamentarista e antipartidária. o socialismo sem classes e sem Estado. Os anarquistas eram contrários à liberação de dirigentes sindicais. Devem se unir segundo os ramos de produção. boicotes. em formas federativas ou em confederações: em nível local. a auto-gestão e o internacionalismo proletário. visando organizar a greve geral. as eleições e a Igreja. estadual e nacional. É preciso lutar contra o Estado (governo.que foram seus primeiros idealizadores .70 - .Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG   O socialismo deve ser democrático. coordenadas a partir de centros de produção dos trabalhadores e trabalhadoras organizados em sindicatos. Promover atividades culturais. Quanto à concepção e à prática sindical. que possam favorecer a conscientização dos trabalhadores e trabalhadoras. sempre preservando a autonomia de cada organização e evitando qualquer tipo de centralização que venham a prejudicar a participação direta dos trabalhadores e trabalhadoras em todas as decisões. formado por comunidades independentes. possibilitando a mais completa democracia.). O ANARQUISMO NO MUNDO O anarquismo se iniciou na metade do século XIX. Devem ser formados somente por trabalhadores e trabalhadoras conscientes. greves). Bakunin32 . Deve organizar somente os trabalhadores e as trabalhadoras. sustentados exclusivamente pelos trabalhadores e trabalhadoras. propondo a criação de cooperativas sem fins lucrativos voltadas para o auto-abastecimento e de bancos que concedessem empréstimos sem juros aos 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Devem ser organizados a partir do local de trabalho e implementar as lutas reivindicatórias. os anarquistas tinham posições bem definidas. 31 Precursor do anarquismo enfatizava o respeito à pequena propriedade. na França. sem nenhuma interferência do Estado. forças armadas. . Devem priorizar a ação direta (mobilizações.e de outros seguidores. 04 a 10 de novembro de 2007. poder judiciário. Deve organizar os trabalhadores e as trabalhadoras. descentralizado. Não consideravam a aliança com a classe média. dispostos a assumir a liderança na luta pelo socialismo. parlamento. pois são um mal e uma fonte de opressão. Devem ser autônomos e livres.. Pregavam a revolução proletária. onde todos tenham condições de participar.. que derrubará o sistema capitalista. formar sua consciência política. levando-as sempre mais adiante. Por meio de Proudhon31. Para eles os sindicatos:           Devem ser a arma principal de luta para derrubar o capitalismo e implantar o socialismo.

2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). até chegar aqui no Brasil no final do século XIX. É preciso combater as visões reformistas dos agentes do Governo e da Igreja Católica. .Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG se expandiu para a Rússia e para toda a Europa. empreendimentos produtivos e crédito gratuito aos trabalhadores. serem responsáveis primeiramente perante si mesmos. com 43 delegados. mesmo enfrentando problemas econômicos e repressão. perante a sociedade da qual fazem parte. e das decisões dos congressos operários. em conseqüência. particularmente na Itália e na Espanha. O anarco-sindicalismo influenciou também o campo. As propostas vencedoras do Congresso e a linha predominante da COB eram da corrente dos anarquistas:     A organização dos operários deve ser federativa e não centralizada. apesar de já estarem presentes em alguns segmentos da sociedade brasileira. nas primeiras décadas do século XX. As teorias e táticas do anarco-sindicalismo foram difundidas por meio de livros. AÇÃO DOS ANARQUISTAS NOS SINDICATO Em 1906 houve o 1º Congresso Operário Brasileiro. Suas propostas de supressão do Estado e de todas as formas de repressão encontraram receptividade entre os trabalhadores e trabalhadoras. dos panfletos. quando varias famílias de imigrantes italianos chegaram ao sul do país. seus principais veículos. O sindicalismo deve ser de resistência e não assistencialista. eleitos por 28 organizações operárias de todo o País. 04 a 10 de novembro de 2007. sem passar pela intermediação parlamentar: priorizar boicotes. franceses e belgas. Foram muitas as cooperativas e outras organizações de caráter cooperativo criadas pelos anarquistas. em estreita relação com a luta e o projeto político revolucionário. afirma que "A liberdade é o direito absoluto de todo homem ou mulher maiores de só procurar na própria consciência e na própria razão as sanções para seus atos. começaram a ganharam força no Brasil nas últimas décadas do século XIX. de determiná-los apenas por sua própria vontade e de. A DIFUSÃO DO ANARQUISMO NO BRASIL As idéias anarquistas.71 - . O importante é a ação direta da classe operária. tendo como objetivo a ajuda mútua. O Congresso fundou a Confederação Operária Brasileira (COB). com a condição de que consintam livremente dela fazerem parte". Essas famílias formaram comunidades com ideais libertários e constituíram as primeiras cooperativas. num contexto em que o jogo político era exclusividade das oligarquias e inexistia qualquer proteção ao trabalho. 32 Outro precursor do anarquismo. A expansão do anarquismo foi rápida nas grandes cidades brasileiras. greves e outras formas diretas de luta. por meio de imigrantes espanhóis. portugueses. sendo substituído por uma "república de pequenos proprietários" organizada num sistema federativo. Dizia que o Estado deveria ser destruído. mais precisamente no Paraná e posteriormente em Santa Catarina e Rio Grande do Sul. da imprensa. depois. atribuindo um papel político e revolucionário ao cooperativismo rural. italianos.

Como era ainda um número reduzido e não possuíam muitos recursos econômicos. contra seu inimigo comum. que não contavam com bases expressivas na capital). Essa conclusão partia da seguinte convicção: cada ação direta é uma batalha na qual o proletário conhece as necessidades da revolução. com o maior número de sindicatos e algumas categorias mais importantes da capital paulista. A destruição de equipamentos tocaria no ponto fraco do sistema. 04 a 10 de novembro de 2007. isto é. cada ação direta .72 - .Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Como se viu acima. dirigida pelos comunistas. que iludiam trabalhadores e trabalhadoras nacionais! Desde o início dos anos ’30 as principais categorias de trabalhadores e trabalhadoras do Estado de São Paulo estavam organizadas em sindicatos. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). boicote. O anarco-sindicalismo – assim como o anarquismo em geral – considerava que nas ações diretas seria legítimo o uso de um certo tipo e grau de violência. que foi obrigado a enfrentar grandes desafios. a greve geral que “destruirá o sistema capitalista”. . houve anos difíceis para o movimento operário. (sindicatos de cidades do interior. O principal foi o recrudescimento da repressão por parte do governo. pois as máquinas são de mais difícil substituição do que os trabalhadores e as trabalhadoras. sob a influência anarco-sindicalista. Os principais alvos passaram a ser os anarquistas. A maioria de jornais da época atestou a força e organização dos anarquistas do Brasil. sabotagem. por meio de sua própria experiência. que legitimava a deportação sumária de lideranças envolvidas em “distúrbios da ordem” e o fechamento de organizações operárias. com o desmantelamento da própria COB. Essa concepção e as práticas dela decorrentes se constituíam numa das características diferenciais do anarco-sindicalismo em relação a outras correntes e formas de ação do sindicalismo brasileiro. os capitalistas. Havia duas federações estaduais:   A Federação Operária de São Paulo (FOSP). Isso não quer dizer que não havia outros grupos políticos que dividiam com eles a liderança do movimento operário. Em 1921 foi aprovada a Lei de Expulsão dos Estrangeiros. Depois da greve.greve. apesar de alguns avanços em termos de legislação social. Por isso.era considerada um meio dos trabalhadores e trabalhadoras aprenderem a agir de uma maneira solidária em sua luta por melhores condições de trabalho. e se prepara para a ação final. A greve de 1917 foi comandada pelos anarquistas. A sabotagem – por exemplo . os anarco-sindicalistas entendiam que “a ação direta deveria ser a grande bandeira do sindicalismo revolucionário". no caso em que ele não pudesse entrar em greve.era vista como especialmente eficaz para o proletariado. A justificativa utilizada para a aprovação dessa lei repressiva era evidente: o movimento operário estava sendo controlado por lideranças estrangeiras radicais. . acabaram sendo poucos os jornais anarquistas que chegaram a publicar mais de cinco números. Esse jornal continuou irregularmente até 1920. A partir de 1908 a COB publicou seu jornal nacional “A VOZ DO TRABALHADOR”. etc. Como principais divulgadores do ideário anarquista destacaram-se José Oiticica. Everardo Dias e Edgard Leuenroth. A Federação Sindical Regional de São Paulo (FSRSP). Os primeiros jornais anarquistas e anarco-sindicalistas tentaram se sustentar apenas com as contribuições dos militantes.

quanto às estratégias de luta e à maneira de atuar . essa posição os levou ao isolamento político e contribuiu – no contexto das crescentes dificuldades relativas à sobrevivência dos sindicatos livres – para sua perda de influência no movimento sindical. pela OMC e pelo BID. assim como na oposição ao sindicalismo corporativista. ONDE ATUAM HOJE OS ANARQUISTAS? Apesar da reduzida presença de anarquistas no sindicalismo. 04 a 10 de novembro de 2007. Nesses grupos ou reuniões podem até aparecer divergências . É constituído por uma enorme massa de dirigentes burocratizados. Em organizações sociais – de ambientalistas. que continua sendo ativo até hoje.73 - . inclusive entre trabalhadores e trabalhadoras. devido à ausência de registros mais precisos. com a implantação da Estrutura Sindical – que tinha o Estado como seu principal regulador . Esse é o aspecto político e social mais profundo da questão: o “pelego” é o agente dos patrões e do Estado no movimento sindical.mas eles têm um ponto em comum: a luta contra qualquer sistema opressor.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Durante toda a década de 1930 os anarco-sindicalistas foram à única corrente sindical que se manteve irredutível na defesa da organização autônoma dos trabalhadores e trabalhadoras. O sindicalismo “amarelo” ou “peleguismo” é um fenômeno antigo no sindicalismo brasileiro. Enquanto a força dos anarquistas foi diminuindo. organizações sociais e sindicais. Os anarquistas podem ser vistos também:   Em manifestações realizadas para expressar insatisfações e protestos contra reuniões e encaminhamentos promovidos pelo grupo de países mais ricos (G 08).. .a corrente anarquista foi perdendo cada vez mais expressão e presença no movimento sindical. Existe uma carência de informações relacionadas com o anarquismo e sua atuação na atualidade. Desde os anos ‘80 foi identificado em muitas atividades de massa o movimento anarco-punk. Contudo. suas idéias continuam vivas em vários segmentos da sociedade. Mais tarde. para os quais o sindicato tem apenas um papel assistencialista e de intermediário legal nas relações entre o capital e o trabalho. no Brasil e no mundo. foi crescendo a influência dos comunistas no movimento sindical. refletindo a forte influencia de patrões e do Estado no movimento operário. que se expandia e se consolidava no Brasil.. de mulheres.entre os próprios anarquistas ou entre eles e as demais correntes. TRAJETORIA DO SINDICALISMO “AMARELO” OU “PELEGO”. jovens. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE).

Já as categorias vinculadas à indústria. 04 a 10 de novembro de 2007. isto é. eram tratadas de forma exclusivamente repressiva. dentre outras – criada naqueles sindicatos em que o pelego era sua representação maior. uma vez que sua paralisação estrangularia a economia. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Os grupos revolucionários os chamavam pejorativamente de "amarelos". À medida que o Ministério do Trabalho intervinha nos Sindicatos. escolas. como historicamente foi feito nas décadas anteriores”. de tendência reformista. “Pelego”. Foi criada também a Confederação Sindicalista Corporativista Brasileira. em 1912. consequentemente. Mas foi durante a década de 30 que os pelegos conseguiram as condições mais favoráveis para se eternizarem nas direções sindicais. Principalmente os setores cujas atividades eram indispensáveis para a exportação do café. Em que pese a forte presença dos anarquistas e. tinham prontamente atendidas suas reivindicações. interessada em obter conquistas específicas como diminuição da jornada de trabalho e aumentos salariais. esse segmento conservador encontrou ainda mais dificuldades. dado seu caráter secundário na economia agro-exportadora. O presidente Hermes da Fonseca. não revolucionária. em prejuízo da autonomia da classe”. Com a extinção do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) e do Tribunal de Segurança Nacional – organismos de repressão ideológica e política. pois organizou um congresso com representações sindicais. os pelegos eram indicados para dirigi-las a partir das orientações governamentais. Particularmente no Rio de Janeiro era bastante influente essa corrente política moderada. Os Sindicatos “amarelos” passaram a ser ainda mais favorecidos pelas vantagens concedidas pelo Estado. dentistas. “o sindicalismo brasileiro deve ser corporativo. Já nos primeiros anos da década de 1940 o Estado Novo mostrava seus primeiros sinais de debilidade.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Já em 1908 o jornal anarquista “A VOZ DO TRABALHADOR” órgão da Confederação Operaria Brasileira – COB definiu-os como “operários que bajulam os potentados. deixou de significar a manta colocada entre o cavalo e a sela para amortecer os solavancos e passou a ser sinônimo de sindicalista acomodado e comprometido com os patrões e o governo. o sindicalismo amarelo passou a ficar na defensiva. posteriormente dos comunistas e socialistas nas direções dos sindicatos. visando controlar os sindicatos e torná-los órgãos de conciliação entre as classes. como ferroviários e portuários. consolidou a seguinte concepção. um sindicalismo que concilie patrões e operários e não um sindicalismo revolucionário. mais que teve grandes conseqüências. O chamado Estado Novo.74 - . Lembre-se aqui a afirmativa do Presidente Washington Luís de que “a questão social era simples caso de policia”. baseado na luta entre classes inimigas. desenvolveu a primeira ação concreta para uma intervenção governamental nas decisões das organizações de trabalhadores. Esses grupos preocupavam-se ainda em garantir o reconhecimento dos sindicatos por parte do Estado. existentes durante o Estado Novo –. dentre outras coisas. Em 1921 o Estado fundou o Conselho Nacional do Trabalho. os amarelos ou pelegos representavam à maioria dos dirigentes na época. A criação do Imposto Sindical era o que faltava para garantir a imensa estrutura – com médicos. Federações e Confederações e destituía suas direções. .

O SINDICALISMO DE RESULTADOS E FORÇA SINDICAL O sindicalismo de resultado nasceu. dentre outros organismos sindicais internacionais ligados ao governo norte-americano. Alguns dos pontos centrais do seu ideário são:  Reconhecimento da vitória do capitalismo e da inevitabilidade da lógica do mercado. 04 a 10 de novembro de 2007. especialmente da CNTI. uma modernização conservadora.dentre outras coisas . denunciaram a direção pelega da CNTI e apresentaram uma “Carta de Princípios”. que penetrou também no movimento sindical em nosso país. por exemplo. assembléia constituinte . para permanecer como órgão de controle sindical e político. Além de receberem todos esses apoios financeiros. fortalecido na grande maioria das entidades sindicais. durante o congresso promovido pela Confederação Nacional dos Trabalhadores na Indústria – CNTI. dominada há décadas pelo pelego Ari Campista. A fundação do Comando Geral dos Trabalhadores (CGT). uma nova direita no movimento sindical. eleições diretas. A retomada das lutas politicas e sindicais no início dos anos 1960 recolocaram os pelegos na defensiva.estimulou o sindicalismo pelego a um processo de auto-reforma. muitos dirigentes pelegos tornaram-se interventores do Ministério do Trabalho durante o governo militar. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). a exemplo da CONTAG. objetivava . Apesar dessa hegemonia. Tudo isso facilitou que os pelegos retornassem às direções dos sindicatos mais importantes do país.combater o ‘peleguismo’ das Confederações Nacionais. colocou na ilegalidade o partido comunista.75 - . inicialmente. As transformações mais recentes ocorridas nos anos 1980 . os pelegos voltaram a ter hegemonia e domínio sobre os destinos do sindicalismo brasileiro. na segunda metade da década de 1980. decretou a intervenção e suspensão das eleições sindicais. num dado momento. fim do bipartidarismo. Esse sindicalismo foi modificando sua forma de ser. da Organização Regional Interamericana do Trabalho – ORIT.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Uma O avanço das lutas operárias foi freado com o golpe e o governo do Marechal Dutra. no Brasil. que em 1964 teve sua presidência ocupada por um deles. os pelegos receberam apoio financeiro da Confederação Internacional das Organizações Sindicais Livres – CIOSL. procurando coibir as ações autônomas e independentes dos trabalhadores e trabalhadoras. Durante este período. que se tornou a principal referencia para a retomada das entidades sindicais operarias. distinta do velho ‘peleguismo’ e perfeitamente inserida na onda neoliberal.anistia aos exilados políticos. Dutra proibiu a existência do Movimento Unificado dos Trabalhadores (MUT). da confluência de duas atuações sindicais que vivenciaram trajetórias distintas e que. . Referimo-nos à confluência da atuação de amarelos ou pelegos com a ação de líderes sindicais pragmáticos. em julho de 1978. Dentre outras medidas. Assim formou-se. abraçou o mesmo projeto. um grupo de sindicalistas que se autodenominavam ‘autênticos’. O assistencialismo foi mantido e.

os sindicatos passaram a ser vistos como instrumentos que devem contribuir para a luta revolucionária do proletariado pela tomada do poder político. carros. ALGUNS REFERENCIAIS TEÓRICOS DO COMUNISMO Com base no assim chamado “socialismo científico” no final do século XIX. Que fazem sucesso freqüentemente pela música de baixíssima qualidade e doam apartamentos. Este é o âmbito e o campo ideológico onde o sindicalismo de resultados opera e atua. que pregam 33 Ricardo Antunes é professor livre docente em sociologia do trabalho na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).conformaram uma feição neoliberal e burguesa no seio do movimento sindical brasileiro. dizíamos. a Central organiza grandes manifestações. em entrevista à Folha de S. calculadas para que não extrapolem o âmbito da negociação .. . Essa doutrina passou a se diferenciar tanto dos reformistas. Por isso. Atribuir o papel da ação política exclusivamente aos partidos.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG    Restringir a luta sindical à busca de melhorias nas condições de trabalho. in Jornal dos Trabalhadores Rurais SEM TERRA Ano XXIV – numero 252 – maio de 2006. Estes pontos básicos .aliados a uma estratégia que recusa o confronto e procura extrair resultados imediatos nas ações sindicais. Diminuir o papel do Estado. É a política de pão e circo. portanto. reduzindo apenas sua ação a uma linha política privatizante. E quanto ao papel dos sindicatos: “O sindicato é um fator de mercado e deve. Conforme disse Luís Antônio Medeiros. duas confederações e vinte federações – fundada no início de 1991 .caminha no sentido de consolidar o sindicalismo de resultado: um sindicalismo que projete “que todos (os trabalhadores) necessitam. Eu diria que todo sindicato que se preze faz parte da reprodução capitalista. qual é o objetivo do sindicato? É lutar para vender a mão-de-obra pelo preço mais alto possível. Eu quero a divisão das riquezas e a minha briga não é pela mudança do regime”. 04 a 10 de novembro de 2007. é algo muito distinto do peleguismo (sempre atrelado ao Estado e dele porta-voz) e conforma o que caracterizamos como sendo a nova direita no movimento sindical. “Estamos procurando caminhos novos. valorizar o preço de mãode-obra”. A Força Sindical. não cabendo aos sindicatos extrapolarem este âmbito da luta. que devem estar totalmente desvinculados da ação sindical. eletrodomésticos”33. e exigem uma central sindical que não seja ‘revolucionarista’”. Pois..76 - . Se crio o mercado interno estou fortalecendo o nosso capitalismo”. Para atrair um grande público. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Foi a Força Sindical que introduziu a prática recorrente de um 1° de maio como um circo para os trabalhadores e trabalhadoras. chama artistas da indústria cultural. Paulo (20/08/87): “Eu acho que o capitalismo venceu no Brasil. contando com o apoio de cerca de 300 sindicatos. tendo a frete Karl Marx e Friedrich Engels.

Mostra apenas suas limitações e prega a transformação da luta econômica em luta política pela tomada do poder. Outra característica da corrente marxista é a defesa da unidade dos trabalhadores. acumular forças. a fim de conseguir melhores condições que os coloquem ao menos em situação superior à de simples escravos”. Para Lênin. dos operários aristocratas ou operários aburguesados”. o marxismo condena as tentativas de dividir as organizações sindicais por motivos políticopartidários ou religiosos. Acompanhando a evolução do sindicalismo. Aponta outros objetivos da atividade sindical. enquanto o operário só dispõe da sua força de trabalho. Marx vai perceber a miopia economicista e apontará qual deve ser a tarefa maior dos sindicatos no capitalismo. da inevitável concorrência entre eles próprios. o marxismo vai fazer esforços no sentido da unidade dos trabalhadores. que coloquem em risco a organização dos trabalhadores e trabalhadoras. . Mas a força do número se quebra pela desunião. Seu objetivo imediato “concretiza“concretiza-se nas exigências do diadia-adia.77 - . Mas demonstram ser partes ineficazes em virtude do mal compreendido uso de sua força. o marxismo não adota a mesma visão dos anarquistas nessa questão. Para Marx. Partindo desse princípio norteador. repousar nunca em justas condições. nos meios de resistência contra os incessantes ataques do capital”. usando a força organizada como alavanca para a libertação definitiva da classe operária”. Os teóricos do comunismo vêem os sindicatos. Exatamente por isso. Muito pelo contrário. que á a tomada do poder pelo proletariado. A divisão dos operários é produto e resultado. sobretudo.. “os sindicatos sindicatos são indispensáveis para a guerra de guerrilha cotidiana entre o capital e o trabalho”. preparando para as novas batalhas. ao mesmo tempo. portanto. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Dos sindicatos nascem precisamente os impulsos espontâneos dos operários para eliminar. Para o marxismo. “Os sindicatos trabalham bem como centros de resistência contra os ataques do capital. ou pelo menos reduzir essa concorrência. como das anarquistas. já que o capitalismo tem capacidade para assimilar as pequenas melhorias salariais .. a luta puramente econômica não conduz a nada. Marx diz: “O capital é o poder social concentrado. principalmente o da Inglaterra. “Não atuar no seio dos sindicatos reacionários significa abandonar as massas operárias insuficientemente desenvolvidas ou atrasadas à influência de líderes reacionários. Em geral. Isso não significa que o marxismo negue a luta econômica. como centros organizadores do proletariado. que negam a luta política pelo poder. Entretanto. dos agentes da burguesia. deve ser rejeitada.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG mudanças graduais no capitalismo. Do lado do operário sua única força é o número. que devem ser “escolas do socialismo”. O contrato entre capital e trabalho não pode. não se limitando a uma visão economicista. Relaciona sempre as lutas parciais com seu objetivo final. Mas a concepção Marxista vai além. a greve deve ter como principal objetivo organizar os trabalhadores. uma greve por interesses imediatos. as correntes que encaram os sindicatos nos estreitos marcos corporativos. o marxismo condena o economicismo.garantindo sua taxa de maisvalia. em vez de trabalharem. erram o caminho porque se limitam a uma guerra de guerrilhas contra os efeitos do sistema existente. 04 a 10 de novembro de 2007. Ele aponta que a greve não deve ser vista como a única arma de luta dos trabalhadores e trabalhadoras. Por isso. para a sua transformação. Para essa concepção.

. que se de um lado não se apresentava como uma alternativa imediata de poder causou apreensão do Estado oligárquico. Em 1929 é criada a Confederação Geral dos Trabalhadores Brasileiros – CGTB (funcionando até 1936) sob controle dos comunistas que passam a exercer a hegemonia sobre o movimento sindical brasileiro. dirigida por sindicalistas ligados ao Ministério do Trabalho ou que aceitavam sua tutela. Entre os fundadores estavam ex-lideranças anarquistas como Astrojildo Pereira e Otávio Brandão. Ao contrário dos anarquistas. Os comunistas defenderam desde o inicio a unidade sindical. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). a buscarem aliados e a participar da vida parlamentar do país. essas premissas não eliminam o risco de uma submissão do sindicato ao partido. o marxismo não nega a importância da luta sindical. militantes brasileiros fundaram o Partido Comunista do Brasil (PCB).78 - . crescia progressivamente o numero de entidades organizadas conforme a legislação e. levando-os a se chocarem com os anarquistas e com a repressão policial. os comunistas o viam como um espaço a ser ocupado e transformado. o comunismo surgiu a partir da desagregação do anarquismo – e não da crise da social democracia. surgiram as duas características marcantes da atuação comunista: o trabalho em sindicatos reacionários e pelegos e a politização da luta operaria (contra o imperialismo e contra o latifúndio). Talvez seja também por isso que os comunistas tenham sido muitas vezes acusados de fazerem do sindicato uma mera “correia de transmissão do partido”. Essas concepções os levaram. PARTICIPAÇÃO DOS COMUNISTAS BRASILEIROS BRASILEIROS NO MOVIMENTO SINDICAL No Brasil. seja nos breves momentos de vida legal. Contudo. Nesse sentido. Para ela. mas destaca que há diferenças entra assas duas formas de organização e que elas devem ser preservadas. muitos esforços foram feitos para fortalecer o movimento sindical. a principal palavra de ordem dos comunistas foi “ir às massas”. Quando fala em supremacia do partido. embalados pela criação do primeiro Estado socialista na Rússia. marcado pela forte repressão ao movimento sindical independente e pela regulamentação e controle das relações de trabalho e da organização sindical pelo Estado Getulista. foram de luta entre os sindicatos livres e o governo. As entidades operárias independentes não aceitavam os decretos sobre sindicalização. o partido revolucionário é um estágio superior de organização. a concepção marxista ressalta a supremacia do partido político sobre o sindicato. Contudo.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Exatamente por enfatizar que o primeiro objetivo do proletariado é a conquista do poder político. em conseqüência. A partir de 1922. seja na ilegalidade. que viam o Estado como um mal em si. Os primeiros aos da década de 1930. Entre a fundação do Partido Comunista e seu II Congresso em 1925. As décadas de 20 e 30 do século passado foi um período de grandes desafios para o movimento sindical brasileiro. como em outros países – e a história dos primeiros anos desse movimento é a crônica de seu esforço para derrotar a influencia anarquista e indicar novos rumos à luta operaria e sindical. 04 a 10 de novembro de 2007.

Um novo período de colaboração de classes se esboçava. fechamento do Partido Comunista e da CGTB. de desenvolvimento pacifico. foi criado o Comando 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE).79 - . o partido coordenou uma ampla articulação de setores nacionalistas para a formação de uma frente democrática. adotando a legenda PC do B. os direitos individuais e coletivos retornam a normalidade. . que lutava por um governo popular e que chegou a congregar em suas fileiras amplas massas populares do país inteiro. Uma de suas primeiras iniciativas foi à rearticulação do movimento sindical independente. quando foi reorganizado o Partido Comunista do Brasil. Em 1937. Naquela conjuntura os sindicalistas comunistas orientados pelo partido. O Partido Comunista foi praticamente dispersado. etc. No mesmo ano. secretário-geral do Partido Comunista. autonomia administrativa para os sindicatos. rápidas e eficazes para os graves problemas econômicos de hoje”. “ajudando a colocar o movimento sindical em função dos interesses de determinados setores burgueses. Getulio Vargas rasgou – por meio de um golpe . num congresso com 400 delegados de 11 estados”. e os mais variados atores sociais. constituir a Aliança Nacional Libertadora. que congregava sindicalistas getulistas. desde o proletariado até a burguesia nacional”. perseguida pelo Governo Vargas.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Com a promulgação da Constituição Federal em 1934. perseguição a todos os sindicalistas independentes. com representantes de 300 sindicatos de todo o país”. foi desencadeado outra ofensiva conservadora contra a classe trabalhadora: intervenção em mais de 400 importantes sindicatos. dando inicio à aliança do Partido Comunista com o Partido Trabalhista Brasileiro. No ano seguinte. “com a derrota do nazismo. Com a eleição de Vargas em 1950. Durante o governo Vargas e. “frente única revolucionária anti-imperialista e anti-feudal. o Partido Comunista começou a se reorganizar em entidades sindicais. 04 a 10 de novembro de 2007. “o PCB organizou o Congresso de Unidade Sindical. que prescindiria da revolução.a Constituição e dá origem ao Estado Novo. Tal tendência refletiu-se logo no refluxo da luta pela autonomia sindical e pela destruição da estrutura sindical corporativista. a influencia sindical dos comunistas cresceu. os sindicalistas comunistas foram perseguidos e afastados das direções de inúmeras entidades. funda o Movimento Unificador dos Trabalhadores – MUT. principalmente com a extinção do ‘atestado ideológico’. apoiado por 300 dirigentes sindicais de 13 estados. defendiam claramente a conciliação de classes: “por intermédio das organizações sindicais a classe operaria pode ajudar o governo e os patrões a encontrar soluções práticas. defendia Luiz Carlos Prestes. O movimento sindical passou a acomodar-se”.”. eleição e posse dos dirigentes sindicais independente da aprovação pelo governo. Seu manifesto pedia “a mais ampla liberdade sindical. Quando o Estado Novo entrou em crise. numa Conferência Nacional Extraordinária. sem a presença obrigatória do Ministério do Trabalho. A reação de militantes comunistas vem a ocorrer com mais força em 1962. Essa orientação de fundo oportunista estava baseada na idéia de que. a soberania das assembléias sindicais. Com o governo do Marechal Dutra. surgia uma nova época. após o suicídio do presidente em agosto de 1954. em 30 de abril de 1945. alem de junto com outros segmentos da sociedade. A hegemonia desses setores dentro do partido e dentre os sindicalistas comunistas crescia ano a ano. “o PCB organizou a Confederação Sindical Unitária do Brasil.”.

Essa época de recuo durou até 1977. ocorre a primeira grande greve operaria no ABC. a própria burguesia dá espaço para a refundação da Igreja. publicada pelo Papa Leão XIII. e suas Federações Estaduais. Em 1978. em 15 de maio de 1891. sendo o poder espiritual do sistema em vigor. a exemplo das Confederações: dos trabalhadores na indústria – CNTI. O capitalismo. entretanto.tão marcante no período da Inquisição. tanto econômico. Depende dela também para controlar o jovem proletariado. apesar de num primeiro momento manter suas tradições aristocráticas. a Igreja Católica adota oficialmente uma doutrina para a sua atuação no movimento social. a Igreja possuía grande poder. Os feudos. Até esta data. quando o país voltou a mover-se. uma central que colocou em pânico as elites com a perspectiva daquilo que eles chamavam de “República Sindicalista”. A partir de 1988. o fim da alta do custo de vida. essa instituição ainda preservava suas tradições elitistas e aristocráticas. dos trabalhadores no comercio – CNTC. 04 a 10 de novembro de 2007. Contudo. A igreja resistiu violentamente ao fim do feudalismo. dos trabalhadores em empresas de credito – CONTEC. Ela era a maior propriedade feudal da Europa. Exercia com exclusividade o poder religioso. ao golpe militar que depôs João Goulart. entretanto vigora. esta aparente força não se materializa em reação dos trabalhadores e das suas organizações. A Igreja exercia esse poder. Segundo o sermão mais conhecido na Europa no século XVI. A Igreja se adapta ao novo sistema social. a Igreja perde poder. como político. controlando cerca de 1/3 das terras agricultáveis. A nova conjuntura forçou o movimento sindical combativo a recuar.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Geral dos Trabalhadores – CGT. fluviais e aéreos – CNTTMFA. A orientação cupulista para o sindicalismo continuava com forte influencia em importantes estruturas sindicais. O 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). próprias de período feudal. E era também o poder político. Durante o feudalismo.80 - . . As tentativas mais importantes de contrapor-se à perseguição policial e ao arrocho salarial revelaram as limitações existentes e os dilemas em que o movimento operário se debatia. dependiam da instituição religiosa para manter o controle político. “Deus fez clérigos. para preservar a “pureza da alma humana” e através da repressão . ALGUNS REFERENCIAIS DO SINDICALISMO CRISTÃO A partir da encíclica Rerum Novarum (Das coisas novas). anistia aos políticos perseguidos. Posteriormente. via seus tabus ideológicos. dispersos e constituindo-se como mini-Estados. passaram a se organizar na Corrente Sindical Classista. exigindo o fim da ditadura. os dirigentes sindicais comunistas ligados ao PC do B. dos trabalhadores em transporte marítimos. Esse conservadorismo não corresponde à mentalidade emanada do novo sistema. a exemplo das greves de Contagem – MG e de Osasco – SP em finais da década de 1960. etc. As relações capitalistas de produção enfraquecem os preconceitos religiosos. mas os demônios fizeram a burguesia”. principalmente no sindicalismo.

explica José Cândido Filho. “Ela nasceu. sobretudo para enfrentar o avanço do socialismo. Com base nessa doutrina. Outra característica fundamental do sindicalismo cristão é o anticomunismo. . católicas ou protestantes. mas para “proteger os trabalhadores católicos contra os perigos socialistas”.“que é um direito natural dos homens”. particularmente a revolução social do marxismo”. tinham sido abandonadas por estas”. Outra razão. as greves. Entre capital e trabalho não deve haver antagonismos. Para realizar as reformas graduais no capitalismo. O para qualifica o pensamento socialista como falso. A Confederação Internacional dos Sindicatos Cristãos. Surgem os primeiros conflitos de classe. os militantes católicos atuaram no sindicalismo com uma concepção reformista.” Rejeita.os sindicatos e as cooperativas. afirmam que o terreno propício é a própria Igreja . porque prega a supressão da prioridade privada . e também as novas formas de organização dos explorados . é que “o sindicalismo cristão aparece tardiamente (43 anos depois do Manifesto Comunista de Marx e Engels). inclusive católicos. A encíclica propunha a criação dos sindicatos aos moldes das antigas corporações de artesãos e também estimulava a formação de associações mutualistas. afirma que a Igreja só passou a se preocupar com o movimento sindical como forma de se contrapor ao aumento da influência das idéias revolucionárias. Para a Rerun Novarum. Daí o surgimento da Rerum Novarum. Defenderam o papel assistencialista dos sindicatos. Miguel Gonzáles Núniz acredita que uma das causas do fraco desenvolvimento da corrente cristã é que ela não atuará nos sindicatos como organismos de luta por conquistas materiais. ou melhor. procurando encontrar-se função social” do capital. necessária e conveniente para o homem. a harmonia entre as classes. A Igreja perde base social.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG proletariado. autor do livro “O movimento operário: o sindicato e o partido”. que é um marco na viagem da Igreja católica com vista aos movimentos sociais. “porque gera ódios e extingue nos homens o estímulo ao trabalho”. é um homem “livre”. A religiosidade popular não garante mais a sustentação da instituição católica. Além disso. portanto. luta de classes obedecendo-se os princípios da “caridade cristã”. para torná-lo um sistema “justo e eqüitativo”. obedecendo aos princípios da caridade cristã”. central sindical fundada no Congresso de Haia. existe no capitalismo “uma desigualdade natural. a violência e a luta de classes. Leão XIII considera as idéias socialistas subversivas. tendo como mediadora a Igreja que dessa forma tenta readquirir o seu poder político. segundo o autor. Os estatutos dos Círculos Operários 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). haviam abandonado as Igrejas. que deve estabelecer leis para proteção e promoção do ser humano. chega a afirmar que “a vida econômica e social implica a colaboração de todos os filhos de um mesmo povo. desiludidas também no plano espiritual (desconfiança da irmandade capitalismo-poder-igreja). “o capital e o trabalho devem viver em colaboração um com outro.81 - . de conciliação de classes. Parcelas da jovem classe operária se aproximam das idéias anarquistas e marxistas. Ela confia a sorte dos trabalhadores à ação do Estado. 04 a 10 de novembro de 2007. Muitos historiadores. O fundamental é a paz social. De acordo com essa encíclica papal. “filhos de um mesmo Deus”. Eles rejeitaram energicamente as greves e outras formas de confronto. o luddismo. A Rerum Novarum vai criticar tanto o socialismo como o liberalismo.já que ela reúne patrões e empregados. quando as massas proletárias. Os exageros de injustiças devem ser reformados. diferente do servo camponês. em 1920.

juntamente com a reação. o manifesto “Nordeste. bispo de Recife. no final da década de 1970. os deputados eleitos com o apoio do LEC (Liga Eleitoral Católica). tendo a frente o cardeal Sebastião Leme. Escolas de Lideres Operários e Movimento de Orientação Sindical. foi levada à prática em vários países. principalmente na Europa. seu numero chegou a atingir entre 50 a 100 mil CEBs. Em pleno Estado Novo. que atuavam por fora dos sindicatos existentes. Os Círculos Operários. Na Constituinte de 1934. As profundas mudanças promovidas pelo CELAM (Conselho Episcopal Latino Americano) em Medellín. Um dos primeiros itens de seu objetivo era o “combate ao comunismo”. por sua vez. envolvendo mais de 2 milhões de filiados. Calcula-se que no auge do movimento. influiria de forma também decisiva na modernização do clero latino-americano e na formulação da Teologia da Libertação. Helder Câmara. uma direção que seria seguida por enorme parcela do clero brasileiro que. 04 a 10 de novembro de 2007. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). em 1979). os deputados vinculados à Igreja defenderam. Um dos resultados mais visíveis das mudanças promovidas em Medellín foram as comunidades eclesiais de base – CEBs. dentre eles. mais uma vez. O documento foi confiscado pela policia e os bispos foram proibidos de publicá-lo D. desenvolvimento sem justiça”. Vários materiais foram publicados nesse sentido. juntamente com os parlamentares da UDN. Em 1966. a implantação do pluralismo sindical. . como importantes instrumentos de organização e mobilização. defendem.82 - . foram responsáveis pela formação de inúmeras lideranças sindicais em todo o país. E na Constituinte de 1945. a hierarquia católica apresenta ao ditador Getúlio Vargas a proposta de transformar os aproximadamente 400 círculos operários católicos existentes em sindicatos paralelos. seu temor era o contágio dos fiéis com as novas idéias. SINDICALISMO CRISTÃO NO BRASIL Desde o início da atuação organizada dos católicos no sindicalismo brasileiro. em todo o país. Essa tese. As mudanças que a Igreja vivia a nível internacional tiveram influencia decisiva nesse quadro. um livreto muito difundido “Como combater os comunistas nos sindicatos”. que leva à fragmentação da organização sindical.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Católicos no Brasil são bem elucidativos. a Igreja organizou os círculos operários. A Igreja do Nordeste foi pioneira nas criticas radicais contra o regime. uma forte denúncia do regime e da situação da classe trabalhadora.que inclusive é aprovado. com o apoio da Regional Nordeste II da CNBB. a implantação do pluralismo sindical . fundamentavam a atuação dos progressistas da Igreja brasileira. em 1968 (confirmadas em Puebla. da Federação dos Círculos Operários de São Paulo. Estas lideranças estiveram ao lado dos conspiradores do golpe militar de 64. escrito por Frei Celso em 1964. que proliferaram nas grandes e medias cidades brasileiras a partir de finais da década de 1960. que recomendavam a opção preferencial pelos pobres. foi acusado de comunista e ameaçado de prisão. A Igreja advoga a separação dos católicos dos que professam confissões e idéias diferentes. O Concilio Vaticano II já havia apontado o caminho da realização do reino de Deus neste mundo neste mundo.

O assassinato de Santo Dias da Silva. Evitar o agravamento dos conflitos sociais. essas forças politicas formaram a ANAMPOS (oficialmente. IV Encontro Nacional da Articulação Nacional dos Movimentos Populares e Sindicais). CRISTÃOS (católicos) • • • • 2. AMARELOS AMARELOS Sem violência. • Combate ao comunismo • • Sem violência. em fevereiro de 1980. 04 a 10 de novembro de 2007. na articulação do Partido dos Trabalhadores. e lideranças católicas. QUADROQUADRO-SÍNTESE POSIÇÕES MEIOS PROPOSTOS OBJETIVOS Luta contra as injustiças. e ativistas ligados às novas diretorias sindicais “autenticas” ocorreu em João Monlevade. Em 1983. Um importante encontro de lideres de pastorais operarias. com o apoio da imensa maioria dos militantes católicos e. tornou-se um dos mártires da luta operaria. . • Formação ideológica de • lideranças sindicais 1. de comunidades eclesiais de base. • Realização do reino de Deus Teologia da Libertação neste mundo Opção preferencial pelos pobres • Denúncia do regime e da Organização social de base (CEBs situação da classe trabalhadora e as Pastorais) • Redemocratização do país • Reorganização do movimento sindical no campo e na cidade • Colaboração de classes. • • Colaboração entre as classes. na onda de greves iniciada em 1978 os militantes católicos tiveram papel destacado na reorganização do movimento sindical. em Goiânia. Minas Gerais. • Continuidade do capitalismo. Em junho de 1982. de movimentos populares. principalmente. acelerou-se com as greves. no afastamento das diretorias pelegas dos sindicatos e. Paulo Evaristo Arns.83 - . onde foram estabelecidos “alguns princípios básicos ligados à luta pela democratização da estrutura sindical”. Desenvolver a função social do capitalismo. no ano seguinte. A aproximação entre militantes da oposição sindical. levou a uma maior intensificação das manifestações. em vista de uma sociedade fraterna e justa. • Sindicatos e organizações • Negação da existência da luta comuns (entre patrões e de classes. esse movimento culminou na fundação da Central Única dos Trabalhadores – CUT. militantes de outras concepções e correntes políticas. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE).Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Quando o movimento operário brasileiro atingiu novo patamar. ele que era dirigente da Pastoral Operaria e muito próximo de D. de movimentos de base. oposições sindicais.

GIANNOTTI Antônio e NETO Sebastião . • Estrutura Sindical federativa. 03 – junho/julho/agosto – 1987. sem Estado.Novo Sindicalismo. Ano XXIV – numero 252 – maio de 2006.84 - . • Sindicatos assistencialistas. RUI. Revista Debate Sindical. José Carlos – Sindicalismo Cristão II.O que é Sindicalismo. Ditadura do Proletariado. ANTUNES. José Carlos – Pelegos. • Ação direta contra o Estado e os patrões. ANTUNES. José Carlos – Comunistas II. • • • • • • • O Sindicato é o principal instrumento de luta. Destruição do capitalismo. 1987. CEPS. nº 11 – fevereiro/março/abril – 1992. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). 1985. Socialismo e Comunismo. 07 – março – 1990. Fortalecimento do Estado Revolução proletária. José Carlos – Comunistas I.C. nº. • Destruição do capitalismo.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG 3. nº. nº. Revista Debate Sindical. • Greve.C.C. • O Partido é o principal instrumento de luta. • Greve geral insurrecional.Abril Cultural. 04 a 10 de novembro de 2007. • Participação parlamentar. Apostila de Concepção. • Revolução proletária. Coleção Primeiros Passos . Ricardo L. – Jornal dos Trabalhadores Sem Terra.CUT Ontem e Hoje.1991. Ricardo L. Revista Debate Sindical. Editora Vozes . ANARQUISTAS operários). Secretaria Nacional de Formação da CUT. • Internacionalismo proletário. 02 – junho/julho/agosto – 1986. Revista Debate Sindical. • Sociedade sem classes. • Antipartidarismo. Internacionalismo proletário. RUI. 06 – out/nov/dez – 1989. • Auto-gestão. Revista Debate Sindical. Ricardo L. RUI. Estrutura e Política Sindical. RUI. • Combinação de ação legal e clandestina. RUI. • Contra a liberação de dirigentes sindicais. .1991. • Insurreição. • Antiparlamentarismo. . nº. . Editora Brasil Urgente . BIBLIOGRAFIA • • • • • • • • • • ANTUNES. • Sociedade harmoniosa. José Carlos – A presença dos anarquistas nos sindicatos. COMUNISTAS 4.

diante do desafio de trazer ao debate questões que se inserem nas reflexões em torno do enraizamento histórico do sindicalismo rural no Brasil. No começo do século XIX já existiam algumas associações de artesãos. considerando os limites a que nos propomos discutir o assunto em pauta." Gonzaguinha PARA INICIO DE CONVERSA Nos colocamos. quem trabalhara no Brasil foram os escravos e a sociedade imperial escravista desmerecera inteiramente o ato de 34 Pedagoga e Psicóloga.com proporções e alcances distintos. acidentes no trabalho. 04 a 10 de novembro de 2007. política e econômica. juntamente com a Abolição da escravidão (1888).85 - . etc. invalidez. mobilização que se constroem nos locais de trabalho. a ausência de direitos. de organização. Evidentemente.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG A HISTORIA DAS NOSSAS RAÍZES: ITINERÁRIO DAS LUTAS DOS TRABALHADORES (AS) RURAIS NO BRASIL E O SURGIMENTO DO SINDICALISMO RURAL Maria do Socorro Silva34 "Da desparecença dos tempos aprendo as tranças e tramas das novas lições. nesse momento.assegura o direito à associação e a reunião deixando em aberto qual seria o tipo de organização. ou seja. Até então. é o período de delineamento da identidade social e política do trabalhador brasileiro. . interesses e projetos. ora manifestando-se como amplos movimentos de massa construindo novas formas de organização social. que se traduz.. etc . o processo no qual é gestado a dinâmica do movimento sindical dos trabalhadores(as) rurais (MSTTR). caixas beneficentes. nesse texto. como se constituiu a estrutura sindical oficial no Brasil. que se segue. bolsa de trabalho. A chamada Primeira República. Monárquica35 e Republicana36 A proclamação da República (1889). havia anteriormente trabalhadores. em nosso país conflitos e rebeliões populares formados por complexa composição étnica. onde constroem uma identidade e organizam práticas que visam defender direitos. na roça e na comunidade. Professora da Faculdade de Educação da UnB/UFCG. restringeremos nossa análise a elencar alguns movimentos ou lutas que contribuíram para esse processo. mas organizadas sob a forma de irmandades religiosas. camponeses. religiosos. 36 A primeira constituição republicana foi a de 1891 . ora manifestando-se como ações específicas e localizadas ou movimentos messiânicos. 35 No período Imperial tivemos apenas o nascimento das primeiras organizações operárias. mas não uma classe trabalhadora. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). escravos. a luta pela posse da terra e por melhores condições de vida e de trabalho nas sociedades Colonial. como sujeitos coletivos. a miséria. marcam um dos momentos de maior transformação social já vivido pelo país. É na teia de constituição dessas lutas que se forjam as condições para a tomada de consciência do que significa ser trabalhador(a) rural. concretamente. a dependência. As primeiras organizações operárias. Porém. Doutoranda em Educação da UFPE. de confronto com a opressão. seleiros. num amplo imbricamento de ações. barqueiros. Esse processo se dá através de lutas de resistências. social e ideológica – índios. foram associações voltadas para a ajuda mútua em situações de doença. sociedades de resistência. caboclos. Desde a chegada dos colonizadores portugueses que tivemos. surgiram então às primeiras organizações de socorros mútuos. sem um caráter essencialmente religioso. alfaiates. Os movimentos sociais do campo vem se constituindo ao longo da nossa história.

mas sim constituísse a mão de obra assalariada necessária nos latifúndios. movimentos de escravos. do sindicalismo rural brasileiro. brasileiros pobres. 04 a 10 de novembro de 2007. primeiro com a chegada dos primeiros colonos europeus não-portugueses. foram para o norte. podem sinalizar para descobertas importantes na construção de uma sociedade mais justa. Quando o trabalho ficou livre. suíços. alemães.86 - . segundo José de Souza Martins. milhares de nordestinos. trabalhar na extração dos produtos da floresta. deve surgir e partir dos próprios oprimidos. revoltas como da Cabanagem e Balaiada. que passaram a ocupar áreas ainda não utilizadas. a partir de 1819. todos agricultores pobres atraídos para o Brasil por promessas de terra. os posseiros e os imigrantes pudessem se tornar proprietários. fugindo da seca e da crise econômica dos engenhos de açúcar. e no fortalecimento das organizações no momento atual.Lutas e mobilizações pela liberdade A luta dos trabalhadores (as) rurais brasileiros pela posse da terra. . que se disponha a transformar essa realidade. nas regiões Sul e Sudeste. isso impedia que os ex-escravos. que tiveram um grande peso na formação da atual população de agricultores familiares amazônicos. PRIMEIRO MOMENTO: DAS LUTAS PELA LIBERDADE AO SURGIMENTO DO SINDICALISMO RURAL “O movimento para a liberdade. professor da USP: “Enquanto o trabalho era escravo. italianos. visando garantir melhores condições de trabalho e de vida fazem parte da história do povo brasileiro: lutas de tribos indígenas. para o cultivo do café. os trabalhadores não poderiam romper seus contratos a não ser que pagassem ao patrão quantia correspondente e se não o fizessem estariam sujeitos à prisão com trabalhos forçados até pagar suas dívidas.” Paulo Freire 1.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG trabalhar. começamos a ter uma nova configuração. trata-se de um trabalho de conscientização e politização. pois a partir desse momento a terra foi transformada em uma mercadoria a qual somente quem já dispunha dela e de capital pudesse ser proprietários. principalmente sobre a forma de parceria ou colonato. principalmente a borracha e a castanha. o império restringiu o direito de posse da terra por meio da Lei de Terras. e do surgimento. litígios e reações de parcela das populações pobres foram uma 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). enquanto homens ou povos. mas. 1837). O resgate do itinerário de algumas dessas lutas que são raízes da organização do campo brasileiro. Nesse mesmo período. a terra era livre. Essa Lei significou o casamento do capital com a propriedade de Terra. (1830. Juntamente com o processo de luta contra a escravidão vamos ter a afirmação das leis de locação de serviços que visam regular o trabalho assalariado. a terra ficou escrava”. vê-se que não é suficiente que o oprimido tenha consciência crítica da opressão. com isso tivemos uma intensificação dos conflitos por terra e pela libertação dos escravos. Em 1850. No século XIX. e a pedagogia decorrente será aquela que tem que ser forjada com ele e não para ele. na luta incessante de recuperação de sua humanidade".

os exemplos mais conhecidos são: a Confederações dos Tamoios. o governo de Pernambuco solicitou a ajuda do bandeirante paulista Domingos Jorge Velho. A Confederação dos Tamoios Em 1562. 04 a 10 de novembro de 2007. Durante todos esses períodos tivemos ações populares de intervenção na ordem social. um dia. antes que a cidadania e a sociedade civil se estabelecessem entre nós. pela 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). e que tiveram nos camponeses (as) sujeitos protagonistas de várias dessas lutas e mobilizações. É claro que. Mesmo assim. tão valente. na margem esquerda do rio Uruguai.87 - . Também ele falhou nas primeiras tentativas. a munição dos sitiados tinha de se esgotar. chegou a reunir mais de 20 mil habitantes.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG constante ao longo da nossa história. o Tratado de Madrid determinou novos limites entre os impérios coloniais de Portugal e Espanha. principalmente por meio das missões. os quilombolas encontravam-se sozinhos e apenas podiam contar com o que possuíam. que há tempos lutavam contra portugueses. a Espanha trocava os Sete Povos das Missões. principalmente contando com o interesse do governo. Por fim. que pretendiam escravizá-los. com uma cultura e economia baseada na policultura. Durante sua existência foram feitas varias tentativas de destruir Palmares. muitos negros fugiram para o sertão. localizava-se na Serra da Barriga entre Pernambuco e Alagoas. aliaram-se aos franceses tomaram a Baía de Guanabara. Os negros tinham uma desvantagem: estavam cercados. A paz foi conseguida pelos padres José de Anchieta e Manuel da Nóbrega. Outros se suicidaram ou renderam-se aos atacantes. O sistema de vida e produção organizado em Palmares pode resistir a economia patriarcal e escravocrata. Guerra dos Guaranis e a Guerra dos Bárbaros. pelo novo acordo. homens altivos. práticas reprimidas de participação social e política do povo que colocaram em ebulição os direitos políticos e sociais. Não fora difícil aos franceses conquistar os tamoios. Organizou um exército realmente poderoso e voltou ao ataque. Enquanto os atacantes podiam conseguir reforços e munições de fora. e era governando por um rei (sendo o mais conhecido Zumbi) e um conselho formado por chefes dos quilombos. Um dos mais importantes quilombos de nossa história foi Palmares foi construído no fim do século XVI e resistiu até o fim do século XVIII. a resistência dos quilombolas foi tão grande. mas não desistiu. Quando isto se deu. que a luta durou perto de três anos. a) Quilombos Nos quilombos refugiavam não só escravos foragidos. como também índios e pobres livres. que preparou uma expedição para derrotar os fugitivos. b) Missões A luta dos indígenas ao longo da nossa história apresenta raízes de uma organização camponesa. Guerra dos Guaranis Em 1750. . na organização coletiva da produção e na resistência e combate a escravidão. Na área do estuário do Prata.

Lutas messiânicas – 1888 e a década de 1930 As lutas messiânicas se caracterizam pela existência de uma liderança messiânica. cerca de 8 mil trabalhadores ficaram desempregados e passaram a perambular pela região a procura de trabalho. particularmente nos vales do Rio Açu (atual Piranhas) e Jaguaribe. até se estabelecerem no Arraial do Canudos. Mas os portugueses e espanhóis se uniram contra os rebeldes. anulando o Tratado de Madrid em 1761. liderados por Nicolau Ñeenguiru e Sepé Tiaraju. no trecho previsto para a construção da ferrovia São Paulo-Rio Grande do Sul. Com isso. Chegou a ter cerca de 10 mil habitantes. Melhor equipado. Dentre essas podemos destacar: a) Canudos a terra prometida Os/as trabalhadores rurais e escravos peregrinavam pelo sertão.88 - . Ao final da construção da ferrovia. Isso significa que a fé era a ligação entre ele e seus seguidores. 04 a 10 de novembro de 2007. Em 1752. o exército europeu massacrou os guerreiros guaranis. Nesse momento surgiu na região de Campos Novos e Curitibanos. Ë por isso que alguns autores chamam as revoltas camponesas do período de lutas messiânicas. que durou dois anos. Mas já não existia o entusiasmo de antes e as mesmas condições de resistência e luta. envolvendo todos os membros da família. Na comunidade havia um fundo comum destinado a proteção dos velhos e aos doentes. mais de 5 mil soldados do exercito e armamentos pesados de guerra foram envolvidos no ataque ao arraial. 2. além dos índios. dos aprisionamentos. b) Guerra do Contestado Em 1912. A guerra não resolveu as questões de limites. e foi empreendida pelos cariris. Os Guaranis se revoltaram e se organizaram para defender suas terras.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Colônia do Sacramento. Criou-se um povoado em que o trabalho cooperado foi essencial para a preservação da comunidade. resistiram por cerca de mais vinte anos sempre lutando como podiam pela posse de suas terras e na tentativa de vencer as injustas estratégias da dominação colonial. Todavia. em Santa 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Os governos de Madrid e Lisboa tomaram decisões sem levar em conta os interesses dos jesuítas e guaranis. Entre outubro de 1896 e outubro de 1897. . apesar das degolas. a partir de 1682. o governo concedeu uma enorme extensão de terras à empresa norte-americana Brasil Railway Company. estes bravios guerreiros. Todos tinham direito a terra e desenvolviam a agricultura para auto-consumo. pois. Portugal e Espanha voltaram atrás. os Guaranis continuaram a ocupar a área dos Sete Povos. dos portugueses. cativeiros e reduções em aldeamentos jesuíticos que sofreram ao longo dessa história que lhes fora imposta. Em 1754. Obrigados a sair. Guerra dos Bárbaros Essa guerra durou vinte anos. O cenário dessa guerra foi uma extensa área do Nordeste. enviaram comissões para tornar efetivas as mudanças previstas no Tratado. começou a Guerra Guaranítica. alguns sobreviventes foram para as reduções da margem direita do Uruguai. atrás do beato Antônio Conselheiro. os portugueses da Colônia do Sacramento também não estavam satisfeitos com a troca de terras.

desta forma estava sempre devendo ao fazendeiro. sofrendo as mais variadas injustiças e perseguições. temendo o aumento da organização dos trabalhadores e uma possível ocupação de suas terras. na Chapada do Araripe. casas são incendiadas e pessoas mortas. Contestado). (o primeiro foi em 1912. que depois se espalharam por outras áreas de imigração do sul do Brasil. Colônia Leopoldina.famoso religioso e político da época . Ninguém se considerava dono de alguma coisa. contra os latifundiários. Além disso. mais não conseguem vencer a comunidade. Recebiam um preço de terra onde desenvolvia uma cultura de autoconsumo. Todavia. as companhias de terras e as autoridades governamentais. A área pertencia ao padre Cícero . pois era obrigado a comprar o que precisava pelo dobro do preço. c) Guerra do Caldeirão Uma luta de resistência camponesa. que chegou a cerca de 20 mil pessoas. os mutirões. A força militar chega ao sítio e os moradores resistem à destruição.que a entregou ao beato Zé Lourenço e seus seguidores para trabalharem na terra. . retornam usando dessa vez aviões. nos seus armazéns. A exploração imposta faz com que se organizem ainda que de forma clandestina (já que o Ato Adicional de 1834 proibia toda e qualquer associação de ofício): surgem as primeiras associações de socorro mútuo. com repudio a 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Dias depois. no período de 1926-1937. cuja ação deveria ser voltada para o desenvolvimento da consciência da classe. porque tinham uma produção diversificada: agricultura. O Caldeirão ficou auto-suficiente. sem lei e sem religião. Sua fama crescia e já influenciava outras cidades. roupas. As lutas prépré-sindicalistas a) As colônias anarquistas A chegada dos imigrantes para trabalhar nas lavouras do café dos grandes fazendeiros vai trazer mudanças no perfil do campesinato brasileiro. A formação de núcleos ou colônias. no entanto. um movimento camponês de caráter político-religioso. e a organização de núcleos e colônias que serão precursores do sindicalismo brasileiro. que aconteceu no Ceará. muitos eram expulsos. 04 a 10 de novembro de 2007. organizadas sem propriedade individual. que. destruindo assim o povoado. tais como a Colônia Cecília. etc. iniciaram uma guerra contra os camponeses para destruir Caldeirão. 3. O nome Caldeirão refere-se a uma depressão no relevo. onde se encontrava água cristalina durante todo o ano. os anarquistas começaram a se organizar nos sindicatos. ao chegar à época da colheita. os lideres lançaram um manifesto monarquista e declararam a “guerra santa” contra os coronéis. o colono ainda sofria a especulação do fazendeiro. artesanato. acontece o segundo bombardeio aéreo sobre civis na história do Brasil. confecção de redes. Além de ser explorado com baixa remuneração (a família toda precisava trabalhar para a subsistência).Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Catarina. liderado pelo monge José Maria. O arraial foi dizimado quando o governo enviou cerca de 07 mil soldados do exercito. a grande concentração de camponeses naquelas terras chamou a atenção dos fazendeiros. até mesmo aviões foram utilizados pra localizar os redutos rebeldes. por isso chamado de Contestado. Em 1915. Colônia Nova Itália. Os produtos excedentes eram vendidos em Juazeiro e no Crato. quando foram assassinadas mais de 400 pessoas. calçados.89 - . Todas as ferramentas necessárias para o trabalho eram feitas na própria comunidade. e onde começaram a funcionar as “Escolas Internacionalistas”. Inicialmente ficaram numa área de disputa entre Paraná e Santa Catarina.

oficinas. Em 1907. a construção da Transbrasiliana e o projeto de colonização dos governo federal valorizaram as terras da região de Uruaçu. c) Trombas e Formoso Em 1948. Eles começaram então a juntar os posseiros para formar uma associação (visto que os sindicatos rurais ainda não eram reconhecidos). a recusa foi geral. por um grupo de fazendeiros. a educação escolar e as práticas culturais de massa. nas comunidades. b) Posseiros da Rodovia RioRio-Bahia. toda a região estava organizada na Associação dos Lavradores de Trombas e Formoso.governo Hermes da Fonseca). foi preso em 1972. sistematização coletiva de experiências. inclusive acarretando a morte da mulher de José Porfírio. pesquisas. Os posseiros ganharam muita força na região e formaram vários sindicatos. . um juiz e um dono de cartório da região. A partir de 1955 com a construção das rodovias. os supostos donos das terras começaram a aparecer de todos os lados e impuseram aos posseiros a condição de derrubar a mata para formação de pasto. Depois de viver na clandestinidade.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG idéia de organizar os trabalhadores em partido político. desemprego. Para os libertários a educação ocuparia um papel de destaque. quando foram presos e torturados pela ditadura militar. Trabalhadores provenientes do Maranhão e Piauí chegaram ao local liderado por Jose Porfírio e estabeleceram posses numa área de terra devoluta. é aprovada a Lei Adolfo Gordo para expulsar lideranças sindicais estrangeiras (1907/1913. no trabalho. culminando com a Greve Geral. etc). começou o processo de expulsão dos posseiros. pois era considerado um veículo de conscientização e transformação das sociedades. No final da década de 1950. mobilizações. além disso. quando a nível internacional. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). 37 Desde esse período a necessidade de formação sindical já se fazia presente entre as organizações. recessão. sendo responsável pela formação de novas mentalidades e ideais revolucionários. e a formação na ação que ocorre no cotidiano da organização. sendo desencadeada um processo de repressão e o uso intensivo da Lei Adolfo Gordo. em três dimensões: a educação político-sindical37. o que foi desmentalado em 1964. ali viviam muitos posseiros. a situação econômica para os trabalhadores (as) estava insuportável: carestia. reinava fome e miséria. Articulavam a educação entre si. 04 a 10 de novembro de 2007. sem perda de tempo. a organização foi se afirmando. e os anarquistas e socialistas faziam intensa propaganda anti-militarista. já colocavam a educação em suas diferentes dimensões sinalizando para o que chamamos hoje de formação programada (cursos. José Porfírio. Eles queriam que os posseiros saíssem das terras. Então os grileiros queimaram as roças e as casas dos camponeses. que estavam sendo griladas. no norte de Goiás. recusa intransigente ao assistencialismo e mobilização permanente dos trabalhadores para ação direta contra os patrões. até a região se tornar um município e Jose Porfírio foi eleito deputado estadual em 1962. Esse processo vai ser intensificado em 1917.90 - .MG devido à perspectiva da construção da rodovia Rio . foi solto no ano seguinte e desapareceu. A valorização das terras da Região de Governador Valadores . ocorria a Primeira Guerra Mundial. e eles pagariam as benfeitorias feitas. intercâmbios.Bahia em 1940. com o golpe militar. seminários. essa organização foi até a década de 1964. eles só podiam plantar para subsistência. com a contribuição do PCB.

a quebra da bolsa de Nova York (1929). SEGUNDO MOMENTO: A IMPLANTAÇÃO DA ESTRUTURA SINDICAL NO BRASIL NO CONTEXTO DO ESTADO NOVO “Ninguém tem liberdade para ser livre. de caráter nacional e democrático. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). a revolução russa (1917). a crise do café. seria anti-imperialista e anti-feudal. Por isso.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG c) Influência Influência do Partido comunista formação do Bloco Operário e Camponês (BOC) A mudança de ênfase no PCB sobre a realidade brasileira. que identifica a realidade brasileira como sendo de um capitalismo agrário semi-feudal. Na verdade essa aliança acabou tendo uma dimensão mais eleitoral de assegurar candidaturas que assegurassem a defesa dos interesses proletários. 1978). a reforma agrária. A análise da sociedade como sendo um país semi-feudal. pelo contrário. Essa tese se fundamenta na revolução leninista. que consistia em substituir os intelectuais por operários nos cargos e instâncias partidárias e o fim do BOC. a partir de 1928. militares. suas tarefas consistem em desenvolver as forças produtivas capitalistas (modernas). Embora esse processo revolucionário deva estar sob a direção política do proletariado. incorporar a luta contra a política da oligarquia. a segunda. sem questionar o sistema social vigente. O fim da primeira guerra mundial (1914-1918). artistas. onde a revolução seria feita por etapas: a primeira. a etapa primeira representada pela revolução democrático-burguesa é constituída pelo desenvolvimento do capitalismo. de caráter socialista. 04 a 10 de novembro de 2007.91 - . leva o partido a formar o Bloco Operário e Camponês (BOC) em 1927. reformas modernizadoras. para isso teria que fazer alianças entre o operariado e o campesinato. os resultados da revolução de 1930 e as definições do comunismo internacional levaram a uma re-orientação para a “obreirizaçao”. . camponeses que começaram a reinvidicar a suspensão do pagamento da dívida externa. a estratégia fundamental no operariado não pode basear-se na luta contra o capital. pois para Lênin. É esse caráter democráticoburguês que a proposta do BOC confere. Essa aliança retoma na ação do partido na década de 1960 com a participação na organização das Ligas Camponesas e dos sindicatos rurais. Daí os acenos a setores da pequena burguesia como forma de romper o bloqueio à ação política que lhe era imposto não só pelas classes dominantes como também pela sua própria fraqueza interna. o movimento tenentista e a coluna Prestes marcou uma grande seqüência de manifestações de operários. As divergências com relação a essa aliança. pleiteando. daí a necessidade de ampliar sua ação e se aproximar de outras organizações progressistas. à luta de classes. Com isso entendemos porque o BOC vai centrar sua ação nas questões sociais. a elaboração de uma legislação protegendo os trabalhadores rurais e colonização em terras devolutas com base em pequenas propriedades. mas sim numa aliança com o campesinato para enfrentar o feudalismo. buscar aliança com a Coluna Prestes e atuar na área rural brasileira. luta por ela precisamente porque não a tem” (Freire. a fim de que possam ser eliminadas as antigas formas de produção ainda existentes nessas sociedades atrasadas.

para permitir a consolidação do poder dos industriais contra o poder da oligarquia rural. De fato. É importante notar que a oligarquia agrária foi capaz de diversificar seus negócios expandindo-se em atividades urbanas. e o fortalecimento de uma classe média urbana. criador de classes sociais modernas (burguesia industrial e proletariado). cujo início é a revolta do Forte de Copacabana (1922). na verdade.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG A revolução de 1930. de arma autônoma dos trabalhadores. 2) disciplinar o trabalho. independentes e funcionavam como organismos de luta por melhores condições de vida e salário. apelam. o que lhes garantia e fortalecia seus currais eleitorais. que mostrou uma capacidade insuspeita de se manter no controle do poder político ate 1964. não tem força para fazê-lo sozinhos. os sindicatos deveriam funcionar como um órgão de conciliação entre os trabalhadores e os patrões e como um órgão de caráter assistencialista. sendo obrigação do ministério do trabalho fiscalizar as assembléias e contabilidade dos sindicatos. e 3) evitar a emergência da luta de classes. As oligarquias agrárias. A nova lei de sindicalização visava oficializar. através de associações. essa aliança que se afirma na Região Sudeste. utilizando o sindicato como “para-choque. jornada de trabalho de 08 horas. os “tenentes”. inaugura as condições que permitiriam no decorrer dos anos seguintes. e aproveitarse do capital industrial. em agência colaboradora do Estado. de 19 de março de 1931). proteção ao trabalho das mulheres e das crianças. A constituição corporativista de 1937 e a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) consolidam a política varguista para o 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). num persistente processo de decadência econômica. o decreto conhecido como Lei de Sindicalização (decreto 19. Os diretores só podiam ser brasileiros natos ou com mais de 20 anos de residência. atrelar os sindicatos ao recém criado Ministério do Trabalho. servindo de pára-choques entre tendências conflitivas nas relações do capital com o trabalho.92 - . que insatisfeita com o domínio imposto pelas oligarquias agrárias. embora o sistema político continue fortemente influenciado por ela. a modernização conservadora e a construção do Estado Moderno. e sua vinculação com o rural. Lideradas pelo seu segmento mais radical. considerando-o como mero fator de produção. sucedendo-lhe a chamada Revolução de São Paulo. sem perder sem abrir mão do autoritarismo e conservadorismo. O projeto sindical populista de Vargas previa a adoção de leis que. para uma aliança com a classe operária e a chamada “classe média”. Os industriais que querem controlar o poder. ou seja. desencadeiam um ciclo de movimentos armados. Os sindicatos eram livres. 04 a 10 de novembro de 2007. não consegue se estruturar no restante do Brasil. o Estado. constituindo a aliança entre desiguais – populismo brasileiro. então. os objetivos básicos da Lei de Sindicalização eram claros: 1) transformar o sindicato. . as chamadas leis sociais: pensões de aposentadoria. tendo Getúlio Vargas com seu representante. entram enquanto classe. A lei de sindicalização definindo o sindicato como órgão de colaboração com o poder público. eram conquistas ou reinvidicações dos trabalhadores ao longo de anos de luta. que culmina com a formação da Coluna Prestes (1924-1927). Até essa época todos os sindicatos eram formados por iniciativa de trabalhadores de uma profissão ou categoria e se mantinham através das contribuições de seus associados.770. Pelo projeto governamental. É dentro desse contexto que o Governo Vargas assina em 15 de março de 1931. ligadas á lavoura de exportação. entre o capital e o trabalho.

Assim até 1955. dentre as quais a educação constituiu um dos mecanismos de propaganda e de convencimento. exigia-se ainda. Uma vez constituído o sindicato de acordo com a lei. além da presença permanente nos sindicatos em assembléias e no controle das finanças. No entanto. e em seguida: Barreiros. 04 a 10 de novembro de 2007. O estimulo a sindicalização era acompanhada por uma propaganda doutrinaria que envolvia benefícios sociais advindos de um conjunto de leis trabalhistas. além de associações mais voltadas aos interesses dos pequenos produtores.93 - . Muitas eram as dificuldades para esse tipo de organização: a legislação trabalhista era feita para os trabalhadores urbanos. Portanto. significando progressivamente a implantação de um projeto totalitário de poder. posseiros e pequenos proprietários. e a divulgação de um regime sindical especifico. A construção da estrutura sindical oficial (e a ideologia corporativista que lhe dá suporte) não foi somente produto da repressão e do silêncio a que foram subjugados os setores mais combativos e de esquerda do movimento sindical brasileiro. somente em 1944 através do Decreto 7. A inexistência de uma organização no campo que aglutinasse essas bandeiras. de 1962. o mais antigo do país. Tubarão em Santa Catarina. foi um dos fatores que impediram a elaboração e a implementação de uma legislação especifica para o campo. associações de bairro. as influências das correntes comunistas e anarquistas criaram organizações paralelas como foi o caso do Pacto da União Intersindical (PUI). ou o Comando Geral dos Trabalhadores (CGT). o Ministério do Trabalho só tinha reconhecido o sindicato rural de Campos. o código civil não permitia a organização de sindicatos rurais. Foi também resultado de uma série de medidas legais e político-ideológicas que engenhosamente articuladas. organizado a partir da greve de 1953. com a instalação da justiça do trabalho e a criação do imposto sindical. à época. A CLT exclui os trabalhadores rurais do direito a sindicalizar-se apesar de lhes assegurar o direito ao salário mínimo. em São Paulo que chegou a aglutinar não só sindicatos mas federações de mulheres.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG movimento operário. Embora existisse uma legislação que permitia a criação de sindicatos. 2005). quase não existiam juntas de conciliação e julgamento nas cidades do interior. de 1957. para o seu reconhecimento o envio de seus estatutos ao Ministério do Trabalho para aprovação. Rio Formoso e Serinhaém. não considerando a especificidade do trabalho no campo. porém esta lei não foi implementada. Ilhéus e Itabuna. o regime corporativista. deram certa autonomia e permitiram articular melhor as lideranças e deram mais vigor as lutas dos trabalhadores (Abreu e Lima. inclusive acionando a polícia para reprimir qualquer tentativa de organização e mobilização dos trabalhadores (as) rurais. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). e os proprietários rurais agiam de forma repressiva. principalmente por meio das práticas de formação sindical incentivadas pelo Ministério do Trabalho. como arrendatários. na Bahia. foram organizados sindicatos de forma localizada e isolada. Rio de Janeiro (que tinha sido criado em 1938). Belmonte. nos sindicatos dirigidos por ministerialistas ou ‘amarelos’. . entidades estudantis. Também o Pacto de Unidade e Ação (PUA). No que se refere à defesa dos direitos trabalhistas na área rural.038 se autoriza de forma explicita a sindicalização rural. em Pernambuco. parceiros.

agitação. lavradores. com a construção de grandes obras e expansão de crédito. (Abreu e Lima. nos locais de trabalho. resistência na terra e mobilizações. etc. surgiram três grandes organizações camponesas que deram uma outra fisionomia ao debate e as lutas dos camponeses (as) no País: a) Ligas camponesas Em 1955. do aumento dos dias de cambão. impuseram o aumento do foro e tentaram expulsar os foreiros da terra. que resistiram ao processo de despejo. e começaram a participar da formação da Sociedade Agrícola dos Plantadores e Pecuaristas de Pernambuco (SAPPP). Através da expulsão do morador. fundada inicialmente com fins basicamente assistenciais. 04 a 10 de novembro de 2007. e em 1954. os donos do Engenho Galileia. 2005). pão e paz. por município. parlamentares”. parceiros. ê. o PCB manteve algum trabalho no campo. b) União dos Lavradores e Trabalhadores Trabalhadores Agrícolas – ULTAB Mesmo na ilegalidade. Em âmbito local. ê Vou convidar os meus irmãos trabalhadores Operários. no nível estadual além das lideranças camponesas.94 - . eram compostas só de camponeses. em alusão ao nome por estes utilizados para certas organizações populares”(Abreu e Lima. contra as ações de despejo acionadas pelos usineiros e latifundiários. para fornecer assistência médica. . pequenos proprietários e moradores de engenho (que tinham direito a cultivar a lavoura branca e a obrigação de prestar três dias de serviço por semana ao proprietário). Nesse processo. no campo. Como reação a esse processo. cordéis. distritos ou fazendas. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). ê. as organizações camponesas passaram a se contrapor. Zé Vicente Após a segunda guerra mundial.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG TERCEIRO MOMENTO: OS CAMPONESES ORGANIZADOS COMO CLASSE Somos gente nova vivendo a união Somos povo. houve uma aceleração do processo de penetração capitalista. povo do Senhor. A partir das Ligas os camponeses organizados faziam um trabalho de denúncia. semente de uma nova nação. criar escolas e uma caixa funerária para seus associados. boletins. e posteriormente. biscateiros e outros mais E juntos vamos celebrar a confiança Nesta luta na esperança de ter terra. As Ligas se organizavam em “delegacias ou núcleos. de forma articulada. foram duramente atingidos os foreiros. 2005). em Vitória de Santo Antão. da supressão do direito do cultivo do sitio. jurídica. intelectuais. ê Somos gente nova vivendo o amor Somos comunidade. As ligas utilizavam diferentes estratégias para organizar e formar os trabalhadores: conversas na feira. “A repressão atribuiu o nome de Ligas à organização desses trabalhadores para caracterizá-los como comunistas. No período de 1954 a 1964. envolvia profissionais liberais. se tornando um movimento de luta pela Reforma Agrária que se espalhou por vários Estados do Nordeste. estudantes. na missa.

Essas três organizações durante sua existência assumiram algumas lutas de forma unificada. tendo-se discutido o direito a organização dos trabalhadores rurais em associações e sindicatos. c) Movimento dos Agricultores Agricultores Sem Terra – MASTER Surgiu no Rio Grande do Sul em 1950. o movimento camponês cresceu e as discussões sobre a questão fundiária ampliaram-se. o direito de greve. Em Jaboatão (PE) o padre Crespo e o Padre Antonio Melo no Cabo (PE) passam a criar sindicatos com um objetivo declarado de enfraquecer o avanço das Ligas Camponesas e do PCB. Até 1962 48 sindicatos foram fundados e 16 deles foram reconhecidos. dentro das terras dos latifundiários. a greve no setor canavieiro em Pernambuco. como por exemplo. As principais eram a reforma agrária. realizado em 1961. sendo a primeira experiência na perspectiva sindical no campo brasileiro. previdência social. A década de 1960 chega com o país falando de reformas de bases. que aliavam as lutas por direitos trabalhistas e reforma agrária e do surgimento dos sindicatos de trabalhadores e trabalhadoras rurais. o que já era o bastante para deixar os latifundiários muito aborrecidos com o governo.. 04 a 10 de novembro de 2007. formando acampamentos e organizando estratégias de defesa.95 - . inclusive a Igreja Católica. a reforma agrária. inovava com relação às formas de luta. CAMPO: PO: CONTAG SURGE A PRIMEIRA ORGANIZAÇÃO SINDICAL NACIONAL NO CAM Ainda que o gesto me doa. das federações e da CONTAG. reforma na educação e no sistema bancário. em 1963. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). A partir. Nesse período foi criado o Estatuto do Trabalhador Rural (1963).Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG na II Conferencia Nacional de Lavradores. da ULTAB. em áreas previamente escolhidas. marcou o reconhecimento social e político da categoria camponesa e o reconhecimento do seu potencial organizativo dentro da sociedade brasileira. a vida que vai comigo é fogo: esta sempre acesa Thiago de Mello A existência das Ligas Camponesas. . atingindo outros setores da sociedade. que concedia aposentadoria por invalidez ou por velhice como resultado das lutas lideradas pelas Ligas Camponesas no Nordeste. a partir da resistência de 300 famílias de posseiros. pois executava a ocupação de terras. que obteve conquistas significativas para a categoria ou a participação em Congressos como o I Congresso Nacional dos Lavradores e Trabalhadores Agrícolas. do Master e a influência do 38 No Rio Grande do Norte.. não encolho a mão: avanço levando um ramo de sol. adoção de medidas de apoio a produção etc. o então Bispo Dom Eugenio Sales funda em 1960 o Serviço de Orientação Rural (SAR) uma organização beneficente da Igreja destinada a fundar sindicatos. com a presença de 303 representantes de 16 estados. dentro da noite mais fria. que embora explicitasse as divergências. Mesmo enrolada de pó. foi fundada a ULTAB. que passou a atuar na perspectiva de fortalecer a posição da Igreja entre os camponeses através da criação de sindicatos38.

no Maranhão. de agricultores.96 - . Nos primeiros anos da década de 1960. pela ditadura militar. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). 39 Foi formada em Belo Horizonte (MG). serem colocadas em segundo plano. que viu bandeiras de lutas políticas dos trabalhadores. de lavradores. em Belo Horizonte coordenado pela ULTAB. Foi da Juventude Estudantil Católica que partiram as primeiras discussões que operaram mudanças políticas e ideológicas e sua transformação em uma organização marxista-leninista. de concepções e de formas de organização. com um grande aumento da miséria na área rural e nas cidades. que obrigou muitos agricultores familiares a saírem do campo.AP39. perseguição militar. Esse processo culminou na realização do 1º Congresso Nacional dos Lavradores e trabalhadores agrícolas. que por um lado definiu regras para os contratos de arrendamento e parceria. Articular nacionalmente as lutas passou a ser uma das principais preocupações. sendo efetuadas experiências em meios populares como o ABC paulista. que continuou sua ação política durante a ditadura (ACO. de trabalhadores rurais. Recém criada a CONTAG. a AP formalizou a influência do marxismo e se proclamou partido com a denominação de Ação Popular Marxista-Leninista (APML). ainda fortemente influenciada pelo ideário humanista cristão. a da reforma agrária. Juventude Universitária Católica (JUC) e a Juventude Estudantil Católica (JEC). (Revista dos 40 anos da CONTAG). sendo denominada Estatuto da Terra. com a participação de trabalhadores rurais de 18 estados. apesar das diferentes correntes de pensamento. como resposta as reinvidicações do movimento sindical. A mobilização popular a favor das reformas amedrontou a classe dominante. de pescadores. a partir de grupos de operários e estudantes ligados à Igreja Católica: a Juventude Operária Católica (JOC). em especial. desde os setores mais à direita. as bandeiras de lutas atualizadas e ampliadas e estabelecidas linhas de ação comum. 04 a 10 de novembro de 2007. distribuídos em 29 federações. as tropas militares ocuparam os pontos estratégicos do país. A resposta das elites veio de imediato no dia 31 de março de 1964. Em março de 1971. principalmente entre os últimos.600 delegados de várias organizações. prisão e tortura para os opositores e censura prévia nos meios de comunicação. desrespeito a constituição. temiam que fosse apenas o começo de uma série de transformações radicais no país. camponeses e estudantes. setores da Igreja. da Zona Canavieira em Pernambuco. e do Vale do Pindaré. sendo que 27 eram reconhecidas oficialmente pelo Ministério. em 1961. foi decretada a Primeira Lei de Reforma Agrária do Brasil elaborada ainda no Governo João Goulart. sofre de imediato a violência do golpe militar sobre as lideranças de sua organização. .Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG PCB e da Ação Popular. pela reforma agrária. que solicitou a realização de um Congresso Nacional para criação da Confederação. fizeram com que a organização dos trabalhadores(as) rurais em sindicatos fosse acelerada. acabou sendo promulgada com modificações. a AP possuía penetração entre operários. sendo reconhecida em 31 de janeiro de 1964. vinculada às estruturas formadas pela Igreja junto aos movimentos populares. da região Cacaueira da Bahia. que reuniu 1. já existiam 42 federações. esse foi o quadro político criado pelo regime militar para arrasar toda oposição a sua forma de governar o país. Em 1962. 1985). o que ocorreu em 22 de dezembro de 1963. A AP deslocou militantes para as fábricas e para o meio rural. na busca pela melhoria das condições de vida dos trabalhadores do campo. Já em 1964. em 1962. da área de Pariconha e Água Branca em Alagoas. provenientes das Ligas e os comunistas”. autoritarismo. e por outro incentivou o pacote da Revolução Verde. em alguns estados mais de duas: de assalariados. Ajustou em seu interior diversas concepções e correntes de pensamentos.517. pelo Decreto Presidencial 53. “A CONTAG torna-se a primeira entidade sindical camponesa de caráter nacional reconhecida legalmente.

foi o sócio-drama. Eram organizações quase clandestinas em grande parte fomentadas ou apoiadas pela Igreja. sem serem perturbados pela Policia ou pelo Ministério do Trabalho. A formação se traduzia em práticas educativas para garantir núcleos organizados nos locais de trabalho e para fortalecer o processo de retirada dos interventores e sindicalistas pelegos. Os autores das histórias utilizavam pseudônimos. A partir de 1966. para estimular uma visão crítica daquele momento que o país vivia sem chamar a atenção do poder público (Revista CONTAG 40 anos). durante toda a década de 1970. e superar as dissidências alimentadas durante o período de intervenção. Os materiais de comunicação sindical foram fundamentais para garantir minimamente uma ação articulada nacional. liderados pelos mais antigos. e foram ficando na terra e produzindo.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Logo na sua criação tinha sido constituída uma equipe de “educação sindical” com o objetivo de capacitar lideranças e dirigentes a fim de mantê-los informados. 04 a 10 de novembro de 2007. na difusão de práticas agrícolas e cursos políticos para formar novas lideranças. prosas e cordéis. por exemplo. O trabalho comunitário e de pequenos grupos foi á estratégia adotada durante muitos anos para resistir e formar novas lideranças durante a fase da ditadura. na Amazônia. ser interpretado como “ofensivo” ao governo e a “ordem pública”. as relações comunitárias de parentesco e de vizinhança foram à base da organização dos “posseiros”. foi constituída uma Junta Governativa que durante um ano administrou a CONTAG.(Revista 40 anos da CONTAG) O cotidiano e o estímulo à organização dos trabalhadores (as) rurais eram reproduzidos por meio de personagens. “Após a intervenção. os autores estariam protegidos. da formação de base. Eram boletins. Os núcleos formados por famílias extensas e vizinhos. .”(Revista 40 anos da CONTAG). revistas e jornais. nas temáticas do movimento e da realidade social e política do país. buscando a organização dos sindicatos e federações. Foi na experiência de comunidades já existentes. escritas pelos trabalhadores (as) rurais. Priorizava a oralidade e a expressão corporal. que durante a ditadura tiveram que atuar de forma quase clandestina. tendo como interventor José Rotta. O cerceamento das liberdades individuais e coletivas inibia qualquer divulgação de trabalhos que pudessem. regional e estadual.97 - . da importância do ambiente cultural na formação do ser humano. A formação sindical centrava sua ação na alfabetização dos trabalhadores (as). Portanto. na sua organização já construída e na solidariedade que novos migrantes foram rompendo as fronteiras do latifúndio na região. as lutas 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Outro instrumento utilizado no final da década de 1960 e meados de 1970. em seu conteúdo. formavam uma rede importante de relações através das quais se recrutavam os membros das comunidades para as ações coletivas. uma diretoria foi eleita para administrar a entidade durante o período de 1965 a 1968. No ano seguinte. do trabalho em grupos. De meados da década de 60 até o final da década de 70. esse período nos ensinou a importância da comunidade. Também reproduziam as poesias. dialogando com os desafios do dia-a-dia. trabalhadores que resistiam à ditadura buscaram retomar o controle da entidade. A criatividade marcou esse período. caso a repressão militar resolvesse censurar os textos. que tinham como objetivo central a conscientização e a socialização das vitórias e lutas do MSTTR. impostos nos sindicatos e federações pela ditadura.

desde uma teia tênue. ABREU E LIMA. defendendo claramente e tão somente os interesses dos latifundiários. (2003). ainda na perspectiva de controlar a questão agrária determinou a militarização do problema da terra. muitas vezes com o amparo da força pública. pelo meio ambiente. 04 a 10 de novembro de 2007. para que a manhã. Miguel. Jan/Jun.98 - . . Tecendo a manhã João Cabral de Melo Neto Um galo sozinho não tece uma manhã: ele precisará sempre de outros galos. Recife: Editora Universitária da UFPE: Editora Oito de Março. utilizando recursos dos grileiros e grandes empresários. Construindo o sindicalismo rural: lutas. CONTAG. As desigualdades sociais e a exclusão continuam acirrando as contradições de nossa sociedade. a participação popular. n. (1999) Educação não formal e cultura política: impactos sobre o 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). (1985) História da classe operária no Brasil: Gestação e nascimento -1500 a 1888. os valores humanistas. que decretou ações contra os trabalhadores. 2005. 1985. partidos. Pedagogias em Movimento – o que temos a aprender dos Movimentos Sociais? In: Currículo sem Fronteiras. AÇÃO CATÓLICA OPERÁRIA. pela cidadania. Essas diferentes ações fomentam a resistência e a luta por uma sociedade justa e solidária até os nossos dias. A violência da polícia. Rio de Janeiro: ACO. v 3. projetos. e de outros galos que com muitos outros galos se cruzem os fios de sol de seus gritos de galo. se vá tecendo.1. a soberania alimentar. escorada na justiça desmoralizada. vinculadas à luta por uma sociedade economicamente justa. pp. de um outro galo que apanhe o grito que um galo antes lançou e o lance a outro. a luta pela terra.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG camponesas eclodiam por todo o território nacional. A violência do peão que é o jagunço da força privada. 2004. ARROYO. Revista dos 40 anos. No ano derradeiro do governo militar. De um que apanhe esse grito que ele lançou e o lance a outro. Maria do Socorro de. a educação. os jagunços dos latifundiários e a polícia assassinavam um trabalhador (a) rural a cada dois dias. Minas Gerais. os conflitos fundiários triplicaram e o governo. Maria da Glória. A militarização proporcionou diferentes e combinadas formas de violência contra os trabalhadores. entre todos os galos REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ACO. ecologicamente sustentável com equidade e justiça social continuam na agenda do dia para tecer o amanhã. a saúde. GOHN. Brasília. portanto. as relações igualitárias de gênero e etnia. 28-49.

A. . Revolução de 30: a dominação oculta-São Paulo:Brasiliense. 04 a 10 de novembro de 2007. O comando geral dos trabalhadores (CGT) no Brasil (1961-1964). Da raiz a flor: a produção pedagógica dos movimentos sociais e a Educação do Campo.99 - . Formação Sindical no Brasil: história de uma prática cultural.71). 1981. 2004. História dos movimentos sociais no campo.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG associativismo do terceiro setor. NEVES. L. Maria do Socorro. 1996. NEAD/Brasília. Leonilde Servolo. MANFREDI. 1989. Silvia Maria. SILVA. Ítalo A. 2006. São Paulo: Escrituras Editorial. TRONCA. Belo Horizonte: Vega. São Paulo. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). (Coleção Questões da nossa época. v. MEDEIROS. Cortez. Rio de Janeiro: FASE.

As organizações de esquerda com atuação no campo buscaram atualizar e ampliar as bandeiras de luta e estabelecer linhas de ação comuns. pelo Decreto Presidencial 53.. .). conseqüentemente. as organizações camponesas passaram a se contrapor. trabalhadores rurais de 18 estados. O primeiro presidente foi Lyndolpho Silva. ULTAB durante a II Conferência Nacional dos Lavradores. de resistência camponesa articulada a objetivos políticos mais definidos (. em Goiás. As várias formas de organizações camponesas passaram a sentir a necessidade de uma articulação nacional que representasse os interesses e as demandas específicas. promovendo uma das mais importantes lutas da época.517. em 1962 acontece o 1º Congresso de Trabalhadores na Lavoura do Nordeste. em 1963 a ULTAB organizou a 1ª Convenção Brasileira de Sindicatos Rurais (Natal-RN).AS PRIMEIRAS LUTAS40 Na década de 50. distribuídos em 29 federações. foram criadas outras organizações como o Movimento dos Agricultores Sem Terra – MASTER na região sul do país. surgiu a União dos Lavradores Agrícolas do Brasil – ULTAB. decidiram pela criação da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG. viria a ser o primeiro presidente da CONTAG.100 - . reconhecida em 31 de janeiro de 1964. resistindo ao regime imposto pelos militares. fizeram com que a organização dos trabalhadores rurais em sindicatos fosse acelerada. Foi quando surgiu a primeira experiência de Ligas Camponesas e. 04 a 10 de novembro de 2007. A luta camponesa passa a ter uma postura politizada e politizadora. CONTAG Nessa conferência.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG TRAJETÓRIA POLÍTICA DA CONTAG . onde várias lideranças se destacaram. Lavradores realizada em São Paulo. que. dentre outros. A CONTAG torna-se a primeira entidade sindical camponesa de caráter nacional legalmente reconhecida. nos limites da região Agreste com a Zona da Mata de Pernambuco. uma década depois. município de Vitória de Santo Antão. Em Pernambuco. No processo de organização e luta.. A Ação Popular – AP (ligada aos católicos radicais) e a União dos Lavradores e Trabalhadores Agrícolas do Brasil – ULTAB. O MASTER. as Ligas Camponesas e sindicatos autônomos. 40 Publicação – Revista Contag 40 anos 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Em 22 de dezembro de 1963. Em 1954. Em 1963 uma greve no setor canavieiro envolveu a Federação dos Lavradores. de forma articulada. A CONTAG nasceu em um momento crítico da atividade política do país. foram identificadas as bandeiras prioritárias entre elas o ”estímulo à criação de sindicatos de trabalhadores rurais”. fundaram a Sociedade Agrícola e Pecuária dos Plantadores. contra as ações de despejo acionadas pelos usineiros (Porecatu/PR) e da luta dos posseiros e arrendatários de Trombas e Formoso. CONTAG – PRIMEIRA ORGANIZAÇÃO SINDICAL NACIONAL NO CAMPO As Ligas Camponesas. no Engenho Galiléia. Neste sentido organizaram: o 1º Congresso Nacional dos Lavradores e Trabalhadores Agrícolas (1961) – convocado e coordenado pela ULTAB.

101 - .Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG O golpe militar de 64 foi uma contra-revolução que barrou mudanças estruturais de democratização da sociedade brasileira. A idéia aguçou o conflito em torno da propriedade. em especial nas áreas de fronteira agrícola. de consolidação de uma chapa para concorrer às eleições da CONTAG. as Ligas Camponesas e grupos católicos como a Juventude Universitária Católica (JUC) e a Ação Popular (AP). congregando representantes dos trabalhadores rurais. preocupando-se com um projeto agrícola afinado com sua política econômica. mas. elaborado durante o governo de João Goulart. O Ato Institucional (AI) foi criado pelo governo militar – cujo objetivo era justificar os atos de execução. A política salarial. bancários e industriários. Houve um estímulo à especulação com a terra e de concessões a grandes empresas para atuarem no campo. estava clara a existência de dois grupos políticos. não conseguiram saldar. por exemplo. Ainda assim. Os dirigentes sindicais mais combativos foram cassados. marcou uma nova etapa em relação à legislação existente. Com o golpe. a direção da CONTAG foi deposta e alguns dirigentes foram presos. um ligado ao interventor e. No 1º Congresso Nacional de Trabalhadores Rurais da CONTAG. impedia os aumentos reais e garantia ao patronato à crescente exploração de mão-de-obra barata. adquirindo máquinas e equipamentos mediante financiamentos que. O golpe foi deflagrado contra o governo de João Goulart. Colocou à margem a pequena produção e favoreceu a ampliação ainda da concentração de terra e de renda no país. dentre outras coisas. Foi o início de uma articulação ampla. presos. Essa situação. a defesa da reforma agrária foi unânime. As pessoas também foram atingidas em seus direitos individuais e coletivos. outro ligado a trabalhadores e lideranças que se mostravam comprometidos com as lutas dos trabalhadores. . A repressão à atuação sindical não permitia que os assalariados rurais pleiteassem seus direitos trabalhistas. O governo militar concentrou-se na modernização das relações capitalistas no campo e nos projetos de colonização nas áreas de fronteira. a intervenção do Estado no setor fundiário. resistiram como puderam ao regime militar e no 1º Congresso Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CNTR. Em 1967. foi promulgado devido às pressões internacionais e internas. 04 a 10 de novembro de 2007. As lideranças políticas sindicais comprometidas com a luta por direitos e liberdade. resultou na perda de muitas propriedades. aliada à ausência de uma política diferenciada de créditos. contando com a presença de sindicalistas rurais de quase todos os estados. mediante a desapropriação de terras por interesse social. Nos primeiros dias após o golpe. controlada pelo governo. mais tarde. o Rio de Janeiro é transformado em sede da Conferência Nacional Intersindical. torturados e substituídos por interventores que conduziam os sindicatos como órgãos de colaboração do Estado. Os pequenos e médios produtores foram incentivados a se modernizarem. deu-se início à implantação de um regime político marcado pelo “autoritarismo”. o Comando Geral dos Trabalhadores (CGT). com profundas modificações. realizado em São Paulo. tornando irreversível o processo de concentração fundiária. Nessa conferência. permitindo. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). a União Nacional dos Estudantes (UNE). Com o golpe militar. urbana e rural. Os militares justificavam sua ação afirmando que o objetivo era restaurar a disciplina e deter a “ameaça comunista”. O Estatuto da Terra. Milhares de pessoas foram presas e casos de tortura transformaram-se em atos comuns. uma violenta repressão atingiu setores politicamente mais mobilizados à esquerda como.

A necessidade de organizar os trabalhadores nos municípios e constituir sindicatos era uma das grandes demandas do movimento sindical naquele momento. por promoverem reuniões dos grupos nos Sindicatos de Trabalhadores Rurais. Um espaço chamado “Conversa de Caboclo” que contavam estórias sobre o cotidiano dos trabalhadores rurais. para chamar a atenção dos camponeses sobre a importância da organização sindical. Os textos reproduzidos no periódico demonstram explicitamente o enfrentamento da CONTAG diante das políticas do governo militar. . agrícola. por apenas um voto de diferença. a direção da CONTAG qualificou ainda mais a sua forma de comunicação com a base. Durante os ‘anos duros’ do regime ditatorial militar. a CONTAG optou pelo enfrentamento ao poder econômico e político em uma de suas principais bases: a democratização da terra e a organização política dos trabalhadores rurais. Lançaram o periódico “O Trabalhador Rural”. a nova diretoria (1968) convocou todas as federações para um encontro.PIN. Num dos primeiros números dessa revista. informativo que levava as idéias e propostas da direção da CONTAG acerca das bandeiras de lutas e da organização sindical às Federações. assinada por José Francisco. O PIN elegeu a reforma agrária como uma das bandeiras de luta capaz de propiciar a unidade do movimento. Nós 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). quando levada à prática. No caso dos assalariados. qualificando-os para a luta cotidiana. causaria uma reação violenta do patronato e do poder público.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Fruto da união operária e camponesa. lançando a revista mensal “O Trabalhador Rural”. A preocupação maior era criar um instrumento capaz de garantir a unidade do MSTR diante da divisão política revelada no processo eleitoral. 1968 e 1969. agrária. sinônimo de um poder político. Essa proposta. que vai dar nosso valor? É uma sociedade composta de agricultor. por exemplo. cooperativismo e de organização sindical. por meio da formação de lideranças. José Rotta. em Petrópolis (RJ). Empossada. O PIN previu ações específicas para cada setor. econômico. que ameaçavam e puniam os líderes sindicais. legislação trabalhista. Nesse período. pois seria de fundamental importância não apenas para os diretamente envolvidos nos conflitos pela terra. A revista “o Trabalhador Rural” era um dos meios utilizados para chamar os trabalhadores para organização sindical. Por meio de cursos sobre a realidade brasileira. mas também para o pequeno produtor e o assalariado. em grande número. é necessária uma decisão drástica e enérgica pela reforma agrária”. A formação de líderes era essencial para o futuro do MSTR. iniciou um contínuo trabalho de conscientização dos trabalhadores rurais sobre os seus direitos. apresentando análises sobre a conjuntura nacional e sugerindo encaminhamentos para reflexão nos estados. os dirigentes do MSTR aceleraram o processo de organização e politização da categoria. foram incentivadas as ações coletivas. Em uma dessas estórias consta esse trecho: “E quem é esse sindicato. a fim de elaborar um Plano de Integração Nacional . criadas pela equipe técnica da Contag e assinadas com nomes fictícios. 04 a 10 de novembro de 2007. a chapa encabeçada por José Francisco da Silva impõe a derrota ao interventor e então presidente da CONTAG. O PIN marcou a singularidade do MSTTR dentro do sindicalismo brasileiro. Enquanto as outras confederações urbanas existentes tinham dúvidas entre resistir ou aceitar a intervenção no movimento sindical. foi transcrita a carta ao Papa Paulo VI. para abarrotar as Juntas de Conciliação e Julgamento.102 - . que reafirmava: “É. social e cultural que contrariam a função social de propriedade. forçando uma tomada de posição favorável aos trabalhadores. para vencer barreiras centenárias de irracionalidades geradas pelo latifúndio.

de 1960 a 1971. de 1.CNTR em 1973. Na revista “O Trabalhador Rural”. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). A CONTAG segue sua trajetória e realiza seu 2º Congresso Nacional dos Trabalhadores Rurais . Durante o 3º Congresso Nacional de Trabalhadores Rurais. Em 1979 acontece o 3º Congresso Nacional Nacional dos Trabalhadores Rurais. pra acabar com a tal de meia. tendo como presidente José Francisco/PE. Rurais dando visibilidade nacional ao sindicalismo de trabalhadores coordenados pela CONTAG. Levantamento elaborado pela CONTAG. Demonstrou que o conceito de desenvolvimento do governo era diferente da idéia do MSTR: “milhões de camponeses continuam morrendo de fome (. já em 1968. inclusive Brasília e Guanabara. ambos fundadores da CONTAG. para daí se chegar à escolha da ação e a própria ação. em 1971. e b) o método a ser utilizado. logo o governo militar buscou impedir a posse da diretoria eleita. foi empossada a direção para o triênio 1980/1983 e a festa de posse contou com a presença dos exex-dirigentes Lyndolpho Silva Silva e José Pureza da Silva.” A luta essencialmente corporativa. em 1979. demonstraram que a estratégia adotada pelo MSTR foi acertada.. Em maio de 1977 foi empossada a direção para o triênio 1977/1980.103 - . que representou um marco para a organização da classe trabalhadora rural..). Francisco/PE esta foi a 4ª eleição da CONTAG. Denunciou a intenção de cooptação do governo através do assistencialismo. passamos de 19 para 21 Federações. 1971 ocorreu a Reunião do Conselho Deliberativo que escolheu a diretoria da CONTAG para o triênio 1971/1974. porque crescer é bem diferente de desenvolver”. conforme a tabela abaixo: Levantamento numérico do movimento sindical em 22 estados.275. mas o Brasil está em franco crescimento. conhecimento e crítica.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG vai lá se reunir. . deve levar em conta o conhecimento da realidade. em seu discurso de abertura. Reunindo diversos representantes das Federações concluíram que: a) o diálogo deve ser a base para a construção de uma proposta educativa para o campo. Municípios brasileiros Inicio de 1969 3959 Final de 1971 3959 Municípios com Municípios sem Média de sindicatos sindicato sindicatos 705 1045 3254 2914 sócios por 800 1132 Fonte: Revista O Trabalhador Rural Em março de 1971. nunca foi a marca do movimento sindical coordenado pela CONTAG. o presidente José Francisco recordou: “apesar das condições desfavoráveis para o trabalho sindical entre o último Congresso e os dias atuais. Que sempre nos tem trazido amarrado no nó da peia. preocupados com a importância da educação para o desenvolvimento do campo. de volta ao país após vários anos de exílio. é Sindicalismo livre”. foi organizado um Encontro Nacional em Petrópolis. a direção da CONTAG politizou o debate sobre o papel da organização sindical e utilizou repetidamente o lema “Sindicalismo autêntico. que será criticada. Em abril de 1980. de dois milhões e meio de associados para mais de cinco milhões”. Sim.500 sindicatos para 2. 04 a 10 de novembro de 2007.

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A CONTAG estava consolidada, não como um espaço desse ou daquele ‘modo de pensar o
sindicalismo’, mas de todas as correntes políticas existentes. Rompeu com a visão
imediatista da luta sindical e buscou atender às outras dimensões e necessidades do ser
humano, inclusive, apontando o conceito de desenvolvimento que se queria para o campo:
“O desenvolvimento deve vir acompanhado de transformações sociais e políticas”.
O mesmo aconteceu com o estímulo à participação, em registros internos, vê-se que
reuniões de avaliação e planejamento sempre estiveram presentes na história dessa
entidade, inclusive, com a participação da assessoria nesses momentos, demonstrando
como praticar democracia interna, mesmo em momentos difíceis e sob ameaça constante
dos militares.
No 4º CNTR em 1985 o debate sobre o modelo de reforma agrária defendido pelo MSTR
foi o ponto alto. Os delegados aprovaram a realização de eleições da CONTAG e
Federações em Congresso, com mandato de três anos. Em dezembro de 1985 aconteceu
a 1ª Eleição Congressual da história da CONTAG.
Apesar da deliberação do 4º CNTR, a eleição da Diretoria e do Conselho Fiscal da CONTAG,
gestão 1989/1992,
1989/1992 não aconteceu em congresso. As urnas foram colocadas nas sedes
das federações. A votação foi de um delegado por sindicato. A Diretoria Efetiva teve como
presidente
presidente Aloísio Carneiro/BA.
Carneiro/BA Nessa eleição foi eleita a primeira mulher, Gedalva de
Carvalho/SE, enquanto suplente da direção da entidade.
No 5º CNTR,
CNTR em novembro de 1991 a participação da base foi ampliada qualitativa e
quantitativamente. Elegeram o dirigente Francisco Urbano/RN como presidente da
CONTAG.
Em agosto de 1994 foi realizado o 1º Congresso Nacional Extraordinário dos
Trabalhadores Rurais – CNETR. Neste congresso participaram a direção executiva da
CONTAG, a direção efetiva das federações e os delegados eleitos em número
correspondente a 10% dos sindicatos filiados a cada federação. Foi assegurada a
participação das diretoras da CONTAG, como delegadas, e de duas trabalhadoras rurais
por estados.
O 6º CNTR acontece em maio de 1995 explicitando a necessidade da classe trabalhadora
rediscutir a sua prática de luta e de convivência democrática com as divergências. O 6º
CNTR foi um marco, pois a partir daí o Movimento Sindical dos Trabalhadores e
Trabalhadoras Rurais – MSTTR incorporou o conceito de agricultura
agricultura familiar às suas
formulações, dando os passos iniciais para a construção de um projeto alternativo de
desenvolvimento rural, a participação efetiva das mulheres na Diretoria da CONTAG e uma
maior abertura para os jovens e as pessoas da 3ª idade. No 6º CNTR também foi aprovada
a filiação da CONTAG à Central Única dos Trabalhadores - CUT. Em 1995 foi oficializada
estatutariamente a Comissão Nacional de Mulheres Trabalhadoras Rurais, cuja
Coordenadora passou a integrar a Diretoria da CONTAG. A Comissão Nacional de Mulheres
Trabalhadoras Rurais – CNMTR elege a sua Coordenadora Nacional, Margarida Maria
Alves da Silva (Hilda) do STTR de Surubim/PE.
Dois anos (1997) depois foi realizada a 1ª Plenária Nacional de Mulheres Trabalhadoras
Rurais que discutiu as lutas específicas das mulheres e a sua relação com as lutas do
conjunto da categoria.
O 7º Congresso representou um marco, em 1998 mais de 1.400 delegados e delegadas
debateram e aprovaram um Projeto Alternativo de Desenvolvimento Rural Sustentável –
PADRS. Nascia o PADRS representando um passo significativo para a articulação e

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Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG

unificação das lutas da categoria na esfera nacional e para o fortalecimento de um novo
tipo de interseção campo e cidade.
O projeto ampliou a visibilidade política das mulheres coordenadas pela CNMTR, que já
haviam conquistado a inclusão da Coordenação da Comissão Nacional no Estatuto da
CONTAG. Incluíram mais um “T” no nome do congresso, que passou a ser 7º Congresso
Nacional de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais – CNTTR. Foi aprovada também a cota
de, no mínimo, 30% de mulheres em todas as instâncias do sindicalismo rural. Foi eleito
como presidente Manoel José dos Santos/PE.
Neste Congresso os trabalhadores e trabalhadoras rurais aprovaram: o Projeto Alternativo
de Desenvolvimento
Desenvolvimento Rural Sustentável - PADRS,
PADRS, tendo por princípio a realização de uma
ampla e massiva reforma agrária, expansão, valorização e fortalecimento da agricultura
em regime de economia familiar, centrado na inclusão social, no desenvolvimento social,
econômico, ecologicamente sustentável e no fim de todas as discriminações, em especial
as de gênero, de geração, raça e etnia. Para a implementação do Projeto Alternativo de
Desenvolvimento Rural Sustentável - PADRS desenvolveu-se um trabalho de formação de
lideranças em desenvolvimento local, através do Programa de Desenvolvimento Local
Sustentável – PDLS, voltado para a animação e estímulo a processos de desenvolvimento
sustentável ao nível local, possibilitando uma maior intervenção nas políticas públicas e
nos Planos Municipais.
Em outubro de 1999 foi realizado o 2º Congresso Extraordinário buscando atualizar e
potencializar o MSTTR para o desafio de implementação do PADRS. o 2º CNETTR discutiu e
deliberou especificamente sobre estrutura, organização, gestão e auto-sustentação do
MSTTR. Este processo de avaliação e discussão interna tem possibilitado continuar na
construção de um movimento sindical autônomo, combativo, ético e participativo.
Em Março de 2001 acontece o 8º CNTTR , onde o MSTTR reafirmou a estratégia
estratégia de
continuidade e o avanço no processo de implementação do PADRS, indicando a
necessidade de atuação efetiva na organização da produção e comercialização. Foi criada
a Comissão Nacional de Jovens Trabalhadoras e Trabalhadoras Rurais e a Coordenadora
da Comissão, Simone Battestin/ES foi eleita junto com a Direção Efetiva da CONTAG.
Neste congresso foi deliberada a necessidade do MSTTR participar articuladamente das
Eleições Eleitorais e de eleger representantes dos trabalhadores e trabalhadoras rurais.
Os Congressos da CONTAG garantiram o debate, a socialização e a integração nacional
das políticas do Movimento Sindical dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais – MSTTR.
Ver anexo I sobre a trajetória das Eleições e Congressos Nacionais da CONTAG.
Desde então, o Movimento Sindical de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais vem
aperfeiçoando suas proposições e ações em torno da construção e implementação do
PADRS, se contrapondo aos padrões dos sucessivos modelos de desenvolvimento
implementados no Brasil. Modelos estes, que embasados na preservação do latifúndio e
na produção de monoculturas para exportação, fizeram aprofundar a exclusão social, o
desemprego, a concentração da terra e renda, sendo responsáveis, também, pela
violência no campo e pela alta degradação ambiental.41
Como também, implementando e ajustando, permanentemente, o Projeto Alternativo de
Desenvolvimento Rural Sustentável - PADRS. Sua última atualização ocorreu no 9º
Congresso Nacional da CONTAG, realizado em Brasília, no ano de 2005. Dentre os vários
41

PORTO, Cleia Anice. “Reforma Agrária e Agricultura familiar como base para o desenvolvimento rural –
Sustentabilidade e qualidade de vida, Reforma Agrária e Meio Ambiente, Instituto Socioambiental, 2003, p.107

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ajustes, ressalta-se a reflexão sobre o princípio da SOLIDARIEDADE.
SOLIDARIEDADE Durante o 9º
Congresso,
Congresso as trabalhadoras e trabalhadores rurais entenderam não ser possível se opor
ao neoliberalismo sem implementar profundas mudanças nas relações sociais
estabelecidas entre homens e mulheres, de todas as idades, raças e etnias que vivem e
trabalham no campo.
Logo, a solidariedade foi compreendida enquanto principal elemento para a construção de
relações fraternas entre a classe trabalhadora rural, na perspectiva de um mundo melhor.
Nosso projeto passou a ser denominado: Projeto Alternativo de Desenvolvimento Rural
Sustentável e Solidário – PADRSS.
A construção do PADRSS foi a primeira iniciativa concreta de unificar as demandas do
campo, considerando as diferenças e especificidades regionais, culturais, produtivas,
ambientais, organizativas, de gênero, geração, raça e etnia. E ainda propõe alternativas
específicas que consideram as demandas das pessoas no âmbito das suas características
produtivas, a exemplo das assalariadas e assalariados rurais, das agricultoras e
agricultores familiares, assentados, acampados, meeiros, posseiros, extrativistas, dentre
outros.
A incorporação das propostas do PADRSS no dia-a-dia do MSTTR estimulou profundas
mudanças em nossas entidades, garantindo um salto qualitativo e dinâmico às respostas
necessárias ao atendimento das demandas da base. A ampliação das frentes de lutas do
MSTTR foi uma delas. Não bastava atuar nas questões trabalhistas, previdenciárias, de
acesso à terra e crédito, sem articular essas lutas com outras políticas necessárias e
estratégicas para garantir o desenvolvimento rural sustentável que se pretende.
A ampliação das frentes de lutas acabou estimulando o MSTTR a expandir e qualificar
suas direções. Foram criadas as secretarias específicas, primeiramente na CONTAG, em
seguida nas Federações, e em muitos Sindicatos de Trabalhadores e Trabalhadoras
Rurais.
Essas mudanças apontaram para a necessidade de investir na formação política, sindical
e profissional de novas
novas lideranças sindicais e técnicas do MSTTR. Essas ações formativas
deram visibilidade a um público estratégico para as mudanças, a juventude e as mulheres
trabalhadoras rurais.
Ainda hoje, esse processo formativo busca conjugar a formação política sindical com as
demandas por melhoria das condições de trabalho, aumento da renda e dos salários,
direitos trabalhistas e previdenciários, elevação dos níveis de escolaridade, de formação e
requalificação profissional, habitação rural, saneamento básico, saúde pública e de
qualidade, educação do campo e lazer.42 Conjugadas com as demandas estruturantes do
desenvolvimento rural sustentável, como o acesso à terra, crédito, infra-estrutura social e
produtiva, condições de comercialização, tecnologias de produção adaptada à agricultura
familiar e aos ecossistemas.
A estratégia do MSTTR se orientou pelo estímulo à participação política e à gestão
democrática na comunidade, município, território ou região, levando os excluídos e
marginalizados do campo a serem protagonistas de uma outra realidade, sem perder de
vista a articulação entre o local, o regional e o territorial com o global, o rural com o
urbano, na perspectiva de uma sociedade justa, democrática, igualitária e solidária.
Tal estratégia exige uma participação efetiva nos processos políticos e eleitorais, nos
espaços de concepção e gestão de políticas públicas e, o permanente debate com a
42

Anais da 1ª Plenária Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais – Novembro 2003

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Em sua história de luta. CONTAG. social e cultural das mulheres trabalhadoras 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). dar visibilidade e reconhecimento ao papel político. econômico. tem contribuído. estados e regiões. pela convocação da Assembléia Nacional Constituinte. a maior mobilização nacional de mulheres já realizada na história do país. 03 Encontros Nacionais de Juventude. Os Congressos da CONTAG adquiriram cada vez maior importância política e capacidade no aprofundamento das questões de interesse da categoria. foram o fortalecimento das organizações e comissões de mulheres nos STTRs.estar da representatividade dos trabalhadores e trabalhadoras rurais do nosso país. FETAGs. o MSTTR passou a se mobilizar anualmente no “Grito da Terra Brasil” . unida e ativa essa grande estrutura de representação construída ao longo desses 43 anos. A CONTAG nestes 43 anos se engajou nas principais lutas do povo brasileiro: contra a ditadura militar. A história da CONTAG é marcada também por ações de massa em defesa dos interesses da categoria. A Marcha das Margaridas é outra ação de massa importante no contexto do MSTTR. igualitária e solidária em nosso País. em prol do bem . . 02 Congressos Nacionais Extraordinários de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais. Não queremos dizer que o projeto vá resolver num passe de mágica os desafios históricos que estão postos para trabalhadores e trabalhadoras rurais brasileiras. de maneira decisiva. Foi reconhecidamente. tendo como um dos principais objetivos reverter o processo neoliberal e viabilizar políticas públicas necessárias à implementação do PADRSS.que hoje é considerado como a “data“database” para a categoria trabalhadora rural. Pólos/Regionais.MSTTR.100 Sindicatos de Trabalhadores Rurais. contando também com a adesão das trabalhadoras urbanas. 01 Congresso Nacional da Terceira Idade. Essa organização se constitui no Movimento Sindical dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais .Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG sociedade sobre a concepção de espaço rural e do desenvolvimento que propomos. militar pela anistia política. em seus 43 anos de existência. 03 Plenárias Nacionais de Mulheres Trabalhadoras Rurais. no Movimento “Diretas Já”. Os principais objetivos da Marcha. a CONTAG continua engajada na defesa permanente dos interesses dos trabalhadores e trabalhadoras rurais. foram realizados mais 08 Congressos Nacionais de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais. mobilização. por eleições diretas para presidente e governadores. democrática. reivindicação e negociação das políticas essenciais para o meio rural. Desde então. existência com o esforço e a participação de milhões de trabalhadores e trabalhadoras rurais.nacional. estaduais e municipais . Mas. É a maior entidade camponesa da América Latina organizada em 27 Federações Estaduais de Trabalhadores na Agricultura e 4. luta e ampliação das possibilidades concretas de implementarmos e consolidarmos o PROJETO ALTERNATIVO DE DESENVOLVIMENTO RURAL SUSTENTAVEL E SOLIDÁRIO – PADRSS. em sua primeira edição mobilizou milhares de trabalhadoras rurais dos municípios. A Confederação Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Agricultura – CONTAG. marcada pela mobilização. 01 Plenária Nacional de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais. A partir de 1995. A CONTAG foi fundada no dia 22 de dezembro de 1963 em 01 Congresso Nacional. representa um salto qualitativo para nossa organização. e principalmente a inclusão e organização das mulheres trabalhadoras de base. 04 a 10 de novembro de 2007. para a construção de uma sociedade mais justa. sem dúvida. proposição.107 - . na Constituinte de 1988 e foi participante do Comitê em Defesa da Ética na Política que levou ao “Impeachment” o presidente Fernando Collor de Mello. MSTTR É essencial que tenhamos viva.

José Lazaro/PR. A CONTAG procurou se estruturar como uma entidade legítima de representação dos trabalhadores e trabalhadoras rurais em defesa dos interesses da classe camponesa. Neto/RJ. no ano seguinte foi eleita para o período de 1965 a 1968 a diretoria composta por: José Rotta/SP. Acácio F. a direção da CONTAG foi deposta e alguns dirigentes presos. Damasceno/RN. ocorreu a Reunião do Conselho Deliberativo que escolheu a CONTAG Diretoria da CONTAG para o triênio 1971/1974. 2º Congresso Nacional dos Trabalhadores Rurais . mobilizando. Joaquim B. de Faria/RJ. 2ª Eleição da Com o golpe militar. José Ari Griebler/RS. as eleições contaram com duas chapas. No encerramento. A próxima Marcha das Margaridas acontecerá em agosto de 2007. Uma encabeçada por José CONTAG Rotta. de luta. Zacarias Pedro/SC. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Gomes/CE. Agostinho J. de trabalho e de construção de conhecimentos capazes de promover as transformações necessárias para um desenvolvimento sustentável em nosso país. articulação e mobilização dos Sindicatos e Federações de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais que. direitos trabalhistas e políticas sociais que resgatam a área rural enquanto espaço de vida. Para o Conselho Fiscal. Mendes/CE e Manoel P. em cada município e estado. e Nestor Vera/SP. com a gradual extinção do minifúndio e do latifúndio”. trabalho. contando com o apoio de entidades sindicais urbanas e da base do movimento sindical de trabalhadores rurais. foi eleita a primeira Direção Executiva: Lyndolpho Silva/RJ.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG rurais no Movimento Sindical de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais – MSTTR e na sociedade. propondo e negociando políticas agrícolas diferenciadas. Gomes/CE. . Agenor P. Machado/SP e José Felix Neto/SE. 4ª Eleição da Em março de 1971. composta pelos diretores efetivos: José Francisco/PE. Joaquim Damasceno/RN e Antonio J.108 - . Cavalcante/PA. 04 a 10 de novembro de 2007. contribuindo para a ampliação e o fortalecimento da organização e representação sindical no meio rural: reivindicando. Joaquim A. Reforma Agrária e Desenvolvimento Agrícola. o presidente da CONTAG enfatizou a necessidade de cumprimento do Estatuto da Terra para: “estabelecer um sistema de relações entre o homem. de 18 estados. Foram eleitos para o mandato de 1968/1971: José Francisco/PE. O Conselho Fiscal: Joaquim Coutinho/RN. vêm. Ao final. do Nascimento/PE. O congresso contou com a participação de 29 federações. João de A. Miqueletti/PR. foram escolhidos: Jose Felix Neto/SE. Educação. a chapa encabeçada por José Francisco saiu vitoriosa. CONTAG Uma Junta Governativa foi indicada pelo Ministério do Trabalho e. a outra chapa por José Francisco. Filho/RN. José Benedito da Silva/AL e Otavio F.CNTR. ANEXO I Trajetória das Eleições e Congressos Nacionais da CONTAG 1ª Eleição da CONTAG Em Congresso participativo. Euclides A. Filho/PB. dos Santos/RJ. João de A. a propriedade rural e o uso da terra. A eleição ocorreu na reunião do Conselho Deliberativo da CONTAG. Sobrinho/PA. democrático e de construção de estratégias comuns. Francisco Urbano de A. Nobor Bito/. Nossa trajetória é fruto de organização. Tarciso G. onde apenas 11 Federações votavam. 3ª Eleição da Em 1968. que representava a influência do Ministério do Trabalho e. Por apenas 01 voto de diferença. desde a fundação da CONTAG construindo o MSTTR. Otávio F. Previdência. Cavalcante/PB. Geraldo F. capaz de promover a Justiça Social. Agostinho José Neto/RJ. o progresso e o bem-estar do trabalhador rural e o desenvolvimento econômico do país. as organizações que atuam no campo criam a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG. Sebastião Lourenço de Lima/MG. O congresso deliberou sobre: Legislação Rural. da S. a classe trabalhadora faz valer sua vontade. José Palhares/RN e João Jordão da Silva/PE. José Felix Neto/SE.

Eraldo Lírio de Azevedo/RJ. 7ª Eleição da CONTAG Em abril de 1980. Octavio Adriano Klafke/RS. A Direção Efetiva era composta por: José Francisco da Silva/PE. de Oliveira. Aloísio Carneiro/BA. A Diretoria Efetiva era composta por: José Francisco da Silva/PE. Vidor Jorge Congresso”. dava os primeiros passos para consolidar a organização das mulheres trabalhadoras rurais. Francisco Urbano A. de Souza e Norberto Kortmann. A Diretoria Efetiva foi composta por: José Francisco da Silva/PE. Canalle e Jonas P. O Conselho Fiscal foi composto por: Álvaro Diniz. de Souza. José “Eleição da CONTAG de Francisco da Silva/PE. Filho/RN. Francisco Sales/MA. João F. Francisco Urbano A. Filho/RN e Henrique Gomes Vilanova/PI. Estevam N. Canalle e João Tavares da Silva. de Carvalho/ES. Roberto T.Nessa eleição foi eleita a primeira mulher. O Conselho Fiscal foi composto por: Álvaro Diniz. Paulo F. Pedro Ramalho/MS e Adevair N. José Amadeu Araújo/CE. Elio Neves/SP. André Montalvão/MG. de Souza/MT. João F. “Reforma Agrária para acabar com a fome e o desemprego no campo e na cidade”. Divino Goulart/GO. As mulheres conquistam a Comissão Nacional Provisória da Trabalhadora Rural. Acácio F. Eraldo Lírio de Azevedo/RJ. Paulo F. Francisco Sales/MA. CONTAG em Congresso” Jonas P. de Souza/MT. foi empossada a direção para triênio 1980/1983. Leocadio N. 4º Congresso Nacional dos Trabalhadores Rurais . Francisco Urbano A. Francisco Urbano A. Jonas P. 04 a 10 de novembro de 2007. O Conselho Fiscal foi composto por: Álvaro Diniz. André Montalvão/MG. Filho/RN. da Silva/AL. 10ª Eleição da CONTAG A Diretoria Efetiva eleita era composta por: Aloísio Carneiro/BA. . Gelindo Zulmiro Ferri/RS. 6ª Eleição da CONTAG Em maio de 1977. dos Santos/RJ e José B. Orgenio Rott/RS. Euclides D.CNTR. Gelindo Zulmiro Ferri/RS. Eraldo Lírio de Azevedo/RJ. André Montalvão/MG. de Souza/MT. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Antenor Beni/PR. Trindade/ES. da Silva/AL. José Felix/SE. de Souza. José B. Eraldo Lírio de Azevedo e Henrique Gomes Vilanova. Ezidio V. 9ª Eleição da CONTAG A Direção Efetiva era composta por: José Francisco da Silva/PE. O Conselho Fiscal foi composto por: Álvaro Diniz. Trindade. dos Santos/RJ e José B. Henrique Gomes Vilanova/PI. Euclides D. Roberto T. Filho/RN. Norberto Kortmann/SC. Francisco Urbano A. da Silva/AL. Filho/RN. de Almeida/BA. Jonas P. João F. Erny 1989 não ocorreu em Knortst/RS. Francisco Urbano A. André Montalvão/MG. Horiguti/SP. 3º Congresso Nacional dos Trabalhadores Rurais – CNTR – “Um marco na História da classe trabalhadora rural”. o Conselho de Representantes da CONTAG elegeu a nova diretoria para o triênio 1974/1977. Jonas P. José Felix/SE.109 - . foi empossada a direção para o triênio 1983/1986. “1ª Eleição da história da Pinheiro/RS. a sergipana Gedalva de Carvalho. O Conselho Fiscal foi composto por: Henrique Gomes Vilanova. Horiguti/SP. Roberto T. que apesar de subordinada à presidência da entidade. foi empossada a Direção para o triênio 1977/1980. “a democratização da terra é a base para a democracia no Brasil”. de Souza e Norberto Kortmann 8ª Eleição da CONTAG Em abril de 1983. O Conselho Fiscal foi composto por: Jonas P. Filho/RN e Osmar Araújo/PI. Faita/SP. Pedro Ramalho/MS e José Amadeu Araújo/CE. A Diretoria Efetiva era composta por: José Francisco da Silva/PE. enquanto suplente da direção da entidade. Acácio F. Horiguti/SP. de Souza e Norberto Kortmann.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Trajetória das Eleições e Congressos Nacionais da CONTAG 5ª Eleição da CONTAG Em março de 1974. de Souza/MT.

“apesar das tentativas de desarticulação das organizações sociais promovidas pelo governo. para rediscutir e redefinir suas lutas”. Conselho Fiscal: Antonio Zarantonello. Tereza Silva/MG. passou a ter três dirigentes na direção efetiva da CONTAG. A Direção Efetiva eleita era composta por: Francisco Urbano A.. Gerônimo Brumatti/ES. Pereira/MG. Conselho Fiscal: Antonio Zarantonello.”. o MSTR reuniu mais de dois mil delegados (as) de todo o país. “Rumo a um Projeto Alternativo de Desenvolvimento Rural Sustentável”. de Fátima R. Conselho Fiscal: José Roberto de Assis. Antonio Zarantonello e Maira Bottega. Constatando que o próximo congresso aconteceria na segunda quinzena de novembro. Francisco Urbano estava licenciado para concorrer a uma vaga para o Senado Federal. Avelino Ganzer/PA. 7º Congresso Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais – CNTTR. Aloísio Carneiro/BA. . 1º Congresso Nacional Extraordinário dos Trabalhadores Rurais – CNETR “. Filho/RN. Divino Goulart e Almir José Feliciano. José Raimundo de Andrade/PB e Francisco Sales/MA. A partir do 7º – CNTTR. Francisco Sales/MA. José Fialho/MS. Hilário Gottselig/SC. Norival Guadaghin/SP. A direção eleita teve a seguinte composição: Diretoria Efetiva: Francisco Urbano A. não podemos sacrificar a nossa intervenção nos processos eleitorais gerais que o país viverá. da Silva/PI e Raimunda Celestina de Mascena/CE. nem miséria. “Nem fome. José Francisco da Silva/PE.110 - .. no mesmo período em que ocorreriam as eleições gerais de 1994. Filho/RN. Hilário Gottselig/SC.. PRODUÇÃO. Juarez L.. Guilherme Pedro Neto/GO. As eleições de agora terão a responsabilidade de construir o amanhã. em agosto de 1994. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Aloísio Carneiro. Maria Santiago de Lima/RO. Alberto Ercílio Broch/RS. O Congresso Extraordinário foi coordenado pelo Presidente em exercício. Wilson Paixão e Osmar Araújo. pelo Rio Grande do Norte 12ª Eleição da CONTAG 13ª Eleição da CONTAG 6º Congresso Nacional dos Trabalhadores Rurais – CNTR. convocando um congresso massivo em Brasília. As novas diretoras ocuparam a Coordenação da CNMTR e as Secretarias de Políticas Sociais e a Secretaria de Organização e Formação Sindical. O campo é a solução”. o Conselho Deliberativo aprovou a realização de um Congresso Extraordinário. Francisco Miguel de Lucena/CE. em Brasília. Airton Luiz Faleiro/PA e Sebastião Rocha/MG.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Trajetória das Eleições e Congressos Nacionais da CONTAG 11ª Eleição da CONTAG 5º Congresso Nacional dos Trabalhadores Rurais – CNTR. Itálico Cielo/RS. “TERRA. 04 a 10 de novembro de 2007. SALÁRIO”.

Alberto Ercílio Broch/RS. Maria da Glória da Silva/MT. 15ª Eleição da CONTAG43 9º Congresso Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais – CNTTR. encabeçada pelo baiano Edson Pimenta. Ademir Mueller/PR e Elizete Hintz/RS. Hilário Gottselig/SC. . Uma chapa encabeçada por Manoel de Serra e. outra. 14ª Eleição da CONTAG 8º Congresso Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais – CNTTR. Suplentes do Conselho Fiscal: Maria das Graças Darós/SC. Maria José de Carvalho/PE. Maria do Ó do Nascimento/AL. Geraldo Teixeira de Almeida/MS e Antonio Vitorino da Silva/AL. Pedro Mário Ribeiro/MG. Maria da Graça Amorim/MA. Airton Faleiro/PA.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Trajetória das Eleições e Congressos Congressos Nacionais da CONTAG 2º Congresso Nacional Extraordinário dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais – CNETTR “A prioridade será a discussão na base. Josefa Rita da Silva/BA. Alessandra da Costa Lunas/RO. Wilson Hermuth Gottens/GO. Raimunda Celestina de Mascena/CE e Simone Battestin/ES. os trabalhadores e trabalhadoras rurais deverão determinar qual o tipo de sindicalismo que irá representá-los no próximo milênio”. Suplentes: Joel José Farias/SE. José de Jesus Santana/BA. Maria Lucinete Nicácia de Lima/AM. Juraci Moreira Souto/MG. Manoel Candido da Costa/RN. Simone Battestin/ES. “Consolidando o Projeto Alternativo de Desenvolvimento Rural Sustentável”. é o futuro sendo construído hoje” Duas chapas concorreram à eleição da direção da CONTAG. Domingos Albuquerque Paz/MA. Conselho Fiscal: Francisco Sales. Manoel Cândido da Costa/RN. Maria de Fátima R. Cláudia Pereira Farinha/DF. “entre tantas deliberações. 43 Fonte: Ata de Posse da Diretoria e do Conselho Fiscal da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG. da Silva/PI. David Wilkerson Rodrigues/BA. Juraci Moreira Souto/MG. Guilherme Pedro Neto/GO. Alberto Ercílio Broch/RS. Antonio Soares Guimarães/CE. 04 a 10 de novembro de 2007. para o quadriênio 2005/2009 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Paulo de Tarso Caralo/ES. Manoel Carlos Dantas/RO. Gilson Francisco da Silva e Maria Helena Baungarten. Raimunda Celestina de Mascena/CE.111 - . Liberalino Ferreira de Lucena/PB. Maria do Ó do Nascimento Melo/AL. “Avançar na Construção do Projeto Alternativo de Desenvolvimento Rural Sustentável”. Francisco Miguel de Lucena/CE. Carmem Helena Ferreira Foro/PA. vale destacar a criação da Comissão Nacional da Juventude Trabalhadora Rural e da estrutura cooperativista ligada ao MSTTR. A direção eleita teve a seguinte composição: Diretoria Efetiva: Manoel José dos Santos /PE. Regina Rodrigues de Freitas/AC. Paulo César Ventura Mendonça/RJ. Antoninho Rovaris/SC. Antonio Lucas Filho/GO. Conselho Fiscal: Francisco Sales de Oliveira/MA. A direção eleita teve a seguinte composição: Diretoria Efetiva: Manoel José dos Santos/PE. Maria Elenice Anastácio/RN.

para o quadriênio 2005/2009. Sindicalismo – Brasil – História 2. Título PORTO.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Bibliografia:                Anais do 4º Congresso Nacional dos Trabalhadores Rurais .107 O Golpe Militar de 64 e a Instauração do Regime Militar – CPDOC – Fundação Getúlio Vargas – FGV.112 - . 04 a 10 de novembro de 2007. Sindicatos – Brasil – História I. p. “Reforma Agrária e Agricultura familiar como base para o desenvolvimento rural – Sustentabilidade e qualidade de vida.1985 Anais do 5º Congresso Nacional dos Trabalhadores Rurais – 1991 Anais do 1º Congresso Nacional Extraordinário dos Trabalhadores Rurais . Cleia Anice.1999 Anais do 8º Congresso Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais – 2001 Anais da 1ª Plenária Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais – Novembro 2003 Anais do 9º Congresso Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais – 2005 Publicação – Revista Contag . Sílvia Maria – Formação sindical no Brasil : história de uma prática cultural / Silvia Maria Manfredi – São Paulo : Escrituras Editora.40 anos Ata de Posse da Diretoria e Conselho Fiscal da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG. 2003. Manfredi. Instituto Socioambiental. Reforma Agrária e Meio Ambiente. 1996. .1994 Anais do 6º Congresso Nacional dos Trabalhadores Rurais – 1995 Anais do 7º Congresso Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais – 1998 Anais do 2º Congresso Nacional Extraordinário dos Trabalhadores Rurais . 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE).

as mulheres compunham aproximadamente 45% do que o Censo considerava trabalhadores e.113 - . constataremos que elas eram mulheres em sua maioria.865 pessoas. Elas roçavam plantavam e colhiam algumas cultivavam ainda. quanto na indústria.099 do sexo feminino. ano após proclamou-se a República. das quais 59. O que esses dados do século passado mostram é que muitas mulheres trabalhavam. disperso pelo território brasileiro e desprovido de terras. o Censo Demográfico de 1980 mostra que a população brasileira é de 119. Política e economicamente. como cuidar das crianças. as mulheres eram dominantes na prestação de serviços pessoais· (81 % do total de pessoas no setor). No latifúndio. cabia. cozinha e costura e. eram incorporados às atividades do latifúndio: Nesse grupo. freqüentemente comercializados nas vilas mais próximas. os serviços domésticos 33%. contudo. naquela ocasião. a produção de sabão e velas. foi realizado o primeiro recenseamento da população brasileira. o país industrializou-se alterou-se a composição de sua população com a absorção intensa da imigração espanhola. as mulheres ficavam com o encargo dos filhos. a família. No entanto.070. a propriedade territorial e a escravidão eram eixos do mesmo fenômeno. ainda. Das mulheres que trabalhavam oficialmente. durante o Curso de Formação de Educadores/as em Concepção Prática Sindical e Metodologia da Formação. Nos longínqüos 1872. diferentemente de agora. 04 a 10 de novembro de 2007. e que. Mais de cem anos depois. formou-se um proletariado urbano rural e a classe média assumiu claros contornos sociais e políticos.146. como donas de casa e serviçais domésticas. ainda durante o Império. alimentos em pequenos pedaços de terras que vendiam e assim. a agricultura empregava 25%. então. sem propriedade. sinhás e escravas eram partes da mesma comunhão doméstica. embora sob o jugo masculino e interminavelmente explorando as escravas. um. com as crianças do sexo masculinas. por 9. 689.700.694. não são apenas demográficas e numéricas: em 1888 extinguiu-se a escravidão. desempenhar várias ocupações: supervisionava e controlava todas as atividades caseiras. desde pequenas. constatou-se que ela era composta. italiana. que' consistia na atividade econômica mais importante. Na periferia da grande propriedade territorial estavam os antepassados dos atuais bóias-frias: homens e mulheres pobres e brancos. No caso das mulheres escravas. tanto nos· serviços. Naquele ano. não se considerou as donas de casa nesse conjunto. das quais 4. dessas. alemã e japonesa. desse trabalho fosse realizada dentro da família. embora parte substancial. o latifúndio. eventualmente. as tarefas mais duras e pesadas. com sua produção voltada para o mercado externo. dos trabalhadores industriais: Elas perdiam para os homens na agricultura. se observarmos o total de pessoas absorvidas. Às fazendeiras.998 mulheres escravas.187 pessoas. tanto domésticas quanto na agricultura. não obstante. é claro. realizado pela ENFOC/CONTAG. 44 Este texto foi distribuído pela Nalú Farias da SOF. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Mas às diferenças. De fato. logravam comprar sua liberdade. .Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG PARTICIPAÇÃO DAS MULHERES NA LUTA DOS TRABALHADORES E NO MOVIMENTO SINDICAL Maria Valéria Junho Penna44 Em 1872.943 eram mulheres e. elas partilhavam. como agora. eram 78% .

mulheres e crianças das periferias pobres das cidades forneceram os primeiros braços para essa indústria. dedicando-se ao comércio ambulante de mercadorias feitas em casa. não faziam jus a nenhum salário. fundada em 1836) destinavam-se exclusivamente a rapazes. Em resumo. refrescos. mesmo porque. Inicialmente. onde se vendia sonhos. 04 a 10 de novembro de 2007. eram obrigadas. no entanto. promovida pelo Estado em estreita conexão com os empresários. desolador: viviam nelas. a insalubridade. a imigração européia seria a solução para a questão da força de trabalho nas lavouras de exportação e consumo interno e. a substituir as mulheres nas oficinas. reorganizou·se o ensino de formação para o magistério. etc. e a de São Paulo. flores de contas e aplicação. Como se sabe. teve origem nesse pequeno comércio ambulante. ainda. vilas operárias foram sendo construídas. os homens . as vagas foram se abrindo às mulheres e. As primeiras Escolas Normais (a da Bahia. principalmente em direção às regiões fluminense e paulista. Foi também no século passado que tomou impulso a constituição de um campo de trabalho fundamental para a jovem de classe média: o ensino primário. cestos. As condições de trabalho supunham. fundada em 1835.114 - . até o inicio do século XIX. dormindo e se alimentando entre máquinas. café torrado. Não podendo ser alunas. começaram a configurar uma crise na oferta de mão-de-obra e a estimular o comércio interno de escravos. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). para absorção nas lavouras de café. flores. cortes de roupas brancas e lisas. o ensino era uma esfera de atividades masculina. MULHERES E CRIANÇAS NA FÁBRICA O panorama da convivência das mulheres e crianças com as fábricas foi. a libertação de escravos sexagenários. desde que com um currículo específico que incluísse bordado branco. um conjunto de medidas legais restringia o acesso das mulheres às escolas e. não podiam ser professoras. Apenas em 1827 surgiu a primeira regulamentação que permitia às mulheres freqüentarem o ensino elementar. a aprender corte e costura e. para a indústria em expansão. mas apenas esse. finalmente. em 1871.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG freqüentemente abandonados pelos pais. iniciando-se o hábito de pagamento diferenciado entre os sexos. À medida que o século XX se avizinhava. milho assado. à prestação de serviços pessoais como costura ou cozinha e. paulatinamente. os espancamentos e estupros. à prostituição.freqüentemente imigrantes estrangeiros . após incontáveis horas de trabalho. . a sujeira. a Lei do Ventre livre.passaram. com os homens recebendo salários maiores que as mulheres. bolo. a expansão econômica da lavoura para exportação provocou uma crise na lavoura para o abastecimento interno e uma demanda não suprida por mão-de-obra. de matizes. as restrições progressivas ao tráfego negreiro. A mulher taboleira. angu. aves. freqüentemente. A longo prazo. palmitos. em filó. à habilitação profissional. finalmente. portanto. A curto prazo. por exemplo. desde o início. No mesmo período. os salários generalizaram-se no interior da indústria. trabalhando uma jornada de até dezesseis horas diárias. Aos poucos. expandiu-se a cultura do algodão em São Paulo e surgiram as primeiras fábricas têxteis. ainda. aceitando-se a participação feminina.

Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Uma operária. Teresa Fabri e Maria Lopes. 19. assinados por Teresa Cari. O salário médio das mulheres era bastante mais baixo que o dos homens: o salário médio masculino na fiação era de 4$500 réis e o das mulheres. dividida entre seus afazeres domésticos e a longa jornada do trabalho assalariado. mas não menos importantes.) Conjuntamente ao apelo em nome dos' "direitos". na Cruzeiro. por exemplo. por mais dramática que fosse a vida da mulher operária. com o 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). no Rio de Janeiro. Alvorada Operária. 04 a 10 de novembro de 2007. mesmo trabalhando além do horário estabelecido. fábricas que contavam com 1. no início do século.) O fato é que as mulheres: além de estarem submetidas. foi o veículo utilizado pelas costureiras das confecções para articular suas demandas e organizar seus sindicatos. . paralisaram o trabalho em protesto contra as condições de trabalho e os salários. Assim.sem horário para almoço de definido. entraram em greve por solidariedade a uma companheira despedida. fizeram uma paralisação contra a diminuição de tarefas. Dados de 1912. em 1902. As refeições eram feitas entre as máquinas.80I eram do sexo feminino. no subúrbio do Rio. os homens recebiam 4$900 réis e as mulheres recebiam 3$000 réis. em 1903. Nunca recebíamos horas extras. se todas nos acompanharem nessa luta. A Penas uma pia imunda servia· nos de bebedouro. O jornal A Terra Livre. que chamavam de aprendizado.115 - . Era o critério dos mestres o direito de comer e tendo ou não tempo para almoçar. Não tínhamos lugar para comer. Luzia Ferreira de Medeiros. (Em Edgar Rodrigues. a condições de trabalho corrosivas. contou como eram as condições de trabalho já depois da virada do século: "Entrei para a fábrica Bangu no período da primeira guerra mundial com sete anos de idade. vinham reivindicações mais concretas e imediatas. A jornada de trabalho iniciava-se por volta das cinco e meia da manhã e terminava treze horas depois. pelas mesmas razões. Iniciava o trabalho às seis e terminava por volta das 17 horas . Isso. enfim. foi no interior desses dois movimentos que as mulheres procuraram demarcar um território para sua luta. nós começaremos por desmascarar a cupidez dos patrões sanguinolentos". que somos capazes de exigir o que nas pertence. se nos derem ouvidos.499 estrangeiros e 862 de nacionalidade ignorada. ainda sofriam maus tratos corporais e auferiam salários mais baixos. revelam que foram visitadas. Mestre Cláudio fechava as moças no escritório para força-la à praticar relação sexual. do Departamento Estadual do Trabalho de São Paulo. Dos 10. da fábrica têxtil Bangu. em São Paulo. 2$000 réis. No Brasil. de tendência anarquista. esse fato não a fez abdicar da sua capacidade de reação à injustiça e da ação política. Neles.uma questão de polícia para o Estado. na Anhaia. Porque luta houve. anarquistas e socialistas foram os arquitetos da questão social . em média. o salário era o mesmo. na mesma época. diferentemente desses.304 recenseados. na Álvares Penteado. Em 1901 e 1903. como os homens trabalhadores. para confecção de um relatório. depois de passada a fase do trabalho gratuito.943 trabalhadores brasileiros. 7. ficaram célebres.07I 906. Ao mesmo tempo muitas mulheres encabeçaram alguns dos mais importantes movimentos grevistas do período. e se todas forem solidária. (A Terra Livre. Dois manifestos. exigindo melhores salários e menor jornada. Na seção de acabamento. O PROTESTO FEMININO No entanto. podia-se ler: "Devemos demonstrar. na Companhia Industrial de São Paulo. Muitas moças foram prostituídas por aquele canalha. evidentemente. 6.

sempre pelo mesmo salário". além das havidas no Rio e em São Paulo. 04 a 10 de novembro de 2007. embora a presença de mulheres não tenha sido usual nos Congressos. com sede na rua Senhor dos Passos. lima operária delegada. quanto há evidências de freqüência de mulheres. destacando como essas eram tão árduas que impediam um companheirismo mais vigoroso como o dos homens na vida sindical: “Quando tomamos conta que a jornada de trabalho é de 8 horas e mais. discursou sobre as condições do trabalho feminino. e em 1919.116 - . de nome Alzira. a relutância masculina em aceitá-Ias como companheiras e. Fábrica de cigarros Trajano. Uma de suas inspiradoras. que após tão fatigante trabalho em troca de um mísero salário . pois ainda há casas em que se trabalham 14 a 16 horas. um dos mais importantes foi a União das Costureiras. Chapeleiras e Classes Anexas. tem necessidade de fazer seus serviços domésticos. . no Rio de Janeiro.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG agravante de que a operária em questão. Alvorada Operária. Dos sindicatos constituídos. aconselha vivamente as associações obreiras a se esforçarem para interessar diretamente as operárias na vida sindical. Fábrica de tecidos Mariângela. em Porto Alegre.) Por sua vez. Em 1917. . (Em Edgar Rodrigues. C. Kessler & Cia.) De fato. sua presença foi destacada. Fábrica de ligas Peterson. de um lado. em fábricas por todo o país. lembra que o trabalho começava às 8 h da manhã. as exigências de sua dupla jornada de trabalho que não Ihes deixava tempo para a política ... isso "quando a dona do atelier não prorrogava a jornada até às 20 ou 22 horas. . Uma resolução do 3º Congresso Operário Brasileiro. inclusive discursando. a maioria é composta por mães de famílias. sendo mesmo obstaculada em alguns casos. realizado entre 23 e 30 de abril de 1920.. necessitando sustentar os seus e ampará-los contra as misérias da vida (. as mulheres pararam os trabalhos nas Fábricas Matarazzo. Companhia de Fiação e Tecidos Porto-Alegrense e trabalhadoras da fábrica de chapéus F. fora dispensada pelo mestre que a engravidou. etc.. tecelãs da Cia. Â União foi fundada por 50 operárias e sua primeira medida foi deflagrar uma greve pela redução da jornada de trabalho a oito horas diárias. como por exemplo as chapeleiras.. MULHERES ENTRAM PARA OS SINDICATOS Embora houvesse inúmeros fatores freando a participação feminina na vida sindical.. Elvira Boni. costureiras sob medida. em alguns congressos operários. de outro. Alvorada Operária. existem numerosos registros mostrando que um esforço considerável nessa direção foi realizado: não apenas vários sindicatos femininos foram fundados. Têxtil Rio Grandense. participaram de nova greve geral por aumento de salário.ainda assim. em alguns Congressos Operários. realizado em 1920. pela diminuição da jornada. onde já funcionava a União dos Alfaiates da mesma cidade. preocupando-se 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). No 2º Congresso Operário do Rio Grande do Sul. desde as primeiras reuniões de trabalhadores formou-se um certo consenso sobre quais deveriam ser as condições de seu trabalho extra-doméstico. Como já disse. podemos ainda lembrar o estado de ânimo em que se encontram nossas irmãs.) " (Em Edgar Rodrigues. recém-parida. resume esse consenso: "O 3º Congresso Operário. em 1906 e 1907. confirmando as resoluções do 1º Congresso quanto à situação do elemento feminino no meio proletário. terminando às 19 h.

acabou por prevalecer e. . costureiras e trabalhadoras de fábricas de fósforos em Niterói deram testemunho em A Classe Operária sobre suas condições de trabalho e salários e tentaram ganhar a solidariedade masculina para suas reivindicações. principalmente ma condição de tecelãs e costureiras. Comparando os dados de 1872 com os de 1920. 31 % na indústria (inclusive em serviços de reparação) e 26% em serviços. Deste total de mulheres trabalhadoras. foi reconhecida pelo Estado. e no início dos anos 30. cabe destacar Maria Lacerda de Moura. 81 %.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG com a sua educação social e intelectual e para que se estabeleça no trabalho um ambiente de respeito. a questão do bem-estar para todos resume-se no seguinte: 1º) Formar um núcleo 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). na qual 22 casas foram construídas para favelados e. 42% estavam na agricultura. afirmou na ocasião: "A questão social. embora discutível para muitos em virtude dos embaraços que terminou por causar para a contratação e a carreira das mulheres. quanto criava condições mais favoráveis à gravidez e estabelecia o princípio do salário igual para trabalho igual. apresentando 15% da força de trabalho. em 1931. Assim. vale a pena lembrar que durante toda a década dos vinte. em 1932. Isabel Ferreira Bertolucci e Bertha Lutz. Outras informações demonstram que." A demanda por uma legislação especial. em I 922 no mesmo ano. não obstante esse decréscimo. à medida que a indústria se expandiu. tomando o total de pessoas trabalhando nos diversos setores da economia. em Barbacena. na prestação de serviços. na agricultura as mulheres eram 9% da força de trabalho. pelo Decreto 21.417. organizou a Vila Dom Viçosa. 04 a 10 de novembro de 2007. No entanto. de caráter protetor. que tanto proibia seu trabalho noturno. em torno da metade do proletariado têxtil e seriam majoritárias no setor de confecções.117 - . Maria Lacerda de Moura. fizeram greves na Fábrica de Tecidos Irmãos Tognato. fundou a Liga Contra o Analfabetismo. em Sorocaba. repelindo as brutalidades dos patrões e encarregados de serviços intensificando-se a campanha no sentido de que para elas seja abolido o trabalho noturno e o seus salários sejam equiparados aos dos homens. PIONEIRAS DA LUTA SOCIAL Algumas mulheres destacaram-se na vida pública e em sua participação junto às organizações operárias. ainda. a conclusão mais importante é que. desde então. diminuiu a participação das mulheres no seu interior.434. elas militaram no movimento dos trabalhadores: a título de exemplo. na indústria de transformação 36%. elas permaneceriam. Convidada para discursar na Federação Operária Mineira. Dentre várias. mineira de Manhuaçu nascida em 1877. em São Bernardo. AS MULHERES COMO FORÇA DE TRABALHO O censo demográfico de 1920 mostrava que então 1. eclodiram greves na Fábrica de Tecidos Santa Maria. participaram da tentativa de uma greve geral da categoria: em 1925. no Rio. constata-se que. bordadeiras.000 mulheres trabalhavam oficialmente. professora e escritora.

já em 1919. ultrapassando sua condição social e dirigir-se a todas as classes de mulheres. a instrução obrigatória.°) Abrir escolas do caráter e da boa vontade. a fim de assegurar a aplicação das leis e regulamentos para a frr0teção dos trabalhadores". a educação racional feminina por todo o país. das ciências enfim. em cujo estatuto se esclareciam seus objetivos: Promover educação da mulher e elevar seu nível de instrução. por ocasião do movimento constitucionalista. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). pregar e protestar contra as mentiras convencionais. incluindo mulheres. juntamente com Olga de Paiva Meira. sem distinção de sexo. fazendo crescer na juventude a necessidade de ideal mais amplo . .de justiça e eqüidade entre os homens. cujo objetivo será protestar contra a escravidão da mulher.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG de resistência feminina. sua origem social estava na classe dos que tudo produzem e nada possuem. 5. porquanto é a força moral que conduz o mundo no dizer de Binet. Isabel Bertolucci celebrizou-se pelo seu "Manifesto à Mulher Paulista". ampliar o amor à Pátria. Estreitar os laços de amizade com os demais paises americanos.°) Pregar e exigir a educação popular. abominar a guerra.°) Trabalhar pela juventude e pelo exemplo para dar à criança. Segundo ela própria. da educação e da ética. a fim de garantir a manutenção perpétua da Paz e da Justiça no Hemisfério Ocidental. 4. 7. e a obrigação de caia Estado organizar um serviço de inspeção. da higiene. 8. Proteger as mães e a infância. escolas de força moral.118 - . Obter garantias legislativas e práticas para o trabalho feminino. 2. em 03/12/1932. fundou a Federação Brasileira Para o Progresso Feminino.°) Trabalhar para a criação de uma ou mais universidades femininas. abrangendo as nacionalidades como membros da família humana". Auxiliar as boas iniciativas das mulheres e orienta-Ias. fazê-Ia atravessar as fronteiras e olhar a Humanidade de uma só vez. a fim de preparar o pequenino exército das trabalhadoras que deverão sair para o interior em demanda de outras mulheres de boa vontade. Bertha Lutz. contra a hipocrisia protocolar. da fisiologia. No seu manifesto procurou. 04 a 10 de novembro de 2007. 3. da Organização Internacional do Trabalho.°) Promover o estudo da psicologia das forças ancestrais. representou o Brasil no Conselho Feminino Internacional. de forma a persuadí-Ias de sua crença pacifista e da imoralidade das guerras. na escolha de urna profissão. publicado em A Plebe. detestar a política. Assegurar à mulher os direitos políticos que a nossa Constituição lhe oferece e prepará-Ia para o exercício inteligente desses direitos.°) Falar. sob esses moldes. em cuja Primeira Conferência foram aprovados os princípios "de salário igual.°) Pregar a Paz.para o conhecimento da humanidade e das leis evolutivas em favor da beleza e da perfeição dos costumes. Em 1922. para o mesmo trabalho. 6. trabalhar para a reivindicação de seus direitos e para sua emancipação mental. das artes . educando-as num sonho de Paz futura para toda a gente. Estimular o espírito de sociabilidade e de cooperação entre as mulheres e interessá-Ias pelas questões sociais e de alcance público. da filosofia. escolas que despertem a iniciativa.

duas delas. em Paris. lutar contra os aumentos no custo de vida e. ressaltaram em discurso os males do fascismo e a necessidade de proporcionar-se instrução política às mulheres. Com o golpe de 1937 e o Estado Novo. assistindo-se à prisão de várias de suas integrantes. durante os seis meses iniciais de vida do bebê. PARTICIPAÇÃO FEMININA NO PÓSPÓS-GUERRA Terminada a guerra. congelado desde 1951 e desvalorizado pelos constantes aumentos no custo de vida (que Celso Furtado estima como sendo de 50% entre 1949-52). procuraram igualmente organizar-se. a greve teve como origem a luta pelo aumento do salário mínimo. nas palavras de uma estudiosa. em 1935 foi considerada ilegal. Em 1934. Polis. . contra a elevação do custo de vida. (Ver José Álvaro Moisés. Nessa ocasião. organizou-se o Departamento Feminino da Liga de Defesa Nacional. apresentado por ela e pela Deputada Carlota Pereira de Queiroz. O Estatuto ampliava a licença especial na época do parto para três meses. Greve de Massas e Crise Política. cuja comissão central a tecelã Mariana Galgaitez terminou por integrar. Bertha passou a integrar a Câmara Legislativa Federal. No final dos anos 40 e durante a década seguinte. no entanto. em São Paulo. participando da vida pública. o Estatuto da Mulher. reduzia de 30 para 20 o número de empregadas no local de trabalho cuja presença exigia creches. Mas outras mulheres. durante a II Guerra Mundial. de extrações ideológicas e partidárias diversas. pela paz. cujos objetivos.) Todo esse esforço acabou por resultar. De fato. 04 a 10 de novembro de 2007. incluindo mulheres de classe média. operárias e faveladas. pelos direitos das mulheres. com representantes de vários estratos sociais. Embora as mulheres tenham participado de formas variadas. elaborando. São Paulo). no âmbito do político. na ocasião. mais de mil mulheres se congregaram para. participando do Primeiro Congresso Internacional de Mulheres. (Idem. Também vale a pena ressaltar o papel que elas cumpriram na organização do movimento de anistia para aquelas pessoas perseguidas ou presas pelo Estado Novo.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Em 1936. a participação feminina foi intensa no movimento contra a carestia: no então Distrito Federal. freqüentemente organizados em comitês de bairros. da dinâmica do movimento operário no período pós Estado Novo. várias outras grevistas foram indiciadas em processos por sua presença em piquetes. fechado o Congresso. no âmbito do estritamente econômico. promoveu-se um encontro nacional de várias associações femininas. as reivindicações de Bertha Lutz tiveram de esperar por melhores oportunidades. "lutar pela solução dos problemas especificas dos bairros. (Idem).119 - . na constituição da Federação das Mulheres do Brasil. concedia à trabalhadora o direito de dois períodos diários para amamentação. eram. onde se fundou a Associação Feminina. Ed. e algumas delas somente foram concedidas em 1962. como suplente da vaga deixada por outro Deputado. pela defesa e proteção da infância". além de recolher dos nativos e roupas para os soldados. que consistiu em forte impulso para outros núcleos locais. de meia hora cada um. combater o nazi-fascismo e sua influência no país. "a fim de possibilitar-lhes participação efetiva nos movimentos de combate à guerra e aos regimes de força". A greve de São Paulo não foi isolada e dados 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Por sua vez. que paralisou aproximadamente 300 mil trabalhadores e. fundou-se a União Feminina que. como parte da Aliança Nacional libertadora. Na ocasião. destaca-se seu desempenho na greve de 1953. em 1949.

Os Censos Demográficos de 1940 e 1950 continuavam. em número menor. solidariedade. eclodidas em todo país.4% e em 1950 para 23. 04 a 10 de novembro de 2007. bonificação de Natal e o protesto contra a carestia. o trabalho industrial das mulheres caíra para 26. pagamento de salários atrasados. então.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG coletados por José Álvaro Moisés lhe permitiram falar em 264 paralisações no período 1951-1952. Em 1940. melhores condições de trabalho e.9% do total de trabalhadores. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). .120 - . acusando queda da participação feminina na indústria e sua persistência na prestação de serviços pessoais. cujas principais motivações eram a necessidade de aumentos nos salários.

também quente. sendo uma chuvosa e a outra seca. que desde a época colonial deu lugar a três tipos de zonas agrícolas. A região é considerada subdesenvolvida. 04 a 10 de novembro de 2007. porém apresenta diversidade climática (Moura. apesar da pobreza do solo em matéria orgânica.470. o Nordeste da pequena propriedade e da policultura.255. 2000). 1986). A Zona da Mata é apontada como área dos grandes canaviais. De acordo com Araújo (1999). localizando-se aí a maior porção das usinas do Estado e sobretudo aquelas que dispõem de maior dimensão. observando-se entre um e outro.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG A MULHER E A EMERGÊNCIA DA SECA NO NORDESTE DO BRASIL Izaura Rufino Fischer 45 Lígia Albuquerque 46 O Nordeste do Brasil tem uma extensão territorial de 1. a saber: a Zona da Mata. com estações bem definidas. intermitentemente. Embora tendo o caráter natural e acontecendo na mesma região. surgem desde o período colonial. a do Sertão. contando com alto índice de analfabetismo. 45 46 Pesquisadora da FUNDAJ Idem 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). denominada de Agreste.121 - .808. pequeno número de médios e grandes proprietários com elevado padrão de vida. principalmente no que se refere aos latifúndios insatisfatoriamente explorados. a seca ocorre em diferentes conjunturas sociais. com clima quente e úmido. sendo de 1534 o primeiro relato desse desastre natural (Andrade. Esta região. A dimensão social e política da seca A seca é um fenômeno natural que tem registro no Nordeste desde a colonização da zona semi-árida da região. Diante de tal diversidade. a região possui clima exteriorizado pela sua vegetação natural. ou seja. possuindo áreas úmidas e chuvosas. Na Região Nordeste. que representa 18. reconhecida como polígono das secas. a seca será considerada como fenômeno social que agrava a pobreza e afeta particularmente as condições de vida da população. A estrutura agrária é bastante concentrada. dependendo da qualidade da terra. De acordo com Andrade (1986). que dificilmente tem acesso às políticas sociais. têm padrão de vida razoável ou precário e que. Apesar de não existir grande número de latifúndios. econômicas e políticas que possuem aspectos particulares quanto à estiagem. Para efeitos deste trabalho. verificam-se consideráveis desníveis sociais. ao se focalizar a dimensão natural das secas. e sua população tem condição de vida precária. a dimensão de terras ocupadas pelos latifundiários é grande. vendem sua força de trabalho.077 km quadrados.7% do território brasileiro. Na área rural há. . mas que se contrapõem econômica e politicamente: o Nordeste da cana-de-açúcar e o Nordeste do gado. sistemas complementares de exploração agrária. Há também apreciável número de pequenos proprietários que. por um lado. com trechos quase tão úmidos como a da Mata e outros tão secos como a do Sertão. não se consegue vislumbrar muito mais do que a histórica repetição de cenas de fome e sede. 27% da população brasileira. Misturam-se a ela aspectos socioeconômicos e políticos que lhe tiram o caráter único de desastre natural. porém seca e vulnerável a esse fenômeno natural. possui 60% de seu território em área considerada vulnerável a esse fenômeno. e uma população de 42. hoje. e a zona intermediária.

Na implementação das políticas. especialmente através do rádio e a da televisão. além de promoverem ocupação do principal órgão de desenvolvimento da região. 04 a 10 de novembro de 2007. No entanto. principalmente devido à ajuda das políticas sociais. os mais vulneráveis são geralmente os trabalhadores sem terra e miniproprietários rurais. fato que favorece as desigualdades dos benefícios destinados ao socorro da população através de uma política unificada. em 1958. segundo Gaspari. dá espaços à lógica da contradição. a ser pago no longo do prazo ou a fundo perdido (FUNDAJ. Diversas políticas sociais têm sido implementadas no enfrentamento da seca. que só recentemente começaram a fazer parte da agenda governamental. homens e mulheres adotam práticas de luta. por um lado. O momento da seca. Em 1877. 1983). a catástrofe centrou o tema na consciência nacional. enquanto os proprietários rurais tomam atitudes que lhes proporcionam ganhos que superam suas perdas. os trabalhadores rurais. No estado de Pernambuco. Nessa ocasião. citado por Araújo (1999). A seca. Algumas medidas são implementadas sem resultado permanente. através dos sindicatos dos trabalhadores rurais e movimentos sociais que lhe dão visibilidade. além da profundidade da catástrofe. . a SUDENE. pois os horrores da seca fortificam interesses regionais. causa danos à população. Os produtores potencialmente mais resistentes. muda a própria história das estiagens. muitas das quais destinadas a corrigir distorções conjunturais geradas por modelos econômicos. por exemplo. Os efeitos da seca não atingem igualmente a população e o território do semi-árido.122 - . a seca leva à fundação da SUDENE. em 1998. Assim. pois são geradas no jogo das articulações políticas em que se considera a sociedade como espaço que pertence aos outros. a falta 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). é marcante. como fenômeno social de dimensão secular. enfrentam os efeitos da seca com menor esforço e sofrimento. o assédio aos governantes. para reivindicar uma política de apoio à população atingida pela seca. a exemplo do crédito financiado a juros baixos. Também leva à tona o nível de organização política dos mais afetados. como o da informação. A mulher exerce. 1998) da população não conseguem atravessar os momentos críticos da estiagem sem ajuda externa. em 1915.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG A seca. Assim. As preocupações em corrigir distorção estrutural proporcionam algum quantum de equidade social e sustentabilidade ambiental. pode significar mais uma oportunidade para aumentar seu poderio e estender seus domínios com o auxílio das políticas sociais. transpôs os saques da fome do sertanejo para a sala de jantar do Brasil. quando da instalação das políticas sociais dirigidas à região. divulgam e denunciam a situação e ação dos trabalhadores. para os produtores mais abastados. formados por grandes proprietários ou pertencentes a famílias abastadas. mas também propicia benefício. redefinem sua forma de ação ao trocarem o tradicional saque realizado em feiras públicas pelo ataque a transportadores de alimentos administrados pelo governo. que possibilita a organização da população afetada para se mobilizar e cobrar dos governantes medidas de amparo. Considerando que o Nordeste está dividido em três zonas de diferentes aspectos naturais e que possui infra-estrutura dominada pelas oligarquias agrárias. pressão mais direta sobre as estâncias estaduais e municipais que estão mais próximas. que. tais medidas são manuseadas e desviadas no caminho da prática. particularmente os sem terra. de modo peculiar. o governo se envolve com as conseqüências do fenômeno. adequadas a cada conjuntura política. aproximadamente 32% (Albuquerque. a seca. ao dar visibilidade às mazelas sociais da região.

da água. chamada política de emergência. o consumo e o tráfico de drogas (Fischer e Melo. além de invadir os mais longínquos recantos do Nordeste. como a insegurança. podem ser consideradas filhotes da globalização.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG de infra-estrutura da região rural. foram secularmente inventadas. direcionados a outros projetos como o da educação. que. é um programa governamental implantado para amenizar ou eliminar conflitos sociais inevitáveis que explodem quando parte da população tem seu nível de subsistência comprometido. a competição desigual. a exemplo da carência de energia elétrica. a expectativa para a agricultura é a de que a recuperação seja lenta. 04 a 10 de novembro de 2007. que se manifesta através do desemprego. a pecuária torna-se mais vulnerável diante da globalização. econômico. contribuiu para a desaceleração da indústria. de um modo geral e. fato que contribuiu para a transferência da renda das regiões mais pobres para as mais ricas. sobretudo no que se refere ao abastecimento d’água e geração de renda. é duplicada com a situação de seca. Os programas têm sido." composta por obra hídrica. ou se tornam exclusivos. em tese. da concorrência entre forças desiguais etc. da migração interna na região. pois as regiões afetadas pela catástrofe enfrentam a concorrência com outras localidades que se encontram em plena normalidade. em função da crise climática. própria da globalização. A globalização como aporte econômico. Na avaliação de administradores governamentais locais entrevistados. esse vasto processo histórico-social. que aparecem em pequenas cidades interioranas. a exemplo da chamada "frente produtiva. Essa política tem como objetivo atender a população que se encontra em reconhecido estado de calamidade pública. no Nordeste.123 - . Tais fatores levam a aprofundar os efeitos nefastos da seca sobre a população atingida. Assim. As políticas sociais criadas em períodos de seca são geralmente transformadas em programas de governo. e a prioridade do proprietário da terra é pela produção de alimento para a pecuária. a seca se instala num cenário em que grande parte do pequeno produtor sem terra reside na periferia da cidade. de acordo com as prioridades da população. Além disso. não tem lugar certo de trabalho quando planta. a prostituição. costumes e tradições que parafraseando Hobsbawn (1997). A seca que atingiu o Nordeste do Brasil no período 1997-1999 se instala num contexto já fragilizado pelos efeitos da globalização. enfrentam a concorrência de carne e leite em condições desfavoráveis. por vezes. Os produtores do sequeiro. pois. tendo as verbas alocadas. a fragilidade do nível educacional da população e a sua convivência com problemas típicos de grandes cidades. Com a seca. Essas mazelas sociais. segundo Ianni (1995). do comércio e da agricultura. 1999). "Os governantes terão de escolher entre subsidiar o campo ou construir a miséria na cidade". particularmente. político e cultural continua a expandir-se. A política social da seca A política adotada em período de seca. Tal política é estabelecida a partir de pressões da população que tem seu suporte alimentar afetado. . Tais efeitos tendem a se agravar. capacitação e alfabetização dos 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). crédito etc. da saúde. tem contribuído para redefinir hábitos.

açúcar. 04 a 10 de novembro de 2007. crédito. Tal montante. As linhas norteadoras das frentes produtivas. Produção de brita e paralelepípedo. a exemplo das frentes ecológicas e culturais (educação ambiental. emprego. ter idade entre 14 e 60 anos. e. Fabricação de telhas e tijolos a serem utilizados em obras ou mutirões. foi definido: a prioridade ao trabalhador rural que dependesse da produção agrícola ou pecuária para o sustento da família.000. proprietário ou arrendatário). . destinada principalmente à construção de asfaltos. Construção de residências na área rural e recuperação de prédios públicos. De acordo com a autora. com o propósito de beneficiar até um milhão de trabalhadores rurais (Melo.124 - . distribuído através do órgão de desenvolvimento do Nordeste. Os beneficiados com emprego deveriam estar disponíveis 27 horas semanais. óleo. produtores que se enquadrasse nos critérios da agricultura familiar PRONAF (o candidato deve ser parceiro. Na escolha dos contemplados. a preferência aos trabalhadores cabeças de família. Os membros da Comissão devem ser indicados pelas instituições que os representam. apenas um poderia ser contemplado. na família de 1 a 5 membros. ou dedicando-se à capacitação ou alfabetização. foram usados critérios de seleção como: ser trabalhador rural. era facultada a participação de três membros do grupo familiar. O núcleo familiar com mais de 7 membros que possuísse aposentado poderia inscrever apenas uma pessoa. Crédito destinado à criação de infra-estrutura no valor de R$ 450. Dada a peculiaridade da área. residir na propriedade ou aglomerado urbano próximo. café. Na seca de 1998. A "frente produtiva" tem o objetivo de preparar a população para conviver com a estiagem. recuperação e limpeza de cisternas. incluíram outras ações. aproximadamente R$ 600.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG trabalhadores. saúde. além de contemplarem recursos hídricos. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). que poderiam ser usadas realizando trabalho rural ou urbano. gerados da exploração agropecuária. As principais ações implementadas pela política social da seca estão assim organizadas: • • • • • • Distribuição de cestas básicas contendo 19 quilos de alimentos (feijão. 1999). farinha. segundo a autora. poderiam ser inscritos dois integrantes. alfabetização|capacitação e saneamento básico. ter renda de no mínimo 80%. macarrão). etc.00 foram destinados a atender a população atingida pela catástrofe. Os recursos para tais ações devem ser administrados por Comissões Paritárias compostas por membros do Estado e representantes da população afetada. os beneficiados seriam contemplados com alimentos. estaduais e municipais. foi alocado em vários programas existentes.000.00 (investimento e custeio). utilizar força de trabalho familiar. Essas comissões devem ser formadas nas esferas federal. arroz. As atividades culturais resumem-se a dinamizar o artesanato nos principais centros do país). de 6 a 10 pessoas. fubá. Construção.000. açudes. barragens e aguadas. educação. barreiros. acima de 10 pessoas. possuir quantidade de terra que não supere 4 módulos fiscais qualificados na região em vigor. tanques. conservação e recuperação do meio ambiente e ecoturismo.

se referem à comida de má qualidade. comporta vários significados. embora não acarrete. observa-se que a fome no Semi-Árido nordestino constitui uma extensão da pobreza. que não é pensada pelos idealizadores da política da emergência da seca. são direitos do cidadão. 04 a 10 de novembro de 2007. mas. a inanição por falta absoluta de alimento. relacionada à casa e à mulher. como enfatiza Bobbio (1992). em sentido simbólico. sem dúvida. as necessidades não passam pelo crivo do planejamento.125 - . a qual. que tem causas mais ligadas às desigualdades sociais do que aos fenômenos climáticos. falta de terra para trabalhar.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG A contribuição da mulher na atenuação da fome na seca O problema da seca não se manifesta no aspecto específico da água. a fome somente se caracterizaria como tal no caso de morte por inanição. Estas. Dessa forma. . mas especialmente na escassez de alimento. Assim. pode significar muitas coisas juntas. Essa carência ocasiona morte prematura. de acordo com Sobrinho (1982). amenizada pela rede de solidariedade entre os iguais. que as famílias dos pequenos produtores rurais caracterizam como necessidades. no ser humano. especialmente no que se refere ao suprimento alimentar. No sentido moderno. homens e mulheres têm papéis diferenciados. a seca apenas agrava a situação da fome. a fome é uma constante nas famílias dos pequenos agricultores do Semi-Árido nordestino. Em qualquer dos significados acima levantados. enquanto o homem tem a pesada função econômico-social de produzir e distribuir os gêneros alimentícios. socorre quem nada tem para cozinhar. quando atinge o indivíduo na sua totalidade e alcança o patamar classificado por Josué de Castro (1980) de epidemia de fome coletiva. que. segundo Fischer (1998). fome é a falta de quaisquer dos quarenta ou mais elementos nutritivos indispensáveis à manutenção da saúde. De acordo com Castro (1980). caracterizada como fome endêmica. independentemente da seca. De acordo com Fischer (1998). necessariamente. que afeta indistintamente a todos. as chamadas necessidades aumentam e comprometem a própria sobrevivência da família sertaneja nordestina. o termo se referia à falta de alimento para saciar o apetite. a necessidade adquire a conotação de fome. que. e aquele que dispõe de algum quantum de alimento. Diz respeito ao indivíduo e à humanidade. é novamente considerada pela família do produtor rural do Sertão nordestino como necessidade básica. Ao atingir tal estágio. é através desse arranjo que a solidariedade caricatura a fome. Assim. pois cabe ao elemento feminino enfrentar a difícil tarefa de gerenciar o alimento consumido no cotidiano. Seria uma visão simplista atribuir a fome da família rural dessa região do Nordeste unicamente à irregularidade pluviométrica que periodicamente desorganiza a produção. e é problema crucial. dando-lhe novamente a conotação de necessidade. Esse processo de solidariedade ocorre através da distribuição do pouco alimento que existe na comunidade ou rede de parentesco. A palavra fome. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). No passado. é considerado estágio fisiológico ligado à necessidade alimentar. Na família estudada do Semi-Árido. no período de escassez de chuvas. obedecem a uma administração rigorosa. em período de chuvas normais. considerados indispensáveis à sua sobrevivência. isto é. Nessa administração. carência de assistência médica. moradia e outros elementos do bem-estar que. falta de roupas e calçados.

demonstra sentimento de impotência e apenas tenta se justificar dizendo que "não tenho de onde tirar". esperança. sobretudo. A parte da mulher esquenta muito. Reclamo para o marido e para os filhos porque não vou morrer calada. que geralmente é a mulher. reclamo o tempo todo. vendo o povo pra comer e a comida sem dar pra todo mundo. doa a refeição que lhe cabe. O homem rural do Semi-Árido pesquisado dificilmente passa por dificuldades semelhantes às da mulher chefe de família. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Quando ele consegue fico satisfeita. de mantenedor da família. é. Os depoimentos seguintes enfocam a angústia da mulher ao dividir o alimento na unidade familiar: Fico desesperada quando a comida não dá. Pobre come só o que tem. e devolve o problema para a mulher. segurança. não ingerem a quantidade que seu apetite permite. pois raramente assume o núcleo familiar sozinho.chora e insulta o marido e encara o problema com determinação.. Vale. a prova mais dura que enfrenta na seca. principalmente durante a seca. Os filhos e de 13 e 15 anos. Caso os pequenos não fiquem relativamente satisfeitos. Nessa distribuição. diante da falta de comida para servir aos filhos. e digo: tu tá mais novo do que eu.. por ele próprio. cabe a ela distribuir "pratos feitos" entre os familiares. todos têm que comer pouco. Eu afino a sopa. "Esta é uma provação que tira o sono. Enquanto a mulher procura dar vazão a seus impulsos. não se conformam com pouco. Tem hora que olho pro velho. são comedores. principalmente a dona-de-casa. sobretudo. 04 a 10 de novembro de 2007.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Na administração cotidiana do alimento. outra vez nem isso pode fazer. Quem está na cozinha é quem sente a dor de cabeça. o homem. A criança não quer saber de onde sai. Brigo. avalia uma entrevistada do município de Patos.126 - . se atrapalha. portanto. É difícil fazer uma sopa com a metade de um pacote de macarrão para dividir com 8 pessoas. o que é possível. "não encontro pra quem trabalhar". O homem apresenta comportamento peculiar no enfrentamento da falta de comida. Só quem sabe o que tá precisando. tarefa que culturalmente lhe é atribuída e cobrada pela sociedade e. O marido pergunta: nós vamos fazer o quê? Aí. principalmente no período da seca. alguém. fica deprimido e frágil. diante da limitação do alimento. no geral. muitas vezes. É preciso saber pra ninguém ficar sem nada. Esse grau de depressão aumenta na medida em que a mulher. Geralmente. Quer comer 3 vezes por dia. Se não usar bem com o juízo. é a mulher.. o ânimo e até a vontade de viver". se conformar com o que tem. e consegue inclusive levantar o ânimo dos familiares -.. o que vai faltar. principalmente para as crianças e o marido.. Afino. para que todos sejam contemplados eqüitativamente. O fato de ter pouco alimento para servir na hora da refeição. os indivíduos. Diante de tal cobrança. de um modo geral. passa pela mesa (entrevistado residente no município de Ouricuri). delimita também o alimento de cada membro durante a refeição. Seu constrangimento resume-se ao não cumprimento de suas obrigações de provedor do lar. além de calcular a quantidade de gêneros alimentícios que deve ser consumida diariamente na unidade familiar.. O marido é. o homem tende a assumir calado sua fraqueza e. na opinião da mulher pesquisada. Ele sorri e diz: é. que tem mais idade do que eu. É difícil repartir a comida. dividindo seu desespero com todos na família . Mesa de pobre é desigual: tem dia que faz de conta que tem. exigência que ele tende a ler como negação da sua condição de homem. contemplado nessa distribuição. mas. são estabelecidas prioridades que contemplam as crianças e o marido. se a comida vai dar. cobra-lhe a obrigação de dono de casa e. salientar que no processo de distribuição da refeição. o sossego. a mulher rural em estudo. ainda. mas não tem jeito. Se tem pouco. . Aí dá dor de cabeça. ele sai pra comprar fiado. você se aperreia muito (entrevistada do município de Patos).

15 dias. carne (mesmo que eventualmente) e algumas verduras. Cozinho o feijão de manhã. envergonhado repreende: eu comprei fiado]. Hoje não tinha café em casa. na expressão de Euclides da Cunha. que fazia do sertanejo "um forte". carne de boi. Quando a gente pega em dinheiro.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG dando-lhe mais uma tarefa: a de pensar sobre o que ele deve fazer. Assim. 1 de açúcar. o que ocorre com freqüência. porque café tá muito caro. que tem sua alimentação totalmente desequilibrada. a título de emergência. que rende mais. porém. assimilada pela mulher. tanto com a combinação de alimentos quanto com a escassez e limitação na diversificação de produtos alimentares. transtornos orgânicos na família rural. versa sobre os arranjos alimentares improvisados pela mulher em época de estiagem: O alimento é fraco na seca. a mulher utiliza seu aprendizado sobre o seu preparo. a família se mantém num patamar mínimo de sobrevivência alimentar durante um mês. A dona-de-casa rural da seca dificilmente sabe distinguir proteínas de vitaminas e tampouco entende o que significam sais minerais. milho. quantidade e qualidade na junção dos nutrientes.. 5 de fubá.00 (exceto no estado do Piauí. às famílias atingidas pela seca. Este é um tipo de situação que deixa o homem um tanto desmoralizado diante da família e com a autoestima em baixa. quando tem. E embora aquela alimentação balanceada com proteínas e vitaminas que. de forma que se existir produção de feijão. porque gente fraco não faz feira. causa mal estar psicológico e social no homem e na mulher e. para improvisar arranjos nutricionais durante a seca. leite. manteiga. já não exista. como queijo. conforme destacam praticamente todas as entrevistadas (o fubá é ruim. . Feira assim. que simboliza o sentimento de praticamente todas as entrevistadas. mas pobre come tudo. contém 19 quilos assim distribuídos: 5 de arroz. mesmo desconhecendo o conteúdo de proteínas.. O seguinte depoimento. sobretudo durante a seca. sabe dosar. 4 pacotes de macarrão e 2 latas de óleo vegetal. no preparo do alimento. ovos. por vezes. Compro o carioquinha. o feijão vinha duro (foi substituído pelo fubá) e a farinha não presta). onde é de R$ 60.127 - . pago pelo governo. e assim a gente vive. Alguém deu café e açúcar a ele lá pela rua [o marido. Compra 10 quilos de açúcar e 10 quilos de feijão pra 15 dias. arroz. improvisados com os gêneros da cesta básica doada pelo governo através do Programa de Emergência e que. A situação torna-se mais crítica quando aquele salário sofre atrasos. de tal forma que duram. 2 de farinha. cabrito. 04 a 10 de novembro de 2007. segundo Castro (1980). A mulher poupa as iguarias recebidas. ao todo.00). repassado através de gerações. que ficam sem ter a quem recorrer para 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). é só café com açúcar. Mesa de é desigual (entrevistada residente no município de Patos). eu tempero aquele caldo com uma cebola e alho e coloco um pouco de "cusculho". Deixo o caldo do feijão pra noite. vitaminas e sais minerais dos produtos alimentares. embora tenha a consciência de que a refeição não está balanceada em vista da reduzida diversificação e da quantidade dos itens disponíveis. a família terá a alimentação relativamente equilibrada devido à vivência da mulher rural pesquisada. que estava junto. De manhã. A escassez de alimentos. constituía o grosso do consumo da família sertaneja. se complementadas com as compras feitas com o salário de R$ 80. sem dúvida. e 11 horas a gente come os caroços do feijão com "cusculho". carneiro. Apesar da má qualidade dos alimentos da cesta básica. nós faz a feira. em média. da época restaram o hábito alimentar e a cultura de preparar o alimento. Esses arranjos alimentares são. Aí. prejudicando aquelas fragilizadas famílias.

) A família rural da seca. Universidade de Brasília. Dimensão social e política da seca de 1983. Diante da impossibilidade de convivência com esse desastre natural. e.128 - . Petrópolis. Castro Josué de. Considerações Finais Como se pode observar. Os comerciantes da localidade não vendem fiado a esses trabalhadores. 1996 Fischer. Araújo. Dicionário de Política. 2 ed. A terra e o homem no Nordeste: contribuição ao estudo da questão agrária. 4 ed. a zona do Sertão semiárido é intermitentemente atingida por secas. Geografia da fome. particularmente. As políticas sociais destinadas a essa região ainda não proporcionaram uma base estrutural. . dado o seu caráter de região pobre. Recife: Recife: FUNDAJ. que fragiliza o seu desenvolvimento em todos os aspectos e desmoraliza o indivíduo na sua dignidade. São Paulo: Atlas. Norberto et al. o que contribui para descontrolar ainda mais seu limitado orçamento familiar.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG conseguir qualquer tipo de alimento. a fome absoluta ameaça intermitentemente o cotidiano dos atingidos pela seca. o Estado dificilmente conteria os conflitos sociais e a dizimação da população provocada pelo referido fenômeno. levando-a ao caos. 1998. (in Branco – Org. Diante de tal realidade. Sobrinho Estevan de Lima. 1997. Gênero: uma questão questão no programa de emergência (in Branco Org. o Nordeste do Brasil e. O trabalho feminino: efeitos da modernização agrícola. 2 ed. 5 ed. agricultura e política no Brasil: a chantagem alimentar. 1983. 1992. suficiente para que a população conviva com as secas sem passar pelo tormento da fome. Brasília: ed. a grande maioria da população tem a sua condição de vida afetada em sua estrutura. Hobsbawm Eric e Terence Ranger. auxiliando a política social da emergência. 1982. 04 a 10 de novembro de 2007. Bibliografia Andrade. Recife. Fundação Joaquim Nabuco – FUNDAJ. a contribuição da mulher está presente. Rio de Janeiro: Antares. devido aos freqüentes atrasos nos pagamentos da Frente de Emergência. Seca: fenômeno de muitas faces. Recife: Massangana. 1999. Conselho Conselho de desenvolvimmento de Pernambuco –Condepe. Fome. Izaura R.) Fundaj. Rio de Janeiro: Paz e Terra. pois a fome certamente contaminaria a região. Bobbio. Melo. 1986. Izaura R. Maria Lia Correia de. a cada ocorrência de seca. 1980. Sem esse auxílio. e Melo Lígia Albuquerque de. Recife. Fundaj: Recife. Manuel Correia de. Lígia Albuquerque de. Recife: 1998. 1998. Vozes. Fischer. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). A invenção das tradições.

entre a potencialidade e a realidade. parceiras de trabalho no SOS Corpo. Tais riscos não estão relacionados apenas aos limites para expansão ou consolidação da agricultura familiar. Comércio internacional. envelhecimento e masculinização no Brasil: um panorama dos últimos 50 anos. há longo caminho a ser percorrido que não depende apenas de mudança nas políticas públicas. (Textos para discussão. segurança alimentar e agricultura familiar. Por outro lado. coordenadora de educação do SOS Corpo – Gênero e Cidadania e integrante do Grupo de Referência do Observatório da Cidadania. desigualdades. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). adultos(as). jovens e crianças. até o momento. Adriano. In: REBRIP/ACTION AID. 2001. contradições. Com relação a esse aspecto. destacando sua contribuição nos campos da segurança alimentar. especialmente no que se refere à harmonia e à complementaridade entre as ações humanas e a natureza. função econômica e social. Sem negar que essas características podem ser realizadas pelo modo de produção familiar. a agricultura familiar vem ganhando importância como alternativa para o desenvolvimento rural sustentável. mas às suas possibilidades de constituirconstituir-se em um instrumento que promova a democracia e a justiça. que privilegia o setor latifundiário e a agricultura patronal. A constatação do hiato e da aparente contradição entre os discursos estatais e suas proposições políticas não responde à totalidade do problema a ser enfrentado. 1999. tanto nas ações dos movimentos sociais como das políticas públicas governamentais. é fato que. Agradeço a Carmen Silva e a Simone Ferreira. 49 CAMARANO. a força discursiva não foi suficiente para provocar resultados que alterem os graves padrões de pobreza e exclusão a que estão submetidas as populações rurais – cujas causas estão radicadas no exaustivamente reconhecido modelo modelo de desenvolvimento hegemônico brasileiro. A mudança de foco aqui operada talvez nos obrigue a olhar menos para as funções que exerce e mais para as estruturas que a sustentam. . tangíveis e intangíveis.129 - . 48 SOARES. 04 a 10 de novembro de 2007. 612). pela colaboração neste texto. Ricardo. o discurso sobre agricultura familiar produzido nos últimos anos por vezes a trata como um fenômeno histórico recente e altamente idealizado. mas fundamentalmente dos processos sociais e políticos – em suas dimensões contraditórias e conflitivas – presentes na base das análises e ações que tradicionalmente vêm organizando e dinamizando a agricultura familiar. entre a produção e o consumo. de elevado valor para a sociedade em geral”48. Rio de Janeiro: Ipea. funcionalidades e dependência entre o modo como está estruturada a agricultura familiar e as desigualdades de gênero. no campo da sociedade civil. Action Aid. Êxodo rural. bem como o seu caráter multifuncional. Multifuncionalidade da agricultura familiar. sustentabilidade ambiental. No que se refere a essas essas políticas. Soares considera que a “agricultura familiar provê um conjunto de bens públicos.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG amiliares Muito trabalho e nenhum poder marcam as vidas das agricultoras ffamiliares TACIANA GOUVEIA47 Nos últimos anos. Tomando como 47 Feminista. Este artigo pretende analisar as relações. Camarano e Abramovay questionam: “Até que ponto o meio rural pode ser um espaço propício na construção da cidadania e de condições de vida capazes de promover a integração econômica e a emancipação social das populações que aí vivem?”49. ABRAMOVAY. entre mulheres e homens. Ao estudar o processo de envelhecimento e masculinização da população rural. demonstrando as conseqüências dessa dinâmica tanto na restrição da autonomia e cidadania das mulheres como no que se refere aos riscos que o próprio modelo corre se não construir possibilidades para o enfrentamento dessas desigualdades. Amélia. n. Rio de Janeiro: Rebrip.

Dá-se quando é negado às mulheres o direito de decidir. as possibilidades de construção de cidadania e emancipação das mulheres ainda são muito restritas.gov. ainda de modo incipiente.embraba.. ao se organizar a partir deste sistema.] instituída pelas mulheres nos espaços vazios dos grandes latifúndios”52. . 04 a 10 de novembro de 2007. Disponível em: <www. atribuição de valores. tal como definida por Weber. ABRAMOVAY. As mulheres não são invisíveis. conseqüentemente. Tradução da autora. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Economia y sociedad. reproduz e perpetua tal exploração e opressão. são as relações de dominação patriarcal que lhes atribui um lugar menor. A partir dele. Ricardo et al. O ethos da agricultura familiar coloca no pai todo poder para organizar não só o empreendimento produtivo como também todo universo de relações que ali ocorrem. Em outras palavras. “a nossa agricultura familiar é herança de uma atividade basicamente feminina [. Se o patriarcado é o sistema que cria. Sucessão profissional e transferência hereditária na agricultura familiar. uma vez que é concreta a “rota de saída” das mulheres. 51 WEBER. Não são as mulheres que se ocultam. atribuir aos outros a incapacidade de enxergar as mulheres muda o sentido da compreensão da realidade e.br>.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG referência as relações de gênero na agricultura familiar em seu atual formato. oportunidades e benefícios50. Abramovay e colegas constataram que 64% dos pais informam que têm o poder sobre todas as atividades da unidade familiar.gipaf. 1992. ela era vista como uma atividade feminina vinculada ao doméstico. Max. parece que a situação começa a ser inquietante exatamente nos momentos e movimentos em que elas deixam de estar. 53 Id. “é interessante observar que. expressão tão recorrente que já assume um estatuto de verdade. quando discursos mantêm a suposta universalidade do masculino (“o agricultor”). na dominação patriarcal. Longe de ser um mero jogo de palavras. estão presentes “a crença no caráter inquebrantável do que tem sido feito sempre de uma determinada maneira”51 e a autoridade fundamentada na submissão e nas relações pessoais de convivência íntima e permanente. ainda.. Cristina. Ao mesmo tempo..cnptia. mas no próprio processo de visibilidade e valorização desse modo de produção. Integração da perspectiva de gênero no setor da reforma agrária. sendo a ausência o que concretiza esse (re)conhecimento. das estratégias para a superação das desigualdades. A operação de invisibilidade ocorre em um momento posterior ao trabalho realizado. op.. no momento exato em que ela passa a ocupar um espaço nas grandes políticas.130 - . 52 BUARQUE. Como bem analisa Buarque. seja ele produtivo ou reprodutivo.br>. ibid. especialmente as mais jovens. não as consideram como sujeitos de direito. constrói-se uma hierarquia rígida na ocupação de lugares. justifica e legitima a opressão e exploração das mulheres. Disponível em:<www. muitos setores envolvidos na defesa da agricultura familiar começam a preocupar-se com essas questões. elas não são vistas no sentido de seu reconhecimento como sujeitos ativos dos processos produtivos. Tal diferenciação de oportunidades e poderes ocorre não apenas na agricultura familiar. seus protagonistas mudam de sexo”53. E. quando os projetos políticos.gov. do espaço da agricultura familiar. estatais ou da sociedade civil. 50 Em pesquisa recente. Buenos Aires: Fundo de Cultura Econômica. agricultura familiar. Cabe abrir um parêntese para questionar a chamada invisibilidade das mulheres e seu trabalho na agricultura familiar. cit. não se pode negar que.incra. enquanto a agricultura familiar não passava de um instituto marginal na economia. Para além do reconhecimento verdadeiro e legítimo das injustiças a que as mulheres estão submetidas. quando as estatísticas e análises – produzidas pelo Estado ou pela sociedade civil – não trabalham os dados separados por sexo.

Contudo. em graus variados. destocar e vender. basta olhar a dinâmica cotidiana para que se constate que as mulheres.131 - . a divisão do trabalho é um pouco diferente. 04 a 10 de novembro de 2007. mas só em um caso é exclusiva. Nas demais situações.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Onde estão as mulheres? De modo apressado. . 57 É interessante observar que a justificativa para o predomínio masculino na troca do botijão não é o peso. a manutenção do sistema tradicional é assegurada pela sobrecarga de trabalho das mulheres”56. Moura e Lopes em diagnóstico realizado no Vale do Guaporé (1998). Em quatro dessas atividades. Rosana. Assim sendo. analisando o sistema de roça itinerante e o manejo de inovações tecnológicas. Na criação de caprinos/ovinos.cnptia. como demonstram os dados a seguir. a freqüência é bem mais baixa que a dos homens: brocar.gov. 55 Composta de quatro municípios: Sobral. buscar e rachar lenha. Já na criação de aves. o mesmo não se pode dizer das atividades reprodutivas. Os dados coletados em uma pesquisa54 com as agricultoras familiares da região de Sobral. MOURA.gipaf. das 25 atividades que compõem a esfera reprodutiva. Disponível em:<www. os homens realizam a maioria. no Ceará55. em uma. constataram que “as mulheres têm maior contribuição individual na força de trabalho familiar e na continuidade das atividades tradicionais. somente elas são as executoras. replantio. Em todos os lugares porque para além dos dados que as ocultam. Das 15 atividades listadas. eles são majoritários (realizam as 11 atividades. sendo que. as mulheres participam na mesma proporção que os homens (capina. Um exemplo disso é levar pessoas doentes ao serviço de saúde que articula a dimensão do cuidado com a saída do espaço familiar58. em muitos casos. Essa é uma área de extrema pobreza. em apenas 50% dos casos. mas também verdadeiro. Guilhermina. no Pará.embraba. havendo ainda casos em que participam de todas. em maior ou menor medida. há um equilíbrio na divisão das atividades. Etnografia sobre as relações de gênero na agricultura familiar no 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). COSTA. a participação masculina é muito baixa (em média. Ver PUHL. a presença masculina é maior. LOPES. ainda que não exclusiva e. enquanto as mulheres participam de três a cinco). as mulheres realizam todas as atividades que compõem o sistema. Enquanto que os homens estão envolvidos com as novas técnicas introduzidas e nos treinamentos. pois sua característica principal é ser uma espécie de híbrido entre responsabilidades ditas femininas com aquelas ditas masculinas. nos casos restantes. três atividades). As tabulações estão em fase de finalização.9 mostram que. pode-se dizer que as mulheres estão em todos os lugares e não estão em lugar nenhum. Em apenas três atividades.br>. sendo que o trabalho feminino está presente com alta freqüência de sete a nove atividades. onde Cayeres e Costa. colheita) e. em 49% dos casos. Se as mulheres executam as atividades produtivas na mesma proporção que os homens. Dados semelhantes são encontrados em pesquisas que investigam contextos diferentes. como é o caso de trabalho realizado em Paragominas. apenas 20% são realizadas com mais freqüência pelos homens (fazer feira. mas sim o medo de acidentes provocados pelo vazamento de gás. pois os homens estão mais envolvidos na atividade. as 54 Pesquisa realizada em 2003 pelo SOS Corpo – Gênero e Cidadania para Projeto de Desenvolvimento Local Pnud/BNDES. consertos de utensílios e reparos na casa e trocar o botijão de gás)57. realizam todas as atividades produtivas e reprodutivas na unidade familiar. 58 Resultados quase idênticos foram encontrados por Puhl. realizada pelos meninos. 56 CAYERES. onde a maior parte da produção familiar está relacionada com as atividades do roçado e a criação de animais de pequeno porte (aves e suínos). Na criação de suínos. enquanto 28% das atividades têm uma freqüência maior de realização compartilhada. Santana do Acaraú e Meruoca. plantio. das 14 atividades relacionadas com o roçado. as mulheres participam. de todas. Análise da mão-de-obra no sistema de produção familiar de uma comunidade amazônica. Na área de Sobral. Massapê. são majoritárias (beneficiamento dos produtos).

61 Ver CAMARANO e ABRAMOVAY. econômicos e políticos. RUA. sendo que.22. é por elas e por meio de seus trabalhos que se realiza a integração entre produção e consumo.ibge. em 1995. elas ainda estudam e exercem o magistério. os jovens que fazem esse movimento. No Brasil. Ainda que os dados apresentados não façam referência direta à dimensão da pluriatividade na agricultura familiar. Rio de Janeiro: Fase. Como decorrência. já que. Miriam. essa queda foi de 11%. A tendência de diminuição da população feminina no meio rural é histórica. característica considerada fundamental na consolidação desse modo de produção. houve queda de 10% na população rural brasileira. Além disso. 04 a 10 de novembro de 2007. especialmente na condição de mães. 1998. atuam para além do especificamente agrícola. PACHECO.56 homens para cada 100 mulheres. Se. Em 30 anos. as mulheres passaram de 48.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG mulheres são executoras exclusivas de 52% das atividades reprodutivas. Quarto Caderno: Experiências Rurais. Pesquisa realizada em assentamentos de seis estados do Brasil59 confirma esses dados. mas vale destacar que a inserção em atividades não-agrícolas é profundamente marcada pelo viés de gênero60. Não cabe aqui analisar a correção ou não de tais proposições. entre 1991 e 2000. Na maioria dos casos. Maria das Graças. In: CAMURÇA. em 1980. além das atividades domésticas e agrícolas. op. cit. onde um terço dos homens que trabalhavam na atividade agrícola não haviam se casado até os 35 anos) como na América Latina (onde. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Vem ocorrendo tanto na Europa (é o caso da França.). são majoritariamente presentes nas quatro atividades apresentadas – o que as torna multifuncionais para a agricultura familiar. pode-se fazer inferências sobre quem são as pessoas que. (Orgs. artesanato. Brasília: Unesco. Silvia. turismo. A média brasileira (incluindo o urbano e o rural) na última contagem Vale do Guaporé. a ausência física das mulheres não significa que elas deixem de ser um elemento da organização e da manutenção do estabelecimento familiar. para as mulheres. com mais freqüência. tem-se que as mulheres. em certa medida.br>. 62 Disponível em <www. Programa integrado de capacitação em gênero. Maria Emília. especialmente aquelas cuja realização é diária e contínua. Companheiras de luta ou coordenadoras de panelas?. Analisando os dados para além da sub-representação que parece ocorrer com o trabalho feminino na produção agrícola. . levando consigo a subvalorização da sua contribuição para a sustentabilidade da agricultura familiar. São as mulheres – independentemente de faixa etária – e. é necessário pensar a questão da pluriatividade como uma das formas a partir das quais esse modo de produção é constituído e dinamizado. de acordo com os dados do Censo de 200062. ao mesmo tempo em que revela os modos como as atividades produtivas das mulheres são invisibilizadas e transformadas em ajuda ou parcialidade. sendo possível também estabelecer conexões entre os processos migratórios femininos e o conceito de pluriatividade. havia 5 milhões de homens a mais do que mulheres)61. 59 ABRAMOVAY. 2000. principalmente no contexto dos debates sobre o “novo rural” e os modos como outras dimensões econômicas – como serviços. A razão de sexo também é um indicador importante. em 2000 passou a ser de 109. desenvolvimento. sendo uma prática condicionada pelos contextos sociais.132 - . mesmo nos estudos que tratam do tema da pluriatividade. democracia e políticas públicas. não há uma nomeação do sexo daqueles(as) que têm múltiplas inserções produtivas. 60 É interessante observar que.gov. gastronomia e até mesmo um certo modo de vida – que vêm sendo reforçadas nos discursos e políticas como alternativa eficaz para o desenvolvimento rural.47% da população rural para 47%. a razão de sexo na população rural era de 106.

são 96. op. Disponível em: <www.fundaj. 2001). cit. Além disso. dados apresentados por Abramovay e Rua demonstram que o percentual de homens solteiros nos assentamentos é muito superior ao de mulheres. os jovens que investem na qualificação escolar também tendem a deixar a unidade familiar. (Trabalho para discussão n. tanto no que se refere às conquistas no plano dos direitos. jun. as relações de gênero são determinantes tanto no que se refere à preferência por mulheres nos empregos do setor serviços. em Pernambuco: “Fiquei uma pessoa independente. como fica claro no depoimento de uma trabalhadora da fruticultura irrigada de Petrolina. Vale ressaltar dois processos profundamente interligados e pouco considerados. especialmente as mais jovens. Antônio et al. como na maior escolaridade encontrada nas mulheres rurais. eu também digo. 04 a 10 de novembro de 2007. Quando meu marido diz ‘é meu’. É essa mesma lógica que leva a um maior incentivo para que as filhas invistam na escolarização. Adélia. O acesso ao mundo público. a remuneração pelo trabalho realizado e a quebra com o tempo indistinto que marcam a ligação entre produção e reprodução dentro da unidade familiar são fatores que transformam o cotidiano das mulheres. Quando ele diz ‘eu estou cansado’. b) dinâmicas das relações de gênero na família. de ser alguém com um lugar no mundo. ou seja. 65 MELO. Apud BRANCO. interpretam a si mesmas e à realidade. conforme constataram em pesquisa recente Melo e colegas65. aumentam suas chances de conquistar postos de trabalho mais qualificados. Gênero e globalização no Vale do São Francisco. VAINSENCHER. em contextos diversos do ponto de vista político e econômico encontram-se os mesmos processos. A educação formal e os novos mercados para a agricultura familiar. é possível estabelecer rotas que a contornem e minimizem os seus efeitos perversos e injustos. 2003.93 mulheres para cada 100 homens. c) relação entre processos migratórios e graus mais elevados de escolaridade. dando-lhes condições de pensar e buscar outros destinos diferentes da submissão absoluta à lógica patriarcal. Se ainda não há condições para a ruptura dessa lógica. apresenta uma tendência inversa. comprovando assim que a estrutura das relações de gênero tem um peso decisivo na dinâmica de desenvolvimento rural. Semira. eu também digo que estou”64. Texto apresentado no XLI Congresso Brasileiro da Sociedade Brasileira de Economia e Sociologia Rural.gov. set. É importante levar em conta também as transformações por que passaram as mulheres nas últimas décadas.T T Se. em princípio. Na perspectiva aqui assumida.133 - . confirmando a força da estrutura familiar mais tradicional.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG populacional. suas causas não estão radicadas apenas no tipo de política pública para o desenvolvimento rural nem em condições estritamente econômicas. 64 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). em especial as ações políticas dos movimentos de trabalhadoras rurais. como aquelas relacionadas às dimensões socioculturais. Rotas de saída Camarano e Abramovay63 levantam três hipóteses para explicar a maior participação feminina nos processos migratórios: a) maior oferta de trabalho para mulheres no meio urbano ligada à expansão do setor serviços. O primeiro diz respeito à presença de uma racionalidade nas escolhas das mulheres em não permanecer na agricultura familiar. 116.br>. Tais processos trazem conseqüências importantes no modo como as mulheres. Juiz de Fora. dando-lhes a possibilidade de se pensarem e atuarem como sujeitos de suas próprias vidas. já que. .21 63 CAMARANO e ABRAMOVAY. Ainda que seja um processo mais marcante na população feminina rural. estas três hipóteses possuem estatutos diferentes.

Ao mesmo tempo. uma vez que sendo o poder pouco compartilhado entre as pessoas que estão no estabelecimento familiar. caso ocorressem. Essa “perda de naturalidade” é derivada não apenas dos problemas de ordem econômica. essa já é uma situação difícil. historicamente marcada pela multifuncionalidade e pluriatividade. não representa nem uma ruptura nem uma solução. . Se. não sendo. 68 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). 66 Id. mas também da mesma dinâmica patriarcal que afeta as mulheres... mas uma necessidade imposta pelas dificuldades financeiras do estabelecimento familiar. como gasto produtivo ou reprodutivo. Adélia. É desnecessário demonstrar que as atividades reprodutivas não são deslocadas para os homens quando as mulheres deixam de trabalhar diretamente na produção familiar. Mulheres da seca: luta e visibilidade numa situação de desastre.. pois uma parte substancial dos rendimentos que as mulheres auferem em trabalhos fora do espaço familiar é nele empregado. ilógico que procurem outras opções. 04 a 10 de novembro de 2007. ainda. O patrimônio geralmente não oferece possibilidades de muitas divisões. “através da migração. fazendo com que apenas um dos filhos pudesse ocupar o lugar do pai. que. mesmo que haja ausência física de uma mulher. Se a rota de saída das mulheres da agricultura familiar significa uma opção legítima na busca da emancipação e da cidadania. Sendo a atividade feminina. BRANCO.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG ocasionando o que eles denominam “questão sucessória na agricultura: que é quando a formação de uma nova geração de agricultores perde a naturalidade com que era vivida até então pelas famílias e indivíduos envolvidos nos processos sucessórios”66. 25 Id. op. Além disso. cit. seja no trabalho assalariado. “o processo sucessório na agricultura familiar está articulado em torno da figura paterna que determina o momento e a possibilidade de passagem da responsabilidade sobre a gestão do estabelecimento para a futura geração”67. os jovens também se encontram em uma posição de submissão.134 - .. cabe indagar se. ibid. 2000. tal como ocorreu. é necessário considerar o problema da herança. ibid. como constatou Branco68 ao afirmar que. as responsabilidades que tinha serão transferidas diretamente para outra mulher da família. as mulheres não contribuem somente com uma ajuda monetária àqueles que deixaram para trás. segundo a análise de Buarque. para as filhas são raríssimas as chances de serem herdeiras. as mulheres deixarão de ser os sujeitos centrais da mesma. nesse contexto. portanto. terminariam por inviabilizar sua capacidade produtiva. por outro lado. no momento em que a segunda característica passa a ser considerada uma alternativa viável para o desenvolvimento rural. 69 Id.João Pessoa: UFPB. no setor de serviços público e privado ou no trabalho doméstico – para onde migram a maioria das mulheres. na agroindústria. pois. Como analisam Abramovay e colegas. ibid. para os filhos. Há que se considerar. Essa situação é muito comum nos períodos de seca no semiárido nordestino. mas ajudam os demais familiares a migrarem”69. no sentido do baixo retorno financeiro. elas também não se desvinculam da própria agricultura familiar. que às vezes a migração para áreas urbanas não é uma escolha das mulheres. 67 ABRAMOVAY et al. quando da recente valorização da agricultura familiar. já que elas continuam sendo avaliadas pelos mesmos padrões e valores que organizam a agricultura familiar.

vale-alimentação e vale-gás) como sendo sua própria e única renda: 66% entre aquelas que declararam ter algum rendimento. É prudente afirmar que as mulheres são gerentes de uma parte dos recursos familiares porque seu poder de decisão é muito restrito.7% no grupo que recebe menos de meio salário mínimo. Disponível em:<www.25%).gov. Analisando os números referentes à população masculina ocupada. A aparente contradição se explica ao verificarmos o que é feito das mulheres nas dimensões relativas à posse da terra. 04 a 10 de novembro de 2007.unicamp.37% estão na produção para consumo próprio. demonstrando que quase80% das mulheres não auferem nenhum rendimento do seu trabalho.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Direitos pela metade Anteriormente. as mulheres estão majoritariamente nas categorias não-remuneradas (39. elastecendo ainda mais o tempo das mulheres. divulgada em 200171. o que chama a atenção aqui é o alto percentual de mulheres que colocaram os benefícios (bolsa-escola. já que. para receber tais benefícios.br>.25%) e produção para consumo próprio (também 39. indicam que. No entanto. 87% dos lotes dos assentamentos do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).br>. Quando se analisa a titulação da propriedade da terra. também com teto de três crianças. esperas nas filas dos bancos e gastos com transporte que terminam por diminuir ainda mais o já mínimo benefício.71% são classificados como não remunerados. perfazendo 26.ibge. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). foi afirmado que as mulheres estão em todos os lugares e não estão em lugar nenhum no cotidiano da agricultura familiar. entrevista concedida por Zoraida Garcia Frias ao jornal eletrônico da Unicamp. Contudo. Ao mesmo tempo em que confirma que os(as) formuladores(as) das políticas públicas assistenciais colocam as mulheres como responsáveis pelo recebimento desses recursos como se isso fosse uma garantia de sua adequada aplicação. são consideradas “dependentes”. é necessário um deslocamento para o município-sede. os dados da última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad). 93% do Banco da Terra e 92% das propriedades familiares têm homens como titulares70. e 8. Os dados por si só indicam a magnitude da exploração a que estão submetidas as mulheres na produção agrícola brasileira. Nos demais casos. enquanto 13% não auferem nenhum tipo de rendimento. 71 Disponível em: <www. fica evidente o quanto a existência de políticas públicas ou de legislações não é suficiente para minimizar as enormes diferenças de poder entre mulheres e homens. aos rendimentos e ao poder de decisão. Apenas em situações em que eles não preenchem os requisitos necessários ou quando estão ausentes é que as mulheres assumem a titularidade. bolsa-escola – R$ 15 por criança. com teto de três crianças. em novembro de 2002.135 - . vê-se que 47. e 85. . Trabalhando com os dados sobre rendimentos das agricultoras familiares da área de Sobral.8% recebem menos de meio salário mínimo mensal. para o universo das pessoas de 10 anos ou mais ocupadas em atividades agrícolas (não especificamente para a agricultura familiar). No Brasil. temos que 17. não há nenhum tipo de obstáculo legal para que as mulheres sejam proprietárias. e bolsa-alimentação – R$ 15.08% de homens que não recebem rendimentos pelas atividades que realizam. No que se refere aos rendimentos. Perceber os recursos destinados à família como sendo seus próprios recursos demonstra o quanto as mulheres têm dificuldades de se perceber para além desse lugar e da função de gerentes dos parcos72 rendimentos familiares destinados à reprodução cotidiana. 72 Os valores dos benefícios são: vale-gás – R$ 15 (a cada 2 meses). mesmo no que se refere às decisões da 70 “A terra da mulher (e do homem)”.

Esses elementos não podem ficar invisíveis quando a transformação social e política pretendida implica necessariamente a quebra da hegemonia do modelo até então vigente para o desenvolvimento rural. 61. como demonstram os dados da pesquisa “Relações de gênero nos assentamentos rurais”73. Ceará. A primeira vista porque. sem liberdade. à primeira vista. a realidade é mais complexa. Contudo. o poder de decisão é majoritariamente masculino nos seis estados pesquisados (cultivos – de 92% a 66%. sem tempo. mudemos os sentidos e significados da agricultura e da família. bastante surpreendente é que. Sem terra. Em síntese. as organizações não governamentais. No que se refere à educação das crianças em quatro estados (Bahia. vendas dos produtos agrícolas – de 91% a 74%.136 - . trabalhadoras e trabalhadores rurais construam projetos e alternativas não apenas para os modos de produção e consumo. sendo antinômico que essa radicalidade também não se dirija à dominação patriarcal que organiza a sociedade brasileira. 41. sendo mais freqüente que os homens tomem essa decisão. ainda que esse poder não seja tão hegemônico como o masculino e se dê em esferas produtivas de menor valor monetário.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG esfera reprodutiva. em nenhum dos estados pesquisados.%. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). O poder de decisão das mulheres é maior na venda dedoces e queijos (de 58% a 41%) e na venda de ovos e aves (80% a 46%). há um percentual maior de mulheres compoder de decisão (55. Mato Grosso e São Paulo). tudo o que envolve dinheiro e saída do espaço restrito do estabelecimento familiar não lhes pertence. sem poder. . 04 a 10 de novembro de 2007. tendo respostas menos uniformes nos estados pesquisados. o que pode parecer. nos casos das agricultoras familiares. 73 Pesquisa realizada por Abramovay e Rua em 2000. sem dinheiro.5%). pois só assim nossa ação política poderá resultar numa sociedade que não seja marcada pela meia justiça. já que a tradição patriarcal que organiza esse cotidiano nega às mulheres apossibilidade de exercerem um princípio fundamental de ser sujeito: a liberdade de ir e vir. No âmbito das atividades produtivas. a decisão tende a ser compartilhada pelo casal (38% e 62. as mulheres têm maior poder de decisão sobre quais alimentos devem ser comprados. meia liberdade e meia cidadania. É preciso que os movimentos sociais. Nos demais estados (Paraná e Rio Grande do Sul).5%. não lhes é direito. Apesar de se creditar às mulheres o domínio absoluto do espaço reprodutivo. mas também para o modo de organização familiar. assim são as mulheres em sua experiência cotidiana na agricultura familiar. sem espaço.5% e 44%). venda de gado – de 93% a 59%).

ou modalidades de práticas políticas. nem reconhecimento. que demandando ando articula a atuação de diferentes agentes sociais com as mulheres rurais. deputada Federal/SC74 Resumo Estudo sobre a emergência das mulheres trabalhadoras rurais no mundo público. discurso e imagem específica. Construção essa resultante de um trabalho coletivo de agentes múltiplos cujas práticas projetam e revertem figurações sociais. exprimindoexprimindo-se em diversas dimensões. imprimem marcas marcas diferenciadas no movimento sindical dos trabalhadores rurais introduzindo dimensões femininas de vivências e simbolismos que. Uma dimensão experiencial em que ativam mecanismos de aparecimento aparecimento e de fala pública. além de instituírem a sua entrada na política sindical. pessoal e social. como categoria específica. atuações e autorias. numa produção de vários agentes sociais e práticas políticas intercaladas por experiências femininas de mulheres do campo. e formulam discursos institucionais sobre elas e para elas. como uma produção coletiva. práticas. fui em busca do “trabalho social” de construção do objeto “preconstruído. consubstanciando um movimento social de mulheres trabalhadoras rurais.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Margaridas nas ruas: As mulheres trabalhadoras rurais como categoria política Maria Dolores de Brito Mota “…nem nome nós tinha. Esses acontecimentos reúnem práticas. demand práticas e saberes que possibilitam a formatação de uma experiência singular. coletivo personalizado. num fazer e fazer-se. envolvendo a criação de um lugar feminino. envolvendo as mulheres trabalhadoras rurais e outros agentes sociais. através de sua experiência política. e deparei-me com a questão de uma categoria social fabricada coletivamente. combinando diferentes elementos como articulação. e a sua construção revela conflitos. A existência das mulheres mulheres trabalhadoras rurais não decorre automaticamente automaticamente de suas situações de vida. pela qual essas mulheres se identificam como mulheres trabalhadoras trabalhadoras rurais.” nas palavras de Bourdieu (1975). Uma dimensão formulam--se institucional pela qual se formalizam suas organizações específicas. 02/10/1999-TV Bandeirantes. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). em luta por reconhecimento e direitos.. 74 Programa Jogo Aberto. lhes permite refazeremrefazerem-se sem medo de ser mulher. é aqui abordada na perspectiva da construção de sua emergência como grupo. estratégias. 04 a 10 de novembro de 2007. . e postulam encontros com os /as personagens e contextos situados no terreno social em que surgem as organizações específicas de mulheres trabalhadoras rurais. Essa construção remeteremete-se a uma produção coletiva. As mulheres trabalhadoras rurais. tornandotornando-se em condições de aparecer e falar publicamente. nós era só mulher com obrigações…” Luci Choinaski. Buscando a construção e encontrando a experiência das mulheres trabalhadoras rurais A existência das mulheres trabalhadoras rurais no espaço público. e a construção de uma narrativa própria. nem de revela--se como resultado de uma tomada de consciência espontânea. abordada pelo aspecto de sua construção como categoria política política em luta por reconhecimento e direitos. com identidade. de formas de representação/apresentação. conflitos símbolos.137 - . Assim.

entre a conformação do ser e as formas de conhecer” (idem. revelam ativamente suas identidades pessoais e singulares. práticas.p. e o próprio momento conjuntural em geral e em particular o das mulheres da zona rural. em agir.” É uma forma de ser e de conhecer (esse ser).138 - . os homens mostram quem são. organização. 1993.p. E o agir pressupõe aliança entre pessoas. e reivindicou meu olhar sobre esse controvertido conceito nas ciências sociais. nos leva ao encontro da problemática da identidade desse grupo de mulheres. e como organizaçãoarticulação da própria sociedade” (1995. Esse tornar-se um Eu. em montagem de uma “ciência do ordinário. a vita activa. esbocei o cenário que tornou possível o aparecimento das “mulheres trabalhadoras rurais” como sujeito de discursos e sujeito nos (outros) discursos. e assim apresentam-se ao mundo humano” (1995. Esse propósito me levou a aproximar-me e a aproximar alguns autores que compreendem a realidade social como realidade construída. e nem se mostra como reflexo imediato de uma tomada consciência política espontânea. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE).17). presença de outros. as mulheres trabalhadoras rurais. expressandose por imagens. no interior da qual situa-se a idéia de que a emergência de um grupo em luta se faz especialmente por meio de atos de reconhecimento (p. Essa construção se distancia das idéias de determinação e de espontaneísmo. essa concordância que permite o conhecer de uma categoria social implica também um processo de reconhecimento pelo qual ganha visibilidade e legitimidade. Destaco Certeau (1996) com a sua busca das tessituras do real dentro do cotidiano. dentro e fora do próprio movimento de mulheres trabalhadoras rurais. e de tornar manifesto o elo que as une. de ser uma criação. no sentido que é atribuído por Arendt (1995) significando a vida humana empenhada em fazer algo. Produção que pode ser aduzida como uma poética. diferente de outros. sendo que “na ação e no discurso. e que está sendo colocada neste contexto como identidade construída coletiva e politicamente. Bourdieu que entende o mundo social como uma “realidade que é o lugar de uma luta permanente para definir a realidade” (1989. Os processos que permitem o estabelecimento das mulheres rurais como categoria específica.138).p. A esta produção atribuí a idéia de “construção” no sentido de que a categoria das mulheres trabalhadores rurais não se exprime apenas por processos estruturais. como mundo desta sociedade e para esta sociedade. 04 a 10 de novembro de 2007. De uma maneira esquemática.17) para quem “a palavra ‘categoria’ impõe-se por vezes porque tem o mérito de designar ao mesmo tempo uma unidade social – a categoria dos agricultores – e uma estrutura cognitiva.415). no sentido original dessa palavra. numa unidade que sinaliza “a concordância entre as estruturas objetivas e as estruturas cognitivas.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Categoria aqui é entendida no sentido referido por Bourdieu (1999. Castoriadis. vincula-se a mecanismos conectados com a experiência das próprias mulheres rurais junto a outros grupos sociais que são articuladores políticos. para quem a instituição da sociedade “que é cada vez instituição do mundo. O que me colocou diante da questão de identificar as evidências do processo construtor das mulheres trabalhadoras rurais como categoria política. com configurações diferenciadas em grupos/facções que disputam entre si a legitimidade.118).24).p.p.” E outros autores que transitam por entre essas idéias de um real não apriorístico e resultado de ações projetadas ou não dos sujeitos sociais. Arendt que entende a existência social assentada no ser visto e ouvido publicamente.p. vida pública onde é possível constituir-se em ser “conscientemente existente” (idem. como apresentação e estratégias de um grupo social. . falas e espaços de modo a conquistar uma outra vida. Mas.192). normalmente atribuídos como determinantes de situações conseqüentes. manifestam-se como uma produção coletiva.

na medida em que um dos temas tratados no encontro foi “ o que era ser e se sentir uma mulher trabalhadora rural. delegadas do Primeiro Encontro Continental de Mulheres Trabalhadoras Rurais. de produção coletiva. a de mulheres trabalhadoras rurais. emoções. a “identidade está amarrada a noções de experiência. catadoras de café. e do Movimento de Mulheres Trabalhadoras Rurais/CE (MMTR-CE). academia. Fui em busca de entender o que possibilitou àquelas mulheres trabalhadoras rurais se definirem. rituais que realçavam um processo de fabricação. Os primeiros grupos de mulheres rurais que conheci.” Do Brasil estavam diversas representações de organizações de mulheres trabalhadoras rurais que se autoreferiam como participantes do Movimento de Mulheres Trabalhadoras Rurais. as eleições do Coletivo Estadual. lavradoras. e em condições de comunicação. as primeiras surgiram em 1982 no sertão pernambucano e no interior do sul do país.139 - . indica relacionamentos entre diversos agentes sociais e as mulheres trabalhadoras rurais. Na busca das origens das organizações de mulheres trabalhadoras rurais. Uma via dupla de criação – relações entre mulheres rurais. 04 a 10 de novembro de 2007.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Discursar é estar em posição de exercer uma fala de direito e estar presente no discurso de outros. camponesas. Em 1997 deparei-me com mulheres de todo o continente latino-americano e do Caribe. todos circunstanciados por tensões. posseiras. reconhecerem e serem reconhecidas como tal. movimento sindical e organizações não governamentais 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). e no acompanhamento socioetnográfico do cotidiano da militância do Coletivo Estadual de Mulheres da Federação dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais do Ceará – Fetraece. a organização da Campanha Nenhuma trabalhadora rural sem documentos. Eram mulheres de realidades e características diferentes. narrativas. imagens. Tomar as mulheres trabalhadoras rurais como categoria construída é um esforço que me levou a encontrar a experiência historicizada pela qual puderam emergir como categoria política. sindicatos.  O acompanhamento de algumas atividades políticas realizadas pelo Coletivo Estadual de Mulheres da Fetraece. portanto em relações de re-conhecimento. conflitos. à espera de ser representada. foram se manifestando elementos como discursos. e do Movimento de Mulheres Trabalhadoras Rurais (MMTR). o III Congresso Estadual da Fetraece. . como no acadêmico e no de formações políticas (ONGs. no início dos anos 1980 na Bahia. O discurso acadêmico tem uma presença intensa na emergência social das mulheres trabalhadoras rurais corroborando com a instituição de uma identidade desse grupo. igreja. bóias-frias. estratégias. articulações.” pois não é algo que sempre esteve lá. práticas. Essa busca seguiu dois caminhos:  A história do surgimento das organizações de mulheres trabalhadoras rurais. Neste caso. que é recente. Segundo Scott (1999). eram conhecidas e autodenominadas como assalariadas do cacau. que ao longo da investigação foi tomando a forma de uma construção – a construção sociológica das mulheres trabalhadoras rurais como categoria política. o 8 de Março e a Marcha das Margaridas 2001. políticos). mas juntas reivindicavam uma única identidade. identidade. Deparei-me com essa experiência nas condições em que se designam e se exercem como tal – na existência cotidiana de suas organizações específicas. Esta condição que se apresentava como dada. de fato expressava a conformação de um processo em curso. significa estar sendo vista.

existe a participação direta. como intelectuais e as assessorias. uma maneira de fazer a sua existência.140 - . pomar. MNRF. o discurso acadêmico sobre as mulheres trabalhadoras rurais tem sido uma de suas condições de produção. o Coletivo da Fetraece e o MMTRCE. Nessa área a igreja tinha um trabalho de organização dos agricultores em torno da luta pela terra e da celebração do Dia do Senhor. Seja em nível nacional ou estadual. nos anos 1980. destacaram-se a presença de vários agentes sociais.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Na história do surgimento das organizações estudadas. fala autorizada. A produção acadêmica sobre as mulheres rurais de um lado re-escreve e re-inscreve essas mulheres no mundo social. o encontro com a realidade das mulheres é mais direto. Diante de uma pequena presença das mulheres nas reuniões sindicais e da existência de problemas entre os casais pelas ausências dos homens em decorrência de sua participação no movimento. porque como discurso competente. plantas medicinais). ouvindo as queixas de homens e mulheres iniciaram.  A não inclusão das atividades femininas das políticas de incentivo à produção rural.  O caráter de ajuda ou complemento ao trabalho masculino. Assim. Os estudos acadêmicos estão também presentes no cotidiano dos movimentos das mulheres trabalhadoras rurais. 04 a 10 de novembro de 2007. hortas. O primeiro grupo do MMTR-CE se formou na região de Itapipoca. em 1980. subsídio e mesmo dos programas de reforma agrária. lhe é permitido apresentar uma outra visão do real. presente não somente na zona rural mas em toda a sociedade. crédito. . das pesquisadoras na condição de colaboradoras e assessoras nos eventos que estes movimentos realizam.junto aos locais onde surgiram os primeiros grupos organizados de mulheres trabalhadoras rurais. a organização dos Encontros de Esposas. Esses estudos formulam questões que se situam no campo de uma teoria social crítica e mostram o caráter político da invisibilidade das mulheres rurais nas estatísticas e na vida social. analisando:  A subestimação do trabalho feminino pelos indicadores utilizados nas pesquisas censitárias (mulher de produtor. Os estudos acadêmicos são falas legitimadas que atuam no propósito de dar visibilidade à presença das mulheres tanto nas atividades da produção agrícola quanto nas instâncias e manifestações políticas do movimento sindical dos trabalhadores rurais.  Evidenciam o aumento do trabalho feminino no campo e as novas posições que este assume a partir das mudanças introduzidas pela expansão das relações capitalistas no campo que individualizaram a força de trabalho das mulheres intensificando a sua exploração. atribuído ao trabalho feminino. Além disso. O Cetra também estava presente nessa região com uma atuação voltada para a renovação do sindicalismo e a luta pela terra. a não inclusão da produção de fundo de quintal – criação de pequenos animais. física. Essa capacidade do dizer é vista por Certeau (1996) como um “saber – dizer. No Ceará essa matriz articulista está nos interstícios do movimento sindical. do qual só participavam homens. da igreja católica e da atuação do Centro de Estudos do Trabalho e Assessoria ao Trabalhador (Cetra) e do Centro de Pesquisa e Assessoria (Esplar). o Cetra e a igreja. como textos que subsidiam as discussões sobre suas condições de vida e de trabalho. a história do surgimento das organizações de mulheres trabalhadoras rurais está ligada a atuação de ONGs e pastorais.” cuja narrativação das práticas é uma maneira textual de fazer. No âmbito das assessorias. Em torno desse trabalho com as mulheres aproximaram-se várias integrantes dessa instituição e alguns 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE).

O Coletivo teve como território privilegiado as instâncias formais do movimento sindical rural.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG profissionais liberais residentes na região. inicialmente para trocar experiências e ampliar sua capacidade para esse trabalho político organizativo com mulheres rurais. na mesma perspectiva dos que estavam sendo construídos na Paraíba. O Coletivo e o MMTR vinculam-se a organizações em nível nacional. . Em 1992 o grupo de sindicalistas do DETR-CE. Esse processo se remete a uma organização de mulheres nos sindicatos de trabalhadores rurais dos municípios de Madalena e Canindé. e na área de atuação do Esplar. Bahia e outros Estados nordestinos. respectivamente. No Brasil. relacionava-se ao crescimento do feminismo e de uma consciência sobre as condições de desigualdade social. Esses encontros se entenderam para Sobral e foram sendo ampliados para mulheres solteiras. Pernambuco. Discutia-se nesses encontros. aos quais se articulou. As assessoras foram se formando como assessoras de um trabalho específico com mulheres na medida em que os próprios movimentos de mulheres iam se constituindo. Em 1986 foi criado no Ceará o Movimento de Mulheres Trabalhadoras Rurais do Ceará. 04 a 10 de novembro de 2007. política e econômica das mulheres brasileiras. A presença das ONGs nessa história indica a formatação de um outro discurso e práticas articuladas com as trabalhadoras rurais demandando a sua inclusão no espaço social e político. formado por sindicalistas de esquerda que faziam oposição à diretoria pelega da Fetraece. e em fevereiro de 1993 a Comissão de Mulheres é transformada no Coletivo Estadual de Mulheres da Fetraece. Uma assessora confessou que aprendeu sobre a questão da mulher com o trabalho que realizava junto às trabalhadoras rurais. se constroem. A atuação das ONGs na formação das organizações de mulheres trabalhadoras rurais se dá num contexto mais amplo. cujo resultado vai ser a criação do Coletivo Estadual de Mulheres da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado do Ceará (Fetraece). como a Comissão de Mulheres Trabalhadoras Rurais da Contag e a Articulação Nacional de Mulheres Trabalhadoras Rurais. que em 1990 já haviam formado uma Comissão de Mulheres. Paralelamente a esse processo.141 - . como efeito da organização das mulheres e dos trabalhadores rurais no interior da Central Única dos Trabalhadores (CUT). As assessoras do Cetra foram buscar referências de trabalhos com mulheres rurais e encontrou contatos na Paraíba e em Pernambuco. numa constituição simultânea. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Dentro da CUT existia o Departamento Estadual de Trabalhadores Rurais. O discurso e a prática das ONGs integra-se com o discurso e a prática acadêmica no sentido de compor um grupo produtor de um discurso institucional sobre as trabalhadoras rurais demandando a sua inclusão no espaço público. Esse aspecto institucional da construção das mulheres trabalhadoras rurais compreende também a formalização das suas próprias organizações específicas e de seu reconhecimento legal como trabalhadoras rurais. É no encontro entre si que se produzem. Piauí. saúde da mulher. outro foi acontecendo. de relações internacionais de cooperação entre mulheres. São vozes competentes que instauram condições para a legitimação e reconhecimento público das mulheres e que vão também se estabelecendo para criarem um saber e uma prática junto a esse grupo. Em 1991 esse departamento realiza o I Encontro Estadual de Mulheres Trabalhadoras Rurais quando foi criada a Comissão de Mulheres do DETR-Ce. ganha as eleições da Fetraece. planejamento familiar e pobreza. cuja visão de democracia envolvia a inclusão das mulheres e sua igualdade de direitos.

Segundo depoimentos de algumas entrevistas. Aparecer é estar presente no mundo e inscrever a sua diferença diante de outros. feita na medida em que faz as suas próprias agentes. ora em nome da classe. mas apenas legitima e oculta os conflitos. A identidade de mulher trabalhadora rural é uma autonomeação a partir de recursos que lhes permitem que se vejam naquilo que sabem de si. . que se exprime. mas também por sua capacidade de poder ser visto e ouvido por todos. Essa experiência não se explica apenas pela posição estrutural de um grupo como algo que sempre esteve lá para ser descrita mas uma experiência historicizada e neste caso também produzida e exercida coletivamente. a unidade é sempre um elemento que está sendo restaurado. formando uma sobreposição de representações apoiadas em conjuntos diferenciados de relações sociais.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Essa institucionalidade também envolve toda a luta das próprias trabalhadoras rurais que configuradas como categoria específica atuam em busca do seu reconhecimento profissional. mas com valor. vivem experiências pessoais e coletivas que são base para sua identidade. como entende Ávila (2000) referenciando-se em Arendt (1998). Em cena: construindo a existência pública Um movimento social não acontece apenas pela existência orgânica de um grupo. vivida. Na medida em que participam de um movimento e realizam suas manifestações públicas. Como essa restauração não elimina. têm ação na esfera política e tornam-se interlocutoras como parte de conflitos. afirmando seu direito a ter direitos. Por meio dessa ruptura podem ter uma existência própria. lutando por direitos e em busca de reconhecimento – fazemse sujeito político. Ter essa inscrição e aposentar-se como tal é uma grande conquista para as mulheres trabalhadoras rurais. inclusive pela hegemonia não se desfazem. e cuja composição já supõe um conflito interno. pautados em relações sociais nas quais se inserem. É preciso que o Estado legitime a sua condição inscrevendo-as como trabalhadoras rurais nas suas instancias burocráticas. a primeira “descoberta” que fazem no movimento é de ser gente e ser trabalhadora (pobre). sendo uma estratégia importante de mobilização e conscientização interna e externa a esse grupo. significando que anunciam seu projeto. rompendo com uma situação de subordinação e com a fixidez de uma condição antes tida como destino. sobretudo. 04 a 10 de novembro de 2007. Nessa identidade de mulher trabalhadora rural se articula classe. a segunda é de ser mulher também com valor. Dessa maneira emergem no campo político e social brasileiro como um grupo organizado. por meio da campanha pela documentação Nenhuma trabalhadora rural sem documentos implementada em 1996. Essa campanha continua em curso. interpretada e narrada. de aparecer publicamente. Envolve sentimentos de pertença e diferenciação. instituindo um lugar feminino no território do movimento sindical rural. criando formas de representação e apresentação. ora em nome do sexo. Ser mulher trabalhadora rural significa sentir-se como tal. E assim encontramos a experiência singular das mulheres trabalhadoras rurais pela qual se fazem e se apresentam como tais.142 - . Assim. gênero e lugar. as disputas. Enquanto um momento marcante da construção da identidade a campanha Nenhuma trabalhadora rural sem documentos mostrou uma disputa permanente pela hegemonia 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE).

decidindo e participando. Essa apreensão requer condições sociohistóricas capazes de promover sentimentos e verdades. As diversidades e os conflitos são sempre recompostos em nome da unidade do movimento e dos interesses das mulheres trabalhadoras rurais. 04 a 10 de novembro de 2007. que em geral são mulheres que devem saber ouvir. ou nomearem-se. ter experiência em trabalho popular e uma visão política. internalizada e sentida de modo individuado –ou individualizante –e uma outra experiência que é objetivada. não podem ser donas da verdade nem autoritárias. e se fazem capazes de autonomia escolhendo. Para se dizer “sou uma mulher trabalhadora rural. encontros. seminários. As vivências no movimento social permitem refazer a percepção e a posição das mulheres no mundo que as cerca e dentro delas mesmas –e vão permitir a reinterpretação de conceitos. não se reconhecem assim. quer em reuniões. religiosas.143 - . Poder falar e sair. mulheres trabalhadoras rurais. ser simples. atitudes e símbolos próprios. Não existe um trabalho com homens. Os modos de fazer essa identidade se assentam numa pedagogia singular que prepara os cenários para uma sociabilidade. compondo lugares importantes para a construção de identificações. camponesas. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE).Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG entre o Coletivo e o MMTR-CE e também entre as diversas entidades parceiras que integram a sua coordenação estadual (sindicais. acadêmicas). O que existia antes (do movimento) era o cativeiro e a opressão. Ao assim se dizerem. a repassar o vivido e aprendido para outras companheiras. A experiência experiência no contexto da construção Construir-se como mulher trabalhadora rural envolve vivenciar uma experiência traspassada por mecanismos que promovem objetivações e subjetivações que formata e institui sentimentos. As características dessa pedagogia se exprimem numa metodologia identificada desde a escolha das assessoras para realizarem o trabalho com mulheres. eventos ou manifestações públicas para as e das trabalhadoras rurais. Sempre houve mulheres trabalhando e vivendo no campo. ONGs. . projetada nas condições sociais.” é preciso sentir-se e mostrar-se como tal. é fundamental que se sintam como tal. E encontramos no cotidiano dos movimentos de mulheres uma pedagogia que lhes permite uma nova sociabilidade e um novo sentimento de si. e é por este que se redefinem e se reposicionam as mulheres nas relações sociais como trabalhadoras e mulheres que têm valor – revêem a si e ao que fazem atribuindo significado e valor. mas sim um trabalho com mulheres. cursos de formação. Para tanto é preciso apreender-se como tal. históricas. certezas sobre si. Do que é possível perceber nos comportamentos das trabalhadoras rurais. políticas do grupo. Embora seja uma produção coletiva. Também nessa metodologia aprendem a se comunicar. A formação de uma consciência de si torna–se processo integrante da construção da identidade social e pessoal. lavradoras. em que cada uma vê a si e sente-se como uma mulher trabalhadora rural. A construção da identidade desvela-se entre as trabalhadoras rurais como um processo que envolve ou articula uma experiência que é subjetivada. mulheres de produtores que não se diziam –e muitas não se dizem ainda. a viver para si. representa uma ruptura dessa situação. Uma questão é se essa pedagogia faz uma política para as mulheres ou mulheres para a política. a identidade tem um aspecto de subjetivação e de objetivação que articula conflitos e heterogeneidades ao tempo em que funda uma integração e similaridades. ir a outros lugares. há uma dimensão individual da construção identitária.

Esse processo se apóia em organizações de base. dando conta da instituição de um lugar feminino. A política de cotas que vem sendo adotada no movimento sindical de trabalhadores rurais é um indicativo da estruturação de uma nova ordem de definição das posições de homens e mulheres na estrutura sindical.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Há um entrelaçamento de vivências entre as assessoras e as mulheres rurais. inclusive com orçamento próprio. como o 8 de Março e a Marcha das Margaridas as mulheres cuidam de sua própria aparência como: arrumação e embelezamento da aparência 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Nesse circuito incessante. e o MSTR vem se designando oficialmente desde 2000. em suas identidades respectivas. e outras que existem entre facções internas ao próprio Coletivo. . do que uma característica ou condição interna. não desfaz as disputas internas pela hegemonia da categoria. Isso pôde ser observado na Fetraece pelo processo de estatutização do Coletivo no III Congresso Estadual de 1998 – quando de um órgão atrelado à Secretaria de Formação foi transformado em cargo da diretoria executiva. As manifestações realizadas pelas mulheres trabalhadoras rurais estão zoneadas por divergências políticas. Nas manifestações públicas que realizam. A unidade da categoria é mais uma estratégia política sofridamente construída e desejada. especialmente as que demarcam as atuações da Articulação Nacional das Mulheres Trabalhadoras Rurais – ANMTR e a Comissão de Mulheres da Contag – reproduzidas em nível estadual entre o Coletivo da Fetraece e o MMTR-CE. que são expressões concretas de uma inscrição institucional das mulheres se estendendo para as instâncias mais gerais. A ANMTR reivindica para si o compromisso com a inseparabilidade da luta de gênero e de classe. onde participam também outros agentes articuladores. Por meio dessa metodologia reconstroem-se permanentemente em processos de reconhecimento dos quais participam vários grupos sociais –e nos quais se articulam a dimensão pessoal e social. Artes de apresentar apresentar e representar Todo esse substrato comum. e a Comissão de Mulheres enfrenta a discriminação dentro de uma organização mista para estimular a igualdade de oportunidades em seu interior. Mas a presença das mulheres não se dá apenas fisicamente.144 - . As organizações específicas das mulheres na estrutura sindical e a sua presença física dão conta da ocupação de espaço – entendido como lugares exercidos. como movimento sindical dos trabalhadores e trabalhadoras rurais. as direções. 04 a 10 de novembro de 2007. a partir das quais cada uma estabelece suas práticas e suas posições. construindo uma experiência particular –apropriando-se cada qual dos segredos de suas razões. mas simbolicamente. para retornar ampliando-se nas bases. Esse trabalho com mulheres é um ativador da identidade de mulher trabalhadora rural ao estabelecer possibilidades de formação de uma consciência de si como sujeito capaz de autonomia. Muitas vezes aparece na fala das mulheres a expressão “ocupar espaços na estrutura sindical” referindo-se à inserção da presença feminina nas instâncias oficiais de representação política. embora coabitando alguns espaços sociais comuns. Há uma alternância de hegemonia nas manifestações que essas organizações realizam. mas se apresentam com homogeneidade e unidade. Os dois grupos vão se constituindo simultaneamente. tanto as mulheres rurais como as assessoras se inscrevem num coletivo. O movimento de mulheres trabalhadores rurais ao fazer-se representante de uma categoria também realiza um trabalho de apresentação de modo a coincidir com as representadas.

filhos. Margarida é o seu símbolo – uma mulher forte. e uma flor bonita e terna. mas há também de compositores e assessores. depois do movimento. não ficam caladas quando não aceitam qualquer coisa. As músicas em geral são de autoria das próprias mulheres. falam mesmo sem estarem certas. riem… Quando as discussões se tornam longas e cansativas ou tensas canta-se para quebrar o ritmo pesado e restaurar a atenção. não tinham som. exprimindo a utopia da união.” As fotografias são recorrentes e também se revelaram como uma fala. registrando as histórias. A música anima. nos ambientes dos eventos. Estão presentes na bagagem das mulheres. trabalhadora e mulher de valor que pode falar. sem valor. Nas poesias também se referem ao dia-a-dia de trabalho na roça. não eram escutadas. relatórios. Nessa narrativa sobre a história delas no movimento. levantam das cadeiras. quando não falavam. Os modos de falar dessas mulheres se manifestam por expressões que são definidas como modos típicos das trabalhadoras rurais fazerem política. Um outro aspecto dessa sensibilidade pública pode ser encontrada em muitas histórias de luta pela terra. ouviram o próprio som. No tempo que era antes não tinham voz. . fazem poesias e músicas. tinham medo de falar. na luta e nas ruas. da conquista de direitos e da felicidade. falavam por elas. o meio e o encerramento sempre dinamizando. na música ela encontra a alegria e a simpatia do público e pode expressar qualquer sentimento “de uma maneira que o cara não tem como dizer não. Transformam o desqualificado e frágil feminino em força e eficácia política. sensibilidade. Elegi as poesias. falam do sonho da libertação. e um depois. A música introduz o lúdico e por meio dela exercitam um saber – dizer. no movimento. mulheres trabalhadoras rurais. clamaram seus direitos. não sabiam de nada. reivindicar e se experimentam sem medo de ser mulher. como um bloco: “Nós. eram escravizadas. aglutinando e movimentando o grupo. Criam e apresentam poesias para fazer abertura de eventos. dentro de um contexto de utilização freqüente de mensagens visuais. compositora e integrante do MMTR-CE. E nesse contar se reposicionam no mundo. conflitos e comunicação.145 - .Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG pessoal. e animam o início. saudações. em casa. além de mobilizarem a imprensa e apresentarem-se unificadas. que deu a vida pela luta. o trabalho no campo onde estão sempre carregando coisas 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). uso de símbolos e adereços de mulheres e de trabalhadoras rurais como flores e foices. cada qual com uma atribuição específica: As poesias fazem relatos. cada qual como falas apropriadas. avaliações. As mulheres trabalhadoras rurais a partir dessas vivências vão construindo uma narrativa própria e temporal em que se referem a um antes do movimento. celebra e incute valores e esperança.” Por essas formas de apresentação constroem uma sensibilidade pública utilizando estrategicamente alguns papéis e atributos tradicionais das mulheres – fragilidade. 04 a 10 de novembro de 2007. folders. a conquista da fala é o demarcador de um novo tempo e uma possibilidade concreta pela qual podem contar a própria história. músicas e fotos. Para Nazaré Flor. gesticulam. tinham medo e não podiam. Com a música as mulheres se juntam. tinham vergonha de falar. em que se experimentam como gente. quando durante momentos de forte tensão as mulheres com suas crianças tomaram a frente de confrontos para impedir violências e agressões maiores. São modos que articulam ritos. nos relatórios. sair de casa. ganharam fôlego. As músicas estão presentes em todos os eventos. A análise de um conjunto de fotos de documentos produzidos pelos movimentos de mulheres trabalhadoras rurais mostrou a representação da vida delas. batem palmas.

Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG

– pedra, lata de água, filhos, trouxa de roupa; no Movimento estão em movimento,
relaxadas, brincando, viajando, conversando, falando. No Movimento elas se movimentam
e se fazem presentes no mundo.
Se toda fala é sempre de uma falta é isso o que elas mais querem, seus desejos. E essas
falas são emblemas do movimento de mulheres trabalhadoras rurais, expressando o
confronto entre uma forma de vida e um tempo que se encontram em situação de
transformação.

Marcas de mulheres no sindicalismo rural
Os movimentos de mulheres trabalhadoras rurais se situam no território do sindicalismo
rural, no qual estampam sua presença de diferentes maneiras, pelas quais pode se
acessar os pontos de inclusão das mulheres nesse espaço social. Em que pese o fato de
que as lutas das mulheres ainda são vistas como sendo coisas de mulher e não do
conjunto do movimento sindical, aos poucos aparecem situações em que o movimento
como um todo as assume como ocorreu com a Marcha das Margaridas e a Mobilização
Nacional ocorrida em 8 de março.
Os nexos entre as mulheres e o movimento sindical dos trabalhadores rurais construídos
por tantos gestos, passos, artes e falas se esboçam nos seguintes aspectos:
A legitimidade do movimento sindical está apoiada na inclusão das mulheres seja para
mostrar a capacidade e o compromisso das direções políticas de responder às questões
das mulheres, seja nomeando-se como seu representante, o que tem feito a inclusão do
termo trabalhadoras nas manifestações e na própria designação como movimento de
trabalhadores e trabalhadoras rurais. A participação das mulheres então pode ser
presencial e simbólica.
A ampliação da prática de uma mística política, baseada em valores éticos de justiça/diálogo/ternura, na inclusão de todos, numa visão integrada da pessoa, e na
solidariedade. É um momento de todos e o motor do entusiasmo que alimenta o
compromisso por símbolos e participação. As mulheres não dispensam a mística em seu
cotidiano político e a consolidam como prática no campo sindical, mais que o fazem os
homens.
A política de cotas adotada legalmente pelo sindicalismo tem se mostrado um mecanismo
eficiente como estratégia de ação positiva para colocar as mulheres e suas condições de
discriminação na pauta sindical, dando condições para a visibilidade e a participação
feminina. As cotas são efetivamente assumidas pelos setores mais politizados do
sindicalismo, as lideranças, em uma perspectiva de fortalecer o conjunto do movimento;
nas bases, ao nível dos sindicatos municipais podem não ser levadas em conta.
Por fim as dinâmicas de cantar, movimentar o corpo, enfeitar o ambiente, motivar, animar,
alegrar, brincar, rir, dançar, descontrair, ter momentos de confraternização e festa,
exposição e venda de produtos artesanais exprimem um conjunto de características mais
identificadas com a subjetividade, e muitas vezes com forte emocionalidade. No I
Encontro de Mulheres Dirigentes do Sindicalismo Rural-CE, o encerramento foi com muitos
abraços e choros entre assessoras, lideranças e participantes, que diziam: “Conseguimos!
As mulheres cearenses já estão marchando.” Nunca, em 20 anos de aproximação com o
sindicalismo, vi homem chorar por realizar um encontro ou reunião política. Há aqui uma

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vinculação entre subjetividade e cidadania em que a política aparece como lugar de uma
nova sociabilidade e de uma outra experiência subjetiva.
Assim as mulheres trabalhadoras rurais emergem como categoria sujeito político
construído, e não apenas como efeito de mudanças estruturais ou conseqüência natural
de uma tomada de consciência.
Por isso talvez cantem tanto:
Pra mudar a sociedade do jeito que a gente quer
Participando sem medo de ser mulher
Essa mudança enuncia um sujeito capaz de desejos e de sonhos.
Porque a luta não é só dos companheiros
Participando sem medo de ser mulher
Ter um desejo próprio é estabelecer processos de diferenciação e elaborar uma
identidade própria.
Pisando firme sem pedir nenhum segredo
Participando sem medo de ser mulher
Conquistar a existência social permite revelar-se, mostrar-se, apresentando-se e falando
em público sem medo de ser mulher trabalhadora rural.
Referências
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Fase, 2000. Março/Agosto, p.6-11.
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______. “A economia das trocas lingüísticas.” In: Ortiz, Renato. Pierre Bourdieu. São Paulo:
Ática, 1994.
______. O Poder simbólico. Lisboa: Difel, 1989
______.A dominação masculina. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1999
Castoriadis, Cornelius. A instituição imaginária da sociedade. 3.ed. Rio de Janeiro: Paz e
Terra, 1995.
Certeau, Michel de. A invenção do cotidiano. Artes de fazer. Rio de Janeiro: Vozes, 1996.
Lauretis, Tereza de. A tecnologia do gênero. In: Holanda, Heloisa B. (Org).. Tendências e
Impasses. O feminismo como crítica da cultura. Rio de Janeiro: Rocco, 1994. p. 24-38.
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Scott, Joan W. Experiência. In: Silva, Alcione Leite da et al. (Orgs). Falas de Gênero. Santa
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Thompsom, E. P. A Miséria da teoria. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1981. FortalezaCE, 2005.

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POTENCIAL E LIMITE DAS DISPUTAS POLÍTICAS:
PONTOS PARA REFLEXÃO
REFLEXÃO

Sara Pimenta e Domingos Corcione - Agosto de 2006

Dirigentes e lideranças sindicais constroem projetos políticos ou se identificam com um
entre aqueles já existentes, assumindo sua defesa no cotidiano da vida sindical.
É comum a existência de projetos diferenciados em suas origens e concepções políticoideológicas. Isso resulta em disputas pela predominância e hegemonia de um sobre o
outro.
As disputas políticas não se limitam aos antagonismos entre trabalhadores e classes
dominantes, mas têm lugar no interior do próprio Movimento Sindical e entre este e outros
movimentos e organizações populares. Em muitos casos as disputas internas se tornam
de tal forma acirradas que geram rupturas e levam à criação de novas entidades e
movimentos. Mas há disputas “menores” - não menos importantes - que caracterizam o
cotidiano do MSTTR: disputas de idéias, de espaços, de reconhecimento, de protagonismo
e liderança. Afinal, disputas permanentes de poder.
A dimensão positiva das disputas políticas
As disputas podem ser vistas como elementos que integram a dinâmica política do MSTTR,
em sua dimensão positiva e construtiva, favorecendo a qualificação dos projetos políticos
e a aquisição - pelos dirigentes e lideranças - de maior habilidade na defesa de suas
posições.
A pluralidade ideológica e de posicionamento político confere um novo dinamismo à luta
sindical e aos processos de mudança, pois pode sinalizar o surgimento e a consolidação
de novas práticas. As posições são demarcadas de modo a assegurar os interesses
relacionados com o projeto defendido, colocando em destaque pontos divergentes,
conferindo maior clareza às idéias e facilitando a comunicação.
Idéias, posições e projetos, quando em disputa, ganham maior relevância, são
apresentados e defendidos na perspectiva de fazerem adeptos e construírem sua
hegemonia.
Todo esse processo promove fortes motivações para se avançar com maior garra,
perseguindo as estratégias necessárias para vencer as posições antagônicas ou
diferenciadas e conquistar novos espaços de poder.
Práticas a serem transformadas
Apesar dos aspectos positivos acima ressaltados, é preciso reconhecer que no campo das
disputas políticas ainda persistem posturas e atitudes equivocadas, que ferem a ética e
acabam por comprometer o avanço da organização sindical e a construção de projetos de
mudança social, tais como:

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um seminário ou uma oficina podem contribuir muito para esclarecer idéias e projetos. fazer repensar e aprimorar estratégias e métodos de trabalho. sobretudo.  Refletir e aprofundar o debate. a história. que reproduzem posturas positivas ou equivocadas. frente a todas elas. avaliar a caminhada. é fundamental reconhecer as próprias limitações e se dispor a rever posições. 04 a 10 de novembro de 2007. tão comuns no cotidiano sindical. explicitar o significado e prever os possíveis desdobramentos de cada concepção e prática. para a reflexão mais aprofundada ou a capacitação. Forte tendência a distorcer o que se vê e se ouve e a evidenciar somente aquilo que se considera equivocado. Um curso de formação. que implica. . contraditório e incorreto no lado adversário. A ação formativa. na escuta atenta das posições ou correntes adversárias. ocorrem debates. Nesses espaços. mais ou menos acirrados. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). que acabam por incorrer em desrespeito pessoal com quem esteja representando posições políticas diferenciadas ou adversárias. Para isso se faz necessário uma postura aberta ao diferente e o exercício da escuta sempre atenta ao que a outra posição ou corrente tem a transmitir. para que esse rebatimento tenha um impacto realmente positivo. A formação como espaço estratégico para a construção de novas práticas As disputas. o que demanda alguns compromissos como os abaixo relacionados:  Respeitar a pluralidade de concepções e idéias e buscar compreendê-las de modo a compor uma visão crítica e construtiva. tem um grande rebatimento na ação mobilizadora e transformadora da luta sindical. como aquelas anteriormente citadas.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG  Dificuldade de reconhecer o outro como um legítimo interlocutor e de construir um diálogo aberto. pautando-se pelo estudo e pesquisa. mesmo entre pessoas de uma mesma corrente político-ideológica.  Dificuldade de identificar e reconhecer valores e aspectos positivos nas idéias. reconhecendo-os em seu potencial catalisador de novas concepções e práticas. Contudo. posicionamentos e pessoas que estejam defendendo posições ou projetos diferenciados.  Utilização de palavras e gestos ofensivos.149 - .  Tendência a forjar oportunidades para denegrir a imagem da posição adversária e – em certos casos – humilhar e desqualificar as pessoas que a defendem.  Resgatar. Cada prática ou concepção revela fragilidades. é preciso fazer das ações e atividades formativas espaços estratégicos. Sem formação não há como qualificar a luta. voltados para o estudo. Oficinas ou Encontros de caráter formativo. como Seminários. acontecem também nos “espaços de formação programada”. Nessa perspectiva. portanto. para identificar insuficiências e valores de cada posição. mas também tem contribuições a dar. As atividades de formação têm uma importância primordial na vida sindical. em primeiro lugar.

coerente com nossos sonhos e utopias. 04 a 10 de novembro de 2007. Portanto.. nas relações interpessoais.  Tratar as disputas políticas como elementos constitutivos de um desafiador processo de construção de consensos. pois – reiteramos . onde se conviva – ao mesmo tempo – na unidade e na diversidade.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG  Fazer da formação um campo profícuo de debates e oportunidades de aprendizado e aprimoramento das idéias e concepções ideológicas. nas relações de gênero. de modo que isso nos faça crescer em todas as dimensões: na política. Uma disputa que nos aproxime cada vez mais da nova sociedade que queremos construir: justa.. . igualitária.150 - . certamente estaremos dando largos passos para transformar o cotidiano de nossas relações políticas no movimento sindical. primando por uma postura ética e respeitosa para com as pessoas e grupos.ela pode ser positiva e dinamizadora da ação social transformadora. O desafio é conferir às nossas disputas uma dimensão mais humana e humanizadora. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). solidária e respeitosa das diferenças. não se trata de acabar com a disputa. Na medida em que nos dispormos a construir e assumir novas posturas e práticas para as quais os espaços de formação nos convocar.

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