Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG

2º Módulo Regional Nordeste
Aracajú (SE), 04 a 10 de novembro de 2007.
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Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG

ÍNDICE SUMÁRIO

Textos

Página

01

Matriz Pedagógica do I Módulo do Curso de Formação de Educadores
e Educadoras em Concepção e Prática Sindical e em Metodologias

01

02

Herança de diferenciação e futuro de fragmentação
fragmentação
Tânia Bacelar

06

03

Ascensão e Queda do Coronelismo
Voltaire Schilling

31

04

Contexto e Diversidade das agriculturas Familiares no Nordeste semisemiárido
Patrick Caron e Eric Sabourin (organizadores)

40

05

Origem e papel dos sindicatos
Altamiro Borges

49

06

História do movimento sindical – Cartilha da CNTE

55

07

Concepções e correntes sindicais no Brasil
Amarildo Carvalho de Souza e Domingos Corcione

67

08

A historia das nossas raízes: itinerário das lutas dos trabalhadores (as)
rurais no Brasil e o surgimento do sindicalismo rural
Maria do Socorro Silva

83

09

Trajetória política da contag - as primeiras lutas

98

10

Participação das mulheres na luta dos trabalhadores e no movimento
sindical
Maria Valéria Junho Penna

111

11

A mulher e a emergência da
da seca no nordeste do Brasil
Izaura Rufino Fischer e Lígia Albuquerque

119

12

Muito trabalho e nenhum poder marcam as vidas das agricultoras
familiares
Taciana Gouveia

127

13

Margaridas nas ruas: As mulheres trabalhadoras rurais como categoria
política
Maria Dolores de Brito Mota

135

14

Potencial e limite das disputas políticas: pontos para reflexão
Sara Pimenta e Domingos Corcione

146

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Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG

2°MÓDULO DO CURSO DE FORMAÇÃO DE EDUCADORES E EDUCADORAS EM CONCEPÇÃO, PRÁTICA SINDICAL E METODOLOGIA DA FORMAÇÃO.
(REGIÃO NORDESTE
ORDESTE)
Data: 04 a 10 de novembro de 2007
Local: Hotel Beira Mar
Endereço: AV. ROTARY S/N - ATALAIA VELHA, ARACAJU (SE), FONE / FAX: 79 - 21062106-8989

MATRIZ PEDAGÓGICA
Objetivo Geral:

Contribuir com a formação de militantes do MSTTR, de modo que aprimorem sua capacidade multiplicadora e
potencializadora da ação formativa em suas áreas de atuação.

Objetivos Específicos:



Socializar e aprofundar referenciais teóricos, políticos e ideológicos que fundamentam e alimentam os ideais e a luta
sindical e popular.
Re-avaliar e fortalecer a luta sindical, numa visão e ação sindical transformadoras, estimulando processos de mudanças de
atitudes, comportamentos e práticas individuais e coletivas, coerentes com as exigências de implementação do PADRSS.
Favorecer a experimentação, sistematização e apropriação de novas metodologias pedagógicas que realimentem a prática
formativa do movimento sindical.
Contribuir para a constituição de uma rede de formadores/as que assumam e implementem o projeto de formação do
MSTTR.

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Aracajú (SE), 04 a 10 de novembro de 2007.
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sistemas de sociedade. Objetivos Responsáveis Mística de acolhida Avançar no processo de integração do grupo. quanto os fatos significativos vivenciados individual e coletivamente. Observação: utilizar a linha do tempo como principal recurso pedagógico. comissões de trabalho. e motivação para militância. a identidade de grupos.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG EIXO TEMÁTICO: HISTÓRIA. Rede de educadores (as) TARDE Contexto e origem do sindicalismo no Brasil Brasil até o inicio da década de 30 Amarildo Carvalho – assessor Compreender a formação da classe trabalhadora no da CONTAG Brasil. trabalho. organização e lutas. diálogos pedagógicos) Comissões de trabalho: Organização e apoio. Estado e politicas públicas. relatoria e sistematização. MANHÃ Roteiro. Memória e Identidade – Perfil de militância Estabelecer a partir das identidades individuais. mística e animação. princípios e objetivos da ENFOC. convidados Reafirmar os compromissos. geração. raça-etnia. ESTRUTURA E PRÁTICA SINDICAL. -4- . acordos. 04 a 10 de novembro de 2007. EIXOS PEDAGÓGICOS: PEDAGOGIA PARA UMA NOVA SOCIABILIDADE E MEMÓRIA E IDENTIDADE. favorecendo a percepção de construção histórica tanto das concepções presentes na sociedade. Obs: agrupar por gênero. tempo de movimento e fatos significativos. CONCEPÇÃO. ReRe-apropriação do I Módulo Estimular uma releitura do I Módulo e a compreensão da inter-relação entre o I e II módulos (identidade. Articular Rede de educadores (as) de com a mística do I Módulo (elementos da natureza) Sergipe e equipe ENFOC Abertura Política do II Curso Coordenação Política da ENFOC. NOITE Sessão de Cinema Exibição do Filme “VIDAS SECAS” 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). avaliação. Regional da CONTAG. Dia 04 de novembro novembro de 2007 (Domingo) Período Tema e SubSub-temas.

. lutas e organização das entidades sindicais do MSTTR) Rede de educadores (as) Dia 06 06 de novembro novembro de 2007 (Terça (Terça Feira) Período MANHÃ E TARDE Tema e SubSub-temas. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE).  As mudanças na organização e bandeiras de luta das Federações até os dias atuais. organização e lutas das entidades do MSTTR.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Dia 05 de novembro de 2007 (Segunda Feira) Período Tema e SubSub-temas.  Principais demandas e bandeiras de luta. Socorro Silva – colaboradora da ENFOC TARDE Formação da estrutura sindical oficial Organizações de de trabalhadores no campo brasileiro (das LIGAS Camponesas à ULTAB) Compreender o papel do Estado na organização sindical e nas relações capital e trabalho. econômicas e de lutas no Nordeste. 04 a 10 de novembro de 2007.  Concepções e correntes políticas na fundação das FETAGs. explicitando: Socorro Silva – colaboradora da ENFOC  As formas anteriores de organização. temas. Compreender as relações sociais. Compreender o processo de organização e as principais bandeiras de luta das organizações nesse período Socorro Silva – colaboradora da ENFOC Memória da constituição e organização do MSTTR no nordeste Preparar as apresentações do Tempo Comunidade (história. Objetivos Responsáveis MANHÃ Contexto regional até a década de 30. políticas. Objetivos Responsáveis Diálogos pedagógicos Reapropriação dos temas trabalhados nos dias anteriores Equipe ENFOC e Comissão de sistematização Memória da constituição e organização do MSTTR no nordeste (Apresentação das federações e exposição dialogada) Favorecer uma leitura critica da historia. -5- Comissão de Sistematização uma síntese das fará apresentações.

raça e etnia. Moderação de Beto Novaes (luta dos assalariados assalariados na região) região) Comissões e equipe ENFOC TARDE Organização das centrais sindicais no Brasil e o dialogo com a CONTAG Testemunho de Francisco Urbano Filho – exex-presidente da CONTAG e José Carmo – Colaborador da FETASE Favorecer maior compreensão sobre a formação das centrais sindicais no inicio dos anos 80 e a participação da CONTAG nesse processo. haverá lançamento de filme sobre migração nordestina para o corte da cana em São Paulo – Professor Beto Novaes Dia 07 de novembro de 2007 (Quarta Feira) Período Tema e SubSub-temas Objetivos Responsáveis MANHÃ Diálogos pedagógicos: Leitura critica de duas importantes e estratégicas frentes lutas Memória das lut as dos assalariados e de luta no Nordeste: pela reforma agrária de finais da  Reforma Agrária década de 70 aos anos 80  Organização e Luta dos Assalariados/as.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG No dia 06 (noite). 04 a 10 de novembro de 2007. -6-  Raimunda Celestina Mascena – CONTAG de . Dia 08 de novembro de 2007 (Quinta Feira) Período Tema e SubSub-temas MANHÃ Livre TARDE Memória da Luta das mulheres trabalhadoras abalhadoras rurais no Nordeste. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). tr Objetivos Responsáveis Favorecer maior compreensão sobre a trajetória organizativa e de luta das mulheres trabalhadoras rurais nordestinas. Testemunhos:  Rita – CUT/PB  Vanete Almeida – REDELAC Trazer as dimensões de classe.

partir de 1990 TARDE Reflexão sobre a organização e pratica sindical do MSTTR Manoel José dos Santos ontem e hoje Presidente da CONTAG Organização. Construir passos para a realização as atividades inter módulos e GES Equipe Equipe ENFOC Encaminhamentos Reapropriação do Módulo (linha do tempo) Discutir encaminhamentos dos próximos passos. 04 a 10 de novembro de 2007. -7- Equipe ENFOC. Diálogos Pedagógicos: Pedagógicos: Política Nacional de Formação (PNF) do MSTTR Resgatar o histórico da formação sindical do MSTTR e refletir sobre os princípios políticos do PADRSS enquanto referenciais dessa formação. Estrutura e Prática Sindical Explicitar a importância do PADRSS enquanto referencia de mudanças na organização do MSTTR. Avaliação / Encerramento Possibilitar uma reflexão avaliativa do 2º Módulo. Visualizar o 2º Módulo na sua totalidade. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE).Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Dia 09 de novembro de 2007 (Sexta Feira) Período Tema e SubSub-temas Diálogos Pedagógicos MANHÃ Objetivos Responsáveis Reapropriação dos temas trabalhados nos dias anteriores Equipe ENFOC e Comissão de Sistematização Manoel José dos Santos Presidente da CONTAG Memória da organização do MSTTR a Favorecer uma leitura critica sobre a trajetória do MSTTR de 1990 aos nossos dias. considerando nexos e pontes para as etapas seguintes. comissões de avaliação e de sistematização. Amarildo Carvalho – assessor da CONTAG Refletir sobre princípios e estratégias da PNF do MSTTR. . Dia 10 de novembro novembro de 2007 (Sábado) Período MANHÃ MANHÃ Tema e SubSub-temas Diálogos Pedagógicos: Tempo Comunidade Objetivos Responsáveis Refletir sobre o tempo comunidade na estratégia da formação.

Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Herança de diferenciação e futuro de fragmentação Tânia Bacelar de Araújo NESTE ARTIGO. analisando-se ainda sua inserção nos contextos nacional e mundial. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). aproximadamente. 04 a 10 de novembro de 2007.5% da população urbana do Brasil e 46% de sua população rural. Originam-se. quase 46% estão no Nordeste (IPEA . porém. quando visto no contexto nacional. A pobreza. em 1990. É um traço antigo que o dinamismo econômico das últimas décadas não conseguiu alterar significativamente.3 milhões estavam no Nordeste (55% do total nacional) e mais de 10 milhões residiam na zona rural da região. O lento crescimento econômico. utilizando-se portanto dados globais referentes. então. Serão analisados ainda os movimentos de mercadorias e de capitais focalizando-se as décadas de 60. enfocando-se suas . O Nordeste aqui considerado congrega os estados que vão do Maranhão à Bahia. em suas tendências de ligações com o exterior e com as demais regiões do próprio Brasil. 14% da produção nacional total (medida pelo PIB). que durante muitas décadas caracterizou o ambiente econômico nordestino (GTDN. 12% da produção industrial e quase 21% da produção agrícola. Num segundo momento. foi substituído pelo forte dinamismo de numerosas atividades que se desenvolveram recentemente na região. A heterogeneidade e a complexidade da dinâmica nordestina aparecerão. 1967). -8- . 17. Dos indigentes urbanos do país. Daí a questão posta no título do artigo: o rumo será o da fragmentação? Caracterização inicial Na região Nordeste (20% do território brasileiro) vivem 29% da população do país. dos 32 milhões de brasileiros indigentes. 1993). tendências atuais e perspectivas econômicas. diferindo da classificação feita pela Sudene que inclui parte do estado de Minas Gerais (região polarizada de Montes Claros). continua a ser uma das características mais marcantes do Nordeste. Finalmente. destacando-se os novos subespaços dinâmicos e os focos de resistência a mudanças. Assim. Concluir-se-á com uma reflexão sobre as tendências atuais da economia nordestina e os primeiros impactos da opção brasileira por uma inserção passiva no mercado mundial em globalização. ao total regional.características principais. a análise será feita com referência às diferenciações existentes dentro da própria região Nordeste. Apresenta-se inicialmente sucinta descrição da dinâmica geral das atividades econômicas: a região será abordada em seu conjunto. Esforço especial será dedicado à observação das mais importantes articulações econômicas regionais e sub-regionais. assim. 70 e 80. especular-se-á sobre a hipótese do aprofundamento das diferenciações e desigualdades internas. com maior clareza. O Nordeste e seus subespaços serão percebidos. o Nordeste tem 63% dos indigentes brasileiros que vivem nas áreas rurais. observa-se o Nordeste do Brasil por sua economia. Cabe destacar que na região residem 23. com 46% da população rural brasileira. em sua grande maioria. Levantamento recente do Instituto de Planejamento Econômico e Social – IPEA mostra que. como se verá a seguir.

2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). o relatório do Grupo de Trabalho para o Desenvolvimento do Nordeste (GTDN) que fundamentou a estratégia inicial de ação da Sudene. nacionais e multinacionais. Enquanto isso.9% para 58. constatava ter sido o seu fraco dinamismo nas décadas anteriores a característica mais importante da base produtiva instalada na região. De 1960 a 1988 a economia nordestina suplantou a taxa de crescimento média do país em cerca de 10%. Tais investimentos tiveram importante papel para o posterior dinamismo dos investimentos nas atividades privadas.6 bilhões para US$ 50 bilhões (Araújo. 1992). tanto no setor industrial quanto no terciário. A partir dos anos 60. Entre 1967 e 1989 a agropecuária reduziu sua contribuição ao PIB regional de 27. a indústria passou de 22.2% para 17. -9- . 1996). nas décadas recentes. rompendo a fraca dinâmica preexistente. o PIB do Nordeste quase sextuplicou. Usando dados que comparam o desempenho da economia brasileira no seu total com o de sua parte localizada no Nordeste.9% e em 1990. principalmente –. as atividades industriais – ganham crescentemente espaço no ambiente econômico do Nordeste e passam a comandar o crescimento da produção na região. e entre 1965 e 1985 o PIB gerado no Nordeste cresceu (média de 6.4% para 18. verifica-se nítida melhoria nos indicadores de participação relativa dessa região na economia do país: entre 1960 e 1990 a participação no PIB aumentou de 13. segundo dados da Sudene para o período. Uma das propostas centrais do relatório do GTDN – como ficou conhecido aquele documento – era estimular a industrialização no Nordeste como forma de superar as dificuldades geradas pela velha base agroexportadora nordestina. por investimentos de empresas estatais do porte da Petrobrás (na Bahia e Rio Grande do Norte) e da Vale do Rio Doce (no Maranhão). passando de US$ 8.3% ao ano) mais que o do Japão no mesmo período (5. concentrou esforços e recursos federais na realização de estudos e pesquisas sobre a dotação de recursos naturais do Nordeste (em particular de recursos minerais) e na ampliação da oferta de infra-estrutura econômica (sobretudo transportes e energia elétrica). e o setor terciário cresceu de 49.3%. particularmente) e com recursos próprios de importantes empresas locais. complementados com créditos públicos (do BNDES e BNB. No total. tal percentual caiu para 12. No global. que afetou consideravelmente a produção na zona semi-árida. Enquanto a indústria comandava o crescimento econômico no Sudeste.6%. segundo estudo realizado por Maia Gomes (1991). ano de seca.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Dinamismo econômico: uma herança recente Apesar de vista como região problema pela maior parte dos brasileiros. Coordenado por Celso Furtado no final dos anos 50. a economia nordestina apresentou entre 1960 e 1990 um excelente desempenho. Vários estudos recentes confirmam esse comportamento.6% para 29. o Nordeste foi a região que apresentou a mais elevada taxa média de crescimento do PIB no país. as atividades urbanas – e dentro delas. 04 a 10 de novembro de 2007. recém-criada. impulsionadas por incentivos fiscais – 34/18-Finor e isenção do imposto sobre a renda.5% ao ano). entre 1960 e 1990.1% (Sudene. o velho setor primárioexportador implantado no Nordeste dava mostras de sua incapacidade para continuar impulsionando o desenvolvimento econômico regional.1%. No início dos anos 60 a Sudene.

A integração produtiva articulara a dinâmica econômica nas diversas regiões brasileiras. feijão. a integração econômica não homogeneizou as estruturas produtivas das diferentes regiões do país. a indústria tornou-se relativamente mais importante no total da produção brasileira (34%. Assim. Naturalmente. Ora. 04 a 10 de novembro de 2007. . no perfil produtivo da agropecuária nordestina: a partir dos anos 70. Ao mesmo tempo algumas culturas não-tradicionais na região. também o setor de serviços tem tido desempenho bastante razoável na região. por seu valor de mercado relativamente alto. como ressaltaram em seus estudos Oliveira (1990) e Guimarães Neto (1989). a indústria recentemente instalada no Nordeste resistiu melhor aos efeitos da desaceleração da economia brasileira. implantou moderna agricultura de grãos e importantes pólos de fruticultura. as tendências são semelhantes. Embora as taxas se diferenciem. mandioca e sisal. apresentando taxas de crescimento anual positivas e superiores à média do país. expandia-se a que era ocupada com cana-de-açúcar. No entanto. enquanto o Centro-Sul vai bem. podendo localizadamente melhor enfrentar a crise nacional. Permaneceram diferenciações importantes. às margens do submédio São Francisco e no vale do Açu (RN). quando visto no ambiente econômico nacional. As atividades agropecuárias vêm perdendo peso relativo no PIB do Brasil e também no do Nordeste. o que o ajuda a resistir aos efeitos da retração da demanda interna. uma das teses centrais do GTDN ficou ultrapassada: não se verifica mais o fato de a economia do Nordeste ir mal.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Cabe salientar que quando se compara o desempenho das atividades econômicas do Nordeste com a média nacional. também nesse ponto. verifica-se que a dinâmica regional tendeu a acompanhar as oscilações cíclicas da produção total do país. O movimento de integração econômica comandado pelo processo de acumulação de capitais do Brasil nas últimas décadas havia atingido o Nordeste e solidarizado sua dinâmica econômica às tendências gerais da economia nacional. em sua porção oeste. mamona. E é justamente em função das particularidades das estruturas produtivas de cada região brasileira que o Nordeste foi menos atingido pela crise dos anos 80. ao especializar-se mais na produção de bens intermediários. apresentaram peso crescente na produção regional: 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). em 1990) do que no Nordeste (30%). os segmentos produtores de bens de capital e bens de consumo duráveis. crise que afetou mais fortemente o setor industrial e. as tendências gerais da economia brasileira. com as atividades urbanas avançando mais nos dois casos. laranja e milho. dentro dele. Conforme dados da Sudene (1992). Nordeste: mudanças no perfil produtivo Nas últimas décadas a região promoveu mudança importante na composição de sua produção. por exemplo. tais segmentos não têm grande presença no tecido industrial do Nordeste. Mudanças ocorreram. Acompanha. Paralelamente.10 - . destinando parte importante às exportações. Dessa forma. o Nordeste continua sendo relativamente mais importante como região produtora agropecuária (20% do total nacional) do que industrial (12%) ou terciária (15%). ambos para exportação. e nesse novo momento. Sob tal perspectiva. enquanto se reduzia a área cultivada com algodão. especialmente a partir da segunda metade dos anos 80. segundo dados da Sudene (1992) para o ano de 1990. arroz. apesar de suas especificidades locais.

quando o Estado brasileiro. da produção de alumínio no Maranhão. 1990. A indústria. em 1970. transformada em vinho também no Nordeste. coube ao Nordeste assumir novo papel no contexto da divisão inter-regional do trabalho do país. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). como anteriormente ressaltado. do Agreste e do Cerrado. a implantação do pólo petroquímico de Camaçari. Nesse contexto. ou da soja. manga. 04 a 10 de novembro de 2007. abacaxi (em manchas favoráveis do sertão e agreste) além de tomate. . o perfil industrial do Nordeste mudou significativamente com a perda da posição relativa da indústria de bens não-duráveis de consumo e com o crescimento relativo do segmento voltado à produção de bens-intermediários. crescendo para 13. o Nordeste comparece abrigando alguns pólos importantes de desenvolvimento agroindustrial e industrial. capitais privados buscam novas frentes de investimento em espaços localizados para além do centro mais industrializado do país – o Sudeste. café e soja (em áreas favoráveis do São Francisco. uva (nas áreas irrigadas pelo São Francisco e Açu). Verifica-se a desconcentração da atividade produtiva. além do pólo de fertilizantes de Sergipe. Como o movimento de desconcentração busca também utilizar recursos naturais disponíveis nas diversas regiões do país. Tais produtos representavam. quando se examinarem os focos de modernidade surgidos na região nas últimas décadas. o Nordeste também se incluiu nessa tendência quando a Petrobrás comandou. No total da formação bruta de capital fixo. De tradicional região produtora de bens de consumo não-duráveis (têxtil e alimentar. respectivamente). e a Companhia Vale do Rio Doce implementou o complexo de Carajás. o Nordeste engata na dinâmica nacional. realizou importante programa de investimentos públicos e com ele sustentou a dinâmica da economia nacional num contexto internacional de crise. inclusive da atividade industrial. processada por agroindústrias instaladas na região. 1992). a partir da estratégia definida no II Plano Nacional de Desenvolvimento (II PND). 1990. Nos anos 70. vai se transformando nos anos pós-60 em região industrial mais especializada em bens intermediários (Araújo.5% em 1989 (Congresso Nacional. 1993). financiada pelos incentivos da Sudene. da uva. Oliveira. Por outro lado. melancia. 1981). no Maranhão. Nessa fase. No caso da indústria. apenas 3% do valor da produção agrícola do Nordeste. com destaque para a instalação do pólo petroquímico de Camaçari. Fundaj. salvo em casos como o das frutas tropicais. passando de 13% do total nacional em 1970 para 17% em 1985 (superior à sua participação no PIB brasileiro). e do complexo minero-metalúrgico. contabilizada pelo IBGE/FGV. nos anos em que a economia brasileira consolida o mercado interno nacional e promove sua integração produtiva. demonstra tal perfil: foram os segmentos produtores de insumos que receberam a maior parte dos recursos provenientes do sistema 34/18-Finor.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG é o caso de frutas como melão. que inclui investimentos da administração pública e das empresas do governo. na Bahia. com parte do projeto localizado no Maranhão. que serão analisados com detalhes adiante. do complexo da Salgema em Alagoas. dentre outros. enviadas in natura para o mercado consumidor externo. na Bahia. Esse movimento atinge também o Nordeste (Guimarães Neto.11 - . Merecem também referência os investimentos do sistema Eletrobrás. principalmente). verifica-se a posição do Nordeste como região recebedora de recursos. A nova base agrícola da região também tem a vocação para ofertar produtos cujo beneficiamento se dará fora do Nordeste ou até do país.

as atividades econômicas do Nordeste tendem. até mais que no Brasil. . maior peso na formação bruta de capital fixo total do que na média nacional.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Finalmente. o Nordeste tendeu a reproduzir tal padrão. nos anos 80. certas especificidades importantes. Dentro dele. duplicando seu valor exportado. Guardam. era possível destacar subconjuntos sócio-econômicos diferenciados. bens imóveis e serviços às empresas. quando a crise se aprofundou excluindo de seus efeitos negativos as atividades de intermediação financeira e os segmentos voltados para a exportação. Investindo. produção de energia elétrica e abastecimento de água. Aliás. houve excepcional crescimento no Nordeste nas décadas recentes. a tendência à perda de importância dos produtos básicos e ao maior crescimento dos bens manufaturados no valor exportado também se verificou nesse período. Entre 1975 e 1990 o Brasil expandiu suas exportações. atividades financeiras. incentivando.6% ao ano. o setor público tem. sua economia gerava um terço das exportações nordestinas. mas por aumentar sua já predominante importância no total vendido pela região no mercado internacional: em 1975. como contabiliza a Sudene (1992). Direta ou indiretamente. no geral.12 - . em 1990 respondia pela metade do valor exportado pela região.6 bilhões de vendas anuais para US$ 31. em virtude de variados processos de ocupação humana e econômica : 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Uma das características importantes da economia do Nordeste é o relevante papel desempenhado nos anos recentes pelo setor público. para US$ 3 bilhões. em 1990. o investimento público foi fundamental. No Nordeste também se observou a mesma tendência. mais que as quadruplicando: passam de US$ 7.5 bilhão). Enquanto a economia brasileira desacelerava. algumas das quais aparecerão com destaque em outros tópicos deste trabalho. na maioria delas. o Estado se fazia presente com grande intensidade na promoção do crescimento da economia nordestina. que passou de US$ 1. criando infra-estrutura econômica e social. No Nordeste. No Nordeste. no entanto. serviços comunitários sociais e pessoais. O Nordeste também produziu mais para o exterior. 04 a 10 de novembro de 2007. triplicando seu valor exportado (de US$ 525 milhões para US$ 1. em 1975. É evidente que o Estado patrocinou fortemente o crescimento econômico nas diversas regiões brasileiras.1 bilhões. no Nordeste. Segundo dados da Sudene (1992). Como se observa do exposto. a acompanhar bem de perto as principais tendências da economia brasileira.5 bilhão. destacaram-se como atividades muito dinâmicas e. o estado da Bahia merece referência especial não só por ter acompanhado o padrão nacional. historicamente. porém. atividades como bens imóveis e serviços às empresas. foi o setor público quem puxou o crescimento das atividades econômicas que mais se expandiram na região nos anos 70 e 80. produzindo. No que se refere às atividades de intermediação financeira. pode-se afirmar que sua presença foi fator fundamental para explicar a intensidade e os rumos do crescimento econômico ocorrido nas últimas décadas. A heterogeneidade econômica intraintra-regional Deve-se ressaltar que nunca houve um Nordeste economicamente homogêneo e que. a atividade de intermediação financeira crescia. as atividades financeiras. expandiram-se na proporção de 10% ao ano. Enquanto nos anos 70 e 80 a economia da região cresceu em média 7.

Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG • o Nordeste que se estendia do Rio Grande do Norte até Alagoas. É o que se tentará fazer no próximo tópico do trabalho. 04 a 10 de novembro de 2007. ora como manchas ou focos de dinamismo e até como enclaves..13 - . Nesse sentido. Essas são apenas visões parciais sobre a região nos dias presentes. o cacau e as zonas de combinações agrícolas sertanejas eram predominantes. a cana. a crescente heterogeneidade de suas estruturas econômicas. no que se refere a atividades industriais. Nordeste da seca e da miséria. fizeram surgir e se desenvolver no Nordeste diversos subespaços dotados de estruturas econômicas modernas e ativas. Revelam parte da verdade sobre a realidade econômica e social nordestina. quando não comandadas pelo Estado brasileiro. No campo. • o Nordeste de Sergipe e Bahia. mas não apreendem os fatos novos dos anos mais recentes.. é mister ressaltar os novos focos de dinamismo da economia regional. como já o fizemos. Não refletem a atual e crescente complexidade da realidade econômica regional e não permitem desvendar uma das mais marcantes características do Nordeste atual: a grande diversidade. . Uma análise que perceba as diferentes trajetórias econômicas dos diversos subespaços nordestinos. questionando inclusive visões tradicionalmente consagradas sobre a região. cidade portuária e mercantil. Embora traços gerais possam ser identificados. Nordeste sempre ávido por verbas públicas. onde a economia açucareira e a pecuária gestavam poderosas oligarquias e incipiente burguesia industrial. e mesmo demográfico. ora como pólos dinâmicos. caracterizado pela Fundação IBGE durante certo tempo como integrante da região Leste. era comandado por Salvador. além do pólo agroindustrial de Petrolina-Juazeiro (com base na agricultura irrigada do submédio São 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). • o Nordeste do Piauí e Maranhão. Áreas dinâmicas de modernização intensa Como vem se tentando demonstrar ao longo deste texto. O oeste baiano era um vazio econômico. onde o complexo gado-algodão-agricultura de alimentos conformava uma oligarquia sertaneja que se expandia na acumulação comercial e não existia o complexo canavieiro. verdadeiro poço sem fundo em que as tradicionais políticas compensatórias de caráter assistencialista só contribuem para consolidar velhas estruturas sócio-econômicas e políticas perpetuadoras da miséria. Tendências da acumulação privada reforçadas pela ação estatal. Nordeste região problema. Nas últimas décadas mudanças importantes remodelaram a realidade econômica nordestina. o pólo têxtil e de confecções de Fortaleza. 1967). que convivem atualmente com as tradicionais áreas agrícolas ou agropastoris da região. Tais estruturas são tratadas na literatura especializada ora como frentes de expansão. mais conhecido como espaço de transição entre o Nordeste seco e a região amazônica. era chamado por alguns estudiosos de meioNorte (Melo. 1978) e até o final dos anos 50 visto como área aberta à expansão da fronteira agrícola regional (GTDN. • dele já se distinguia o Ceará. focos de dinamismo em grande parte responsáveis pelo desempenho relativamente positivo apresentado pelas atividades econômicas na região. onde desde cedo se desenvolveu uma burguesia banqueira. o complexo minerometalúrgico de Carajás. Dentre eles. até décadas recentes. cabe destaque para o complexo petroquímico de Camaçari. importantes movimentos da economia brasileira tiveram fortes repercussões na região Nordeste nos anos recentes. a percepção da realidade econômica nordestina exige análise mais detalhada.

constitui um dos principais pilares da crescente importância da produção de bens intermediários no Nordeste. segundo o Sindicato da Indústria de Confecções do Ceará. No que se refere ao segmento das confecções. A abertura comercial pode ter implicações negativas sobre a tecelagem e as confecções.5 bilhões e. Em 1991. Além disso. Contudo. sendo de 32. . dado que nesses segmentos existe uma defasagem tecnológica a ser superada. O parque têxtil e de confecções de Fortaleza é competitivo nacionalmente e. da UFPE. internacionalmente. devido à drástica diminuição na produção de algodão no Nordeste. como descrevem Lima e Katz (1993). 04 a 10 de novembro de 2007. bem como para o crescimento de unidades fornecedoras de aviamentos e linhas (cerca de 80% destes são comprados fora) (Lima & Katz. O pólo têxtil e de confecções de Fortaleza. merecem referência ainda os tecnopólos de Campina Grande (PB) e do Recife (PE). O encadeamento do pólo cearense com a base agrícola da região é reduzido. o pólo cearense reunia cerca de três mil empresas. o sul dos estados do Maranhão e do Piauí). Quanto aos seus impactos. tentou melhor identificar essas áreas. Pesquisa recente realizada pelos professores Policarpo Lima e Frederico Katz. mais recentemente. do moderno pólo de fruticultura do Rio Grande do Norte (com base na agricultura irrigada do Vale do Açu). o que já vem sendo estimulado por empresários ligados ao setor. das áreas de moderna agricultura de grãos (que se estendem dos cerrados baianos atingindo. 1993). Implementado ao longo dos anos 70. desponta como um dos importantes centros do setor. caracterizando-as e analisando seus novos impactos e suas perspectivas de expansão (Lima & Katz. o pólo de Camaçari representa hoje uma possível base para a esperada verticalização da matriz industrial da petroquímica regional.6% da receita tributária do estado da Bahia. nos efeitos para a frente conta-se com a perspectiva da instalação de pequenas e médias malharias que se beneficiariam das fiações já existentes. O pólo petroquímico de Camaçari.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Francisco). chegará a US$ 6 bilhões. há espaços para um reforço do setor de tecelagem (60% dos tecidos são adquiridos fora do estado). Esse complexo industrial foi viabilizado com a participação de capitais privados nacionais e multinacionais e com o suporte estatal (Petrobrás). concorreu para alterar estruturalmente a economia baiana (aumentando o peso do setor secundário de 12%. contando com fontes de financiamento diversas. em 1960. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). por sua vez. 1993). 1993). vale registrar que em 1990 o pólo petroquímico de Camaçari contribuiu com 13. para quase 30% do PIB estadual em 1990). tanto em âmbito regional como nacional. e dos diversos pólos turísticos implantados nas principais cidades litorâneas do Nordeste.8% o seu peso na receita do ICMS gerado pela indústria de transformação. em virtude de sua atualização tecnológica. no caso da fiação. gerava 60 mil empregos diretos e era responsável por 12% do ICMS do Ceará (Lima & Katz. enquanto os ligados à confecção passavam de 152 para 850. contribuindo também para a elevação das exportações do estado. Menos por seu dinamismo e mais pelo fato de desenvolverem modernas atividades de base tecnológica. com o programa de ampliação previsto. importou em investimento total de cerca de US$ 4.14 - . Embora as repercussões esperadas fossem maiores. Entre 1970 e 1985 o número de estabelecimentos têxteis do Ceará cresceu de 155 para 358.

na economia de São Luiz. com base na implantação de grandes projetos de irrigação. Enquanto eram incorporados à agricultura cerca de 56 mil hectares. após avanços tecnológicos que viabilizaram o cultivo do produto nos cerrados. Em função desses investimentos.15 - .100 empregos diretos. 04 a 10 de novembro de 2007. O projeto da Alumar também tem grande peso atualmente na indústria maranhense. que tem a CVRD como sócio. impactos importantes já se notavam nos anos 80: o PIB total do estado aumentou de US$ 2 bilhões em 1980 para US$ 3 bilhões em 1987. O projeto criou 4. produção estimada em 420 mil toneladas/ano. gerando na fase atual um milhão de toneladas de alumina e 350 mil de alumínio. a Alumar é responsável por significativo fluxo mensal de rendimentos. Além disso. implantada na área por agricultores do Sul do país. A expansão da economia do oeste da Bahia está associada à introdução e à rápida expansão da soja. uma vez que montou a maior parte da infra-estrutura de captação e distribuição de água.220 os indiretos. a presença do Estado foi fundamental.8%. quanto ao processamento local em plantas industriais. que resultou em projeto de investimento da ordem de US$ 2 bilhões para a produção de três milhões de toneladas/ano de alumina e 500 mil de alumínio.200 empregos indiretos (Lima & Katz. de soda cáustica de Alagoas. Constatou-se o cultivo cada vez maior de produtos de elevado valor comercial. o setor industrial gerava cerca de 24 mil empregos (Galvão. já que são exportados 95% do produto (Lima & Katz.2 bilhão. externo inclusive. 1990). destinados tanto à venda in natura para o mercados de maior poder aquisitivo. a Companhia Vale do Rio Doce (CVRD) desempenhou um dos papéis principais. com investimentos de US$ 1. tendo o produto da indústria ampliado sua participação no total estadual de 14. Também neste caso. De forma semelhante ao caso da CVRD. As articulações pelo uso do alumínio são reduzidas. O complexo agroindustrial de Petrolina-Juazeiro surgiu nos anos 70. fertilizantes e rações (Lima & Katz. mesmo. a Estrada de Ferro Carajás ajudou a dinamizar a instalação de usinas de ferrogusa e de ferroliga ao longo de sua extensão.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG O complexo minero-metalúrgico do Maranhão está associado aos desdobramentos do Programa Grande Carajás (PGC) e ao interesse do capital multinacional em diversificar suas fontes de abastecimento de matérias-primas. equipamentos para irrigação. além de cerca de 3. em Imperatriz. O projeto Celmar. estimando-se em 1. 1993). a Estrada de Ferro Carajás (EFC) integrou-as ao circuito da produção mercantil e contribuiu para dinamizar o pólo agrícola do sul do Maranhão. Cortando regiões anteriormente isoladas. implantando a infra-estrutura para exploração-exportação de minério de ferro. da energia elétrica de Tucuruí. Trata-se de uma associação de várias empresas. tendo ainda articulações a montante via absorção de bauxita do rio Trombetas. materiais de construção. além dos serviços de manutenção refletidos nos empregos indiretos. de cal do Ceará. e mais três mil no reflorestamento. gerando diretamente 800 empregos. internacionais. . instalaram-se na área diversas plantas industriais de ramos variados: processamento de alimentos. destina-se a produzir celulose. embalagens. bens de capital. pelo menos para os padrões locais. Para a montagem desse pólo.3% para 21. Nessa época. Tiveram importante papel 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). onde a produção de soja se expande. As áreas de moderna agricultura de grãos se estendem dos cerrados do oeste baiano ao sul do Maranhão e do Piauí. 1993). 1993). Ao mesmo tempo deu-se a implantação de grandes projetos de médias empresas nacionais e.

Quando ocorre.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG os subsídios governamentais (Galvão. Mas o crescimento se fez com base na incorporação de terras (a área cultivada rapidamente duplica). 04 a 10 de novembro de 2007. Nos anos mais recentes a produção de grãos vem crescendo bastante (em 1992. impulsionadas pelo Proálcool. especialmente soja (460 mil toneladas). Para o processamento da significativa produção de soja. Começam a se desenvolver também atividades de produção de insumos (fertilizantes. Com a soja. Áreas tradicionais Ao mesmo tempo em que diversos subespaços do Nordeste desenvolvem atividades modernas. Nelas despontam atividades como avicultura. frigorificação de carnes. Pelo exposto. mais do que na elevação dos padrões de produtividade. produziu-se no Piauí e em Tocantins cerca de um milhão de toneladas). seletiva. constituem um Nordeste que não existia há poucas décadas. calcário) e de equipamentos próprios para a agricultura. a modernização é restrita. Entre 1980/81 e 1985/86. a área plantada com soja expandiu-se 143 vezes e a produção em 848 vezes. . Nos anos 90. foram instaladas no município de Barreiras duas plantas industriais. implanta-se na região todo um conjunto de atividades e práticas ligadas à agricultura moderna. arroz e feijão. com a crise financeira do Estado (velho protetor da ineficiência) e a intensificação da concorrência. diversas usinas são paralisadas. o algodão era a principal (embora reduzida) fonte de renda dos pequenos produtores e trabalhadores rurais desses espaços nordestinos. uma vez que a pecuária sempre foi atividade privativa dos grandes proprietários locais. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). pode-se inferir que as mencionadas áreas são pontos de intenso dinamismo econômico implantados no território nordestino. suinocultura. que se especializam na exportação. O pólo de fruticultura do Vale Açu (RN) cresceu comandado por grandes empresas (com destaque para a Maísa). Na ausência do produto. Essas áreas não conhecem crise ou recessão. milho. No início da atual década (safra de 1991/92) foram produzidas 800 mil toneladas de grãos no oeste da Bahia. A produção também se estende para o sul do Maranhão. No arranjo organizacional local. o que ajuda a manter um padrão dominantemente tradicional. as políticas associadas ao Plano Real) contribuiu para tornar ainda mais difícil e frágil a sobrevivência do imenso contingente populacional que habita os espaços dominados pelo complexo pecuária-agricultura de sequeiro. feijão e mandioca). No caso do semi-árido.16 - . no padrão tecnológico e empresarial da indústria têxtil modernizada na região e. As potencialidades agrícolas e minerais reveladas na região com grande evidência. em outras áreas a resistência à mudança permanece sendo a marca principal do ambiente socio-econômico: as zonas cacaueiras. enquanto crescia também a produção de arroz. mais recentemente. 1990) e os investimentos públicos em infraestrutura. esses pequenos produtores são obrigados a levar ao mercado o reduzido excedente da agricultura alimentar tradicional de sequeiro (milho. a crise do algodão (com a presença do bicudo e as alterações na demanda. As zonas canavieiras expandiram-se muito nos anos 70. canavieiras e o sertão semi-árido são as principais e históricas áreas com tal característica. Uma nova vaga de centralização de capitais promete deixar vivas apenas as menos resistentes à mudança.

E. No semi-árido. inclusive da estrutura fundiária. com freqüência. as tradicionais frentes de emergência (como são chamados os programas assistenciais do governo) alistam enorme número de agricultores (2. após tantos anos de dinamismo econômico. os incentivos à pecuária fortaleceram e modernizaram tal atividade. Primeiro. também verifica-se o agravamento da já elevada concentração das terras em mãos de pouquíssimos produtores: "na seca. continuavam a beneficiar-se dessa opção conservadora. que sempre foi a principal da unidade produtiva típica do sertão e do agreste nordestino.17 - . Na região cacaueira. são incapazes de dispor de reservas para enfrentar um ano seco. a questão fundiária agravou-se (Graziano da Silva. cobrindo parte da população idosa e assegurando renda (mínima. os velhos sustentam os jovens nessa parte do Nordeste. apresentada ao país como desnecessária em muitos fóruns (inclusive nos acadêmicos) com base no sucesso da ocupação de novas terras. em áreas da antiga fronteira agrícola da região. em geral. a questão fundiária permanece praticamente intocada. 1989). por exemplo. como o desaparecimento da cultura do algodão. das secas. A hegemonia crescente da pecuária nos moldes em que foi realizada agravou a questão fundiária do Nordeste. portanto. apesar da miséria alarmante que domina nas áreas rurais do 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). cabe destacar que são áreas de ocupação antiga. Nos anos 60 e seguintes a proposta da reforma agrária foi abandonada na prática pelos sucessivos governos militares e civis. Hoje. e o monopólio da cana sobre as áreas cultiváveis se amplia. Mesmo onde a irrigação introduziu uma agricultura moderna no semi-árido.1 milhões de pessoas em 1993).Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Não é sem razão que nos momentos de irregularidade de chuvas ocorridos nos anos recentes. A base técnica modernizou-se. cita-se a extensão da ação previdenciária. rendeiros e parceiros produzem. portanto. Na lúcida afirmação do geógrafo Mário Lacerda de Melo (1980). Nessas áreas. e as que aconteceram. no Nordeste também se assistiu a um grande dinamismo agropecuário e agroindustrial no oeste baiano e no sul do Maranhão e do Piauí. mas permanente) a muitas famílias sertanejas. Como a estratégia brasileira das últimas décadas foi concentrar a expansão da agropecuária em áreas novas (especialmente no Centro-Oeste). o processo de concentração fundiária tem aumentado nos anos recentes. não houve mudanças significativas. proprietárias das áreas de antiga ocupação e sempre bem situadas nas estruturas de poder. há importantes traços comuns. Nas áreas em que predominam a rigidez das velhas estruturas econômico-sociais e o domínio político das oligarquias tradicionais da região. nas quais as velhas estruturas foram criando sucessivos mecanismos de preservação. Crise ainda sem solução nos anos 90. como a redução da produção de alimentos e a intensificação da emigração rural. como bem explica Andrade (1988). . De positivo. os pequenos produtores. Simultaneamente. a resistência à mudança convive na fase mais recente com importante queda nos preços internacionais do cacau. nos anos de chuva regular. "o capim expulsa a policultura alimentar e o gado tange o homem". A questão fundiária é mais dramática e vem se agravando. gerando renda ilegal mas capaz de compensar o desaparecimento da renda do algodão. mas não conseguem acumular: descapitalizados ao final de cada ciclo produtivo. Nesse quadro. além de provocar outros consideráveis efeitos. As oligarquias nordestinas. aprofundando a crise na subregião. a modernização foi conservadora. Na Zona da Mata. pequenos proprietários inviabilizados vendem suas terras a baixos preços e os latifúndios crescem". tiveram impactos negativos. 04 a 10 de novembro de 2007. Em algumas sub-regiões (como no sertão pernambucano) a maconha tem avançado bastante.

caracterizando maior instabilidade e registrandose maior presença de posseiros em comparação com as demais regiões nordestinas (Graziano da Silva. Nesse contexto. Nesses espaços resistentes a mudanças. 17% são produzidas no Sudeste (dois terços em São 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Estudo da Universidade Estadual de Campinas – Unicamp destaca. instalado a partir dos anos 60 com o apoio dos incentivos federais.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Nordeste. essa participação caiu para 28%. 40% vêm do Sudeste (90% desses de São Paulo).4% do total) aumentaram sua participação na área total. Mas o novo parque industrial desenvolveu também importante fluxo de aquisição de serviços e insumos com o Sudeste (em especial com São Paulo). Esse fato reforça a hipótese de que as formas peculiares de exploração da terra no Nordeste lhe conferem uma estrutura de posse da terra diferenciada da existente na média do Brasil. em 1985) é superior ao tamanho médio desses no resto do Nordeste (1. Novas articulações econômicas do Nordeste Busca-se examinar neste tópico as articulações econômicas estabelecidas entre Nordeste. onde se reproduz a estrutura desigual do resto do Nordeste. para o mesmo período. das matérias-primas que processa. de acordo com os censos agropecuários realizados pela Fundação IBGE. Ligações econômicas do novo parque industrial O novo parque industrial. há forte relação com a base econômica nordestina. dois terços dos indigentes rurais do país estão no Nordeste. muitas vezes registradas como imóveis distintos para evitar seu enquadramento como latifúndio por dimensão" (Graziano da Silva. outras macrorregiões brasileiras e o resto do mundo.914 hectares. a área total ampliou-se de 74 milhões de hectares para 92 milhões de hectares. um caso ilustrativo é o de grandes fazendas que reúnem áreas de posse e áreas de diferentes escrituras. A recente especialização nos bens intermediários reforça essa ligação. 1989). em 1985. Segundo o Mapa da Fome feito recentemente pelo IPEA. Ao mesmo tempo. aqueles com mais de mil hectares (0. passando de 27% em 1970 para 32% em 1985. . Em 1970 os estabelecimentos com menos de 100 hectares (94% do total) ocupavam quase 30% da área. Do ponto de vista da origem dos insumos que transforma no processo produtivo e dos serviços que utiliza. Nesse período. suas sub-regiões (prioritariamente as que experimentaram maior dinamismo nas últimas décadas). 04 a 10 de novembro de 2007. 1989). as velhas estruturas sócioeconômicas e políticas têm na base fundiária e no controle do acesso à água seus principais pilares de sustentação e de dominação (política e econômica).002 hectares). por exemplo). No semi-árido o acesso à terra é feito por formas precárias (parceria.18 - . mais particularmente com o Sudeste. Os dados confirmam que a concentração fundiária aumentou no Nordeste nas últimas décadas. que "a desigualdade da posse da terra é maior que a da propriedade. sendo a diferença relativa maior no Nordeste. Na zona semi-árida. a situação é agravada pela presença de latifúndios maiores: lá a área média de 1% dos maiores estabelecimentos (1. mantém estreitas articulações econômicas com outras regiões brasileiras. como já mencionado. tanto no Nordeste como no Brasil. Dos serviços que usa. da qual adquire 66% das matérias-primas e 58% dos serviços que consome. no sentido de elevar a desigualdade da distribuição.

1992). segundo pesquisa da Sudene-BNB. 1993). que compra 44% da produção da indústria incentivada (71% dos quais adquiridos por São Paulo). Não é por acaso que o Projeto Grande Carajás incluiu. A predominância da produção de bens intermediários está na base dessa vocação para fora da nova indústria: os insumos que produz são transformados. que destina ao mercado nordestino apenas 20% de sua produção. Do exterior vêm apenas 10% dos insumos que aqui são transformados pela indústria (Sudene-BNB. planejado para produzir anualmente 3 milhões de toneladas de alumina e 500 mil de alumínio. borracha (88%). A sub-região nordestina que vai do oeste baiano ao sul do Piauí e Maranhão tem experimentado um processo de ocupação comandado por agentes econômicos extra- 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). na região de São Luís do Maranhão). a relação é predominantemente extra-regional. Estima-se que apenas o oeste baiano. 1992). couros e peles (87%). Portanto. 1992). há novos fluxos comerciais (de mercadorias e serviços) que se intensificaram nas últimas décadas e que articulam a indústria incentivada instalada no Nordeste com outros segmentos da economia brasileira e com o exterior. os equipamentos utilizados na montagem desse novo parque industrial foram importados do Sudeste (49%). e agora do sul do Maranhão e do Piauí. material elétrico-eletrônico e de comunicações (79%) e química (61%). a prioridade à exportação é marca dos empreendimentos localmente instalados.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Paulo). destina-se em grande parte a atender à demanda externa. São Paulo. Tal característica é ainda mais forte no segmento extrativo mineral. de cuja produção atual exporta cerca de 95% (Lima & Katz. por exemplo. O destino principal é o Sudeste. até 1995. em particular com o mercado internacional. onde se localiza a maior base industrial do país (o Sudeste). O mercado internacional participa com apenas 10% das vendas totais desse segmento da economia nordestina. que comprou 53% da produção mineral da indústria instalada com os incentivos federais nas últimas décadas. com destaque para a região Sudeste e. No que se refere ao mercado de produtos. e do exterior (33%). produzia 1.7 milhão de t / ano. em grande parte. no Maranhão. 1992. a construção de um porto (Ponta da Madeira. mais uma vez exportando o excedente predominantemente para a região Sudeste do Brasil. Apenas 10% dos equipamentos foram adquiridos das indústrias instaladas no próprio Nordeste (Sudene-BNB. O mercado extra-regional também tendeu a ser o destino da produção de alguns segmentos da indústria de transformação. Das vendas realizadas pela indústria incentivada. especialmente de São Paulo (80%). dentro dela.19 - . pouco mais de um terço se destina à própria região Nordeste (36%). No complexo minero-metalúrgico do Maranhão. Articulações dos modernos pólos agroindustriais Os novos pólos agrícolas também têm estabelecido importantes relações econômicas extra-regionais. As produções maranhense e piauiense orientam-se basicamente para o exterior. Outro exemplo dessa articulação especial com o exterior é o projeto da Alumar. . A soja do oeste baiano. Por outro lado. caso de fumo (99%). além da implantação da estratégica ferrovia de quase 900 km de extensão. 04 a 10 de novembro de 2007. devendo destinar um milhão de toneladas de derivados ao mercado internacional (Queiroz.

desenvolve importantes articulações econômicas extra-regionais. 97% transportados por vias internas e apenas 3% por cabotagem. o estado do Maranhão intensificou fortemente seus laços econômicos com o mercado externo. apresentaram maior volume na venda de manufaturados (64. Para avaliar os fluxos comerciais inter-regionais. No mesmo período. as relações comerciais do Nordeste com o resto do mundo se dão cada vez menos pela venda dos chamados produtos básicos e mais por oferta de produtos semimanufaturados e manufaturados. as informações são insuficientes. para US$ 443 milhões em 1990.1 bilhões entre 1975 e 1990.3% e 47.9% para 44.5%). Mudanças nas articulações comerciais O exame da dinâmica comercial da região. e as pesquisas disponíveis não são atualizadas. para 1980. Suas ligações econômicas e semelhanças geo-socio-econômicas com asdemais sub-regiões do Nordeste são muito tênues.20 - . Da mesma forma. as exportações de todas as regiões brasileiras tiveram crescimento significativo. 1996).7 milhões em 1975. mostra que o Nordeste tentou acompanhar a tendência mais geral da economia brasileira nos recentes anos de crise. dentre as demais regiões. na pauta do Nordeste o peso relativo desses itens cresceu de 12. As exceções corresponderam aos estados de Alagoas e de Pernambuco. Apenas o Sudeste e o Sul.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG regionais e recebido capitais e capitalistas predominantemente não-nordestinos. No mesmo período. passando de um modesto valor exportado de US$ 5.6 bilhões para US$ 31. os estados do Piauí e de Sergipe quintuplicaram suas vendas ao mercado internacional. sua vinculação futura com o Centro-Oeste poderá ser ampliada. segundo dados do BB/Cacex. e os da Bahia e do Ceará triplicaram-nas. em particular no que se refere ao destino de sua produção. por exemplo. o Nordeste duplicou seu valor exportado. especialmente a associada à irrigação. . implantando processos econômicos e construindo uma paisagem que se assemelha muito mais à macrorregião Centro-Oeste do Brasil. No caso do Nordeste a Sudene estimou.9%. particularmente as relações estabelecidas com o mercado internacional. instabilidade e retração da demanda interna: ampliar suas articulações com o exterior. Até os estrangulamentos à continuidade de seu desenvolvimento são mais parecidos com os de Tocantins ou Mato Grosso do que com os do lado oriental nordestino: infra-estrutura de transporte. O Brasil mais que quadruplicou o valor anual de suas exportações. um terço se destinou ao mercado internacional e dois terços a outras regiões brasileiras.4%.7%) da participação nas vendas externas entre 1975 e 1990. instalada tanto no vale do São Francisco (BA e PE) quanto no vale do Açu (RN).1%) tenham tido. a produção agroindustrial. Dentro da região. O comércio por vias internas (especialmente rodovias) é predominante no Brasil. em 1990. maior peso relativo que o mesmo item na pauta brasileira (16. e portanto visualizar melhor as tendências desse tipo de relação econômica entre o Nordeste e os demais espaços do país. respectivamente). o crescimento das relações com o exterior via venda de manufaturados no caso do Nordeste é notável: enquanto no total das exportações do Brasil os manufaturados passavam de um terço para pouco mais da metade (54. que exportaram em 1990 valor menor do que o de 1975 (Sudene. passando de US$ 7. 04 a 10 de novembro de 2007. Das 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Aliás. Mais uma vez seguindo a tendência geral da economia brasileira. Desse total. Embora na pauta nordestina os produtos semimanufaturados (30. dependendo da forma como consolidar-se-á a malha de transportes. que das exportações totais do Nordeste.

Paraíba. apenas 18% vieram do exterior e. 1967). Sua participação nas exportações interregionais caiu de 30. o mais provável é que a articulação comercial dessa parte mais ocidental do Nordeste com o Centro-Oeste e com o Sudeste tenha se ampliado. cearenses. por sua vez. era a forte emigração de capital produtivo em direção ao Centro-Sul. invertendo-o.5 vezes (Sudene. 1985).2 vezes as vendas do Nordeste para o resto do país. 1985). Integração via movimento do capital produtivo O movimento do capital produtivo. pois nos anos 50 as compras efetuadas de outras regiões representavam 1. No período 1975-1980 tal relação havia aumentado para 2.3% para 8. analisou corretamente que um dos problemas nordestinos. essa forte tendência surgiu mais recentemente. Como as áreas dinâmicas recentemente instaladas repercutiram com maior intensidade nos espaços maranhenses. As importações de outras regiões (especialmente do Sudeste) eram quase cinco vezes maiores que o valor importado do exterior em 1980. pouco menos de 40% do PIB regional.21 - . cuja economia representava. também atingiu o Nordeste ao se intensificar no espaço do Brasil ao longo das últimas décadas.5% em 1975 para 9% em 1980. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). na época. A partir dos anos 60. piauienses. nos anos 40 e 50. a menor articulação comercial com o resto do país. Os dados da Sudene para 1980 já revelavam uma economia baiana fortemente orientada para o mercado nacional: quase 70% das vendas do Nordeste para outras regiões brasileiras tinham origem na Bahia. surgida como tendência na década anterior. baianos e sergipanos. como vinha acontecendo nos anos 70.4% no mesmo período (embora sua economia fosse 20% do total nordestino). não parece ter sido revertida nos anos 80 à luz dos dados disponíveis sobre a composição e dinamismo de suas atividades econômicas. Todavia. que perdera seu papel de intermediário atacadista. dos 82% originados em outras regiões do país. o Nordeste surge predominantemente como região-mercado (sobretudo para o Sudeste) quando visto no contexto nacional. . Pernambuco e Alagoas. Portanto. o estado do Ceará demonstrava tendência semelhante. posto que na década anterior o estado da Bahia representava apenas 25% nas exportações inter-regionais do país (Sudene. a rápida intensificação do movimento de oligopolização da economia brasileira e o papel de correia de repasse desempenhado pelos incentivos federais aplicados no Nordeste – como menciona Oliveira (1981) – atuaram no sentido de alterar a orientação desse fluxo econômico. Embora com percentuais bem mais modestos. à medida que o dinamismo industrial daquela região abria oportunidades para rentáveis investimentos (GTDN.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG importações totais. 85% chegavam por vias internas (Sudene. O relatório que precedeu à criação da Sudene. Os saldos comerciais do Nordeste têm-se mostrado historicamente positivos nas relações com o exterior e altamente negativos nas trocas inter-regionais. E isso é tendência crescente. enquanto as exportações para o resto do país não chegavam a representar duas vezes o valor das mercadorias mandadas para o mercado internacional. O inverso acontecia com Pernambuco. ano em que se classificou como o segundo exportador regional para o mercado nacional. 1985). 04 a 10 de novembro de 2007. No que se refere ao subespaço compreendido pelos estados do Rio Grande do Norte. pois sua participação nas vendas nordestinas para o resto do Brasil passava de 3.

Do ponto de vista setorial. Dentre as que atuam no sentido de induzir à desconcentração espacial destacam-se: a abertura 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). também de forma intensa e rápida. em especial a indústria química. a maioria das empresas incentivadas fazia parte de grandes grupos econômicos. o ambiente econômico brasileiro sofreu grandes mudanças nos anos 90. Portanto. o entendimento das suas atuais tendências remete necessariamente à compreensão do que se passa no país como um todo. tem destaque na atração de tal tipo de empresas: "das 105 grandes empresas sediadas na região. reformas profundas na ação do Estado e implementação de um programa de estabilização que já dura três anos. 1992). Paralelamente. Nesse contexto. em sua maioria extraregionais. Bahia (46%). como acontecera em diversas regiões do país. a indústria de transformação produtora de bens intermediários. a articulação inter-regional via fluxo de capital produtivo ampliou. uma reestruturação produtiva. no entanto. nas últimas décadas. 04 a 10 de novembro de 2007. 23 são indústrias químicas" (Guimarães Neto. Aspecto relevante a ser destacado diz respeito ao controle do capital no moderno segmento industrial instalado no Nordeste com o apoio dos incentivos federais. Paralelamente. priorização à integração competitiva. a oligopolização se firmado e grandes cadeias de magazines e supermercados se fizeram presentes no Nordeste. . 1992) demonstram que a recente expansão industrial não é produto da ação de investidores locais. 1993). em 1990. Na construção civil (impulsionada pelo Sistema Financeiro de Habitação – SFH e por programas de obras públicas importantes) e nos complexos agroindustriais (ligados especialmente à produção de grãos. como também ocorre em outras regiões. enquanto os empresários nordestinos concentram seu controle sobre empreendimentos de menor porte. Dados referentes às mil maiores empresas no país demonstram que. Pernambuco (18%) e Ceará (11%) concentravam a maior parte (75%) dessas empresas. Dentre as principais destacam-se intensa e rápida política de abertura comercial. umas concentradoras. Cabe destacar. Tendências nacionais atuais e o Nordeste Como a economia do Nordeste havia aprofundado sua inserção no contexto nacional. Num contexto mundial marcado por importantes transformações. frutas e pecuária) sua recente presença é marcante.22 - . tanto espacialmente quanto nas atividades econômicas para as quais se dirigira. Além disso. outras não. também na atividade comercial o capital tem se centralizado. que a presença do grande capital na região já era muito seletiva. Dados disponíveis em pesquisa (Sudene-BNB. não se restringe ao setor industrial. as relações do Nordeste com outras regiões do país e com o exterior. a pesquisa constatou que tais grupos dirigem e controlam os empreendimentos de maior porte da indústria incentivada. Outros segmentos que merecem referência são as indústrias de alimentos e as dedicadas à produção têxtil. É grande o controle do capital por grupos privados ou por sistemas de empresas estatais com sede no Sul e no Sudeste (Guimarães Neto & Galindo.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG A crescente presença de grandes grupos empresariais no Nordeste. cerca de 35 são empresas industriais produtoras de bens intermediários e dessas. Ao contrário. novas forças atuam. o setor privado promove.

da resposta dos Estados nacionais para enfrentar os impactos regionais seletivos da globalização. Alguns estudiosos chegam a mencionar a reconcentração para o caso da atividade industrial (Campolina Diniz & Crocco. tanto por suas políticas explicitamente regionais e de corte setorial/nacional (mas com impactos regionais diferenciados) quanto pela ação de suas estatais. . se interrompeu a desconcentração e. entre outras. por outro. a importância da proximidade do cliente final para diversas atividades. No caso da indústria. como ocorreu no Nordeste. como melhor oferta de recursos humanos qualificados. Tais autores constatam que. 1994). constatam que nos anos 90 as regiões Sudeste e Sul deixam de perder posição relativa na produção industrial nacional e 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). maior proximidade com centros de produção de conhecimento e tecnologia. a região Sudeste não só deixa de perder posição relativa da produção nacional – trajetória que percorrera nas duas últimas décadas – como volta a ganhar importância na economia brasileira (passando de 60% a 63% seu peso no PIB do Brasil).Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG comercial podendo favorecer focos exportadores. os novos requisitos locacionais da acumulação flexível. 04 a 10 de novembro de 2007. com base em dados da Fundação Getúlio Vargas. os estudos realizados têm convergido para sinalizar. no mínimo. as decisões dominantes tendem a ser as do mercado. para a interrupção do movimento de desconcentração do desenvolvimento na direção das regiões menos desenvolvidas. No presente. Autores como Carlos Pacheco (1996) chamam a atenção também para os condicionantes da reestruturação produtiva. ao contrário do que se poderia esperar. A nova organização dos espaços nacionais tende a resultar por um lado. quando a prioridade era dada à montagem de uma base econômica que operava essencialmente no espaço nacional – embora fortemente penetrada por agentes econômicos transnacionais – e lentamente desconcentrava atividades para espaços periféricos do país. Estimativas do PIB industrial por macrorregião. as duas maiores bases econômicas do país. no mínimo. Nos anos 90 tende-se a romper o padrão dominante no Brasil das últimas décadas. em especial. em particular para a forma como vem se dando a inserção internacional do Brasil. Embora as tendências ainda sejam recentes. a ação ativa de governos locais oferecendo incentivos. da dinâmica da produção regionalizada das grandes empresas (atores globais) e. Mesmo sem ir tão longe. maior e mais eficiente dotação de infra-estrutura econômica. estudo recente da Confederação Nacional da Industria. Enquanto isso. elaboradas pelo IPEA. o mesmo acontecendo com os estados de São Paulo e do Rio de Janeiro. proximidade com os mercados consumidores de mais alta renda. 1996). confirma a hipótese de que. Atuam nesse sentido. O Nordeste volta a perder posição (CNI. as mudanças tecnológicas que reduzem custos de investimento. dadas a crise do Estado e as novas orientações governamentais e empresariais. O Estado nacional desempenhava. um papel ativo no processo. 1996). "a globalização reforça as estratégias de especialização regional" (Oman. o que é confirmado por recentes estimativas da Sudene (1996).23 - . especialmente no que diz respeito às estratégias das grandes empresas frente ao cenário da globalização da economia mundial. estudos e dados recentes permitem pressupor a tendência à concentração do dinamismo em determinados espaços do território brasileiro. o crescente papel da logística nas decisões de localização dos estabelecimentos. entre 1990 e 1995. há forças atuando no sentido da concentração de investimentos nas áreas mais dinâmicas e competitivas do país.

dos quais 80% estão no Sudeste-Sul. apesar do dinamismo de segmentos com tendências exportadoras. O Nordeste.1% em 1995. Tendência oposta é verificada no Nordeste. atraídas pela superoferta de mão-de-obra e baixos salários. Piauí e Maranhão). por exemplo). O Nordeste abriga cerca de 15% desses centros dinâmicos. vai a Uberlândia (MG). para competir com concorrentes externos (principalmente com os países asiáticos). para 24. segundo a mesma fonte. É evidente também que algumas empresas de gêneros industriais mais mão-de-obra intensivos têm buscado se relocalizar no interior do Nordeste. cai para 9. de Campolina Diniz. Por sua vez. Constatou que a grande maioria deles se encontra num polígono que começa em Belo Horizonte. Dados disponíveis demonstram que 82% (em 1995) das exportações do Brasil se originam nas regiões Sul-Sudeste. as exportações nordestinas para o Mercosul cresceram 84% e as importações 64%. por sua vez.6 bilhões em 1990.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG voltam a ampliar sua presença em tal atividade no contexto do país. em particular). localizou os atuais centros urbanos dinâmicos do país em termos de crescimento industrial. que respondia por 17% das exportações brasileiras em 1975. . US$ 3. No mesmo período. É certo que as conseqüências espaciais de políticas importantes como a de abertura comercial e a de integração competitiva comandada pelo mercado. O valor das trocas do Brasil com o Mercosul cresceram de US$ 1. aliadas a aspectos relevantes da política de estabilização (câmbio valorizado. Uma reflexão particular merece o Mercosul. cabe analisar as tendências das exportações brasileiras. desce na direção de Maringá (PR) até Porto Alegre (RS) e retorna a Belo Horizonte via Florianópolis (SC). da ufmg.7 bilhões em 1993 para alcançar US$ 13. Curitiba (PR). US$ 8. Esse percentual era de 68% em 1975 e passara para 81. Tendências e preferências que beneficiam as regiões mais ricas e industrializadas do país (Sudeste e Sul). reduz seu peso na indústria nacional de 12% em 1990. No momento em que a política governamental opta por promover rápida e intensa abertura comercial. já mencionados. química (NE-Oriental). O comércio brasileiro com os demais países do bloco aumentou intensamente nos últimos anos. Também identificando forte tendência à concentração espacial do dinamismo industrial.5% em 1990 (Campolina Diniz. Haddad (1996) tem chamado a atenção para o reforço dado pelo Mercosul a essa tendência de arrastar o crescimento industrial para o espaço que fica abaixo de Belo Horizonte.24 - . incremento de 50% apenas entre 1993 e 1995. o mesmo acontecendo com o estado de São Paulo. Tais fatos. fruticultura (vales do São Francisco e do Açu) e a soja (Bahia. porém. para 8% em 1994.5% em 1995. não alteram significativamente as tendências e as preferências locacionais identificadas pelos estudos. mas em valores muito pequenos: US$ 420 milhões 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). alumínio (MA). 1994). da perspectiva regional. como a indústria de papel e celulose (BA). além da possibilidade de flexibilizar as relações de trabalho (adotando subcontratação. e São José dos Campos (SP).7 bilhões em 1985. O maior dinamismo no período pós-abertura acelerada verifica-se na base exportadora da região Sul. que amplia sua presença no total vendido pelo país ao exterior de 21.1 bilhões em 1995. onde historicamente se concentrara a indústria brasileira. juros elevados e prazos curtos de financiamento) têm impactado negativamente vários segmentos da indústria instalada no Brasil e afetado especialmente o Sudeste (São Paulo. 04 a 10 de novembro de 2007.6% em 1990 e para 9. trabalho elaborado pelo economista Campolina Diniz (1994).5% em 1990.

Na análise da distribuição regional dos investimentos segundo os segmentos produtivos mais importantes. papel e celulose. percebe-se o fortalecimento de especializações em outros estados que. pois importante parcela dos segmentos produtivos que definem a dinâmica da economia nacional tende. tornando-as extremamente heterogêneas na medida que não se difundem. por razões muito específicas (Zona Franca de Manaus).2% em São Paulo). embora fora da região industrial tradicional. no Sul. . Tal dinamismo geral está encobrindo diferenciações. E isso sem mencionar a provável instalação de uma montadora de veículos naquele estado.6%. Comércio e Turismo antes referidos revelam que dos US$ 73. com base nos dados do Ministério da Indústria. 9. possibilita à industria de minerais não-metálicos. os segmentos mais leves da indústria. Em relatório recentemente elaborado para o Ipea. simultaneamente.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG de exportações e US$ 478 milhões de importações. de menor custo de mão-de-obra. seguramente. Guimarães Neto destaca que há. No que se refere às tendências do investimento no país. Os dados mostram claramente uma divisão de trabalho entre as regiões brasileiras. No caso nordestino. Comércio e Turismo. • em termos de investimentos. notadamente o levantamento do Ministério da Indústria. produtos alimentares e bebidas. os dados do Ministério da Indústria. Em termos macrorregionais. sem dúvida. procuram as regiões de menor nível de desenvolvimento e. uma divisão espacial de trabalho que induz os investimentos dos grupos metal-mecânico.4%. deve-se favorecer investimentos cruzados e associações de empresas instaladas no Sudeste e no Sul com os demais países do bloco. Enquanto isso. automobilístico e químico – segmentos básicos da chamada indústria pesada – para o Sudeste e. no Nordeste. O exame de parte relevante dessas informações permite destacar o caráter espacialmente seletivo dos investimentos industriais que privilegiam alguns espaços específicos nas regiões. além da indústria eletro-eletrônica e material de comunicações. Comércio e Turismo sobre as intenções de investimentos industriais da iniciativa privada. além de indicadores da ação de alguns bancos oficiais relativos ao financiamento dos investimentos. Assim. 04 a 10 de novembro de 2007. e setores têxtil. da consolidação dos segmentos básicos e estratégicos no Sudeste. o movimento de integração produtiva que buscava o Nordeste e o Norte nas décadas anteriores. calçados. Vale lembrar que o PIB do Mercosul (sem o Chile e sem o Brasil) é mais que o dobro do PIB do Nordeste e do Norte brasileiros juntos. de menor densidade de capital.3% deverão se concentrar no Sudeste (sendo 28. Guimarães Neto (1996) examina algumas informações. tende agora a se redirecionar para o Mercosul. o avanço. mais uma vez. as informações disponíveis não permitem mais que esboçar algumas possibilidades referentes à futura distribuição espacial da atividade econômica no contexto brasileiro. através 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE).25 - . A tendência parece ser. mais de metade dos investimentos previstos destinam-se a um único estado: a Bahia. para as demais regiões. conseguiram. uma vez que é razoável supor: • deve-se promover uma articulação comercial mais intensa dos outros países do Mercosul com o Sul-Sudeste brasileiro. no futuro imediato.4 bilhões dos investimentos – que podem ser regionalizados até o ano 2000 e cujos investidores potenciais podem ser identificados – cerca de 64. a se concentrar nas regiões onde teve início e se consolidou a indústria moderna brasileira. De outro lado. 17. geralmente de padrão de localização mais desconcentrado.

não resta dúvida de que. muitas vezes em contextos nos quais prevalecem.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG de fatores os mais diversos (recursos naturais. Deve-se ressaltar que a divisão do território brasileiro em macrorregiões. esconde mais que revela a realidade do país. . De fato. anunciados no período posterior ao Plano 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). o Nordeste perde posição relativa (caindo de 24% para 15% a sua participação entre 1991 e 1995). similar ou um pouco maior que sua participação na geração do produto interno do país (BNDES. a geografia industrial dos grandes projetos de investimentos privados. fortes incentivos regionais. Como bem destaca Haddad (1996). O Sudeste. mostra uma tendência ascendente entre 1991 e 1995. fica nítida uma grande seletividade espacial. as informações mais interessantes. Nordeste e Centro-Oeste brasileiros. marcam presença em alguns estados específicos e em certos pontos de seus territórios (os focos de competitividade). especialmente no que diz respeito às atividades industriais. embora registre menor percentual na participação dos recursos aprovados do que a sua participação na economia nacional. dotadas de boas condições de acessibilidade (importante em tempos de abertura comercial e globalização intensas). essa escolha seletiva está tendendo a privilegiar o estado da Bahia. crescimento gradativo dos valores investidos. com a particularidade de que a região registra. localizadas próximas a eixos de transportes e. No Nordeste. percentual bem maior do que a sua contribuição na geração do produto interno do país. Em síntese. subáreas tradicionais e estagnadas. Os dados do seu último relatório. o potencial locacional de áreas do Sul-Sudeste para atrair os novos investimentos é. cada vez mais. embora seu peso no total ainda continue. As atividades mais estratégicas – e que definem a dinâmica da economia nacional – estão se concentrando no Sudeste. ainda. dentre os novos elementos portadores de capacidade de atração de atividades e investimentos. a partir de 1991. No que se refere ao grande investimento industrial. no conjunto do panorama nacional. O mesmo ocorre no Sul. que se torna bem mais patente quando são considerados os valores absolutos dos recursos aprovados. Em meio a essa tendência ascendente do total das aprovações. que indicam a distribuição regional dos recursos aprovados. vêm sendo freqüentemente apontadas a existência de mão-de-obra qualificada e a presença de competentes centros de ensino e pesquisa científica e tecnológica. pela importância relativa dos recursos envolvidos.7 bilhões em 1995. referem-se aos aprovados pelo BNDES para investimentos nos próximos anos. Tornam-se particularmente atraentes nesse novo contexto cidades médias daquelas regiões. para US$ 9. de menor densidade de capital. Outro ponto importante a se observar atualmente é a tendência de localização de investimentos em infra-estrutura econômica e nos desenvolvimentos científico e tecnológico. demonstram estar havendo. notadamente quando é orientado para as demais regiões que não o Sudeste. Tal tendência não parece estar sendo compensada pelo financiamento dos bancos oficiais. as aprovações passam de US$ 3.8 bilhões em 1991. bem maior que o encontrado no Norte. em todo período. os demais segmentos da indústria. 1996). 04 a 10 de novembro de 2007.26 - . em quantidade e qualidade. Isso porque. portanto. Ainda segundo Haddad. na maior parte dos anos. condições de infra-estrutura) atrair segmentos específicos que definem subáreas dinâmicas e modernas. Relativamente à atuação dos bancos oficiais. os indicadores sobre os investimentos privados em curso indicam grande seletividade na escolha dos espaços nos quais se darão os investimentos no país.

Por sua vez. Os projetos prioritários de infra-estrutura econômica. ou seja. na fronteira Noroeste. o governo busca ampliar a competitividade de espaços já competitivos. estratégicos para a futura organização territorial do Brasil. com recursos que totalizam R$ 54. Para o que interessa nesse trabalho. enquanto com os investimentos autônomos se antecipam a ele. os espaços mais atraentes tendem a estar situados em áreas concentradas no Sul-Sudeste. consistente com a opção brasileira de promover a integração competitiva. do ponto de vista das tendências de mercado. agroindustriais. • Concentram os investimentos no Sul-Sudeste. fica fora dessa análise o Programa de Desenvolvimento das Telecomunicações (Paste). também sem localização definida no documento oficial. agropecuários ou industriais). Na opção atual. Na opção do Brasil em Ação. em especial ao Mercosul e ao restante da América do Sul. capazes de influir na organização territorial do Brasil em tempos de globalização. o Estado segue o mercado. portanto. é o destinado a geração e difusão de conhecimentos científicos e tecnológicos e a formação 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). com impacto no Nordeste). justamente nas áreas dinâmicas apontadas por Campolina Diniz. Outro investimento igualmente estratégico. e em pontos dinâmicos do Nordeste e do Norte. de grande importância para a modelagem territorial do Brasil. restritos a uma ou outra região do país (a exemplo da conclusão de Xingó. pelos quais o Estado patrocina infra-estruturas que potencializam dinamismo econômico futuro. apenas 3% do total.7 bilhões. no qual o governo federal define os 42 projetos prioritários de investimentos para o biênio 1997-98. 04 a 10 de novembro de 2007. do ponto de vista dos restritos investimentos patrocinados pelo governo federal era de se esperar ação efetiva no sentido de evitar a ampliação de disparidades já gritantes no Brasil e assegurar a compatibilidade entre inserção na globalização e integração dos diversos espaços do país. Os espaços mais dinâmicos atraem projetos federais de infra-estrutura (que ampliam sua acessibilidade) com investimentos da ordem de R$ 5.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Real. Essa é uma das orientações centrais do Programa Brasil em Ação. Mas os dados parecem sinalizar para tendência a fortalecer (ao invés de contrabalançar) a concentração de novas atividades e de novos investimentos em certos focos competitivos. face aos novos paradigmas tecnológico e produtivo e às novas condições de concorrência num mercado mundial em globalização. deixando em segundo plano as áreas menos dinâmicas. Essa orientação estratégica secundariza a integração interna. revelam algumas características importantes : • Têm uma opção prioritária clara pela integração dos espaços dinâmicos do Brasil ao mercado externo. .4 bilhões. ou os tradicionais investimentos autônomos. seguindo os espaços que vêm concentrando maior dinamismo nos anos recentes. • Priorizam dotar de acessibilidade os focos dinâmicos do Brasil (agrícolas. por não ter sido apresentado com o detalhe da localização regional de seus investimentos (orçados em R$ 16 bilhões para o biênio) e o Programa de Recuperação de Rodovias. tomem-se os projetos de infra-estrutura que têm capacidade de definir articulações econômicas inter-regionais ou internacionais e. revelam evidências inequívocas de que tais projetos (especialmente os de montadoras de veículos) tendem a se concentrar no Sudeste-Sul (de Belo Horizonte para baixo). Os demais são projetos importantes. Se.27 - . destacando-se obras prioritárias de infra-estrutura. enquanto os demais ficam com apenas R$ 195 milhões para o biênio 1997-98. mas de impacto localizado.

muitas delas abrigam significativo contingente de pessoas (como o grande espaço semi-árido não passível de abrigar focos de agricultura irrigada. A distribuição espacial dos produtos e processos tecnológicos desenvolvidos revela. no Brasil. 17% dos governos estaduais e 8% das estatais). com sua presença.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG de recursos humanos qualificados. contra apenas 9% no Nordeste. 82% do gasto total em C&T ainda cabem ao setor público (sendo 57% de responsabilidade do governo federal. Um interessante indicador de concentração é o que revela que em apenas cinco estados (São Paulo. No Nordeste. a distribuição das patentes outorgadas para produtos gerados por grupos de pesquisa no Brasil mostra que.7% do PIB) quando comparado aos países do G7 e a alguns tigres. dados relativos a 1994 revelam que. Por sua vez. das 158 instituições de pesquisa cadastradas pelo CNPq. 04 a 10 de novembro de 2007. ou seja. Por sua vez.28 - . mais uma vez. e não se concentrar onde o ente privado já prefere se localizar. dos quais 1/3 só em Pernambuco). Locais bem dotados desses atributos são apontados como atrativos para investimentos. que despendem entre 2 e 3% de seus PIBs para promover os desenvolvimentos científico e tecnológico. Por outro lado. é histórica a concentração espacial dos centro produtores de conhecimento no país (IPEA/DPRU/CGPR. Rio de Janeiro. parece se confirmar a tendência a interromper a desconcentração espacial do 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Como se percebe. Cabe destacar que o dispêndio em C&T realizado no Brasil nos anos 90 continua muito baixo (0.7% do total nacional). Nota Técnica. constata-se uma distribuição espacial ainda mais concentrada no Sudeste considerando-se a distribuição dos grupos de pesquisa. a relativa ausência de investimentos privados. A região responde por 85. 1996). dados fornecidos pelo CNPq para 1994 (último disponível) revelam que a alocação regional dos investimentos em C&T confirma a União tender a fortalecer. em termos financeiros. metade delas localizadas em uma única região: o Sudeste. Considerando a produção desses grupos no biênio 1993-94. especialmente em São Paulo (40. Finalmente. forte concentração no Sudeste (com destaque para Rio de Janeiro e São Paulo). fortemente concentrados no Sudeste (69%). . à exceção de PE e DF. 81% eram de natureza pública. A preocupação que deriva de tais fatores refere-se ao destino das chamadas áreas não-competitivas. já no novo contexto de abertura. onde o dinamismo conduzido pela lógica do mercado já é mais intenso. Rio Grande do Sul. também nesse campo. no Brasil dos anos recentes. O papel esperado do Estado é o de contrabalançar. O Nordeste abriga 20% das instituições cadastradas (50% das quais em dois estados: Pernambuco e Bahia). Pernambuco e Paraíba) a participação no total dos Grupos de Pesquisa do país é maior que a participação desses estados no PIB do Brasil (IPEA/DPRU/CGPR. os mais fortes ao concentrar seus financiamentos nas bases científica e tecnológica instaladas no Sudeste brasileiro (62% do total. nenhuma outra unidade da Federação fora do Sudeste e Sul conseguiu tal intento. 95% da área total dessa subregião nordestina). Nota Técnica. O último levantamento efetuado pelo CNPq registrava sete mil grupos de pesquisa ativos no país no primeiro semestre de 1995.5% dos artigos publicados em periódicos nacionais e estrangeiros por pesquisadores do Brasil. Como ficou evidenciado pelas análises até aqui procedidas. predomínio da integração competitiva e estabilização. 1996). onde os novos fatores de competitividade já são abundantes.

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crescimento que ocorria nos anos 70 e 80, quando a análise é feita em escala
macrorregional. Essa interrupção vem sendo comandada pelo mercado e referendada
pelas políticas públicas federais de corte nacional/setorial. Em termos regionais,
sobrevivem instrumentos e políticas herdados do passado, com reduzida capacidade de
impactar as realidades regionais e contrapor-se às novas forças que tendem a se
consolidar.
A ausência de explícitas políticas regionais por parte do governo federal abriu espaço à
deflagração de uma guerra fiscal entre estados e municípios, que buscam contribuir para
consolidar alguns focos de dinamismo em suas áreas de atuação. A combinação desses
dois fatos, vai deixando grandes áreas do país à margem: são os ditos espaços nãocompetitivos.
Por sua vez, as tendências prováveis dos investimentos sugerem que, após a fase de
modesta desconcentração, poderá ocorrer no futuro imediato um processo de
concentração espacial do dinamismo econômico em algumas sub-regiões (focos
dinâmicos) do país.
A conclusão preocupante que emerge das observações e análises aqui apresentadas é a
de que, muito provavelmente, a inserção do Brasil na economia mundial globalizada tende
a ser muito diferenciada, segundo os diversos subespaços econômicos desse amplo e
heterogêneo país. Tal diferenciação tende a alimentar a ampliação de históricas e
profundas desigualdades. Certamente não se repetirão as formas pelas quais se
materializaram essas desigualdades ao longo do século XX, mas provavelmente se
observará aumento da heterogeneidade no interior das macrorregiões. Essa é uma forte
tendência pois o próprio estilo de crescimento da economia mundial é profundamente
assimétrico, como supõe Pacheco (1996), e aos atores globais interessam apenas os
espaços competitivos do Brasil. Espaços identificados a partir de seus interesses privados
e não dos interesses do Brasil.

Rumo à fragmentação?
Face ao exposto, parece evidente que as tendências recentes atuam no sentido de
aprofundar as diferenciações regionais herdadas do passado e, destacando os focos de
competitividade e de dinamismo do resto do país, fragmentar o Brasil para articulá-los à
economia global. A aguda crise do Estado e o tratamento não-prioritário concedido ao
objetivo da integração nacional, nos tempos atuais, sinalizam nessa direção.
Pelo que já é possível apreender, Furtado (1992) chegou a mencionar a construção
interrompida da nação brasileira. A inserção seletiva promovida pelas novas tendências
terão como contra-face da mesma moeda, o abandono das áreas de exclusão (ditas nãocompetitivas). Poderia estar sendo traçado, assim, o roteiro da fragmentação brasileira. E
pelo que já se observa no Nordeste, a região acompanhará a tendência geral, num espaço
em que a herança de desigualdade é muito grave.
No Brasil, a emergência de focos de um novo tipo de regionalismo, intitulado
paroquialismo mundializado por Vainer (1995), sinaliza nessa direção. São locais de
grande dinamismo recente, dotados dos novos fatores de competitividade que montam
sua articulação para fora do país e tendem a romper laços de solidariedade com o resto,
passando a praticar políticas explícitas de segregação contra emigrantes (nordestinos, na

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maioria dos casos), vindos de áreas não-competitivas. Buscam, assim, evitar manchar a
ilha de Primeiro Mundo que julgam constituir (Vainer, 1995).
O futuro parece apontar, especialmente quanto ao Nordeste, para o aprofundamento da
heterogeneidade herdada do passado recente. E tenderão a se ampliar as diferenciações
dentro das macrorregiões, cada uma delas podendo conter distintos tipos de sub-regiões,
como: sub-regiões de áreas dinâmicas, sub-regiões em processo de reestruturação, subregiões estagnadas ou sub-regiões e áreas de potencial pouco utilizado.
É importante considerar que o desenvolvimento regional recente, sobretudo na fase de
desconcentração da segunda metade dos anos 70 até a primeira dos anos 80, reforçou a
heterogeneidade de cada macrorregião, tornando mais nítidas e mesmo maior as
diferenças entre as sub-regiões de cada grande região. Também neste aspecto, o
Nordeste acompanhou e continua a acompanhar o Brasil.
A heterogeneidade crescente vai consolidando dinâmicas particulares no interior dos
diversos estados do Nordeste. Em Pernambuco e no Rio Grande do Norte, por exemplo, o
dinamismo das áreas de fruticultura (de Petrolina ou do vale do Açu) contrasta com a
passividade com que se assiste à crise das áreas do antigo complexo gado-algodão
(embora geograficamente as duas estejam próximas, nos dois estados). O dinamismo do
oeste baiano contrasta com a lentidão com que se buscam alternativas ao cacau, na parte
oriental-sul do estado. Com a ferrovia Norte-Sul e a hidrovia do São Francisco, e sem a
ferrovia Transnordestina (tal como está previsto no Brasil em Ação), a porção ocidental
dinâmica do Nordeste amplia suas chances de interação privilegiada com o Centro-Oeste
e Sudeste. E isola-se, crescentemente, o Nordeste oriental.
Rumamos, agora, para aprofundar as diferenciações pré-existentes, cada um olhando
para si próprio, cada subespaço buscando suas próprias definições e montando suas
articulações. Os atores globais também farão suas escolhas. Rumamos à fragmentação?

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04 a 10 de novembro de 2007. um fazendeiro ou um senhor de engenho próspero. 1Professor de História e Mestrando na UFRGS. Para ser integrante dela era preciso. desconsiderando as razões do tempo e da época. prerrogativa exclusiva do Exército). pois ser alguém de posses. major. caracterizado pelo enorme poder concentrado em mãos de um poderoso local. o coronel passou automaticamente a ser visto pelo povo comum como um homem poderoso de quem todos os demais eram dependentes. como resultado da deposição de dom Pedro I. cultural. uma espécie de velho barão feudal que.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Ascensão e Queda do Coronelismo Voltaire Schilling1 O coronelismo foi um sistema de poder político que vicejou na época da República Velha (1889-1930). Inspirada na instituição francesa. ocorrida em abril daquele ano. musical e literário que fez da sua figura um participante ativo do imaginário simbólico nacional. podendo então os proprietários e seus próximos adquirir os títulos de tenente. Ele não só marcou a vida política e eleitoral do Brasil de então como fez por contribuir para a formação de um clima muito próprio. Coronel. rústico e arcaico. forjada pelos acontecimentos de 1789. um grande proprietário. criada em 1831. Sinônimo de Poder Poder O governo da Regência (1831-1842) colocou então os postos militares à venda. capitão. As Origens Remotas do Coronelismo O coronelismo institucional surgiu com a formação da Guarda Nacional. Não só os homens de letras procuraram reproduzir em seus livros o que era viver sob o domínio de um coronel. insiste em manter-se vivo e atuante. feitos e as façanhas deles foram transmitidos. tenente-coronel e coronel da Guarda Nacional (não havia o posto de general. responsável pelo Projeto Cultural do Curso Universitário. a luz de velas. Assim é que com o tempo. Escreveu 8 livros (*) e mais de 40 polígrafos. geralmente. ele ainda sobrevive em certas comarcas e em certos estados do Nordeste brasileiro como o poderoso "mandão local". a "guarda burguesa" era uma milícia civil que representava o poder armado dos proprietários que passaram a patrulhar as ruas e estradas em substituição às forças tradicionais. fazendo com que quase todo mundo soubesse de uma "história" ou "causo do coronel". derrubadas pelos revolucionários.33 - . como os Barões do café. . um dono de latifúndio. que tivesse recursos para assumir os custos com o uniforme e as armas necessárias (200 mil réis de renda anual nas cidades A Guarda Nacional. pela história oral do avô para o seu coronéis neto. agrário. a maioria sobre História e História das Idéias Políticas. de antepassados dos lamparinas e de lâmpadas. o cidadão em armas e 100 mil réis no campo). 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Identificado com o Brasil do passado.

Um universo próprio. que lutou e integrou Valencia ao reino da Espanha no século XI. o poder político central ficou abalado. etc. deu-se a ascensão do chefe provincial ou local que adquiria expressão militar e jurídica própria. ou a zoológica "cria" (sou "cria" do coronel fulano). a fazenda e a estância. 04 a 10 de novembro de 2007. especialmente na região do Rio da Prata. Delmiro Gouvea. Praticamente ninguém ao redor dele era instruído. contra a posição centralista dos conservadores. Coronelismo. puxando os arreios da mula ou do jerico. Esta expressão de clara influência vinda da América serviu para definir a situação que um chefete municipal passou a usufruir dentro do sistema político da monarquia espanhola desde então (desaparecido com a implantação da Ditadura Franquista. o do caudilhismo ou do caciquismo. major. Na verdade. barco. dominado pelo latifúndio. entre 1936-1975). Quanto à geografia desse fenômeno político. ou na sela do cavalo.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Configurou-se no Brasil daqueles tempos uma clara distinção social onde os representantes dos dominantes eram identificados pelo ranço militar (coronel. personificação mais acabada do poder privado no Brasil. que o autorizava a recrutar homens e a arrecadar recursos para lutar na cruzada contra os homens do califa muçulmano.34 - . isolado do mundo. charrete. Caudilhismo e Caciquismo O coronelismo na história política nacional nada mais foi do que a expressão brasileira de um fenômeno tipicamente ibérico. A Geografia do Mandonismo Local O caciquismo é historicamente bem mais recente. sendo desde então considerado como o patriarca de todos os caudilhos que se seguiram. As comunicações eram raras e difíceis. os caudilhos eram comuns na América hispânica. Nasceu da Constituição liberal adotada na Espanha de 1837. por uma razão qualquer. o coronel. carro de boi. Foram célebres as façanhas de Cid. pode-se dizer que enquanto os coronéis imperavam pelo Brasil afora. ficando o México como o principal centro do poder dos caciques. enfraquecido. balsa. Toda a vez que na Península Ibérica. promoveu a emergência do cacique. sendo comum entre os considerados alfabetizados apenas 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Coronelismo. O Cenário do Coronelismo O cenário que envolvia e promovia o coronelismo era o do mundo rural brasileiro. O caudilhismo nasceu na Espanha medieval em luta contra os mouros.) enquanto que os dominados pelo coronel o eram pela visível identificação genérica de "gente". interiorano. que ao outorgar uma significativa parcela de poder aos municípios.. bem afastado das grandes cidades. Poucos ousando raridade desafiar-lhe a autoridade ou disputar-lhe o mando. o engenho. quando um rei dava a um chefe militar ou um aventureiro qualquer que o solicitava uma "carta de partida". o campeador. uma Os moradores eram-lhe inteiramente obedientes. mandava num pequeno país do qual ele era um imperador com poder de vida e morte sobre os seus (ainda que não reconhecido juridicamente). . a não ser que por perto outro coronel o desafiasse. feitas por canoa.

O personalista deve tudo ao seu carisma pessoal. Apesar de ampliarem os direitos de voto. portanto compreensível que o coronel exigisse daqueles que se qualificavam como votantes. c) Os agregados. tais como o coronel-comerciante. compadres. o suficiente para que se tornassem eleitores fiéis dos candidatos propostos pelo coronel. permitia ao coronel por meio de casamentos arranjados ampliarem seu domínio. que ele não se compunha apenas por proprietários de terras. de Alagoas). colocando gente do seu sangue e da sua confiança em todos os escalões do poder municipal e estadual. sendo simultaneamente o detentor do poder político. o compromisso da fidelidade. rapidamente verificaram que a universalização do sufrágio não redundou no enfraquecimento dos coronéis. geralmente desaparecendo com sua morte. quando não miséria dos moradores. havendo igualmente coronéis com outra posição social. A Estrutura do Coronelismo Os estudiosos dividiram o coronelismo em três tipos. o mais famoso líder do catolicismo popular e ídolo dos sertanejos).Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG saberem desenhar o nome no papel. 04 a 10 de novembro de 2007. b) A família. Por último. assegurando aos alfabetizados poderem tornarse eleitores. era o coronel quem exercia as mais variadas funções. Na ausência quase que absoluta do Estado. Logo era fundamental para a afirmação e continuidade do poder do coronel ele possuir significativas extensões de terra. o coronel-padre (como o padre Cícero no Ceará. Escassez e Solidão Materialmente o mundo dos coronéis era povoado pela escassez de tudo e pela pobreza quase que absoluta. a riqueza dos indivíduos era medida pela extensão da propriedade. a quem era preciso recorrer nas mais diversas situações. como prefere Maria Isaura Pereira de Queiroz. Num país de dimensões agrárias tão vastas. que ajudavam a estender o poder dele para fora da família núcleo (a gente do seu próprio sangue). e que dirigem os negócios políticos em comum acordo com outros coronéis sem que haja grandes desavenças entre eles. fazendo com que sua autoridade cobrisse todos os espaços daquela geografia da solidão que era o seu feudo.35 - . O tribal parece um patriarca de um clã. jurídico e legislativo do município que lhe cabia. o personalista e o colegiado. permitindo que sua autoridade se espalhasse para regiões bem mais distantes do que a do seu feudo. o tribal. aqueles que são mais estáveis. Estudos posteriores sobre o coronelismo mostraram. As bases do seu poder são: a) A terra. Ele era um pode – tudo. A imensa quantidade de parentes distantes. A Política do Coronelismo Os republicanos de 1889 ficaram surpreendidos pelo vigor do sistema coronelístico. que explica a enorme dependência que todos tinham dele. entretanto. cujo poder se espalha por vários municípios e deriva dele pertencer a uma família tradicionalmente poderosa. a ter certos atributos que são só dele e são impossíveis de transmitir por herança. . sendo. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). o coronel-industrial (o célebre Delmiro Gouveia. ou a parentela. afilhados e demais protegidos do coronel.

e mais toda uma série de trapaças outras que pertencem ao riquíssimo folclore político brasileiro. era os três poderes do Brasil inevitável que os considerassem como gente de segunda arcaico. o coronel ativava o cabo eleitoral. Mecanismos de Poder Para chegar ao povo votante. facilitava o controle sobre o eleitor. facilmente eles foram conduzidos pelos apaniguados dos mandões. roupas. o militar e o coronel. 04 a 10 de novembro de 2007. imperava na época da República Velha. em seu nome. O resultado das eleições quase sempre passava pelo crivo de um seu representante no conselho eleitoral. demonstrativo da impotência e das limitações da democracia brasileira. a expressão acabada do mandonismo dos coronéis. Ao O padre. portanto. comportarem-se nas eleições tais como bois mansos. classe. etc. a comportarem-se com docilidade. um século atrás. Este poderia ser um bem material (sapatos. fizeram o processo eleitoral republicano funcionar a favor deles. permitindo que alguém votasse em nome deles. em troca de favores. aumentando-lhe o constrangimento. alguém que. enfim.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Ao contrário. Para ampliar ainda mais o seu mando. convocava algum líder local próximo para que também arrebanhasse os votos para o seu candidato. assumia o papel de porta-voz das inclinações eleitorais do coronel. ela era. etc.36 - . consulta médica. Esta placidez obediente dos que tinham direito a votar fazia com que eles fossem integrantes do curral eleitoral. como os cidadãos votantes eram poucos (talvez os que soubessem ler e escrever. pelo conchavo e pelo cambalacho. matrícula em escola. colaborando para isso o fato do desaparecimento do poder unitário (representado pelo imperador). Observe-se que a não existência do voto secreto (adotado após a Revolução de 1930). o universo político do coronel movia-se pelo cochicho. Em outros acasos. verba para enterro. alguém prestativo do seu meio que. fazendo deles "defuntos cívicos" que levantavam da tumba para irem até as juntas eleitorais).) ou algum tipo de obséquio (atendimento médico. bolsa de estudos. em seguida. Fraudes e Folclore Os coronéis. por assim dizer. Dentre muitas. vigiava para que o resultado final satisfizesse os partidários do coronel. A fraude. podemos destacar o eleitor-peregrino (sujeito que votava diversas vezes) ou o eleitor-fantasma (não davam baixa dos mortos das listas eleitorais. dos municipais. tornaram-se comuns práticas ilícitas de manipulação eleitoral. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). O voto de cabresto foi decorrência disso. mal atingisse os 20% da população inteira). Se nas cidades ainda funcionavam os empolgantes comícios. chapéus. remédios.). especialmente no interior do País. em detrimento dos poderes regionais e. . O eleitor trocava o seu voto por um favor. incapaz de reagir ao despotismo do manda-chuva.

praticado nos antigos reinos medievais. A própria natureza do tipo de dominação que ele exercitava implicava na adoção de métodos coercitivos. espalhou-se pelo país inteiro. e assim sucessivamente até chegar-se ao vilão ou ao pároco da aldeia. estes dos barões. implementada em 1902. Porque. o sertão era tão bravo que "Deus mesmo. vivendo à sombra da sua autoridade. quando ele desejava impingir alguma coisa aos de baixo ou que se negavam a aceitar a sua guarda. Estes por sua volta se articulavam. quando não criminosos. na sua simplicidade. dá cá. quando vier. O presidente da república exigia que os governadores lhes enviassem bancadas concordes com a sua política. o mataréu brasileiro foi ensangüentado pela batalhas travadas por esses exércitos de jagunços. De certa forma aquilo que se convencionou chamar de política dos governadores. ameaçadores. . 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). atraídos pela aventura. social" 1956). ele contava com dois elementos básicos: o pistoleiro contratado para atuar a seu serviço. e no vertical.com os coronéis do seu estado.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Instrumentos de Coerção: o Pistoleiro e o Jagunço O coronelismo nunca foi um sistema pacífico. Em troca. 04 a 10 de novembro de 2007. Para o exercício efetivo disso. As linhas da violência dirigiam-se em dois sentidos.37 - . que venha armado!" O Apogeu do Coronelismo Ao legar ao seu sucessor um mecanismo político mais estável do que aquele que herdara o presidente Campos Salles fundou um sistema de troca de favores que. Naqueles tempos. ou um grupo de jagunços dedicados ao ofício das armas que lhe serviam como uma milícia privada. deputados acertados com os interesses políticos do governador. como assegurou o seu personagem Riobaldo. ele sustentava as propostas regionais dos governadores (inclusive com apoio militar se fosse preciso). envolvendo todos eles num sistema mútuo de fidelidades e compromissos. pelos favores e pela macheza do coronel que os comandava. fazendo com que também eles mandassem para a assembléia legislativa na capital do estado. no horizontal quando o coronel travava uma disputa qualquer com outro rival do seu mesmo porte. os monarcas se sustentavam com o apoio dos condes. O rebenque. partindo do executivo federal. instrumento de "paz Inúmera vez como mostrou Guimarães Rosa (Grande Sertões: veredas. geralmente um capanga da sua confiança. lembra. o toma lá.

. 04 a 10 de novembro de 2007. passando antes pelo palácio do governador. travada por João Pessoa. José Bezerra.38 - . ele mostrou-se hábil em sobreviver. Para a comissão. mas unicamente se ele estava disposto a cumprir com o acertado entre o governador do seu estado e o presidente da república. o presidente fez com que o Congresso por ele controlado instituísse a Comissão de Verificação de Poderes (diz-se por sugestão do senador gaúcho Pinheiro Machado). liderada por Getúlio Vargas. Isso é que explica porque o governador da Bahia. Mesmo quando ele foi sacudido pelas várias revoltas promovidas pelo Movimento Tenentista (em 1922. trouxe pelo menos certa estabilidade invejável à turbulenta e instável crônica política brasileira. Frase que é uma variação daquela outra atribuída a Pinheiro Machado. até chegar ao centro do poder no Palácio da Guanabara do Rio de Janeiro. funcionárias) ao dos potentados rurais. resumiu e antecipou o que iria ocorrer no Brasil a partir do sucesso da Revolução de 1930. Valorizando o sufrágio urbano. contra um poderoso coronel do sertão chamado José Pereira. dá cá Um enorme mecanismo de favores e contra favores principiando nas fraldas de qualquer município brasileiro estendia-se assim. ele contrapôs o poder das novas forças emergentes (operários. ser reconhecido é outra". não havia maior significado o parlamentar ter recebido ou não os sufrágios necessários. ter dito. opôs-se ao coronelismo A Crise do Coronelismo A Guerra da Princesa. desde que tomara posse em outubro de 1928. o que não vai ser é diplomado. "ser eleito é uma coisa. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). ao viciar completamente os resultados eleitorais. 1924 e O centralismo de Vargas 1926)." Um toma lá. formada por cinco parlamentares com a função de apurar se os deputados eleitos nos estados realmente estavam comprometidos em vir dar o seu apoio ao presidente. aumentando-lhe a presença eleitoral. Durante quase um trintênio esse sistema funcionou a contento. ao redor de 1920.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG A Comissão de Verificação A fim de garantir-se do cumprimento dessa política. Centralizador e autoritário. que assegurou a um oposicionista "eleito o senhor foi. durante os quinze anos seguintes Vargas praticou medidas para o irreversível esvaziamento do poder dos coronéis. foi fundamental para que o coronelismo se eclipsasse a emergência de um executivo federal forte e cada vez mais poderoso. governador da Paraíba. Portanto. Com a adoção dos interventores e dos intendentes. agentes do governo central enviados para administrar os estados e os municípios foram inevitáveis o encolhimento da autoridade local. O voto secreto e o voto feminino (inicialmente somente de funcionárias públicas) foram dois dos instrumentos utilizados para isso. Pecava-se contra a educação democrática do povo. o Zé Pereira.

o país conheceu entre 1969-1979 um impressionante desenvolvimento econômico. derrotados pelas urnas da democracia recém-reconquistada. num lance ousado e surpreendente. que derrubou o governo de João Goulart. marcado pela eleição indireta de Tancredo Neves à presidência da república em 1984. neutralizarem a força das massas urbanas que lhes eram hostis. ao mesmo tempo. no Ceará. características do Brasil pós-1945. A industrialização. Desta forma. e. trataram de aliar-se. Os generais de 1964. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). a imigração para as cidades. especialmente no Nordeste. ele de imediato rearticulou-se com a nova elite civil que substituiu os militares em Brasília. que culminou no afastamento dos generais do poder. em Pernambuco e na Bahia.. com os remanescentes do coronelismo. A Revivência do Coronelismo Com o Golpe Militar de 1964. Os militares que ascenderam ao comando do país naquela ocasião. 04 a 10 de novembro de 2007. Unindo uma proposta de modernização da economia com as esdrúxulas práticas que remontavam ao Brasil arcaico. simultâneo ao quase total fechamento político (o mais sufocante que o país conheceu desde os tempos do Estado Novo. ocorreu um estranho e contraditório fenômeno. ACM rompeu com os militares e aderiu à campanha das "diretas já". só fizeram por acelerar ainda mais o declínio do coronelismo. o crescimento demográfico. O cacique político local. Representando a versão mais atualizada do coronelismo. na Paraíba. ao contrário dos tenentes de 1930. porém. o ex-prefeito e governador Antônio Carlos Magalhães (que fizera sua carreira política aplicando todos os truques perversos do coronelismo ao tempo em que servia como sustentáculo civil local ao regime militar). . Talvez por ele ser um caso raro de coronelismo urbano (grande parte da sua fortuna e dos que a ele estão ligados está associada aos meios de comunicação e aos negócios industriais e Carlos imobiliários). isso não sucedeu. promoveram uma atualização do poder dos coronéis: o neocoronelismo. ajudaram e fortaleceram as velhas oligarquias. ele mostrou-se mais ágil em perceber o significado das mudanças que se operaram naquela época. Na Bahia. no Rio Grande do Norte. mudou de lado.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Situação que se reforçou ainda mais com a proclamação da ditadura do Estado Novo em novembro de 1937. entre 1937-1945) (.39 - . Em 1984. um por um os coronéis foram sendo afastados da política. O Carlismo Antônio Magalhães Com a fim do regime militar.). com o objetivo de implantar o seu Projeto do Brasil Grande (a ambição de tornar o país uma potência de médio porte). ao recorrerem aos casuísmos eleitorais..

Formação política do Brasil (Pioneira. 1967.História e paisagens do Brasil (Cultrix. Coronelismo e Literatura Como não poderia deixar de ser a literatura brasileira foi pródiga neste século em abrigar as façanhas e malvadezas dos coronéis. no futuro. Numa situação onde o autor assume a identidade do coronel para registrar-lhe as impressões.. 1979) 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Ele sempre teve consciência de que o seu prestígio local devia-se ao apoio escancarado que ele dava a quem estivesse no comando executivo da União. a influência dele junto aos seus conterrâneos. violento e rústico. Jorge Amado.Coronelismo e oligarquias (Civilização Brasileira. 1987) Eul-Soo Pang . 04 a 10 de novembro de 2007. os analistas prevêem que o rompimento dele com as fontes das verbas federais terminará por secar. o escritor brasileiro de maior expressão internacional. SP. SP. que garantiu por duas vezes a eleição do presidente Fernando Henrique Cardoso). Desta forma. O mundo rural. ACM foi ministro das comunicações no governo de José Sarney. Edgar . e no popularíssimo Gabriela cravo e canela). se bem que oportunista. e no já citado Grande Sertões: Veredas de Guimarães Rosa.SP. • • • • • Bibliografia Beiguelman. onde eles se moviam. em seguida à formação da Nova República. SP.) Bruno. verba para a recuperação do Pelourinho... de Aureliano Figueiredo Pinto. a montadora da Ford).Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG O Condestável da Nova República Esta posição..40 - . Paula . permitindo-lhe. Ernani Silva . encontra-se no Memórias do coronel Falcão.1959. Notáveis descrições do cenário em que eles viveram e lutaram encontram-se no Os Sertões de Euclides da Cunha. granjeou a ele enorme estima e respeito por parte considerável da população.) Carone. esta virada do carlismo em favor da redemocratização. se num primeiro momento trocou a sua Pelourinho. eminência parda no governo do presidente Fernando Collor de Mello e o principal avalista do pacto do PFL-PSDB. recuperado graças ao fidelidade por favores prestados ao Estado da Bahia (polo prestígio de ACM petroquímico de Camaçari. abordou o coronelismo em todas as suas facetas nos seus romances do chamado ciclo do cacau (São Jorge de Ilhéus.A República Velha: evolução política (Difel. José Ênio . 1971) Casalecchi. ou o do Coronel e o lobisomem de José Cândido de Carvalho). . Cacau.O partido republicano paulista : 1889-1926 (Brasiliense. RJ. quando não os próprios coronéis tornaram-se personagens centrais da obra (como no caso de São Bernardo de Graciliano Ramos. que fosse promovido às antecâmaras do poder como o condestável. 2 vols. mereceu copiosas descrições. e os "causos" em que eles foram participantes ativos viraram contos ou histórias dos romancistas e dos roteiristas das telenovelas brasileiras. o homemforte dos sucessivos presidentes que desde então se sucederam (nos 15 anos seguintes. 10 vols.

SP. Maria Isaura .O cativeiro da terra (LECH....41 - ..Coronelismo.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG • • • • • • • • Freyre. 1985. Rodolpho . RJ. José de Souza . Gilberto. 04 a 10 de novembro de 2007.) Queiróz. 1985. RJ. SP.Terras devolutas e latifúndio: efeitos da Lei de 1850 (Unicamp. 1981) Nosso Século: Brasil (Abril. SP. 1966) Silva. vols. 1996) Telarolli. SP. 7ª ed. 1976) Leal. . 1977) 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). a revolução traída (Civilização brasileira. Campinas.Poder local na República Velha (Nacional.1930. Lígia Osório . 1975) Martins.O mandonismo local na vida política brasileira (Alfa-Omega. enxada e voto (Alfa-Omega. Hélio . de 1900-1930) Silva..Sobrados e Mocambos (José Olympio. Victor Nunes .

prática cada vez mais freqüente. estas jamais compensaram as grandes transferências de capital e de recursos humanos do Nordeste para o Sudeste (Oliveira. segundo Thery (1995a). em seguida. Permite. região de migração em direção ao sul e à Amazônia (Garcia júnior. Brasília. 2003 3 O vaqueiro recebe como remuneração um bezerro em cada quatro que nascem. e que essa mão-de-obré constitui uma reserva utilizada ocasionalmente. Patrick Caron e Eric Sabourin/org. Garcia júnior. Com efeito ela regulariza a situação dos ocupantes. Como bem destaca Martine (1992).Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG I. O Nordeste. e nelas instalar-se com seus rebanhos. também. Em contrapartida. o sertão assume o papel de pulmão demográfico do Brasil. 1981. Mas a concentração das riquezas nas mãos de uma minoria e o caráter excêntrico da economia (importação de produtos de luxo graças aos recursos advindos das culturas de exportação) frearam o desenvolvimento da Região. Andrade. Instaura-se. a não ser por compra.2 milhões de pessoas. se bem que dois episódios tenham contribuído para diversificar a base econômica regional: o cultivo do algodão que permitiu uma ocupação mais densa da zona semi-árida. muito cedo conheceu a prosperidade. 04 a 10 de novembro de 2007. de fato. Entretanto. . porém. 2). dedicada às necessidades do mercado europeu. Em 1850. pois é capaz de absorver ou reter contingentes significativos de população. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). e. Essa é a origem da agricultura familiar no Nordeste semi-árido (Prado júnior. as transferências financeiras oriundas da União para o Nordeste foram constantes no decurso dos 2 últimos séculos. semi--árido2 Contexto e Diversidade das agriculturas Familiares no Nordeste semi A agricultura brasileira esteve. o Nordeste torna-se a região "rejeitada" do Brasil. A produção agrícola alimentar era limitada (Andrade. primeira região colonizada pelos portugueses. a integração econômica é limitada. A crise do mercado açucareiro no século 18 só fez reforçar essa situação. no início do século 19. 1986). o desenvolvimento das plantações de cacau no sul do Estado da Bahia". 1967). Porém. pelo assentamento de inúmeras famílias. A lei é votada sob a pressão de grandes proprietários cuja preocupação é limitar a ocupação ilegal de terras. a Lei da Terra torna impossível a obtenção de terras. graças a exportações de açúcar para a Europa. então. 1990). desde a colonização. a escolha é feita pelo proprietário. constituídos graças ao sistema de remuneração usado pelos grandes proprietários3. essa lei se traduz. Foi no litoral que se constituiu a primeira ilha do "arquipélago brasileiro" e onde o primeiro dos grandes ciclos econômicos do Brasil se desenvolveu (Thery. 1990) . Certamente outros mercados se abriram. Fig. voltada para o comércio. modificar muito essa situação. Porém. 2 IN: Camponeses do Sertão: Mutação das agriculturas familiares no Nordeste do Brasil. EMBRAPA Informação Tecnológica.42 - . Cuert-Muller (1994) mostra que entre 1970 e 1985 a população trabalhando no setor agrícola passou de 3. No século 20. aos vaqueiros dos fazendeiros comprarem terras. o mercado fundiário. 1995a. "nenhum dos ciclos posteriores veio. outras culturas contribuíram para um certo dinamismo econômico. 1960.0 a 4.

no ano seguinte. à Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste . Alguns evocam a indústria da fome para explicar os lucros que daí retiram. "Em 1936. 04 a 10 de novembro de 2007. foi delimitado um perímetro de 620 mil km2. 1995a).993 km2 (Thery. O montante da ajuda da União é diretamente proporcional à extensão das crises climáticas das secas (Molle. Fonte: Thery. definindo a área onde a ajuda do governo federal poderia ser concedida. 1991 b). Sua distribuição. ditada por relações do tipo paterna lista. quanto a seus dependentes.43 - . Empresas rurais: forma de organização reagindo essencialmente a uma lógica econômica. por meio de lima política de incentivos fiscais. procuraram promover a industrialização. remunerados por um proprietário frequentemente ausente. Em 1958. e modernizar o setor agrícola. O proprietário segue uma lógica territorial. controlada pela elite local. Expansão territorial: frentes pioneiras e ciclos econômicos. depois de um período extremamente seco. 2. foi criado um grupo de trabalho que daria origem.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Fig. A rentabilidade do investimento é o 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). 1995a. 4 5 Latifúndio: propriedade de grande porte. tornada produtiva por dependentes.Sudene -. em particular Celso Furtado. 1981). administração encarregada pelo governo federal do "planejamento regional global" (Oliveira. . desafio que explica suas ampliações sucessivas em 1946 e 1951: hoje essa área estende-se por 936. subexplorada. o Polígono das Secas. facilitando a transformação dos latifúndios4 e de pequenas um idades agrícolas camponesas em empresas rurais5. Os intelectuais que a dirigiam. reforça o poder indiscutível dessa elite.

Após o mito da modernidade. esse apego é real. após o golpe militar de 1964. Em contrapartida. e os recursos financeiros corriam em abundância. No decurso dos anos 60. o papel do setor agrícola em geral. então. o período dos projetos públicos e do crédito subsidiado: Polonordeste. tratou-se. importantes.44 - .). agricultura de subsistência. De modo clássico. ao mesmo tempo. caracteriza. construídas essencialmente pela mobilização gratuita da mão-deobra local (Amman. As migrações de agricultores do Sertão foram por muito tempo essencialmente sazonais (colheita do café. são questões dirigidas à pesquisa nacional. Os movimentos da população rural sempre foram. São Vicente. Projeto de Apoio ao Pequeno Produtor Rural (Papp). o objetivo principal. a de estradas asfaltadas foi decuplicada (Thery. a sociedade tomou conhecimento das dificuldades com as quais se depararam esses projetos. específica ao contexto brasileiro7.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Foi. o apego ao campo na região de origem continua relativo. no Sertão nordestino. em particular com a implantação de perímetros públicos de irrigação e. Ao final de alguns anos. considerada a possibilidade da reforma agrária. . geralmente. Foi a época do milagre econômico brasileiro. então. 6 7 Segundo a definição de Mendras (1976). Está associado à permanência de uma sociedade camponesa no sentido usado por Mendras (1976)6. alguns anos mais tarde. Em sua origem. tabaco ou cana-de-açúcar) ou temporárias. a extensão da rede rodoviária foi triplicada. de modo mais amplo. uma maioria significativa dos produtores das comunidades do sertão. surgiu. Sertanejo. O êxodo rural não se estanca. Nos anos 80. principalmente nas frentes pioneiras e nas regiões de êxodo. poços e açudes. agricultura camponesa. No Brasil. Inúmeras denominações são utilizadas quando se evoca a agricultura familiar: pequeno produtor. com o retorno à democracia. As relações de trabalho organizam-se em torno dos assalariados. e aquele da agricultura familiar em particular. a incapacidade de controlar a hipertrofia das metrópoles com a redução do êxodo rural e de travar os fenômenos de empobrecimento. e ainda são. logo se tornaria um verdadeiro tabu. A implantação de infra-estruturas marca os primórdios dessa política e mobiliza o essencial dos meios financeiros. 1985). As inquietações em relação ao modelo de desenvolvimento brasileiro. O temor suscitado pelos movimentos sociais de ligas camponesas junto às elites regionais do Nordeste muito contribuiu para o golpe militar de 1964. O conjunto da classe política e. 04 a 10 de novembro de 2007. armazéns. por discursos recorrentes sobre a escalada da violência. esses projetos visavam reforçar a emergência de pólos de desenvolvimento. ainda. O modelo de desenvolvimento imaginado é um compromisso que alia modernização e emprego rural por intermédio do apoio à agricultura comercial e da organização de comunidades rurais de pequenos produtores. 1995a). 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). do cofinanciamento de infra-estruturas comunitárias (escolas. etc. sobretudo. postos de saúde. os índices de desenvolvimento foram menos evidentes. excluindo as pequenas empresas familiares. minifúndio. o sentimento de crise traduz-se. resolver os problemas ligados à pobreza. em escala nacional. vem o tempo das dúvidas. entre outros. se a implantação das infra-estruturas foi satisfatória. O assunto. pode~se falar em agricultura camponesa onde subsiste uma sociedade camponesa marcada por relações de proximidade e de interconhecimento. Chapéu de Couro. O termo agricultura camponesa qualifica somente uma parte desse universo. por uma autonomia relativa quanto ao mercado e pela mediação de poderosos locais. porém. Apesar de sua conotação política ou ideológica desfavorável. Essas denominações não têm todas o mesmo sentido. A demanda de mão-de-obra no sul é grande. No sertão.

Eram de natureza feudal e colocavam as grandes famílias umas contra as outras ou contra as comunidades indígenas (Garcez & Sena. É em função desses elementos que parece pertinente definir agricultura familiar. às margens da zona semi-árida (ver mapa 1 em anexo). apresentando. na falta de melhores termos. o litígio só ioi resolvid. As vias naturais de acesso. pela demarcação dos respectivos perímetros: o da paróquia e o do municípic 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). aos grandes proprietários rurais. 1992). pelo absenteísmo dos proprietários das terras e pelos fracos investimentos no setor agrícola. não concedida a ninguém. certas características comuns. sem limites físicos determinados. A separação entre a Igreja e o Estado. 1992)9 A ocupação efetuou-se em diferentes datas. com a proclamação da República. No Sertão central. concedidas pelas capitanias _ representando a Coroa portuguesa .Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG agricultor voltava à sua região natal para comprar um pedaço de terra ou um rebanho. as características mais ou menos hostis do meio local. "mais de 340 8 9 Uma légua corresponde a 6 km. às margens do São Francisco. a localização estratégica de determinados locais no cruzamento de eixos de comunicação foram critérios determinantes. nos iin do século 19. reagrupa expressões sociais e modos de produção muito diversificados. entretanto. A agricultura familiar. pelos meados do século 17. opôs-se a partir de 1840 à paróqui local. agravou ainda mais a situação. No caso de luazeiro. as sesmarias. 1998). nas terras das tribos indígenas dos Tupis. . correspondendo às terras aluviais dos vales ou várzeas. alvos preferenciais da política de modernização. 1989). situadas nas falhas geológicas (Mal/e.aos nobres. Eram verdadeiros impérios. as migrações definitivas constituem um fenômeno recente. Como nos mostra Silva (1999). para evitar misturas de gado e outros litígios (Garcez & Sena. Agricultura familiar: uma história de resistência e adaptações A história da agricultura familiar do Sertão se confunde muito com aquela da evolução dos sistemas de pecuária (Caron. chamados de coronéis ou fazendeiros. em 1710. Muito rapidamente. Tais litígios diziam respeito ao direito de recolher impostos. aos senhores da terra.45 - . quanto a concessões anteriores ieita pela colônia portuguesa às ordens missionárias encarregadas de catequizar a comunidades indígenas. A agricultura irrigada é recente e seu potencial é limitado a 5% dos 940 mil km2 da região. a maioria da~ terras pertencia a duas famílias: Guedes de Brito e Dias D' Ávila Esta última possuía. A colonização do Sertão Os primeiros domínios fundiários do Sertão foram conquistados no século 17. a presença de recursos hídricos. entre dois domínios. As sesmarias eram medidas em léguas8. ( Município de Juazeiro. A agricultura sertaneja continuou por muito tempo apenas produtora de víveres e marginal ou concentrada nas zonas mais elevadas e úmidas do Agreste e do brejo. Houve igualmente litígios entre o Estado e a Igreja. com o pequeno capital amealhado durante o exílio. Era comum manter uma margem de uma légua. surgido nas últimas décadas. 1991b). 04 a 10 de novembro de 2007. como a valorização da mão-de-obra familiar e a autonomia da gestão dos meios de produção (Sidersky. de cada um dos lados dos riachos. assim identificada. como o conjunto de formas de produção que se opõem aos latifúndios e às empresas rurais. pela imprecisão dos limites territoriais. A colonização foi caracterizada pela concentração. os primeiros conflitos eclodiram. segundo as regiões de Sertão. em 1927.

em épocas mais tardias A região de Pintadas. foi explorada a partir do século 19. no centro do Estado da Bahia. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). enquanto as regiões: vizinhas (Mundo Novo. 3. (Fig. 3). . fonte permanente de água. 04 a 10 de novembro de 2007. 1977). Pintadas situa-se numa região menos chuvosa. Fig. O recuo econômico e o surgimento dos camponeses No decurso do século 18. o crescimento do setor mineiro de Estado de Minas Gerais e a crise no setor açucareiro acarretaram uma crise na economia nordestina e o deslocamento da bacia pecuária para o Sul do Brasil (Furtado.46 - .Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG léguas de terras à~ margens do Rio São Francisco e de seus afluentes" (Andrade. fora dos eixos de comunicação e não dispunha de nenhum. Baixa Grande) já haviam sido ocupadas desde o século anterior. muitas vezes. 1986) A ocupação aconteceu porém. Os enormes latifúndios começaram a fracionar-se em virtude do absenteísmo dos proprietários e da crise da pecuária bovina. Localidades mencionadas na descrição do processo de colonização. por exemplo.

223 a 93. o número de unidades agrícolas passa de 16. a pecuária era consolidada pela cultura do algodão "Mocó" (arbustivo). o crescimento demográfico traduz-se por uma pressão sobre o espaço. Hoje seus membros são os descendentes dos primeiros ocupantes ou dos compradores das antigas fazendas. A falta de forragem na época das secas leva grandes proprietários a cercar suas terras a partir da década de 20. em particular sobre os percursos na Caatinga. As culturas ocupavam pequenas áreas cercadas. É. O plantio de alguns hectares a cada ano permite marcar o território e estender as áreas em "propriedade privada". para a palma forrageira (Opuntia sp. a apropriação do espaço e a modernização agrícola Desde o início do século 20. o caso da produção de forragem a partir dos anos 30. a partir dos anos 60.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Com a Lei da Terra. a demanda de mão-de-obra é grande e é essencialmente familiar e os contratos de meeiros são quase inexistentes (fora aqueles com os fazendeiros). Certos produtos como queijo. o caso do sisal ou da mamona. na maioria dos casos. 1993). Numerosos vaqueiros. escravos alforriados ou ex-condenados tomaram posse de terras situadas entre as sesmarias ou mesmo inexploradas (Prado Júnior. enquanto as áreas agrícolas só aumentam em 50% (Bazin.382 20 anos mais tarde. no Sertão central da Bahia. mestiços. Elas exigem menos mão-de-obra do que as culturas alimentares anuais10. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). As incertezas climáticas tornavam aleatória qualquer atividade agrícola praticada.) e. sal. tecidos. os caprinos. As frentes pioneiras. O algodão sempre esteve associado à pecuária. ainda mais porque os primeiros zebus introduzidos nessa época são menos resistentes às condições climáticas do Sertão. Nas zonas mais áridas. As cercas necessárias à proteção devem ser de madeira. Uma economia camponesa surgiu e desenvolveu-se a partir das pequenas unidades agropecuárias. A presença de fazendeiros acentua a pressão sobre o espaço e seus recursos. mesmo quando as cercas são construídas na época das secas. também. Em razão da Guerra de Secessão e do desmoronamento da produção norte-americana. A difusão de plantas perenes permite aproveitar novas oportunidades de mercado. mais adaptados às secas e às necessidades de consumo das famílias camponesas. entre outros. logo sua construção e manutenção representam uma obrigação significativamente onerosa com mão-de-obra. . enfim. Rio Grande do Norte. permite cercar mais rapidamente grandes áreas e demanda pouca manutenção e mão-de-obra. 1960).47 - . nos anos 70. desde a Guerra de Secessão. os pequenos proprietários estabeleceram-se. em 1850. Segundo Silva & Lima (1982). Nas zonas mais favorecidas pelas chuvas. De fato. sementes de mamona e pequenos ruminantes eram vendidos para comprar outros produtos: pimenta-do-reino. para as gramíneas. cujos rebanhos valorizavam os restos de culturas. É o caso do algodão "Mocó". café. Comunidades apareceram e materializaram-se em sítios nas proximidades dos poços. até então. No Estado do Ceará. 04 a 10 de novembro de 2007. A estrutura fundiária local e a presença ou ausência de grandes fazendeiros condicionam as dinâmicas pioneiras. O arame farpado que substitui as cercas de madeira. coletivamente. a indústria inglesa investiu· no Nordeste. para prover as necessidades de consumo. Eles são os primeiros que historicamente cercam os pastos. a partir de 1950. É. Começa a apropriação individual de recursos explorados. Os meeiros produziam algodão nas terras dos fazendeiros. Essa evolução concerne principalmente aos Estados do Ceará. a área de extensão do algodão jamais ultrapassou 21. eram preferidos aos bovinos. a partir do século 19. cada vez mais numerosas. graças aos meios financeiros dos quais dispõem ou que podem mobilizar por meio dos projetos 10 As áreas de cultura anuais continuam escassas e raramente ultrapassam 2 ou 3 hectares por unidade familiar. O algodão estendeu-se rapidamente. como o capim-buffe/ (Cenchrus ci/iaris). por exemplo. Paraíba e Pernambuco. As roças e as técnicas para as culturas são manuais.6% da área total do Sertão.

geralmente divididos por cercas. em apropriação: "a terra pertence àquele que a cerca". bromeliáceas terrestres. no Nordeste. bem como uma capa herbácea constituída de espécies anuais. 04 a 10 de novembro de 2007. Aqueles que não conseguem se adaptar tornam-se assalariados agrícolas ou migram para o sul. em alguns municípios. muito tardiamente. em 1964. O desflorestamento e o cultivo das áreas de Caatinga12 aumentam. que se traduz pela expulsão dos ocupantes destas terras. hoje. Tal obrigação transformou-se. para aqueles que dispunham dos meios. que dão à vegetação um aspecto sombrio e cinza durante a estação das secas. industrial e urbano. que quase sempre acaba em banho de sangue ou na resignação do proprietário lesado. que obrigava os criadores a controlar seus animais. então. A pressão sobre os recursos acarreta. ou para as frentes pioneiras da Amazônia. uma generalização rápida de cercamentos. . impedindo-os de vaguear. Estas imprecisões legais acarretaram conflitos jurídicos nos quais se vê o ressurgimento de títulos de propriedade datando da monarquia. surgiram inúmeros casos de grilagem. em vez de cercar suas pastagens com 7 a 10 fios de arame farpado para impedir a entrada de pequenos ruminantes. Outros têm como base novas regras jurídicas: a lei do "pé alto" é especialmente exemplar a esse respeito. Tais imprecisões são acompanhadas por uma ausência de delimitação física: os limites fundiários estão freqüentemente sujeitos a conflitos. como Pintadas e Ipirá. 12 O termo Caatinga é formado por duas palavras da língua Tupi que significam floresta branca. É uma formação extremamente diversificada em função do tipo de solo e nela encontram-se árvores e arbustos freqÜentemente providos de espinhos e do tipo caducifólios. os minifúndios. os pecuaristas conseguiram fazer votar um decreto municipal para a aplicação de uma lei federal. Assistimos à generalização das cercas de 3 ou 4 fios de arame farpado. Os espaços diversificam-se. durante a estação chuvosa. Estas evoluções e recomposições acontecem em um contexto fundiário muito incerto. na estação seca. Assim. Conflitos eclodem freqüentemente. Assim. que foram seguidos de conflitos. referência a seu aspecto durante a seca. a reconversão para a produção leiteira. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Enquanto anteriormente a situação que prevalecia obrigava aquele que cultivava a proteger seus campos. Eles permitem o aumento da capacidade de pastoreio e. em certos casos. mas proibindo o deslocamento dos animais dos pequenos criadores. Grileiro (aquele que se apropria das terras) e grilagem vêm de grilo. Em alguns provocados.48 - . Os pastos de gramíneas forrageais espalham-se consideravelmente. não há mais novos espaços a serem colonizados e os patrimônios fundiários continuam a dividir-se em ritmo acelerado. Na verdade. a maioria dos pequenos ainda não possuía títulos de propriedade. freqüentemente. Os sistemas técnicos de produção.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG públicos de desenvolvimento. evoluem. Até os anos 80. alimentam-se da produção de forragem dos pastos cercados. O aparato regulamentar do Estado é deficiente. no centro da Bahia. Molle (1991 b) 11 Grilagem é o nome dado à apropriação fraudulenta de terras. pois os fazendeiros que usavam essa prática colocavam os falsos títulos das propriedades em gavetas cheias de grilos. eles podiam reduzir o investimento a 4 fios. No Nordeste. coriáceas e espinhosas. prevalecendo a lei do mais forte. grande consumidora de espaço. Trata-se da grilagem11. eles são. Essas evoluções são acompanhadas pelo crescimento rápido do número de pequenas propriedades rurais. suportes e conseqüências dessas transformações. em terras não cercadas e. O desmoronamento da cotação dos produtos agropecuários de cultivos de sequeiro. para que ficassem amarelados. Seus animais pastam. a partir dos anos 80. frequentemente violenta. pela colocação selvagem de cercas em terras alheias. provoca uma reconversão de inúmeros produtores para a pecuária. apresenta também plantas suculentas (cactáceas e euforbiáceas). suficientes para os seus bovinos. É em tal contexto que surge a irrigação.

ou seja. Segundo ele. mas também econômica.FAO. As características das estruturas sócio-políticas regionais e locais que predominaram até os anos 70 explicam. em absoluto. econômicos.) e de exportação (cacau. mecanização. os espaços geográficos e econômicos "desprezados" pelos grandes proprietários e empresas. ainda uma parte significativa da população nordestina. As instituições públicas de pesquisa e desenvolvimento implantadas nos anos 70 foram planejadas como instrumentos da política de modernização que visava promover o modelo da revolução verde (variedades selecionadas. No Brasil. Engloba. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística -IBGE . também. 1998). as políticas hídricas foram prioritariamente voltadas para o abastecimento de água. batata. Os esforços de modernização da agricultura não puderam impedir a concentração dos investimentos públicos e privados e a marginalização da agricultura familiar. No Nordeste. 04 a 10 de novembro de 2007. desvios dos esforços empreendidos pelo governo federal. arcaismo e imobilismo das estruturas sociais herdadas da colonização. Elas foram globalmente eficazes e a produção agrícola aumentou consideravelmente. feijão. por 22% do total da área agrícola (o tamanho médio das unidades agrícolas no Nordeste é de cerca de 13 ha . etc. 1997). Dos fins do século 19 aos anos 70. aproximadamente três milhões de famílias. 1994).(Censo 1985). ela reagrupa cerca de 6. este atraso: a rigidez da estrutura fundiária. econômico e mesmo técnico. técnicos. salvo por algumas situações isoladas. banana. 1996).). porém. Apesar de sua importância demográfica e econômica. 1996). seletiva e fonte de marginalização social e geográfica. desde o início da colonização. Sua importância é não somente social. as unidades agrícolas familiares ocupam 56% da população agrícola ativa. Ela ocupa. . etc.. utilização intensa de adubos e pesticidas. e concedem uma atenção particular ao contexto econômico e às condições ecológicas da produção (meio ambiente e qualidade dos produtos).Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG evoca vários fatores para explicar este atraso no desenvolvimento de uma sociedade hidráulica. irrigação. deixada nas mãos dos índios ou dos mestiços. lugar em uma sociedade voltada para a pecuária extensiva. seja para os homens ou para os animais. sociais e políticos do modelo dominante (Tonneau et aI. Elas são responsáveis por cerca de 30% da produção agrícola nacional. essas instituições constatam que não conseguem acompanhar a demanda da agricultura familiar no âmbito social. ela encobre uma realidade pouco conhecida: somente há pouco tempo passa a ser objeto de atenção por parte dos organismos de apoio ao setor agrícola. Entretanto. Um interesse renovado pela agricultura familiar brasileira Hoje. Elas entram em processo de avaliação e de redefinição de suas metas (Abramovay. freqüentemente. mais da metade localizada na Região Nordeste (FAO.5 milhões de unidades de produção agropecuária. etc. 1996). o que corresponde a 15 milhões de pessoas. Desde meados dos anos 80. a agricultura familiar subsiste no contexto das rupturas e dos limites ecológicos. laranja. tanto por sua presença de peso nos mercados de produtos alimentares (milho. elas são beneficiadas com apenas 15% dos financiamentos públicos. cerca de 40% das unidades agrícolas de todo o Brasil (FAO. graças à construção de grandes barragens (ver o capítulo Manejo da água nos sistemas de sequeiro). a agricultura familiar reúne a maioria da população rural. Alguns números permitem precisar essa importância social e econômica. Molle (1991 a) lembra que a agricultura foi desprezada. A modernização foi. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE).49 - . café. entretanto. a agricultura irrigada representa um estágio de intensificação da atividade agrícola que não encontra. depois nas dos peões ou dos meeiros.) quanto pelos recursos e empregos que ela proporciona (Veiga.

Enfim. diminuir os preços dos alimentos perecíveis. em geral. que seriam justificados pelas evoluções recentes do mundo agrícola e pelo contexto político. Entre outras coisas. sem valorizar a diversificação da produção da unidade agrícola nem as pesquisas econômicas e sociais sobre as "racionalidades" dos produtores e sobre os processos de inovação. reconhece que a pesquisa se mostrou ineficaz em virtude da orientação de seus trabalhos que. pela marginalização de mais de dois terços da população rural. A exclusividade concedida às pesquisas disciplinares realizadas em estação experimental não levava em consideração as condições de produção. como nos países desenvolvidos. 1994a). Ao Estado e às instituições faltam. principal entidade brasileira de pesquisa agronômica. pela degradação do meio ambiente. Ela tem por objetivo ancorar a análise no diferente e no complexo. sem levar em conta a diversidade ecológica (Embrapa. o discurso inflamado freqüentemente toma a dianteira. porém não foi capaz de fazê-Io sem a exclusão de um número significativo de pequenos produtores. Entretanto. econômico ou social. pela ocupação desordenada do território nacional. Um consenso político real manifesta-se em torno do apoio que ela deveria receber. As condições e as formas de acúmulo e da reprodução da agricultura familiar e a gestão de sistemas diversificados são.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG A Embrapa. criar empregos." (Embrapa. A agricultura familiar está cada vez mais presente nos discursos. Essa síntese adota um caminho diferente. Entre a necessária redistribuição inter e intra-regional e a adaptação forçada a um mercado competitivo. reorganizar o espaço. Essa constatação leva a propor dispositivos específicos de apoio à agricultura familiar. temas pouco explorado. as instituições questionam-se sobre as formas que esse apoio poderia tomar para ser eficaz e sobre as condições da implementação de um programa de reforma agrária. traduziu-se por uma deteriorização dos mercados urbano e rural do emprego. apesar do aumento da produção global. "A modernização provocou modificações indiscutíveis das características técnicas e econômicas da agricultura brasileira. uma social e outra neoliberal. informações e dados sobre as múltiplas realidades encobertas pelo termo genérico "agricultura familiar". 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE).50 - . Os programas de pesquisa trataram por muito tempo de uma cultura ou de um produto em particular. entre duas visões. . reduzir o êxodo rural. 1994a). A insuficiência dos conhecimentos disponíveis deixa o caminho livre para debates antes de tudo ideológicos. visavam à concepção de modelos com alta produtividade biológica e com grande utilização de insumos. 04 a 10 de novembro de 2007. principalmente. este modelo de desenvolvimento. as divergências sobre as modalidades de implantação de um conjunto coerente de ações são importantes. por exemplo. Os objetivos são. os produtores e os agentes de desenvolvimento não tinham vínculos com a definição e a aplicação prática dos temas e das atividades de pesquisa. manejar os recursos naturais de modo sustentável e atenuar a miséria. quer no campo técnico. pelo aumento dos preços dos alimentos perecíveis.

13 Jornalista 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). a história das sociedades é marcada pela luta entre explorados e exploradores. num longo processo iniciado a partir do século 17. a burguesia.que significa “representante de uma determinada comunidade”. É nesse último sistema econômico. obrigando-os a produzir tais ou quais artigos que eles vendem no mercado. . desprovido de tudo. a massa do povo trabalha para os outros. mais lucro lhes sobra. Os patrões pagam aos operários exclusivamente o salário indispensável para que estes e suas famílias mal possam sub-existir. 04 a 10 de novembro de 2007. a sociedade se divide claramente em duas classes. máquinas. A palavra surge do francês . no feudalismo e ocorre até hoje no capitalismo.. entre patrões e operários há uma constante luta pelo salário”. é um fenômeno típico desse sistema. “Denomina-se capitalismo a organização da sociedade em que a terra. Para elevar os seus lucros. entretanto. Ele só surge no modo de produção capitalista. Os latifundiários e industriais contratam os operários. que eram as pequenas localidades nos arredores dos feudos. A expressão proletariado vem do latim da antiga Roma e designa os cidadãos que viviam à beira da miséria e que tinham uma prole numerosa. alugar sua força de trabalho. Portanto. e o faz por um salário. Isto ocorreu no sistema escravista.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Origem e papel dos sindicatos Altamiro Borges13 Desde a divisão da sociedade em classes. Com a queda do feudalismo na Europa. Em compensação. O Sindicato. o capitalista necessita extrair o máximo de mais-valia. onde viviam os comerciantes e os artífices . É dessa luta cotidiana.syndic . as fábricas. que surgem as primeiras formas de organização dos trabalhadores. mas para os patrões. na economia capitalista. dirigente da revolução russa de 1917.os germes dos futuros industriais. sintetiza de maneira simples as características desse sistema. o patrão embolsa isso: isso constitui o seu lucro. Compreende-se que os patrões tratem de reduzir o salário. que a luta de classes atinge a sua plenitude. matérias primas etc. obrigado a vender a sua força de trabalho aos capitalistas. os instrumentos de produção etc. quanto menos aos operários. os operários tratam de receber o maior salário possível para poder sustentar sua família com uma alimentação abundante e sadia. Do outro. dona dos meios de produção instalações. objeto de nosso estudo. que é o trabalho excedente não repassado ao operário na forma de salário. O termo burguesia deriva de burgos. pertencem a um pequeno número de latifundiários e capitalistas. inerente ao capitalismo. por isso.51 - . enquanto a massa do povo não possui nenhuma ou quase nenhuma propriedade e deve. Elas nascem como resultado do esforço espontâneo dos operários para impedir ou atenuar a exploração. Não aparecem por inspiração de “subversivos”. viver numa boa casa e não se vestir como mendigos. como a burguesia propaga. mas sim por uma necessidade natural dos que vivem de salário. Lênin. De um lado. não trabalha para si. o proletariado. Tudo o que o operário produz acima dessa quantidade de produtos necessária a sua manutenção. no modo de produção asiático. Portanto. após a superação da comuna primitiva.

com salários mais aviltados e em piores condições de trabalho. Para cumprir esse papel. são constituídos enormes contingentes de desempregados nos centros urbanos. expulsando os servos das glebas rurais para torná-los “homens livres”. ela não necessita mais de mão de obra especializada do artesão. eles vão congregar os operários das oficinas e das fábricas. que representa a consolidação definitiva desse novo modo de produção. a burguesia golpeia os artesãos e suas corporações. Trabalhei toda a noite. ela promoverá os famosos “cercamentos” no campo. em 1640. A introdução das novas máquinas. no livro “História da Riqueza do Homem”. posteriormente da produção manufatureira e. fonte dos lucros. são também importantes como meio organizado para a abolição do sistema de trabalho assalariado”. Ele cita. pelo aumento do seu poder aquisitivo. meados do século 18. os sindicatos se tornam centros organizadores dos assalariados. “se os sindicatos são indispensáveis para a guerra de guerrilhas cotidianas entre o capital e trabalho. por exemplo. É nesse momento. Berço do capitalismo Os primeiros sindicatos nascem exatamente na Inglaterra . o depoimento de uma criança de 11 anos a uma comissão do parlamento inglês. Com as máquinas. como forma de baratear o custo do trabalho através da concorrência. atingindo outros setores econômicos. Nessa luta. que tinham grande poder de barganha. a burguesia se consolidou no poder. os que produzem diretamente as riquezas . 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Posteriormente. 04 a 10 de novembro de 2007. as mais precárias. com a superação do trabalho artesanal.considerada o “berço do capitalismo”. Com o objetivo de atrair mão-de-obra livre. focos de resistência à exploração capitalista. com o desenvolvimento do próprio sistema. Num primeiro momento. em 1816: “Sempre nos batiam se adormecíamos. Foi nesse país que se realizou a primeira revolução burguesa da história . também agravará as contradições entre capital e trabalho.52 - . O desenvolvimento do capitalismo deixará evidente a contradição desse sistema.no século 18. Para Marx. certa vez”.com a redução dos custos operacionais e a elevação da produtividade. a burguesia inglesa imporá jornada de trabalho que atingiam até 16 horas diárias.o setor dinâmico da sociedade capitalista. o operariado conta com a vantagem de se constituir em grande quantidade. eles se generalizam. os trabalhadores têm a necessidade de lutar pela diminuição da taxa de mais-valia. nos séculos 17 e 18. acumulou capital e pode realizar a primeira revolução industrial .dirigida por Cromwell. Através desses novos instrumentos. Nesse período. Por sua vez. Leo Huberman. que Marx chamará de exército industrial de reserva. aptos ao trabalho assalariado. que o capitalismo encontra plenas condições para se expandir e virar o sistema predominante. com o surgimento das grandes fábricas.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Essa é a lógica do sistema. descreve esse brutal processo de rebaixamento do nível profissional. . Os salários serão os mais reduzidos e as condições de trabalho. O capitalismo inglês vai viver a partir daí um intenso processo de desenvolvimento. O Capataz costumava pegar uma corda da grossura do meu dedo polegar. dobrá-la e dar-lhe em nós. em que a concorrência leva os empresários a uma incessante busca por maiores lucros . Para extrair a mais-valia. Após muitas marchas e contramarchas. pode introduzir a mulher e o menor no mercado de trabalho. e por condições humanas de trabalho. a partir da introdução de novas máquinas.

mas sim o uso que o patrão fazia dela. Sua atitude.53 - . “Entre 1811 e 1812. propondo que os moradores do povoado não 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). 04 a 10 de novembro de 2007. refletia o estado de espírito dos artesões. Em pouco tempo. . que passou a dar maior atenção às condições de vida e de trabalho do proletariado. As greves e os sindicatos. reproduzido no livro de Leo Huberman. “De pé ficaremos todos/E com firmeza juramos/Quebrar tesouras e válvulas/E arrasar todas as máquinas”. esse operário destruiu totalmente os teares mecânicos da fábrica num sinal de revolta contra os efeitos da Revolução Industrial. o Luddismo começou a ser superado como forma de luta da jovem classe operária. Dessas primeiras lutas da classe operária nasceram belos escritos e poemas. apesar de individual. Segundo José Cândido. reduzindo-se a pequenos grupos de trabalhadores que destruíam máquinas e espancavam os cientistas que as inventavam. Inexperiente. vão gerar resistências entre os explorados. Sir Boycott era conhecido por seus métodos truculentos no tratamento com os empregados. Esse processo de luta passará por longas experiências. não aparecerão num estalo de dedos. O movimento dos quebradores de máquinas também caiu no isolamento diante da sociedade. É nesse período que se generalizava o seguro de patrimônio na Inglaterra e alguns patrões inclusive são flagrados destruindo suas máquinas para adquirir outras mais modernas. expresso os avanços da tecnologia. A legislação repressiva não conteve o Movimento Luddista. os Luddistas ingleses costumavam cantar uma música que se tornou conhecida. A própria burguesia que num primeiro momento aprovou a pena de morte. Glasgow. Preston. próprias do novo sistema econômico. também conhecido como o movimento dos quebradores de máquinas. informa José Cândido Filho. os Luddistas espantaram a burguesia”. autor do livro “O Movimento Operário: O Sindicato e o Partido”. Outra forma de luta que será utilizada na infância da classe operária. como o de Shelley. será o boicote . Dundee e outras cidades. aparentemente a máquina é que era responsável pelo desemprego dos trabalhadores especializados. O parlamento Inglês. Aos poucos. ela constatou que não era a máquina a sua inimiga. quando quebravam as máquinas. entretanto. Ele se recusava a negociar e os trabalhadores passaram a fazer o mesmo. Newcastle. por exemplo. O termo Luddismo deriva do nome do operário têxtil Ned Ludd. começou a dar sinais de assimilação dessa forma de luta. cidade próxima de Londres. a jovem classe operária viu nas máquinas o seu principal inimigo. da Irlanda. Antes. a classe operária passará por um longo processo de aprendizado até encontrar as formas mais eficientes de luta e concluir que sua união é fundamental para se contrapor ao poder do patronato. “Os homens da Inglaterra”. “A História da Riqueza do homem”. que quatro anos depois foi retomado com novas máquinas quebradas em Londres. Que era um erro se contrapor ao desenvolvimento do próprio conhecimento humano. Mas experiente. Afinal. Um das principais formas de luta foi o Luddismo. seu gesto foi imitado em várias cidades da Inglaterra e atingiu também a França.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Todas essas condições de exploração. uma lei que punia com a pena de morte os “quebradores de máquinas”. que nunca tratara da questão operária. pela inserção da mulher e do menor nas fábricas em condições degradantes etc. que trabalhava numa pequena oficina em Nottingham. em 1812.palavra que deriva do nome de um oficial inglês encarregado de administrar os negócios do conde Erne. Segundo pesquisas. discutiu o assunto e aprovou. A revolta operária repercutiu também entre a intelectualidade da época.

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consumissem os produtos do Conde Erne. Este teve um grande prejuízo e afastou o oficial
inglês do cargo. A sabotagem também será usada nesse período como mecanismo de
pressão dos trabalhadores por seus direitos. O termo tem origem francesa e significa
"tamanco". Os operários franceses usavam esse tipo de calçado para danificar as
máquinas, emperrando a produção.
O salto na ação desse jovem proletariado vai se dar com o recurso da greve uma forma de luta mais avançada para pressionar o patronato. Segundo José Cândido, “A
origem do termo, liga-se à Praça da Greve (place de grève), atualmente praça do Hotel De
Ville, em Paris. Quando desempregados ou para tratarem de assuntos relativos ao
trabalho, os operários costumavam reunir-se ali. Faire grève (fazer greve) significava,
portanto, reunir-se na praça da greve. A greve foi o recurso de luta de maior eficácia nesse
período, tanto na Inglaterra, como nos demais países em que o capitalismo foi
introduzido. Esse recurso se espalhou pelo mundo, sendo encarado de diversas formas.
Para alguns, defensores da manutenção do sistema capitalista, como simples mecanismo
regulador do mercado de trabalho. Para outros, no caso dos Anarquistas, como um fim em
si mesmo. “A greve é tudo”, dirá Bakunin - um dos principais teóricos do movimento
ácrata.
Já para os revolucionários, a greve será vista como uma das principais
armas na luta de guerrilha entre capital e trabalho e como poderoso instrumento de
elevação da consciência e do nível de organização do proletariado. O dirigente da
revolução russa de 1917, Vladimir Ilitch Lênin, escreveu um texto sobre as greves.
Sindicato Clandestino
É nesse processo da luta que a classe operária sentirá a necessidade de se
organizar. É dele que surgirão os sindicatos que na Inglaterra têm o nome de trade-unions
- que significa união de ofício, de profissões. Essas jovens entidades de trabalhadores não
terão as mesmas características dos sindicatos atuais - que conquistaram o
reconhecimento legal, têm sedes, diretores afastados e gozam do direito de negociar com
o patronato. Pelo contrário. No século 17, período de surgimento das trade-unions, elas
serão clandestinas, com muita dificuldade de atuação. A burguesia verá nelas um grande
perigo. Seu temor é que elas unam o grande número de trabalhadores, até aqui dispersos
e vivendo em concorrência entre si pelo emprego. Há registro de associações de
trabalhadores com caráter sindical desde 1699. Nesse ano em Londres, uma greve dos
operários têxteis assustou o governo e a jovem burguesia - que ainda se constituía
enquanto classe. É só no século 18, quando a revolução industrial tomou impulso na
Inglaterra, que os sindicatos vão se generalizar para evitar seu crescimento, o parlamento
inglês aprova em 1799 a combination law, a lei sobre associações que proíbe o
funcionamento de sindicatos.
A violência da burguesia se dará em vários terrenos. No campo legal, elas
serão proibidas. A primeira lei que garantirá a livre associação dos trabalhadores só será
aprovada em 1812, na câmara dos Lordes, em Londres. Além de usar o aparato policial
do Estado para reprimir essas entidades, a burguesia inglesa - e posteriormente de outros
países - também utilizará as milícias privadas. Os jagunços, que hoje são uma marca do
campo em nosso país, já foram muito usados pelo patronato nos centros urbanos. Alguns
se tornaram famosos como o bando Pinkerton, dos EUA - uma poderosa agência de
pistoleiros contratada para reprimir greves e assassinar lideranças operárias.

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Aracajú (SE), 04 a 10 de novembro de 2007.
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Para se proteger dessa violência, no inicio as trade-unions agem totalmente
na clandestinidade. As reuniões são secretas; não há sedes sindicais, campanhas
massivas de sindicalização, nem mesmo negociação direta com o patronato. Algumas
trade-unions inclusive formulam “códigos de participação”, com normas para garantir a
sobrevivência da entidade. Elas fixam a triagem dos trabalhadores que devem ser
convidados para as reuniões clandestinas. A entidade dos têxteis, por exemplo, prevê um
período de observação de dois anos para avaliar se o trabalhador não é dedo-duro,
infiltrado do patrão. Só depois ele é convidado a participar das reuniões. O seu código fala
também de justiçamento dos delatores, compondo um braço armado para amedrontar os
traidores em potencial.
Aos poucos, no entanto, as trade-unions inglesas vão se consolidando. Elas
dirigem mais greves, maiores protestos. Deixam o patronato num dilema. Já que são
proibidas, o empresário não tem como negociar em momentos de greve. Isso gera
grandes prejuízos, principalmente quando não há estoques e surgem encomendas de
produtos. Diante desse crescimento das lutas operárias, é que o parlamento da Inglaterra
irá aprovar, em 1824, a primeira lei sobre o direito de organização sindical dos
trabalhadores. Essa conquista permitirá um poderoso aumento da força do sindicalismo.
Em todos os ramos industriais formam-se trade-unions. Também surgem as “caixas de
resistências” para apoiar financeiramente os grevistas.
O outro avanço nesse período será a organização de federações que
unificam várias categorias. Em 1830 é fundada a primeira entidade geral dos operários
ingleses - a associação nacional para a proteção do trabalho. Ela reunirá têxteis,
mecânicos, ferreiros, mineiros e outras profissões. Chegará a ter cerca de 100 mil
membros e editará um periódico, A Voz do Povo. Na vanguarda do movimento operário
inglês dessa época estarão os têxteis, principalmente os da concentração industrial de
Lancashire. Em 1866, com o avanço da industrialização em outros países, será realizado
o primeiro congresso internacional das jovens organizações de trabalhadores de vários
países. Ela representará um grande salto na unidade dos assalariados, que será
materializado com a fundação da associação internacional dos trabalhadores (AIT),
também conhecida como a primeira internacional.
Apesar de possibilitar um avanço da organização sindical, a lei de 1824 é
contraditória, tendo duas características distintas. Em primeiro lugar, reflete a própria
pressão organizada dos trabalhadores. Em segundo, também indica uma mudança
estratégica da burguesia inglesa. Tanto que a lei foi aprovada na câmara dos Lordes, que
reunia apenas a aristocracia inglesa. Com ela a burguesia procura novos métodos para
controlar o movimento operário. Ela não poderia abandonar o seu projeto de dificultar a
luta e a união dos trabalhadores - fundamental para sua sobrevivência enquanto classe.
Como não era mais possível proibir as trade-unions, ela adota novos meios
de interferir. Como a história vai demonstrar, mesmo legalizados, os sindicatos podem ser
reprimidos. Neste período, muitos industriais pressionarão os operários exigindo a
renúncia formal à participação das trade-unions, como forma de garantir o emprego. A
força policial continuará a ser acionada, deixando um rastro de sangue em toda a
trajetória do movimento sindical. A legalização também permitirá identificar as lideranças,
o que pode facilitar o trabalho de cooptação e corrupção - processo muito usado até hoje
pelo patronato. Além disso, é possível implantar toda uma legislação de controle dos
sindicatos - como a que existiu no Brasil após o governo de Getúlio Vargas.

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Ainda nesse período, fruto da experiência concreta, o proletariado também
desenvolverá a luta política, superando a pressão apenas por reivindicações de caráter
econômico e específico. Surge o movimento cartista na Inglaterra, que representou um
salto na ação operária. O nome deriva de uma “carta”, elaborada em 1837-38, em que os
trabalhadores reivindicam maiores liberdades políticas: direito de voto para todos,
abolição do sistema pelo qual só podiam se candidatar os que tivessem renda, voto
secreto etc. Em seu conteúdo, o cartismo já expressara a luta por liberdades
democráticas e socialistas. Ele será duramente reprimido - com inúmeros cartistas,
sofrendo processo criminal - de “alta traição” - e muitas condenações.
Em outros países, o proletariado participará de ações políticas, sendo a mais
célebre participação na Comuna de Paris. Essa foi a primeira experiência em que a classe
operária alcançou o poder político. Sua duração foi curta - de fim de março a fins de maio
de 1871. Num primeiro momento, a sede do novo poder se instalou na Câmara Federal
dos Sindicatos franceses que também era o local de reuniões da sessão parisiense da
AIT. Essa experiência, que não se alastrou e serviu de base para novos estudos dos
marxistas, foi violentamente reprimida. As tropas do exército francês, que pouco antes
havia sido derrotadas e tornadas prisioneiras pelos alemães, foram libertadas e colocadas
a disposição do governo da França, de Thiers, por ordem e Bismarck. A burguesia
superava as suas divergências para esmagar o movimento operário. A luta contra a
comuna durou uma semana. Mais de 14 mil combatentes foram mortos na guerra ou
foram sumariamente fuzilados; 5 mil operários foram deportados e outros 5 mil
encarcerados.
O próprio Karl Marx, um dos idealizadores da AIT, já havia apontado essa
necessidade de ação política ao proletariado. “O fim imediato dos Sindicatos concretiza-se
nas exigências do dia a dia, nos meios de resistência contra os incessantes ataques do
capital”. Numa palavra, na questão do salário e da jornada de trabalho. Essa atividade
não só é justificada, como necessária. Não podemos privar dela enquanto perdure o modo
atual de produção. Ao contrário, é preciso generalizá-la, fundando e organizando
sindicatos em todos os países. Por outro lado, os Sindicatos, sem que estejam
conscientes disso, chegaram a ser o eixo da organização da classe operária. “Se os
sindicatos são indispensáveis para a guerra de guerrilhas cotidianas entre o capital e o
trabalho, são também importantes como meio organizado para a abolição do próprio
sistema de trabalho assalariado”.
Papel dos Sindicatos
Nessa primeira fase de existência, o sindicalismo vai demonstrar que é um
instrumento indispensável para os assalariados. Com a expansão do capitalismo, que se
torna o sistema predominante a partir do século passado, os sindicatos vão se espalhar
pelo mundo. Deixam de ser um fenômeno na Inglaterra. Num processo dialético, em que o
capital impera, suas contradições aparecem, as lutas operárias têm início e,
conseqüentemente, surgem os sindicatos. Todos os avanços sociais, mesmo que
pequenos ou parciais, serão fruto dessa luta e da formação dos sindicatos. Nada será
dado de mão-beijada pelo capital; nada cairá do céu. Cada nova reivindicação
apresentada pelos trabalhadores representa, num primeiro momento, a redução da taxa
de mais-valia do patrão. Por isso, depende de luta, de pressão organizada. A história da
legislação trabalhista no mundo será a história da luta de classes, em que os sindicatos
jogarão um importante papel.

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2001.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG HISTÓRIA DO MOVIMENTO SINDICAL14 De 1964 aos nossos dias O golpe militar de 1964 colocou às escuras os movimentos sociais e grevistas que tiveram grande atuação no período 1959/1963. marcando posição contrária à política de arrocho salarial e buscando construir junto aos operários as comissões sindicais de trabalhadores e trabalhadoras. é importante registrar o papel que a União Nacional dos Estudantes (UNE) desempenhou nesse período. o Ministro Jarbas Passarinho através de um decreto intervém em vários sindicatos. em 1967. sobretudo. desempenharam um papel importante na organização das ações dos trabalhadores e trabalhadoras. As ações do governo também se tornavam duras em relação a qualquer manifestação ou postura de contestação. Jones Dori Goettert 15 Cf. A UNE. mas sem eliminar totalmente o “germe” da subversão que se manteria vivo e crescente até o final dos anos 70. No entanto. SANTANA. mesmo com a manifestação contrária de alguns grupos de trabalhadores e trabalhadoras que paralisavam isoladamente algumas fábricas afrontando e contestando a política econômica do governo militar ditador. tem logicamente desempenhado um papel importante na história política nacional. afastando os seus dirigentes que. Mas. Em vários 14 Cartilha de Formação CNTE. não conseguiram disciplinar as entidades com a ordem social vigente15. mesmo sobre forte pressão os trabalhadores e trabalhadoras se organizam e realizam. e com os metalúrgicos de Osasco que. Por outro lado. 04 a 10 de novembro de 2007. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Os trabalhadores e trabalhadoras enfrentaram. com a greve dos trabalhadores e trabalhadoras da Belgo Mineira em Contagem-MG. O governo ditador procurou atacar as cúpulas dos sindicatos realizando intervenções nas organizações. quando as manifestações ganham as ruas e o interior das fábricas. a II Conferência Nacional de Dirigentes Sindicais. O movimento dos trabalhadores e trabalhadoras organizados em sindicatos ainda conseguiu causar grandes problemas para os ditadores em 1968. uma forte repressão às organizações que lutavam contra as políticas salariais que arrochavam o poder de compra e as condições de vida de toda a classe. em sua opinião. As fortes repressões não permitiram que entre 1964 e 1977 houvesse praticamente nenhuma greve ou outras formas quaisquer de manifestação. . a luta sindical perdurou durante um grande período do pós-64 sem atingir plenamente os seus objetivos. Essa situação de perseguição de lideranças e de intervenção nas entidades por parte do governo ditatorial continuou. fundada em 1937.57 - . com um forte sindicato. Em 1969. desmantelando as estruturas já construídas anteriormente e impedindo qualquer tipo de articulação dos operários que intuísse a formação de um grupo opositor organizado. desde a instauração da ditadura militar no Brasil em 1964. por mais “irrelevantes” que fossem.

a UNE se uniu aos demais oposicionistas à ditadura (como o PCB. Mas. PTB. No período pós-60. trilhando em conjunto o caminho da luta pela redemocratização. a ditadura militar demonstrava ainda mais sua truculência e arbitrariedade. Apesar das suas várias tendências internas. que claramente se posicionavam contrárias ao regime ditatorial militar imposto em 1964. . e mesmo sendo formada em grande parte por estudantes de classe média. Confederação Geral dos trabalhadores e trabalhadoras e as Ligas Camponesas). 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Suas práticas. o AI . 1986. A posição da UNE frente ao governo continuou sendo a de desaprovação. através da organização no “chão das fabricas” fazer frente ao processo de controle sobre o aumento de salários baseado no AI-5. estavam institucionalizadas. um pouco distantes da dura realidade vivida pelos trabalhadores e trabalhadoras. trabalhadores e trabalhadoras e intelectuais. e claramente para a grande parte da classe trabalhadora. nenhuma melhora em suas condições de vida17. agora. Uma ordem que não trouxe para a maior parte da população. orientar as bases para continuar reivindicando e se contrapondo às políticas de arrocho salarial. organizando manifestações e sofrendo uma violenta repressão como resposta.5 instaurou a prisão arbitrária. com a manifestação constante do operariado e com a insatisfação dos trabalhadores e trabalhadoras rurais exigindo reforma agrária. 2001. Já para os militantes de esquerda envolvidos em ações políticas. mesmo durante esse período vários sindicatos tentaram. em diversos casos. sindicalistas. principalmente num passado recente. manifestações e organizações contrárias à ditadura. O AI-5 anulou o Estado de Direito no Brasil firmando um governo de direita autoritário.58 - . firmou-se como uma entidade de força política na coordenação das mobilizações e ações dos estudantes.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG momentos dessa história. de 1968. FPN. em que o país viveu um momento político e econômico conturbado. o assassinato. Ao fechar o Congresso e instituir um bi-partidarismo que forjava uma falsa idéia de democracia com o MDB como “oposição” consentida à ARENA. a violência sem limites. é claro. já no máximo de sua condição de exploração e percebendo o momento 16 Cf. mas comungando com os ideais de transformação social (o que pouco tempo depois colocaria a entidade na mira dos ditadores). A perseguição e repressão sobre os estudantes. SEGAL. o AI – 5. 04 a 10 de novembro de 2007. PSB. a UNE procurava demarcar as suas posições ideológicas considerando. à tortura e. SANFELICE. quando os trabalhadores e trabalhadoras. acentuou-se drasticamente com o Ato Institucional número 5. partido do governo. a diversidade interna dos grupos que a compunham. mesmo que timidamente. como inimigos da ordem estabelecida. As greves começaram a ressurgir no ano de 1978. que procurava remodelar e enquadrar o movimento estudantil na “nova ordem social” ditada pelos militares16. práticas de repressão política contra todos aqueles que pudessem ser enquadrados ou que se caracterizassem minimamente como subversivos. 17 Cf.

19 Cf. mesmo com a decisão do Tribunal Regional do Trabalho de considerar a greve ilegal. e redefiniu-se em face do conjunto de agentes que. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). alcançando Minas Gerais. Estas manifestações continuariam crescendo durante o ano de 1979. constitui-se um amplo movimento social de massas. A greve estende-se para o interior e o governo a declara ilegal. os trabalhadores e trabalhadoras do ABC entram em greve: são por volta de cinqüenta mil trabalhadores e trabalhadoras parados. Contudo. As manifestações dos trabalhadores e trabalhadoras que se avolumam no final da década de 70. estão ligadas não só à resistência política contra a ditadura. SANTANA. de inserção no processo de luta da democracia. de democratização interna. 04 a 10 de novembro de 2007. no Brasil. Nascia o “novo sindicalismo”. com início em 12 de maio de 1978. Os operários enfatizavam que a empresa não havia cumprido o acordo de readmissão de trabalhadores e trabalhadoras dispensados em protestos anteriores. indo além das questões trabalhistas dos primeiros movimentos e estabelecendo a bandeira da democratização política do país19. que passou a ser o momento mais propício para o enfrentamento político. Com a greve iniciada em 1978 o movimento expande-se e ganha força em outros estados brasileiros. mesmo assim os trabalhadores e trabalhadoras mantêm a posição e conseguem novas adesões ao 18 MOISÉS. e que tem o ABC paulista como palco inicial. . p. acabando por atingir outros setores da economia. Essas manifestações aconteciam e continuaram seguindo esta lógica durante algum tempo. O movimento alastrou-se extrapolando o ABC e chegando a outros municípios como São Paulo e Osasco. que os trabalhadores e trabalhadoras são a espinha dorsal do movimento democrático brasileiro”. 1982. porque sem eles qualquer “abertura” ou “liberalização” apenas reconstruiria o círculo vicioso da crise do regime autoritário18. em 1977. o ABC paulista. mas também se contrapõem às investidas políticoeconômicas do capital que arrochavam os salários e aumentavam a exploração do trabalho. abertamente.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG político favorável. além das salariais. 2001. portanto. 31. lutam pela democracia: fala-se hoje. A partir de 1978. que também procurava abarcar outras questões. O acontecimento primeiro desse período de grande movimentação foi à greve dos trabalhadores e trabalhadoras da Saab-Scania.59 - . os metalúrgicos. nos momentos de negociação de salários (a data base de cada categoria). O “novo sindicalismo” extrapolava. começam a se manifestar e a exigir melhorias no salário que possibilitassem a melhoria das suas condições de vida e de trabalho. de confronto com os limites impostos pelo autoritarismo no Brasil ao pleno exercício da cidadania dos trabalhadores e trabalhadoras. é em seu “centro nervoso”. As greves passaram a ter um crescimento anual considerável. Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. envolvendo cada vez mais categorias de trabalhadores e trabalhadoras e tendo à frente os operários das fábricas produtoras de automóveis. que o movimento dos trabalhadores e trabalhadoras assume outros patamares. No início de março de 1979. de forma a aumentar a participação e a atuação dos trabalhadores e trabalhadoras na política nacional. “o terreno de suas funções sindicais.

O PT surge como instrumento necessário de organização e de luta dos trabalhadores e trabalhadoras na política nacional. O contexto de formação do Partido dos Trabalhadores. assim como o crescimento do PT. tiveram então como grande elemento aglutinador da classe trabalhadora a questão salarial. e em alguns dias são mais de 170 mil trabalhadores e trabalhadoras parados. então. que estabelecia o prazo de 45 dias para negociação de um piso satisfatório. esta a tendência do PT: a busca da democracia plena exercida pela massa organizada e participativa. Será. sinalizando para uma nova forma de sindicalismo. sendo a participação dos sindicalistas o elemento fundamental para a formação e a caracterização do partido. A inflação crescente combinadas ao baixo rendimento dos salários deteriorava as condições de vida dos trabalhadores e trabalhadoras. Já a CUT .60 - .CUT e o Partido dos Trabalhadores e trabalhadoras . sem explorados nem exploradores20. contudo. de 1979. tem como pano de fundo o crescimento dos movimentos sociais organizados no Brasil e as intensas lutas dos operários do ABC paulista. A insubordinação dos sindicatos e o crescimento do movimento grevista. O PT levanta bandeiras que extrapolavam as questões salariais e que visavam transformações políticas e sociais bastante profundas. fazendo frente às políticas de degradação das condições de vida da classe trabalhadora. em especial. O governo. . ainda no regime militar. criada em 1983. aglutinava as correntes sindicais mais ativas. dos 16 membros que a compunham. O movimento continua até o dia 27 de março quando os trabalhadores e trabalhadoras resolvem aceitar a proposta feita pelo patronato. que viam o seu poder de compra diminuído a cada mês. É nesse momento de agitação e de organização dos trabalhadores e trabalhadoras que surgem a Central Única dos trabalhadores e trabalhadoras . que era composta por 12 dirigentes sindicais. declara a intervenção nos sindicatos e deflagra uma série de confrontos em praça pública entre trabalhadores e trabalhadoras e policiais. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE).Central Única dos Trabalhadores. elaborando propostas que não convencem os trabalhadores e trabalhadoras. estabelecendo-se nesse período como uma importante organização política e social e fazendo frente de forte oposição ao governo Figueiredo e depois ao governo Sarney. Com o passar de dias de greve o Ministério do Trabalho resolve intervir na negociação. sempre articulado a outras formas de luta organizada como os sindicatos e demais associações populares. SILVA. é impulsionada pelo momento histórico-político de grandes 20 Cf. que colocavam em questão o regime de governo autoritário dos militares. A ascensão da CUT. que tem gravado em seu manifesto de fundação as idéias básicas de um projeto que visa à construção de uma sociedade igualitária. essa afirmação pode ser feita com base na análise da formação da primeira Comissão Nacional Provisória. na esfera da política institucional.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG movimento que se espalha para o interior. demarcando fortemente nesse período uma tendência ideológica socialista. que continua nos anos 80 do século XX. nos anos 80. A CUT tornou-se o inimigo número um das políticas governistas e se firmava como a Central que aglutina o maior número de entidades filiadas. no começo dos anos 80. 04 a 10 de novembro de 2007. Segundo Ozai da Silva (2000). 2000. que se baseava de forma clara em um projeto político anticapitalista.PT.

então. filiadas que representam 8. mas também de saber negociar. O 21 Site: www. com a implantação do modelo econômico neoliberal. em 1945. mantendo uma postura reivindicatória e que tinha como principal instrumento de ação e pressão e a greve.br 22 Site: www. 04 a 10 de novembro de 2007. inclusive em relação a alguns países na América Latina como a Argentina. De um lado. .056 entidades sindicais. para Confederação Geral dos Trabalhadores e trabalhadoras. surge a partir de críticas ao sindicalismo em curso no Brasil. quando foi criada a Confederação Geral dos Trabalhadores e trabalhadoras Brasileiros passando por mudanças.CGT21. segundo informações em seu site. representados por: 1. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE).br 23 A referência base das informações sobre a Força Sindical foi o site da Central. firmar um projeto de organização e ação dos trabalhadores e trabalhadoras.org. autônoma. datando de 1929.600. livre.669. em 1986.61 - . em 1991. Com uma atuação política constante. para Central Geral dos Trabalhadores e trabalhadoras (início da reestruturação) e 1988. passou a Confederação Geral dos Trabalhadores e trabalhadoras. após o seu IV Congresso realizado em São Paulo.cgt. em 1962. à CUT) e. para Comando Geral dos Trabalhadores e trabalhadoras (esmagado pelo golpe de 1964). A superação dessas formas de sindicalismo seria possível na medida em que se lançasse “o movimento dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiros à modernidade. o sindicalismo brasileiro caminha na contramão dos sindicatos no resto do mundo. é uma sigla histórica. segundo informações em seu site. Antes de prosseguirmos. aberta ao debate interno e com a sociedade”. mas também do governo e do empresariado.000 trabalhadores e trabalhadoras (dos quais 30% são sindicalizados. é importante destacar a criação das duas outras maiores Centrais Sindicais brasileiras: a CGT – Confederação Geral dos Trabalhadores e trabalhadoras e a FS – Força Sindical. com o fim da ditadura e com a crise do Estado e da economia hiperinflacionada. Com as mudanças políticas e econômicas ocorridas até o começo dos anos 90. A Confederação Geral dos Trabalhadores . hoje abrange todo território brasileiro. de acordo com Alves (2000). Nesse período. A CGT. sobre um sindicalismo de “conformismo paralisante”. uma ação estratégica mais propositiva. 04 confederações nacionais e 35 federações nacionais /regionais e estaduais A Força Sindical22. com filiais em 21 Estados e conta com 1.000 filiados). foi criada em 1991 a partir de Congresso em São Paulo. o que corresponde a 2. pluralista.org. a crítica recaia sobre um sindicalismo de “radicalismo estéril”23 (crítica. a empreender esforços no sentido de pragmatizar as lutas com “conquistas reais para os trabalhadores e trabalhadoras”. Enquanto nesses países os sindicatos entravam em depressão por falta de participação e por perder poder político. no Brasil vivia-se o que se denominou a década de explosão do sindicalismo. A Força Sindical passou.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG transformações.forçasindical. por outro. para construir uma central forte. a CUT procurou estabelecer. em especial.017 sindicatos de base. capaz de endurecer quando preciso. a CUT procurou na década de 1980. elaborando propostas de políticas que poderiam ser discutidas em fóruns que contassem com a presença de representantes não só dos sindicalistas. classificado como “sindicalismo defensivo”.

04 a 10 de novembro de 2007. 1997. Na verdade. os sindicatos viviam um processo generalizado de enfraquecimento”25. foram resultados dessa forma de se construir e de se fazer sindicalismo. não era visto como um bom negócio para o capital.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Centro de Solidariedade ao (a) trabalhador (a). do judiciário. a Qualificação Profissional. . suas lutas deixaram marcas”24 profundas. 17. ele permitiu um significativo aumento da liberdade de organização e ação sindical.62 - . nesse sentido. Pode-se afirmar. Educação e Qualificação Profissional”. o princípio da unicidade sindical e a estrutura confederativa – foram mantidas. em 1999. baseada no contrato coletivo de trabalho – tivesse sido derrotada pelo empresariado e pelos setores mais conservadores do próprio movimento sindical. que se utilizava dos baixos salários pagos ao operariado como principal elemento da competitividade da indústria nacional. conseguia colocar seus produtos no mercado a um preço menor que os internacionais. em nível internacional. o “1º de Maio pelo Emprego” em 1998. política. quando. embora a proposta pela qual os setores de ponta do sindicalismo vinham lutando ao longo de todos esses anos – de superação da estrutura sindical corporativa e de sua substituição por uma institucionalidade sindical democrática. 25 LEITE. 17. sobretudo o operariado fabril dos anos 80. Apesar do crescimento e da força do movimento operário dessa época. pelas grandes reformas – previdenciária. p. portanto. começava a sofrer as transformações nas relações de trabalho e de produção que sinalizavam para transformações que iriam reestruturar o processo produtivo fabril. agrária. Com isso. assim como “a luta pela aposentadoria. Mesmo que o processo de surgimento e desenvolvimento do “novo sindicalismo” “não tenha sido suficiente para desmontar totalmente a estrutura sindical corporativa erigida desde os anos 30. Essa reestruturação tinha como um de seus principais aspectos a inserção de novas tecnologias que visavam à diminuição quantitativa da exploração da força de trabalho e a verticalização da exploração qualitativa. fiscal e sindical e pela flexibilização das leis trabalhistas – dando-se status à negociação livre entre empregadores e empregados com o apoio dos sindicatos e das centrais”. e o “1o de Maio pelo Brasil – por Emprego. O aumento de salário requerido pelos trabalhadores e trabalhadoras. A Força Sindical se assenta sobre um discurso que acentua o moderno. “que o movimento sindical brasileiro esteve na contramão da tendência histórica predominante durante a década de 1980. o monopólio da representação pelo sindicato. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). tornando-se um dos elementos mais importantes da constituição da hegemonia do capital sobre o trabalho nos anos 80 e 90 do século XX. Essa resistência dos trabalhadores e trabalhadoras ia de encontro às políticas de exploração do trabalho estabelecidas pelo capital industrial brasileiro da época. a pluralidade e a democracia. vinha a reordenar a organização e a gestão da produção fabril que até então 24 LEITE. p. a classe trabalhadora. tendo em vista que suas bases fundamentais – como o imposto sindical. 1997. Essa reestruturação produtiva do capital que começava a se desenhar no Brasil nos anos 80 e que já estava a pleno vapor nos países de centro da economia capitalista. ao conquistar uma capacidade de intervenção política inédita na história do país.

Mas. a década foi também um período de inflação muito alta e de recessão econômica com aumento do desemprego. É claro que os prejuízos desse processo foram transferidos para a classe trabalhadora. fatores que colaboraram para uma diminuição das ações reivindicatórias dos trabalhadores e trabalhadoras que se viam pressionados pelo crescente desemprego estrutural. do outro lado. sindicatos e demais organizações. Dois anos depois tem o mandato cassado por corrupção. se esse movimento seguiu um processo temporalmente mais lento nos países de primeiro mundo. com a reformulação tecnológica de parques industriais em pouquíssimo tempo. ex-líder operário e um dos fundadores do PT.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG estava montada totalmente nos moldes do esquema de produção taylorista/fordista. Para os capitalistas. no Brasil as transformações aconteceram rapidamente. 04 a 10 de novembro de 2007.63 - . e pela instalação de um governo civil proclamada como a retomada da democracia no Brasil. o novo presidente do Brasil. no segundo turno. Mas o estrago já estava feito. é marcado pelo fim da ditadura militar (1985). com a abertura e a liberalização da economia realizada por Fernando Collor de Mello. sem dúvida. organização do processo produtivo criada no Japão e exportada como modelo para os demais países capitalistas. O processo de abertura da economia brasileira seguiu tornando-se mais agudo com os governos posteriores. Implanta uma política de importação de bens de consumo e de produção. colocando em risco o processo de acumulação e reprodução do capital. . possibilitando a luta dos trabalhadores e trabalhadoras concomitantemente às transformações. que procurava fazer resistência à ação avassaladora do capital. era candidato Fernando Collor de Melo. esse era o começo da implantação da acumulação flexível baseada no toyotismo. de duas frentes bastante diferentes. Um dos mais importantes fatos desse momento foi. procurando minimizar os danos e os prejuízos que o operariado sofreria com esse novo modelo de produção. Esse novo arranjo do capital encontra ainda uma força de trabalho organizada. Uma que tinha como candidato Luís Inácio “Lula” da Silva. o período de 1980 a 1990. e que ganharia força no Brasil a partir dos anos 90. o ritmo de instalação das novas tecnologias foi bastante forte e agravado pela falta de condição e de tempo que os trabalhadores e trabalhadoras tinham para se contrapor a esse movimento. Em 1989 tivemos o enfrentamento. Por outro lado. fantoche criado pela burguesia e pelo poder político conservador e demais larápios nacionais. pelo voto direto. que mais uma vez se viu arcando com o ônus 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Nesse modelo o descontentamento e a organização dos operários era crescente. É que. que contava com o apoio de uma ampla gama de organização dos trabalhadores e trabalhadoras. O desfecho não poderia ser pior: Fernando Collor de Melo é eleito presidente com o discurso da necessidade da abertura econômica. o processo eleitoral que elegeria. Devemos lembrar que. com amplo e irrestrito apoio da imprensa nacional (leia-se Rede Globo). Uma das formas de resistência foi à proposição da instalação das Comissões de Fábrica e a intervenção sindical no processo de decisão da inserção de novas tecnologias no processo produtivo. dando os primeiros retoques para liberalização da economia ao iniciar o processo de privatização das empresas estatais brasileiras.

também. mais trabalhadores e trabalhadoras buscam na informalidade formas de ocupação. Mas. com o governo se empenhado em seguir amplamente a “cartilha” do Fundo Monetário Internacional. tornou a relação entre capital e trabalho mais injusta no Brasil. mas o faz. a política adotada foi a de continuidade da implementação das políticas neoliberais iniciadas por Fernando Collor de Melo. A implementação pelo governo federal de um modelo político econômico centrado no neoliberalismo. As transformações do modo capitalista de produção têm se realizado no Brasil com mais força no âmbito da implantação de políticas de cunho neoliberal e procuraram. pp. ao mesmo tempo em que. diminuindo gastos na esfera social e contribuindo na soma das transformações estruturais do processo de produção capitalista em nível mundial. Nesse sentido. 04 a 10 de novembro de 2007. ao abrir abruptamente a economia brasileira. que tem reflexos. aumentando de maneira extremamente rápida os níveis de desemprego no país. Isso acabou barateando o custo do Trabalho para o Capital. impedindo que este tivesse qualquer benefício estipulado por Lei. um fenômeno que afetou e afeta. Com a criação de contratos temporários que deixaram o trabalhador e a trabalhadora desprovidos de qualquer direito.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG necessário a ser pago para o “bom desempenho” dos indicadores da economia nacional. com a eleição do Presidente. como a automobilística. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). 26 LEITE. não se encontrava preparado”26. agora na era da mundialização dos capitais. favorecendo sobremaneira o primeiro. “A política econômica neoliberal inaugurada pelo governo Collor em 1990 jogou o país numa profunda crise recessiva. As ações das instituições governamentais revelaram a face intervencionista das instâncias burocráticas do Estado. sobretudo as regiões de grandes indústrias. Com as dificuldades políticas e econômicas conjunturais locais. tem-se um aumento da miserabilidade de grande parcela da população brasileira. garantindo às empresas maior flexibilidade no uso e desuso da força de trabalho. . Conseqüentemente. Fernando Henrique Cardoso. gerando novos desafios para os quais o movimento sindical. Montado no discurso de geração de postos de trabalho. as ações do governo FHC procurou estimular o surgimento de relações de produção. diminuindo o consumo de produtos internos e desencadeando um processo gerador de mais desemprego. Neste novo contexto de reestruturação do capital mundial. a situação do movimento operário muda significativamente com a chegada dos anos 90. que de acordo com os princípios liberais não deveria intervir no movimento do mercado. de maneira geral. 1997. noutras regiões e setores do país devido à implantação de políticas econômicas que abrem o mercado brasileiro para produtos externos. 17-18. que se contrapunham às Leis Trabalhistas vigentes. acabar com os “entraves” gerados pelas leis trabalhistas na relação Capital/Trabalho. A partir de 1994.64 - . sem impedimento legal e reduzindo a contestação no campo institucional formal por parte dos sindicatos. dentre outras ações. houve um número crescente de trabalhadores e trabalhadoras brasileiros vivendo o drama do desemprego. forçou as empresas a acelerar seus processos de reestruturação produtiva. desde que seja para utilizar o poder político institucional para a otimização das condições de reprodução do Capital. privatizando as empresas estatais.

Desta forma. O fenômeno crescente do desemprego e da precarização do trabalho. Pautado em pressupostos liberais. contando muitas vezes com a participação de algumas organizações sindicais. que se reconfiguram modificando a legislação ou mesmo desobedecendo-a. 1998. são vistos.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Nesse período. que tem como diretriz a desregulamentação. ficou evidente uma outra contradição na forma de atuação do Estado. Esse fato pode ser constatado se analisarmos os projetos que visavam modificações nas leis que regiam os contratos de trabalho. o que colabora para a degradação das condições de trabalho daqueles que continuam formalmente empregados. reduz o poder de luta organizada da classe trabalhadora. foram de estimular a informalidade e a precarização do trabalho. como forma de evitar o aumento do desemprego. que são em sua maior 27 Cf. estimulando a ampliação das condições para o aproveitamento e exploração da força de trabalho. o discurso ideológico que sustentava as ações governamentais estava fundado no liberalismo econômico. até pelos discursos oficiais. O mesmo Estado que em outros momentos procurou mostrar-se como mediador ou imparcial frente ao confronto Capital X Trabalho. o governo FHC sempre procurou justificar a aceitação do crescimento contínuo da precarização das relações de trabalho alimentando uma política de desregulamentação do mercado. que precariza o emprego e. ou que permitiam que houvesse contratos de trabalho que não atendessem aos princípios da legislação. da desregulamentação e do desmantelamento do aparato institucional que garantia alguns direitos básicos à classe trabalhadora. longe de serem uma anormalidade pelas forças econômicas e políticas dominantes. frente à “intempéries” do mercado e das investidas extremas de espoliação dos empregadores. 04 a 10 de novembro de 2007. Neste sentido. Desta forma. no trato das questões relativas ao Trabalho e à economia informal. se refletindo no esvaziamento dos sindicatos. os pronunciamentos e as atitudes tomadas pelo governo. Esta situação demonstra o poder de influência da classe dominante sobre os aparelhos do Estado. conseqüentemente. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Enquanto o discurso oficial pregava a regularização e a regulamentação dos trabalhadores e trabalhadoras e das transações econômicas informais. como conseqüências naturais da nova ordem política e econômica estabelecida para a organização e participação dos atores econômicos no mercado capitalista. que de outra maneira só poderia ser conseguido com o crescimento econômico. Assim. do trabalho informal. cuja existência passa a ser denunciada como obstáculo à expansão do emprego formal27.65 - . que se mostra o desgaste e a fragilidade das atuais formas de organização dos trabalhadores e trabalhadoras. a sofrer pressões sobre os seus salários e seus direitos trabalhistas. SINGER. para melhor colaborar com o atual contexto organizativo do Capital. . neste contexto de precarização das relações de trabalho. fica evidente o desmonte do já insuficiente aparato institucional de proteção ao trabalhador e a trabalhadora. corrobora sem disfarce à sua vinculação com o Capital. Os que continuam formalmente empregados passam. tornou-se crescente o desemprego. é no crescimento do desemprego.

também legalmente contratados como uma força conjunta frente ao capital. estão fora da sua área de atuação legal. uma categoria específica e não a todos os trabalhadores e trabalhadoras. ou não tornam interessante. Todo esse novo contexto. Como instituição. Com o aumento do desemprego e da informalidade do trabalho tem uma diminuição considerável de sua base de representação. como não poderia deixar de ser. ou no não-enfrentamento por parte destes das atuais condições de exploração do trabalho. Combinada a terceirização ao desemprego. seja pelo desemprego ou pela informalidade.66 - . A diminuição da participação dos trabalhadores e trabalhadoras nos sindicatos. Há uma preocupação maior em reintegrar o desempregado ao mercado de trabalho. é que os sindicatos perdem atualmente o seu poder de representação. e não um projeto de organização dos trabalhadores e trabalhadoras para o enfrentamento da atual política econômica. que privilegia a dimensão de categoria e profissional. já que os desempregados e os trabalhadores e trabalhadoras precarizados. em grande medida. a maior exposição de algumas categorias de trabalhadores e trabalhadoras às investidas dos capitalistas no sentido de diminuir o custo do trabalho. E por estar organizado política e estruturalmente desta forma fragmentada e institucionalizada. organizar os trabalhadores e trabalhadoras que estão fora do mercado de trabalho formal. pelos motivos aqui apontados. pareça não dizer respeito a outras categorias de trabalhadores e trabalhadoras. 04 a 10 de novembro de 2007. que por serem reconhecidamente institucionais trabalham dentro de normas que não permitem. a representatividade sindical é corroída à medida que sua pretensão de falar pelo mundo do trabalho ou ao menos de sua parcela majoritária torna-se crescentemente insustentável. organizando. temos que considerar a fragmentação existente entre os sindicatos instituídos de acordo com a categoria de trabalho. têm deixado de ser um instrumento de luta dos trabalhadores e trabalhadoras frente ao Capital para passar a 28 Atualmente os sindicatos têm lutado muito mais para a manutenção do emprego do que por melhorias nas condições de trabalho e de salário. sobretudo no que diz respeito aos direitos trabalhistas conquistados através da luta organizada. estes trabalhadores e trabalhadoras. em tese. os sindicatos. . pois como sabemos os sindicatos acabam por representar um fragmento da classe trabalhadora. a precarização torna-se um elemento corrosivo da base sob a qual se assenta a legitimidade e representação dos sindicatos.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG parte sindicatos que organizam. estão fracionados para representar as diferentes categorias. representam e defendem os direitos de determinada categoria28. leva. informais. que tem no avanço tecnológico uma maneira de poupar quantitativamente a força de trabalho. As greves. No aumento da informalidade e de seus efeitos sobre os sindicatos. Esta fragmentação colabora para que os problemas enfrentados por determinada categoria que cumpre sua função na divisão social do trabalho. somada à insegurança no emprego gerada pela reestruturação produtiva. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Logicamente. com o enfraquecimento da entidade representativa. como acontece atualmente com os metalúrgicos do ABC. tem se refletido nas atuações dos sindicatos. o que tem impedido por vezes a participação conjunta de toda a classe trabalhadora em suas reivindicações.

O sindicalismo do Brasil nos anos 80 inovava nas suas reivindicações pela criação das comissões de fábrica e desafiava o capital. chegando a vinte milhões de trabalhadores e trabalhadoras29. 04 a 10 de novembro de 2007. BOITO. que nesse período também sofria as conseqüências das ações políticas e econômicas comandadas pelo governo. protestando contra mais um plano de estabilização do governo. em pleno regime militar e protestava contra um decreto que modificava a política salarial. que o surto de reestruturação produtiva no Brasil sofre um novo avanço. teve grande expressividade no movimento operário dos anos 80. o número de grevistas nesta greve dobrou em relação à de 1987. A CUT. As greves gerais arquitetadas pela CUT resultaram em fortes movimentos de contestação e foram de grande importância política. Adotava uma postura oposicionista franca e direta de maneira a construir uma estratégia sindical combativa em relação à política pró-monopolistas. colocando em questão o controle exercido durante todo período de implantação do capitalismo industrial no Brasil. nas técnicas utilizadas nas fábricas japonesas e que correspondiam melhor as vontades do capital internacional. É justamente no período dos anos 80. mas o movimento dava também ênfase a palavras de ordem como: não ao pagamento da dívida externa. os petroleiros.67 - . reforma agrária. Ao todo foram quatro greves gerais nesse período. enquanto forma de organização unificada dos trabalhadores e trabalhadoras. A quarta greve aconteceu em 1989. particularmente contra o fim do congelamento de preços. A terceira greve geral comandada pela CUT realizou-se em 1987. como temos visto nos últimos anos. organizando as greves gerais em oposição às políticas adotadas pelo governo brasileiro. 2000. tendo a participação de dois a três milhões de trabalhadores e trabalhadoras. o Plano Verão.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG realizar ações. Necessário se faz. que modificava a política de indexação dos salários. ALVES. . apresentar com maior profundidade a atuação da CUT nas décadas de 1980 e 1990. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). A segunda aconteceu em 1986. sobretudo. principalmente em relação às greves. 30 Cf. de maneira a incorporar as novas tecnologias nos processos produtivos e implementar novas formas de gestão e controle da produção baseadas. 29 Cf. os professores da rede pública de ensino federal e estadual. de manutenção de empregos e de alguns dos direitos conquistados historicamente. Essa última greve também contou com a participação ativa de vários setores: os metalúrgicos e trabalhadores e trabalhadoras da indústria automobilística e química. A primeira acontece em 1983. A principal característica da greve foi a de ser uma reação ofensiva da classe trabalhadora brasileira no sentido de se contrapor às investidas do capital e conquistar direitos para a classe trabalhadora. composta nesse período pelas correntes sindicais mais ativas. semana de quarenta horas e estabilidade de emprego. pró-imperialistas e pró-latifundiária do governo. entre outros. que procurava a manutenção do controle sobre o trabalho no lugar da produção. contrapondo-se ao Plano Bresser e que tinha como motivação as modificações nas políticas salariais. que visavam dar maior espaço e criar melhores condições para o desenvolvimento capitalista no Brasil30. 1999. em protesto contra o Plano Cruzado II. ainda.

nos anos 90 desarticula-se e se torna debilitado em sua capacidade de movimentação e organização da classe trabalhadora. apoiado pelas políticas do governo nacional que estimulou e legalizou a precarização das relações de trabalho. a luta sindical. do que movimentos de reivindicação e de tomada de controle do processo produtivo ou de contestação ideológica. participam de um novo contexto histórico e social no Brasil. o sindicalismo classista e unificado que havia sido obstáculo durante os anos 80. são produtos conhecidos e visíveis desse processo de liberalização da economia. pois. mesmo com a saída vergonhosa de Collor via Impeachment. . o aumento das importações. para o enfraquecimento das formas organizativas e de luta da classe trabalhadora. somados à reestruturação do processo produtivo com base na aplicação de novas tecnologias. o que permitiu uma investida mais dura do capital sobre os trabalhadores e trabalhadoras. o desmantelamento do parque industrial nacional e o crescimento da miséria e do desemprego. conseqüentemente. 04 a 10 de novembro de 2007. Um projeto que visava criar as condições para instauração do neoliberalismo e que. tem colaborado para a precarização das relações de trabalho no Brasil e. A abertura da economia para o capital estrangeiro. Essa crise da organização sindical brasileira acabou por colaborar para a instauração do novo modelo político e de acumulação. ou na intenção de manter os empregos existentes. Tais fatores. Com a vitória de Fernando Collor de Mello nas urnas e pelo voto popular. As greves deste período foram muito mais na busca de manter os direitos sociais conquistados historicamente. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). continuou a ser orquestrada pelos seus sucessores Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso. é eleito também um projeto neoliberal para a política econômica brasileira.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG A partir dos anos 90. e logicamente a CUT.68 - .

refletir e compreender as ‘idéias’ que promoveu a constituição e consolidação do movimento sindical brasileiro. Quanto à Sociedade e ao Estado. e de geração. no campo e na cidade.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG CONCEPÇÕES E CORRENTES SINDICAIS NO BRASIL Amarildo Carvalho de Souza e Domingos Corcione A trajetória das concepções e correntes políticas que constituíram e constituem o movimento sindical brasileiro. no campo e na cidade. a autoridade e a dominação”. como alternativa. na perspectiva de uma maior compreensão da trajetória e contemporaneidade do sindicalismo no Brasil. AS PRINCIPAIS IDÉIAS DO ANARQUISMO Anarquismo vem da palavra grega ANARQUIA. de visões de mundo e de projeto de sociedade. construída ao longo dos seus 43 anos de existência. os Anarquistas defendiam as seguintes idéias:  O capitalismo deve ser derrubado e. Existem diferentes níveis de consciência de classe. a pesquisar. que significa “contra o governo. é reveladora do grau de desenvolvimento da luta de classes. Nesse sentido. no campo e na cidade. Foi feita a opção de nos debruçar sobre 04 concepções e correntes. A reflexão e aprofundamento dessas concepções e correntes. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). de gênero. parte da identidade política do Movimento Sindical dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais. politicas. melhoria e desenvolvimento do capitalismo”. constituem-se em espaços privilegiados de enfrentamento de interesses. deve ser implantado o socialismo. muitas vezes distintos. existem segmentos que muitas vezes expressam programas de “conservação. revela o grau de independência e maturidade política da classe trabalhadora brasileira. raciais. as organizações sindicais e os movimentos populares. étnicas. 04 a 10 de novembro de 2007. A ENFOC não se propõe a aprofundar todas as concepções e correntes politicas. disposto a lutar de forma unânime pelas mesmas bandeiras. . aliás. luta não apenas por melhores salários. Os trabalhadores e trabalhadoras não são um todo homogêneo e monolítico.69 - . mais que isso. Inclusive. A classe trabalhadora. econômicas. Esperamos que estes textos estimulem aos participantes do 1º Curso da ENFOC. mais também. pela superação das desigualdades sociais.

Devem ser organizados a partir do local de trabalho e implementar as lutas reivindicatórias.). visando organizar a greve geral. Devem ser formados somente por trabalhadores e trabalhadoras conscientes. Os anarquistas assumiam uma posição antiparlamentarista e antipartidária. levando-as sempre mais adiante. pois são um mal e uma fonte de opressão.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG   O socialismo deve ser democrático. as eleições e a Igreja. 04 a 10 de novembro de 2007.70 - . em formas federativas ou em confederações: em nível local. formado por comunidades independentes. sempre preservando a autonomia de cada organização e evitando qualquer tipo de centralização que venham a prejudicar a participação direta dos trabalhadores e trabalhadoras em todas as decisões. Devem se unir segundo os ramos de produção.que foram seus primeiros idealizadores . sustentados exclusivamente pelos trabalhadores e trabalhadoras. propondo a criação de cooperativas sem fins lucrativos voltadas para o auto-abastecimento e de bancos que concedessem empréstimos sem juros aos 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). greves). Os anarquistas eram contrários à liberação de dirigentes sindicais. Para eles os sindicatos:           Devem ser a arma principal de luta para derrubar o capitalismo e implantar o socialismo. Quanto à concepção e à prática sindical. Pregavam a revolução proletária. formar sua consciência política.e de outros seguidores. forças armadas. Deve organizar somente os trabalhadores e as trabalhadoras. dispostos a assumir a liderança na luta pelo socialismo. descentralizado. boicotes. sem nenhuma interferência do Estado. parlamento. a auto-gestão e o internacionalismo proletário.. Promover atividades culturais. que derrubará o sistema capitalista. polícia. Bakunin32 . O ANARQUISMO NO MUNDO O anarquismo se iniciou na metade do século XIX. Por meio de Proudhon31. o socialismo sem classes e sem Estado. 31 Precursor do anarquismo enfatizava o respeito à pequena propriedade. Devem ser organizados em pequenos grupos de fábrica ou por ofício.. É preciso lutar contra o Estado (governo. os anarquistas tinham posições bem definidas. Deve organizar os trabalhadores e as trabalhadoras. Não consideravam a aliança com a classe média. que possam favorecer a conscientização dos trabalhadores e trabalhadoras. onde todos tenham condições de participar. Devem priorizar a ação direta (mobilizações. estadual e nacional. como classe que se opõe à classe dos patrões. coordenadas a partir de centros de produção dos trabalhadores e trabalhadoras organizados em sindicatos. Devem ser autônomos e livres. poder judiciário. na França. . possibilitando a mais completa democracia.

O sindicalismo deve ser de resistência e não assistencialista. em conseqüência.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG se expandiu para a Rússia e para toda a Europa. com a condição de que consintam livremente dela fazerem parte". em estreita relação com a luta e o projeto político revolucionário. até chegar aqui no Brasil no final do século XIX. As propostas vencedoras do Congresso e a linha predominante da COB eram da corrente dos anarquistas:     A organização dos operários deve ser federativa e não centralizada. depois. apesar de já estarem presentes em alguns segmentos da sociedade brasileira. . num contexto em que o jogo político era exclusividade das oligarquias e inexistia qualquer proteção ao trabalho. O Congresso fundou a Confederação Operária Brasileira (COB). Essas famílias formaram comunidades com ideais libertários e constituíram as primeiras cooperativas. É preciso combater as visões reformistas dos agentes do Governo e da Igreja Católica. e das decisões dos congressos operários. 04 a 10 de novembro de 2007. O importante é a ação direta da classe operária. A DIFUSÃO DO ANARQUISMO NO BRASIL As idéias anarquistas. O anarco-sindicalismo influenciou também o campo. perante a sociedade da qual fazem parte. tendo como objetivo a ajuda mútua. Foram muitas as cooperativas e outras organizações de caráter cooperativo criadas pelos anarquistas. da imprensa. atribuindo um papel político e revolucionário ao cooperativismo rural. nas primeiras décadas do século XX. seus principais veículos. sendo substituído por uma "república de pequenos proprietários" organizada num sistema federativo. portugueses. começaram a ganharam força no Brasil nas últimas décadas do século XIX. particularmente na Itália e na Espanha. AÇÃO DOS ANARQUISTAS NOS SINDICATO Em 1906 houve o 1º Congresso Operário Brasileiro. italianos.71 - . A expansão do anarquismo foi rápida nas grandes cidades brasileiras. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). afirma que "A liberdade é o direito absoluto de todo homem ou mulher maiores de só procurar na própria consciência e na própria razão as sanções para seus atos. de determiná-los apenas por sua própria vontade e de. mesmo enfrentando problemas econômicos e repressão. serem responsáveis primeiramente perante si mesmos. por meio de imigrantes espanhóis. empreendimentos produtivos e crédito gratuito aos trabalhadores. mais precisamente no Paraná e posteriormente em Santa Catarina e Rio Grande do Sul. dos panfletos. Suas propostas de supressão do Estado e de todas as formas de repressão encontraram receptividade entre os trabalhadores e trabalhadoras. eleitos por 28 organizações operárias de todo o País. greves e outras formas diretas de luta. sem passar pela intermediação parlamentar: priorizar boicotes. franceses e belgas. As teorias e táticas do anarco-sindicalismo foram difundidas por meio de livros. com 43 delegados. 32 Outro precursor do anarquismo. quando varias famílias de imigrantes italianos chegaram ao sul do país. Dizia que o Estado deveria ser destruído.

Essa conclusão partia da seguinte convicção: cada ação direta é uma batalha na qual o proletário conhece as necessidades da revolução. isto é. boicote. Havia duas federações estaduais:   A Federação Operária de São Paulo (FOSP). dirigida pelos comunistas.era considerada um meio dos trabalhadores e trabalhadoras aprenderem a agir de uma maneira solidária em sua luta por melhores condições de trabalho. que não contavam com bases expressivas na capital). com o desmantelamento da própria COB. A greve de 1917 foi comandada pelos anarquistas.72 - . 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE).era vista como especialmente eficaz para o proletariado. A justificativa utilizada para a aprovação dessa lei repressiva era evidente: o movimento operário estava sendo controlado por lideranças estrangeiras radicais. Em 1921 foi aprovada a Lei de Expulsão dos Estrangeiros. Como era ainda um número reduzido e não possuíam muitos recursos econômicos. 04 a 10 de novembro de 2007. por meio de sua própria experiência. Os primeiros jornais anarquistas e anarco-sindicalistas tentaram se sustentar apenas com as contribuições dos militantes. (sindicatos de cidades do interior. A sabotagem – por exemplo . contra seu inimigo comum. sob a influência anarco-sindicalista. no caso em que ele não pudesse entrar em greve. Everardo Dias e Edgard Leuenroth. O principal foi o recrudescimento da repressão por parte do governo. que iludiam trabalhadores e trabalhadoras nacionais! Desde o início dos anos ’30 as principais categorias de trabalhadores e trabalhadoras do Estado de São Paulo estavam organizadas em sindicatos. houve anos difíceis para o movimento operário. . Por isso. que legitimava a deportação sumária de lideranças envolvidas em “distúrbios da ordem” e o fechamento de organizações operárias. Esse jornal continuou irregularmente até 1920. os capitalistas. a greve geral que “destruirá o sistema capitalista”. Essa concepção e as práticas dela decorrentes se constituíam numa das características diferenciais do anarco-sindicalismo em relação a outras correntes e formas de ação do sindicalismo brasileiro. Como principais divulgadores do ideário anarquista destacaram-se José Oiticica. cada ação direta . que foi obrigado a enfrentar grandes desafios. Depois da greve. Os principais alvos passaram a ser os anarquistas. A maioria de jornais da época atestou a força e organização dos anarquistas do Brasil. sabotagem. A Federação Sindical Regional de São Paulo (FSRSP). A destruição de equipamentos tocaria no ponto fraco do sistema.greve. . A partir de 1908 a COB publicou seu jornal nacional “A VOZ DO TRABALHADOR”. acabaram sendo poucos os jornais anarquistas que chegaram a publicar mais de cinco números. apesar de alguns avanços em termos de legislação social. Isso não quer dizer que não havia outros grupos políticos que dividiam com eles a liderança do movimento operário. e se prepara para a ação final. O anarco-sindicalismo – assim como o anarquismo em geral – considerava que nas ações diretas seria legítimo o uso de um certo tipo e grau de violência.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Como se viu acima. os anarco-sindicalistas entendiam que “a ação direta deveria ser a grande bandeira do sindicalismo revolucionário". pois as máquinas são de mais difícil substituição do que os trabalhadores e as trabalhadoras. etc. com o maior número de sindicatos e algumas categorias mais importantes da capital paulista.

Nesses grupos ou reuniões podem até aparecer divergências . Existe uma carência de informações relacionadas com o anarquismo e sua atuação na atualidade. É constituído por uma enorme massa de dirigentes burocratizados. foi crescendo a influência dos comunistas no movimento sindical.73 - . Desde os anos ‘80 foi identificado em muitas atividades de massa o movimento anarco-punk. devido à ausência de registros mais precisos.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Durante toda a década de 1930 os anarco-sindicalistas foram à única corrente sindical que se manteve irredutível na defesa da organização autônoma dos trabalhadores e trabalhadoras.mas eles têm um ponto em comum: a luta contra qualquer sistema opressor. Os anarquistas podem ser vistos também:   Em manifestações realizadas para expressar insatisfações e protestos contra reuniões e encaminhamentos promovidos pelo grupo de países mais ricos (G 08). no Brasil e no mundo. Mais tarde. com a implantação da Estrutura Sindical – que tinha o Estado como seu principal regulador . para os quais o sindicato tem apenas um papel assistencialista e de intermediário legal nas relações entre o capital e o trabalho. quanto às estratégias de luta e à maneira de atuar . essa posição os levou ao isolamento político e contribuiu – no contexto das crescentes dificuldades relativas à sobrevivência dos sindicatos livres – para sua perda de influência no movimento sindical. Enquanto a força dos anarquistas foi diminuindo. refletindo a forte influencia de patrões e do Estado no movimento operário. Esse é o aspecto político e social mais profundo da questão: o “pelego” é o agente dos patrões e do Estado no movimento sindical. . de mulheres. organizações sociais e sindicais. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). jovens. assim como na oposição ao sindicalismo corporativista. 04 a 10 de novembro de 2007. inclusive entre trabalhadores e trabalhadoras. Contudo. ONDE ATUAM HOJE OS ANARQUISTAS? Apesar da reduzida presença de anarquistas no sindicalismo. suas idéias continuam vivas em vários segmentos da sociedade.a corrente anarquista foi perdendo cada vez mais expressão e presença no movimento sindical. que continua sendo ativo até hoje.entre os próprios anarquistas ou entre eles e as demais correntes. pela OMC e pelo BID. TRAJETORIA DO SINDICALISMO “AMARELO” OU “PELEGO”. O sindicalismo “amarelo” ou “peleguismo” é um fenômeno antigo no sindicalismo brasileiro. que se expandia e se consolidava no Brasil. Em organizações sociais – de ambientalistas...

Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Já em 1908 o jornal anarquista “A VOZ DO TRABALHADOR” órgão da Confederação Operaria Brasileira – COB definiu-os como “operários que bajulam os potentados. os amarelos ou pelegos representavam à maioria dos dirigentes na época. dado seu caráter secundário na economia agro-exportadora. consequentemente. Já as categorias vinculadas à indústria. como historicamente foi feito nas décadas anteriores”. uma vez que sua paralisação estrangularia a economia. escolas. mais que teve grandes conseqüências. eram tratadas de forma exclusivamente repressiva. O presidente Hermes da Fonseca. Particularmente no Rio de Janeiro era bastante influente essa corrente política moderada. Os Sindicatos “amarelos” passaram a ser ainda mais favorecidos pelas vantagens concedidas pelo Estado. um sindicalismo que concilie patrões e operários e não um sindicalismo revolucionário. Federações e Confederações e destituía suas direções. . os pelegos eram indicados para dirigi-las a partir das orientações governamentais. em prejuízo da autonomia da classe”. de tendência reformista. dentistas. Os grupos revolucionários os chamavam pejorativamente de "amarelos". Já nos primeiros anos da década de 1940 o Estado Novo mostrava seus primeiros sinais de debilidade. Em que pese a forte presença dos anarquistas e. esse segmento conservador encontrou ainda mais dificuldades. Esses grupos preocupavam-se ainda em garantir o reconhecimento dos sindicatos por parte do Estado. como ferroviários e portuários. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). posteriormente dos comunistas e socialistas nas direções dos sindicatos. O chamado Estado Novo. 04 a 10 de novembro de 2007. A criação do Imposto Sindical era o que faltava para garantir a imensa estrutura – com médicos. visando controlar os sindicatos e torná-los órgãos de conciliação entre as classes. Em 1921 o Estado fundou o Conselho Nacional do Trabalho. interessada em obter conquistas específicas como diminuição da jornada de trabalho e aumentos salariais. Lembre-se aqui a afirmativa do Presidente Washington Luís de que “a questão social era simples caso de policia”.74 - . tinham prontamente atendidas suas reivindicações. deixou de significar a manta colocada entre o cavalo e a sela para amortecer os solavancos e passou a ser sinônimo de sindicalista acomodado e comprometido com os patrões e o governo. baseado na luta entre classes inimigas. o sindicalismo amarelo passou a ficar na defensiva. Foi criada também a Confederação Sindicalista Corporativista Brasileira. Principalmente os setores cujas atividades eram indispensáveis para a exportação do café. dentre outras coisas. Mas foi durante a década de 30 que os pelegos conseguiram as condições mais favoráveis para se eternizarem nas direções sindicais. Com a extinção do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) e do Tribunal de Segurança Nacional – organismos de repressão ideológica e política. dentre outras – criada naqueles sindicatos em que o pelego era sua representação maior. em 1912. desenvolveu a primeira ação concreta para uma intervenção governamental nas decisões das organizações de trabalhadores. À medida que o Ministério do Trabalho intervinha nos Sindicatos. isto é. pois organizou um congresso com representações sindicais. “Pelego”. consolidou a seguinte concepção. existentes durante o Estado Novo –. “o sindicalismo brasileiro deve ser corporativo. não revolucionária.

75 - . que se tornou a principal referencia para a retomada das entidades sindicais operarias. em julho de 1978. durante o congresso promovido pela Confederação Nacional dos Trabalhadores na Indústria – CNTI. abraçou o mesmo projeto. especialmente da CNTI. Alguns dos pontos centrais do seu ideário são:  Reconhecimento da vitória do capitalismo e da inevitabilidade da lógica do mercado. para permanecer como órgão de controle sindical e político. Além de receberem todos esses apoios financeiros. decretou a intervenção e suspensão das eleições sindicais. eleições diretas. Assim formou-se. a exemplo da CONTAG. Referimo-nos à confluência da atuação de amarelos ou pelegos com a ação de líderes sindicais pragmáticos. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). dentre outros organismos sindicais internacionais ligados ao governo norte-americano. Tudo isso facilitou que os pelegos retornassem às direções dos sindicatos mais importantes do país. assembléia constituinte . Durante este período. um grupo de sindicalistas que se autodenominavam ‘autênticos’. A retomada das lutas politicas e sindicais no início dos anos 1960 recolocaram os pelegos na defensiva. denunciaram a direção pelega da CNTI e apresentaram uma “Carta de Princípios”. Esse sindicalismo foi modificando sua forma de ser. por exemplo. Dentre outras medidas. objetivava .combater o ‘peleguismo’ das Confederações Nacionais. A fundação do Comando Geral dos Trabalhadores (CGT). procurando coibir as ações autônomas e independentes dos trabalhadores e trabalhadoras. . uma modernização conservadora. da confluência de duas atuações sindicais que vivenciaram trajetórias distintas e que. na segunda metade da década de 1980.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Uma O avanço das lutas operárias foi freado com o golpe e o governo do Marechal Dutra. dominada há décadas pelo pelego Ari Campista. As transformações mais recentes ocorridas nos anos 1980 . que em 1964 teve sua presidência ocupada por um deles. O SINDICALISMO DE RESULTADOS E FORÇA SINDICAL O sindicalismo de resultado nasceu. num dado momento. inicialmente. fortalecido na grande maioria das entidades sindicais. da Organização Regional Interamericana do Trabalho – ORIT. no Brasil. Dutra proibiu a existência do Movimento Unificado dos Trabalhadores (MUT). os pelegos receberam apoio financeiro da Confederação Internacional das Organizações Sindicais Livres – CIOSL.anistia aos exilados políticos. uma nova direita no movimento sindical.estimulou o sindicalismo pelego a um processo de auto-reforma. Apesar dessa hegemonia. fim do bipartidarismo. muitos dirigentes pelegos tornaram-se interventores do Ministério do Trabalho durante o governo militar.dentre outras coisas . 04 a 10 de novembro de 2007. O assistencialismo foi mantido e. que penetrou também no movimento sindical em nosso país. colocou na ilegalidade o partido comunista. os pelegos voltaram a ter hegemonia e domínio sobre os destinos do sindicalismo brasileiro. distinta do velho ‘peleguismo’ e perfeitamente inserida na onda neoliberal.

Por isso. tendo a frete Karl Marx e Friedrich Engels. Atribuir o papel da ação política exclusivamente aos partidos. Que fazem sucesso freqüentemente pela música de baixíssima qualidade e doam apartamentos. em entrevista à Folha de S. eletrodomésticos”33. chama artistas da indústria cultural. Este é o âmbito e o campo ideológico onde o sindicalismo de resultados opera e atua.aliados a uma estratégia que recusa o confronto e procura extrair resultados imediatos nas ações sindicais. não cabendo aos sindicatos extrapolarem este âmbito da luta. os sindicatos passaram a ser vistos como instrumentos que devem contribuir para a luta revolucionária do proletariado pela tomada do poder político. contando com o apoio de cerca de 300 sindicatos. Paulo (20/08/87): “Eu acho que o capitalismo venceu no Brasil. qual é o objetivo do sindicato? É lutar para vender a mão-de-obra pelo preço mais alto possível.caminha no sentido de consolidar o sindicalismo de resultado: um sindicalismo que projete “que todos (os trabalhadores) necessitam. Conforme disse Luís Antônio Medeiros.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG    Restringir a luta sindical à busca de melhorias nas condições de trabalho. 04 a 10 de novembro de 2007. portanto. Eu diria que todo sindicato que se preze faz parte da reprodução capitalista. É a política de pão e circo. E quanto ao papel dos sindicatos: “O sindicato é um fator de mercado e deve. carros. “Estamos procurando caminhos novos. valorizar o preço de mãode-obra”.. . Se crio o mercado interno estou fortalecendo o nosso capitalismo”. Essa doutrina passou a se diferenciar tanto dos reformistas. que devem estar totalmente desvinculados da ação sindical.conformaram uma feição neoliberal e burguesa no seio do movimento sindical brasileiro. a Central organiza grandes manifestações. é algo muito distinto do peleguismo (sempre atrelado ao Estado e dele porta-voz) e conforma o que caracterizamos como sendo a nova direita no movimento sindical. Foi a Força Sindical que introduziu a prática recorrente de um 1° de maio como um circo para os trabalhadores e trabalhadoras. Estes pontos básicos . Eu quero a divisão das riquezas e a minha briga não é pela mudança do regime”. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Para atrair um grande público. ALGUNS REFERENCIAIS TEÓRICOS DO COMUNISMO Com base no assim chamado “socialismo científico” no final do século XIX. reduzindo apenas sua ação a uma linha política privatizante. dizíamos. duas confederações e vinte federações – fundada no início de 1991 . in Jornal dos Trabalhadores Rurais SEM TERRA Ano XXIV – numero 252 – maio de 2006. Diminuir o papel do Estado. calculadas para que não extrapolem o âmbito da negociação . e exigem uma central sindical que não seja ‘revolucionarista’”..76 - . Pois. que pregam 33 Ricardo Antunes é professor livre docente em sociologia do trabalho na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). A Força Sindical.

ao mesmo tempo. a fim de conseguir melhores condições que os coloquem ao menos em situação superior à de simples escravos”. nos meios de resistência contra os incessantes ataques do capital”. em vez de trabalharem. ou pelo menos reduzir essa concorrência. Outra característica da corrente marxista é a defesa da unidade dos trabalhadores. para a sua transformação. enquanto o operário só dispõe da sua força de trabalho. o marxismo condena as tentativas de dividir as organizações sindicais por motivos políticopartidários ou religiosos. Por isso. que negam a luta política pelo poder. uma greve por interesses imediatos. a greve deve ter como principal objetivo organizar os trabalhadores. “Os sindicatos trabalham bem como centros de resistência contra os ataques do capital. Seu objetivo imediato “concretiza“concretiza-se nas exigências do diadia-adia. Aponta outros objetivos da atividade sindical. A divisão dos operários é produto e resultado. sobretudo. Em geral. Do lado do operário sua única força é o número. Para Lênin. . Para o marxismo. as correntes que encaram os sindicatos nos estreitos marcos corporativos. que devem ser “escolas do socialismo”. acumular forças. 04 a 10 de novembro de 2007. a luta puramente econômica não conduz a nada. Mas demonstram ser partes ineficazes em virtude do mal compreendido uso de sua força. Mas a concepção Marxista vai além. Mostra apenas suas limitações e prega a transformação da luta econômica em luta política pela tomada do poder. Os teóricos do comunismo vêem os sindicatos. o marxismo não adota a mesma visão dos anarquistas nessa questão. Entretanto.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG mudanças graduais no capitalismo. Partindo desse princípio norteador. Isso não significa que o marxismo negue a luta econômica. Para Marx. Relaciona sempre as lutas parciais com seu objetivo final. Dos sindicatos nascem precisamente os impulsos espontâneos dos operários para eliminar. erram o caminho porque se limitam a uma guerra de guerrilhas contra os efeitos do sistema existente. o marxismo condena o economicismo.garantindo sua taxa de maisvalia. dos operários aristocratas ou operários aburguesados”. Marx diz: “O capital é o poder social concentrado. Muito pelo contrário. Exatamente por isso. Ele aponta que a greve não deve ser vista como a única arma de luta dos trabalhadores e trabalhadoras. Acompanhando a evolução do sindicalismo. “os sindicatos sindicatos são indispensáveis para a guerra de guerrilha cotidiana entre o capital e o trabalho”. o marxismo vai fazer esforços no sentido da unidade dos trabalhadores. que á a tomada do poder pelo proletariado.. que coloquem em risco a organização dos trabalhadores e trabalhadoras.77 - . portanto. repousar nunca em justas condições. preparando para as novas batalhas. usando a força organizada como alavanca para a libertação definitiva da classe operária”. da inevitável concorrência entre eles próprios.. como centros organizadores do proletariado. deve ser rejeitada. Para essa concepção. já que o capitalismo tem capacidade para assimilar as pequenas melhorias salariais . dos agentes da burguesia. Marx vai perceber a miopia economicista e apontará qual deve ser a tarefa maior dos sindicatos no capitalismo. O contrato entre capital e trabalho não pode. como das anarquistas. principalmente o da Inglaterra. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Mas a força do número se quebra pela desunião. “Não atuar no seio dos sindicatos reacionários significa abandonar as massas operárias insuficientemente desenvolvidas ou atrasadas à influência de líderes reacionários. não se limitando a uma visão economicista.

marcado pela forte repressão ao movimento sindical independente e pela regulamentação e controle das relações de trabalho e da organização sindical pelo Estado Getulista. Entre os fundadores estavam ex-lideranças anarquistas como Astrojildo Pereira e Otávio Brandão. Talvez seja também por isso que os comunistas tenham sido muitas vezes acusados de fazerem do sindicato uma mera “correia de transmissão do partido”. mas destaca que há diferenças entra assas duas formas de organização e que elas devem ser preservadas. Nesse sentido. seja na ilegalidade. Contudo. As décadas de 20 e 30 do século passado foi um período de grandes desafios para o movimento sindical brasileiro. embalados pela criação do primeiro Estado socialista na Rússia. o comunismo surgiu a partir da desagregação do anarquismo – e não da crise da social democracia. o partido revolucionário é um estágio superior de organização. essas premissas não eliminam o risco de uma submissão do sindicato ao partido.78 - . 04 a 10 de novembro de 2007. PARTICIPAÇÃO DOS COMUNISTAS BRASILEIROS BRASILEIROS NO MOVIMENTO SINDICAL No Brasil. o marxismo não nega a importância da luta sindical. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). que viam o Estado como um mal em si. os comunistas o viam como um espaço a ser ocupado e transformado. que se de um lado não se apresentava como uma alternativa imediata de poder causou apreensão do Estado oligárquico. a concepção marxista ressalta a supremacia do partido político sobre o sindicato. Contudo. Entre a fundação do Partido Comunista e seu II Congresso em 1925. militantes brasileiros fundaram o Partido Comunista do Brasil (PCB). dirigida por sindicalistas ligados ao Ministério do Trabalho ou que aceitavam sua tutela. em conseqüência. levando-os a se chocarem com os anarquistas e com a repressão policial. . surgiram as duas características marcantes da atuação comunista: o trabalho em sindicatos reacionários e pelegos e a politização da luta operaria (contra o imperialismo e contra o latifúndio). seja nos breves momentos de vida legal. Ao contrário dos anarquistas. muitos esforços foram feitos para fortalecer o movimento sindical. Para ela. foram de luta entre os sindicatos livres e o governo. como em outros países – e a história dos primeiros anos desse movimento é a crônica de seu esforço para derrotar a influencia anarquista e indicar novos rumos à luta operaria e sindical. Os comunistas defenderam desde o inicio a unidade sindical. Essas concepções os levaram. a buscarem aliados e a participar da vida parlamentar do país. As entidades operárias independentes não aceitavam os decretos sobre sindicalização. Os primeiros aos da década de 1930. crescia progressivamente o numero de entidades organizadas conforme a legislação e. Quando fala em supremacia do partido.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Exatamente por enfatizar que o primeiro objetivo do proletariado é a conquista do poder político. A partir de 1922. Em 1929 é criada a Confederação Geral dos Trabalhadores Brasileiros – CGTB (funcionando até 1936) sob controle dos comunistas que passam a exercer a hegemonia sobre o movimento sindical brasileiro. a principal palavra de ordem dos comunistas foi “ir às massas”.

Naquela conjuntura os sindicalistas comunistas orientados pelo partido. o Partido Comunista começou a se reorganizar em entidades sindicais. O movimento sindical passou a acomodar-se”. Com a eleição de Vargas em 1950. perseguição a todos os sindicalistas independentes. o partido coordenou uma ampla articulação de setores nacionalistas para a formação de uma frente democrática. rápidas e eficazes para os graves problemas econômicos de hoje”. “o PCB organizou a Confederação Sindical Unitária do Brasil. que lutava por um governo popular e que chegou a congregar em suas fileiras amplas massas populares do país inteiro. 04 a 10 de novembro de 2007.79 - . Uma de suas primeiras iniciativas foi à rearticulação do movimento sindical independente. e os mais variados atores sociais. os sindicalistas comunistas foram perseguidos e afastados das direções de inúmeras entidades. principalmente com a extinção do ‘atestado ideológico’. a influencia sindical dos comunistas cresceu. adotando a legenda PC do B. O Partido Comunista foi praticamente dispersado. Quando o Estado Novo entrou em crise.”. surgia uma nova época. Durante o governo Vargas e. alem de junto com outros segmentos da sociedade. No mesmo ano. com representantes de 300 sindicatos de todo o país”. A reação de militantes comunistas vem a ocorrer com mais força em 1962. num congresso com 400 delegados de 11 estados”. eleição e posse dos dirigentes sindicais independente da aprovação pelo governo. que congregava sindicalistas getulistas. Getulio Vargas rasgou – por meio de um golpe . a soberania das assembléias sindicais. sem a presença obrigatória do Ministério do Trabalho. foi desencadeado outra ofensiva conservadora contra a classe trabalhadora: intervenção em mais de 400 importantes sindicatos. “com a derrota do nazismo. “frente única revolucionária anti-imperialista e anti-feudal. . defendia Luiz Carlos Prestes. funda o Movimento Unificador dos Trabalhadores – MUT. “o PCB organizou o Congresso de Unidade Sindical. foi criado o Comando 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). dando inicio à aliança do Partido Comunista com o Partido Trabalhista Brasileiro. A hegemonia desses setores dentro do partido e dentre os sindicalistas comunistas crescia ano a ano. fechamento do Partido Comunista e da CGTB.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Com a promulgação da Constituição Federal em 1934. constituir a Aliança Nacional Libertadora. numa Conferência Nacional Extraordinária. perseguida pelo Governo Vargas. Seu manifesto pedia “a mais ampla liberdade sindical. “ajudando a colocar o movimento sindical em função dos interesses de determinados setores burgueses. Um novo período de colaboração de classes se esboçava. quando foi reorganizado o Partido Comunista do Brasil. apoiado por 300 dirigentes sindicais de 13 estados. Com o governo do Marechal Dutra. Essa orientação de fundo oportunista estava baseada na idéia de que. Tal tendência refletiu-se logo no refluxo da luta pela autonomia sindical e pela destruição da estrutura sindical corporativista. de desenvolvimento pacifico. Em 1937. defendiam claramente a conciliação de classes: “por intermédio das organizações sindicais a classe operaria pode ajudar o governo e os patrões a encontrar soluções práticas. No ano seguinte. após o suicídio do presidente em agosto de 1954. os direitos individuais e coletivos retornam a normalidade. secretário-geral do Partido Comunista. autonomia administrativa para os sindicatos. etc. em 30 de abril de 1945. que prescindiria da revolução.a Constituição e dá origem ao Estado Novo. desde o proletariado até a burguesia nacional”.”.

Segundo o sermão mais conhecido na Europa no século XVI. A partir de 1988. mas os demônios fizeram a burguesia”. passaram a se organizar na Corrente Sindical Classista. As relações capitalistas de produção enfraquecem os preconceitos religiosos. os dirigentes sindicais comunistas ligados ao PC do B.80 - . essa instituição ainda preservava suas tradições elitistas e aristocráticas. o fim da alta do custo de vida. quando o país voltou a mover-se. dos trabalhadores no comercio – CNTC. como político. O 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). sendo o poder espiritual do sistema em vigor. Em 1978. Depende dela também para controlar o jovem proletariado. em 15 de maio de 1891. E era também o poder político. Durante o feudalismo. Ela era a maior propriedade feudal da Europa. Esse conservadorismo não corresponde à mentalidade emanada do novo sistema. esta aparente força não se materializa em reação dos trabalhadores e das suas organizações. via seus tabus ideológicos. “Deus fez clérigos. O capitalismo. As tentativas mais importantes de contrapor-se à perseguição policial e ao arrocho salarial revelaram as limitações existentes e os dilemas em que o movimento operário se debatia.tão marcante no período da Inquisição. dos trabalhadores em empresas de credito – CONTEC. A Igreja se adapta ao novo sistema social. Contudo.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Geral dos Trabalhadores – CGT. Os feudos. tanto econômico. Essa época de recuo durou até 1977. para preservar a “pureza da alma humana” e através da repressão . exigindo o fim da ditadura. a exemplo das greves de Contagem – MG e de Osasco – SP em finais da década de 1960. a Igreja Católica adota oficialmente uma doutrina para a sua atuação no movimento social. apesar de num primeiro momento manter suas tradições aristocráticas. a Igreja perde poder. A nova conjuntura forçou o movimento sindical combativo a recuar. a Igreja possuía grande poder. entretanto. etc. a exemplo das Confederações: dos trabalhadores na indústria – CNTI. dispersos e constituindo-se como mini-Estados. Até esta data. A Igreja exercia esse poder. Posteriormente. dependiam da instituição religiosa para manter o controle político. dos trabalhadores em transporte marítimos. publicada pelo Papa Leão XIII. . anistia aos políticos perseguidos. uma central que colocou em pânico as elites com a perspectiva daquilo que eles chamavam de “República Sindicalista”. controlando cerca de 1/3 das terras agricultáveis. ALGUNS REFERENCIAIS DO SINDICALISMO CRISTÃO A partir da encíclica Rerum Novarum (Das coisas novas). a própria burguesia dá espaço para a refundação da Igreja. 04 a 10 de novembro de 2007. ocorre a primeira grande greve operaria no ABC. ao golpe militar que depôs João Goulart. próprias de período feudal. A orientação cupulista para o sindicalismo continuava com forte influencia em importantes estruturas sindicais. entretanto vigora. principalmente no sindicalismo. A igreja resistiu violentamente ao fim do feudalismo. fluviais e aéreos – CNTTMFA. Exercia com exclusividade o poder religioso. e suas Federações Estaduais.

afirma que a Igreja só passou a se preocupar com o movimento sindical como forma de se contrapor ao aumento da influência das idéias revolucionárias. “o capital e o trabalho devem viver em colaboração um com outro. quando as massas proletárias. necessária e conveniente para o homem. Os estatutos dos Círculos Operários 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). luta de classes obedecendo-se os princípios da “caridade cristã”. diferente do servo camponês. A religiosidade popular não garante mais a sustentação da instituição católica. Os exageros de injustiças devem ser reformados. que deve estabelecer leis para proteção e promoção do ser humano. Eles rejeitaram energicamente as greves e outras formas de confronto. afirmam que o terreno propício é a própria Igreja .81 - .os sindicatos e as cooperativas. Para a Rerun Novarum. de conciliação de classes. Leão XIII considera as idéias socialistas subversivas. e também as novas formas de organização dos explorados . porque prega a supressão da prioridade privada . desiludidas também no plano espiritual (desconfiança da irmandade capitalismo-poder-igreja). que é um marco na viagem da Igreja católica com vista aos movimentos sociais. Outra razão. Entre capital e trabalho não deve haver antagonismos. é um homem “livre”. em 1920. tendo como mediadora a Igreja que dessa forma tenta readquirir o seu poder político. Com base nessa doutrina. Defenderam o papel assistencialista dos sindicatos. “filhos de um mesmo Deus”. particularmente a revolução social do marxismo”. existe no capitalismo “uma desigualdade natural. Para realizar as reformas graduais no capitalismo. tinham sido abandonadas por estas”. De acordo com essa encíclica papal. . inclusive católicos.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG proletariado.” Rejeita. portanto. O fundamental é a paz social. o luddismo. procurando encontrar-se função social” do capital. explica José Cândido Filho. a harmonia entre as classes. A Confederação Internacional dos Sindicatos Cristãos.já que ela reúne patrões e empregados. “porque gera ódios e extingue nos homens o estímulo ao trabalho”. autor do livro “O movimento operário: o sindicato e o partido”. Ela confia a sorte dos trabalhadores à ação do Estado.“que é um direito natural dos homens”. católicas ou protestantes. Além disso. haviam abandonado as Igrejas. ou melhor. segundo o autor. os militantes católicos atuaram no sindicalismo com uma concepção reformista. chega a afirmar que “a vida econômica e social implica a colaboração de todos os filhos de um mesmo povo. Surgem os primeiros conflitos de classe. A encíclica propunha a criação dos sindicatos aos moldes das antigas corporações de artesãos e também estimulava a formação de associações mutualistas. A Rerum Novarum vai criticar tanto o socialismo como o liberalismo. obedecendo aos princípios da caridade cristã”. Outra característica fundamental do sindicalismo cristão é o anticomunismo. sobretudo para enfrentar o avanço do socialismo. Muitos historiadores. 04 a 10 de novembro de 2007. a violência e a luta de classes. central sindical fundada no Congresso de Haia. para torná-lo um sistema “justo e eqüitativo”. é que “o sindicalismo cristão aparece tardiamente (43 anos depois do Manifesto Comunista de Marx e Engels). mas para “proteger os trabalhadores católicos contra os perigos socialistas”. O para qualifica o pensamento socialista como falso. as greves. Daí o surgimento da Rerum Novarum. Parcelas da jovem classe operária se aproximam das idéias anarquistas e marxistas. Miguel Gonzáles Núniz acredita que uma das causas do fraco desenvolvimento da corrente cristã é que ela não atuará nos sindicatos como organismos de luta por conquistas materiais. “Ela nasceu. A Igreja perde base social.

foi levada à prática em vários países. a Igreja organizou os círculos operários. As mudanças que a Igreja vivia a nível internacional tiveram influencia decisiva nesse quadro. em 1968 (confirmadas em Puebla. envolvendo mais de 2 milhões de filiados. a implantação do pluralismo sindical . os deputados eleitos com o apoio do LEC (Liga Eleitoral Católica). Calcula-se que no auge do movimento. a hierarquia católica apresenta ao ditador Getúlio Vargas a proposta de transformar os aproximadamente 400 círculos operários católicos existentes em sindicatos paralelos. mais uma vez. Essa tese. Um dos primeiros itens de seu objetivo era o “combate ao comunismo”. no final da década de 1970. O documento foi confiscado pela policia e os bispos foram proibidos de publicá-lo D. Escolas de Lideres Operários e Movimento de Orientação Sindical.que inclusive é aprovado. foi acusado de comunista e ameaçado de prisão. juntamente com a reação. seu temor era o contágio dos fiéis com as novas idéias. juntamente com os parlamentares da UDN. com o apoio da Regional Nordeste II da CNBB. defendem. que proliferaram nas grandes e medias cidades brasileiras a partir de finais da década de 1960. E na Constituinte de 1945. Em 1966. Os Círculos Operários. 04 a 10 de novembro de 2007.82 - . a implantação do pluralismo sindical. . que atuavam por fora dos sindicatos existentes. um livreto muito difundido “Como combater os comunistas nos sindicatos”. SINDICALISMO CRISTÃO NO BRASIL Desde o início da atuação organizada dos católicos no sindicalismo brasileiro. A Igreja advoga a separação dos católicos dos que professam confissões e idéias diferentes. desenvolvimento sem justiça”. Helder Câmara. As profundas mudanças promovidas pelo CELAM (Conselho Episcopal Latino Americano) em Medellín. foram responsáveis pela formação de inúmeras lideranças sindicais em todo o país. O Concilio Vaticano II já havia apontado o caminho da realização do reino de Deus neste mundo neste mundo. uma direção que seria seguida por enorme parcela do clero brasileiro que. dentre eles. Estas lideranças estiveram ao lado dos conspiradores do golpe militar de 64. seu numero chegou a atingir entre 50 a 100 mil CEBs. fundamentavam a atuação dos progressistas da Igreja brasileira. Vários materiais foram publicados nesse sentido. Em pleno Estado Novo. como importantes instrumentos de organização e mobilização. por sua vez. que recomendavam a opção preferencial pelos pobres. A Igreja do Nordeste foi pioneira nas criticas radicais contra o regime. Na Constituinte de 1934. principalmente na Europa. Um dos resultados mais visíveis das mudanças promovidas em Medellín foram as comunidades eclesiais de base – CEBs. tendo a frente o cardeal Sebastião Leme.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Católicos no Brasil são bem elucidativos. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). em todo o país. o manifesto “Nordeste. os deputados vinculados à Igreja defenderam. que leva à fragmentação da organização sindical. escrito por Frei Celso em 1964. em 1979). da Federação dos Círculos Operários de São Paulo. uma forte denúncia do regime e da situação da classe trabalhadora. bispo de Recife. influiria de forma também decisiva na modernização do clero latino-americano e na formulação da Teologia da Libertação.

• Sindicatos e organizações • Negação da existência da luta comuns (entre patrões e de classes. • Formação ideológica de • lideranças sindicais 1. 04 a 10 de novembro de 2007. esse movimento culminou na fundação da Central Única dos Trabalhadores – CUT. IV Encontro Nacional da Articulação Nacional dos Movimentos Populares e Sindicais). oposições sindicais. e lideranças católicas.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Quando o movimento operário brasileiro atingiu novo patamar. no ano seguinte. Desenvolver a função social do capitalismo. • Realização do reino de Deus Teologia da Libertação neste mundo Opção preferencial pelos pobres • Denúncia do regime e da Organização social de base (CEBs situação da classe trabalhadora e as Pastorais) • Redemocratização do país • Reorganização do movimento sindical no campo e na cidade • Colaboração de classes. A aproximação entre militantes da oposição sindical. em vista de uma sociedade fraterna e justa. • Combate ao comunismo • • Sem violência. ele que era dirigente da Pastoral Operaria e muito próximo de D. tornou-se um dos mártires da luta operaria. em fevereiro de 1980. na articulação do Partido dos Trabalhadores. de movimentos populares. CRISTÃOS (católicos) • • • • 2. QUADROQUADRO-SÍNTESE POSIÇÕES MEIOS PROPOSTOS OBJETIVOS Luta contra as injustiças. Em junho de 1982. principalmente. em Goiânia. essas forças politicas formaram a ANAMPOS (oficialmente. • • Colaboração entre as classes. • Continuidade do capitalismo. Minas Gerais.83 - . e ativistas ligados às novas diretorias sindicais “autenticas” ocorreu em João Monlevade. de comunidades eclesiais de base. O assassinato de Santo Dias da Silva. levou a uma maior intensificação das manifestações. Um importante encontro de lideres de pastorais operarias. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). onde foram estabelecidos “alguns princípios básicos ligados à luta pela democratização da estrutura sindical”. de movimentos de base. Evitar o agravamento dos conflitos sociais. Em 1983. . AMARELOS AMARELOS Sem violência. no afastamento das diretorias pelegas dos sindicatos e. militantes de outras concepções e correntes políticas. na onda de greves iniciada em 1978 os militantes católicos tiveram papel destacado na reorganização do movimento sindical. acelerou-se com as greves. Paulo Evaristo Arns. com o apoio da imensa maioria dos militantes católicos e.

nº.84 - . – Jornal dos Trabalhadores Sem Terra. • Sociedade sem classes. Revista Debate Sindical. 03 – junho/julho/agosto – 1987. • Internacionalismo proletário. nº. ANARQUISTAS operários). José Carlos – Comunistas II.C. . ANTUNES.1991. Revista Debate Sindical. Destruição do capitalismo. RUI. RUI. • O Partido é o principal instrumento de luta. • Ação direta contra o Estado e os patrões. nº. sem Estado. • Revolução proletária. José Carlos – A presença dos anarquistas nos sindicatos. nº 11 – fevereiro/março/abril – 1992. • Contra a liberação de dirigentes sindicais. • Insurreição. Estrutura e Política Sindical. Revista Debate Sindical. 04 a 10 de novembro de 2007. BIBLIOGRAFIA • • • • • • • • • • ANTUNES. 06 – out/nov/dez – 1989. • Greve geral insurrecional. Ricardo L. COMUNISTAS 4. Fortalecimento do Estado Revolução proletária. Secretaria Nacional de Formação da CUT. • Auto-gestão. . • • • • • • • O Sindicato é o principal instrumento de luta. RUI.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG 3. • Sindicatos assistencialistas. nº. • Antipartidarismo.C. Editora Brasil Urgente . Coleção Primeiros Passos . José Carlos – Comunistas I. José Carlos – Sindicalismo Cristão II. Editora Vozes . GIANNOTTI Antônio e NETO Sebastião . Revista Debate Sindical.C. RUI. • Estrutura Sindical federativa. • Participação parlamentar. • Combinação de ação legal e clandestina. 02 – junho/julho/agosto – 1986. 1987.Abril Cultural. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE).CUT Ontem e Hoje. Ricardo L. Apostila de Concepção.Novo Sindicalismo. CEPS. RUI. Internacionalismo proletário. . Revista Debate Sindical. 07 – março – 1990. • Antiparlamentarismo. • Greve. Ditadura do Proletariado. Ricardo L.O que é Sindicalismo. • Sociedade harmoniosa. José Carlos – Pelegos. Ano XXIV – numero 252 – maio de 2006. Socialismo e Comunismo. 1985.1991. ANTUNES. • Destruição do capitalismo.

com proporções e alcances distintos. que se segue. foram associações voltadas para a ajuda mútua em situações de doença. caboclos.assegura o direito à associação e a reunião deixando em aberto qual seria o tipo de organização. Os movimentos sociais do campo vem se constituindo ao longo da nossa história. Esse processo se dá através de lutas de resistências. ora manifestando-se como ações específicas e localizadas ou movimentos messiânicos. etc. seleiros. Porém. mobilização que se constroem nos locais de trabalho. a miséria. social e ideológica – índios. de confronto com a opressão. É na teia de constituição dessas lutas que se forjam as condições para a tomada de consciência do que significa ser trabalhador(a) rural. a ausência de direitos. 35 No período Imperial tivemos apenas o nascimento das primeiras organizações operárias. que se traduz. sem um caráter essencialmente religioso. bolsa de trabalho. Até então. No começo do século XIX já existiam algumas associações de artesãos. é o período de delineamento da identidade social e política do trabalhador brasileiro. A chamada Primeira República. 04 a 10 de novembro de 2007. de organização. acidentes no trabalho. sociedades de resistência. quem trabalhara no Brasil foram os escravos e a sociedade imperial escravista desmerecera inteiramente o ato de 34 Pedagoga e Psicóloga. concretamente. interesses e projetos. Evidentemente. como se constituiu a estrutura sindical oficial no Brasil. considerando os limites a que nos propomos discutir o assunto em pauta. na roça e na comunidade. nesse texto.85 - . Monárquica35 e Republicana36 A proclamação da República (1889). mas organizadas sob a forma de irmandades religiosas. alfaiates. como sujeitos coletivos. restringeremos nossa análise a elencar alguns movimentos ou lutas que contribuíram para esse processo. 36 A primeira constituição republicana foi a de 1891 . Doutoranda em Educação da UFPE. diante do desafio de trazer ao debate questões que se inserem nas reflexões em torno do enraizamento histórico do sindicalismo rural no Brasil. ora manifestando-se como amplos movimentos de massa construindo novas formas de organização social. surgiram então às primeiras organizações de socorros mútuos. invalidez. nesse momento. o processo no qual é gestado a dinâmica do movimento sindical dos trabalhadores(as) rurais (MSTTR). religiosos." Gonzaguinha PARA INICIO DE CONVERSA Nos colocamos. marcam um dos momentos de maior transformação social já vivido pelo país. etc .Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG A HISTORIA DAS NOSSAS RAÍZES: ITINERÁRIO DAS LUTAS DOS TRABALHADORES (AS) RURAIS NO BRASIL E O SURGIMENTO DO SINDICALISMO RURAL Maria do Socorro Silva34 "Da desparecença dos tempos aprendo as tranças e tramas das novas lições. num amplo imbricamento de ações. camponeses. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). ou seja.. onde constroem uma identidade e organizam práticas que visam defender direitos. mas não uma classe trabalhadora. As primeiras organizações operárias. caixas beneficentes. a luta pela posse da terra e por melhores condições de vida e de trabalho nas sociedades Colonial. barqueiros. havia anteriormente trabalhadores. a dependência. em nosso país conflitos e rebeliões populares formados por complexa composição étnica. Professora da Faculdade de Educação da UnB/UFCG. juntamente com a Abolição da escravidão (1888). escravos. . política e econômica. Desde a chegada dos colonizadores portugueses que tivemos.

No século XIX.” Paulo Freire 1. brasileiros pobres. que tiveram um grande peso na formação da atual população de agricultores familiares amazônicos. a terra era livre. litígios e reações de parcela das populações pobres foram uma 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). que passaram a ocupar áreas ainda não utilizadas. enquanto homens ou povos. podem sinalizar para descobertas importantes na construção de uma sociedade mais justa. mas sim constituísse a mão de obra assalariada necessária nos latifúndios. vê-se que não é suficiente que o oprimido tenha consciência crítica da opressão. professor da USP: “Enquanto o trabalho era escravo. Em 1850. revoltas como da Cabanagem e Balaiada. isso impedia que os ex-escravos. foram para o norte. todos agricultores pobres atraídos para o Brasil por promessas de terra. e do surgimento. e no fortalecimento das organizações no momento atual. a terra ficou escrava”. principalmente a borracha e a castanha. (1830. o império restringiu o direito de posse da terra por meio da Lei de Terras. Quando o trabalho ficou livre. . pois a partir desse momento a terra foi transformada em uma mercadoria a qual somente quem já dispunha dela e de capital pudesse ser proprietários. na luta incessante de recuperação de sua humanidade". milhares de nordestinos. alemães. mas. trabalhar na extração dos produtos da floresta.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG trabalhar. Essa Lei significou o casamento do capital com a propriedade de Terra. do sindicalismo rural brasileiro. que se disponha a transformar essa realidade. 04 a 10 de novembro de 2007. 1837). com isso tivemos uma intensificação dos conflitos por terra e pela libertação dos escravos. O resgate do itinerário de algumas dessas lutas que são raízes da organização do campo brasileiro. visando garantir melhores condições de trabalho e de vida fazem parte da história do povo brasileiro: lutas de tribos indígenas. deve surgir e partir dos próprios oprimidos. movimentos de escravos. Juntamente com o processo de luta contra a escravidão vamos ter a afirmação das leis de locação de serviços que visam regular o trabalho assalariado. os trabalhadores não poderiam romper seus contratos a não ser que pagassem ao patrão quantia correspondente e se não o fizessem estariam sujeitos à prisão com trabalhos forçados até pagar suas dívidas. segundo José de Souza Martins. nas regiões Sul e Sudeste. e a pedagogia decorrente será aquela que tem que ser forjada com ele e não para ele. primeiro com a chegada dos primeiros colonos europeus não-portugueses. fugindo da seca e da crise econômica dos engenhos de açúcar. Nesse mesmo período. começamos a ter uma nova configuração. italianos. PRIMEIRO MOMENTO: DAS LUTAS PELA LIBERDADE AO SURGIMENTO DO SINDICALISMO RURAL “O movimento para a liberdade.86 - . principalmente sobre a forma de parceria ou colonato. a partir de 1819. os posseiros e os imigrantes pudessem se tornar proprietários. para o cultivo do café. suíços.Lutas e mobilizações pela liberdade A luta dos trabalhadores (as) rurais brasileiros pela posse da terra. trata-se de um trabalho de conscientização e politização.

Organizou um exército realmente poderoso e voltou ao ataque. os quilombolas encontravam-se sozinhos e apenas podiam contar com o que possuíam. que preparou uma expedição para derrotar os fugitivos. o Tratado de Madrid determinou novos limites entre os impérios coloniais de Portugal e Espanha. na margem esquerda do rio Uruguai. . e que tiveram nos camponeses (as) sujeitos protagonistas de várias dessas lutas e mobilizações. a Espanha trocava os Sete Povos das Missões. Por fim. b) Missões A luta dos indígenas ao longo da nossa história apresenta raízes de uma organização camponesa. na organização coletiva da produção e na resistência e combate a escravidão. Guerra dos Guaranis e a Guerra dos Bárbaros. mas não desistiu. antes que a cidadania e a sociedade civil se estabelecessem entre nós. que a luta durou perto de três anos. Durante sua existência foram feitas varias tentativas de destruir Palmares. Outros se suicidaram ou renderam-se aos atacantes. que há tempos lutavam contra portugueses. Enquanto os atacantes podiam conseguir reforços e munições de fora. como também índios e pobres livres. pelo novo acordo. aliaram-se aos franceses tomaram a Baía de Guanabara. pela 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). principalmente contando com o interesse do governo. Também ele falhou nas primeiras tentativas. Mesmo assim. Não fora difícil aos franceses conquistar os tamoios. a resistência dos quilombolas foi tão grande. A Confederação dos Tamoios Em 1562. principalmente por meio das missões. homens altivos. que pretendiam escravizá-los. e era governando por um rei (sendo o mais conhecido Zumbi) e um conselho formado por chefes dos quilombos. os exemplos mais conhecidos são: a Confederações dos Tamoios. tão valente. Quando isto se deu.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG constante ao longo da nossa história. localizava-se na Serra da Barriga entre Pernambuco e Alagoas. com uma cultura e economia baseada na policultura. A paz foi conseguida pelos padres José de Anchieta e Manuel da Nóbrega. O sistema de vida e produção organizado em Palmares pode resistir a economia patriarcal e escravocrata. chegou a reunir mais de 20 mil habitantes. Os negros tinham uma desvantagem: estavam cercados. Na área do estuário do Prata. o governo de Pernambuco solicitou a ajuda do bandeirante paulista Domingos Jorge Velho. Durante todos esses períodos tivemos ações populares de intervenção na ordem social. 04 a 10 de novembro de 2007. um dia. É claro que.87 - . Guerra dos Guaranis Em 1750. a) Quilombos Nos quilombos refugiavam não só escravos foragidos. práticas reprimidas de participação social e política do povo que colocaram em ebulição os direitos políticos e sociais. a munição dos sitiados tinha de se esgotar. Um dos mais importantes quilombos de nossa história foi Palmares foi construído no fim do século XVI e resistiu até o fim do século XVIII. muitos negros fugiram para o sertão.

Ë por isso que alguns autores chamam as revoltas camponesas do período de lutas messiânicas. Criou-se um povoado em que o trabalho cooperado foi essencial para a preservação da comunidade. cativeiros e reduções em aldeamentos jesuíticos que sofreram ao longo dessa história que lhes fora imposta. 04 a 10 de novembro de 2007. Nesse momento surgiu na região de Campos Novos e Curitibanos. enviaram comissões para tornar efetivas as mudanças previstas no Tratado. em Santa 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). até se estabelecerem no Arraial do Canudos. liderados por Nicolau Ñeenguiru e Sepé Tiaraju. que durou dois anos. envolvendo todos os membros da família. os portugueses da Colônia do Sacramento também não estavam satisfeitos com a troca de terras. o governo concedeu uma enorme extensão de terras à empresa norte-americana Brasil Railway Company. apesar das degolas. Ao final da construção da ferrovia. Com isso. Em 1754. dos aprisionamentos. Todavia. Melhor equipado. . e foi empreendida pelos cariris. estes bravios guerreiros. Dentre essas podemos destacar: a) Canudos a terra prometida Os/as trabalhadores rurais e escravos peregrinavam pelo sertão. Os governos de Madrid e Lisboa tomaram decisões sem levar em conta os interesses dos jesuítas e guaranis. 2. anulando o Tratado de Madrid em 1761. O cenário dessa guerra foi uma extensa área do Nordeste. cerca de 8 mil trabalhadores ficaram desempregados e passaram a perambular pela região a procura de trabalho. no trecho previsto para a construção da ferrovia São Paulo-Rio Grande do Sul. A guerra não resolveu as questões de limites. Entre outubro de 1896 e outubro de 1897. Isso significa que a fé era a ligação entre ele e seus seguidores. atrás do beato Antônio Conselheiro. Em 1752. alguns sobreviventes foram para as reduções da margem direita do Uruguai. a partir de 1682. Mas já não existia o entusiasmo de antes e as mesmas condições de resistência e luta. o exército europeu massacrou os guerreiros guaranis. começou a Guerra Guaranítica. Mas os portugueses e espanhóis se uniram contra os rebeldes. Os Guaranis se revoltaram e se organizaram para defender suas terras. os Guaranis continuaram a ocupar a área dos Sete Povos. particularmente nos vales do Rio Açu (atual Piranhas) e Jaguaribe. dos portugueses. resistiram por cerca de mais vinte anos sempre lutando como podiam pela posse de suas terras e na tentativa de vencer as injustas estratégias da dominação colonial. mais de 5 mil soldados do exercito e armamentos pesados de guerra foram envolvidos no ataque ao arraial.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Colônia do Sacramento. além dos índios. Portugal e Espanha voltaram atrás. Lutas messiânicas – 1888 e a década de 1930 As lutas messiânicas se caracterizam pela existência de uma liderança messiânica. b) Guerra do Contestado Em 1912. Chegou a ter cerca de 10 mil habitantes. pois.88 - . Na comunidade havia um fundo comum destinado a proteção dos velhos e aos doentes. Obrigados a sair. Todos tinham direito a terra e desenvolviam a agricultura para auto-consumo. Guerra dos Bárbaros Essa guerra durou vinte anos.

que aconteceu no Ceará. um movimento camponês de caráter político-religioso. Colônia Leopoldina. contra os latifundiários. os lideres lançaram um manifesto monarquista e declararam a “guerra santa” contra os coronéis. Todavia. A força militar chega ao sítio e os moradores resistem à destruição. no período de 1926-1937. mais não conseguem vencer a comunidade. O nome Caldeirão refere-se a uma depressão no relevo. no entanto. Além de ser explorado com baixa remuneração (a família toda precisava trabalhar para a subsistência). A área pertencia ao padre Cícero . Inicialmente ficaram numa área de disputa entre Paraná e Santa Catarina. Contestado). 3. porque tinham uma produção diversificada: agricultura. c) Guerra do Caldeirão Uma luta de resistência camponesa.que a entregou ao beato Zé Lourenço e seus seguidores para trabalharem na terra. a grande concentração de camponeses naquelas terras chamou a atenção dos fazendeiros. casas são incendiadas e pessoas mortas. A exploração imposta faz com que se organizem ainda que de forma clandestina (já que o Ato Adicional de 1834 proibia toda e qualquer associação de ofício): surgem as primeiras associações de socorro mútuo. Ninguém se considerava dono de alguma coisa. com repudio a 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). por isso chamado de Contestado. Sua fama crescia e já influenciava outras cidades. liderado pelo monge José Maria.famoso religioso e político da época . as companhias de terras e as autoridades governamentais. na Chapada do Araripe. Dias depois. onde se encontrava água cristalina durante todo o ano. organizadas sem propriedade individual. iniciaram uma guerra contra os camponeses para destruir Caldeirão. Colônia Nova Itália. os mutirões. temendo o aumento da organização dos trabalhadores e uma possível ocupação de suas terras. A formação de núcleos ou colônias. que depois se espalharam por outras áreas de imigração do sul do Brasil. quando foram assassinadas mais de 400 pessoas. pois era obrigado a comprar o que precisava pelo dobro do preço. e a organização de núcleos e colônias que serão precursores do sindicalismo brasileiro. ao chegar à época da colheita. O arraial foi dizimado quando o governo enviou cerca de 07 mil soldados do exercito. muitos eram expulsos. Em 1915. etc. confecção de redes. .Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Catarina. que chegou a cerca de 20 mil pessoas. Além disso. 04 a 10 de novembro de 2007. Os produtos excedentes eram vendidos em Juazeiro e no Crato. que. e onde começaram a funcionar as “Escolas Internacionalistas”. sofrendo as mais variadas injustiças e perseguições. O Caldeirão ficou auto-suficiente.89 - . acontece o segundo bombardeio aéreo sobre civis na história do Brasil. calçados. As lutas prépré-sindicalistas a) As colônias anarquistas A chegada dos imigrantes para trabalhar nas lavouras do café dos grandes fazendeiros vai trazer mudanças no perfil do campesinato brasileiro. desta forma estava sempre devendo ao fazendeiro. os anarquistas começaram a se organizar nos sindicatos. sem lei e sem religião. artesanato. retornam usando dessa vez aviões. tais como a Colônia Cecília. (o primeiro foi em 1912. Recebiam um preço de terra onde desenvolvia uma cultura de autoconsumo. destruindo assim o povoado. nos seus armazéns. até mesmo aviões foram utilizados pra localizar os redutos rebeldes. cuja ação deveria ser voltada para o desenvolvimento da consciência da classe. Todas as ferramentas necessárias para o trabalho eram feitas na própria comunidade. roupas. o colono ainda sofria a especulação do fazendeiro.

e a formação na ação que ocorre no cotidiano da organização.Bahia em 1940. A partir de 1955 com a construção das rodovias. a organização foi se afirmando. b) Posseiros da Rodovia RioRio-Bahia. . ali viviam muitos posseiros. sendo responsável pela formação de novas mentalidades e ideais revolucionários. pois era considerado um veículo de conscientização e transformação das sociedades. oficinas. José Porfírio. é aprovada a Lei Adolfo Gordo para expulsar lideranças sindicais estrangeiras (1907/1913. 04 a 10 de novembro de 2007. Depois de viver na clandestinidade. sistematização coletiva de experiências. já colocavam a educação em suas diferentes dimensões sinalizando para o que chamamos hoje de formação programada (cursos. Para os libertários a educação ocuparia um papel de destaque. A valorização das terras da Região de Governador Valadores . a situação econômica para os trabalhadores (as) estava insuportável: carestia. por um grupo de fazendeiros.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG idéia de organizar os trabalhadores em partido político. c) Trombas e Formoso Em 1948. a educação escolar e as práticas culturais de massa. recusa intransigente ao assistencialismo e mobilização permanente dos trabalhadores para ação direta contra os patrões. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). reinava fome e miséria. Eles queriam que os posseiros saíssem das terras. no norte de Goiás. com a contribuição do PCB. a recusa foi geral. desemprego. que estavam sendo griladas. Eles começaram então a juntar os posseiros para formar uma associação (visto que os sindicatos rurais ainda não eram reconhecidos). em três dimensões: a educação político-sindical37. o que foi desmentalado em 1964. Os posseiros ganharam muita força na região e formaram vários sindicatos.governo Hermes da Fonseca). quando foram presos e torturados pela ditadura militar. até a região se tornar um município e Jose Porfírio foi eleito deputado estadual em 1962. eles só podiam plantar para subsistência. culminando com a Greve Geral. No final da década de 1950. toda a região estava organizada na Associação dos Lavradores de Trombas e Formoso. um juiz e um dono de cartório da região. ocorria a Primeira Guerra Mundial. seminários. Então os grileiros queimaram as roças e as casas dos camponeses. foi solto no ano seguinte e desapareceu. com o golpe militar. quando a nível internacional. Em 1907. inclusive acarretando a morte da mulher de José Porfírio. etc). nas comunidades. e os anarquistas e socialistas faziam intensa propaganda anti-militarista. 37 Desde esse período a necessidade de formação sindical já se fazia presente entre as organizações.MG devido à perspectiva da construção da rodovia Rio . pesquisas. os supostos donos das terras começaram a aparecer de todos os lados e impuseram aos posseiros a condição de derrubar a mata para formação de pasto. foi preso em 1972. começou o processo de expulsão dos posseiros. a construção da Transbrasiliana e o projeto de colonização dos governo federal valorizaram as terras da região de Uruaçu. intercâmbios. Trabalhadores provenientes do Maranhão e Piauí chegaram ao local liderado por Jose Porfírio e estabeleceram posses numa área de terra devoluta. essa organização foi até a década de 1964. Esse processo vai ser intensificado em 1917. recessão. sendo desencadeada um processo de repressão e o uso intensivo da Lei Adolfo Gordo. mobilizações. além disso. e eles pagariam as benfeitorias feitas. sem perda de tempo. no trabalho. Articulavam a educação entre si.90 - .

que identifica a realidade brasileira como sendo de um capitalismo agrário semi-feudal. . O fim da primeira guerra mundial (1914-1918). incorporar a luta contra a política da oligarquia. a etapa primeira representada pela revolução democrático-burguesa é constituída pelo desenvolvimento do capitalismo. de caráter nacional e democrático. a segunda. leva o partido a formar o Bloco Operário e Camponês (BOC) em 1927. Com isso entendemos porque o BOC vai centrar sua ação nas questões sociais. seria anti-imperialista e anti-feudal. A análise da sociedade como sendo um país semi-feudal. onde a revolução seria feita por etapas: a primeira. Essa tese se fundamenta na revolução leninista. para isso teria que fazer alianças entre o operariado e o campesinato. de caráter socialista. que consistia em substituir os intelectuais por operários nos cargos e instâncias partidárias e o fim do BOC. pelo contrário.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG c) Influência Influência do Partido comunista formação do Bloco Operário e Camponês (BOC) A mudança de ênfase no PCB sobre a realidade brasileira. artistas. a partir de 1928. Daí os acenos a setores da pequena burguesia como forma de romper o bloqueio à ação política que lhe era imposto não só pelas classes dominantes como também pela sua própria fraqueza interna. Na verdade essa aliança acabou tendo uma dimensão mais eleitoral de assegurar candidaturas que assegurassem a defesa dos interesses proletários. As divergências com relação a essa aliança. SEGUNDO MOMENTO: A IMPLANTAÇÃO DA ESTRUTURA SINDICAL NO BRASIL NO CONTEXTO DO ESTADO NOVO “Ninguém tem liberdade para ser livre. reformas modernizadoras. os resultados da revolução de 1930 e as definições do comunismo internacional levaram a uma re-orientação para a “obreirizaçao”. daí a necessidade de ampliar sua ação e se aproximar de outras organizações progressistas. 1978). a revolução russa (1917). a fim de que possam ser eliminadas as antigas formas de produção ainda existentes nessas sociedades atrasadas. a quebra da bolsa de Nova York (1929). sem questionar o sistema social vigente. buscar aliança com a Coluna Prestes e atuar na área rural brasileira. Embora esse processo revolucionário deva estar sob a direção política do proletariado. luta por ela precisamente porque não a tem” (Freire. mas sim numa aliança com o campesinato para enfrentar o feudalismo. É esse caráter democráticoburguês que a proposta do BOC confere. 04 a 10 de novembro de 2007. pois para Lênin. a estratégia fundamental no operariado não pode basear-se na luta contra o capital. a crise do café.91 - . à luta de classes. camponeses que começaram a reinvidicar a suspensão do pagamento da dívida externa. Por isso. pleiteando. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). a reforma agrária. suas tarefas consistem em desenvolver as forças produtivas capitalistas (modernas). a elaboração de uma legislação protegendo os trabalhadores rurais e colonização em terras devolutas com base em pequenas propriedades. o movimento tenentista e a coluna Prestes marcou uma grande seqüência de manifestações de operários. Essa aliança retoma na ação do partido na década de 1960 com a participação na organização das Ligas Camponesas e dos sindicatos rurais. militares.

os objetivos básicos da Lei de Sindicalização eram claros: 1) transformar o sindicato. então. inaugura as condições que permitiriam no decorrer dos anos seguintes. A nova lei de sindicalização visava oficializar. entre o capital e o trabalho. que culmina com a formação da Coluna Prestes (1924-1927). que mostrou uma capacidade insuspeita de se manter no controle do poder político ate 1964. o Estado. É importante notar que a oligarquia agrária foi capaz de diversificar seus negócios expandindo-se em atividades urbanas. . para uma aliança com a classe operária e a chamada “classe média”.para permitir a consolidação do poder dos industriais contra o poder da oligarquia rural. o que lhes garantia e fortalecia seus currais eleitorais. as chamadas leis sociais: pensões de aposentadoria. sem perder sem abrir mão do autoritarismo e conservadorismo. A lei de sindicalização definindo o sindicato como órgão de colaboração com o poder público.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG A revolução de 1930. sucedendo-lhe a chamada Revolução de São Paulo. através de associações. O projeto sindical populista de Vargas previa a adoção de leis que. apelam. servindo de pára-choques entre tendências conflitivas nas relações do capital com o trabalho. não tem força para fazê-lo sozinhos. constituindo a aliança entre desiguais – populismo brasileiro. de arma autônoma dos trabalhadores. 2) disciplinar o trabalho. A constituição corporativista de 1937 e a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) consolidam a política varguista para o 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). num persistente processo de decadência econômica. independentes e funcionavam como organismos de luta por melhores condições de vida e salário. a modernização conservadora e a construção do Estado Moderno. em agência colaboradora do Estado. ou seja. Pelo projeto governamental. 04 a 10 de novembro de 2007. que insatisfeita com o domínio imposto pelas oligarquias agrárias. É dentro desse contexto que o Governo Vargas assina em 15 de março de 1931. considerando-o como mero fator de produção. atrelar os sindicatos ao recém criado Ministério do Trabalho. De fato. e sua vinculação com o rural. Até essa época todos os sindicatos eram formados por iniciativa de trabalhadores de uma profissão ou categoria e se mantinham através das contribuições de seus associados. Os sindicatos eram livres. na verdade. ligadas á lavoura de exportação. tendo Getúlio Vargas com seu representante. de 19 de março de 1931). os sindicatos deveriam funcionar como um órgão de conciliação entre os trabalhadores e os patrões e como um órgão de caráter assistencialista. utilizando o sindicato como “para-choque. os “tenentes”. As oligarquias agrárias. cujo início é a revolta do Forte de Copacabana (1922). e 3) evitar a emergência da luta de classes. sendo obrigação do ministério do trabalho fiscalizar as assembléias e contabilidade dos sindicatos. jornada de trabalho de 08 horas. essa aliança que se afirma na Região Sudeste. eram conquistas ou reinvidicações dos trabalhadores ao longo de anos de luta. embora o sistema político continue fortemente influenciado por ela. proteção ao trabalho das mulheres e das crianças. Os industriais que querem controlar o poder.92 - . Os diretores só podiam ser brasileiros natos ou com mais de 20 anos de residência. e aproveitarse do capital industrial. o decreto conhecido como Lei de Sindicalização (decreto 19. criador de classes sociais modernas (burguesia industrial e proletariado). desencadeiam um ciclo de movimentos armados. não consegue se estruturar no restante do Brasil. Lideradas pelo seu segmento mais radical.770. entram enquanto classe. e o fortalecimento de uma classe média urbana.

principalmente por meio das práticas de formação sindical incentivadas pelo Ministério do Trabalho. 2005). Rio Formoso e Serinhaém. dentre as quais a educação constituiu um dos mecanismos de propaganda e de convencimento. além de associações mais voltadas aos interesses dos pequenos produtores. Muitas eram as dificuldades para esse tipo de organização: a legislação trabalhista era feita para os trabalhadores urbanos. quase não existiam juntas de conciliação e julgamento nas cidades do interior. Tubarão em Santa Catarina. deram certa autonomia e permitiram articular melhor as lideranças e deram mais vigor as lutas dos trabalhadores (Abreu e Lima. à época.038 se autoriza de forma explicita a sindicalização rural. e em seguida: Barreiros. Rio de Janeiro (que tinha sido criado em 1938). de 1962. e os proprietários rurais agiam de forma repressiva.93 - . com a instalação da justiça do trabalho e a criação do imposto sindical. associações de bairro.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG movimento operário. . para o seu reconhecimento o envio de seus estatutos ao Ministério do Trabalho para aprovação. não considerando a especificidade do trabalho no campo. A construção da estrutura sindical oficial (e a ideologia corporativista que lhe dá suporte) não foi somente produto da repressão e do silêncio a que foram subjugados os setores mais combativos e de esquerda do movimento sindical brasileiro. somente em 1944 através do Decreto 7. posseiros e pequenos proprietários. A inexistência de uma organização no campo que aglutinasse essas bandeiras. de 1957. foi um dos fatores que impediram a elaboração e a implementação de uma legislação especifica para o campo. foram organizados sindicatos de forma localizada e isolada. em São Paulo que chegou a aglutinar não só sindicatos mas federações de mulheres. Assim até 1955. O estimulo a sindicalização era acompanhada por uma propaganda doutrinaria que envolvia benefícios sociais advindos de um conjunto de leis trabalhistas. exigia-se ainda. em Pernambuco. as influências das correntes comunistas e anarquistas criaram organizações paralelas como foi o caso do Pacto da União Intersindical (PUI). na Bahia. Também o Pacto de Unidade e Ação (PUA). inclusive acionando a polícia para reprimir qualquer tentativa de organização e mobilização dos trabalhadores (as) rurais. o regime corporativista. No entanto. o Ministério do Trabalho só tinha reconhecido o sindicato rural de Campos. A CLT exclui os trabalhadores rurais do direito a sindicalizar-se apesar de lhes assegurar o direito ao salário mínimo. Embora existisse uma legislação que permitia a criação de sindicatos. o mais antigo do país. organizado a partir da greve de 1953. como arrendatários. Foi também resultado de uma série de medidas legais e político-ideológicas que engenhosamente articuladas. ou o Comando Geral dos Trabalhadores (CGT). nos sindicatos dirigidos por ministerialistas ou ‘amarelos’. e a divulgação de um regime sindical especifico. significando progressivamente a implantação de um projeto totalitário de poder. No que se refere à defesa dos direitos trabalhistas na área rural. parceiros. Portanto. 04 a 10 de novembro de 2007. Ilhéus e Itabuna. o código civil não permitia a organização de sindicatos rurais. Belmonte. porém esta lei não foi implementada. além da presença permanente nos sindicatos em assembléias e no controle das finanças. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). entidades estudantis. Uma vez constituído o sindicato de acordo com a lei.

etc. ê Vou convidar os meus irmãos trabalhadores Operários. e em 1954. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Em âmbito local. Através da expulsão do morador. por município. As ligas utilizavam diferentes estratégias para organizar e formar os trabalhadores: conversas na feira. na missa. em Vitória de Santo Antão. com a construção de grandes obras e expansão de crédito. as organizações camponesas passaram a se contrapor. semente de uma nova nação.94 - . surgiram três grandes organizações camponesas que deram uma outra fisionomia ao debate e as lutas dos camponeses (as) no País: a) Ligas camponesas Em 1955. No período de 1954 a 1964. impuseram o aumento do foro e tentaram expulsar os foreiros da terra. parceiros. fundada inicialmente com fins basicamente assistenciais. A partir das Ligas os camponeses organizados faziam um trabalho de denúncia. criar escolas e uma caixa funerária para seus associados. ê Somos gente nova vivendo o amor Somos comunidade. Como reação a esse processo. se tornando um movimento de luta pela Reforma Agrária que se espalhou por vários Estados do Nordeste. nos locais de trabalho.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG TERCEIRO MOMENTO: OS CAMPONESES ORGANIZADOS COMO CLASSE Somos gente nova vivendo a união Somos povo. “A repressão atribuiu o nome de Ligas à organização desses trabalhadores para caracterizá-los como comunistas. contra as ações de despejo acionadas pelos usineiros e latifundiários. Zé Vicente Após a segunda guerra mundial. b) União dos Lavradores e Trabalhadores Trabalhadores Agrícolas – ULTAB Mesmo na ilegalidade. da supressão do direito do cultivo do sitio. parlamentares”. pão e paz. distritos ou fazendas. 2005). ê. foram duramente atingidos os foreiros. envolvia profissionais liberais. em alusão ao nome por estes utilizados para certas organizações populares”(Abreu e Lima. ê. biscateiros e outros mais E juntos vamos celebrar a confiança Nesta luta na esperança de ter terra. o PCB manteve algum trabalho no campo. agitação. intelectuais. povo do Senhor. e começaram a participar da formação da Sociedade Agrícola dos Plantadores e Pecuaristas de Pernambuco (SAPPP). no campo. pequenos proprietários e moradores de engenho (que tinham direito a cultivar a lavoura branca e a obrigação de prestar três dias de serviço por semana ao proprietário). 04 a 10 de novembro de 2007. estudantes. lavradores. 2005). e posteriormente. do aumento dos dias de cambão. que resistiram ao processo de despejo. cordéis. os donos do Engenho Galileia. houve uma aceleração do processo de penetração capitalista. eram compostas só de camponeses. de forma articulada. As Ligas se organizavam em “delegacias ou núcleos. no nível estadual além das lideranças camponesas. resistência na terra e mobilizações. para fornecer assistência médica. . Nesse processo. jurídica. (Abreu e Lima. boletins.

a greve no setor canavieiro em Pernambuco. foi fundada a ULTAB. marcou o reconhecimento social e político da categoria camponesa e o reconhecimento do seu potencial organizativo dentro da sociedade brasileira. previdência social. adoção de medidas de apoio a produção etc. com a presença de 303 representantes de 16 estados. o direito de greve. CAMPO: PO: CONTAG SURGE A PRIMEIRA ORGANIZAÇÃO SINDICAL NACIONAL NO CAM Ainda que o gesto me doa. 04 a 10 de novembro de 2007. Mesmo enrolada de pó. atingindo outros setores da sociedade. Em Jaboatão (PE) o padre Crespo e o Padre Antonio Melo no Cabo (PE) passam a criar sindicatos com um objetivo declarado de enfraquecer o avanço das Ligas Camponesas e do PCB. a partir da resistência de 300 famílias de posseiros. que obteve conquistas significativas para a categoria ou a participação em Congressos como o I Congresso Nacional dos Lavradores e Trabalhadores Agrícolas. As principais eram a reforma agrária. que concedia aposentadoria por invalidez ou por velhice como resultado das lutas lideradas pelas Ligas Camponesas no Nordeste. tendo-se discutido o direito a organização dos trabalhadores rurais em associações e sindicatos. a reforma agrária. das federações e da CONTAG. pois executava a ocupação de terras. Nesse período foi criado o Estatuto do Trabalhador Rural (1963). o então Bispo Dom Eugenio Sales funda em 1960 o Serviço de Orientação Rural (SAR) uma organização beneficente da Igreja destinada a fundar sindicatos. dentro das terras dos latifundiários.95 - . que passou a atuar na perspectiva de fortalecer a posição da Igreja entre os camponeses através da criação de sindicatos38. A partir. reforma na educação e no sistema bancário. a vida que vai comigo é fogo: esta sempre acesa Thiago de Mello A existência das Ligas Camponesas. . formando acampamentos e organizando estratégias de defesa. em 1963. inovava com relação às formas de luta.. que aliavam as lutas por direitos trabalhistas e reforma agrária e do surgimento dos sindicatos de trabalhadores e trabalhadoras rurais. do Master e a influência do 38 No Rio Grande do Norte. sendo a primeira experiência na perspectiva sindical no campo brasileiro.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG na II Conferencia Nacional de Lavradores. o movimento camponês cresceu e as discussões sobre a questão fundiária ampliaram-se. como por exemplo. realizado em 1961. A década de 1960 chega com o país falando de reformas de bases. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). da ULTAB. c) Movimento dos Agricultores Agricultores Sem Terra – MASTER Surgiu no Rio Grande do Sul em 1950.. dentro da noite mais fria. que embora explicitasse as divergências. Essas três organizações durante sua existência assumiram algumas lutas de forma unificada. em áreas previamente escolhidas. não encolho a mão: avanço levando um ramo de sol. o que já era o bastante para deixar os latifundiários muito aborrecidos com o governo. inclusive a Igreja Católica. Até 1962 48 sindicatos foram fundados e 16 deles foram reconhecidos.

o que ocorreu em 22 de dezembro de 1963. em 1962. apesar das diferentes correntes de pensamento. e do Vale do Pindaré. desrespeito a constituição. Articular nacionalmente as lutas passou a ser uma das principais preocupações. da Zona Canavieira em Pernambuco. principalmente entre os últimos. em 1961. em Belo Horizonte coordenado pela ULTAB. Nos primeiros anos da década de 1960. pelo Decreto Presidencial 53. da área de Pariconha e Água Branca em Alagoas. ainda fortemente influenciada pelo ideário humanista cristão. de lavradores. (Revista dos 40 anos da CONTAG). desde os setores mais à direita. Esse processo culminou na realização do 1º Congresso Nacional dos Lavradores e trabalhadores agrícolas. prisão e tortura para os opositores e censura prévia nos meios de comunicação.AP39. A resposta das elites veio de imediato no dia 31 de março de 1964. já existiam 42 federações. 1985). como resposta as reinvidicações do movimento sindical. de concepções e de formas de organização. a AP formalizou a influência do marxismo e se proclamou partido com a denominação de Ação Popular Marxista-Leninista (APML). Recém criada a CONTAG. “A CONTAG torna-se a primeira entidade sindical camponesa de caráter nacional reconhecida legalmente. sendo que 27 eram reconhecidas oficialmente pelo Ministério. que por um lado definiu regras para os contratos de arrendamento e parceria. da região Cacaueira da Bahia. vinculada às estruturas formadas pela Igreja junto aos movimentos populares. sendo efetuadas experiências em meios populares como o ABC paulista. 39 Foi formada em Belo Horizonte (MG). A mobilização popular a favor das reformas amedrontou a classe dominante. sendo denominada Estatuto da Terra. no Maranhão. que solicitou a realização de um Congresso Nacional para criação da Confederação. em alguns estados mais de duas: de assalariados. sendo reconhecida em 31 de janeiro de 1964. Juventude Universitária Católica (JUC) e a Juventude Estudantil Católica (JEC).96 - . pela ditadura militar.600 delegados de várias organizações. perseguição militar. que continuou sua ação política durante a ditadura (ACO. provenientes das Ligas e os comunistas”. a da reforma agrária. Ajustou em seu interior diversas concepções e correntes de pensamentos. . 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). de agricultores. com um grande aumento da miséria na área rural e nas cidades. Em março de 1971. de pescadores. as bandeiras de lutas atualizadas e ampliadas e estabelecidas linhas de ação comum. Foi da Juventude Estudantil Católica que partiram as primeiras discussões que operaram mudanças políticas e ideológicas e sua transformação em uma organização marxista-leninista. A AP deslocou militantes para as fábricas e para o meio rural. que obrigou muitos agricultores familiares a saírem do campo. a partir de grupos de operários e estudantes ligados à Igreja Católica: a Juventude Operária Católica (JOC). setores da Igreja. foi decretada a Primeira Lei de Reforma Agrária do Brasil elaborada ainda no Governo João Goulart. camponeses e estudantes. com a participação de trabalhadores rurais de 18 estados. serem colocadas em segundo plano. 04 a 10 de novembro de 2007. na busca pela melhoria das condições de vida dos trabalhadores do campo. acabou sendo promulgada com modificações. distribuídos em 29 federações. as tropas militares ocuparam os pontos estratégicos do país.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG PCB e da Ação Popular. Já em 1964. Em 1962. pela reforma agrária. de trabalhadores rurais. temiam que fosse apenas o começo de uma série de transformações radicais no país. sofre de imediato a violência do golpe militar sobre as lideranças de sua organização. em especial.517. esse foi o quadro político criado pelo regime militar para arrasar toda oposição a sua forma de governar o país. que reuniu 1. que viu bandeiras de lutas políticas dos trabalhadores. fizeram com que a organização dos trabalhadores(as) rurais em sindicatos fosse acelerada. a AP possuía penetração entre operários. autoritarismo. e por outro incentivou o pacote da Revolução Verde.

sem serem perturbados pela Policia ou pelo Ministério do Trabalho. e superar as dissidências alimentadas durante o período de intervenção. A partir de 1966. durante toda a década de 1970. esse período nos ensinou a importância da comunidade. as lutas 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). A formação se traduzia em práticas educativas para garantir núcleos organizados nos locais de trabalho e para fortalecer o processo de retirada dos interventores e sindicalistas pelegos. por exemplo. A formação sindical centrava sua ação na alfabetização dos trabalhadores (as). Os núcleos formados por famílias extensas e vizinhos. Os autores das histórias utilizavam pseudônimos. liderados pelos mais antigos. que durante a ditadura tiveram que atuar de forma quase clandestina. em seu conteúdo. Também reproduziam as poesias. os autores estariam protegidos. ser interpretado como “ofensivo” ao governo e a “ordem pública”. Outro instrumento utilizado no final da década de 1960 e meados de 1970.(Revista 40 anos da CONTAG) O cotidiano e o estímulo à organização dos trabalhadores (as) rurais eram reproduzidos por meio de personagens. buscando a organização dos sindicatos e federações. “Após a intervenção. uma diretoria foi eleita para administrar a entidade durante o período de 1965 a 1968.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Logo na sua criação tinha sido constituída uma equipe de “educação sindical” com o objetivo de capacitar lideranças e dirigentes a fim de mantê-los informados. Os materiais de comunicação sindical foram fundamentais para garantir minimamente uma ação articulada nacional. O trabalho comunitário e de pequenos grupos foi á estratégia adotada durante muitos anos para resistir e formar novas lideranças durante a fase da ditadura.”(Revista 40 anos da CONTAG). da importância do ambiente cultural na formação do ser humano. foi constituída uma Junta Governativa que durante um ano administrou a CONTAG. O cerceamento das liberdades individuais e coletivas inibia qualquer divulgação de trabalhos que pudessem. formavam uma rede importante de relações através das quais se recrutavam os membros das comunidades para as ações coletivas. e foram ficando na terra e produzindo. Eram boletins. impostos nos sindicatos e federações pela ditadura. na difusão de práticas agrícolas e cursos políticos para formar novas lideranças. Foi na experiência de comunidades já existentes. na sua organização já construída e na solidariedade que novos migrantes foram rompendo as fronteiras do latifúndio na região. caso a repressão militar resolvesse censurar os textos. No ano seguinte. Priorizava a oralidade e a expressão corporal. 04 a 10 de novembro de 2007. Eram organizações quase clandestinas em grande parte fomentadas ou apoiadas pela Igreja. dialogando com os desafios do dia-a-dia. tendo como interventor José Rotta. nas temáticas do movimento e da realidade social e política do país. revistas e jornais. as relações comunitárias de parentesco e de vizinhança foram à base da organização dos “posseiros”. De meados da década de 60 até o final da década de 70. para estimular uma visão crítica daquele momento que o país vivia sem chamar a atenção do poder público (Revista CONTAG 40 anos). regional e estadual. que tinham como objetivo central a conscientização e a socialização das vitórias e lutas do MSTTR. do trabalho em grupos.97 - . trabalhadores que resistiam à ditadura buscaram retomar o controle da entidade. da formação de base. na Amazônia. prosas e cordéis. . foi o sócio-drama. A criatividade marcou esse período. Portanto. escritas pelos trabalhadores (as) rurais.

28-49. Jan/Jun. Construindo o sindicalismo rural: lutas. De um que apanhe esse grito que ele lançou e o lance a outro. 1985. Miguel. 2005. Pedagogias em Movimento – o que temos a aprender dos Movimentos Sociais? In: Currículo sem Fronteiras. CONTAG.1. . entre todos os galos REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ACO. No ano derradeiro do governo militar. Maria do Socorro de. utilizando recursos dos grileiros e grandes empresários. Rio de Janeiro: ACO. a soberania alimentar. partidos.98 - . pelo meio ambiente. ecologicamente sustentável com equidade e justiça social continuam na agenda do dia para tecer o amanhã. para que a manhã. a saúde. 04 a 10 de novembro de 2007. (2003). a luta pela terra. a participação popular. n. A violência da polícia. 2004. A violência do peão que é o jagunço da força privada. Essas diferentes ações fomentam a resistência e a luta por uma sociedade justa e solidária até os nossos dias. A militarização proporcionou diferentes e combinadas formas de violência contra os trabalhadores. ainda na perspectiva de controlar a questão agrária determinou a militarização do problema da terra. Maria da Glória. AÇÃO CATÓLICA OPERÁRIA. a educação. de um outro galo que apanhe o grito que um galo antes lançou e o lance a outro. (1999) Educação não formal e cultura política: impactos sobre o 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). os conflitos fundiários triplicaram e o governo. Tecendo a manhã João Cabral de Melo Neto Um galo sozinho não tece uma manhã: ele precisará sempre de outros galos. Minas Gerais. GOHN. projetos. defendendo claramente e tão somente os interesses dos latifundiários. vinculadas à luta por uma sociedade economicamente justa. e de outros galos que com muitos outros galos se cruzem os fios de sol de seus gritos de galo. os jagunços dos latifundiários e a polícia assassinavam um trabalhador (a) rural a cada dois dias.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG camponesas eclodiam por todo o território nacional. os valores humanistas. Recife: Editora Universitária da UFPE: Editora Oito de Março. desde uma teia tênue. As desigualdades sociais e a exclusão continuam acirrando as contradições de nossa sociedade. pela cidadania. ABREU E LIMA. pp. Revista dos 40 anos. escorada na justiça desmoralizada. portanto. que decretou ações contra os trabalhadores. as relações igualitárias de gênero e etnia. (1985) História da classe operária no Brasil: Gestação e nascimento -1500 a 1888. v 3. Brasília. muitas vezes com o amparo da força pública. se vá tecendo. ARROYO.

. História dos movimentos sociais no campo. Belo Horizonte: Vega. Silvia Maria. MEDEIROS. Cortez. Formação Sindical no Brasil: história de uma prática cultural. 04 a 10 de novembro de 2007. TRONCA. São Paulo. Da raiz a flor: a produção pedagógica dos movimentos sociais e a Educação do Campo.99 - . NEAD/Brasília. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). v. Leonilde Servolo. 2006. (Coleção Questões da nossa época. 1981. L. O comando geral dos trabalhadores (CGT) no Brasil (1961-1964). Maria do Socorro. 2004. 1989. Rio de Janeiro: FASE. Revolução de 30: a dominação oculta-São Paulo:Brasiliense. 1996. Ítalo A. MANFREDI. NEVES.71). SILVA.A.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG associativismo do terceiro setor. São Paulo: Escrituras Editorial.

as Ligas Camponesas e sindicatos autônomos. dentre outros. No processo de organização e luta. onde várias lideranças se destacaram. ULTAB durante a II Conferência Nacional dos Lavradores. que. O primeiro presidente foi Lyndolpho Silva.AS PRIMEIRAS LUTAS40 Na década de 50. viria a ser o primeiro presidente da CONTAG. Em 1954. de forma articulada.517. fizeram com que a organização dos trabalhadores rurais em sindicatos fosse acelerada.. trabalhadores rurais de 18 estados. A luta camponesa passa a ter uma postura politizada e politizadora.). As várias formas de organizações camponesas passaram a sentir a necessidade de uma articulação nacional que representasse os interesses e as demandas específicas.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG TRAJETÓRIA POLÍTICA DA CONTAG . O MASTER. reconhecida em 31 de janeiro de 1964. contra as ações de despejo acionadas pelos usineiros (Porecatu/PR) e da luta dos posseiros e arrendatários de Trombas e Formoso. surgiu a União dos Lavradores Agrícolas do Brasil – ULTAB. em 1962 acontece o 1º Congresso de Trabalhadores na Lavoura do Nordeste. distribuídos em 29 federações. As organizações de esquerda com atuação no campo buscaram atualizar e ampliar as bandeiras de luta e estabelecer linhas de ação comuns. Neste sentido organizaram: o 1º Congresso Nacional dos Lavradores e Trabalhadores Agrícolas (1961) – convocado e coordenado pela ULTAB. Foi quando surgiu a primeira experiência de Ligas Camponesas e. 40 Publicação – Revista Contag 40 anos 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). em Goiás. de resistência camponesa articulada a objetivos políticos mais definidos (. CONTAG Nessa conferência. no Engenho Galiléia. Em Pernambuco. em 1963 a ULTAB organizou a 1ª Convenção Brasileira de Sindicatos Rurais (Natal-RN). as organizações camponesas passaram a se contrapor. fundaram a Sociedade Agrícola e Pecuária dos Plantadores. CONTAG – PRIMEIRA ORGANIZAÇÃO SINDICAL NACIONAL NO CAMPO As Ligas Camponesas. foram criadas outras organizações como o Movimento dos Agricultores Sem Terra – MASTER na região sul do país. nos limites da região Agreste com a Zona da Mata de Pernambuco. Lavradores realizada em São Paulo. foram identificadas as bandeiras prioritárias entre elas o ”estímulo à criação de sindicatos de trabalhadores rurais”. Em 22 de dezembro de 1963. Em 1963 uma greve no setor canavieiro envolveu a Federação dos Lavradores.100 - . conseqüentemente. A CONTAG torna-se a primeira entidade sindical camponesa de caráter nacional legalmente reconhecida. resistindo ao regime imposto pelos militares. A Ação Popular – AP (ligada aos católicos radicais) e a União dos Lavradores e Trabalhadores Agrícolas do Brasil – ULTAB. decidiram pela criação da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG. 04 a 10 de novembro de 2007. A CONTAG nasceu em um momento crítico da atividade política do país. município de Vitória de Santo Antão. pelo Decreto Presidencial 53. .. uma década depois. promovendo uma das mais importantes lutas da época.

adquirindo máquinas e equipamentos mediante financiamentos que. mas. por exemplo. estava clara a existência de dois grupos políticos. Com o golpe. de consolidação de uma chapa para concorrer às eleições da CONTAG. Foi o início de uma articulação ampla. controlada pelo governo. Houve um estímulo à especulação com a terra e de concessões a grandes empresas para atuarem no campo. Colocou à margem a pequena produção e favoreceu a ampliação ainda da concentração de terra e de renda no país. Nessa conferência. resistiram como puderam ao regime militar e no 1º Congresso Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CNTR. um ligado ao interventor e. realizado em São Paulo. aliada à ausência de uma política diferenciada de créditos. o Comando Geral dos Trabalhadores (CGT). elaborado durante o governo de João Goulart. uma violenta repressão atingiu setores politicamente mais mobilizados à esquerda como. a defesa da reforma agrária foi unânime. com profundas modificações. O Ato Institucional (AI) foi criado pelo governo militar – cujo objetivo era justificar os atos de execução. Ainda assim. dentre outras coisas. Os pequenos e médios produtores foram incentivados a se modernizarem. outro ligado a trabalhadores e lideranças que se mostravam comprometidos com as lutas dos trabalhadores. urbana e rural. a direção da CONTAG foi deposta e alguns dirigentes foram presos. bancários e industriários. marcou uma nova etapa em relação à legislação existente. . permitindo. deu-se início à implantação de um regime político marcado pelo “autoritarismo”. A política salarial. Milhares de pessoas foram presas e casos de tortura transformaram-se em atos comuns. o Rio de Janeiro é transformado em sede da Conferência Nacional Intersindical. Essa situação. As lideranças políticas sindicais comprometidas com a luta por direitos e liberdade. não conseguiram saldar. As pessoas também foram atingidas em seus direitos individuais e coletivos. foi promulgado devido às pressões internacionais e internas. presos. O governo militar concentrou-se na modernização das relações capitalistas no campo e nos projetos de colonização nas áreas de fronteira. No 1º Congresso Nacional de Trabalhadores Rurais da CONTAG. impedia os aumentos reais e garantia ao patronato à crescente exploração de mão-de-obra barata. as Ligas Camponesas e grupos católicos como a Juventude Universitária Católica (JUC) e a Ação Popular (AP). a União Nacional dos Estudantes (UNE). torturados e substituídos por interventores que conduziam os sindicatos como órgãos de colaboração do Estado.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG O golpe militar de 64 foi uma contra-revolução que barrou mudanças estruturais de democratização da sociedade brasileira. preocupando-se com um projeto agrícola afinado com sua política econômica. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). O golpe foi deflagrado contra o governo de João Goulart. Os dirigentes sindicais mais combativos foram cassados. tornando irreversível o processo de concentração fundiária. em especial nas áreas de fronteira agrícola. A idéia aguçou o conflito em torno da propriedade. 04 a 10 de novembro de 2007. congregando representantes dos trabalhadores rurais. A repressão à atuação sindical não permitia que os assalariados rurais pleiteassem seus direitos trabalhistas. Em 1967. mais tarde. a intervenção do Estado no setor fundiário. mediante a desapropriação de terras por interesse social. contando com a presença de sindicalistas rurais de quase todos os estados.101 - . O Estatuto da Terra. Com o golpe militar. Os militares justificavam sua ação afirmando que o objetivo era restaurar a disciplina e deter a “ameaça comunista”. Nos primeiros dias após o golpe. resultou na perda de muitas propriedades.

Por meio de cursos sobre a realidade brasileira. Empossada. Num dos primeiros números dessa revista. A necessidade de organizar os trabalhadores nos municípios e constituir sindicatos era uma das grandes demandas do movimento sindical naquele momento. mas também para o pequeno produtor e o assalariado. Essa proposta. qualificando-os para a luta cotidiana. em Petrópolis (RJ). 04 a 10 de novembro de 2007. informativo que levava as idéias e propostas da direção da CONTAG acerca das bandeiras de lutas e da organização sindical às Federações. em grande número. econômico. apresentando análises sobre a conjuntura nacional e sugerindo encaminhamentos para reflexão nos estados. por promoverem reuniões dos grupos nos Sindicatos de Trabalhadores Rurais. Os textos reproduzidos no periódico demonstram explicitamente o enfrentamento da CONTAG diante das políticas do governo militar. a nova diretoria (1968) convocou todas as federações para um encontro. O PIN marcou a singularidade do MSTTR dentro do sindicalismo brasileiro. O PIN previu ações específicas para cada setor. lançando a revista mensal “O Trabalhador Rural”. quando levada à prática. A preocupação maior era criar um instrumento capaz de garantir a unidade do MSTR diante da divisão política revelada no processo eleitoral. para vencer barreiras centenárias de irracionalidades geradas pelo latifúndio. forçando uma tomada de posição favorável aos trabalhadores. os dirigentes do MSTR aceleraram o processo de organização e politização da categoria. assinada por José Francisco.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Fruto da união operária e camponesa.102 - . 1968 e 1969. que vai dar nosso valor? É uma sociedade composta de agricultor. é necessária uma decisão drástica e enérgica pela reforma agrária”. Um espaço chamado “Conversa de Caboclo” que contavam estórias sobre o cotidiano dos trabalhadores rurais. a fim de elaborar um Plano de Integração Nacional . por meio da formação de lideranças. legislação trabalhista. que reafirmava: “É. social e cultural que contrariam a função social de propriedade. causaria uma reação violenta do patronato e do poder público. sinônimo de um poder político. Em uma dessas estórias consta esse trecho: “E quem é esse sindicato. Lançaram o periódico “O Trabalhador Rural”. agrícola. por exemplo. Nós 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). O PIN elegeu a reforma agrária como uma das bandeiras de luta capaz de propiciar a unidade do movimento. Durante os ‘anos duros’ do regime ditatorial militar. pois seria de fundamental importância não apenas para os diretamente envolvidos nos conflitos pela terra. José Rotta. Nesse período. No caso dos assalariados. cooperativismo e de organização sindical. A formação de líderes era essencial para o futuro do MSTR. a chapa encabeçada por José Francisco da Silva impõe a derrota ao interventor e então presidente da CONTAG.PIN. que ameaçavam e puniam os líderes sindicais. agrária. para chamar a atenção dos camponeses sobre a importância da organização sindical. a direção da CONTAG qualificou ainda mais a sua forma de comunicação com a base. foi transcrita a carta ao Papa Paulo VI. para abarrotar as Juntas de Conciliação e Julgamento. Enquanto as outras confederações urbanas existentes tinham dúvidas entre resistir ou aceitar a intervenção no movimento sindical. criadas pela equipe técnica da Contag e assinadas com nomes fictícios. por apenas um voto de diferença. a CONTAG optou pelo enfrentamento ao poder econômico e político em uma de suas principais bases: a democratização da terra e a organização política dos trabalhadores rurais. iniciou um contínuo trabalho de conscientização dos trabalhadores rurais sobre os seus direitos. . A revista “o Trabalhador Rural” era um dos meios utilizados para chamar os trabalhadores para organização sindical. foram incentivadas as ações coletivas.

o presidente José Francisco recordou: “apesar das condições desfavoráveis para o trabalho sindical entre o último Congresso e os dias atuais.. Na revista “O Trabalhador Rural”. de dois milhões e meio de associados para mais de cinco milhões”. em 1971. ambos fundadores da CONTAG. porque crescer é bem diferente de desenvolver”. é Sindicalismo livre”. Em maio de 1977 foi empossada a direção para o triênio 1977/1980. Reunindo diversos representantes das Federações concluíram que: a) o diálogo deve ser a base para a construção de uma proposta educativa para o campo. mas o Brasil está em franco crescimento. deve levar em conta o conhecimento da realidade. a direção da CONTAG politizou o debate sobre o papel da organização sindical e utilizou repetidamente o lema “Sindicalismo autêntico. . foi organizado um Encontro Nacional em Petrópolis.CNTR em 1973. A CONTAG segue sua trajetória e realiza seu 2º Congresso Nacional dos Trabalhadores Rurais . Sim. de 1. em seu discurso de abertura.500 sindicatos para 2. Em abril de 1980. Demonstrou que o conceito de desenvolvimento do governo era diferente da idéia do MSTR: “milhões de camponeses continuam morrendo de fome (. Levantamento elaborado pela CONTAG. tendo como presidente José Francisco/PE. logo o governo militar buscou impedir a posse da diretoria eleita. preocupados com a importância da educação para o desenvolvimento do campo. em 1979. 04 a 10 de novembro de 2007. conforme a tabela abaixo: Levantamento numérico do movimento sindical em 22 estados. pra acabar com a tal de meia. Rurais dando visibilidade nacional ao sindicalismo de trabalhadores coordenados pela CONTAG. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). que será criticada. e b) o método a ser utilizado. que representou um marco para a organização da classe trabalhadora rural.. Que sempre nos tem trazido amarrado no nó da peia. já em 1968. Denunciou a intenção de cooptação do governo através do assistencialismo. para daí se chegar à escolha da ação e a própria ação.275. passamos de 19 para 21 Federações. demonstraram que a estratégia adotada pelo MSTR foi acertada. foi empossada a direção para o triênio 1980/1983 e a festa de posse contou com a presença dos exex-dirigentes Lyndolpho Silva Silva e José Pureza da Silva. nunca foi a marca do movimento sindical coordenado pela CONTAG.). Durante o 3º Congresso Nacional de Trabalhadores Rurais. Municípios brasileiros Inicio de 1969 3959 Final de 1971 3959 Municípios com Municípios sem Média de sindicatos sindicato sindicatos 705 1045 3254 2914 sócios por 800 1132 Fonte: Revista O Trabalhador Rural Em março de 1971. 1971 ocorreu a Reunião do Conselho Deliberativo que escolheu a diretoria da CONTAG para o triênio 1971/1974. inclusive Brasília e Guanabara.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG vai lá se reunir.103 - . de 1960 a 1971. Em 1979 acontece o 3º Congresso Nacional Nacional dos Trabalhadores Rurais.” A luta essencialmente corporativa. de volta ao país após vários anos de exílio. conhecimento e crítica. Francisco/PE esta foi a 4ª eleição da CONTAG.

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A CONTAG estava consolidada, não como um espaço desse ou daquele ‘modo de pensar o
sindicalismo’, mas de todas as correntes políticas existentes. Rompeu com a visão
imediatista da luta sindical e buscou atender às outras dimensões e necessidades do ser
humano, inclusive, apontando o conceito de desenvolvimento que se queria para o campo:
“O desenvolvimento deve vir acompanhado de transformações sociais e políticas”.
O mesmo aconteceu com o estímulo à participação, em registros internos, vê-se que
reuniões de avaliação e planejamento sempre estiveram presentes na história dessa
entidade, inclusive, com a participação da assessoria nesses momentos, demonstrando
como praticar democracia interna, mesmo em momentos difíceis e sob ameaça constante
dos militares.
No 4º CNTR em 1985 o debate sobre o modelo de reforma agrária defendido pelo MSTR
foi o ponto alto. Os delegados aprovaram a realização de eleições da CONTAG e
Federações em Congresso, com mandato de três anos. Em dezembro de 1985 aconteceu
a 1ª Eleição Congressual da história da CONTAG.
Apesar da deliberação do 4º CNTR, a eleição da Diretoria e do Conselho Fiscal da CONTAG,
gestão 1989/1992,
1989/1992 não aconteceu em congresso. As urnas foram colocadas nas sedes
das federações. A votação foi de um delegado por sindicato. A Diretoria Efetiva teve como
presidente
presidente Aloísio Carneiro/BA.
Carneiro/BA Nessa eleição foi eleita a primeira mulher, Gedalva de
Carvalho/SE, enquanto suplente da direção da entidade.
No 5º CNTR,
CNTR em novembro de 1991 a participação da base foi ampliada qualitativa e
quantitativamente. Elegeram o dirigente Francisco Urbano/RN como presidente da
CONTAG.
Em agosto de 1994 foi realizado o 1º Congresso Nacional Extraordinário dos
Trabalhadores Rurais – CNETR. Neste congresso participaram a direção executiva da
CONTAG, a direção efetiva das federações e os delegados eleitos em número
correspondente a 10% dos sindicatos filiados a cada federação. Foi assegurada a
participação das diretoras da CONTAG, como delegadas, e de duas trabalhadoras rurais
por estados.
O 6º CNTR acontece em maio de 1995 explicitando a necessidade da classe trabalhadora
rediscutir a sua prática de luta e de convivência democrática com as divergências. O 6º
CNTR foi um marco, pois a partir daí o Movimento Sindical dos Trabalhadores e
Trabalhadoras Rurais – MSTTR incorporou o conceito de agricultura
agricultura familiar às suas
formulações, dando os passos iniciais para a construção de um projeto alternativo de
desenvolvimento rural, a participação efetiva das mulheres na Diretoria da CONTAG e uma
maior abertura para os jovens e as pessoas da 3ª idade. No 6º CNTR também foi aprovada
a filiação da CONTAG à Central Única dos Trabalhadores - CUT. Em 1995 foi oficializada
estatutariamente a Comissão Nacional de Mulheres Trabalhadoras Rurais, cuja
Coordenadora passou a integrar a Diretoria da CONTAG. A Comissão Nacional de Mulheres
Trabalhadoras Rurais – CNMTR elege a sua Coordenadora Nacional, Margarida Maria
Alves da Silva (Hilda) do STTR de Surubim/PE.
Dois anos (1997) depois foi realizada a 1ª Plenária Nacional de Mulheres Trabalhadoras
Rurais que discutiu as lutas específicas das mulheres e a sua relação com as lutas do
conjunto da categoria.
O 7º Congresso representou um marco, em 1998 mais de 1.400 delegados e delegadas
debateram e aprovaram um Projeto Alternativo de Desenvolvimento Rural Sustentável –
PADRS. Nascia o PADRS representando um passo significativo para a articulação e

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unificação das lutas da categoria na esfera nacional e para o fortalecimento de um novo
tipo de interseção campo e cidade.
O projeto ampliou a visibilidade política das mulheres coordenadas pela CNMTR, que já
haviam conquistado a inclusão da Coordenação da Comissão Nacional no Estatuto da
CONTAG. Incluíram mais um “T” no nome do congresso, que passou a ser 7º Congresso
Nacional de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais – CNTTR. Foi aprovada também a cota
de, no mínimo, 30% de mulheres em todas as instâncias do sindicalismo rural. Foi eleito
como presidente Manoel José dos Santos/PE.
Neste Congresso os trabalhadores e trabalhadoras rurais aprovaram: o Projeto Alternativo
de Desenvolvimento
Desenvolvimento Rural Sustentável - PADRS,
PADRS, tendo por princípio a realização de uma
ampla e massiva reforma agrária, expansão, valorização e fortalecimento da agricultura
em regime de economia familiar, centrado na inclusão social, no desenvolvimento social,
econômico, ecologicamente sustentável e no fim de todas as discriminações, em especial
as de gênero, de geração, raça e etnia. Para a implementação do Projeto Alternativo de
Desenvolvimento Rural Sustentável - PADRS desenvolveu-se um trabalho de formação de
lideranças em desenvolvimento local, através do Programa de Desenvolvimento Local
Sustentável – PDLS, voltado para a animação e estímulo a processos de desenvolvimento
sustentável ao nível local, possibilitando uma maior intervenção nas políticas públicas e
nos Planos Municipais.
Em outubro de 1999 foi realizado o 2º Congresso Extraordinário buscando atualizar e
potencializar o MSTTR para o desafio de implementação do PADRS. o 2º CNETTR discutiu e
deliberou especificamente sobre estrutura, organização, gestão e auto-sustentação do
MSTTR. Este processo de avaliação e discussão interna tem possibilitado continuar na
construção de um movimento sindical autônomo, combativo, ético e participativo.
Em Março de 2001 acontece o 8º CNTTR , onde o MSTTR reafirmou a estratégia
estratégia de
continuidade e o avanço no processo de implementação do PADRS, indicando a
necessidade de atuação efetiva na organização da produção e comercialização. Foi criada
a Comissão Nacional de Jovens Trabalhadoras e Trabalhadoras Rurais e a Coordenadora
da Comissão, Simone Battestin/ES foi eleita junto com a Direção Efetiva da CONTAG.
Neste congresso foi deliberada a necessidade do MSTTR participar articuladamente das
Eleições Eleitorais e de eleger representantes dos trabalhadores e trabalhadoras rurais.
Os Congressos da CONTAG garantiram o debate, a socialização e a integração nacional
das políticas do Movimento Sindical dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais – MSTTR.
Ver anexo I sobre a trajetória das Eleições e Congressos Nacionais da CONTAG.
Desde então, o Movimento Sindical de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais vem
aperfeiçoando suas proposições e ações em torno da construção e implementação do
PADRS, se contrapondo aos padrões dos sucessivos modelos de desenvolvimento
implementados no Brasil. Modelos estes, que embasados na preservação do latifúndio e
na produção de monoculturas para exportação, fizeram aprofundar a exclusão social, o
desemprego, a concentração da terra e renda, sendo responsáveis, também, pela
violência no campo e pela alta degradação ambiental.41
Como também, implementando e ajustando, permanentemente, o Projeto Alternativo de
Desenvolvimento Rural Sustentável - PADRS. Sua última atualização ocorreu no 9º
Congresso Nacional da CONTAG, realizado em Brasília, no ano de 2005. Dentre os vários
41

PORTO, Cleia Anice. “Reforma Agrária e Agricultura familiar como base para o desenvolvimento rural –
Sustentabilidade e qualidade de vida, Reforma Agrária e Meio Ambiente, Instituto Socioambiental, 2003, p.107

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ajustes, ressalta-se a reflexão sobre o princípio da SOLIDARIEDADE.
SOLIDARIEDADE Durante o 9º
Congresso,
Congresso as trabalhadoras e trabalhadores rurais entenderam não ser possível se opor
ao neoliberalismo sem implementar profundas mudanças nas relações sociais
estabelecidas entre homens e mulheres, de todas as idades, raças e etnias que vivem e
trabalham no campo.
Logo, a solidariedade foi compreendida enquanto principal elemento para a construção de
relações fraternas entre a classe trabalhadora rural, na perspectiva de um mundo melhor.
Nosso projeto passou a ser denominado: Projeto Alternativo de Desenvolvimento Rural
Sustentável e Solidário – PADRSS.
A construção do PADRSS foi a primeira iniciativa concreta de unificar as demandas do
campo, considerando as diferenças e especificidades regionais, culturais, produtivas,
ambientais, organizativas, de gênero, geração, raça e etnia. E ainda propõe alternativas
específicas que consideram as demandas das pessoas no âmbito das suas características
produtivas, a exemplo das assalariadas e assalariados rurais, das agricultoras e
agricultores familiares, assentados, acampados, meeiros, posseiros, extrativistas, dentre
outros.
A incorporação das propostas do PADRSS no dia-a-dia do MSTTR estimulou profundas
mudanças em nossas entidades, garantindo um salto qualitativo e dinâmico às respostas
necessárias ao atendimento das demandas da base. A ampliação das frentes de lutas do
MSTTR foi uma delas. Não bastava atuar nas questões trabalhistas, previdenciárias, de
acesso à terra e crédito, sem articular essas lutas com outras políticas necessárias e
estratégicas para garantir o desenvolvimento rural sustentável que se pretende.
A ampliação das frentes de lutas acabou estimulando o MSTTR a expandir e qualificar
suas direções. Foram criadas as secretarias específicas, primeiramente na CONTAG, em
seguida nas Federações, e em muitos Sindicatos de Trabalhadores e Trabalhadoras
Rurais.
Essas mudanças apontaram para a necessidade de investir na formação política, sindical
e profissional de novas
novas lideranças sindicais e técnicas do MSTTR. Essas ações formativas
deram visibilidade a um público estratégico para as mudanças, a juventude e as mulheres
trabalhadoras rurais.
Ainda hoje, esse processo formativo busca conjugar a formação política sindical com as
demandas por melhoria das condições de trabalho, aumento da renda e dos salários,
direitos trabalhistas e previdenciários, elevação dos níveis de escolaridade, de formação e
requalificação profissional, habitação rural, saneamento básico, saúde pública e de
qualidade, educação do campo e lazer.42 Conjugadas com as demandas estruturantes do
desenvolvimento rural sustentável, como o acesso à terra, crédito, infra-estrutura social e
produtiva, condições de comercialização, tecnologias de produção adaptada à agricultura
familiar e aos ecossistemas.
A estratégia do MSTTR se orientou pelo estímulo à participação política e à gestão
democrática na comunidade, município, território ou região, levando os excluídos e
marginalizados do campo a serem protagonistas de uma outra realidade, sem perder de
vista a articulação entre o local, o regional e o territorial com o global, o rural com o
urbano, na perspectiva de uma sociedade justa, democrática, igualitária e solidária.
Tal estratégia exige uma participação efetiva nos processos políticos e eleitorais, nos
espaços de concepção e gestão de políticas públicas e, o permanente debate com a
42

Anais da 1ª Plenária Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais – Novembro 2003

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A história da CONTAG é marcada também por ações de massa em defesa dos interesses da categoria. Desde então. Essa organização se constitui no Movimento Sindical dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais . estados e regiões. A Confederação Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Agricultura – CONTAG. democrática. MSTTR É essencial que tenhamos viva. A CONTAG foi fundada no dia 22 de dezembro de 1963 em 01 Congresso Nacional. representa um salto qualitativo para nossa organização. 03 Plenárias Nacionais de Mulheres Trabalhadoras Rurais. Pólos/Regionais. Foi reconhecidamente. igualitária e solidária em nosso País. CONTAG. marcada pela mobilização.estar da representatividade dos trabalhadores e trabalhadoras rurais do nosso país. 03 Encontros Nacionais de Juventude. Mas. existência com o esforço e a participação de milhões de trabalhadores e trabalhadoras rurais. Em sua história de luta. no Movimento “Diretas Já”. em sua primeira edição mobilizou milhares de trabalhadoras rurais dos municípios. estaduais e municipais . em prol do bem . proposição. 01 Congresso Nacional da Terceira Idade. sem dúvida. 01 Plenária Nacional de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais. foram realizados mais 08 Congressos Nacionais de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais. É a maior entidade camponesa da América Latina organizada em 27 Federações Estaduais de Trabalhadores na Agricultura e 4. A Marcha das Margaridas é outra ação de massa importante no contexto do MSTTR. mobilização. unida e ativa essa grande estrutura de representação construída ao longo desses 43 anos. a maior mobilização nacional de mulheres já realizada na história do país. luta e ampliação das possibilidades concretas de implementarmos e consolidarmos o PROJETO ALTERNATIVO DE DESENVOLVIMENTO RURAL SUSTENTAVEL E SOLIDÁRIO – PADRSS. 04 a 10 de novembro de 2007. A partir de 1995. tendo como um dos principais objetivos reverter o processo neoliberal e viabilizar políticas públicas necessárias à implementação do PADRSS. econômico. 02 Congressos Nacionais Extraordinários de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais. por eleições diretas para presidente e governadores. Não queremos dizer que o projeto vá resolver num passe de mágica os desafios históricos que estão postos para trabalhadores e trabalhadoras rurais brasileiras. Os principais objetivos da Marcha. em seus 43 anos de existência.que hoje é considerado como a “data“database” para a categoria trabalhadora rural. contando também com a adesão das trabalhadoras urbanas.107 - . reivindicação e negociação das políticas essenciais para o meio rural.100 Sindicatos de Trabalhadores Rurais. Os Congressos da CONTAG adquiriram cada vez maior importância política e capacidade no aprofundamento das questões de interesse da categoria. . FETAGs. e principalmente a inclusão e organização das mulheres trabalhadoras de base. a CONTAG continua engajada na defesa permanente dos interesses dos trabalhadores e trabalhadoras rurais. pela convocação da Assembléia Nacional Constituinte. na Constituinte de 1988 e foi participante do Comitê em Defesa da Ética na Política que levou ao “Impeachment” o presidente Fernando Collor de Mello. A CONTAG nestes 43 anos se engajou nas principais lutas do povo brasileiro: contra a ditadura militar.nacional. para a construção de uma sociedade mais justa. de maneira decisiva. dar visibilidade e reconhecimento ao papel político. o MSTTR passou a se mobilizar anualmente no “Grito da Terra Brasil” . foram o fortalecimento das organizações e comissões de mulheres nos STTRs.MSTTR. social e cultural das mulheres trabalhadoras 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE).Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG sociedade sobre a concepção de espaço rural e do desenvolvimento que propomos. militar pela anistia política. tem contribuído.

Uma encabeçada por José CONTAG Rotta. Damasceno/RN. Filho/PB. Gomes/CE. . 04 a 10 de novembro de 2007. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). democrático e de construção de estratégias comuns. que representava a influência do Ministério do Trabalho e. A próxima Marcha das Margaridas acontecerá em agosto de 2007. Cavalcante/PB. 3ª Eleição da Em 1968. a classe trabalhadora faz valer sua vontade. Cavalcante/PA. Euclides A. Machado/SP e José Felix Neto/SE. foi eleita a primeira Direção Executiva: Lyndolpho Silva/RJ. as organizações que atuam no campo criam a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG. Filho/RN. de 18 estados. Joaquim B. a outra chapa por José Francisco. Por apenas 01 voto de diferença. José Benedito da Silva/AL e Otavio F. de luta. no ano seguinte foi eleita para o período de 1965 a 1968 a diretoria composta por: José Rotta/SP.108 - . capaz de promover a Justiça Social. José Felix Neto/SE. foram escolhidos: Jose Felix Neto/SE. a propriedade rural e o uso da terra. ocorreu a Reunião do Conselho Deliberativo que escolheu a CONTAG Diretoria da CONTAG para o triênio 1971/1974. Sebastião Lourenço de Lima/MG.CNTR. em cada município e estado.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG rurais no Movimento Sindical de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais – MSTTR e na sociedade. dos Santos/RJ. contando com o apoio de entidades sindicais urbanas e da base do movimento sindical de trabalhadores rurais. O Conselho Fiscal: Joaquim Coutinho/RN. Neto/RJ. as eleições contaram com duas chapas. do Nascimento/PE. a direção da CONTAG foi deposta e alguns dirigentes presos. da S. Joaquim Damasceno/RN e Antonio J. Agenor P. Agostinho J. João de A. vêm. Mendes/CE e Manoel P. o progresso e o bem-estar do trabalhador rural e o desenvolvimento econômico do país. de Faria/RJ. Ao final. de trabalho e de construção de conhecimentos capazes de promover as transformações necessárias para um desenvolvimento sustentável em nosso país. Nobor Bito/. a chapa encabeçada por José Francisco saiu vitoriosa. o presidente da CONTAG enfatizou a necessidade de cumprimento do Estatuto da Terra para: “estabelecer um sistema de relações entre o homem. Otávio F. Joaquim A. e Nestor Vera/SP. Tarciso G. O congresso deliberou sobre: Legislação Rural. Sobrinho/PA. articulação e mobilização dos Sindicatos e Federações de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais que. Zacarias Pedro/SC. Nossa trajetória é fruto de organização. O congresso contou com a participação de 29 federações. José Palhares/RN e João Jordão da Silva/PE. Reforma Agrária e Desenvolvimento Agrícola. 2º Congresso Nacional dos Trabalhadores Rurais . composta pelos diretores efetivos: José Francisco/PE. com a gradual extinção do minifúndio e do latifúndio”. Geraldo F. 2ª Eleição da Com o golpe militar. Agostinho José Neto/RJ. desde a fundação da CONTAG construindo o MSTTR. Para o Conselho Fiscal. A eleição ocorreu na reunião do Conselho Deliberativo da CONTAG. ANEXO I Trajetória das Eleições e Congressos Nacionais da CONTAG 1ª Eleição da CONTAG Em Congresso participativo. onde apenas 11 Federações votavam. Educação. Francisco Urbano de A. João de A. propondo e negociando políticas agrícolas diferenciadas. trabalho. José Ari Griebler/RS. No encerramento. direitos trabalhistas e políticas sociais que resgatam a área rural enquanto espaço de vida. Gomes/CE. CONTAG Uma Junta Governativa foi indicada pelo Ministério do Trabalho e. A CONTAG procurou se estruturar como uma entidade legítima de representação dos trabalhadores e trabalhadoras rurais em defesa dos interesses da classe camponesa. Previdência. 4ª Eleição da Em março de 1971. José Lazaro/PR. Acácio F. mobilizando. Miqueletti/PR. Foram eleitos para o mandato de 1968/1971: José Francisco/PE. contribuindo para a ampliação e o fortalecimento da organização e representação sindical no meio rural: reivindicando.

Acácio F. João F. A Diretoria Efetiva era composta por: José Francisco da Silva/PE. Leocadio N. José B. José “Eleição da CONTAG de Francisco da Silva/PE. de Souza/MT. O Conselho Fiscal foi composto por: Álvaro Diniz. Gelindo Zulmiro Ferri/RS. Francisco Sales/MA. Filho/RN. Estevam N. André Montalvão/MG. Eraldo Lírio de Azevedo/RJ. Eraldo Lírio de Azevedo/RJ. O Conselho Fiscal foi composto por: Álvaro Diniz. Gelindo Zulmiro Ferri/RS. a sergipana Gedalva de Carvalho. O Conselho Fiscal foi composto por: Álvaro Diniz. Norberto Kortmann/SC. dos Santos/RJ e José B.109 - . Aloísio Carneiro/BA. Francisco Urbano A. “a democratização da terra é a base para a democracia no Brasil”. Jonas P. Horiguti/SP. . 7ª Eleição da CONTAG Em abril de 1980. João F. Jonas P. o Conselho de Representantes da CONTAG elegeu a nova diretoria para o triênio 1974/1977. Canalle e João Tavares da Silva. foi empossada a direção para triênio 1980/1983. da Silva/AL. de Souza e Norberto Kortmann. O Conselho Fiscal foi composto por: Álvaro Diniz. Filho/RN. 3º Congresso Nacional dos Trabalhadores Rurais – CNTR – “Um marco na História da classe trabalhadora rural”. Vidor Jorge Congresso”. Francisco Sales/MA. Horiguti/SP. de Souza e Norberto Kortmann 8ª Eleição da CONTAG Em abril de 1983. que apesar de subordinada à presidência da entidade. Francisco Urbano A. 10ª Eleição da CONTAG A Diretoria Efetiva eleita era composta por: Aloísio Carneiro/BA. dava os primeiros passos para consolidar a organização das mulheres trabalhadoras rurais. Eraldo Lírio de Azevedo/RJ. de Carvalho/ES. Filho/RN e Henrique Gomes Vilanova/PI. Trindade. Roberto T. Orgenio Rott/RS. André Montalvão/MG. André Montalvão/MG. Roberto T. Filho/RN. 04 a 10 de novembro de 2007. Paulo F. Trindade/ES. Euclides D. Antenor Beni/PR. Faita/SP. Filho/RN e Osmar Araújo/PI. dos Santos/RJ e José B. Erny 1989 não ocorreu em Knortst/RS.CNTR. A Diretoria Efetiva foi composta por: José Francisco da Silva/PE. Henrique Gomes Vilanova/PI. de Souza e Norberto Kortmann. “Reforma Agrária para acabar com a fome e o desemprego no campo e na cidade”. Canalle e Jonas P. Eraldo Lírio de Azevedo e Henrique Gomes Vilanova. A Diretoria Efetiva era composta por: José Francisco da Silva/PE. Octavio Adriano Klafke/RS. José Amadeu Araújo/CE. Ezidio V. Euclides D. 6ª Eleição da CONTAG Em maio de 1977. O Conselho Fiscal foi composto por: Henrique Gomes Vilanova. de Souza/MT. Paulo F. de Almeida/BA. Pedro Ramalho/MS e Adevair N. Francisco Urbano A. de Oliveira. Divino Goulart/GO. Francisco Urbano A. de Souza/MT. 9ª Eleição da CONTAG A Direção Efetiva era composta por: José Francisco da Silva/PE. da Silva/AL. Horiguti/SP. Elio Neves/SP. “1ª Eleição da história da Pinheiro/RS. Francisco Urbano A.Nessa eleição foi eleita a primeira mulher. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). de Souza. João F. José Felix/SE. foi empossada a direção para o triênio 1983/1986. CONTAG em Congresso” Jonas P. O Conselho Fiscal foi composto por: Jonas P. Roberto T. Acácio F. foi empossada a Direção para o triênio 1977/1980. José Felix/SE. Francisco Urbano A. As mulheres conquistam a Comissão Nacional Provisória da Trabalhadora Rural. Pedro Ramalho/MS e José Amadeu Araújo/CE. André Montalvão/MG. de Souza. Filho/RN.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Trajetória das Eleições e Congressos Nacionais da CONTAG 5ª Eleição da CONTAG Em março de 1974. Jonas P. A Direção Efetiva era composta por: José Francisco da Silva/PE. de Souza/MT. da Silva/AL. enquanto suplente da direção da entidade. 4º Congresso Nacional dos Trabalhadores Rurais .

7º Congresso Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais – CNTTR. Francisco Sales/MA. “apesar das tentativas de desarticulação das organizações sociais promovidas pelo governo. Conselho Fiscal: José Roberto de Assis. Avelino Ganzer/PA.. As novas diretoras ocuparam a Coordenação da CNMTR e as Secretarias de Políticas Sociais e a Secretaria de Organização e Formação Sindical. A Direção Efetiva eleita era composta por: Francisco Urbano A. José Francisco da Silva/PE. da Silva/PI e Raimunda Celestina de Mascena/CE. Guilherme Pedro Neto/GO. Divino Goulart e Almir José Feliciano. Maria Santiago de Lima/RO. Hilário Gottselig/SC. no mesmo período em que ocorreriam as eleições gerais de 1994. As eleições de agora terão a responsabilidade de construir o amanhã.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Trajetória das Eleições e Congressos Nacionais da CONTAG 11ª Eleição da CONTAG 5º Congresso Nacional dos Trabalhadores Rurais – CNTR. em agosto de 1994. para rediscutir e redefinir suas lutas”. nem miséria. Tereza Silva/MG.”. convocando um congresso massivo em Brasília.. SALÁRIO”. Aloísio Carneiro/BA. Wilson Paixão e Osmar Araújo. Itálico Cielo/RS. 04 a 10 de novembro de 2007. Conselho Fiscal: Antonio Zarantonello. Francisco Miguel de Lucena/CE. o MSTR reuniu mais de dois mil delegados (as) de todo o país. Constatando que o próximo congresso aconteceria na segunda quinzena de novembro. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Francisco Urbano estava licenciado para concorrer a uma vaga para o Senado Federal. PRODUÇÃO. A direção eleita teve a seguinte composição: Diretoria Efetiva: Francisco Urbano A. . de Fátima R. José Raimundo de Andrade/PB e Francisco Sales/MA. Alberto Ercílio Broch/RS. José Fialho/MS. Airton Luiz Faleiro/PA e Sebastião Rocha/MG. Antonio Zarantonello e Maira Bottega. “Nem fome... Hilário Gottselig/SC. em Brasília. Norival Guadaghin/SP. Gerônimo Brumatti/ES. 1º Congresso Nacional Extraordinário dos Trabalhadores Rurais – CNETR “. passou a ter três dirigentes na direção efetiva da CONTAG. pelo Rio Grande do Norte 12ª Eleição da CONTAG 13ª Eleição da CONTAG 6º Congresso Nacional dos Trabalhadores Rurais – CNTR.110 - . O campo é a solução”. A partir do 7º – CNTTR. o Conselho Deliberativo aprovou a realização de um Congresso Extraordinário. Aloísio Carneiro. Filho/RN. “Rumo a um Projeto Alternativo de Desenvolvimento Rural Sustentável”. O Congresso Extraordinário foi coordenado pelo Presidente em exercício. Filho/RN. não podemos sacrificar a nossa intervenção nos processos eleitorais gerais que o país viverá. Juarez L. Pereira/MG. “TERRA. Conselho Fiscal: Antonio Zarantonello.

Guilherme Pedro Neto/GO. Simone Battestin/ES. Suplentes: Joel José Farias/SE. Liberalino Ferreira de Lucena/PB. Pedro Mário Ribeiro/MG. Wilson Hermuth Gottens/GO. “entre tantas deliberações. Alberto Ercílio Broch/RS. 43 Fonte: Ata de Posse da Diretoria e do Conselho Fiscal da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG. David Wilkerson Rodrigues/BA. Conselho Fiscal: Francisco Sales. Regina Rodrigues de Freitas/AC. A direção eleita teve a seguinte composição: Diretoria Efetiva: Manoel José dos Santos/PE. Alberto Ercílio Broch/RS. A direção eleita teve a seguinte composição: Diretoria Efetiva: Manoel José dos Santos /PE. Gilson Francisco da Silva e Maria Helena Baungarten. 15ª Eleição da CONTAG43 9º Congresso Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais – CNTTR. Maria Lucinete Nicácia de Lima/AM. Airton Faleiro/PA. Paulo de Tarso Caralo/ES. 14ª Eleição da CONTAG 8º Congresso Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais – CNTTR. Maria do Ó do Nascimento Melo/AL. Suplentes do Conselho Fiscal: Maria das Graças Darós/SC. para o quadriênio 2005/2009 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Maria da Glória da Silva/MT. Geraldo Teixeira de Almeida/MS e Antonio Vitorino da Silva/AL. Hilário Gottselig/SC. Alessandra da Costa Lunas/RO. Carmem Helena Ferreira Foro/PA. Raimunda Celestina de Mascena/CE e Simone Battestin/ES. . Paulo César Ventura Mendonça/RJ. Manoel Candido da Costa/RN. Maria José de Carvalho/PE. Conselho Fiscal: Francisco Sales de Oliveira/MA. Antoninho Rovaris/SC. outra. Josefa Rita da Silva/BA. Antonio Lucas Filho/GO. Ademir Mueller/PR e Elizete Hintz/RS. Maria de Fátima R. “Consolidando o Projeto Alternativo de Desenvolvimento Rural Sustentável”. Maria da Graça Amorim/MA. Juraci Moreira Souto/MG. é o futuro sendo construído hoje” Duas chapas concorreram à eleição da direção da CONTAG. Antonio Soares Guimarães/CE. 04 a 10 de novembro de 2007. José de Jesus Santana/BA. Francisco Miguel de Lucena/CE.111 - . encabeçada pelo baiano Edson Pimenta.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Trajetória das Eleições e Congressos Congressos Nacionais da CONTAG 2º Congresso Nacional Extraordinário dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais – CNETTR “A prioridade será a discussão na base. Uma chapa encabeçada por Manoel de Serra e. Manoel Cândido da Costa/RN. Raimunda Celestina de Mascena/CE. os trabalhadores e trabalhadoras rurais deverão determinar qual o tipo de sindicalismo que irá representá-los no próximo milênio”. Maria do Ó do Nascimento/AL. Domingos Albuquerque Paz/MA. vale destacar a criação da Comissão Nacional da Juventude Trabalhadora Rural e da estrutura cooperativista ligada ao MSTTR. Manoel Carlos Dantas/RO. Maria Elenice Anastácio/RN. Juraci Moreira Souto/MG. “Avançar na Construção do Projeto Alternativo de Desenvolvimento Rural Sustentável”. Cláudia Pereira Farinha/DF. da Silva/PI.

Sindicalismo – Brasil – História 2. Sílvia Maria – Formação sindical no Brasil : história de uma prática cultural / Silvia Maria Manfredi – São Paulo : Escrituras Editora. Cleia Anice. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE).40 anos Ata de Posse da Diretoria e Conselho Fiscal da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Bibliografia:                Anais do 4º Congresso Nacional dos Trabalhadores Rurais . 2003. Instituto Socioambiental.1985 Anais do 5º Congresso Nacional dos Trabalhadores Rurais – 1991 Anais do 1º Congresso Nacional Extraordinário dos Trabalhadores Rurais . para o quadriênio 2005/2009. p. 1996. “Reforma Agrária e Agricultura familiar como base para o desenvolvimento rural – Sustentabilidade e qualidade de vida. Sindicatos – Brasil – História I.107 O Golpe Militar de 64 e a Instauração do Regime Militar – CPDOC – Fundação Getúlio Vargas – FGV. .112 - . Manfredi. Título PORTO.1999 Anais do 8º Congresso Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais – 2001 Anais da 1ª Plenária Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais – Novembro 2003 Anais do 9º Congresso Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais – 2005 Publicação – Revista Contag .1994 Anais do 6º Congresso Nacional dos Trabalhadores Rurais – 1995 Anais do 7º Congresso Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais – 1998 Anais do 2º Congresso Nacional Extraordinário dos Trabalhadores Rurais . Reforma Agrária e Meio Ambiente. 04 a 10 de novembro de 2007.

a produção de sabão e velas. cabia. como agora. eram 78% . é claro. a agricultura empregava 25%. contudo. Mais de cem anos depois. No caso das mulheres escravas. 04 a 10 de novembro de 2007. as tarefas mais duras e pesadas. quanto na indústria. ainda. naquela ocasião. a família. desempenhar várias ocupações: supervisionava e controlava todas as atividades caseiras. diferentemente de agora. De fato. alemã e japonesa. das quais 4.865 pessoas. embora parte substancial.187 pessoas. o latifúndio. desse trabalho fosse realizada dentro da família. formou-se um proletariado urbano rural e a classe média assumiu claros contornos sociais e políticos. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). se observarmos o total de pessoas absorvidas. Elas roçavam plantavam e colhiam algumas cultivavam ainda. como cuidar das crianças. italiana. não obstante. das quais 59. cozinha e costura e. desde pequenas. sinhás e escravas eram partes da mesma comunhão doméstica. disperso pelo território brasileiro e desprovido de terras.146. que' consistia na atividade econômica mais importante. realizado pela ENFOC/CONTAG.070. como donas de casa e serviçais domésticas. foi realizado o primeiro recenseamento da população brasileira. Às fazendeiras. o Censo Demográfico de 1980 mostra que a população brasileira é de 119.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG PARTICIPAÇÃO DAS MULHERES NA LUTA DOS TRABALHADORES E NO MOVIMENTO SINDICAL Maria Valéria Junho Penna44 Em 1872. o país industrializou-se alterou-se a composição de sua população com a absorção intensa da imigração espanhola. logravam comprar sua liberdade. Mas às diferenças. Nos longínqüos 1872. os serviços domésticos 33%. tanto nos· serviços. as mulheres ficavam com o encargo dos filhos. dessas. O que esses dados do século passado mostram é que muitas mulheres trabalhavam. por 9. . Naquele ano. a propriedade territorial e a escravidão eram eixos do mesmo fenômeno. eventualmente. elas partilhavam. Política e economicamente. No entanto. e que. ano após proclamou-se a República. não se considerou as donas de casa nesse conjunto. freqüentemente comercializados nas vilas mais próximas. eram incorporados às atividades do latifúndio: Nesse grupo.113 - . durante o Curso de Formação de Educadores/as em Concepção Prática Sindical e Metodologia da Formação.694. constatou-se que ela era composta. ainda durante o Império. com as crianças do sexo masculinas.998 mulheres escravas.943 eram mulheres e. então. tanto domésticas quanto na agricultura. Das mulheres que trabalhavam oficialmente. as mulheres eram dominantes na prestação de serviços pessoais· (81 % do total de pessoas no setor).099 do sexo feminino. alimentos em pequenos pedaços de terras que vendiam e assim. constataremos que elas eram mulheres em sua maioria. 689. um. sem propriedade. as mulheres compunham aproximadamente 45% do que o Censo considerava trabalhadores e. 44 Este texto foi distribuído pela Nalú Farias da SOF. No latifúndio. dos trabalhadores industriais: Elas perdiam para os homens na agricultura. embora sob o jugo masculino e interminavelmente explorando as escravas.700. com sua produção voltada para o mercado externo. não são apenas demográficas e numéricas: em 1888 extinguiu-se a escravidão. Na periferia da grande propriedade territorial estavam os antepassados dos atuais bóias-frias: homens e mulheres pobres e brancos.

A mulher taboleira. ainda. a aprender corte e costura e. aceitando-se a participação feminina. flores. desolador: viviam nelas. a imigração européia seria a solução para a questão da força de trabalho nas lavouras de exportação e consumo interno e.114 - . fundada em 1835. principalmente em direção às regiões fluminense e paulista. refrescos. a sujeira. a expansão econômica da lavoura para exportação provocou uma crise na lavoura para o abastecimento interno e uma demanda não suprida por mão-de-obra. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). à habilitação profissional. desde o início. bolo. para a indústria em expansão. a Lei do Ventre livre. MULHERES E CRIANÇAS NA FÁBRICA O panorama da convivência das mulheres e crianças com as fábricas foi. as restrições progressivas ao tráfego negreiro. à prestação de serviços pessoais como costura ou cozinha e. As primeiras Escolas Normais (a da Bahia.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG freqüentemente abandonados pelos pais. Foi também no século passado que tomou impulso a constituição de um campo de trabalho fundamental para a jovem de classe média: o ensino primário. com os homens recebendo salários maiores que as mulheres. por exemplo. As condições de trabalho supunham. mulheres e crianças das periferias pobres das cidades forneceram os primeiros braços para essa indústria. cortes de roupas brancas e lisas. finalmente. após incontáveis horas de trabalho. café torrado. para absorção nas lavouras de café. palmitos. paulatinamente. os homens . flores de contas e aplicação. as vagas foram se abrindo às mulheres e. ainda. Apenas em 1827 surgiu a primeira regulamentação que permitia às mulheres freqüentarem o ensino elementar.freqüentemente imigrantes estrangeiros . desde que com um currículo específico que incluísse bordado branco. a substituir as mulheres nas oficinas.passaram. 04 a 10 de novembro de 2007. até o inicio do século XIX. mas apenas esse. Como se sabe. um conjunto de medidas legais restringia o acesso das mulheres às escolas e. aves. não faziam jus a nenhum salário. . A longo prazo. em filó. portanto. promovida pelo Estado em estreita conexão com os empresários. de matizes. o ensino era uma esfera de atividades masculina. à prostituição. milho assado. Não podendo ser alunas. em 1871. No mesmo período. cestos. os salários generalizaram-se no interior da indústria. teve origem nesse pequeno comércio ambulante. fundada em 1836) destinavam-se exclusivamente a rapazes. Inicialmente. começaram a configurar uma crise na oferta de mão-de-obra e a estimular o comércio interno de escravos. dormindo e se alimentando entre máquinas. trabalhando uma jornada de até dezesseis horas diárias. Em resumo. e a de São Paulo. Aos poucos. mesmo porque. finalmente. eram obrigadas. A curto prazo. não podiam ser professoras. onde se vendia sonhos. a insalubridade. iniciando-se o hábito de pagamento diferenciado entre os sexos. dedicando-se ao comércio ambulante de mercadorias feitas em casa. expandiu-se a cultura do algodão em São Paulo e surgiram as primeiras fábricas têxteis. no entanto. angu. reorganizou·se o ensino de formação para o magistério. À medida que o século XX se avizinhava. vilas operárias foram sendo construídas. a libertação de escravos sexagenários. freqüentemente. etc. os espancamentos e estupros.

mesmo trabalhando além do horário estabelecido.80I eram do sexo feminino. 04 a 10 de novembro de 2007. 2$000 réis. Assim. que chamavam de aprendizado. 7. O jornal A Terra Livre. foi o veículo utilizado pelas costureiras das confecções para articular suas demandas e organizar seus sindicatos. do Departamento Estadual do Trabalho de São Paulo. no início do século. dividida entre seus afazeres domésticos e a longa jornada do trabalho assalariado. no subúrbio do Rio. como os homens trabalhadores. o salário era o mesmo. pelas mesmas razões. na mesma época. diferentemente desses. Alvorada Operária. na Companhia Industrial de São Paulo. O salário médio das mulheres era bastante mais baixo que o dos homens: o salário médio masculino na fiação era de 4$500 réis e o das mulheres. Dos 10. Iniciava o trabalho às seis e terminava por volta das 17 horas . (A Terra Livre. Luzia Ferreira de Medeiros. por mais dramática que fosse a vida da mulher operária. entraram em greve por solidariedade a uma companheira despedida. Neles. na Álvares Penteado. Muitas moças foram prostituídas por aquele canalha.) Conjuntamente ao apelo em nome dos' "direitos". Não tínhamos lugar para comer. Ao mesmo tempo muitas mulheres encabeçaram alguns dos mais importantes movimentos grevistas do período. 6. que somos capazes de exigir o que nas pertence. Nunca recebíamos horas extras. ainda sofriam maus tratos corporais e auferiam salários mais baixos.sem horário para almoço de definido. Era o critério dos mestres o direito de comer e tendo ou não tempo para almoçar. foi no interior desses dois movimentos que as mulheres procuraram demarcar um território para sua luta. enfim. As refeições eram feitas entre as máquinas. no Rio de Janeiro. os homens recebiam 4$900 réis e as mulheres recebiam 3$000 réis.943 trabalhadores brasileiros. esse fato não a fez abdicar da sua capacidade de reação à injustiça e da ação política. Isso. em média. paralisaram o trabalho em protesto contra as condições de trabalho e os salários.499 estrangeiros e 862 de nacionalidade ignorada. Porque luta houve. mas não menos importantes. . e se todas forem solidária. revelam que foram visitadas. se todas nos acompanharem nessa luta. O PROTESTO FEMININO No entanto. nós começaremos por desmascarar a cupidez dos patrões sanguinolentos". Dois manifestos. Dados de 1912.uma questão de polícia para o Estado. em 1902. A jornada de trabalho iniciava-se por volta das cinco e meia da manhã e terminava treze horas depois. No Brasil. a condições de trabalho corrosivas. A Penas uma pia imunda servia· nos de bebedouro. para confecção de um relatório.) O fato é que as mulheres: além de estarem submetidas. por exemplo. Teresa Fabri e Maria Lopes. fizeram uma paralisação contra a diminuição de tarefas. (Em Edgar Rodrigues. 19.07I 906. assinados por Teresa Cari. fábricas que contavam com 1. em 1903. podia-se ler: "Devemos demonstrar. da fábrica têxtil Bangu. anarquistas e socialistas foram os arquitetos da questão social . em São Paulo. Mestre Cláudio fechava as moças no escritório para força-la à praticar relação sexual. se nos derem ouvidos.304 recenseados. na Cruzeiro.115 - . depois de passada a fase do trabalho gratuito. vinham reivindicações mais concretas e imediatas.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Uma operária. de tendência anarquista. Em 1901 e 1903. na Anhaia. com o 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). ficaram célebres. exigindo melhores salários e menor jornada. contou como eram as condições de trabalho já depois da virada do século: "Entrei para a fábrica Bangu no período da primeira guerra mundial com sete anos de idade. Na seção de acabamento. evidentemente.

. sendo mesmo obstaculada em alguns casos. Têxtil Rio Grandense. como por exemplo as chapeleiras.. resume esse consenso: "O 3º Congresso Operário. e em 1919. isso "quando a dona do atelier não prorrogava a jornada até às 20 ou 22 horas. Alvorada Operária. pela diminuição da jornada. Uma de suas inspiradoras. existem numerosos registros mostrando que um esforço considerável nessa direção foi realizado: não apenas vários sindicatos femininos foram fundados. de outro.) De fato. Kessler & Cia. fora dispensada pelo mestre que a engravidou. Uma resolução do 3º Congresso Operário Brasileiro. 04 a 10 de novembro de 2007. além das havidas no Rio e em São Paulo. aconselha vivamente as associações obreiras a se esforçarem para interessar diretamente as operárias na vida sindical. preocupando-se 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Dos sindicatos constituídos. . . que após tão fatigante trabalho em troca de um mísero salário . Fábrica de ligas Peterson. realizado entre 23 e 30 de abril de 1920. Â União foi fundada por 50 operárias e sua primeira medida foi deflagrar uma greve pela redução da jornada de trabalho a oito horas diárias. MULHERES ENTRAM PARA OS SINDICATOS Embora houvesse inúmeros fatores freando a participação feminina na vida sindical. em alguns Congressos Operários.. inclusive discursando. tem necessidade de fazer seus serviços domésticos. lima operária delegada. com sede na rua Senhor dos Passos.. tecelãs da Cia. Companhia de Fiação e Tecidos Porto-Alegrense e trabalhadoras da fábrica de chapéus F. no Rio de Janeiro.116 - . onde já funcionava a União dos Alfaiates da mesma cidade. (Em Edgar Rodrigues. Fábrica de tecidos Mariângela. as exigências de sua dupla jornada de trabalho que não Ihes deixava tempo para a política . Elvira Boni. em alguns congressos operários. costureiras sob medida. necessitando sustentar os seus e ampará-los contra as misérias da vida (. confirmando as resoluções do 1º Congresso quanto à situação do elemento feminino no meio proletário. recém-parida. Como já disse. desde as primeiras reuniões de trabalhadores formou-se um certo consenso sobre quais deveriam ser as condições de seu trabalho extra-doméstico. terminando às 19 h. as mulheres pararam os trabalhos nas Fábricas Matarazzo. a maioria é composta por mães de famílias. um dos mais importantes foi a União das Costureiras. pois ainda há casas em que se trabalham 14 a 16 horas. em fábricas por todo o país. realizado em 1920. discursou sobre as condições do trabalho feminino. podemos ainda lembrar o estado de ânimo em que se encontram nossas irmãs. etc.ainda assim. a relutância masculina em aceitá-Ias como companheiras e. sempre pelo mesmo salário". Alvorada Operária.) " (Em Edgar Rodrigues.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG agravante de que a operária em questão.. . C.) Por sua vez. sua presença foi destacada. Fábrica de cigarros Trajano. embora a presença de mulheres não tenha sido usual nos Congressos. destacando como essas eram tão árduas que impediam um companheirismo mais vigoroso como o dos homens na vida sindical: “Quando tomamos conta que a jornada de trabalho é de 8 horas e mais. quanto há evidências de freqüência de mulheres. lembra que o trabalho começava às 8 h da manhã. Chapeleiras e Classes Anexas. de nome Alzira. No 2º Congresso Operário do Rio Grande do Sul.. de um lado. Em 1917. em 1906 e 1907. em Porto Alegre. participaram de nova greve geral por aumento de salário.

em I 922 no mesmo ano. professora e escritora. em torno da metade do proletariado têxtil e seriam majoritárias no setor de confecções. 04 a 10 de novembro de 2007. bordadeiras.417. Assim. Outras informações demonstram que. fundou a Liga Contra o Analfabetismo. na prestação de serviços. em 1932. tomando o total de pessoas trabalhando nos diversos setores da economia. fizeram greves na Fábrica de Tecidos Irmãos Tognato. pelo Decreto 21. na indústria de transformação 36%. na agricultura as mulheres eram 9% da força de trabalho. elas permaneceriam. constata-se que. em Sorocaba. foi reconhecida pelo Estado. ainda. em São Bernardo. Maria Lacerda de Moura. PIONEIRAS DA LUTA SOCIAL Algumas mulheres destacaram-se na vida pública e em sua participação junto às organizações operárias. embora discutível para muitos em virtude dos embaraços que terminou por causar para a contratação e a carreira das mulheres. em 1931. 31 % na indústria (inclusive em serviços de reparação) e 26% em serviços. principalmente ma condição de tecelãs e costureiras.000 mulheres trabalhavam oficialmente. de caráter protetor. afirmou na ocasião: "A questão social. participaram da tentativa de uma greve geral da categoria: em 1925. mineira de Manhuaçu nascida em 1877. acabou por prevalecer e. na qual 22 casas foram construídas para favelados e. Isabel Ferreira Bertolucci e Bertha Lutz. Comparando os dados de 1872 com os de 1920. cabe destacar Maria Lacerda de Moura. No entanto. vale a pena lembrar que durante toda a década dos vinte. que tanto proibia seu trabalho noturno. Convidada para discursar na Federação Operária Mineira.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG com a sua educação social e intelectual e para que se estabeleça no trabalho um ambiente de respeito. organizou a Vila Dom Viçosa. 42% estavam na agricultura. não obstante esse decréscimo. 81 %. costureiras e trabalhadoras de fábricas de fósforos em Niterói deram testemunho em A Classe Operária sobre suas condições de trabalho e salários e tentaram ganhar a solidariedade masculina para suas reivindicações." A demanda por uma legislação especial. a conclusão mais importante é que. elas militaram no movimento dos trabalhadores: a título de exemplo.434.117 - . Dentre várias. apresentando 15% da força de trabalho. Deste total de mulheres trabalhadoras. . a questão do bem-estar para todos resume-se no seguinte: 1º) Formar um núcleo 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). no Rio. diminuiu a participação das mulheres no seu interior. repelindo as brutalidades dos patrões e encarregados de serviços intensificando-se a campanha no sentido de que para elas seja abolido o trabalho noturno e o seus salários sejam equiparados aos dos homens. desde então. em Barbacena. eclodiram greves na Fábrica de Tecidos Santa Maria. à medida que a indústria se expandiu. e no início dos anos 30. AS MULHERES COMO FORÇA DE TRABALHO O censo demográfico de 1920 mostrava que então 1. quanto criava condições mais favoráveis à gravidez e estabelecia o princípio do salário igual para trabalho igual.

porquanto é a força moral que conduz o mundo no dizer de Binet.118 - .°) Falar. 5. Segundo ela própria. abominar a guerra.°) Pregar a Paz. 7. detestar a política. da higiene. e a obrigação de caia Estado organizar um serviço de inspeção.de justiça e eqüidade entre os homens. da filosofia.°) Trabalhar pela juventude e pelo exemplo para dar à criança.°) Abrir escolas do caráter e da boa vontade. Bertha Lutz. de forma a persuadí-Ias de sua crença pacifista e da imoralidade das guerras. escolas de força moral. No seu manifesto procurou. incluindo mulheres. em cujo estatuto se esclareciam seus objetivos: Promover educação da mulher e elevar seu nível de instrução. Assegurar à mulher os direitos políticos que a nossa Constituição lhe oferece e prepará-Ia para o exercício inteligente desses direitos. Obter garantias legislativas e práticas para o trabalho feminino. Auxiliar as boas iniciativas das mulheres e orienta-Ias. em 03/12/1932. sem distinção de sexo. 8. publicado em A Plebe. Isabel Bertolucci celebrizou-se pelo seu "Manifesto à Mulher Paulista". das artes . para o mesmo trabalho. 04 a 10 de novembro de 2007. fazê-Ia atravessar as fronteiras e olhar a Humanidade de uma só vez. da educação e da ética. a instrução obrigatória. da fisiologia. 2. a educação racional feminina por todo o país. juntamente com Olga de Paiva Meira.°) Pregar e exigir a educação popular.°) Trabalhar para a criação de uma ou mais universidades femininas. representou o Brasil no Conselho Feminino Internacional. Em 1922. a fim de garantir a manutenção perpétua da Paz e da Justiça no Hemisfério Ocidental. contra a hipocrisia protocolar. pregar e protestar contra as mentiras convencionais.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG de resistência feminina. fundou a Federação Brasileira Para o Progresso Feminino. Estimular o espírito de sociabilidade e de cooperação entre as mulheres e interessá-Ias pelas questões sociais e de alcance público. fazendo crescer na juventude a necessidade de ideal mais amplo . . 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). 3. 4. sob esses moldes. escolas que despertem a iniciativa. das ciências enfim.para o conhecimento da humanidade e das leis evolutivas em favor da beleza e da perfeição dos costumes. em cuja Primeira Conferência foram aprovados os princípios "de salário igual. Estreitar os laços de amizade com os demais paises americanos. 6. na escolha de urna profissão. Proteger as mães e a infância. a fim de preparar o pequenino exército das trabalhadoras que deverão sair para o interior em demanda de outras mulheres de boa vontade. trabalhar para a reivindicação de seus direitos e para sua emancipação mental.°) Promover o estudo da psicologia das forças ancestrais. por ocasião do movimento constitucionalista. a fim de assegurar a aplicação das leis e regulamentos para a frr0teção dos trabalhadores". da Organização Internacional do Trabalho. ultrapassando sua condição social e dirigir-se a todas as classes de mulheres. educando-as num sonho de Paz futura para toda a gente. abrangendo as nacionalidades como membros da família humana". ampliar o amor à Pátria. sua origem social estava na classe dos que tudo produzem e nada possuem. cujo objetivo será protestar contra a escravidão da mulher. já em 1919.

Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Em 1936. A greve de São Paulo não foi isolada e dados 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Nessa ocasião. Em 1934. Com o golpe de 1937 e o Estado Novo. várias outras grevistas foram indiciadas em processos por sua presença em piquetes. no âmbito do político. O Estatuto ampliava a licença especial na época do parto para três meses. assistindo-se à prisão de várias de suas integrantes. Por sua vez. cujos objetivos. onde se fundou a Associação Feminina. pelos direitos das mulheres. (Idem. e algumas delas somente foram concedidas em 1962. de meia hora cada um. concedia à trabalhadora o direito de dois períodos diários para amamentação. elaborando. nas palavras de uma estudiosa. em 1935 foi considerada ilegal. fundou-se a União Feminina que. com representantes de vários estratos sociais. Ed. em 1949. além de recolher dos nativos e roupas para os soldados. No final dos anos 40 e durante a década seguinte.119 - . De fato. Polis. Mas outras mulheres. participando do Primeiro Congresso Internacional de Mulheres. na ocasião. 04 a 10 de novembro de 2007. pela paz. que paralisou aproximadamente 300 mil trabalhadores e. Na ocasião. São Paulo). "lutar pela solução dos problemas especificas dos bairros. organizou-se o Departamento Feminino da Liga de Defesa Nacional. durante a II Guerra Mundial. em São Paulo. operárias e faveladas. pela defesa e proteção da infância". durante os seis meses iniciais de vida do bebê. lutar contra os aumentos no custo de vida e. reduzia de 30 para 20 o número de empregadas no local de trabalho cuja presença exigia creches. congelado desde 1951 e desvalorizado pelos constantes aumentos no custo de vida (que Celso Furtado estima como sendo de 50% entre 1949-52). Greve de Massas e Crise Política. que consistiu em forte impulso para outros núcleos locais. apresentado por ela e pela Deputada Carlota Pereira de Queiroz. Também vale a pena ressaltar o papel que elas cumpriram na organização do movimento de anistia para aquelas pessoas perseguidas ou presas pelo Estado Novo. a greve teve como origem a luta pelo aumento do salário mínimo. eram. mais de mil mulheres se congregaram para. . fechado o Congresso. de extrações ideológicas e partidárias diversas. Bertha passou a integrar a Câmara Legislativa Federal. da dinâmica do movimento operário no período pós Estado Novo. combater o nazi-fascismo e sua influência no país. duas delas. "a fim de possibilitar-lhes participação efetiva nos movimentos de combate à guerra e aos regimes de força". no entanto. em Paris. ressaltaram em discurso os males do fascismo e a necessidade de proporcionar-se instrução política às mulheres. promoveu-se um encontro nacional de várias associações femininas. as reivindicações de Bertha Lutz tiveram de esperar por melhores oportunidades. (Ver José Álvaro Moisés. destaca-se seu desempenho na greve de 1953. Embora as mulheres tenham participado de formas variadas. freqüentemente organizados em comitês de bairros. (Idem).) Todo esse esforço acabou por resultar. a participação feminina foi intensa no movimento contra a carestia: no então Distrito Federal. o Estatuto da Mulher. como parte da Aliança Nacional libertadora. participando da vida pública. no âmbito do estritamente econômico. PARTICIPAÇÃO FEMININA NO PÓSPÓS-GUERRA Terminada a guerra. na constituição da Federação das Mulheres do Brasil. cuja comissão central a tecelã Mariana Galgaitez terminou por integrar. como suplente da vaga deixada por outro Deputado. contra a elevação do custo de vida. incluindo mulheres de classe média. procuraram igualmente organizar-se.

então. acusando queda da participação feminina na indústria e sua persistência na prestação de serviços pessoais. cujas principais motivações eram a necessidade de aumentos nos salários. eclodidas em todo país. Os Censos Demográficos de 1940 e 1950 continuavam. Em 1940. bonificação de Natal e o protesto contra a carestia. o trabalho industrial das mulheres caíra para 26. melhores condições de trabalho e.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG coletados por José Álvaro Moisés lhe permitiram falar em 264 paralisações no período 1951-1952. em número menor. 04 a 10 de novembro de 2007. solidariedade. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE).9% do total de trabalhadores.4% e em 1950 para 23.120 - . pagamento de salários atrasados. .

a do Sertão. a seca será considerada como fenômeno social que agrava a pobreza e afeta particularmente as condições de vida da população. 1986). A região é considerada subdesenvolvida. e a zona intermediária. que dificilmente tem acesso às políticas sociais. a dimensão de terras ocupadas pelos latifundiários é grande. mas que se contrapõem econômica e politicamente: o Nordeste da cana-de-açúcar e o Nordeste do gado. possui 60% de seu território em área considerada vulnerável a esse fenômeno. e sua população tem condição de vida precária. A Zona da Mata é apontada como área dos grandes canaviais. contando com alto índice de analfabetismo.255. Diante de tal diversidade. com trechos quase tão úmidos como a da Mata e outros tão secos como a do Sertão.7% do território brasileiro. a seca ocorre em diferentes conjunturas sociais. possuindo áreas úmidas e chuvosas. Misturam-se a ela aspectos socioeconômicos e políticos que lhe tiram o caráter único de desastre natural. o Nordeste da pequena propriedade e da policultura. porém seca e vulnerável a esse fenômeno natural. reconhecida como polígono das secas. econômicas e políticas que possuem aspectos particulares quanto à estiagem. Na Região Nordeste. hoje. Para efeitos deste trabalho.470. intermitentemente. que desde a época colonial deu lugar a três tipos de zonas agrícolas.077 km quadrados. 45 46 Pesquisadora da FUNDAJ Idem 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). observando-se entre um e outro. sistemas complementares de exploração agrária.121 - . 2000). ao se focalizar a dimensão natural das secas. sendo de 1534 o primeiro relato desse desastre natural (Andrade. têm padrão de vida razoável ou precário e que. De acordo com Araújo (1999). 04 a 10 de novembro de 2007. Apesar de não existir grande número de latifúndios. Esta região. localizando-se aí a maior porção das usinas do Estado e sobretudo aquelas que dispõem de maior dimensão. apesar da pobreza do solo em matéria orgânica. por um lado. a região possui clima exteriorizado pela sua vegetação natural. com clima quente e úmido. a saber: a Zona da Mata. pequeno número de médios e grandes proprietários com elevado padrão de vida. verificam-se consideráveis desníveis sociais. denominada de Agreste. De acordo com Andrade (1986). também quente.808. Na área rural há. que representa 18. e uma população de 42. dependendo da qualidade da terra. ou seja. surgem desde o período colonial. 27% da população brasileira. com estações bem definidas. não se consegue vislumbrar muito mais do que a histórica repetição de cenas de fome e sede. Embora tendo o caráter natural e acontecendo na mesma região.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG A MULHER E A EMERGÊNCIA DA SECA NO NORDESTE DO BRASIL Izaura Rufino Fischer 45 Lígia Albuquerque 46 O Nordeste do Brasil tem uma extensão territorial de 1. vendem sua força de trabalho. sendo uma chuvosa e a outra seca. Há também apreciável número de pequenos proprietários que. A estrutura agrária é bastante concentrada. porém apresenta diversidade climática (Moura. A dimensão social e política da seca A seca é um fenômeno natural que tem registro no Nordeste desde a colonização da zona semi-árida da região. principalmente no que se refere aos latifúndios insatisfatoriamente explorados. .

além da profundidade da catástrofe. quando da instalação das políticas sociais dirigidas à região. transpôs os saques da fome do sertanejo para a sala de jantar do Brasil. que. formados por grandes proprietários ou pertencentes a famílias abastadas. Diversas políticas sociais têm sido implementadas no enfrentamento da seca. Assim. o assédio aos governantes. para reivindicar uma política de apoio à população atingida pela seca. a SUDENE. através dos sindicatos dos trabalhadores rurais e movimentos sociais que lhe dão visibilidade. os mais vulneráveis são geralmente os trabalhadores sem terra e miniproprietários rurais. Os efeitos da seca não atingem igualmente a população e o território do semi-árido. A mulher exerce. a seca. além de promoverem ocupação do principal órgão de desenvolvimento da região. ao dar visibilidade às mazelas sociais da região. de modo peculiar. redefinem sua forma de ação ao trocarem o tradicional saque realizado em feiras públicas pelo ataque a transportadores de alimentos administrados pelo governo. enfrentam os efeitos da seca com menor esforço e sofrimento. por exemplo. 04 a 10 de novembro de 2007. No estado de Pernambuco. dá espaços à lógica da contradição. a seca leva à fundação da SUDENE. adequadas a cada conjuntura política. muda a própria história das estiagens. a catástrofe centrou o tema na consciência nacional. divulgam e denunciam a situação e ação dos trabalhadores. em 1915. principalmente devido à ajuda das políticas sociais. que só recentemente começaram a fazer parte da agenda governamental. para os produtores mais abastados. segundo Gaspari. especialmente através do rádio e a da televisão. Assim. As preocupações em corrigir distorção estrutural proporcionam algum quantum de equidade social e sustentabilidade ambiental. a ser pago no longo do prazo ou a fundo perdido (FUNDAJ. pois são geradas no jogo das articulações políticas em que se considera a sociedade como espaço que pertence aos outros. enquanto os proprietários rurais tomam atitudes que lhes proporcionam ganhos que superam suas perdas. aproximadamente 32% (Albuquerque. como fenômeno social de dimensão secular. fato que favorece as desigualdades dos benefícios destinados ao socorro da população através de uma política unificada. a falta 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). 1998) da população não conseguem atravessar os momentos críticos da estiagem sem ajuda externa. é marcante.122 - . pois os horrores da seca fortificam interesses regionais. A seca. . mas também propicia benefício. Também leva à tona o nível de organização política dos mais afetados. Considerando que o Nordeste está dividido em três zonas de diferentes aspectos naturais e que possui infra-estrutura dominada pelas oligarquias agrárias. pode significar mais uma oportunidade para aumentar seu poderio e estender seus domínios com o auxílio das políticas sociais. em 1998.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG A seca. Em 1877. por um lado. Os produtores potencialmente mais resistentes. como o da informação. tais medidas são manuseadas e desviadas no caminho da prática. o governo se envolve com as conseqüências do fenômeno. Na implementação das políticas. Algumas medidas são implementadas sem resultado permanente. pressão mais direta sobre as estâncias estaduais e municipais que estão mais próximas. citado por Araújo (1999). causa danos à população. particularmente os sem terra. 1983). os trabalhadores rurais. em 1958. homens e mulheres adotam práticas de luta. muitas das quais destinadas a corrigir distorções conjunturais geradas por modelos econômicos. que possibilita a organização da população afetada para se mobilizar e cobrar dos governantes medidas de amparo. No entanto. Nessa ocasião. a exemplo do crédito financiado a juros baixos. O momento da seca.

04 a 10 de novembro de 2007. que. A seca que atingiu o Nordeste do Brasil no período 1997-1999 se instala num contexto já fragilizado pelos efeitos da globalização. ou se tornam exclusivos.123 - . segundo Ianni (1995). que aparecem em pequenas cidades interioranas. tendo as verbas alocadas. político e cultural continua a expandir-se. pois as regiões afetadas pela catástrofe enfrentam a concorrência com outras localidades que se encontram em plena normalidade. econômico. . Os produtores do sequeiro. é duplicada com a situação de seca. tem contribuído para redefinir hábitos. Essas mazelas sociais. o consumo e o tráfico de drogas (Fischer e Melo. em tese. Essa política tem como objetivo atender a população que se encontra em reconhecido estado de calamidade pública. além de invadir os mais longínquos recantos do Nordeste. Tais fatores levam a aprofundar os efeitos nefastos da seca sobre a população atingida. a prostituição. contribuiu para a desaceleração da indústria. particularmente. chamada política de emergência. pois. fato que contribuiu para a transferência da renda das regiões mais pobres para as mais ricas. Com a seca. não tem lugar certo de trabalho quando planta. no Nordeste. do comércio e da agricultura. As políticas sociais criadas em períodos de seca são geralmente transformadas em programas de governo. direcionados a outros projetos como o da educação. enfrentam a concorrência de carne e leite em condições desfavoráveis. crédito etc. de um modo geral e. Na avaliação de administradores governamentais locais entrevistados. esse vasto processo histórico-social. por vezes. em função da crise climática. A política social da seca A política adotada em período de seca. de acordo com as prioridades da população. da concorrência entre forças desiguais etc. da saúde. podem ser consideradas filhotes da globalização. "Os governantes terão de escolher entre subsidiar o campo ou construir a miséria na cidade". própria da globalização. é um programa governamental implantado para amenizar ou eliminar conflitos sociais inevitáveis que explodem quando parte da população tem seu nível de subsistência comprometido. que se manifesta através do desemprego.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG de infra-estrutura da região rural. costumes e tradições que parafraseando Hobsbawn (1997). a competição desigual. A globalização como aporte econômico." composta por obra hídrica. da migração interna na região. Tal política é estabelecida a partir de pressões da população que tem seu suporte alimentar afetado. a exemplo da carência de energia elétrica. Além disso. a seca se instala num cenário em que grande parte do pequeno produtor sem terra reside na periferia da cidade. a expectativa para a agricultura é a de que a recuperação seja lenta. 1999). e a prioridade do proprietário da terra é pela produção de alimento para a pecuária. a exemplo da chamada "frente produtiva. sobretudo no que se refere ao abastecimento d’água e geração de renda. da água. foram secularmente inventadas. Os programas têm sido. como a insegurança. a fragilidade do nível educacional da população e a sua convivência com problemas típicos de grandes cidades. a pecuária torna-se mais vulnerável diante da globalização. Assim. Tais efeitos tendem a se agravar. capacitação e alfabetização dos 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE).

foi definido: a prioridade ao trabalhador rural que dependesse da produção agrícola ou pecuária para o sustento da família. educação. Os beneficiados com emprego deveriam estar disponíveis 27 horas semanais. Os recursos para tais ações devem ser administrados por Comissões Paritárias compostas por membros do Estado e representantes da população afetada. conservação e recuperação do meio ambiente e ecoturismo. barragens e aguadas. poderiam ser inscritos dois integrantes. açudes. produtores que se enquadrasse nos critérios da agricultura familiar PRONAF (o candidato deve ser parceiro. barreiros. As atividades culturais resumem-se a dinamizar o artesanato nos principais centros do país).Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG trabalhadores. O núcleo familiar com mais de 7 membros que possuísse aposentado poderia inscrever apenas uma pessoa. As linhas norteadoras das frentes produtivas.00 foram destinados a atender a população atingida pela catástrofe. fubá. emprego. As principais ações implementadas pela política social da seca estão assim organizadas: • • • • • • Distribuição de cestas básicas contendo 19 quilos de alimentos (feijão. açúcar. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). farinha. café. .000. gerados da exploração agropecuária. estaduais e municipais. ter idade entre 14 e 60 anos. incluíram outras ações.000. 04 a 10 de novembro de 2007. Na seca de 1998. arroz. apenas um poderia ser contemplado. Construção. Na escolha dos contemplados. crédito. De acordo com a autora. residir na propriedade ou aglomerado urbano próximo. com o propósito de beneficiar até um milhão de trabalhadores rurais (Melo. ou dedicando-se à capacitação ou alfabetização. Construção de residências na área rural e recuperação de prédios públicos. segundo a autora. Crédito destinado à criação de infra-estrutura no valor de R$ 450. aproximadamente R$ 600. A "frente produtiva" tem o objetivo de preparar a população para conviver com a estiagem.000. era facultada a participação de três membros do grupo familiar. etc. Dada a peculiaridade da área. a exemplo das frentes ecológicas e culturais (educação ambiental. distribuído através do órgão de desenvolvimento do Nordeste. tanques. Tal montante.124 - . saúde. e. acima de 10 pessoas. recuperação e limpeza de cisternas. utilizar força de trabalho familiar. possuir quantidade de terra que não supere 4 módulos fiscais qualificados na região em vigor. ter renda de no mínimo 80%. que poderiam ser usadas realizando trabalho rural ou urbano. além de contemplarem recursos hídricos. Produção de brita e paralelepípedo. alfabetização|capacitação e saneamento básico. a preferência aos trabalhadores cabeças de família. óleo. 1999). destinada principalmente à construção de asfaltos. foi alocado em vários programas existentes. foram usados critérios de seleção como: ser trabalhador rural. na família de 1 a 5 membros. os beneficiados seriam contemplados com alimentos.00 (investimento e custeio). proprietário ou arrendatário). Fabricação de telhas e tijolos a serem utilizados em obras ou mutirões. Essas comissões devem ser formadas nas esferas federal. de 6 a 10 pessoas. macarrão). Os membros da Comissão devem ser indicados pelas instituições que os representam.

que tem causas mais ligadas às desigualdades sociais do que aos fenômenos climáticos. considerados indispensáveis à sua sobrevivência. Em qualquer dos significados acima levantados. Nessa administração. No sentido moderno. é considerado estágio fisiológico ligado à necessidade alimentar. Ao atingir tal estágio.125 - . é através desse arranjo que a solidariedade caricatura a fome. De acordo com Fischer (1998). a qual. são direitos do cidadão. o termo se referia à falta de alimento para saciar o apetite. mas. relacionada à casa e à mulher. comporta vários significados. que. A palavra fome. é novamente considerada pela família do produtor rural do Sertão nordestino como necessidade básica. a fome é uma constante nas famílias dos pequenos agricultores do Semi-Árido nordestino. homens e mulheres têm papéis diferenciados. Assim. que não é pensada pelos idealizadores da política da emergência da seca. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). a inanição por falta absoluta de alimento. amenizada pela rede de solidariedade entre os iguais. necessariamente. Diz respeito ao indivíduo e à humanidade. de acordo com Sobrinho (1982). embora não acarrete. falta de terra para trabalhar. mas especialmente na escassez de alimento. especialmente no que se refere ao suprimento alimentar. em período de chuvas normais. no período de escassez de chuvas. Assim. socorre quem nada tem para cozinhar. Seria uma visão simplista atribuir a fome da família rural dessa região do Nordeste unicamente à irregularidade pluviométrica que periodicamente desorganiza a produção. No passado. que as famílias dos pequenos produtores rurais caracterizam como necessidades. caracterizada como fome endêmica. carência de assistência médica. que afeta indistintamente a todos. observa-se que a fome no Semi-Árido nordestino constitui uma extensão da pobreza. a necessidade adquire a conotação de fome. enquanto o homem tem a pesada função econômico-social de produzir e distribuir os gêneros alimentícios. 04 a 10 de novembro de 2007. independentemente da seca. pois cabe ao elemento feminino enfrentar a difícil tarefa de gerenciar o alimento consumido no cotidiano. segundo Fischer (1998). Essa carência ocasiona morte prematura. no ser humano. dando-lhe novamente a conotação de necessidade. as necessidades não passam pelo crivo do planejamento. sem dúvida. Estas. a seca apenas agrava a situação da fome. quando atinge o indivíduo na sua totalidade e alcança o patamar classificado por Josué de Castro (1980) de epidemia de fome coletiva. obedecem a uma administração rigorosa.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG A contribuição da mulher na atenuação da fome na seca O problema da seca não se manifesta no aspecto específico da água. Na família estudada do Semi-Árido. que. pode significar muitas coisas juntas. Dessa forma. falta de roupas e calçados. moradia e outros elementos do bem-estar que. e aquele que dispõe de algum quantum de alimento. fome é a falta de quaisquer dos quarenta ou mais elementos nutritivos indispensáveis à manutenção da saúde. Esse processo de solidariedade ocorre através da distribuição do pouco alimento que existe na comunidade ou rede de parentesco. se referem à comida de má qualidade. em sentido simbólico. e é problema crucial. . as chamadas necessidades aumentam e comprometem a própria sobrevivência da família sertaneja nordestina. como enfatiza Bobbio (1992). De acordo com Castro (1980). isto é. a fome somente se caracterizaria como tal no caso de morte por inanição.

O marido pergunta: nós vamos fazer o quê? Aí. sobretudo. cabe a ela distribuir "pratos feitos" entre os familiares. se atrapalha. reclamo o tempo todo. "Esta é uma provação que tira o sono. . O marido é. Geralmente. você se aperreia muito (entrevistada do município de Patos). se conformar com o que tem. Enquanto a mulher procura dar vazão a seus impulsos. ele sai pra comprar fiado. muitas vezes. demonstra sentimento de impotência e apenas tenta se justificar dizendo que "não tenho de onde tirar".126 - .. Tem hora que olho pro velho. o homem tende a assumir calado sua fraqueza e. Nessa distribuição. a mulher rural em estudo. todos têm que comer pouco. A parte da mulher esquenta muito.chora e insulta o marido e encara o problema com determinação. Mesa de pobre é desigual: tem dia que faz de conta que tem. Diante de tal cobrança. exigência que ele tende a ler como negação da sua condição de homem. diante da limitação do alimento. Caso os pequenos não fiquem relativamente satisfeitos. que tem mais idade do que eu. é a mulher. portanto. são estabelecidas prioridades que contemplam as crianças e o marido. alguém. o ânimo e até a vontade de viver". Os filhos e de 13 e 15 anos. e digo: tu tá mais novo do que eu. principalmente para as crianças e o marido. Eu afino a sopa. mas.. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). doa a refeição que lhe cabe. Se não usar bem com o juízo. o que é possível. Se tem pouco. de um modo geral. se a comida vai dar. Ele sorri e diz: é. são comedores. não se conformam com pouco. dividindo seu desespero com todos na família . mas não tem jeito. sobretudo. O fato de ter pouco alimento para servir na hora da refeição. A criança não quer saber de onde sai. para que todos sejam contemplados eqüitativamente. Só quem sabe o que tá precisando. o homem. no geral. Afino. Aí dá dor de cabeça. Quer comer 3 vezes por dia. na opinião da mulher pesquisada. pois raramente assume o núcleo familiar sozinho. de mantenedor da família. e consegue inclusive levantar o ânimo dos familiares -. Seu constrangimento resume-se ao não cumprimento de suas obrigações de provedor do lar. É difícil fazer uma sopa com a metade de um pacote de macarrão para dividir com 8 pessoas. principalmente durante a seca. por ele próprio. e devolve o problema para a mulher. Os depoimentos seguintes enfocam a angústia da mulher ao dividir o alimento na unidade familiar: Fico desesperada quando a comida não dá. Reclamo para o marido e para os filhos porque não vou morrer calada. "não encontro pra quem trabalhar". Brigo. salientar que no processo de distribuição da refeição. a prova mais dura que enfrenta na seca. outra vez nem isso pode fazer. segurança. ainda. cobra-lhe a obrigação de dono de casa e. 04 a 10 de novembro de 2007. que geralmente é a mulher. Vale. é. Pobre come só o que tem. vendo o povo pra comer e a comida sem dar pra todo mundo. os indivíduos. O homem rural do Semi-Árido pesquisado dificilmente passa por dificuldades semelhantes às da mulher chefe de família. Esse grau de depressão aumenta na medida em que a mulher. tarefa que culturalmente lhe é atribuída e cobrada pela sociedade e. principalmente a dona-de-casa. contemplado nessa distribuição. Quando ele consegue fico satisfeita. o que vai faltar. não ingerem a quantidade que seu apetite permite. Quem está na cozinha é quem sente a dor de cabeça.. passa pela mesa (entrevistado residente no município de Ouricuri).. É difícil repartir a comida. o sossego. principalmente no período da seca. diante da falta de comida para servir aos filhos.. avalia uma entrevistada do município de Patos. delimita também o alimento de cada membro durante a refeição.. É preciso saber pra ninguém ficar sem nada. além de calcular a quantidade de gêneros alimentícios que deve ser consumida diariamente na unidade familiar.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Na administração cotidiana do alimento. fica deprimido e frágil. esperança. O homem apresenta comportamento peculiar no enfrentamento da falta de comida.

nós faz a feira. ovos. e assim a gente vive. E embora aquela alimentação balanceada com proteínas e vitaminas que. manteiga. 5 de fubá. vitaminas e sais minerais dos produtos alimentares. porque gente fraco não faz feira. Mesa de é desigual (entrevistada residente no município de Patos). de tal forma que duram. onde é de R$ 60.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG dando-lhe mais uma tarefa: a de pensar sobre o que ele deve fazer.00). transtornos orgânicos na família rural. milho. segundo Castro (1980). sem dúvida. carneiro. Deixo o caldo do feijão pra noite. Alguém deu café e açúcar a ele lá pela rua [o marido. assimilada pela mulher. que rende mais. ao todo. em média. Este é um tipo de situação que deixa o homem um tanto desmoralizado diante da família e com a autoestima em baixa. de forma que se existir produção de feijão. na expressão de Euclides da Cunha. O seguinte depoimento. por vezes. Apesar da má qualidade dos alimentos da cesta básica. a título de emergência. Assim. carne (mesmo que eventualmente) e algumas verduras. eu tempero aquele caldo com uma cebola e alho e coloco um pouco de "cusculho".. que fazia do sertanejo "um forte". no preparo do alimento. A escassez de alimentos. 2 de farinha. porém. 4 pacotes de macarrão e 2 latas de óleo vegetal. Feira assim. mas pobre come tudo. A dona-de-casa rural da seca dificilmente sabe distinguir proteínas de vitaminas e tampouco entende o que significam sais minerais. Hoje não tinha café em casa. a mulher utiliza seu aprendizado sobre o seu preparo. envergonhado repreende: eu comprei fiado]. já não exista. Esses arranjos alimentares são.127 - . carne de boi. A situação torna-se mais crítica quando aquele salário sofre atrasos. Compro o carioquinha. que tem sua alimentação totalmente desequilibrada. quantidade e qualidade na junção dos nutrientes. A mulher poupa as iguarias recebidas. Aí. que estava junto. pago pelo governo. Compra 10 quilos de açúcar e 10 quilos de feijão pra 15 dias. embora tenha a consciência de que a refeição não está balanceada em vista da reduzida diversificação e da quantidade dos itens disponíveis. leite. causa mal estar psicológico e social no homem e na mulher e. conforme destacam praticamente todas as entrevistadas (o fubá é ruim. sobretudo durante a seca. como queijo. da época restaram o hábito alimentar e a cultura de preparar o alimento. 15 dias. a família se mantém num patamar mínimo de sobrevivência alimentar durante um mês. e 11 horas a gente come os caroços do feijão com "cusculho". quando tem. constituía o grosso do consumo da família sertaneja. que simboliza o sentimento de praticamente todas as entrevistadas. o que ocorre com freqüência. 04 a 10 de novembro de 2007. repassado através de gerações. se complementadas com as compras feitas com o salário de R$ 80. sabe dosar. arroz. 1 de açúcar. tanto com a combinação de alimentos quanto com a escassez e limitação na diversificação de produtos alimentares. versa sobre os arranjos alimentares improvisados pela mulher em época de estiagem: O alimento é fraco na seca. a família terá a alimentação relativamente equilibrada devido à vivência da mulher rural pesquisada. que ficam sem ter a quem recorrer para 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). contém 19 quilos assim distribuídos: 5 de arroz. às famílias atingidas pela seca. Quando a gente pega em dinheiro.. prejudicando aquelas fragilizadas famílias. porque café tá muito caro. De manhã. para improvisar arranjos nutricionais durante a seca.00 (exceto no estado do Piauí. é só café com açúcar. improvisados com os gêneros da cesta básica doada pelo governo através do Programa de Emergência e que. mesmo desconhecendo o conteúdo de proteínas. cabrito. . o feijão vinha duro (foi substituído pelo fubá) e a farinha não presta). Cozinho o feijão de manhã.

Sobrinho Estevan de Lima. a cada ocorrência de seca. Rio de Janeiro: Antares. o Estado dificilmente conteria os conflitos sociais e a dizimação da população provocada pelo referido fenômeno. 1986. Manuel Correia de. e. 1997. Seca: fenômeno de muitas faces. . Geografia da fome. 1980. 1998. Fome. 1996 Fischer. e Melo Lígia Albuquerque de. Bibliografia Andrade. Bobbio. a grande maioria da população tem a sua condição de vida afetada em sua estrutura. Universidade de Brasília. a zona do Sertão semiárido é intermitentemente atingida por secas. O trabalho feminino: efeitos da modernização agrícola. 1999. Izaura R. o que contribui para descontrolar ainda mais seu limitado orçamento familiar. levando-a ao caos. Dicionário de Política. Vozes. 1982. Norberto et al. dado o seu caráter de região pobre. 5 ed. particularmente. Recife: 1998. Recife: Massangana. Conselho Conselho de desenvolvimmento de Pernambuco –Condepe. Lígia Albuquerque de. Hobsbawm Eric e Terence Ranger. Brasília: ed. Petrópolis.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG conseguir qualquer tipo de alimento.128 - . que fragiliza o seu desenvolvimento em todos os aspectos e desmoraliza o indivíduo na sua dignidade. Recife. Araújo. a contribuição da mulher está presente. auxiliando a política social da emergência. Diante da impossibilidade de convivência com esse desastre natural. 2 ed. 1992. Considerações Finais Como se pode observar. Diante de tal realidade. 2 ed. agricultura e política no Brasil: a chantagem alimentar. As políticas sociais destinadas a essa região ainda não proporcionaram uma base estrutural. Maria Lia Correia de. 1983. Sem esse auxílio. Recife: Recife: FUNDAJ. Izaura R. A invenção das tradições. 4 ed. 1998. suficiente para que a população conviva com as secas sem passar pelo tormento da fome. Fundação Joaquim Nabuco – FUNDAJ. Dimensão social e política da seca de 1983. (in Branco – Org. Gênero: uma questão questão no programa de emergência (in Branco Org. o Nordeste do Brasil e. Fischer. pois a fome certamente contaminaria a região. Rio de Janeiro: Paz e Terra. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). a fome absoluta ameaça intermitentemente o cotidiano dos atingidos pela seca. Fundaj: Recife. 04 a 10 de novembro de 2007.) A família rural da seca. A terra e o homem no Nordeste: contribuição ao estudo da questão agrária. Melo. Os comerciantes da localidade não vendem fiado a esses trabalhadores. devido aos freqüentes atrasos nos pagamentos da Frente de Emergência. Castro Josué de.) Fundaj. São Paulo: Atlas. Recife.

Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG amiliares Muito trabalho e nenhum poder marcam as vidas das agricultoras ffamiliares TACIANA GOUVEIA47 Nos últimos anos. 2001. 04 a 10 de novembro de 2007. (Textos para discussão. adultos(as). entre a potencialidade e a realidade. Ao estudar o processo de envelhecimento e masculinização da população rural. a força discursiva não foi suficiente para provocar resultados que alterem os graves padrões de pobreza e exclusão a que estão submetidas as populações rurais – cujas causas estão radicadas no exaustivamente reconhecido modelo modelo de desenvolvimento hegemônico brasileiro. destacando sua contribuição nos campos da segurança alimentar. No que se refere a essas essas políticas. até o momento. é fato que. jovens e crianças. sustentabilidade ambiental. 49 CAMARANO. pela colaboração neste texto. envelhecimento e masculinização no Brasil: um panorama dos últimos 50 anos. funcionalidades e dependência entre o modo como está estruturada a agricultura familiar e as desigualdades de gênero. Tomando como 47 Feminista. Adriano. de elevado valor para a sociedade em geral”48. Comércio internacional. ABRAMOVAY. especialmente no que se refere à harmonia e à complementaridade entre as ações humanas e a natureza. entre mulheres e homens. o discurso sobre agricultura familiar produzido nos últimos anos por vezes a trata como um fenômeno histórico recente e altamente idealizado. Com relação a esse aspecto. contradições. Ricardo. tangíveis e intangíveis. mas às suas possibilidades de constituirconstituir-se em um instrumento que promova a democracia e a justiça. entre a produção e o consumo. 48 SOARES. a agricultura familiar vem ganhando importância como alternativa para o desenvolvimento rural sustentável. bem como o seu caráter multifuncional. coordenadora de educação do SOS Corpo – Gênero e Cidadania e integrante do Grupo de Referência do Observatório da Cidadania. tanto nas ações dos movimentos sociais como das políticas públicas governamentais.129 - . A constatação do hiato e da aparente contradição entre os discursos estatais e suas proposições políticas não responde à totalidade do problema a ser enfrentado. mas fundamentalmente dos processos sociais e políticos – em suas dimensões contraditórias e conflitivas – presentes na base das análises e ações que tradicionalmente vêm organizando e dinamizando a agricultura familiar. Amélia. n. A mudança de foco aqui operada talvez nos obrigue a olhar menos para as funções que exerce e mais para as estruturas que a sustentam. Rio de Janeiro: Ipea. função econômica e social. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). desigualdades. há longo caminho a ser percorrido que não depende apenas de mudança nas políticas públicas. Camarano e Abramovay questionam: “Até que ponto o meio rural pode ser um espaço propício na construção da cidadania e de condições de vida capazes de promover a integração econômica e a emancipação social das populações que aí vivem?”49. Por outro lado. Action Aid. 612). Agradeço a Carmen Silva e a Simone Ferreira. Tais riscos não estão relacionados apenas aos limites para expansão ou consolidação da agricultura familiar. parceiras de trabalho no SOS Corpo. 1999. . Rio de Janeiro: Rebrip. Este artigo pretende analisar as relações. que privilegia o setor latifundiário e a agricultura patronal. no campo da sociedade civil. Êxodo rural. Sem negar que essas características podem ser realizadas pelo modo de produção familiar. segurança alimentar e agricultura familiar. Soares considera que a “agricultura familiar provê um conjunto de bens públicos. Multifuncionalidade da agricultura familiar. demonstrando as conseqüências dessa dinâmica tanto na restrição da autonomia e cidadania das mulheres como no que se refere aos riscos que o próprio modelo corre se não construir possibilidades para o enfrentamento dessas desigualdades. In: REBRIP/ACTION AID.

51 WEBER. op. enquanto a agricultura familiar não passava de um instituto marginal na economia. no momento exato em que ela passa a ocupar um espaço nas grandes políticas. são as relações de dominação patriarcal que lhes atribui um lugar menor. atribuição de valores. elas não são vistas no sentido de seu reconhecimento como sujeitos ativos dos processos produtivos. .gov.br>.br>. na dominação patriarcal. uma vez que é concreta a “rota de saída” das mulheres. E. Para além do reconhecimento verdadeiro e legítimo das injustiças a que as mulheres estão submetidas. Longe de ser um mero jogo de palavras. 50 Em pesquisa recente.. tal como definida por Weber. Tradução da autora. as possibilidades de construção de cidadania e emancipação das mulheres ainda são muito restritas. O ethos da agricultura familiar coloca no pai todo poder para organizar não só o empreendimento produtivo como também todo universo de relações que ali ocorrem. Cristina. Sucessão profissional e transferência hereditária na agricultura familiar.gov. reproduz e perpetua tal exploração e opressão.incra. atribuir aos outros a incapacidade de enxergar as mulheres muda o sentido da compreensão da realidade e. ibid. Dá-se quando é negado às mulheres o direito de decidir. Integração da perspectiva de gênero no setor da reforma agrária. estão presentes “a crença no caráter inquebrantável do que tem sido feito sempre de uma determinada maneira”51 e a autoridade fundamentada na submissão e nas relações pessoais de convivência íntima e permanente. 53 Id. estatais ou da sociedade civil. ao se organizar a partir deste sistema. expressão tão recorrente que já assume um estatuto de verdade. quando os projetos políticos. sendo a ausência o que concretiza esse (re)conhecimento. Se o patriarcado é o sistema que cria. Max. Em outras palavras. ABRAMOVAY. Disponível em:<www. Economia y sociedad. constrói-se uma hierarquia rígida na ocupação de lugares. 52 BUARQUE. seja ele produtivo ou reprodutivo. agricultura familiar. Buenos Aires: Fundo de Cultura Econômica. das estratégias para a superação das desigualdades. Disponível em: <www. Ricardo et al. especialmente as mais jovens. oportunidades e benefícios50.] instituída pelas mulheres nos espaços vazios dos grandes latifúndios”52. parece que a situação começa a ser inquietante exatamente nos momentos e movimentos em que elas deixam de estar. Abramovay e colegas constataram que 64% dos pais informam que têm o poder sobre todas as atividades da unidade familiar. Ao mesmo tempo.cnptia.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG referência as relações de gênero na agricultura familiar em seu atual formato. A partir dele. conseqüentemente. Cabe abrir um parêntese para questionar a chamada invisibilidade das mulheres e seu trabalho na agricultura familiar.embraba. do espaço da agricultura familiar. Tal diferenciação de oportunidades e poderes ocorre não apenas na agricultura familiar. cit.. quando discursos mantêm a suposta universalidade do masculino (“o agricultor”). A operação de invisibilidade ocorre em um momento posterior ao trabalho realizado. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). As mulheres não são invisíveis. seus protagonistas mudam de sexo”53. quando as estatísticas e análises – produzidas pelo Estado ou pela sociedade civil – não trabalham os dados separados por sexo. justifica e legitima a opressão e exploração das mulheres. 1992. muitos setores envolvidos na defesa da agricultura familiar começam a preocupar-se com essas questões. não se pode negar que. 04 a 10 de novembro de 2007. ainda de modo incipiente.. “é interessante observar que. mas no próprio processo de visibilidade e valorização desse modo de produção.. ainda. Não são as mulheres que se ocultam. ela era vista como uma atividade feminina vinculada ao doméstico.gipaf.130 - . “a nossa agricultura familiar é herança de uma atividade basicamente feminina [. Como bem analisa Buarque. não as consideram como sujeitos de direito.

onde a maior parte da produção familiar está relacionada com as atividades do roçado e a criação de animais de pequeno porte (aves e suínos). consertos de utensílios e reparos na casa e trocar o botijão de gás)57. realizam todas as atividades produtivas e reprodutivas na unidade familiar. realizada pelos meninos. onde Cayeres e Costa. Essa é uma área de extrema pobreza. buscar e rachar lenha. mas só em um caso é exclusiva. eles são majoritários (realizam as 11 atividades. Nas demais situações. Em apenas três atividades. destocar e vender. enquanto 28% das atividades têm uma freqüência maior de realização compartilhada. são majoritárias (beneficiamento dos produtos). em 49% dos casos. pode-se dizer que as mulheres estão em todos os lugares e não estão em lugar nenhum. Das 15 atividades listadas. em graus variados. LOPES. Massapê. a presença masculina é maior. das 14 atividades relacionadas com o roçado. Guilhermina.9 mostram que. MOURA.131 - . basta olhar a dinâmica cotidiana para que se constate que as mulheres. Enquanto que os homens estão envolvidos com as novas técnicas introduzidas e nos treinamentos. Assim sendo. apenas 20% são realizadas com mais freqüência pelos homens (fazer feira. a freqüência é bem mais baixa que a dos homens: brocar. a manutenção do sistema tradicional é assegurada pela sobrecarga de trabalho das mulheres”56. Já na criação de aves. pois os homens estão mais envolvidos na atividade. há um equilíbrio na divisão das atividades. em maior ou menor medida. plantio. Os dados coletados em uma pesquisa54 com as agricultoras familiares da região de Sobral. as mulheres realizam todas as atividades que compõem o sistema. mas sim o medo de acidentes provocados pelo vazamento de gás. Dados semelhantes são encontrados em pesquisas que investigam contextos diferentes.embraba. os homens realizam a maioria. pois sua característica principal é ser uma espécie de híbrido entre responsabilidades ditas femininas com aquelas ditas masculinas. Etnografia sobre as relações de gênero na agricultura familiar no 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). . a divisão do trabalho é um pouco diferente. Um exemplo disso é levar pessoas doentes ao serviço de saúde que articula a dimensão do cuidado com a saída do espaço familiar58. Ver PUHL. nos casos restantes. ainda que não exclusiva e. replantio. sendo que. a participação masculina é muito baixa (em média. as mulheres participam na mesma proporção que os homens (capina. das 25 atividades que compõem a esfera reprodutiva. Na área de Sobral. no Pará. analisando o sistema de roça itinerante e o manejo de inovações tecnológicas. colheita) e.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Onde estão as mulheres? De modo apressado. 58 Resultados quase idênticos foram encontrados por Puhl. As tabulações estão em fase de finalização. como demonstram os dados a seguir. mas também verdadeiro. em muitos casos. Moura e Lopes em diagnóstico realizado no Vale do Guaporé (1998). no Ceará55. havendo ainda casos em que participam de todas. Se as mulheres executam as atividades produtivas na mesma proporção que os homens. como é o caso de trabalho realizado em Paragominas. Rosana. Em todos os lugares porque para além dos dados que as ocultam. as 54 Pesquisa realizada em 2003 pelo SOS Corpo – Gênero e Cidadania para Projeto de Desenvolvimento Local Pnud/BNDES.gov. Disponível em:<www. três atividades). 56 CAYERES. o mesmo não se pode dizer das atividades reprodutivas. Análise da mão-de-obra no sistema de produção familiar de uma comunidade amazônica. 55 Composta de quatro municípios: Sobral. somente elas são as executoras. Santana do Acaraú e Meruoca. 04 a 10 de novembro de 2007. COSTA. de todas.br>. Na criação de suínos.cnptia. em apenas 50% dos casos. sendo que o trabalho feminino está presente com alta freqüência de sete a nove atividades. em uma. Contudo. enquanto as mulheres participam de três a cinco).gipaf. constataram que “as mulheres têm maior contribuição individual na força de trabalho familiar e na continuidade das atividades tradicionais. Em quatro dessas atividades. as mulheres participam. Na criação de caprinos/ovinos. 57 É interessante observar que a justificativa para o predomínio masculino na troca do botijão não é o peso.

em 1995. 1998. Como decorrência. Em 30 anos. 60 É interessante observar que. Quarto Caderno: Experiências Rurais. as mulheres passaram de 48. Maria das Graças. 61 Ver CAMARANO e ABRAMOVAY. A média brasileira (incluindo o urbano e o rural) na última contagem Vale do Guaporé.br>. 62 Disponível em <www. São as mulheres – independentemente de faixa etária – e. além das atividades domésticas e agrícolas. os jovens que fazem esse movimento. sendo que. ao mesmo tempo em que revela os modos como as atividades produtivas das mulheres são invisibilizadas e transformadas em ajuda ou parcialidade. para as mulheres. (Orgs. 2000. op. econômicos e políticos. artesanato. entre 1991 e 2000. especialmente aquelas cuja realização é diária e contínua. No Brasil. Na maioria dos casos. é por elas e por meio de seus trabalhos que se realiza a integração entre produção e consumo. pode-se fazer inferências sobre quem são as pessoas que. democracia e políticas públicas. Companheiras de luta ou coordenadoras de panelas?. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). em 1980. . Rio de Janeiro: Fase. já que.132 - . tem-se que as mulheres.). turismo. A tendência de diminuição da população feminina no meio rural é histórica. PACHECO. não há uma nomeação do sexo daqueles(as) que têm múltiplas inserções produtivas. Não cabe aqui analisar a correção ou não de tais proposições. Ainda que os dados apresentados não façam referência direta à dimensão da pluriatividade na agricultura familiar. a razão de sexo na população rural era de 106.ibge. em 2000 passou a ser de 109. característica considerada fundamental na consolidação desse modo de produção. Se. essa queda foi de 11%. havia 5 milhões de homens a mais do que mulheres)61. em certa medida.47% da população rural para 47%. gastronomia e até mesmo um certo modo de vida – que vêm sendo reforçadas nos discursos e políticas como alternativa eficaz para o desenvolvimento rural. desenvolvimento. a ausência física das mulheres não significa que elas deixem de ser um elemento da organização e da manutenção do estabelecimento familiar. Analisando os dados para além da sub-representação que parece ocorrer com o trabalho feminino na produção agrícola. Pesquisa realizada em assentamentos de seis estados do Brasil59 confirma esses dados. Programa integrado de capacitação em gênero. Maria Emília. sendo uma prática condicionada pelos contextos sociais. 59 ABRAMOVAY. 04 a 10 de novembro de 2007. de acordo com os dados do Censo de 200062. mas vale destacar que a inserção em atividades não-agrícolas é profundamente marcada pelo viés de gênero60. Além disso. Silvia. Vem ocorrendo tanto na Europa (é o caso da França. Brasília: Unesco.56 homens para cada 100 mulheres. houve queda de 10% na população rural brasileira. A razão de sexo também é um indicador importante. onde um terço dos homens que trabalhavam na atividade agrícola não haviam se casado até os 35 anos) como na América Latina (onde. In: CAMURÇA. é necessário pensar a questão da pluriatividade como uma das formas a partir das quais esse modo de produção é constituído e dinamizado. sendo possível também estabelecer conexões entre os processos migratórios femininos e o conceito de pluriatividade. RUA. levando consigo a subvalorização da sua contribuição para a sustentabilidade da agricultura familiar. atuam para além do especificamente agrícola. Miriam.22. elas ainda estudam e exercem o magistério. são majoritariamente presentes nas quatro atividades apresentadas – o que as torna multifuncionais para a agricultura familiar.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG mulheres são executoras exclusivas de 52% das atividades reprodutivas. com mais freqüência.gov. cit. mesmo nos estudos que tratam do tema da pluriatividade. especialmente na condição de mães. principalmente no contexto dos debates sobre o “novo rural” e os modos como outras dimensões econômicas – como serviços.

Semira. É importante levar em conta também as transformações por que passaram as mulheres nas últimas décadas. Rotas de saída Camarano e Abramovay63 levantam três hipóteses para explicar a maior participação feminina nos processos migratórios: a) maior oferta de trabalho para mulheres no meio urbano ligada à expansão do setor serviços. dando-lhes a possibilidade de se pensarem e atuarem como sujeitos de suas próprias vidas. O primeiro diz respeito à presença de uma racionalidade nas escolhas das mulheres em não permanecer na agricultura familiar. conforme constataram em pesquisa recente Melo e colegas65. Juiz de Fora. Disponível em: <www. 65 MELO. A educação formal e os novos mercados para a agricultura familiar. em contextos diversos do ponto de vista político e econômico encontram-se os mesmos processos. aumentam suas chances de conquistar postos de trabalho mais qualificados.93 mulheres para cada 100 homens.133 - . de ser alguém com um lugar no mundo. é possível estabelecer rotas que a contornem e minimizem os seus efeitos perversos e injustos. op. 04 a 10 de novembro de 2007. 116. são 96. dados apresentados por Abramovay e Rua demonstram que o percentual de homens solteiros nos assentamentos é muito superior ao de mulheres.T T Se. Antônio et al. eu também digo que estou”64. jun. Quando ele diz ‘eu estou cansado’. estas três hipóteses possuem estatutos diferentes. 2003. Ainda que seja um processo mais marcante na população feminina rural. 64 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Quando meu marido diz ‘é meu’.21 63 CAMARANO e ABRAMOVAY. Vale ressaltar dois processos profundamente interligados e pouco considerados. já que. Gênero e globalização no Vale do São Francisco. em princípio. cit. Tais processos trazem conseqüências importantes no modo como as mulheres. dando-lhes condições de pensar e buscar outros destinos diferentes da submissão absoluta à lógica patriarcal. ou seja. É essa mesma lógica que leva a um maior incentivo para que as filhas invistam na escolarização. suas causas não estão radicadas apenas no tipo de política pública para o desenvolvimento rural nem em condições estritamente econômicas. eu também digo. . Se ainda não há condições para a ruptura dessa lógica. em especial as ações políticas dos movimentos de trabalhadoras rurais. set. b) dinâmicas das relações de gênero na família. as relações de gênero são determinantes tanto no que se refere à preferência por mulheres nos empregos do setor serviços.br>. os jovens que investem na qualificação escolar também tendem a deixar a unidade familiar. Adélia.fundaj. c) relação entre processos migratórios e graus mais elevados de escolaridade. Além disso. (Trabalho para discussão n. Texto apresentado no XLI Congresso Brasileiro da Sociedade Brasileira de Economia e Sociologia Rural. especialmente as mais jovens. como aquelas relacionadas às dimensões socioculturais. 2001). Apud BRANCO. como fica claro no depoimento de uma trabalhadora da fruticultura irrigada de Petrolina. VAINSENCHER. tanto no que se refere às conquistas no plano dos direitos.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG populacional. comprovando assim que a estrutura das relações de gênero tem um peso decisivo na dinâmica de desenvolvimento rural. confirmando a força da estrutura familiar mais tradicional. como na maior escolaridade encontrada nas mulheres rurais.gov. Na perspectiva aqui assumida. interpretam a si mesmas e à realidade. apresenta uma tendência inversa. a remuneração pelo trabalho realizado e a quebra com o tempo indistinto que marcam a ligação entre produção e reprodução dentro da unidade familiar são fatores que transformam o cotidiano das mulheres. O acesso ao mundo público. em Pernambuco: “Fiquei uma pessoa independente.

Mulheres da seca: luta e visibilidade numa situação de desastre. que. Além disso. ibid. 67 ABRAMOVAY et al. para as filhas são raríssimas as chances de serem herdeiras. BRANCO. Há que se considerar. historicamente marcada pela multifuncionalidade e pluriatividade.João Pessoa: UFPB.. como constatou Branco68 ao afirmar que. por outro lado. Ao mesmo tempo. seja no trabalho assalariado. cit.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG ocasionando o que eles denominam “questão sucessória na agricultura: que é quando a formação de uma nova geração de agricultores perde a naturalidade com que era vivida até então pelas famílias e indivíduos envolvidos nos processos sucessórios”66. Se a rota de saída das mulheres da agricultura familiar significa uma opção legítima na busca da emancipação e da cidadania. portanto. ibid.. op. no sentido do baixo retorno financeiro. ilógico que procurem outras opções. mas ajudam os demais familiares a migrarem”69. O patrimônio geralmente não oferece possibilidades de muitas divisões. ibid. no setor de serviços público e privado ou no trabalho doméstico – para onde migram a maioria das mulheres. Adélia.134 - . 69 Id. que às vezes a migração para áreas urbanas não é uma escolha das mulheres. na agroindústria. mesmo que haja ausência física de uma mulher. elas também não se desvinculam da própria agricultura familiar.. Se. como gasto produtivo ou reprodutivo. mas uma necessidade imposta pelas dificuldades financeiras do estabelecimento familiar. terminariam por inviabilizar sua capacidade produtiva. 2000. as mulheres deixarão de ser os sujeitos centrais da mesma. as mulheres não contribuem somente com uma ajuda monetária àqueles que deixaram para trás. . 68 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). caso ocorressem. já que elas continuam sendo avaliadas pelos mesmos padrões e valores que organizam a agricultura familiar. não sendo. essa já é uma situação difícil. é necessário considerar o problema da herança. É desnecessário demonstrar que as atividades reprodutivas não são deslocadas para os homens quando as mulheres deixam de trabalhar diretamente na produção familiar. Sendo a atividade feminina. Essa “perda de naturalidade” é derivada não apenas dos problemas de ordem econômica. quando da recente valorização da agricultura familiar. nesse contexto. Como analisam Abramovay e colegas. as responsabilidades que tinha serão transferidas diretamente para outra mulher da família.. os jovens também se encontram em uma posição de submissão. não representa nem uma ruptura nem uma solução. 66 Id. “através da migração. para os filhos. 25 Id. fazendo com que apenas um dos filhos pudesse ocupar o lugar do pai. segundo a análise de Buarque. 04 a 10 de novembro de 2007. cabe indagar se. tal como ocorreu. pois uma parte substancial dos rendimentos que as mulheres auferem em trabalhos fora do espaço familiar é nele empregado. no momento em que a segunda característica passa a ser considerada uma alternativa viável para o desenvolvimento rural. “o processo sucessório na agricultura familiar está articulado em torno da figura paterna que determina o momento e a possibilidade de passagem da responsabilidade sobre a gestão do estabelecimento para a futura geração”67. pois. uma vez que sendo o poder pouco compartilhado entre as pessoas que estão no estabelecimento familiar. Essa situação é muito comum nos períodos de seca no semiárido nordestino. mas também da mesma dinâmica patriarcal que afeta as mulheres. ainda.

as mulheres estão majoritariamente nas categorias não-remuneradas (39.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Direitos pela metade Anteriormente. Os dados por si só indicam a magnitude da exploração a que estão submetidas as mulheres na produção agrícola brasileira. Quando se analisa a titulação da propriedade da terra. No Brasil. É prudente afirmar que as mulheres são gerentes de uma parte dos recursos familiares porque seu poder de decisão é muito restrito. Trabalhando com os dados sobre rendimentos das agricultoras familiares da área de Sobral. enquanto 13% não auferem nenhum tipo de rendimento. bolsa-escola – R$ 15 por criança. vê-se que 47. temos que 17. demonstrando que quase80% das mulheres não auferem nenhum rendimento do seu trabalho. não há nenhum tipo de obstáculo legal para que as mulheres sejam proprietárias. 87% dos lotes dos assentamentos do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). 93% do Banco da Terra e 92% das propriedades familiares têm homens como titulares70. Nos demais casos.ibge. foi afirmado que as mulheres estão em todos os lugares e não estão em lugar nenhum no cotidiano da agricultura familiar. os dados da última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad).25%) e produção para consumo próprio (também 39. em novembro de 2002. e 85. mesmo no que se refere às decisões da 70 “A terra da mulher (e do homem)”. para o universo das pessoas de 10 anos ou mais ocupadas em atividades agrícolas (não especificamente para a agricultura familiar). o que chama a atenção aqui é o alto percentual de mulheres que colocaram os benefícios (bolsa-escola. é necessário um deslocamento para o município-sede. esperas nas filas dos bancos e gastos com transporte que terminam por diminuir ainda mais o já mínimo benefício. para receber tais benefícios. No que se refere aos rendimentos. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Analisando os números referentes à população masculina ocupada.71% são classificados como não remunerados. 04 a 10 de novembro de 2007. . perfazendo 26. No entanto. elastecendo ainda mais o tempo das mulheres.br>. e 8. Contudo.37% estão na produção para consumo próprio. entrevista concedida por Zoraida Garcia Frias ao jornal eletrônico da Unicamp. aos rendimentos e ao poder de decisão. 71 Disponível em: <www.135 - . e bolsa-alimentação – R$ 15.25%). vale-alimentação e vale-gás) como sendo sua própria e única renda: 66% entre aquelas que declararam ter algum rendimento. são consideradas “dependentes”. Perceber os recursos destinados à família como sendo seus próprios recursos demonstra o quanto as mulheres têm dificuldades de se perceber para além desse lugar e da função de gerentes dos parcos72 rendimentos familiares destinados à reprodução cotidiana. já que. fica evidente o quanto a existência de políticas públicas ou de legislações não é suficiente para minimizar as enormes diferenças de poder entre mulheres e homens.8% recebem menos de meio salário mínimo mensal. A aparente contradição se explica ao verificarmos o que é feito das mulheres nas dimensões relativas à posse da terra.7% no grupo que recebe menos de meio salário mínimo. Disponível em:<www.08% de homens que não recebem rendimentos pelas atividades que realizam. com teto de três crianças.gov.br>. 72 Os valores dos benefícios são: vale-gás – R$ 15 (a cada 2 meses). também com teto de três crianças. divulgada em 200171.unicamp. Ao mesmo tempo em que confirma que os(as) formuladores(as) das políticas públicas assistenciais colocam as mulheres como responsáveis pelo recebimento desses recursos como se isso fosse uma garantia de sua adequada aplicação. Apenas em situações em que eles não preenchem os requisitos necessários ou quando estão ausentes é que as mulheres assumem a titularidade. indicam que.

à primeira vista.%. sem liberdade. Em síntese. sem poder. 04 a 10 de novembro de 2007.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG esfera reprodutiva. há um percentual maior de mulheres compoder de decisão (55. não lhes é direito. O poder de decisão das mulheres é maior na venda dedoces e queijos (de 58% a 41%) e na venda de ovos e aves (80% a 46%). Nos demais estados (Paraná e Rio Grande do Sul). a realidade é mais complexa. assim são as mulheres em sua experiência cotidiana na agricultura familiar. Sem terra. já que a tradição patriarcal que organiza esse cotidiano nega às mulheres apossibilidade de exercerem um princípio fundamental de ser sujeito: a liberdade de ir e vir. nos casos das agricultoras familiares. Apesar de se creditar às mulheres o domínio absoluto do espaço reprodutivo. Mato Grosso e São Paulo). Esses elementos não podem ficar invisíveis quando a transformação social e política pretendida implica necessariamente a quebra da hegemonia do modelo até então vigente para o desenvolvimento rural. sem dinheiro. 73 Pesquisa realizada por Abramovay e Rua em 2000.5%.136 - . Ceará. sendo mais freqüente que os homens tomem essa decisão. venda de gado – de 93% a 59%). tudo o que envolve dinheiro e saída do espaço restrito do estabelecimento familiar não lhes pertence. trabalhadoras e trabalhadores rurais construam projetos e alternativas não apenas para os modos de produção e consumo.5% e 44%). sendo antinômico que essa radicalidade também não se dirija à dominação patriarcal que organiza a sociedade brasileira. . 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). A primeira vista porque. tendo respostas menos uniformes nos estados pesquisados. a decisão tende a ser compartilhada pelo casal (38% e 62. meia liberdade e meia cidadania. bastante surpreendente é que. pois só assim nossa ação política poderá resultar numa sociedade que não seja marcada pela meia justiça. sem tempo. em nenhum dos estados pesquisados. o poder de decisão é majoritariamente masculino nos seis estados pesquisados (cultivos – de 92% a 66%. ainda que esse poder não seja tão hegemônico como o masculino e se dê em esferas produtivas de menor valor monetário. É preciso que os movimentos sociais. as organizações não governamentais. Contudo.5%). 41. mudemos os sentidos e significados da agricultura e da família. 61. o que pode parecer. como demonstram os dados da pesquisa “Relações de gênero nos assentamentos rurais”73. sem espaço. No que se refere à educação das crianças em quatro estados (Bahia. mas também para o modo de organização familiar. as mulheres têm maior poder de decisão sobre quais alimentos devem ser comprados. vendas dos produtos agrícolas – de 91% a 74%. No âmbito das atividades produtivas.

deputada Federal/SC74 Resumo Estudo sobre a emergência das mulheres trabalhadoras rurais no mundo público.137 - . práticas. Assim. As mulheres trabalhadoras rurais. coletivo personalizado. 02/10/1999-TV Bandeirantes. discurso e imagem específica. pessoal e social. como categoria específica. como uma produção coletiva. com identidade. 74 Programa Jogo Aberto. nós era só mulher com obrigações…” Luci Choinaski.” nas palavras de Bourdieu (1975). em luta por reconhecimento e direitos. Uma dimensão formulam--se institucional pela qual se formalizam suas organizações específicas. atuações e autorias. ou modalidades de práticas políticas. numa produção de vários agentes sociais e práticas políticas intercaladas por experiências femininas de mulheres do campo. A existência das mulheres mulheres trabalhadoras rurais não decorre automaticamente automaticamente de suas situações de vida. e formulam discursos institucionais sobre elas e para elas. e a construção de uma narrativa própria. estratégias. Buscando a construção e encontrando a experiência das mulheres trabalhadoras rurais A existência das mulheres trabalhadoras rurais no espaço público. e a sua construção revela conflitos. envolvendo a criação de um lugar feminino. tornandotornando-se em condições de aparecer e falar publicamente. exprimindoexprimindo-se em diversas dimensões. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). fui em busca do “trabalho social” de construção do objeto “preconstruído. combinando diferentes elementos como articulação. consubstanciando um movimento social de mulheres trabalhadoras rurais. e postulam encontros com os /as personagens e contextos situados no terreno social em que surgem as organizações específicas de mulheres trabalhadoras rurais.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Margaridas nas ruas: As mulheres trabalhadoras rurais como categoria política Maria Dolores de Brito Mota “…nem nome nós tinha. lhes permite refazeremrefazerem-se sem medo de ser mulher. 04 a 10 de novembro de 2007. num fazer e fazer-se. e deparei-me com a questão de uma categoria social fabricada coletivamente. de formas de representação/apresentação. pela qual essas mulheres se identificam como mulheres trabalhadoras trabalhadoras rurais. que demandando ando articula a atuação de diferentes agentes sociais com as mulheres rurais. é aqui abordada na perspectiva da construção de sua emergência como grupo. através de sua experiência política. . Uma dimensão experiencial em que ativam mecanismos de aparecimento aparecimento e de fala pública. nem de revela--se como resultado de uma tomada de consciência espontânea. nem reconhecimento. abordada pelo aspecto de sua construção como categoria política política em luta por reconhecimento e direitos. Essa construção remeteremete-se a uma produção coletiva. além de instituírem a sua entrada na política sindical. envolvendo as mulheres trabalhadoras rurais e outros agentes sociais. Esses acontecimentos reúnem práticas. conflitos símbolos.. demand práticas e saberes que possibilitam a formatação de uma experiência singular. Construção essa resultante de um trabalho coletivo de agentes múltiplos cujas práticas projetam e revertem figurações sociais. imprimem marcas marcas diferenciadas no movimento sindical dos trabalhadores rurais introduzindo dimensões femininas de vivências e simbolismos que.

e que está sendo colocada neste contexto como identidade construída coletiva e politicamente. e o próprio momento conjuntural em geral e em particular o das mulheres da zona rural.p. diferente de outros. Bourdieu que entende o mundo social como uma “realidade que é o lugar de uma luta permanente para definir a realidade” (1989. e nem se mostra como reflexo imediato de uma tomada consciência política espontânea. e assim apresentam-se ao mundo humano” (1995.p. Arendt que entende a existência social assentada no ser visto e ouvido publicamente. 04 a 10 de novembro de 2007. manifestam-se como uma produção coletiva.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Categoria aqui é entendida no sentido referido por Bourdieu (1999.415). Esse tornar-se um Eu. Castoriadis.24). com configurações diferenciadas em grupos/facções que disputam entre si a legitimidade. . práticas. vincula-se a mecanismos conectados com a experiência das próprias mulheres rurais junto a outros grupos sociais que são articuladores políticos. e como organizaçãoarticulação da própria sociedade” (1995.17) para quem “a palavra ‘categoria’ impõe-se por vezes porque tem o mérito de designar ao mesmo tempo uma unidade social – a categoria dos agricultores – e uma estrutura cognitiva. numa unidade que sinaliza “a concordância entre as estruturas objetivas e as estruturas cognitivas.p. 1993. De uma maneira esquemática. vida pública onde é possível constituir-se em ser “conscientemente existente” (idem. normalmente atribuídos como determinantes de situações conseqüentes. em agir.” E outros autores que transitam por entre essas idéias de um real não apriorístico e resultado de ações projetadas ou não dos sujeitos sociais. Produção que pode ser aduzida como uma poética.17).192). essa concordância que permite o conhecer de uma categoria social implica também um processo de reconhecimento pelo qual ganha visibilidade e legitimidade. no sentido que é atribuído por Arendt (1995) significando a vida humana empenhada em fazer algo. sendo que “na ação e no discurso. organização. Mas. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE).p. Esse propósito me levou a aproximar-me e a aproximar alguns autores que compreendem a realidade social como realidade construída. Destaco Certeau (1996) com a sua busca das tessituras do real dentro do cotidiano. dentro e fora do próprio movimento de mulheres trabalhadoras rurais. no sentido original dessa palavra. revelam ativamente suas identidades pessoais e singulares. entre a conformação do ser e as formas de conhecer” (idem.138). e de tornar manifesto o elo que as une. como apresentação e estratégias de um grupo social. A esta produção atribuí a idéia de “construção” no sentido de que a categoria das mulheres trabalhadores rurais não se exprime apenas por processos estruturais. esbocei o cenário que tornou possível o aparecimento das “mulheres trabalhadoras rurais” como sujeito de discursos e sujeito nos (outros) discursos. Essa construção se distancia das idéias de determinação e de espontaneísmo. falas e espaços de modo a conquistar uma outra vida. de ser uma criação. e reivindicou meu olhar sobre esse controvertido conceito nas ciências sociais.p.p. como mundo desta sociedade e para esta sociedade. em montagem de uma “ciência do ordinário. O que me colocou diante da questão de identificar as evidências do processo construtor das mulheres trabalhadoras rurais como categoria política. as mulheres trabalhadoras rurais. nos leva ao encontro da problemática da identidade desse grupo de mulheres. para quem a instituição da sociedade “que é cada vez instituição do mundo. presença de outros. no interior da qual situa-se a idéia de que a emergência de um grupo em luta se faz especialmente por meio de atos de reconhecimento (p. a vita activa. E o agir pressupõe aliança entre pessoas. Os processos que permitem o estabelecimento das mulheres rurais como categoria específica.” É uma forma de ser e de conhecer (esse ser).118). os homens mostram quem são.138 - . expressandose por imagens.

Essa busca seguiu dois caminhos:  A história do surgimento das organizações de mulheres trabalhadoras rurais. as primeiras surgiram em 1982 no sertão pernambucano e no interior do sul do país. academia. articulações. Os primeiros grupos de mulheres rurais que conheci. Fui em busca de entender o que possibilitou àquelas mulheres trabalhadoras rurais se definirem. de fato expressava a conformação de um processo em curso. igreja. na medida em que um dos temas tratados no encontro foi “ o que era ser e se sentir uma mulher trabalhadora rural. O discurso acadêmico tem uma presença intensa na emergência social das mulheres trabalhadoras rurais corroborando com a instituição de uma identidade desse grupo. emoções. de produção coletiva. conflitos. e no acompanhamento socioetnográfico do cotidiano da militância do Coletivo Estadual de Mulheres da Federação dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais do Ceará – Fetraece. indica relacionamentos entre diversos agentes sociais e as mulheres trabalhadoras rurais. . que é recente. movimento sindical e organizações não governamentais 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). o 8 de Março e a Marcha das Margaridas 2001. as eleições do Coletivo Estadual. Esta condição que se apresentava como dada. sindicatos. imagens. à espera de ser representada. estratégias. o III Congresso Estadual da Fetraece.” pois não é algo que sempre esteve lá. Eram mulheres de realidades e características diferentes. e em condições de comunicação. bóias-frias. a “identidade está amarrada a noções de experiência. 04 a 10 de novembro de 2007. significa estar sendo vista. e do Movimento de Mulheres Trabalhadoras Rurais (MMTR). foram se manifestando elementos como discursos. como no acadêmico e no de formações políticas (ONGs. lavradoras. reconhecerem e serem reconhecidas como tal. Em 1997 deparei-me com mulheres de todo o continente latino-americano e do Caribe. Segundo Scott (1999). catadoras de café.  O acompanhamento de algumas atividades políticas realizadas pelo Coletivo Estadual de Mulheres da Fetraece. e do Movimento de Mulheres Trabalhadoras Rurais/CE (MMTR-CE). rituais que realçavam um processo de fabricação. posseiras. Neste caso. Uma via dupla de criação – relações entre mulheres rurais. eram conhecidas e autodenominadas como assalariadas do cacau. delegadas do Primeiro Encontro Continental de Mulheres Trabalhadoras Rurais.139 - . que ao longo da investigação foi tomando a forma de uma construção – a construção sociológica das mulheres trabalhadoras rurais como categoria política. a organização da Campanha Nenhuma trabalhadora rural sem documentos. identidade. no início dos anos 1980 na Bahia.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Discursar é estar em posição de exercer uma fala de direito e estar presente no discurso de outros. Deparei-me com essa experiência nas condições em que se designam e se exercem como tal – na existência cotidiana de suas organizações específicas. práticas. narrativas. Na busca das origens das organizações de mulheres trabalhadoras rurais.” Do Brasil estavam diversas representações de organizações de mulheres trabalhadoras rurais que se autoreferiam como participantes do Movimento de Mulheres Trabalhadoras Rurais. camponesas. todos circunstanciados por tensões. portanto em relações de re-conhecimento. a de mulheres trabalhadoras rurais. Tomar as mulheres trabalhadoras rurais como categoria construída é um esforço que me levou a encontrar a experiência historicizada pela qual puderam emergir como categoria política. mas juntas reivindicavam uma única identidade. políticos).

04 a 10 de novembro de 2007.140 - . Esses estudos formulam questões que se situam no campo de uma teoria social crítica e mostram o caráter político da invisibilidade das mulheres rurais nas estatísticas e na vida social. plantas medicinais). presente não somente na zona rural mas em toda a sociedade. Diante de uma pequena presença das mulheres nas reuniões sindicais e da existência de problemas entre os casais pelas ausências dos homens em decorrência de sua participação no movimento. o Coletivo da Fetraece e o MMTRCE. nos anos 1980. Além disso. Os estudos acadêmicos estão também presentes no cotidiano dos movimentos das mulheres trabalhadoras rurais. hortas. ouvindo as queixas de homens e mulheres iniciaram. Assim.” cuja narrativação das práticas é uma maneira textual de fazer. No âmbito das assessorias. Seja em nível nacional ou estadual. da igreja católica e da atuação do Centro de Estudos do Trabalho e Assessoria ao Trabalhador (Cetra) e do Centro de Pesquisa e Assessoria (Esplar). em 1980. fala autorizada. Os estudos acadêmicos são falas legitimadas que atuam no propósito de dar visibilidade à presença das mulheres tanto nas atividades da produção agrícola quanto nas instâncias e manifestações políticas do movimento sindical dos trabalhadores rurais. a história do surgimento das organizações de mulheres trabalhadoras rurais está ligada a atuação de ONGs e pastorais. uma maneira de fazer a sua existência. crédito. MNRF.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Na história do surgimento das organizações estudadas.junto aos locais onde surgiram os primeiros grupos organizados de mulheres trabalhadoras rurais. o Cetra e a igreja.  O caráter de ajuda ou complemento ao trabalho masculino.  A não inclusão das atividades femininas das políticas de incentivo à produção rural. lhe é permitido apresentar uma outra visão do real. subsídio e mesmo dos programas de reforma agrária. O primeiro grupo do MMTR-CE se formou na região de Itapipoca.  Evidenciam o aumento do trabalho feminino no campo e as novas posições que este assume a partir das mudanças introduzidas pela expansão das relações capitalistas no campo que individualizaram a força de trabalho das mulheres intensificando a sua exploração. Em torno desse trabalho com as mulheres aproximaram-se várias integrantes dessa instituição e alguns 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). analisando:  A subestimação do trabalho feminino pelos indicadores utilizados nas pesquisas censitárias (mulher de produtor. . pomar. o encontro com a realidade das mulheres é mais direto. como intelectuais e as assessorias. porque como discurso competente. das pesquisadoras na condição de colaboradoras e assessoras nos eventos que estes movimentos realizam. Nessa área a igreja tinha um trabalho de organização dos agricultores em torno da luta pela terra e da celebração do Dia do Senhor. física. No Ceará essa matriz articulista está nos interstícios do movimento sindical. a não inclusão da produção de fundo de quintal – criação de pequenos animais. Essa capacidade do dizer é vista por Certeau (1996) como um “saber – dizer. o discurso acadêmico sobre as mulheres trabalhadoras rurais tem sido uma de suas condições de produção. O Cetra também estava presente nessa região com uma atuação voltada para a renovação do sindicalismo e a luta pela terra. A produção acadêmica sobre as mulheres rurais de um lado re-escreve e re-inscreve essas mulheres no mundo social. a organização dos Encontros de Esposas. existe a participação direta. atribuído ao trabalho feminino. do qual só participavam homens. como textos que subsidiam as discussões sobre suas condições de vida e de trabalho. destacaram-se a presença de vários agentes sociais.

como efeito da organização das mulheres e dos trabalhadores rurais no interior da Central Única dos Trabalhadores (CUT). e em fevereiro de 1993 a Comissão de Mulheres é transformada no Coletivo Estadual de Mulheres da Fetraece. Em 1992 o grupo de sindicalistas do DETR-CE. cuja visão de democracia envolvia a inclusão das mulheres e sua igualdade de direitos. e na área de atuação do Esplar. saúde da mulher. O Coletivo e o MMTR vinculam-se a organizações em nível nacional. No Brasil. cujo resultado vai ser a criação do Coletivo Estadual de Mulheres da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado do Ceará (Fetraece). na mesma perspectiva dos que estavam sendo construídos na Paraíba. As assessoras do Cetra foram buscar referências de trabalhos com mulheres rurais e encontrou contatos na Paraíba e em Pernambuco. Em 1991 esse departamento realiza o I Encontro Estadual de Mulheres Trabalhadoras Rurais quando foi criada a Comissão de Mulheres do DETR-Ce.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG profissionais liberais residentes na região. As assessoras foram se formando como assessoras de um trabalho específico com mulheres na medida em que os próprios movimentos de mulheres iam se constituindo. São vozes competentes que instauram condições para a legitimação e reconhecimento público das mulheres e que vão também se estabelecendo para criarem um saber e uma prática junto a esse grupo. A presença das ONGs nessa história indica a formatação de um outro discurso e práticas articuladas com as trabalhadoras rurais demandando a sua inclusão no espaço social e político. Piauí. O Coletivo teve como território privilegiado as instâncias formais do movimento sindical rural. se constroem. relacionava-se ao crescimento do feminismo e de uma consciência sobre as condições de desigualdade social. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). formado por sindicalistas de esquerda que faziam oposição à diretoria pelega da Fetraece. outro foi acontecendo. Esse aspecto institucional da construção das mulheres trabalhadoras rurais compreende também a formalização das suas próprias organizações específicas e de seu reconhecimento legal como trabalhadoras rurais. numa constituição simultânea. É no encontro entre si que se produzem. Em 1986 foi criado no Ceará o Movimento de Mulheres Trabalhadoras Rurais do Ceará. Esses encontros se entenderam para Sobral e foram sendo ampliados para mulheres solteiras. Esse processo se remete a uma organização de mulheres nos sindicatos de trabalhadores rurais dos municípios de Madalena e Canindé. Uma assessora confessou que aprendeu sobre a questão da mulher com o trabalho que realizava junto às trabalhadoras rurais. . política e econômica das mulheres brasileiras. Dentro da CUT existia o Departamento Estadual de Trabalhadores Rurais. aos quais se articulou. que em 1990 já haviam formado uma Comissão de Mulheres. Bahia e outros Estados nordestinos. Discutia-se nesses encontros. ganha as eleições da Fetraece. O discurso e a prática das ONGs integra-se com o discurso e a prática acadêmica no sentido de compor um grupo produtor de um discurso institucional sobre as trabalhadoras rurais demandando a sua inclusão no espaço público. 04 a 10 de novembro de 2007. respectivamente. planejamento familiar e pobreza. como a Comissão de Mulheres Trabalhadoras Rurais da Contag e a Articulação Nacional de Mulheres Trabalhadoras Rurais.141 - . A atuação das ONGs na formação das organizações de mulheres trabalhadoras rurais se dá num contexto mais amplo. Pernambuco. inicialmente para trocar experiências e ampliar sua capacidade para esse trabalho político organizativo com mulheres rurais. de relações internacionais de cooperação entre mulheres. Paralelamente a esse processo.

Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Essa institucionalidade também envolve toda a luta das próprias trabalhadoras rurais que configuradas como categoria específica atuam em busca do seu reconhecimento profissional. Envolve sentimentos de pertença e diferenciação.142 - . que se exprime. instituindo um lugar feminino no território do movimento sindical rural. têm ação na esfera política e tornam-se interlocutoras como parte de conflitos. a primeira “descoberta” que fazem no movimento é de ser gente e ser trabalhadora (pobre). Essa campanha continua em curso. formando uma sobreposição de representações apoiadas em conjuntos diferenciados de relações sociais. de aparecer publicamente. É preciso que o Estado legitime a sua condição inscrevendo-as como trabalhadoras rurais nas suas instancias burocráticas. Segundo depoimentos de algumas entrevistas. inclusive pela hegemonia não se desfazem. pautados em relações sociais nas quais se inserem. a unidade é sempre um elemento que está sendo restaurado. feita na medida em que faz as suas próprias agentes. mas também por sua capacidade de poder ser visto e ouvido por todos. ora em nome do sexo. a segunda é de ser mulher também com valor. as disputas. Ter essa inscrição e aposentar-se como tal é uma grande conquista para as mulheres trabalhadoras rurais. Dessa maneira emergem no campo político e social brasileiro como um grupo organizado. afirmando seu direito a ter direitos. E assim encontramos a experiência singular das mulheres trabalhadoras rurais pela qual se fazem e se apresentam como tais. rompendo com uma situação de subordinação e com a fixidez de uma condição antes tida como destino. Aparecer é estar presente no mundo e inscrever a sua diferença diante de outros. lutando por direitos e em busca de reconhecimento – fazemse sujeito político. interpretada e narrada. e cuja composição já supõe um conflito interno. ora em nome da classe. Essa experiência não se explica apenas pela posição estrutural de um grupo como algo que sempre esteve lá para ser descrita mas uma experiência historicizada e neste caso também produzida e exercida coletivamente. sobretudo. mas com valor. sendo uma estratégia importante de mobilização e conscientização interna e externa a esse grupo. Na medida em que participam de um movimento e realizam suas manifestações públicas. criando formas de representação e apresentação. . mas apenas legitima e oculta os conflitos. como entende Ávila (2000) referenciando-se em Arendt (1998). 04 a 10 de novembro de 2007. vivida. Ser mulher trabalhadora rural significa sentir-se como tal. vivem experiências pessoais e coletivas que são base para sua identidade. Enquanto um momento marcante da construção da identidade a campanha Nenhuma trabalhadora rural sem documentos mostrou uma disputa permanente pela hegemonia 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). por meio da campanha pela documentação Nenhuma trabalhadora rural sem documentos implementada em 1996. gênero e lugar. Nessa identidade de mulher trabalhadora rural se articula classe. A identidade de mulher trabalhadora rural é uma autonomeação a partir de recursos que lhes permitem que se vejam naquilo que sabem de si. significando que anunciam seu projeto. Assim. Por meio dessa ruptura podem ter uma existência própria. Em cena: construindo a existência pública Um movimento social não acontece apenas pela existência orgânica de um grupo. Como essa restauração não elimina.

históricas. 04 a 10 de novembro de 2007. Ao assim se dizerem. internalizada e sentida de modo individuado –ou individualizante –e uma outra experiência que é objetivada. ir a outros lugares. projetada nas condições sociais. Do que é possível perceber nos comportamentos das trabalhadoras rurais. A experiência experiência no contexto da construção Construir-se como mulher trabalhadora rural envolve vivenciar uma experiência traspassada por mecanismos que promovem objetivações e subjetivações que formata e institui sentimentos. ou nomearem-se. é fundamental que se sintam como tal. Também nessa metodologia aprendem a se comunicar. encontros. mulheres trabalhadoras rurais. compondo lugares importantes para a construção de identificações. a repassar o vivido e aprendido para outras companheiras. mulheres de produtores que não se diziam –e muitas não se dizem ainda. As diversidades e os conflitos são sempre recompostos em nome da unidade do movimento e dos interesses das mulheres trabalhadoras rurais. camponesas. mas sim um trabalho com mulheres. Embora seja uma produção coletiva. atitudes e símbolos próprios. A formação de uma consciência de si torna–se processo integrante da construção da identidade social e pessoal. Sempre houve mulheres trabalhando e vivendo no campo. seminários. há uma dimensão individual da construção identitária. em que cada uma vê a si e sente-se como uma mulher trabalhadora rural. decidindo e participando. a identidade tem um aspecto de subjetivação e de objetivação que articula conflitos e heterogeneidades ao tempo em que funda uma integração e similaridades.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG entre o Coletivo e o MMTR-CE e também entre as diversas entidades parceiras que integram a sua coordenação estadual (sindicais. não se reconhecem assim. representa uma ruptura dessa situação. Os modos de fazer essa identidade se assentam numa pedagogia singular que prepara os cenários para uma sociabilidade. que em geral são mulheres que devem saber ouvir. ONGs. . religiosas. acadêmicas). Poder falar e sair. cursos de formação. O que existia antes (do movimento) era o cativeiro e a opressão. eventos ou manifestações públicas para as e das trabalhadoras rurais. As vivências no movimento social permitem refazer a percepção e a posição das mulheres no mundo que as cerca e dentro delas mesmas –e vão permitir a reinterpretação de conceitos. Para se dizer “sou uma mulher trabalhadora rural.143 - . Uma questão é se essa pedagogia faz uma política para as mulheres ou mulheres para a política. políticas do grupo. certezas sobre si. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE).” é preciso sentir-se e mostrar-se como tal. e se fazem capazes de autonomia escolhendo. As características dessa pedagogia se exprimem numa metodologia identificada desde a escolha das assessoras para realizarem o trabalho com mulheres. e é por este que se redefinem e se reposicionam as mulheres nas relações sociais como trabalhadoras e mulheres que têm valor – revêem a si e ao que fazem atribuindo significado e valor. quer em reuniões. Não existe um trabalho com homens. E encontramos no cotidiano dos movimentos de mulheres uma pedagogia que lhes permite uma nova sociabilidade e um novo sentimento de si. lavradoras. Essa apreensão requer condições sociohistóricas capazes de promover sentimentos e verdades. a viver para si. ser simples. não podem ser donas da verdade nem autoritárias. ter experiência em trabalho popular e uma visão política. A construção da identidade desvela-se entre as trabalhadoras rurais como um processo que envolve ou articula uma experiência que é subjetivada. Para tanto é preciso apreender-se como tal.

Isso pôde ser observado na Fetraece pelo processo de estatutização do Coletivo no III Congresso Estadual de 1998 – quando de um órgão atrelado à Secretaria de Formação foi transformado em cargo da diretoria executiva. . Nesse circuito incessante. As manifestações realizadas pelas mulheres trabalhadoras rurais estão zoneadas por divergências políticas. Esse trabalho com mulheres é um ativador da identidade de mulher trabalhadora rural ao estabelecer possibilidades de formação de uma consciência de si como sujeito capaz de autonomia. tanto as mulheres rurais como as assessoras se inscrevem num coletivo. O movimento de mulheres trabalhadores rurais ao fazer-se representante de uma categoria também realiza um trabalho de apresentação de modo a coincidir com as representadas. especialmente as que demarcam as atuações da Articulação Nacional das Mulheres Trabalhadoras Rurais – ANMTR e a Comissão de Mulheres da Contag – reproduzidas em nível estadual entre o Coletivo da Fetraece e o MMTR-CE. as direções. não desfaz as disputas internas pela hegemonia da categoria. As organizações específicas das mulheres na estrutura sindical e a sua presença física dão conta da ocupação de espaço – entendido como lugares exercidos. embora coabitando alguns espaços sociais comuns. que são expressões concretas de uma inscrição institucional das mulheres se estendendo para as instâncias mais gerais. Mas a presença das mulheres não se dá apenas fisicamente. Esse processo se apóia em organizações de base. Os dois grupos vão se constituindo simultaneamente. Há uma alternância de hegemonia nas manifestações que essas organizações realizam. a partir das quais cada uma estabelece suas práticas e suas posições. Artes de apresentar apresentar e representar Todo esse substrato comum. inclusive com orçamento próprio. Nas manifestações públicas que realizam. Por meio dessa metodologia reconstroem-se permanentemente em processos de reconhecimento dos quais participam vários grupos sociais –e nos quais se articulam a dimensão pessoal e social. em suas identidades respectivas. para retornar ampliando-se nas bases. construindo uma experiência particular –apropriando-se cada qual dos segredos de suas razões. Muitas vezes aparece na fala das mulheres a expressão “ocupar espaços na estrutura sindical” referindo-se à inserção da presença feminina nas instâncias oficiais de representação política. e a Comissão de Mulheres enfrenta a discriminação dentro de uma organização mista para estimular a igualdade de oportunidades em seu interior. como movimento sindical dos trabalhadores e trabalhadoras rurais. e outras que existem entre facções internas ao próprio Coletivo.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Há um entrelaçamento de vivências entre as assessoras e as mulheres rurais. A unidade da categoria é mais uma estratégia política sofridamente construída e desejada. onde participam também outros agentes articuladores. e o MSTR vem se designando oficialmente desde 2000. do que uma característica ou condição interna. dando conta da instituição de um lugar feminino. A política de cotas que vem sendo adotada no movimento sindical de trabalhadores rurais é um indicativo da estruturação de uma nova ordem de definição das posições de homens e mulheres na estrutura sindical. como o 8 de Março e a Marcha das Margaridas as mulheres cuidam de sua própria aparência como: arrumação e embelezamento da aparência 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). mas se apresentam com homogeneidade e unidade.144 - . A ANMTR reivindica para si o compromisso com a inseparabilidade da luta de gênero e de classe. 04 a 10 de novembro de 2007. mas simbolicamente.

As músicas em geral são de autoria das próprias mulheres. nos relatórios. além de mobilizarem a imprensa e apresentarem-se unificadas. quando não falavam. não tinham som. Criam e apresentam poesias para fazer abertura de eventos. a conquista da fala é o demarcador de um novo tempo e uma possibilidade concreta pela qual podem contar a própria história. Transformam o desqualificado e frágil feminino em força e eficácia política. em que se experimentam como gente. o trabalho no campo onde estão sempre carregando coisas 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). depois do movimento. tinham medo de falar.” Por essas formas de apresentação constroem uma sensibilidade pública utilizando estrategicamente alguns papéis e atributos tradicionais das mulheres – fragilidade. e uma flor bonita e terna. mulheres trabalhadoras rurais. gesticulam. não ficam caladas quando não aceitam qualquer coisa. na luta e nas ruas. quando durante momentos de forte tensão as mulheres com suas crianças tomaram a frente de confrontos para impedir violências e agressões maiores. A música anima. São modos que articulam ritos.” As fotografias são recorrentes e também se revelaram como uma fala. da conquista de direitos e da felicidade. cada qual como falas apropriadas. ouviram o próprio som. 04 a 10 de novembro de 2007. trabalhadora e mulher de valor que pode falar. sensibilidade. exprimindo a utopia da união. que deu a vida pela luta. e animam o início. falam do sonho da libertação. compositora e integrante do MMTR-CE. e um depois. Para Nazaré Flor. Nas poesias também se referem ao dia-a-dia de trabalho na roça. uso de símbolos e adereços de mulheres e de trabalhadoras rurais como flores e foices. nos ambientes dos eventos. eram escravizadas. sem valor. Margarida é o seu símbolo – uma mulher forte. dentro de um contexto de utilização freqüente de mensagens visuais. tinham medo e não podiam. A análise de um conjunto de fotos de documentos produzidos pelos movimentos de mulheres trabalhadoras rurais mostrou a representação da vida delas. em casa. levantam das cadeiras. cada qual com uma atribuição específica: As poesias fazem relatos. não eram escutadas. E nesse contar se reposicionam no mundo.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG pessoal. Com a música as mulheres se juntam. Nessa narrativa sobre a história delas no movimento. falam mesmo sem estarem certas. tinham vergonha de falar. Um outro aspecto dessa sensibilidade pública pode ser encontrada em muitas histórias de luta pela terra. . fazem poesias e músicas. na música ela encontra a alegria e a simpatia do público e pode expressar qualquer sentimento “de uma maneira que o cara não tem como dizer não. falavam por elas. clamaram seus direitos.145 - . Os modos de falar dessas mulheres se manifestam por expressões que são definidas como modos típicos das trabalhadoras rurais fazerem política. ganharam fôlego. aglutinando e movimentando o grupo. folders. não sabiam de nada. sair de casa. As mulheres trabalhadoras rurais a partir dessas vivências vão construindo uma narrativa própria e temporal em que se referem a um antes do movimento. registrando as histórias. A música introduz o lúdico e por meio dela exercitam um saber – dizer. Elegi as poesias. músicas e fotos. relatórios. Estão presentes na bagagem das mulheres. avaliações. mas há também de compositores e assessores. celebra e incute valores e esperança. conflitos e comunicação. saudações. filhos. o meio e o encerramento sempre dinamizando. como um bloco: “Nós. batem palmas. reivindicar e se experimentam sem medo de ser mulher. riem… Quando as discussões se tornam longas e cansativas ou tensas canta-se para quebrar o ritmo pesado e restaurar a atenção. No tempo que era antes não tinham voz. As músicas estão presentes em todos os eventos. no movimento.

Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG

– pedra, lata de água, filhos, trouxa de roupa; no Movimento estão em movimento,
relaxadas, brincando, viajando, conversando, falando. No Movimento elas se movimentam
e se fazem presentes no mundo.
Se toda fala é sempre de uma falta é isso o que elas mais querem, seus desejos. E essas
falas são emblemas do movimento de mulheres trabalhadoras rurais, expressando o
confronto entre uma forma de vida e um tempo que se encontram em situação de
transformação.

Marcas de mulheres no sindicalismo rural
Os movimentos de mulheres trabalhadoras rurais se situam no território do sindicalismo
rural, no qual estampam sua presença de diferentes maneiras, pelas quais pode se
acessar os pontos de inclusão das mulheres nesse espaço social. Em que pese o fato de
que as lutas das mulheres ainda são vistas como sendo coisas de mulher e não do
conjunto do movimento sindical, aos poucos aparecem situações em que o movimento
como um todo as assume como ocorreu com a Marcha das Margaridas e a Mobilização
Nacional ocorrida em 8 de março.
Os nexos entre as mulheres e o movimento sindical dos trabalhadores rurais construídos
por tantos gestos, passos, artes e falas se esboçam nos seguintes aspectos:
A legitimidade do movimento sindical está apoiada na inclusão das mulheres seja para
mostrar a capacidade e o compromisso das direções políticas de responder às questões
das mulheres, seja nomeando-se como seu representante, o que tem feito a inclusão do
termo trabalhadoras nas manifestações e na própria designação como movimento de
trabalhadores e trabalhadoras rurais. A participação das mulheres então pode ser
presencial e simbólica.
A ampliação da prática de uma mística política, baseada em valores éticos de justiça/diálogo/ternura, na inclusão de todos, numa visão integrada da pessoa, e na
solidariedade. É um momento de todos e o motor do entusiasmo que alimenta o
compromisso por símbolos e participação. As mulheres não dispensam a mística em seu
cotidiano político e a consolidam como prática no campo sindical, mais que o fazem os
homens.
A política de cotas adotada legalmente pelo sindicalismo tem se mostrado um mecanismo
eficiente como estratégia de ação positiva para colocar as mulheres e suas condições de
discriminação na pauta sindical, dando condições para a visibilidade e a participação
feminina. As cotas são efetivamente assumidas pelos setores mais politizados do
sindicalismo, as lideranças, em uma perspectiva de fortalecer o conjunto do movimento;
nas bases, ao nível dos sindicatos municipais podem não ser levadas em conta.
Por fim as dinâmicas de cantar, movimentar o corpo, enfeitar o ambiente, motivar, animar,
alegrar, brincar, rir, dançar, descontrair, ter momentos de confraternização e festa,
exposição e venda de produtos artesanais exprimem um conjunto de características mais
identificadas com a subjetividade, e muitas vezes com forte emocionalidade. No I
Encontro de Mulheres Dirigentes do Sindicalismo Rural-CE, o encerramento foi com muitos
abraços e choros entre assessoras, lideranças e participantes, que diziam: “Conseguimos!
As mulheres cearenses já estão marchando.” Nunca, em 20 anos de aproximação com o
sindicalismo, vi homem chorar por realizar um encontro ou reunião política. Há aqui uma

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vinculação entre subjetividade e cidadania em que a política aparece como lugar de uma
nova sociabilidade e de uma outra experiência subjetiva.
Assim as mulheres trabalhadoras rurais emergem como categoria sujeito político
construído, e não apenas como efeito de mudanças estruturais ou conseqüência natural
de uma tomada de consciência.
Por isso talvez cantem tanto:
Pra mudar a sociedade do jeito que a gente quer
Participando sem medo de ser mulher
Essa mudança enuncia um sujeito capaz de desejos e de sonhos.
Porque a luta não é só dos companheiros
Participando sem medo de ser mulher
Ter um desejo próprio é estabelecer processos de diferenciação e elaborar uma
identidade própria.
Pisando firme sem pedir nenhum segredo
Participando sem medo de ser mulher
Conquistar a existência social permite revelar-se, mostrar-se, apresentando-se e falando
em público sem medo de ser mulher trabalhadora rural.
Referências
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Fase, 2000. Março/Agosto, p.6-11.
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______. “A economia das trocas lingüísticas.” In: Ortiz, Renato. Pierre Bourdieu. São Paulo:
Ática, 1994.
______. O Poder simbólico. Lisboa: Difel, 1989
______.A dominação masculina. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1999
Castoriadis, Cornelius. A instituição imaginária da sociedade. 3.ed. Rio de Janeiro: Paz e
Terra, 1995.
Certeau, Michel de. A invenção do cotidiano. Artes de fazer. Rio de Janeiro: Vozes, 1996.
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Impasses. O feminismo como crítica da cultura. Rio de Janeiro: Rocco, 1994. p. 24-38.
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Scott, Joan W. Experiência. In: Silva, Alcione Leite da et al. (Orgs). Falas de Gênero. Santa
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Thompsom, E. P. A Miséria da teoria. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1981. FortalezaCE, 2005.

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POTENCIAL E LIMITE DAS DISPUTAS POLÍTICAS:
PONTOS PARA REFLEXÃO
REFLEXÃO

Sara Pimenta e Domingos Corcione - Agosto de 2006

Dirigentes e lideranças sindicais constroem projetos políticos ou se identificam com um
entre aqueles já existentes, assumindo sua defesa no cotidiano da vida sindical.
É comum a existência de projetos diferenciados em suas origens e concepções políticoideológicas. Isso resulta em disputas pela predominância e hegemonia de um sobre o
outro.
As disputas políticas não se limitam aos antagonismos entre trabalhadores e classes
dominantes, mas têm lugar no interior do próprio Movimento Sindical e entre este e outros
movimentos e organizações populares. Em muitos casos as disputas internas se tornam
de tal forma acirradas que geram rupturas e levam à criação de novas entidades e
movimentos. Mas há disputas “menores” - não menos importantes - que caracterizam o
cotidiano do MSTTR: disputas de idéias, de espaços, de reconhecimento, de protagonismo
e liderança. Afinal, disputas permanentes de poder.
A dimensão positiva das disputas políticas
As disputas podem ser vistas como elementos que integram a dinâmica política do MSTTR,
em sua dimensão positiva e construtiva, favorecendo a qualificação dos projetos políticos
e a aquisição - pelos dirigentes e lideranças - de maior habilidade na defesa de suas
posições.
A pluralidade ideológica e de posicionamento político confere um novo dinamismo à luta
sindical e aos processos de mudança, pois pode sinalizar o surgimento e a consolidação
de novas práticas. As posições são demarcadas de modo a assegurar os interesses
relacionados com o projeto defendido, colocando em destaque pontos divergentes,
conferindo maior clareza às idéias e facilitando a comunicação.
Idéias, posições e projetos, quando em disputa, ganham maior relevância, são
apresentados e defendidos na perspectiva de fazerem adeptos e construírem sua
hegemonia.
Todo esse processo promove fortes motivações para se avançar com maior garra,
perseguindo as estratégias necessárias para vencer as posições antagônicas ou
diferenciadas e conquistar novos espaços de poder.
Práticas a serem transformadas
Apesar dos aspectos positivos acima ressaltados, é preciso reconhecer que no campo das
disputas políticas ainda persistem posturas e atitudes equivocadas, que ferem a ética e
acabam por comprometer o avanço da organização sindical e a construção de projetos de
mudança social, tais como:

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 Resgatar. o que demanda alguns compromissos como os abaixo relacionados:  Respeitar a pluralidade de concepções e idéias e buscar compreendê-las de modo a compor uma visão crítica e construtiva. mas também tem contribuições a dar. tem um grande rebatimento na ação mobilizadora e transformadora da luta sindical. Nesses espaços. Forte tendência a distorcer o que se vê e se ouve e a evidenciar somente aquilo que se considera equivocado. Cada prática ou concepção revela fragilidades. como Seminários. Para isso se faz necessário uma postura aberta ao diferente e o exercício da escuta sempre atenta ao que a outra posição ou corrente tem a transmitir. posicionamentos e pessoas que estejam defendendo posições ou projetos diferenciados. contraditório e incorreto no lado adversário. A ação formativa. A formação como espaço estratégico para a construção de novas práticas As disputas. que acabam por incorrer em desrespeito pessoal com quem esteja representando posições políticas diferenciadas ou adversárias. frente a todas elas. a história. mesmo entre pessoas de uma mesma corrente político-ideológica. . explicitar o significado e prever os possíveis desdobramentos de cada concepção e prática. avaliar a caminhada. para que esse rebatimento tenha um impacto realmente positivo. tão comuns no cotidiano sindical.149 - . é preciso fazer das ações e atividades formativas espaços estratégicos. As atividades de formação têm uma importância primordial na vida sindical. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). que reproduzem posturas positivas ou equivocadas. que implica. Sem formação não há como qualificar a luta. como aquelas anteriormente citadas. reconhecendo-os em seu potencial catalisador de novas concepções e práticas. para a reflexão mais aprofundada ou a capacitação. fazer repensar e aprimorar estratégias e métodos de trabalho. Um curso de formação.  Utilização de palavras e gestos ofensivos. mais ou menos acirrados. na escuta atenta das posições ou correntes adversárias. Contudo. voltados para o estudo.  Tendência a forjar oportunidades para denegrir a imagem da posição adversária e – em certos casos – humilhar e desqualificar as pessoas que a defendem.  Refletir e aprofundar o debate. Nessa perspectiva. um seminário ou uma oficina podem contribuir muito para esclarecer idéias e projetos. 04 a 10 de novembro de 2007. para identificar insuficiências e valores de cada posição. Oficinas ou Encontros de caráter formativo.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG  Dificuldade de reconhecer o outro como um legítimo interlocutor e de construir um diálogo aberto. pautando-se pelo estudo e pesquisa. portanto.  Dificuldade de identificar e reconhecer valores e aspectos positivos nas idéias. ocorrem debates. em primeiro lugar. sobretudo. acontecem também nos “espaços de formação programada”. é fundamental reconhecer as próprias limitações e se dispor a rever posições.

de modo que isso nos faça crescer em todas as dimensões: na política.. certamente estaremos dando largos passos para transformar o cotidiano de nossas relações políticas no movimento sindical. 04 a 10 de novembro de 2007. nas relações interpessoais. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). primando por uma postura ética e respeitosa para com as pessoas e grupos.  Tratar as disputas políticas como elementos constitutivos de um desafiador processo de construção de consensos.ela pode ser positiva e dinamizadora da ação social transformadora. não se trata de acabar com a disputa. igualitária.. nas relações de gênero. O desafio é conferir às nossas disputas uma dimensão mais humana e humanizadora. coerente com nossos sonhos e utopias. Na medida em que nos dispormos a construir e assumir novas posturas e práticas para as quais os espaços de formação nos convocar. pois – reiteramos . solidária e respeitosa das diferenças. Uma disputa que nos aproxime cada vez mais da nova sociedade que queremos construir: justa. onde se conviva – ao mesmo tempo – na unidade e na diversidade. Portanto.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG  Fazer da formação um campo profícuo de debates e oportunidades de aprendizado e aprimoramento das idéias e concepções ideológicas. .150 - .

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