Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG

2º Módulo Regional Nordeste
Aracajú (SE), 04 a 10 de novembro de 2007.
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Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG

ÍNDICE SUMÁRIO

Textos

Página

01

Matriz Pedagógica do I Módulo do Curso de Formação de Educadores
e Educadoras em Concepção e Prática Sindical e em Metodologias

01

02

Herança de diferenciação e futuro de fragmentação
fragmentação
Tânia Bacelar

06

03

Ascensão e Queda do Coronelismo
Voltaire Schilling

31

04

Contexto e Diversidade das agriculturas Familiares no Nordeste semisemiárido
Patrick Caron e Eric Sabourin (organizadores)

40

05

Origem e papel dos sindicatos
Altamiro Borges

49

06

História do movimento sindical – Cartilha da CNTE

55

07

Concepções e correntes sindicais no Brasil
Amarildo Carvalho de Souza e Domingos Corcione

67

08

A historia das nossas raízes: itinerário das lutas dos trabalhadores (as)
rurais no Brasil e o surgimento do sindicalismo rural
Maria do Socorro Silva

83

09

Trajetória política da contag - as primeiras lutas

98

10

Participação das mulheres na luta dos trabalhadores e no movimento
sindical
Maria Valéria Junho Penna

111

11

A mulher e a emergência da
da seca no nordeste do Brasil
Izaura Rufino Fischer e Lígia Albuquerque

119

12

Muito trabalho e nenhum poder marcam as vidas das agricultoras
familiares
Taciana Gouveia

127

13

Margaridas nas ruas: As mulheres trabalhadoras rurais como categoria
política
Maria Dolores de Brito Mota

135

14

Potencial e limite das disputas políticas: pontos para reflexão
Sara Pimenta e Domingos Corcione

146

2º Módulo Regional Nordeste
Aracajú (SE), 04 a 10 de novembro de 2007.
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Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG

2°MÓDULO DO CURSO DE FORMAÇÃO DE EDUCADORES E EDUCADORAS EM CONCEPÇÃO, PRÁTICA SINDICAL E METODOLOGIA DA FORMAÇÃO.
(REGIÃO NORDESTE
ORDESTE)
Data: 04 a 10 de novembro de 2007
Local: Hotel Beira Mar
Endereço: AV. ROTARY S/N - ATALAIA VELHA, ARACAJU (SE), FONE / FAX: 79 - 21062106-8989

MATRIZ PEDAGÓGICA
Objetivo Geral:

Contribuir com a formação de militantes do MSTTR, de modo que aprimorem sua capacidade multiplicadora e
potencializadora da ação formativa em suas áreas de atuação.

Objetivos Específicos:



Socializar e aprofundar referenciais teóricos, políticos e ideológicos que fundamentam e alimentam os ideais e a luta
sindical e popular.
Re-avaliar e fortalecer a luta sindical, numa visão e ação sindical transformadoras, estimulando processos de mudanças de
atitudes, comportamentos e práticas individuais e coletivas, coerentes com as exigências de implementação do PADRSS.
Favorecer a experimentação, sistematização e apropriação de novas metodologias pedagógicas que realimentem a prática
formativa do movimento sindical.
Contribuir para a constituição de uma rede de formadores/as que assumam e implementem o projeto de formação do
MSTTR.

2º Módulo Regional Nordeste
Aracajú (SE), 04 a 10 de novembro de 2007.
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EIXOS PEDAGÓGICOS: PEDAGOGIA PARA UMA NOVA SOCIABILIDADE E MEMÓRIA E IDENTIDADE. Dia 04 de novembro novembro de 2007 (Domingo) Período Tema e SubSub-temas. sistemas de sociedade. Regional da CONTAG. acordos. Rede de educadores (as) TARDE Contexto e origem do sindicalismo no Brasil Brasil até o inicio da década de 30 Amarildo Carvalho – assessor Compreender a formação da classe trabalhadora no da CONTAG Brasil. Memória e Identidade – Perfil de militância Estabelecer a partir das identidades individuais. favorecendo a percepção de construção histórica tanto das concepções presentes na sociedade. quanto os fatos significativos vivenciados individual e coletivamente. Articular Rede de educadores (as) de com a mística do I Módulo (elementos da natureza) Sergipe e equipe ENFOC Abertura Política do II Curso Coordenação Política da ENFOC. a identidade de grupos. -4- . 04 a 10 de novembro de 2007. princípios e objetivos da ENFOC. Estado e politicas públicas. Observação: utilizar a linha do tempo como principal recurso pedagógico. NOITE Sessão de Cinema Exibição do Filme “VIDAS SECAS” 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). ReRe-apropriação do I Módulo Estimular uma releitura do I Módulo e a compreensão da inter-relação entre o I e II módulos (identidade. convidados Reafirmar os compromissos. trabalho. Objetivos Responsáveis Mística de acolhida Avançar no processo de integração do grupo. ESTRUTURA E PRÁTICA SINDICAL. mística e animação. comissões de trabalho. tempo de movimento e fatos significativos. raça-etnia. relatoria e sistematização.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG EIXO TEMÁTICO: HISTÓRIA. avaliação. diálogos pedagógicos) Comissões de trabalho: Organização e apoio. geração. MANHÃ Roteiro. CONCEPÇÃO. e motivação para militância. Obs: agrupar por gênero. organização e lutas.

Socorro Silva – colaboradora da ENFOC TARDE Formação da estrutura sindical oficial Organizações de de trabalhadores no campo brasileiro (das LIGAS Camponesas à ULTAB) Compreender o papel do Estado na organização sindical e nas relações capital e trabalho. Objetivos Responsáveis Diálogos pedagógicos Reapropriação dos temas trabalhados nos dias anteriores Equipe ENFOC e Comissão de sistematização Memória da constituição e organização do MSTTR no nordeste (Apresentação das federações e exposição dialogada) Favorecer uma leitura critica da historia. explicitando: Socorro Silva – colaboradora da ENFOC  As formas anteriores de organização. lutas e organização das entidades sindicais do MSTTR) Rede de educadores (as) Dia 06 06 de novembro novembro de 2007 (Terça (Terça Feira) Período MANHÃ E TARDE Tema e SubSub-temas.  As mudanças na organização e bandeiras de luta das Federações até os dias atuais.  Principais demandas e bandeiras de luta.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Dia 05 de novembro de 2007 (Segunda Feira) Período Tema e SubSub-temas. Compreender o processo de organização e as principais bandeiras de luta das organizações nesse período Socorro Silva – colaboradora da ENFOC Memória da constituição e organização do MSTTR no nordeste Preparar as apresentações do Tempo Comunidade (história. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). políticas. Compreender as relações sociais. Objetivos Responsáveis MANHÃ Contexto regional até a década de 30. 04 a 10 de novembro de 2007. -5- Comissão de Sistematização uma síntese das fará apresentações. . econômicas e de lutas no Nordeste.  Concepções e correntes políticas na fundação das FETAGs. temas. organização e lutas das entidades do MSTTR.

Dia 08 de novembro de 2007 (Quinta Feira) Período Tema e SubSub-temas MANHÃ Livre TARDE Memória da Luta das mulheres trabalhadoras abalhadoras rurais no Nordeste. Testemunhos:  Rita – CUT/PB  Vanete Almeida – REDELAC Trazer as dimensões de classe. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). haverá lançamento de filme sobre migração nordestina para o corte da cana em São Paulo – Professor Beto Novaes Dia 07 de novembro de 2007 (Quarta Feira) Período Tema e SubSub-temas Objetivos Responsáveis MANHÃ Diálogos pedagógicos: Leitura critica de duas importantes e estratégicas frentes lutas Memória das lut as dos assalariados e de luta no Nordeste: pela reforma agrária de finais da  Reforma Agrária década de 70 aos anos 80  Organização e Luta dos Assalariados/as. 04 a 10 de novembro de 2007. Moderação de Beto Novaes (luta dos assalariados assalariados na região) região) Comissões e equipe ENFOC TARDE Organização das centrais sindicais no Brasil e o dialogo com a CONTAG Testemunho de Francisco Urbano Filho – exex-presidente da CONTAG e José Carmo – Colaborador da FETASE Favorecer maior compreensão sobre a formação das centrais sindicais no inicio dos anos 80 e a participação da CONTAG nesse processo. tr Objetivos Responsáveis Favorecer maior compreensão sobre a trajetória organizativa e de luta das mulheres trabalhadoras rurais nordestinas.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG No dia 06 (noite). raça e etnia. -6-  Raimunda Celestina Mascena – CONTAG de .

Dia 10 de novembro novembro de 2007 (Sábado) Período MANHÃ MANHÃ Tema e SubSub-temas Diálogos Pedagógicos: Tempo Comunidade Objetivos Responsáveis Refletir sobre o tempo comunidade na estratégia da formação. -7- Equipe ENFOC. Amarildo Carvalho – assessor da CONTAG Refletir sobre princípios e estratégias da PNF do MSTTR. Visualizar o 2º Módulo na sua totalidade. Construir passos para a realização as atividades inter módulos e GES Equipe Equipe ENFOC Encaminhamentos Reapropriação do Módulo (linha do tempo) Discutir encaminhamentos dos próximos passos. Estrutura e Prática Sindical Explicitar a importância do PADRSS enquanto referencia de mudanças na organização do MSTTR. partir de 1990 TARDE Reflexão sobre a organização e pratica sindical do MSTTR Manoel José dos Santos ontem e hoje Presidente da CONTAG Organização. comissões de avaliação e de sistematização. Diálogos Pedagógicos: Pedagógicos: Política Nacional de Formação (PNF) do MSTTR Resgatar o histórico da formação sindical do MSTTR e refletir sobre os princípios políticos do PADRSS enquanto referenciais dessa formação. . 04 a 10 de novembro de 2007. Avaliação / Encerramento Possibilitar uma reflexão avaliativa do 2º Módulo. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). considerando nexos e pontes para as etapas seguintes.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Dia 09 de novembro de 2007 (Sexta Feira) Período Tema e SubSub-temas Diálogos Pedagógicos MANHÃ Objetivos Responsáveis Reapropriação dos temas trabalhados nos dias anteriores Equipe ENFOC e Comissão de Sistematização Manoel José dos Santos Presidente da CONTAG Memória da organização do MSTTR a Favorecer uma leitura critica sobre a trajetória do MSTTR de 1990 aos nossos dias.

Originam-se. 1993). em sua grande maioria. com 46% da população rural brasileira. quando visto no contexto nacional. Assim. enfocando-se suas . então. assim. ao total regional. Concluir-se-á com uma reflexão sobre as tendências atuais da economia nordestina e os primeiros impactos da opção brasileira por uma inserção passiva no mercado mundial em globalização. O Nordeste e seus subespaços serão percebidos. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Serão analisados ainda os movimentos de mercadorias e de capitais focalizando-se as décadas de 60. com maior clareza. porém. que durante muitas décadas caracterizou o ambiente econômico nordestino (GTDN. A pobreza. Num segundo momento. 04 a 10 de novembro de 2007. -8- . quase 46% estão no Nordeste (IPEA .5% da população urbana do Brasil e 46% de sua população rural. 14% da produção nacional total (medida pelo PIB). O Nordeste aqui considerado congrega os estados que vão do Maranhão à Bahia. Apresenta-se inicialmente sucinta descrição da dinâmica geral das atividades econômicas: a região será abordada em seu conjunto.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Herança de diferenciação e futuro de fragmentação Tânia Bacelar de Araújo NESTE ARTIGO. observa-se o Nordeste do Brasil por sua economia. Dos indigentes urbanos do país.características principais. o Nordeste tem 63% dos indigentes brasileiros que vivem nas áreas rurais. em 1990. analisando-se ainda sua inserção nos contextos nacional e mundial. 1967). Finalmente. utilizando-se portanto dados globais referentes. destacando-se os novos subespaços dinâmicos e os focos de resistência a mudanças. tendências atuais e perspectivas econômicas. O lento crescimento econômico. É um traço antigo que o dinamismo econômico das últimas décadas não conseguiu alterar significativamente. Cabe destacar que na região residem 23. Daí a questão posta no título do artigo: o rumo será o da fragmentação? Caracterização inicial Na região Nordeste (20% do território brasileiro) vivem 29% da população do país. A heterogeneidade e a complexidade da dinâmica nordestina aparecerão. dos 32 milhões de brasileiros indigentes. diferindo da classificação feita pela Sudene que inclui parte do estado de Minas Gerais (região polarizada de Montes Claros).3 milhões estavam no Nordeste (55% do total nacional) e mais de 10 milhões residiam na zona rural da região. 70 e 80. como se verá a seguir. em suas tendências de ligações com o exterior e com as demais regiões do próprio Brasil. Esforço especial será dedicado à observação das mais importantes articulações econômicas regionais e sub-regionais. continua a ser uma das características mais marcantes do Nordeste. 12% da produção industrial e quase 21% da produção agrícola. Levantamento recente do Instituto de Planejamento Econômico e Social – IPEA mostra que. 17. foi substituído pelo forte dinamismo de numerosas atividades que se desenvolveram recentemente na região. aproximadamente. especular-se-á sobre a hipótese do aprofundamento das diferenciações e desigualdades internas. a análise será feita com referência às diferenciações existentes dentro da própria região Nordeste.

o PIB do Nordeste quase sextuplicou. Uma das propostas centrais do relatório do GTDN – como ficou conhecido aquele documento – era estimular a industrialização no Nordeste como forma de superar as dificuldades geradas pela velha base agroexportadora nordestina. o relatório do Grupo de Trabalho para o Desenvolvimento do Nordeste (GTDN) que fundamentou a estratégia inicial de ação da Sudene. 1992).Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Dinamismo econômico: uma herança recente Apesar de vista como região problema pela maior parte dos brasileiros. No global.9% e em 1990. 04 a 10 de novembro de 2007. o Nordeste foi a região que apresentou a mais elevada taxa média de crescimento do PIB no país. a indústria passou de 22. o velho setor primárioexportador implantado no Nordeste dava mostras de sua incapacidade para continuar impulsionando o desenvolvimento econômico regional. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). No início dos anos 60 a Sudene. que afetou consideravelmente a produção na zona semi-árida.6 bilhões para US$ 50 bilhões (Araújo. 1996). as atividades urbanas – e dentro delas.3%. por investimentos de empresas estatais do porte da Petrobrás (na Bahia e Rio Grande do Norte) e da Vale do Rio Doce (no Maranhão). Enquanto isso. Enquanto a indústria comandava o crescimento econômico no Sudeste. Usando dados que comparam o desempenho da economia brasileira no seu total com o de sua parte localizada no Nordeste. impulsionadas por incentivos fiscais – 34/18-Finor e isenção do imposto sobre a renda.6%. tanto no setor industrial quanto no terciário. Entre 1967 e 1989 a agropecuária reduziu sua contribuição ao PIB regional de 27. A partir dos anos 60. as atividades industriais – ganham crescentemente espaço no ambiente econômico do Nordeste e passam a comandar o crescimento da produção na região. recém-criada. a economia nordestina apresentou entre 1960 e 1990 um excelente desempenho. concentrou esforços e recursos federais na realização de estudos e pesquisas sobre a dotação de recursos naturais do Nordeste (em particular de recursos minerais) e na ampliação da oferta de infra-estrutura econômica (sobretudo transportes e energia elétrica). Tais investimentos tiveram importante papel para o posterior dinamismo dos investimentos nas atividades privadas. De 1960 a 1988 a economia nordestina suplantou a taxa de crescimento média do país em cerca de 10%. ano de seca. nacionais e multinacionais. verifica-se nítida melhoria nos indicadores de participação relativa dessa região na economia do país: entre 1960 e 1990 a participação no PIB aumentou de 13. e entre 1965 e 1985 o PIB gerado no Nordeste cresceu (média de 6.2% para 17. Vários estudos recentes confirmam esse comportamento. rompendo a fraca dinâmica preexistente.3% ao ano) mais que o do Japão no mesmo período (5.1%.5% ao ano). tal percentual caiu para 12. segundo dados da Sudene para o período.6% para 29. constatava ter sido o seu fraco dinamismo nas décadas anteriores a característica mais importante da base produtiva instalada na região. Coordenado por Celso Furtado no final dos anos 50. -9- .4% para 18. complementados com créditos públicos (do BNDES e BNB. particularmente) e com recursos próprios de importantes empresas locais. principalmente –. entre 1960 e 1990. e o setor terciário cresceu de 49. No total. segundo estudo realizado por Maia Gomes (1991). passando de US$ 8. nas décadas recentes.9% para 58.1% (Sudene.

por seu valor de mercado relativamente alto. Paralelamente. tais segmentos não têm grande presença no tecido industrial do Nordeste. as tendências são semelhantes. segundo dados da Sudene (1992) para o ano de 1990. o Nordeste continua sendo relativamente mais importante como região produtora agropecuária (20% do total nacional) do que industrial (12%) ou terciária (15%). 04 a 10 de novembro de 2007. destinando parte importante às exportações. verifica-se que a dinâmica regional tendeu a acompanhar as oscilações cíclicas da produção total do país. Nordeste: mudanças no perfil produtivo Nas últimas décadas a região promoveu mudança importante na composição de sua produção. com as atividades urbanas avançando mais nos dois casos. apresentando taxas de crescimento anual positivas e superiores à média do país. também nesse ponto. também o setor de serviços tem tido desempenho bastante razoável na região. às margens do submédio São Francisco e no vale do Açu (RN).Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Cabe salientar que quando se compara o desempenho das atividades econômicas do Nordeste com a média nacional. apresentaram peso crescente na produção regional: 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). a indústria recentemente instalada no Nordeste resistiu melhor aos efeitos da desaceleração da economia brasileira. dentro dele. o que o ajuda a resistir aos efeitos da retração da demanda interna. Ora. os segmentos produtores de bens de capital e bens de consumo duráveis. uma das teses centrais do GTDN ficou ultrapassada: não se verifica mais o fato de a economia do Nordeste ir mal. Dessa forma. arroz. especialmente a partir da segunda metade dos anos 80. ao especializar-se mais na produção de bens intermediários. crise que afetou mais fortemente o setor industrial e. a indústria tornou-se relativamente mais importante no total da produção brasileira (34%. E é justamente em função das particularidades das estruturas produtivas de cada região brasileira que o Nordeste foi menos atingido pela crise dos anos 80. Acompanha. as tendências gerais da economia brasileira. apesar de suas especificidades locais. como ressaltaram em seus estudos Oliveira (1990) e Guimarães Neto (1989). Permaneceram diferenciações importantes. No entanto. enquanto se reduzia a área cultivada com algodão. Sob tal perspectiva. e nesse novo momento. podendo localizadamente melhor enfrentar a crise nacional. laranja e milho. Embora as taxas se diferenciem. implantou moderna agricultura de grãos e importantes pólos de fruticultura.10 - . Assim. em 1990) do que no Nordeste (30%). ambos para exportação. Ao mesmo tempo algumas culturas não-tradicionais na região. Conforme dados da Sudene (1992). por exemplo. Mudanças ocorreram. quando visto no ambiente econômico nacional. em sua porção oeste. a integração econômica não homogeneizou as estruturas produtivas das diferentes regiões do país. . feijão. A integração produtiva articulara a dinâmica econômica nas diversas regiões brasileiras. enquanto o Centro-Sul vai bem. Naturalmente. mamona. no perfil produtivo da agropecuária nordestina: a partir dos anos 70. O movimento de integração econômica comandado pelo processo de acumulação de capitais do Brasil nas últimas décadas havia atingido o Nordeste e solidarizado sua dinâmica econômica às tendências gerais da economia nacional. expandia-se a que era ocupada com cana-de-açúcar. mandioca e sisal. As atividades agropecuárias vêm perdendo peso relativo no PIB do Brasil e também no do Nordeste.

financiada pelos incentivos da Sudene. com destaque para a instalação do pólo petroquímico de Camaçari. ou da soja. e do complexo minero-metalúrgico. que serão analisados com detalhes adiante. Nesse contexto. 1981). da uva. uva (nas áreas irrigadas pelo São Francisco e Açu). a implantação do pólo petroquímico de Camaçari. Por outro lado.5% em 1989 (Congresso Nacional. A nova base agrícola da região também tem a vocação para ofertar produtos cujo beneficiamento se dará fora do Nordeste ou até do país. Merecem também referência os investimentos do sistema Eletrobrás. a partir da estratégia definida no II Plano Nacional de Desenvolvimento (II PND). verifica-se a posição do Nordeste como região recebedora de recursos. abacaxi (em manchas favoráveis do sertão e agreste) além de tomate. 1990. com parte do projeto localizado no Maranhão. além do pólo de fertilizantes de Sergipe. crescendo para 13. no Maranhão. na Bahia. 1993). Verifica-se a desconcentração da atividade produtiva. A indústria. café e soja (em áreas favoráveis do São Francisco. Esse movimento atinge também o Nordeste (Guimarães Neto. como anteriormente ressaltado. Fundaj. apenas 3% do valor da produção agrícola do Nordeste.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG é o caso de frutas como melão. do complexo da Salgema em Alagoas. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). em 1970. De tradicional região produtora de bens de consumo não-duráveis (têxtil e alimentar. passando de 13% do total nacional em 1970 para 17% em 1985 (superior à sua participação no PIB brasileiro). salvo em casos como o das frutas tropicais. principalmente). coube ao Nordeste assumir novo papel no contexto da divisão inter-regional do trabalho do país. Como o movimento de desconcentração busca também utilizar recursos naturais disponíveis nas diversas regiões do país. Nessa fase. melancia. . realizou importante programa de investimentos públicos e com ele sustentou a dinâmica da economia nacional num contexto internacional de crise. 1990. transformada em vinho também no Nordeste. quando se examinarem os focos de modernidade surgidos na região nas últimas décadas. Nos anos 70. da produção de alumínio no Maranhão. capitais privados buscam novas frentes de investimento em espaços localizados para além do centro mais industrializado do país – o Sudeste. Oliveira. contabilizada pelo IBGE/FGV. processada por agroindústrias instaladas na região. 04 a 10 de novembro de 2007. No caso da indústria. 1992). Tais produtos representavam. enviadas in natura para o mercado consumidor externo. manga. que inclui investimentos da administração pública e das empresas do governo. nos anos em que a economia brasileira consolida o mercado interno nacional e promove sua integração produtiva. o Nordeste comparece abrigando alguns pólos importantes de desenvolvimento agroindustrial e industrial. respectivamente). do Agreste e do Cerrado. dentre outros. No total da formação bruta de capital fixo. o Nordeste engata na dinâmica nacional. demonstra tal perfil: foram os segmentos produtores de insumos que receberam a maior parte dos recursos provenientes do sistema 34/18-Finor. vai se transformando nos anos pós-60 em região industrial mais especializada em bens intermediários (Araújo. na Bahia. inclusive da atividade industrial. o perfil industrial do Nordeste mudou significativamente com a perda da posição relativa da indústria de bens não-duráveis de consumo e com o crescimento relativo do segmento voltado à produção de bens-intermediários.11 - . o Nordeste também se incluiu nessa tendência quando a Petrobrás comandou. quando o Estado brasileiro. e a Companhia Vale do Rio Doce implementou o complexo de Carajás.

No Nordeste também se observou a mesma tendência. atividades financeiras. nos anos 80.5 bilhão. certas especificidades importantes. para US$ 3 bilhões. em 1975. historicamente. triplicando seu valor exportado (de US$ 525 milhões para US$ 1.5 bilhão). o estado da Bahia merece referência especial não só por ter acompanhado o padrão nacional. Dentro dele. houve excepcional crescimento no Nordeste nas décadas recentes.1 bilhões. serviços comunitários sociais e pessoais. destacaram-se como atividades muito dinâmicas e. algumas das quais aparecerão com destaque em outros tópicos deste trabalho. . sua economia gerava um terço das exportações nordestinas. É evidente que o Estado patrocinou fortemente o crescimento econômico nas diversas regiões brasileiras.12 - . na maioria delas. Guardam. duplicando seu valor exportado. como contabiliza a Sudene (1992). Direta ou indiretamente. No Nordeste. era possível destacar subconjuntos sócio-econômicos diferenciados. No Nordeste. Segundo dados da Sudene (1992). em 1990. no geral. 04 a 10 de novembro de 2007. Como se observa do exposto.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Finalmente. produzindo. o Estado se fazia presente com grande intensidade na promoção do crescimento da economia nordestina. Enquanto nos anos 70 e 80 a economia da região cresceu em média 7. bens imóveis e serviços às empresas. a tendência à perda de importância dos produtos básicos e ao maior crescimento dos bens manufaturados no valor exportado também se verificou nesse período. Uma das características importantes da economia do Nordeste é o relevante papel desempenhado nos anos recentes pelo setor público. quando a crise se aprofundou excluindo de seus efeitos negativos as atividades de intermediação financeira e os segmentos voltados para a exportação. porém. foi o setor público quem puxou o crescimento das atividades econômicas que mais se expandiram na região nos anos 70 e 80. Aliás. A heterogeneidade econômica intraintra-regional Deve-se ressaltar que nunca houve um Nordeste economicamente homogêneo e que. incentivando. o setor público tem. mas por aumentar sua já predominante importância no total vendido pela região no mercado internacional: em 1975. mais que as quadruplicando: passam de US$ 7. pode-se afirmar que sua presença foi fator fundamental para explicar a intensidade e os rumos do crescimento econômico ocorrido nas últimas décadas. as atividades econômicas do Nordeste tendem. Investindo.6% ao ano. Enquanto a economia brasileira desacelerava. maior peso na formação bruta de capital fixo total do que na média nacional. atividades como bens imóveis e serviços às empresas. produção de energia elétrica e abastecimento de água. expandiram-se na proporção de 10% ao ano. as atividades financeiras. Entre 1975 e 1990 o Brasil expandiu suas exportações. No que se refere às atividades de intermediação financeira. criando infra-estrutura econômica e social. em 1990 respondia pela metade do valor exportado pela região. a acompanhar bem de perto as principais tendências da economia brasileira. até mais que no Brasil.6 bilhões de vendas anuais para US$ 31. o investimento público foi fundamental. em virtude de variados processos de ocupação humana e econômica : 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). no entanto. que passou de US$ 1. a atividade de intermediação financeira crescia. O Nordeste também produziu mais para o exterior. o Nordeste tendeu a reproduzir tal padrão. no Nordeste.

Nordeste região problema.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG • o Nordeste que se estendia do Rio Grande do Norte até Alagoas. No campo. • o Nordeste do Piauí e Maranhão. o pólo têxtil e de confecções de Fortaleza. fizeram surgir e se desenvolver no Nordeste diversos subespaços dotados de estruturas econômicas modernas e ativas. mas não apreendem os fatos novos dos anos mais recentes. além do pólo agroindustrial de Petrolina-Juazeiro (com base na agricultura irrigada do submédio São 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). O oeste baiano era um vazio econômico. . Uma análise que perceba as diferentes trajetórias econômicas dos diversos subespaços nordestinos. Tais estruturas são tratadas na literatura especializada ora como frentes de expansão. o cacau e as zonas de combinações agrícolas sertanejas eram predominantes. era chamado por alguns estudiosos de meioNorte (Melo. Nordeste sempre ávido por verbas públicas. Áreas dinâmicas de modernização intensa Como vem se tentando demonstrar ao longo deste texto. Dentre eles. a percepção da realidade econômica nordestina exige análise mais detalhada. Nas últimas décadas mudanças importantes remodelaram a realidade econômica nordestina. Tendências da acumulação privada reforçadas pela ação estatal. importantes movimentos da economia brasileira tiveram fortes repercussões na região Nordeste nos anos recentes. onde o complexo gado-algodão-agricultura de alimentos conformava uma oligarquia sertaneja que se expandia na acumulação comercial e não existia o complexo canavieiro. era comandado por Salvador. focos de dinamismo em grande parte responsáveis pelo desempenho relativamente positivo apresentado pelas atividades econômicas na região. verdadeiro poço sem fundo em que as tradicionais políticas compensatórias de caráter assistencialista só contribuem para consolidar velhas estruturas sócio-econômicas e políticas perpetuadoras da miséria.. o complexo minerometalúrgico de Carajás. 1967). Embora traços gerais possam ser identificados. Nesse sentido. 1978) e até o final dos anos 50 visto como área aberta à expansão da fronteira agrícola regional (GTDN. que convivem atualmente com as tradicionais áreas agrícolas ou agropastoris da região. ora como pólos dinâmicos.13 - . a crescente heterogeneidade de suas estruturas econômicas. ora como manchas ou focos de dinamismo e até como enclaves. mais conhecido como espaço de transição entre o Nordeste seco e a região amazônica. até décadas recentes. caracterizado pela Fundação IBGE durante certo tempo como integrante da região Leste. como já o fizemos. Revelam parte da verdade sobre a realidade econômica e social nordestina. Nordeste da seca e da miséria. • o Nordeste de Sergipe e Bahia.. É o que se tentará fazer no próximo tópico do trabalho. Essas são apenas visões parciais sobre a região nos dias presentes. • dele já se distinguia o Ceará. questionando inclusive visões tradicionalmente consagradas sobre a região. onde a economia açucareira e a pecuária gestavam poderosas oligarquias e incipiente burguesia industrial. a cana. e mesmo demográfico. é mister ressaltar os novos focos de dinamismo da economia regional. no que se refere a atividades industriais. cidade portuária e mercantil. Não refletem a atual e crescente complexidade da realidade econômica regional e não permitem desvendar uma das mais marcantes características do Nordeste atual: a grande diversidade. 04 a 10 de novembro de 2007. quando não comandadas pelo Estado brasileiro. cabe destaque para o complexo petroquímico de Camaçari. onde desde cedo se desenvolveu uma burguesia banqueira.

O parque têxtil e de confecções de Fortaleza é competitivo nacionalmente e. vale registrar que em 1990 o pólo petroquímico de Camaçari contribuiu com 13. sendo de 32. com o programa de ampliação previsto. Pesquisa recente realizada pelos professores Policarpo Lima e Frederico Katz. segundo o Sindicato da Indústria de Confecções do Ceará. o sul dos estados do Maranhão e do Piauí). contando com fontes de financiamento diversas.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Francisco). o pólo cearense reunia cerca de três mil empresas. O pólo têxtil e de confecções de Fortaleza. para quase 30% do PIB estadual em 1990). No que se refere ao segmento das confecções.14 - . por sua vez. devido à drástica diminuição na produção de algodão no Nordeste. importou em investimento total de cerca de US$ 4. há espaços para um reforço do setor de tecelagem (60% dos tecidos são adquiridos fora do estado). 1993). A abertura comercial pode ter implicações negativas sobre a tecelagem e as confecções. Entre 1970 e 1985 o número de estabelecimentos têxteis do Ceará cresceu de 155 para 358. 04 a 10 de novembro de 2007. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). merecem referência ainda os tecnopólos de Campina Grande (PB) e do Recife (PE). Menos por seu dinamismo e mais pelo fato de desenvolverem modernas atividades de base tecnológica. contribuindo também para a elevação das exportações do estado. do moderno pólo de fruticultura do Rio Grande do Norte (com base na agricultura irrigada do Vale do Açu). como descrevem Lima e Katz (1993). em virtude de sua atualização tecnológica. constitui um dos principais pilares da crescente importância da produção de bens intermediários no Nordeste. 1993). Contudo. desponta como um dos importantes centros do setor. O pólo petroquímico de Camaçari. . chegará a US$ 6 bilhões.8% o seu peso na receita do ICMS gerado pela indústria de transformação. no caso da fiação. Em 1991. enquanto os ligados à confecção passavam de 152 para 850. bem como para o crescimento de unidades fornecedoras de aviamentos e linhas (cerca de 80% destes são comprados fora) (Lima & Katz.6% da receita tributária do estado da Bahia. Implementado ao longo dos anos 70. tentou melhor identificar essas áreas. nos efeitos para a frente conta-se com a perspectiva da instalação de pequenas e médias malharias que se beneficiariam das fiações já existentes. O encadeamento do pólo cearense com a base agrícola da região é reduzido. o que já vem sendo estimulado por empresários ligados ao setor. gerava 60 mil empregos diretos e era responsável por 12% do ICMS do Ceará (Lima & Katz. e dos diversos pólos turísticos implantados nas principais cidades litorâneas do Nordeste. internacionalmente. caracterizando-as e analisando seus novos impactos e suas perspectivas de expansão (Lima & Katz. Quanto aos seus impactos. 1993). Embora as repercussões esperadas fossem maiores.5 bilhões e. em 1960. das áreas de moderna agricultura de grãos (que se estendem dos cerrados baianos atingindo. concorreu para alterar estruturalmente a economia baiana (aumentando o peso do setor secundário de 12%. dado que nesses segmentos existe uma defasagem tecnológica a ser superada. o pólo de Camaçari representa hoje uma possível base para a esperada verticalização da matriz industrial da petroquímica regional. Esse complexo industrial foi viabilizado com a participação de capitais privados nacionais e multinacionais e com o suporte estatal (Petrobrás). tanto em âmbito regional como nacional. mais recentemente. da UFPE. Além disso.

As áreas de moderna agricultura de grãos se estendem dos cerrados do oeste baiano ao sul do Maranhão e do Piauí. O projeto Celmar. Cortando regiões anteriormente isoladas. Trata-se de uma associação de várias empresas. em Imperatriz. uma vez que montou a maior parte da infra-estrutura de captação e distribuição de água. com base na implantação de grandes projetos de irrigação. De forma semelhante ao caso da CVRD.3% para 21. impactos importantes já se notavam nos anos 80: o PIB total do estado aumentou de US$ 2 bilhões em 1980 para US$ 3 bilhões em 1987. a presença do Estado foi fundamental. já que são exportados 95% do produto (Lima & Katz. Em função desses investimentos. que resultou em projeto de investimento da ordem de US$ 2 bilhões para a produção de três milhões de toneladas/ano de alumina e 500 mil de alumínio. a Estrada de Ferro Carajás (EFC) integrou-as ao circuito da produção mercantil e contribuiu para dinamizar o pólo agrícola do sul do Maranhão. O projeto da Alumar também tem grande peso atualmente na indústria maranhense. Nessa época. materiais de construção. que tem a CVRD como sócio. implantando a infra-estrutura para exploração-exportação de minério de ferro. equipamentos para irrigação. . tendo o produto da indústria ampliado sua participação no total estadual de 14. tendo ainda articulações a montante via absorção de bauxita do rio Trombetas. implantada na área por agricultores do Sul do país. O projeto criou 4. o setor industrial gerava cerca de 24 mil empregos (Galvão. destinados tanto à venda in natura para o mercados de maior poder aquisitivo. Além disso. As articulações pelo uso do alumínio são reduzidas.220 os indiretos. 04 a 10 de novembro de 2007. 1993). Enquanto eram incorporados à agricultura cerca de 56 mil hectares. externo inclusive. Tiveram importante papel 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). a Estrada de Ferro Carajás ajudou a dinamizar a instalação de usinas de ferrogusa e de ferroliga ao longo de sua extensão.100 empregos diretos. fertilizantes e rações (Lima & Katz. a Companhia Vale do Rio Doce (CVRD) desempenhou um dos papéis principais. estimando-se em 1. com investimentos de US$ 1. de cal do Ceará. além de cerca de 3. A expansão da economia do oeste da Bahia está associada à introdução e à rápida expansão da soja. O complexo agroindustrial de Petrolina-Juazeiro surgiu nos anos 70. Ao mesmo tempo deu-se a implantação de grandes projetos de médias empresas nacionais e. destina-se a produzir celulose. mesmo. bens de capital.200 empregos indiretos (Lima & Katz. gerando na fase atual um milhão de toneladas de alumina e 350 mil de alumínio. Para a montagem desse pólo. de soda cáustica de Alagoas. quanto ao processamento local em plantas industriais. após avanços tecnológicos que viabilizaram o cultivo do produto nos cerrados.8%.15 - . além dos serviços de manutenção refletidos nos empregos indiretos. e mais três mil no reflorestamento. gerando diretamente 800 empregos. embalagens.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG O complexo minero-metalúrgico do Maranhão está associado aos desdobramentos do Programa Grande Carajás (PGC) e ao interesse do capital multinacional em diversificar suas fontes de abastecimento de matérias-primas. pelo menos para os padrões locais. instalaram-se na área diversas plantas industriais de ramos variados: processamento de alimentos. internacionais.2 bilhão. Também neste caso. a Alumar é responsável por significativo fluxo mensal de rendimentos. 1990). 1993). da energia elétrica de Tucuruí. na economia de São Luiz. 1993). Constatou-se o cultivo cada vez maior de produtos de elevado valor comercial. produção estimada em 420 mil toneladas/ano. onde a produção de soja se expande.

frigorificação de carnes. diversas usinas são paralisadas. Nos anos mais recentes a produção de grãos vem crescendo bastante (em 1992. a crise do algodão (com a presença do bicudo e as alterações na demanda. constituem um Nordeste que não existia há poucas décadas. Nelas despontam atividades como avicultura. suinocultura.16 - . com a crise financeira do Estado (velho protetor da ineficiência) e a intensificação da concorrência.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG os subsídios governamentais (Galvão. esses pequenos produtores são obrigados a levar ao mercado o reduzido excedente da agricultura alimentar tradicional de sequeiro (milho. milho. . Para o processamento da significativa produção de soja. Começam a se desenvolver também atividades de produção de insumos (fertilizantes. seletiva. No arranjo organizacional local. Uma nova vaga de centralização de capitais promete deixar vivas apenas as menos resistentes à mudança. a área plantada com soja expandiu-se 143 vezes e a produção em 848 vezes. Nos anos 90. Na ausência do produto. o que ajuda a manter um padrão dominantemente tradicional. A produção também se estende para o sul do Maranhão. Entre 1980/81 e 1985/86. canavieiras e o sertão semi-árido são as principais e históricas áreas com tal característica. foram instaladas no município de Barreiras duas plantas industriais. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). No caso do semi-árido. o algodão era a principal (embora reduzida) fonte de renda dos pequenos produtores e trabalhadores rurais desses espaços nordestinos. 1990) e os investimentos públicos em infraestrutura. Mas o crescimento se fez com base na incorporação de terras (a área cultivada rapidamente duplica). feijão e mandioca). Quando ocorre. arroz e feijão. mais do que na elevação dos padrões de produtividade. que se especializam na exportação. No início da atual década (safra de 1991/92) foram produzidas 800 mil toneladas de grãos no oeste da Bahia. no padrão tecnológico e empresarial da indústria têxtil modernizada na região e. a modernização é restrita. uma vez que a pecuária sempre foi atividade privativa dos grandes proprietários locais. em outras áreas a resistência à mudança permanece sendo a marca principal do ambiente socio-econômico: as zonas cacaueiras. impulsionadas pelo Proálcool. Áreas tradicionais Ao mesmo tempo em que diversos subespaços do Nordeste desenvolvem atividades modernas. as políticas associadas ao Plano Real) contribuiu para tornar ainda mais difícil e frágil a sobrevivência do imenso contingente populacional que habita os espaços dominados pelo complexo pecuária-agricultura de sequeiro. Com a soja. As potencialidades agrícolas e minerais reveladas na região com grande evidência. implanta-se na região todo um conjunto de atividades e práticas ligadas à agricultura moderna. produziu-se no Piauí e em Tocantins cerca de um milhão de toneladas). enquanto crescia também a produção de arroz. 04 a 10 de novembro de 2007. Essas áreas não conhecem crise ou recessão. pode-se inferir que as mencionadas áreas são pontos de intenso dinamismo econômico implantados no território nordestino. especialmente soja (460 mil toneladas). O pólo de fruticultura do Vale Açu (RN) cresceu comandado por grandes empresas (com destaque para a Maísa). Pelo exposto. calcário) e de equipamentos próprios para a agricultura. mais recentemente. As zonas canavieiras expandiram-se muito nos anos 70.

mas permanente) a muitas famílias sertanejas. rendeiros e parceiros produzem. apresentada ao país como desnecessária em muitos fóruns (inclusive nos acadêmicos) com base no sucesso da ocupação de novas terras. com freqüência. há importantes traços comuns. gerando renda ilegal mas capaz de compensar o desaparecimento da renda do algodão.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Não é sem razão que nos momentos de irregularidade de chuvas ocorridos nos anos recentes. como bem explica Andrade (1988). as tradicionais frentes de emergência (como são chamados os programas assistenciais do governo) alistam enorme número de agricultores (2. Primeiro.17 - . por exemplo. A hegemonia crescente da pecuária nos moldes em que foi realizada agravou a questão fundiária do Nordeste. "o capim expulsa a policultura alimentar e o gado tange o homem". Crise ainda sem solução nos anos 90. Na lúcida afirmação do geógrafo Mário Lacerda de Melo (1980). em áreas da antiga fronteira agrícola da região. no Nordeste também se assistiu a um grande dinamismo agropecuário e agroindustrial no oeste baiano e no sul do Maranhão e do Piauí. a questão fundiária agravou-se (Graziano da Silva.1 milhões de pessoas em 1993). . cobrindo parte da população idosa e assegurando renda (mínima. como o desaparecimento da cultura do algodão. mas não conseguem acumular: descapitalizados ao final de cada ciclo produtivo. cabe destacar que são áreas de ocupação antiga. Hoje. em geral. Mesmo onde a irrigação introduziu uma agricultura moderna no semi-árido. os pequenos produtores. os incentivos à pecuária fortaleceram e modernizaram tal atividade. após tantos anos de dinamismo econômico. continuavam a beneficiar-se dessa opção conservadora. Nessas áreas. a questão fundiária permanece praticamente intocada. além de provocar outros consideráveis efeitos. Em algumas sub-regiões (como no sertão pernambucano) a maconha tem avançado bastante. Na Zona da Mata. 1989). As oligarquias nordestinas. E. De positivo. a modernização foi conservadora. portanto. e o monopólio da cana sobre as áreas cultiváveis se amplia. não houve mudanças significativas. também verifica-se o agravamento da já elevada concentração das terras em mãos de pouquíssimos produtores: "na seca. tiveram impactos negativos. nas quais as velhas estruturas foram criando sucessivos mecanismos de preservação. Nas áreas em que predominam a rigidez das velhas estruturas econômico-sociais e o domínio político das oligarquias tradicionais da região. inclusive da estrutura fundiária. como a redução da produção de alimentos e a intensificação da emigração rural. das secas. são incapazes de dispor de reservas para enfrentar um ano seco. que sempre foi a principal da unidade produtiva típica do sertão e do agreste nordestino. A base técnica modernizou-se. a resistência à mudança convive na fase mais recente com importante queda nos preços internacionais do cacau. portanto. proprietárias das áreas de antiga ocupação e sempre bem situadas nas estruturas de poder. A questão fundiária é mais dramática e vem se agravando. Na região cacaueira. No semi-árido. pequenos proprietários inviabilizados vendem suas terras a baixos preços e os latifúndios crescem". Simultaneamente. aprofundando a crise na subregião. apesar da miséria alarmante que domina nas áreas rurais do 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). cita-se a extensão da ação previdenciária. nos anos de chuva regular. o processo de concentração fundiária tem aumentado nos anos recentes. os velhos sustentam os jovens nessa parte do Nordeste. Nesse quadro. 04 a 10 de novembro de 2007. Nos anos 60 e seguintes a proposta da reforma agrária foi abandonada na prática pelos sucessivos governos militares e civis. Como a estratégia brasileira das últimas décadas foi concentrar a expansão da agropecuária em áreas novas (especialmente no Centro-Oeste). e as que aconteceram.

Estudo da Universidade Estadual de Campinas – Unicamp destaca. aqueles com mais de mil hectares (0. Nesse período. tanto no Nordeste como no Brasil. da qual adquire 66% das matérias-primas e 58% dos serviços que consome. instalado a partir dos anos 60 com o apoio dos incentivos federais. 1989). No semi-árido o acesso à terra é feito por formas precárias (parceria. como já mencionado. Na zona semi-árida. em 1985. das matérias-primas que processa. Ao mesmo tempo.4% do total) aumentaram sua participação na área total. Do ponto de vista da origem dos insumos que transforma no processo produtivo e dos serviços que utiliza. de acordo com os censos agropecuários realizados pela Fundação IBGE. Mas o novo parque industrial desenvolveu também importante fluxo de aquisição de serviços e insumos com o Sudeste (em especial com São Paulo). que "a desigualdade da posse da terra é maior que a da propriedade. no sentido de elevar a desigualdade da distribuição. sendo a diferença relativa maior no Nordeste. essa participação caiu para 28%. a situação é agravada pela presença de latifúndios maiores: lá a área média de 1% dos maiores estabelecimentos (1. Novas articulações econômicas do Nordeste Busca-se examinar neste tópico as articulações econômicas estabelecidas entre Nordeste. outras macrorregiões brasileiras e o resto do mundo.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Nordeste. um caso ilustrativo é o de grandes fazendas que reúnem áreas de posse e áreas de diferentes escrituras. caracterizando maior instabilidade e registrandose maior presença de posseiros em comparação com as demais regiões nordestinas (Graziano da Silva. 1989). 04 a 10 de novembro de 2007. Em 1970 os estabelecimentos com menos de 100 hectares (94% do total) ocupavam quase 30% da área. Nesse contexto. mais particularmente com o Sudeste. dois terços dos indigentes rurais do país estão no Nordeste. Esse fato reforça a hipótese de que as formas peculiares de exploração da terra no Nordeste lhe conferem uma estrutura de posse da terra diferenciada da existente na média do Brasil. suas sub-regiões (prioritariamente as que experimentaram maior dinamismo nas últimas décadas). 40% vêm do Sudeste (90% desses de São Paulo). . para o mesmo período. 17% são produzidas no Sudeste (dois terços em São 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Segundo o Mapa da Fome feito recentemente pelo IPEA.18 - . muitas vezes registradas como imóveis distintos para evitar seu enquadramento como latifúndio por dimensão" (Graziano da Silva. mantém estreitas articulações econômicas com outras regiões brasileiras. as velhas estruturas sócioeconômicas e políticas têm na base fundiária e no controle do acesso à água seus principais pilares de sustentação e de dominação (política e econômica). a área total ampliou-se de 74 milhões de hectares para 92 milhões de hectares.914 hectares. passando de 27% em 1970 para 32% em 1985. por exemplo). há forte relação com a base econômica nordestina. Dos serviços que usa. Os dados confirmam que a concentração fundiária aumentou no Nordeste nas últimas décadas. onde se reproduz a estrutura desigual do resto do Nordeste. A recente especialização nos bens intermediários reforça essa ligação.002 hectares). Ligações econômicas do novo parque industrial O novo parque industrial. Nesses espaços resistentes a mudanças. em 1985) é superior ao tamanho médio desses no resto do Nordeste (1.

devendo destinar um milhão de toneladas de derivados ao mercado internacional (Queiroz. caso de fumo (99%). São Paulo. Portanto. A predominância da produção de bens intermediários está na base dessa vocação para fora da nova indústria: os insumos que produz são transformados.7 milhão de t / ano. produzia 1. pouco mais de um terço se destina à própria região Nordeste (36%). A soja do oeste baiano. e do exterior (33%). dentro dela. e agora do sul do Maranhão e do Piauí. destina-se em grande parte a atender à demanda externa. Apenas 10% dos equipamentos foram adquiridos das indústrias instaladas no próprio Nordeste (Sudene-BNB. No que se refere ao mercado de produtos. além da implantação da estratégica ferrovia de quase 900 km de extensão. Das vendas realizadas pela indústria incentivada. No complexo minero-metalúrgico do Maranhão. planejado para produzir anualmente 3 milhões de toneladas de alumina e 500 mil de alumínio. segundo pesquisa da Sudene-BNB. Tal característica é ainda mais forte no segmento extrativo mineral. O mercado internacional participa com apenas 10% das vendas totais desse segmento da economia nordestina. Articulações dos modernos pólos agroindustriais Os novos pólos agrícolas também têm estabelecido importantes relações econômicas extra-regionais. O mercado extra-regional também tendeu a ser o destino da produção de alguns segmentos da indústria de transformação. especialmente de São Paulo (80%). em grande parte. 1992. que destina ao mercado nordestino apenas 20% de sua produção. 1992). Por outro lado. . couros e peles (87%). borracha (88%). Do exterior vêm apenas 10% dos insumos que aqui são transformados pela indústria (Sudene-BNB. há novos fluxos comerciais (de mercadorias e serviços) que se intensificaram nas últimas décadas e que articulam a indústria incentivada instalada no Nordeste com outros segmentos da economia brasileira e com o exterior. 1992). 04 a 10 de novembro de 2007. As produções maranhense e piauiense orientam-se basicamente para o exterior. onde se localiza a maior base industrial do país (o Sudeste). até 1995. O destino principal é o Sudeste.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Paulo). com destaque para a região Sudeste e. A sub-região nordestina que vai do oeste baiano ao sul do Piauí e Maranhão tem experimentado um processo de ocupação comandado por agentes econômicos extra- 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). que comprou 53% da produção mineral da indústria instalada com os incentivos federais nas últimas décadas. os equipamentos utilizados na montagem desse novo parque industrial foram importados do Sudeste (49%). na região de São Luís do Maranhão). 1993). a relação é predominantemente extra-regional. material elétrico-eletrônico e de comunicações (79%) e química (61%). a construção de um porto (Ponta da Madeira. em particular com o mercado internacional. de cuja produção atual exporta cerca de 95% (Lima & Katz.19 - . Estima-se que apenas o oeste baiano. que compra 44% da produção da indústria incentivada (71% dos quais adquiridos por São Paulo). 1992). Não é por acaso que o Projeto Grande Carajás incluiu. por exemplo. no Maranhão. Outro exemplo dessa articulação especial com o exterior é o projeto da Alumar. mais uma vez exportando o excedente predominantemente para a região Sudeste do Brasil. a prioridade à exportação é marca dos empreendimentos localmente instalados.

por exemplo. No mesmo período.3% e 47. o Nordeste duplicou seu valor exportado.20 - . O comércio por vias internas (especialmente rodovias) é predominante no Brasil. em 1990. que exportaram em 1990 valor menor do que o de 1975 (Sudene.4%. 04 a 10 de novembro de 2007. e portanto visualizar melhor as tendências desse tipo de relação econômica entre o Nordeste e os demais espaços do país. particularmente as relações estabelecidas com o mercado internacional. instalada tanto no vale do São Francisco (BA e PE) quanto no vale do Açu (RN).6 bilhões para US$ 31. em particular no que se refere ao destino de sua produção.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG regionais e recebido capitais e capitalistas predominantemente não-nordestinos. segundo dados do BB/Cacex. . respectivamente). e os da Bahia e do Ceará triplicaram-nas. Dentro da região. as exportações de todas as regiões brasileiras tiveram crescimento significativo. Para avaliar os fluxos comerciais inter-regionais. Até os estrangulamentos à continuidade de seu desenvolvimento são mais parecidos com os de Tocantins ou Mato Grosso do que com os do lado oriental nordestino: infra-estrutura de transporte. o crescimento das relações com o exterior via venda de manufaturados no caso do Nordeste é notável: enquanto no total das exportações do Brasil os manufaturados passavam de um terço para pouco mais da metade (54.7 milhões em 1975. as relações comerciais do Nordeste com o resto do mundo se dão cada vez menos pela venda dos chamados produtos básicos e mais por oferta de produtos semimanufaturados e manufaturados.9%. Apenas o Sudeste e o Sul. a produção agroindustrial. instabilidade e retração da demanda interna: ampliar suas articulações com o exterior. 97% transportados por vias internas e apenas 3% por cabotagem. Mudanças nas articulações comerciais O exame da dinâmica comercial da região. maior peso relativo que o mesmo item na pauta brasileira (16. e as pesquisas disponíveis não são atualizadas. as informações são insuficientes. dependendo da forma como consolidar-se-á a malha de transportes. Mais uma vez seguindo a tendência geral da economia brasileira. 1996). o estado do Maranhão intensificou fortemente seus laços econômicos com o mercado externo. As exceções corresponderam aos estados de Alagoas e de Pernambuco. passando de US$ 7.9% para 44.5%). Desse total. um terço se destinou ao mercado internacional e dois terços a outras regiões brasileiras. os estados do Piauí e de Sergipe quintuplicaram suas vendas ao mercado internacional.1%) tenham tido. Embora na pauta nordestina os produtos semimanufaturados (30. na pauta do Nordeste o peso relativo desses itens cresceu de 12. mostra que o Nordeste tentou acompanhar a tendência mais geral da economia brasileira nos recentes anos de crise. passando de um modesto valor exportado de US$ 5. O Brasil mais que quadruplicou o valor anual de suas exportações. desenvolve importantes articulações econômicas extra-regionais. No caso do Nordeste a Sudene estimou. Suas ligações econômicas e semelhanças geo-socio-econômicas com asdemais sub-regiões do Nordeste são muito tênues.7%) da participação nas vendas externas entre 1975 e 1990. dentre as demais regiões.1 bilhões entre 1975 e 1990. sua vinculação futura com o Centro-Oeste poderá ser ampliada. apresentaram maior volume na venda de manufaturados (64. Da mesma forma. para 1980. Das 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Aliás. que das exportações totais do Nordeste. especialmente a associada à irrigação. para US$ 443 milhões em 1990. No mesmo período. implantando processos econômicos e construindo uma paisagem que se assemelha muito mais à macrorregião Centro-Oeste do Brasil.

analisou corretamente que um dos problemas nordestinos. enquanto as exportações para o resto do país não chegavam a representar duas vezes o valor das mercadorias mandadas para o mercado internacional. cuja economia representava.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG importações totais. não parece ter sido revertida nos anos 80 à luz dos dados disponíveis sobre a composição e dinamismo de suas atividades econômicas.4% no mesmo período (embora sua economia fosse 20% do total nordestino). O relatório que precedeu à criação da Sudene. A partir dos anos 60.21 - . pois nos anos 50 as compras efetuadas de outras regiões representavam 1. pois sua participação nas vendas nordestinas para o resto do Brasil passava de 3. surgida como tendência na década anterior. Paraíba. apenas 18% vieram do exterior e. invertendo-o. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). 1967). essa forte tendência surgiu mais recentemente. No que se refere ao subespaço compreendido pelos estados do Rio Grande do Norte. . O inverso acontecia com Pernambuco. Todavia. 85% chegavam por vias internas (Sudene. o mais provável é que a articulação comercial dessa parte mais ocidental do Nordeste com o Centro-Oeste e com o Sudeste tenha se ampliado. pouco menos de 40% do PIB regional. 1985). Os dados da Sudene para 1980 já revelavam uma economia baiana fortemente orientada para o mercado nacional: quase 70% das vendas do Nordeste para outras regiões brasileiras tinham origem na Bahia. Portanto. nos anos 40 e 50. Sua participação nas exportações interregionais caiu de 30. 1985). cearenses. Os saldos comerciais do Nordeste têm-se mostrado historicamente positivos nas relações com o exterior e altamente negativos nas trocas inter-regionais. 04 a 10 de novembro de 2007. piauienses. também atingiu o Nordeste ao se intensificar no espaço do Brasil ao longo das últimas décadas. Pernambuco e Alagoas. No período 1975-1980 tal relação havia aumentado para 2. a menor articulação comercial com o resto do país.5% em 1975 para 9% em 1980. o Nordeste surge predominantemente como região-mercado (sobretudo para o Sudeste) quando visto no contexto nacional. Embora com percentuais bem mais modestos.2 vezes as vendas do Nordeste para o resto do país. à medida que o dinamismo industrial daquela região abria oportunidades para rentáveis investimentos (GTDN. baianos e sergipanos. 1985).3% para 8. E isso é tendência crescente. a rápida intensificação do movimento de oligopolização da economia brasileira e o papel de correia de repasse desempenhado pelos incentivos federais aplicados no Nordeste – como menciona Oliveira (1981) – atuaram no sentido de alterar a orientação desse fluxo econômico. posto que na década anterior o estado da Bahia representava apenas 25% nas exportações inter-regionais do país (Sudene.5 vezes (Sudene. como vinha acontecendo nos anos 70. Integração via movimento do capital produtivo O movimento do capital produtivo. Como as áreas dinâmicas recentemente instaladas repercutiram com maior intensidade nos espaços maranhenses. As importações de outras regiões (especialmente do Sudeste) eram quase cinco vezes maiores que o valor importado do exterior em 1980. dos 82% originados em outras regiões do país. na época. que perdera seu papel de intermediário atacadista. por sua vez. o estado do Ceará demonstrava tendência semelhante. era a forte emigração de capital produtivo em direção ao Centro-Sul. ano em que se classificou como o segundo exportador regional para o mercado nacional.

o setor privado promove. tanto espacialmente quanto nas atividades econômicas para as quais se dirigira. Num contexto mundial marcado por importantes transformações. uma reestruturação produtiva. também de forma intensa e rápida. Dentre as principais destacam-se intensa e rápida política de abertura comercial. umas concentradoras. o ambiente econômico brasileiro sofreu grandes mudanças nos anos 90. Aspecto relevante a ser destacado diz respeito ao controle do capital no moderno segmento industrial instalado no Nordeste com o apoio dos incentivos federais. que a presença do grande capital na região já era muito seletiva. a indústria de transformação produtora de bens intermediários. em 1990. Portanto. 04 a 10 de novembro de 2007. 23 são indústrias químicas" (Guimarães Neto. É grande o controle do capital por grupos privados ou por sistemas de empresas estatais com sede no Sul e no Sudeste (Guimarães Neto & Galindo. Paralelamente. em especial a indústria química. a articulação inter-regional via fluxo de capital produtivo ampliou. como também ocorre em outras regiões. 1993). . Dados referentes às mil maiores empresas no país demonstram que. 1992). a oligopolização se firmado e grandes cadeias de magazines e supermercados se fizeram presentes no Nordeste. Do ponto de vista setorial. Nesse contexto. Ao contrário.22 - . o entendimento das suas atuais tendências remete necessariamente à compreensão do que se passa no país como um todo. priorização à integração competitiva. Além disso. cerca de 35 são empresas industriais produtoras de bens intermediários e dessas. Bahia (46%). tem destaque na atração de tal tipo de empresas: "das 105 grandes empresas sediadas na região. as relações do Nordeste com outras regiões do país e com o exterior. frutas e pecuária) sua recente presença é marcante. 1992) demonstram que a recente expansão industrial não é produto da ação de investidores locais. enquanto os empresários nordestinos concentram seu controle sobre empreendimentos de menor porte. a maioria das empresas incentivadas fazia parte de grandes grupos econômicos. Na construção civil (impulsionada pelo Sistema Financeiro de Habitação – SFH e por programas de obras públicas importantes) e nos complexos agroindustriais (ligados especialmente à produção de grãos. Paralelamente. também na atividade comercial o capital tem se centralizado. nas últimas décadas. Pernambuco (18%) e Ceará (11%) concentravam a maior parte (75%) dessas empresas. a pesquisa constatou que tais grupos dirigem e controlam os empreendimentos de maior porte da indústria incentivada. Dados disponíveis em pesquisa (Sudene-BNB. como acontecera em diversas regiões do país. em sua maioria extraregionais. Outros segmentos que merecem referência são as indústrias de alimentos e as dedicadas à produção têxtil. no entanto. Tendências nacionais atuais e o Nordeste Como a economia do Nordeste havia aprofundado sua inserção no contexto nacional. Cabe destacar.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG A crescente presença de grandes grupos empresariais no Nordeste. reformas profundas na ação do Estado e implementação de um programa de estabilização que já dura três anos. novas forças atuam. outras não. Dentre as que atuam no sentido de induzir à desconcentração espacial destacam-se: a abertura 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). não se restringe ao setor industrial.

Atuam nesse sentido. maior proximidade com centros de produção de conhecimento e tecnologia. as duas maiores bases econômicas do país. No caso da indústria. entre outras. proximidade com os mercados consumidores de mais alta renda. Autores como Carlos Pacheco (1996) chamam a atenção também para os condicionantes da reestruturação produtiva. a região Sudeste não só deixa de perder posição relativa da produção nacional – trajetória que percorrera nas duas últimas décadas – como volta a ganhar importância na economia brasileira (passando de 60% a 63% seu peso no PIB do Brasil). em especial. se interrompeu a desconcentração e. Nos anos 90 tende-se a romper o padrão dominante no Brasil das últimas décadas. Alguns estudiosos chegam a mencionar a reconcentração para o caso da atividade industrial (Campolina Diniz & Crocco. no mínimo. no mínimo. a ação ativa de governos locais oferecendo incentivos. tanto por suas políticas explicitamente regionais e de corte setorial/nacional (mas com impactos regionais diferenciados) quanto pela ação de suas estatais. entre 1990 e 1995. quando a prioridade era dada à montagem de uma base econômica que operava essencialmente no espaço nacional – embora fortemente penetrada por agentes econômicos transnacionais – e lentamente desconcentrava atividades para espaços periféricos do país. 1996). estudos e dados recentes permitem pressupor a tendência à concentração do dinamismo em determinados espaços do território brasileiro. Tais autores constatam que. com base em dados da Fundação Getúlio Vargas.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG comercial podendo favorecer focos exportadores. maior e mais eficiente dotação de infra-estrutura econômica. os estudos realizados têm convergido para sinalizar. constatam que nos anos 90 as regiões Sudeste e Sul deixam de perder posição relativa na produção industrial nacional e 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). confirma a hipótese de que. elaboradas pelo IPEA. Mesmo sem ir tão longe. estudo recente da Confederação Nacional da Industria. um papel ativo no processo. A nova organização dos espaços nacionais tende a resultar por um lado. por outro. especialmente no que diz respeito às estratégias das grandes empresas frente ao cenário da globalização da economia mundial. há forças atuando no sentido da concentração de investimentos nas áreas mais dinâmicas e competitivas do país. as mudanças tecnológicas que reduzem custos de investimento. 1994). as decisões dominantes tendem a ser as do mercado. o mesmo acontecendo com os estados de São Paulo e do Rio de Janeiro. .23 - . O Estado nacional desempenhava. "a globalização reforça as estratégias de especialização regional" (Oman. dadas a crise do Estado e as novas orientações governamentais e empresariais. em particular para a forma como vem se dando a inserção internacional do Brasil. ao contrário do que se poderia esperar. Enquanto isso. para a interrupção do movimento de desconcentração do desenvolvimento na direção das regiões menos desenvolvidas. 1996). a importância da proximidade do cliente final para diversas atividades. como ocorreu no Nordeste. o que é confirmado por recentes estimativas da Sudene (1996). os novos requisitos locacionais da acumulação flexível. Estimativas do PIB industrial por macrorregião. como melhor oferta de recursos humanos qualificados. da resposta dos Estados nacionais para enfrentar os impactos regionais seletivos da globalização. da dinâmica da produção regionalizada das grandes empresas (atores globais) e. 04 a 10 de novembro de 2007. O Nordeste volta a perder posição (CNI. Embora as tendências ainda sejam recentes. o crescente papel da logística nas decisões de localização dos estabelecimentos. No presente.

por sua vez. US$ 3. as exportações nordestinas para o Mercosul cresceram 84% e as importações 64%. O maior dinamismo no período pós-abertura acelerada verifica-se na base exportadora da região Sul. Curitiba (PR). já mencionados. atraídas pela superoferta de mão-de-obra e baixos salários.6 bilhões em 1990. além da possibilidade de flexibilizar as relações de trabalho (adotando subcontratação.7 bilhões em 1993 para alcançar US$ 13. da ufmg.6% em 1990 e para 9. É certo que as conseqüências espaciais de políticas importantes como a de abertura comercial e a de integração competitiva comandada pelo mercado. US$ 8. por exemplo). que respondia por 17% das exportações brasileiras em 1975. Dados disponíveis demonstram que 82% (em 1995) das exportações do Brasil se originam nas regiões Sul-Sudeste. localizou os atuais centros urbanos dinâmicos do país em termos de crescimento industrial.5% em 1990 (Campolina Diniz. cabe analisar as tendências das exportações brasileiras. Constatou que a grande maioria deles se encontra num polígono que começa em Belo Horizonte. como a indústria de papel e celulose (BA).1 bilhões em 1995. 04 a 10 de novembro de 2007. em particular). mas em valores muito pequenos: US$ 420 milhões 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Tendência oposta é verificada no Nordeste. Haddad (1996) tem chamado a atenção para o reforço dado pelo Mercosul a essa tendência de arrastar o crescimento industrial para o espaço que fica abaixo de Belo Horizonte. onde historicamente se concentrara a indústria brasileira. vai a Uberlândia (MG).5% em 1990.1% em 1995. porém. aliadas a aspectos relevantes da política de estabilização (câmbio valorizado. . No momento em que a política governamental opta por promover rápida e intensa abertura comercial. desce na direção de Maringá (PR) até Porto Alegre (RS) e retorna a Belo Horizonte via Florianópolis (SC). O valor das trocas do Brasil com o Mercosul cresceram de US$ 1. Também identificando forte tendência à concentração espacial do dinamismo industrial. Esse percentual era de 68% em 1975 e passara para 81. apesar do dinamismo de segmentos com tendências exportadoras. Piauí e Maranhão). segundo a mesma fonte.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG voltam a ampliar sua presença em tal atividade no contexto do país. cai para 9. de Campolina Diniz. que amplia sua presença no total vendido pelo país ao exterior de 21. Tendências e preferências que beneficiam as regiões mais ricas e industrializadas do país (Sudeste e Sul).24 - . O Nordeste abriga cerca de 15% desses centros dinâmicos. reduz seu peso na indústria nacional de 12% em 1990. alumínio (MA). o mesmo acontecendo com o estado de São Paulo. trabalho elaborado pelo economista Campolina Diniz (1994). para 24. Por sua vez. Tais fatos. da perspectiva regional. dos quais 80% estão no Sudeste-Sul. e São José dos Campos (SP). No mesmo período.5% em 1995. química (NE-Oriental). para competir com concorrentes externos (principalmente com os países asiáticos). fruticultura (vales do São Francisco e do Açu) e a soja (Bahia. Uma reflexão particular merece o Mercosul. não alteram significativamente as tendências e as preferências locacionais identificadas pelos estudos. incremento de 50% apenas entre 1993 e 1995. O Nordeste.7 bilhões em 1985. 1994). juros elevados e prazos curtos de financiamento) têm impactado negativamente vários segmentos da indústria instalada no Brasil e afetado especialmente o Sudeste (São Paulo. É evidente também que algumas empresas de gêneros industriais mais mão-de-obra intensivos têm buscado se relocalizar no interior do Nordeste. para 8% em 1994. O comércio brasileiro com os demais países do bloco aumentou intensamente nos últimos anos.

Comércio e Turismo. • em termos de investimentos. tende agora a se redirecionar para o Mercosul. procuram as regiões de menor nível de desenvolvimento e. Guimarães Neto (1996) examina algumas informações. no Nordeste. pois importante parcela dos segmentos produtivos que definem a dinâmica da economia nacional tende. de menor densidade de capital. produtos alimentares e bebidas. os dados do Ministério da Indústria. No que se refere às tendências do investimento no país. simultaneamente.4%. mais uma vez. deve-se favorecer investimentos cruzados e associações de empresas instaladas no Sudeste e no Sul com os demais países do bloco. as informações disponíveis não permitem mais que esboçar algumas possibilidades referentes à futura distribuição espacial da atividade econômica no contexto brasileiro. tornando-as extremamente heterogêneas na medida que não se difundem. com base nos dados do Ministério da Indústria. geralmente de padrão de localização mais desconcentrado. O exame de parte relevante dessas informações permite destacar o caráter espacialmente seletivo dos investimentos industriais que privilegiam alguns espaços específicos nas regiões. Vale lembrar que o PIB do Mercosul (sem o Chile e sem o Brasil) é mais que o dobro do PIB do Nordeste e do Norte brasileiros juntos. Em relatório recentemente elaborado para o Ipea. no futuro imediato. uma divisão espacial de trabalho que induz os investimentos dos grupos metal-mecânico. A tendência parece ser. sem dúvida. possibilita à industria de minerais não-metálicos. a se concentrar nas regiões onde teve início e se consolidou a indústria moderna brasileira. o avanço.4 bilhões dos investimentos – que podem ser regionalizados até o ano 2000 e cujos investidores potenciais podem ser identificados – cerca de 64.3% deverão se concentrar no Sudeste (sendo 28. 17. Tal dinamismo geral está encobrindo diferenciações. Comércio e Turismo sobre as intenções de investimentos industriais da iniciativa privada.2% em São Paulo).6%. conseguiram. Comércio e Turismo antes referidos revelam que dos US$ 73. embora fora da região industrial tradicional.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG de exportações e US$ 478 milhões de importações. o movimento de integração produtiva que buscava o Nordeste e o Norte nas décadas anteriores. 9. seguramente. Enquanto isso.25 - . percebe-se o fortalecimento de especializações em outros estados que. através 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). e setores têxtil. no Sul. E isso sem mencionar a provável instalação de uma montadora de veículos naquele estado. Guimarães Neto destaca que há. além de indicadores da ação de alguns bancos oficiais relativos ao financiamento dos investimentos. automobilístico e químico – segmentos básicos da chamada indústria pesada – para o Sudeste e. notadamente o levantamento do Ministério da Indústria. uma vez que é razoável supor: • deve-se promover uma articulação comercial mais intensa dos outros países do Mercosul com o Sul-Sudeste brasileiro. os segmentos mais leves da indústria. da consolidação dos segmentos básicos e estratégicos no Sudeste. para as demais regiões. . mais de metade dos investimentos previstos destinam-se a um único estado: a Bahia. Em termos macrorregionais. papel e celulose. 04 a 10 de novembro de 2007. Os dados mostram claramente uma divisão de trabalho entre as regiões brasileiras. No caso nordestino. por razões muito específicas (Zona Franca de Manaus). calçados. de menor custo de mão-de-obra. Na análise da distribuição regional dos investimentos segundo os segmentos produtivos mais importantes. Assim. De outro lado. além da indústria eletro-eletrônica e material de comunicações.

O mesmo ocorre no Sul.26 - . no conjunto do panorama nacional. notadamente quando é orientado para as demais regiões que não o Sudeste. especialmente no que diz respeito às atividades industriais. dotadas de boas condições de acessibilidade (importante em tempos de abertura comercial e globalização intensas). Relativamente à atuação dos bancos oficiais. subáreas tradicionais e estagnadas. De fato. fortes incentivos regionais. similar ou um pouco maior que sua participação na geração do produto interno do país (BNDES. . o Nordeste perde posição relativa (caindo de 24% para 15% a sua participação entre 1991 e 1995). localizadas próximas a eixos de transportes e. Os dados do seu último relatório. Como bem destaca Haddad (1996). Tornam-se particularmente atraentes nesse novo contexto cidades médias daquelas regiões. com a particularidade de que a região registra. No Nordeste. na maior parte dos anos. anunciados no período posterior ao Plano 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). as informações mais interessantes. o potencial locacional de áreas do Sul-Sudeste para atrair os novos investimentos é. Em meio a essa tendência ascendente do total das aprovações. As atividades mais estratégicas – e que definem a dinâmica da economia nacional – estão se concentrando no Sudeste. a partir de 1991. crescimento gradativo dos valores investidos. dentre os novos elementos portadores de capacidade de atração de atividades e investimentos. embora seu peso no total ainda continue. que se torna bem mais patente quando são considerados os valores absolutos dos recursos aprovados. cada vez mais. No que se refere ao grande investimento industrial. Isso porque. Tal tendência não parece estar sendo compensada pelo financiamento dos bancos oficiais. as aprovações passam de US$ 3. marcam presença em alguns estados específicos e em certos pontos de seus territórios (os focos de competitividade).Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG de fatores os mais diversos (recursos naturais. muitas vezes em contextos nos quais prevalecem. não resta dúvida de que. Ainda segundo Haddad. de menor densidade de capital.8 bilhões em 1991. vêm sendo freqüentemente apontadas a existência de mão-de-obra qualificada e a presença de competentes centros de ensino e pesquisa científica e tecnológica. essa escolha seletiva está tendendo a privilegiar o estado da Bahia. 1996). 04 a 10 de novembro de 2007. O Sudeste. pela importância relativa dos recursos envolvidos. demonstram estar havendo. Nordeste e Centro-Oeste brasileiros. referem-se aos aprovados pelo BNDES para investimentos nos próximos anos. percentual bem maior do que a sua contribuição na geração do produto interno do país. esconde mais que revela a realidade do país. os demais segmentos da indústria. fica nítida uma grande seletividade espacial. os indicadores sobre os investimentos privados em curso indicam grande seletividade na escolha dos espaços nos quais se darão os investimentos no país. mostra uma tendência ascendente entre 1991 e 1995. embora registre menor percentual na participação dos recursos aprovados do que a sua participação na economia nacional. em todo período. em quantidade e qualidade. portanto. ainda. a geografia industrial dos grandes projetos de investimentos privados. condições de infra-estrutura) atrair segmentos específicos que definem subáreas dinâmicas e modernas. Outro ponto importante a se observar atualmente é a tendência de localização de investimentos em infra-estrutura econômica e nos desenvolvimentos científico e tecnológico.7 bilhões em 1995. Deve-se ressaltar que a divisão do território brasileiro em macrorregiões. para US$ 9. que indicam a distribuição regional dos recursos aprovados. Em síntese. bem maior que o encontrado no Norte.

do ponto de vista das tendências de mercado.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Real. o governo busca ampliar a competitividade de espaços já competitivos. Para o que interessa nesse trabalho. agropecuários ou industriais). do ponto de vista dos restritos investimentos patrocinados pelo governo federal era de se esperar ação efetiva no sentido de evitar a ampliação de disparidades já gritantes no Brasil e assegurar a compatibilidade entre inserção na globalização e integração dos diversos espaços do país. consistente com a opção brasileira de promover a integração competitiva. Se. fica fora dessa análise o Programa de Desenvolvimento das Telecomunicações (Paste). na fronteira Noroeste. revelam algumas características importantes : • Têm uma opção prioritária clara pela integração dos espaços dinâmicos do Brasil ao mercado externo. justamente nas áreas dinâmicas apontadas por Campolina Diniz. Essa é uma das orientações centrais do Programa Brasil em Ação. os espaços mais atraentes tendem a estar situados em áreas concentradas no Sul-Sudeste. Essa orientação estratégica secundariza a integração interna. agroindustriais. ou seja. enquanto com os investimentos autônomos se antecipam a ele. estratégicos para a futura organização territorial do Brasil. Os projetos prioritários de infra-estrutura econômica. Por sua vez. e em pontos dinâmicos do Nordeste e do Norte. seguindo os espaços que vêm concentrando maior dinamismo nos anos recentes. ou os tradicionais investimentos autônomos. 04 a 10 de novembro de 2007. Outro investimento igualmente estratégico. enquanto os demais ficam com apenas R$ 195 milhões para o biênio 1997-98. por não ter sido apresentado com o detalhe da localização regional de seus investimentos (orçados em R$ 16 bilhões para o biênio) e o Programa de Recuperação de Rodovias. Mas os dados parecem sinalizar para tendência a fortalecer (ao invés de contrabalançar) a concentração de novas atividades e de novos investimentos em certos focos competitivos. portanto. Na opção do Brasil em Ação. pelos quais o Estado patrocina infra-estruturas que potencializam dinamismo econômico futuro. mas de impacto localizado. em especial ao Mercosul e ao restante da América do Sul. tomem-se os projetos de infra-estrutura que têm capacidade de definir articulações econômicas inter-regionais ou internacionais e.7 bilhões. com recursos que totalizam R$ 54. Na opção atual. face aos novos paradigmas tecnológico e produtivo e às novas condições de concorrência num mercado mundial em globalização. . também sem localização definida no documento oficial. é o destinado a geração e difusão de conhecimentos científicos e tecnológicos e a formação 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). de grande importância para a modelagem territorial do Brasil. • Priorizam dotar de acessibilidade os focos dinâmicos do Brasil (agrícolas. capazes de influir na organização territorial do Brasil em tempos de globalização. apenas 3% do total. com impacto no Nordeste). destacando-se obras prioritárias de infra-estrutura. • Concentram os investimentos no Sul-Sudeste.27 - . revelam evidências inequívocas de que tais projetos (especialmente os de montadoras de veículos) tendem a se concentrar no Sudeste-Sul (de Belo Horizonte para baixo). Os demais são projetos importantes. restritos a uma ou outra região do país (a exemplo da conclusão de Xingó.4 bilhões. o Estado segue o mercado. no qual o governo federal define os 42 projetos prioritários de investimentos para o biênio 1997-98. deixando em segundo plano as áreas menos dinâmicas. Os espaços mais dinâmicos atraem projetos federais de infra-estrutura (que ampliam sua acessibilidade) com investimentos da ordem de R$ 5.

28 - . No Nordeste. . A preocupação que deriva de tais fatores refere-se ao destino das chamadas áreas não-competitivas. O último levantamento efetuado pelo CNPq registrava sete mil grupos de pesquisa ativos no país no primeiro semestre de 1995. Como se percebe. dos quais 1/3 só em Pernambuco). muitas delas abrigam significativo contingente de pessoas (como o grande espaço semi-árido não passível de abrigar focos de agricultura irrigada. em termos financeiros. Um interessante indicador de concentração é o que revela que em apenas cinco estados (São Paulo. Como ficou evidenciado pelas análises até aqui procedidas. 1996). é histórica a concentração espacial dos centro produtores de conhecimento no país (IPEA/DPRU/CGPR. mais uma vez. 1996). Nota Técnica. O papel esperado do Estado é o de contrabalançar. nenhuma outra unidade da Federação fora do Sudeste e Sul conseguiu tal intento. das 158 instituições de pesquisa cadastradas pelo CNPq. metade delas localizadas em uma única região: o Sudeste. onde os novos fatores de competitividade já são abundantes. Por sua vez. Cabe destacar que o dispêndio em C&T realizado no Brasil nos anos 90 continua muito baixo (0. no Brasil dos anos recentes.5% dos artigos publicados em periódicos nacionais e estrangeiros por pesquisadores do Brasil. dados fornecidos pelo CNPq para 1994 (último disponível) revelam que a alocação regional dos investimentos em C&T confirma a União tender a fortalecer. predomínio da integração competitiva e estabilização. Locais bem dotados desses atributos são apontados como atrativos para investimentos. Por sua vez. 17% dos governos estaduais e 8% das estatais). e não se concentrar onde o ente privado já prefere se localizar. ou seja. onde o dinamismo conduzido pela lógica do mercado já é mais intenso.7% do total nacional). a relativa ausência de investimentos privados.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG de recursos humanos qualificados. Finalmente. à exceção de PE e DF. que despendem entre 2 e 3% de seus PIBs para promover os desenvolvimentos científico e tecnológico. especialmente em São Paulo (40. Rio Grande do Sul. Nota Técnica. a distribuição das patentes outorgadas para produtos gerados por grupos de pesquisa no Brasil mostra que. 82% do gasto total em C&T ainda cabem ao setor público (sendo 57% de responsabilidade do governo federal. Por outro lado. Rio de Janeiro.7% do PIB) quando comparado aos países do G7 e a alguns tigres. com sua presença. constata-se uma distribuição espacial ainda mais concentrada no Sudeste considerando-se a distribuição dos grupos de pesquisa. também nesse campo. A região responde por 85. Pernambuco e Paraíba) a participação no total dos Grupos de Pesquisa do país é maior que a participação desses estados no PIB do Brasil (IPEA/DPRU/CGPR. A distribuição espacial dos produtos e processos tecnológicos desenvolvidos revela. O Nordeste abriga 20% das instituições cadastradas (50% das quais em dois estados: Pernambuco e Bahia). parece se confirmar a tendência a interromper a desconcentração espacial do 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). 04 a 10 de novembro de 2007. no Brasil. fortemente concentrados no Sudeste (69%). contra apenas 9% no Nordeste. dados relativos a 1994 revelam que. Considerando a produção desses grupos no biênio 1993-94. forte concentração no Sudeste (com destaque para Rio de Janeiro e São Paulo). os mais fortes ao concentrar seus financiamentos nas bases científica e tecnológica instaladas no Sudeste brasileiro (62% do total. já no novo contexto de abertura. 81% eram de natureza pública. 95% da área total dessa subregião nordestina).

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crescimento que ocorria nos anos 70 e 80, quando a análise é feita em escala
macrorregional. Essa interrupção vem sendo comandada pelo mercado e referendada
pelas políticas públicas federais de corte nacional/setorial. Em termos regionais,
sobrevivem instrumentos e políticas herdados do passado, com reduzida capacidade de
impactar as realidades regionais e contrapor-se às novas forças que tendem a se
consolidar.
A ausência de explícitas políticas regionais por parte do governo federal abriu espaço à
deflagração de uma guerra fiscal entre estados e municípios, que buscam contribuir para
consolidar alguns focos de dinamismo em suas áreas de atuação. A combinação desses
dois fatos, vai deixando grandes áreas do país à margem: são os ditos espaços nãocompetitivos.
Por sua vez, as tendências prováveis dos investimentos sugerem que, após a fase de
modesta desconcentração, poderá ocorrer no futuro imediato um processo de
concentração espacial do dinamismo econômico em algumas sub-regiões (focos
dinâmicos) do país.
A conclusão preocupante que emerge das observações e análises aqui apresentadas é a
de que, muito provavelmente, a inserção do Brasil na economia mundial globalizada tende
a ser muito diferenciada, segundo os diversos subespaços econômicos desse amplo e
heterogêneo país. Tal diferenciação tende a alimentar a ampliação de históricas e
profundas desigualdades. Certamente não se repetirão as formas pelas quais se
materializaram essas desigualdades ao longo do século XX, mas provavelmente se
observará aumento da heterogeneidade no interior das macrorregiões. Essa é uma forte
tendência pois o próprio estilo de crescimento da economia mundial é profundamente
assimétrico, como supõe Pacheco (1996), e aos atores globais interessam apenas os
espaços competitivos do Brasil. Espaços identificados a partir de seus interesses privados
e não dos interesses do Brasil.

Rumo à fragmentação?
Face ao exposto, parece evidente que as tendências recentes atuam no sentido de
aprofundar as diferenciações regionais herdadas do passado e, destacando os focos de
competitividade e de dinamismo do resto do país, fragmentar o Brasil para articulá-los à
economia global. A aguda crise do Estado e o tratamento não-prioritário concedido ao
objetivo da integração nacional, nos tempos atuais, sinalizam nessa direção.
Pelo que já é possível apreender, Furtado (1992) chegou a mencionar a construção
interrompida da nação brasileira. A inserção seletiva promovida pelas novas tendências
terão como contra-face da mesma moeda, o abandono das áreas de exclusão (ditas nãocompetitivas). Poderia estar sendo traçado, assim, o roteiro da fragmentação brasileira. E
pelo que já se observa no Nordeste, a região acompanhará a tendência geral, num espaço
em que a herança de desigualdade é muito grave.
No Brasil, a emergência de focos de um novo tipo de regionalismo, intitulado
paroquialismo mundializado por Vainer (1995), sinaliza nessa direção. São locais de
grande dinamismo recente, dotados dos novos fatores de competitividade que montam
sua articulação para fora do país e tendem a romper laços de solidariedade com o resto,
passando a praticar políticas explícitas de segregação contra emigrantes (nordestinos, na

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maioria dos casos), vindos de áreas não-competitivas. Buscam, assim, evitar manchar a
ilha de Primeiro Mundo que julgam constituir (Vainer, 1995).
O futuro parece apontar, especialmente quanto ao Nordeste, para o aprofundamento da
heterogeneidade herdada do passado recente. E tenderão a se ampliar as diferenciações
dentro das macrorregiões, cada uma delas podendo conter distintos tipos de sub-regiões,
como: sub-regiões de áreas dinâmicas, sub-regiões em processo de reestruturação, subregiões estagnadas ou sub-regiões e áreas de potencial pouco utilizado.
É importante considerar que o desenvolvimento regional recente, sobretudo na fase de
desconcentração da segunda metade dos anos 70 até a primeira dos anos 80, reforçou a
heterogeneidade de cada macrorregião, tornando mais nítidas e mesmo maior as
diferenças entre as sub-regiões de cada grande região. Também neste aspecto, o
Nordeste acompanhou e continua a acompanhar o Brasil.
A heterogeneidade crescente vai consolidando dinâmicas particulares no interior dos
diversos estados do Nordeste. Em Pernambuco e no Rio Grande do Norte, por exemplo, o
dinamismo das áreas de fruticultura (de Petrolina ou do vale do Açu) contrasta com a
passividade com que se assiste à crise das áreas do antigo complexo gado-algodão
(embora geograficamente as duas estejam próximas, nos dois estados). O dinamismo do
oeste baiano contrasta com a lentidão com que se buscam alternativas ao cacau, na parte
oriental-sul do estado. Com a ferrovia Norte-Sul e a hidrovia do São Francisco, e sem a
ferrovia Transnordestina (tal como está previsto no Brasil em Ação), a porção ocidental
dinâmica do Nordeste amplia suas chances de interação privilegiada com o Centro-Oeste
e Sudeste. E isola-se, crescentemente, o Nordeste oriental.
Rumamos, agora, para aprofundar as diferenciações pré-existentes, cada um olhando
para si próprio, cada subespaço buscando suas próprias definições e montando suas
articulações. Os atores globais também farão suas escolhas. Rumamos à fragmentação?

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a luz de velas. Para ser integrante dela era preciso. musical e literário que fez da sua figura um participante ativo do imaginário simbólico nacional. Escreveu 8 livros (*) e mais de 40 polígrafos. prerrogativa exclusiva do Exército). insiste em manter-se vivo e atuante. As Origens Remotas do Coronelismo O coronelismo institucional surgiu com a formação da Guarda Nacional. derrubadas pelos revolucionários.33 - . responsável pelo Projeto Cultural do Curso Universitário. cultural. 04 a 10 de novembro de 2007. Sinônimo de Poder Poder O governo da Regência (1831-1842) colocou então os postos militares à venda. Assim é que com o tempo. desconsiderando as razões do tempo e da época. Não só os homens de letras procuraram reproduzir em seus livros o que era viver sob o domínio de um coronel. ocorrida em abril daquele ano. de antepassados dos lamparinas e de lâmpadas. como resultado da deposição de dom Pedro I. um grande proprietário. major. Identificado com o Brasil do passado. Coronel. capitão. caracterizado pelo enorme poder concentrado em mãos de um poderoso local. um dono de latifúndio. pois ser alguém de posses. criada em 1831. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). podendo então os proprietários e seus próximos adquirir os títulos de tenente. agrário. um fazendeiro ou um senhor de engenho próspero. forjada pelos acontecimentos de 1789. feitos e as façanhas deles foram transmitidos. pela história oral do avô para o seu coronéis neto. Inspirada na instituição francesa. uma espécie de velho barão feudal que. geralmente. tenente-coronel e coronel da Guarda Nacional (não havia o posto de general. Ele não só marcou a vida política e eleitoral do Brasil de então como fez por contribuir para a formação de um clima muito próprio. como os Barões do café. .Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Ascensão e Queda do Coronelismo Voltaire Schilling1 O coronelismo foi um sistema de poder político que vicejou na época da República Velha (1889-1930). que tivesse recursos para assumir os custos com o uniforme e as armas necessárias (200 mil réis de renda anual nas cidades A Guarda Nacional. a "guarda burguesa" era uma milícia civil que representava o poder armado dos proprietários que passaram a patrulhar as ruas e estradas em substituição às forças tradicionais. rústico e arcaico. a maioria sobre História e História das Idéias Políticas. fazendo com que quase todo mundo soubesse de uma "história" ou "causo do coronel". ele ainda sobrevive em certas comarcas e em certos estados do Nordeste brasileiro como o poderoso "mandão local". o cidadão em armas e 100 mil réis no campo). o coronel passou automaticamente a ser visto pelo povo comum como um homem poderoso de quem todos os demais eram dependentes. 1Professor de História e Mestrando na UFRGS.

As comunicações eram raras e difíceis. major. o campeador. promoveu a emergência do cacique. isolado do mundo. carro de boi. dominado pelo latifúndio. uma Os moradores eram-lhe inteiramente obedientes. Esta expressão de clara influência vinda da América serviu para definir a situação que um chefete municipal passou a usufruir dentro do sistema político da monarquia espanhola desde então (desaparecido com a implantação da Ditadura Franquista. O Cenário do Coronelismo O cenário que envolvia e promovia o coronelismo era o do mundo rural brasileiro. o poder político central ficou abalado. que o autorizava a recrutar homens e a arrecadar recursos para lutar na cruzada contra os homens do califa muçulmano. Um universo próprio. Foram célebres as façanhas de Cid. o coronel. especialmente na região do Rio da Prata. charrete. Delmiro Gouvea. Coronelismo. contra a posição centralista dos conservadores. feitas por canoa. personificação mais acabada do poder privado no Brasil. o engenho. puxando os arreios da mula ou do jerico. a fazenda e a estância. barco. por uma razão qualquer. ou a zoológica "cria" (sou "cria" do coronel fulano). Nasceu da Constituição liberal adotada na Espanha de 1837. Na verdade. ou na sela do cavalo. mandava num pequeno país do qual ele era um imperador com poder de vida e morte sobre os seus (ainda que não reconhecido juridicamente). o do caudilhismo ou do caciquismo.. sendo desde então considerado como o patriarca de todos os caudilhos que se seguiram. quando um rei dava a um chefe militar ou um aventureiro qualquer que o solicitava uma "carta de partida". que lutou e integrou Valencia ao reino da Espanha no século XI.) enquanto que os dominados pelo coronel o eram pela visível identificação genérica de "gente". O caudilhismo nasceu na Espanha medieval em luta contra os mouros. Poucos ousando raridade desafiar-lhe a autoridade ou disputar-lhe o mando.34 - . sendo comum entre os considerados alfabetizados apenas 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). etc. Quanto à geografia desse fenômeno político. deu-se a ascensão do chefe provincial ou local que adquiria expressão militar e jurídica própria. bem afastado das grandes cidades. A Geografia do Mandonismo Local O caciquismo é historicamente bem mais recente. que ao outorgar uma significativa parcela de poder aos municípios. balsa. Coronelismo. ficando o México como o principal centro do poder dos caciques. . Toda a vez que na Península Ibérica. interiorano. os caudilhos eram comuns na América hispânica. pode-se dizer que enquanto os coronéis imperavam pelo Brasil afora. Praticamente ninguém ao redor dele era instruído. 04 a 10 de novembro de 2007. enfraquecido. a não ser que por perto outro coronel o desafiasse. Caudilhismo e Caciquismo O coronelismo na história política nacional nada mais foi do que a expressão brasileira de um fenômeno tipicamente ibérico. entre 1936-1975).Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Configurou-se no Brasil daqueles tempos uma clara distinção social onde os representantes dos dominantes eram identificados pelo ranço militar (coronel.

Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG saberem desenhar o nome no papel. aqueles que são mais estáveis. que ele não se compunha apenas por proprietários de terras. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). o tribal. A Estrutura do Coronelismo Os estudiosos dividiram o coronelismo em três tipos. Logo era fundamental para a afirmação e continuidade do poder do coronel ele possuir significativas extensões de terra. geralmente desaparecendo com sua morte. de Alagoas). b) A família. que ajudavam a estender o poder dele para fora da família núcleo (a gente do seu próprio sangue). Num país de dimensões agrárias tão vastas. era o coronel quem exercia as mais variadas funções. quando não miséria dos moradores. e que dirigem os negócios políticos em comum acordo com outros coronéis sem que haja grandes desavenças entre eles. permitindo que sua autoridade se espalhasse para regiões bem mais distantes do que a do seu feudo. o compromisso da fidelidade. Ele era um pode – tudo. Apesar de ampliarem os direitos de voto. a ter certos atributos que são só dele e são impossíveis de transmitir por herança.35 - . fazendo com que sua autoridade cobrisse todos os espaços daquela geografia da solidão que era o seu feudo. Escassez e Solidão Materialmente o mundo dos coronéis era povoado pela escassez de tudo e pela pobreza quase que absoluta. Na ausência quase que absoluta do Estado. a quem era preciso recorrer nas mais diversas situações. Estudos posteriores sobre o coronelismo mostraram. como prefere Maria Isaura Pereira de Queiroz. O tribal parece um patriarca de um clã. As bases do seu poder são: a) A terra. a riqueza dos indivíduos era medida pela extensão da propriedade. o mais famoso líder do catolicismo popular e ídolo dos sertanejos). o suficiente para que se tornassem eleitores fiéis dos candidatos propostos pelo coronel. afilhados e demais protegidos do coronel. cujo poder se espalha por vários municípios e deriva dele pertencer a uma família tradicionalmente poderosa. colocando gente do seu sangue e da sua confiança em todos os escalões do poder municipal e estadual. 04 a 10 de novembro de 2007. o coronel-padre (como o padre Cícero no Ceará. permitia ao coronel por meio de casamentos arranjados ampliarem seu domínio. sendo. portanto compreensível que o coronel exigisse daqueles que se qualificavam como votantes. que explica a enorme dependência que todos tinham dele. Por último. c) Os agregados. sendo simultaneamente o detentor do poder político. o personalista e o colegiado. A Política do Coronelismo Os republicanos de 1889 ficaram surpreendidos pelo vigor do sistema coronelístico. rapidamente verificaram que a universalização do sufrágio não redundou no enfraquecimento dos coronéis. o coronel-industrial (o célebre Delmiro Gouveia. O personalista deve tudo ao seu carisma pessoal. entretanto. ou a parentela. havendo igualmente coronéis com outra posição social. A imensa quantidade de parentes distantes. . compadres. jurídico e legislativo do município que lhe cabia. tais como o coronel-comerciante. assegurando aos alfabetizados poderem tornarse eleitores.

assumia o papel de porta-voz das inclinações eleitorais do coronel. pelo conchavo e pelo cambalacho.) ou algum tipo de obséquio (atendimento médico. O voto de cabresto foi decorrência disso. o coronel ativava o cabo eleitoral. A fraude. alguém prestativo do seu meio que. Em outros acasos. em seguida. Para ampliar ainda mais o seu mando. em seu nome. a expressão acabada do mandonismo dos coronéis. imperava na época da República Velha. matrícula em escola. vigiava para que o resultado final satisfizesse os partidários do coronel. era os três poderes do Brasil inevitável que os considerassem como gente de segunda arcaico. demonstrativo da impotência e das limitações da democracia brasileira. um século atrás. O resultado das eleições quase sempre passava pelo crivo de um seu representante no conselho eleitoral. por assim dizer. Dentre muitas. o universo político do coronel movia-se pelo cochicho. consulta médica. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Esta placidez obediente dos que tinham direito a votar fazia com que eles fossem integrantes do curral eleitoral. Se nas cidades ainda funcionavam os empolgantes comícios. dos municipais. Este poderia ser um bem material (sapatos. alguém que. fazendo deles "defuntos cívicos" que levantavam da tumba para irem até as juntas eleitorais). o militar e o coronel. aumentando-lhe o constrangimento. roupas.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Ao contrário.). permitindo que alguém votasse em nome deles. Fraudes e Folclore Os coronéis. portanto. especialmente no interior do País. Observe-se que a não existência do voto secreto (adotado após a Revolução de 1930). classe. colaborando para isso o fato do desaparecimento do poder unitário (representado pelo imperador). bolsa de estudos. tornaram-se comuns práticas ilícitas de manipulação eleitoral. podemos destacar o eleitor-peregrino (sujeito que votava diversas vezes) ou o eleitor-fantasma (não davam baixa dos mortos das listas eleitorais.36 - . etc. Mecanismos de Poder Para chegar ao povo votante. 04 a 10 de novembro de 2007. mal atingisse os 20% da população inteira). em detrimento dos poderes regionais e. facilmente eles foram conduzidos pelos apaniguados dos mandões. verba para enterro. em troca de favores. Ao O padre. a comportarem-se com docilidade. . fizeram o processo eleitoral republicano funcionar a favor deles. etc. chapéus. como os cidadãos votantes eram poucos (talvez os que soubessem ler e escrever. ela era. e mais toda uma série de trapaças outras que pertencem ao riquíssimo folclore político brasileiro. convocava algum líder local próximo para que também arrebanhasse os votos para o seu candidato. comportarem-se nas eleições tais como bois mansos. enfim. O eleitor trocava o seu voto por um favor. facilitava o controle sobre o eleitor. remédios. incapaz de reagir ao despotismo do manda-chuva.

e assim sucessivamente até chegar-se ao vilão ou ao pároco da aldeia. geralmente um capanga da sua confiança. Para o exercício efetivo disso. quando vier. os monarcas se sustentavam com o apoio dos condes. o sertão era tão bravo que "Deus mesmo. quando ele desejava impingir alguma coisa aos de baixo ou que se negavam a aceitar a sua guarda.37 - . partindo do executivo federal. dá cá. deputados acertados com os interesses políticos do governador. Estes por sua volta se articulavam. ou um grupo de jagunços dedicados ao ofício das armas que lhe serviam como uma milícia privada. Em troca. 04 a 10 de novembro de 2007.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Instrumentos de Coerção: o Pistoleiro e o Jagunço O coronelismo nunca foi um sistema pacífico. Naqueles tempos. implementada em 1902. A própria natureza do tipo de dominação que ele exercitava implicava na adoção de métodos coercitivos.com os coronéis do seu estado. o mataréu brasileiro foi ensangüentado pela batalhas travadas por esses exércitos de jagunços. . ele contava com dois elementos básicos: o pistoleiro contratado para atuar a seu serviço. como assegurou o seu personagem Riobaldo. envolvendo todos eles num sistema mútuo de fidelidades e compromissos. instrumento de "paz Inúmera vez como mostrou Guimarães Rosa (Grande Sertões: veredas. espalhou-se pelo país inteiro. pelos favores e pela macheza do coronel que os comandava. social" 1956). que venha armado!" O Apogeu do Coronelismo Ao legar ao seu sucessor um mecanismo político mais estável do que aquele que herdara o presidente Campos Salles fundou um sistema de troca de favores que. atraídos pela aventura. lembra. vivendo à sombra da sua autoridade. O rebenque. na sua simplicidade. ameaçadores. praticado nos antigos reinos medievais. As linhas da violência dirigiam-se em dois sentidos. Porque. quando não criminosos. no horizontal quando o coronel travava uma disputa qualquer com outro rival do seu mesmo porte. estes dos barões. e no vertical. O presidente da república exigia que os governadores lhes enviassem bancadas concordes com a sua política. fazendo com que também eles mandassem para a assembléia legislativa na capital do estado. De certa forma aquilo que se convencionou chamar de política dos governadores. o toma lá. ele sustentava as propostas regionais dos governadores (inclusive com apoio militar se fosse preciso). 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE).

opôs-se ao coronelismo A Crise do Coronelismo A Guerra da Princesa. 1924 e O centralismo de Vargas 1926). Para a comissão. Valorizando o sufrágio urbano. que assegurou a um oposicionista "eleito o senhor foi. Com a adoção dos interventores e dos intendentes. Centralizador e autoritário. "ser eleito é uma coisa. resumiu e antecipou o que iria ocorrer no Brasil a partir do sucesso da Revolução de 1930. Isso é que explica porque o governador da Bahia. travada por João Pessoa. ele contrapôs o poder das novas forças emergentes (operários. aumentando-lhe a presença eleitoral. Frase que é uma variação daquela outra atribuída a Pinheiro Machado. José Bezerra. Mesmo quando ele foi sacudido pelas várias revoltas promovidas pelo Movimento Tenentista (em 1922. liderada por Getúlio Vargas. 04 a 10 de novembro de 2007. agentes do governo central enviados para administrar os estados e os municípios foram inevitáveis o encolhimento da autoridade local. mas unicamente se ele estava disposto a cumprir com o acertado entre o governador do seu estado e o presidente da república. ao viciar completamente os resultados eleitorais. até chegar ao centro do poder no Palácio da Guanabara do Rio de Janeiro. governador da Paraíba. O voto secreto e o voto feminino (inicialmente somente de funcionárias públicas) foram dois dos instrumentos utilizados para isso. não havia maior significado o parlamentar ter recebido ou não os sufrágios necessários. ser reconhecido é outra". passando antes pelo palácio do governador. dá cá Um enorme mecanismo de favores e contra favores principiando nas fraldas de qualquer município brasileiro estendia-se assim. foi fundamental para que o coronelismo se eclipsasse a emergência de um executivo federal forte e cada vez mais poderoso." Um toma lá. o presidente fez com que o Congresso por ele controlado instituísse a Comissão de Verificação de Poderes (diz-se por sugestão do senador gaúcho Pinheiro Machado).Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG A Comissão de Verificação A fim de garantir-se do cumprimento dessa política. Durante quase um trintênio esse sistema funcionou a contento. durante os quinze anos seguintes Vargas praticou medidas para o irreversível esvaziamento do poder dos coronéis. trouxe pelo menos certa estabilidade invejável à turbulenta e instável crônica política brasileira. formada por cinco parlamentares com a função de apurar se os deputados eleitos nos estados realmente estavam comprometidos em vir dar o seu apoio ao presidente. funcionárias) ao dos potentados rurais. desde que tomara posse em outubro de 1928. . o Zé Pereira. o que não vai ser é diplomado. contra um poderoso coronel do sertão chamado José Pereira. Pecava-se contra a educação democrática do povo. Portanto. ao redor de 1920. ter dito. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE).38 - . ele mostrou-se hábil em sobreviver.

2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE).. ao mesmo tempo.39 - . Desta forma. e.. A Revivência do Coronelismo Com o Golpe Militar de 1964. o ex-prefeito e governador Antônio Carlos Magalhães (que fizera sua carreira política aplicando todos os truques perversos do coronelismo ao tempo em que servia como sustentáculo civil local ao regime militar). com os remanescentes do coronelismo. o crescimento demográfico. Os militares que ascenderam ao comando do país naquela ocasião. um por um os coronéis foram sendo afastados da política. Os generais de 1964. no Rio Grande do Norte.). que derrubou o governo de João Goulart. Na Bahia. ajudaram e fortaleceram as velhas oligarquias. na Paraíba. O cacique político local. o país conheceu entre 1969-1979 um impressionante desenvolvimento econômico. características do Brasil pós-1945. isso não sucedeu. . com o objetivo de implantar o seu Projeto do Brasil Grande (a ambição de tornar o país uma potência de médio porte). Representando a versão mais atualizada do coronelismo. ocorreu um estranho e contraditório fenômeno. entre 1937-1945) (. ele de imediato rearticulou-se com a nova elite civil que substituiu os militares em Brasília. 04 a 10 de novembro de 2007.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Situação que se reforçou ainda mais com a proclamação da ditadura do Estado Novo em novembro de 1937. Talvez por ele ser um caso raro de coronelismo urbano (grande parte da sua fortuna e dos que a ele estão ligados está associada aos meios de comunicação e aos negócios industriais e Carlos imobiliários). especialmente no Nordeste. ao recorrerem aos casuísmos eleitorais. porém. promoveram uma atualização do poder dos coronéis: o neocoronelismo. O Carlismo Antônio Magalhães Com a fim do regime militar. num lance ousado e surpreendente. derrotados pelas urnas da democracia recém-reconquistada. em Pernambuco e na Bahia. a imigração para as cidades. ele mostrou-se mais ágil em perceber o significado das mudanças que se operaram naquela época. ACM rompeu com os militares e aderiu à campanha das "diretas já". A industrialização. só fizeram por acelerar ainda mais o declínio do coronelismo. marcado pela eleição indireta de Tancredo Neves à presidência da república em 1984. no Ceará. mudou de lado. ao contrário dos tenentes de 1930. que culminou no afastamento dos generais do poder. Em 1984. neutralizarem a força das massas urbanas que lhes eram hostis. Unindo uma proposta de modernização da economia com as esdrúxulas práticas que remontavam ao Brasil arcaico. simultâneo ao quase total fechamento político (o mais sufocante que o país conheceu desde os tempos do Estado Novo. trataram de aliar-se.

SP. o homemforte dos sucessivos presidentes que desde então se sucederam (nos 15 anos seguintes. ACM foi ministro das comunicações no governo de José Sarney.. . 1979) 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). 1967. O mundo rural. violento e rústico.) Bruno. 1971) Casalecchi.SP. Ele sempre teve consciência de que o seu prestígio local devia-se ao apoio escancarado que ele dava a quem estivesse no comando executivo da União. os analistas prevêem que o rompimento dele com as fontes das verbas federais terminará por secar.1959. José Ênio . Jorge Amado. abordou o coronelismo em todas as suas facetas nos seus romances do chamado ciclo do cacau (São Jorge de Ilhéus.A República Velha: evolução política (Difel. 10 vols. Notáveis descrições do cenário em que eles viveram e lutaram encontram-se no Os Sertões de Euclides da Cunha. e no já citado Grande Sertões: Veredas de Guimarães Rosa. 2 vols. Coronelismo e Literatura Como não poderia deixar de ser a literatura brasileira foi pródiga neste século em abrigar as façanhas e malvadezas dos coronéis.História e paisagens do Brasil (Cultrix. eminência parda no governo do presidente Fernando Collor de Mello e o principal avalista do pacto do PFL-PSDB.Coronelismo e oligarquias (Civilização Brasileira. 04 a 10 de novembro de 2007. em seguida à formação da Nova República. granjeou a ele enorme estima e respeito por parte considerável da população. Numa situação onde o autor assume a identidade do coronel para registrar-lhe as impressões. • • • • • Bibliografia Beiguelman. e os "causos" em que eles foram participantes ativos viraram contos ou histórias dos romancistas e dos roteiristas das telenovelas brasileiras. mereceu copiosas descrições.. esta virada do carlismo em favor da redemocratização. de Aureliano Figueiredo Pinto. se bem que oportunista. Cacau.40 - . encontra-se no Memórias do coronel Falcão. o escritor brasileiro de maior expressão internacional. e no popularíssimo Gabriela cravo e canela). onde eles se moviam.Formação política do Brasil (Pioneira. Desta forma. verba para a recuperação do Pelourinho. no futuro. a montadora da Ford).. SP. a influência dele junto aos seus conterrâneos. que fosse promovido às antecâmaras do poder como o condestável.. quando não os próprios coronéis tornaram-se personagens centrais da obra (como no caso de São Bernardo de Graciliano Ramos. RJ. SP. 1987) Eul-Soo Pang . Edgar . recuperado graças ao fidelidade por favores prestados ao Estado da Bahia (polo prestígio de ACM petroquímico de Camaçari. se num primeiro momento trocou a sua Pelourinho.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG O Condestável da Nova República Esta posição. permitindo-lhe. ou o do Coronel e o lobisomem de José Cândido de Carvalho). Paula .) Carone. que garantiu por duas vezes a eleição do presidente Fernando Henrique Cardoso). Ernani Silva .O partido republicano paulista : 1889-1926 (Brasiliense.

Hélio .O cativeiro da terra (LECH. RJ. 7ª ed. Victor Nunes . a revolução traída (Civilização brasileira. enxada e voto (Alfa-Omega. SP.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG • • • • • • • • Freyre. 1966) Silva. Campinas.. 1977) 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE).O mandonismo local na vida política brasileira (Alfa-Omega. 1981) Nosso Século: Brasil (Abril. 1976) Leal. 1996) Telarolli.Terras devolutas e latifúndio: efeitos da Lei de 1850 (Unicamp. de 1900-1930) Silva.Poder local na República Velha (Nacional. Maria Isaura . SP.) Queiróz. vols. SP. 1975) Martins. Rodolpho . 1985.Coronelismo. Lígia Osório .. 04 a 10 de novembro de 2007. SP. José de Souza .1930. Gilberto. RJ..Sobrados e Mocambos (José Olympio.. 1985.41 - .. .

A crise do mercado açucareiro no século 18 só fez reforçar essa situação. 1986). 1995a. e que essa mão-de-obré constitui uma reserva utilizada ocasionalmente. .Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG I. região de migração em direção ao sul e à Amazônia (Garcia júnior. prática cada vez mais freqüente. Certamente outros mercados se abriram. primeira região colonizada pelos portugueses. constituídos graças ao sistema de remuneração usado pelos grandes proprietários3. 1990). Essa é a origem da agricultura familiar no Nordeste semi-árido (Prado júnior. 1960. 2003 3 O vaqueiro recebe como remuneração um bezerro em cada quatro que nascem. o Nordeste torna-se a região "rejeitada" do Brasil. 2 IN: Camponeses do Sertão: Mutação das agriculturas familiares no Nordeste do Brasil. 04 a 10 de novembro de 2007. voltada para o comércio. o mercado fundiário. a integração econômica é limitada. a não ser por compra. porém.42 - . 2). a escolha é feita pelo proprietário. então. também. EMBRAPA Informação Tecnológica. a Lei da Terra torna impossível a obtenção de terras. dedicada às necessidades do mercado europeu. desde a colonização. No século 20. aos vaqueiros dos fazendeiros comprarem terras. Foi no litoral que se constituiu a primeira ilha do "arquipélago brasileiro" e onde o primeiro dos grandes ciclos econômicos do Brasil se desenvolveu (Thery. no início do século 19. 1990) . Mas a concentração das riquezas nas mãos de uma minoria e o caráter excêntrico da economia (importação de produtos de luxo graças aos recursos advindos das culturas de exportação) frearam o desenvolvimento da Região. pois é capaz de absorver ou reter contingentes significativos de população. A lei é votada sob a pressão de grandes proprietários cuja preocupação é limitar a ocupação ilegal de terras. A produção agrícola alimentar era limitada (Andrade. Em 1850. Instaura-se. Com efeito ela regulariza a situação dos ocupantes. O Nordeste. outras culturas contribuíram para um certo dinamismo econômico. o desenvolvimento das plantações de cacau no sul do Estado da Bahia". semi--árido2 Contexto e Diversidade das agriculturas Familiares no Nordeste semi A agricultura brasileira esteve. segundo Thery (1995a). Porém. o sertão assume o papel de pulmão demográfico do Brasil. 1981. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). as transferências financeiras oriundas da União para o Nordeste foram constantes no decurso dos 2 últimos séculos. muito cedo conheceu a prosperidade. Brasília.0 a 4. Como bem destaca Martine (1992). modificar muito essa situação. Porém. Patrick Caron e Eric Sabourin/org. pelo assentamento de inúmeras famílias. Andrade. Em contrapartida. em seguida. de fato. Permite. e. Entretanto. estas jamais compensaram as grandes transferências de capital e de recursos humanos do Nordeste para o Sudeste (Oliveira. Cuert-Muller (1994) mostra que entre 1970 e 1985 a população trabalhando no setor agrícola passou de 3.2 milhões de pessoas. essa lei se traduz. graças a exportações de açúcar para a Europa. e nelas instalar-se com seus rebanhos. 1967). "nenhum dos ciclos posteriores veio. Fig. Garcia júnior. se bem que dois episódios tenham contribuído para diversificar a base econômica regional: o cultivo do algodão que permitiu uma ocupação mais densa da zona semi-árida.

1981). ditada por relações do tipo paterna lista. remunerados por um proprietário frequentemente ausente. Em 1958. reforça o poder indiscutível dessa elite. e modernizar o setor agrícola. Fonte: Thery. facilitando a transformação dos latifúndios4 e de pequenas um idades agrícolas camponesas em empresas rurais5. controlada pela elite local. . em particular Celso Furtado. Sua distribuição. 4 5 Latifúndio: propriedade de grande porte. o Polígono das Secas. desafio que explica suas ampliações sucessivas em 1946 e 1951: hoje essa área estende-se por 936. quanto a seus dependentes. foi delimitado um perímetro de 620 mil km2. 1995a. Empresas rurais: forma de organização reagindo essencialmente a uma lógica econômica.Sudene -. Expansão territorial: frentes pioneiras e ciclos econômicos. administração encarregada pelo governo federal do "planejamento regional global" (Oliveira. "Em 1936. 04 a 10 de novembro de 2007. procuraram promover a industrialização. depois de um período extremamente seco. 1991 b). A rentabilidade do investimento é o 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE).993 km2 (Thery. tornada produtiva por dependentes. definindo a área onde a ajuda do governo federal poderia ser concedida. 2. no ano seguinte. Os intelectuais que a dirigiam. à Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste . foi criado um grupo de trabalho que daria origem.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Fig. subexplorada. por meio de lima política de incentivos fiscais. 1995a). O proprietário segue uma lógica territorial.43 - . Alguns evocam a indústria da fome para explicar os lucros que daí retiram. O montante da ajuda da União é diretamente proporcional à extensão das crises climáticas das secas (Molle.

alguns anos mais tarde. entre outros. uma maioria significativa dos produtores das comunidades do sertão. tabaco ou cana-de-açúcar) ou temporárias. são questões dirigidas à pesquisa nacional. a extensão da rede rodoviária foi triplicada. São Vicente. e os recursos financeiros corriam em abundância. ao mesmo tempo. logo se tornaria um verdadeiro tabu. pode~se falar em agricultura camponesa onde subsiste uma sociedade camponesa marcada por relações de proximidade e de interconhecimento. resolver os problemas ligados à pobreza. o período dos projetos públicos e do crédito subsidiado: Polonordeste. do cofinanciamento de infra-estruturas comunitárias (escolas. construídas essencialmente pela mobilização gratuita da mão-deobra local (Amman. sobretudo. As migrações de agricultores do Sertão foram por muito tempo essencialmente sazonais (colheita do café. A demanda de mão-de-obra no sul é grande. principalmente nas frentes pioneiras e nas regiões de êxodo. se a implantação das infra-estruturas foi satisfatória. Apesar de sua conotação política ou ideológica desfavorável. Chapéu de Couro. surgiu. com o retorno à democracia. ainda. etc. Em contrapartida. 04 a 10 de novembro de 2007. geralmente. A implantação de infra-estruturas marca os primórdios dessa política e mobiliza o essencial dos meios financeiros. o papel do setor agrícola em geral. específica ao contexto brasileiro7. esse apego é real. a de estradas asfaltadas foi decuplicada (Thery. Ao final de alguns anos. No sertão. o sentimento de crise traduz-se. porém. o apego ao campo na região de origem continua relativo. por uma autonomia relativa quanto ao mercado e pela mediação de poderosos locais. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Está associado à permanência de uma sociedade camponesa no sentido usado por Mendras (1976)6. considerada a possibilidade da reforma agrária. O temor suscitado pelos movimentos sociais de ligas camponesas junto às elites regionais do Nordeste muito contribuiu para o golpe militar de 1964. no Sertão nordestino. por discursos recorrentes sobre a escalada da violência. a incapacidade de controlar a hipertrofia das metrópoles com a redução do êxodo rural e de travar os fenômenos de empobrecimento. O assunto. excluindo as pequenas empresas familiares. os índices de desenvolvimento foram menos evidentes. então. Essas denominações não têm todas o mesmo sentido. o objetivo principal. Em sua origem. O conjunto da classe política e. 1995a). agricultura camponesa. De modo clássico. Foi a época do milagre econômico brasileiro. No decurso dos anos 60. então. minifúndio. vem o tempo das dúvidas. 1985).). As inquietações em relação ao modelo de desenvolvimento brasileiro. a sociedade tomou conhecimento das dificuldades com as quais se depararam esses projetos. Inúmeras denominações são utilizadas quando se evoca a agricultura familiar: pequeno produtor. . poços e açudes. tratou-se. Sertanejo. esses projetos visavam reforçar a emergência de pólos de desenvolvimento.44 - . O termo agricultura camponesa qualifica somente uma parte desse universo. Após o mito da modernidade. em particular com a implantação de perímetros públicos de irrigação e. Projeto de Apoio ao Pequeno Produtor Rural (Papp). O êxodo rural não se estanca. postos de saúde. Nos anos 80. e aquele da agricultura familiar em particular. armazéns. Os movimentos da população rural sempre foram. importantes. em escala nacional. caracteriza. e ainda são.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Foi. agricultura de subsistência. As relações de trabalho organizam-se em torno dos assalariados. O modelo de desenvolvimento imaginado é um compromisso que alia modernização e emprego rural por intermédio do apoio à agricultura comercial e da organização de comunidades rurais de pequenos produtores. 6 7 Segundo a definição de Mendras (1976). de modo mais amplo. No Brasil. após o golpe militar de 1964.

como a valorização da mão-de-obra familiar e a autonomia da gestão dos meios de produção (Sidersky. entre dois domínios. de cada um dos lados dos riachos. Houve igualmente litígios entre o Estado e a Igreja. com a proclamação da República.45 - . 1992). às margens da zona semi-árida (ver mapa 1 em anexo). chamados de coronéis ou fazendeiros. segundo as regiões de Sertão. nas terras das tribos indígenas dos Tupis. Muito rapidamente. Como nos mostra Silva (1999). 04 a 10 de novembro de 2007. 1992)9 A ocupação efetuou-se em diferentes datas. 1998). situadas nas falhas geológicas (Mal/e. pela imprecisão dos limites territoriais. sem limites físicos determinados. concedidas pelas capitanias _ representando a Coroa portuguesa . Eram de natureza feudal e colocavam as grandes famílias umas contra as outras ou contra as comunidades indígenas (Garcez & Sena. 1991b). certas características comuns. A colonização do Sertão Os primeiros domínios fundiários do Sertão foram conquistados no século 17. pelos meados do século 17. na falta de melhores termos. A separação entre a Igreja e o Estado. aos grandes proprietários rurais. A agricultura familiar. apresentando. Tais litígios diziam respeito ao direito de recolher impostos. . As sesmarias eram medidas em léguas8. pelo absenteísmo dos proprietários das terras e pelos fracos investimentos no setor agrícola. opôs-se a partir de 1840 à paróqui local. a presença de recursos hídricos. as sesmarias.aos nobres. correspondendo às terras aluviais dos vales ou várzeas. No Sertão central. "mais de 340 8 9 Uma légua corresponde a 6 km. às margens do São Francisco. nos iin do século 19. quanto a concessões anteriores ieita pela colônia portuguesa às ordens missionárias encarregadas de catequizar a comunidades indígenas. Eram verdadeiros impérios. a maioria da~ terras pertencia a duas famílias: Guedes de Brito e Dias D' Ávila Esta última possuía. aos senhores da terra. alvos preferenciais da política de modernização. em 1710. No caso de luazeiro. reagrupa expressões sociais e modos de produção muito diversificados. A agricultura irrigada é recente e seu potencial é limitado a 5% dos 940 mil km2 da região. É em função desses elementos que parece pertinente definir agricultura familiar. para evitar misturas de gado e outros litígios (Garcez & Sena. a localização estratégica de determinados locais no cruzamento de eixos de comunicação foram critérios determinantes. entretanto. Agricultura familiar: uma história de resistência e adaptações A história da agricultura familiar do Sertão se confunde muito com aquela da evolução dos sistemas de pecuária (Caron. A colonização foi caracterizada pela concentração. pela demarcação dos respectivos perímetros: o da paróquia e o do municípic 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). 1989). Era comum manter uma margem de uma légua. as características mais ou menos hostis do meio local. em 1927. como o conjunto de formas de produção que se opõem aos latifúndios e às empresas rurais. as migrações definitivas constituem um fenômeno recente. ( Município de Juazeiro. assim identificada. o litígio só ioi resolvid. As vias naturais de acesso. os primeiros conflitos eclodiram. com o pequeno capital amealhado durante o exílio. agravou ainda mais a situação. surgido nas últimas décadas. A agricultura sertaneja continuou por muito tempo apenas produtora de víveres e marginal ou concentrada nas zonas mais elevadas e úmidas do Agreste e do brejo.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG agricultor voltava à sua região natal para comprar um pedaço de terra ou um rebanho. não concedida a ninguém.

1977). Os enormes latifúndios começaram a fracionar-se em virtude do absenteísmo dos proprietários e da crise da pecuária bovina. em épocas mais tardias A região de Pintadas. . O recuo econômico e o surgimento dos camponeses No decurso do século 18. fonte permanente de água. enquanto as regiões: vizinhas (Mundo Novo. 04 a 10 de novembro de 2007.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG léguas de terras à~ margens do Rio São Francisco e de seus afluentes" (Andrade. Baixa Grande) já haviam sido ocupadas desde o século anterior. Fig. no centro do Estado da Bahia. 3. 1986) A ocupação aconteceu porém. Pintadas situa-se numa região menos chuvosa. (Fig.46 - . Localidades mencionadas na descrição do processo de colonização. foi explorada a partir do século 19. 3). fora dos eixos de comunicação e não dispunha de nenhum. muitas vezes. por exemplo. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). o crescimento do setor mineiro de Estado de Minas Gerais e a crise no setor açucareiro acarretaram uma crise na economia nordestina e o deslocamento da bacia pecuária para o Sul do Brasil (Furtado.

desde a Guerra de Secessão. escravos alforriados ou ex-condenados tomaram posse de terras situadas entre as sesmarias ou mesmo inexploradas (Prado Júnior. Hoje seus membros são os descendentes dos primeiros ocupantes ou dos compradores das antigas fazendas. Nas zonas mais áridas. o caso do sisal ou da mamona. eram preferidos aos bovinos. a apropriação do espaço e a modernização agrícola Desde o início do século 20. sementes de mamona e pequenos ruminantes eram vendidos para comprar outros produtos: pimenta-do-reino. Essa evolução concerne principalmente aos Estados do Ceará. O arame farpado que substitui as cercas de madeira. a demanda de mão-de-obra é grande e é essencialmente familiar e os contratos de meeiros são quase inexistentes (fora aqueles com os fazendeiros). Paraíba e Pernambuco. Certos produtos como queijo. As culturas ocupavam pequenas áreas cercadas. também. Comunidades apareceram e materializaram-se em sítios nas proximidades dos poços. É. logo sua construção e manutenção representam uma obrigação significativamente onerosa com mão-de-obra. As frentes pioneiras. As cercas necessárias à proteção devem ser de madeira.382 20 anos mais tarde. O algodão sempre esteve associado à pecuária. no Sertão central da Bahia. em particular sobre os percursos na Caatinga. Uma economia camponesa surgiu e desenvolveu-se a partir das pequenas unidades agropecuárias. Nas zonas mais favorecidas pelas chuvas. As incertezas climáticas tornavam aleatória qualquer atividade agrícola praticada. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE).) e. a indústria inglesa investiu· no Nordeste. para as gramíneas. A estrutura fundiária local e a presença ou ausência de grandes fazendeiros condicionam as dinâmicas pioneiras. tecidos. enfim. por exemplo. entre outros. Eles são os primeiros que historicamente cercam os pastos. Em razão da Guerra de Secessão e do desmoronamento da produção norte-americana. a área de extensão do algodão jamais ultrapassou 21. até então.47 - . A falta de forragem na época das secas leva grandes proprietários a cercar suas terras a partir da década de 20. . a pecuária era consolidada pela cultura do algodão "Mocó" (arbustivo). De fato. Os meeiros produziam algodão nas terras dos fazendeiros. Rio Grande do Norte. para a palma forrageira (Opuntia sp. nos anos 70. como o capim-buffe/ (Cenchrus ci/iaris). os pequenos proprietários estabeleceram-se. mais adaptados às secas e às necessidades de consumo das famílias camponesas.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Com a Lei da Terra. A difusão de plantas perenes permite aproveitar novas oportunidades de mercado. O plantio de alguns hectares a cada ano permite marcar o território e estender as áreas em "propriedade privada". As roças e as técnicas para as culturas são manuais. 1993). mestiços. permite cercar mais rapidamente grandes áreas e demanda pouca manutenção e mão-de-obra. O algodão estendeu-se rapidamente. 1960). A presença de fazendeiros acentua a pressão sobre o espaço e seus recursos.6% da área total do Sertão. os caprinos. No Estado do Ceará.223 a 93. café. o caso da produção de forragem a partir dos anos 30. o número de unidades agrícolas passa de 16. Começa a apropriação individual de recursos explorados. a partir de 1950. Numerosos vaqueiros. 04 a 10 de novembro de 2007. a partir dos anos 60. cujos rebanhos valorizavam os restos de culturas. Elas exigem menos mão-de-obra do que as culturas alimentares anuais10. Segundo Silva & Lima (1982). coletivamente. a partir do século 19. o crescimento demográfico traduz-se por uma pressão sobre o espaço. ainda mais porque os primeiros zebus introduzidos nessa época são menos resistentes às condições climáticas do Sertão. É. graças aos meios financeiros dos quais dispõem ou que podem mobilizar por meio dos projetos 10 As áreas de cultura anuais continuam escassas e raramente ultrapassam 2 ou 3 hectares por unidade familiar. sal. mesmo quando as cercas são construídas na época das secas. em 1850. É o caso do algodão "Mocó". enquanto as áreas agrícolas só aumentam em 50% (Bazin. na maioria dos casos. para prover as necessidades de consumo. cada vez mais numerosas.

Assim. Assistimos à generalização das cercas de 3 ou 4 fios de arame farpado. os minifúndios. na estação seca. . para aqueles que dispunham dos meios. Os espaços diversificam-se. Eles permitem o aumento da capacidade de pastoreio e. 12 O termo Caatinga é formado por duas palavras da língua Tupi que significam floresta branca. O desmoronamento da cotação dos produtos agropecuários de cultivos de sequeiro. que foram seguidos de conflitos. que quase sempre acaba em banho de sangue ou na resignação do proprietário lesado. Outros têm como base novas regras jurídicas: a lei do "pé alto" é especialmente exemplar a esse respeito. Molle (1991 b) 11 Grilagem é o nome dado à apropriação fraudulenta de terras.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG públicos de desenvolvimento. apresenta também plantas suculentas (cactáceas e euforbiáceas). É em tal contexto que surge a irrigação. que obrigava os criadores a controlar seus animais. que se traduz pela expulsão dos ocupantes destas terras. Os sistemas técnicos de produção. em vez de cercar suas pastagens com 7 a 10 fios de arame farpado para impedir a entrada de pequenos ruminantes. a maioria dos pequenos ainda não possuía títulos de propriedade. freqüentemente. hoje. em alguns municípios.48 - . Enquanto anteriormente a situação que prevalecia obrigava aquele que cultivava a proteger seus campos. não há mais novos espaços a serem colonizados e os patrimônios fundiários continuam a dividir-se em ritmo acelerado. mas proibindo o deslocamento dos animais dos pequenos criadores. industrial e urbano. frequentemente violenta. evoluem. suportes e conseqüências dessas transformações. geralmente divididos por cercas. suficientes para os seus bovinos. ou para as frentes pioneiras da Amazônia. grande consumidora de espaço. os pecuaristas conseguiram fazer votar um decreto municipal para a aplicação de uma lei federal. eles são. bem como uma capa herbácea constituída de espécies anuais. muito tardiamente. prevalecendo a lei do mais forte. como Pintadas e Ipirá. a reconversão para a produção leiteira. em certos casos. em terras não cercadas e. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Estas evoluções e recomposições acontecem em um contexto fundiário muito incerto. Em alguns provocados. coriáceas e espinhosas. Até os anos 80. Seus animais pastam. em 1964. no Nordeste. alimentam-se da produção de forragem dos pastos cercados. Os pastos de gramíneas forrageais espalham-se consideravelmente. que dão à vegetação um aspecto sombrio e cinza durante a estação das secas. Estas imprecisões legais acarretaram conflitos jurídicos nos quais se vê o ressurgimento de títulos de propriedade datando da monarquia. no centro da Bahia. 04 a 10 de novembro de 2007. Na verdade. Aqueles que não conseguem se adaptar tornam-se assalariados agrícolas ou migram para o sul. É uma formação extremamente diversificada em função do tipo de solo e nela encontram-se árvores e arbustos freqÜentemente providos de espinhos e do tipo caducifólios. então. Essas evoluções são acompanhadas pelo crescimento rápido do número de pequenas propriedades rurais. Assim. surgiram inúmeros casos de grilagem. pela colocação selvagem de cercas em terras alheias. Tal obrigação transformou-se. provoca uma reconversão de inúmeros produtores para a pecuária. em apropriação: "a terra pertence àquele que a cerca". referência a seu aspecto durante a seca. A pressão sobre os recursos acarreta. O aparato regulamentar do Estado é deficiente. No Nordeste. a partir dos anos 80. O desflorestamento e o cultivo das áreas de Caatinga12 aumentam. Tais imprecisões são acompanhadas por uma ausência de delimitação física: os limites fundiários estão freqüentemente sujeitos a conflitos. Trata-se da grilagem11. durante a estação chuvosa. pois os fazendeiros que usavam essa prática colocavam os falsos títulos das propriedades em gavetas cheias de grilos. bromeliáceas terrestres. eles podiam reduzir o investimento a 4 fios. uma generalização rápida de cercamentos. Conflitos eclodem freqüentemente. impedindo-os de vaguear. para que ficassem amarelados. Grileiro (aquele que se apropria das terras) e grilagem vêm de grilo.

Alguns números permitem precisar essa importância social e econômica. laranja. Os esforços de modernização da agricultura não puderam impedir a concentração dos investimentos públicos e privados e a marginalização da agricultura familiar.). mas também econômica. irrigação. o que corresponde a 15 milhões de pessoas.) e de exportação (cacau.FAO. . Molle (1991 a) lembra que a agricultura foi desprezada. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). As instituições públicas de pesquisa e desenvolvimento implantadas nos anos 70 foram planejadas como instrumentos da política de modernização que visava promover o modelo da revolução verde (variedades selecionadas. Apesar de sua importância demográfica e econômica. 1994). Segundo ele. As características das estruturas sócio-políticas regionais e locais que predominaram até os anos 70 explicam. 1996). freqüentemente. ela encobre uma realidade pouco conhecida: somente há pouco tempo passa a ser objeto de atenção por parte dos organismos de apoio ao setor agrícola. lugar em uma sociedade voltada para a pecuária extensiva. a agricultura irrigada representa um estágio de intensificação da atividade agrícola que não encontra. desde o início da colonização. sociais e políticos do modelo dominante (Tonneau et aI. café. Elas foram globalmente eficazes e a produção agrícola aumentou consideravelmente.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG evoca vários fatores para explicar este atraso no desenvolvimento de uma sociedade hidráulica. a agricultura familiar reúne a maioria da população rural. desvios dos esforços empreendidos pelo governo federal. feijão. 1998). Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística -IBGE . mais da metade localizada na Região Nordeste (FAO. 1996).5 milhões de unidades de produção agropecuária. as políticas hídricas foram prioritariamente voltadas para o abastecimento de água. 1997).. deixada nas mãos dos índios ou dos mestiços. salvo por algumas situações isoladas.49 - . Engloba. seletiva e fonte de marginalização social e geográfica. Um interesse renovado pela agricultura familiar brasileira Hoje. Entretanto. ainda uma parte significativa da população nordestina. entretanto. Sua importância é não somente social. seja para os homens ou para os animais. No Nordeste. elas são beneficiadas com apenas 15% dos financiamentos públicos. Desde meados dos anos 80. utilização intensa de adubos e pesticidas. ou seja. Elas entram em processo de avaliação e de redefinição de suas metas (Abramovay. ela reagrupa cerca de 6. os espaços geográficos e econômicos "desprezados" pelos grandes proprietários e empresas. batata. as unidades agrícolas familiares ocupam 56% da população agrícola ativa. este atraso: a rigidez da estrutura fundiária. etc. também. arcaismo e imobilismo das estruturas sociais herdadas da colonização. em absoluto.(Censo 1985). depois nas dos peões ou dos meeiros. banana. mecanização. econômico e mesmo técnico. Dos fins do século 19 aos anos 70. a agricultura familiar subsiste no contexto das rupturas e dos limites ecológicos. e concedem uma atenção particular ao contexto econômico e às condições ecológicas da produção (meio ambiente e qualidade dos produtos). tanto por sua presença de peso nos mercados de produtos alimentares (milho. etc. técnicos. Elas são responsáveis por cerca de 30% da produção agrícola nacional. A modernização foi. No Brasil. econômicos. 04 a 10 de novembro de 2007.) quanto pelos recursos e empregos que ela proporciona (Veiga. cerca de 40% das unidades agrícolas de todo o Brasil (FAO. graças à construção de grandes barragens (ver o capítulo Manejo da água nos sistemas de sequeiro). essas instituições constatam que não conseguem acompanhar a demanda da agricultura familiar no âmbito social. aproximadamente três milhões de famílias. 1996). etc. Ela ocupa. porém. por 22% do total da área agrícola (o tamanho médio das unidades agrícolas no Nordeste é de cerca de 13 ha .

reconhece que a pesquisa se mostrou ineficaz em virtude da orientação de seus trabalhos que. criar empregos. principal entidade brasileira de pesquisa agronômica. uma social e outra neoliberal. pelo aumento dos preços dos alimentos perecíveis. os produtores e os agentes de desenvolvimento não tinham vínculos com a definição e a aplicação prática dos temas e das atividades de pesquisa. pela ocupação desordenada do território nacional. Ao Estado e às instituições faltam. quer no campo técnico.50 - . principalmente. temas pouco explorado. . Os objetivos são. reorganizar o espaço. Entretanto. por exemplo." (Embrapa. pela degradação do meio ambiente. 1994a). sem valorizar a diversificação da produção da unidade agrícola nem as pesquisas econômicas e sociais sobre as "racionalidades" dos produtores e sobre os processos de inovação. porém não foi capaz de fazê-Io sem a exclusão de um número significativo de pequenos produtores. Entre outras coisas. visavam à concepção de modelos com alta produtividade biológica e com grande utilização de insumos. apesar do aumento da produção global. 04 a 10 de novembro de 2007. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). A exclusividade concedida às pesquisas disciplinares realizadas em estação experimental não levava em consideração as condições de produção. entre duas visões. Um consenso político real manifesta-se em torno do apoio que ela deveria receber. como nos países desenvolvidos. reduzir o êxodo rural. diminuir os preços dos alimentos perecíveis. pela marginalização de mais de dois terços da população rural. manejar os recursos naturais de modo sustentável e atenuar a miséria. informações e dados sobre as múltiplas realidades encobertas pelo termo genérico "agricultura familiar". As condições e as formas de acúmulo e da reprodução da agricultura familiar e a gestão de sistemas diversificados são. econômico ou social. sem levar em conta a diversidade ecológica (Embrapa. Ela tem por objetivo ancorar a análise no diferente e no complexo. Entre a necessária redistribuição inter e intra-regional e a adaptação forçada a um mercado competitivo. em geral. as divergências sobre as modalidades de implantação de um conjunto coerente de ações são importantes. este modelo de desenvolvimento.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG A Embrapa. Essa constatação leva a propor dispositivos específicos de apoio à agricultura familiar. o discurso inflamado freqüentemente toma a dianteira. A agricultura familiar está cada vez mais presente nos discursos. "A modernização provocou modificações indiscutíveis das características técnicas e econômicas da agricultura brasileira. 1994a). as instituições questionam-se sobre as formas que esse apoio poderia tomar para ser eficaz e sobre as condições da implementação de um programa de reforma agrária. Os programas de pesquisa trataram por muito tempo de uma cultura ou de um produto em particular. traduziu-se por uma deteriorização dos mercados urbano e rural do emprego. Essa síntese adota um caminho diferente. que seriam justificados pelas evoluções recentes do mundo agrícola e pelo contexto político. Enfim. A insuficiência dos conhecimentos disponíveis deixa o caminho livre para debates antes de tudo ideológicos.

mas sim por uma necessidade natural dos que vivem de salário. O termo burguesia deriva de burgos. as fábricas. os operários tratam de receber o maior salário possível para poder sustentar sua família com uma alimentação abundante e sadia. objeto de nosso estudo. que eram as pequenas localidades nos arredores dos feudos. que é o trabalho excedente não repassado ao operário na forma de salário. como a burguesia propaga. pertencem a um pequeno número de latifundiários e capitalistas. Portanto. o capitalista necessita extrair o máximo de mais-valia. inerente ao capitalismo. Lênin. O Sindicato. que a luta de classes atinge a sua plenitude. Tudo o que o operário produz acima dessa quantidade de produtos necessária a sua manutenção. é um fenômeno típico desse sistema. sintetiza de maneira simples as características desse sistema. matérias primas etc.. entre patrões e operários há uma constante luta pelo salário”. viver numa boa casa e não se vestir como mendigos. que surgem as primeiras formas de organização dos trabalhadores. não trabalha para si. alugar sua força de trabalho. dirigente da revolução russa de 1917. a sociedade se divide claramente em duas classes.que significa “representante de uma determinada comunidade”. na economia capitalista. Ele só surge no modo de produção capitalista.syndic . . Com a queda do feudalismo na Europa. obrigado a vender a sua força de trabalho aos capitalistas. num longo processo iniciado a partir do século 17. os instrumentos de produção etc. Em compensação. enquanto a massa do povo não possui nenhuma ou quase nenhuma propriedade e deve. no feudalismo e ocorre até hoje no capitalismo. e o faz por um salário. Os latifundiários e industriais contratam os operários. obrigando-os a produzir tais ou quais artigos que eles vendem no mercado. “Denomina-se capitalismo a organização da sociedade em que a terra. onde viviam os comerciantes e os artífices . mais lucro lhes sobra. por isso. Compreende-se que os patrões tratem de reduzir o salário. no modo de produção asiático. entretanto. a massa do povo trabalha para os outros. desprovido de tudo. a burguesia. Elas nascem como resultado do esforço espontâneo dos operários para impedir ou atenuar a exploração.51 - . após a superação da comuna primitiva. quanto menos aos operários. É nesse último sistema econômico. A expressão proletariado vem do latim da antiga Roma e designa os cidadãos que viviam à beira da miséria e que tinham uma prole numerosa. De um lado. Portanto. Isto ocorreu no sistema escravista. o proletariado. É dessa luta cotidiana. o patrão embolsa isso: isso constitui o seu lucro. 04 a 10 de novembro de 2007.os germes dos futuros industriais. máquinas. Para elevar os seus lucros. dona dos meios de produção instalações. Do outro. Os patrões pagam aos operários exclusivamente o salário indispensável para que estes e suas famílias mal possam sub-existir. a história das sociedades é marcada pela luta entre explorados e exploradores. A palavra surge do francês . Não aparecem por inspiração de “subversivos”. 13 Jornalista 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE).Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Origem e papel dos sindicatos Altamiro Borges13 Desde a divisão da sociedade em classes. mas para os patrões.

em que a concorrência leva os empresários a uma incessante busca por maiores lucros . a partir da introdução de novas máquinas. Com o objetivo de atrair mão-de-obra livre. que representa a consolidação definitiva desse novo modo de produção. ela não necessita mais de mão de obra especializada do artesão. eles vão congregar os operários das oficinas e das fábricas. em 1816: “Sempre nos batiam se adormecíamos. são constituídos enormes contingentes de desempregados nos centros urbanos. a burguesia inglesa imporá jornada de trabalho que atingiam até 16 horas diárias. que tinham grande poder de barganha. Num primeiro momento. com o surgimento das grandes fábricas.dirigida por Cromwell. como forma de baratear o custo do trabalho através da concorrência. “se os sindicatos são indispensáveis para a guerra de guerrilhas cotidianas entre o capital e trabalho. a burguesia golpeia os artesãos e suas corporações.no século 18. eles se generalizam. . Nesse período. posteriormente da produção manufatureira e. em 1640. Para cumprir esse papel. Após muitas marchas e contramarchas. que Marx chamará de exército industrial de reserva. as mais precárias. a burguesia se consolidou no poder. Para extrair a mais-valia. ela promoverá os famosos “cercamentos” no campo. os trabalhadores têm a necessidade de lutar pela diminuição da taxa de mais-valia. 04 a 10 de novembro de 2007. Foi nesse país que se realizou a primeira revolução burguesa da história . também agravará as contradições entre capital e trabalho. pode introduzir a mulher e o menor no mercado de trabalho. e por condições humanas de trabalho. Ele cita. O desenvolvimento do capitalismo deixará evidente a contradição desse sistema. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). atingindo outros setores econômicos. que o capitalismo encontra plenas condições para se expandir e virar o sistema predominante. acumulou capital e pode realizar a primeira revolução industrial . Nessa luta. dobrá-la e dar-lhe em nós.com a redução dos custos operacionais e a elevação da produtividade. Trabalhei toda a noite. Para Marx.52 - . nos séculos 17 e 18. pelo aumento do seu poder aquisitivo. por exemplo. fonte dos lucros. com a superação do trabalho artesanal. O capitalismo inglês vai viver a partir daí um intenso processo de desenvolvimento. com salários mais aviltados e em piores condições de trabalho. É nesse momento. no livro “História da Riqueza do Homem”. Por sua vez.considerada o “berço do capitalismo”. descreve esse brutal processo de rebaixamento do nível profissional. o depoimento de uma criança de 11 anos a uma comissão do parlamento inglês. A introdução das novas máquinas. Berço do capitalismo Os primeiros sindicatos nascem exatamente na Inglaterra . Com as máquinas.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Essa é a lógica do sistema. Através desses novos instrumentos. O Capataz costumava pegar uma corda da grossura do meu dedo polegar. são também importantes como meio organizado para a abolição do sistema de trabalho assalariado”. com o desenvolvimento do próprio sistema. focos de resistência à exploração capitalista. expulsando os servos das glebas rurais para torná-los “homens livres”. os sindicatos se tornam centros organizadores dos assalariados. Leo Huberman. certa vez”. o operariado conta com a vantagem de se constituir em grande quantidade. os que produzem diretamente as riquezas .o setor dinâmico da sociedade capitalista. Os salários serão os mais reduzidos e as condições de trabalho. Posteriormente. aptos ao trabalho assalariado. meados do século 18.

quando quebravam as máquinas. mas sim o uso que o patrão fazia dela. Afinal. Segundo José Cândido. ela constatou que não era a máquina a sua inimiga. Aos poucos. o Luddismo começou a ser superado como forma de luta da jovem classe operária. aparentemente a máquina é que era responsável pelo desemprego dos trabalhadores especializados. Outra forma de luta que será utilizada na infância da classe operária. entretanto. “Entre 1811 e 1812. “A História da Riqueza do homem”. Antes. Glasgow. A legislação repressiva não conteve o Movimento Luddista. Segundo pesquisas. propondo que os moradores do povoado não 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). a classe operária passará por um longo processo de aprendizado até encontrar as formas mais eficientes de luta e concluir que sua união é fundamental para se contrapor ao poder do patronato. que quatro anos depois foi retomado com novas máquinas quebradas em Londres. . será o boicote . refletia o estado de espírito dos artesões. pela inserção da mulher e do menor nas fábricas em condições degradantes etc. também conhecido como o movimento dos quebradores de máquinas. Preston. Esse processo de luta passará por longas experiências. da Irlanda. As greves e os sindicatos. vão gerar resistências entre os explorados. por exemplo. Dessas primeiras lutas da classe operária nasceram belos escritos e poemas. “Os homens da Inglaterra”. como o de Shelley. Inexperiente. que passou a dar maior atenção às condições de vida e de trabalho do proletariado. Sua atitude. que trabalhava numa pequena oficina em Nottingham. reproduzido no livro de Leo Huberman. a jovem classe operária viu nas máquinas o seu principal inimigo.palavra que deriva do nome de um oficial inglês encarregado de administrar os negócios do conde Erne. começou a dar sinais de assimilação dessa forma de luta. Ele se recusava a negociar e os trabalhadores passaram a fazer o mesmo. informa José Cândido Filho. 04 a 10 de novembro de 2007. Que era um erro se contrapor ao desenvolvimento do próprio conhecimento humano. reduzindo-se a pequenos grupos de trabalhadores que destruíam máquinas e espancavam os cientistas que as inventavam. O parlamento Inglês. em 1812. Um das principais formas de luta foi o Luddismo. É nesse período que se generalizava o seguro de patrimônio na Inglaterra e alguns patrões inclusive são flagrados destruindo suas máquinas para adquirir outras mais modernas. que nunca tratara da questão operária. seu gesto foi imitado em várias cidades da Inglaterra e atingiu também a França.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Todas essas condições de exploração. A própria burguesia que num primeiro momento aprovou a pena de morte. O movimento dos quebradores de máquinas também caiu no isolamento diante da sociedade. próprias do novo sistema econômico.53 - . esse operário destruiu totalmente os teares mecânicos da fábrica num sinal de revolta contra os efeitos da Revolução Industrial. autor do livro “O Movimento Operário: O Sindicato e o Partido”. uma lei que punia com a pena de morte os “quebradores de máquinas”. Dundee e outras cidades. Em pouco tempo. O termo Luddismo deriva do nome do operário têxtil Ned Ludd. expresso os avanços da tecnologia. Newcastle. “De pé ficaremos todos/E com firmeza juramos/Quebrar tesouras e válvulas/E arrasar todas as máquinas”. não aparecerão num estalo de dedos. apesar de individual. os Luddistas espantaram a burguesia”. Sir Boycott era conhecido por seus métodos truculentos no tratamento com os empregados. discutiu o assunto e aprovou. Mas experiente. os Luddistas ingleses costumavam cantar uma música que se tornou conhecida. A revolta operária repercutiu também entre a intelectualidade da época. cidade próxima de Londres.

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consumissem os produtos do Conde Erne. Este teve um grande prejuízo e afastou o oficial
inglês do cargo. A sabotagem também será usada nesse período como mecanismo de
pressão dos trabalhadores por seus direitos. O termo tem origem francesa e significa
"tamanco". Os operários franceses usavam esse tipo de calçado para danificar as
máquinas, emperrando a produção.
O salto na ação desse jovem proletariado vai se dar com o recurso da greve uma forma de luta mais avançada para pressionar o patronato. Segundo José Cândido, “A
origem do termo, liga-se à Praça da Greve (place de grève), atualmente praça do Hotel De
Ville, em Paris. Quando desempregados ou para tratarem de assuntos relativos ao
trabalho, os operários costumavam reunir-se ali. Faire grève (fazer greve) significava,
portanto, reunir-se na praça da greve. A greve foi o recurso de luta de maior eficácia nesse
período, tanto na Inglaterra, como nos demais países em que o capitalismo foi
introduzido. Esse recurso se espalhou pelo mundo, sendo encarado de diversas formas.
Para alguns, defensores da manutenção do sistema capitalista, como simples mecanismo
regulador do mercado de trabalho. Para outros, no caso dos Anarquistas, como um fim em
si mesmo. “A greve é tudo”, dirá Bakunin - um dos principais teóricos do movimento
ácrata.
Já para os revolucionários, a greve será vista como uma das principais
armas na luta de guerrilha entre capital e trabalho e como poderoso instrumento de
elevação da consciência e do nível de organização do proletariado. O dirigente da
revolução russa de 1917, Vladimir Ilitch Lênin, escreveu um texto sobre as greves.
Sindicato Clandestino
É nesse processo da luta que a classe operária sentirá a necessidade de se
organizar. É dele que surgirão os sindicatos que na Inglaterra têm o nome de trade-unions
- que significa união de ofício, de profissões. Essas jovens entidades de trabalhadores não
terão as mesmas características dos sindicatos atuais - que conquistaram o
reconhecimento legal, têm sedes, diretores afastados e gozam do direito de negociar com
o patronato. Pelo contrário. No século 17, período de surgimento das trade-unions, elas
serão clandestinas, com muita dificuldade de atuação. A burguesia verá nelas um grande
perigo. Seu temor é que elas unam o grande número de trabalhadores, até aqui dispersos
e vivendo em concorrência entre si pelo emprego. Há registro de associações de
trabalhadores com caráter sindical desde 1699. Nesse ano em Londres, uma greve dos
operários têxteis assustou o governo e a jovem burguesia - que ainda se constituía
enquanto classe. É só no século 18, quando a revolução industrial tomou impulso na
Inglaterra, que os sindicatos vão se generalizar para evitar seu crescimento, o parlamento
inglês aprova em 1799 a combination law, a lei sobre associações que proíbe o
funcionamento de sindicatos.
A violência da burguesia se dará em vários terrenos. No campo legal, elas
serão proibidas. A primeira lei que garantirá a livre associação dos trabalhadores só será
aprovada em 1812, na câmara dos Lordes, em Londres. Além de usar o aparato policial
do Estado para reprimir essas entidades, a burguesia inglesa - e posteriormente de outros
países - também utilizará as milícias privadas. Os jagunços, que hoje são uma marca do
campo em nosso país, já foram muito usados pelo patronato nos centros urbanos. Alguns
se tornaram famosos como o bando Pinkerton, dos EUA - uma poderosa agência de
pistoleiros contratada para reprimir greves e assassinar lideranças operárias.

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Aracajú (SE), 04 a 10 de novembro de 2007.
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Para se proteger dessa violência, no inicio as trade-unions agem totalmente
na clandestinidade. As reuniões são secretas; não há sedes sindicais, campanhas
massivas de sindicalização, nem mesmo negociação direta com o patronato. Algumas
trade-unions inclusive formulam “códigos de participação”, com normas para garantir a
sobrevivência da entidade. Elas fixam a triagem dos trabalhadores que devem ser
convidados para as reuniões clandestinas. A entidade dos têxteis, por exemplo, prevê um
período de observação de dois anos para avaliar se o trabalhador não é dedo-duro,
infiltrado do patrão. Só depois ele é convidado a participar das reuniões. O seu código fala
também de justiçamento dos delatores, compondo um braço armado para amedrontar os
traidores em potencial.
Aos poucos, no entanto, as trade-unions inglesas vão se consolidando. Elas
dirigem mais greves, maiores protestos. Deixam o patronato num dilema. Já que são
proibidas, o empresário não tem como negociar em momentos de greve. Isso gera
grandes prejuízos, principalmente quando não há estoques e surgem encomendas de
produtos. Diante desse crescimento das lutas operárias, é que o parlamento da Inglaterra
irá aprovar, em 1824, a primeira lei sobre o direito de organização sindical dos
trabalhadores. Essa conquista permitirá um poderoso aumento da força do sindicalismo.
Em todos os ramos industriais formam-se trade-unions. Também surgem as “caixas de
resistências” para apoiar financeiramente os grevistas.
O outro avanço nesse período será a organização de federações que
unificam várias categorias. Em 1830 é fundada a primeira entidade geral dos operários
ingleses - a associação nacional para a proteção do trabalho. Ela reunirá têxteis,
mecânicos, ferreiros, mineiros e outras profissões. Chegará a ter cerca de 100 mil
membros e editará um periódico, A Voz do Povo. Na vanguarda do movimento operário
inglês dessa época estarão os têxteis, principalmente os da concentração industrial de
Lancashire. Em 1866, com o avanço da industrialização em outros países, será realizado
o primeiro congresso internacional das jovens organizações de trabalhadores de vários
países. Ela representará um grande salto na unidade dos assalariados, que será
materializado com a fundação da associação internacional dos trabalhadores (AIT),
também conhecida como a primeira internacional.
Apesar de possibilitar um avanço da organização sindical, a lei de 1824 é
contraditória, tendo duas características distintas. Em primeiro lugar, reflete a própria
pressão organizada dos trabalhadores. Em segundo, também indica uma mudança
estratégica da burguesia inglesa. Tanto que a lei foi aprovada na câmara dos Lordes, que
reunia apenas a aristocracia inglesa. Com ela a burguesia procura novos métodos para
controlar o movimento operário. Ela não poderia abandonar o seu projeto de dificultar a
luta e a união dos trabalhadores - fundamental para sua sobrevivência enquanto classe.
Como não era mais possível proibir as trade-unions, ela adota novos meios
de interferir. Como a história vai demonstrar, mesmo legalizados, os sindicatos podem ser
reprimidos. Neste período, muitos industriais pressionarão os operários exigindo a
renúncia formal à participação das trade-unions, como forma de garantir o emprego. A
força policial continuará a ser acionada, deixando um rastro de sangue em toda a
trajetória do movimento sindical. A legalização também permitirá identificar as lideranças,
o que pode facilitar o trabalho de cooptação e corrupção - processo muito usado até hoje
pelo patronato. Além disso, é possível implantar toda uma legislação de controle dos
sindicatos - como a que existiu no Brasil após o governo de Getúlio Vargas.

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Ainda nesse período, fruto da experiência concreta, o proletariado também
desenvolverá a luta política, superando a pressão apenas por reivindicações de caráter
econômico e específico. Surge o movimento cartista na Inglaterra, que representou um
salto na ação operária. O nome deriva de uma “carta”, elaborada em 1837-38, em que os
trabalhadores reivindicam maiores liberdades políticas: direito de voto para todos,
abolição do sistema pelo qual só podiam se candidatar os que tivessem renda, voto
secreto etc. Em seu conteúdo, o cartismo já expressara a luta por liberdades
democráticas e socialistas. Ele será duramente reprimido - com inúmeros cartistas,
sofrendo processo criminal - de “alta traição” - e muitas condenações.
Em outros países, o proletariado participará de ações políticas, sendo a mais
célebre participação na Comuna de Paris. Essa foi a primeira experiência em que a classe
operária alcançou o poder político. Sua duração foi curta - de fim de março a fins de maio
de 1871. Num primeiro momento, a sede do novo poder se instalou na Câmara Federal
dos Sindicatos franceses que também era o local de reuniões da sessão parisiense da
AIT. Essa experiência, que não se alastrou e serviu de base para novos estudos dos
marxistas, foi violentamente reprimida. As tropas do exército francês, que pouco antes
havia sido derrotadas e tornadas prisioneiras pelos alemães, foram libertadas e colocadas
a disposição do governo da França, de Thiers, por ordem e Bismarck. A burguesia
superava as suas divergências para esmagar o movimento operário. A luta contra a
comuna durou uma semana. Mais de 14 mil combatentes foram mortos na guerra ou
foram sumariamente fuzilados; 5 mil operários foram deportados e outros 5 mil
encarcerados.
O próprio Karl Marx, um dos idealizadores da AIT, já havia apontado essa
necessidade de ação política ao proletariado. “O fim imediato dos Sindicatos concretiza-se
nas exigências do dia a dia, nos meios de resistência contra os incessantes ataques do
capital”. Numa palavra, na questão do salário e da jornada de trabalho. Essa atividade
não só é justificada, como necessária. Não podemos privar dela enquanto perdure o modo
atual de produção. Ao contrário, é preciso generalizá-la, fundando e organizando
sindicatos em todos os países. Por outro lado, os Sindicatos, sem que estejam
conscientes disso, chegaram a ser o eixo da organização da classe operária. “Se os
sindicatos são indispensáveis para a guerra de guerrilhas cotidianas entre o capital e o
trabalho, são também importantes como meio organizado para a abolição do próprio
sistema de trabalho assalariado”.
Papel dos Sindicatos
Nessa primeira fase de existência, o sindicalismo vai demonstrar que é um
instrumento indispensável para os assalariados. Com a expansão do capitalismo, que se
torna o sistema predominante a partir do século passado, os sindicatos vão se espalhar
pelo mundo. Deixam de ser um fenômeno na Inglaterra. Num processo dialético, em que o
capital impera, suas contradições aparecem, as lutas operárias têm início e,
conseqüentemente, surgem os sindicatos. Todos os avanços sociais, mesmo que
pequenos ou parciais, serão fruto dessa luta e da formação dos sindicatos. Nada será
dado de mão-beijada pelo capital; nada cairá do céu. Cada nova reivindicação
apresentada pelos trabalhadores representa, num primeiro momento, a redução da taxa
de mais-valia do patrão. Por isso, depende de luta, de pressão organizada. A história da
legislação trabalhista no mundo será a história da luta de classes, em que os sindicatos
jogarão um importante papel.

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Essa situação de perseguição de lideranças e de intervenção nas entidades por parte do governo ditatorial continuou. em sua opinião. desde a instauração da ditadura militar no Brasil em 1964. mesmo sobre forte pressão os trabalhadores e trabalhadoras se organizam e realizam. o Ministro Jarbas Passarinho através de um decreto intervém em vários sindicatos. Os trabalhadores e trabalhadoras enfrentaram. As ações do governo também se tornavam duras em relação a qualquer manifestação ou postura de contestação. a II Conferência Nacional de Dirigentes Sindicais. O movimento dos trabalhadores e trabalhadoras organizados em sindicatos ainda conseguiu causar grandes problemas para os ditadores em 1968. afastando os seus dirigentes que. . A UNE. com a greve dos trabalhadores e trabalhadoras da Belgo Mineira em Contagem-MG. tem logicamente desempenhado um papel importante na história política nacional. O governo ditador procurou atacar as cúpulas dos sindicatos realizando intervenções nas organizações. com um forte sindicato.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG HISTÓRIA DO MOVIMENTO SINDICAL14 De 1964 aos nossos dias O golpe militar de 1964 colocou às escuras os movimentos sociais e grevistas que tiveram grande atuação no período 1959/1963. fundada em 1937. 2001. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). marcando posição contrária à política de arrocho salarial e buscando construir junto aos operários as comissões sindicais de trabalhadores e trabalhadoras. As fortes repressões não permitiram que entre 1964 e 1977 houvesse praticamente nenhuma greve ou outras formas quaisquer de manifestação. Por outro lado. No entanto. Em 1969.57 - . em 1967. mesmo com a manifestação contrária de alguns grupos de trabalhadores e trabalhadoras que paralisavam isoladamente algumas fábricas afrontando e contestando a política econômica do governo militar ditador. e com os metalúrgicos de Osasco que. por mais “irrelevantes” que fossem. Em vários 14 Cartilha de Formação CNTE. mas sem eliminar totalmente o “germe” da subversão que se manteria vivo e crescente até o final dos anos 70. Mas. Jones Dori Goettert 15 Cf. quando as manifestações ganham as ruas e o interior das fábricas. é importante registrar o papel que a União Nacional dos Estudantes (UNE) desempenhou nesse período. desmantelando as estruturas já construídas anteriormente e impedindo qualquer tipo de articulação dos operários que intuísse a formação de um grupo opositor organizado. SANTANA. sobretudo. a luta sindical perdurou durante um grande período do pós-64 sem atingir plenamente os seus objetivos. 04 a 10 de novembro de 2007. não conseguiram disciplinar as entidades com a ordem social vigente15. desempenharam um papel importante na organização das ações dos trabalhadores e trabalhadoras. uma forte repressão às organizações que lutavam contra as políticas salariais que arrochavam o poder de compra e as condições de vida de toda a classe.

Apesar das suas várias tendências internas. A perseguição e repressão sobre os estudantes. Já para os militantes de esquerda envolvidos em ações políticas. o AI . a diversidade interna dos grupos que a compunham. o AI – 5. em diversos casos.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG momentos dessa história. já no máximo de sua condição de exploração e percebendo o momento 16 Cf. estavam institucionalizadas. 17 Cf. firmou-se como uma entidade de força política na coordenação das mobilizações e ações dos estudantes. manifestações e organizações contrárias à ditadura. A posição da UNE frente ao governo continuou sendo a de desaprovação. FPN. com a manifestação constante do operariado e com a insatisfação dos trabalhadores e trabalhadoras rurais exigindo reforma agrária. mas comungando com os ideais de transformação social (o que pouco tempo depois colocaria a entidade na mira dos ditadores). é claro. organizando manifestações e sofrendo uma violenta repressão como resposta. como inimigos da ordem estabelecida. 2001. mesmo que timidamente. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). partido do governo. através da organização no “chão das fabricas” fazer frente ao processo de controle sobre o aumento de salários baseado no AI-5. e claramente para a grande parte da classe trabalhadora. Confederação Geral dos trabalhadores e trabalhadoras e as Ligas Camponesas). agora.58 - . nenhuma melhora em suas condições de vida17. orientar as bases para continuar reivindicando e se contrapondo às políticas de arrocho salarial. principalmente num passado recente. quando os trabalhadores e trabalhadoras. No período pós-60. PSB. que claramente se posicionavam contrárias ao regime ditatorial militar imposto em 1964. o assassinato. SANFELICE. de 1968. Uma ordem que não trouxe para a maior parte da população. práticas de repressão política contra todos aqueles que pudessem ser enquadrados ou que se caracterizassem minimamente como subversivos. mesmo durante esse período vários sindicatos tentaram. em que o país viveu um momento político e econômico conturbado. acentuou-se drasticamente com o Ato Institucional número 5. a ditadura militar demonstrava ainda mais sua truculência e arbitrariedade. 1986. um pouco distantes da dura realidade vivida pelos trabalhadores e trabalhadoras. Ao fechar o Congresso e instituir um bi-partidarismo que forjava uma falsa idéia de democracia com o MDB como “oposição” consentida à ARENA. Mas. a UNE se uniu aos demais oposicionistas à ditadura (como o PCB. a violência sem limites. SEGAL. trilhando em conjunto o caminho da luta pela redemocratização. que procurava remodelar e enquadrar o movimento estudantil na “nova ordem social” ditada pelos militares16. à tortura e. 04 a 10 de novembro de 2007. trabalhadores e trabalhadoras e intelectuais. a UNE procurava demarcar as suas posições ideológicas considerando. e mesmo sendo formada em grande parte por estudantes de classe média. PTB. As greves começaram a ressurgir no ano de 1978. O AI-5 anulou o Estado de Direito no Brasil firmando um governo de direita autoritário. . Suas práticas.5 instaurou a prisão arbitrária. sindicalistas.

04 a 10 de novembro de 2007. Nascia o “novo sindicalismo”. de inserção no processo de luta da democracia. mas também se contrapõem às investidas políticoeconômicas do capital que arrochavam os salários e aumentavam a exploração do trabalho. Os operários enfatizavam que a empresa não havia cumprido o acordo de readmissão de trabalhadores e trabalhadoras dispensados em protestos anteriores. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). mesmo com a decisão do Tribunal Regional do Trabalho de considerar a greve ilegal. estão ligadas não só à resistência política contra a ditadura. p. nos momentos de negociação de salários (a data base de cada categoria). No início de março de 1979. e que tem o ABC paulista como palco inicial. que passou a ser o momento mais propício para o enfrentamento político. As greves passaram a ter um crescimento anual considerável. SANTANA. 1982. que também procurava abarcar outras questões. os trabalhadores e trabalhadoras do ABC entram em greve: são por volta de cinqüenta mil trabalhadores e trabalhadoras parados. Com a greve iniciada em 1978 o movimento expande-se e ganha força em outros estados brasileiros. As manifestações dos trabalhadores e trabalhadoras que se avolumam no final da década de 70. A partir de 1978. constitui-se um amplo movimento social de massas. O movimento alastrou-se extrapolando o ABC e chegando a outros municípios como São Paulo e Osasco. envolvendo cada vez mais categorias de trabalhadores e trabalhadoras e tendo à frente os operários das fábricas produtoras de automóveis. começam a se manifestar e a exigir melhorias no salário que possibilitassem a melhoria das suas condições de vida e de trabalho. “o terreno de suas funções sindicais. O acontecimento primeiro desse período de grande movimentação foi à greve dos trabalhadores e trabalhadoras da Saab-Scania. Essas manifestações aconteciam e continuaram seguindo esta lógica durante algum tempo. de forma a aumentar a participação e a atuação dos trabalhadores e trabalhadoras na política nacional. alcançando Minas Gerais. os metalúrgicos. abertamente.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG político favorável. 2001. e redefiniu-se em face do conjunto de agentes que. 19 Cf. é em seu “centro nervoso”. além das salariais. portanto. lutam pela democracia: fala-se hoje. A greve estende-se para o interior e o governo a declara ilegal. de democratização interna. que os trabalhadores e trabalhadoras são a espinha dorsal do movimento democrático brasileiro”. O “novo sindicalismo” extrapolava. em 1977. no Brasil.59 - . mesmo assim os trabalhadores e trabalhadoras mantêm a posição e conseguem novas adesões ao 18 MOISÉS. com início em 12 de maio de 1978. porque sem eles qualquer “abertura” ou “liberalização” apenas reconstruiria o círculo vicioso da crise do regime autoritário18. acabando por atingir outros setores da economia. que o movimento dos trabalhadores e trabalhadoras assume outros patamares. de confronto com os limites impostos pelo autoritarismo no Brasil ao pleno exercício da cidadania dos trabalhadores e trabalhadoras. indo além das questões trabalhistas dos primeiros movimentos e estabelecendo a bandeira da democratização política do país19. . Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. o ABC paulista. 31. Estas manifestações continuariam crescendo durante o ano de 1979. Contudo.

sempre articulado a outras formas de luta organizada como os sindicatos e demais associações populares. que era composta por 12 dirigentes sindicais. SILVA.Central Única dos Trabalhadores. que tem gravado em seu manifesto de fundação as idéias básicas de um projeto que visa à construção de uma sociedade igualitária. sinalizando para uma nova forma de sindicalismo. dos 16 membros que a compunham. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). que continua nos anos 80 do século XX. Será. elaborando propostas que não convencem os trabalhadores e trabalhadoras. na esfera da política institucional. nos anos 80. fazendo frente às políticas de degradação das condições de vida da classe trabalhadora.PT. A CUT tornou-se o inimigo número um das políticas governistas e se firmava como a Central que aglutina o maior número de entidades filiadas. aglutinava as correntes sindicais mais ativas. tem como pano de fundo o crescimento dos movimentos sociais organizados no Brasil e as intensas lutas dos operários do ABC paulista. 2000. É nesse momento de agitação e de organização dos trabalhadores e trabalhadoras que surgem a Central Única dos trabalhadores e trabalhadoras . criada em 1983. Já a CUT . A insubordinação dos sindicatos e o crescimento do movimento grevista. que estabelecia o prazo de 45 dias para negociação de um piso satisfatório. esta a tendência do PT: a busca da democracia plena exercida pela massa organizada e participativa.CUT e o Partido dos Trabalhadores e trabalhadoras . O contexto de formação do Partido dos Trabalhadores. O PT levanta bandeiras que extrapolavam as questões salariais e que visavam transformações políticas e sociais bastante profundas. O movimento continua até o dia 27 de março quando os trabalhadores e trabalhadoras resolvem aceitar a proposta feita pelo patronato. estabelecendo-se nesse período como uma importante organização política e social e fazendo frente de forte oposição ao governo Figueiredo e depois ao governo Sarney. A ascensão da CUT. que viam o seu poder de compra diminuído a cada mês. contudo. ainda no regime militar. que se baseava de forma clara em um projeto político anticapitalista. assim como o crescimento do PT. A inflação crescente combinadas ao baixo rendimento dos salários deteriorava as condições de vida dos trabalhadores e trabalhadoras.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG movimento que se espalha para o interior. essa afirmação pode ser feita com base na análise da formação da primeira Comissão Nacional Provisória. . declara a intervenção nos sindicatos e deflagra uma série de confrontos em praça pública entre trabalhadores e trabalhadoras e policiais. 04 a 10 de novembro de 2007. que colocavam em questão o regime de governo autoritário dos militares. é impulsionada pelo momento histórico-político de grandes 20 Cf.60 - . Segundo Ozai da Silva (2000). demarcando fortemente nesse período uma tendência ideológica socialista. sendo a participação dos sindicalistas o elemento fundamental para a formação e a caracterização do partido. em especial. Com o passar de dias de greve o Ministério do Trabalho resolve intervir na negociação. sem explorados nem exploradores20. então. de 1979. O PT surge como instrumento necessário de organização e de luta dos trabalhadores e trabalhadoras na política nacional. O governo. tiveram então como grande elemento aglutinador da classe trabalhadora a questão salarial. e em alguns dias são mais de 170 mil trabalhadores e trabalhadoras parados. no começo dos anos 80.

2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). . segundo informações em seu site. filiadas que representam 8.org. pluralista. passou a Confederação Geral dos Trabalhadores e trabalhadoras. surge a partir de críticas ao sindicalismo em curso no Brasil. aberta ao debate interno e com a sociedade”.61 - . foi criada em 1991 a partir de Congresso em São Paulo. quando foi criada a Confederação Geral dos Trabalhadores e trabalhadoras Brasileiros passando por mudanças.org. a CUT procurou estabelecer. capaz de endurecer quando preciso.CGT21. a CUT procurou na década de 1980. para Central Geral dos Trabalhadores e trabalhadoras (início da reestruturação) e 1988.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG transformações. datando de 1929. em 1962. em 1991. inclusive em relação a alguns países na América Latina como a Argentina. autônoma. com o fim da ditadura e com a crise do Estado e da economia hiperinflacionada.br 22 Site: www. com filiais em 21 Estados e conta com 1. O 21 Site: www. representados por: 1. classificado como “sindicalismo defensivo”.017 sindicatos de base. em 1986.000 trabalhadores e trabalhadoras (dos quais 30% são sindicalizados. a empreender esforços no sentido de pragmatizar as lutas com “conquistas reais para os trabalhadores e trabalhadoras”. é uma sigla histórica. à CUT) e. A Força Sindical passou. o sindicalismo brasileiro caminha na contramão dos sindicatos no resto do mundo. A Confederação Geral dos Trabalhadores . mas também de saber negociar. Enquanto nesses países os sindicatos entravam em depressão por falta de participação e por perder poder político. mas também do governo e do empresariado. hoje abrange todo território brasileiro.056 entidades sindicais. Nesse período. sobre um sindicalismo de “conformismo paralisante”. Antes de prosseguirmos. Com uma atuação política constante.000 filiados). firmar um projeto de organização e ação dos trabalhadores e trabalhadoras. A superação dessas formas de sindicalismo seria possível na medida em que se lançasse “o movimento dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiros à modernidade. em 1945. então. mantendo uma postura reivindicatória e que tinha como principal instrumento de ação e pressão e a greve.669. uma ação estratégica mais propositiva.600. elaborando propostas de políticas que poderiam ser discutidas em fóruns que contassem com a presença de representantes não só dos sindicalistas. 04 a 10 de novembro de 2007. de acordo com Alves (2000). o que corresponde a 2. é importante destacar a criação das duas outras maiores Centrais Sindicais brasileiras: a CGT – Confederação Geral dos Trabalhadores e trabalhadoras e a FS – Força Sindical. livre. por outro.cgt.forçasindical. com a implantação do modelo econômico neoliberal. para Confederação Geral dos Trabalhadores e trabalhadoras. para Comando Geral dos Trabalhadores e trabalhadoras (esmagado pelo golpe de 1964). em especial. A CGT. após o seu IV Congresso realizado em São Paulo. Com as mudanças políticas e econômicas ocorridas até o começo dos anos 90. De um lado. a crítica recaia sobre um sindicalismo de “radicalismo estéril”23 (crítica. 04 confederações nacionais e 35 federações nacionais /regionais e estaduais A Força Sindical22.br 23 A referência base das informações sobre a Força Sindical foi o site da Central. para construir uma central forte. no Brasil vivia-se o que se denominou a década de explosão do sindicalismo. segundo informações em seu site.

os sindicatos viviam um processo generalizado de enfraquecimento”25. O aumento de salário requerido pelos trabalhadores e trabalhadoras. tendo em vista que suas bases fundamentais – como o imposto sindical. Essa resistência dos trabalhadores e trabalhadoras ia de encontro às políticas de exploração do trabalho estabelecidas pelo capital industrial brasileiro da época. assim como “a luta pela aposentadoria. o princípio da unicidade sindical e a estrutura confederativa – foram mantidas. ao conquistar uma capacidade de intervenção política inédita na história do país. o monopólio da representação pelo sindicato. portanto. foram resultados dessa forma de se construir e de se fazer sindicalismo. quando. tornando-se um dos elementos mais importantes da constituição da hegemonia do capital sobre o trabalho nos anos 80 e 90 do século XX. 1997. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). política. Essa reestruturação tinha como um de seus principais aspectos a inserção de novas tecnologias que visavam à diminuição quantitativa da exploração da força de trabalho e a verticalização da exploração qualitativa. Educação e Qualificação Profissional”. nesse sentido. a classe trabalhadora. p. pelas grandes reformas – previdenciária.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Centro de Solidariedade ao (a) trabalhador (a). que se utilizava dos baixos salários pagos ao operariado como principal elemento da competitividade da indústria nacional.62 - . 25 LEITE. começava a sofrer as transformações nas relações de trabalho e de produção que sinalizavam para transformações que iriam reestruturar o processo produtivo fabril. Apesar do crescimento e da força do movimento operário dessa época. Com isso. 1997. sobretudo o operariado fabril dos anos 80. 17. em nível internacional. embora a proposta pela qual os setores de ponta do sindicalismo vinham lutando ao longo de todos esses anos – de superação da estrutura sindical corporativa e de sua substituição por uma institucionalidade sindical democrática. ele permitiu um significativo aumento da liberdade de organização e ação sindical. agrária. suas lutas deixaram marcas”24 profundas. e o “1o de Maio pelo Brasil – por Emprego. “que o movimento sindical brasileiro esteve na contramão da tendência histórica predominante durante a década de 1980. o “1º de Maio pelo Emprego” em 1998. 17. em 1999. a Qualificação Profissional. Na verdade. Pode-se afirmar. fiscal e sindical e pela flexibilização das leis trabalhistas – dando-se status à negociação livre entre empregadores e empregados com o apoio dos sindicatos e das centrais”. vinha a reordenar a organização e a gestão da produção fabril que até então 24 LEITE. A Força Sindical se assenta sobre um discurso que acentua o moderno. a pluralidade e a democracia. do judiciário. baseada no contrato coletivo de trabalho – tivesse sido derrotada pelo empresariado e pelos setores mais conservadores do próprio movimento sindical. 04 a 10 de novembro de 2007. Essa reestruturação produtiva do capital que começava a se desenhar no Brasil nos anos 80 e que já estava a pleno vapor nos países de centro da economia capitalista. p. conseguia colocar seus produtos no mercado a um preço menor que os internacionais. . não era visto como um bom negócio para o capital. Mesmo que o processo de surgimento e desenvolvimento do “novo sindicalismo” “não tenha sido suficiente para desmontar totalmente a estrutura sindical corporativa erigida desde os anos 30.

fatores que colaboraram para uma diminuição das ações reivindicatórias dos trabalhadores e trabalhadoras que se viam pressionados pelo crescente desemprego estrutural. ex-líder operário e um dos fundadores do PT. era candidato Fernando Collor de Melo. o processo eleitoral que elegeria. esse era o começo da implantação da acumulação flexível baseada no toyotismo. sem dúvida. com a reformulação tecnológica de parques industriais em pouquíssimo tempo. e que ganharia força no Brasil a partir dos anos 90. o período de 1980 a 1990. que procurava fazer resistência à ação avassaladora do capital. É que. a década foi também um período de inflação muito alta e de recessão econômica com aumento do desemprego. . é marcado pelo fim da ditadura militar (1985). e pela instalação de um governo civil proclamada como a retomada da democracia no Brasil. pelo voto direto. colocando em risco o processo de acumulação e reprodução do capital. sindicatos e demais organizações. com amplo e irrestrito apoio da imprensa nacional (leia-se Rede Globo).Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG estava montada totalmente nos moldes do esquema de produção taylorista/fordista. Mas. possibilitando a luta dos trabalhadores e trabalhadoras concomitantemente às transformações. Por outro lado. 04 a 10 de novembro de 2007. Esse novo arranjo do capital encontra ainda uma força de trabalho organizada. que mais uma vez se viu arcando com o ônus 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). se esse movimento seguiu um processo temporalmente mais lento nos países de primeiro mundo. no segundo turno. É claro que os prejuízos desse processo foram transferidos para a classe trabalhadora. de duas frentes bastante diferentes. Dois anos depois tem o mandato cassado por corrupção. o ritmo de instalação das novas tecnologias foi bastante forte e agravado pela falta de condição e de tempo que os trabalhadores e trabalhadoras tinham para se contrapor a esse movimento. fantoche criado pela burguesia e pelo poder político conservador e demais larápios nacionais. Nesse modelo o descontentamento e a organização dos operários era crescente. Para os capitalistas. Em 1989 tivemos o enfrentamento. que contava com o apoio de uma ampla gama de organização dos trabalhadores e trabalhadoras.63 - . procurando minimizar os danos e os prejuízos que o operariado sofreria com esse novo modelo de produção. Uma das formas de resistência foi à proposição da instalação das Comissões de Fábrica e a intervenção sindical no processo de decisão da inserção de novas tecnologias no processo produtivo. no Brasil as transformações aconteceram rapidamente. Implanta uma política de importação de bens de consumo e de produção. O processo de abertura da economia brasileira seguiu tornando-se mais agudo com os governos posteriores. Devemos lembrar que. com a abertura e a liberalização da economia realizada por Fernando Collor de Mello. Uma que tinha como candidato Luís Inácio “Lula” da Silva. organização do processo produtivo criada no Japão e exportada como modelo para os demais países capitalistas. Mas o estrago já estava feito. o novo presidente do Brasil. dando os primeiros retoques para liberalização da economia ao iniciar o processo de privatização das empresas estatais brasileiras. O desfecho não poderia ser pior: Fernando Collor de Melo é eleito presidente com o discurso da necessidade da abertura econômica. Um dos mais importantes fatos desse momento foi. do outro lado.

Com a criação de contratos temporários que deixaram o trabalhador e a trabalhadora desprovidos de qualquer direito. houve um número crescente de trabalhadores e trabalhadoras brasileiros vivendo o drama do desemprego. Neste novo contexto de reestruturação do capital mundial. que tem reflexos. Fernando Henrique Cardoso. que se contrapunham às Leis Trabalhistas vigentes. tornou a relação entre capital e trabalho mais injusta no Brasil.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG necessário a ser pago para o “bom desempenho” dos indicadores da economia nacional. Mas. agora na era da mundialização dos capitais. dentre outras ações. mas o faz. sobretudo as regiões de grandes indústrias. diminuindo o consumo de produtos internos e desencadeando um processo gerador de mais desemprego. aumentando de maneira extremamente rápida os níveis de desemprego no país. 17-18. impedindo que este tivesse qualquer benefício estipulado por Lei. . de maneira geral. Com as dificuldades políticas e econômicas conjunturais locais. A partir de 1994. Isso acabou barateando o custo do Trabalho para o Capital. acabar com os “entraves” gerados pelas leis trabalhistas na relação Capital/Trabalho. As ações das instituições governamentais revelaram a face intervencionista das instâncias burocráticas do Estado. garantindo às empresas maior flexibilidade no uso e desuso da força de trabalho. a política adotada foi a de continuidade da implementação das políticas neoliberais iniciadas por Fernando Collor de Melo. as ações do governo FHC procurou estimular o surgimento de relações de produção. pp. não se encontrava preparado”26. gerando novos desafios para os quais o movimento sindical. diminuindo gastos na esfera social e contribuindo na soma das transformações estruturais do processo de produção capitalista em nível mundial. 26 LEITE. ao abrir abruptamente a economia brasileira. desde que seja para utilizar o poder político institucional para a otimização das condições de reprodução do Capital. a situação do movimento operário muda significativamente com a chegada dos anos 90. sem impedimento legal e reduzindo a contestação no campo institucional formal por parte dos sindicatos. favorecendo sobremaneira o primeiro. como a automobilística. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Conseqüentemente. tem-se um aumento da miserabilidade de grande parcela da população brasileira. Nesse sentido. forçou as empresas a acelerar seus processos de reestruturação produtiva. As transformações do modo capitalista de produção têm se realizado no Brasil com mais força no âmbito da implantação de políticas de cunho neoliberal e procuraram. também. Montado no discurso de geração de postos de trabalho. 04 a 10 de novembro de 2007. A implementação pelo governo federal de um modelo político econômico centrado no neoliberalismo. que de acordo com os princípios liberais não deveria intervir no movimento do mercado. privatizando as empresas estatais.64 - . “A política econômica neoliberal inaugurada pelo governo Collor em 1990 jogou o país numa profunda crise recessiva. 1997. um fenômeno que afetou e afeta. ao mesmo tempo em que. com a eleição do Presidente. com o governo se empenhado em seguir amplamente a “cartilha” do Fundo Monetário Internacional. noutras regiões e setores do país devido à implantação de políticas econômicas que abrem o mercado brasileiro para produtos externos. mais trabalhadores e trabalhadoras buscam na informalidade formas de ocupação.

corrobora sem disfarce à sua vinculação com o Capital. Neste sentido. SINGER. os pronunciamentos e as atitudes tomadas pelo governo. reduz o poder de luta organizada da classe trabalhadora. se refletindo no esvaziamento dos sindicatos. longe de serem uma anormalidade pelas forças econômicas e políticas dominantes. contando muitas vezes com a participação de algumas organizações sindicais. conseqüentemente. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). . são vistos. até pelos discursos oficiais. do trabalho informal. Enquanto o discurso oficial pregava a regularização e a regulamentação dos trabalhadores e trabalhadoras e das transações econômicas informais. 04 a 10 de novembro de 2007. Esse fato pode ser constatado se analisarmos os projetos que visavam modificações nas leis que regiam os contratos de trabalho. tornou-se crescente o desemprego. 1998. o discurso ideológico que sustentava as ações governamentais estava fundado no liberalismo econômico. O fenômeno crescente do desemprego e da precarização do trabalho. da desregulamentação e do desmantelamento do aparato institucional que garantia alguns direitos básicos à classe trabalhadora. a sofrer pressões sobre os seus salários e seus direitos trabalhistas.65 - . que se reconfiguram modificando a legislação ou mesmo desobedecendo-a. Pautado em pressupostos liberais. Desta forma. no trato das questões relativas ao Trabalho e à economia informal. como forma de evitar o aumento do desemprego. Desta forma. que se mostra o desgaste e a fragilidade das atuais formas de organização dos trabalhadores e trabalhadoras. como conseqüências naturais da nova ordem política e econômica estabelecida para a organização e participação dos atores econômicos no mercado capitalista. neste contexto de precarização das relações de trabalho. que são em sua maior 27 Cf. ou que permitiam que houvesse contratos de trabalho que não atendessem aos princípios da legislação. ficou evidente uma outra contradição na forma de atuação do Estado. que tem como diretriz a desregulamentação. O mesmo Estado que em outros momentos procurou mostrar-se como mediador ou imparcial frente ao confronto Capital X Trabalho. que de outra maneira só poderia ser conseguido com o crescimento econômico. é no crescimento do desemprego. para melhor colaborar com o atual contexto organizativo do Capital. Assim. fica evidente o desmonte do já insuficiente aparato institucional de proteção ao trabalhador e a trabalhadora. Os que continuam formalmente empregados passam. que precariza o emprego e.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Nesse período. foram de estimular a informalidade e a precarização do trabalho. o governo FHC sempre procurou justificar a aceitação do crescimento contínuo da precarização das relações de trabalho alimentando uma política de desregulamentação do mercado. estimulando a ampliação das condições para o aproveitamento e exploração da força de trabalho. frente à “intempéries” do mercado e das investidas extremas de espoliação dos empregadores. cuja existência passa a ser denunciada como obstáculo à expansão do emprego formal27. o que colabora para a degradação das condições de trabalho daqueles que continuam formalmente empregados. Esta situação demonstra o poder de influência da classe dominante sobre os aparelhos do Estado.

como acontece atualmente com os metalúrgicos do ABC.66 - . organizando. pareça não dizer respeito a outras categorias de trabalhadores e trabalhadoras. é que os sindicatos perdem atualmente o seu poder de representação. organizar os trabalhadores e trabalhadoras que estão fora do mercado de trabalho formal. Com o aumento do desemprego e da informalidade do trabalho tem uma diminuição considerável de sua base de representação. representam e defendem os direitos de determinada categoria28. que por serem reconhecidamente institucionais trabalham dentro de normas que não permitem. os sindicatos. e não um projeto de organização dos trabalhadores e trabalhadoras para o enfrentamento da atual política econômica. E por estar organizado política e estruturalmente desta forma fragmentada e institucionalizada. Há uma preocupação maior em reintegrar o desempregado ao mercado de trabalho. o que tem impedido por vezes a participação conjunta de toda a classe trabalhadora em suas reivindicações. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). ou no não-enfrentamento por parte destes das atuais condições de exploração do trabalho. como não poderia deixar de ser. pelos motivos aqui apontados. pois como sabemos os sindicatos acabam por representar um fragmento da classe trabalhadora. que privilegia a dimensão de categoria e profissional. Esta fragmentação colabora para que os problemas enfrentados por determinada categoria que cumpre sua função na divisão social do trabalho. estão fora da sua área de atuação legal. informais. A diminuição da participação dos trabalhadores e trabalhadoras nos sindicatos. Como instituição. a precarização torna-se um elemento corrosivo da base sob a qual se assenta a legitimidade e representação dos sindicatos. Combinada a terceirização ao desemprego. a representatividade sindical é corroída à medida que sua pretensão de falar pelo mundo do trabalho ou ao menos de sua parcela majoritária torna-se crescentemente insustentável.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG parte sindicatos que organizam. No aumento da informalidade e de seus efeitos sobre os sindicatos. leva. têm deixado de ser um instrumento de luta dos trabalhadores e trabalhadoras frente ao Capital para passar a 28 Atualmente os sindicatos têm lutado muito mais para a manutenção do emprego do que por melhorias nas condições de trabalho e de salário. a maior exposição de algumas categorias de trabalhadores e trabalhadoras às investidas dos capitalistas no sentido de diminuir o custo do trabalho. 04 a 10 de novembro de 2007. em tese. estes trabalhadores e trabalhadoras. As greves. estão fracionados para representar as diferentes categorias. sobretudo no que diz respeito aos direitos trabalhistas conquistados através da luta organizada. Todo esse novo contexto. que tem no avanço tecnológico uma maneira de poupar quantitativamente a força de trabalho. com o enfraquecimento da entidade representativa. temos que considerar a fragmentação existente entre os sindicatos instituídos de acordo com a categoria de trabalho. já que os desempregados e os trabalhadores e trabalhadoras precarizados. uma categoria específica e não a todos os trabalhadores e trabalhadoras. somada à insegurança no emprego gerada pela reestruturação produtiva. também legalmente contratados como uma força conjunta frente ao capital. seja pelo desemprego ou pela informalidade. em grande medida. ou não tornam interessante. tem se refletido nas atuações dos sindicatos. . Logicamente.

reforma agrária. 04 a 10 de novembro de 2007. os professores da rede pública de ensino federal e estadual. O sindicalismo do Brasil nos anos 80 inovava nas suas reivindicações pela criação das comissões de fábrica e desafiava o capital. enquanto forma de organização unificada dos trabalhadores e trabalhadoras.67 - . organizando as greves gerais em oposição às políticas adotadas pelo governo brasileiro. chegando a vinte milhões de trabalhadores e trabalhadoras29. semana de quarenta horas e estabilidade de emprego. 29 Cf. como temos visto nos últimos anos. BOITO. em pleno regime militar e protestava contra um decreto que modificava a política salarial. nas técnicas utilizadas nas fábricas japonesas e que correspondiam melhor as vontades do capital internacional. ALVES. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). colocando em questão o controle exercido durante todo período de implantação do capitalismo industrial no Brasil. 2000. Essa última greve também contou com a participação ativa de vários setores: os metalúrgicos e trabalhadores e trabalhadoras da indústria automobilística e química. A quarta greve aconteceu em 1989. ainda. Ao todo foram quatro greves gerais nesse período.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG realizar ações. A segunda aconteceu em 1986. o Plano Verão. que procurava a manutenção do controle sobre o trabalho no lugar da produção. em protesto contra o Plano Cruzado II. Necessário se faz. . que o surto de reestruturação produtiva no Brasil sofre um novo avanço. apresentar com maior profundidade a atuação da CUT nas décadas de 1980 e 1990. que modificava a política de indexação dos salários. É justamente no período dos anos 80. protestando contra mais um plano de estabilização do governo. que visavam dar maior espaço e criar melhores condições para o desenvolvimento capitalista no Brasil30. contrapondo-se ao Plano Bresser e que tinha como motivação as modificações nas políticas salariais. particularmente contra o fim do congelamento de preços. o número de grevistas nesta greve dobrou em relação à de 1987. A terceira greve geral comandada pela CUT realizou-se em 1987. 30 Cf. entre outros. principalmente em relação às greves. tendo a participação de dois a três milhões de trabalhadores e trabalhadoras. composta nesse período pelas correntes sindicais mais ativas. A CUT. sobretudo. 1999. A primeira acontece em 1983. de manutenção de empregos e de alguns dos direitos conquistados historicamente. os petroleiros. de maneira a incorporar as novas tecnologias nos processos produtivos e implementar novas formas de gestão e controle da produção baseadas. A principal característica da greve foi a de ser uma reação ofensiva da classe trabalhadora brasileira no sentido de se contrapor às investidas do capital e conquistar direitos para a classe trabalhadora. As greves gerais arquitetadas pela CUT resultaram em fortes movimentos de contestação e foram de grande importância política. Adotava uma postura oposicionista franca e direta de maneira a construir uma estratégia sindical combativa em relação à política pró-monopolistas. mas o movimento dava também ênfase a palavras de ordem como: não ao pagamento da dívida externa. pró-imperialistas e pró-latifundiária do governo. que nesse período também sofria as conseqüências das ações políticas e econômicas comandadas pelo governo. teve grande expressividade no movimento operário dos anos 80.

Tais fatores. 04 a 10 de novembro de 2007. do que movimentos de reivindicação e de tomada de controle do processo produtivo ou de contestação ideológica. tem colaborado para a precarização das relações de trabalho no Brasil e. o aumento das importações. o que permitiu uma investida mais dura do capital sobre os trabalhadores e trabalhadoras. e logicamente a CUT. o desmantelamento do parque industrial nacional e o crescimento da miséria e do desemprego. participam de um novo contexto histórico e social no Brasil. ou na intenção de manter os empregos existentes. a luta sindical. apoiado pelas políticas do governo nacional que estimulou e legalizou a precarização das relações de trabalho.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG A partir dos anos 90. Um projeto que visava criar as condições para instauração do neoliberalismo e que. As greves deste período foram muito mais na busca de manter os direitos sociais conquistados historicamente. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). o sindicalismo classista e unificado que havia sido obstáculo durante os anos 80.68 - . Essa crise da organização sindical brasileira acabou por colaborar para a instauração do novo modelo político e de acumulação. conseqüentemente. mesmo com a saída vergonhosa de Collor via Impeachment. A abertura da economia para o capital estrangeiro. nos anos 90 desarticula-se e se torna debilitado em sua capacidade de movimentação e organização da classe trabalhadora. pois. é eleito também um projeto neoliberal para a política econômica brasileira. Com a vitória de Fernando Collor de Mello nas urnas e pelo voto popular. para o enfraquecimento das formas organizativas e de luta da classe trabalhadora. . continuou a ser orquestrada pelos seus sucessores Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso. somados à reestruturação do processo produtivo com base na aplicação de novas tecnologias. são produtos conhecidos e visíveis desse processo de liberalização da economia.

disposto a lutar de forma unânime pelas mesmas bandeiras. e de geração. melhoria e desenvolvimento do capitalismo”. A ENFOC não se propõe a aprofundar todas as concepções e correntes politicas.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG CONCEPÇÕES E CORRENTES SINDICAIS NO BRASIL Amarildo Carvalho de Souza e Domingos Corcione A trajetória das concepções e correntes políticas que constituíram e constituem o movimento sindical brasileiro. mais também. as organizações sindicais e os movimentos populares. construída ao longo dos seus 43 anos de existência. no campo e na cidade. aliás. 04 a 10 de novembro de 2007. Esperamos que estes textos estimulem aos participantes do 1º Curso da ENFOC. étnicas. no campo e na cidade. Nesse sentido. que significa “contra o governo. os Anarquistas defendiam as seguintes idéias:  O capitalismo deve ser derrubado e. raciais. muitas vezes distintos. Quanto à Sociedade e ao Estado. . luta não apenas por melhores salários. Inclusive. de visões de mundo e de projeto de sociedade. mais que isso. revela o grau de independência e maturidade política da classe trabalhadora brasileira. A reflexão e aprofundamento dessas concepções e correntes. A classe trabalhadora. Os trabalhadores e trabalhadoras não são um todo homogêneo e monolítico. de gênero. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). existem segmentos que muitas vezes expressam programas de “conservação. econômicas. deve ser implantado o socialismo. Foi feita a opção de nos debruçar sobre 04 concepções e correntes. na perspectiva de uma maior compreensão da trajetória e contemporaneidade do sindicalismo no Brasil. como alternativa. constituem-se em espaços privilegiados de enfrentamento de interesses. a autoridade e a dominação”. parte da identidade política do Movimento Sindical dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais. a pesquisar. pela superação das desigualdades sociais.69 - . Existem diferentes níveis de consciência de classe. AS PRINCIPAIS IDÉIAS DO ANARQUISMO Anarquismo vem da palavra grega ANARQUIA. refletir e compreender as ‘idéias’ que promoveu a constituição e consolidação do movimento sindical brasileiro. é reveladora do grau de desenvolvimento da luta de classes. no campo e na cidade. politicas.

Não consideravam a aliança com a classe média. que derrubará o sistema capitalista. levando-as sempre mais adiante. em formas federativas ou em confederações: em nível local. parlamento. visando organizar a greve geral. Por meio de Proudhon31.).que foram seus primeiros idealizadores . que possam favorecer a conscientização dos trabalhadores e trabalhadoras. o socialismo sem classes e sem Estado.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG   O socialismo deve ser democrático. Devem se unir segundo os ramos de produção. formar sua consciência política. Para eles os sindicatos:           Devem ser a arma principal de luta para derrubar o capitalismo e implantar o socialismo. Devem ser organizados em pequenos grupos de fábrica ou por ofício. na França. como classe que se opõe à classe dos patrões. Pregavam a revolução proletária. O ANARQUISMO NO MUNDO O anarquismo se iniciou na metade do século XIX. Os anarquistas assumiam uma posição antiparlamentarista e antipartidária. sustentados exclusivamente pelos trabalhadores e trabalhadoras. Deve organizar somente os trabalhadores e as trabalhadoras. polícia. 31 Precursor do anarquismo enfatizava o respeito à pequena propriedade. Devem ser formados somente por trabalhadores e trabalhadoras conscientes. sem nenhuma interferência do Estado. a auto-gestão e o internacionalismo proletário. Deve organizar os trabalhadores e as trabalhadoras.70 - . Bakunin32 . boicotes.. forças armadas. descentralizado. Devem priorizar a ação direta (mobilizações. Devem ser organizados a partir do local de trabalho e implementar as lutas reivindicatórias.e de outros seguidores. poder judiciário. É preciso lutar contra o Estado (governo.. estadual e nacional. greves). as eleições e a Igreja. 04 a 10 de novembro de 2007. Os anarquistas eram contrários à liberação de dirigentes sindicais. onde todos tenham condições de participar. propondo a criação de cooperativas sem fins lucrativos voltadas para o auto-abastecimento e de bancos que concedessem empréstimos sem juros aos 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Promover atividades culturais. . dispostos a assumir a liderança na luta pelo socialismo. Devem ser autônomos e livres. possibilitando a mais completa democracia. os anarquistas tinham posições bem definidas. Quanto à concepção e à prática sindical. sempre preservando a autonomia de cada organização e evitando qualquer tipo de centralização que venham a prejudicar a participação direta dos trabalhadores e trabalhadoras em todas as decisões. formado por comunidades independentes. coordenadas a partir de centros de produção dos trabalhadores e trabalhadoras organizados em sindicatos. pois são um mal e uma fonte de opressão.

As teorias e táticas do anarco-sindicalismo foram difundidas por meio de livros. com a condição de que consintam livremente dela fazerem parte". com 43 delegados. O importante é a ação direta da classe operária. AÇÃO DOS ANARQUISTAS NOS SINDICATO Em 1906 houve o 1º Congresso Operário Brasileiro. O anarco-sindicalismo influenciou também o campo. O sindicalismo deve ser de resistência e não assistencialista. até chegar aqui no Brasil no final do século XIX. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). dos panfletos. depois. 04 a 10 de novembro de 2007. mais precisamente no Paraná e posteriormente em Santa Catarina e Rio Grande do Sul. perante a sociedade da qual fazem parte. afirma que "A liberdade é o direito absoluto de todo homem ou mulher maiores de só procurar na própria consciência e na própria razão as sanções para seus atos. As propostas vencedoras do Congresso e a linha predominante da COB eram da corrente dos anarquistas:     A organização dos operários deve ser federativa e não centralizada.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG se expandiu para a Rússia e para toda a Europa. quando varias famílias de imigrantes italianos chegaram ao sul do país. A DIFUSÃO DO ANARQUISMO NO BRASIL As idéias anarquistas. portugueses. greves e outras formas diretas de luta. e das decisões dos congressos operários. . num contexto em que o jogo político era exclusividade das oligarquias e inexistia qualquer proteção ao trabalho. Suas propostas de supressão do Estado e de todas as formas de repressão encontraram receptividade entre os trabalhadores e trabalhadoras. Essas famílias formaram comunidades com ideais libertários e constituíram as primeiras cooperativas. tendo como objetivo a ajuda mútua. mesmo enfrentando problemas econômicos e repressão. apesar de já estarem presentes em alguns segmentos da sociedade brasileira. em conseqüência. eleitos por 28 organizações operárias de todo o País. Foram muitas as cooperativas e outras organizações de caráter cooperativo criadas pelos anarquistas. da imprensa. sendo substituído por uma "república de pequenos proprietários" organizada num sistema federativo. empreendimentos produtivos e crédito gratuito aos trabalhadores. Dizia que o Estado deveria ser destruído. de determiná-los apenas por sua própria vontade e de. serem responsáveis primeiramente perante si mesmos. 32 Outro precursor do anarquismo.71 - . sem passar pela intermediação parlamentar: priorizar boicotes. A expansão do anarquismo foi rápida nas grandes cidades brasileiras. começaram a ganharam força no Brasil nas últimas décadas do século XIX. nas primeiras décadas do século XX. particularmente na Itália e na Espanha. franceses e belgas. seus principais veículos. atribuindo um papel político e revolucionário ao cooperativismo rural. por meio de imigrantes espanhóis. italianos. em estreita relação com a luta e o projeto político revolucionário. É preciso combater as visões reformistas dos agentes do Governo e da Igreja Católica. O Congresso fundou a Confederação Operária Brasileira (COB).

A justificativa utilizada para a aprovação dessa lei repressiva era evidente: o movimento operário estava sendo controlado por lideranças estrangeiras radicais. . Depois da greve. sabotagem. acabaram sendo poucos os jornais anarquistas que chegaram a publicar mais de cinco números. Everardo Dias e Edgard Leuenroth. boicote. cada ação direta . A Federação Sindical Regional de São Paulo (FSRSP). A greve de 1917 foi comandada pelos anarquistas. Essa conclusão partia da seguinte convicção: cada ação direta é uma batalha na qual o proletário conhece as necessidades da revolução.greve. A sabotagem – por exemplo . Em 1921 foi aprovada a Lei de Expulsão dos Estrangeiros. que foi obrigado a enfrentar grandes desafios. com o desmantelamento da própria COB.72 - . que não contavam com bases expressivas na capital). que legitimava a deportação sumária de lideranças envolvidas em “distúrbios da ordem” e o fechamento de organizações operárias. com o maior número de sindicatos e algumas categorias mais importantes da capital paulista. Por isso. os capitalistas. A partir de 1908 a COB publicou seu jornal nacional “A VOZ DO TRABALHADOR”.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Como se viu acima. os anarco-sindicalistas entendiam que “a ação direta deveria ser a grande bandeira do sindicalismo revolucionário".era considerada um meio dos trabalhadores e trabalhadoras aprenderem a agir de uma maneira solidária em sua luta por melhores condições de trabalho. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). que iludiam trabalhadores e trabalhadoras nacionais! Desde o início dos anos ’30 as principais categorias de trabalhadores e trabalhadoras do Estado de São Paulo estavam organizadas em sindicatos. pois as máquinas são de mais difícil substituição do que os trabalhadores e as trabalhadoras. Havia duas federações estaduais:   A Federação Operária de São Paulo (FOSP). e se prepara para a ação final. O anarco-sindicalismo – assim como o anarquismo em geral – considerava que nas ações diretas seria legítimo o uso de um certo tipo e grau de violência. apesar de alguns avanços em termos de legislação social. Os primeiros jornais anarquistas e anarco-sindicalistas tentaram se sustentar apenas com as contribuições dos militantes. contra seu inimigo comum. 04 a 10 de novembro de 2007. Como era ainda um número reduzido e não possuíam muitos recursos econômicos. a greve geral que “destruirá o sistema capitalista”. Como principais divulgadores do ideário anarquista destacaram-se José Oiticica. . dirigida pelos comunistas. O principal foi o recrudescimento da repressão por parte do governo. no caso em que ele não pudesse entrar em greve. A maioria de jornais da época atestou a força e organização dos anarquistas do Brasil. por meio de sua própria experiência. etc. Essa concepção e as práticas dela decorrentes se constituíam numa das características diferenciais do anarco-sindicalismo em relação a outras correntes e formas de ação do sindicalismo brasileiro.era vista como especialmente eficaz para o proletariado. houve anos difíceis para o movimento operário. Isso não quer dizer que não havia outros grupos políticos que dividiam com eles a liderança do movimento operário. isto é. (sindicatos de cidades do interior. Os principais alvos passaram a ser os anarquistas. sob a influência anarco-sindicalista. Esse jornal continuou irregularmente até 1920. A destruição de equipamentos tocaria no ponto fraco do sistema.

Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Durante toda a década de 1930 os anarco-sindicalistas foram à única corrente sindical que se manteve irredutível na defesa da organização autônoma dos trabalhadores e trabalhadoras. ONDE ATUAM HOJE OS ANARQUISTAS? Apesar da reduzida presença de anarquistas no sindicalismo.entre os próprios anarquistas ou entre eles e as demais correntes. . Desde os anos ‘80 foi identificado em muitas atividades de massa o movimento anarco-punk. Existe uma carência de informações relacionadas com o anarquismo e sua atuação na atualidade. Nesses grupos ou reuniões podem até aparecer divergências . Mais tarde. que se expandia e se consolidava no Brasil. TRAJETORIA DO SINDICALISMO “AMARELO” OU “PELEGO”. organizações sociais e sindicais. pela OMC e pelo BID.. O sindicalismo “amarelo” ou “peleguismo” é um fenômeno antigo no sindicalismo brasileiro. É constituído por uma enorme massa de dirigentes burocratizados. para os quais o sindicato tem apenas um papel assistencialista e de intermediário legal nas relações entre o capital e o trabalho. Enquanto a força dos anarquistas foi diminuindo. Os anarquistas podem ser vistos também:   Em manifestações realizadas para expressar insatisfações e protestos contra reuniões e encaminhamentos promovidos pelo grupo de países mais ricos (G 08). quanto às estratégias de luta e à maneira de atuar . 04 a 10 de novembro de 2007. devido à ausência de registros mais precisos. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). refletindo a forte influencia de patrões e do Estado no movimento operário. foi crescendo a influência dos comunistas no movimento sindical. Contudo.73 - . Esse é o aspecto político e social mais profundo da questão: o “pelego” é o agente dos patrões e do Estado no movimento sindical. que continua sendo ativo até hoje. no Brasil e no mundo.mas eles têm um ponto em comum: a luta contra qualquer sistema opressor.a corrente anarquista foi perdendo cada vez mais expressão e presença no movimento sindical. inclusive entre trabalhadores e trabalhadoras. jovens. essa posição os levou ao isolamento político e contribuiu – no contexto das crescentes dificuldades relativas à sobrevivência dos sindicatos livres – para sua perda de influência no movimento sindical. de mulheres.. com a implantação da Estrutura Sindical – que tinha o Estado como seu principal regulador . Em organizações sociais – de ambientalistas. suas idéias continuam vivas em vários segmentos da sociedade. assim como na oposição ao sindicalismo corporativista.

Com a extinção do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) e do Tribunal de Segurança Nacional – organismos de repressão ideológica e política. dentre outras – criada naqueles sindicatos em que o pelego era sua representação maior. Em que pese a forte presença dos anarquistas e. tinham prontamente atendidas suas reivindicações. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). de tendência reformista. Já as categorias vinculadas à indústria.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Já em 1908 o jornal anarquista “A VOZ DO TRABALHADOR” órgão da Confederação Operaria Brasileira – COB definiu-os como “operários que bajulam os potentados. posteriormente dos comunistas e socialistas nas direções dos sindicatos. consolidou a seguinte concepção. escolas. em 1912. Foi criada também a Confederação Sindicalista Corporativista Brasileira. Em 1921 o Estado fundou o Conselho Nacional do Trabalho. como ferroviários e portuários. Particularmente no Rio de Janeiro era bastante influente essa corrente política moderada. À medida que o Ministério do Trabalho intervinha nos Sindicatos. Mas foi durante a década de 30 que os pelegos conseguiram as condições mais favoráveis para se eternizarem nas direções sindicais. dado seu caráter secundário na economia agro-exportadora. Lembre-se aqui a afirmativa do Presidente Washington Luís de que “a questão social era simples caso de policia”. Federações e Confederações e destituía suas direções. desenvolveu a primeira ação concreta para uma intervenção governamental nas decisões das organizações de trabalhadores. uma vez que sua paralisação estrangularia a economia. os amarelos ou pelegos representavam à maioria dos dirigentes na época. 04 a 10 de novembro de 2007. visando controlar os sindicatos e torná-los órgãos de conciliação entre as classes. O chamado Estado Novo. “o sindicalismo brasileiro deve ser corporativo. Os grupos revolucionários os chamavam pejorativamente de "amarelos". em prejuízo da autonomia da classe”. dentre outras coisas. . eram tratadas de forma exclusivamente repressiva. dentistas. esse segmento conservador encontrou ainda mais dificuldades. isto é. interessada em obter conquistas específicas como diminuição da jornada de trabalho e aumentos salariais. Esses grupos preocupavam-se ainda em garantir o reconhecimento dos sindicatos por parte do Estado. existentes durante o Estado Novo –. A criação do Imposto Sindical era o que faltava para garantir a imensa estrutura – com médicos. não revolucionária. o sindicalismo amarelo passou a ficar na defensiva. Já nos primeiros anos da década de 1940 o Estado Novo mostrava seus primeiros sinais de debilidade. baseado na luta entre classes inimigas. consequentemente. “Pelego”. pois organizou um congresso com representações sindicais. mais que teve grandes conseqüências. como historicamente foi feito nas décadas anteriores”. Os Sindicatos “amarelos” passaram a ser ainda mais favorecidos pelas vantagens concedidas pelo Estado. os pelegos eram indicados para dirigi-las a partir das orientações governamentais. Principalmente os setores cujas atividades eram indispensáveis para a exportação do café. um sindicalismo que concilie patrões e operários e não um sindicalismo revolucionário.74 - . O presidente Hermes da Fonseca. deixou de significar a manta colocada entre o cavalo e a sela para amortecer os solavancos e passou a ser sinônimo de sindicalista acomodado e comprometido com os patrões e o governo.

Apesar dessa hegemonia. muitos dirigentes pelegos tornaram-se interventores do Ministério do Trabalho durante o governo militar. A retomada das lutas politicas e sindicais no início dos anos 1960 recolocaram os pelegos na defensiva.estimulou o sindicalismo pelego a um processo de auto-reforma. para permanecer como órgão de controle sindical e político. durante o congresso promovido pela Confederação Nacional dos Trabalhadores na Indústria – CNTI. distinta do velho ‘peleguismo’ e perfeitamente inserida na onda neoliberal. os pelegos receberam apoio financeiro da Confederação Internacional das Organizações Sindicais Livres – CIOSL. A fundação do Comando Geral dos Trabalhadores (CGT). Tudo isso facilitou que os pelegos retornassem às direções dos sindicatos mais importantes do país. que penetrou também no movimento sindical em nosso país. dominada há décadas pelo pelego Ari Campista. abraçou o mesmo projeto. Assim formou-se. dentre outros organismos sindicais internacionais ligados ao governo norte-americano. decretou a intervenção e suspensão das eleições sindicais. Durante este período. Dutra proibiu a existência do Movimento Unificado dos Trabalhadores (MUT). especialmente da CNTI. em julho de 1978. O assistencialismo foi mantido e. num dado momento.combater o ‘peleguismo’ das Confederações Nacionais. Esse sindicalismo foi modificando sua forma de ser. uma modernização conservadora.anistia aos exilados políticos. Dentre outras medidas. na segunda metade da década de 1980. no Brasil. Além de receberem todos esses apoios financeiros. os pelegos voltaram a ter hegemonia e domínio sobre os destinos do sindicalismo brasileiro. objetivava . As transformações mais recentes ocorridas nos anos 1980 . um grupo de sindicalistas que se autodenominavam ‘autênticos’. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). procurando coibir as ações autônomas e independentes dos trabalhadores e trabalhadoras. Referimo-nos à confluência da atuação de amarelos ou pelegos com a ação de líderes sindicais pragmáticos. eleições diretas. denunciaram a direção pelega da CNTI e apresentaram uma “Carta de Princípios”. inicialmente. da Organização Regional Interamericana do Trabalho – ORIT. Alguns dos pontos centrais do seu ideário são:  Reconhecimento da vitória do capitalismo e da inevitabilidade da lógica do mercado. 04 a 10 de novembro de 2007. que se tornou a principal referencia para a retomada das entidades sindicais operarias. a exemplo da CONTAG. que em 1964 teve sua presidência ocupada por um deles.dentre outras coisas . . fim do bipartidarismo. uma nova direita no movimento sindical. colocou na ilegalidade o partido comunista. assembléia constituinte . por exemplo. O SINDICALISMO DE RESULTADOS E FORÇA SINDICAL O sindicalismo de resultado nasceu. fortalecido na grande maioria das entidades sindicais.75 - . da confluência de duas atuações sindicais que vivenciaram trajetórias distintas e que.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Uma O avanço das lutas operárias foi freado com o golpe e o governo do Marechal Dutra.

eletrodomésticos”33. Atribuir o papel da ação política exclusivamente aos partidos. Pois. não cabendo aos sindicatos extrapolarem este âmbito da luta. portanto. Este é o âmbito e o campo ideológico onde o sindicalismo de resultados opera e atua. calculadas para que não extrapolem o âmbito da negociação . ALGUNS REFERENCIAIS TEÓRICOS DO COMUNISMO Com base no assim chamado “socialismo científico” no final do século XIX. valorizar o preço de mãode-obra”. e exigem uma central sindical que não seja ‘revolucionarista’”. É a política de pão e circo.. A Força Sindical. reduzindo apenas sua ação a uma linha política privatizante. que pregam 33 Ricardo Antunes é professor livre docente em sociologia do trabalho na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). tendo a frete Karl Marx e Friedrich Engels. Essa doutrina passou a se diferenciar tanto dos reformistas.aliados a uma estratégia que recusa o confronto e procura extrair resultados imediatos nas ações sindicais. Que fazem sucesso freqüentemente pela música de baixíssima qualidade e doam apartamentos. qual é o objetivo do sindicato? É lutar para vender a mão-de-obra pelo preço mais alto possível. carros. é algo muito distinto do peleguismo (sempre atrelado ao Estado e dele porta-voz) e conforma o que caracterizamos como sendo a nova direita no movimento sindical. E quanto ao papel dos sindicatos: “O sindicato é um fator de mercado e deve.caminha no sentido de consolidar o sindicalismo de resultado: um sindicalismo que projete “que todos (os trabalhadores) necessitam. chama artistas da indústria cultural..76 - .Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG    Restringir a luta sindical à busca de melhorias nas condições de trabalho. Foi a Força Sindical que introduziu a prática recorrente de um 1° de maio como um circo para os trabalhadores e trabalhadoras. Eu quero a divisão das riquezas e a minha briga não é pela mudança do regime”. in Jornal dos Trabalhadores Rurais SEM TERRA Ano XXIV – numero 252 – maio de 2006. em entrevista à Folha de S. “Estamos procurando caminhos novos. Por isso. Para atrair um grande público. Eu diria que todo sindicato que se preze faz parte da reprodução capitalista. Paulo (20/08/87): “Eu acho que o capitalismo venceu no Brasil. Se crio o mercado interno estou fortalecendo o nosso capitalismo”. os sindicatos passaram a ser vistos como instrumentos que devem contribuir para a luta revolucionária do proletariado pela tomada do poder político. . 04 a 10 de novembro de 2007. Conforme disse Luís Antônio Medeiros. dizíamos. duas confederações e vinte federações – fundada no início de 1991 . contando com o apoio de cerca de 300 sindicatos. Estes pontos básicos . que devem estar totalmente desvinculados da ação sindical. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Diminuir o papel do Estado. a Central organiza grandes manifestações.conformaram uma feição neoliberal e burguesa no seio do movimento sindical brasileiro.

Relaciona sempre as lutas parciais com seu objetivo final. que coloquem em risco a organização dos trabalhadores e trabalhadoras. . Aponta outros objetivos da atividade sindical. que negam a luta política pelo poder. não se limitando a uma visão economicista. Marx diz: “O capital é o poder social concentrado. como centros organizadores do proletariado. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Entretanto.. Do lado do operário sua única força é o número. Outra característica da corrente marxista é a defesa da unidade dos trabalhadores. em vez de trabalharem. ao mesmo tempo. Para o marxismo. Os teóricos do comunismo vêem os sindicatos.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG mudanças graduais no capitalismo. Mostra apenas suas limitações e prega a transformação da luta econômica em luta política pela tomada do poder. preparando para as novas batalhas. o marxismo condena o economicismo. dos agentes da burguesia. uma greve por interesses imediatos. Mas a concepção Marxista vai além. Mas a força do número se quebra pela desunião. o marxismo condena as tentativas de dividir as organizações sindicais por motivos políticopartidários ou religiosos. Ele aponta que a greve não deve ser vista como a única arma de luta dos trabalhadores e trabalhadoras. deve ser rejeitada. repousar nunca em justas condições. para a sua transformação. que á a tomada do poder pelo proletariado. Por isso. acumular forças. Para Lênin. Seu objetivo imediato “concretiza“concretiza-se nas exigências do diadia-adia. que devem ser “escolas do socialismo”. nos meios de resistência contra os incessantes ataques do capital”.77 - . sobretudo. erram o caminho porque se limitam a uma guerra de guerrilhas contra os efeitos do sistema existente. usando a força organizada como alavanca para a libertação definitiva da classe operária”. Marx vai perceber a miopia economicista e apontará qual deve ser a tarefa maior dos sindicatos no capitalismo.. Para Marx. o marxismo não adota a mesma visão dos anarquistas nessa questão. portanto. Acompanhando a evolução do sindicalismo. ou pelo menos reduzir essa concorrência. 04 a 10 de novembro de 2007.garantindo sua taxa de maisvalia. Mas demonstram ser partes ineficazes em virtude do mal compreendido uso de sua força. “Não atuar no seio dos sindicatos reacionários significa abandonar as massas operárias insuficientemente desenvolvidas ou atrasadas à influência de líderes reacionários. A divisão dos operários é produto e resultado. como das anarquistas. “Os sindicatos trabalham bem como centros de resistência contra os ataques do capital. “os sindicatos sindicatos são indispensáveis para a guerra de guerrilha cotidiana entre o capital e o trabalho”. a luta puramente econômica não conduz a nada. da inevitável concorrência entre eles próprios. já que o capitalismo tem capacidade para assimilar as pequenas melhorias salariais . Dos sindicatos nascem precisamente os impulsos espontâneos dos operários para eliminar. Partindo desse princípio norteador. o marxismo vai fazer esforços no sentido da unidade dos trabalhadores. a greve deve ter como principal objetivo organizar os trabalhadores. a fim de conseguir melhores condições que os coloquem ao menos em situação superior à de simples escravos”. enquanto o operário só dispõe da sua força de trabalho. as correntes que encaram os sindicatos nos estreitos marcos corporativos. principalmente o da Inglaterra. Em geral. dos operários aristocratas ou operários aburguesados”. Muito pelo contrário. Para essa concepção. Exatamente por isso. Isso não significa que o marxismo negue a luta econômica. O contrato entre capital e trabalho não pode.

PARTICIPAÇÃO DOS COMUNISTAS BRASILEIROS BRASILEIROS NO MOVIMENTO SINDICAL No Brasil. que se de um lado não se apresentava como uma alternativa imediata de poder causou apreensão do Estado oligárquico. dirigida por sindicalistas ligados ao Ministério do Trabalho ou que aceitavam sua tutela. os comunistas o viam como um espaço a ser ocupado e transformado. a principal palavra de ordem dos comunistas foi “ir às massas”. Entre os fundadores estavam ex-lideranças anarquistas como Astrojildo Pereira e Otávio Brandão. Essas concepções os levaram. em conseqüência. crescia progressivamente o numero de entidades organizadas conforme a legislação e. o partido revolucionário é um estágio superior de organização. Quando fala em supremacia do partido. As décadas de 20 e 30 do século passado foi um período de grandes desafios para o movimento sindical brasileiro.78 - . levando-os a se chocarem com os anarquistas e com a repressão policial. a concepção marxista ressalta a supremacia do partido político sobre o sindicato. essas premissas não eliminam o risco de uma submissão do sindicato ao partido. Contudo. As entidades operárias independentes não aceitavam os decretos sobre sindicalização. como em outros países – e a história dos primeiros anos desse movimento é a crônica de seu esforço para derrotar a influencia anarquista e indicar novos rumos à luta operaria e sindical. Os comunistas defenderam desde o inicio a unidade sindical. Talvez seja também por isso que os comunistas tenham sido muitas vezes acusados de fazerem do sindicato uma mera “correia de transmissão do partido”. o comunismo surgiu a partir da desagregação do anarquismo – e não da crise da social democracia. que viam o Estado como um mal em si. foram de luta entre os sindicatos livres e o governo. A partir de 1922. a buscarem aliados e a participar da vida parlamentar do país. seja na ilegalidade. Entre a fundação do Partido Comunista e seu II Congresso em 1925. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Nesse sentido.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Exatamente por enfatizar que o primeiro objetivo do proletariado é a conquista do poder político. 04 a 10 de novembro de 2007. muitos esforços foram feitos para fortalecer o movimento sindical. . o marxismo não nega a importância da luta sindical. seja nos breves momentos de vida legal. mas destaca que há diferenças entra assas duas formas de organização e que elas devem ser preservadas. Em 1929 é criada a Confederação Geral dos Trabalhadores Brasileiros – CGTB (funcionando até 1936) sob controle dos comunistas que passam a exercer a hegemonia sobre o movimento sindical brasileiro. Para ela. militantes brasileiros fundaram o Partido Comunista do Brasil (PCB). marcado pela forte repressão ao movimento sindical independente e pela regulamentação e controle das relações de trabalho e da organização sindical pelo Estado Getulista. Contudo. Os primeiros aos da década de 1930. surgiram as duas características marcantes da atuação comunista: o trabalho em sindicatos reacionários e pelegos e a politização da luta operaria (contra o imperialismo e contra o latifúndio). Ao contrário dos anarquistas. embalados pela criação do primeiro Estado socialista na Rússia.

Em 1937.a Constituição e dá origem ao Estado Novo. . A hegemonia desses setores dentro do partido e dentre os sindicalistas comunistas crescia ano a ano. perseguida pelo Governo Vargas. sem a presença obrigatória do Ministério do Trabalho. Tal tendência refletiu-se logo no refluxo da luta pela autonomia sindical e pela destruição da estrutura sindical corporativista. “o PCB organizou o Congresso de Unidade Sindical.”. Uma de suas primeiras iniciativas foi à rearticulação do movimento sindical independente. “frente única revolucionária anti-imperialista e anti-feudal. No ano seguinte. Com o governo do Marechal Dutra. autonomia administrativa para os sindicatos. alem de junto com outros segmentos da sociedade. defendia Luiz Carlos Prestes. Durante o governo Vargas e. que congregava sindicalistas getulistas. funda o Movimento Unificador dos Trabalhadores – MUT. defendiam claramente a conciliação de classes: “por intermédio das organizações sindicais a classe operaria pode ajudar o governo e os patrões a encontrar soluções práticas. que lutava por um governo popular e que chegou a congregar em suas fileiras amplas massas populares do país inteiro. Essa orientação de fundo oportunista estava baseada na idéia de que. o Partido Comunista começou a se reorganizar em entidades sindicais. “com a derrota do nazismo. numa Conferência Nacional Extraordinária. principalmente com a extinção do ‘atestado ideológico’. apoiado por 300 dirigentes sindicais de 13 estados. 04 a 10 de novembro de 2007. em 30 de abril de 1945. surgia uma nova época. Um novo período de colaboração de classes se esboçava. No mesmo ano. desde o proletariado até a burguesia nacional”. que prescindiria da revolução. Com a eleição de Vargas em 1950. Quando o Estado Novo entrou em crise. dando inicio à aliança do Partido Comunista com o Partido Trabalhista Brasileiro. constituir a Aliança Nacional Libertadora. quando foi reorganizado o Partido Comunista do Brasil. os sindicalistas comunistas foram perseguidos e afastados das direções de inúmeras entidades. o partido coordenou uma ampla articulação de setores nacionalistas para a formação de uma frente democrática. Seu manifesto pedia “a mais ampla liberdade sindical. perseguição a todos os sindicalistas independentes. eleição e posse dos dirigentes sindicais independente da aprovação pelo governo. e os mais variados atores sociais. foi desencadeado outra ofensiva conservadora contra a classe trabalhadora: intervenção em mais de 400 importantes sindicatos. de desenvolvimento pacifico. após o suicídio do presidente em agosto de 1954. secretário-geral do Partido Comunista. Getulio Vargas rasgou – por meio de um golpe . Naquela conjuntura os sindicalistas comunistas orientados pelo partido. “o PCB organizou a Confederação Sindical Unitária do Brasil. O movimento sindical passou a acomodar-se”. “ajudando a colocar o movimento sindical em função dos interesses de determinados setores burgueses. a influencia sindical dos comunistas cresceu. fechamento do Partido Comunista e da CGTB. etc.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Com a promulgação da Constituição Federal em 1934. O Partido Comunista foi praticamente dispersado. os direitos individuais e coletivos retornam a normalidade. a soberania das assembléias sindicais. foi criado o Comando 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). A reação de militantes comunistas vem a ocorrer com mais força em 1962.”.79 - . rápidas e eficazes para os graves problemas econômicos de hoje”. adotando a legenda PC do B. num congresso com 400 delegados de 11 estados”. com representantes de 300 sindicatos de todo o país”.

tanto econômico.tão marcante no período da Inquisição. etc. E era também o poder político. A orientação cupulista para o sindicalismo continuava com forte influencia em importantes estruturas sindicais. anistia aos políticos perseguidos. Exercia com exclusividade o poder religioso. Em 1978. para preservar a “pureza da alma humana” e através da repressão . dos trabalhadores em empresas de credito – CONTEC. e suas Federações Estaduais. uma central que colocou em pânico as elites com a perspectiva daquilo que eles chamavam de “República Sindicalista”. . a Igreja perde poder. A nova conjuntura forçou o movimento sindical combativo a recuar. dos trabalhadores no comercio – CNTC. O 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). a própria burguesia dá espaço para a refundação da Igreja. ALGUNS REFERENCIAIS DO SINDICALISMO CRISTÃO A partir da encíclica Rerum Novarum (Das coisas novas). A Igreja se adapta ao novo sistema social. fluviais e aéreos – CNTTMFA. Os feudos. As relações capitalistas de produção enfraquecem os preconceitos religiosos. As tentativas mais importantes de contrapor-se à perseguição policial e ao arrocho salarial revelaram as limitações existentes e os dilemas em que o movimento operário se debatia. ocorre a primeira grande greve operaria no ABC. ao golpe militar que depôs João Goulart. os dirigentes sindicais comunistas ligados ao PC do B. Ela era a maior propriedade feudal da Europa. passaram a se organizar na Corrente Sindical Classista. dispersos e constituindo-se como mini-Estados. dos trabalhadores em transporte marítimos. a exemplo das Confederações: dos trabalhadores na indústria – CNTI. próprias de período feudal. Contudo. exigindo o fim da ditadura.80 - . entretanto. como político. a Igreja possuía grande poder. principalmente no sindicalismo. Esse conservadorismo não corresponde à mentalidade emanada do novo sistema. quando o país voltou a mover-se. A partir de 1988. essa instituição ainda preservava suas tradições elitistas e aristocráticas. via seus tabus ideológicos. entretanto vigora. A igreja resistiu violentamente ao fim do feudalismo. a Igreja Católica adota oficialmente uma doutrina para a sua atuação no movimento social. mas os demônios fizeram a burguesia”. 04 a 10 de novembro de 2007. em 15 de maio de 1891. a exemplo das greves de Contagem – MG e de Osasco – SP em finais da década de 1960. O capitalismo. dependiam da instituição religiosa para manter o controle político. Segundo o sermão mais conhecido na Europa no século XVI. o fim da alta do custo de vida. Depende dela também para controlar o jovem proletariado. esta aparente força não se materializa em reação dos trabalhadores e das suas organizações. A Igreja exercia esse poder. Até esta data. apesar de num primeiro momento manter suas tradições aristocráticas. Essa época de recuo durou até 1977. Posteriormente. controlando cerca de 1/3 das terras agricultáveis.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Geral dos Trabalhadores – CGT. “Deus fez clérigos. publicada pelo Papa Leão XIII. Durante o feudalismo. sendo o poder espiritual do sistema em vigor.

afirmam que o terreno propício é a própria Igreja . necessária e conveniente para o homem. inclusive católicos. existe no capitalismo “uma desigualdade natural. Os exageros de injustiças devem ser reformados.os sindicatos e as cooperativas.já que ela reúne patrões e empregados. Defenderam o papel assistencialista dos sindicatos. explica José Cândido Filho. autor do livro “O movimento operário: o sindicato e o partido”.“que é um direito natural dos homens”. Os estatutos dos Círculos Operários 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). . a violência e a luta de classes. desiludidas também no plano espiritual (desconfiança da irmandade capitalismo-poder-igreja). que é um marco na viagem da Igreja católica com vista aos movimentos sociais. sobretudo para enfrentar o avanço do socialismo. Ela confia a sorte dos trabalhadores à ação do Estado. Muitos historiadores. porque prega a supressão da prioridade privada . particularmente a revolução social do marxismo”. A Igreja perde base social. segundo o autor. Surgem os primeiros conflitos de classe. Outra característica fundamental do sindicalismo cristão é o anticomunismo. A Rerum Novarum vai criticar tanto o socialismo como o liberalismo.81 - . “porque gera ódios e extingue nos homens o estímulo ao trabalho”.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG proletariado. chega a afirmar que “a vida econômica e social implica a colaboração de todos os filhos de um mesmo povo. mas para “proteger os trabalhadores católicos contra os perigos socialistas”. os militantes católicos atuaram no sindicalismo com uma concepção reformista. e também as novas formas de organização dos explorados . Além disso. 04 a 10 de novembro de 2007. é um homem “livre”. portanto. A Confederação Internacional dos Sindicatos Cristãos. procurando encontrar-se função social” do capital. “filhos de um mesmo Deus”. as greves. o luddismo. que deve estabelecer leis para proteção e promoção do ser humano. diferente do servo camponês. A religiosidade popular não garante mais a sustentação da instituição católica. Leão XIII considera as idéias socialistas subversivas. Com base nessa doutrina. católicas ou protestantes. De acordo com essa encíclica papal. afirma que a Igreja só passou a se preocupar com o movimento sindical como forma de se contrapor ao aumento da influência das idéias revolucionárias. O para qualifica o pensamento socialista como falso. quando as massas proletárias. haviam abandonado as Igrejas. Outra razão. Para a Rerun Novarum. de conciliação de classes. a harmonia entre as classes. central sindical fundada no Congresso de Haia. “o capital e o trabalho devem viver em colaboração um com outro. obedecendo aos princípios da caridade cristã”. “Ela nasceu. Eles rejeitaram energicamente as greves e outras formas de confronto. Parcelas da jovem classe operária se aproximam das idéias anarquistas e marxistas. A encíclica propunha a criação dos sindicatos aos moldes das antigas corporações de artesãos e também estimulava a formação de associações mutualistas. em 1920. Entre capital e trabalho não deve haver antagonismos. tendo como mediadora a Igreja que dessa forma tenta readquirir o seu poder político. para torná-lo um sistema “justo e eqüitativo”.” Rejeita. luta de classes obedecendo-se os princípios da “caridade cristã”. Daí o surgimento da Rerum Novarum. é que “o sindicalismo cristão aparece tardiamente (43 anos depois do Manifesto Comunista de Marx e Engels). ou melhor. O fundamental é a paz social. tinham sido abandonadas por estas”. Miguel Gonzáles Núniz acredita que uma das causas do fraco desenvolvimento da corrente cristã é que ela não atuará nos sindicatos como organismos de luta por conquistas materiais. Para realizar as reformas graduais no capitalismo.

Na Constituinte de 1934. Os Círculos Operários. em 1979). fundamentavam a atuação dos progressistas da Igreja brasileira. tendo a frente o cardeal Sebastião Leme.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Católicos no Brasil são bem elucidativos. E na Constituinte de 1945. juntamente com a reação. os deputados eleitos com o apoio do LEC (Liga Eleitoral Católica). Helder Câmara. a implantação do pluralismo sindical. foi acusado de comunista e ameaçado de prisão. 04 a 10 de novembro de 2007. As mudanças que a Igreja vivia a nível internacional tiveram influencia decisiva nesse quadro. Calcula-se que no auge do movimento. como importantes instrumentos de organização e mobilização. envolvendo mais de 2 milhões de filiados. em 1968 (confirmadas em Puebla. Vários materiais foram publicados nesse sentido. . um livreto muito difundido “Como combater os comunistas nos sindicatos”. que recomendavam a opção preferencial pelos pobres. mais uma vez. da Federação dos Círculos Operários de São Paulo. Estas lideranças estiveram ao lado dos conspiradores do golpe militar de 64. O documento foi confiscado pela policia e os bispos foram proibidos de publicá-lo D. A Igreja advoga a separação dos católicos dos que professam confissões e idéias diferentes. dentre eles. foram responsáveis pela formação de inúmeras lideranças sindicais em todo o país. que proliferaram nas grandes e medias cidades brasileiras a partir de finais da década de 1960. O Concilio Vaticano II já havia apontado o caminho da realização do reino de Deus neste mundo neste mundo. a hierarquia católica apresenta ao ditador Getúlio Vargas a proposta de transformar os aproximadamente 400 círculos operários católicos existentes em sindicatos paralelos. Escolas de Lideres Operários e Movimento de Orientação Sindical. influiria de forma também decisiva na modernização do clero latino-americano e na formulação da Teologia da Libertação. desenvolvimento sem justiça”. o manifesto “Nordeste. Em pleno Estado Novo. principalmente na Europa. seu temor era o contágio dos fiéis com as novas idéias. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Essa tese.que inclusive é aprovado. que atuavam por fora dos sindicatos existentes. Em 1966. os deputados vinculados à Igreja defenderam. A Igreja do Nordeste foi pioneira nas criticas radicais contra o regime. juntamente com os parlamentares da UDN. bispo de Recife. SINDICALISMO CRISTÃO NO BRASIL Desde o início da atuação organizada dos católicos no sindicalismo brasileiro. por sua vez. em todo o país. a implantação do pluralismo sindical . uma direção que seria seguida por enorme parcela do clero brasileiro que. seu numero chegou a atingir entre 50 a 100 mil CEBs. escrito por Frei Celso em 1964. uma forte denúncia do regime e da situação da classe trabalhadora. Um dos primeiros itens de seu objetivo era o “combate ao comunismo”. foi levada à prática em vários países. no final da década de 1970. As profundas mudanças promovidas pelo CELAM (Conselho Episcopal Latino Americano) em Medellín. a Igreja organizou os círculos operários.82 - . que leva à fragmentação da organização sindical. com o apoio da Regional Nordeste II da CNBB. defendem. Um dos resultados mais visíveis das mudanças promovidas em Medellín foram as comunidades eclesiais de base – CEBs.

com o apoio da imensa maioria dos militantes católicos e. AMARELOS AMARELOS Sem violência. em Goiânia. na onda de greves iniciada em 1978 os militantes católicos tiveram papel destacado na reorganização do movimento sindical. no ano seguinte. QUADROQUADRO-SÍNTESE POSIÇÕES MEIOS PROPOSTOS OBJETIVOS Luta contra as injustiças. • Combate ao comunismo • • Sem violência. . no afastamento das diretorias pelegas dos sindicatos e. acelerou-se com as greves. • Formação ideológica de • lideranças sindicais 1. 04 a 10 de novembro de 2007. • Sindicatos e organizações • Negação da existência da luta comuns (entre patrões e de classes. Em junho de 1982. Minas Gerais. Paulo Evaristo Arns. CRISTÃOS (católicos) • • • • 2.83 - . de movimentos de base. O assassinato de Santo Dias da Silva. em fevereiro de 1980. tornou-se um dos mártires da luta operaria. oposições sindicais. e ativistas ligados às novas diretorias sindicais “autenticas” ocorreu em João Monlevade. • Realização do reino de Deus Teologia da Libertação neste mundo Opção preferencial pelos pobres • Denúncia do regime e da Organização social de base (CEBs situação da classe trabalhadora e as Pastorais) • Redemocratização do país • Reorganização do movimento sindical no campo e na cidade • Colaboração de classes. levou a uma maior intensificação das manifestações. ele que era dirigente da Pastoral Operaria e muito próximo de D. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). e lideranças católicas. Desenvolver a função social do capitalismo. • • Colaboração entre as classes. essas forças politicas formaram a ANAMPOS (oficialmente. Em 1983. Um importante encontro de lideres de pastorais operarias. militantes de outras concepções e correntes políticas. principalmente. de comunidades eclesiais de base. em vista de uma sociedade fraterna e justa. de movimentos populares. A aproximação entre militantes da oposição sindical. • Continuidade do capitalismo. Evitar o agravamento dos conflitos sociais. esse movimento culminou na fundação da Central Única dos Trabalhadores – CUT.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Quando o movimento operário brasileiro atingiu novo patamar. onde foram estabelecidos “alguns princípios básicos ligados à luta pela democratização da estrutura sindical”. IV Encontro Nacional da Articulação Nacional dos Movimentos Populares e Sindicais). na articulação do Partido dos Trabalhadores.

• Greve. • Sociedade harmoniosa. . ANTUNES. ANARQUISTAS operários). Editora Brasil Urgente .84 - . 1987. José Carlos – Comunistas II. • Participação parlamentar. .Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG 3.C. José Carlos – Pelegos. RUI. Socialismo e Comunismo. RUI. Revista Debate Sindical. RUI. • Antipartidarismo. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). • Greve geral insurrecional. José Carlos – Sindicalismo Cristão II. • Destruição do capitalismo. Destruição do capitalismo. Fortalecimento do Estado Revolução proletária. – Jornal dos Trabalhadores Sem Terra. • Sindicatos assistencialistas. Ditadura do Proletariado.Novo Sindicalismo. BIBLIOGRAFIA • • • • • • • • • • ANTUNES. nº. Apostila de Concepção. Coleção Primeiros Passos . José Carlos – Comunistas I. • Antiparlamentarismo. • Auto-gestão. Revista Debate Sindical. Revista Debate Sindical. GIANNOTTI Antônio e NETO Sebastião . • Revolução proletária. Secretaria Nacional de Formação da CUT. 02 – junho/julho/agosto – 1986. nº. 04 a 10 de novembro de 2007.O que é Sindicalismo. ANTUNES. sem Estado. • Combinação de ação legal e clandestina. 1985. 06 – out/nov/dez – 1989. RUI. COMUNISTAS 4. CEPS. Revista Debate Sindical.1991. • Sociedade sem classes. RUI. • Contra a liberação de dirigentes sindicais. . nº. Ricardo L. • Estrutura Sindical federativa. José Carlos – A presença dos anarquistas nos sindicatos. Internacionalismo proletário. Ricardo L.C. • Insurreição. nº 11 – fevereiro/março/abril – 1992.Abril Cultural. Ano XXIV – numero 252 – maio de 2006. Revista Debate Sindical.1991. Ricardo L. • Ação direta contra o Estado e os patrões. • O Partido é o principal instrumento de luta. Estrutura e Política Sindical. nº. Editora Vozes .C. • • • • • • • O Sindicato é o principal instrumento de luta. 07 – março – 1990. 03 – junho/julho/agosto – 1987.CUT Ontem e Hoje. • Internacionalismo proletário.

diante do desafio de trazer ao debate questões que se inserem nas reflexões em torno do enraizamento histórico do sindicalismo rural no Brasil. a luta pela posse da terra e por melhores condições de vida e de trabalho nas sociedades Colonial.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG A HISTORIA DAS NOSSAS RAÍZES: ITINERÁRIO DAS LUTAS DOS TRABALHADORES (AS) RURAIS NO BRASIL E O SURGIMENTO DO SINDICALISMO RURAL Maria do Socorro Silva34 "Da desparecença dos tempos aprendo as tranças e tramas das novas lições. caixas beneficentes. foram associações voltadas para a ajuda mútua em situações de doença. social e ideológica – índios. bolsa de trabalho. camponeses. etc . como se constituiu a estrutura sindical oficial no Brasil. sociedades de resistência. concretamente. No começo do século XIX já existiam algumas associações de artesãos. na roça e na comunidade. É na teia de constituição dessas lutas que se forjam as condições para a tomada de consciência do que significa ser trabalhador(a) rural. onde constroem uma identidade e organizam práticas que visam defender direitos. ou seja. num amplo imbricamento de ações. a dependência. Monárquica35 e Republicana36 A proclamação da República (1889). 36 A primeira constituição republicana foi a de 1891 . marcam um dos momentos de maior transformação social já vivido pelo país. Doutoranda em Educação da UFPE. de organização. quem trabalhara no Brasil foram os escravos e a sociedade imperial escravista desmerecera inteiramente o ato de 34 Pedagoga e Psicóloga. Desde a chegada dos colonizadores portugueses que tivemos. restringeremos nossa análise a elencar alguns movimentos ou lutas que contribuíram para esse processo. 35 No período Imperial tivemos apenas o nascimento das primeiras organizações operárias. Até então. nesse momento. o processo no qual é gestado a dinâmica do movimento sindical dos trabalhadores(as) rurais (MSTTR). a miséria. em nosso país conflitos e rebeliões populares formados por complexa composição étnica. Porém.com proporções e alcances distintos. seleiros. mas não uma classe trabalhadora. 04 a 10 de novembro de 2007. Esse processo se dá através de lutas de resistências. política e econômica. Evidentemente. A chamada Primeira República. mobilização que se constroem nos locais de trabalho. barqueiros. Os movimentos sociais do campo vem se constituindo ao longo da nossa história. sem um caráter essencialmente religioso. alfaiates. . interesses e projetos. surgiram então às primeiras organizações de socorros mútuos. é o período de delineamento da identidade social e política do trabalhador brasileiro. nesse texto. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). que se segue. acidentes no trabalho. religiosos. que se traduz. escravos. mas organizadas sob a forma de irmandades religiosas. considerando os limites a que nos propomos discutir o assunto em pauta. como sujeitos coletivos." Gonzaguinha PARA INICIO DE CONVERSA Nos colocamos.assegura o direito à associação e a reunião deixando em aberto qual seria o tipo de organização. ora manifestando-se como amplos movimentos de massa construindo novas formas de organização social. a ausência de direitos.85 - .. de confronto com a opressão. caboclos. etc. juntamente com a Abolição da escravidão (1888). invalidez. ora manifestando-se como ações específicas e localizadas ou movimentos messiânicos. havia anteriormente trabalhadores. As primeiras organizações operárias. Professora da Faculdade de Educação da UnB/UFCG.

Em 1850. isso impedia que os ex-escravos. foram para o norte. suíços. na luta incessante de recuperação de sua humanidade". PRIMEIRO MOMENTO: DAS LUTAS PELA LIBERDADE AO SURGIMENTO DO SINDICALISMO RURAL “O movimento para a liberdade. e no fortalecimento das organizações no momento atual. No século XIX. vê-se que não é suficiente que o oprimido tenha consciência crítica da opressão. primeiro com a chegada dos primeiros colonos europeus não-portugueses. principalmente a borracha e a castanha. todos agricultores pobres atraídos para o Brasil por promessas de terra. segundo José de Souza Martins. brasileiros pobres. 1837). a terra ficou escrava”. enquanto homens ou povos. os posseiros e os imigrantes pudessem se tornar proprietários. nas regiões Sul e Sudeste. Nesse mesmo período. movimentos de escravos. os trabalhadores não poderiam romper seus contratos a não ser que pagassem ao patrão quantia correspondente e se não o fizessem estariam sujeitos à prisão com trabalhos forçados até pagar suas dívidas.86 - . litígios e reações de parcela das populações pobres foram uma 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). visando garantir melhores condições de trabalho e de vida fazem parte da história do povo brasileiro: lutas de tribos indígenas. revoltas como da Cabanagem e Balaiada. Quando o trabalho ficou livre. e a pedagogia decorrente será aquela que tem que ser forjada com ele e não para ele. que tiveram um grande peso na formação da atual população de agricultores familiares amazônicos. Juntamente com o processo de luta contra a escravidão vamos ter a afirmação das leis de locação de serviços que visam regular o trabalho assalariado.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG trabalhar. Essa Lei significou o casamento do capital com a propriedade de Terra. o império restringiu o direito de posse da terra por meio da Lei de Terras.Lutas e mobilizações pela liberdade A luta dos trabalhadores (as) rurais brasileiros pela posse da terra. . que se disponha a transformar essa realidade. mas. mas sim constituísse a mão de obra assalariada necessária nos latifúndios. pois a partir desse momento a terra foi transformada em uma mercadoria a qual somente quem já dispunha dela e de capital pudesse ser proprietários. 04 a 10 de novembro de 2007. começamos a ter uma nova configuração. trabalhar na extração dos produtos da floresta. (1830. a partir de 1819. que passaram a ocupar áreas ainda não utilizadas. alemães. italianos.” Paulo Freire 1. fugindo da seca e da crise econômica dos engenhos de açúcar. principalmente sobre a forma de parceria ou colonato. trata-se de um trabalho de conscientização e politização. para o cultivo do café. professor da USP: “Enquanto o trabalho era escravo. O resgate do itinerário de algumas dessas lutas que são raízes da organização do campo brasileiro. milhares de nordestinos. a terra era livre. e do surgimento. podem sinalizar para descobertas importantes na construção de uma sociedade mais justa. deve surgir e partir dos próprios oprimidos. com isso tivemos uma intensificação dos conflitos por terra e pela libertação dos escravos. do sindicalismo rural brasileiro.

principalmente por meio das missões. Não fora difícil aos franceses conquistar os tamoios. Durante sua existência foram feitas varias tentativas de destruir Palmares. Durante todos esses períodos tivemos ações populares de intervenção na ordem social. Na área do estuário do Prata. Guerra dos Guaranis Em 1750.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG constante ao longo da nossa história. b) Missões A luta dos indígenas ao longo da nossa história apresenta raízes de uma organização camponesa. Mesmo assim. o governo de Pernambuco solicitou a ajuda do bandeirante paulista Domingos Jorge Velho. chegou a reunir mais de 20 mil habitantes. como também índios e pobres livres. 04 a 10 de novembro de 2007. e que tiveram nos camponeses (as) sujeitos protagonistas de várias dessas lutas e mobilizações. pelo novo acordo. pela 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). um dia. homens altivos. que a luta durou perto de três anos. tão valente. muitos negros fugiram para o sertão. a munição dos sitiados tinha de se esgotar. Enquanto os atacantes podiam conseguir reforços e munições de fora. com uma cultura e economia baseada na policultura. a resistência dos quilombolas foi tão grande. na organização coletiva da produção e na resistência e combate a escravidão. Guerra dos Guaranis e a Guerra dos Bárbaros. mas não desistiu. que preparou uma expedição para derrotar os fugitivos. os quilombolas encontravam-se sozinhos e apenas podiam contar com o que possuíam. que há tempos lutavam contra portugueses. que pretendiam escravizá-los. práticas reprimidas de participação social e política do povo que colocaram em ebulição os direitos políticos e sociais. A Confederação dos Tamoios Em 1562. A paz foi conseguida pelos padres José de Anchieta e Manuel da Nóbrega. e era governando por um rei (sendo o mais conhecido Zumbi) e um conselho formado por chefes dos quilombos. Quando isto se deu. a Espanha trocava os Sete Povos das Missões. o Tratado de Madrid determinou novos limites entre os impérios coloniais de Portugal e Espanha. a) Quilombos Nos quilombos refugiavam não só escravos foragidos. Por fim. aliaram-se aos franceses tomaram a Baía de Guanabara. Outros se suicidaram ou renderam-se aos atacantes. na margem esquerda do rio Uruguai. . principalmente contando com o interesse do governo. localizava-se na Serra da Barriga entre Pernambuco e Alagoas. Um dos mais importantes quilombos de nossa história foi Palmares foi construído no fim do século XVI e resistiu até o fim do século XVIII. Organizou um exército realmente poderoso e voltou ao ataque. O sistema de vida e produção organizado em Palmares pode resistir a economia patriarcal e escravocrata. Os negros tinham uma desvantagem: estavam cercados. antes que a cidadania e a sociedade civil se estabelecessem entre nós. É claro que.87 - . Também ele falhou nas primeiras tentativas. os exemplos mais conhecidos são: a Confederações dos Tamoios.

Em 1754. envolvendo todos os membros da família. alguns sobreviventes foram para as reduções da margem direita do Uruguai. enviaram comissões para tornar efetivas as mudanças previstas no Tratado. cerca de 8 mil trabalhadores ficaram desempregados e passaram a perambular pela região a procura de trabalho. b) Guerra do Contestado Em 1912. particularmente nos vales do Rio Açu (atual Piranhas) e Jaguaribe. Criou-se um povoado em que o trabalho cooperado foi essencial para a preservação da comunidade. mais de 5 mil soldados do exercito e armamentos pesados de guerra foram envolvidos no ataque ao arraial. os Guaranis continuaram a ocupar a área dos Sete Povos. Todavia. Entre outubro de 1896 e outubro de 1897. Mas já não existia o entusiasmo de antes e as mesmas condições de resistência e luta. dos portugueses. Melhor equipado. os portugueses da Colônia do Sacramento também não estavam satisfeitos com a troca de terras. 04 a 10 de novembro de 2007. A guerra não resolveu as questões de limites. Isso significa que a fé era a ligação entre ele e seus seguidores. e foi empreendida pelos cariris. Obrigados a sair. Chegou a ter cerca de 10 mil habitantes. Com isso. Mas os portugueses e espanhóis se uniram contra os rebeldes. Na comunidade havia um fundo comum destinado a proteção dos velhos e aos doentes. em Santa 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). O cenário dessa guerra foi uma extensa área do Nordeste.88 - . começou a Guerra Guaranítica. Nesse momento surgiu na região de Campos Novos e Curitibanos. o governo concedeu uma enorme extensão de terras à empresa norte-americana Brasil Railway Company. o exército europeu massacrou os guerreiros guaranis. Ao final da construção da ferrovia. Os Guaranis se revoltaram e se organizaram para defender suas terras. apesar das degolas. Portugal e Espanha voltaram atrás. atrás do beato Antônio Conselheiro. Dentre essas podemos destacar: a) Canudos a terra prometida Os/as trabalhadores rurais e escravos peregrinavam pelo sertão. liderados por Nicolau Ñeenguiru e Sepé Tiaraju. Lutas messiânicas – 1888 e a década de 1930 As lutas messiânicas se caracterizam pela existência de uma liderança messiânica. que durou dois anos. até se estabelecerem no Arraial do Canudos. resistiram por cerca de mais vinte anos sempre lutando como podiam pela posse de suas terras e na tentativa de vencer as injustas estratégias da dominação colonial. Guerra dos Bárbaros Essa guerra durou vinte anos. pois. anulando o Tratado de Madrid em 1761. Em 1752. Todos tinham direito a terra e desenvolviam a agricultura para auto-consumo. Ë por isso que alguns autores chamam as revoltas camponesas do período de lutas messiânicas.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Colônia do Sacramento. além dos índios. Os governos de Madrid e Lisboa tomaram decisões sem levar em conta os interesses dos jesuítas e guaranis. cativeiros e reduções em aldeamentos jesuíticos que sofreram ao longo dessa história que lhes fora imposta. a partir de 1682. . 2. no trecho previsto para a construção da ferrovia São Paulo-Rio Grande do Sul. estes bravios guerreiros. dos aprisionamentos.

Em 1915. A área pertencia ao padre Cícero . Todavia. sem lei e sem religião. pois era obrigado a comprar o que precisava pelo dobro do preço.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Catarina. e a organização de núcleos e colônias que serão precursores do sindicalismo brasileiro. que aconteceu no Ceará. casas são incendiadas e pessoas mortas. os anarquistas começaram a se organizar nos sindicatos. os lideres lançaram um manifesto monarquista e declararam a “guerra santa” contra os coronéis. contra os latifundiários. Colônia Nova Itália. que. A formação de núcleos ou colônias. O nome Caldeirão refere-se a uma depressão no relevo. Sua fama crescia e já influenciava outras cidades. um movimento camponês de caráter político-religioso. (o primeiro foi em 1912.89 - . quando foram assassinadas mais de 400 pessoas. tais como a Colônia Cecília. Colônia Leopoldina. com repudio a 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Contestado). ao chegar à época da colheita. Ninguém se considerava dono de alguma coisa. Recebiam um preço de terra onde desenvolvia uma cultura de autoconsumo. organizadas sem propriedade individual. na Chapada do Araripe.famoso religioso e político da época . 04 a 10 de novembro de 2007. Além disso. artesanato. A força militar chega ao sítio e os moradores resistem à destruição.que a entregou ao beato Zé Lourenço e seus seguidores para trabalharem na terra. liderado pelo monge José Maria. as companhias de terras e as autoridades governamentais. no período de 1926-1937. temendo o aumento da organização dos trabalhadores e uma possível ocupação de suas terras. confecção de redes. etc. roupas. Os produtos excedentes eram vendidos em Juazeiro e no Crato. O arraial foi dizimado quando o governo enviou cerca de 07 mil soldados do exercito. e onde começaram a funcionar as “Escolas Internacionalistas”. que chegou a cerca de 20 mil pessoas. c) Guerra do Caldeirão Uma luta de resistência camponesa. nos seus armazéns. até mesmo aviões foram utilizados pra localizar os redutos rebeldes. mais não conseguem vencer a comunidade. 3. porque tinham uma produção diversificada: agricultura. acontece o segundo bombardeio aéreo sobre civis na história do Brasil. o colono ainda sofria a especulação do fazendeiro. onde se encontrava água cristalina durante todo o ano. calçados. Inicialmente ficaram numa área de disputa entre Paraná e Santa Catarina. cuja ação deveria ser voltada para o desenvolvimento da consciência da classe. destruindo assim o povoado. Além de ser explorado com baixa remuneração (a família toda precisava trabalhar para a subsistência). no entanto. retornam usando dessa vez aviões. que depois se espalharam por outras áreas de imigração do sul do Brasil. a grande concentração de camponeses naquelas terras chamou a atenção dos fazendeiros. Todas as ferramentas necessárias para o trabalho eram feitas na própria comunidade. sofrendo as mais variadas injustiças e perseguições. iniciaram uma guerra contra os camponeses para destruir Caldeirão. As lutas prépré-sindicalistas a) As colônias anarquistas A chegada dos imigrantes para trabalhar nas lavouras do café dos grandes fazendeiros vai trazer mudanças no perfil do campesinato brasileiro. O Caldeirão ficou auto-suficiente. . por isso chamado de Contestado. desta forma estava sempre devendo ao fazendeiro. muitos eram expulsos. Dias depois. os mutirões. A exploração imposta faz com que se organizem ainda que de forma clandestina (já que o Ato Adicional de 1834 proibia toda e qualquer associação de ofício): surgem as primeiras associações de socorro mútuo.

já colocavam a educação em suas diferentes dimensões sinalizando para o que chamamos hoje de formação programada (cursos. que estavam sendo griladas. começou o processo de expulsão dos posseiros. Para os libertários a educação ocuparia um papel de destaque. pois era considerado um veículo de conscientização e transformação das sociedades. Depois de viver na clandestinidade. em três dimensões: a educação político-sindical37. sendo responsável pela formação de novas mentalidades e ideais revolucionários. nas comunidades. com o golpe militar. ocorria a Primeira Guerra Mundial. intercâmbios. 37 Desde esse período a necessidade de formação sindical já se fazia presente entre as organizações. é aprovada a Lei Adolfo Gordo para expulsar lideranças sindicais estrangeiras (1907/1913. a organização foi se afirmando. pesquisas. quando a nível internacional. b) Posseiros da Rodovia RioRio-Bahia. a construção da Transbrasiliana e o projeto de colonização dos governo federal valorizaram as terras da região de Uruaçu. além disso.MG devido à perspectiva da construção da rodovia Rio . até a região se tornar um município e Jose Porfírio foi eleito deputado estadual em 1962. Eles queriam que os posseiros saíssem das terras. eles só podiam plantar para subsistência. reinava fome e miséria. Os posseiros ganharam muita força na região e formaram vários sindicatos. a situação econômica para os trabalhadores (as) estava insuportável: carestia. no trabalho. e eles pagariam as benfeitorias feitas. José Porfírio. Esse processo vai ser intensificado em 1917. Articulavam a educação entre si. desemprego.governo Hermes da Fonseca). A valorização das terras da Região de Governador Valadores . recessão. recusa intransigente ao assistencialismo e mobilização permanente dos trabalhadores para ação direta contra os patrões. o que foi desmentalado em 1964. foi solto no ano seguinte e desapareceu. essa organização foi até a década de 1964. sendo desencadeada um processo de repressão e o uso intensivo da Lei Adolfo Gordo. no norte de Goiás. c) Trombas e Formoso Em 1948. etc). a educação escolar e as práticas culturais de massa. sistematização coletiva de experiências. oficinas. os supostos donos das terras começaram a aparecer de todos os lados e impuseram aos posseiros a condição de derrubar a mata para formação de pasto. Em 1907. mobilizações.90 - . e os anarquistas e socialistas faziam intensa propaganda anti-militarista. toda a região estava organizada na Associação dos Lavradores de Trombas e Formoso. inclusive acarretando a morte da mulher de José Porfírio. A partir de 1955 com a construção das rodovias. Eles começaram então a juntar os posseiros para formar uma associação (visto que os sindicatos rurais ainda não eram reconhecidos). 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). quando foram presos e torturados pela ditadura militar. com a contribuição do PCB. . seminários. 04 a 10 de novembro de 2007. a recusa foi geral. foi preso em 1972.Bahia em 1940. um juiz e um dono de cartório da região. Então os grileiros queimaram as roças e as casas dos camponeses. Trabalhadores provenientes do Maranhão e Piauí chegaram ao local liderado por Jose Porfírio e estabeleceram posses numa área de terra devoluta.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG idéia de organizar os trabalhadores em partido político. e a formação na ação que ocorre no cotidiano da organização. culminando com a Greve Geral. ali viviam muitos posseiros. por um grupo de fazendeiros. sem perda de tempo. No final da década de 1950.

para isso teria que fazer alianças entre o operariado e o campesinato. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). pois para Lênin. que identifica a realidade brasileira como sendo de um capitalismo agrário semi-feudal. Embora esse processo revolucionário deva estar sob a direção política do proletariado. sem questionar o sistema social vigente. a etapa primeira representada pela revolução democrático-burguesa é constituída pelo desenvolvimento do capitalismo. Essa aliança retoma na ação do partido na década de 1960 com a participação na organização das Ligas Camponesas e dos sindicatos rurais. o movimento tenentista e a coluna Prestes marcou uma grande seqüência de manifestações de operários. É esse caráter democráticoburguês que a proposta do BOC confere. pleiteando. A análise da sociedade como sendo um país semi-feudal. à luta de classes. a crise do café. onde a revolução seria feita por etapas: a primeira. a fim de que possam ser eliminadas as antigas formas de produção ainda existentes nessas sociedades atrasadas. 1978). daí a necessidade de ampliar sua ação e se aproximar de outras organizações progressistas. a revolução russa (1917). reformas modernizadoras. 04 a 10 de novembro de 2007. artistas. Na verdade essa aliança acabou tendo uma dimensão mais eleitoral de assegurar candidaturas que assegurassem a defesa dos interesses proletários. incorporar a luta contra a política da oligarquia. buscar aliança com a Coluna Prestes e atuar na área rural brasileira. luta por ela precisamente porque não a tem” (Freire. mas sim numa aliança com o campesinato para enfrentar o feudalismo. Com isso entendemos porque o BOC vai centrar sua ação nas questões sociais. a quebra da bolsa de Nova York (1929). seria anti-imperialista e anti-feudal. que consistia em substituir os intelectuais por operários nos cargos e instâncias partidárias e o fim do BOC. . a segunda. camponeses que começaram a reinvidicar a suspensão do pagamento da dívida externa. As divergências com relação a essa aliança. SEGUNDO MOMENTO: A IMPLANTAÇÃO DA ESTRUTURA SINDICAL NO BRASIL NO CONTEXTO DO ESTADO NOVO “Ninguém tem liberdade para ser livre. pelo contrário. Daí os acenos a setores da pequena burguesia como forma de romper o bloqueio à ação política que lhe era imposto não só pelas classes dominantes como também pela sua própria fraqueza interna. a partir de 1928.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG c) Influência Influência do Partido comunista formação do Bloco Operário e Camponês (BOC) A mudança de ênfase no PCB sobre a realidade brasileira. os resultados da revolução de 1930 e as definições do comunismo internacional levaram a uma re-orientação para a “obreirizaçao”. Essa tese se fundamenta na revolução leninista. a estratégia fundamental no operariado não pode basear-se na luta contra o capital. a reforma agrária. militares. a elaboração de uma legislação protegendo os trabalhadores rurais e colonização em terras devolutas com base em pequenas propriedades. de caráter nacional e democrático. de caráter socialista.91 - . Por isso. O fim da primeira guerra mundial (1914-1918). suas tarefas consistem em desenvolver as forças produtivas capitalistas (modernas). leva o partido a formar o Bloco Operário e Camponês (BOC) em 1927.

criador de classes sociais modernas (burguesia industrial e proletariado). embora o sistema político continue fortemente influenciado por ela. ligadas á lavoura de exportação. inaugura as condições que permitiriam no decorrer dos anos seguintes. que culmina com a formação da Coluna Prestes (1924-1927). Os sindicatos eram livres. É importante notar que a oligarquia agrária foi capaz de diversificar seus negócios expandindo-se em atividades urbanas. eram conquistas ou reinvidicações dos trabalhadores ao longo de anos de luta. Até essa época todos os sindicatos eram formados por iniciativa de trabalhadores de uma profissão ou categoria e se mantinham através das contribuições de seus associados. então. De fato. de 19 de março de 1931). proteção ao trabalho das mulheres e das crianças. independentes e funcionavam como organismos de luta por melhores condições de vida e salário. as chamadas leis sociais: pensões de aposentadoria. 04 a 10 de novembro de 2007.770. constituindo a aliança entre desiguais – populismo brasileiro. servindo de pára-choques entre tendências conflitivas nas relações do capital com o trabalho. os objetivos básicos da Lei de Sindicalização eram claros: 1) transformar o sindicato. na verdade. o que lhes garantia e fortalecia seus currais eleitorais. tendo Getúlio Vargas com seu representante. através de associações. A constituição corporativista de 1937 e a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) consolidam a política varguista para o 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). os “tenentes”. e o fortalecimento de uma classe média urbana. É dentro desse contexto que o Governo Vargas assina em 15 de março de 1931.para permitir a consolidação do poder dos industriais contra o poder da oligarquia rural. para uma aliança com a classe operária e a chamada “classe média”. e aproveitarse do capital industrial. Lideradas pelo seu segmento mais radical. a modernização conservadora e a construção do Estado Moderno. não tem força para fazê-lo sozinhos. O projeto sindical populista de Vargas previa a adoção de leis que. que insatisfeita com o domínio imposto pelas oligarquias agrárias. ou seja. Os diretores só podiam ser brasileiros natos ou com mais de 20 anos de residência. A nova lei de sindicalização visava oficializar. entre o capital e o trabalho. As oligarquias agrárias. . cujo início é a revolta do Forte de Copacabana (1922). e sua vinculação com o rural. jornada de trabalho de 08 horas. sendo obrigação do ministério do trabalho fiscalizar as assembléias e contabilidade dos sindicatos. os sindicatos deveriam funcionar como um órgão de conciliação entre os trabalhadores e os patrões e como um órgão de caráter assistencialista. considerando-o como mero fator de produção. não consegue se estruturar no restante do Brasil. atrelar os sindicatos ao recém criado Ministério do Trabalho. que mostrou uma capacidade insuspeita de se manter no controle do poder político ate 1964. sem perder sem abrir mão do autoritarismo e conservadorismo.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG A revolução de 1930.92 - . Pelo projeto governamental. num persistente processo de decadência econômica. A lei de sindicalização definindo o sindicato como órgão de colaboração com o poder público. Os industriais que querem controlar o poder. desencadeiam um ciclo de movimentos armados. o decreto conhecido como Lei de Sindicalização (decreto 19. o Estado. de arma autônoma dos trabalhadores. entram enquanto classe. sucedendo-lhe a chamada Revolução de São Paulo. apelam. essa aliança que se afirma na Região Sudeste. 2) disciplinar o trabalho. e 3) evitar a emergência da luta de classes. em agência colaboradora do Estado. utilizando o sindicato como “para-choque.

e em seguida: Barreiros. e os proprietários rurais agiam de forma repressiva. em São Paulo que chegou a aglutinar não só sindicatos mas federações de mulheres. porém esta lei não foi implementada. associações de bairro. como arrendatários. o código civil não permitia a organização de sindicatos rurais. Assim até 1955. além da presença permanente nos sindicatos em assembléias e no controle das finanças. além de associações mais voltadas aos interesses dos pequenos produtores. as influências das correntes comunistas e anarquistas criaram organizações paralelas como foi o caso do Pacto da União Intersindical (PUI). A inexistência de uma organização no campo que aglutinasse essas bandeiras. o mais antigo do país.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG movimento operário. No que se refere à defesa dos direitos trabalhistas na área rural. exigia-se ainda. de 1962. dentre as quais a educação constituiu um dos mecanismos de propaganda e de convencimento. Embora existisse uma legislação que permitia a criação de sindicatos. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). A CLT exclui os trabalhadores rurais do direito a sindicalizar-se apesar de lhes assegurar o direito ao salário mínimo. Rio de Janeiro (que tinha sido criado em 1938). Rio Formoso e Serinhaém. significando progressivamente a implantação de um projeto totalitário de poder. organizado a partir da greve de 1953. A construção da estrutura sindical oficial (e a ideologia corporativista que lhe dá suporte) não foi somente produto da repressão e do silêncio a que foram subjugados os setores mais combativos e de esquerda do movimento sindical brasileiro. e a divulgação de um regime sindical especifico. O estimulo a sindicalização era acompanhada por uma propaganda doutrinaria que envolvia benefícios sociais advindos de um conjunto de leis trabalhistas. Portanto. 2005). o regime corporativista. Também o Pacto de Unidade e Ação (PUA). posseiros e pequenos proprietários. o Ministério do Trabalho só tinha reconhecido o sindicato rural de Campos. Foi também resultado de uma série de medidas legais e político-ideológicas que engenhosamente articuladas. principalmente por meio das práticas de formação sindical incentivadas pelo Ministério do Trabalho. ou o Comando Geral dos Trabalhadores (CGT).038 se autoriza de forma explicita a sindicalização rural. parceiros. foram organizados sindicatos de forma localizada e isolada. inclusive acionando a polícia para reprimir qualquer tentativa de organização e mobilização dos trabalhadores (as) rurais. com a instalação da justiça do trabalho e a criação do imposto sindical. deram certa autonomia e permitiram articular melhor as lideranças e deram mais vigor as lutas dos trabalhadores (Abreu e Lima. Belmonte.93 - . Tubarão em Santa Catarina. No entanto. somente em 1944 através do Decreto 7. nos sindicatos dirigidos por ministerialistas ou ‘amarelos’. Uma vez constituído o sindicato de acordo com a lei. Muitas eram as dificuldades para esse tipo de organização: a legislação trabalhista era feita para os trabalhadores urbanos. 04 a 10 de novembro de 2007. à época. não considerando a especificidade do trabalho no campo. foi um dos fatores que impediram a elaboração e a implementação de uma legislação especifica para o campo. em Pernambuco. de 1957. para o seu reconhecimento o envio de seus estatutos ao Ministério do Trabalho para aprovação. na Bahia. entidades estudantis. quase não existiam juntas de conciliação e julgamento nas cidades do interior. Ilhéus e Itabuna. .

A partir das Ligas os camponeses organizados faziam um trabalho de denúncia. povo do Senhor. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). por município. no nível estadual além das lideranças camponesas. boletins. fundada inicialmente com fins basicamente assistenciais. No período de 1954 a 1964. 2005). nos locais de trabalho. em alusão ao nome por estes utilizados para certas organizações populares”(Abreu e Lima. e em 1954. agitação. de forma articulada. As ligas utilizavam diferentes estratégias para organizar e formar os trabalhadores: conversas na feira. envolvia profissionais liberais. etc. 2005). o PCB manteve algum trabalho no campo. ê Somos gente nova vivendo o amor Somos comunidade. se tornando um movimento de luta pela Reforma Agrária que se espalhou por vários Estados do Nordeste. criar escolas e uma caixa funerária para seus associados. ê. impuseram o aumento do foro e tentaram expulsar os foreiros da terra. parceiros. houve uma aceleração do processo de penetração capitalista. com a construção de grandes obras e expansão de crédito. As Ligas se organizavam em “delegacias ou núcleos. do aumento dos dias de cambão. e começaram a participar da formação da Sociedade Agrícola dos Plantadores e Pecuaristas de Pernambuco (SAPPP). Zé Vicente Após a segunda guerra mundial. para fornecer assistência médica. na missa. Como reação a esse processo. pão e paz. intelectuais. “A repressão atribuiu o nome de Ligas à organização desses trabalhadores para caracterizá-los como comunistas. resistência na terra e mobilizações. lavradores. parlamentares”.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG TERCEIRO MOMENTO: OS CAMPONESES ORGANIZADOS COMO CLASSE Somos gente nova vivendo a união Somos povo. semente de uma nova nação. surgiram três grandes organizações camponesas que deram uma outra fisionomia ao debate e as lutas dos camponeses (as) no País: a) Ligas camponesas Em 1955. foram duramente atingidos os foreiros. no campo. (Abreu e Lima. . jurídica. estudantes.94 - . distritos ou fazendas. da supressão do direito do cultivo do sitio. em Vitória de Santo Antão. biscateiros e outros mais E juntos vamos celebrar a confiança Nesta luta na esperança de ter terra. eram compostas só de camponeses. ê. e posteriormente. que resistiram ao processo de despejo. os donos do Engenho Galileia. cordéis. contra as ações de despejo acionadas pelos usineiros e latifundiários. Através da expulsão do morador. Nesse processo. Em âmbito local. b) União dos Lavradores e Trabalhadores Trabalhadores Agrícolas – ULTAB Mesmo na ilegalidade. ê Vou convidar os meus irmãos trabalhadores Operários. as organizações camponesas passaram a se contrapor. pequenos proprietários e moradores de engenho (que tinham direito a cultivar a lavoura branca e a obrigação de prestar três dias de serviço por semana ao proprietário). 04 a 10 de novembro de 2007.

não encolho a mão: avanço levando um ramo de sol. a partir da resistência de 300 famílias de posseiros. Até 1962 48 sindicatos foram fundados e 16 deles foram reconhecidos. em áreas previamente escolhidas. que passou a atuar na perspectiva de fortalecer a posição da Igreja entre os camponeses através da criação de sindicatos38.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG na II Conferencia Nacional de Lavradores. c) Movimento dos Agricultores Agricultores Sem Terra – MASTER Surgiu no Rio Grande do Sul em 1950. a vida que vai comigo é fogo: esta sempre acesa Thiago de Mello A existência das Ligas Camponesas. que concedia aposentadoria por invalidez ou por velhice como resultado das lutas lideradas pelas Ligas Camponesas no Nordeste. Mesmo enrolada de pó. A década de 1960 chega com o país falando de reformas de bases. que aliavam as lutas por direitos trabalhistas e reforma agrária e do surgimento dos sindicatos de trabalhadores e trabalhadoras rurais. Em Jaboatão (PE) o padre Crespo e o Padre Antonio Melo no Cabo (PE) passam a criar sindicatos com um objetivo declarado de enfraquecer o avanço das Ligas Camponesas e do PCB. formando acampamentos e organizando estratégias de defesa. em 1963. atingindo outros setores da sociedade. inovava com relação às formas de luta. tendo-se discutido o direito a organização dos trabalhadores rurais em associações e sindicatos. realizado em 1961. com a presença de 303 representantes de 16 estados.95 - . do Master e a influência do 38 No Rio Grande do Norte. a reforma agrária. CAMPO: PO: CONTAG SURGE A PRIMEIRA ORGANIZAÇÃO SINDICAL NACIONAL NO CAM Ainda que o gesto me doa. o então Bispo Dom Eugenio Sales funda em 1960 o Serviço de Orientação Rural (SAR) uma organização beneficente da Igreja destinada a fundar sindicatos. reforma na educação e no sistema bancário. previdência social. Essas três organizações durante sua existência assumiram algumas lutas de forma unificada. marcou o reconhecimento social e político da categoria camponesa e o reconhecimento do seu potencial organizativo dentro da sociedade brasileira. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). sendo a primeira experiência na perspectiva sindical no campo brasileiro. Nesse período foi criado o Estatuto do Trabalhador Rural (1963). que embora explicitasse as divergências. a greve no setor canavieiro em Pernambuco. como por exemplo. A partir. que obteve conquistas significativas para a categoria ou a participação em Congressos como o I Congresso Nacional dos Lavradores e Trabalhadores Agrícolas. adoção de medidas de apoio a produção etc. o movimento camponês cresceu e as discussões sobre a questão fundiária ampliaram-se. 04 a 10 de novembro de 2007. o que já era o bastante para deixar os latifundiários muito aborrecidos com o governo. As principais eram a reforma agrária. inclusive a Igreja Católica. dentro das terras dos latifundiários. pois executava a ocupação de terras. dentro da noite mais fria. foi fundada a ULTAB. o direito de greve. da ULTAB... das federações e da CONTAG. .

distribuídos em 29 federações. 39 Foi formada em Belo Horizonte (MG). Juventude Universitária Católica (JUC) e a Juventude Estudantil Católica (JEC).AP39. com a participação de trabalhadores rurais de 18 estados. em 1962. setores da Igreja.96 - . 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). apesar das diferentes correntes de pensamento. a AP formalizou a influência do marxismo e se proclamou partido com a denominação de Ação Popular Marxista-Leninista (APML). e do Vale do Pindaré. (Revista dos 40 anos da CONTAG). provenientes das Ligas e os comunistas”. Foi da Juventude Estudantil Católica que partiram as primeiras discussões que operaram mudanças políticas e ideológicas e sua transformação em uma organização marxista-leninista. A AP deslocou militantes para as fábricas e para o meio rural. e por outro incentivou o pacote da Revolução Verde. sendo reconhecida em 31 de janeiro de 1964. com um grande aumento da miséria na área rural e nas cidades. que reuniu 1. em 1961.600 delegados de várias organizações. a partir de grupos de operários e estudantes ligados à Igreja Católica: a Juventude Operária Católica (JOC). fizeram com que a organização dos trabalhadores(as) rurais em sindicatos fosse acelerada. camponeses e estudantes. sendo denominada Estatuto da Terra. que obrigou muitos agricultores familiares a saírem do campo. que por um lado definiu regras para os contratos de arrendamento e parceria. Esse processo culminou na realização do 1º Congresso Nacional dos Lavradores e trabalhadores agrícolas. 04 a 10 de novembro de 2007. Já em 1964. Recém criada a CONTAG. principalmente entre os últimos. de lavradores. ainda fortemente influenciada pelo ideário humanista cristão. de agricultores. da Zona Canavieira em Pernambuco. na busca pela melhoria das condições de vida dos trabalhadores do campo. serem colocadas em segundo plano. sendo que 27 eram reconhecidas oficialmente pelo Ministério. pelo Decreto Presidencial 53. Em 1962. as bandeiras de lutas atualizadas e ampliadas e estabelecidas linhas de ação comum. que continuou sua ação política durante a ditadura (ACO. as tropas militares ocuparam os pontos estratégicos do país. em Belo Horizonte coordenado pela ULTAB. o que ocorreu em 22 de dezembro de 1963. A resposta das elites veio de imediato no dia 31 de março de 1964. sendo efetuadas experiências em meios populares como o ABC paulista. esse foi o quadro político criado pelo regime militar para arrasar toda oposição a sua forma de governar o país. sofre de imediato a violência do golpe militar sobre as lideranças de sua organização. que viu bandeiras de lutas políticas dos trabalhadores. Em março de 1971. foi decretada a Primeira Lei de Reforma Agrária do Brasil elaborada ainda no Governo João Goulart. 1985). . de trabalhadores rurais. da região Cacaueira da Bahia. a AP possuía penetração entre operários. desde os setores mais à direita. Articular nacionalmente as lutas passou a ser uma das principais preocupações. como resposta as reinvidicações do movimento sindical. já existiam 42 federações.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG PCB e da Ação Popular. vinculada às estruturas formadas pela Igreja junto aos movimentos populares. de pescadores. Ajustou em seu interior diversas concepções e correntes de pensamentos. “A CONTAG torna-se a primeira entidade sindical camponesa de caráter nacional reconhecida legalmente. a da reforma agrária. acabou sendo promulgada com modificações. desrespeito a constituição. Nos primeiros anos da década de 1960. perseguição militar. pela ditadura militar. no Maranhão. de concepções e de formas de organização. em especial. A mobilização popular a favor das reformas amedrontou a classe dominante. que solicitou a realização de um Congresso Nacional para criação da Confederação. temiam que fosse apenas o começo de uma série de transformações radicais no país. autoritarismo. em alguns estados mais de duas: de assalariados. da área de Pariconha e Água Branca em Alagoas. pela reforma agrária. prisão e tortura para os opositores e censura prévia nos meios de comunicação.517.

dialogando com os desafios do dia-a-dia. “Após a intervenção. que durante a ditadura tiveram que atuar de forma quase clandestina. foi constituída uma Junta Governativa que durante um ano administrou a CONTAG. as lutas 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). por exemplo. revistas e jornais. os autores estariam protegidos. buscando a organização dos sindicatos e federações. De meados da década de 60 até o final da década de 70. durante toda a década de 1970. Os materiais de comunicação sindical foram fundamentais para garantir minimamente uma ação articulada nacional. Eram boletins. na difusão de práticas agrícolas e cursos políticos para formar novas lideranças. as relações comunitárias de parentesco e de vizinhança foram à base da organização dos “posseiros”. em seu conteúdo. No ano seguinte. A formação se traduzia em práticas educativas para garantir núcleos organizados nos locais de trabalho e para fortalecer o processo de retirada dos interventores e sindicalistas pelegos. nas temáticas do movimento e da realidade social e política do país. Também reproduziam as poesias. caso a repressão militar resolvesse censurar os textos. A partir de 1966. esse período nos ensinou a importância da comunidade. foi o sócio-drama. liderados pelos mais antigos. do trabalho em grupos. trabalhadores que resistiam à ditadura buscaram retomar o controle da entidade. O trabalho comunitário e de pequenos grupos foi á estratégia adotada durante muitos anos para resistir e formar novas lideranças durante a fase da ditadura. O cerceamento das liberdades individuais e coletivas inibia qualquer divulgação de trabalhos que pudessem. tendo como interventor José Rotta. na Amazônia. e foram ficando na terra e produzindo. na sua organização já construída e na solidariedade que novos migrantes foram rompendo as fronteiras do latifúndio na região. formavam uma rede importante de relações através das quais se recrutavam os membros das comunidades para as ações coletivas. da importância do ambiente cultural na formação do ser humano. ser interpretado como “ofensivo” ao governo e a “ordem pública”.97 - .”(Revista 40 anos da CONTAG). . Foi na experiência de comunidades já existentes. uma diretoria foi eleita para administrar a entidade durante o período de 1965 a 1968. regional e estadual. que tinham como objetivo central a conscientização e a socialização das vitórias e lutas do MSTTR. 04 a 10 de novembro de 2007. escritas pelos trabalhadores (as) rurais. A criatividade marcou esse período.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Logo na sua criação tinha sido constituída uma equipe de “educação sindical” com o objetivo de capacitar lideranças e dirigentes a fim de mantê-los informados. Portanto. e superar as dissidências alimentadas durante o período de intervenção. sem serem perturbados pela Policia ou pelo Ministério do Trabalho. Priorizava a oralidade e a expressão corporal. prosas e cordéis. Outro instrumento utilizado no final da década de 1960 e meados de 1970. Os núcleos formados por famílias extensas e vizinhos. Eram organizações quase clandestinas em grande parte fomentadas ou apoiadas pela Igreja. impostos nos sindicatos e federações pela ditadura. para estimular uma visão crítica daquele momento que o país vivia sem chamar a atenção do poder público (Revista CONTAG 40 anos). A formação sindical centrava sua ação na alfabetização dos trabalhadores (as). Os autores das histórias utilizavam pseudônimos.(Revista 40 anos da CONTAG) O cotidiano e o estímulo à organização dos trabalhadores (as) rurais eram reproduzidos por meio de personagens. da formação de base.

A violência do peão que é o jagunço da força privada. Brasília. a participação popular. AÇÃO CATÓLICA OPERÁRIA. Miguel. De um que apanhe esse grito que ele lançou e o lance a outro. que decretou ações contra os trabalhadores. pela cidadania. os valores humanistas. portanto. a educação. ecologicamente sustentável com equidade e justiça social continuam na agenda do dia para tecer o amanhã. A militarização proporcionou diferentes e combinadas formas de violência contra os trabalhadores. A violência da polícia. utilizando recursos dos grileiros e grandes empresários. de um outro galo que apanhe o grito que um galo antes lançou e o lance a outro. (1999) Educação não formal e cultura política: impactos sobre o 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). muitas vezes com o amparo da força pública. Minas Gerais. Jan/Jun. GOHN. Revista dos 40 anos. se vá tecendo. 1985. escorada na justiça desmoralizada. CONTAG. pelo meio ambiente. para que a manhã. v 3. ABREU E LIMA. a luta pela terra. defendendo claramente e tão somente os interesses dos latifundiários.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG camponesas eclodiam por todo o território nacional. a saúde. ARROYO. (2003). ainda na perspectiva de controlar a questão agrária determinou a militarização do problema da terra. 2005. projetos. pp.98 - . Pedagogias em Movimento – o que temos a aprender dos Movimentos Sociais? In: Currículo sem Fronteiras. As desigualdades sociais e a exclusão continuam acirrando as contradições de nossa sociedade. desde uma teia tênue. 28-49. os conflitos fundiários triplicaram e o governo. a soberania alimentar. Essas diferentes ações fomentam a resistência e a luta por uma sociedade justa e solidária até os nossos dias. Maria da Glória. Recife: Editora Universitária da UFPE: Editora Oito de Março. Maria do Socorro de. partidos. . (1985) História da classe operária no Brasil: Gestação e nascimento -1500 a 1888. e de outros galos que com muitos outros galos se cruzem os fios de sol de seus gritos de galo. n. entre todos os galos REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ACO.1. Rio de Janeiro: ACO. 2004. vinculadas à luta por uma sociedade economicamente justa. as relações igualitárias de gênero e etnia. Construindo o sindicalismo rural: lutas. Tecendo a manhã João Cabral de Melo Neto Um galo sozinho não tece uma manhã: ele precisará sempre de outros galos. 04 a 10 de novembro de 2007. os jagunços dos latifundiários e a polícia assassinavam um trabalhador (a) rural a cada dois dias. No ano derradeiro do governo militar.

Belo Horizonte: Vega. Revolução de 30: a dominação oculta-São Paulo:Brasiliense. NEAD/Brasília.99 - . MANFREDI. 2006. São Paulo. O comando geral dos trabalhadores (CGT) no Brasil (1961-1964). São Paulo: Escrituras Editorial.71). 1996. (Coleção Questões da nossa época. 1989.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG associativismo do terceiro setor. Rio de Janeiro: FASE. 04 a 10 de novembro de 2007. MEDEIROS. Silvia Maria. Leonilde Servolo. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). . Formação Sindical no Brasil: história de uma prática cultural. 2004. História dos movimentos sociais no campo. Cortez. SILVA. Da raiz a flor: a produção pedagógica dos movimentos sociais e a Educação do Campo. TRONCA.A. Maria do Socorro. 1981. L. Ítalo A. v. NEVES.

. CONTAG Nessa conferência. 04 a 10 de novembro de 2007. Neste sentido organizaram: o 1º Congresso Nacional dos Lavradores e Trabalhadores Agrícolas (1961) – convocado e coordenado pela ULTAB. O primeiro presidente foi Lyndolpho Silva. As organizações de esquerda com atuação no campo buscaram atualizar e ampliar as bandeiras de luta e estabelecer linhas de ação comuns. A luta camponesa passa a ter uma postura politizada e politizadora. Em 22 de dezembro de 1963. O MASTER. surgiu a União dos Lavradores Agrícolas do Brasil – ULTAB. Em Pernambuco. nos limites da região Agreste com a Zona da Mata de Pernambuco. As várias formas de organizações camponesas passaram a sentir a necessidade de uma articulação nacional que representasse os interesses e as demandas específicas. que. ULTAB durante a II Conferência Nacional dos Lavradores. em 1962 acontece o 1º Congresso de Trabalhadores na Lavoura do Nordeste. em Goiás. onde várias lideranças se destacaram. CONTAG – PRIMEIRA ORGANIZAÇÃO SINDICAL NACIONAL NO CAMPO As Ligas Camponesas. as organizações camponesas passaram a se contrapor. as Ligas Camponesas e sindicatos autônomos. no Engenho Galiléia. trabalhadores rurais de 18 estados. de forma articulada. uma década depois. promovendo uma das mais importantes lutas da época. distribuídos em 29 federações. dentre outros. A Ação Popular – AP (ligada aos católicos radicais) e a União dos Lavradores e Trabalhadores Agrícolas do Brasil – ULTAB. A CONTAG torna-se a primeira entidade sindical camponesa de caráter nacional legalmente reconhecida.517. Foi quando surgiu a primeira experiência de Ligas Camponesas e. fundaram a Sociedade Agrícola e Pecuária dos Plantadores. conseqüentemente. contra as ações de despejo acionadas pelos usineiros (Porecatu/PR) e da luta dos posseiros e arrendatários de Trombas e Formoso. Lavradores realizada em São Paulo. Em 1954. município de Vitória de Santo Antão. No processo de organização e luta. reconhecida em 31 de janeiro de 1964. foram identificadas as bandeiras prioritárias entre elas o ”estímulo à criação de sindicatos de trabalhadores rurais”. fizeram com que a organização dos trabalhadores rurais em sindicatos fosse acelerada.).Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG TRAJETÓRIA POLÍTICA DA CONTAG . decidiram pela criação da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG. resistindo ao regime imposto pelos militares.100 - . em 1963 a ULTAB organizou a 1ª Convenção Brasileira de Sindicatos Rurais (Natal-RN). de resistência camponesa articulada a objetivos políticos mais definidos (.. foram criadas outras organizações como o Movimento dos Agricultores Sem Terra – MASTER na região sul do país. 40 Publicação – Revista Contag 40 anos 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Em 1963 uma greve no setor canavieiro envolveu a Federação dos Lavradores. . viria a ser o primeiro presidente da CONTAG. A CONTAG nasceu em um momento crítico da atividade política do país.AS PRIMEIRAS LUTAS40 Na década de 50. pelo Decreto Presidencial 53.

a intervenção do Estado no setor fundiário. Nos primeiros dias após o golpe. permitindo. urbana e rural.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG O golpe militar de 64 foi uma contra-revolução que barrou mudanças estruturais de democratização da sociedade brasileira. . As lideranças políticas sindicais comprometidas com a luta por direitos e liberdade. Colocou à margem a pequena produção e favoreceu a ampliação ainda da concentração de terra e de renda no país. Ainda assim. marcou uma nova etapa em relação à legislação existente. A política salarial. bancários e industriários. Houve um estímulo à especulação com a terra e de concessões a grandes empresas para atuarem no campo. O Estatuto da Terra. a União Nacional dos Estudantes (UNE). Com o golpe. O governo militar concentrou-se na modernização das relações capitalistas no campo e nos projetos de colonização nas áreas de fronteira. mediante a desapropriação de terras por interesse social. aliada à ausência de uma política diferenciada de créditos. 04 a 10 de novembro de 2007. Os militares justificavam sua ação afirmando que o objetivo era restaurar a disciplina e deter a “ameaça comunista”. contando com a presença de sindicalistas rurais de quase todos os estados. Com o golpe militar. o Rio de Janeiro é transformado em sede da Conferência Nacional Intersindical. torturados e substituídos por interventores que conduziam os sindicatos como órgãos de colaboração do Estado. em especial nas áreas de fronteira agrícola. estava clara a existência de dois grupos políticos. as Ligas Camponesas e grupos católicos como a Juventude Universitária Católica (JUC) e a Ação Popular (AP). Em 1967. o Comando Geral dos Trabalhadores (CGT). adquirindo máquinas e equipamentos mediante financiamentos que. impedia os aumentos reais e garantia ao patronato à crescente exploração de mão-de-obra barata. um ligado ao interventor e. com profundas modificações. O golpe foi deflagrado contra o governo de João Goulart. realizado em São Paulo. foi promulgado devido às pressões internacionais e internas. resistiram como puderam ao regime militar e no 1º Congresso Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CNTR. de consolidação de uma chapa para concorrer às eleições da CONTAG. elaborado durante o governo de João Goulart. As pessoas também foram atingidas em seus direitos individuais e coletivos. O Ato Institucional (AI) foi criado pelo governo militar – cujo objetivo era justificar os atos de execução. controlada pelo governo. mas. mais tarde. uma violenta repressão atingiu setores politicamente mais mobilizados à esquerda como. Os pequenos e médios produtores foram incentivados a se modernizarem. resultou na perda de muitas propriedades. A idéia aguçou o conflito em torno da propriedade. presos. deu-se início à implantação de um regime político marcado pelo “autoritarismo”. preocupando-se com um projeto agrícola afinado com sua política econômica. Essa situação. a direção da CONTAG foi deposta e alguns dirigentes foram presos. congregando representantes dos trabalhadores rurais. a defesa da reforma agrária foi unânime. tornando irreversível o processo de concentração fundiária.101 - . A repressão à atuação sindical não permitia que os assalariados rurais pleiteassem seus direitos trabalhistas. Os dirigentes sindicais mais combativos foram cassados. não conseguiram saldar. outro ligado a trabalhadores e lideranças que se mostravam comprometidos com as lutas dos trabalhadores. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). No 1º Congresso Nacional de Trabalhadores Rurais da CONTAG. dentre outras coisas. Milhares de pessoas foram presas e casos de tortura transformaram-se em atos comuns. Nessa conferência. por exemplo. Foi o início de uma articulação ampla.

O PIN elegeu a reforma agrária como uma das bandeiras de luta capaz de propiciar a unidade do movimento. legislação trabalhista. Um espaço chamado “Conversa de Caboclo” que contavam estórias sobre o cotidiano dos trabalhadores rurais. José Rotta. lançando a revista mensal “O Trabalhador Rural”. . Durante os ‘anos duros’ do regime ditatorial militar. a nova diretoria (1968) convocou todas as federações para um encontro. 1968 e 1969. social e cultural que contrariam a função social de propriedade. que reafirmava: “É. pois seria de fundamental importância não apenas para os diretamente envolvidos nos conflitos pela terra. informativo que levava as idéias e propostas da direção da CONTAG acerca das bandeiras de lutas e da organização sindical às Federações. Essa proposta. O PIN previu ações específicas para cada setor. por exemplo. para abarrotar as Juntas de Conciliação e Julgamento. foi transcrita a carta ao Papa Paulo VI. criadas pela equipe técnica da Contag e assinadas com nomes fictícios. é necessária uma decisão drástica e enérgica pela reforma agrária”. por apenas um voto de diferença. por promoverem reuniões dos grupos nos Sindicatos de Trabalhadores Rurais. 04 a 10 de novembro de 2007. O PIN marcou a singularidade do MSTTR dentro do sindicalismo brasileiro. que ameaçavam e puniam os líderes sindicais. que vai dar nosso valor? É uma sociedade composta de agricultor. a chapa encabeçada por José Francisco da Silva impõe a derrota ao interventor e então presidente da CONTAG. Nós 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). mas também para o pequeno produtor e o assalariado. causaria uma reação violenta do patronato e do poder público. apresentando análises sobre a conjuntura nacional e sugerindo encaminhamentos para reflexão nos estados. agrária. a direção da CONTAG qualificou ainda mais a sua forma de comunicação com a base. Lançaram o periódico “O Trabalhador Rural”. agrícola. Enquanto as outras confederações urbanas existentes tinham dúvidas entre resistir ou aceitar a intervenção no movimento sindical. a CONTAG optou pelo enfrentamento ao poder econômico e político em uma de suas principais bases: a democratização da terra e a organização política dos trabalhadores rurais. Empossada. sinônimo de um poder político. A revista “o Trabalhador Rural” era um dos meios utilizados para chamar os trabalhadores para organização sindical. os dirigentes do MSTR aceleraram o processo de organização e politização da categoria. iniciou um contínuo trabalho de conscientização dos trabalhadores rurais sobre os seus direitos.102 - . A preocupação maior era criar um instrumento capaz de garantir a unidade do MSTR diante da divisão política revelada no processo eleitoral. Os textos reproduzidos no periódico demonstram explicitamente o enfrentamento da CONTAG diante das políticas do governo militar. qualificando-os para a luta cotidiana. em Petrópolis (RJ). Nesse período. cooperativismo e de organização sindical. Em uma dessas estórias consta esse trecho: “E quem é esse sindicato. quando levada à prática. assinada por José Francisco. para chamar a atenção dos camponeses sobre a importância da organização sindical.PIN. A formação de líderes era essencial para o futuro do MSTR. foram incentivadas as ações coletivas.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Fruto da união operária e camponesa. em grande número. Por meio de cursos sobre a realidade brasileira. para vencer barreiras centenárias de irracionalidades geradas pelo latifúndio. No caso dos assalariados. forçando uma tomada de posição favorável aos trabalhadores. por meio da formação de lideranças. A necessidade de organizar os trabalhadores nos municípios e constituir sindicatos era uma das grandes demandas do movimento sindical naquele momento. Num dos primeiros números dessa revista. a fim de elaborar um Plano de Integração Nacional . econômico.

foi organizado um Encontro Nacional em Petrópolis. ambos fundadores da CONTAG. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Sim. para daí se chegar à escolha da ação e a própria ação.” A luta essencialmente corporativa. . foi empossada a direção para o triênio 1980/1983 e a festa de posse contou com a presença dos exex-dirigentes Lyndolpho Silva Silva e José Pureza da Silva. 04 a 10 de novembro de 2007. Demonstrou que o conceito de desenvolvimento do governo era diferente da idéia do MSTR: “milhões de camponeses continuam morrendo de fome (. passamos de 19 para 21 Federações. tendo como presidente José Francisco/PE. já em 1968.103 - . em seu discurso de abertura. Que sempre nos tem trazido amarrado no nó da peia.). que representou um marco para a organização da classe trabalhadora rural.CNTR em 1973. Em maio de 1977 foi empossada a direção para o triênio 1977/1980. em 1979. conhecimento e crítica. Em 1979 acontece o 3º Congresso Nacional Nacional dos Trabalhadores Rurais. Levantamento elaborado pela CONTAG. que será criticada. de dois milhões e meio de associados para mais de cinco milhões”. Denunciou a intenção de cooptação do governo através do assistencialismo. preocupados com a importância da educação para o desenvolvimento do campo. porque crescer é bem diferente de desenvolver”. inclusive Brasília e Guanabara. logo o governo militar buscou impedir a posse da diretoria eleita.275.500 sindicatos para 2. pra acabar com a tal de meia.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG vai lá se reunir. conforme a tabela abaixo: Levantamento numérico do movimento sindical em 22 estados. e b) o método a ser utilizado. de volta ao país após vários anos de exílio.. nunca foi a marca do movimento sindical coordenado pela CONTAG. de 1. Francisco/PE esta foi a 4ª eleição da CONTAG. em 1971. Reunindo diversos representantes das Federações concluíram que: a) o diálogo deve ser a base para a construção de uma proposta educativa para o campo. deve levar em conta o conhecimento da realidade. demonstraram que a estratégia adotada pelo MSTR foi acertada. Municípios brasileiros Inicio de 1969 3959 Final de 1971 3959 Municípios com Municípios sem Média de sindicatos sindicato sindicatos 705 1045 3254 2914 sócios por 800 1132 Fonte: Revista O Trabalhador Rural Em março de 1971. Na revista “O Trabalhador Rural”. Rurais dando visibilidade nacional ao sindicalismo de trabalhadores coordenados pela CONTAG. é Sindicalismo livre”. Durante o 3º Congresso Nacional de Trabalhadores Rurais. a direção da CONTAG politizou o debate sobre o papel da organização sindical e utilizou repetidamente o lema “Sindicalismo autêntico. 1971 ocorreu a Reunião do Conselho Deliberativo que escolheu a diretoria da CONTAG para o triênio 1971/1974. de 1960 a 1971. o presidente José Francisco recordou: “apesar das condições desfavoráveis para o trabalho sindical entre o último Congresso e os dias atuais. Em abril de 1980. mas o Brasil está em franco crescimento. A CONTAG segue sua trajetória e realiza seu 2º Congresso Nacional dos Trabalhadores Rurais ..

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A CONTAG estava consolidada, não como um espaço desse ou daquele ‘modo de pensar o
sindicalismo’, mas de todas as correntes políticas existentes. Rompeu com a visão
imediatista da luta sindical e buscou atender às outras dimensões e necessidades do ser
humano, inclusive, apontando o conceito de desenvolvimento que se queria para o campo:
“O desenvolvimento deve vir acompanhado de transformações sociais e políticas”.
O mesmo aconteceu com o estímulo à participação, em registros internos, vê-se que
reuniões de avaliação e planejamento sempre estiveram presentes na história dessa
entidade, inclusive, com a participação da assessoria nesses momentos, demonstrando
como praticar democracia interna, mesmo em momentos difíceis e sob ameaça constante
dos militares.
No 4º CNTR em 1985 o debate sobre o modelo de reforma agrária defendido pelo MSTR
foi o ponto alto. Os delegados aprovaram a realização de eleições da CONTAG e
Federações em Congresso, com mandato de três anos. Em dezembro de 1985 aconteceu
a 1ª Eleição Congressual da história da CONTAG.
Apesar da deliberação do 4º CNTR, a eleição da Diretoria e do Conselho Fiscal da CONTAG,
gestão 1989/1992,
1989/1992 não aconteceu em congresso. As urnas foram colocadas nas sedes
das federações. A votação foi de um delegado por sindicato. A Diretoria Efetiva teve como
presidente
presidente Aloísio Carneiro/BA.
Carneiro/BA Nessa eleição foi eleita a primeira mulher, Gedalva de
Carvalho/SE, enquanto suplente da direção da entidade.
No 5º CNTR,
CNTR em novembro de 1991 a participação da base foi ampliada qualitativa e
quantitativamente. Elegeram o dirigente Francisco Urbano/RN como presidente da
CONTAG.
Em agosto de 1994 foi realizado o 1º Congresso Nacional Extraordinário dos
Trabalhadores Rurais – CNETR. Neste congresso participaram a direção executiva da
CONTAG, a direção efetiva das federações e os delegados eleitos em número
correspondente a 10% dos sindicatos filiados a cada federação. Foi assegurada a
participação das diretoras da CONTAG, como delegadas, e de duas trabalhadoras rurais
por estados.
O 6º CNTR acontece em maio de 1995 explicitando a necessidade da classe trabalhadora
rediscutir a sua prática de luta e de convivência democrática com as divergências. O 6º
CNTR foi um marco, pois a partir daí o Movimento Sindical dos Trabalhadores e
Trabalhadoras Rurais – MSTTR incorporou o conceito de agricultura
agricultura familiar às suas
formulações, dando os passos iniciais para a construção de um projeto alternativo de
desenvolvimento rural, a participação efetiva das mulheres na Diretoria da CONTAG e uma
maior abertura para os jovens e as pessoas da 3ª idade. No 6º CNTR também foi aprovada
a filiação da CONTAG à Central Única dos Trabalhadores - CUT. Em 1995 foi oficializada
estatutariamente a Comissão Nacional de Mulheres Trabalhadoras Rurais, cuja
Coordenadora passou a integrar a Diretoria da CONTAG. A Comissão Nacional de Mulheres
Trabalhadoras Rurais – CNMTR elege a sua Coordenadora Nacional, Margarida Maria
Alves da Silva (Hilda) do STTR de Surubim/PE.
Dois anos (1997) depois foi realizada a 1ª Plenária Nacional de Mulheres Trabalhadoras
Rurais que discutiu as lutas específicas das mulheres e a sua relação com as lutas do
conjunto da categoria.
O 7º Congresso representou um marco, em 1998 mais de 1.400 delegados e delegadas
debateram e aprovaram um Projeto Alternativo de Desenvolvimento Rural Sustentável –
PADRS. Nascia o PADRS representando um passo significativo para a articulação e

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unificação das lutas da categoria na esfera nacional e para o fortalecimento de um novo
tipo de interseção campo e cidade.
O projeto ampliou a visibilidade política das mulheres coordenadas pela CNMTR, que já
haviam conquistado a inclusão da Coordenação da Comissão Nacional no Estatuto da
CONTAG. Incluíram mais um “T” no nome do congresso, que passou a ser 7º Congresso
Nacional de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais – CNTTR. Foi aprovada também a cota
de, no mínimo, 30% de mulheres em todas as instâncias do sindicalismo rural. Foi eleito
como presidente Manoel José dos Santos/PE.
Neste Congresso os trabalhadores e trabalhadoras rurais aprovaram: o Projeto Alternativo
de Desenvolvimento
Desenvolvimento Rural Sustentável - PADRS,
PADRS, tendo por princípio a realização de uma
ampla e massiva reforma agrária, expansão, valorização e fortalecimento da agricultura
em regime de economia familiar, centrado na inclusão social, no desenvolvimento social,
econômico, ecologicamente sustentável e no fim de todas as discriminações, em especial
as de gênero, de geração, raça e etnia. Para a implementação do Projeto Alternativo de
Desenvolvimento Rural Sustentável - PADRS desenvolveu-se um trabalho de formação de
lideranças em desenvolvimento local, através do Programa de Desenvolvimento Local
Sustentável – PDLS, voltado para a animação e estímulo a processos de desenvolvimento
sustentável ao nível local, possibilitando uma maior intervenção nas políticas públicas e
nos Planos Municipais.
Em outubro de 1999 foi realizado o 2º Congresso Extraordinário buscando atualizar e
potencializar o MSTTR para o desafio de implementação do PADRS. o 2º CNETTR discutiu e
deliberou especificamente sobre estrutura, organização, gestão e auto-sustentação do
MSTTR. Este processo de avaliação e discussão interna tem possibilitado continuar na
construção de um movimento sindical autônomo, combativo, ético e participativo.
Em Março de 2001 acontece o 8º CNTTR , onde o MSTTR reafirmou a estratégia
estratégia de
continuidade e o avanço no processo de implementação do PADRS, indicando a
necessidade de atuação efetiva na organização da produção e comercialização. Foi criada
a Comissão Nacional de Jovens Trabalhadoras e Trabalhadoras Rurais e a Coordenadora
da Comissão, Simone Battestin/ES foi eleita junto com a Direção Efetiva da CONTAG.
Neste congresso foi deliberada a necessidade do MSTTR participar articuladamente das
Eleições Eleitorais e de eleger representantes dos trabalhadores e trabalhadoras rurais.
Os Congressos da CONTAG garantiram o debate, a socialização e a integração nacional
das políticas do Movimento Sindical dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais – MSTTR.
Ver anexo I sobre a trajetória das Eleições e Congressos Nacionais da CONTAG.
Desde então, o Movimento Sindical de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais vem
aperfeiçoando suas proposições e ações em torno da construção e implementação do
PADRS, se contrapondo aos padrões dos sucessivos modelos de desenvolvimento
implementados no Brasil. Modelos estes, que embasados na preservação do latifúndio e
na produção de monoculturas para exportação, fizeram aprofundar a exclusão social, o
desemprego, a concentração da terra e renda, sendo responsáveis, também, pela
violência no campo e pela alta degradação ambiental.41
Como também, implementando e ajustando, permanentemente, o Projeto Alternativo de
Desenvolvimento Rural Sustentável - PADRS. Sua última atualização ocorreu no 9º
Congresso Nacional da CONTAG, realizado em Brasília, no ano de 2005. Dentre os vários
41

PORTO, Cleia Anice. “Reforma Agrária e Agricultura familiar como base para o desenvolvimento rural –
Sustentabilidade e qualidade de vida, Reforma Agrária e Meio Ambiente, Instituto Socioambiental, 2003, p.107

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ajustes, ressalta-se a reflexão sobre o princípio da SOLIDARIEDADE.
SOLIDARIEDADE Durante o 9º
Congresso,
Congresso as trabalhadoras e trabalhadores rurais entenderam não ser possível se opor
ao neoliberalismo sem implementar profundas mudanças nas relações sociais
estabelecidas entre homens e mulheres, de todas as idades, raças e etnias que vivem e
trabalham no campo.
Logo, a solidariedade foi compreendida enquanto principal elemento para a construção de
relações fraternas entre a classe trabalhadora rural, na perspectiva de um mundo melhor.
Nosso projeto passou a ser denominado: Projeto Alternativo de Desenvolvimento Rural
Sustentável e Solidário – PADRSS.
A construção do PADRSS foi a primeira iniciativa concreta de unificar as demandas do
campo, considerando as diferenças e especificidades regionais, culturais, produtivas,
ambientais, organizativas, de gênero, geração, raça e etnia. E ainda propõe alternativas
específicas que consideram as demandas das pessoas no âmbito das suas características
produtivas, a exemplo das assalariadas e assalariados rurais, das agricultoras e
agricultores familiares, assentados, acampados, meeiros, posseiros, extrativistas, dentre
outros.
A incorporação das propostas do PADRSS no dia-a-dia do MSTTR estimulou profundas
mudanças em nossas entidades, garantindo um salto qualitativo e dinâmico às respostas
necessárias ao atendimento das demandas da base. A ampliação das frentes de lutas do
MSTTR foi uma delas. Não bastava atuar nas questões trabalhistas, previdenciárias, de
acesso à terra e crédito, sem articular essas lutas com outras políticas necessárias e
estratégicas para garantir o desenvolvimento rural sustentável que se pretende.
A ampliação das frentes de lutas acabou estimulando o MSTTR a expandir e qualificar
suas direções. Foram criadas as secretarias específicas, primeiramente na CONTAG, em
seguida nas Federações, e em muitos Sindicatos de Trabalhadores e Trabalhadoras
Rurais.
Essas mudanças apontaram para a necessidade de investir na formação política, sindical
e profissional de novas
novas lideranças sindicais e técnicas do MSTTR. Essas ações formativas
deram visibilidade a um público estratégico para as mudanças, a juventude e as mulheres
trabalhadoras rurais.
Ainda hoje, esse processo formativo busca conjugar a formação política sindical com as
demandas por melhoria das condições de trabalho, aumento da renda e dos salários,
direitos trabalhistas e previdenciários, elevação dos níveis de escolaridade, de formação e
requalificação profissional, habitação rural, saneamento básico, saúde pública e de
qualidade, educação do campo e lazer.42 Conjugadas com as demandas estruturantes do
desenvolvimento rural sustentável, como o acesso à terra, crédito, infra-estrutura social e
produtiva, condições de comercialização, tecnologias de produção adaptada à agricultura
familiar e aos ecossistemas.
A estratégia do MSTTR se orientou pelo estímulo à participação política e à gestão
democrática na comunidade, município, território ou região, levando os excluídos e
marginalizados do campo a serem protagonistas de uma outra realidade, sem perder de
vista a articulação entre o local, o regional e o territorial com o global, o rural com o
urbano, na perspectiva de uma sociedade justa, democrática, igualitária e solidária.
Tal estratégia exige uma participação efetiva nos processos políticos e eleitorais, nos
espaços de concepção e gestão de políticas públicas e, o permanente debate com a
42

Anais da 1ª Plenária Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais – Novembro 2003

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Desde então. A partir de 1995. 03 Encontros Nacionais de Juventude. militar pela anistia política. CONTAG. tem contribuído.que hoje é considerado como a “data“database” para a categoria trabalhadora rural. foram o fortalecimento das organizações e comissões de mulheres nos STTRs. a CONTAG continua engajada na defesa permanente dos interesses dos trabalhadores e trabalhadoras rurais. igualitária e solidária em nosso País. estados e regiões. tendo como um dos principais objetivos reverter o processo neoliberal e viabilizar políticas públicas necessárias à implementação do PADRSS. A Marcha das Margaridas é outra ação de massa importante no contexto do MSTTR. na Constituinte de 1988 e foi participante do Comitê em Defesa da Ética na Política que levou ao “Impeachment” o presidente Fernando Collor de Mello. estaduais e municipais . FETAGs.nacional. Não queremos dizer que o projeto vá resolver num passe de mágica os desafios históricos que estão postos para trabalhadores e trabalhadoras rurais brasileiras. Mas. proposição. em prol do bem . É a maior entidade camponesa da América Latina organizada em 27 Federações Estaduais de Trabalhadores na Agricultura e 4. pela convocação da Assembléia Nacional Constituinte. e principalmente a inclusão e organização das mulheres trabalhadoras de base. existência com o esforço e a participação de milhões de trabalhadores e trabalhadoras rurais. 02 Congressos Nacionais Extraordinários de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais. Pólos/Regionais.100 Sindicatos de Trabalhadores Rurais.estar da representatividade dos trabalhadores e trabalhadoras rurais do nosso país. A Confederação Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Agricultura – CONTAG. MSTTR É essencial que tenhamos viva. Os Congressos da CONTAG adquiriram cada vez maior importância política e capacidade no aprofundamento das questões de interesse da categoria. de maneira decisiva. social e cultural das mulheres trabalhadoras 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE).Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG sociedade sobre a concepção de espaço rural e do desenvolvimento que propomos. 01 Congresso Nacional da Terceira Idade. econômico. a maior mobilização nacional de mulheres já realizada na história do país. para a construção de uma sociedade mais justa. Essa organização se constitui no Movimento Sindical dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais . 03 Plenárias Nacionais de Mulheres Trabalhadoras Rurais. Foi reconhecidamente. luta e ampliação das possibilidades concretas de implementarmos e consolidarmos o PROJETO ALTERNATIVO DE DESENVOLVIMENTO RURAL SUSTENTAVEL E SOLIDÁRIO – PADRSS. em sua primeira edição mobilizou milhares de trabalhadoras rurais dos municípios. em seus 43 anos de existência. sem dúvida. unida e ativa essa grande estrutura de representação construída ao longo desses 43 anos.107 - . por eleições diretas para presidente e governadores. 04 a 10 de novembro de 2007. reivindicação e negociação das políticas essenciais para o meio rural. A CONTAG foi fundada no dia 22 de dezembro de 1963 em 01 Congresso Nacional. Os principais objetivos da Marcha. A CONTAG nestes 43 anos se engajou nas principais lutas do povo brasileiro: contra a ditadura militar. o MSTTR passou a se mobilizar anualmente no “Grito da Terra Brasil” . no Movimento “Diretas Já”. Em sua história de luta. mobilização. democrática. . dar visibilidade e reconhecimento ao papel político. foram realizados mais 08 Congressos Nacionais de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais. marcada pela mobilização. A história da CONTAG é marcada também por ações de massa em defesa dos interesses da categoria. contando também com a adesão das trabalhadoras urbanas. representa um salto qualitativo para nossa organização.MSTTR. 01 Plenária Nacional de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais.

Tarciso G. João de A. do Nascimento/PE. trabalho. Reforma Agrária e Desenvolvimento Agrícola. Sebastião Lourenço de Lima/MG. O congresso deliberou sobre: Legislação Rural. No encerramento. 04 a 10 de novembro de 2007. articulação e mobilização dos Sindicatos e Federações de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais que. foi eleita a primeira Direção Executiva: Lyndolpho Silva/RJ. Sobrinho/PA. a classe trabalhadora faz valer sua vontade. a chapa encabeçada por José Francisco saiu vitoriosa. José Palhares/RN e João Jordão da Silva/PE. Gomes/CE. mobilizando. Mendes/CE e Manoel P.108 - . João de A. Por apenas 01 voto de diferença. Joaquim A. Ao final. . a outra chapa por José Francisco. Uma encabeçada por José CONTAG Rotta. contribuindo para a ampliação e o fortalecimento da organização e representação sindical no meio rural: reivindicando. 2ª Eleição da Com o golpe militar. Filho/RN. direitos trabalhistas e políticas sociais que resgatam a área rural enquanto espaço de vida. Cavalcante/PA. José Lazaro/PR. da S. de 18 estados. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Cavalcante/PB. Miqueletti/PR. Previdência. Nossa trajetória é fruto de organização. que representava a influência do Ministério do Trabalho e. Agostinho José Neto/RJ. Neto/RJ. Zacarias Pedro/SC. de luta. o presidente da CONTAG enfatizou a necessidade de cumprimento do Estatuto da Terra para: “estabelecer um sistema de relações entre o homem. com a gradual extinção do minifúndio e do latifúndio”. de Faria/RJ. Agenor P. capaz de promover a Justiça Social. Nobor Bito/. Euclides A. desde a fundação da CONTAG construindo o MSTTR. ocorreu a Reunião do Conselho Deliberativo que escolheu a CONTAG Diretoria da CONTAG para o triênio 1971/1974. O congresso contou com a participação de 29 federações. O Conselho Fiscal: Joaquim Coutinho/RN. Gomes/CE. Machado/SP e José Felix Neto/SE. ANEXO I Trajetória das Eleições e Congressos Nacionais da CONTAG 1ª Eleição da CONTAG Em Congresso participativo.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG rurais no Movimento Sindical de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais – MSTTR e na sociedade. Joaquim B. Geraldo F. as eleições contaram com duas chapas. foram escolhidos: Jose Felix Neto/SE. no ano seguinte foi eleita para o período de 1965 a 1968 a diretoria composta por: José Rotta/SP. vêm. o progresso e o bem-estar do trabalhador rural e o desenvolvimento econômico do país. Acácio F. propondo e negociando políticas agrícolas diferenciadas. e Nestor Vera/SP. Para o Conselho Fiscal. composta pelos diretores efetivos: José Francisco/PE. Agostinho J. Francisco Urbano de A.CNTR. 3ª Eleição da Em 1968. A CONTAG procurou se estruturar como uma entidade legítima de representação dos trabalhadores e trabalhadoras rurais em defesa dos interesses da classe camponesa. Educação. Otávio F. A próxima Marcha das Margaridas acontecerá em agosto de 2007. a propriedade rural e o uso da terra. José Benedito da Silva/AL e Otavio F. Damasceno/RN. CONTAG Uma Junta Governativa foi indicada pelo Ministério do Trabalho e. as organizações que atuam no campo criam a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG. 2º Congresso Nacional dos Trabalhadores Rurais . Filho/PB. dos Santos/RJ. José Felix Neto/SE. democrático e de construção de estratégias comuns. A eleição ocorreu na reunião do Conselho Deliberativo da CONTAG. em cada município e estado. de trabalho e de construção de conhecimentos capazes de promover as transformações necessárias para um desenvolvimento sustentável em nosso país. contando com o apoio de entidades sindicais urbanas e da base do movimento sindical de trabalhadores rurais. Joaquim Damasceno/RN e Antonio J. Foram eleitos para o mandato de 1968/1971: José Francisco/PE. onde apenas 11 Federações votavam. José Ari Griebler/RS. a direção da CONTAG foi deposta e alguns dirigentes presos. 4ª Eleição da Em março de 1971.

de Almeida/BA. de Souza. de Souza. dava os primeiros passos para consolidar a organização das mulheres trabalhadoras rurais. O Conselho Fiscal foi composto por: Álvaro Diniz. Trindade. Francisco Sales/MA. O Conselho Fiscal foi composto por: Jonas P. que apesar de subordinada à presidência da entidade. Francisco Sales/MA. Roberto T. Eraldo Lírio de Azevedo/RJ. de Souza/MT. da Silva/AL. de Souza e Norberto Kortmann 8ª Eleição da CONTAG Em abril de 1983. José Amadeu Araújo/CE. Erny 1989 não ocorreu em Knortst/RS. Gelindo Zulmiro Ferri/RS. Trindade/ES. Norberto Kortmann/SC. O Conselho Fiscal foi composto por: Álvaro Diniz. Antenor Beni/PR. foi empossada a direção para o triênio 1983/1986. Roberto T. João F. “1ª Eleição da história da Pinheiro/RS. da Silva/AL. Francisco Urbano A. Eraldo Lírio de Azevedo e Henrique Gomes Vilanova. “a democratização da terra é a base para a democracia no Brasil”. João F. enquanto suplente da direção da entidade. Octavio Adriano Klafke/RS. Horiguti/SP. As mulheres conquistam a Comissão Nacional Provisória da Trabalhadora Rural. Ezidio V.Nessa eleição foi eleita a primeira mulher. 3º Congresso Nacional dos Trabalhadores Rurais – CNTR – “Um marco na História da classe trabalhadora rural”. Pedro Ramalho/MS e José Amadeu Araújo/CE. de Souza/MT. André Montalvão/MG. de Oliveira. 04 a 10 de novembro de 2007. Jonas P. Paulo F.CNTR. Filho/RN e Henrique Gomes Vilanova/PI. Francisco Urbano A. Jonas P. da Silva/AL. 6ª Eleição da CONTAG Em maio de 1977. José “Eleição da CONTAG de Francisco da Silva/PE. a sergipana Gedalva de Carvalho. Filho/RN. Francisco Urbano A. Paulo F. Aloísio Carneiro/BA. Acácio F. . Horiguti/SP. Filho/RN. Pedro Ramalho/MS e Adevair N. Euclides D. dos Santos/RJ e José B. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). 9ª Eleição da CONTAG A Direção Efetiva era composta por: José Francisco da Silva/PE. 7ª Eleição da CONTAG Em abril de 1980. “Reforma Agrária para acabar com a fome e o desemprego no campo e na cidade”. José B. 10ª Eleição da CONTAG A Diretoria Efetiva eleita era composta por: Aloísio Carneiro/BA. Elio Neves/SP. Orgenio Rott/RS. Francisco Urbano A. Leocadio N. A Diretoria Efetiva era composta por: José Francisco da Silva/PE.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Trajetória das Eleições e Congressos Nacionais da CONTAG 5ª Eleição da CONTAG Em março de 1974.109 - . Euclides D. de Souza e Norberto Kortmann. João F. Gelindo Zulmiro Ferri/RS. de Carvalho/ES. de Souza/MT. Roberto T. Henrique Gomes Vilanova/PI. A Direção Efetiva era composta por: José Francisco da Silva/PE. Francisco Urbano A. O Conselho Fiscal foi composto por: Henrique Gomes Vilanova. foi empossada a Direção para o triênio 1977/1980. Filho/RN. José Felix/SE. Divino Goulart/GO. A Diretoria Efetiva era composta por: José Francisco da Silva/PE. o Conselho de Representantes da CONTAG elegeu a nova diretoria para o triênio 1974/1977. Vidor Jorge Congresso”. O Conselho Fiscal foi composto por: Álvaro Diniz. CONTAG em Congresso” Jonas P. André Montalvão/MG. Horiguti/SP. André Montalvão/MG. de Souza/MT. Eraldo Lírio de Azevedo/RJ. de Souza e Norberto Kortmann. Jonas P. Acácio F. Francisco Urbano A. Eraldo Lírio de Azevedo/RJ. Faita/SP. foi empossada a direção para triênio 1980/1983. Filho/RN. Estevam N. José Felix/SE. Canalle e Jonas P. O Conselho Fiscal foi composto por: Álvaro Diniz. dos Santos/RJ e José B. André Montalvão/MG. A Diretoria Efetiva foi composta por: José Francisco da Silva/PE. Canalle e João Tavares da Silva. 4º Congresso Nacional dos Trabalhadores Rurais . Filho/RN e Osmar Araújo/PI.

Juarez L. Francisco Urbano estava licenciado para concorrer a uma vaga para o Senado Federal. “Rumo a um Projeto Alternativo de Desenvolvimento Rural Sustentável”.. de Fátima R.. José Raimundo de Andrade/PB e Francisco Sales/MA. “TERRA. José Francisco da Silva/PE. A Direção Efetiva eleita era composta por: Francisco Urbano A. Gerônimo Brumatti/ES. 7º Congresso Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais – CNTTR. Hilário Gottselig/SC. O campo é a solução”. Conselho Fiscal: Antonio Zarantonello. A direção eleita teve a seguinte composição: Diretoria Efetiva: Francisco Urbano A. Hilário Gottselig/SC.. Francisco Miguel de Lucena/CE. nem miséria.”. Filho/RN. Antonio Zarantonello e Maira Bottega. Wilson Paixão e Osmar Araújo.110 - . para rediscutir e redefinir suas lutas”. José Fialho/MS. em agosto de 1994.. Divino Goulart e Almir José Feliciano. não podemos sacrificar a nossa intervenção nos processos eleitorais gerais que o país viverá. Aloísio Carneiro. da Silva/PI e Raimunda Celestina de Mascena/CE. SALÁRIO”. Conselho Fiscal: Antonio Zarantonello. Francisco Sales/MA. PRODUÇÃO. Tereza Silva/MG.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Trajetória das Eleições e Congressos Nacionais da CONTAG 11ª Eleição da CONTAG 5º Congresso Nacional dos Trabalhadores Rurais – CNTR. Aloísio Carneiro/BA. Filho/RN. em Brasília. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). A partir do 7º – CNTTR. O Congresso Extraordinário foi coordenado pelo Presidente em exercício. 04 a 10 de novembro de 2007. As novas diretoras ocuparam a Coordenação da CNMTR e as Secretarias de Políticas Sociais e a Secretaria de Organização e Formação Sindical. Avelino Ganzer/PA. “Nem fome. o MSTR reuniu mais de dois mil delegados (as) de todo o país. Alberto Ercílio Broch/RS. passou a ter três dirigentes na direção efetiva da CONTAG. Itálico Cielo/RS. 1º Congresso Nacional Extraordinário dos Trabalhadores Rurais – CNETR “. Guilherme Pedro Neto/GO. Pereira/MG. “apesar das tentativas de desarticulação das organizações sociais promovidas pelo governo. pelo Rio Grande do Norte 12ª Eleição da CONTAG 13ª Eleição da CONTAG 6º Congresso Nacional dos Trabalhadores Rurais – CNTR. no mesmo período em que ocorreriam as eleições gerais de 1994. Airton Luiz Faleiro/PA e Sebastião Rocha/MG. Maria Santiago de Lima/RO. o Conselho Deliberativo aprovou a realização de um Congresso Extraordinário. convocando um congresso massivo em Brasília. . As eleições de agora terão a responsabilidade de construir o amanhã. Conselho Fiscal: José Roberto de Assis. Norival Guadaghin/SP. Constatando que o próximo congresso aconteceria na segunda quinzena de novembro.

vale destacar a criação da Comissão Nacional da Juventude Trabalhadora Rural e da estrutura cooperativista ligada ao MSTTR. Raimunda Celestina de Mascena/CE e Simone Battestin/ES. Alberto Ercílio Broch/RS. Regina Rodrigues de Freitas/AC. “entre tantas deliberações. Maria da Glória da Silva/MT. Gilson Francisco da Silva e Maria Helena Baungarten. outra. “Consolidando o Projeto Alternativo de Desenvolvimento Rural Sustentável”. Maria de Fátima R. Antoninho Rovaris/SC. Suplentes: Joel José Farias/SE. Manoel Candido da Costa/RN. para o quadriênio 2005/2009 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Suplentes do Conselho Fiscal: Maria das Graças Darós/SC. Simone Battestin/ES. Hilário Gottselig/SC.111 - . 15ª Eleição da CONTAG43 9º Congresso Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais – CNTTR. Maria do Ó do Nascimento/AL. Ademir Mueller/PR e Elizete Hintz/RS. Wilson Hermuth Gottens/GO. “Avançar na Construção do Projeto Alternativo de Desenvolvimento Rural Sustentável”. José de Jesus Santana/BA. A direção eleita teve a seguinte composição: Diretoria Efetiva: Manoel José dos Santos/PE. Paulo de Tarso Caralo/ES. Geraldo Teixeira de Almeida/MS e Antonio Vitorino da Silva/AL.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Trajetória das Eleições e Congressos Congressos Nacionais da CONTAG 2º Congresso Nacional Extraordinário dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais – CNETTR “A prioridade será a discussão na base. Liberalino Ferreira de Lucena/PB. Manoel Carlos Dantas/RO. é o futuro sendo construído hoje” Duas chapas concorreram à eleição da direção da CONTAG. Francisco Miguel de Lucena/CE. Josefa Rita da Silva/BA. Conselho Fiscal: Francisco Sales. 04 a 10 de novembro de 2007. Guilherme Pedro Neto/GO. Juraci Moreira Souto/MG. Maria da Graça Amorim/MA. encabeçada pelo baiano Edson Pimenta. Antonio Soares Guimarães/CE. Alessandra da Costa Lunas/RO. Antonio Lucas Filho/GO. Manoel Cândido da Costa/RN. Maria do Ó do Nascimento Melo/AL. Airton Faleiro/PA. Uma chapa encabeçada por Manoel de Serra e. os trabalhadores e trabalhadoras rurais deverão determinar qual o tipo de sindicalismo que irá representá-los no próximo milênio”. Carmem Helena Ferreira Foro/PA. 43 Fonte: Ata de Posse da Diretoria e do Conselho Fiscal da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG. Raimunda Celestina de Mascena/CE. . Maria Elenice Anastácio/RN. Domingos Albuquerque Paz/MA. Paulo César Ventura Mendonça/RJ. da Silva/PI. Cláudia Pereira Farinha/DF. Maria Lucinete Nicácia de Lima/AM. Conselho Fiscal: Francisco Sales de Oliveira/MA. David Wilkerson Rodrigues/BA. Pedro Mário Ribeiro/MG. A direção eleita teve a seguinte composição: Diretoria Efetiva: Manoel José dos Santos /PE. Alberto Ercílio Broch/RS. 14ª Eleição da CONTAG 8º Congresso Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais – CNTTR. Maria José de Carvalho/PE. Juraci Moreira Souto/MG.

Instituto Socioambiental.1994 Anais do 6º Congresso Nacional dos Trabalhadores Rurais – 1995 Anais do 7º Congresso Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais – 1998 Anais do 2º Congresso Nacional Extraordinário dos Trabalhadores Rurais . para o quadriênio 2005/2009. . 1996. Sindicalismo – Brasil – História 2.1999 Anais do 8º Congresso Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais – 2001 Anais da 1ª Plenária Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais – Novembro 2003 Anais do 9º Congresso Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais – 2005 Publicação – Revista Contag .107 O Golpe Militar de 64 e a Instauração do Regime Militar – CPDOC – Fundação Getúlio Vargas – FGV. 04 a 10 de novembro de 2007.112 - .Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Bibliografia:                Anais do 4º Congresso Nacional dos Trabalhadores Rurais . Cleia Anice. Manfredi. Reforma Agrária e Meio Ambiente.40 anos Ata de Posse da Diretoria e Conselho Fiscal da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG. Sílvia Maria – Formação sindical no Brasil : história de uma prática cultural / Silvia Maria Manfredi – São Paulo : Escrituras Editora. p. 2003. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Sindicatos – Brasil – História I. Título PORTO. “Reforma Agrária e Agricultura familiar como base para o desenvolvimento rural – Sustentabilidade e qualidade de vida.1985 Anais do 5º Congresso Nacional dos Trabalhadores Rurais – 1991 Anais do 1º Congresso Nacional Extraordinário dos Trabalhadores Rurais .

desempenhar várias ocupações: supervisionava e controlava todas as atividades caseiras.700. alimentos em pequenos pedaços de terras que vendiam e assim. Mais de cem anos depois. 04 a 10 de novembro de 2007. dessas. eventualmente. quanto na indústria.070. não se considerou as donas de casa nesse conjunto. a produção de sabão e velas. a família. as mulheres ficavam com o encargo dos filhos. No entanto. a propriedade territorial e a escravidão eram eixos do mesmo fenômeno. o Censo Demográfico de 1980 mostra que a população brasileira é de 119.865 pessoas. como donas de casa e serviçais domésticas. naquela ocasião.187 pessoas. durante o Curso de Formação de Educadores/as em Concepção Prática Sindical e Metodologia da Formação. as tarefas mais duras e pesadas. Elas roçavam plantavam e colhiam algumas cultivavam ainda. eram incorporados às atividades do latifúndio: Nesse grupo.099 do sexo feminino. constataremos que elas eram mulheres em sua maioria. ano após proclamou-se a República. o país industrializou-se alterou-se a composição de sua população com a absorção intensa da imigração espanhola. freqüentemente comercializados nas vilas mais próximas. das quais 4. os serviços domésticos 33%. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE).943 eram mulheres e. alemã e japonesa. como cuidar das crianças. as mulheres compunham aproximadamente 45% do que o Censo considerava trabalhadores e. desde pequenas. Nos longínqüos 1872. que' consistia na atividade econômica mais importante. das quais 59.146. 689. desse trabalho fosse realizada dentro da família. cozinha e costura e. não são apenas demográficas e numéricas: em 1888 extinguiu-se a escravidão. embora sob o jugo masculino e interminavelmente explorando as escravas. com sua produção voltada para o mercado externo. a agricultura empregava 25%. realizado pela ENFOC/CONTAG. as mulheres eram dominantes na prestação de serviços pessoais· (81 % do total de pessoas no setor). é claro. elas partilhavam. não obstante. foi realizado o primeiro recenseamento da população brasileira. disperso pelo território brasileiro e desprovido de terras. O que esses dados do século passado mostram é que muitas mulheres trabalhavam. o latifúndio. e que. se observarmos o total de pessoas absorvidas. 44 Este texto foi distribuído pela Nalú Farias da SOF. diferentemente de agora. um. De fato. dos trabalhadores industriais: Elas perdiam para os homens na agricultura. . Às fazendeiras. por 9. Na periferia da grande propriedade territorial estavam os antepassados dos atuais bóias-frias: homens e mulheres pobres e brancos. No caso das mulheres escravas. Naquele ano. eram 78% . sem propriedade.998 mulheres escravas.694. italiana. embora parte substancial. tanto nos· serviços. sinhás e escravas eram partes da mesma comunhão doméstica. cabia. formou-se um proletariado urbano rural e a classe média assumiu claros contornos sociais e políticos.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG PARTICIPAÇÃO DAS MULHERES NA LUTA DOS TRABALHADORES E NO MOVIMENTO SINDICAL Maria Valéria Junho Penna44 Em 1872. com as crianças do sexo masculinas. ainda durante o Império. contudo.113 - . tanto domésticas quanto na agricultura. No latifúndio. então. ainda. constatou-se que ela era composta. como agora. Mas às diferenças. Política e economicamente. Das mulheres que trabalhavam oficialmente. logravam comprar sua liberdade.

Inicialmente. começaram a configurar uma crise na oferta de mão-de-obra e a estimular o comércio interno de escravos. 04 a 10 de novembro de 2007. promovida pelo Estado em estreita conexão com os empresários. à prestação de serviços pessoais como costura ou cozinha e. vilas operárias foram sendo construídas. com os homens recebendo salários maiores que as mulheres. no entanto. portanto. expandiu-se a cultura do algodão em São Paulo e surgiram as primeiras fábricas têxteis. a Lei do Ventre livre. os salários generalizaram-se no interior da indústria. Em resumo. café torrado. fundada em 1836) destinavam-se exclusivamente a rapazes. à habilitação profissional. finalmente. finalmente. trabalhando uma jornada de até dezesseis horas diárias. os homens . aves. angu. No mesmo período. em 1871.passaram. a aprender corte e costura e. não podiam ser professoras. cestos. Apenas em 1827 surgiu a primeira regulamentação que permitia às mulheres freqüentarem o ensino elementar. dormindo e se alimentando entre máquinas. paulatinamente. desde que com um currículo específico que incluísse bordado branco. a expansão econômica da lavoura para exportação provocou uma crise na lavoura para o abastecimento interno e uma demanda não suprida por mão-de-obra. mulheres e crianças das periferias pobres das cidades forneceram os primeiros braços para essa indústria. as vagas foram se abrindo às mulheres e.freqüentemente imigrantes estrangeiros . a imigração européia seria a solução para a questão da força de trabalho nas lavouras de exportação e consumo interno e. As primeiras Escolas Normais (a da Bahia. a insalubridade. refrescos. etc.114 - . palmitos. reorganizou·se o ensino de formação para o magistério. teve origem nesse pequeno comércio ambulante. Foi também no século passado que tomou impulso a constituição de um campo de trabalho fundamental para a jovem de classe média: o ensino primário. em filó. desolador: viviam nelas. À medida que o século XX se avizinhava. aceitando-se a participação feminina. milho assado. flores de contas e aplicação. freqüentemente. Não podendo ser alunas. à prostituição. As condições de trabalho supunham. as restrições progressivas ao tráfego negreiro. os espancamentos e estupros. dedicando-se ao comércio ambulante de mercadorias feitas em casa. mesmo porque. iniciando-se o hábito de pagamento diferenciado entre os sexos. A curto prazo. a sujeira. mas apenas esse. A longo prazo. principalmente em direção às regiões fluminense e paulista. de matizes. por exemplo. um conjunto de medidas legais restringia o acesso das mulheres às escolas e. após incontáveis horas de trabalho. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). flores. cortes de roupas brancas e lisas. eram obrigadas. Como se sabe. MULHERES E CRIANÇAS NA FÁBRICA O panorama da convivência das mulheres e crianças com as fábricas foi. até o inicio do século XIX. e a de São Paulo. Aos poucos. . fundada em 1835. para a indústria em expansão. A mulher taboleira. não faziam jus a nenhum salário. o ensino era uma esfera de atividades masculina. desde o início. ainda. onde se vendia sonhos. a substituir as mulheres nas oficinas. ainda.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG freqüentemente abandonados pelos pais. bolo. para absorção nas lavouras de café. a libertação de escravos sexagenários.

Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Uma operária. 19. em São Paulo. os homens recebiam 4$900 réis e as mulheres recebiam 3$000 réis. na Companhia Industrial de São Paulo. em 1902. que chamavam de aprendizado. no início do século.499 estrangeiros e 862 de nacionalidade ignorada. Em 1901 e 1903. Na seção de acabamento. A jornada de trabalho iniciava-se por volta das cinco e meia da manhã e terminava treze horas depois. como os homens trabalhadores. Porque luta houve.) O fato é que as mulheres: além de estarem submetidas. por mais dramática que fosse a vida da mulher operária. dividida entre seus afazeres domésticos e a longa jornada do trabalho assalariado. Assim. enfim. nós começaremos por desmascarar a cupidez dos patrões sanguinolentos". Dados de 1912. na Anhaia. fizeram uma paralisação contra a diminuição de tarefas. de tendência anarquista. revelam que foram visitadas. entraram em greve por solidariedade a uma companheira despedida. As refeições eram feitas entre as máquinas. No Brasil. que somos capazes de exigir o que nas pertence. paralisaram o trabalho em protesto contra as condições de trabalho e os salários. em média.uma questão de polícia para o Estado. Era o critério dos mestres o direito de comer e tendo ou não tempo para almoçar. Neles. exigindo melhores salários e menor jornada. Teresa Fabri e Maria Lopes. A Penas uma pia imunda servia· nos de bebedouro. Dois manifestos. O jornal A Terra Livre. assinados por Teresa Cari. esse fato não a fez abdicar da sua capacidade de reação à injustiça e da ação política.sem horário para almoço de definido. O PROTESTO FEMININO No entanto. Luzia Ferreira de Medeiros.80I eram do sexo feminino. Alvorada Operária. mesmo trabalhando além do horário estabelecido. se todas nos acompanharem nessa luta. 04 a 10 de novembro de 2007. O salário médio das mulheres era bastante mais baixo que o dos homens: o salário médio masculino na fiação era de 4$500 réis e o das mulheres. Não tínhamos lugar para comer.304 recenseados. diferentemente desses. da fábrica têxtil Bangu. evidentemente. ficaram célebres.943 trabalhadores brasileiros. (A Terra Livre. a condições de trabalho corrosivas. para confecção de um relatório. podia-se ler: "Devemos demonstrar. 6. na Cruzeiro. (Em Edgar Rodrigues. Nunca recebíamos horas extras. Mestre Cláudio fechava as moças no escritório para força-la à praticar relação sexual. no subúrbio do Rio. Isso.) Conjuntamente ao apelo em nome dos' "direitos". com o 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Muitas moças foram prostituídas por aquele canalha. fábricas que contavam com 1. mas não menos importantes. do Departamento Estadual do Trabalho de São Paulo. Dos 10. foi no interior desses dois movimentos que as mulheres procuraram demarcar um território para sua luta. contou como eram as condições de trabalho já depois da virada do século: "Entrei para a fábrica Bangu no período da primeira guerra mundial com sete anos de idade. no Rio de Janeiro. e se todas forem solidária.07I 906. . foi o veículo utilizado pelas costureiras das confecções para articular suas demandas e organizar seus sindicatos.115 - . Iniciava o trabalho às seis e terminava por volta das 17 horas . 2$000 réis. em 1903. Ao mesmo tempo muitas mulheres encabeçaram alguns dos mais importantes movimentos grevistas do período. 7. na Álvares Penteado. pelas mesmas razões. anarquistas e socialistas foram os arquitetos da questão social . depois de passada a fase do trabalho gratuito. na mesma época. se nos derem ouvidos. o salário era o mesmo. vinham reivindicações mais concretas e imediatas. por exemplo. ainda sofriam maus tratos corporais e auferiam salários mais baixos.

Alvorada Operária.116 - . Fábrica de cigarros Trajano. a relutância masculina em aceitá-Ias como companheiras e. lembra que o trabalho começava às 8 h da manhã. e em 1919. resume esse consenso: "O 3º Congresso Operário. sendo mesmo obstaculada em alguns casos. desde as primeiras reuniões de trabalhadores formou-se um certo consenso sobre quais deveriam ser as condições de seu trabalho extra-doméstico.) " (Em Edgar Rodrigues. no Rio de Janeiro. lima operária delegada. com sede na rua Senhor dos Passos. um dos mais importantes foi a União das Costureiras. como por exemplo as chapeleiras. que após tão fatigante trabalho em troca de um mísero salário . aconselha vivamente as associações obreiras a se esforçarem para interessar diretamente as operárias na vida sindical. . Fábrica de tecidos Mariângela. as exigências de sua dupla jornada de trabalho que não Ihes deixava tempo para a política . de um lado. Â União foi fundada por 50 operárias e sua primeira medida foi deflagrar uma greve pela redução da jornada de trabalho a oito horas diárias. Como já disse. destacando como essas eram tão árduas que impediam um companheirismo mais vigoroso como o dos homens na vida sindical: “Quando tomamos conta que a jornada de trabalho é de 8 horas e mais.. recém-parida. MULHERES ENTRAM PARA OS SINDICATOS Embora houvesse inúmeros fatores freando a participação feminina na vida sindical. além das havidas no Rio e em São Paulo. confirmando as resoluções do 1º Congresso quanto à situação do elemento feminino no meio proletário. tecelãs da Cia. Uma resolução do 3º Congresso Operário Brasileiro. . terminando às 19 h.. discursou sobre as condições do trabalho feminino. em alguns Congressos Operários. a maioria é composta por mães de famílias. de nome Alzira. isso "quando a dona do atelier não prorrogava a jornada até às 20 ou 22 horas. realizado em 1920.. Em 1917. 04 a 10 de novembro de 2007.. de outro. C. quanto há evidências de freqüência de mulheres.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG agravante de que a operária em questão. embora a presença de mulheres não tenha sido usual nos Congressos. participaram de nova greve geral por aumento de salário. Companhia de Fiação e Tecidos Porto-Alegrense e trabalhadoras da fábrica de chapéus F. preocupando-se 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). inclusive discursando. podemos ainda lembrar o estado de ânimo em que se encontram nossas irmãs. (Em Edgar Rodrigues. etc. sempre pelo mesmo salário".. . as mulheres pararam os trabalhos nas Fábricas Matarazzo. Uma de suas inspiradoras. sua presença foi destacada. Elvira Boni. tem necessidade de fazer seus serviços domésticos. costureiras sob medida. em fábricas por todo o país.) De fato. Dos sindicatos constituídos. fora dispensada pelo mestre que a engravidou.ainda assim. em Porto Alegre. Têxtil Rio Grandense.) Por sua vez. em alguns congressos operários. Fábrica de ligas Peterson. pois ainda há casas em que se trabalham 14 a 16 horas. No 2º Congresso Operário do Rio Grande do Sul. pela diminuição da jornada. em 1906 e 1907.. necessitando sustentar os seus e ampará-los contra as misérias da vida (. realizado entre 23 e 30 de abril de 1920. Alvorada Operária. Chapeleiras e Classes Anexas. existem numerosos registros mostrando que um esforço considerável nessa direção foi realizado: não apenas vários sindicatos femininos foram fundados. onde já funcionava a União dos Alfaiates da mesma cidade. Kessler & Cia.

fundou a Liga Contra o Analfabetismo. 31 % na indústria (inclusive em serviços de reparação) e 26% em serviços. foi reconhecida pelo Estado. constata-se que. na indústria de transformação 36%. acabou por prevalecer e. costureiras e trabalhadoras de fábricas de fósforos em Niterói deram testemunho em A Classe Operária sobre suas condições de trabalho e salários e tentaram ganhar a solidariedade masculina para suas reivindicações. em I 922 no mesmo ano.117 - . embora discutível para muitos em virtude dos embaraços que terminou por causar para a contratação e a carreira das mulheres. Convidada para discursar na Federação Operária Mineira. fizeram greves na Fábrica de Tecidos Irmãos Tognato. e no início dos anos 30. diminuiu a participação das mulheres no seu interior. Maria Lacerda de Moura. participaram da tentativa de uma greve geral da categoria: em 1925. professora e escritora. de caráter protetor. afirmou na ocasião: "A questão social. Deste total de mulheres trabalhadoras. bordadeiras. que tanto proibia seu trabalho noturno. no Rio. na agricultura as mulheres eram 9% da força de trabalho. apresentando 15% da força de trabalho. em Barbacena. a questão do bem-estar para todos resume-se no seguinte: 1º) Formar um núcleo 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). pelo Decreto 21. na prestação de serviços. eclodiram greves na Fábrica de Tecidos Santa Maria. em torno da metade do proletariado têxtil e seriam majoritárias no setor de confecções. Outras informações demonstram que.434. ainda. Isabel Ferreira Bertolucci e Bertha Lutz. a conclusão mais importante é que. PIONEIRAS DA LUTA SOCIAL Algumas mulheres destacaram-se na vida pública e em sua participação junto às organizações operárias. Dentre várias. No entanto." A demanda por uma legislação especial.000 mulheres trabalhavam oficialmente. não obstante esse decréscimo. em São Bernardo. AS MULHERES COMO FORÇA DE TRABALHO O censo demográfico de 1920 mostrava que então 1. principalmente ma condição de tecelãs e costureiras. repelindo as brutalidades dos patrões e encarregados de serviços intensificando-se a campanha no sentido de que para elas seja abolido o trabalho noturno e o seus salários sejam equiparados aos dos homens. 42% estavam na agricultura. quanto criava condições mais favoráveis à gravidez e estabelecia o princípio do salário igual para trabalho igual. em Sorocaba. cabe destacar Maria Lacerda de Moura. em 1932. vale a pena lembrar que durante toda a década dos vinte. organizou a Vila Dom Viçosa. à medida que a indústria se expandiu. 04 a 10 de novembro de 2007.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG com a sua educação social e intelectual e para que se estabeleça no trabalho um ambiente de respeito. 81 %. em 1931. na qual 22 casas foram construídas para favelados e. desde então. Assim. mineira de Manhuaçu nascida em 1877. tomando o total de pessoas trabalhando nos diversos setores da economia. elas permaneceriam. . elas militaram no movimento dos trabalhadores: a título de exemplo. Comparando os dados de 1872 com os de 1920.417.

Bertha Lutz. de forma a persuadí-Ias de sua crença pacifista e da imoralidade das guerras. a fim de preparar o pequenino exército das trabalhadoras que deverão sair para o interior em demanda de outras mulheres de boa vontade. em cuja Primeira Conferência foram aprovados os princípios "de salário igual. Assegurar à mulher os direitos políticos que a nossa Constituição lhe oferece e prepará-Ia para o exercício inteligente desses direitos. a fim de assegurar a aplicação das leis e regulamentos para a frr0teção dos trabalhadores". Isabel Bertolucci celebrizou-se pelo seu "Manifesto à Mulher Paulista". porquanto é a força moral que conduz o mundo no dizer de Binet.°) Abrir escolas do caráter e da boa vontade. Estreitar os laços de amizade com os demais paises americanos. 3. educando-as num sonho de Paz futura para toda a gente. ampliar o amor à Pátria. a fim de garantir a manutenção perpétua da Paz e da Justiça no Hemisfério Ocidental.°) Pregar e exigir a educação popular. incluindo mulheres.°) Falar. 8. a educação racional feminina por todo o país. escolas de força moral. ultrapassando sua condição social e dirigir-se a todas as classes de mulheres. 2. na escolha de urna profissão.°) Trabalhar para a criação de uma ou mais universidades femininas. fundou a Federação Brasileira Para o Progresso Feminino.118 - . 4. abrangendo as nacionalidades como membros da família humana". em cujo estatuto se esclareciam seus objetivos: Promover educação da mulher e elevar seu nível de instrução. da fisiologia. da educação e da ética. a instrução obrigatória. Proteger as mães e a infância. Auxiliar as boas iniciativas das mulheres e orienta-Ias. já em 1919. . detestar a política. 6. para o mesmo trabalho. por ocasião do movimento constitucionalista. fazendo crescer na juventude a necessidade de ideal mais amplo .de justiça e eqüidade entre os homens. Obter garantias legislativas e práticas para o trabalho feminino. da filosofia. sua origem social estava na classe dos que tudo produzem e nada possuem. 5.°) Pregar a Paz. pregar e protestar contra as mentiras convencionais. da Organização Internacional do Trabalho.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG de resistência feminina. representou o Brasil no Conselho Feminino Internacional. abominar a guerra.°) Trabalhar pela juventude e pelo exemplo para dar à criança.para o conhecimento da humanidade e das leis evolutivas em favor da beleza e da perfeição dos costumes. escolas que despertem a iniciativa. 04 a 10 de novembro de 2007. juntamente com Olga de Paiva Meira. No seu manifesto procurou. das artes .°) Promover o estudo da psicologia das forças ancestrais. Em 1922. sem distinção de sexo. Segundo ela própria. fazê-Ia atravessar as fronteiras e olhar a Humanidade de uma só vez. da higiene. em 03/12/1932. Estimular o espírito de sociabilidade e de cooperação entre as mulheres e interessá-Ias pelas questões sociais e de alcance público. sob esses moldes. trabalhar para a reivindicação de seus direitos e para sua emancipação mental. cujo objetivo será protestar contra a escravidão da mulher. 7. e a obrigação de caia Estado organizar um serviço de inspeção. contra a hipocrisia protocolar. das ciências enfim. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). publicado em A Plebe.

na constituição da Federação das Mulheres do Brasil. (Idem. destaca-se seu desempenho na greve de 1953. a participação feminina foi intensa no movimento contra a carestia: no então Distrito Federal. A greve de São Paulo não foi isolada e dados 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Embora as mulheres tenham participado de formas variadas. fechado o Congresso. organizou-se o Departamento Feminino da Liga de Defesa Nacional. no âmbito do estritamente econômico. Em 1934. eram. reduzia de 30 para 20 o número de empregadas no local de trabalho cuja presença exigia creches. combater o nazi-fascismo e sua influência no país. "lutar pela solução dos problemas especificas dos bairros. como suplente da vaga deixada por outro Deputado.) Todo esse esforço acabou por resultar. São Paulo). De fato. de meia hora cada um. que consistiu em forte impulso para outros núcleos locais. em São Paulo. o Estatuto da Mulher. Nessa ocasião. operárias e faveladas. pela defesa e proteção da infância". durante os seis meses iniciais de vida do bebê. mais de mil mulheres se congregaram para. Greve de Massas e Crise Política. concedia à trabalhadora o direito de dois períodos diários para amamentação. na ocasião. de extrações ideológicas e partidárias diversas. Ed. apresentado por ela e pela Deputada Carlota Pereira de Queiroz. durante a II Guerra Mundial. No final dos anos 40 e durante a década seguinte. que paralisou aproximadamente 300 mil trabalhadores e. as reivindicações de Bertha Lutz tiveram de esperar por melhores oportunidades. participando do Primeiro Congresso Internacional de Mulheres. lutar contra os aumentos no custo de vida e. a greve teve como origem a luta pelo aumento do salário mínimo. . em 1949. no entanto. 04 a 10 de novembro de 2007. (Ver José Álvaro Moisés. contra a elevação do custo de vida. elaborando. Mas outras mulheres. Bertha passou a integrar a Câmara Legislativa Federal. "a fim de possibilitar-lhes participação efetiva nos movimentos de combate à guerra e aos regimes de força". duas delas. no âmbito do político. Também vale a pena ressaltar o papel que elas cumpriram na organização do movimento de anistia para aquelas pessoas perseguidas ou presas pelo Estado Novo. O Estatuto ampliava a licença especial na época do parto para três meses. várias outras grevistas foram indiciadas em processos por sua presença em piquetes.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Em 1936. fundou-se a União Feminina que. nas palavras de uma estudiosa. em Paris. com representantes de vários estratos sociais. pelos direitos das mulheres. Com o golpe de 1937 e o Estado Novo. promoveu-se um encontro nacional de várias associações femininas. congelado desde 1951 e desvalorizado pelos constantes aumentos no custo de vida (que Celso Furtado estima como sendo de 50% entre 1949-52). assistindo-se à prisão de várias de suas integrantes. cujos objetivos. cuja comissão central a tecelã Mariana Galgaitez terminou por integrar. PARTICIPAÇÃO FEMININA NO PÓSPÓS-GUERRA Terminada a guerra. procuraram igualmente organizar-se. Por sua vez. como parte da Aliança Nacional libertadora. (Idem). pela paz. Polis. da dinâmica do movimento operário no período pós Estado Novo. incluindo mulheres de classe média. além de recolher dos nativos e roupas para os soldados.119 - . freqüentemente organizados em comitês de bairros. em 1935 foi considerada ilegal. Na ocasião. onde se fundou a Associação Feminina. participando da vida pública. ressaltaram em discurso os males do fascismo e a necessidade de proporcionar-se instrução política às mulheres. e algumas delas somente foram concedidas em 1962.

9% do total de trabalhadores.120 - . pagamento de salários atrasados. 04 a 10 de novembro de 2007. acusando queda da participação feminina na indústria e sua persistência na prestação de serviços pessoais. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). melhores condições de trabalho e. em número menor. . então. eclodidas em todo país. cujas principais motivações eram a necessidade de aumentos nos salários. bonificação de Natal e o protesto contra a carestia. Os Censos Demográficos de 1940 e 1950 continuavam.4% e em 1950 para 23. solidariedade. Em 1940.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG coletados por José Álvaro Moisés lhe permitiram falar em 264 paralisações no período 1951-1952. o trabalho industrial das mulheres caíra para 26.

7% do território brasileiro. reconhecida como polígono das secas. mas que se contrapõem econômica e politicamente: o Nordeste da cana-de-açúcar e o Nordeste do gado. Na Região Nordeste. A região é considerada subdesenvolvida. Há também apreciável número de pequenos proprietários que. localizando-se aí a maior porção das usinas do Estado e sobretudo aquelas que dispõem de maior dimensão. Diante de tal diversidade. surgem desde o período colonial. hoje. 04 a 10 de novembro de 2007. que desde a época colonial deu lugar a três tipos de zonas agrícolas. A estrutura agrária é bastante concentrada. que dificilmente tem acesso às políticas sociais.255. a seca será considerada como fenômeno social que agrava a pobreza e afeta particularmente as condições de vida da população. Embora tendo o caráter natural e acontecendo na mesma região. 27% da população brasileira. De acordo com Andrade (1986). Para efeitos deste trabalho. 1986). denominada de Agreste. sendo uma chuvosa e a outra seca. econômicas e políticas que possuem aspectos particulares quanto à estiagem. contando com alto índice de analfabetismo. Esta região. verificam-se consideráveis desníveis sociais. intermitentemente. sendo de 1534 o primeiro relato desse desastre natural (Andrade.077 km quadrados. Na área rural há. com trechos quase tão úmidos como a da Mata e outros tão secos como a do Sertão. a dimensão de terras ocupadas pelos latifundiários é grande. porém apresenta diversidade climática (Moura. 45 46 Pesquisadora da FUNDAJ Idem 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). dependendo da qualidade da terra. e a zona intermediária.808. e uma população de 42. ao se focalizar a dimensão natural das secas. o Nordeste da pequena propriedade e da policultura. por um lado.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG A MULHER E A EMERGÊNCIA DA SECA NO NORDESTE DO BRASIL Izaura Rufino Fischer 45 Lígia Albuquerque 46 O Nordeste do Brasil tem uma extensão territorial de 1. Misturam-se a ela aspectos socioeconômicos e políticos que lhe tiram o caráter único de desastre natural. ou seja. a região possui clima exteriorizado pela sua vegetação natural. a seca ocorre em diferentes conjunturas sociais. A dimensão social e política da seca A seca é um fenômeno natural que tem registro no Nordeste desde a colonização da zona semi-árida da região. . a saber: a Zona da Mata.121 - . e sua população tem condição de vida precária. têm padrão de vida razoável ou precário e que. possui 60% de seu território em área considerada vulnerável a esse fenômeno. pequeno número de médios e grandes proprietários com elevado padrão de vida. não se consegue vislumbrar muito mais do que a histórica repetição de cenas de fome e sede. A Zona da Mata é apontada como área dos grandes canaviais.470. principalmente no que se refere aos latifúndios insatisfatoriamente explorados. com estações bem definidas. observando-se entre um e outro. com clima quente e úmido. apesar da pobreza do solo em matéria orgânica. 2000). que representa 18. sistemas complementares de exploração agrária. De acordo com Araújo (1999). possuindo áreas úmidas e chuvosas. Apesar de não existir grande número de latifúndios. a do Sertão. porém seca e vulnerável a esse fenômeno natural. vendem sua força de trabalho. também quente.

é marcante. de modo peculiar. homens e mulheres adotam práticas de luta. a ser pago no longo do prazo ou a fundo perdido (FUNDAJ. Considerando que o Nordeste está dividido em três zonas de diferentes aspectos naturais e que possui infra-estrutura dominada pelas oligarquias agrárias. adequadas a cada conjuntura política. que possibilita a organização da população afetada para se mobilizar e cobrar dos governantes medidas de amparo. transpôs os saques da fome do sertanejo para a sala de jantar do Brasil. muda a própria história das estiagens. No entanto. Os produtores potencialmente mais resistentes. a seca. particularmente os sem terra. a seca leva à fundação da SUDENE. muitas das quais destinadas a corrigir distorções conjunturais geradas por modelos econômicos. em 1998. dá espaços à lógica da contradição. Assim. o governo se envolve com as conseqüências do fenômeno. A seca. a catástrofe centrou o tema na consciência nacional. através dos sindicatos dos trabalhadores rurais e movimentos sociais que lhe dão visibilidade. para reivindicar uma política de apoio à população atingida pela seca. segundo Gaspari. aproximadamente 32% (Albuquerque. como o da informação. principalmente devido à ajuda das políticas sociais. A mulher exerce. . o assédio aos governantes. os trabalhadores rurais. redefinem sua forma de ação ao trocarem o tradicional saque realizado em feiras públicas pelo ataque a transportadores de alimentos administrados pelo governo. quando da instalação das políticas sociais dirigidas à região. As preocupações em corrigir distorção estrutural proporcionam algum quantum de equidade social e sustentabilidade ambiental. formados por grandes proprietários ou pertencentes a famílias abastadas. 1983). Os efeitos da seca não atingem igualmente a população e o território do semi-árido. especialmente através do rádio e a da televisão. por um lado. 1998) da população não conseguem atravessar os momentos críticos da estiagem sem ajuda externa. causa danos à população. O momento da seca. No estado de Pernambuco. pode significar mais uma oportunidade para aumentar seu poderio e estender seus domínios com o auxílio das políticas sociais. fato que favorece as desigualdades dos benefícios destinados ao socorro da população através de uma política unificada. a falta 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). por exemplo. citado por Araújo (1999). a SUDENE. divulgam e denunciam a situação e ação dos trabalhadores. pois os horrores da seca fortificam interesses regionais. tais medidas são manuseadas e desviadas no caminho da prática. além da profundidade da catástrofe.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG A seca.122 - . Também leva à tona o nível de organização política dos mais afetados. pressão mais direta sobre as estâncias estaduais e municipais que estão mais próximas. Na implementação das políticas. além de promoverem ocupação do principal órgão de desenvolvimento da região. enquanto os proprietários rurais tomam atitudes que lhes proporcionam ganhos que superam suas perdas. enfrentam os efeitos da seca com menor esforço e sofrimento. Assim. Diversas políticas sociais têm sido implementadas no enfrentamento da seca. como fenômeno social de dimensão secular. mas também propicia benefício. 04 a 10 de novembro de 2007. para os produtores mais abastados. os mais vulneráveis são geralmente os trabalhadores sem terra e miniproprietários rurais. Em 1877. a exemplo do crédito financiado a juros baixos. que só recentemente começaram a fazer parte da agenda governamental. pois são geradas no jogo das articulações políticas em que se considera a sociedade como espaço que pertence aos outros. que. Nessa ocasião. Algumas medidas são implementadas sem resultado permanente. em 1915. em 1958. ao dar visibilidade às mazelas sociais da região.

Com a seca. podem ser consideradas filhotes da globalização. sobretudo no que se refere ao abastecimento d’água e geração de renda. pois as regiões afetadas pela catástrofe enfrentam a concorrência com outras localidades que se encontram em plena normalidade. Os programas têm sido. a competição desigual. As políticas sociais criadas em períodos de seca são geralmente transformadas em programas de governo. A política social da seca A política adotada em período de seca. Os produtores do sequeiro. chamada política de emergência. o consumo e o tráfico de drogas (Fischer e Melo. que se manifesta através do desemprego. político e cultural continua a expandir-se. esse vasto processo histórico-social. foram secularmente inventadas. a fragilidade do nível educacional da população e a sua convivência com problemas típicos de grandes cidades. é duplicada com a situação de seca. Além disso. que. 1999). não tem lugar certo de trabalho quando planta. que aparecem em pequenas cidades interioranas. pois. além de invadir os mais longínquos recantos do Nordeste. a expectativa para a agricultura é a de que a recuperação seja lenta. do comércio e da agricultura. segundo Ianni (1995). é um programa governamental implantado para amenizar ou eliminar conflitos sociais inevitáveis que explodem quando parte da população tem seu nível de subsistência comprometido. A seca que atingiu o Nordeste do Brasil no período 1997-1999 se instala num contexto já fragilizado pelos efeitos da globalização. tem contribuído para redefinir hábitos. da migração interna na região. Essa política tem como objetivo atender a população que se encontra em reconhecido estado de calamidade pública. por vezes.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG de infra-estrutura da região rural. .123 - . e a prioridade do proprietário da terra é pela produção de alimento para a pecuária. própria da globalização. a seca se instala num cenário em que grande parte do pequeno produtor sem terra reside na periferia da cidade. Assim. econômico. da água. A globalização como aporte econômico. ou se tornam exclusivos. tendo as verbas alocadas. contribuiu para a desaceleração da indústria. a prostituição. 04 a 10 de novembro de 2007. crédito etc. em tese. enfrentam a concorrência de carne e leite em condições desfavoráveis. de um modo geral e. "Os governantes terão de escolher entre subsidiar o campo ou construir a miséria na cidade". da concorrência entre forças desiguais etc. capacitação e alfabetização dos 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Na avaliação de administradores governamentais locais entrevistados. da saúde. no Nordeste. a exemplo da chamada "frente produtiva. Essas mazelas sociais. particularmente. a exemplo da carência de energia elétrica. direcionados a outros projetos como o da educação. de acordo com as prioridades da população. Tal política é estabelecida a partir de pressões da população que tem seu suporte alimentar afetado. como a insegurança. Tais fatores levam a aprofundar os efeitos nefastos da seca sobre a população atingida. costumes e tradições que parafraseando Hobsbawn (1997). a pecuária torna-se mais vulnerável diante da globalização." composta por obra hídrica. fato que contribuiu para a transferência da renda das regiões mais pobres para as mais ricas. em função da crise climática. Tais efeitos tendem a se agravar.

que poderiam ser usadas realizando trabalho rural ou urbano. foi definido: a prioridade ao trabalhador rural que dependesse da produção agrícola ou pecuária para o sustento da família. açudes. na família de 1 a 5 membros. proprietário ou arrendatário). educação. de 6 a 10 pessoas. fubá. incluíram outras ações. a preferência aos trabalhadores cabeças de família. arroz. Crédito destinado à criação de infra-estrutura no valor de R$ 450. era facultada a participação de três membros do grupo familiar. recuperação e limpeza de cisternas. possuir quantidade de terra que não supere 4 módulos fiscais qualificados na região em vigor. Dada a peculiaridade da área. barragens e aguadas. ou dedicando-se à capacitação ou alfabetização. estaduais e municipais. barreiros. As linhas norteadoras das frentes produtivas. distribuído através do órgão de desenvolvimento do Nordeste. Essas comissões devem ser formadas nas esferas federal. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). etc.00 (investimento e custeio). emprego. Os membros da Comissão devem ser indicados pelas instituições que os representam. foi alocado em vários programas existentes. Na escolha dos contemplados. 1999). a exemplo das frentes ecológicas e culturais (educação ambiental. As principais ações implementadas pela política social da seca estão assim organizadas: • • • • • • Distribuição de cestas básicas contendo 19 quilos de alimentos (feijão. poderiam ser inscritos dois integrantes. Fabricação de telhas e tijolos a serem utilizados em obras ou mutirões.000. café. acima de 10 pessoas.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG trabalhadores. De acordo com a autora. aproximadamente R$ 600. apenas um poderia ser contemplado. As atividades culturais resumem-se a dinamizar o artesanato nos principais centros do país). foram usados critérios de seleção como: ser trabalhador rural.00 foram destinados a atender a população atingida pela catástrofe. gerados da exploração agropecuária. tanques. macarrão). além de contemplarem recursos hídricos. destinada principalmente à construção de asfaltos. Tal montante. saúde. e. crédito.000. residir na propriedade ou aglomerado urbano próximo. farinha. . Construção. ter idade entre 14 e 60 anos.000. Na seca de 1998. alfabetização|capacitação e saneamento básico. utilizar força de trabalho familiar. segundo a autora. conservação e recuperação do meio ambiente e ecoturismo. produtores que se enquadrasse nos critérios da agricultura familiar PRONAF (o candidato deve ser parceiro. ter renda de no mínimo 80%.124 - . os beneficiados seriam contemplados com alimentos. açúcar. 04 a 10 de novembro de 2007. óleo. Os recursos para tais ações devem ser administrados por Comissões Paritárias compostas por membros do Estado e representantes da população afetada. Produção de brita e paralelepípedo. Os beneficiados com emprego deveriam estar disponíveis 27 horas semanais. A "frente produtiva" tem o objetivo de preparar a população para conviver com a estiagem. O núcleo familiar com mais de 7 membros que possuísse aposentado poderia inscrever apenas uma pessoa. com o propósito de beneficiar até um milhão de trabalhadores rurais (Melo. Construção de residências na área rural e recuperação de prédios públicos.

isto é. falta de roupas e calçados. 04 a 10 de novembro de 2007. quando atinge o indivíduo na sua totalidade e alcança o patamar classificado por Josué de Castro (1980) de epidemia de fome coletiva. Dessa forma. falta de terra para trabalhar. pode significar muitas coisas juntas. é considerado estágio fisiológico ligado à necessidade alimentar. considerados indispensáveis à sua sobrevivência. dando-lhe novamente a conotação de necessidade. que afeta indistintamente a todos. as chamadas necessidades aumentam e comprometem a própria sobrevivência da família sertaneja nordestina. De acordo com Castro (1980). No passado. especialmente no que se refere ao suprimento alimentar. enquanto o homem tem a pesada função econômico-social de produzir e distribuir os gêneros alimentícios. Diz respeito ao indivíduo e à humanidade. Estas.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG A contribuição da mulher na atenuação da fome na seca O problema da seca não se manifesta no aspecto específico da água. Assim. homens e mulheres têm papéis diferenciados. amenizada pela rede de solidariedade entre os iguais. Ao atingir tal estágio. a qual. a inanição por falta absoluta de alimento. relacionada à casa e à mulher. mas especialmente na escassez de alimento. é novamente considerada pela família do produtor rural do Sertão nordestino como necessidade básica. segundo Fischer (1998). socorre quem nada tem para cozinhar. comporta vários significados. Na família estudada do Semi-Árido. no período de escassez de chuvas. sem dúvida. e aquele que dispõe de algum quantum de alimento. no ser humano. que as famílias dos pequenos produtores rurais caracterizam como necessidades.125 - . que tem causas mais ligadas às desigualdades sociais do que aos fenômenos climáticos. independentemente da seca. moradia e outros elementos do bem-estar que. caracterizada como fome endêmica. mas. como enfatiza Bobbio (1992). é através desse arranjo que a solidariedade caricatura a fome. No sentido moderno. a fome somente se caracterizaria como tal no caso de morte por inanição. A palavra fome. a seca apenas agrava a situação da fome. as necessidades não passam pelo crivo do planejamento. o termo se referia à falta de alimento para saciar o apetite. Em qualquer dos significados acima levantados. pois cabe ao elemento feminino enfrentar a difícil tarefa de gerenciar o alimento consumido no cotidiano. que. que não é pensada pelos idealizadores da política da emergência da seca. . obedecem a uma administração rigorosa. observa-se que a fome no Semi-Árido nordestino constitui uma extensão da pobreza. Essa carência ocasiona morte prematura. em sentido simbólico. são direitos do cidadão. Assim. necessariamente. De acordo com Fischer (1998). carência de assistência médica. se referem à comida de má qualidade. embora não acarrete. de acordo com Sobrinho (1982). Esse processo de solidariedade ocorre através da distribuição do pouco alimento que existe na comunidade ou rede de parentesco. a necessidade adquire a conotação de fome. fome é a falta de quaisquer dos quarenta ou mais elementos nutritivos indispensáveis à manutenção da saúde. que. a fome é uma constante nas famílias dos pequenos agricultores do Semi-Árido nordestino. e é problema crucial. Seria uma visão simplista atribuir a fome da família rural dessa região do Nordeste unicamente à irregularidade pluviométrica que periodicamente desorganiza a produção. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). em período de chuvas normais. Nessa administração.

. diante da limitação do alimento. principalmente no período da seca. que tem mais idade do que eu. de um modo geral. é a mulher. Reclamo para o marido e para os filhos porque não vou morrer calada. Nessa distribuição. não ingerem a quantidade que seu apetite permite. demonstra sentimento de impotência e apenas tenta se justificar dizendo que "não tenho de onde tirar". Vale. Mesa de pobre é desigual: tem dia que faz de conta que tem. Quando ele consegue fico satisfeita. Esse grau de depressão aumenta na medida em que a mulher. se conformar com o que tem. Enquanto a mulher procura dar vazão a seus impulsos. "não encontro pra quem trabalhar". na opinião da mulher pesquisada. Se tem pouco. Pobre come só o que tem. não se conformam com pouco. Ele sorri e diz: é. no geral. o ânimo e até a vontade de viver". o homem. Seu constrangimento resume-se ao não cumprimento de suas obrigações de provedor do lar. para que todos sejam contemplados eqüitativamente. Os depoimentos seguintes enfocam a angústia da mulher ao dividir o alimento na unidade familiar: Fico desesperada quando a comida não dá. contemplado nessa distribuição. A criança não quer saber de onde sai. É difícil fazer uma sopa com a metade de um pacote de macarrão para dividir com 8 pessoas. passa pela mesa (entrevistado residente no município de Ouricuri). 04 a 10 de novembro de 2007. O marido pergunta: nós vamos fazer o quê? Aí. "Esta é uma provação que tira o sono. cabe a ela distribuir "pratos feitos" entre os familiares. a mulher rural em estudo. dividindo seu desespero com todos na família . além de calcular a quantidade de gêneros alimentícios que deve ser consumida diariamente na unidade familiar. principalmente a dona-de-casa. ele sai pra comprar fiado. Os filhos e de 13 e 15 anos. sobretudo. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Eu afino a sopa. você se aperreia muito (entrevistada do município de Patos). A parte da mulher esquenta muito. Tem hora que olho pro velho.chora e insulta o marido e encara o problema com determinação. cobra-lhe a obrigação de dono de casa e. Só quem sabe o que tá precisando. Quem está na cozinha é quem sente a dor de cabeça. que geralmente é a mulher. e consegue inclusive levantar o ânimo dos familiares -. delimita também o alimento de cada membro durante a refeição. exigência que ele tende a ler como negação da sua condição de homem. O homem rural do Semi-Árido pesquisado dificilmente passa por dificuldades semelhantes às da mulher chefe de família. são estabelecidas prioridades que contemplam as crianças e o marido.. Brigo. Se não usar bem com o juízo. ainda. é. alguém. o que vai faltar. muitas vezes.. reclamo o tempo todo.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Na administração cotidiana do alimento. Caso os pequenos não fiquem relativamente satisfeitos. a prova mais dura que enfrenta na seca. se atrapalha. sobretudo.. Afino. doa a refeição que lhe cabe.. . Aí dá dor de cabeça. o que é possível. por ele próprio. diante da falta de comida para servir aos filhos. vendo o povo pra comer e a comida sem dar pra todo mundo. o homem tende a assumir calado sua fraqueza e. se a comida vai dar. e digo: tu tá mais novo do que eu. portanto. principalmente durante a seca. mas. tarefa que culturalmente lhe é atribuída e cobrada pela sociedade e. pois raramente assume o núcleo familiar sozinho.126 - . outra vez nem isso pode fazer. e devolve o problema para a mulher.. É difícil repartir a comida. O fato de ter pouco alimento para servir na hora da refeição. esperança. O homem apresenta comportamento peculiar no enfrentamento da falta de comida. são comedores. fica deprimido e frágil. os indivíduos. Geralmente. Quer comer 3 vezes por dia. salientar que no processo de distribuição da refeição. avalia uma entrevistada do município de Patos. o sossego. segurança. Diante de tal cobrança. mas não tem jeito. É preciso saber pra ninguém ficar sem nada. O marido é. todos têm que comer pouco. principalmente para as crianças e o marido. de mantenedor da família.

prejudicando aquelas fragilizadas famílias. a família se mantém num patamar mínimo de sobrevivência alimentar durante um mês. pago pelo governo. 04 a 10 de novembro de 2007. Aí. e 11 horas a gente come os caroços do feijão com "cusculho". o feijão vinha duro (foi substituído pelo fubá) e a farinha não presta). que rende mais. causa mal estar psicológico e social no homem e na mulher e. 5 de fubá. vitaminas e sais minerais dos produtos alimentares. porém. Feira assim.00). ao todo. Compro o carioquinha. versa sobre os arranjos alimentares improvisados pela mulher em época de estiagem: O alimento é fraco na seca. ovos. manteiga. em média. que fazia do sertanejo "um forte". onde é de R$ 60. Este é um tipo de situação que deixa o homem um tanto desmoralizado diante da família e com a autoestima em baixa. eu tempero aquele caldo com uma cebola e alho e coloco um pouco de "cusculho". de tal forma que duram. é só café com açúcar. carne de boi. sobretudo durante a seca. carneiro. Assim.00 (exceto no estado do Piauí. improvisados com os gêneros da cesta básica doada pelo governo através do Programa de Emergência e que. como queijo. . Mesa de é desigual (entrevistada residente no município de Patos). constituía o grosso do consumo da família sertaneja. contém 19 quilos assim distribuídos: 5 de arroz. envergonhado repreende: eu comprei fiado]. no preparo do alimento. Apesar da má qualidade dos alimentos da cesta básica. que ficam sem ter a quem recorrer para 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). 4 pacotes de macarrão e 2 latas de óleo vegetal. 1 de açúcar. já não exista.. Esses arranjos alimentares são. A mulher poupa as iguarias recebidas. da época restaram o hábito alimentar e a cultura de preparar o alimento. O seguinte depoimento.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG dando-lhe mais uma tarefa: a de pensar sobre o que ele deve fazer. A escassez de alimentos. carne (mesmo que eventualmente) e algumas verduras. quando tem. o que ocorre com freqüência. assimilada pela mulher.127 - . a família terá a alimentação relativamente equilibrada devido à vivência da mulher rural pesquisada. na expressão de Euclides da Cunha. leite. Deixo o caldo do feijão pra noite. por vezes. e assim a gente vive. às famílias atingidas pela seca. Quando a gente pega em dinheiro. transtornos orgânicos na família rural. milho. mas pobre come tudo. conforme destacam praticamente todas as entrevistadas (o fubá é ruim. A dona-de-casa rural da seca dificilmente sabe distinguir proteínas de vitaminas e tampouco entende o que significam sais minerais. Alguém deu café e açúcar a ele lá pela rua [o marido. Compra 10 quilos de açúcar e 10 quilos de feijão pra 15 dias. De manhã. sem dúvida. mesmo desconhecendo o conteúdo de proteínas. 15 dias. E embora aquela alimentação balanceada com proteínas e vitaminas que. que tem sua alimentação totalmente desequilibrada. A situação torna-se mais crítica quando aquele salário sofre atrasos. porque café tá muito caro. 2 de farinha. arroz. tanto com a combinação de alimentos quanto com a escassez e limitação na diversificação de produtos alimentares. que estava junto. que simboliza o sentimento de praticamente todas as entrevistadas. se complementadas com as compras feitas com o salário de R$ 80. a título de emergência. repassado através de gerações. porque gente fraco não faz feira. de forma que se existir produção de feijão. sabe dosar. embora tenha a consciência de que a refeição não está balanceada em vista da reduzida diversificação e da quantidade dos itens disponíveis. Cozinho o feijão de manhã. nós faz a feira. cabrito. para improvisar arranjos nutricionais durante a seca. quantidade e qualidade na junção dos nutrientes. a mulher utiliza seu aprendizado sobre o seu preparo. Hoje não tinha café em casa.. segundo Castro (1980).

Izaura R. pois a fome certamente contaminaria a região. 1982. Rio de Janeiro: Antares. Conselho Conselho de desenvolvimmento de Pernambuco –Condepe. O trabalho feminino: efeitos da modernização agrícola. que fragiliza o seu desenvolvimento em todos os aspectos e desmoraliza o indivíduo na sua dignidade. Fischer. Brasília: ed. 1983. Gênero: uma questão questão no programa de emergência (in Branco Org. A invenção das tradições. Maria Lia Correia de. Sobrinho Estevan de Lima. a zona do Sertão semiárido é intermitentemente atingida por secas. A terra e o homem no Nordeste: contribuição ao estudo da questão agrária. suficiente para que a população conviva com as secas sem passar pelo tormento da fome. Araújo. Manuel Correia de. 1996 Fischer. (in Branco – Org. Geografia da fome. Seca: fenômeno de muitas faces. a contribuição da mulher está presente. . Recife: Massangana. Recife. São Paulo: Atlas. Dimensão social e política da seca de 1983. o que contribui para descontrolar ainda mais seu limitado orçamento familiar. Universidade de Brasília. o Nordeste do Brasil e. Vozes. As políticas sociais destinadas a essa região ainda não proporcionaram uma base estrutural. Bibliografia Andrade. 1999. 1998. Recife. devido aos freqüentes atrasos nos pagamentos da Frente de Emergência. Petrópolis. Castro Josué de. 1992. Diante de tal realidade. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Melo. 1980.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG conseguir qualquer tipo de alimento. Fundaj: Recife. agricultura e política no Brasil: a chantagem alimentar. auxiliando a política social da emergência. dado o seu caráter de região pobre.128 - . Sem esse auxílio. 5 ed. levando-a ao caos. a grande maioria da população tem a sua condição de vida afetada em sua estrutura. Rio de Janeiro: Paz e Terra. e.) A família rural da seca. Fome. 2 ed. Hobsbawm Eric e Terence Ranger. Dicionário de Política. 1998. a fome absoluta ameaça intermitentemente o cotidiano dos atingidos pela seca. 2 ed. Lígia Albuquerque de. Os comerciantes da localidade não vendem fiado a esses trabalhadores. o Estado dificilmente conteria os conflitos sociais e a dizimação da população provocada pelo referido fenômeno. e Melo Lígia Albuquerque de. Recife: 1998. 04 a 10 de novembro de 2007.) Fundaj. Bobbio. Recife: Recife: FUNDAJ. Diante da impossibilidade de convivência com esse desastre natural. Norberto et al. 1997. 1986. Considerações Finais Como se pode observar. Izaura R. Fundação Joaquim Nabuco – FUNDAJ. a cada ocorrência de seca. 4 ed. particularmente.

Por outro lado. A mudança de foco aqui operada talvez nos obrigue a olhar menos para as funções que exerce e mais para as estruturas que a sustentam. 04 a 10 de novembro de 2007. entre a produção e o consumo. parceiras de trabalho no SOS Corpo. há longo caminho a ser percorrido que não depende apenas de mudança nas políticas públicas. 49 CAMARANO. 1999. sustentabilidade ambiental. Camarano e Abramovay questionam: “Até que ponto o meio rural pode ser um espaço propício na construção da cidadania e de condições de vida capazes de promover a integração econômica e a emancipação social das populações que aí vivem?”49.129 - . especialmente no que se refere à harmonia e à complementaridade entre as ações humanas e a natureza. Tais riscos não estão relacionados apenas aos limites para expansão ou consolidação da agricultura familiar. Tomando como 47 Feminista. 48 SOARES. Êxodo rural. 2001. envelhecimento e masculinização no Brasil: um panorama dos últimos 50 anos. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). pela colaboração neste texto. coordenadora de educação do SOS Corpo – Gênero e Cidadania e integrante do Grupo de Referência do Observatório da Cidadania. mas às suas possibilidades de constituirconstituir-se em um instrumento que promova a democracia e a justiça. o discurso sobre agricultura familiar produzido nos últimos anos por vezes a trata como um fenômeno histórico recente e altamente idealizado. Este artigo pretende analisar as relações. ABRAMOVAY. a agricultura familiar vem ganhando importância como alternativa para o desenvolvimento rural sustentável. tanto nas ações dos movimentos sociais como das políticas públicas governamentais. jovens e crianças. de elevado valor para a sociedade em geral”48.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG amiliares Muito trabalho e nenhum poder marcam as vidas das agricultoras ffamiliares TACIANA GOUVEIA47 Nos últimos anos. Adriano. até o momento. (Textos para discussão. Action Aid. entre a potencialidade e a realidade. No que se refere a essas essas políticas. funcionalidades e dependência entre o modo como está estruturada a agricultura familiar e as desigualdades de gênero. bem como o seu caráter multifuncional. Multifuncionalidade da agricultura familiar. Soares considera que a “agricultura familiar provê um conjunto de bens públicos. In: REBRIP/ACTION AID. Ricardo. Comércio internacional. segurança alimentar e agricultura familiar. a força discursiva não foi suficiente para provocar resultados que alterem os graves padrões de pobreza e exclusão a que estão submetidas as populações rurais – cujas causas estão radicadas no exaustivamente reconhecido modelo modelo de desenvolvimento hegemônico brasileiro. destacando sua contribuição nos campos da segurança alimentar. 612). adultos(as). Sem negar que essas características podem ser realizadas pelo modo de produção familiar. contradições. . função econômica e social. no campo da sociedade civil. entre mulheres e homens. A constatação do hiato e da aparente contradição entre os discursos estatais e suas proposições políticas não responde à totalidade do problema a ser enfrentado. tangíveis e intangíveis. Amélia. n. Agradeço a Carmen Silva e a Simone Ferreira. é fato que. desigualdades. Rio de Janeiro: Rebrip. Com relação a esse aspecto. demonstrando as conseqüências dessa dinâmica tanto na restrição da autonomia e cidadania das mulheres como no que se refere aos riscos que o próprio modelo corre se não construir possibilidades para o enfrentamento dessas desigualdades. mas fundamentalmente dos processos sociais e políticos – em suas dimensões contraditórias e conflitivas – presentes na base das análises e ações que tradicionalmente vêm organizando e dinamizando a agricultura familiar. Rio de Janeiro: Ipea. Ao estudar o processo de envelhecimento e masculinização da população rural. que privilegia o setor latifundiário e a agricultura patronal.

Max. uma vez que é concreta a “rota de saída” das mulheres. estatais ou da sociedade civil. Como bem analisa Buarque. especialmente as mais jovens. mas no próprio processo de visibilidade e valorização desse modo de produção. Disponível em: <www.br>. elas não são vistas no sentido de seu reconhecimento como sujeitos ativos dos processos produtivos. seus protagonistas mudam de sexo”53. Não são as mulheres que se ocultam.cnptia. O ethos da agricultura familiar coloca no pai todo poder para organizar não só o empreendimento produtivo como também todo universo de relações que ali ocorrem.embraba.gipaf. Se o patriarcado é o sistema que cria.] instituída pelas mulheres nos espaços vazios dos grandes latifúndios”52. Dá-se quando é negado às mulheres o direito de decidir. 50 Em pesquisa recente. atribuição de valores. ABRAMOVAY.. ibid. enquanto a agricultura familiar não passava de um instituto marginal na economia. ainda. Longe de ser um mero jogo de palavras. As mulheres não são invisíveis.incra. 52 BUARQUE.gov. Cristina. não se pode negar que. Cabe abrir um parêntese para questionar a chamada invisibilidade das mulheres e seu trabalho na agricultura familiar. op. E. tal como definida por Weber. 1992. das estratégias para a superação das desigualdades. na dominação patriarcal. ela era vista como uma atividade feminina vinculada ao doméstico. Buenos Aires: Fundo de Cultura Econômica. as possibilidades de construção de cidadania e emancipação das mulheres ainda são muito restritas. parece que a situação começa a ser inquietante exatamente nos momentos e movimentos em que elas deixam de estar. conseqüentemente. muitos setores envolvidos na defesa da agricultura familiar começam a preocupar-se com essas questões. . quando os projetos políticos. atribuir aos outros a incapacidade de enxergar as mulheres muda o sentido da compreensão da realidade e.gov... 53 Id. cit. Ricardo et al.130 - . expressão tão recorrente que já assume um estatuto de verdade. A partir dele. reproduz e perpetua tal exploração e opressão. do espaço da agricultura familiar. não as consideram como sujeitos de direito. Disponível em:<www. Abramovay e colegas constataram que 64% dos pais informam que têm o poder sobre todas as atividades da unidade familiar. seja ele produtivo ou reprodutivo. oportunidades e benefícios50. estão presentes “a crença no caráter inquebrantável do que tem sido feito sempre de uma determinada maneira”51 e a autoridade fundamentada na submissão e nas relações pessoais de convivência íntima e permanente. Economia y sociedad. Sucessão profissional e transferência hereditária na agricultura familiar. 04 a 10 de novembro de 2007. no momento exato em que ela passa a ocupar um espaço nas grandes políticas. Tal diferenciação de oportunidades e poderes ocorre não apenas na agricultura familiar. ainda de modo incipiente. 51 WEBER. sendo a ausência o que concretiza esse (re)conhecimento. “a nossa agricultura familiar é herança de uma atividade basicamente feminina [. A operação de invisibilidade ocorre em um momento posterior ao trabalho realizado. são as relações de dominação patriarcal que lhes atribui um lugar menor. constrói-se uma hierarquia rígida na ocupação de lugares. quando as estatísticas e análises – produzidas pelo Estado ou pela sociedade civil – não trabalham os dados separados por sexo. Ao mesmo tempo. agricultura familiar.br>. Tradução da autora. Para além do reconhecimento verdadeiro e legítimo das injustiças a que as mulheres estão submetidas. justifica e legitima a opressão e exploração das mulheres. quando discursos mantêm a suposta universalidade do masculino (“o agricultor”).Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG referência as relações de gênero na agricultura familiar em seu atual formato.. Em outras palavras. ao se organizar a partir deste sistema. Integração da perspectiva de gênero no setor da reforma agrária. “é interessante observar que. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE).

das 14 atividades relacionadas com o roçado. no Pará. enquanto as mulheres participam de três a cinco). há um equilíbrio na divisão das atividades. em graus variados. as 54 Pesquisa realizada em 2003 pelo SOS Corpo – Gênero e Cidadania para Projeto de Desenvolvimento Local Pnud/BNDES.embraba. realizada pelos meninos. pode-se dizer que as mulheres estão em todos os lugares e não estão em lugar nenhum. 56 CAYERES. sendo que. Rosana.cnptia.gipaf. destocar e vender. os homens realizam a maioria. MOURA. COSTA. As tabulações estão em fase de finalização. no Ceará55. as mulheres participam. Guilhermina. sendo que o trabalho feminino está presente com alta freqüência de sete a nove atividades. pois sua característica principal é ser uma espécie de híbrido entre responsabilidades ditas femininas com aquelas ditas masculinas. as mulheres participam na mesma proporção que os homens (capina. Análise da mão-de-obra no sistema de produção familiar de uma comunidade amazônica. Na criação de suínos. são majoritárias (beneficiamento dos produtos). 04 a 10 de novembro de 2007. somente elas são as executoras. de todas. a divisão do trabalho é um pouco diferente. das 25 atividades que compõem a esfera reprodutiva. Ver PUHL. a participação masculina é muito baixa (em média. nos casos restantes. plantio. onde a maior parte da produção familiar está relacionada com as atividades do roçado e a criação de animais de pequeno porte (aves e suínos). Essa é uma área de extrema pobreza.9 mostram que. em uma. Disponível em:<www. LOPES. mas só em um caso é exclusiva. . a freqüência é bem mais baixa que a dos homens: brocar. basta olhar a dinâmica cotidiana para que se constate que as mulheres. Em quatro dessas atividades. constataram que “as mulheres têm maior contribuição individual na força de trabalho familiar e na continuidade das atividades tradicionais. três atividades). onde Cayeres e Costa. 58 Resultados quase idênticos foram encontrados por Puhl. 55 Composta de quatro municípios: Sobral.131 - . Das 15 atividades listadas. Contudo. Moura e Lopes em diagnóstico realizado no Vale do Guaporé (1998). como é o caso de trabalho realizado em Paragominas. havendo ainda casos em que participam de todas. Assim sendo. mas também verdadeiro. ainda que não exclusiva e. o mesmo não se pode dizer das atividades reprodutivas. Enquanto que os homens estão envolvidos com as novas técnicas introduzidas e nos treinamentos. buscar e rachar lenha. Santana do Acaraú e Meruoca. Nas demais situações. em maior ou menor medida. Em apenas três atividades. Massapê. colheita) e. em 49% dos casos. em muitos casos. Em todos os lugares porque para além dos dados que as ocultam. como demonstram os dados a seguir. as mulheres realizam todas as atividades que compõem o sistema. analisando o sistema de roça itinerante e o manejo de inovações tecnológicas. eles são majoritários (realizam as 11 atividades. realizam todas as atividades produtivas e reprodutivas na unidade familiar. Se as mulheres executam as atividades produtivas na mesma proporção que os homens.gov. apenas 20% são realizadas com mais freqüência pelos homens (fazer feira. pois os homens estão mais envolvidos na atividade. Já na criação de aves. enquanto 28% das atividades têm uma freqüência maior de realização compartilhada. consertos de utensílios e reparos na casa e trocar o botijão de gás)57. Dados semelhantes são encontrados em pesquisas que investigam contextos diferentes. Na criação de caprinos/ovinos.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Onde estão as mulheres? De modo apressado. a manutenção do sistema tradicional é assegurada pela sobrecarga de trabalho das mulheres”56. replantio. Os dados coletados em uma pesquisa54 com as agricultoras familiares da região de Sobral. a presença masculina é maior. em apenas 50% dos casos. 57 É interessante observar que a justificativa para o predomínio masculino na troca do botijão não é o peso.br>. mas sim o medo de acidentes provocados pelo vazamento de gás. Um exemplo disso é levar pessoas doentes ao serviço de saúde que articula a dimensão do cuidado com a saída do espaço familiar58. Na área de Sobral. Etnografia sobre as relações de gênero na agricultura familiar no 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE).

principalmente no contexto dos debates sobre o “novo rural” e os modos como outras dimensões econômicas – como serviços. as mulheres passaram de 48. é necessário pensar a questão da pluriatividade como uma das formas a partir das quais esse modo de produção é constituído e dinamizado. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Como decorrência. com mais freqüência.). 1998. (Orgs. além das atividades domésticas e agrícolas. Programa integrado de capacitação em gênero. especialmente aquelas cuja realização é diária e contínua. a razão de sexo na população rural era de 106. PACHECO.ibge. Rio de Janeiro: Fase. A razão de sexo também é um indicador importante. 2000. 59 ABRAMOVAY. a ausência física das mulheres não significa que elas deixem de ser um elemento da organização e da manutenção do estabelecimento familiar. democracia e políticas públicas. . No Brasil. é por elas e por meio de seus trabalhos que se realiza a integração entre produção e consumo. A média brasileira (incluindo o urbano e o rural) na última contagem Vale do Guaporé. Em 30 anos. não há uma nomeação do sexo daqueles(as) que têm múltiplas inserções produtivas. Maria Emília. Ainda que os dados apresentados não façam referência direta à dimensão da pluriatividade na agricultura familiar. havia 5 milhões de homens a mais do que mulheres)61. para as mulheres.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG mulheres são executoras exclusivas de 52% das atividades reprodutivas. mesmo nos estudos que tratam do tema da pluriatividade. op. são majoritariamente presentes nas quatro atividades apresentadas – o que as torna multifuncionais para a agricultura familiar. Na maioria dos casos. 60 É interessante observar que. Não cabe aqui analisar a correção ou não de tais proposições.132 - . característica considerada fundamental na consolidação desse modo de produção. tem-se que as mulheres. In: CAMURÇA. entre 1991 e 2000. econômicos e políticos. de acordo com os dados do Censo de 200062. em 2000 passou a ser de 109. essa queda foi de 11%.47% da população rural para 47%. turismo. sendo que. Companheiras de luta ou coordenadoras de panelas?. Quarto Caderno: Experiências Rurais. Pesquisa realizada em assentamentos de seis estados do Brasil59 confirma esses dados. RUA.gov.56 homens para cada 100 mulheres. São as mulheres – independentemente de faixa etária – e.22. Vem ocorrendo tanto na Europa (é o caso da França. Miriam. atuam para além do especificamente agrícola.br>. houve queda de 10% na população rural brasileira. Maria das Graças. os jovens que fazem esse movimento. já que. cit. pode-se fazer inferências sobre quem são as pessoas que. 62 Disponível em <www. desenvolvimento. gastronomia e até mesmo um certo modo de vida – que vêm sendo reforçadas nos discursos e políticas como alternativa eficaz para o desenvolvimento rural. artesanato. Brasília: Unesco. elas ainda estudam e exercem o magistério. Além disso. Analisando os dados para além da sub-representação que parece ocorrer com o trabalho feminino na produção agrícola. 04 a 10 de novembro de 2007. Silvia. sendo uma prática condicionada pelos contextos sociais. Se. levando consigo a subvalorização da sua contribuição para a sustentabilidade da agricultura familiar. A tendência de diminuição da população feminina no meio rural é histórica. em certa medida. onde um terço dos homens que trabalhavam na atividade agrícola não haviam se casado até os 35 anos) como na América Latina (onde. mas vale destacar que a inserção em atividades não-agrícolas é profundamente marcada pelo viés de gênero60. sendo possível também estabelecer conexões entre os processos migratórios femininos e o conceito de pluriatividade. 61 Ver CAMARANO e ABRAMOVAY. em 1995. em 1980. ao mesmo tempo em que revela os modos como as atividades produtivas das mulheres são invisibilizadas e transformadas em ajuda ou parcialidade. especialmente na condição de mães.

interpretam a si mesmas e à realidade. Rotas de saída Camarano e Abramovay63 levantam três hipóteses para explicar a maior participação feminina nos processos migratórios: a) maior oferta de trabalho para mulheres no meio urbano ligada à expansão do setor serviços. c) relação entre processos migratórios e graus mais elevados de escolaridade. já que. Quando meu marido diz ‘é meu’. dados apresentados por Abramovay e Rua demonstram que o percentual de homens solteiros nos assentamentos é muito superior ao de mulheres. É essa mesma lógica que leva a um maior incentivo para que as filhas invistam na escolarização. como na maior escolaridade encontrada nas mulheres rurais. as relações de gênero são determinantes tanto no que se refere à preferência por mulheres nos empregos do setor serviços.gov. Se ainda não há condições para a ruptura dessa lógica.21 63 CAMARANO e ABRAMOVAY. Além disso. (Trabalho para discussão n. os jovens que investem na qualificação escolar também tendem a deixar a unidade familiar. . Antônio et al. de ser alguém com um lugar no mundo. O acesso ao mundo público. cit. Semira. aumentam suas chances de conquistar postos de trabalho mais qualificados. Gênero e globalização no Vale do São Francisco. 2003. Juiz de Fora. eu também digo. Ainda que seja um processo mais marcante na população feminina rural.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG populacional. O primeiro diz respeito à presença de uma racionalidade nas escolhas das mulheres em não permanecer na agricultura familiar. VAINSENCHER. 04 a 10 de novembro de 2007. 116. é possível estabelecer rotas que a contornem e minimizem os seus efeitos perversos e injustos. em especial as ações políticas dos movimentos de trabalhadoras rurais. eu também digo que estou”64. dando-lhes condições de pensar e buscar outros destinos diferentes da submissão absoluta à lógica patriarcal. Apud BRANCO.133 - . são 96. jun.93 mulheres para cada 100 homens. conforme constataram em pesquisa recente Melo e colegas65. como aquelas relacionadas às dimensões socioculturais. confirmando a força da estrutura familiar mais tradicional. tanto no que se refere às conquistas no plano dos direitos. Disponível em: <www. como fica claro no depoimento de uma trabalhadora da fruticultura irrigada de Petrolina. ou seja. É importante levar em conta também as transformações por que passaram as mulheres nas últimas décadas. dando-lhes a possibilidade de se pensarem e atuarem como sujeitos de suas próprias vidas. op. 2001). b) dinâmicas das relações de gênero na família. em princípio. 64 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). suas causas não estão radicadas apenas no tipo de política pública para o desenvolvimento rural nem em condições estritamente econômicas. estas três hipóteses possuem estatutos diferentes. apresenta uma tendência inversa.fundaj. em contextos diversos do ponto de vista político e econômico encontram-se os mesmos processos. em Pernambuco: “Fiquei uma pessoa independente. set.br>. Quando ele diz ‘eu estou cansado’. A educação formal e os novos mercados para a agricultura familiar. Texto apresentado no XLI Congresso Brasileiro da Sociedade Brasileira de Economia e Sociologia Rural. Adélia. Na perspectiva aqui assumida. a remuneração pelo trabalho realizado e a quebra com o tempo indistinto que marcam a ligação entre produção e reprodução dentro da unidade familiar são fatores que transformam o cotidiano das mulheres. Vale ressaltar dois processos profundamente interligados e pouco considerados. especialmente as mais jovens. Tais processos trazem conseqüências importantes no modo como as mulheres. 65 MELO.T T Se. comprovando assim que a estrutura das relações de gênero tem um peso decisivo na dinâmica de desenvolvimento rural.

essa já é uma situação difícil. mesmo que haja ausência física de uma mulher. ibid. as mulheres deixarão de ser os sujeitos centrais da mesma. como gasto produtivo ou reprodutivo. É desnecessário demonstrar que as atividades reprodutivas não são deslocadas para os homens quando as mulheres deixam de trabalhar diretamente na produção familiar. ibid.134 - . nesse contexto. 25 Id. tal como ocorreu. Ao mesmo tempo. mas uma necessidade imposta pelas dificuldades financeiras do estabelecimento familiar. por outro lado. 68 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). cabe indagar se.. no setor de serviços público e privado ou no trabalho doméstico – para onde migram a maioria das mulheres. no sentido do baixo retorno financeiro. seja no trabalho assalariado. BRANCO. 66 Id. segundo a análise de Buarque. caso ocorressem. para as filhas são raríssimas as chances de serem herdeiras. Essa situação é muito comum nos períodos de seca no semiárido nordestino. Se a rota de saída das mulheres da agricultura familiar significa uma opção legítima na busca da emancipação e da cidadania. na agroindústria. op. é necessário considerar o problema da herança.. Essa “perda de naturalidade” é derivada não apenas dos problemas de ordem econômica.. portanto. não representa nem uma ruptura nem uma solução. fazendo com que apenas um dos filhos pudesse ocupar o lugar do pai.João Pessoa: UFPB. não sendo. pois uma parte substancial dos rendimentos que as mulheres auferem em trabalhos fora do espaço familiar é nele empregado. “através da migração. as mulheres não contribuem somente com uma ajuda monetária àqueles que deixaram para trás. Adélia. ainda. 2000. cit. terminariam por inviabilizar sua capacidade produtiva. ilógico que procurem outras opções. como constatou Branco68 ao afirmar que. que às vezes a migração para áreas urbanas não é uma escolha das mulheres. Há que se considerar. os jovens também se encontram em uma posição de submissão. pois. Se. 67 ABRAMOVAY et al. 04 a 10 de novembro de 2007. mas também da mesma dinâmica patriarcal que afeta as mulheres. Além disso. as responsabilidades que tinha serão transferidas diretamente para outra mulher da família.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG ocasionando o que eles denominam “questão sucessória na agricultura: que é quando a formação de uma nova geração de agricultores perde a naturalidade com que era vivida até então pelas famílias e indivíduos envolvidos nos processos sucessórios”66. historicamente marcada pela multifuncionalidade e pluriatividade. ibid. que. elas também não se desvinculam da própria agricultura familiar. uma vez que sendo o poder pouco compartilhado entre as pessoas que estão no estabelecimento familiar. quando da recente valorização da agricultura familiar. Mulheres da seca: luta e visibilidade numa situação de desastre.. mas ajudam os demais familiares a migrarem”69. O patrimônio geralmente não oferece possibilidades de muitas divisões. “o processo sucessório na agricultura familiar está articulado em torno da figura paterna que determina o momento e a possibilidade de passagem da responsabilidade sobre a gestão do estabelecimento para a futura geração”67. para os filhos. 69 Id. no momento em que a segunda característica passa a ser considerada uma alternativa viável para o desenvolvimento rural. . Como analisam Abramovay e colegas. Sendo a atividade feminina. já que elas continuam sendo avaliadas pelos mesmos padrões e valores que organizam a agricultura familiar.

mesmo no que se refere às decisões da 70 “A terra da mulher (e do homem)”. . e bolsa-alimentação – R$ 15.37% estão na produção para consumo próprio. 87% dos lotes dos assentamentos do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).71% são classificados como não remunerados. Ao mesmo tempo em que confirma que os(as) formuladores(as) das políticas públicas assistenciais colocam as mulheres como responsáveis pelo recebimento desses recursos como se isso fosse uma garantia de sua adequada aplicação.135 - . 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). divulgada em 200171. já que.7% no grupo que recebe menos de meio salário mínimo. No Brasil.ibge. 72 Os valores dos benefícios são: vale-gás – R$ 15 (a cada 2 meses). foi afirmado que as mulheres estão em todos os lugares e não estão em lugar nenhum no cotidiano da agricultura familiar. demonstrando que quase80% das mulheres não auferem nenhum rendimento do seu trabalho. vale-alimentação e vale-gás) como sendo sua própria e única renda: 66% entre aquelas que declararam ter algum rendimento. aos rendimentos e ao poder de decisão. temos que 17. enquanto 13% não auferem nenhum tipo de rendimento. 04 a 10 de novembro de 2007. os dados da última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad). com teto de três crianças. é necessário um deslocamento para o município-sede. e 85. e 8. fica evidente o quanto a existência de políticas públicas ou de legislações não é suficiente para minimizar as enormes diferenças de poder entre mulheres e homens. Os dados por si só indicam a magnitude da exploração a que estão submetidas as mulheres na produção agrícola brasileira. Apenas em situações em que eles não preenchem os requisitos necessários ou quando estão ausentes é que as mulheres assumem a titularidade. para receber tais benefícios. Analisando os números referentes à população masculina ocupada.br>. bolsa-escola – R$ 15 por criança. em novembro de 2002. 71 Disponível em: <www.25%) e produção para consumo próprio (também 39.gov. perfazendo 26.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Direitos pela metade Anteriormente. as mulheres estão majoritariamente nas categorias não-remuneradas (39. indicam que. Quando se analisa a titulação da propriedade da terra. elastecendo ainda mais o tempo das mulheres. o que chama a atenção aqui é o alto percentual de mulheres que colocaram os benefícios (bolsa-escola. Trabalhando com os dados sobre rendimentos das agricultoras familiares da área de Sobral.unicamp. são consideradas “dependentes”. Perceber os recursos destinados à família como sendo seus próprios recursos demonstra o quanto as mulheres têm dificuldades de se perceber para além desse lugar e da função de gerentes dos parcos72 rendimentos familiares destinados à reprodução cotidiana.08% de homens que não recebem rendimentos pelas atividades que realizam. entrevista concedida por Zoraida Garcia Frias ao jornal eletrônico da Unicamp. 93% do Banco da Terra e 92% das propriedades familiares têm homens como titulares70. A aparente contradição se explica ao verificarmos o que é feito das mulheres nas dimensões relativas à posse da terra. Disponível em:<www. Nos demais casos.br>. esperas nas filas dos bancos e gastos com transporte que terminam por diminuir ainda mais o já mínimo benefício. No que se refere aos rendimentos. Contudo. No entanto. É prudente afirmar que as mulheres são gerentes de uma parte dos recursos familiares porque seu poder de decisão é muito restrito.25%). para o universo das pessoas de 10 anos ou mais ocupadas em atividades agrícolas (não especificamente para a agricultura familiar).8% recebem menos de meio salário mínimo mensal. vê-se que 47. também com teto de três crianças. não há nenhum tipo de obstáculo legal para que as mulheres sejam proprietárias.

. sem dinheiro. sem poder. Contudo. sendo antinômico que essa radicalidade também não se dirija à dominação patriarcal que organiza a sociedade brasileira.5%). Mato Grosso e São Paulo). Sem terra. já que a tradição patriarcal que organiza esse cotidiano nega às mulheres apossibilidade de exercerem um princípio fundamental de ser sujeito: a liberdade de ir e vir. bastante surpreendente é que. sem tempo. É preciso que os movimentos sociais.5%. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). 04 a 10 de novembro de 2007. pois só assim nossa ação política poderá resultar numa sociedade que não seja marcada pela meia justiça. O poder de decisão das mulheres é maior na venda dedoces e queijos (de 58% a 41%) e na venda de ovos e aves (80% a 46%). a decisão tende a ser compartilhada pelo casal (38% e 62. Esses elementos não podem ficar invisíveis quando a transformação social e política pretendida implica necessariamente a quebra da hegemonia do modelo até então vigente para o desenvolvimento rural. No que se refere à educação das crianças em quatro estados (Bahia. ainda que esse poder não seja tão hegemônico como o masculino e se dê em esferas produtivas de menor valor monetário. Ceará.5% e 44%). nos casos das agricultoras familiares. como demonstram os dados da pesquisa “Relações de gênero nos assentamentos rurais”73.136 - . Nos demais estados (Paraná e Rio Grande do Sul). a realidade é mais complexa. as organizações não governamentais. mas também para o modo de organização familiar. assim são as mulheres em sua experiência cotidiana na agricultura familiar.%. não lhes é direito. 41. sem espaço. trabalhadoras e trabalhadores rurais construam projetos e alternativas não apenas para os modos de produção e consumo. o que pode parecer. meia liberdade e meia cidadania. há um percentual maior de mulheres compoder de decisão (55. vendas dos produtos agrícolas – de 91% a 74%. as mulheres têm maior poder de decisão sobre quais alimentos devem ser comprados. venda de gado – de 93% a 59%). 73 Pesquisa realizada por Abramovay e Rua em 2000. Apesar de se creditar às mulheres o domínio absoluto do espaço reprodutivo. tendo respostas menos uniformes nos estados pesquisados. à primeira vista. Em síntese. sendo mais freqüente que os homens tomem essa decisão. sem liberdade. 61. em nenhum dos estados pesquisados. tudo o que envolve dinheiro e saída do espaço restrito do estabelecimento familiar não lhes pertence. No âmbito das atividades produtivas. o poder de decisão é majoritariamente masculino nos seis estados pesquisados (cultivos – de 92% a 66%.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG esfera reprodutiva. mudemos os sentidos e significados da agricultura e da família. A primeira vista porque.

Buscando a construção e encontrando a experiência das mulheres trabalhadoras rurais A existência das mulheres trabalhadoras rurais no espaço público. através de sua experiência política. que demandando ando articula a atuação de diferentes agentes sociais com as mulheres rurais. com identidade. numa produção de vários agentes sociais e práticas políticas intercaladas por experiências femininas de mulheres do campo. tornandotornando-se em condições de aparecer e falar publicamente. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). como uma produção coletiva. e deparei-me com a questão de uma categoria social fabricada coletivamente.. demand práticas e saberes que possibilitam a formatação de uma experiência singular. conflitos símbolos. nem reconhecimento.137 - .” nas palavras de Bourdieu (1975). combinando diferentes elementos como articulação. A existência das mulheres mulheres trabalhadoras rurais não decorre automaticamente automaticamente de suas situações de vida. Esses acontecimentos reúnem práticas. envolvendo as mulheres trabalhadoras rurais e outros agentes sociais. nem de revela--se como resultado de uma tomada de consciência espontânea.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Margaridas nas ruas: As mulheres trabalhadoras rurais como categoria política Maria Dolores de Brito Mota “…nem nome nós tinha. como categoria específica. e formulam discursos institucionais sobre elas e para elas. imprimem marcas marcas diferenciadas no movimento sindical dos trabalhadores rurais introduzindo dimensões femininas de vivências e simbolismos que. num fazer e fazer-se. abordada pelo aspecto de sua construção como categoria política política em luta por reconhecimento e direitos. coletivo personalizado. lhes permite refazeremrefazerem-se sem medo de ser mulher. discurso e imagem específica. Construção essa resultante de um trabalho coletivo de agentes múltiplos cujas práticas projetam e revertem figurações sociais. nós era só mulher com obrigações…” Luci Choinaski. Uma dimensão experiencial em que ativam mecanismos de aparecimento aparecimento e de fala pública. . é aqui abordada na perspectiva da construção de sua emergência como grupo. pessoal e social. Assim. além de instituírem a sua entrada na política sindical. ou modalidades de práticas políticas. pela qual essas mulheres se identificam como mulheres trabalhadoras trabalhadoras rurais. e a construção de uma narrativa própria. Essa construção remeteremete-se a uma produção coletiva. atuações e autorias. de formas de representação/apresentação. estratégias. 04 a 10 de novembro de 2007. As mulheres trabalhadoras rurais. fui em busca do “trabalho social” de construção do objeto “preconstruído. Uma dimensão formulam--se institucional pela qual se formalizam suas organizações específicas. envolvendo a criação de um lugar feminino. práticas. exprimindoexprimindo-se em diversas dimensões. em luta por reconhecimento e direitos. e postulam encontros com os /as personagens e contextos situados no terreno social em que surgem as organizações específicas de mulheres trabalhadoras rurais. 74 Programa Jogo Aberto. 02/10/1999-TV Bandeirantes. deputada Federal/SC74 Resumo Estudo sobre a emergência das mulheres trabalhadoras rurais no mundo público. consubstanciando um movimento social de mulheres trabalhadoras rurais. e a sua construção revela conflitos.

dentro e fora do próprio movimento de mulheres trabalhadoras rurais.” E outros autores que transitam por entre essas idéias de um real não apriorístico e resultado de ações projetadas ou não dos sujeitos sociais. expressandose por imagens. Arendt que entende a existência social assentada no ser visto e ouvido publicamente. entre a conformação do ser e as formas de conhecer” (idem. Esse tornar-se um Eu. essa concordância que permite o conhecer de uma categoria social implica também um processo de reconhecimento pelo qual ganha visibilidade e legitimidade. Produção que pode ser aduzida como uma poética. vida pública onde é possível constituir-se em ser “conscientemente existente” (idem. e como organizaçãoarticulação da própria sociedade” (1995. Castoriadis. normalmente atribuídos como determinantes de situações conseqüentes. Destaco Certeau (1996) com a sua busca das tessituras do real dentro do cotidiano. Mas.” É uma forma de ser e de conhecer (esse ser). presença de outros.p. a vita activa. para quem a instituição da sociedade “que é cada vez instituição do mundo. revelam ativamente suas identidades pessoais e singulares. A esta produção atribuí a idéia de “construção” no sentido de que a categoria das mulheres trabalhadores rurais não se exprime apenas por processos estruturais. no interior da qual situa-se a idéia de que a emergência de um grupo em luta se faz especialmente por meio de atos de reconhecimento (p.138). no sentido original dessa palavra.p. vincula-se a mecanismos conectados com a experiência das próprias mulheres rurais junto a outros grupos sociais que são articuladores políticos. práticas. 04 a 10 de novembro de 2007. como apresentação e estratégias de um grupo social.p.17) para quem “a palavra ‘categoria’ impõe-se por vezes porque tem o mérito de designar ao mesmo tempo uma unidade social – a categoria dos agricultores – e uma estrutura cognitiva. De uma maneira esquemática. e que está sendo colocada neste contexto como identidade construída coletiva e politicamente.138 - . de ser uma criação. O que me colocou diante da questão de identificar as evidências do processo construtor das mulheres trabalhadoras rurais como categoria política.24). e o próprio momento conjuntural em geral e em particular o das mulheres da zona rural.p. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE).p. em montagem de uma “ciência do ordinário. e reivindicou meu olhar sobre esse controvertido conceito nas ciências sociais. e de tornar manifesto o elo que as une.17). no sentido que é atribuído por Arendt (1995) significando a vida humana empenhada em fazer algo. manifestam-se como uma produção coletiva. diferente de outros. em agir. falas e espaços de modo a conquistar uma outra vida.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Categoria aqui é entendida no sentido referido por Bourdieu (1999.p. com configurações diferenciadas em grupos/facções que disputam entre si a legitimidade. sendo que “na ação e no discurso. numa unidade que sinaliza “a concordância entre as estruturas objetivas e as estruturas cognitivas.118). Os processos que permitem o estabelecimento das mulheres rurais como categoria específica. Essa construção se distancia das idéias de determinação e de espontaneísmo. 1993. organização. e assim apresentam-se ao mundo humano” (1995. os homens mostram quem são. Esse propósito me levou a aproximar-me e a aproximar alguns autores que compreendem a realidade social como realidade construída. as mulheres trabalhadoras rurais. e nem se mostra como reflexo imediato de uma tomada consciência política espontânea.415). como mundo desta sociedade e para esta sociedade. nos leva ao encontro da problemática da identidade desse grupo de mulheres. E o agir pressupõe aliança entre pessoas. esbocei o cenário que tornou possível o aparecimento das “mulheres trabalhadoras rurais” como sujeito de discursos e sujeito nos (outros) discursos. . Bourdieu que entende o mundo social como uma “realidade que é o lugar de uma luta permanente para definir a realidade” (1989.192).

eram conhecidas e autodenominadas como assalariadas do cacau. Eram mulheres de realidades e características diferentes. posseiras. políticos). delegadas do Primeiro Encontro Continental de Mulheres Trabalhadoras Rurais. significa estar sendo vista. na medida em que um dos temas tratados no encontro foi “ o que era ser e se sentir uma mulher trabalhadora rural. igreja. Uma via dupla de criação – relações entre mulheres rurais. a “identidade está amarrada a noções de experiência. a organização da Campanha Nenhuma trabalhadora rural sem documentos.139 - . mas juntas reivindicavam uma única identidade. Esta condição que se apresentava como dada. práticas. à espera de ser representada. de produção coletiva. a de mulheres trabalhadoras rurais. Essa busca seguiu dois caminhos:  A história do surgimento das organizações de mulheres trabalhadoras rurais. emoções. Deparei-me com essa experiência nas condições em que se designam e se exercem como tal – na existência cotidiana de suas organizações específicas. as eleições do Coletivo Estadual. que é recente.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Discursar é estar em posição de exercer uma fala de direito e estar presente no discurso de outros. todos circunstanciados por tensões. como no acadêmico e no de formações políticas (ONGs. Neste caso. e em condições de comunicação. e do Movimento de Mulheres Trabalhadoras Rurais/CE (MMTR-CE). narrativas. sindicatos. indica relacionamentos entre diversos agentes sociais e as mulheres trabalhadoras rurais. camponesas. e do Movimento de Mulheres Trabalhadoras Rurais (MMTR). portanto em relações de re-conhecimento. lavradoras. imagens. articulações. conflitos. de fato expressava a conformação de um processo em curso. o 8 de Março e a Marcha das Margaridas 2001.  O acompanhamento de algumas atividades políticas realizadas pelo Coletivo Estadual de Mulheres da Fetraece. o III Congresso Estadual da Fetraece.” pois não é algo que sempre esteve lá. Fui em busca de entender o que possibilitou àquelas mulheres trabalhadoras rurais se definirem. . reconhecerem e serem reconhecidas como tal. no início dos anos 1980 na Bahia. as primeiras surgiram em 1982 no sertão pernambucano e no interior do sul do país. e no acompanhamento socioetnográfico do cotidiano da militância do Coletivo Estadual de Mulheres da Federação dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais do Ceará – Fetraece. que ao longo da investigação foi tomando a forma de uma construção – a construção sociológica das mulheres trabalhadoras rurais como categoria política. identidade.” Do Brasil estavam diversas representações de organizações de mulheres trabalhadoras rurais que se autoreferiam como participantes do Movimento de Mulheres Trabalhadoras Rurais. Em 1997 deparei-me com mulheres de todo o continente latino-americano e do Caribe. 04 a 10 de novembro de 2007. catadoras de café. Segundo Scott (1999). rituais que realçavam um processo de fabricação. Na busca das origens das organizações de mulheres trabalhadoras rurais. Os primeiros grupos de mulheres rurais que conheci. foram se manifestando elementos como discursos. Tomar as mulheres trabalhadoras rurais como categoria construída é um esforço que me levou a encontrar a experiência historicizada pela qual puderam emergir como categoria política. movimento sindical e organizações não governamentais 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). O discurso acadêmico tem uma presença intensa na emergência social das mulheres trabalhadoras rurais corroborando com a instituição de uma identidade desse grupo. bóias-frias. estratégias. academia.

analisando:  A subestimação do trabalho feminino pelos indicadores utilizados nas pesquisas censitárias (mulher de produtor. Essa capacidade do dizer é vista por Certeau (1996) como um “saber – dizer.  Evidenciam o aumento do trabalho feminino no campo e as novas posições que este assume a partir das mudanças introduzidas pela expansão das relações capitalistas no campo que individualizaram a força de trabalho das mulheres intensificando a sua exploração. a organização dos Encontros de Esposas. destacaram-se a presença de vários agentes sociais. No âmbito das assessorias. o encontro com a realidade das mulheres é mais direto. Assim. fala autorizada. Esses estudos formulam questões que se situam no campo de uma teoria social crítica e mostram o caráter político da invisibilidade das mulheres rurais nas estatísticas e na vida social. O primeiro grupo do MMTR-CE se formou na região de Itapipoca. a não inclusão da produção de fundo de quintal – criação de pequenos animais. O Cetra também estava presente nessa região com uma atuação voltada para a renovação do sindicalismo e a luta pela terra. subsídio e mesmo dos programas de reforma agrária.  O caráter de ajuda ou complemento ao trabalho masculino.  A não inclusão das atividades femininas das políticas de incentivo à produção rural.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Na história do surgimento das organizações estudadas. a história do surgimento das organizações de mulheres trabalhadoras rurais está ligada a atuação de ONGs e pastorais. A produção acadêmica sobre as mulheres rurais de um lado re-escreve e re-inscreve essas mulheres no mundo social. presente não somente na zona rural mas em toda a sociedade. em 1980. do qual só participavam homens. o Coletivo da Fetraece e o MMTRCE. ouvindo as queixas de homens e mulheres iniciaram. atribuído ao trabalho feminino. Nessa área a igreja tinha um trabalho de organização dos agricultores em torno da luta pela terra e da celebração do Dia do Senhor. . Em torno desse trabalho com as mulheres aproximaram-se várias integrantes dessa instituição e alguns 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE).” cuja narrativação das práticas é uma maneira textual de fazer.140 - . Seja em nível nacional ou estadual. Diante de uma pequena presença das mulheres nas reuniões sindicais e da existência de problemas entre os casais pelas ausências dos homens em decorrência de sua participação no movimento. uma maneira de fazer a sua existência. da igreja católica e da atuação do Centro de Estudos do Trabalho e Assessoria ao Trabalhador (Cetra) e do Centro de Pesquisa e Assessoria (Esplar). 04 a 10 de novembro de 2007. Além disso. No Ceará essa matriz articulista está nos interstícios do movimento sindical. como textos que subsidiam as discussões sobre suas condições de vida e de trabalho.junto aos locais onde surgiram os primeiros grupos organizados de mulheres trabalhadoras rurais. Os estudos acadêmicos estão também presentes no cotidiano dos movimentos das mulheres trabalhadoras rurais. como intelectuais e as assessorias. Os estudos acadêmicos são falas legitimadas que atuam no propósito de dar visibilidade à presença das mulheres tanto nas atividades da produção agrícola quanto nas instâncias e manifestações políticas do movimento sindical dos trabalhadores rurais. existe a participação direta. nos anos 1980. o Cetra e a igreja. plantas medicinais). das pesquisadoras na condição de colaboradoras e assessoras nos eventos que estes movimentos realizam. lhe é permitido apresentar uma outra visão do real. MNRF. crédito. hortas. pomar. física. porque como discurso competente. o discurso acadêmico sobre as mulheres trabalhadoras rurais tem sido uma de suas condições de produção.

se constroem. planejamento familiar e pobreza. Em 1992 o grupo de sindicalistas do DETR-CE. Esse aspecto institucional da construção das mulheres trabalhadoras rurais compreende também a formalização das suas próprias organizações específicas e de seu reconhecimento legal como trabalhadoras rurais. As assessoras foram se formando como assessoras de um trabalho específico com mulheres na medida em que os próprios movimentos de mulheres iam se constituindo. A presença das ONGs nessa história indica a formatação de um outro discurso e práticas articuladas com as trabalhadoras rurais demandando a sua inclusão no espaço social e político. O Coletivo teve como território privilegiado as instâncias formais do movimento sindical rural. Pernambuco. numa constituição simultânea. cujo resultado vai ser a criação do Coletivo Estadual de Mulheres da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado do Ceará (Fetraece).141 - . aos quais se articulou. Paralelamente a esse processo. Em 1991 esse departamento realiza o I Encontro Estadual de Mulheres Trabalhadoras Rurais quando foi criada a Comissão de Mulheres do DETR-Ce. inicialmente para trocar experiências e ampliar sua capacidade para esse trabalho político organizativo com mulheres rurais. ganha as eleições da Fetraece. O Coletivo e o MMTR vinculam-se a organizações em nível nacional. e em fevereiro de 1993 a Comissão de Mulheres é transformada no Coletivo Estadual de Mulheres da Fetraece. Em 1986 foi criado no Ceará o Movimento de Mulheres Trabalhadoras Rurais do Ceará. No Brasil. Esses encontros se entenderam para Sobral e foram sendo ampliados para mulheres solteiras. O discurso e a prática das ONGs integra-se com o discurso e a prática acadêmica no sentido de compor um grupo produtor de um discurso institucional sobre as trabalhadoras rurais demandando a sua inclusão no espaço público. formado por sindicalistas de esquerda que faziam oposição à diretoria pelega da Fetraece. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). . Esse processo se remete a uma organização de mulheres nos sindicatos de trabalhadores rurais dos municípios de Madalena e Canindé. 04 a 10 de novembro de 2007. Uma assessora confessou que aprendeu sobre a questão da mulher com o trabalho que realizava junto às trabalhadoras rurais. como efeito da organização das mulheres e dos trabalhadores rurais no interior da Central Única dos Trabalhadores (CUT). Piauí. Discutia-se nesses encontros. outro foi acontecendo. de relações internacionais de cooperação entre mulheres. relacionava-se ao crescimento do feminismo e de uma consciência sobre as condições de desigualdade social. Bahia e outros Estados nordestinos. A atuação das ONGs na formação das organizações de mulheres trabalhadoras rurais se dá num contexto mais amplo. É no encontro entre si que se produzem. saúde da mulher. São vozes competentes que instauram condições para a legitimação e reconhecimento público das mulheres e que vão também se estabelecendo para criarem um saber e uma prática junto a esse grupo. política e econômica das mulheres brasileiras. cuja visão de democracia envolvia a inclusão das mulheres e sua igualdade de direitos. como a Comissão de Mulheres Trabalhadoras Rurais da Contag e a Articulação Nacional de Mulheres Trabalhadoras Rurais. que em 1990 já haviam formado uma Comissão de Mulheres. respectivamente. na mesma perspectiva dos que estavam sendo construídos na Paraíba.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG profissionais liberais residentes na região. As assessoras do Cetra foram buscar referências de trabalhos com mulheres rurais e encontrou contatos na Paraíba e em Pernambuco. e na área de atuação do Esplar. Dentro da CUT existia o Departamento Estadual de Trabalhadores Rurais.

mas apenas legitima e oculta os conflitos. Ser mulher trabalhadora rural significa sentir-se como tal. rompendo com uma situação de subordinação e com a fixidez de uma condição antes tida como destino. sobretudo. afirmando seu direito a ter direitos. Envolve sentimentos de pertença e diferenciação.142 - . vivem experiências pessoais e coletivas que são base para sua identidade. Segundo depoimentos de algumas entrevistas. como entende Ávila (2000) referenciando-se em Arendt (1998). gênero e lugar. Ter essa inscrição e aposentar-se como tal é uma grande conquista para as mulheres trabalhadoras rurais. têm ação na esfera política e tornam-se interlocutoras como parte de conflitos. sendo uma estratégia importante de mobilização e conscientização interna e externa a esse grupo. feita na medida em que faz as suas próprias agentes. de aparecer publicamente. que se exprime. as disputas. Assim. e cuja composição já supõe um conflito interno. Nessa identidade de mulher trabalhadora rural se articula classe. significando que anunciam seu projeto. A identidade de mulher trabalhadora rural é uma autonomeação a partir de recursos que lhes permitem que se vejam naquilo que sabem de si. formando uma sobreposição de representações apoiadas em conjuntos diferenciados de relações sociais. mas com valor. a segunda é de ser mulher também com valor. ora em nome da classe. por meio da campanha pela documentação Nenhuma trabalhadora rural sem documentos implementada em 1996. a unidade é sempre um elemento que está sendo restaurado. Enquanto um momento marcante da construção da identidade a campanha Nenhuma trabalhadora rural sem documentos mostrou uma disputa permanente pela hegemonia 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Essa experiência não se explica apenas pela posição estrutural de um grupo como algo que sempre esteve lá para ser descrita mas uma experiência historicizada e neste caso também produzida e exercida coletivamente. E assim encontramos a experiência singular das mulheres trabalhadoras rurais pela qual se fazem e se apresentam como tais. É preciso que o Estado legitime a sua condição inscrevendo-as como trabalhadoras rurais nas suas instancias burocráticas. Dessa maneira emergem no campo político e social brasileiro como um grupo organizado. instituindo um lugar feminino no território do movimento sindical rural. Por meio dessa ruptura podem ter uma existência própria. Aparecer é estar presente no mundo e inscrever a sua diferença diante de outros. Em cena: construindo a existência pública Um movimento social não acontece apenas pela existência orgânica de um grupo. 04 a 10 de novembro de 2007. a primeira “descoberta” que fazem no movimento é de ser gente e ser trabalhadora (pobre). lutando por direitos e em busca de reconhecimento – fazemse sujeito político. criando formas de representação e apresentação. vivida. inclusive pela hegemonia não se desfazem. Essa campanha continua em curso. pautados em relações sociais nas quais se inserem. interpretada e narrada. . ora em nome do sexo. Como essa restauração não elimina. mas também por sua capacidade de poder ser visto e ouvido por todos. Na medida em que participam de um movimento e realizam suas manifestações públicas.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Essa institucionalidade também envolve toda a luta das próprias trabalhadoras rurais que configuradas como categoria específica atuam em busca do seu reconhecimento profissional.

Para se dizer “sou uma mulher trabalhadora rural. mulheres de produtores que não se diziam –e muitas não se dizem ainda. acadêmicas). mas sim um trabalho com mulheres. compondo lugares importantes para a construção de identificações. não se reconhecem assim. camponesas. encontros. eventos ou manifestações públicas para as e das trabalhadoras rurais. As características dessa pedagogia se exprimem numa metodologia identificada desde a escolha das assessoras para realizarem o trabalho com mulheres. há uma dimensão individual da construção identitária. lavradoras. 04 a 10 de novembro de 2007. Essa apreensão requer condições sociohistóricas capazes de promover sentimentos e verdades. decidindo e participando. E encontramos no cotidiano dos movimentos de mulheres uma pedagogia que lhes permite uma nova sociabilidade e um novo sentimento de si. Sempre houve mulheres trabalhando e vivendo no campo. projetada nas condições sociais. Também nessa metodologia aprendem a se comunicar. O que existia antes (do movimento) era o cativeiro e a opressão. certezas sobre si. seminários. políticas do grupo.” é preciso sentir-se e mostrar-se como tal. A construção da identidade desvela-se entre as trabalhadoras rurais como um processo que envolve ou articula uma experiência que é subjetivada. não podem ser donas da verdade nem autoritárias. ser simples. e é por este que se redefinem e se reposicionam as mulheres nas relações sociais como trabalhadoras e mulheres que têm valor – revêem a si e ao que fazem atribuindo significado e valor. em que cada uma vê a si e sente-se como uma mulher trabalhadora rural. representa uma ruptura dessa situação. . mulheres trabalhadoras rurais. que em geral são mulheres que devem saber ouvir. quer em reuniões. Ao assim se dizerem. cursos de formação. Uma questão é se essa pedagogia faz uma política para as mulheres ou mulheres para a política. a identidade tem um aspecto de subjetivação e de objetivação que articula conflitos e heterogeneidades ao tempo em que funda uma integração e similaridades.143 - .Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG entre o Coletivo e o MMTR-CE e também entre as diversas entidades parceiras que integram a sua coordenação estadual (sindicais. Do que é possível perceber nos comportamentos das trabalhadoras rurais. Poder falar e sair. a viver para si. As vivências no movimento social permitem refazer a percepção e a posição das mulheres no mundo que as cerca e dentro delas mesmas –e vão permitir a reinterpretação de conceitos. e se fazem capazes de autonomia escolhendo. As diversidades e os conflitos são sempre recompostos em nome da unidade do movimento e dos interesses das mulheres trabalhadoras rurais. Embora seja uma produção coletiva. religiosas. é fundamental que se sintam como tal. a repassar o vivido e aprendido para outras companheiras. atitudes e símbolos próprios. Para tanto é preciso apreender-se como tal. ter experiência em trabalho popular e uma visão política. históricas. A formação de uma consciência de si torna–se processo integrante da construção da identidade social e pessoal. ou nomearem-se. Os modos de fazer essa identidade se assentam numa pedagogia singular que prepara os cenários para uma sociabilidade. Não existe um trabalho com homens. ONGs. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). internalizada e sentida de modo individuado –ou individualizante –e uma outra experiência que é objetivada. A experiência experiência no contexto da construção Construir-se como mulher trabalhadora rural envolve vivenciar uma experiência traspassada por mecanismos que promovem objetivações e subjetivações que formata e institui sentimentos. ir a outros lugares.

Isso pôde ser observado na Fetraece pelo processo de estatutização do Coletivo no III Congresso Estadual de 1998 – quando de um órgão atrelado à Secretaria de Formação foi transformado em cargo da diretoria executiva. A política de cotas que vem sendo adotada no movimento sindical de trabalhadores rurais é um indicativo da estruturação de uma nova ordem de definição das posições de homens e mulheres na estrutura sindical. . A unidade da categoria é mais uma estratégia política sofridamente construída e desejada. Há uma alternância de hegemonia nas manifestações que essas organizações realizam. O movimento de mulheres trabalhadores rurais ao fazer-se representante de uma categoria também realiza um trabalho de apresentação de modo a coincidir com as representadas. As manifestações realizadas pelas mulheres trabalhadoras rurais estão zoneadas por divergências políticas. Os dois grupos vão se constituindo simultaneamente. embora coabitando alguns espaços sociais comuns. inclusive com orçamento próprio. como o 8 de Março e a Marcha das Margaridas as mulheres cuidam de sua própria aparência como: arrumação e embelezamento da aparência 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Esse trabalho com mulheres é um ativador da identidade de mulher trabalhadora rural ao estabelecer possibilidades de formação de uma consciência de si como sujeito capaz de autonomia. Nas manifestações públicas que realizam. Muitas vezes aparece na fala das mulheres a expressão “ocupar espaços na estrutura sindical” referindo-se à inserção da presença feminina nas instâncias oficiais de representação política. não desfaz as disputas internas pela hegemonia da categoria. em suas identidades respectivas. Artes de apresentar apresentar e representar Todo esse substrato comum. Por meio dessa metodologia reconstroem-se permanentemente em processos de reconhecimento dos quais participam vários grupos sociais –e nos quais se articulam a dimensão pessoal e social. mas simbolicamente.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Há um entrelaçamento de vivências entre as assessoras e as mulheres rurais. Mas a presença das mulheres não se dá apenas fisicamente. construindo uma experiência particular –apropriando-se cada qual dos segredos de suas razões. as direções. especialmente as que demarcam as atuações da Articulação Nacional das Mulheres Trabalhadoras Rurais – ANMTR e a Comissão de Mulheres da Contag – reproduzidas em nível estadual entre o Coletivo da Fetraece e o MMTR-CE. As organizações específicas das mulheres na estrutura sindical e a sua presença física dão conta da ocupação de espaço – entendido como lugares exercidos. e a Comissão de Mulheres enfrenta a discriminação dentro de uma organização mista para estimular a igualdade de oportunidades em seu interior. dando conta da instituição de um lugar feminino. e outras que existem entre facções internas ao próprio Coletivo. a partir das quais cada uma estabelece suas práticas e suas posições. mas se apresentam com homogeneidade e unidade. Nesse circuito incessante. que são expressões concretas de uma inscrição institucional das mulheres se estendendo para as instâncias mais gerais. como movimento sindical dos trabalhadores e trabalhadoras rurais. A ANMTR reivindica para si o compromisso com a inseparabilidade da luta de gênero e de classe. Esse processo se apóia em organizações de base. para retornar ampliando-se nas bases.144 - . do que uma característica ou condição interna. tanto as mulheres rurais como as assessoras se inscrevem num coletivo. e o MSTR vem se designando oficialmente desde 2000. 04 a 10 de novembro de 2007. onde participam também outros agentes articuladores.

cada qual com uma atribuição específica: As poesias fazem relatos. gesticulam. Nas poesias também se referem ao dia-a-dia de trabalho na roça. não eram escutadas. .” As fotografias são recorrentes e também se revelaram como uma fala. Com a música as mulheres se juntam. o trabalho no campo onde estão sempre carregando coisas 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). sair de casa. em casa. compositora e integrante do MMTR-CE. Os modos de falar dessas mulheres se manifestam por expressões que são definidas como modos típicos das trabalhadoras rurais fazerem política. celebra e incute valores e esperança. na luta e nas ruas. e um depois. e animam o início. reivindicar e se experimentam sem medo de ser mulher. Margarida é o seu símbolo – uma mulher forte. não sabiam de nada. Um outro aspecto dessa sensibilidade pública pode ser encontrada em muitas histórias de luta pela terra.145 - . mulheres trabalhadoras rurais. aglutinando e movimentando o grupo. cada qual como falas apropriadas. As músicas em geral são de autoria das próprias mulheres. não tinham som. Criam e apresentam poesias para fazer abertura de eventos. fazem poesias e músicas. músicas e fotos. quando durante momentos de forte tensão as mulheres com suas crianças tomaram a frente de confrontos para impedir violências e agressões maiores. em que se experimentam como gente. relatórios. eram escravizadas. além de mobilizarem a imprensa e apresentarem-se unificadas. como um bloco: “Nós. e uma flor bonita e terna. São modos que articulam ritos. trabalhadora e mulher de valor que pode falar. tinham medo de falar. ouviram o próprio som. 04 a 10 de novembro de 2007. batem palmas. nos ambientes dos eventos. riem… Quando as discussões se tornam longas e cansativas ou tensas canta-se para quebrar o ritmo pesado e restaurar a atenção. tinham medo e não podiam. Para Nazaré Flor. o meio e o encerramento sempre dinamizando. tinham vergonha de falar. Transformam o desqualificado e frágil feminino em força e eficácia política. nos relatórios. uso de símbolos e adereços de mulheres e de trabalhadoras rurais como flores e foices. a conquista da fala é o demarcador de um novo tempo e uma possibilidade concreta pela qual podem contar a própria história. no movimento. Elegi as poesias. mas há também de compositores e assessores. E nesse contar se reposicionam no mundo. sensibilidade. falavam por elas. saudações. quando não falavam. na música ela encontra a alegria e a simpatia do público e pode expressar qualquer sentimento “de uma maneira que o cara não tem como dizer não. As músicas estão presentes em todos os eventos. sem valor. ganharam fôlego. dentro de um contexto de utilização freqüente de mensagens visuais. falam do sonho da libertação.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG pessoal. A análise de um conjunto de fotos de documentos produzidos pelos movimentos de mulheres trabalhadoras rurais mostrou a representação da vida delas. filhos. que deu a vida pela luta. depois do movimento. folders. avaliações. Nessa narrativa sobre a história delas no movimento. As mulheres trabalhadoras rurais a partir dessas vivências vão construindo uma narrativa própria e temporal em que se referem a um antes do movimento. exprimindo a utopia da união. falam mesmo sem estarem certas. No tempo que era antes não tinham voz. conflitos e comunicação. A música anima. não ficam caladas quando não aceitam qualquer coisa. registrando as histórias.” Por essas formas de apresentação constroem uma sensibilidade pública utilizando estrategicamente alguns papéis e atributos tradicionais das mulheres – fragilidade. clamaram seus direitos. levantam das cadeiras. A música introduz o lúdico e por meio dela exercitam um saber – dizer. Estão presentes na bagagem das mulheres. da conquista de direitos e da felicidade.

Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG

– pedra, lata de água, filhos, trouxa de roupa; no Movimento estão em movimento,
relaxadas, brincando, viajando, conversando, falando. No Movimento elas se movimentam
e se fazem presentes no mundo.
Se toda fala é sempre de uma falta é isso o que elas mais querem, seus desejos. E essas
falas são emblemas do movimento de mulheres trabalhadoras rurais, expressando o
confronto entre uma forma de vida e um tempo que se encontram em situação de
transformação.

Marcas de mulheres no sindicalismo rural
Os movimentos de mulheres trabalhadoras rurais se situam no território do sindicalismo
rural, no qual estampam sua presença de diferentes maneiras, pelas quais pode se
acessar os pontos de inclusão das mulheres nesse espaço social. Em que pese o fato de
que as lutas das mulheres ainda são vistas como sendo coisas de mulher e não do
conjunto do movimento sindical, aos poucos aparecem situações em que o movimento
como um todo as assume como ocorreu com a Marcha das Margaridas e a Mobilização
Nacional ocorrida em 8 de março.
Os nexos entre as mulheres e o movimento sindical dos trabalhadores rurais construídos
por tantos gestos, passos, artes e falas se esboçam nos seguintes aspectos:
A legitimidade do movimento sindical está apoiada na inclusão das mulheres seja para
mostrar a capacidade e o compromisso das direções políticas de responder às questões
das mulheres, seja nomeando-se como seu representante, o que tem feito a inclusão do
termo trabalhadoras nas manifestações e na própria designação como movimento de
trabalhadores e trabalhadoras rurais. A participação das mulheres então pode ser
presencial e simbólica.
A ampliação da prática de uma mística política, baseada em valores éticos de justiça/diálogo/ternura, na inclusão de todos, numa visão integrada da pessoa, e na
solidariedade. É um momento de todos e o motor do entusiasmo que alimenta o
compromisso por símbolos e participação. As mulheres não dispensam a mística em seu
cotidiano político e a consolidam como prática no campo sindical, mais que o fazem os
homens.
A política de cotas adotada legalmente pelo sindicalismo tem se mostrado um mecanismo
eficiente como estratégia de ação positiva para colocar as mulheres e suas condições de
discriminação na pauta sindical, dando condições para a visibilidade e a participação
feminina. As cotas são efetivamente assumidas pelos setores mais politizados do
sindicalismo, as lideranças, em uma perspectiva de fortalecer o conjunto do movimento;
nas bases, ao nível dos sindicatos municipais podem não ser levadas em conta.
Por fim as dinâmicas de cantar, movimentar o corpo, enfeitar o ambiente, motivar, animar,
alegrar, brincar, rir, dançar, descontrair, ter momentos de confraternização e festa,
exposição e venda de produtos artesanais exprimem um conjunto de características mais
identificadas com a subjetividade, e muitas vezes com forte emocionalidade. No I
Encontro de Mulheres Dirigentes do Sindicalismo Rural-CE, o encerramento foi com muitos
abraços e choros entre assessoras, lideranças e participantes, que diziam: “Conseguimos!
As mulheres cearenses já estão marchando.” Nunca, em 20 anos de aproximação com o
sindicalismo, vi homem chorar por realizar um encontro ou reunião política. Há aqui uma

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vinculação entre subjetividade e cidadania em que a política aparece como lugar de uma
nova sociabilidade e de uma outra experiência subjetiva.
Assim as mulheres trabalhadoras rurais emergem como categoria sujeito político
construído, e não apenas como efeito de mudanças estruturais ou conseqüência natural
de uma tomada de consciência.
Por isso talvez cantem tanto:
Pra mudar a sociedade do jeito que a gente quer
Participando sem medo de ser mulher
Essa mudança enuncia um sujeito capaz de desejos e de sonhos.
Porque a luta não é só dos companheiros
Participando sem medo de ser mulher
Ter um desejo próprio é estabelecer processos de diferenciação e elaborar uma
identidade própria.
Pisando firme sem pedir nenhum segredo
Participando sem medo de ser mulher
Conquistar a existência social permite revelar-se, mostrar-se, apresentando-se e falando
em público sem medo de ser mulher trabalhadora rural.
Referências
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Ávila, Maria Betânia. Feminismo e Sujeito Político. In: Revista Proposta. Rio de Janeiro:
Fase, 2000. Março/Agosto, p.6-11.
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______. O Poder simbólico. Lisboa: Difel, 1989
______.A dominação masculina. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1999
Castoriadis, Cornelius. A instituição imaginária da sociedade. 3.ed. Rio de Janeiro: Paz e
Terra, 1995.
Certeau, Michel de. A invenção do cotidiano. Artes de fazer. Rio de Janeiro: Vozes, 1996.
Lauretis, Tereza de. A tecnologia do gênero. In: Holanda, Heloisa B. (Org).. Tendências e
Impasses. O feminismo como crítica da cultura. Rio de Janeiro: Rocco, 1994. p. 24-38.
Hall, Stuart. Identidades culturais na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A Ed., 1997.
Scott, Joan W. Experiência. In: Silva, Alcione Leite da et al. (Orgs). Falas de Gênero. Santa
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Thompsom, E. P. A Miséria da teoria. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1981. FortalezaCE, 2005.

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POTENCIAL E LIMITE DAS DISPUTAS POLÍTICAS:
PONTOS PARA REFLEXÃO
REFLEXÃO

Sara Pimenta e Domingos Corcione - Agosto de 2006

Dirigentes e lideranças sindicais constroem projetos políticos ou se identificam com um
entre aqueles já existentes, assumindo sua defesa no cotidiano da vida sindical.
É comum a existência de projetos diferenciados em suas origens e concepções políticoideológicas. Isso resulta em disputas pela predominância e hegemonia de um sobre o
outro.
As disputas políticas não se limitam aos antagonismos entre trabalhadores e classes
dominantes, mas têm lugar no interior do próprio Movimento Sindical e entre este e outros
movimentos e organizações populares. Em muitos casos as disputas internas se tornam
de tal forma acirradas que geram rupturas e levam à criação de novas entidades e
movimentos. Mas há disputas “menores” - não menos importantes - que caracterizam o
cotidiano do MSTTR: disputas de idéias, de espaços, de reconhecimento, de protagonismo
e liderança. Afinal, disputas permanentes de poder.
A dimensão positiva das disputas políticas
As disputas podem ser vistas como elementos que integram a dinâmica política do MSTTR,
em sua dimensão positiva e construtiva, favorecendo a qualificação dos projetos políticos
e a aquisição - pelos dirigentes e lideranças - de maior habilidade na defesa de suas
posições.
A pluralidade ideológica e de posicionamento político confere um novo dinamismo à luta
sindical e aos processos de mudança, pois pode sinalizar o surgimento e a consolidação
de novas práticas. As posições são demarcadas de modo a assegurar os interesses
relacionados com o projeto defendido, colocando em destaque pontos divergentes,
conferindo maior clareza às idéias e facilitando a comunicação.
Idéias, posições e projetos, quando em disputa, ganham maior relevância, são
apresentados e defendidos na perspectiva de fazerem adeptos e construírem sua
hegemonia.
Todo esse processo promove fortes motivações para se avançar com maior garra,
perseguindo as estratégias necessárias para vencer as posições antagônicas ou
diferenciadas e conquistar novos espaços de poder.
Práticas a serem transformadas
Apesar dos aspectos positivos acima ressaltados, é preciso reconhecer que no campo das
disputas políticas ainda persistem posturas e atitudes equivocadas, que ferem a ética e
acabam por comprometer o avanço da organização sindical e a construção de projetos de
mudança social, tais como:

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acontecem também nos “espaços de formação programada”. que acabam por incorrer em desrespeito pessoal com quem esteja representando posições políticas diferenciadas ou adversárias. .  Dificuldade de identificar e reconhecer valores e aspectos positivos nas idéias. a história. Nessa perspectiva. reconhecendo-os em seu potencial catalisador de novas concepções e práticas. mas também tem contribuições a dar. Forte tendência a distorcer o que se vê e se ouve e a evidenciar somente aquilo que se considera equivocado. Contudo. que reproduzem posturas positivas ou equivocadas. Para isso se faz necessário uma postura aberta ao diferente e o exercício da escuta sempre atenta ao que a outra posição ou corrente tem a transmitir. contraditório e incorreto no lado adversário. voltados para o estudo. pautando-se pelo estudo e pesquisa. fazer repensar e aprimorar estratégias e métodos de trabalho. A formação como espaço estratégico para a construção de novas práticas As disputas. ocorrem debates. é fundamental reconhecer as próprias limitações e se dispor a rever posições. frente a todas elas. sobretudo.149 - .  Tendência a forjar oportunidades para denegrir a imagem da posição adversária e – em certos casos – humilhar e desqualificar as pessoas que a defendem. como aquelas anteriormente citadas. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). que implica. tem um grande rebatimento na ação mobilizadora e transformadora da luta sindical. o que demanda alguns compromissos como os abaixo relacionados:  Respeitar a pluralidade de concepções e idéias e buscar compreendê-las de modo a compor uma visão crítica e construtiva.  Resgatar. em primeiro lugar. Um curso de formação. para identificar insuficiências e valores de cada posição. explicitar o significado e prever os possíveis desdobramentos de cada concepção e prática. posicionamentos e pessoas que estejam defendendo posições ou projetos diferenciados. para que esse rebatimento tenha um impacto realmente positivo. mesmo entre pessoas de uma mesma corrente político-ideológica. é preciso fazer das ações e atividades formativas espaços estratégicos. A ação formativa. portanto. avaliar a caminhada.  Refletir e aprofundar o debate. na escuta atenta das posições ou correntes adversárias. um seminário ou uma oficina podem contribuir muito para esclarecer idéias e projetos. Sem formação não há como qualificar a luta. 04 a 10 de novembro de 2007. mais ou menos acirrados. Oficinas ou Encontros de caráter formativo. As atividades de formação têm uma importância primordial na vida sindical.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG  Dificuldade de reconhecer o outro como um legítimo interlocutor e de construir um diálogo aberto.  Utilização de palavras e gestos ofensivos. Cada prática ou concepção revela fragilidades. como Seminários. para a reflexão mais aprofundada ou a capacitação. Nesses espaços. tão comuns no cotidiano sindical.

2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). nas relações interpessoais.. Na medida em que nos dispormos a construir e assumir novas posturas e práticas para as quais os espaços de formação nos convocar. nas relações de gênero. 04 a 10 de novembro de 2007. pois – reiteramos . Portanto. .150 - . não se trata de acabar com a disputa.ela pode ser positiva e dinamizadora da ação social transformadora. certamente estaremos dando largos passos para transformar o cotidiano de nossas relações políticas no movimento sindical. Uma disputa que nos aproxime cada vez mais da nova sociedade que queremos construir: justa.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG  Fazer da formação um campo profícuo de debates e oportunidades de aprendizado e aprimoramento das idéias e concepções ideológicas. solidária e respeitosa das diferenças.. de modo que isso nos faça crescer em todas as dimensões: na política. O desafio é conferir às nossas disputas uma dimensão mais humana e humanizadora.  Tratar as disputas políticas como elementos constitutivos de um desafiador processo de construção de consensos. primando por uma postura ética e respeitosa para com as pessoas e grupos. onde se conviva – ao mesmo tempo – na unidade e na diversidade. igualitária. coerente com nossos sonhos e utopias.

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