Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG

2º Módulo Regional Nordeste
Aracajú (SE), 04 a 10 de novembro de 2007.
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Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG

ÍNDICE SUMÁRIO

Textos

Página

01

Matriz Pedagógica do I Módulo do Curso de Formação de Educadores
e Educadoras em Concepção e Prática Sindical e em Metodologias

01

02

Herança de diferenciação e futuro de fragmentação
fragmentação
Tânia Bacelar

06

03

Ascensão e Queda do Coronelismo
Voltaire Schilling

31

04

Contexto e Diversidade das agriculturas Familiares no Nordeste semisemiárido
Patrick Caron e Eric Sabourin (organizadores)

40

05

Origem e papel dos sindicatos
Altamiro Borges

49

06

História do movimento sindical – Cartilha da CNTE

55

07

Concepções e correntes sindicais no Brasil
Amarildo Carvalho de Souza e Domingos Corcione

67

08

A historia das nossas raízes: itinerário das lutas dos trabalhadores (as)
rurais no Brasil e o surgimento do sindicalismo rural
Maria do Socorro Silva

83

09

Trajetória política da contag - as primeiras lutas

98

10

Participação das mulheres na luta dos trabalhadores e no movimento
sindical
Maria Valéria Junho Penna

111

11

A mulher e a emergência da
da seca no nordeste do Brasil
Izaura Rufino Fischer e Lígia Albuquerque

119

12

Muito trabalho e nenhum poder marcam as vidas das agricultoras
familiares
Taciana Gouveia

127

13

Margaridas nas ruas: As mulheres trabalhadoras rurais como categoria
política
Maria Dolores de Brito Mota

135

14

Potencial e limite das disputas políticas: pontos para reflexão
Sara Pimenta e Domingos Corcione

146

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Aracajú (SE), 04 a 10 de novembro de 2007.
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Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG

2°MÓDULO DO CURSO DE FORMAÇÃO DE EDUCADORES E EDUCADORAS EM CONCEPÇÃO, PRÁTICA SINDICAL E METODOLOGIA DA FORMAÇÃO.
(REGIÃO NORDESTE
ORDESTE)
Data: 04 a 10 de novembro de 2007
Local: Hotel Beira Mar
Endereço: AV. ROTARY S/N - ATALAIA VELHA, ARACAJU (SE), FONE / FAX: 79 - 21062106-8989

MATRIZ PEDAGÓGICA
Objetivo Geral:

Contribuir com a formação de militantes do MSTTR, de modo que aprimorem sua capacidade multiplicadora e
potencializadora da ação formativa em suas áreas de atuação.

Objetivos Específicos:



Socializar e aprofundar referenciais teóricos, políticos e ideológicos que fundamentam e alimentam os ideais e a luta
sindical e popular.
Re-avaliar e fortalecer a luta sindical, numa visão e ação sindical transformadoras, estimulando processos de mudanças de
atitudes, comportamentos e práticas individuais e coletivas, coerentes com as exigências de implementação do PADRSS.
Favorecer a experimentação, sistematização e apropriação de novas metodologias pedagógicas que realimentem a prática
formativa do movimento sindical.
Contribuir para a constituição de uma rede de formadores/as que assumam e implementem o projeto de formação do
MSTTR.

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geração. tempo de movimento e fatos significativos. Articular Rede de educadores (as) de com a mística do I Módulo (elementos da natureza) Sergipe e equipe ENFOC Abertura Política do II Curso Coordenação Política da ENFOC. Obs: agrupar por gênero. raça-etnia. Observação: utilizar a linha do tempo como principal recurso pedagógico. princípios e objetivos da ENFOC. EIXOS PEDAGÓGICOS: PEDAGOGIA PARA UMA NOVA SOCIABILIDADE E MEMÓRIA E IDENTIDADE. NOITE Sessão de Cinema Exibição do Filme “VIDAS SECAS” 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). quanto os fatos significativos vivenciados individual e coletivamente. convidados Reafirmar os compromissos. Regional da CONTAG. organização e lutas. CONCEPÇÃO. mística e animação. acordos. trabalho. Memória e Identidade – Perfil de militância Estabelecer a partir das identidades individuais. ReRe-apropriação do I Módulo Estimular uma releitura do I Módulo e a compreensão da inter-relação entre o I e II módulos (identidade. Rede de educadores (as) TARDE Contexto e origem do sindicalismo no Brasil Brasil até o inicio da década de 30 Amarildo Carvalho – assessor Compreender a formação da classe trabalhadora no da CONTAG Brasil. Estado e politicas públicas. comissões de trabalho.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG EIXO TEMÁTICO: HISTÓRIA. sistemas de sociedade. Objetivos Responsáveis Mística de acolhida Avançar no processo de integração do grupo. 04 a 10 de novembro de 2007. Dia 04 de novembro novembro de 2007 (Domingo) Período Tema e SubSub-temas. a identidade de grupos. e motivação para militância. diálogos pedagógicos) Comissões de trabalho: Organização e apoio. ESTRUTURA E PRÁTICA SINDICAL. MANHÃ Roteiro. relatoria e sistematização. avaliação. favorecendo a percepção de construção histórica tanto das concepções presentes na sociedade. -4- .

organização e lutas das entidades do MSTTR. .  Concepções e correntes políticas na fundação das FETAGs.  As mudanças na organização e bandeiras de luta das Federações até os dias atuais. explicitando: Socorro Silva – colaboradora da ENFOC  As formas anteriores de organização. econômicas e de lutas no Nordeste.  Principais demandas e bandeiras de luta. Objetivos Responsáveis MANHÃ Contexto regional até a década de 30. lutas e organização das entidades sindicais do MSTTR) Rede de educadores (as) Dia 06 06 de novembro novembro de 2007 (Terça (Terça Feira) Período MANHÃ E TARDE Tema e SubSub-temas. temas.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Dia 05 de novembro de 2007 (Segunda Feira) Período Tema e SubSub-temas. 04 a 10 de novembro de 2007. políticas. Socorro Silva – colaboradora da ENFOC TARDE Formação da estrutura sindical oficial Organizações de de trabalhadores no campo brasileiro (das LIGAS Camponesas à ULTAB) Compreender o papel do Estado na organização sindical e nas relações capital e trabalho. -5- Comissão de Sistematização uma síntese das fará apresentações. Compreender o processo de organização e as principais bandeiras de luta das organizações nesse período Socorro Silva – colaboradora da ENFOC Memória da constituição e organização do MSTTR no nordeste Preparar as apresentações do Tempo Comunidade (história. Objetivos Responsáveis Diálogos pedagógicos Reapropriação dos temas trabalhados nos dias anteriores Equipe ENFOC e Comissão de sistematização Memória da constituição e organização do MSTTR no nordeste (Apresentação das federações e exposição dialogada) Favorecer uma leitura critica da historia. Compreender as relações sociais. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE).

2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Testemunhos:  Rita – CUT/PB  Vanete Almeida – REDELAC Trazer as dimensões de classe. raça e etnia.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG No dia 06 (noite). tr Objetivos Responsáveis Favorecer maior compreensão sobre a trajetória organizativa e de luta das mulheres trabalhadoras rurais nordestinas. Moderação de Beto Novaes (luta dos assalariados assalariados na região) região) Comissões e equipe ENFOC TARDE Organização das centrais sindicais no Brasil e o dialogo com a CONTAG Testemunho de Francisco Urbano Filho – exex-presidente da CONTAG e José Carmo – Colaborador da FETASE Favorecer maior compreensão sobre a formação das centrais sindicais no inicio dos anos 80 e a participação da CONTAG nesse processo. 04 a 10 de novembro de 2007. -6-  Raimunda Celestina Mascena – CONTAG de . Dia 08 de novembro de 2007 (Quinta Feira) Período Tema e SubSub-temas MANHÃ Livre TARDE Memória da Luta das mulheres trabalhadoras abalhadoras rurais no Nordeste. haverá lançamento de filme sobre migração nordestina para o corte da cana em São Paulo – Professor Beto Novaes Dia 07 de novembro de 2007 (Quarta Feira) Período Tema e SubSub-temas Objetivos Responsáveis MANHÃ Diálogos pedagógicos: Leitura critica de duas importantes e estratégicas frentes lutas Memória das lut as dos assalariados e de luta no Nordeste: pela reforma agrária de finais da  Reforma Agrária década de 70 aos anos 80  Organização e Luta dos Assalariados/as.

Construir passos para a realização as atividades inter módulos e GES Equipe Equipe ENFOC Encaminhamentos Reapropriação do Módulo (linha do tempo) Discutir encaminhamentos dos próximos passos. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). . comissões de avaliação e de sistematização. Amarildo Carvalho – assessor da CONTAG Refletir sobre princípios e estratégias da PNF do MSTTR. partir de 1990 TARDE Reflexão sobre a organização e pratica sindical do MSTTR Manoel José dos Santos ontem e hoje Presidente da CONTAG Organização.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Dia 09 de novembro de 2007 (Sexta Feira) Período Tema e SubSub-temas Diálogos Pedagógicos MANHÃ Objetivos Responsáveis Reapropriação dos temas trabalhados nos dias anteriores Equipe ENFOC e Comissão de Sistematização Manoel José dos Santos Presidente da CONTAG Memória da organização do MSTTR a Favorecer uma leitura critica sobre a trajetória do MSTTR de 1990 aos nossos dias. Diálogos Pedagógicos: Pedagógicos: Política Nacional de Formação (PNF) do MSTTR Resgatar o histórico da formação sindical do MSTTR e refletir sobre os princípios políticos do PADRSS enquanto referenciais dessa formação. Dia 10 de novembro novembro de 2007 (Sábado) Período MANHÃ MANHÃ Tema e SubSub-temas Diálogos Pedagógicos: Tempo Comunidade Objetivos Responsáveis Refletir sobre o tempo comunidade na estratégia da formação. Avaliação / Encerramento Possibilitar uma reflexão avaliativa do 2º Módulo. considerando nexos e pontes para as etapas seguintes. Visualizar o 2º Módulo na sua totalidade. -7- Equipe ENFOC. 04 a 10 de novembro de 2007. Estrutura e Prática Sindical Explicitar a importância do PADRSS enquanto referencia de mudanças na organização do MSTTR.

É um traço antigo que o dinamismo econômico das últimas décadas não conseguiu alterar significativamente. Levantamento recente do Instituto de Planejamento Econômico e Social – IPEA mostra que. continua a ser uma das características mais marcantes do Nordeste. a análise será feita com referência às diferenciações existentes dentro da própria região Nordeste. Dos indigentes urbanos do país. quase 46% estão no Nordeste (IPEA . assim. Apresenta-se inicialmente sucinta descrição da dinâmica geral das atividades econômicas: a região será abordada em seu conjunto. foi substituído pelo forte dinamismo de numerosas atividades que se desenvolveram recentemente na região. com maior clareza. Esforço especial será dedicado à observação das mais importantes articulações econômicas regionais e sub-regionais.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Herança de diferenciação e futuro de fragmentação Tânia Bacelar de Araújo NESTE ARTIGO. porém. O Nordeste e seus subespaços serão percebidos. O Nordeste aqui considerado congrega os estados que vão do Maranhão à Bahia. Assim. 1993). Originam-se. enfocando-se suas . observa-se o Nordeste do Brasil por sua economia. -8- . então. em suas tendências de ligações com o exterior e com as demais regiões do próprio Brasil. 14% da produção nacional total (medida pelo PIB). A heterogeneidade e a complexidade da dinâmica nordestina aparecerão. quando visto no contexto nacional. Num segundo momento. com 46% da população rural brasileira. em 1990. Finalmente.5% da população urbana do Brasil e 46% de sua população rural. diferindo da classificação feita pela Sudene que inclui parte do estado de Minas Gerais (região polarizada de Montes Claros). em sua grande maioria. Cabe destacar que na região residem 23. 12% da produção industrial e quase 21% da produção agrícola. utilizando-se portanto dados globais referentes.3 milhões estavam no Nordeste (55% do total nacional) e mais de 10 milhões residiam na zona rural da região. Serão analisados ainda os movimentos de mercadorias e de capitais focalizando-se as décadas de 60. analisando-se ainda sua inserção nos contextos nacional e mundial. especular-se-á sobre a hipótese do aprofundamento das diferenciações e desigualdades internas. o Nordeste tem 63% dos indigentes brasileiros que vivem nas áreas rurais. 70 e 80. A pobreza. 1967). como se verá a seguir. dos 32 milhões de brasileiros indigentes. destacando-se os novos subespaços dinâmicos e os focos de resistência a mudanças. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). que durante muitas décadas caracterizou o ambiente econômico nordestino (GTDN. tendências atuais e perspectivas econômicas. 17. ao total regional. 04 a 10 de novembro de 2007. aproximadamente. Concluir-se-á com uma reflexão sobre as tendências atuais da economia nordestina e os primeiros impactos da opção brasileira por uma inserção passiva no mercado mundial em globalização.características principais. Daí a questão posta no título do artigo: o rumo será o da fragmentação? Caracterização inicial Na região Nordeste (20% do território brasileiro) vivem 29% da população do país. O lento crescimento econômico.

6% para 29. Enquanto a indústria comandava o crescimento econômico no Sudeste. entre 1960 e 1990. complementados com créditos públicos (do BNDES e BNB. Tais investimentos tiveram importante papel para o posterior dinamismo dos investimentos nas atividades privadas. Enquanto isso. as atividades industriais – ganham crescentemente espaço no ambiente econômico do Nordeste e passam a comandar o crescimento da produção na região. particularmente) e com recursos próprios de importantes empresas locais. Vários estudos recentes confirmam esse comportamento. 04 a 10 de novembro de 2007. No global. A partir dos anos 60. as atividades urbanas – e dentro delas. Entre 1967 e 1989 a agropecuária reduziu sua contribuição ao PIB regional de 27. 1996). ano de seca. a economia nordestina apresentou entre 1960 e 1990 um excelente desempenho. Uma das propostas centrais do relatório do GTDN – como ficou conhecido aquele documento – era estimular a industrialização no Nordeste como forma de superar as dificuldades geradas pela velha base agroexportadora nordestina.6%. a indústria passou de 22. e entre 1965 e 1985 o PIB gerado no Nordeste cresceu (média de 6. rompendo a fraca dinâmica preexistente. constatava ter sido o seu fraco dinamismo nas décadas anteriores a característica mais importante da base produtiva instalada na região. Coordenado por Celso Furtado no final dos anos 50. passando de US$ 8. De 1960 a 1988 a economia nordestina suplantou a taxa de crescimento média do país em cerca de 10%. o relatório do Grupo de Trabalho para o Desenvolvimento do Nordeste (GTDN) que fundamentou a estratégia inicial de ação da Sudene. que afetou consideravelmente a produção na zona semi-árida.3% ao ano) mais que o do Japão no mesmo período (5.9% para 58. recém-criada. impulsionadas por incentivos fiscais – 34/18-Finor e isenção do imposto sobre a renda.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Dinamismo econômico: uma herança recente Apesar de vista como região problema pela maior parte dos brasileiros. nas décadas recentes. por investimentos de empresas estatais do porte da Petrobrás (na Bahia e Rio Grande do Norte) e da Vale do Rio Doce (no Maranhão). 1992). o Nordeste foi a região que apresentou a mais elevada taxa média de crescimento do PIB no país. o PIB do Nordeste quase sextuplicou.5% ao ano).1% (Sudene. o velho setor primárioexportador implantado no Nordeste dava mostras de sua incapacidade para continuar impulsionando o desenvolvimento econômico regional. No início dos anos 60 a Sudene. verifica-se nítida melhoria nos indicadores de participação relativa dessa região na economia do país: entre 1960 e 1990 a participação no PIB aumentou de 13.9% e em 1990.6 bilhões para US$ 50 bilhões (Araújo.4% para 18. segundo dados da Sudene para o período. No total. tal percentual caiu para 12.3%. tanto no setor industrial quanto no terciário. e o setor terciário cresceu de 49. nacionais e multinacionais. principalmente –. segundo estudo realizado por Maia Gomes (1991). concentrou esforços e recursos federais na realização de estudos e pesquisas sobre a dotação de recursos naturais do Nordeste (em particular de recursos minerais) e na ampliação da oferta de infra-estrutura econômica (sobretudo transportes e energia elétrica).1%.2% para 17. -9- . Usando dados que comparam o desempenho da economia brasileira no seu total com o de sua parte localizada no Nordeste. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE).

tais segmentos não têm grande presença no tecido industrial do Nordeste. Naturalmente. o Nordeste continua sendo relativamente mais importante como região produtora agropecuária (20% do total nacional) do que industrial (12%) ou terciária (15%). expandia-se a que era ocupada com cana-de-açúcar. mandioca e sisal. laranja e milho. dentro dele. em sua porção oeste. Nordeste: mudanças no perfil produtivo Nas últimas décadas a região promoveu mudança importante na composição de sua produção. no perfil produtivo da agropecuária nordestina: a partir dos anos 70. Paralelamente. às margens do submédio São Francisco e no vale do Açu (RN). ao especializar-se mais na produção de bens intermediários. uma das teses centrais do GTDN ficou ultrapassada: não se verifica mais o fato de a economia do Nordeste ir mal. Embora as taxas se diferenciem. Ao mesmo tempo algumas culturas não-tradicionais na região. em 1990) do que no Nordeste (30%). segundo dados da Sudene (1992) para o ano de 1990. verifica-se que a dinâmica regional tendeu a acompanhar as oscilações cíclicas da produção total do país. e nesse novo momento. apresentando taxas de crescimento anual positivas e superiores à média do país. No entanto. enquanto se reduzia a área cultivada com algodão. crise que afetou mais fortemente o setor industrial e. com as atividades urbanas avançando mais nos dois casos. apresentaram peso crescente na produção regional: 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Dessa forma. ambos para exportação. Mudanças ocorreram. Acompanha. O movimento de integração econômica comandado pelo processo de acumulação de capitais do Brasil nas últimas décadas havia atingido o Nordeste e solidarizado sua dinâmica econômica às tendências gerais da economia nacional. Conforme dados da Sudene (1992). 04 a 10 de novembro de 2007.10 - . Permaneceram diferenciações importantes. feijão. implantou moderna agricultura de grãos e importantes pólos de fruticultura. por seu valor de mercado relativamente alto. Assim. as tendências gerais da economia brasileira. A integração produtiva articulara a dinâmica econômica nas diversas regiões brasileiras. como ressaltaram em seus estudos Oliveira (1990) e Guimarães Neto (1989). por exemplo. os segmentos produtores de bens de capital e bens de consumo duráveis. Ora.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Cabe salientar que quando se compara o desempenho das atividades econômicas do Nordeste com a média nacional. especialmente a partir da segunda metade dos anos 80. também o setor de serviços tem tido desempenho bastante razoável na região. quando visto no ambiente econômico nacional. a indústria recentemente instalada no Nordeste resistiu melhor aos efeitos da desaceleração da economia brasileira. podendo localizadamente melhor enfrentar a crise nacional. destinando parte importante às exportações. as tendências são semelhantes. a integração econômica não homogeneizou as estruturas produtivas das diferentes regiões do país. o que o ajuda a resistir aos efeitos da retração da demanda interna. mamona. . apesar de suas especificidades locais. Sob tal perspectiva. enquanto o Centro-Sul vai bem. As atividades agropecuárias vêm perdendo peso relativo no PIB do Brasil e também no do Nordeste. E é justamente em função das particularidades das estruturas produtivas de cada região brasileira que o Nordeste foi menos atingido pela crise dos anos 80. arroz. a indústria tornou-se relativamente mais importante no total da produção brasileira (34%. também nesse ponto.

quando o Estado brasileiro. que serão analisados com detalhes adiante. café e soja (em áreas favoráveis do São Francisco. 1990. vai se transformando nos anos pós-60 em região industrial mais especializada em bens intermediários (Araújo. com parte do projeto localizado no Maranhão. na Bahia. melancia. capitais privados buscam novas frentes de investimento em espaços localizados para além do centro mais industrializado do país – o Sudeste. 1981). o Nordeste também se incluiu nessa tendência quando a Petrobrás comandou. ou da soja. No caso da indústria. e a Companhia Vale do Rio Doce implementou o complexo de Carajás. contabilizada pelo IBGE/FGV. do complexo da Salgema em Alagoas. Merecem também referência os investimentos do sistema Eletrobrás. Fundaj. principalmente). 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Verifica-se a desconcentração da atividade produtiva. 04 a 10 de novembro de 2007. manga. da produção de alumínio no Maranhão. Oliveira. a partir da estratégia definida no II Plano Nacional de Desenvolvimento (II PND). como anteriormente ressaltado. apenas 3% do valor da produção agrícola do Nordeste. A nova base agrícola da região também tem a vocação para ofertar produtos cujo beneficiamento se dará fora do Nordeste ou até do país. Nessa fase. 1993). passando de 13% do total nacional em 1970 para 17% em 1985 (superior à sua participação no PIB brasileiro). No total da formação bruta de capital fixo. processada por agroindústrias instaladas na região. Por outro lado. a implantação do pólo petroquímico de Camaçari. 1992). que inclui investimentos da administração pública e das empresas do governo. verifica-se a posição do Nordeste como região recebedora de recursos. . coube ao Nordeste assumir novo papel no contexto da divisão inter-regional do trabalho do país. salvo em casos como o das frutas tropicais. e do complexo minero-metalúrgico. realizou importante programa de investimentos públicos e com ele sustentou a dinâmica da economia nacional num contexto internacional de crise. Como o movimento de desconcentração busca também utilizar recursos naturais disponíveis nas diversas regiões do país. com destaque para a instalação do pólo petroquímico de Camaçari.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG é o caso de frutas como melão. quando se examinarem os focos de modernidade surgidos na região nas últimas décadas. Esse movimento atinge também o Nordeste (Guimarães Neto. além do pólo de fertilizantes de Sergipe. na Bahia. dentre outros. 1990. o Nordeste engata na dinâmica nacional. uva (nas áreas irrigadas pelo São Francisco e Açu). A indústria. Nos anos 70. o Nordeste comparece abrigando alguns pólos importantes de desenvolvimento agroindustrial e industrial. financiada pelos incentivos da Sudene. do Agreste e do Cerrado. no Maranhão. demonstra tal perfil: foram os segmentos produtores de insumos que receberam a maior parte dos recursos provenientes do sistema 34/18-Finor.11 - . transformada em vinho também no Nordeste. nos anos em que a economia brasileira consolida o mercado interno nacional e promove sua integração produtiva. Tais produtos representavam. o perfil industrial do Nordeste mudou significativamente com a perda da posição relativa da indústria de bens não-duráveis de consumo e com o crescimento relativo do segmento voltado à produção de bens-intermediários. crescendo para 13. da uva. Nesse contexto. enviadas in natura para o mercado consumidor externo. respectivamente). em 1970. De tradicional região produtora de bens de consumo não-duráveis (têxtil e alimentar.5% em 1989 (Congresso Nacional. abacaxi (em manchas favoráveis do sertão e agreste) além de tomate. inclusive da atividade industrial.

mais que as quadruplicando: passam de US$ 7. era possível destacar subconjuntos sócio-econômicos diferenciados. atividades como bens imóveis e serviços às empresas. quando a crise se aprofundou excluindo de seus efeitos negativos as atividades de intermediação financeira e os segmentos voltados para a exportação. Investindo. Enquanto a economia brasileira desacelerava. No que se refere às atividades de intermediação financeira. Dentro dele. o setor público tem. Uma das características importantes da economia do Nordeste é o relevante papel desempenhado nos anos recentes pelo setor público. porém. atividades financeiras. O Nordeste também produziu mais para o exterior. . como contabiliza a Sudene (1992). Entre 1975 e 1990 o Brasil expandiu suas exportações.12 - . Aliás. nos anos 80. o Nordeste tendeu a reproduzir tal padrão. No Nordeste. triplicando seu valor exportado (de US$ 525 milhões para US$ 1. No Nordeste também se observou a mesma tendência. a acompanhar bem de perto as principais tendências da economia brasileira. É evidente que o Estado patrocinou fortemente o crescimento econômico nas diversas regiões brasileiras. No Nordeste. 04 a 10 de novembro de 2007. criando infra-estrutura econômica e social. Como se observa do exposto.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Finalmente. duplicando seu valor exportado. Guardam. no geral. em 1990 respondia pela metade do valor exportado pela região. expandiram-se na proporção de 10% ao ano. Enquanto nos anos 70 e 80 a economia da região cresceu em média 7.6% ao ano. incentivando. até mais que no Brasil. no Nordeste. pode-se afirmar que sua presença foi fator fundamental para explicar a intensidade e os rumos do crescimento econômico ocorrido nas últimas décadas. produção de energia elétrica e abastecimento de água. algumas das quais aparecerão com destaque em outros tópicos deste trabalho. o Estado se fazia presente com grande intensidade na promoção do crescimento da economia nordestina. no entanto. houve excepcional crescimento no Nordeste nas décadas recentes. o investimento público foi fundamental. maior peso na formação bruta de capital fixo total do que na média nacional. a atividade de intermediação financeira crescia. serviços comunitários sociais e pessoais. o estado da Bahia merece referência especial não só por ter acompanhado o padrão nacional. produzindo. Segundo dados da Sudene (1992). para US$ 3 bilhões. historicamente. na maioria delas. foi o setor público quem puxou o crescimento das atividades econômicas que mais se expandiram na região nos anos 70 e 80. bens imóveis e serviços às empresas. as atividades econômicas do Nordeste tendem.1 bilhões. em virtude de variados processos de ocupação humana e econômica : 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). em 1990. que passou de US$ 1. certas especificidades importantes. sua economia gerava um terço das exportações nordestinas. em 1975. as atividades financeiras. a tendência à perda de importância dos produtos básicos e ao maior crescimento dos bens manufaturados no valor exportado também se verificou nesse período. destacaram-se como atividades muito dinâmicas e.5 bilhão.5 bilhão). mas por aumentar sua já predominante importância no total vendido pela região no mercado internacional: em 1975. Direta ou indiretamente.6 bilhões de vendas anuais para US$ 31. A heterogeneidade econômica intraintra-regional Deve-se ressaltar que nunca houve um Nordeste economicamente homogêneo e que.

o cacau e as zonas de combinações agrícolas sertanejas eram predominantes. até décadas recentes.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG • o Nordeste que se estendia do Rio Grande do Norte até Alagoas. caracterizado pela Fundação IBGE durante certo tempo como integrante da região Leste. 1978) e até o final dos anos 50 visto como área aberta à expansão da fronteira agrícola regional (GTDN. • o Nordeste de Sergipe e Bahia.. No campo.. ora como pólos dinâmicos. o complexo minerometalúrgico de Carajás. 1967). ora como manchas ou focos de dinamismo e até como enclaves. era chamado por alguns estudiosos de meioNorte (Melo. onde desde cedo se desenvolveu uma burguesia banqueira. • dele já se distinguia o Ceará. cidade portuária e mercantil. cabe destaque para o complexo petroquímico de Camaçari. mas não apreendem os fatos novos dos anos mais recentes. Nas últimas décadas mudanças importantes remodelaram a realidade econômica nordestina. focos de dinamismo em grande parte responsáveis pelo desempenho relativamente positivo apresentado pelas atividades econômicas na região. no que se refere a atividades industriais. a percepção da realidade econômica nordestina exige análise mais detalhada. Tendências da acumulação privada reforçadas pela ação estatal. • o Nordeste do Piauí e Maranhão. 04 a 10 de novembro de 2007. Nordeste da seca e da miséria. além do pólo agroindustrial de Petrolina-Juazeiro (com base na agricultura irrigada do submédio São 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). verdadeiro poço sem fundo em que as tradicionais políticas compensatórias de caráter assistencialista só contribuem para consolidar velhas estruturas sócio-econômicas e políticas perpetuadoras da miséria. Áreas dinâmicas de modernização intensa Como vem se tentando demonstrar ao longo deste texto. o pólo têxtil e de confecções de Fortaleza. quando não comandadas pelo Estado brasileiro. Tais estruturas são tratadas na literatura especializada ora como frentes de expansão. Nesse sentido. Nordeste região problema. a crescente heterogeneidade de suas estruturas econômicas. Embora traços gerais possam ser identificados. a cana. Dentre eles. questionando inclusive visões tradicionalmente consagradas sobre a região. . onde o complexo gado-algodão-agricultura de alimentos conformava uma oligarquia sertaneja que se expandia na acumulação comercial e não existia o complexo canavieiro. O oeste baiano era um vazio econômico. mais conhecido como espaço de transição entre o Nordeste seco e a região amazônica. que convivem atualmente com as tradicionais áreas agrícolas ou agropastoris da região. fizeram surgir e se desenvolver no Nordeste diversos subespaços dotados de estruturas econômicas modernas e ativas. Não refletem a atual e crescente complexidade da realidade econômica regional e não permitem desvendar uma das mais marcantes características do Nordeste atual: a grande diversidade.13 - . é mister ressaltar os novos focos de dinamismo da economia regional. importantes movimentos da economia brasileira tiveram fortes repercussões na região Nordeste nos anos recentes. e mesmo demográfico. onde a economia açucareira e a pecuária gestavam poderosas oligarquias e incipiente burguesia industrial. Revelam parte da verdade sobre a realidade econômica e social nordestina. É o que se tentará fazer no próximo tópico do trabalho. era comandado por Salvador. Uma análise que perceba as diferentes trajetórias econômicas dos diversos subespaços nordestinos. Nordeste sempre ávido por verbas públicas. como já o fizemos. Essas são apenas visões parciais sobre a região nos dias presentes.

para quase 30% do PIB estadual em 1990). por sua vez.8% o seu peso na receita do ICMS gerado pela indústria de transformação. o pólo cearense reunia cerca de três mil empresas. 1993). Implementado ao longo dos anos 70. importou em investimento total de cerca de US$ 4. O parque têxtil e de confecções de Fortaleza é competitivo nacionalmente e.6% da receita tributária do estado da Bahia. Entre 1970 e 1985 o número de estabelecimentos têxteis do Ceará cresceu de 155 para 358. Quanto aos seus impactos. o que já vem sendo estimulado por empresários ligados ao setor. tanto em âmbito regional como nacional. nos efeitos para a frente conta-se com a perspectiva da instalação de pequenas e médias malharias que se beneficiariam das fiações já existentes.5 bilhões e. bem como para o crescimento de unidades fornecedoras de aviamentos e linhas (cerca de 80% destes são comprados fora) (Lima & Katz. segundo o Sindicato da Indústria de Confecções do Ceará. o pólo de Camaçari representa hoje uma possível base para a esperada verticalização da matriz industrial da petroquímica regional. vale registrar que em 1990 o pólo petroquímico de Camaçari contribuiu com 13. Embora as repercussões esperadas fossem maiores. 04 a 10 de novembro de 2007. 1993). desponta como um dos importantes centros do setor. O pólo têxtil e de confecções de Fortaleza. e dos diversos pólos turísticos implantados nas principais cidades litorâneas do Nordeste. . Menos por seu dinamismo e mais pelo fato de desenvolverem modernas atividades de base tecnológica. em 1960. gerava 60 mil empregos diretos e era responsável por 12% do ICMS do Ceará (Lima & Katz. no caso da fiação. Além disso. em virtude de sua atualização tecnológica.14 - . merecem referência ainda os tecnopólos de Campina Grande (PB) e do Recife (PE). Contudo. O pólo petroquímico de Camaçari. A abertura comercial pode ter implicações negativas sobre a tecelagem e as confecções. do moderno pólo de fruticultura do Rio Grande do Norte (com base na agricultura irrigada do Vale do Açu). constitui um dos principais pilares da crescente importância da produção de bens intermediários no Nordeste. mais recentemente. O encadeamento do pólo cearense com a base agrícola da região é reduzido. No que se refere ao segmento das confecções. dado que nesses segmentos existe uma defasagem tecnológica a ser superada. há espaços para um reforço do setor de tecelagem (60% dos tecidos são adquiridos fora do estado). sendo de 32. o sul dos estados do Maranhão e do Piauí). caracterizando-as e analisando seus novos impactos e suas perspectivas de expansão (Lima & Katz. da UFPE. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). tentou melhor identificar essas áreas. internacionalmente. Pesquisa recente realizada pelos professores Policarpo Lima e Frederico Katz. das áreas de moderna agricultura de grãos (que se estendem dos cerrados baianos atingindo. com o programa de ampliação previsto. contando com fontes de financiamento diversas. Em 1991. devido à drástica diminuição na produção de algodão no Nordeste. Esse complexo industrial foi viabilizado com a participação de capitais privados nacionais e multinacionais e com o suporte estatal (Petrobrás). concorreu para alterar estruturalmente a economia baiana (aumentando o peso do setor secundário de 12%. 1993).Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Francisco). contribuindo também para a elevação das exportações do estado. chegará a US$ 6 bilhões. como descrevem Lima e Katz (1993). enquanto os ligados à confecção passavam de 152 para 850.

equipamentos para irrigação. tendo o produto da indústria ampliado sua participação no total estadual de 14. O projeto Celmar. além de cerca de 3. destina-se a produzir celulose. onde a produção de soja se expande. bens de capital. pelo menos para os padrões locais. O complexo agroindustrial de Petrolina-Juazeiro surgiu nos anos 70. uma vez que montou a maior parte da infra-estrutura de captação e distribuição de água. De forma semelhante ao caso da CVRD. com investimentos de US$ 1. 1993). que tem a CVRD como sócio.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG O complexo minero-metalúrgico do Maranhão está associado aos desdobramentos do Programa Grande Carajás (PGC) e ao interesse do capital multinacional em diversificar suas fontes de abastecimento de matérias-primas. além dos serviços de manutenção refletidos nos empregos indiretos. Constatou-se o cultivo cada vez maior de produtos de elevado valor comercial. Tiveram importante papel 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE).15 - .8%. A expansão da economia do oeste da Bahia está associada à introdução e à rápida expansão da soja. Nessa época. internacionais. As áreas de moderna agricultura de grãos se estendem dos cerrados do oeste baiano ao sul do Maranhão e do Piauí. a Companhia Vale do Rio Doce (CVRD) desempenhou um dos papéis principais. externo inclusive. implantando a infra-estrutura para exploração-exportação de minério de ferro. 04 a 10 de novembro de 2007. a presença do Estado foi fundamental. materiais de construção. Além disso. estimando-se em 1.100 empregos diretos. com base na implantação de grandes projetos de irrigação. Trata-se de uma associação de várias empresas. fertilizantes e rações (Lima & Katz.200 empregos indiretos (Lima & Katz. Também neste caso. tendo ainda articulações a montante via absorção de bauxita do rio Trombetas. Para a montagem desse pólo. Em função desses investimentos. da energia elétrica de Tucuruí. de cal do Ceará. 1990). que resultou em projeto de investimento da ordem de US$ 2 bilhões para a produção de três milhões de toneladas/ano de alumina e 500 mil de alumínio. na economia de São Luiz. Enquanto eram incorporados à agricultura cerca de 56 mil hectares. O projeto criou 4. e mais três mil no reflorestamento. destinados tanto à venda in natura para o mercados de maior poder aquisitivo. instalaram-se na área diversas plantas industriais de ramos variados: processamento de alimentos. quanto ao processamento local em plantas industriais. Cortando regiões anteriormente isoladas. O projeto da Alumar também tem grande peso atualmente na indústria maranhense. já que são exportados 95% do produto (Lima & Katz. Ao mesmo tempo deu-se a implantação de grandes projetos de médias empresas nacionais e. . após avanços tecnológicos que viabilizaram o cultivo do produto nos cerrados. o setor industrial gerava cerca de 24 mil empregos (Galvão.3% para 21. em Imperatriz.2 bilhão. produção estimada em 420 mil toneladas/ano. implantada na área por agricultores do Sul do país.220 os indiretos. gerando na fase atual um milhão de toneladas de alumina e 350 mil de alumínio. a Alumar é responsável por significativo fluxo mensal de rendimentos. mesmo. 1993). embalagens. gerando diretamente 800 empregos. impactos importantes já se notavam nos anos 80: o PIB total do estado aumentou de US$ 2 bilhões em 1980 para US$ 3 bilhões em 1987. 1993). de soda cáustica de Alagoas. a Estrada de Ferro Carajás (EFC) integrou-as ao circuito da produção mercantil e contribuiu para dinamizar o pólo agrícola do sul do Maranhão. As articulações pelo uso do alumínio são reduzidas. a Estrada de Ferro Carajás ajudou a dinamizar a instalação de usinas de ferrogusa e de ferroliga ao longo de sua extensão.

Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG os subsídios governamentais (Galvão. no padrão tecnológico e empresarial da indústria têxtil modernizada na região e. em outras áreas a resistência à mudança permanece sendo a marca principal do ambiente socio-econômico: as zonas cacaueiras. milho. suinocultura. O pólo de fruticultura do Vale Açu (RN) cresceu comandado por grandes empresas (com destaque para a Maísa). . implanta-se na região todo um conjunto de atividades e práticas ligadas à agricultura moderna. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Nelas despontam atividades como avicultura. 04 a 10 de novembro de 2007. Quando ocorre. Com a soja. constituem um Nordeste que não existia há poucas décadas. uma vez que a pecuária sempre foi atividade privativa dos grandes proprietários locais. As zonas canavieiras expandiram-se muito nos anos 70. Pelo exposto. Nos anos mais recentes a produção de grãos vem crescendo bastante (em 1992. Nos anos 90. arroz e feijão. mais do que na elevação dos padrões de produtividade. esses pequenos produtores são obrigados a levar ao mercado o reduzido excedente da agricultura alimentar tradicional de sequeiro (milho. Uma nova vaga de centralização de capitais promete deixar vivas apenas as menos resistentes à mudança. A produção também se estende para o sul do Maranhão.16 - . Áreas tradicionais Ao mesmo tempo em que diversos subespaços do Nordeste desenvolvem atividades modernas. No caso do semi-árido. produziu-se no Piauí e em Tocantins cerca de um milhão de toneladas). seletiva. Começam a se desenvolver também atividades de produção de insumos (fertilizantes. a modernização é restrita. Mas o crescimento se fez com base na incorporação de terras (a área cultivada rapidamente duplica). as políticas associadas ao Plano Real) contribuiu para tornar ainda mais difícil e frágil a sobrevivência do imenso contingente populacional que habita os espaços dominados pelo complexo pecuária-agricultura de sequeiro. impulsionadas pelo Proálcool. especialmente soja (460 mil toneladas). com a crise financeira do Estado (velho protetor da ineficiência) e a intensificação da concorrência. a área plantada com soja expandiu-se 143 vezes e a produção em 848 vezes. As potencialidades agrícolas e minerais reveladas na região com grande evidência. frigorificação de carnes. o que ajuda a manter um padrão dominantemente tradicional. a crise do algodão (com a presença do bicudo e as alterações na demanda. canavieiras e o sertão semi-árido são as principais e históricas áreas com tal característica. Essas áreas não conhecem crise ou recessão. feijão e mandioca). No arranjo organizacional local. diversas usinas são paralisadas. pode-se inferir que as mencionadas áreas são pontos de intenso dinamismo econômico implantados no território nordestino. foram instaladas no município de Barreiras duas plantas industriais. o algodão era a principal (embora reduzida) fonte de renda dos pequenos produtores e trabalhadores rurais desses espaços nordestinos. No início da atual década (safra de 1991/92) foram produzidas 800 mil toneladas de grãos no oeste da Bahia. mais recentemente. enquanto crescia também a produção de arroz. Na ausência do produto. que se especializam na exportação. 1990) e os investimentos públicos em infraestrutura. Para o processamento da significativa produção de soja. calcário) e de equipamentos próprios para a agricultura. Entre 1980/81 e 1985/86.

o processo de concentração fundiária tem aumentado nos anos recentes. são incapazes de dispor de reservas para enfrentar um ano seco. Hoje. mas não conseguem acumular: descapitalizados ao final de cada ciclo produtivo. apesar da miséria alarmante que domina nas áreas rurais do 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). A questão fundiária é mais dramática e vem se agravando.1 milhões de pessoas em 1993). proprietárias das áreas de antiga ocupação e sempre bem situadas nas estruturas de poder. em áreas da antiga fronteira agrícola da região. cita-se a extensão da ação previdenciária. como a redução da produção de alimentos e a intensificação da emigração rural. após tantos anos de dinamismo econômico. Na lúcida afirmação do geógrafo Mário Lacerda de Melo (1980). . os velhos sustentam os jovens nessa parte do Nordeste. os pequenos produtores. como bem explica Andrade (1988). Em algumas sub-regiões (como no sertão pernambucano) a maconha tem avançado bastante. além de provocar outros consideráveis efeitos. Nos anos 60 e seguintes a proposta da reforma agrária foi abandonada na prática pelos sucessivos governos militares e civis. a resistência à mudança convive na fase mais recente com importante queda nos preços internacionais do cacau. com freqüência. portanto. 04 a 10 de novembro de 2007. cobrindo parte da população idosa e assegurando renda (mínima. 1989). a questão fundiária permanece praticamente intocada. que sempre foi a principal da unidade produtiva típica do sertão e do agreste nordestino. no Nordeste também se assistiu a um grande dinamismo agropecuário e agroindustrial no oeste baiano e no sul do Maranhão e do Piauí. como o desaparecimento da cultura do algodão. e o monopólio da cana sobre as áreas cultiváveis se amplia. continuavam a beneficiar-se dessa opção conservadora. Na região cacaueira. nas quais as velhas estruturas foram criando sucessivos mecanismos de preservação. não houve mudanças significativas. A hegemonia crescente da pecuária nos moldes em que foi realizada agravou a questão fundiária do Nordeste. os incentivos à pecuária fortaleceram e modernizaram tal atividade. a questão fundiária agravou-se (Graziano da Silva. e as que aconteceram. cabe destacar que são áreas de ocupação antiga. Primeiro. Mesmo onde a irrigação introduziu uma agricultura moderna no semi-árido. inclusive da estrutura fundiária. E. "o capim expulsa a policultura alimentar e o gado tange o homem". portanto. No semi-árido. Crise ainda sem solução nos anos 90. das secas. nos anos de chuva regular. Nesse quadro. gerando renda ilegal mas capaz de compensar o desaparecimento da renda do algodão. por exemplo. tiveram impactos negativos. As oligarquias nordestinas. a modernização foi conservadora. em geral. há importantes traços comuns.17 - . rendeiros e parceiros produzem. aprofundando a crise na subregião. mas permanente) a muitas famílias sertanejas. as tradicionais frentes de emergência (como são chamados os programas assistenciais do governo) alistam enorme número de agricultores (2.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Não é sem razão que nos momentos de irregularidade de chuvas ocorridos nos anos recentes. também verifica-se o agravamento da já elevada concentração das terras em mãos de pouquíssimos produtores: "na seca. Simultaneamente. Como a estratégia brasileira das últimas décadas foi concentrar a expansão da agropecuária em áreas novas (especialmente no Centro-Oeste). De positivo. Nessas áreas. A base técnica modernizou-se. apresentada ao país como desnecessária em muitos fóruns (inclusive nos acadêmicos) com base no sucesso da ocupação de novas terras. pequenos proprietários inviabilizados vendem suas terras a baixos preços e os latifúndios crescem". Na Zona da Mata. Nas áreas em que predominam a rigidez das velhas estruturas econômico-sociais e o domínio político das oligarquias tradicionais da região.

Do ponto de vista da origem dos insumos que transforma no processo produtivo e dos serviços que utiliza. Ligações econômicas do novo parque industrial O novo parque industrial. onde se reproduz a estrutura desigual do resto do Nordeste. . tanto no Nordeste como no Brasil. 40% vêm do Sudeste (90% desses de São Paulo). Nesse período. 1989). Estudo da Universidade Estadual de Campinas – Unicamp destaca. um caso ilustrativo é o de grandes fazendas que reúnem áreas de posse e áreas de diferentes escrituras. A recente especialização nos bens intermediários reforça essa ligação. em 1985. Segundo o Mapa da Fome feito recentemente pelo IPEA. sendo a diferença relativa maior no Nordeste. em 1985) é superior ao tamanho médio desses no resto do Nordeste (1. Ao mesmo tempo. Dos serviços que usa. as velhas estruturas sócioeconômicas e políticas têm na base fundiária e no controle do acesso à água seus principais pilares de sustentação e de dominação (política e econômica). 17% são produzidas no Sudeste (dois terços em São 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Mas o novo parque industrial desenvolveu também importante fluxo de aquisição de serviços e insumos com o Sudeste (em especial com São Paulo). Nesse contexto. No semi-árido o acesso à terra é feito por formas precárias (parceria. passando de 27% em 1970 para 32% em 1985. mais particularmente com o Sudeste. instalado a partir dos anos 60 com o apoio dos incentivos federais.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Nordeste. aqueles com mais de mil hectares (0. de acordo com os censos agropecuários realizados pela Fundação IBGE. caracterizando maior instabilidade e registrandose maior presença de posseiros em comparação com as demais regiões nordestinas (Graziano da Silva. das matérias-primas que processa. 04 a 10 de novembro de 2007. dois terços dos indigentes rurais do país estão no Nordeste.4% do total) aumentaram sua participação na área total. Os dados confirmam que a concentração fundiária aumentou no Nordeste nas últimas décadas. muitas vezes registradas como imóveis distintos para evitar seu enquadramento como latifúndio por dimensão" (Graziano da Silva. mantém estreitas articulações econômicas com outras regiões brasileiras. Nesses espaços resistentes a mudanças. 1989). a situação é agravada pela presença de latifúndios maiores: lá a área média de 1% dos maiores estabelecimentos (1. que "a desigualdade da posse da terra é maior que a da propriedade.914 hectares. Em 1970 os estabelecimentos com menos de 100 hectares (94% do total) ocupavam quase 30% da área. suas sub-regiões (prioritariamente as que experimentaram maior dinamismo nas últimas décadas). essa participação caiu para 28%. para o mesmo período.18 - . Na zona semi-árida. a área total ampliou-se de 74 milhões de hectares para 92 milhões de hectares. por exemplo). Novas articulações econômicas do Nordeste Busca-se examinar neste tópico as articulações econômicas estabelecidas entre Nordeste. como já mencionado. outras macrorregiões brasileiras e o resto do mundo. no sentido de elevar a desigualdade da distribuição.002 hectares). há forte relação com a base econômica nordestina. da qual adquire 66% das matérias-primas e 58% dos serviços que consome. Esse fato reforça a hipótese de que as formas peculiares de exploração da terra no Nordeste lhe conferem uma estrutura de posse da terra diferenciada da existente na média do Brasil.

1992). 1992). No que se refere ao mercado de produtos. por exemplo. e agora do sul do Maranhão e do Piauí.19 - . 1992). Do exterior vêm apenas 10% dos insumos que aqui são transformados pela indústria (Sudene-BNB. segundo pesquisa da Sudene-BNB. 04 a 10 de novembro de 2007. 1992. mais uma vez exportando o excedente predominantemente para a região Sudeste do Brasil. caso de fumo (99%). de cuja produção atual exporta cerca de 95% (Lima & Katz. material elétrico-eletrônico e de comunicações (79%) e química (61%). os equipamentos utilizados na montagem desse novo parque industrial foram importados do Sudeste (49%). O mercado internacional participa com apenas 10% das vendas totais desse segmento da economia nordestina. além da implantação da estratégica ferrovia de quase 900 km de extensão. até 1995. O destino principal é o Sudeste. O mercado extra-regional também tendeu a ser o destino da produção de alguns segmentos da indústria de transformação. A sub-região nordestina que vai do oeste baiano ao sul do Piauí e Maranhão tem experimentado um processo de ocupação comandado por agentes econômicos extra- 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). e do exterior (33%). que destina ao mercado nordestino apenas 20% de sua produção. pouco mais de um terço se destina à própria região Nordeste (36%). destina-se em grande parte a atender à demanda externa. Por outro lado. Não é por acaso que o Projeto Grande Carajás incluiu. que compra 44% da produção da indústria incentivada (71% dos quais adquiridos por São Paulo). São Paulo. no Maranhão. devendo destinar um milhão de toneladas de derivados ao mercado internacional (Queiroz. produzia 1. planejado para produzir anualmente 3 milhões de toneladas de alumina e 500 mil de alumínio. a relação é predominantemente extra-regional. Portanto. 1993). couros e peles (87%). a prioridade à exportação é marca dos empreendimentos localmente instalados. A soja do oeste baiano.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Paulo). Das vendas realizadas pela indústria incentivada. borracha (88%). onde se localiza a maior base industrial do país (o Sudeste).7 milhão de t / ano. . Tal característica é ainda mais forte no segmento extrativo mineral. na região de São Luís do Maranhão). A predominância da produção de bens intermediários está na base dessa vocação para fora da nova indústria: os insumos que produz são transformados. que comprou 53% da produção mineral da indústria instalada com os incentivos federais nas últimas décadas. especialmente de São Paulo (80%). há novos fluxos comerciais (de mercadorias e serviços) que se intensificaram nas últimas décadas e que articulam a indústria incentivada instalada no Nordeste com outros segmentos da economia brasileira e com o exterior. No complexo minero-metalúrgico do Maranhão. em grande parte. em particular com o mercado internacional. Apenas 10% dos equipamentos foram adquiridos das indústrias instaladas no próprio Nordeste (Sudene-BNB. a construção de um porto (Ponta da Madeira. As produções maranhense e piauiense orientam-se basicamente para o exterior. Articulações dos modernos pólos agroindustriais Os novos pólos agrícolas também têm estabelecido importantes relações econômicas extra-regionais. Outro exemplo dessa articulação especial com o exterior é o projeto da Alumar. com destaque para a região Sudeste e. Estima-se que apenas o oeste baiano. dentro dela.

um terço se destinou ao mercado internacional e dois terços a outras regiões brasileiras.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG regionais e recebido capitais e capitalistas predominantemente não-nordestinos. respectivamente). Suas ligações econômicas e semelhanças geo-socio-econômicas com asdemais sub-regiões do Nordeste são muito tênues. . por exemplo. sua vinculação futura com o Centro-Oeste poderá ser ampliada. as informações são insuficientes. o estado do Maranhão intensificou fortemente seus laços econômicos com o mercado externo. As exceções corresponderam aos estados de Alagoas e de Pernambuco.20 - .4%. e portanto visualizar melhor as tendências desse tipo de relação econômica entre o Nordeste e os demais espaços do país. a produção agroindustrial. maior peso relativo que o mesmo item na pauta brasileira (16. O Brasil mais que quadruplicou o valor anual de suas exportações.9% para 44. passando de US$ 7. particularmente as relações estabelecidas com o mercado internacional. as exportações de todas as regiões brasileiras tiveram crescimento significativo. e as pesquisas disponíveis não são atualizadas. em particular no que se refere ao destino de sua produção. Desse total. que das exportações totais do Nordeste. No mesmo período.7 milhões em 1975. 1996). Apenas o Sudeste e o Sul. Dentro da região. especialmente a associada à irrigação. as relações comerciais do Nordeste com o resto do mundo se dão cada vez menos pela venda dos chamados produtos básicos e mais por oferta de produtos semimanufaturados e manufaturados. Embora na pauta nordestina os produtos semimanufaturados (30.5%). Para avaliar os fluxos comerciais inter-regionais. os estados do Piauí e de Sergipe quintuplicaram suas vendas ao mercado internacional. 04 a 10 de novembro de 2007. 97% transportados por vias internas e apenas 3% por cabotagem. No caso do Nordeste a Sudene estimou. dentre as demais regiões.3% e 47.9%. Mudanças nas articulações comerciais O exame da dinâmica comercial da região. mostra que o Nordeste tentou acompanhar a tendência mais geral da economia brasileira nos recentes anos de crise. para 1980. que exportaram em 1990 valor menor do que o de 1975 (Sudene.6 bilhões para US$ 31. na pauta do Nordeste o peso relativo desses itens cresceu de 12.1 bilhões entre 1975 e 1990. e os da Bahia e do Ceará triplicaram-nas. o crescimento das relações com o exterior via venda de manufaturados no caso do Nordeste é notável: enquanto no total das exportações do Brasil os manufaturados passavam de um terço para pouco mais da metade (54. instabilidade e retração da demanda interna: ampliar suas articulações com o exterior. o Nordeste duplicou seu valor exportado. Aliás. apresentaram maior volume na venda de manufaturados (64. em 1990. para US$ 443 milhões em 1990.1%) tenham tido. O comércio por vias internas (especialmente rodovias) é predominante no Brasil.7%) da participação nas vendas externas entre 1975 e 1990. Mais uma vez seguindo a tendência geral da economia brasileira. Das 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). passando de um modesto valor exportado de US$ 5. Até os estrangulamentos à continuidade de seu desenvolvimento são mais parecidos com os de Tocantins ou Mato Grosso do que com os do lado oriental nordestino: infra-estrutura de transporte. desenvolve importantes articulações econômicas extra-regionais. implantando processos econômicos e construindo uma paisagem que se assemelha muito mais à macrorregião Centro-Oeste do Brasil. Da mesma forma. No mesmo período. dependendo da forma como consolidar-se-á a malha de transportes. segundo dados do BB/Cacex. instalada tanto no vale do São Francisco (BA e PE) quanto no vale do Açu (RN).

A partir dos anos 60. analisou corretamente que um dos problemas nordestinos. surgida como tendência na década anterior.4% no mesmo período (embora sua economia fosse 20% do total nordestino). Portanto.5 vezes (Sudene. No período 1975-1980 tal relação havia aumentado para 2. 1985). como vinha acontecendo nos anos 70. na época. Todavia. dos 82% originados em outras regiões do país.5% em 1975 para 9% em 1980. o Nordeste surge predominantemente como região-mercado (sobretudo para o Sudeste) quando visto no contexto nacional. Embora com percentuais bem mais modestos. 04 a 10 de novembro de 2007.21 - . Os saldos comerciais do Nordeste têm-se mostrado historicamente positivos nas relações com o exterior e altamente negativos nas trocas inter-regionais. Os dados da Sudene para 1980 já revelavam uma economia baiana fortemente orientada para o mercado nacional: quase 70% das vendas do Nordeste para outras regiões brasileiras tinham origem na Bahia. Como as áreas dinâmicas recentemente instaladas repercutiram com maior intensidade nos espaços maranhenses. 1967). E isso é tendência crescente. ano em que se classificou como o segundo exportador regional para o mercado nacional. Sua participação nas exportações interregionais caiu de 30. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Pernambuco e Alagoas.3% para 8. invertendo-o. O relatório que precedeu à criação da Sudene. nos anos 40 e 50. apenas 18% vieram do exterior e. era a forte emigração de capital produtivo em direção ao Centro-Sul.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG importações totais. pois sua participação nas vendas nordestinas para o resto do Brasil passava de 3.2 vezes as vendas do Nordeste para o resto do país. cuja economia representava. . essa forte tendência surgiu mais recentemente. baianos e sergipanos. o estado do Ceará demonstrava tendência semelhante. a rápida intensificação do movimento de oligopolização da economia brasileira e o papel de correia de repasse desempenhado pelos incentivos federais aplicados no Nordeste – como menciona Oliveira (1981) – atuaram no sentido de alterar a orientação desse fluxo econômico. não parece ter sido revertida nos anos 80 à luz dos dados disponíveis sobre a composição e dinamismo de suas atividades econômicas. Paraíba. o mais provável é que a articulação comercial dessa parte mais ocidental do Nordeste com o Centro-Oeste e com o Sudeste tenha se ampliado. à medida que o dinamismo industrial daquela região abria oportunidades para rentáveis investimentos (GTDN. pois nos anos 50 as compras efetuadas de outras regiões representavam 1. que perdera seu papel de intermediário atacadista. As importações de outras regiões (especialmente do Sudeste) eram quase cinco vezes maiores que o valor importado do exterior em 1980. No que se refere ao subespaço compreendido pelos estados do Rio Grande do Norte. posto que na década anterior o estado da Bahia representava apenas 25% nas exportações inter-regionais do país (Sudene. pouco menos de 40% do PIB regional. por sua vez. cearenses. também atingiu o Nordeste ao se intensificar no espaço do Brasil ao longo das últimas décadas. 1985). piauienses. Integração via movimento do capital produtivo O movimento do capital produtivo. 1985). a menor articulação comercial com o resto do país. O inverso acontecia com Pernambuco. enquanto as exportações para o resto do país não chegavam a representar duas vezes o valor das mercadorias mandadas para o mercado internacional. 85% chegavam por vias internas (Sudene.

Portanto. como também ocorre em outras regiões.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG A crescente presença de grandes grupos empresariais no Nordeste. também de forma intensa e rápida. tanto espacialmente quanto nas atividades econômicas para as quais se dirigira. reformas profundas na ação do Estado e implementação de um programa de estabilização que já dura três anos. 1993). Paralelamente. a indústria de transformação produtora de bens intermediários. a articulação inter-regional via fluxo de capital produtivo ampliou. 04 a 10 de novembro de 2007. que a presença do grande capital na região já era muito seletiva. as relações do Nordeste com outras regiões do país e com o exterior. cerca de 35 são empresas industriais produtoras de bens intermediários e dessas. Bahia (46%). em especial a indústria química. em 1990. Dentre as que atuam no sentido de induzir à desconcentração espacial destacam-se: a abertura 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Do ponto de vista setorial. Nesse contexto. frutas e pecuária) sua recente presença é marcante. a maioria das empresas incentivadas fazia parte de grandes grupos econômicos. nas últimas décadas. enquanto os empresários nordestinos concentram seu controle sobre empreendimentos de menor porte. Dados referentes às mil maiores empresas no país demonstram que. também na atividade comercial o capital tem se centralizado. umas concentradoras. tem destaque na atração de tal tipo de empresas: "das 105 grandes empresas sediadas na região. uma reestruturação produtiva. Pernambuco (18%) e Ceará (11%) concentravam a maior parte (75%) dessas empresas.22 - . o ambiente econômico brasileiro sofreu grandes mudanças nos anos 90. Aspecto relevante a ser destacado diz respeito ao controle do capital no moderno segmento industrial instalado no Nordeste com o apoio dos incentivos federais. priorização à integração competitiva. Tendências nacionais atuais e o Nordeste Como a economia do Nordeste havia aprofundado sua inserção no contexto nacional. em sua maioria extraregionais. outras não. como acontecera em diversas regiões do país. Paralelamente. Num contexto mundial marcado por importantes transformações. 1992) demonstram que a recente expansão industrial não é produto da ação de investidores locais. Ao contrário. o setor privado promove. Cabe destacar. É grande o controle do capital por grupos privados ou por sistemas de empresas estatais com sede no Sul e no Sudeste (Guimarães Neto & Galindo. . Dentre as principais destacam-se intensa e rápida política de abertura comercial. Outros segmentos que merecem referência são as indústrias de alimentos e as dedicadas à produção têxtil. a oligopolização se firmado e grandes cadeias de magazines e supermercados se fizeram presentes no Nordeste. Além disso. Dados disponíveis em pesquisa (Sudene-BNB. novas forças atuam. 1992). no entanto. 23 são indústrias químicas" (Guimarães Neto. o entendimento das suas atuais tendências remete necessariamente à compreensão do que se passa no país como um todo. não se restringe ao setor industrial. a pesquisa constatou que tais grupos dirigem e controlam os empreendimentos de maior porte da indústria incentivada. Na construção civil (impulsionada pelo Sistema Financeiro de Habitação – SFH e por programas de obras públicas importantes) e nos complexos agroindustriais (ligados especialmente à produção de grãos.

1996). Autores como Carlos Pacheco (1996) chamam a atenção também para os condicionantes da reestruturação produtiva. ao contrário do que se poderia esperar. os novos requisitos locacionais da acumulação flexível. se interrompeu a desconcentração e. um papel ativo no processo. no mínimo. Nos anos 90 tende-se a romper o padrão dominante no Brasil das últimas décadas. o que é confirmado por recentes estimativas da Sudene (1996). por outro. No presente. O Nordeste volta a perder posição (CNI. estudos e dados recentes permitem pressupor a tendência à concentração do dinamismo em determinados espaços do território brasileiro. em especial. há forças atuando no sentido da concentração de investimentos nas áreas mais dinâmicas e competitivas do país. o crescente papel da logística nas decisões de localização dos estabelecimentos. a ação ativa de governos locais oferecendo incentivos. como melhor oferta de recursos humanos qualificados. Embora as tendências ainda sejam recentes. como ocorreu no Nordeste. . tanto por suas políticas explicitamente regionais e de corte setorial/nacional (mas com impactos regionais diferenciados) quanto pela ação de suas estatais. entre outras. as duas maiores bases econômicas do país. o mesmo acontecendo com os estados de São Paulo e do Rio de Janeiro. entre 1990 e 1995. da resposta dos Estados nacionais para enfrentar os impactos regionais seletivos da globalização. as mudanças tecnológicas que reduzem custos de investimento. com base em dados da Fundação Getúlio Vargas. a região Sudeste não só deixa de perder posição relativa da produção nacional – trajetória que percorrera nas duas últimas décadas – como volta a ganhar importância na economia brasileira (passando de 60% a 63% seu peso no PIB do Brasil). 1994). "a globalização reforça as estratégias de especialização regional" (Oman. Atuam nesse sentido. 04 a 10 de novembro de 2007. as decisões dominantes tendem a ser as do mercado. em particular para a forma como vem se dando a inserção internacional do Brasil. maior e mais eficiente dotação de infra-estrutura econômica.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG comercial podendo favorecer focos exportadores. estudo recente da Confederação Nacional da Industria. quando a prioridade era dada à montagem de uma base econômica que operava essencialmente no espaço nacional – embora fortemente penetrada por agentes econômicos transnacionais – e lentamente desconcentrava atividades para espaços periféricos do país. No caso da indústria. Mesmo sem ir tão longe. Alguns estudiosos chegam a mencionar a reconcentração para o caso da atividade industrial (Campolina Diniz & Crocco. A nova organização dos espaços nacionais tende a resultar por um lado. maior proximidade com centros de produção de conhecimento e tecnologia. a importância da proximidade do cliente final para diversas atividades. para a interrupção do movimento de desconcentração do desenvolvimento na direção das regiões menos desenvolvidas. os estudos realizados têm convergido para sinalizar. da dinâmica da produção regionalizada das grandes empresas (atores globais) e. Tais autores constatam que.23 - . dadas a crise do Estado e as novas orientações governamentais e empresariais. especialmente no que diz respeito às estratégias das grandes empresas frente ao cenário da globalização da economia mundial. constatam que nos anos 90 as regiões Sudeste e Sul deixam de perder posição relativa na produção industrial nacional e 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). no mínimo. proximidade com os mercados consumidores de mais alta renda. elaboradas pelo IPEA. Estimativas do PIB industrial por macrorregião. O Estado nacional desempenhava. Enquanto isso. confirma a hipótese de que. 1996).

O Nordeste.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG voltam a ampliar sua presença em tal atividade no contexto do país. US$ 8. incremento de 50% apenas entre 1993 e 1995. para competir com concorrentes externos (principalmente com os países asiáticos). para 8% em 1994. Curitiba (PR).1% em 1995. vai a Uberlândia (MG). US$ 3. trabalho elaborado pelo economista Campolina Diniz (1994). dos quais 80% estão no Sudeste-Sul. Tendências e preferências que beneficiam as regiões mais ricas e industrializadas do país (Sudeste e Sul). O comércio brasileiro com os demais países do bloco aumentou intensamente nos últimos anos. atraídas pela superoferta de mão-de-obra e baixos salários. O Nordeste abriga cerca de 15% desses centros dinâmicos. 1994).24 - . alumínio (MA). onde historicamente se concentrara a indústria brasileira. localizou os atuais centros urbanos dinâmicos do país em termos de crescimento industrial. por exemplo). para 24. Também identificando forte tendência à concentração espacial do dinamismo industrial. Esse percentual era de 68% em 1975 e passara para 81.6% em 1990 e para 9. porém. de Campolina Diniz. mas em valores muito pequenos: US$ 420 milhões 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). química (NE-Oriental). É evidente também que algumas empresas de gêneros industriais mais mão-de-obra intensivos têm buscado se relocalizar no interior do Nordeste. No mesmo período. É certo que as conseqüências espaciais de políticas importantes como a de abertura comercial e a de integração competitiva comandada pelo mercado. desce na direção de Maringá (PR) até Porto Alegre (RS) e retorna a Belo Horizonte via Florianópolis (SC). cabe analisar as tendências das exportações brasileiras. como a indústria de papel e celulose (BA).5% em 1990 (Campolina Diniz. em particular). O valor das trocas do Brasil com o Mercosul cresceram de US$ 1. No momento em que a política governamental opta por promover rápida e intensa abertura comercial.5% em 1990. que respondia por 17% das exportações brasileiras em 1975. cai para 9. apesar do dinamismo de segmentos com tendências exportadoras. e São José dos Campos (SP). da perspectiva regional. aliadas a aspectos relevantes da política de estabilização (câmbio valorizado. Haddad (1996) tem chamado a atenção para o reforço dado pelo Mercosul a essa tendência de arrastar o crescimento industrial para o espaço que fica abaixo de Belo Horizonte. já mencionados.7 bilhões em 1985.5% em 1995. da ufmg. Uma reflexão particular merece o Mercosul. não alteram significativamente as tendências e as preferências locacionais identificadas pelos estudos.6 bilhões em 1990. Tais fatos. Dados disponíveis demonstram que 82% (em 1995) das exportações do Brasil se originam nas regiões Sul-Sudeste.1 bilhões em 1995. reduz seu peso na indústria nacional de 12% em 1990. O maior dinamismo no período pós-abertura acelerada verifica-se na base exportadora da região Sul. juros elevados e prazos curtos de financiamento) têm impactado negativamente vários segmentos da indústria instalada no Brasil e afetado especialmente o Sudeste (São Paulo. Tendência oposta é verificada no Nordeste. além da possibilidade de flexibilizar as relações de trabalho (adotando subcontratação. Piauí e Maranhão). 04 a 10 de novembro de 2007. que amplia sua presença no total vendido pelo país ao exterior de 21. as exportações nordestinas para o Mercosul cresceram 84% e as importações 64%. por sua vez. segundo a mesma fonte. fruticultura (vales do São Francisco e do Açu) e a soja (Bahia. Por sua vez. o mesmo acontecendo com o estado de São Paulo. Constatou que a grande maioria deles se encontra num polígono que começa em Belo Horizonte. .7 bilhões em 1993 para alcançar US$ 13.

04 a 10 de novembro de 2007. e setores têxtil. seguramente. por razões muito específicas (Zona Franca de Manaus). E isso sem mencionar a provável instalação de uma montadora de veículos naquele estado. a se concentrar nas regiões onde teve início e se consolidou a indústria moderna brasileira. Em termos macrorregionais. pois importante parcela dos segmentos produtivos que definem a dinâmica da economia nacional tende. conseguiram. simultaneamente. os segmentos mais leves da indústria. no futuro imediato. Comércio e Turismo sobre as intenções de investimentos industriais da iniciativa privada. no Sul.4%.4 bilhões dos investimentos – que podem ser regionalizados até o ano 2000 e cujos investidores potenciais podem ser identificados – cerca de 64. De outro lado. tornando-as extremamente heterogêneas na medida que não se difundem. uma vez que é razoável supor: • deve-se promover uma articulação comercial mais intensa dos outros países do Mercosul com o Sul-Sudeste brasileiro. deve-se favorecer investimentos cruzados e associações de empresas instaladas no Sudeste e no Sul com os demais países do bloco. Comércio e Turismo antes referidos revelam que dos US$ 73. produtos alimentares e bebidas. Vale lembrar que o PIB do Mercosul (sem o Chile e sem o Brasil) é mais que o dobro do PIB do Nordeste e do Norte brasileiros juntos. percebe-se o fortalecimento de especializações em outros estados que. 9. tende agora a se redirecionar para o Mercosul. Assim. calçados. . No caso nordestino. 17. possibilita à industria de minerais não-metálicos. os dados do Ministério da Indústria. automobilístico e químico – segmentos básicos da chamada indústria pesada – para o Sudeste e. de menor custo de mão-de-obra. as informações disponíveis não permitem mais que esboçar algumas possibilidades referentes à futura distribuição espacial da atividade econômica no contexto brasileiro. sem dúvida. uma divisão espacial de trabalho que induz os investimentos dos grupos metal-mecânico. Em relatório recentemente elaborado para o Ipea.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG de exportações e US$ 478 milhões de importações. procuram as regiões de menor nível de desenvolvimento e. Os dados mostram claramente uma divisão de trabalho entre as regiões brasileiras. com base nos dados do Ministério da Indústria. geralmente de padrão de localização mais desconcentrado. o movimento de integração produtiva que buscava o Nordeste e o Norte nas décadas anteriores. Comércio e Turismo.3% deverão se concentrar no Sudeste (sendo 28. Guimarães Neto (1996) examina algumas informações. Tal dinamismo geral está encobrindo diferenciações. Guimarães Neto destaca que há. através 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE).6%. No que se refere às tendências do investimento no país. mais uma vez. notadamente o levantamento do Ministério da Indústria. • em termos de investimentos. além de indicadores da ação de alguns bancos oficiais relativos ao financiamento dos investimentos. O exame de parte relevante dessas informações permite destacar o caráter espacialmente seletivo dos investimentos industriais que privilegiam alguns espaços específicos nas regiões.2% em São Paulo). mais de metade dos investimentos previstos destinam-se a um único estado: a Bahia. Enquanto isso. de menor densidade de capital. A tendência parece ser.25 - . o avanço. da consolidação dos segmentos básicos e estratégicos no Sudeste. para as demais regiões. Na análise da distribuição regional dos investimentos segundo os segmentos produtivos mais importantes. no Nordeste. papel e celulose. além da indústria eletro-eletrônica e material de comunicações. embora fora da região industrial tradicional.

o Nordeste perde posição relativa (caindo de 24% para 15% a sua participação entre 1991 e 1995). cada vez mais. crescimento gradativo dos valores investidos. fortes incentivos regionais.26 - . marcam presença em alguns estados específicos e em certos pontos de seus territórios (os focos de competitividade). embora registre menor percentual na participação dos recursos aprovados do que a sua participação na economia nacional. especialmente no que diz respeito às atividades industriais. Como bem destaca Haddad (1996). que se torna bem mais patente quando são considerados os valores absolutos dos recursos aprovados. portanto. similar ou um pouco maior que sua participação na geração do produto interno do país (BNDES. 1996). percentual bem maior do que a sua contribuição na geração do produto interno do país. de menor densidade de capital. as informações mais interessantes. Tornam-se particularmente atraentes nesse novo contexto cidades médias daquelas regiões. Outro ponto importante a se observar atualmente é a tendência de localização de investimentos em infra-estrutura econômica e nos desenvolvimentos científico e tecnológico. que indicam a distribuição regional dos recursos aprovados. não resta dúvida de que. .Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG de fatores os mais diversos (recursos naturais. o potencial locacional de áreas do Sul-Sudeste para atrair os novos investimentos é. condições de infra-estrutura) atrair segmentos específicos que definem subáreas dinâmicas e modernas. Tal tendência não parece estar sendo compensada pelo financiamento dos bancos oficiais. Nordeste e Centro-Oeste brasileiros. Em síntese. na maior parte dos anos. ainda. Os dados do seu último relatório. No que se refere ao grande investimento industrial. Ainda segundo Haddad. no conjunto do panorama nacional. referem-se aos aprovados pelo BNDES para investimentos nos próximos anos. com a particularidade de que a região registra. localizadas próximas a eixos de transportes e. os demais segmentos da indústria. essa escolha seletiva está tendendo a privilegiar o estado da Bahia. a partir de 1991. anunciados no período posterior ao Plano 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). a geografia industrial dos grandes projetos de investimentos privados. demonstram estar havendo. Isso porque. As atividades mais estratégicas – e que definem a dinâmica da economia nacional – estão se concentrando no Sudeste. as aprovações passam de US$ 3. dotadas de boas condições de acessibilidade (importante em tempos de abertura comercial e globalização intensas). em todo período. para US$ 9. No Nordeste. mostra uma tendência ascendente entre 1991 e 1995. vêm sendo freqüentemente apontadas a existência de mão-de-obra qualificada e a presença de competentes centros de ensino e pesquisa científica e tecnológica.7 bilhões em 1995. os indicadores sobre os investimentos privados em curso indicam grande seletividade na escolha dos espaços nos quais se darão os investimentos no país. Em meio a essa tendência ascendente do total das aprovações.8 bilhões em 1991. dentre os novos elementos portadores de capacidade de atração de atividades e investimentos. O mesmo ocorre no Sul. De fato. subáreas tradicionais e estagnadas. O Sudeste. pela importância relativa dos recursos envolvidos. esconde mais que revela a realidade do país. 04 a 10 de novembro de 2007. fica nítida uma grande seletividade espacial. Relativamente à atuação dos bancos oficiais. Deve-se ressaltar que a divisão do território brasileiro em macrorregiões. bem maior que o encontrado no Norte. muitas vezes em contextos nos quais prevalecem. notadamente quando é orientado para as demais regiões que não o Sudeste. em quantidade e qualidade. embora seu peso no total ainda continue.

justamente nas áreas dinâmicas apontadas por Campolina Diniz. agropecuários ou industriais). Essa orientação estratégica secundariza a integração interna. mas de impacto localizado. Se.7 bilhões. pelos quais o Estado patrocina infra-estruturas que potencializam dinamismo econômico futuro. com impacto no Nordeste). enquanto com os investimentos autônomos se antecipam a ele. o Estado segue o mercado. Os projetos prioritários de infra-estrutura econômica. ou seja. Por sua vez. apenas 3% do total.27 - . Os espaços mais dinâmicos atraem projetos federais de infra-estrutura (que ampliam sua acessibilidade) com investimentos da ordem de R$ 5. estratégicos para a futura organização territorial do Brasil. restritos a uma ou outra região do país (a exemplo da conclusão de Xingó. consistente com a opção brasileira de promover a integração competitiva. o governo busca ampliar a competitividade de espaços já competitivos. do ponto de vista das tendências de mercado. seguindo os espaços que vêm concentrando maior dinamismo nos anos recentes.4 bilhões. Para o que interessa nesse trabalho. Na opção do Brasil em Ação. revelam algumas características importantes : • Têm uma opção prioritária clara pela integração dos espaços dinâmicos do Brasil ao mercado externo. revelam evidências inequívocas de que tais projetos (especialmente os de montadoras de veículos) tendem a se concentrar no Sudeste-Sul (de Belo Horizonte para baixo). fica fora dessa análise o Programa de Desenvolvimento das Telecomunicações (Paste). com recursos que totalizam R$ 54. Outro investimento igualmente estratégico. capazes de influir na organização territorial do Brasil em tempos de globalização. do ponto de vista dos restritos investimentos patrocinados pelo governo federal era de se esperar ação efetiva no sentido de evitar a ampliação de disparidades já gritantes no Brasil e assegurar a compatibilidade entre inserção na globalização e integração dos diversos espaços do país. é o destinado a geração e difusão de conhecimentos científicos e tecnológicos e a formação 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). tomem-se os projetos de infra-estrutura que têm capacidade de definir articulações econômicas inter-regionais ou internacionais e. deixando em segundo plano as áreas menos dinâmicas. por não ter sido apresentado com o detalhe da localização regional de seus investimentos (orçados em R$ 16 bilhões para o biênio) e o Programa de Recuperação de Rodovias. de grande importância para a modelagem territorial do Brasil. em especial ao Mercosul e ao restante da América do Sul. • Priorizam dotar de acessibilidade os focos dinâmicos do Brasil (agrícolas. • Concentram os investimentos no Sul-Sudeste. agroindustriais. portanto. Na opção atual. enquanto os demais ficam com apenas R$ 195 milhões para o biênio 1997-98. no qual o governo federal define os 42 projetos prioritários de investimentos para o biênio 1997-98. na fronteira Noroeste. destacando-se obras prioritárias de infra-estrutura. . Os demais são projetos importantes.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Real. Mas os dados parecem sinalizar para tendência a fortalecer (ao invés de contrabalançar) a concentração de novas atividades e de novos investimentos em certos focos competitivos. os espaços mais atraentes tendem a estar situados em áreas concentradas no Sul-Sudeste. também sem localização definida no documento oficial. ou os tradicionais investimentos autônomos. face aos novos paradigmas tecnológico e produtivo e às novas condições de concorrência num mercado mundial em globalização. e em pontos dinâmicos do Nordeste e do Norte. 04 a 10 de novembro de 2007. Essa é uma das orientações centrais do Programa Brasil em Ação.

especialmente em São Paulo (40. à exceção de PE e DF. Nota Técnica. . mais uma vez. O papel esperado do Estado é o de contrabalançar. ou seja. Por sua vez. Nota Técnica. 04 a 10 de novembro de 2007. Cabe destacar que o dispêndio em C&T realizado no Brasil nos anos 90 continua muito baixo (0. metade delas localizadas em uma única região: o Sudeste. a relativa ausência de investimentos privados.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG de recursos humanos qualificados. e não se concentrar onde o ente privado já prefere se localizar. contra apenas 9% no Nordeste. das 158 instituições de pesquisa cadastradas pelo CNPq. A preocupação que deriva de tais fatores refere-se ao destino das chamadas áreas não-competitivas. fortemente concentrados no Sudeste (69%). Pernambuco e Paraíba) a participação no total dos Grupos de Pesquisa do país é maior que a participação desses estados no PIB do Brasil (IPEA/DPRU/CGPR. os mais fortes ao concentrar seus financiamentos nas bases científica e tecnológica instaladas no Sudeste brasileiro (62% do total. nenhuma outra unidade da Federação fora do Sudeste e Sul conseguiu tal intento. 1996). a distribuição das patentes outorgadas para produtos gerados por grupos de pesquisa no Brasil mostra que. A distribuição espacial dos produtos e processos tecnológicos desenvolvidos revela. 1996). Por sua vez.28 - . Por outro lado. Como se percebe. O Nordeste abriga 20% das instituições cadastradas (50% das quais em dois estados: Pernambuco e Bahia). O último levantamento efetuado pelo CNPq registrava sete mil grupos de pesquisa ativos no país no primeiro semestre de 1995. Rio Grande do Sul. dados fornecidos pelo CNPq para 1994 (último disponível) revelam que a alocação regional dos investimentos em C&T confirma a União tender a fortalecer. que despendem entre 2 e 3% de seus PIBs para promover os desenvolvimentos científico e tecnológico. 95% da área total dessa subregião nordestina). no Brasil dos anos recentes. constata-se uma distribuição espacial ainda mais concentrada no Sudeste considerando-se a distribuição dos grupos de pesquisa. 82% do gasto total em C&T ainda cabem ao setor público (sendo 57% de responsabilidade do governo federal.5% dos artigos publicados em periódicos nacionais e estrangeiros por pesquisadores do Brasil. forte concentração no Sudeste (com destaque para Rio de Janeiro e São Paulo). é histórica a concentração espacial dos centro produtores de conhecimento no país (IPEA/DPRU/CGPR. Como ficou evidenciado pelas análises até aqui procedidas. predomínio da integração competitiva e estabilização. No Nordeste. parece se confirmar a tendência a interromper a desconcentração espacial do 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Considerando a produção desses grupos no biênio 1993-94. com sua presença. já no novo contexto de abertura. A região responde por 85. 81% eram de natureza pública. onde o dinamismo conduzido pela lógica do mercado já é mais intenso.7% do total nacional). Finalmente.7% do PIB) quando comparado aos países do G7 e a alguns tigres. 17% dos governos estaduais e 8% das estatais). no Brasil. também nesse campo. Um interessante indicador de concentração é o que revela que em apenas cinco estados (São Paulo. muitas delas abrigam significativo contingente de pessoas (como o grande espaço semi-árido não passível de abrigar focos de agricultura irrigada. dados relativos a 1994 revelam que. onde os novos fatores de competitividade já são abundantes. Rio de Janeiro. dos quais 1/3 só em Pernambuco). Locais bem dotados desses atributos são apontados como atrativos para investimentos. em termos financeiros.

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crescimento que ocorria nos anos 70 e 80, quando a análise é feita em escala
macrorregional. Essa interrupção vem sendo comandada pelo mercado e referendada
pelas políticas públicas federais de corte nacional/setorial. Em termos regionais,
sobrevivem instrumentos e políticas herdados do passado, com reduzida capacidade de
impactar as realidades regionais e contrapor-se às novas forças que tendem a se
consolidar.
A ausência de explícitas políticas regionais por parte do governo federal abriu espaço à
deflagração de uma guerra fiscal entre estados e municípios, que buscam contribuir para
consolidar alguns focos de dinamismo em suas áreas de atuação. A combinação desses
dois fatos, vai deixando grandes áreas do país à margem: são os ditos espaços nãocompetitivos.
Por sua vez, as tendências prováveis dos investimentos sugerem que, após a fase de
modesta desconcentração, poderá ocorrer no futuro imediato um processo de
concentração espacial do dinamismo econômico em algumas sub-regiões (focos
dinâmicos) do país.
A conclusão preocupante que emerge das observações e análises aqui apresentadas é a
de que, muito provavelmente, a inserção do Brasil na economia mundial globalizada tende
a ser muito diferenciada, segundo os diversos subespaços econômicos desse amplo e
heterogêneo país. Tal diferenciação tende a alimentar a ampliação de históricas e
profundas desigualdades. Certamente não se repetirão as formas pelas quais se
materializaram essas desigualdades ao longo do século XX, mas provavelmente se
observará aumento da heterogeneidade no interior das macrorregiões. Essa é uma forte
tendência pois o próprio estilo de crescimento da economia mundial é profundamente
assimétrico, como supõe Pacheco (1996), e aos atores globais interessam apenas os
espaços competitivos do Brasil. Espaços identificados a partir de seus interesses privados
e não dos interesses do Brasil.

Rumo à fragmentação?
Face ao exposto, parece evidente que as tendências recentes atuam no sentido de
aprofundar as diferenciações regionais herdadas do passado e, destacando os focos de
competitividade e de dinamismo do resto do país, fragmentar o Brasil para articulá-los à
economia global. A aguda crise do Estado e o tratamento não-prioritário concedido ao
objetivo da integração nacional, nos tempos atuais, sinalizam nessa direção.
Pelo que já é possível apreender, Furtado (1992) chegou a mencionar a construção
interrompida da nação brasileira. A inserção seletiva promovida pelas novas tendências
terão como contra-face da mesma moeda, o abandono das áreas de exclusão (ditas nãocompetitivas). Poderia estar sendo traçado, assim, o roteiro da fragmentação brasileira. E
pelo que já se observa no Nordeste, a região acompanhará a tendência geral, num espaço
em que a herança de desigualdade é muito grave.
No Brasil, a emergência de focos de um novo tipo de regionalismo, intitulado
paroquialismo mundializado por Vainer (1995), sinaliza nessa direção. São locais de
grande dinamismo recente, dotados dos novos fatores de competitividade que montam
sua articulação para fora do país e tendem a romper laços de solidariedade com o resto,
passando a praticar políticas explícitas de segregação contra emigrantes (nordestinos, na

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maioria dos casos), vindos de áreas não-competitivas. Buscam, assim, evitar manchar a
ilha de Primeiro Mundo que julgam constituir (Vainer, 1995).
O futuro parece apontar, especialmente quanto ao Nordeste, para o aprofundamento da
heterogeneidade herdada do passado recente. E tenderão a se ampliar as diferenciações
dentro das macrorregiões, cada uma delas podendo conter distintos tipos de sub-regiões,
como: sub-regiões de áreas dinâmicas, sub-regiões em processo de reestruturação, subregiões estagnadas ou sub-regiões e áreas de potencial pouco utilizado.
É importante considerar que o desenvolvimento regional recente, sobretudo na fase de
desconcentração da segunda metade dos anos 70 até a primeira dos anos 80, reforçou a
heterogeneidade de cada macrorregião, tornando mais nítidas e mesmo maior as
diferenças entre as sub-regiões de cada grande região. Também neste aspecto, o
Nordeste acompanhou e continua a acompanhar o Brasil.
A heterogeneidade crescente vai consolidando dinâmicas particulares no interior dos
diversos estados do Nordeste. Em Pernambuco e no Rio Grande do Norte, por exemplo, o
dinamismo das áreas de fruticultura (de Petrolina ou do vale do Açu) contrasta com a
passividade com que se assiste à crise das áreas do antigo complexo gado-algodão
(embora geograficamente as duas estejam próximas, nos dois estados). O dinamismo do
oeste baiano contrasta com a lentidão com que se buscam alternativas ao cacau, na parte
oriental-sul do estado. Com a ferrovia Norte-Sul e a hidrovia do São Francisco, e sem a
ferrovia Transnordestina (tal como está previsto no Brasil em Ação), a porção ocidental
dinâmica do Nordeste amplia suas chances de interação privilegiada com o Centro-Oeste
e Sudeste. E isola-se, crescentemente, o Nordeste oriental.
Rumamos, agora, para aprofundar as diferenciações pré-existentes, cada um olhando
para si próprio, cada subespaço buscando suas próprias definições e montando suas
articulações. Os atores globais também farão suas escolhas. Rumamos à fragmentação?

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o coronel passou automaticamente a ser visto pelo povo comum como um homem poderoso de quem todos os demais eram dependentes. Sinônimo de Poder Poder O governo da Regência (1831-1842) colocou então os postos militares à venda.33 - . capitão. um dono de latifúndio. derrubadas pelos revolucionários. Não só os homens de letras procuraram reproduzir em seus livros o que era viver sob o domínio de um coronel. pois ser alguém de posses. Identificado com o Brasil do passado. ocorrida em abril daquele ano. agrário. . como os Barões do café. que tivesse recursos para assumir os custos com o uniforme e as armas necessárias (200 mil réis de renda anual nas cidades A Guarda Nacional. podendo então os proprietários e seus próximos adquirir os títulos de tenente. insiste em manter-se vivo e atuante. tenente-coronel e coronel da Guarda Nacional (não havia o posto de general. cultural. Inspirada na instituição francesa. responsável pelo Projeto Cultural do Curso Universitário.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Ascensão e Queda do Coronelismo Voltaire Schilling1 O coronelismo foi um sistema de poder político que vicejou na época da República Velha (1889-1930). 1Professor de História e Mestrando na UFRGS. uma espécie de velho barão feudal que. Escreveu 8 livros (*) e mais de 40 polígrafos. 04 a 10 de novembro de 2007. a "guarda burguesa" era uma milícia civil que representava o poder armado dos proprietários que passaram a patrulhar as ruas e estradas em substituição às forças tradicionais. pela história oral do avô para o seu coronéis neto. Assim é que com o tempo. prerrogativa exclusiva do Exército). ele ainda sobrevive em certas comarcas e em certos estados do Nordeste brasileiro como o poderoso "mandão local". um fazendeiro ou um senhor de engenho próspero. o cidadão em armas e 100 mil réis no campo). de antepassados dos lamparinas e de lâmpadas. caracterizado pelo enorme poder concentrado em mãos de um poderoso local. um grande proprietário. musical e literário que fez da sua figura um participante ativo do imaginário simbólico nacional. criada em 1831. rústico e arcaico. Coronel. a maioria sobre História e História das Idéias Políticas. geralmente. fazendo com que quase todo mundo soubesse de uma "história" ou "causo do coronel". forjada pelos acontecimentos de 1789. feitos e as façanhas deles foram transmitidos. As Origens Remotas do Coronelismo O coronelismo institucional surgiu com a formação da Guarda Nacional. Para ser integrante dela era preciso. a luz de velas. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Ele não só marcou a vida política e eleitoral do Brasil de então como fez por contribuir para a formação de um clima muito próprio. major. como resultado da deposição de dom Pedro I. desconsiderando as razões do tempo e da época.

puxando os arreios da mula ou do jerico. A Geografia do Mandonismo Local O caciquismo é historicamente bem mais recente. por uma razão qualquer. que lutou e integrou Valencia ao reino da Espanha no século XI. contra a posição centralista dos conservadores. quando um rei dava a um chefe militar ou um aventureiro qualquer que o solicitava uma "carta de partida".34 - . a não ser que por perto outro coronel o desafiasse. deu-se a ascensão do chefe provincial ou local que adquiria expressão militar e jurídica própria. O caudilhismo nasceu na Espanha medieval em luta contra os mouros. Poucos ousando raridade desafiar-lhe a autoridade ou disputar-lhe o mando. Coronelismo. pode-se dizer que enquanto os coronéis imperavam pelo Brasil afora.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Configurou-se no Brasil daqueles tempos uma clara distinção social onde os representantes dos dominantes eram identificados pelo ranço militar (coronel. sendo desde então considerado como o patriarca de todos os caudilhos que se seguiram. o poder político central ficou abalado. ficando o México como o principal centro do poder dos caciques. As comunicações eram raras e difíceis. ou na sela do cavalo. feitas por canoa. promoveu a emergência do cacique. etc. Esta expressão de clara influência vinda da América serviu para definir a situação que um chefete municipal passou a usufruir dentro do sistema político da monarquia espanhola desde então (desaparecido com a implantação da Ditadura Franquista. que ao outorgar uma significativa parcela de poder aos municípios. O Cenário do Coronelismo O cenário que envolvia e promovia o coronelismo era o do mundo rural brasileiro. uma Os moradores eram-lhe inteiramente obedientes. a fazenda e a estância. Foram célebres as façanhas de Cid. ou a zoológica "cria" (sou "cria" do coronel fulano). barco. dominado pelo latifúndio. Coronelismo. major. bem afastado das grandes cidades. que o autorizava a recrutar homens e a arrecadar recursos para lutar na cruzada contra os homens do califa muçulmano. Nasceu da Constituição liberal adotada na Espanha de 1837. . Delmiro Gouvea. Quanto à geografia desse fenômeno político.. os caudilhos eram comuns na América hispânica.) enquanto que os dominados pelo coronel o eram pela visível identificação genérica de "gente". entre 1936-1975). Toda a vez que na Península Ibérica. Um universo próprio. enfraquecido. balsa. o coronel. sendo comum entre os considerados alfabetizados apenas 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Praticamente ninguém ao redor dele era instruído. Na verdade. interiorano. personificação mais acabada do poder privado no Brasil. especialmente na região do Rio da Prata. mandava num pequeno país do qual ele era um imperador com poder de vida e morte sobre os seus (ainda que não reconhecido juridicamente). o do caudilhismo ou do caciquismo. charrete. carro de boi. o campeador. Caudilhismo e Caciquismo O coronelismo na história política nacional nada mais foi do que a expressão brasileira de um fenômeno tipicamente ibérico. 04 a 10 de novembro de 2007. o engenho. isolado do mundo.

As bases do seu poder são: a) A terra. a riqueza dos indivíduos era medida pela extensão da propriedade. a quem era preciso recorrer nas mais diversas situações. Estudos posteriores sobre o coronelismo mostraram. havendo igualmente coronéis com outra posição social. Apesar de ampliarem os direitos de voto. O tribal parece um patriarca de um clã. permitindo que sua autoridade se espalhasse para regiões bem mais distantes do que a do seu feudo.35 - . era o coronel quem exercia as mais variadas funções. Logo era fundamental para a afirmação e continuidade do poder do coronel ele possuir significativas extensões de terra. O personalista deve tudo ao seu carisma pessoal. rapidamente verificaram que a universalização do sufrágio não redundou no enfraquecimento dos coronéis. Num país de dimensões agrárias tão vastas. portanto compreensível que o coronel exigisse daqueles que se qualificavam como votantes. o tribal. permitia ao coronel por meio de casamentos arranjados ampliarem seu domínio. ou a parentela. tais como o coronel-comerciante. o suficiente para que se tornassem eleitores fiéis dos candidatos propostos pelo coronel. que ajudavam a estender o poder dele para fora da família núcleo (a gente do seu próprio sangue). b) A família. a ter certos atributos que são só dele e são impossíveis de transmitir por herança. cujo poder se espalha por vários municípios e deriva dele pertencer a uma família tradicionalmente poderosa. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). jurídico e legislativo do município que lhe cabia. quando não miséria dos moradores. colocando gente do seu sangue e da sua confiança em todos os escalões do poder municipal e estadual. fazendo com que sua autoridade cobrisse todos os espaços daquela geografia da solidão que era o seu feudo. afilhados e demais protegidos do coronel. o compromisso da fidelidade. o coronel-padre (como o padre Cícero no Ceará. entretanto. geralmente desaparecendo com sua morte. como prefere Maria Isaura Pereira de Queiroz. compadres. Ele era um pode – tudo. aqueles que são mais estáveis. e que dirigem os negócios políticos em comum acordo com outros coronéis sem que haja grandes desavenças entre eles. de Alagoas). sendo simultaneamente o detentor do poder político. o mais famoso líder do catolicismo popular e ídolo dos sertanejos). A Política do Coronelismo Os republicanos de 1889 ficaram surpreendidos pelo vigor do sistema coronelístico. A Estrutura do Coronelismo Os estudiosos dividiram o coronelismo em três tipos. sendo. Escassez e Solidão Materialmente o mundo dos coronéis era povoado pela escassez de tudo e pela pobreza quase que absoluta. c) Os agregados. o coronel-industrial (o célebre Delmiro Gouveia. o personalista e o colegiado. . Na ausência quase que absoluta do Estado.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG saberem desenhar o nome no papel. que explica a enorme dependência que todos tinham dele. A imensa quantidade de parentes distantes. Por último. que ele não se compunha apenas por proprietários de terras. 04 a 10 de novembro de 2007. assegurando aos alfabetizados poderem tornarse eleitores.

fazendo deles "defuntos cívicos" que levantavam da tumba para irem até as juntas eleitorais). Observe-se que a não existência do voto secreto (adotado após a Revolução de 1930). vigiava para que o resultado final satisfizesse os partidários do coronel. 04 a 10 de novembro de 2007. a comportarem-se com docilidade. Para ampliar ainda mais o seu mando.36 - . A fraude. portanto. enfim. classe. O voto de cabresto foi decorrência disso. roupas. . em seguida. convocava algum líder local próximo para que também arrebanhasse os votos para o seu candidato. matrícula em escola. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Se nas cidades ainda funcionavam os empolgantes comícios. um século atrás. colaborando para isso o fato do desaparecimento do poder unitário (representado pelo imperador). o militar e o coronel. imperava na época da República Velha. o universo político do coronel movia-se pelo cochicho. Dentre muitas. incapaz de reagir ao despotismo do manda-chuva. remédios.). Esta placidez obediente dos que tinham direito a votar fazia com que eles fossem integrantes do curral eleitoral. facilmente eles foram conduzidos pelos apaniguados dos mandões. chapéus. ela era. demonstrativo da impotência e das limitações da democracia brasileira. comportarem-se nas eleições tais como bois mansos. por assim dizer. o coronel ativava o cabo eleitoral. dos municipais. como os cidadãos votantes eram poucos (talvez os que soubessem ler e escrever. alguém que. consulta médica.) ou algum tipo de obséquio (atendimento médico. podemos destacar o eleitor-peregrino (sujeito que votava diversas vezes) ou o eleitor-fantasma (não davam baixa dos mortos das listas eleitorais. verba para enterro. assumia o papel de porta-voz das inclinações eleitorais do coronel.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Ao contrário. aumentando-lhe o constrangimento. O resultado das eleições quase sempre passava pelo crivo de um seu representante no conselho eleitoral. tornaram-se comuns práticas ilícitas de manipulação eleitoral. fizeram o processo eleitoral republicano funcionar a favor deles. em troca de favores. etc. Fraudes e Folclore Os coronéis. permitindo que alguém votasse em nome deles. em seu nome. etc. e mais toda uma série de trapaças outras que pertencem ao riquíssimo folclore político brasileiro. mal atingisse os 20% da população inteira). Este poderia ser um bem material (sapatos. Mecanismos de Poder Para chegar ao povo votante. bolsa de estudos. alguém prestativo do seu meio que. Ao O padre. em detrimento dos poderes regionais e. facilitava o controle sobre o eleitor. Em outros acasos. a expressão acabada do mandonismo dos coronéis. O eleitor trocava o seu voto por um favor. especialmente no interior do País. era os três poderes do Brasil inevitável que os considerassem como gente de segunda arcaico. pelo conchavo e pelo cambalacho.

ameaçadores. implementada em 1902.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Instrumentos de Coerção: o Pistoleiro e o Jagunço O coronelismo nunca foi um sistema pacífico. e no vertical. estes dos barões. no horizontal quando o coronel travava uma disputa qualquer com outro rival do seu mesmo porte. Naqueles tempos. A própria natureza do tipo de dominação que ele exercitava implicava na adoção de métodos coercitivos. ele sustentava as propostas regionais dos governadores (inclusive com apoio militar se fosse preciso). geralmente um capanga da sua confiança. Porque. quando não criminosos. ou um grupo de jagunços dedicados ao ofício das armas que lhe serviam como uma milícia privada. espalhou-se pelo país inteiro. 04 a 10 de novembro de 2007. os monarcas se sustentavam com o apoio dos condes. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). pelos favores e pela macheza do coronel que os comandava. Para o exercício efetivo disso. Estes por sua volta se articulavam. o mataréu brasileiro foi ensangüentado pela batalhas travadas por esses exércitos de jagunços. fazendo com que também eles mandassem para a assembléia legislativa na capital do estado. instrumento de "paz Inúmera vez como mostrou Guimarães Rosa (Grande Sertões: veredas. e assim sucessivamente até chegar-se ao vilão ou ao pároco da aldeia. O presidente da república exigia que os governadores lhes enviassem bancadas concordes com a sua política. . quando vier. lembra. envolvendo todos eles num sistema mútuo de fidelidades e compromissos. praticado nos antigos reinos medievais. social" 1956). vivendo à sombra da sua autoridade. o sertão era tão bravo que "Deus mesmo. ele contava com dois elementos básicos: o pistoleiro contratado para atuar a seu serviço. partindo do executivo federal. atraídos pela aventura. Em troca. O rebenque. As linhas da violência dirigiam-se em dois sentidos. como assegurou o seu personagem Riobaldo. que venha armado!" O Apogeu do Coronelismo Ao legar ao seu sucessor um mecanismo político mais estável do que aquele que herdara o presidente Campos Salles fundou um sistema de troca de favores que. na sua simplicidade. quando ele desejava impingir alguma coisa aos de baixo ou que se negavam a aceitar a sua guarda. o toma lá.37 - .com os coronéis do seu estado. dá cá. De certa forma aquilo que se convencionou chamar de política dos governadores. deputados acertados com os interesses políticos do governador.

ele mostrou-se hábil em sobreviver. . trouxe pelo menos certa estabilidade invejável à turbulenta e instável crônica política brasileira. José Bezerra. travada por João Pessoa. Frase que é uma variação daquela outra atribuída a Pinheiro Machado. foi fundamental para que o coronelismo se eclipsasse a emergência de um executivo federal forte e cada vez mais poderoso. Centralizador e autoritário. até chegar ao centro do poder no Palácio da Guanabara do Rio de Janeiro. dá cá Um enorme mecanismo de favores e contra favores principiando nas fraldas de qualquer município brasileiro estendia-se assim. o Zé Pereira. ele contrapôs o poder das novas forças emergentes (operários. opôs-se ao coronelismo A Crise do Coronelismo A Guerra da Princesa.38 - . que assegurou a um oposicionista "eleito o senhor foi. o presidente fez com que o Congresso por ele controlado instituísse a Comissão de Verificação de Poderes (diz-se por sugestão do senador gaúcho Pinheiro Machado).Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG A Comissão de Verificação A fim de garantir-se do cumprimento dessa política. Portanto. 1924 e O centralismo de Vargas 1926). 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). desde que tomara posse em outubro de 1928. Pecava-se contra a educação democrática do povo. passando antes pelo palácio do governador. ao redor de 1920. aumentando-lhe a presença eleitoral. contra um poderoso coronel do sertão chamado José Pereira. liderada por Getúlio Vargas. Isso é que explica porque o governador da Bahia. não havia maior significado o parlamentar ter recebido ou não os sufrágios necessários. formada por cinco parlamentares com a função de apurar se os deputados eleitos nos estados realmente estavam comprometidos em vir dar o seu apoio ao presidente. Valorizando o sufrágio urbano. "ser eleito é uma coisa. Durante quase um trintênio esse sistema funcionou a contento. ao viciar completamente os resultados eleitorais. ter dito. mas unicamente se ele estava disposto a cumprir com o acertado entre o governador do seu estado e o presidente da república. agentes do governo central enviados para administrar os estados e os municípios foram inevitáveis o encolhimento da autoridade local. resumiu e antecipou o que iria ocorrer no Brasil a partir do sucesso da Revolução de 1930. Mesmo quando ele foi sacudido pelas várias revoltas promovidas pelo Movimento Tenentista (em 1922. durante os quinze anos seguintes Vargas praticou medidas para o irreversível esvaziamento do poder dos coronéis. funcionárias) ao dos potentados rurais. 04 a 10 de novembro de 2007. o que não vai ser é diplomado. governador da Paraíba. ser reconhecido é outra"." Um toma lá. Com a adoção dos interventores e dos intendentes. Para a comissão. O voto secreto e o voto feminino (inicialmente somente de funcionárias públicas) foram dois dos instrumentos utilizados para isso.

.. Desta forma. e. isso não sucedeu. a imigração para as cidades. Representando a versão mais atualizada do coronelismo. O Carlismo Antônio Magalhães Com a fim do regime militar. A industrialização. ele mostrou-se mais ágil em perceber o significado das mudanças que se operaram naquela época. que culminou no afastamento dos generais do poder. o país conheceu entre 1969-1979 um impressionante desenvolvimento econômico. mudou de lado. num lance ousado e surpreendente. características do Brasil pós-1945. neutralizarem a força das massas urbanas que lhes eram hostis. Em 1984. no Rio Grande do Norte.). só fizeram por acelerar ainda mais o declínio do coronelismo. com os remanescentes do coronelismo. marcado pela eleição indireta de Tancredo Neves à presidência da república em 1984. ao contrário dos tenentes de 1930.39 - . Unindo uma proposta de modernização da economia com as esdrúxulas práticas que remontavam ao Brasil arcaico. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). O cacique político local.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Situação que se reforçou ainda mais com a proclamação da ditadura do Estado Novo em novembro de 1937. Na Bahia. ocorreu um estranho e contraditório fenômeno. ao recorrerem aos casuísmos eleitorais. Os militares que ascenderam ao comando do país naquela ocasião. A Revivência do Coronelismo Com o Golpe Militar de 1964. Talvez por ele ser um caso raro de coronelismo urbano (grande parte da sua fortuna e dos que a ele estão ligados está associada aos meios de comunicação e aos negócios industriais e Carlos imobiliários). um por um os coronéis foram sendo afastados da política. o crescimento demográfico. na Paraíba. entre 1937-1945) (. em Pernambuco e na Bahia. simultâneo ao quase total fechamento político (o mais sufocante que o país conheceu desde os tempos do Estado Novo. ajudaram e fortaleceram as velhas oligarquias. que derrubou o governo de João Goulart. Os generais de 1964. trataram de aliar-se. ACM rompeu com os militares e aderiu à campanha das "diretas já". promoveram uma atualização do poder dos coronéis: o neocoronelismo. com o objetivo de implantar o seu Projeto do Brasil Grande (a ambição de tornar o país uma potência de médio porte). derrotados pelas urnas da democracia recém-reconquistada. especialmente no Nordeste. . ao mesmo tempo. no Ceará. o ex-prefeito e governador Antônio Carlos Magalhães (que fizera sua carreira política aplicando todos os truques perversos do coronelismo ao tempo em que servia como sustentáculo civil local ao regime militar). ele de imediato rearticulou-se com a nova elite civil que substituiu os militares em Brasília. porém. 04 a 10 de novembro de 2007.

1987) Eul-Soo Pang . que garantiu por duas vezes a eleição do presidente Fernando Henrique Cardoso)... SP. no futuro. SP. mereceu copiosas descrições. SP. e os "causos" em que eles foram participantes ativos viraram contos ou histórias dos romancistas e dos roteiristas das telenovelas brasileiras. o escritor brasileiro de maior expressão internacional. Coronelismo e Literatura Como não poderia deixar de ser a literatura brasileira foi pródiga neste século em abrigar as façanhas e malvadezas dos coronéis. José Ênio . verba para a recuperação do Pelourinho. ou o do Coronel e o lobisomem de José Cândido de Carvalho). Numa situação onde o autor assume a identidade do coronel para registrar-lhe as impressões. Ele sempre teve consciência de que o seu prestígio local devia-se ao apoio escancarado que ele dava a quem estivesse no comando executivo da União. Ernani Silva . • • • • • Bibliografia Beiguelman. esta virada do carlismo em favor da redemocratização.Formação política do Brasil (Pioneira. encontra-se no Memórias do coronel Falcão. em seguida à formação da Nova República.. e no popularíssimo Gabriela cravo e canela). 1979) 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE).Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG O Condestável da Nova República Esta posição. RJ. 04 a 10 de novembro de 2007. violento e rústico.1959. a influência dele junto aos seus conterrâneos.. a montadora da Ford). de Aureliano Figueiredo Pinto. Notáveis descrições do cenário em que eles viveram e lutaram encontram-se no Os Sertões de Euclides da Cunha. ACM foi ministro das comunicações no governo de José Sarney. se num primeiro momento trocou a sua Pelourinho. quando não os próprios coronéis tornaram-se personagens centrais da obra (como no caso de São Bernardo de Graciliano Ramos.) Bruno.) Carone. Cacau.40 - . eminência parda no governo do presidente Fernando Collor de Mello e o principal avalista do pacto do PFL-PSDB. . Desta forma. granjeou a ele enorme estima e respeito por parte considerável da população.Coronelismo e oligarquias (Civilização Brasileira.História e paisagens do Brasil (Cultrix. Jorge Amado. 2 vols. abordou o coronelismo em todas as suas facetas nos seus romances do chamado ciclo do cacau (São Jorge de Ilhéus. permitindo-lhe. 1967.A República Velha: evolução política (Difel. recuperado graças ao fidelidade por favores prestados ao Estado da Bahia (polo prestígio de ACM petroquímico de Camaçari. os analistas prevêem que o rompimento dele com as fontes das verbas federais terminará por secar. 1971) Casalecchi. 10 vols. Edgar . O mundo rural.SP. e no já citado Grande Sertões: Veredas de Guimarães Rosa. o homemforte dos sucessivos presidentes que desde então se sucederam (nos 15 anos seguintes. que fosse promovido às antecâmaras do poder como o condestável. Paula . se bem que oportunista.O partido republicano paulista : 1889-1926 (Brasiliense. onde eles se moviam.

SP. RJ.O mandonismo local na vida política brasileira (Alfa-Omega.Terras devolutas e latifúndio: efeitos da Lei de 1850 (Unicamp. Victor Nunes ..41 - . SP. Campinas. 1975) Martins.. a revolução traída (Civilização brasileira. José de Souza . 1981) Nosso Século: Brasil (Abril..O cativeiro da terra (LECH. 1966) Silva. 7ª ed. . 1985.) Queiróz.Sobrados e Mocambos (José Olympio. 04 a 10 de novembro de 2007.. Hélio .Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG • • • • • • • • Freyre. de 1900-1930) Silva. RJ. vols.Coronelismo.. SP. 1985. Lígia Osório . 1996) Telarolli. Gilberto. enxada e voto (Alfa-Omega.Poder local na República Velha (Nacional. Rodolpho . SP.1930. Maria Isaura . 1977) 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). 1976) Leal.

estas jamais compensaram as grandes transferências de capital e de recursos humanos do Nordeste para o Sudeste (Oliveira. as transferências financeiras oriundas da União para o Nordeste foram constantes no decurso dos 2 últimos séculos. Com efeito ela regulariza a situação dos ocupantes. em seguida. Fig. a escolha é feita pelo proprietário. porém. Certamente outros mercados se abriram. A produção agrícola alimentar era limitada (Andrade.42 - . A crise do mercado açucareiro no século 18 só fez reforçar essa situação. pelo assentamento de inúmeras famílias. semi--árido2 Contexto e Diversidade das agriculturas Familiares no Nordeste semi A agricultura brasileira esteve. primeira região colonizada pelos portugueses. Em contrapartida. . A lei é votada sob a pressão de grandes proprietários cuja preocupação é limitar a ocupação ilegal de terras. 1967). voltada para o comércio. "nenhum dos ciclos posteriores veio. então.2 milhões de pessoas. 1981. Cuert-Muller (1994) mostra que entre 1970 e 1985 a população trabalhando no setor agrícola passou de 3. constituídos graças ao sistema de remuneração usado pelos grandes proprietários3. Mas a concentração das riquezas nas mãos de uma minoria e o caráter excêntrico da economia (importação de produtos de luxo graças aos recursos advindos das culturas de exportação) frearam o desenvolvimento da Região. o sertão assume o papel de pulmão demográfico do Brasil. e que essa mão-de-obré constitui uma reserva utilizada ocasionalmente. a Lei da Terra torna impossível a obtenção de terras. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). modificar muito essa situação. 04 a 10 de novembro de 2007. e. essa lei se traduz. região de migração em direção ao sul e à Amazônia (Garcia júnior. dedicada às necessidades do mercado europeu. Entretanto. graças a exportações de açúcar para a Europa. 1960. pois é capaz de absorver ou reter contingentes significativos de população. Garcia júnior. Instaura-se. Porém. e nelas instalar-se com seus rebanhos. Porém. o mercado fundiário. 1986).0 a 4. Essa é a origem da agricultura familiar no Nordeste semi-árido (Prado júnior. Em 1850. Patrick Caron e Eric Sabourin/org. de fato. 1990) . 2 IN: Camponeses do Sertão: Mutação das agriculturas familiares no Nordeste do Brasil.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG I. desde a colonização. 1995a. aos vaqueiros dos fazendeiros comprarem terras. O Nordeste. Como bem destaca Martine (1992). a não ser por compra. a integração econômica é limitada. Foi no litoral que se constituiu a primeira ilha do "arquipélago brasileiro" e onde o primeiro dos grandes ciclos econômicos do Brasil se desenvolveu (Thery. o Nordeste torna-se a região "rejeitada" do Brasil. outras culturas contribuíram para um certo dinamismo econômico. também. 2003 3 O vaqueiro recebe como remuneração um bezerro em cada quatro que nascem. o desenvolvimento das plantações de cacau no sul do Estado da Bahia". no início do século 19. muito cedo conheceu a prosperidade. Andrade. EMBRAPA Informação Tecnológica. Brasília. 2). se bem que dois episódios tenham contribuído para diversificar a base econômica regional: o cultivo do algodão que permitiu uma ocupação mais densa da zona semi-árida. prática cada vez mais freqüente. 1990). No século 20. segundo Thery (1995a). Permite.

. 04 a 10 de novembro de 2007. 1995a. no ano seguinte. subexplorada. Empresas rurais: forma de organização reagindo essencialmente a uma lógica econômica. procuraram promover a industrialização. remunerados por um proprietário frequentemente ausente. Os intelectuais que a dirigiam.Sudene -.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Fig. ditada por relações do tipo paterna lista. O montante da ajuda da União é diretamente proporcional à extensão das crises climáticas das secas (Molle.43 - . à Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste . Sua distribuição. "Em 1936. 4 5 Latifúndio: propriedade de grande porte. O proprietário segue uma lógica territorial. Expansão territorial: frentes pioneiras e ciclos econômicos. foi delimitado um perímetro de 620 mil km2. foi criado um grupo de trabalho que daria origem. 1995a). tornada produtiva por dependentes. definindo a área onde a ajuda do governo federal poderia ser concedida. A rentabilidade do investimento é o 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). desafio que explica suas ampliações sucessivas em 1946 e 1951: hoje essa área estende-se por 936. o Polígono das Secas. Alguns evocam a indústria da fome para explicar os lucros que daí retiram. depois de um período extremamente seco. 1991 b). por meio de lima política de incentivos fiscais. em particular Celso Furtado.993 km2 (Thery. facilitando a transformação dos latifúndios4 e de pequenas um idades agrícolas camponesas em empresas rurais5. e modernizar o setor agrícola. reforça o poder indiscutível dessa elite. quanto a seus dependentes. Fonte: Thery. controlada pela elite local. 2. administração encarregada pelo governo federal do "planejamento regional global" (Oliveira. 1981). Em 1958.

O assunto. esses projetos visavam reforçar a emergência de pólos de desenvolvimento. No decurso dos anos 60. As relações de trabalho organizam-se em torno dos assalariados. agricultura de subsistência. em particular com a implantação de perímetros públicos de irrigação e. entre outros. As inquietações em relação ao modelo de desenvolvimento brasileiro. por discursos recorrentes sobre a escalada da violência. e aquele da agricultura familiar em particular.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Foi. O êxodo rural não se estanca. com o retorno à democracia.).44 - . tratou-se. Ao final de alguns anos. no Sertão nordestino. esse apego é real. etc. vem o tempo das dúvidas. No Brasil. tabaco ou cana-de-açúcar) ou temporárias. uma maioria significativa dos produtores das comunidades do sertão. resolver os problemas ligados à pobreza. As migrações de agricultores do Sertão foram por muito tempo essencialmente sazonais (colheita do café. sobretudo. a sociedade tomou conhecimento das dificuldades com as quais se depararam esses projetos. específica ao contexto brasileiro7. . Inúmeras denominações são utilizadas quando se evoca a agricultura familiar: pequeno produtor. Apesar de sua conotação política ou ideológica desfavorável. O conjunto da classe política e. do cofinanciamento de infra-estruturas comunitárias (escolas. Chapéu de Couro. minifúndio. após o golpe militar de 1964. O termo agricultura camponesa qualifica somente uma parte desse universo. excluindo as pequenas empresas familiares. Está associado à permanência de uma sociedade camponesa no sentido usado por Mendras (1976)6. caracteriza. 6 7 Segundo a definição de Mendras (1976). Após o mito da modernidade. agricultura camponesa. Sertanejo. por uma autonomia relativa quanto ao mercado e pela mediação de poderosos locais. o apego ao campo na região de origem continua relativo. Foi a época do milagre econômico brasileiro. então. e os recursos financeiros corriam em abundância. o período dos projetos públicos e do crédito subsidiado: Polonordeste. e ainda são. Os movimentos da população rural sempre foram. poços e açudes. então. pode~se falar em agricultura camponesa onde subsiste uma sociedade camponesa marcada por relações de proximidade e de interconhecimento. ainda. Essas denominações não têm todas o mesmo sentido. os índices de desenvolvimento foram menos evidentes. Em sua origem. principalmente nas frentes pioneiras e nas regiões de êxodo. o papel do setor agrícola em geral. O modelo de desenvolvimento imaginado é um compromisso que alia modernização e emprego rural por intermédio do apoio à agricultura comercial e da organização de comunidades rurais de pequenos produtores. Projeto de Apoio ao Pequeno Produtor Rural (Papp). De modo clássico. porém. 1985). em escala nacional. Em contrapartida. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). a incapacidade de controlar a hipertrofia das metrópoles com a redução do êxodo rural e de travar os fenômenos de empobrecimento. No sertão. a de estradas asfaltadas foi decuplicada (Thery. o sentimento de crise traduz-se. postos de saúde. A demanda de mão-de-obra no sul é grande. 1995a). logo se tornaria um verdadeiro tabu. se a implantação das infra-estruturas foi satisfatória. considerada a possibilidade da reforma agrária. A implantação de infra-estruturas marca os primórdios dessa política e mobiliza o essencial dos meios financeiros. a extensão da rede rodoviária foi triplicada. armazéns. construídas essencialmente pela mobilização gratuita da mão-deobra local (Amman. alguns anos mais tarde. o objetivo principal. ao mesmo tempo. São Vicente. geralmente. de modo mais amplo. Nos anos 80. importantes. 04 a 10 de novembro de 2007. são questões dirigidas à pesquisa nacional. surgiu. O temor suscitado pelos movimentos sociais de ligas camponesas junto às elites regionais do Nordeste muito contribuiu para o golpe militar de 1964.

nas terras das tribos indígenas dos Tupis. alvos preferenciais da política de modernização. com o pequeno capital amealhado durante o exílio. apresentando. sem limites físicos determinados. Tais litígios diziam respeito ao direito de recolher impostos. No caso de luazeiro. pela imprecisão dos limites territoriais. a maioria da~ terras pertencia a duas famílias: Guedes de Brito e Dias D' Ávila Esta última possuía. com a proclamação da República. as sesmarias. às margens da zona semi-árida (ver mapa 1 em anexo). 1992)9 A ocupação efetuou-se em diferentes datas. A agricultura sertaneja continuou por muito tempo apenas produtora de víveres e marginal ou concentrada nas zonas mais elevadas e úmidas do Agreste e do brejo. situadas nas falhas geológicas (Mal/e. "mais de 340 8 9 Uma légua corresponde a 6 km. Como nos mostra Silva (1999). quanto a concessões anteriores ieita pela colônia portuguesa às ordens missionárias encarregadas de catequizar a comunidades indígenas. É em função desses elementos que parece pertinente definir agricultura familiar. de cada um dos lados dos riachos. certas características comuns. . 1989). A agricultura irrigada é recente e seu potencial é limitado a 5% dos 940 mil km2 da região. a localização estratégica de determinados locais no cruzamento de eixos de comunicação foram critérios determinantes.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG agricultor voltava à sua região natal para comprar um pedaço de terra ou um rebanho. às margens do São Francisco. em 1710. pelos meados do século 17. A colonização do Sertão Os primeiros domínios fundiários do Sertão foram conquistados no século 17. No Sertão central. As sesmarias eram medidas em léguas8. ( Município de Juazeiro. chamados de coronéis ou fazendeiros. aos senhores da terra. 04 a 10 de novembro de 2007. assim identificada. surgido nas últimas décadas. Eram verdadeiros impérios. agravou ainda mais a situação. Eram de natureza feudal e colocavam as grandes famílias umas contra as outras ou contra as comunidades indígenas (Garcez & Sena. como o conjunto de formas de produção que se opõem aos latifúndios e às empresas rurais. para evitar misturas de gado e outros litígios (Garcez & Sena. a presença de recursos hídricos. pela demarcação dos respectivos perímetros: o da paróquia e o do municípic 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). na falta de melhores termos. segundo as regiões de Sertão. A agricultura familiar. pelo absenteísmo dos proprietários das terras e pelos fracos investimentos no setor agrícola. em 1927. As vias naturais de acesso.aos nobres. A colonização foi caracterizada pela concentração. Agricultura familiar: uma história de resistência e adaptações A história da agricultura familiar do Sertão se confunde muito com aquela da evolução dos sistemas de pecuária (Caron. as migrações definitivas constituem um fenômeno recente. não concedida a ninguém. os primeiros conflitos eclodiram. 1992). entretanto. Houve igualmente litígios entre o Estado e a Igreja. A separação entre a Igreja e o Estado. Muito rapidamente. nos iin do século 19. entre dois domínios.45 - . 1998). Era comum manter uma margem de uma légua. 1991b). reagrupa expressões sociais e modos de produção muito diversificados. o litígio só ioi resolvid. as características mais ou menos hostis do meio local. correspondendo às terras aluviais dos vales ou várzeas. como a valorização da mão-de-obra familiar e a autonomia da gestão dos meios de produção (Sidersky. concedidas pelas capitanias _ representando a Coroa portuguesa . aos grandes proprietários rurais. opôs-se a partir de 1840 à paróqui local.

Localidades mencionadas na descrição do processo de colonização. por exemplo.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG léguas de terras à~ margens do Rio São Francisco e de seus afluentes" (Andrade. Baixa Grande) já haviam sido ocupadas desde o século anterior. fonte permanente de água. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). enquanto as regiões: vizinhas (Mundo Novo. em épocas mais tardias A região de Pintadas. O recuo econômico e o surgimento dos camponeses No decurso do século 18. . (Fig. fora dos eixos de comunicação e não dispunha de nenhum. 3).46 - . foi explorada a partir do século 19. 1986) A ocupação aconteceu porém. Pintadas situa-se numa região menos chuvosa. Os enormes latifúndios começaram a fracionar-se em virtude do absenteísmo dos proprietários e da crise da pecuária bovina. muitas vezes. no centro do Estado da Bahia. Fig. 04 a 10 de novembro de 2007. o crescimento do setor mineiro de Estado de Minas Gerais e a crise no setor açucareiro acarretaram uma crise na economia nordestina e o deslocamento da bacia pecuária para o Sul do Brasil (Furtado. 1977). 3.

Em razão da Guerra de Secessão e do desmoronamento da produção norte-americana. mestiços.47 - . As culturas ocupavam pequenas áreas cercadas. a área de extensão do algodão jamais ultrapassou 21. No Estado do Ceará. 04 a 10 de novembro de 2007. entre outros. como o capim-buffe/ (Cenchrus ci/iaris). enfim. O arame farpado que substitui as cercas de madeira. o número de unidades agrícolas passa de 16. a pecuária era consolidada pela cultura do algodão "Mocó" (arbustivo). O algodão sempre esteve associado à pecuária. a partir do século 19. 1993). Segundo Silva & Lima (1982). a indústria inglesa investiu· no Nordeste. As roças e as técnicas para as culturas são manuais. Certos produtos como queijo. para prover as necessidades de consumo.6% da área total do Sertão. também. ainda mais porque os primeiros zebus introduzidos nessa época são menos resistentes às condições climáticas do Sertão. A presença de fazendeiros acentua a pressão sobre o espaço e seus recursos. Essa evolução concerne principalmente aos Estados do Ceará. Rio Grande do Norte. Paraíba e Pernambuco. eram preferidos aos bovinos. o caso da produção de forragem a partir dos anos 30. Elas exigem menos mão-de-obra do que as culturas alimentares anuais10. os caprinos. sal. O algodão estendeu-se rapidamente. coletivamente. até então. A difusão de plantas perenes permite aproveitar novas oportunidades de mercado. enquanto as áreas agrícolas só aumentam em 50% (Bazin. Uma economia camponesa surgiu e desenvolveu-se a partir das pequenas unidades agropecuárias. o crescimento demográfico traduz-se por uma pressão sobre o espaço. As cercas necessárias à proteção devem ser de madeira. para as gramíneas. em particular sobre os percursos na Caatinga. Numerosos vaqueiros. escravos alforriados ou ex-condenados tomaram posse de terras situadas entre as sesmarias ou mesmo inexploradas (Prado Júnior. em 1850. tecidos. por exemplo.) e. a partir de 1950.382 20 anos mais tarde. Começa a apropriação individual de recursos explorados. a demanda de mão-de-obra é grande e é essencialmente familiar e os contratos de meeiros são quase inexistentes (fora aqueles com os fazendeiros). na maioria dos casos. nos anos 70. 1960). o caso do sisal ou da mamona. É o caso do algodão "Mocó". A falta de forragem na época das secas leva grandes proprietários a cercar suas terras a partir da década de 20. Nas zonas mais favorecidas pelas chuvas. sementes de mamona e pequenos ruminantes eram vendidos para comprar outros produtos: pimenta-do-reino. café.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Com a Lei da Terra. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). O plantio de alguns hectares a cada ano permite marcar o território e estender as áreas em "propriedade privada". Nas zonas mais áridas. logo sua construção e manutenção representam uma obrigação significativamente onerosa com mão-de-obra. cada vez mais numerosas. A estrutura fundiária local e a presença ou ausência de grandes fazendeiros condicionam as dinâmicas pioneiras. Os meeiros produziam algodão nas terras dos fazendeiros. a apropriação do espaço e a modernização agrícola Desde o início do século 20. Comunidades apareceram e materializaram-se em sítios nas proximidades dos poços. É. Eles são os primeiros que historicamente cercam os pastos. Hoje seus membros são os descendentes dos primeiros ocupantes ou dos compradores das antigas fazendas. a partir dos anos 60. desde a Guerra de Secessão. mais adaptados às secas e às necessidades de consumo das famílias camponesas. É. mesmo quando as cercas são construídas na época das secas. permite cercar mais rapidamente grandes áreas e demanda pouca manutenção e mão-de-obra. As frentes pioneiras. no Sertão central da Bahia. De fato. graças aos meios financeiros dos quais dispõem ou que podem mobilizar por meio dos projetos 10 As áreas de cultura anuais continuam escassas e raramente ultrapassam 2 ou 3 hectares por unidade familiar. . cujos rebanhos valorizavam os restos de culturas. os pequenos proprietários estabeleceram-se. para a palma forrageira (Opuntia sp. As incertezas climáticas tornavam aleatória qualquer atividade agrícola praticada.223 a 93.

no Nordeste. freqüentemente. Assim. O desflorestamento e o cultivo das áreas de Caatinga12 aumentam. surgiram inúmeros casos de grilagem. evoluem. Outros têm como base novas regras jurídicas: a lei do "pé alto" é especialmente exemplar a esse respeito. em 1964. Trata-se da grilagem11. ou para as frentes pioneiras da Amazônia. eles são. suportes e conseqüências dessas transformações. referência a seu aspecto durante a seca. Eles permitem o aumento da capacidade de pastoreio e. Tal obrigação transformou-se. durante a estação chuvosa. 04 a 10 de novembro de 2007. para aqueles que dispunham dos meios. muito tardiamente. O aparato regulamentar do Estado é deficiente. Estas evoluções e recomposições acontecem em um contexto fundiário muito incerto. geralmente divididos por cercas. a maioria dos pequenos ainda não possuía títulos de propriedade. que foram seguidos de conflitos. os minifúndios. uma generalização rápida de cercamentos. bromeliáceas terrestres. na estação seca. que se traduz pela expulsão dos ocupantes destas terras. Tais imprecisões são acompanhadas por uma ausência de delimitação física: os limites fundiários estão freqüentemente sujeitos a conflitos. pois os fazendeiros que usavam essa prática colocavam os falsos títulos das propriedades em gavetas cheias de grilos. os pecuaristas conseguiram fazer votar um decreto municipal para a aplicação de uma lei federal. Assim. que quase sempre acaba em banho de sangue ou na resignação do proprietário lesado. em terras não cercadas e. É uma formação extremamente diversificada em função do tipo de solo e nela encontram-se árvores e arbustos freqÜentemente providos de espinhos e do tipo caducifólios.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG públicos de desenvolvimento. como Pintadas e Ipirá. coriáceas e espinhosas. prevalecendo a lei do mais forte. hoje. a partir dos anos 80. Essas evoluções são acompanhadas pelo crescimento rápido do número de pequenas propriedades rurais. no centro da Bahia. em alguns municípios. Molle (1991 b) 11 Grilagem é o nome dado à apropriação fraudulenta de terras. A pressão sobre os recursos acarreta. impedindo-os de vaguear. Em alguns provocados. . Os sistemas técnicos de produção. em apropriação: "a terra pertence àquele que a cerca". apresenta também plantas suculentas (cactáceas e euforbiáceas). a reconversão para a produção leiteira.48 - . industrial e urbano. em certos casos. No Nordeste. É em tal contexto que surge a irrigação. Os espaços diversificam-se. que obrigava os criadores a controlar seus animais. Estas imprecisões legais acarretaram conflitos jurídicos nos quais se vê o ressurgimento de títulos de propriedade datando da monarquia. bem como uma capa herbácea constituída de espécies anuais. Conflitos eclodem freqüentemente. pela colocação selvagem de cercas em terras alheias. para que ficassem amarelados. frequentemente violenta. O desmoronamento da cotação dos produtos agropecuários de cultivos de sequeiro. 12 O termo Caatinga é formado por duas palavras da língua Tupi que significam floresta branca. Os pastos de gramíneas forrageais espalham-se consideravelmente. eles podiam reduzir o investimento a 4 fios. provoca uma reconversão de inúmeros produtores para a pecuária. Na verdade. Aqueles que não conseguem se adaptar tornam-se assalariados agrícolas ou migram para o sul. Assistimos à generalização das cercas de 3 ou 4 fios de arame farpado. que dão à vegetação um aspecto sombrio e cinza durante a estação das secas. grande consumidora de espaço. mas proibindo o deslocamento dos animais dos pequenos criadores. suficientes para os seus bovinos. Até os anos 80. não há mais novos espaços a serem colonizados e os patrimônios fundiários continuam a dividir-se em ritmo acelerado. em vez de cercar suas pastagens com 7 a 10 fios de arame farpado para impedir a entrada de pequenos ruminantes. então. Grileiro (aquele que se apropria das terras) e grilagem vêm de grilo. alimentam-se da produção de forragem dos pastos cercados. Seus animais pastam. Enquanto anteriormente a situação que prevalecia obrigava aquele que cultivava a proteger seus campos. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE).

Apesar de sua importância demográfica e econômica. mecanização.. As características das estruturas sócio-políticas regionais e locais que predominaram até os anos 70 explicam. ela encobre uma realidade pouco conhecida: somente há pouco tempo passa a ser objeto de atenção por parte dos organismos de apoio ao setor agrícola. 1996). seja para os homens ou para os animais.FAO. cerca de 40% das unidades agrícolas de todo o Brasil (FAO. freqüentemente. em absoluto. seletiva e fonte de marginalização social e geográfica. deixada nas mãos dos índios ou dos mestiços. aproximadamente três milhões de famílias. entretanto. irrigação. Dos fins do século 19 aos anos 70. porém. A modernização foi. o que corresponde a 15 milhões de pessoas. arcaismo e imobilismo das estruturas sociais herdadas da colonização. ou seja. Elas foram globalmente eficazes e a produção agrícola aumentou consideravelmente. café. Um interesse renovado pela agricultura familiar brasileira Hoje. Engloba. Segundo ele. a agricultura irrigada representa um estágio de intensificação da atividade agrícola que não encontra. depois nas dos peões ou dos meeiros. batata. elas são beneficiadas com apenas 15% dos financiamentos públicos. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). etc. Elas entram em processo de avaliação e de redefinição de suas metas (Abramovay.) quanto pelos recursos e empregos que ela proporciona (Veiga. Os esforços de modernização da agricultura não puderam impedir a concentração dos investimentos públicos e privados e a marginalização da agricultura familiar. desvios dos esforços empreendidos pelo governo federal. etc. utilização intensa de adubos e pesticidas.) e de exportação (cacau. Alguns números permitem precisar essa importância social e econômica. 1997).Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG evoca vários fatores para explicar este atraso no desenvolvimento de uma sociedade hidráulica. por 22% do total da área agrícola (o tamanho médio das unidades agrícolas no Nordeste é de cerca de 13 ha . 1998). a agricultura familiar subsiste no contexto das rupturas e dos limites ecológicos. econômico e mesmo técnico. e concedem uma atenção particular ao contexto econômico e às condições ecológicas da produção (meio ambiente e qualidade dos produtos). mais da metade localizada na Região Nordeste (FAO. Entretanto. lugar em uma sociedade voltada para a pecuária extensiva. laranja. as políticas hídricas foram prioritariamente voltadas para o abastecimento de água. Desde meados dos anos 80. 1994).(Censo 1985). ela reagrupa cerca de 6. as unidades agrícolas familiares ocupam 56% da população agrícola ativa. Sua importância é não somente social. ainda uma parte significativa da população nordestina. técnicos. econômicos. Elas são responsáveis por cerca de 30% da produção agrícola nacional. etc. desde o início da colonização. banana.). No Nordeste. mas também econômica. . sociais e políticos do modelo dominante (Tonneau et aI. feijão. 1996).49 - . 04 a 10 de novembro de 2007. graças à construção de grandes barragens (ver o capítulo Manejo da água nos sistemas de sequeiro). essas instituições constatam que não conseguem acompanhar a demanda da agricultura familiar no âmbito social. este atraso: a rigidez da estrutura fundiária. 1996). No Brasil. também. os espaços geográficos e econômicos "desprezados" pelos grandes proprietários e empresas. salvo por algumas situações isoladas.5 milhões de unidades de produção agropecuária. Molle (1991 a) lembra que a agricultura foi desprezada. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística -IBGE . tanto por sua presença de peso nos mercados de produtos alimentares (milho. a agricultura familiar reúne a maioria da população rural. As instituições públicas de pesquisa e desenvolvimento implantadas nos anos 70 foram planejadas como instrumentos da política de modernização que visava promover o modelo da revolução verde (variedades selecionadas. Ela ocupa.

50 - . este modelo de desenvolvimento. reduzir o êxodo rural. sem levar em conta a diversidade ecológica (Embrapa. Ela tem por objetivo ancorar a análise no diferente e no complexo. por exemplo. Um consenso político real manifesta-se em torno do apoio que ela deveria receber. como nos países desenvolvidos. principal entidade brasileira de pesquisa agronômica. reconhece que a pesquisa se mostrou ineficaz em virtude da orientação de seus trabalhos que. pelo aumento dos preços dos alimentos perecíveis. 04 a 10 de novembro de 2007. em geral. Entretanto. 1994a).Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG A Embrapa. A exclusividade concedida às pesquisas disciplinares realizadas em estação experimental não levava em consideração as condições de produção. Essa síntese adota um caminho diferente. ." (Embrapa. porém não foi capaz de fazê-Io sem a exclusão de um número significativo de pequenos produtores. Os programas de pesquisa trataram por muito tempo de uma cultura ou de um produto em particular. Entre a necessária redistribuição inter e intra-regional e a adaptação forçada a um mercado competitivo. A agricultura familiar está cada vez mais presente nos discursos. "A modernização provocou modificações indiscutíveis das características técnicas e econômicas da agricultura brasileira. sem valorizar a diversificação da produção da unidade agrícola nem as pesquisas econômicas e sociais sobre as "racionalidades" dos produtores e sobre os processos de inovação. pela marginalização de mais de dois terços da população rural. 1994a). 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Os objetivos são. As condições e as formas de acúmulo e da reprodução da agricultura familiar e a gestão de sistemas diversificados são. pela ocupação desordenada do território nacional. reorganizar o espaço. as divergências sobre as modalidades de implantação de um conjunto coerente de ações são importantes. entre duas visões. os produtores e os agentes de desenvolvimento não tinham vínculos com a definição e a aplicação prática dos temas e das atividades de pesquisa. A insuficiência dos conhecimentos disponíveis deixa o caminho livre para debates antes de tudo ideológicos. principalmente. manejar os recursos naturais de modo sustentável e atenuar a miséria. visavam à concepção de modelos com alta produtividade biológica e com grande utilização de insumos. quer no campo técnico. informações e dados sobre as múltiplas realidades encobertas pelo termo genérico "agricultura familiar". Essa constatação leva a propor dispositivos específicos de apoio à agricultura familiar. o discurso inflamado freqüentemente toma a dianteira. Ao Estado e às instituições faltam. Entre outras coisas. Enfim. diminuir os preços dos alimentos perecíveis. que seriam justificados pelas evoluções recentes do mundo agrícola e pelo contexto político. as instituições questionam-se sobre as formas que esse apoio poderia tomar para ser eficaz e sobre as condições da implementação de um programa de reforma agrária. apesar do aumento da produção global. econômico ou social. criar empregos. uma social e outra neoliberal. pela degradação do meio ambiente. temas pouco explorado. traduziu-se por uma deteriorização dos mercados urbano e rural do emprego.

mas sim por uma necessidade natural dos que vivem de salário. as fábricas. De um lado. 04 a 10 de novembro de 2007. A palavra surge do francês . Compreende-se que os patrões tratem de reduzir o salário. desprovido de tudo. É nesse último sistema econômico. Com a queda do feudalismo na Europa. máquinas. O Sindicato. dirigente da revolução russa de 1917. entre patrões e operários há uma constante luta pelo salário”. viver numa boa casa e não se vestir como mendigos. que surgem as primeiras formas de organização dos trabalhadores. mas para os patrões. no feudalismo e ocorre até hoje no capitalismo. Em compensação. Portanto. na economia capitalista. Não aparecem por inspiração de “subversivos”. a massa do povo trabalha para os outros. quanto menos aos operários. O termo burguesia deriva de burgos. mais lucro lhes sobra. e o faz por um salário. Isto ocorreu no sistema escravista. o proletariado.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Origem e papel dos sindicatos Altamiro Borges13 Desde a divisão da sociedade em classes.os germes dos futuros industriais. dona dos meios de produção instalações. 13 Jornalista 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Os patrões pagam aos operários exclusivamente o salário indispensável para que estes e suas famílias mal possam sub-existir. Elas nascem como resultado do esforço espontâneo dos operários para impedir ou atenuar a exploração. o patrão embolsa isso: isso constitui o seu lucro. é um fenômeno típico desse sistema.51 - . após a superação da comuna primitiva. pertencem a um pequeno número de latifundiários e capitalistas. a sociedade se divide claramente em duas classes. matérias primas etc. É dessa luta cotidiana. A expressão proletariado vem do latim da antiga Roma e designa os cidadãos que viviam à beira da miséria e que tinham uma prole numerosa. como a burguesia propaga. inerente ao capitalismo.syndic .. Os latifundiários e industriais contratam os operários. Do outro. por isso. que a luta de classes atinge a sua plenitude. os instrumentos de produção etc.que significa “representante de uma determinada comunidade”. . entretanto. enquanto a massa do povo não possui nenhuma ou quase nenhuma propriedade e deve. a história das sociedades é marcada pela luta entre explorados e exploradores. a burguesia. obrigando-os a produzir tais ou quais artigos que eles vendem no mercado. no modo de produção asiático. obrigado a vender a sua força de trabalho aos capitalistas. não trabalha para si. que é o trabalho excedente não repassado ao operário na forma de salário. num longo processo iniciado a partir do século 17. objeto de nosso estudo. Lênin. o capitalista necessita extrair o máximo de mais-valia. Tudo o que o operário produz acima dessa quantidade de produtos necessária a sua manutenção. que eram as pequenas localidades nos arredores dos feudos. Portanto. Para elevar os seus lucros. Ele só surge no modo de produção capitalista. sintetiza de maneira simples as características desse sistema. onde viviam os comerciantes e os artífices . “Denomina-se capitalismo a organização da sociedade em que a terra. alugar sua força de trabalho. os operários tratam de receber o maior salário possível para poder sustentar sua família com uma alimentação abundante e sadia.

o operariado conta com a vantagem de se constituir em grande quantidade. . Foi nesse país que se realizou a primeira revolução burguesa da história . nos séculos 17 e 18. com o desenvolvimento do próprio sistema. que o capitalismo encontra plenas condições para se expandir e virar o sistema predominante. atingindo outros setores econômicos. ela não necessita mais de mão de obra especializada do artesão. Nesse período. a burguesia se consolidou no poder. e por condições humanas de trabalho. acumulou capital e pode realizar a primeira revolução industrial . dobrá-la e dar-lhe em nós. com salários mais aviltados e em piores condições de trabalho. com a superação do trabalho artesanal. O Capataz costumava pegar uma corda da grossura do meu dedo polegar. as mais precárias. a burguesia inglesa imporá jornada de trabalho que atingiam até 16 horas diárias. também agravará as contradições entre capital e trabalho. Por sua vez. Trabalhei toda a noite.no século 18. os sindicatos se tornam centros organizadores dos assalariados. são constituídos enormes contingentes de desempregados nos centros urbanos. Num primeiro momento. “se os sindicatos são indispensáveis para a guerra de guerrilhas cotidianas entre o capital e trabalho.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Essa é a lógica do sistema. aptos ao trabalho assalariado. os que produzem diretamente as riquezas . expulsando os servos das glebas rurais para torná-los “homens livres”. eles vão congregar os operários das oficinas e das fábricas. pelo aumento do seu poder aquisitivo. A introdução das novas máquinas. Berço do capitalismo Os primeiros sindicatos nascem exatamente na Inglaterra . são também importantes como meio organizado para a abolição do sistema de trabalho assalariado”. por exemplo. O capitalismo inglês vai viver a partir daí um intenso processo de desenvolvimento.o setor dinâmico da sociedade capitalista. os trabalhadores têm a necessidade de lutar pela diminuição da taxa de mais-valia. Após muitas marchas e contramarchas. que representa a consolidação definitiva desse novo modo de produção. pode introduzir a mulher e o menor no mercado de trabalho. Ele cita. que tinham grande poder de barganha. que Marx chamará de exército industrial de reserva. com o surgimento das grandes fábricas. como forma de baratear o custo do trabalho através da concorrência. Com o objetivo de atrair mão-de-obra livre. Leo Huberman. meados do século 18.dirigida por Cromwell. 04 a 10 de novembro de 2007. no livro “História da Riqueza do Homem”. É nesse momento. Para Marx.considerada o “berço do capitalismo”. Nessa luta. certa vez”. descreve esse brutal processo de rebaixamento do nível profissional. fonte dos lucros. Para extrair a mais-valia. a burguesia golpeia os artesãos e suas corporações. focos de resistência à exploração capitalista. O desenvolvimento do capitalismo deixará evidente a contradição desse sistema. eles se generalizam. Os salários serão os mais reduzidos e as condições de trabalho.52 - . Com as máquinas. posteriormente da produção manufatureira e. Para cumprir esse papel. Posteriormente.com a redução dos custos operacionais e a elevação da produtividade. em 1816: “Sempre nos batiam se adormecíamos. o depoimento de uma criança de 11 anos a uma comissão do parlamento inglês. em 1640. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). em que a concorrência leva os empresários a uma incessante busca por maiores lucros . a partir da introdução de novas máquinas. ela promoverá os famosos “cercamentos” no campo. Através desses novos instrumentos.

reduzindo-se a pequenos grupos de trabalhadores que destruíam máquinas e espancavam os cientistas que as inventavam. também conhecido como o movimento dos quebradores de máquinas. Newcastle. informa José Cândido Filho. ela constatou que não era a máquina a sua inimiga. Sua atitude. a jovem classe operária viu nas máquinas o seu principal inimigo. “A História da Riqueza do homem”. em 1812. os Luddistas ingleses costumavam cantar uma música que se tornou conhecida. cidade próxima de Londres. aparentemente a máquina é que era responsável pelo desemprego dos trabalhadores especializados. Um das principais formas de luta foi o Luddismo. que trabalhava numa pequena oficina em Nottingham. O parlamento Inglês. pela inserção da mulher e do menor nas fábricas em condições degradantes etc. A revolta operária repercutiu também entre a intelectualidade da época. “De pé ficaremos todos/E com firmeza juramos/Quebrar tesouras e válvulas/E arrasar todas as máquinas”. que nunca tratara da questão operária. começou a dar sinais de assimilação dessa forma de luta. Afinal. O termo Luddismo deriva do nome do operário têxtil Ned Ludd. 04 a 10 de novembro de 2007. vão gerar resistências entre os explorados. As greves e os sindicatos. Inexperiente. Preston. Ele se recusava a negociar e os trabalhadores passaram a fazer o mesmo. Antes. Glasgow. Segundo pesquisas.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Todas essas condições de exploração. que quatro anos depois foi retomado com novas máquinas quebradas em Londres. Dessas primeiras lutas da classe operária nasceram belos escritos e poemas. uma lei que punia com a pena de morte os “quebradores de máquinas”. a classe operária passará por um longo processo de aprendizado até encontrar as formas mais eficientes de luta e concluir que sua união é fundamental para se contrapor ao poder do patronato. que passou a dar maior atenção às condições de vida e de trabalho do proletariado. refletia o estado de espírito dos artesões. expresso os avanços da tecnologia. não aparecerão num estalo de dedos. entretanto. Sir Boycott era conhecido por seus métodos truculentos no tratamento com os empregados.palavra que deriva do nome de um oficial inglês encarregado de administrar os negócios do conde Erne. Dundee e outras cidades. Outra forma de luta que será utilizada na infância da classe operária. A própria burguesia que num primeiro momento aprovou a pena de morte. será o boicote . os Luddistas espantaram a burguesia”. autor do livro “O Movimento Operário: O Sindicato e o Partido”. por exemplo.53 - . Esse processo de luta passará por longas experiências. reproduzido no livro de Leo Huberman. da Irlanda. quando quebravam as máquinas. mas sim o uso que o patrão fazia dela. Aos poucos. seu gesto foi imitado em várias cidades da Inglaterra e atingiu também a França. propondo que os moradores do povoado não 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). É nesse período que se generalizava o seguro de patrimônio na Inglaterra e alguns patrões inclusive são flagrados destruindo suas máquinas para adquirir outras mais modernas. como o de Shelley. Que era um erro se contrapor ao desenvolvimento do próprio conhecimento humano. Mas experiente. discutiu o assunto e aprovou. Em pouco tempo. “Os homens da Inglaterra”. O movimento dos quebradores de máquinas também caiu no isolamento diante da sociedade. . apesar de individual. esse operário destruiu totalmente os teares mecânicos da fábrica num sinal de revolta contra os efeitos da Revolução Industrial. Segundo José Cândido. o Luddismo começou a ser superado como forma de luta da jovem classe operária. A legislação repressiva não conteve o Movimento Luddista. “Entre 1811 e 1812. próprias do novo sistema econômico.

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consumissem os produtos do Conde Erne. Este teve um grande prejuízo e afastou o oficial
inglês do cargo. A sabotagem também será usada nesse período como mecanismo de
pressão dos trabalhadores por seus direitos. O termo tem origem francesa e significa
"tamanco". Os operários franceses usavam esse tipo de calçado para danificar as
máquinas, emperrando a produção.
O salto na ação desse jovem proletariado vai se dar com o recurso da greve uma forma de luta mais avançada para pressionar o patronato. Segundo José Cândido, “A
origem do termo, liga-se à Praça da Greve (place de grève), atualmente praça do Hotel De
Ville, em Paris. Quando desempregados ou para tratarem de assuntos relativos ao
trabalho, os operários costumavam reunir-se ali. Faire grève (fazer greve) significava,
portanto, reunir-se na praça da greve. A greve foi o recurso de luta de maior eficácia nesse
período, tanto na Inglaterra, como nos demais países em que o capitalismo foi
introduzido. Esse recurso se espalhou pelo mundo, sendo encarado de diversas formas.
Para alguns, defensores da manutenção do sistema capitalista, como simples mecanismo
regulador do mercado de trabalho. Para outros, no caso dos Anarquistas, como um fim em
si mesmo. “A greve é tudo”, dirá Bakunin - um dos principais teóricos do movimento
ácrata.
Já para os revolucionários, a greve será vista como uma das principais
armas na luta de guerrilha entre capital e trabalho e como poderoso instrumento de
elevação da consciência e do nível de organização do proletariado. O dirigente da
revolução russa de 1917, Vladimir Ilitch Lênin, escreveu um texto sobre as greves.
Sindicato Clandestino
É nesse processo da luta que a classe operária sentirá a necessidade de se
organizar. É dele que surgirão os sindicatos que na Inglaterra têm o nome de trade-unions
- que significa união de ofício, de profissões. Essas jovens entidades de trabalhadores não
terão as mesmas características dos sindicatos atuais - que conquistaram o
reconhecimento legal, têm sedes, diretores afastados e gozam do direito de negociar com
o patronato. Pelo contrário. No século 17, período de surgimento das trade-unions, elas
serão clandestinas, com muita dificuldade de atuação. A burguesia verá nelas um grande
perigo. Seu temor é que elas unam o grande número de trabalhadores, até aqui dispersos
e vivendo em concorrência entre si pelo emprego. Há registro de associações de
trabalhadores com caráter sindical desde 1699. Nesse ano em Londres, uma greve dos
operários têxteis assustou o governo e a jovem burguesia - que ainda se constituía
enquanto classe. É só no século 18, quando a revolução industrial tomou impulso na
Inglaterra, que os sindicatos vão se generalizar para evitar seu crescimento, o parlamento
inglês aprova em 1799 a combination law, a lei sobre associações que proíbe o
funcionamento de sindicatos.
A violência da burguesia se dará em vários terrenos. No campo legal, elas
serão proibidas. A primeira lei que garantirá a livre associação dos trabalhadores só será
aprovada em 1812, na câmara dos Lordes, em Londres. Além de usar o aparato policial
do Estado para reprimir essas entidades, a burguesia inglesa - e posteriormente de outros
países - também utilizará as milícias privadas. Os jagunços, que hoje são uma marca do
campo em nosso país, já foram muito usados pelo patronato nos centros urbanos. Alguns
se tornaram famosos como o bando Pinkerton, dos EUA - uma poderosa agência de
pistoleiros contratada para reprimir greves e assassinar lideranças operárias.

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Para se proteger dessa violência, no inicio as trade-unions agem totalmente
na clandestinidade. As reuniões são secretas; não há sedes sindicais, campanhas
massivas de sindicalização, nem mesmo negociação direta com o patronato. Algumas
trade-unions inclusive formulam “códigos de participação”, com normas para garantir a
sobrevivência da entidade. Elas fixam a triagem dos trabalhadores que devem ser
convidados para as reuniões clandestinas. A entidade dos têxteis, por exemplo, prevê um
período de observação de dois anos para avaliar se o trabalhador não é dedo-duro,
infiltrado do patrão. Só depois ele é convidado a participar das reuniões. O seu código fala
também de justiçamento dos delatores, compondo um braço armado para amedrontar os
traidores em potencial.
Aos poucos, no entanto, as trade-unions inglesas vão se consolidando. Elas
dirigem mais greves, maiores protestos. Deixam o patronato num dilema. Já que são
proibidas, o empresário não tem como negociar em momentos de greve. Isso gera
grandes prejuízos, principalmente quando não há estoques e surgem encomendas de
produtos. Diante desse crescimento das lutas operárias, é que o parlamento da Inglaterra
irá aprovar, em 1824, a primeira lei sobre o direito de organização sindical dos
trabalhadores. Essa conquista permitirá um poderoso aumento da força do sindicalismo.
Em todos os ramos industriais formam-se trade-unions. Também surgem as “caixas de
resistências” para apoiar financeiramente os grevistas.
O outro avanço nesse período será a organização de federações que
unificam várias categorias. Em 1830 é fundada a primeira entidade geral dos operários
ingleses - a associação nacional para a proteção do trabalho. Ela reunirá têxteis,
mecânicos, ferreiros, mineiros e outras profissões. Chegará a ter cerca de 100 mil
membros e editará um periódico, A Voz do Povo. Na vanguarda do movimento operário
inglês dessa época estarão os têxteis, principalmente os da concentração industrial de
Lancashire. Em 1866, com o avanço da industrialização em outros países, será realizado
o primeiro congresso internacional das jovens organizações de trabalhadores de vários
países. Ela representará um grande salto na unidade dos assalariados, que será
materializado com a fundação da associação internacional dos trabalhadores (AIT),
também conhecida como a primeira internacional.
Apesar de possibilitar um avanço da organização sindical, a lei de 1824 é
contraditória, tendo duas características distintas. Em primeiro lugar, reflete a própria
pressão organizada dos trabalhadores. Em segundo, também indica uma mudança
estratégica da burguesia inglesa. Tanto que a lei foi aprovada na câmara dos Lordes, que
reunia apenas a aristocracia inglesa. Com ela a burguesia procura novos métodos para
controlar o movimento operário. Ela não poderia abandonar o seu projeto de dificultar a
luta e a união dos trabalhadores - fundamental para sua sobrevivência enquanto classe.
Como não era mais possível proibir as trade-unions, ela adota novos meios
de interferir. Como a história vai demonstrar, mesmo legalizados, os sindicatos podem ser
reprimidos. Neste período, muitos industriais pressionarão os operários exigindo a
renúncia formal à participação das trade-unions, como forma de garantir o emprego. A
força policial continuará a ser acionada, deixando um rastro de sangue em toda a
trajetória do movimento sindical. A legalização também permitirá identificar as lideranças,
o que pode facilitar o trabalho de cooptação e corrupção - processo muito usado até hoje
pelo patronato. Além disso, é possível implantar toda uma legislação de controle dos
sindicatos - como a que existiu no Brasil após o governo de Getúlio Vargas.

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Ainda nesse período, fruto da experiência concreta, o proletariado também
desenvolverá a luta política, superando a pressão apenas por reivindicações de caráter
econômico e específico. Surge o movimento cartista na Inglaterra, que representou um
salto na ação operária. O nome deriva de uma “carta”, elaborada em 1837-38, em que os
trabalhadores reivindicam maiores liberdades políticas: direito de voto para todos,
abolição do sistema pelo qual só podiam se candidatar os que tivessem renda, voto
secreto etc. Em seu conteúdo, o cartismo já expressara a luta por liberdades
democráticas e socialistas. Ele será duramente reprimido - com inúmeros cartistas,
sofrendo processo criminal - de “alta traição” - e muitas condenações.
Em outros países, o proletariado participará de ações políticas, sendo a mais
célebre participação na Comuna de Paris. Essa foi a primeira experiência em que a classe
operária alcançou o poder político. Sua duração foi curta - de fim de março a fins de maio
de 1871. Num primeiro momento, a sede do novo poder se instalou na Câmara Federal
dos Sindicatos franceses que também era o local de reuniões da sessão parisiense da
AIT. Essa experiência, que não se alastrou e serviu de base para novos estudos dos
marxistas, foi violentamente reprimida. As tropas do exército francês, que pouco antes
havia sido derrotadas e tornadas prisioneiras pelos alemães, foram libertadas e colocadas
a disposição do governo da França, de Thiers, por ordem e Bismarck. A burguesia
superava as suas divergências para esmagar o movimento operário. A luta contra a
comuna durou uma semana. Mais de 14 mil combatentes foram mortos na guerra ou
foram sumariamente fuzilados; 5 mil operários foram deportados e outros 5 mil
encarcerados.
O próprio Karl Marx, um dos idealizadores da AIT, já havia apontado essa
necessidade de ação política ao proletariado. “O fim imediato dos Sindicatos concretiza-se
nas exigências do dia a dia, nos meios de resistência contra os incessantes ataques do
capital”. Numa palavra, na questão do salário e da jornada de trabalho. Essa atividade
não só é justificada, como necessária. Não podemos privar dela enquanto perdure o modo
atual de produção. Ao contrário, é preciso generalizá-la, fundando e organizando
sindicatos em todos os países. Por outro lado, os Sindicatos, sem que estejam
conscientes disso, chegaram a ser o eixo da organização da classe operária. “Se os
sindicatos são indispensáveis para a guerra de guerrilhas cotidianas entre o capital e o
trabalho, são também importantes como meio organizado para a abolição do próprio
sistema de trabalho assalariado”.
Papel dos Sindicatos
Nessa primeira fase de existência, o sindicalismo vai demonstrar que é um
instrumento indispensável para os assalariados. Com a expansão do capitalismo, que se
torna o sistema predominante a partir do século passado, os sindicatos vão se espalhar
pelo mundo. Deixam de ser um fenômeno na Inglaterra. Num processo dialético, em que o
capital impera, suas contradições aparecem, as lutas operárias têm início e,
conseqüentemente, surgem os sindicatos. Todos os avanços sociais, mesmo que
pequenos ou parciais, serão fruto dessa luta e da formação dos sindicatos. Nada será
dado de mão-beijada pelo capital; nada cairá do céu. Cada nova reivindicação
apresentada pelos trabalhadores representa, num primeiro momento, a redução da taxa
de mais-valia do patrão. Por isso, depende de luta, de pressão organizada. A história da
legislação trabalhista no mundo será a história da luta de classes, em que os sindicatos
jogarão um importante papel.

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marcando posição contrária à política de arrocho salarial e buscando construir junto aos operários as comissões sindicais de trabalhadores e trabalhadoras. tem logicamente desempenhado um papel importante na história política nacional. No entanto. Os trabalhadores e trabalhadoras enfrentaram. 04 a 10 de novembro de 2007.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG HISTÓRIA DO MOVIMENTO SINDICAL14 De 1964 aos nossos dias O golpe militar de 1964 colocou às escuras os movimentos sociais e grevistas que tiveram grande atuação no período 1959/1963. a luta sindical perdurou durante um grande período do pós-64 sem atingir plenamente os seus objetivos. em 1967.57 - . mesmo sobre forte pressão os trabalhadores e trabalhadoras se organizam e realizam. Mas. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). desde a instauração da ditadura militar no Brasil em 1964. O governo ditador procurou atacar as cúpulas dos sindicatos realizando intervenções nas organizações. SANTANA. fundada em 1937. com um forte sindicato. As ações do governo também se tornavam duras em relação a qualquer manifestação ou postura de contestação. afastando os seus dirigentes que. é importante registrar o papel que a União Nacional dos Estudantes (UNE) desempenhou nesse período. Em 1969. sobretudo. 2001. o Ministro Jarbas Passarinho através de um decreto intervém em vários sindicatos. a II Conferência Nacional de Dirigentes Sindicais. A UNE. As fortes repressões não permitiram que entre 1964 e 1977 houvesse praticamente nenhuma greve ou outras formas quaisquer de manifestação. com a greve dos trabalhadores e trabalhadoras da Belgo Mineira em Contagem-MG. e com os metalúrgicos de Osasco que. Em vários 14 Cartilha de Formação CNTE. desempenharam um papel importante na organização das ações dos trabalhadores e trabalhadoras. por mais “irrelevantes” que fossem. Jones Dori Goettert 15 Cf. O movimento dos trabalhadores e trabalhadoras organizados em sindicatos ainda conseguiu causar grandes problemas para os ditadores em 1968. uma forte repressão às organizações que lutavam contra as políticas salariais que arrochavam o poder de compra e as condições de vida de toda a classe. em sua opinião. quando as manifestações ganham as ruas e o interior das fábricas. mas sem eliminar totalmente o “germe” da subversão que se manteria vivo e crescente até o final dos anos 70. Essa situação de perseguição de lideranças e de intervenção nas entidades por parte do governo ditatorial continuou. Por outro lado. . não conseguiram disciplinar as entidades com a ordem social vigente15. mesmo com a manifestação contrária de alguns grupos de trabalhadores e trabalhadoras que paralisavam isoladamente algumas fábricas afrontando e contestando a política econômica do governo militar ditador. desmantelando as estruturas já construídas anteriormente e impedindo qualquer tipo de articulação dos operários que intuísse a formação de um grupo opositor organizado.

nenhuma melhora em suas condições de vida17. a diversidade interna dos grupos que a compunham. manifestações e organizações contrárias à ditadura. o assassinato. através da organização no “chão das fabricas” fazer frente ao processo de controle sobre o aumento de salários baseado no AI-5. em que o país viveu um momento político e econômico conturbado. sindicalistas. a violência sem limites. A posição da UNE frente ao governo continuou sendo a de desaprovação. em diversos casos. Apesar das suas várias tendências internas. mas comungando com os ideais de transformação social (o que pouco tempo depois colocaria a entidade na mira dos ditadores). a UNE se uniu aos demais oposicionistas à ditadura (como o PCB. 2001. a UNE procurava demarcar as suas posições ideológicas considerando. trilhando em conjunto o caminho da luta pela redemocratização. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). PTB. a ditadura militar demonstrava ainda mais sua truculência e arbitrariedade. Uma ordem que não trouxe para a maior parte da população. que procurava remodelar e enquadrar o movimento estudantil na “nova ordem social” ditada pelos militares16. FPN. é claro. mesmo que timidamente. práticas de repressão política contra todos aqueles que pudessem ser enquadrados ou que se caracterizassem minimamente como subversivos. à tortura e. mesmo durante esse período vários sindicatos tentaram. Ao fechar o Congresso e instituir um bi-partidarismo que forjava uma falsa idéia de democracia com o MDB como “oposição” consentida à ARENA. organizando manifestações e sofrendo uma violenta repressão como resposta. com a manifestação constante do operariado e com a insatisfação dos trabalhadores e trabalhadoras rurais exigindo reforma agrária. PSB. Suas práticas. já no máximo de sua condição de exploração e percebendo o momento 16 Cf. As greves começaram a ressurgir no ano de 1978. o AI – 5.5 instaurou a prisão arbitrária. firmou-se como uma entidade de força política na coordenação das mobilizações e ações dos estudantes. estavam institucionalizadas.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG momentos dessa história. um pouco distantes da dura realidade vivida pelos trabalhadores e trabalhadoras. Confederação Geral dos trabalhadores e trabalhadoras e as Ligas Camponesas). Já para os militantes de esquerda envolvidos em ações políticas. quando os trabalhadores e trabalhadoras. . partido do governo. principalmente num passado recente. Mas. orientar as bases para continuar reivindicando e se contrapondo às políticas de arrocho salarial. o AI . No período pós-60. agora. SEGAL. 1986. acentuou-se drasticamente com o Ato Institucional número 5.58 - . como inimigos da ordem estabelecida. e mesmo sendo formada em grande parte por estudantes de classe média. A perseguição e repressão sobre os estudantes. O AI-5 anulou o Estado de Direito no Brasil firmando um governo de direita autoritário. que claramente se posicionavam contrárias ao regime ditatorial militar imposto em 1964. 17 Cf. 04 a 10 de novembro de 2007. trabalhadores e trabalhadoras e intelectuais. e claramente para a grande parte da classe trabalhadora. SANFELICE. de 1968.

Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. que o movimento dos trabalhadores e trabalhadoras assume outros patamares. O movimento alastrou-se extrapolando o ABC e chegando a outros municípios como São Paulo e Osasco. O acontecimento primeiro desse período de grande movimentação foi à greve dos trabalhadores e trabalhadoras da Saab-Scania. estão ligadas não só à resistência política contra a ditadura. Os operários enfatizavam que a empresa não havia cumprido o acordo de readmissão de trabalhadores e trabalhadoras dispensados em protestos anteriores. 31. A partir de 1978. que também procurava abarcar outras questões. porque sem eles qualquer “abertura” ou “liberalização” apenas reconstruiria o círculo vicioso da crise do regime autoritário18. de democratização interna. os metalúrgicos. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). portanto. acabando por atingir outros setores da economia. em 1977. o ABC paulista. “o terreno de suas funções sindicais. mesmo assim os trabalhadores e trabalhadoras mantêm a posição e conseguem novas adesões ao 18 MOISÉS. de confronto com os limites impostos pelo autoritarismo no Brasil ao pleno exercício da cidadania dos trabalhadores e trabalhadoras.59 - . Estas manifestações continuariam crescendo durante o ano de 1979. As greves passaram a ter um crescimento anual considerável. lutam pela democracia: fala-se hoje. . de inserção no processo de luta da democracia. no Brasil. com início em 12 de maio de 1978. mesmo com a decisão do Tribunal Regional do Trabalho de considerar a greve ilegal. alcançando Minas Gerais. A greve estende-se para o interior e o governo a declara ilegal. mas também se contrapõem às investidas políticoeconômicas do capital que arrochavam os salários e aumentavam a exploração do trabalho. Com a greve iniciada em 1978 o movimento expande-se e ganha força em outros estados brasileiros. 1982. 04 a 10 de novembro de 2007. nos momentos de negociação de salários (a data base de cada categoria). envolvendo cada vez mais categorias de trabalhadores e trabalhadoras e tendo à frente os operários das fábricas produtoras de automóveis. SANTANA. e que tem o ABC paulista como palco inicial. No início de março de 1979.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG político favorável. abertamente. os trabalhadores e trabalhadoras do ABC entram em greve: são por volta de cinqüenta mil trabalhadores e trabalhadoras parados. e redefiniu-se em face do conjunto de agentes que. constitui-se um amplo movimento social de massas. Essas manifestações aconteciam e continuaram seguindo esta lógica durante algum tempo. além das salariais. O “novo sindicalismo” extrapolava. de forma a aumentar a participação e a atuação dos trabalhadores e trabalhadoras na política nacional. 2001. que os trabalhadores e trabalhadoras são a espinha dorsal do movimento democrático brasileiro”. Nascia o “novo sindicalismo”. é em seu “centro nervoso”. que passou a ser o momento mais propício para o enfrentamento político. As manifestações dos trabalhadores e trabalhadoras que se avolumam no final da década de 70. 19 Cf. começam a se manifestar e a exigir melhorias no salário que possibilitassem a melhoria das suas condições de vida e de trabalho. Contudo. p. indo além das questões trabalhistas dos primeiros movimentos e estabelecendo a bandeira da democratização política do país19.

A CUT tornou-se o inimigo número um das políticas governistas e se firmava como a Central que aglutina o maior número de entidades filiadas. sem explorados nem exploradores20. que colocavam em questão o regime de governo autoritário dos militares. dos 16 membros que a compunham. aglutinava as correntes sindicais mais ativas.60 - . que tem gravado em seu manifesto de fundação as idéias básicas de um projeto que visa à construção de uma sociedade igualitária. estabelecendo-se nesse período como uma importante organização política e social e fazendo frente de forte oposição ao governo Figueiredo e depois ao governo Sarney.PT.Central Única dos Trabalhadores. que viam o seu poder de compra diminuído a cada mês. nos anos 80. Será.CUT e o Partido dos Trabalhadores e trabalhadoras . sempre articulado a outras formas de luta organizada como os sindicatos e demais associações populares. criada em 1983. O PT levanta bandeiras que extrapolavam as questões salariais e que visavam transformações políticas e sociais bastante profundas. tem como pano de fundo o crescimento dos movimentos sociais organizados no Brasil e as intensas lutas dos operários do ABC paulista. declara a intervenção nos sindicatos e deflagra uma série de confrontos em praça pública entre trabalhadores e trabalhadoras e policiais. 04 a 10 de novembro de 2007. esta a tendência do PT: a busca da democracia plena exercida pela massa organizada e participativa. que era composta por 12 dirigentes sindicais. que se baseava de forma clara em um projeto político anticapitalista. e em alguns dias são mais de 170 mil trabalhadores e trabalhadoras parados. demarcando fortemente nesse período uma tendência ideológica socialista. sendo a participação dos sindicalistas o elemento fundamental para a formação e a caracterização do partido. assim como o crescimento do PT. É nesse momento de agitação e de organização dos trabalhadores e trabalhadoras que surgem a Central Única dos trabalhadores e trabalhadoras . no começo dos anos 80. então. é impulsionada pelo momento histórico-político de grandes 20 Cf. que continua nos anos 80 do século XX. O contexto de formação do Partido dos Trabalhadores. 2000. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). essa afirmação pode ser feita com base na análise da formação da primeira Comissão Nacional Provisória. A insubordinação dos sindicatos e o crescimento do movimento grevista. elaborando propostas que não convencem os trabalhadores e trabalhadoras. O governo. na esfera da política institucional. contudo. de 1979. O movimento continua até o dia 27 de março quando os trabalhadores e trabalhadoras resolvem aceitar a proposta feita pelo patronato. em especial. tiveram então como grande elemento aglutinador da classe trabalhadora a questão salarial.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG movimento que se espalha para o interior. A inflação crescente combinadas ao baixo rendimento dos salários deteriorava as condições de vida dos trabalhadores e trabalhadoras. sinalizando para uma nova forma de sindicalismo. Segundo Ozai da Silva (2000). Já a CUT . Com o passar de dias de greve o Ministério do Trabalho resolve intervir na negociação. ainda no regime militar. fazendo frente às políticas de degradação das condições de vida da classe trabalhadora. que estabelecia o prazo de 45 dias para negociação de um piso satisfatório. SILVA. A ascensão da CUT. O PT surge como instrumento necessário de organização e de luta dos trabalhadores e trabalhadoras na política nacional. .

Antes de prosseguirmos.br 23 A referência base das informações sobre a Força Sindical foi o site da Central. após o seu IV Congresso realizado em São Paulo. segundo informações em seu site. elaborando propostas de políticas que poderiam ser discutidas em fóruns que contassem com a presença de representantes não só dos sindicalistas. hoje abrange todo território brasileiro. a CUT procurou na década de 1980. capaz de endurecer quando preciso.000 trabalhadores e trabalhadoras (dos quais 30% são sindicalizados.CGT21. para Confederação Geral dos Trabalhadores e trabalhadoras. em 1986.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG transformações. A superação dessas formas de sindicalismo seria possível na medida em que se lançasse “o movimento dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiros à modernidade. Enquanto nesses países os sindicatos entravam em depressão por falta de participação e por perder poder político. A Força Sindical passou. segundo informações em seu site. . firmar um projeto de organização e ação dos trabalhadores e trabalhadoras. à CUT) e. O 21 Site: www.br 22 Site: www. inclusive em relação a alguns países na América Latina como a Argentina. classificado como “sindicalismo defensivo”.forçasindical. livre.000 filiados). mas também do governo e do empresariado. é uma sigla histórica. a CUT procurou estabelecer. aberta ao debate interno e com a sociedade”.org. sobre um sindicalismo de “conformismo paralisante”. foi criada em 1991 a partir de Congresso em São Paulo.056 entidades sindicais. a crítica recaia sobre um sindicalismo de “radicalismo estéril”23 (crítica. A Confederação Geral dos Trabalhadores . passou a Confederação Geral dos Trabalhadores e trabalhadoras. representados por: 1. a empreender esforços no sentido de pragmatizar as lutas com “conquistas reais para os trabalhadores e trabalhadoras”. de acordo com Alves (2000). no Brasil vivia-se o que se denominou a década de explosão do sindicalismo. em especial. com a implantação do modelo econômico neoliberal. em 1962. uma ação estratégica mais propositiva. o sindicalismo brasileiro caminha na contramão dos sindicatos no resto do mundo. Com uma atuação política constante. para Comando Geral dos Trabalhadores e trabalhadoras (esmagado pelo golpe de 1964). 04 confederações nacionais e 35 federações nacionais /regionais e estaduais A Força Sindical22. então. para Central Geral dos Trabalhadores e trabalhadoras (início da reestruturação) e 1988.669. por outro. com o fim da ditadura e com a crise do Estado e da economia hiperinflacionada. quando foi criada a Confederação Geral dos Trabalhadores e trabalhadoras Brasileiros passando por mudanças. De um lado.61 - . mas também de saber negociar. pluralista. em 1945. 04 a 10 de novembro de 2007.org. o que corresponde a 2. em 1991. para construir uma central forte.017 sindicatos de base. datando de 1929. filiadas que representam 8. Nesse período. A CGT. surge a partir de críticas ao sindicalismo em curso no Brasil.600. autônoma. com filiais em 21 Estados e conta com 1. é importante destacar a criação das duas outras maiores Centrais Sindicais brasileiras: a CGT – Confederação Geral dos Trabalhadores e trabalhadoras e a FS – Força Sindical. mantendo uma postura reivindicatória e que tinha como principal instrumento de ação e pressão e a greve.cgt. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Com as mudanças políticas e econômicas ocorridas até o começo dos anos 90.

ao conquistar uma capacidade de intervenção política inédita na história do país. Mesmo que o processo de surgimento e desenvolvimento do “novo sindicalismo” “não tenha sido suficiente para desmontar totalmente a estrutura sindical corporativa erigida desde os anos 30. a pluralidade e a democracia. os sindicatos viviam um processo generalizado de enfraquecimento”25. 1997. e o “1o de Maio pelo Brasil – por Emprego. suas lutas deixaram marcas”24 profundas. do judiciário. 04 a 10 de novembro de 2007. que se utilizava dos baixos salários pagos ao operariado como principal elemento da competitividade da indústria nacional. 17. p. O aumento de salário requerido pelos trabalhadores e trabalhadoras. nesse sentido. 25 LEITE. tendo em vista que suas bases fundamentais – como o imposto sindical. tornando-se um dos elementos mais importantes da constituição da hegemonia do capital sobre o trabalho nos anos 80 e 90 do século XX. A Força Sindical se assenta sobre um discurso que acentua o moderno. Essa reestruturação produtiva do capital que começava a se desenhar no Brasil nos anos 80 e que já estava a pleno vapor nos países de centro da economia capitalista. foram resultados dessa forma de se construir e de se fazer sindicalismo. começava a sofrer as transformações nas relações de trabalho e de produção que sinalizavam para transformações que iriam reestruturar o processo produtivo fabril. o princípio da unicidade sindical e a estrutura confederativa – foram mantidas. assim como “a luta pela aposentadoria. 1997. o monopólio da representação pelo sindicato. Na verdade. sobretudo o operariado fabril dos anos 80. embora a proposta pela qual os setores de ponta do sindicalismo vinham lutando ao longo de todos esses anos – de superação da estrutura sindical corporativa e de sua substituição por uma institucionalidade sindical democrática. baseada no contrato coletivo de trabalho – tivesse sido derrotada pelo empresariado e pelos setores mais conservadores do próprio movimento sindical. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). vinha a reordenar a organização e a gestão da produção fabril que até então 24 LEITE. Apesar do crescimento e da força do movimento operário dessa época. “que o movimento sindical brasileiro esteve na contramão da tendência histórica predominante durante a década de 1980. conseguia colocar seus produtos no mercado a um preço menor que os internacionais. portanto. . pelas grandes reformas – previdenciária. política. quando. o “1º de Maio pelo Emprego” em 1998. Essa reestruturação tinha como um de seus principais aspectos a inserção de novas tecnologias que visavam à diminuição quantitativa da exploração da força de trabalho e a verticalização da exploração qualitativa. não era visto como um bom negócio para o capital. ele permitiu um significativo aumento da liberdade de organização e ação sindical. Educação e Qualificação Profissional”. p. a Qualificação Profissional. agrária. Pode-se afirmar.62 - . Essa resistência dos trabalhadores e trabalhadoras ia de encontro às políticas de exploração do trabalho estabelecidas pelo capital industrial brasileiro da época. Com isso. em 1999.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Centro de Solidariedade ao (a) trabalhador (a). 17. fiscal e sindical e pela flexibilização das leis trabalhistas – dando-se status à negociação livre entre empregadores e empregados com o apoio dos sindicatos e das centrais”. em nível internacional. a classe trabalhadora.

e pela instalação de um governo civil proclamada como a retomada da democracia no Brasil. . Uma que tinha como candidato Luís Inácio “Lula” da Silva. esse era o começo da implantação da acumulação flexível baseada no toyotismo. a década foi também um período de inflação muito alta e de recessão econômica com aumento do desemprego. ex-líder operário e um dos fundadores do PT. Devemos lembrar que. fantoche criado pela burguesia e pelo poder político conservador e demais larápios nacionais. Implanta uma política de importação de bens de consumo e de produção. O processo de abertura da economia brasileira seguiu tornando-se mais agudo com os governos posteriores. dando os primeiros retoques para liberalização da economia ao iniciar o processo de privatização das empresas estatais brasileiras. de duas frentes bastante diferentes. no Brasil as transformações aconteceram rapidamente. que procurava fazer resistência à ação avassaladora do capital. Para os capitalistas. com a reformulação tecnológica de parques industriais em pouquíssimo tempo. Um dos mais importantes fatos desse momento foi. Nesse modelo o descontentamento e a organização dos operários era crescente. sindicatos e demais organizações. se esse movimento seguiu um processo temporalmente mais lento nos países de primeiro mundo. Mas o estrago já estava feito. era candidato Fernando Collor de Melo. colocando em risco o processo de acumulação e reprodução do capital. Mas. o novo presidente do Brasil. é marcado pelo fim da ditadura militar (1985). Em 1989 tivemos o enfrentamento. organização do processo produtivo criada no Japão e exportada como modelo para os demais países capitalistas. fatores que colaboraram para uma diminuição das ações reivindicatórias dos trabalhadores e trabalhadoras que se viam pressionados pelo crescente desemprego estrutural. É claro que os prejuízos desse processo foram transferidos para a classe trabalhadora. que mais uma vez se viu arcando com o ônus 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). o processo eleitoral que elegeria. no segundo turno. e que ganharia força no Brasil a partir dos anos 90. O desfecho não poderia ser pior: Fernando Collor de Melo é eleito presidente com o discurso da necessidade da abertura econômica. Esse novo arranjo do capital encontra ainda uma força de trabalho organizada. pelo voto direto.63 - . sem dúvida. possibilitando a luta dos trabalhadores e trabalhadoras concomitantemente às transformações. com a abertura e a liberalização da economia realizada por Fernando Collor de Mello. do outro lado. o ritmo de instalação das novas tecnologias foi bastante forte e agravado pela falta de condição e de tempo que os trabalhadores e trabalhadoras tinham para se contrapor a esse movimento. o período de 1980 a 1990. Uma das formas de resistência foi à proposição da instalação das Comissões de Fábrica e a intervenção sindical no processo de decisão da inserção de novas tecnologias no processo produtivo. É que. que contava com o apoio de uma ampla gama de organização dos trabalhadores e trabalhadoras. com amplo e irrestrito apoio da imprensa nacional (leia-se Rede Globo). procurando minimizar os danos e os prejuízos que o operariado sofreria com esse novo modelo de produção.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG estava montada totalmente nos moldes do esquema de produção taylorista/fordista. Por outro lado. 04 a 10 de novembro de 2007. Dois anos depois tem o mandato cassado por corrupção.

A partir de 1994. Neste novo contexto de reestruturação do capital mundial. gerando novos desafios para os quais o movimento sindical. ao abrir abruptamente a economia brasileira. impedindo que este tivesse qualquer benefício estipulado por Lei. as ações do governo FHC procurou estimular o surgimento de relações de produção. também. agora na era da mundialização dos capitais. 26 LEITE. As ações das instituições governamentais revelaram a face intervencionista das instâncias burocráticas do Estado. dentre outras ações. que se contrapunham às Leis Trabalhistas vigentes. a política adotada foi a de continuidade da implementação das políticas neoliberais iniciadas por Fernando Collor de Melo. tornou a relação entre capital e trabalho mais injusta no Brasil. garantindo às empresas maior flexibilidade no uso e desuso da força de trabalho.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG necessário a ser pago para o “bom desempenho” dos indicadores da economia nacional. Com as dificuldades políticas e econômicas conjunturais locais. Nesse sentido. sobretudo as regiões de grandes indústrias. As transformações do modo capitalista de produção têm se realizado no Brasil com mais força no âmbito da implantação de políticas de cunho neoliberal e procuraram. pp. diminuindo gastos na esfera social e contribuindo na soma das transformações estruturais do processo de produção capitalista em nível mundial. “A política econômica neoliberal inaugurada pelo governo Collor em 1990 jogou o país numa profunda crise recessiva. Conseqüentemente. um fenômeno que afetou e afeta. ao mesmo tempo em que. sem impedimento legal e reduzindo a contestação no campo institucional formal por parte dos sindicatos. favorecendo sobremaneira o primeiro. a situação do movimento operário muda significativamente com a chegada dos anos 90. privatizando as empresas estatais. tem-se um aumento da miserabilidade de grande parcela da população brasileira. como a automobilística. aumentando de maneira extremamente rápida os níveis de desemprego no país. de maneira geral. que de acordo com os princípios liberais não deveria intervir no movimento do mercado.64 - . diminuindo o consumo de produtos internos e desencadeando um processo gerador de mais desemprego. com o governo se empenhado em seguir amplamente a “cartilha” do Fundo Monetário Internacional. acabar com os “entraves” gerados pelas leis trabalhistas na relação Capital/Trabalho. 04 a 10 de novembro de 2007. mas o faz. não se encontrava preparado”26. Com a criação de contratos temporários que deixaram o trabalhador e a trabalhadora desprovidos de qualquer direito. houve um número crescente de trabalhadores e trabalhadoras brasileiros vivendo o drama do desemprego. que tem reflexos. . Mas. forçou as empresas a acelerar seus processos de reestruturação produtiva. Montado no discurso de geração de postos de trabalho. desde que seja para utilizar o poder político institucional para a otimização das condições de reprodução do Capital. A implementação pelo governo federal de um modelo político econômico centrado no neoliberalismo. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Fernando Henrique Cardoso. Isso acabou barateando o custo do Trabalho para o Capital. com a eleição do Presidente. noutras regiões e setores do país devido à implantação de políticas econômicas que abrem o mercado brasileiro para produtos externos. mais trabalhadores e trabalhadoras buscam na informalidade formas de ocupação. 17-18. 1997.

se refletindo no esvaziamento dos sindicatos. 04 a 10 de novembro de 2007. Os que continuam formalmente empregados passam. é no crescimento do desemprego. são vistos. tornou-se crescente o desemprego. O fenômeno crescente do desemprego e da precarização do trabalho. que são em sua maior 27 Cf. os pronunciamentos e as atitudes tomadas pelo governo. Assim. o discurso ideológico que sustentava as ações governamentais estava fundado no liberalismo econômico. o governo FHC sempre procurou justificar a aceitação do crescimento contínuo da precarização das relações de trabalho alimentando uma política de desregulamentação do mercado. do trabalho informal. a sofrer pressões sobre os seus salários e seus direitos trabalhistas. Esse fato pode ser constatado se analisarmos os projetos que visavam modificações nas leis que regiam os contratos de trabalho. no trato das questões relativas ao Trabalho e à economia informal. neste contexto de precarização das relações de trabalho. o que colabora para a degradação das condições de trabalho daqueles que continuam formalmente empregados. estimulando a ampliação das condições para o aproveitamento e exploração da força de trabalho. da desregulamentação e do desmantelamento do aparato institucional que garantia alguns direitos básicos à classe trabalhadora. . Enquanto o discurso oficial pregava a regularização e a regulamentação dos trabalhadores e trabalhadoras e das transações econômicas informais. 1998. corrobora sem disfarce à sua vinculação com o Capital. que precariza o emprego e. SINGER. longe de serem uma anormalidade pelas forças econômicas e políticas dominantes. reduz o poder de luta organizada da classe trabalhadora. contando muitas vezes com a participação de algumas organizações sindicais. ou que permitiam que houvesse contratos de trabalho que não atendessem aos princípios da legislação.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Nesse período. foram de estimular a informalidade e a precarização do trabalho. Desta forma. frente à “intempéries” do mercado e das investidas extremas de espoliação dos empregadores.65 - . Desta forma. para melhor colaborar com o atual contexto organizativo do Capital. como forma de evitar o aumento do desemprego. fica evidente o desmonte do já insuficiente aparato institucional de proteção ao trabalhador e a trabalhadora. que tem como diretriz a desregulamentação. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). que se reconfiguram modificando a legislação ou mesmo desobedecendo-a. O mesmo Estado que em outros momentos procurou mostrar-se como mediador ou imparcial frente ao confronto Capital X Trabalho. como conseqüências naturais da nova ordem política e econômica estabelecida para a organização e participação dos atores econômicos no mercado capitalista. ficou evidente uma outra contradição na forma de atuação do Estado. cuja existência passa a ser denunciada como obstáculo à expansão do emprego formal27. que de outra maneira só poderia ser conseguido com o crescimento econômico. Neste sentido. que se mostra o desgaste e a fragilidade das atuais formas de organização dos trabalhadores e trabalhadoras. até pelos discursos oficiais. Pautado em pressupostos liberais. conseqüentemente. Esta situação demonstra o poder de influência da classe dominante sobre os aparelhos do Estado.

pelos motivos aqui apontados. a precarização torna-se um elemento corrosivo da base sob a qual se assenta a legitimidade e representação dos sindicatos. em tese. também legalmente contratados como uma força conjunta frente ao capital. leva. o que tem impedido por vezes a participação conjunta de toda a classe trabalhadora em suas reivindicações. informais. sobretudo no que diz respeito aos direitos trabalhistas conquistados através da luta organizada. As greves. No aumento da informalidade e de seus efeitos sobre os sindicatos. ou não tornam interessante. pareça não dizer respeito a outras categorias de trabalhadores e trabalhadoras. é que os sindicatos perdem atualmente o seu poder de representação. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). uma categoria específica e não a todos os trabalhadores e trabalhadoras. seja pelo desemprego ou pela informalidade.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG parte sindicatos que organizam. organizar os trabalhadores e trabalhadoras que estão fora do mercado de trabalho formal. já que os desempregados e os trabalhadores e trabalhadoras precarizados. pois como sabemos os sindicatos acabam por representar um fragmento da classe trabalhadora. a maior exposição de algumas categorias de trabalhadores e trabalhadoras às investidas dos capitalistas no sentido de diminuir o custo do trabalho. ou no não-enfrentamento por parte destes das atuais condições de exploração do trabalho. e não um projeto de organização dos trabalhadores e trabalhadoras para o enfrentamento da atual política econômica. em grande medida. como não poderia deixar de ser. os sindicatos. Logicamente. Com o aumento do desemprego e da informalidade do trabalho tem uma diminuição considerável de sua base de representação. Há uma preocupação maior em reintegrar o desempregado ao mercado de trabalho. 04 a 10 de novembro de 2007. Esta fragmentação colabora para que os problemas enfrentados por determinada categoria que cumpre sua função na divisão social do trabalho. temos que considerar a fragmentação existente entre os sindicatos instituídos de acordo com a categoria de trabalho. E por estar organizado política e estruturalmente desta forma fragmentada e institucionalizada. tem se refletido nas atuações dos sindicatos. como acontece atualmente com os metalúrgicos do ABC.66 - . que privilegia a dimensão de categoria e profissional. a representatividade sindical é corroída à medida que sua pretensão de falar pelo mundo do trabalho ou ao menos de sua parcela majoritária torna-se crescentemente insustentável. A diminuição da participação dos trabalhadores e trabalhadoras nos sindicatos. . estes trabalhadores e trabalhadoras. estão fracionados para representar as diferentes categorias. representam e defendem os direitos de determinada categoria28. com o enfraquecimento da entidade representativa. têm deixado de ser um instrumento de luta dos trabalhadores e trabalhadoras frente ao Capital para passar a 28 Atualmente os sindicatos têm lutado muito mais para a manutenção do emprego do que por melhorias nas condições de trabalho e de salário. organizando. somada à insegurança no emprego gerada pela reestruturação produtiva. que tem no avanço tecnológico uma maneira de poupar quantitativamente a força de trabalho. Combinada a terceirização ao desemprego. Todo esse novo contexto. que por serem reconhecidamente institucionais trabalham dentro de normas que não permitem. Como instituição. estão fora da sua área de atuação legal.

Essa última greve também contou com a participação ativa de vários setores: os metalúrgicos e trabalhadores e trabalhadoras da indústria automobilística e química. enquanto forma de organização unificada dos trabalhadores e trabalhadoras. o número de grevistas nesta greve dobrou em relação à de 1987. apresentar com maior profundidade a atuação da CUT nas décadas de 1980 e 1990. em protesto contra o Plano Cruzado II. nas técnicas utilizadas nas fábricas japonesas e que correspondiam melhor as vontades do capital internacional. BOITO. Ao todo foram quatro greves gerais nesse período. A primeira acontece em 1983. de manutenção de empregos e de alguns dos direitos conquistados historicamente. tendo a participação de dois a três milhões de trabalhadores e trabalhadoras.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG realizar ações. sobretudo. organizando as greves gerais em oposição às políticas adotadas pelo governo brasileiro. chegando a vinte milhões de trabalhadores e trabalhadoras29. os professores da rede pública de ensino federal e estadual. de maneira a incorporar as novas tecnologias nos processos produtivos e implementar novas formas de gestão e controle da produção baseadas. 04 a 10 de novembro de 2007. colocando em questão o controle exercido durante todo período de implantação do capitalismo industrial no Brasil. . A terceira greve geral comandada pela CUT realizou-se em 1987. Necessário se faz. que nesse período também sofria as conseqüências das ações políticas e econômicas comandadas pelo governo. A segunda aconteceu em 1986.67 - . que visavam dar maior espaço e criar melhores condições para o desenvolvimento capitalista no Brasil30. O sindicalismo do Brasil nos anos 80 inovava nas suas reivindicações pela criação das comissões de fábrica e desafiava o capital. 30 Cf. que o surto de reestruturação produtiva no Brasil sofre um novo avanço. particularmente contra o fim do congelamento de preços. em pleno regime militar e protestava contra um decreto que modificava a política salarial. Adotava uma postura oposicionista franca e direta de maneira a construir uma estratégia sindical combativa em relação à política pró-monopolistas. 29 Cf. ainda. o Plano Verão. A CUT. contrapondo-se ao Plano Bresser e que tinha como motivação as modificações nas políticas salariais. É justamente no período dos anos 80. entre outros. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). semana de quarenta horas e estabilidade de emprego. que modificava a política de indexação dos salários. protestando contra mais um plano de estabilização do governo. como temos visto nos últimos anos. reforma agrária. As greves gerais arquitetadas pela CUT resultaram em fortes movimentos de contestação e foram de grande importância política. A principal característica da greve foi a de ser uma reação ofensiva da classe trabalhadora brasileira no sentido de se contrapor às investidas do capital e conquistar direitos para a classe trabalhadora. que procurava a manutenção do controle sobre o trabalho no lugar da produção. 2000. teve grande expressividade no movimento operário dos anos 80. ALVES. 1999. mas o movimento dava também ênfase a palavras de ordem como: não ao pagamento da dívida externa. composta nesse período pelas correntes sindicais mais ativas. pró-imperialistas e pró-latifundiária do governo. A quarta greve aconteceu em 1989. os petroleiros. principalmente em relação às greves.

conseqüentemente. é eleito também um projeto neoliberal para a política econômica brasileira. Essa crise da organização sindical brasileira acabou por colaborar para a instauração do novo modelo político e de acumulação. ou na intenção de manter os empregos existentes. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). o sindicalismo classista e unificado que havia sido obstáculo durante os anos 80. pois. do que movimentos de reivindicação e de tomada de controle do processo produtivo ou de contestação ideológica. nos anos 90 desarticula-se e se torna debilitado em sua capacidade de movimentação e organização da classe trabalhadora.68 - . Um projeto que visava criar as condições para instauração do neoliberalismo e que. Tais fatores. tem colaborado para a precarização das relações de trabalho no Brasil e. a luta sindical.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG A partir dos anos 90. 04 a 10 de novembro de 2007. apoiado pelas políticas do governo nacional que estimulou e legalizou a precarização das relações de trabalho. o aumento das importações. As greves deste período foram muito mais na busca de manter os direitos sociais conquistados historicamente. para o enfraquecimento das formas organizativas e de luta da classe trabalhadora. Com a vitória de Fernando Collor de Mello nas urnas e pelo voto popular. . e logicamente a CUT. são produtos conhecidos e visíveis desse processo de liberalização da economia. somados à reestruturação do processo produtivo com base na aplicação de novas tecnologias. continuou a ser orquestrada pelos seus sucessores Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso. mesmo com a saída vergonhosa de Collor via Impeachment. participam de um novo contexto histórico e social no Brasil. o desmantelamento do parque industrial nacional e o crescimento da miséria e do desemprego. o que permitiu uma investida mais dura do capital sobre os trabalhadores e trabalhadoras. A abertura da economia para o capital estrangeiro.

Quanto à Sociedade e ao Estado. étnicas. é reveladora do grau de desenvolvimento da luta de classes. que significa “contra o governo. de gênero. raciais. de visões de mundo e de projeto de sociedade. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). disposto a lutar de forma unânime pelas mesmas bandeiras. AS PRINCIPAIS IDÉIAS DO ANARQUISMO Anarquismo vem da palavra grega ANARQUIA. mais também. Esperamos que estes textos estimulem aos participantes do 1º Curso da ENFOC.69 - . econômicas. Inclusive. luta não apenas por melhores salários. politicas.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG CONCEPÇÕES E CORRENTES SINDICAIS NO BRASIL Amarildo Carvalho de Souza e Domingos Corcione A trajetória das concepções e correntes políticas que constituíram e constituem o movimento sindical brasileiro. muitas vezes distintos. A reflexão e aprofundamento dessas concepções e correntes. aliás. A classe trabalhadora. no campo e na cidade. constituem-se em espaços privilegiados de enfrentamento de interesses. pela superação das desigualdades sociais. mais que isso. e de geração. 04 a 10 de novembro de 2007. Foi feita a opção de nos debruçar sobre 04 concepções e correntes. na perspectiva de uma maior compreensão da trajetória e contemporaneidade do sindicalismo no Brasil. melhoria e desenvolvimento do capitalismo”. no campo e na cidade. existem segmentos que muitas vezes expressam programas de “conservação. no campo e na cidade. Os trabalhadores e trabalhadoras não são um todo homogêneo e monolítico. os Anarquistas defendiam as seguintes idéias:  O capitalismo deve ser derrubado e. . revela o grau de independência e maturidade política da classe trabalhadora brasileira. como alternativa. refletir e compreender as ‘idéias’ que promoveu a constituição e consolidação do movimento sindical brasileiro. Nesse sentido. construída ao longo dos seus 43 anos de existência. a autoridade e a dominação”. a pesquisar. Existem diferentes níveis de consciência de classe. A ENFOC não se propõe a aprofundar todas as concepções e correntes politicas. deve ser implantado o socialismo. as organizações sindicais e os movimentos populares. parte da identidade política do Movimento Sindical dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais.

coordenadas a partir de centros de produção dos trabalhadores e trabalhadoras organizados em sindicatos. sempre preservando a autonomia de cada organização e evitando qualquer tipo de centralização que venham a prejudicar a participação direta dos trabalhadores e trabalhadoras em todas as decisões.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG   O socialismo deve ser democrático. Quanto à concepção e à prática sindical. possibilitando a mais completa democracia. Deve organizar somente os trabalhadores e as trabalhadoras. formar sua consciência política. parlamento. Os anarquistas assumiam uma posição antiparlamentarista e antipartidária.que foram seus primeiros idealizadores . como classe que se opõe à classe dos patrões. Devem ser organizados a partir do local de trabalho e implementar as lutas reivindicatórias. Promover atividades culturais. pois são um mal e uma fonte de opressão. Os anarquistas eram contrários à liberação de dirigentes sindicais. as eleições e a Igreja. onde todos tenham condições de participar. visando organizar a greve geral. . levando-as sempre mais adiante. Devem ser organizados em pequenos grupos de fábrica ou por ofício.e de outros seguidores.70 - . que possam favorecer a conscientização dos trabalhadores e trabalhadoras. poder judiciário. É preciso lutar contra o Estado (governo. na França.. Pregavam a revolução proletária. Devem priorizar a ação direta (mobilizações. Não consideravam a aliança com a classe média. os anarquistas tinham posições bem definidas. dispostos a assumir a liderança na luta pelo socialismo. a auto-gestão e o internacionalismo proletário. Bakunin32 . sustentados exclusivamente pelos trabalhadores e trabalhadoras. Deve organizar os trabalhadores e as trabalhadoras. boicotes. que derrubará o sistema capitalista. greves). sem nenhuma interferência do Estado. polícia. em formas federativas ou em confederações: em nível local. Por meio de Proudhon31. Para eles os sindicatos:           Devem ser a arma principal de luta para derrubar o capitalismo e implantar o socialismo. estadual e nacional. forças armadas. formado por comunidades independentes.). o socialismo sem classes e sem Estado. 04 a 10 de novembro de 2007. 31 Precursor do anarquismo enfatizava o respeito à pequena propriedade.. Devem ser formados somente por trabalhadores e trabalhadoras conscientes. Devem se unir segundo os ramos de produção. propondo a criação de cooperativas sem fins lucrativos voltadas para o auto-abastecimento e de bancos que concedessem empréstimos sem juros aos 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). O ANARQUISMO NO MUNDO O anarquismo se iniciou na metade do século XIX. Devem ser autônomos e livres. descentralizado.

portugueses. tendo como objetivo a ajuda mútua. atribuindo um papel político e revolucionário ao cooperativismo rural. depois. empreendimentos produtivos e crédito gratuito aos trabalhadores. A expansão do anarquismo foi rápida nas grandes cidades brasileiras. perante a sociedade da qual fazem parte. nas primeiras décadas do século XX. e das decisões dos congressos operários. italianos. O Congresso fundou a Confederação Operária Brasileira (COB). Suas propostas de supressão do Estado e de todas as formas de repressão encontraram receptividade entre os trabalhadores e trabalhadoras. serem responsáveis primeiramente perante si mesmos. afirma que "A liberdade é o direito absoluto de todo homem ou mulher maiores de só procurar na própria consciência e na própria razão as sanções para seus atos. Essas famílias formaram comunidades com ideais libertários e constituíram as primeiras cooperativas. sendo substituído por uma "república de pequenos proprietários" organizada num sistema federativo. eleitos por 28 organizações operárias de todo o País.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG se expandiu para a Rússia e para toda a Europa. O importante é a ação direta da classe operária. greves e outras formas diretas de luta. sem passar pela intermediação parlamentar: priorizar boicotes. com 43 delegados. em estreita relação com a luta e o projeto político revolucionário. mais precisamente no Paraná e posteriormente em Santa Catarina e Rio Grande do Sul. da imprensa. por meio de imigrantes espanhóis. em conseqüência. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Foram muitas as cooperativas e outras organizações de caráter cooperativo criadas pelos anarquistas.71 - . Dizia que o Estado deveria ser destruído. num contexto em que o jogo político era exclusividade das oligarquias e inexistia qualquer proteção ao trabalho. O sindicalismo deve ser de resistência e não assistencialista. dos panfletos. 04 a 10 de novembro de 2007. As teorias e táticas do anarco-sindicalismo foram difundidas por meio de livros. É preciso combater as visões reformistas dos agentes do Governo e da Igreja Católica. quando varias famílias de imigrantes italianos chegaram ao sul do país. A DIFUSÃO DO ANARQUISMO NO BRASIL As idéias anarquistas. começaram a ganharam força no Brasil nas últimas décadas do século XIX. com a condição de que consintam livremente dela fazerem parte". de determiná-los apenas por sua própria vontade e de. AÇÃO DOS ANARQUISTAS NOS SINDICATO Em 1906 houve o 1º Congresso Operário Brasileiro. As propostas vencedoras do Congresso e a linha predominante da COB eram da corrente dos anarquistas:     A organização dos operários deve ser federativa e não centralizada. até chegar aqui no Brasil no final do século XIX. 32 Outro precursor do anarquismo. apesar de já estarem presentes em alguns segmentos da sociedade brasileira. mesmo enfrentando problemas econômicos e repressão. franceses e belgas. particularmente na Itália e na Espanha. seus principais veículos. O anarco-sindicalismo influenciou também o campo. .

acabaram sendo poucos os jornais anarquistas que chegaram a publicar mais de cinco números. os anarco-sindicalistas entendiam que “a ação direta deveria ser a grande bandeira do sindicalismo revolucionário".72 - . por meio de sua própria experiência. com o desmantelamento da própria COB.greve. Esse jornal continuou irregularmente até 1920. Por isso. que iludiam trabalhadores e trabalhadoras nacionais! Desde o início dos anos ’30 as principais categorias de trabalhadores e trabalhadoras do Estado de São Paulo estavam organizadas em sindicatos.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Como se viu acima. A justificativa utilizada para a aprovação dessa lei repressiva era evidente: o movimento operário estava sendo controlado por lideranças estrangeiras radicais. cada ação direta . Havia duas federações estaduais:   A Federação Operária de São Paulo (FOSP). Essa conclusão partia da seguinte convicção: cada ação direta é uma batalha na qual o proletário conhece as necessidades da revolução. etc. sob a influência anarco-sindicalista. que foi obrigado a enfrentar grandes desafios. sabotagem. que legitimava a deportação sumária de lideranças envolvidas em “distúrbios da ordem” e o fechamento de organizações operárias. Em 1921 foi aprovada a Lei de Expulsão dos Estrangeiros. A greve de 1917 foi comandada pelos anarquistas. Depois da greve. que não contavam com bases expressivas na capital). . 04 a 10 de novembro de 2007. boicote. os capitalistas. e se prepara para a ação final. (sindicatos de cidades do interior. Como era ainda um número reduzido e não possuíam muitos recursos econômicos. a greve geral que “destruirá o sistema capitalista”. A destruição de equipamentos tocaria no ponto fraco do sistema. Everardo Dias e Edgard Leuenroth. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). houve anos difíceis para o movimento operário. A sabotagem – por exemplo . A Federação Sindical Regional de São Paulo (FSRSP). A maioria de jornais da época atestou a força e organização dos anarquistas do Brasil. Os primeiros jornais anarquistas e anarco-sindicalistas tentaram se sustentar apenas com as contribuições dos militantes. Como principais divulgadores do ideário anarquista destacaram-se José Oiticica. . contra seu inimigo comum. Os principais alvos passaram a ser os anarquistas. isto é. Essa concepção e as práticas dela decorrentes se constituíam numa das características diferenciais do anarco-sindicalismo em relação a outras correntes e formas de ação do sindicalismo brasileiro. Isso não quer dizer que não havia outros grupos políticos que dividiam com eles a liderança do movimento operário. apesar de alguns avanços em termos de legislação social. O principal foi o recrudescimento da repressão por parte do governo. O anarco-sindicalismo – assim como o anarquismo em geral – considerava que nas ações diretas seria legítimo o uso de um certo tipo e grau de violência. dirigida pelos comunistas. pois as máquinas são de mais difícil substituição do que os trabalhadores e as trabalhadoras. no caso em que ele não pudesse entrar em greve.era vista como especialmente eficaz para o proletariado. A partir de 1908 a COB publicou seu jornal nacional “A VOZ DO TRABALHADOR”.era considerada um meio dos trabalhadores e trabalhadoras aprenderem a agir de uma maneira solidária em sua luta por melhores condições de trabalho. com o maior número de sindicatos e algumas categorias mais importantes da capital paulista.

Em organizações sociais – de ambientalistas. que se expandia e se consolidava no Brasil. TRAJETORIA DO SINDICALISMO “AMARELO” OU “PELEGO”. foi crescendo a influência dos comunistas no movimento sindical. Nesses grupos ou reuniões podem até aparecer divergências . essa posição os levou ao isolamento político e contribuiu – no contexto das crescentes dificuldades relativas à sobrevivência dos sindicatos livres – para sua perda de influência no movimento sindical. Esse é o aspecto político e social mais profundo da questão: o “pelego” é o agente dos patrões e do Estado no movimento sindical. O sindicalismo “amarelo” ou “peleguismo” é um fenômeno antigo no sindicalismo brasileiro. pela OMC e pelo BID.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Durante toda a década de 1930 os anarco-sindicalistas foram à única corrente sindical que se manteve irredutível na defesa da organização autônoma dos trabalhadores e trabalhadoras. 04 a 10 de novembro de 2007. assim como na oposição ao sindicalismo corporativista.. jovens.entre os próprios anarquistas ou entre eles e as demais correntes. Os anarquistas podem ser vistos também:   Em manifestações realizadas para expressar insatisfações e protestos contra reuniões e encaminhamentos promovidos pelo grupo de países mais ricos (G 08). que continua sendo ativo até hoje.mas eles têm um ponto em comum: a luta contra qualquer sistema opressor. suas idéias continuam vivas em vários segmentos da sociedade. ONDE ATUAM HOJE OS ANARQUISTAS? Apesar da reduzida presença de anarquistas no sindicalismo. inclusive entre trabalhadores e trabalhadoras. no Brasil e no mundo. . Existe uma carência de informações relacionadas com o anarquismo e sua atuação na atualidade. Contudo. com a implantação da Estrutura Sindical – que tinha o Estado como seu principal regulador . para os quais o sindicato tem apenas um papel assistencialista e de intermediário legal nas relações entre o capital e o trabalho. refletindo a forte influencia de patrões e do Estado no movimento operário. organizações sociais e sindicais. Enquanto a força dos anarquistas foi diminuindo.a corrente anarquista foi perdendo cada vez mais expressão e presença no movimento sindical.73 - .. devido à ausência de registros mais precisos. É constituído por uma enorme massa de dirigentes burocratizados. de mulheres. Desde os anos ‘80 foi identificado em muitas atividades de massa o movimento anarco-punk. quanto às estratégias de luta e à maneira de atuar . 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Mais tarde.

2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). interessada em obter conquistas específicas como diminuição da jornada de trabalho e aumentos salariais. de tendência reformista. Já nos primeiros anos da década de 1940 o Estado Novo mostrava seus primeiros sinais de debilidade. baseado na luta entre classes inimigas. isto é. À medida que o Ministério do Trabalho intervinha nos Sindicatos. A criação do Imposto Sindical era o que faltava para garantir a imensa estrutura – com médicos. eram tratadas de forma exclusivamente repressiva. em prejuízo da autonomia da classe”. Esses grupos preocupavam-se ainda em garantir o reconhecimento dos sindicatos por parte do Estado. Principalmente os setores cujas atividades eram indispensáveis para a exportação do café. tinham prontamente atendidas suas reivindicações. Os Sindicatos “amarelos” passaram a ser ainda mais favorecidos pelas vantagens concedidas pelo Estado.74 - . como historicamente foi feito nas décadas anteriores”. escolas. Os grupos revolucionários os chamavam pejorativamente de "amarelos". “o sindicalismo brasileiro deve ser corporativo. existentes durante o Estado Novo –. . pois organizou um congresso com representações sindicais. não revolucionária. dado seu caráter secundário na economia agro-exportadora. dentre outras coisas. Em que pese a forte presença dos anarquistas e. Mas foi durante a década de 30 que os pelegos conseguiram as condições mais favoráveis para se eternizarem nas direções sindicais. consequentemente. Federações e Confederações e destituía suas direções. Foi criada também a Confederação Sindicalista Corporativista Brasileira.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Já em 1908 o jornal anarquista “A VOZ DO TRABALHADOR” órgão da Confederação Operaria Brasileira – COB definiu-os como “operários que bajulam os potentados. O presidente Hermes da Fonseca. uma vez que sua paralisação estrangularia a economia. o sindicalismo amarelo passou a ficar na defensiva. “Pelego”. consolidou a seguinte concepção. Já as categorias vinculadas à indústria. Em 1921 o Estado fundou o Conselho Nacional do Trabalho. visando controlar os sindicatos e torná-los órgãos de conciliação entre as classes. deixou de significar a manta colocada entre o cavalo e a sela para amortecer os solavancos e passou a ser sinônimo de sindicalista acomodado e comprometido com os patrões e o governo. desenvolveu a primeira ação concreta para uma intervenção governamental nas decisões das organizações de trabalhadores. como ferroviários e portuários. em 1912. mais que teve grandes conseqüências. Lembre-se aqui a afirmativa do Presidente Washington Luís de que “a questão social era simples caso de policia”. O chamado Estado Novo. 04 a 10 de novembro de 2007. os pelegos eram indicados para dirigi-las a partir das orientações governamentais. um sindicalismo que concilie patrões e operários e não um sindicalismo revolucionário. dentre outras – criada naqueles sindicatos em que o pelego era sua representação maior. Particularmente no Rio de Janeiro era bastante influente essa corrente política moderada. os amarelos ou pelegos representavam à maioria dos dirigentes na época. dentistas. posteriormente dos comunistas e socialistas nas direções dos sindicatos. Com a extinção do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) e do Tribunal de Segurança Nacional – organismos de repressão ideológica e política. esse segmento conservador encontrou ainda mais dificuldades.

procurando coibir as ações autônomas e independentes dos trabalhadores e trabalhadoras. um grupo de sindicalistas que se autodenominavam ‘autênticos’. a exemplo da CONTAG. da Organização Regional Interamericana do Trabalho – ORIT. decretou a intervenção e suspensão das eleições sindicais. num dado momento. uma modernização conservadora.anistia aos exilados políticos. Além de receberem todos esses apoios financeiros. dominada há décadas pelo pelego Ari Campista. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Dutra proibiu a existência do Movimento Unificado dos Trabalhadores (MUT). abraçou o mesmo projeto. Apesar dessa hegemonia.estimulou o sindicalismo pelego a um processo de auto-reforma. 04 a 10 de novembro de 2007. da confluência de duas atuações sindicais que vivenciaram trajetórias distintas e que. no Brasil. As transformações mais recentes ocorridas nos anos 1980 . dentre outros organismos sindicais internacionais ligados ao governo norte-americano. que penetrou também no movimento sindical em nosso país. Esse sindicalismo foi modificando sua forma de ser. uma nova direita no movimento sindical.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Uma O avanço das lutas operárias foi freado com o golpe e o governo do Marechal Dutra. inicialmente.combater o ‘peleguismo’ das Confederações Nacionais. denunciaram a direção pelega da CNTI e apresentaram uma “Carta de Princípios”. A retomada das lutas politicas e sindicais no início dos anos 1960 recolocaram os pelegos na defensiva. objetivava . colocou na ilegalidade o partido comunista. que se tornou a principal referencia para a retomada das entidades sindicais operarias. Tudo isso facilitou que os pelegos retornassem às direções dos sindicatos mais importantes do país. fim do bipartidarismo. eleições diretas. A fundação do Comando Geral dos Trabalhadores (CGT). os pelegos receberam apoio financeiro da Confederação Internacional das Organizações Sindicais Livres – CIOSL. que em 1964 teve sua presidência ocupada por um deles. O assistencialismo foi mantido e. por exemplo. O SINDICALISMO DE RESULTADOS E FORÇA SINDICAL O sindicalismo de resultado nasceu. Assim formou-se. assembléia constituinte . Durante este período. muitos dirigentes pelegos tornaram-se interventores do Ministério do Trabalho durante o governo militar. especialmente da CNTI. em julho de 1978. distinta do velho ‘peleguismo’ e perfeitamente inserida na onda neoliberal. Dentre outras medidas.75 - . na segunda metade da década de 1980. os pelegos voltaram a ter hegemonia e domínio sobre os destinos do sindicalismo brasileiro. fortalecido na grande maioria das entidades sindicais. durante o congresso promovido pela Confederação Nacional dos Trabalhadores na Indústria – CNTI. para permanecer como órgão de controle sindical e político.dentre outras coisas . Alguns dos pontos centrais do seu ideário são:  Reconhecimento da vitória do capitalismo e da inevitabilidade da lógica do mercado. . Referimo-nos à confluência da atuação de amarelos ou pelegos com a ação de líderes sindicais pragmáticos.

portanto..76 - . Foi a Força Sindical que introduziu a prática recorrente de um 1° de maio como um circo para os trabalhadores e trabalhadoras. Por isso. 04 a 10 de novembro de 2007. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE).aliados a uma estratégia que recusa o confronto e procura extrair resultados imediatos nas ações sindicais. Atribuir o papel da ação política exclusivamente aos partidos. contando com o apoio de cerca de 300 sindicatos. qual é o objetivo do sindicato? É lutar para vender a mão-de-obra pelo preço mais alto possível. Essa doutrina passou a se diferenciar tanto dos reformistas. in Jornal dos Trabalhadores Rurais SEM TERRA Ano XXIV – numero 252 – maio de 2006. em entrevista à Folha de S. dizíamos.caminha no sentido de consolidar o sindicalismo de resultado: um sindicalismo que projete “que todos (os trabalhadores) necessitam. É a política de pão e circo. E quanto ao papel dos sindicatos: “O sindicato é um fator de mercado e deve.conformaram uma feição neoliberal e burguesa no seio do movimento sindical brasileiro. Que fazem sucesso freqüentemente pela música de baixíssima qualidade e doam apartamentos. a Central organiza grandes manifestações. . reduzindo apenas sua ação a uma linha política privatizante. não cabendo aos sindicatos extrapolarem este âmbito da luta. eletrodomésticos”33. carros. duas confederações e vinte federações – fundada no início de 1991 . Para atrair um grande público. os sindicatos passaram a ser vistos como instrumentos que devem contribuir para a luta revolucionária do proletariado pela tomada do poder político. Pois. A Força Sindical. Eu diria que todo sindicato que se preze faz parte da reprodução capitalista. que pregam 33 Ricardo Antunes é professor livre docente em sociologia do trabalho na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). é algo muito distinto do peleguismo (sempre atrelado ao Estado e dele porta-voz) e conforma o que caracterizamos como sendo a nova direita no movimento sindical. Se crio o mercado interno estou fortalecendo o nosso capitalismo”. ALGUNS REFERENCIAIS TEÓRICOS DO COMUNISMO Com base no assim chamado “socialismo científico” no final do século XIX. calculadas para que não extrapolem o âmbito da negociação . “Estamos procurando caminhos novos.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG    Restringir a luta sindical à busca de melhorias nas condições de trabalho. e exigem uma central sindical que não seja ‘revolucionarista’”. Diminuir o papel do Estado. Paulo (20/08/87): “Eu acho que o capitalismo venceu no Brasil. tendo a frete Karl Marx e Friedrich Engels. que devem estar totalmente desvinculados da ação sindical. Este é o âmbito e o campo ideológico onde o sindicalismo de resultados opera e atua. Estes pontos básicos . chama artistas da indústria cultural.. valorizar o preço de mãode-obra”. Conforme disse Luís Antônio Medeiros. Eu quero a divisão das riquezas e a minha briga não é pela mudança do regime”.

Dos sindicatos nascem precisamente os impulsos espontâneos dos operários para eliminar.. como das anarquistas. Mas a força do número se quebra pela desunião.. 04 a 10 de novembro de 2007. Acompanhando a evolução do sindicalismo. Partindo desse princípio norteador. Marx diz: “O capital é o poder social concentrado. preparando para as novas batalhas. Mostra apenas suas limitações e prega a transformação da luta econômica em luta política pela tomada do poder. que devem ser “escolas do socialismo”. dos operários aristocratas ou operários aburguesados”. acumular forças. Por isso. usando a força organizada como alavanca para a libertação definitiva da classe operária”. A divisão dos operários é produto e resultado. portanto. as correntes que encaram os sindicatos nos estreitos marcos corporativos. uma greve por interesses imediatos. Seu objetivo imediato “concretiza“concretiza-se nas exigências do diadia-adia.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG mudanças graduais no capitalismo.garantindo sua taxa de maisvalia. “os sindicatos sindicatos são indispensáveis para a guerra de guerrilha cotidiana entre o capital e o trabalho”. a fim de conseguir melhores condições que os coloquem ao menos em situação superior à de simples escravos”. enquanto o operário só dispõe da sua força de trabalho. Outra característica da corrente marxista é a defesa da unidade dos trabalhadores. Marx vai perceber a miopia economicista e apontará qual deve ser a tarefa maior dos sindicatos no capitalismo. sobretudo. Para essa concepção. nos meios de resistência contra os incessantes ataques do capital”. não se limitando a uma visão economicista. o marxismo vai fazer esforços no sentido da unidade dos trabalhadores. “Os sindicatos trabalham bem como centros de resistência contra os ataques do capital. a greve deve ter como principal objetivo organizar os trabalhadores. erram o caminho porque se limitam a uma guerra de guerrilhas contra os efeitos do sistema existente. ao mesmo tempo. que negam a luta política pelo poder. como centros organizadores do proletariado.77 - . Do lado do operário sua única força é o número. deve ser rejeitada. Mas a concepção Marxista vai além. . o marxismo condena as tentativas de dividir as organizações sindicais por motivos políticopartidários ou religiosos. Para Marx. que coloquem em risco a organização dos trabalhadores e trabalhadoras. Isso não significa que o marxismo negue a luta econômica. “Não atuar no seio dos sindicatos reacionários significa abandonar as massas operárias insuficientemente desenvolvidas ou atrasadas à influência de líderes reacionários. Os teóricos do comunismo vêem os sindicatos. o marxismo condena o economicismo. Ele aponta que a greve não deve ser vista como a única arma de luta dos trabalhadores e trabalhadoras. ou pelo menos reduzir essa concorrência. dos agentes da burguesia. Aponta outros objetivos da atividade sindical. Entretanto. principalmente o da Inglaterra. Mas demonstram ser partes ineficazes em virtude do mal compreendido uso de sua força. da inevitável concorrência entre eles próprios. Em geral. Para Lênin. Exatamente por isso. o marxismo não adota a mesma visão dos anarquistas nessa questão. já que o capitalismo tem capacidade para assimilar as pequenas melhorias salariais . que á a tomada do poder pelo proletariado. Relaciona sempre as lutas parciais com seu objetivo final. Para o marxismo. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). em vez de trabalharem. a luta puramente econômica não conduz a nada. Muito pelo contrário. repousar nunca em justas condições. para a sua transformação. O contrato entre capital e trabalho não pode.

Os comunistas defenderam desde o inicio a unidade sindical. dirigida por sindicalistas ligados ao Ministério do Trabalho ou que aceitavam sua tutela. 04 a 10 de novembro de 2007. surgiram as duas características marcantes da atuação comunista: o trabalho em sindicatos reacionários e pelegos e a politização da luta operaria (contra o imperialismo e contra o latifúndio). 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). foram de luta entre os sindicatos livres e o governo. Talvez seja também por isso que os comunistas tenham sido muitas vezes acusados de fazerem do sindicato uma mera “correia de transmissão do partido”. que se de um lado não se apresentava como uma alternativa imediata de poder causou apreensão do Estado oligárquico. PARTICIPAÇÃO DOS COMUNISTAS BRASILEIROS BRASILEIROS NO MOVIMENTO SINDICAL No Brasil. como em outros países – e a história dos primeiros anos desse movimento é a crônica de seu esforço para derrotar a influencia anarquista e indicar novos rumos à luta operaria e sindical. Contudo. As entidades operárias independentes não aceitavam os decretos sobre sindicalização. Contudo. Em 1929 é criada a Confederação Geral dos Trabalhadores Brasileiros – CGTB (funcionando até 1936) sob controle dos comunistas que passam a exercer a hegemonia sobre o movimento sindical brasileiro. a concepção marxista ressalta a supremacia do partido político sobre o sindicato. Essas concepções os levaram. Para ela. essas premissas não eliminam o risco de uma submissão do sindicato ao partido. muitos esforços foram feitos para fortalecer o movimento sindical. a principal palavra de ordem dos comunistas foi “ir às massas”. Quando fala em supremacia do partido. o marxismo não nega a importância da luta sindical. a buscarem aliados e a participar da vida parlamentar do país. Os primeiros aos da década de 1930. o comunismo surgiu a partir da desagregação do anarquismo – e não da crise da social democracia. seja na ilegalidade. . em conseqüência. militantes brasileiros fundaram o Partido Comunista do Brasil (PCB). As décadas de 20 e 30 do século passado foi um período de grandes desafios para o movimento sindical brasileiro. Entre os fundadores estavam ex-lideranças anarquistas como Astrojildo Pereira e Otávio Brandão. levando-os a se chocarem com os anarquistas e com a repressão policial. crescia progressivamente o numero de entidades organizadas conforme a legislação e.78 - . o partido revolucionário é um estágio superior de organização. mas destaca que há diferenças entra assas duas formas de organização e que elas devem ser preservadas. que viam o Estado como um mal em si. A partir de 1922. marcado pela forte repressão ao movimento sindical independente e pela regulamentação e controle das relações de trabalho e da organização sindical pelo Estado Getulista. Nesse sentido. Entre a fundação do Partido Comunista e seu II Congresso em 1925. seja nos breves momentos de vida legal. Ao contrário dos anarquistas. os comunistas o viam como um espaço a ser ocupado e transformado. embalados pela criação do primeiro Estado socialista na Rússia.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Exatamente por enfatizar que o primeiro objetivo do proletariado é a conquista do poder político.

No ano seguinte.”. surgia uma nova época. A hegemonia desses setores dentro do partido e dentre os sindicalistas comunistas crescia ano a ano. o Partido Comunista começou a se reorganizar em entidades sindicais. fechamento do Partido Comunista e da CGTB. Com o governo do Marechal Dutra. eleição e posse dos dirigentes sindicais independente da aprovação pelo governo. O Partido Comunista foi praticamente dispersado. quando foi reorganizado o Partido Comunista do Brasil. O movimento sindical passou a acomodar-se”.a Constituição e dá origem ao Estado Novo. Uma de suas primeiras iniciativas foi à rearticulação do movimento sindical independente. foi criado o Comando 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). etc. Getulio Vargas rasgou – por meio de um golpe . os direitos individuais e coletivos retornam a normalidade. adotando a legenda PC do B. funda o Movimento Unificador dos Trabalhadores – MUT. A reação de militantes comunistas vem a ocorrer com mais força em 1962. “ajudando a colocar o movimento sindical em função dos interesses de determinados setores burgueses. constituir a Aliança Nacional Libertadora. . defendiam claramente a conciliação de classes: “por intermédio das organizações sindicais a classe operaria pode ajudar o governo e os patrões a encontrar soluções práticas. Em 1937. que prescindiria da revolução. autonomia administrativa para os sindicatos. No mesmo ano. Um novo período de colaboração de classes se esboçava.”. rápidas e eficazes para os graves problemas econômicos de hoje”. de desenvolvimento pacifico. 04 a 10 de novembro de 2007.79 - . perseguida pelo Governo Vargas. Seu manifesto pedia “a mais ampla liberdade sindical. a influencia sindical dos comunistas cresceu.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Com a promulgação da Constituição Federal em 1934. dando inicio à aliança do Partido Comunista com o Partido Trabalhista Brasileiro. perseguição a todos os sindicalistas independentes. Naquela conjuntura os sindicalistas comunistas orientados pelo partido. os sindicalistas comunistas foram perseguidos e afastados das direções de inúmeras entidades. Durante o governo Vargas e. apoiado por 300 dirigentes sindicais de 13 estados. foi desencadeado outra ofensiva conservadora contra a classe trabalhadora: intervenção em mais de 400 importantes sindicatos. sem a presença obrigatória do Ministério do Trabalho. a soberania das assembléias sindicais. em 30 de abril de 1945. “frente única revolucionária anti-imperialista e anti-feudal. Tal tendência refletiu-se logo no refluxo da luta pela autonomia sindical e pela destruição da estrutura sindical corporativista. numa Conferência Nacional Extraordinária. o partido coordenou uma ampla articulação de setores nacionalistas para a formação de uma frente democrática. “o PCB organizou a Confederação Sindical Unitária do Brasil. num congresso com 400 delegados de 11 estados”. Essa orientação de fundo oportunista estava baseada na idéia de que. defendia Luiz Carlos Prestes. alem de junto com outros segmentos da sociedade. desde o proletariado até a burguesia nacional”. que congregava sindicalistas getulistas. secretário-geral do Partido Comunista. com representantes de 300 sindicatos de todo o país”. “o PCB organizou o Congresso de Unidade Sindical. principalmente com a extinção do ‘atestado ideológico’. Quando o Estado Novo entrou em crise. que lutava por um governo popular e que chegou a congregar em suas fileiras amplas massas populares do país inteiro. e os mais variados atores sociais. “com a derrota do nazismo. Com a eleição de Vargas em 1950. após o suicídio do presidente em agosto de 1954.

A partir de 1988. dos trabalhadores no comercio – CNTC. sendo o poder espiritual do sistema em vigor. A Igreja exercia esse poder. O 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). tanto econômico. A orientação cupulista para o sindicalismo continuava com forte influencia em importantes estruturas sindicais. exigindo o fim da ditadura. a Igreja perde poder. A nova conjuntura forçou o movimento sindical combativo a recuar. mas os demônios fizeram a burguesia”. controlando cerca de 1/3 das terras agricultáveis. Esse conservadorismo não corresponde à mentalidade emanada do novo sistema. Em 1978. O capitalismo. dispersos e constituindo-se como mini-Estados. . Até esta data. A igreja resistiu violentamente ao fim do feudalismo. passaram a se organizar na Corrente Sindical Classista. principalmente no sindicalismo. como político. entretanto vigora. Essa época de recuo durou até 1977. A Igreja se adapta ao novo sistema social. para preservar a “pureza da alma humana” e através da repressão . uma central que colocou em pânico as elites com a perspectiva daquilo que eles chamavam de “República Sindicalista”. essa instituição ainda preservava suas tradições elitistas e aristocráticas. apesar de num primeiro momento manter suas tradições aristocráticas. e suas Federações Estaduais. 04 a 10 de novembro de 2007. Exercia com exclusividade o poder religioso. próprias de período feudal. Segundo o sermão mais conhecido na Europa no século XVI. dos trabalhadores em transporte marítimos. Ela era a maior propriedade feudal da Europa. ALGUNS REFERENCIAIS DO SINDICALISMO CRISTÃO A partir da encíclica Rerum Novarum (Das coisas novas). a Igreja Católica adota oficialmente uma doutrina para a sua atuação no movimento social. “Deus fez clérigos. Depende dela também para controlar o jovem proletariado. Durante o feudalismo.80 - . o fim da alta do custo de vida. fluviais e aéreos – CNTTMFA. dependiam da instituição religiosa para manter o controle político.tão marcante no período da Inquisição. a Igreja possuía grande poder. ao golpe militar que depôs João Goulart. a própria burguesia dá espaço para a refundação da Igreja. E era também o poder político. via seus tabus ideológicos. em 15 de maio de 1891. dos trabalhadores em empresas de credito – CONTEC. os dirigentes sindicais comunistas ligados ao PC do B.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Geral dos Trabalhadores – CGT. Posteriormente. ocorre a primeira grande greve operaria no ABC. As relações capitalistas de produção enfraquecem os preconceitos religiosos. a exemplo das greves de Contagem – MG e de Osasco – SP em finais da década de 1960. publicada pelo Papa Leão XIII. As tentativas mais importantes de contrapor-se à perseguição policial e ao arrocho salarial revelaram as limitações existentes e os dilemas em que o movimento operário se debatia. Os feudos. a exemplo das Confederações: dos trabalhadores na indústria – CNTI. entretanto. anistia aos políticos perseguidos. quando o país voltou a mover-se. esta aparente força não se materializa em reação dos trabalhadores e das suas organizações. etc. Contudo.

as greves. “Ela nasceu. procurando encontrar-se função social” do capital. porque prega a supressão da prioridade privada . tinham sido abandonadas por estas”. Com base nessa doutrina.81 - . o luddismo. “porque gera ódios e extingue nos homens o estímulo ao trabalho”. Eles rejeitaram energicamente as greves e outras formas de confronto. de conciliação de classes.“que é um direito natural dos homens”. portanto. é um homem “livre”. Outra característica fundamental do sindicalismo cristão é o anticomunismo. mas para “proteger os trabalhadores católicos contra os perigos socialistas”. Além disso. A religiosidade popular não garante mais a sustentação da instituição católica. Para realizar as reformas graduais no capitalismo. O fundamental é a paz social.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG proletariado. obedecendo aos princípios da caridade cristã”. que é um marco na viagem da Igreja católica com vista aos movimentos sociais. Muitos historiadores. a violência e a luta de classes. Parcelas da jovem classe operária se aproximam das idéias anarquistas e marxistas. Outra razão. católicas ou protestantes. O para qualifica o pensamento socialista como falso. “o capital e o trabalho devem viver em colaboração um com outro. 04 a 10 de novembro de 2007.” Rejeita. os militantes católicos atuaram no sindicalismo com uma concepção reformista. e também as novas formas de organização dos explorados . A Confederação Internacional dos Sindicatos Cristãos. desiludidas também no plano espiritual (desconfiança da irmandade capitalismo-poder-igreja). afirmam que o terreno propício é a própria Igreja . particularmente a revolução social do marxismo”. segundo o autor. em 1920. necessária e conveniente para o homem. luta de classes obedecendo-se os princípios da “caridade cristã”. “filhos de um mesmo Deus”. Surgem os primeiros conflitos de classe. diferente do servo camponês. ou melhor. chega a afirmar que “a vida econômica e social implica a colaboração de todos os filhos de um mesmo povo. Entre capital e trabalho não deve haver antagonismos. A encíclica propunha a criação dos sindicatos aos moldes das antigas corporações de artesãos e também estimulava a formação de associações mutualistas. A Rerum Novarum vai criticar tanto o socialismo como o liberalismo.os sindicatos e as cooperativas. Os exageros de injustiças devem ser reformados. Ela confia a sorte dos trabalhadores à ação do Estado. que deve estabelecer leis para proteção e promoção do ser humano. Para a Rerun Novarum. sobretudo para enfrentar o avanço do socialismo. A Igreja perde base social. De acordo com essa encíclica papal. Miguel Gonzáles Núniz acredita que uma das causas do fraco desenvolvimento da corrente cristã é que ela não atuará nos sindicatos como organismos de luta por conquistas materiais. Os estatutos dos Círculos Operários 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). haviam abandonado as Igrejas. . é que “o sindicalismo cristão aparece tardiamente (43 anos depois do Manifesto Comunista de Marx e Engels). central sindical fundada no Congresso de Haia. para torná-lo um sistema “justo e eqüitativo”. existe no capitalismo “uma desigualdade natural. quando as massas proletárias. a harmonia entre as classes. inclusive católicos. afirma que a Igreja só passou a se preocupar com o movimento sindical como forma de se contrapor ao aumento da influência das idéias revolucionárias. autor do livro “O movimento operário: o sindicato e o partido”.já que ela reúne patrões e empregados. tendo como mediadora a Igreja que dessa forma tenta readquirir o seu poder político. Leão XIII considera as idéias socialistas subversivas. explica José Cândido Filho. Defenderam o papel assistencialista dos sindicatos. Daí o surgimento da Rerum Novarum.

seu numero chegou a atingir entre 50 a 100 mil CEBs. uma direção que seria seguida por enorme parcela do clero brasileiro que. dentre eles. juntamente com os parlamentares da UDN. E na Constituinte de 1945. . mais uma vez. tendo a frente o cardeal Sebastião Leme. da Federação dos Círculos Operários de São Paulo. Essa tese. Vários materiais foram publicados nesse sentido. defendem. como importantes instrumentos de organização e mobilização. A Igreja advoga a separação dos católicos dos que professam confissões e idéias diferentes. Um dos resultados mais visíveis das mudanças promovidas em Medellín foram as comunidades eclesiais de base – CEBs. fundamentavam a atuação dos progressistas da Igreja brasileira. 04 a 10 de novembro de 2007. desenvolvimento sem justiça”. juntamente com a reação. por sua vez. escrito por Frei Celso em 1964. a implantação do pluralismo sindical .que inclusive é aprovado. Os Círculos Operários. principalmente na Europa. Estas lideranças estiveram ao lado dos conspiradores do golpe militar de 64. Helder Câmara. foi levada à prática em vários países. em 1968 (confirmadas em Puebla. os deputados eleitos com o apoio do LEC (Liga Eleitoral Católica). A Igreja do Nordeste foi pioneira nas criticas radicais contra o regime. foi acusado de comunista e ameaçado de prisão. a hierarquia católica apresenta ao ditador Getúlio Vargas a proposta de transformar os aproximadamente 400 círculos operários católicos existentes em sindicatos paralelos. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). SINDICALISMO CRISTÃO NO BRASIL Desde o início da atuação organizada dos católicos no sindicalismo brasileiro. o manifesto “Nordeste. Calcula-se que no auge do movimento. em todo o país. no final da década de 1970. que leva à fragmentação da organização sindical.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Católicos no Brasil são bem elucidativos. a Igreja organizou os círculos operários. com o apoio da Regional Nordeste II da CNBB. que proliferaram nas grandes e medias cidades brasileiras a partir de finais da década de 1960. O documento foi confiscado pela policia e os bispos foram proibidos de publicá-lo D. um livreto muito difundido “Como combater os comunistas nos sindicatos”. seu temor era o contágio dos fiéis com as novas idéias. envolvendo mais de 2 milhões de filiados. O Concilio Vaticano II já havia apontado o caminho da realização do reino de Deus neste mundo neste mundo. os deputados vinculados à Igreja defenderam. Um dos primeiros itens de seu objetivo era o “combate ao comunismo”. influiria de forma também decisiva na modernização do clero latino-americano e na formulação da Teologia da Libertação. Em pleno Estado Novo. Escolas de Lideres Operários e Movimento de Orientação Sindical. Na Constituinte de 1934. Em 1966. As profundas mudanças promovidas pelo CELAM (Conselho Episcopal Latino Americano) em Medellín. uma forte denúncia do regime e da situação da classe trabalhadora. bispo de Recife. que atuavam por fora dos sindicatos existentes.82 - . foram responsáveis pela formação de inúmeras lideranças sindicais em todo o país. a implantação do pluralismo sindical. que recomendavam a opção preferencial pelos pobres. em 1979). As mudanças que a Igreja vivia a nível internacional tiveram influencia decisiva nesse quadro.

em vista de uma sociedade fraterna e justa.83 - . com o apoio da imensa maioria dos militantes católicos e. CRISTÃOS (católicos) • • • • 2. em Goiânia. • • Colaboração entre as classes. na onda de greves iniciada em 1978 os militantes católicos tiveram papel destacado na reorganização do movimento sindical. de movimentos populares. IV Encontro Nacional da Articulação Nacional dos Movimentos Populares e Sindicais). Em junho de 1982. tornou-se um dos mártires da luta operaria. em fevereiro de 1980. esse movimento culminou na fundação da Central Única dos Trabalhadores – CUT. Desenvolver a função social do capitalismo. A aproximação entre militantes da oposição sindical. • Realização do reino de Deus Teologia da Libertação neste mundo Opção preferencial pelos pobres • Denúncia do regime e da Organização social de base (CEBs situação da classe trabalhadora e as Pastorais) • Redemocratização do país • Reorganização do movimento sindical no campo e na cidade • Colaboração de classes. • Combate ao comunismo • • Sem violência. na articulação do Partido dos Trabalhadores. ele que era dirigente da Pastoral Operaria e muito próximo de D. QUADROQUADRO-SÍNTESE POSIÇÕES MEIOS PROPOSTOS OBJETIVOS Luta contra as injustiças. Em 1983. AMARELOS AMARELOS Sem violência.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Quando o movimento operário brasileiro atingiu novo patamar. Minas Gerais. Um importante encontro de lideres de pastorais operarias. no afastamento das diretorias pelegas dos sindicatos e. militantes de outras concepções e correntes políticas. • Continuidade do capitalismo. no ano seguinte. • Formação ideológica de • lideranças sindicais 1. principalmente. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). oposições sindicais. de movimentos de base. Paulo Evaristo Arns. e lideranças católicas. essas forças politicas formaram a ANAMPOS (oficialmente. onde foram estabelecidos “alguns princípios básicos ligados à luta pela democratização da estrutura sindical”. 04 a 10 de novembro de 2007. • Sindicatos e organizações • Negação da existência da luta comuns (entre patrões e de classes. levou a uma maior intensificação das manifestações. de comunidades eclesiais de base. Evitar o agravamento dos conflitos sociais. e ativistas ligados às novas diretorias sindicais “autenticas” ocorreu em João Monlevade. . acelerou-se com as greves. O assassinato de Santo Dias da Silva.

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em nosso país conflitos e rebeliões populares formados por complexa composição étnica. interesses e projetos. concretamente. a dependência. na roça e na comunidade. diante do desafio de trazer ao debate questões que se inserem nas reflexões em torno do enraizamento histórico do sindicalismo rural no Brasil. mobilização que se constroem nos locais de trabalho. Esse processo se dá através de lutas de resistências. A chamada Primeira República. como se constituiu a estrutura sindical oficial no Brasil. ou seja. 04 a 10 de novembro de 2007. como sujeitos coletivos. escravos.85 - .Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG A HISTORIA DAS NOSSAS RAÍZES: ITINERÁRIO DAS LUTAS DOS TRABALHADORES (AS) RURAIS NO BRASIL E O SURGIMENTO DO SINDICALISMO RURAL Maria do Socorro Silva34 "Da desparecença dos tempos aprendo as tranças e tramas das novas lições. o processo no qual é gestado a dinâmica do movimento sindical dos trabalhadores(as) rurais (MSTTR). Os movimentos sociais do campo vem se constituindo ao longo da nossa história. alfaiates. é o período de delineamento da identidade social e política do trabalhador brasileiro. Monárquica35 e Republicana36 A proclamação da República (1889). mas não uma classe trabalhadora. que se traduz. caboclos. havia anteriormente trabalhadores. onde constroem uma identidade e organizam práticas que visam defender direitos. surgiram então às primeiras organizações de socorros mútuos. Professora da Faculdade de Educação da UnB/UFCG. ora manifestando-se como amplos movimentos de massa construindo novas formas de organização social. barqueiros. caixas beneficentes. a miséria. de organização. marcam um dos momentos de maior transformação social já vivido pelo país. seleiros. considerando os limites a que nos propomos discutir o assunto em pauta. No começo do século XIX já existiam algumas associações de artesãos. religiosos. As primeiras organizações operárias. camponeses. 36 A primeira constituição republicana foi a de 1891 . sem um caráter essencialmente religioso. Evidentemente. etc . É na teia de constituição dessas lutas que se forjam as condições para a tomada de consciência do que significa ser trabalhador(a) rural. nesse momento.. de confronto com a opressão. sociedades de resistência. restringeremos nossa análise a elencar alguns movimentos ou lutas que contribuíram para esse processo.assegura o direito à associação e a reunião deixando em aberto qual seria o tipo de organização. acidentes no trabalho. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). quem trabalhara no Brasil foram os escravos e a sociedade imperial escravista desmerecera inteiramente o ato de 34 Pedagoga e Psicóloga.com proporções e alcances distintos. a ausência de direitos. . nesse texto. ora manifestando-se como ações específicas e localizadas ou movimentos messiânicos. 35 No período Imperial tivemos apenas o nascimento das primeiras organizações operárias. a luta pela posse da terra e por melhores condições de vida e de trabalho nas sociedades Colonial. Porém. etc. política e econômica. invalidez. que se segue. Doutoranda em Educação da UFPE. juntamente com a Abolição da escravidão (1888). Até então." Gonzaguinha PARA INICIO DE CONVERSA Nos colocamos. Desde a chegada dos colonizadores portugueses que tivemos. bolsa de trabalho. foram associações voltadas para a ajuda mútua em situações de doença. social e ideológica – índios. num amplo imbricamento de ações. mas organizadas sob a forma de irmandades religiosas.

nas regiões Sul e Sudeste. na luta incessante de recuperação de sua humanidade". que se disponha a transformar essa realidade. O resgate do itinerário de algumas dessas lutas que são raízes da organização do campo brasileiro. suíços. revoltas como da Cabanagem e Balaiada. Quando o trabalho ficou livre. vê-se que não é suficiente que o oprimido tenha consciência crítica da opressão. principalmente sobre a forma de parceria ou colonato. o império restringiu o direito de posse da terra por meio da Lei de Terras. visando garantir melhores condições de trabalho e de vida fazem parte da história do povo brasileiro: lutas de tribos indígenas. os posseiros e os imigrantes pudessem se tornar proprietários. Juntamente com o processo de luta contra a escravidão vamos ter a afirmação das leis de locação de serviços que visam regular o trabalho assalariado. os trabalhadores não poderiam romper seus contratos a não ser que pagassem ao patrão quantia correspondente e se não o fizessem estariam sujeitos à prisão com trabalhos forçados até pagar suas dívidas. italianos. que tiveram um grande peso na formação da atual população de agricultores familiares amazônicos.86 - . litígios e reações de parcela das populações pobres foram uma 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). a terra era livre. com isso tivemos uma intensificação dos conflitos por terra e pela libertação dos escravos. que passaram a ocupar áreas ainda não utilizadas. podem sinalizar para descobertas importantes na construção de uma sociedade mais justa. 04 a 10 de novembro de 2007. pois a partir desse momento a terra foi transformada em uma mercadoria a qual somente quem já dispunha dela e de capital pudesse ser proprietários. e a pedagogia decorrente será aquela que tem que ser forjada com ele e não para ele.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG trabalhar. mas. Essa Lei significou o casamento do capital com a propriedade de Terra. brasileiros pobres. primeiro com a chegada dos primeiros colonos europeus não-portugueses. fugindo da seca e da crise econômica dos engenhos de açúcar. trata-se de um trabalho de conscientização e politização.Lutas e mobilizações pela liberdade A luta dos trabalhadores (as) rurais brasileiros pela posse da terra. No século XIX. a partir de 1819. isso impedia que os ex-escravos. PRIMEIRO MOMENTO: DAS LUTAS PELA LIBERDADE AO SURGIMENTO DO SINDICALISMO RURAL “O movimento para a liberdade. e no fortalecimento das organizações no momento atual. enquanto homens ou povos. mas sim constituísse a mão de obra assalariada necessária nos latifúndios. . professor da USP: “Enquanto o trabalho era escravo. principalmente a borracha e a castanha. alemães. todos agricultores pobres atraídos para o Brasil por promessas de terra. deve surgir e partir dos próprios oprimidos. milhares de nordestinos. 1837). segundo José de Souza Martins.” Paulo Freire 1. do sindicalismo rural brasileiro. movimentos de escravos. trabalhar na extração dos produtos da floresta. (1830. e do surgimento. Em 1850. para o cultivo do café. começamos a ter uma nova configuração. foram para o norte. Nesse mesmo período. a terra ficou escrava”.

e era governando por um rei (sendo o mais conhecido Zumbi) e um conselho formado por chefes dos quilombos. Durante todos esses períodos tivemos ações populares de intervenção na ordem social. Durante sua existência foram feitas varias tentativas de destruir Palmares. na margem esquerda do rio Uruguai. Mesmo assim. Por fim. Na área do estuário do Prata. que preparou uma expedição para derrotar os fugitivos. um dia. muitos negros fugiram para o sertão. a) Quilombos Nos quilombos refugiavam não só escravos foragidos. chegou a reunir mais de 20 mil habitantes. . É claro que. a munição dos sitiados tinha de se esgotar. que há tempos lutavam contra portugueses. que a luta durou perto de três anos. a resistência dos quilombolas foi tão grande. pela 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). pelo novo acordo. Também ele falhou nas primeiras tentativas. na organização coletiva da produção e na resistência e combate a escravidão. 04 a 10 de novembro de 2007. A paz foi conseguida pelos padres José de Anchieta e Manuel da Nóbrega.87 - . com uma cultura e economia baseada na policultura. mas não desistiu. principalmente por meio das missões. localizava-se na Serra da Barriga entre Pernambuco e Alagoas. o governo de Pernambuco solicitou a ajuda do bandeirante paulista Domingos Jorge Velho. os exemplos mais conhecidos são: a Confederações dos Tamoios. Guerra dos Guaranis e a Guerra dos Bárbaros. Outros se suicidaram ou renderam-se aos atacantes. aliaram-se aos franceses tomaram a Baía de Guanabara. O sistema de vida e produção organizado em Palmares pode resistir a economia patriarcal e escravocrata. Organizou um exército realmente poderoso e voltou ao ataque. homens altivos. Enquanto os atacantes podiam conseguir reforços e munições de fora. principalmente contando com o interesse do governo. que pretendiam escravizá-los. e que tiveram nos camponeses (as) sujeitos protagonistas de várias dessas lutas e mobilizações. Quando isto se deu. práticas reprimidas de participação social e política do povo que colocaram em ebulição os direitos políticos e sociais. Não fora difícil aos franceses conquistar os tamoios. b) Missões A luta dos indígenas ao longo da nossa história apresenta raízes de uma organização camponesa. Os negros tinham uma desvantagem: estavam cercados. o Tratado de Madrid determinou novos limites entre os impérios coloniais de Portugal e Espanha.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG constante ao longo da nossa história. tão valente. Um dos mais importantes quilombos de nossa história foi Palmares foi construído no fim do século XVI e resistiu até o fim do século XVIII. Guerra dos Guaranis Em 1750. a Espanha trocava os Sete Povos das Missões. os quilombolas encontravam-se sozinhos e apenas podiam contar com o que possuíam. antes que a cidadania e a sociedade civil se estabelecessem entre nós. como também índios e pobres livres. A Confederação dos Tamoios Em 1562.

Na comunidade havia um fundo comum destinado a proteção dos velhos e aos doentes. começou a Guerra Guaranítica. a partir de 1682. Criou-se um povoado em que o trabalho cooperado foi essencial para a preservação da comunidade. 04 a 10 de novembro de 2007. enviaram comissões para tornar efetivas as mudanças previstas no Tratado. em Santa 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Mas já não existia o entusiasmo de antes e as mesmas condições de resistência e luta. anulando o Tratado de Madrid em 1761. Obrigados a sair. Ë por isso que alguns autores chamam as revoltas camponesas do período de lutas messiânicas. Isso significa que a fé era a ligação entre ele e seus seguidores. b) Guerra do Contestado Em 1912. O cenário dessa guerra foi uma extensa área do Nordeste. resistiram por cerca de mais vinte anos sempre lutando como podiam pela posse de suas terras e na tentativa de vencer as injustas estratégias da dominação colonial. além dos índios. Entre outubro de 1896 e outubro de 1897. particularmente nos vales do Rio Açu (atual Piranhas) e Jaguaribe. Melhor equipado. dos portugueses. Guerra dos Bárbaros Essa guerra durou vinte anos. Todavia. A guerra não resolveu as questões de limites. apesar das degolas. Chegou a ter cerca de 10 mil habitantes. envolvendo todos os membros da família. estes bravios guerreiros. liderados por Nicolau Ñeenguiru e Sepé Tiaraju. mais de 5 mil soldados do exercito e armamentos pesados de guerra foram envolvidos no ataque ao arraial. Nesse momento surgiu na região de Campos Novos e Curitibanos. o governo concedeu uma enorme extensão de terras à empresa norte-americana Brasil Railway Company. Em 1754. Com isso. alguns sobreviventes foram para as reduções da margem direita do Uruguai. Em 1752. os Guaranis continuaram a ocupar a área dos Sete Povos. Os governos de Madrid e Lisboa tomaram decisões sem levar em conta os interesses dos jesuítas e guaranis. Mas os portugueses e espanhóis se uniram contra os rebeldes. o exército europeu massacrou os guerreiros guaranis. atrás do beato Antônio Conselheiro. pois. Ao final da construção da ferrovia. os portugueses da Colônia do Sacramento também não estavam satisfeitos com a troca de terras. cerca de 8 mil trabalhadores ficaram desempregados e passaram a perambular pela região a procura de trabalho. e foi empreendida pelos cariris.88 - . 2. Os Guaranis se revoltaram e se organizaram para defender suas terras. Portugal e Espanha voltaram atrás. que durou dois anos.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Colônia do Sacramento. cativeiros e reduções em aldeamentos jesuíticos que sofreram ao longo dessa história que lhes fora imposta. . Dentre essas podemos destacar: a) Canudos a terra prometida Os/as trabalhadores rurais e escravos peregrinavam pelo sertão. dos aprisionamentos. até se estabelecerem no Arraial do Canudos. Lutas messiânicas – 1888 e a década de 1930 As lutas messiânicas se caracterizam pela existência de uma liderança messiânica. no trecho previsto para a construção da ferrovia São Paulo-Rio Grande do Sul. Todos tinham direito a terra e desenvolviam a agricultura para auto-consumo.

que depois se espalharam por outras áreas de imigração do sul do Brasil. que chegou a cerca de 20 mil pessoas. c) Guerra do Caldeirão Uma luta de resistência camponesa. As lutas prépré-sindicalistas a) As colônias anarquistas A chegada dos imigrantes para trabalhar nas lavouras do café dos grandes fazendeiros vai trazer mudanças no perfil do campesinato brasileiro. sem lei e sem religião. calçados. até mesmo aviões foram utilizados pra localizar os redutos rebeldes. Contestado). por isso chamado de Contestado. artesanato. Ninguém se considerava dono de alguma coisa. muitos eram expulsos. Em 1915. destruindo assim o povoado. O arraial foi dizimado quando o governo enviou cerca de 07 mil soldados do exercito. Além de ser explorado com baixa remuneração (a família toda precisava trabalhar para a subsistência). organizadas sem propriedade individual. os lideres lançaram um manifesto monarquista e declararam a “guerra santa” contra os coronéis. O nome Caldeirão refere-se a uma depressão no relevo.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Catarina. Sua fama crescia e já influenciava outras cidades. Todavia. no entanto. casas são incendiadas e pessoas mortas. Colônia Leopoldina. a grande concentração de camponeses naquelas terras chamou a atenção dos fazendeiros. que aconteceu no Ceará. onde se encontrava água cristalina durante todo o ano. porque tinham uma produção diversificada: agricultura. que. com repudio a 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Recebiam um preço de terra onde desenvolvia uma cultura de autoconsumo. tais como a Colônia Cecília. no período de 1926-1937. Todas as ferramentas necessárias para o trabalho eram feitas na própria comunidade. roupas. cuja ação deveria ser voltada para o desenvolvimento da consciência da classe. Inicialmente ficaram numa área de disputa entre Paraná e Santa Catarina. e a organização de núcleos e colônias que serão precursores do sindicalismo brasileiro. (o primeiro foi em 1912. etc. ao chegar à época da colheita. na Chapada do Araripe. temendo o aumento da organização dos trabalhadores e uma possível ocupação de suas terras. o colono ainda sofria a especulação do fazendeiro.que a entregou ao beato Zé Lourenço e seus seguidores para trabalharem na terra. Colônia Nova Itália.89 - . A área pertencia ao padre Cícero . acontece o segundo bombardeio aéreo sobre civis na história do Brasil. retornam usando dessa vez aviões. contra os latifundiários.famoso religioso e político da época . os anarquistas começaram a se organizar nos sindicatos. as companhias de terras e as autoridades governamentais. os mutirões. . quando foram assassinadas mais de 400 pessoas. pois era obrigado a comprar o que precisava pelo dobro do preço. A exploração imposta faz com que se organizem ainda que de forma clandestina (já que o Ato Adicional de 1834 proibia toda e qualquer associação de ofício): surgem as primeiras associações de socorro mútuo. desta forma estava sempre devendo ao fazendeiro. liderado pelo monge José Maria. 3. Além disso. um movimento camponês de caráter político-religioso. e onde começaram a funcionar as “Escolas Internacionalistas”. A força militar chega ao sítio e os moradores resistem à destruição. mais não conseguem vencer a comunidade. iniciaram uma guerra contra os camponeses para destruir Caldeirão. confecção de redes. sofrendo as mais variadas injustiças e perseguições. nos seus armazéns. Os produtos excedentes eram vendidos em Juazeiro e no Crato. 04 a 10 de novembro de 2007. O Caldeirão ficou auto-suficiente. Dias depois. A formação de núcleos ou colônias.

Eles queriam que os posseiros saíssem das terras. sendo responsável pela formação de novas mentalidades e ideais revolucionários. sistematização coletiva de experiências. além disso. 37 Desde esse período a necessidade de formação sindical já se fazia presente entre as organizações. eles só podiam plantar para subsistência. reinava fome e miséria. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). a recusa foi geral. Trabalhadores provenientes do Maranhão e Piauí chegaram ao local liderado por Jose Porfírio e estabeleceram posses numa área de terra devoluta. a construção da Transbrasiliana e o projeto de colonização dos governo federal valorizaram as terras da região de Uruaçu. 04 a 10 de novembro de 2007. Articulavam a educação entre si.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG idéia de organizar os trabalhadores em partido político. a organização foi se afirmando. oficinas. sendo desencadeada um processo de repressão e o uso intensivo da Lei Adolfo Gordo. . sem perda de tempo. essa organização foi até a década de 1964. desemprego. ocorria a Primeira Guerra Mundial. ali viviam muitos posseiros. Esse processo vai ser intensificado em 1917. um juiz e um dono de cartório da região. no trabalho. a educação escolar e as práticas culturais de massa. nas comunidades. começou o processo de expulsão dos posseiros. por um grupo de fazendeiros. A valorização das terras da Região de Governador Valadores . que estavam sendo griladas. Eles começaram então a juntar os posseiros para formar uma associação (visto que os sindicatos rurais ainda não eram reconhecidos). pesquisas. culminando com a Greve Geral. quando a nível internacional. e eles pagariam as benfeitorias feitas. pois era considerado um veículo de conscientização e transformação das sociedades. intercâmbios. em três dimensões: a educação político-sindical37. quando foram presos e torturados pela ditadura militar. é aprovada a Lei Adolfo Gordo para expulsar lideranças sindicais estrangeiras (1907/1913. os supostos donos das terras começaram a aparecer de todos os lados e impuseram aos posseiros a condição de derrubar a mata para formação de pasto.Bahia em 1940. No final da década de 1950. com a contribuição do PCB. c) Trombas e Formoso Em 1948. Então os grileiros queimaram as roças e as casas dos camponeses. José Porfírio. mobilizações. com o golpe militar. o que foi desmentalado em 1964. até a região se tornar um município e Jose Porfírio foi eleito deputado estadual em 1962. foi solto no ano seguinte e desapareceu. b) Posseiros da Rodovia RioRio-Bahia. Depois de viver na clandestinidade. Os posseiros ganharam muita força na região e formaram vários sindicatos.90 - . A partir de 1955 com a construção das rodovias. recusa intransigente ao assistencialismo e mobilização permanente dos trabalhadores para ação direta contra os patrões. inclusive acarretando a morte da mulher de José Porfírio. recessão. e os anarquistas e socialistas faziam intensa propaganda anti-militarista. já colocavam a educação em suas diferentes dimensões sinalizando para o que chamamos hoje de formação programada (cursos. etc). toda a região estava organizada na Associação dos Lavradores de Trombas e Formoso. Para os libertários a educação ocuparia um papel de destaque.MG devido à perspectiva da construção da rodovia Rio . e a formação na ação que ocorre no cotidiano da organização. seminários. Em 1907. foi preso em 1972. no norte de Goiás. a situação econômica para os trabalhadores (as) estava insuportável: carestia.governo Hermes da Fonseca).

SEGUNDO MOMENTO: A IMPLANTAÇÃO DA ESTRUTURA SINDICAL NO BRASIL NO CONTEXTO DO ESTADO NOVO “Ninguém tem liberdade para ser livre. luta por ela precisamente porque não a tem” (Freire. Essa tese se fundamenta na revolução leninista. a partir de 1928. mas sim numa aliança com o campesinato para enfrentar o feudalismo. a segunda. As divergências com relação a essa aliança. para isso teria que fazer alianças entre o operariado e o campesinato. Na verdade essa aliança acabou tendo uma dimensão mais eleitoral de assegurar candidaturas que assegurassem a defesa dos interesses proletários. buscar aliança com a Coluna Prestes e atuar na área rural brasileira. pois para Lênin. pelo contrário. que consistia em substituir os intelectuais por operários nos cargos e instâncias partidárias e o fim do BOC. É esse caráter democráticoburguês que a proposta do BOC confere. 04 a 10 de novembro de 2007. a quebra da bolsa de Nova York (1929). onde a revolução seria feita por etapas: a primeira. incorporar a luta contra a política da oligarquia. a revolução russa (1917). Por isso. a elaboração de uma legislação protegendo os trabalhadores rurais e colonização em terras devolutas com base em pequenas propriedades. que identifica a realidade brasileira como sendo de um capitalismo agrário semi-feudal. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Essa aliança retoma na ação do partido na década de 1960 com a participação na organização das Ligas Camponesas e dos sindicatos rurais. os resultados da revolução de 1930 e as definições do comunismo internacional levaram a uma re-orientação para a “obreirizaçao”. a estratégia fundamental no operariado não pode basear-se na luta contra o capital. pleiteando. à luta de classes. .Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG c) Influência Influência do Partido comunista formação do Bloco Operário e Camponês (BOC) A mudança de ênfase no PCB sobre a realidade brasileira. sem questionar o sistema social vigente. A análise da sociedade como sendo um país semi-feudal. a reforma agrária. O fim da primeira guerra mundial (1914-1918). artistas. a crise do café. de caráter socialista.91 - . Com isso entendemos porque o BOC vai centrar sua ação nas questões sociais. suas tarefas consistem em desenvolver as forças produtivas capitalistas (modernas). camponeses que começaram a reinvidicar a suspensão do pagamento da dívida externa. a fim de que possam ser eliminadas as antigas formas de produção ainda existentes nessas sociedades atrasadas. seria anti-imperialista e anti-feudal. de caráter nacional e democrático. 1978). leva o partido a formar o Bloco Operário e Camponês (BOC) em 1927. Daí os acenos a setores da pequena burguesia como forma de romper o bloqueio à ação política que lhe era imposto não só pelas classes dominantes como também pela sua própria fraqueza interna. o movimento tenentista e a coluna Prestes marcou uma grande seqüência de manifestações de operários. daí a necessidade de ampliar sua ação e se aproximar de outras organizações progressistas. reformas modernizadoras. a etapa primeira representada pela revolução democrático-burguesa é constituída pelo desenvolvimento do capitalismo. Embora esse processo revolucionário deva estar sob a direção política do proletariado. militares.

as chamadas leis sociais: pensões de aposentadoria. o decreto conhecido como Lei de Sindicalização (decreto 19. para uma aliança com a classe operária e a chamada “classe média”. constituindo a aliança entre desiguais – populismo brasileiro. 2) disciplinar o trabalho. . ou seja. na verdade. eram conquistas ou reinvidicações dos trabalhadores ao longo de anos de luta.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG A revolução de 1930. entre o capital e o trabalho. de 19 de março de 1931). criador de classes sociais modernas (burguesia industrial e proletariado). então. considerando-o como mero fator de produção. atrelar os sindicatos ao recém criado Ministério do Trabalho. ligadas á lavoura de exportação. A lei de sindicalização definindo o sindicato como órgão de colaboração com o poder público. e o fortalecimento de uma classe média urbana. sendo obrigação do ministério do trabalho fiscalizar as assembléias e contabilidade dos sindicatos. não tem força para fazê-lo sozinhos. inaugura as condições que permitiriam no decorrer dos anos seguintes. os sindicatos deveriam funcionar como um órgão de conciliação entre os trabalhadores e os patrões e como um órgão de caráter assistencialista. os “tenentes”. em agência colaboradora do Estado. jornada de trabalho de 08 horas. Pelo projeto governamental. e aproveitarse do capital industrial. Lideradas pelo seu segmento mais radical.92 - . a modernização conservadora e a construção do Estado Moderno. Os sindicatos eram livres.para permitir a consolidação do poder dos industriais contra o poder da oligarquia rural. num persistente processo de decadência econômica. De fato. As oligarquias agrárias. o Estado. proteção ao trabalho das mulheres e das crianças. entram enquanto classe. e sua vinculação com o rural. É dentro desse contexto que o Governo Vargas assina em 15 de março de 1931. O projeto sindical populista de Vargas previa a adoção de leis que. 04 a 10 de novembro de 2007. utilizando o sindicato como “para-choque. Os diretores só podiam ser brasileiros natos ou com mais de 20 anos de residência. É importante notar que a oligarquia agrária foi capaz de diversificar seus negócios expandindo-se em atividades urbanas. Os industriais que querem controlar o poder. essa aliança que se afirma na Região Sudeste. tendo Getúlio Vargas com seu representante. embora o sistema político continue fortemente influenciado por ela. não consegue se estruturar no restante do Brasil. apelam. que insatisfeita com o domínio imposto pelas oligarquias agrárias. o que lhes garantia e fortalecia seus currais eleitorais. os objetivos básicos da Lei de Sindicalização eram claros: 1) transformar o sindicato. A constituição corporativista de 1937 e a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) consolidam a política varguista para o 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). que culmina com a formação da Coluna Prestes (1924-1927). independentes e funcionavam como organismos de luta por melhores condições de vida e salário. desencadeiam um ciclo de movimentos armados. e 3) evitar a emergência da luta de classes. Até essa época todos os sindicatos eram formados por iniciativa de trabalhadores de uma profissão ou categoria e se mantinham através das contribuições de seus associados. cujo início é a revolta do Forte de Copacabana (1922). servindo de pára-choques entre tendências conflitivas nas relações do capital com o trabalho. sem perder sem abrir mão do autoritarismo e conservadorismo. de arma autônoma dos trabalhadores. A nova lei de sindicalização visava oficializar.770. sucedendo-lhe a chamada Revolução de São Paulo. através de associações. que mostrou uma capacidade insuspeita de se manter no controle do poder político ate 1964.

em São Paulo que chegou a aglutinar não só sindicatos mas federações de mulheres. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). porém esta lei não foi implementada. na Bahia.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG movimento operário. em Pernambuco. Belmonte. e os proprietários rurais agiam de forma repressiva. Foi também resultado de uma série de medidas legais e político-ideológicas que engenhosamente articuladas.93 - . como arrendatários. Tubarão em Santa Catarina. . Rio de Janeiro (que tinha sido criado em 1938). de 1962. Muitas eram as dificuldades para esse tipo de organização: a legislação trabalhista era feita para os trabalhadores urbanos. o Ministério do Trabalho só tinha reconhecido o sindicato rural de Campos. entidades estudantis. o regime corporativista. significando progressivamente a implantação de um projeto totalitário de poder.038 se autoriza de forma explicita a sindicalização rural. A inexistência de uma organização no campo que aglutinasse essas bandeiras. O estimulo a sindicalização era acompanhada por uma propaganda doutrinaria que envolvia benefícios sociais advindos de um conjunto de leis trabalhistas. ou o Comando Geral dos Trabalhadores (CGT). para o seu reconhecimento o envio de seus estatutos ao Ministério do Trabalho para aprovação. além da presença permanente nos sindicatos em assembléias e no controle das finanças. quase não existiam juntas de conciliação e julgamento nas cidades do interior. com a instalação da justiça do trabalho e a criação do imposto sindical. Rio Formoso e Serinhaém. deram certa autonomia e permitiram articular melhor as lideranças e deram mais vigor as lutas dos trabalhadores (Abreu e Lima. as influências das correntes comunistas e anarquistas criaram organizações paralelas como foi o caso do Pacto da União Intersindical (PUI). organizado a partir da greve de 1953. Assim até 1955. posseiros e pequenos proprietários. Embora existisse uma legislação que permitia a criação de sindicatos. somente em 1944 através do Decreto 7. o código civil não permitia a organização de sindicatos rurais. nos sindicatos dirigidos por ministerialistas ou ‘amarelos’. de 1957. exigia-se ainda. além de associações mais voltadas aos interesses dos pequenos produtores. 04 a 10 de novembro de 2007. e em seguida: Barreiros. foi um dos fatores que impediram a elaboração e a implementação de uma legislação especifica para o campo. principalmente por meio das práticas de formação sindical incentivadas pelo Ministério do Trabalho. Portanto. Uma vez constituído o sindicato de acordo com a lei. Ilhéus e Itabuna. A construção da estrutura sindical oficial (e a ideologia corporativista que lhe dá suporte) não foi somente produto da repressão e do silêncio a que foram subjugados os setores mais combativos e de esquerda do movimento sindical brasileiro. não considerando a especificidade do trabalho no campo. dentre as quais a educação constituiu um dos mecanismos de propaganda e de convencimento. 2005). A CLT exclui os trabalhadores rurais do direito a sindicalizar-se apesar de lhes assegurar o direito ao salário mínimo. associações de bairro. Também o Pacto de Unidade e Ação (PUA). No entanto. No que se refere à defesa dos direitos trabalhistas na área rural. foram organizados sindicatos de forma localizada e isolada. o mais antigo do país. e a divulgação de um regime sindical especifico. à época. parceiros. inclusive acionando a polícia para reprimir qualquer tentativa de organização e mobilização dos trabalhadores (as) rurais.

A partir das Ligas os camponeses organizados faziam um trabalho de denúncia. por município. “A repressão atribuiu o nome de Ligas à organização desses trabalhadores para caracterizá-los como comunistas. cordéis. boletins. as organizações camponesas passaram a se contrapor. distritos ou fazendas. e em 1954. envolvia profissionais liberais. As ligas utilizavam diferentes estratégias para organizar e formar os trabalhadores: conversas na feira. Como reação a esse processo. semente de uma nova nação. no nível estadual além das lideranças camponesas. . 04 a 10 de novembro de 2007. eram compostas só de camponeses.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG TERCEIRO MOMENTO: OS CAMPONESES ORGANIZADOS COMO CLASSE Somos gente nova vivendo a união Somos povo. No período de 1954 a 1964. impuseram o aumento do foro e tentaram expulsar os foreiros da terra. foram duramente atingidos os foreiros. lavradores. (Abreu e Lima. na missa. nos locais de trabalho. se tornando um movimento de luta pela Reforma Agrária que se espalhou por vários Estados do Nordeste. para fornecer assistência médica. que resistiram ao processo de despejo. em Vitória de Santo Antão. ê. fundada inicialmente com fins basicamente assistenciais. o PCB manteve algum trabalho no campo. resistência na terra e mobilizações. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). etc. jurídica. 2005). parlamentares”. houve uma aceleração do processo de penetração capitalista. parceiros.94 - . biscateiros e outros mais E juntos vamos celebrar a confiança Nesta luta na esperança de ter terra. criar escolas e uma caixa funerária para seus associados. Zé Vicente Após a segunda guerra mundial. povo do Senhor. pão e paz. agitação. do aumento dos dias de cambão. em alusão ao nome por estes utilizados para certas organizações populares”(Abreu e Lima. com a construção de grandes obras e expansão de crédito. contra as ações de despejo acionadas pelos usineiros e latifundiários. os donos do Engenho Galileia. de forma articulada. ê Vou convidar os meus irmãos trabalhadores Operários. pequenos proprietários e moradores de engenho (que tinham direito a cultivar a lavoura branca e a obrigação de prestar três dias de serviço por semana ao proprietário). surgiram três grandes organizações camponesas que deram uma outra fisionomia ao debate e as lutas dos camponeses (as) no País: a) Ligas camponesas Em 1955. e posteriormente. ê Somos gente nova vivendo o amor Somos comunidade. Através da expulsão do morador. 2005). e começaram a participar da formação da Sociedade Agrícola dos Plantadores e Pecuaristas de Pernambuco (SAPPP). no campo. b) União dos Lavradores e Trabalhadores Trabalhadores Agrícolas – ULTAB Mesmo na ilegalidade. estudantes. Em âmbito local. intelectuais. As Ligas se organizavam em “delegacias ou núcleos. Nesse processo. da supressão do direito do cultivo do sitio. ê.

o direito de greve. As principais eram a reforma agrária. da ULTAB. 04 a 10 de novembro de 2007. inovava com relação às formas de luta. a reforma agrária. pois executava a ocupação de terras. não encolho a mão: avanço levando um ramo de sol. a partir da resistência de 300 famílias de posseiros. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Mesmo enrolada de pó. A década de 1960 chega com o país falando de reformas de bases. o que já era o bastante para deixar os latifundiários muito aborrecidos com o governo. Até 1962 48 sindicatos foram fundados e 16 deles foram reconhecidos. inclusive a Igreja Católica. CAMPO: PO: CONTAG SURGE A PRIMEIRA ORGANIZAÇÃO SINDICAL NACIONAL NO CAM Ainda que o gesto me doa. com a presença de 303 representantes de 16 estados. que aliavam as lutas por direitos trabalhistas e reforma agrária e do surgimento dos sindicatos de trabalhadores e trabalhadoras rurais. dentro da noite mais fria.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG na II Conferencia Nacional de Lavradores. em 1963. reforma na educação e no sistema bancário. em áreas previamente escolhidas. previdência social. o então Bispo Dom Eugenio Sales funda em 1960 o Serviço de Orientação Rural (SAR) uma organização beneficente da Igreja destinada a fundar sindicatos. dentro das terras dos latifundiários. formando acampamentos e organizando estratégias de defesa. Nesse período foi criado o Estatuto do Trabalhador Rural (1963). marcou o reconhecimento social e político da categoria camponesa e o reconhecimento do seu potencial organizativo dentro da sociedade brasileira. Essas três organizações durante sua existência assumiram algumas lutas de forma unificada. atingindo outros setores da sociedade. A partir.. c) Movimento dos Agricultores Agricultores Sem Terra – MASTER Surgiu no Rio Grande do Sul em 1950. a greve no setor canavieiro em Pernambuco. Em Jaboatão (PE) o padre Crespo e o Padre Antonio Melo no Cabo (PE) passam a criar sindicatos com um objetivo declarado de enfraquecer o avanço das Ligas Camponesas e do PCB. que obteve conquistas significativas para a categoria ou a participação em Congressos como o I Congresso Nacional dos Lavradores e Trabalhadores Agrícolas. que embora explicitasse as divergências.. que concedia aposentadoria por invalidez ou por velhice como resultado das lutas lideradas pelas Ligas Camponesas no Nordeste. o movimento camponês cresceu e as discussões sobre a questão fundiária ampliaram-se.95 - . tendo-se discutido o direito a organização dos trabalhadores rurais em associações e sindicatos. a vida que vai comigo é fogo: esta sempre acesa Thiago de Mello A existência das Ligas Camponesas. das federações e da CONTAG. do Master e a influência do 38 No Rio Grande do Norte. como por exemplo. que passou a atuar na perspectiva de fortalecer a posição da Igreja entre os camponeses através da criação de sindicatos38. adoção de medidas de apoio a produção etc. . sendo a primeira experiência na perspectiva sindical no campo brasileiro. realizado em 1961. foi fundada a ULTAB.

de trabalhadores rurais. com a participação de trabalhadores rurais de 18 estados. em alguns estados mais de duas: de assalariados. prisão e tortura para os opositores e censura prévia nos meios de comunicação. que viu bandeiras de lutas políticas dos trabalhadores. em especial. sofre de imediato a violência do golpe militar sobre as lideranças de sua organização. Nos primeiros anos da década de 1960. desde os setores mais à direita. provenientes das Ligas e os comunistas”. setores da Igreja. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). de lavradores. Foi da Juventude Estudantil Católica que partiram as primeiras discussões que operaram mudanças políticas e ideológicas e sua transformação em uma organização marxista-leninista. que obrigou muitos agricultores familiares a saírem do campo. esse foi o quadro político criado pelo regime militar para arrasar toda oposição a sua forma de governar o país. pela reforma agrária. as tropas militares ocuparam os pontos estratégicos do país. perseguição militar. (Revista dos 40 anos da CONTAG). 39 Foi formada em Belo Horizonte (MG). Recém criada a CONTAG. já existiam 42 federações. apesar das diferentes correntes de pensamento. Esse processo culminou na realização do 1º Congresso Nacional dos Lavradores e trabalhadores agrícolas. que solicitou a realização de um Congresso Nacional para criação da Confederação. a AP formalizou a influência do marxismo e se proclamou partido com a denominação de Ação Popular Marxista-Leninista (APML). . A mobilização popular a favor das reformas amedrontou a classe dominante. de agricultores. em 1962. sendo efetuadas experiências em meios populares como o ABC paulista. e do Vale do Pindaré. sendo reconhecida em 31 de janeiro de 1964. da área de Pariconha e Água Branca em Alagoas. principalmente entre os últimos. Em 1962. a partir de grupos de operários e estudantes ligados à Igreja Católica: a Juventude Operária Católica (JOC).96 - .600 delegados de várias organizações. ainda fortemente influenciada pelo ideário humanista cristão.517. com um grande aumento da miséria na área rural e nas cidades. vinculada às estruturas formadas pela Igreja junto aos movimentos populares. Em março de 1971. pelo Decreto Presidencial 53. sendo que 27 eram reconhecidas oficialmente pelo Ministério. o que ocorreu em 22 de dezembro de 1963. na busca pela melhoria das condições de vida dos trabalhadores do campo. autoritarismo.AP39. da região Cacaueira da Bahia. camponeses e estudantes. de concepções e de formas de organização. a AP possuía penetração entre operários. Ajustou em seu interior diversas concepções e correntes de pensamentos. Juventude Universitária Católica (JUC) e a Juventude Estudantil Católica (JEC). A AP deslocou militantes para as fábricas e para o meio rural. em Belo Horizonte coordenado pela ULTAB. fizeram com que a organização dos trabalhadores(as) rurais em sindicatos fosse acelerada. no Maranhão. as bandeiras de lutas atualizadas e ampliadas e estabelecidas linhas de ação comum. a da reforma agrária. temiam que fosse apenas o começo de uma série de transformações radicais no país. 04 a 10 de novembro de 2007. acabou sendo promulgada com modificações. foi decretada a Primeira Lei de Reforma Agrária do Brasil elaborada ainda no Governo João Goulart. desrespeito a constituição. como resposta as reinvidicações do movimento sindical. serem colocadas em segundo plano. 1985).Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG PCB e da Ação Popular. que por um lado definiu regras para os contratos de arrendamento e parceria. e por outro incentivou o pacote da Revolução Verde. Já em 1964. distribuídos em 29 federações. que continuou sua ação política durante a ditadura (ACO. da Zona Canavieira em Pernambuco. em 1961. A resposta das elites veio de imediato no dia 31 de março de 1964. Articular nacionalmente as lutas passou a ser uma das principais preocupações. de pescadores. sendo denominada Estatuto da Terra. que reuniu 1. “A CONTAG torna-se a primeira entidade sindical camponesa de caráter nacional reconhecida legalmente. pela ditadura militar.

escritas pelos trabalhadores (as) rurais. do trabalho em grupos. as relações comunitárias de parentesco e de vizinhança foram à base da organização dos “posseiros”. Eram boletins. Os autores das histórias utilizavam pseudônimos. sem serem perturbados pela Policia ou pelo Ministério do Trabalho.”(Revista 40 anos da CONTAG). No ano seguinte.(Revista 40 anos da CONTAG) O cotidiano e o estímulo à organização dos trabalhadores (as) rurais eram reproduzidos por meio de personagens. que tinham como objetivo central a conscientização e a socialização das vitórias e lutas do MSTTR.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Logo na sua criação tinha sido constituída uma equipe de “educação sindical” com o objetivo de capacitar lideranças e dirigentes a fim de mantê-los informados. tendo como interventor José Rotta. uma diretoria foi eleita para administrar a entidade durante o período de 1965 a 1968. por exemplo. foi constituída uma Junta Governativa que durante um ano administrou a CONTAG. prosas e cordéis. regional e estadual. A criatividade marcou esse período. Outro instrumento utilizado no final da década de 1960 e meados de 1970. ser interpretado como “ofensivo” ao governo e a “ordem pública”. A formação se traduzia em práticas educativas para garantir núcleos organizados nos locais de trabalho e para fortalecer o processo de retirada dos interventores e sindicalistas pelegos. buscando a organização dos sindicatos e federações. esse período nos ensinou a importância da comunidade. De meados da década de 60 até o final da década de 70. dialogando com os desafios do dia-a-dia. e foram ficando na terra e produzindo. A formação sindical centrava sua ação na alfabetização dos trabalhadores (as). na sua organização já construída e na solidariedade que novos migrantes foram rompendo as fronteiras do latifúndio na região. 04 a 10 de novembro de 2007. na Amazônia. as lutas 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Também reproduziam as poesias. nas temáticas do movimento e da realidade social e política do país. para estimular uma visão crítica daquele momento que o país vivia sem chamar a atenção do poder público (Revista CONTAG 40 anos). liderados pelos mais antigos. caso a repressão militar resolvesse censurar os textos. que durante a ditadura tiveram que atuar de forma quase clandestina. O trabalho comunitário e de pequenos grupos foi á estratégia adotada durante muitos anos para resistir e formar novas lideranças durante a fase da ditadura. da formação de base. os autores estariam protegidos. Foi na experiência de comunidades já existentes. . impostos nos sindicatos e federações pela ditadura. trabalhadores que resistiam à ditadura buscaram retomar o controle da entidade. foi o sócio-drama. “Após a intervenção. formavam uma rede importante de relações através das quais se recrutavam os membros das comunidades para as ações coletivas.97 - . Os materiais de comunicação sindical foram fundamentais para garantir minimamente uma ação articulada nacional. durante toda a década de 1970. Portanto. Priorizava a oralidade e a expressão corporal. da importância do ambiente cultural na formação do ser humano. na difusão de práticas agrícolas e cursos políticos para formar novas lideranças. em seu conteúdo. Eram organizações quase clandestinas em grande parte fomentadas ou apoiadas pela Igreja. O cerceamento das liberdades individuais e coletivas inibia qualquer divulgação de trabalhos que pudessem. Os núcleos formados por famílias extensas e vizinhos. revistas e jornais. e superar as dissidências alimentadas durante o período de intervenção. A partir de 1966.

que decretou ações contra os trabalhadores. portanto. Recife: Editora Universitária da UFPE: Editora Oito de Março. 28-49. . entre todos os galos REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ACO. ainda na perspectiva de controlar a questão agrária determinou a militarização do problema da terra. 2005. Jan/Jun. Pedagogias em Movimento – o que temos a aprender dos Movimentos Sociais? In: Currículo sem Fronteiras. os valores humanistas. As desigualdades sociais e a exclusão continuam acirrando as contradições de nossa sociedade. se vá tecendo. os conflitos fundiários triplicaram e o governo. Rio de Janeiro: ACO. Construindo o sindicalismo rural: lutas. ecologicamente sustentável com equidade e justiça social continuam na agenda do dia para tecer o amanhã. vinculadas à luta por uma sociedade economicamente justa. de um outro galo que apanhe o grito que um galo antes lançou e o lance a outro. a luta pela terra. 2004. projetos. pela cidadania. a educação. os jagunços dos latifundiários e a polícia assassinavam um trabalhador (a) rural a cada dois dias. Maria do Socorro de. A violência do peão que é o jagunço da força privada. partidos. as relações igualitárias de gênero e etnia. pp. v 3. (1999) Educação não formal e cultura política: impactos sobre o 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Minas Gerais. para que a manhã.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG camponesas eclodiam por todo o território nacional. ABREU E LIMA. n. A militarização proporcionou diferentes e combinadas formas de violência contra os trabalhadores. escorada na justiça desmoralizada. e de outros galos que com muitos outros galos se cruzem os fios de sol de seus gritos de galo. a soberania alimentar. GOHN. muitas vezes com o amparo da força pública. 1985. (2003). Miguel. utilizando recursos dos grileiros e grandes empresários. CONTAG. Tecendo a manhã João Cabral de Melo Neto Um galo sozinho não tece uma manhã: ele precisará sempre de outros galos. pelo meio ambiente. a participação popular. (1985) História da classe operária no Brasil: Gestação e nascimento -1500 a 1888.98 - . desde uma teia tênue. defendendo claramente e tão somente os interesses dos latifundiários. Revista dos 40 anos. Brasília.1. AÇÃO CATÓLICA OPERÁRIA. a saúde. No ano derradeiro do governo militar. Essas diferentes ações fomentam a resistência e a luta por uma sociedade justa e solidária até os nossos dias. 04 a 10 de novembro de 2007. Maria da Glória. A violência da polícia. ARROYO. De um que apanhe esse grito que ele lançou e o lance a outro.

99 - . MANFREDI. NEAD/Brasília. Ítalo A.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG associativismo do terceiro setor. Rio de Janeiro: FASE. 04 a 10 de novembro de 2007. Formação Sindical no Brasil: história de uma prática cultural. (Coleção Questões da nossa época.71). Belo Horizonte: Vega. SILVA. Silvia Maria. TRONCA. Leonilde Servolo.A. 2004. O comando geral dos trabalhadores (CGT) no Brasil (1961-1964). 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). L. NEVES. Maria do Socorro. MEDEIROS. 2006. 1981. História dos movimentos sociais no campo. São Paulo. 1989. . Revolução de 30: a dominação oculta-São Paulo:Brasiliense. 1996. São Paulo: Escrituras Editorial. Da raiz a flor: a produção pedagógica dos movimentos sociais e a Educação do Campo. Cortez. v.

. Em 1963 uma greve no setor canavieiro envolveu a Federação dos Lavradores. de forma articulada. de resistência camponesa articulada a objetivos políticos mais definidos (. O primeiro presidente foi Lyndolpho Silva. contra as ações de despejo acionadas pelos usineiros (Porecatu/PR) e da luta dos posseiros e arrendatários de Trombas e Formoso. município de Vitória de Santo Antão. uma década depois. resistindo ao regime imposto pelos militares. ULTAB durante a II Conferência Nacional dos Lavradores. A CONTAG nasceu em um momento crítico da atividade política do país.517. CONTAG Nessa conferência. . 40 Publicação – Revista Contag 40 anos 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). em Goiás. A luta camponesa passa a ter uma postura politizada e politizadora. No processo de organização e luta.. onde várias lideranças se destacaram. trabalhadores rurais de 18 estados. fundaram a Sociedade Agrícola e Pecuária dos Plantadores. foram identificadas as bandeiras prioritárias entre elas o ”estímulo à criação de sindicatos de trabalhadores rurais”. 04 a 10 de novembro de 2007. Em 22 de dezembro de 1963. em 1962 acontece o 1º Congresso de Trabalhadores na Lavoura do Nordeste. que. foram criadas outras organizações como o Movimento dos Agricultores Sem Terra – MASTER na região sul do país. distribuídos em 29 federações. viria a ser o primeiro presidente da CONTAG. as organizações camponesas passaram a se contrapor. dentre outros. Em 1954. Foi quando surgiu a primeira experiência de Ligas Camponesas e.). promovendo uma das mais importantes lutas da época. as Ligas Camponesas e sindicatos autônomos. pelo Decreto Presidencial 53.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG TRAJETÓRIA POLÍTICA DA CONTAG . nos limites da região Agreste com a Zona da Mata de Pernambuco. CONTAG – PRIMEIRA ORGANIZAÇÃO SINDICAL NACIONAL NO CAMPO As Ligas Camponesas. As várias formas de organizações camponesas passaram a sentir a necessidade de uma articulação nacional que representasse os interesses e as demandas específicas. O MASTER. A CONTAG torna-se a primeira entidade sindical camponesa de caráter nacional legalmente reconhecida. As organizações de esquerda com atuação no campo buscaram atualizar e ampliar as bandeiras de luta e estabelecer linhas de ação comuns. Lavradores realizada em São Paulo. reconhecida em 31 de janeiro de 1964. Neste sentido organizaram: o 1º Congresso Nacional dos Lavradores e Trabalhadores Agrícolas (1961) – convocado e coordenado pela ULTAB. A Ação Popular – AP (ligada aos católicos radicais) e a União dos Lavradores e Trabalhadores Agrícolas do Brasil – ULTAB.AS PRIMEIRAS LUTAS40 Na década de 50. fizeram com que a organização dos trabalhadores rurais em sindicatos fosse acelerada. surgiu a União dos Lavradores Agrícolas do Brasil – ULTAB.100 - . em 1963 a ULTAB organizou a 1ª Convenção Brasileira de Sindicatos Rurais (Natal-RN). Em Pernambuco. decidiram pela criação da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG. conseqüentemente. no Engenho Galiléia.

um ligado ao interventor e. torturados e substituídos por interventores que conduziam os sindicatos como órgãos de colaboração do Estado. mais tarde. congregando representantes dos trabalhadores rurais. a intervenção do Estado no setor fundiário. Houve um estímulo à especulação com a terra e de concessões a grandes empresas para atuarem no campo. foi promulgado devido às pressões internacionais e internas. mediante a desapropriação de terras por interesse social. Os dirigentes sindicais mais combativos foram cassados. . de consolidação de uma chapa para concorrer às eleições da CONTAG. dentre outras coisas. O governo militar concentrou-se na modernização das relações capitalistas no campo e nos projetos de colonização nas áreas de fronteira. 04 a 10 de novembro de 2007. Colocou à margem a pequena produção e favoreceu a ampliação ainda da concentração de terra e de renda no país. marcou uma nova etapa em relação à legislação existente. a União Nacional dos Estudantes (UNE). Em 1967. Com o golpe militar. contando com a presença de sindicalistas rurais de quase todos os estados. a direção da CONTAG foi deposta e alguns dirigentes foram presos. aliada à ausência de uma política diferenciada de créditos. com profundas modificações. resistiram como puderam ao regime militar e no 1º Congresso Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CNTR. realizado em São Paulo. Com o golpe. Nessa conferência. Os pequenos e médios produtores foram incentivados a se modernizarem. A repressão à atuação sindical não permitia que os assalariados rurais pleiteassem seus direitos trabalhistas.101 - . O Ato Institucional (AI) foi criado pelo governo militar – cujo objetivo era justificar os atos de execução. presos. uma violenta repressão atingiu setores politicamente mais mobilizados à esquerda como. O golpe foi deflagrado contra o governo de João Goulart. No 1º Congresso Nacional de Trabalhadores Rurais da CONTAG. impedia os aumentos reais e garantia ao patronato à crescente exploração de mão-de-obra barata. por exemplo. as Ligas Camponesas e grupos católicos como a Juventude Universitária Católica (JUC) e a Ação Popular (AP). Milhares de pessoas foram presas e casos de tortura transformaram-se em atos comuns. bancários e industriários. Os militares justificavam sua ação afirmando que o objetivo era restaurar a disciplina e deter a “ameaça comunista”. As lideranças políticas sindicais comprometidas com a luta por direitos e liberdade. resultou na perda de muitas propriedades. Ainda assim. permitindo.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG O golpe militar de 64 foi uma contra-revolução que barrou mudanças estruturais de democratização da sociedade brasileira. o Rio de Janeiro é transformado em sede da Conferência Nacional Intersindical. urbana e rural. outro ligado a trabalhadores e lideranças que se mostravam comprometidos com as lutas dos trabalhadores. deu-se início à implantação de um regime político marcado pelo “autoritarismo”. Nos primeiros dias após o golpe. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). preocupando-se com um projeto agrícola afinado com sua política econômica. A política salarial. mas. O Estatuto da Terra. Essa situação. o Comando Geral dos Trabalhadores (CGT). A idéia aguçou o conflito em torno da propriedade. controlada pelo governo. Foi o início de uma articulação ampla. em especial nas áreas de fronteira agrícola. As pessoas também foram atingidas em seus direitos individuais e coletivos. a defesa da reforma agrária foi unânime. estava clara a existência de dois grupos políticos. elaborado durante o governo de João Goulart. não conseguiram saldar. adquirindo máquinas e equipamentos mediante financiamentos que. tornando irreversível o processo de concentração fundiária.

por meio da formação de lideranças. causaria uma reação violenta do patronato e do poder público. Durante os ‘anos duros’ do regime ditatorial militar.PIN. Por meio de cursos sobre a realidade brasileira. por promoverem reuniões dos grupos nos Sindicatos de Trabalhadores Rurais. informativo que levava as idéias e propostas da direção da CONTAG acerca das bandeiras de lutas e da organização sindical às Federações. para vencer barreiras centenárias de irracionalidades geradas pelo latifúndio. criadas pela equipe técnica da Contag e assinadas com nomes fictícios. Os textos reproduzidos no periódico demonstram explicitamente o enfrentamento da CONTAG diante das políticas do governo militar. A formação de líderes era essencial para o futuro do MSTR. lançando a revista mensal “O Trabalhador Rural”. que ameaçavam e puniam os líderes sindicais. O PIN previu ações específicas para cada setor. que reafirmava: “É. em grande número. assinada por José Francisco. O PIN elegeu a reforma agrária como uma das bandeiras de luta capaz de propiciar a unidade do movimento. pois seria de fundamental importância não apenas para os diretamente envolvidos nos conflitos pela terra. Essa proposta. Em uma dessas estórias consta esse trecho: “E quem é esse sindicato. a fim de elaborar um Plano de Integração Nacional . agrária. quando levada à prática. Nesse período. foi transcrita a carta ao Papa Paulo VI. A preocupação maior era criar um instrumento capaz de garantir a unidade do MSTR diante da divisão política revelada no processo eleitoral. Um espaço chamado “Conversa de Caboclo” que contavam estórias sobre o cotidiano dos trabalhadores rurais. a CONTAG optou pelo enfrentamento ao poder econômico e político em uma de suas principais bases: a democratização da terra e a organização política dos trabalhadores rurais. legislação trabalhista. apresentando análises sobre a conjuntura nacional e sugerindo encaminhamentos para reflexão nos estados. por apenas um voto de diferença. 04 a 10 de novembro de 2007. social e cultural que contrariam a função social de propriedade. cooperativismo e de organização sindical. a nova diretoria (1968) convocou todas as federações para um encontro. O PIN marcou a singularidade do MSTTR dentro do sindicalismo brasileiro. José Rotta. para abarrotar as Juntas de Conciliação e Julgamento. Lançaram o periódico “O Trabalhador Rural”. . que vai dar nosso valor? É uma sociedade composta de agricultor. foram incentivadas as ações coletivas. é necessária uma decisão drástica e enérgica pela reforma agrária”. 1968 e 1969. iniciou um contínuo trabalho de conscientização dos trabalhadores rurais sobre os seus direitos.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Fruto da união operária e camponesa. Num dos primeiros números dessa revista. sinônimo de um poder político. Empossada. os dirigentes do MSTR aceleraram o processo de organização e politização da categoria. econômico. para chamar a atenção dos camponeses sobre a importância da organização sindical. a chapa encabeçada por José Francisco da Silva impõe a derrota ao interventor e então presidente da CONTAG. A necessidade de organizar os trabalhadores nos municípios e constituir sindicatos era uma das grandes demandas do movimento sindical naquele momento. A revista “o Trabalhador Rural” era um dos meios utilizados para chamar os trabalhadores para organização sindical. mas também para o pequeno produtor e o assalariado. qualificando-os para a luta cotidiana. agrícola. em Petrópolis (RJ). Nós 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). forçando uma tomada de posição favorável aos trabalhadores. a direção da CONTAG qualificou ainda mais a sua forma de comunicação com a base. por exemplo.102 - . No caso dos assalariados. Enquanto as outras confederações urbanas existentes tinham dúvidas entre resistir ou aceitar a intervenção no movimento sindical.

conforme a tabela abaixo: Levantamento numérico do movimento sindical em 22 estados. Sim. foi empossada a direção para o triênio 1980/1983 e a festa de posse contou com a presença dos exex-dirigentes Lyndolpho Silva Silva e José Pureza da Silva.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG vai lá se reunir. em seu discurso de abertura. Demonstrou que o conceito de desenvolvimento do governo era diferente da idéia do MSTR: “milhões de camponeses continuam morrendo de fome (. para daí se chegar à escolha da ação e a própria ação. Levantamento elaborado pela CONTAG. de 1960 a 1971. Rurais dando visibilidade nacional ao sindicalismo de trabalhadores coordenados pela CONTAG. ambos fundadores da CONTAG. Francisco/PE esta foi a 4ª eleição da CONTAG. de dois milhões e meio de associados para mais de cinco milhões”. mas o Brasil está em franco crescimento. de volta ao país após vários anos de exílio. Em abril de 1980. inclusive Brasília e Guanabara. Reunindo diversos representantes das Federações concluíram que: a) o diálogo deve ser a base para a construção de uma proposta educativa para o campo. Em 1979 acontece o 3º Congresso Nacional Nacional dos Trabalhadores Rurais. de 1. . e b) o método a ser utilizado. 04 a 10 de novembro de 2007. demonstraram que a estratégia adotada pelo MSTR foi acertada. pra acabar com a tal de meia. que será criticada. logo o governo militar buscou impedir a posse da diretoria eleita. em 1979. deve levar em conta o conhecimento da realidade. Em maio de 1977 foi empossada a direção para o triênio 1977/1980. é Sindicalismo livre”. já em 1968. o presidente José Francisco recordou: “apesar das condições desfavoráveis para o trabalho sindical entre o último Congresso e os dias atuais.. 1971 ocorreu a Reunião do Conselho Deliberativo que escolheu a diretoria da CONTAG para o triênio 1971/1974. a direção da CONTAG politizou o debate sobre o papel da organização sindical e utilizou repetidamente o lema “Sindicalismo autêntico.500 sindicatos para 2. passamos de 19 para 21 Federações.. Na revista “O Trabalhador Rural”. Municípios brasileiros Inicio de 1969 3959 Final de 1971 3959 Municípios com Municípios sem Média de sindicatos sindicato sindicatos 705 1045 3254 2914 sócios por 800 1132 Fonte: Revista O Trabalhador Rural Em março de 1971. Denunciou a intenção de cooptação do governo através do assistencialismo. conhecimento e crítica.103 - . Que sempre nos tem trazido amarrado no nó da peia. preocupados com a importância da educação para o desenvolvimento do campo. em 1971. foi organizado um Encontro Nacional em Petrópolis. Durante o 3º Congresso Nacional de Trabalhadores Rurais.” A luta essencialmente corporativa. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). que representou um marco para a organização da classe trabalhadora rural.275. porque crescer é bem diferente de desenvolver”. nunca foi a marca do movimento sindical coordenado pela CONTAG. A CONTAG segue sua trajetória e realiza seu 2º Congresso Nacional dos Trabalhadores Rurais . tendo como presidente José Francisco/PE.).CNTR em 1973.

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A CONTAG estava consolidada, não como um espaço desse ou daquele ‘modo de pensar o
sindicalismo’, mas de todas as correntes políticas existentes. Rompeu com a visão
imediatista da luta sindical e buscou atender às outras dimensões e necessidades do ser
humano, inclusive, apontando o conceito de desenvolvimento que se queria para o campo:
“O desenvolvimento deve vir acompanhado de transformações sociais e políticas”.
O mesmo aconteceu com o estímulo à participação, em registros internos, vê-se que
reuniões de avaliação e planejamento sempre estiveram presentes na história dessa
entidade, inclusive, com a participação da assessoria nesses momentos, demonstrando
como praticar democracia interna, mesmo em momentos difíceis e sob ameaça constante
dos militares.
No 4º CNTR em 1985 o debate sobre o modelo de reforma agrária defendido pelo MSTR
foi o ponto alto. Os delegados aprovaram a realização de eleições da CONTAG e
Federações em Congresso, com mandato de três anos. Em dezembro de 1985 aconteceu
a 1ª Eleição Congressual da história da CONTAG.
Apesar da deliberação do 4º CNTR, a eleição da Diretoria e do Conselho Fiscal da CONTAG,
gestão 1989/1992,
1989/1992 não aconteceu em congresso. As urnas foram colocadas nas sedes
das federações. A votação foi de um delegado por sindicato. A Diretoria Efetiva teve como
presidente
presidente Aloísio Carneiro/BA.
Carneiro/BA Nessa eleição foi eleita a primeira mulher, Gedalva de
Carvalho/SE, enquanto suplente da direção da entidade.
No 5º CNTR,
CNTR em novembro de 1991 a participação da base foi ampliada qualitativa e
quantitativamente. Elegeram o dirigente Francisco Urbano/RN como presidente da
CONTAG.
Em agosto de 1994 foi realizado o 1º Congresso Nacional Extraordinário dos
Trabalhadores Rurais – CNETR. Neste congresso participaram a direção executiva da
CONTAG, a direção efetiva das federações e os delegados eleitos em número
correspondente a 10% dos sindicatos filiados a cada federação. Foi assegurada a
participação das diretoras da CONTAG, como delegadas, e de duas trabalhadoras rurais
por estados.
O 6º CNTR acontece em maio de 1995 explicitando a necessidade da classe trabalhadora
rediscutir a sua prática de luta e de convivência democrática com as divergências. O 6º
CNTR foi um marco, pois a partir daí o Movimento Sindical dos Trabalhadores e
Trabalhadoras Rurais – MSTTR incorporou o conceito de agricultura
agricultura familiar às suas
formulações, dando os passos iniciais para a construção de um projeto alternativo de
desenvolvimento rural, a participação efetiva das mulheres na Diretoria da CONTAG e uma
maior abertura para os jovens e as pessoas da 3ª idade. No 6º CNTR também foi aprovada
a filiação da CONTAG à Central Única dos Trabalhadores - CUT. Em 1995 foi oficializada
estatutariamente a Comissão Nacional de Mulheres Trabalhadoras Rurais, cuja
Coordenadora passou a integrar a Diretoria da CONTAG. A Comissão Nacional de Mulheres
Trabalhadoras Rurais – CNMTR elege a sua Coordenadora Nacional, Margarida Maria
Alves da Silva (Hilda) do STTR de Surubim/PE.
Dois anos (1997) depois foi realizada a 1ª Plenária Nacional de Mulheres Trabalhadoras
Rurais que discutiu as lutas específicas das mulheres e a sua relação com as lutas do
conjunto da categoria.
O 7º Congresso representou um marco, em 1998 mais de 1.400 delegados e delegadas
debateram e aprovaram um Projeto Alternativo de Desenvolvimento Rural Sustentável –
PADRS. Nascia o PADRS representando um passo significativo para a articulação e

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unificação das lutas da categoria na esfera nacional e para o fortalecimento de um novo
tipo de interseção campo e cidade.
O projeto ampliou a visibilidade política das mulheres coordenadas pela CNMTR, que já
haviam conquistado a inclusão da Coordenação da Comissão Nacional no Estatuto da
CONTAG. Incluíram mais um “T” no nome do congresso, que passou a ser 7º Congresso
Nacional de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais – CNTTR. Foi aprovada também a cota
de, no mínimo, 30% de mulheres em todas as instâncias do sindicalismo rural. Foi eleito
como presidente Manoel José dos Santos/PE.
Neste Congresso os trabalhadores e trabalhadoras rurais aprovaram: o Projeto Alternativo
de Desenvolvimento
Desenvolvimento Rural Sustentável - PADRS,
PADRS, tendo por princípio a realização de uma
ampla e massiva reforma agrária, expansão, valorização e fortalecimento da agricultura
em regime de economia familiar, centrado na inclusão social, no desenvolvimento social,
econômico, ecologicamente sustentável e no fim de todas as discriminações, em especial
as de gênero, de geração, raça e etnia. Para a implementação do Projeto Alternativo de
Desenvolvimento Rural Sustentável - PADRS desenvolveu-se um trabalho de formação de
lideranças em desenvolvimento local, através do Programa de Desenvolvimento Local
Sustentável – PDLS, voltado para a animação e estímulo a processos de desenvolvimento
sustentável ao nível local, possibilitando uma maior intervenção nas políticas públicas e
nos Planos Municipais.
Em outubro de 1999 foi realizado o 2º Congresso Extraordinário buscando atualizar e
potencializar o MSTTR para o desafio de implementação do PADRS. o 2º CNETTR discutiu e
deliberou especificamente sobre estrutura, organização, gestão e auto-sustentação do
MSTTR. Este processo de avaliação e discussão interna tem possibilitado continuar na
construção de um movimento sindical autônomo, combativo, ético e participativo.
Em Março de 2001 acontece o 8º CNTTR , onde o MSTTR reafirmou a estratégia
estratégia de
continuidade e o avanço no processo de implementação do PADRS, indicando a
necessidade de atuação efetiva na organização da produção e comercialização. Foi criada
a Comissão Nacional de Jovens Trabalhadoras e Trabalhadoras Rurais e a Coordenadora
da Comissão, Simone Battestin/ES foi eleita junto com a Direção Efetiva da CONTAG.
Neste congresso foi deliberada a necessidade do MSTTR participar articuladamente das
Eleições Eleitorais e de eleger representantes dos trabalhadores e trabalhadoras rurais.
Os Congressos da CONTAG garantiram o debate, a socialização e a integração nacional
das políticas do Movimento Sindical dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais – MSTTR.
Ver anexo I sobre a trajetória das Eleições e Congressos Nacionais da CONTAG.
Desde então, o Movimento Sindical de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais vem
aperfeiçoando suas proposições e ações em torno da construção e implementação do
PADRS, se contrapondo aos padrões dos sucessivos modelos de desenvolvimento
implementados no Brasil. Modelos estes, que embasados na preservação do latifúndio e
na produção de monoculturas para exportação, fizeram aprofundar a exclusão social, o
desemprego, a concentração da terra e renda, sendo responsáveis, também, pela
violência no campo e pela alta degradação ambiental.41
Como também, implementando e ajustando, permanentemente, o Projeto Alternativo de
Desenvolvimento Rural Sustentável - PADRS. Sua última atualização ocorreu no 9º
Congresso Nacional da CONTAG, realizado em Brasília, no ano de 2005. Dentre os vários
41

PORTO, Cleia Anice. “Reforma Agrária e Agricultura familiar como base para o desenvolvimento rural –
Sustentabilidade e qualidade de vida, Reforma Agrária e Meio Ambiente, Instituto Socioambiental, 2003, p.107

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ajustes, ressalta-se a reflexão sobre o princípio da SOLIDARIEDADE.
SOLIDARIEDADE Durante o 9º
Congresso,
Congresso as trabalhadoras e trabalhadores rurais entenderam não ser possível se opor
ao neoliberalismo sem implementar profundas mudanças nas relações sociais
estabelecidas entre homens e mulheres, de todas as idades, raças e etnias que vivem e
trabalham no campo.
Logo, a solidariedade foi compreendida enquanto principal elemento para a construção de
relações fraternas entre a classe trabalhadora rural, na perspectiva de um mundo melhor.
Nosso projeto passou a ser denominado: Projeto Alternativo de Desenvolvimento Rural
Sustentável e Solidário – PADRSS.
A construção do PADRSS foi a primeira iniciativa concreta de unificar as demandas do
campo, considerando as diferenças e especificidades regionais, culturais, produtivas,
ambientais, organizativas, de gênero, geração, raça e etnia. E ainda propõe alternativas
específicas que consideram as demandas das pessoas no âmbito das suas características
produtivas, a exemplo das assalariadas e assalariados rurais, das agricultoras e
agricultores familiares, assentados, acampados, meeiros, posseiros, extrativistas, dentre
outros.
A incorporação das propostas do PADRSS no dia-a-dia do MSTTR estimulou profundas
mudanças em nossas entidades, garantindo um salto qualitativo e dinâmico às respostas
necessárias ao atendimento das demandas da base. A ampliação das frentes de lutas do
MSTTR foi uma delas. Não bastava atuar nas questões trabalhistas, previdenciárias, de
acesso à terra e crédito, sem articular essas lutas com outras políticas necessárias e
estratégicas para garantir o desenvolvimento rural sustentável que se pretende.
A ampliação das frentes de lutas acabou estimulando o MSTTR a expandir e qualificar
suas direções. Foram criadas as secretarias específicas, primeiramente na CONTAG, em
seguida nas Federações, e em muitos Sindicatos de Trabalhadores e Trabalhadoras
Rurais.
Essas mudanças apontaram para a necessidade de investir na formação política, sindical
e profissional de novas
novas lideranças sindicais e técnicas do MSTTR. Essas ações formativas
deram visibilidade a um público estratégico para as mudanças, a juventude e as mulheres
trabalhadoras rurais.
Ainda hoje, esse processo formativo busca conjugar a formação política sindical com as
demandas por melhoria das condições de trabalho, aumento da renda e dos salários,
direitos trabalhistas e previdenciários, elevação dos níveis de escolaridade, de formação e
requalificação profissional, habitação rural, saneamento básico, saúde pública e de
qualidade, educação do campo e lazer.42 Conjugadas com as demandas estruturantes do
desenvolvimento rural sustentável, como o acesso à terra, crédito, infra-estrutura social e
produtiva, condições de comercialização, tecnologias de produção adaptada à agricultura
familiar e aos ecossistemas.
A estratégia do MSTTR se orientou pelo estímulo à participação política e à gestão
democrática na comunidade, município, território ou região, levando os excluídos e
marginalizados do campo a serem protagonistas de uma outra realidade, sem perder de
vista a articulação entre o local, o regional e o territorial com o global, o rural com o
urbano, na perspectiva de uma sociedade justa, democrática, igualitária e solidária.
Tal estratégia exige uma participação efetiva nos processos políticos e eleitorais, nos
espaços de concepção e gestão de políticas públicas e, o permanente debate com a
42

Anais da 1ª Plenária Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais – Novembro 2003

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representa um salto qualitativo para nossa organização. Mas. dar visibilidade e reconhecimento ao papel político. tendo como um dos principais objetivos reverter o processo neoliberal e viabilizar políticas públicas necessárias à implementação do PADRSS. unida e ativa essa grande estrutura de representação construída ao longo desses 43 anos. na Constituinte de 1988 e foi participante do Comitê em Defesa da Ética na Política que levou ao “Impeachment” o presidente Fernando Collor de Mello. A CONTAG nestes 43 anos se engajou nas principais lutas do povo brasileiro: contra a ditadura militar. existência com o esforço e a participação de milhões de trabalhadores e trabalhadoras rurais. de maneira decisiva. econômico. igualitária e solidária em nosso País. o MSTTR passou a se mobilizar anualmente no “Grito da Terra Brasil” . mobilização. democrática.107 - .Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG sociedade sobre a concepção de espaço rural e do desenvolvimento que propomos.que hoje é considerado como a “data“database” para a categoria trabalhadora rural. tem contribuído. em seus 43 anos de existência. em sua primeira edição mobilizou milhares de trabalhadoras rurais dos municípios. CONTAG. MSTTR É essencial que tenhamos viva. 01 Congresso Nacional da Terceira Idade. 03 Encontros Nacionais de Juventude. Em sua história de luta. 03 Plenárias Nacionais de Mulheres Trabalhadoras Rurais. reivindicação e negociação das políticas essenciais para o meio rural. e principalmente a inclusão e organização das mulheres trabalhadoras de base. foram o fortalecimento das organizações e comissões de mulheres nos STTRs. a CONTAG continua engajada na defesa permanente dos interesses dos trabalhadores e trabalhadoras rurais. Os Congressos da CONTAG adquiriram cada vez maior importância política e capacidade no aprofundamento das questões de interesse da categoria. É a maior entidade camponesa da América Latina organizada em 27 Federações Estaduais de Trabalhadores na Agricultura e 4.100 Sindicatos de Trabalhadores Rurais. Os principais objetivos da Marcha. por eleições diretas para presidente e governadores. A CONTAG foi fundada no dia 22 de dezembro de 1963 em 01 Congresso Nacional. marcada pela mobilização. proposição. foram realizados mais 08 Congressos Nacionais de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais. para a construção de uma sociedade mais justa. A partir de 1995. 02 Congressos Nacionais Extraordinários de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais. sem dúvida. . Não queremos dizer que o projeto vá resolver num passe de mágica os desafios históricos que estão postos para trabalhadores e trabalhadoras rurais brasileiras. 01 Plenária Nacional de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais. Essa organização se constitui no Movimento Sindical dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais . A Marcha das Margaridas é outra ação de massa importante no contexto do MSTTR. estados e regiões. estaduais e municipais . A Confederação Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Agricultura – CONTAG. pela convocação da Assembléia Nacional Constituinte. Pólos/Regionais.MSTTR. 04 a 10 de novembro de 2007. FETAGs. em prol do bem . Desde então. Foi reconhecidamente. luta e ampliação das possibilidades concretas de implementarmos e consolidarmos o PROJETO ALTERNATIVO DE DESENVOLVIMENTO RURAL SUSTENTAVEL E SOLIDÁRIO – PADRSS. no Movimento “Diretas Já”.nacional. social e cultural das mulheres trabalhadoras 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE).estar da representatividade dos trabalhadores e trabalhadoras rurais do nosso país. a maior mobilização nacional de mulheres já realizada na história do país. A história da CONTAG é marcada também por ações de massa em defesa dos interesses da categoria. contando também com a adesão das trabalhadoras urbanas. militar pela anistia política.

desde a fundação da CONTAG construindo o MSTTR. onde apenas 11 Federações votavam. Machado/SP e José Felix Neto/SE. dos Santos/RJ. O congresso contou com a participação de 29 federações. mobilizando. de Faria/RJ. contribuindo para a ampliação e o fortalecimento da organização e representação sindical no meio rural: reivindicando. Foram eleitos para o mandato de 1968/1971: José Francisco/PE. José Felix Neto/SE. a propriedade rural e o uso da terra. João de A. José Palhares/RN e João Jordão da Silva/PE. Acácio F.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG rurais no Movimento Sindical de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais – MSTTR e na sociedade. José Lazaro/PR. Agenor P. Agostinho J. no ano seguinte foi eleita para o período de 1965 a 1968 a diretoria composta por: José Rotta/SP. Ao final. Euclides A.CNTR. capaz de promover a Justiça Social. de trabalho e de construção de conhecimentos capazes de promover as transformações necessárias para um desenvolvimento sustentável em nosso país. a outra chapa por José Francisco. ANEXO I Trajetória das Eleições e Congressos Nacionais da CONTAG 1ª Eleição da CONTAG Em Congresso participativo. trabalho. José Ari Griebler/RS. a classe trabalhadora faz valer sua vontade. composta pelos diretores efetivos: José Francisco/PE. direitos trabalhistas e políticas sociais que resgatam a área rural enquanto espaço de vida. O Conselho Fiscal: Joaquim Coutinho/RN. Nossa trajetória é fruto de organização. as organizações que atuam no campo criam a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG. Joaquim A.108 - . Nobor Bito/. Otávio F. propondo e negociando políticas agrícolas diferenciadas. 4ª Eleição da Em março de 1971. Para o Conselho Fiscal. que representava a influência do Ministério do Trabalho e. com a gradual extinção do minifúndio e do latifúndio”. 2ª Eleição da Com o golpe militar. articulação e mobilização dos Sindicatos e Federações de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais que. Educação. A CONTAG procurou se estruturar como uma entidade legítima de representação dos trabalhadores e trabalhadoras rurais em defesa dos interesses da classe camponesa. foi eleita a primeira Direção Executiva: Lyndolpho Silva/RJ. CONTAG Uma Junta Governativa foi indicada pelo Ministério do Trabalho e. Geraldo F. Reforma Agrária e Desenvolvimento Agrícola. Previdência. Gomes/CE. 04 a 10 de novembro de 2007. Tarciso G. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Neto/RJ. João de A. Sobrinho/PA. Sebastião Lourenço de Lima/MG. . a direção da CONTAG foi deposta e alguns dirigentes presos. Agostinho José Neto/RJ. Cavalcante/PA. Miqueletti/PR. Joaquim Damasceno/RN e Antonio J. o progresso e o bem-estar do trabalhador rural e o desenvolvimento econômico do país. democrático e de construção de estratégias comuns. Filho/PB. 2º Congresso Nacional dos Trabalhadores Rurais . A próxima Marcha das Margaridas acontecerá em agosto de 2007. 3ª Eleição da Em 1968. de luta. O congresso deliberou sobre: Legislação Rural. Mendes/CE e Manoel P. o presidente da CONTAG enfatizou a necessidade de cumprimento do Estatuto da Terra para: “estabelecer um sistema de relações entre o homem. vêm. A eleição ocorreu na reunião do Conselho Deliberativo da CONTAG. Francisco Urbano de A. Joaquim B. a chapa encabeçada por José Francisco saiu vitoriosa. as eleições contaram com duas chapas. foram escolhidos: Jose Felix Neto/SE. em cada município e estado. José Benedito da Silva/AL e Otavio F. e Nestor Vera/SP. da S. contando com o apoio de entidades sindicais urbanas e da base do movimento sindical de trabalhadores rurais. Uma encabeçada por José CONTAG Rotta. Damasceno/RN. Cavalcante/PB. No encerramento. Filho/RN. Gomes/CE. do Nascimento/PE. de 18 estados. ocorreu a Reunião do Conselho Deliberativo que escolheu a CONTAG Diretoria da CONTAG para o triênio 1971/1974. Por apenas 01 voto de diferença. Zacarias Pedro/SC.

João F. Pedro Ramalho/MS e José Amadeu Araújo/CE. “a democratização da terra é a base para a democracia no Brasil”. Ezidio V. Trindade/ES. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). 10ª Eleição da CONTAG A Diretoria Efetiva eleita era composta por: Aloísio Carneiro/BA.Nessa eleição foi eleita a primeira mulher. André Montalvão/MG. da Silva/AL. 3º Congresso Nacional dos Trabalhadores Rurais – CNTR – “Um marco na História da classe trabalhadora rural”. de Souza e Norberto Kortmann. CONTAG em Congresso” Jonas P. de Souza. Euclides D. de Souza/MT. O Conselho Fiscal foi composto por: Jonas P. Aloísio Carneiro/BA. O Conselho Fiscal foi composto por: Álvaro Diniz. Leocadio N. da Silva/AL. . de Souza e Norberto Kortmann.CNTR. O Conselho Fiscal foi composto por: Álvaro Diniz. Octavio Adriano Klafke/RS. Eraldo Lírio de Azevedo/RJ. de Carvalho/ES. Francisco Urbano A. Canalle e Jonas P. “1ª Eleição da história da Pinheiro/RS. 4º Congresso Nacional dos Trabalhadores Rurais . Francisco Urbano A. José Amadeu Araújo/CE.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Trajetória das Eleições e Congressos Nacionais da CONTAG 5ª Eleição da CONTAG Em março de 1974. enquanto suplente da direção da entidade. Jonas P. A Diretoria Efetiva foi composta por: José Francisco da Silva/PE. Estevam N. O Conselho Fiscal foi composto por: Álvaro Diniz. dava os primeiros passos para consolidar a organização das mulheres trabalhadoras rurais. Roberto T. Filho/RN. O Conselho Fiscal foi composto por: Henrique Gomes Vilanova. João F. Trindade. de Souza/MT. de Oliveira. José Felix/SE. Gelindo Zulmiro Ferri/RS. da Silva/AL. Francisco Urbano A. Divino Goulart/GO. Horiguti/SP. foi empossada a direção para triênio 1980/1983. Roberto T. André Montalvão/MG. Jonas P. Paulo F. Filho/RN. Eraldo Lírio de Azevedo/RJ. Henrique Gomes Vilanova/PI. dos Santos/RJ e José B. Vidor Jorge Congresso”. Acácio F. Faita/SP. Francisco Urbano A. Francisco Sales/MA. O Conselho Fiscal foi composto por: Álvaro Diniz. 9ª Eleição da CONTAG A Direção Efetiva era composta por: José Francisco da Silva/PE.109 - . As mulheres conquistam a Comissão Nacional Provisória da Trabalhadora Rural. 04 a 10 de novembro de 2007. Horiguti/SP. José B. Canalle e João Tavares da Silva. que apesar de subordinada à presidência da entidade. Pedro Ramalho/MS e Adevair N. 7ª Eleição da CONTAG Em abril de 1980. Acácio F. dos Santos/RJ e José B. Jonas P. Orgenio Rott/RS. foi empossada a Direção para o triênio 1977/1980. Horiguti/SP. 6ª Eleição da CONTAG Em maio de 1977. Francisco Urbano A. de Almeida/BA. A Direção Efetiva era composta por: José Francisco da Silva/PE. Francisco Sales/MA. A Diretoria Efetiva era composta por: José Francisco da Silva/PE. A Diretoria Efetiva era composta por: José Francisco da Silva/PE. de Souza/MT. Filho/RN e Osmar Araújo/PI. João F. Filho/RN e Henrique Gomes Vilanova/PI. José “Eleição da CONTAG de Francisco da Silva/PE. José Felix/SE. André Montalvão/MG. André Montalvão/MG. Gelindo Zulmiro Ferri/RS. Francisco Urbano A. Erny 1989 não ocorreu em Knortst/RS. Roberto T. Filho/RN. foi empossada a direção para o triênio 1983/1986. de Souza e Norberto Kortmann 8ª Eleição da CONTAG Em abril de 1983. a sergipana Gedalva de Carvalho. Paulo F. de Souza. Antenor Beni/PR. Elio Neves/SP. Eraldo Lírio de Azevedo e Henrique Gomes Vilanova. Norberto Kortmann/SC. Euclides D. “Reforma Agrária para acabar com a fome e o desemprego no campo e na cidade”. Filho/RN. o Conselho de Representantes da CONTAG elegeu a nova diretoria para o triênio 1974/1977. Eraldo Lírio de Azevedo/RJ. de Souza/MT.

Aloísio Carneiro. “Rumo a um Projeto Alternativo de Desenvolvimento Rural Sustentável”. de Fátima R. PRODUÇÃO.. 04 a 10 de novembro de 2007. A Direção Efetiva eleita era composta por: Francisco Urbano A. 7º Congresso Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais – CNTTR. Tereza Silva/MG. nem miséria. da Silva/PI e Raimunda Celestina de Mascena/CE. o MSTR reuniu mais de dois mil delegados (as) de todo o país. Norival Guadaghin/SP. 1º Congresso Nacional Extraordinário dos Trabalhadores Rurais – CNETR “. Wilson Paixão e Osmar Araújo.. Maria Santiago de Lima/RO.. As eleições de agora terão a responsabilidade de construir o amanhã. Juarez L. Hilário Gottselig/SC. o Conselho Deliberativo aprovou a realização de um Congresso Extraordinário. José Fialho/MS.”. A direção eleita teve a seguinte composição: Diretoria Efetiva: Francisco Urbano A. O Congresso Extraordinário foi coordenado pelo Presidente em exercício. convocando um congresso massivo em Brasília. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). José Francisco da Silva/PE. SALÁRIO”. A partir do 7º – CNTTR. Guilherme Pedro Neto/GO. pelo Rio Grande do Norte 12ª Eleição da CONTAG 13ª Eleição da CONTAG 6º Congresso Nacional dos Trabalhadores Rurais – CNTR. Conselho Fiscal: Antonio Zarantonello. “Nem fome. Itálico Cielo/RS.. Filho/RN. Conselho Fiscal: José Roberto de Assis. não podemos sacrificar a nossa intervenção nos processos eleitorais gerais que o país viverá. Hilário Gottselig/SC. em agosto de 1994. Alberto Ercílio Broch/RS. Aloísio Carneiro/BA. para rediscutir e redefinir suas lutas”. . Francisco Urbano estava licenciado para concorrer a uma vaga para o Senado Federal. passou a ter três dirigentes na direção efetiva da CONTAG. Francisco Sales/MA. Francisco Miguel de Lucena/CE. Conselho Fiscal: Antonio Zarantonello. Gerônimo Brumatti/ES. José Raimundo de Andrade/PB e Francisco Sales/MA. “TERRA. O campo é a solução”. “apesar das tentativas de desarticulação das organizações sociais promovidas pelo governo. Avelino Ganzer/PA.110 - . Filho/RN. Pereira/MG. As novas diretoras ocuparam a Coordenação da CNMTR e as Secretarias de Políticas Sociais e a Secretaria de Organização e Formação Sindical. Constatando que o próximo congresso aconteceria na segunda quinzena de novembro. Antonio Zarantonello e Maira Bottega. Airton Luiz Faleiro/PA e Sebastião Rocha/MG. Divino Goulart e Almir José Feliciano.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Trajetória das Eleições e Congressos Nacionais da CONTAG 11ª Eleição da CONTAG 5º Congresso Nacional dos Trabalhadores Rurais – CNTR. em Brasília. no mesmo período em que ocorreriam as eleições gerais de 1994.

Liberalino Ferreira de Lucena/PB.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Trajetória das Eleições e Congressos Congressos Nacionais da CONTAG 2º Congresso Nacional Extraordinário dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais – CNETTR “A prioridade será a discussão na base.111 - . Alberto Ercílio Broch/RS. é o futuro sendo construído hoje” Duas chapas concorreram à eleição da direção da CONTAG. David Wilkerson Rodrigues/BA. Francisco Miguel de Lucena/CE. “Consolidando o Projeto Alternativo de Desenvolvimento Rural Sustentável”. Hilário Gottselig/SC. 15ª Eleição da CONTAG43 9º Congresso Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais – CNTTR. 43 Fonte: Ata de Posse da Diretoria e do Conselho Fiscal da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG. Airton Faleiro/PA. Suplentes do Conselho Fiscal: Maria das Graças Darós/SC. Guilherme Pedro Neto/GO. Carmem Helena Ferreira Foro/PA. José de Jesus Santana/BA. . Josefa Rita da Silva/BA. Antonio Soares Guimarães/CE. Maria do Ó do Nascimento/AL. Antonio Lucas Filho/GO. 14ª Eleição da CONTAG 8º Congresso Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais – CNTTR. Pedro Mário Ribeiro/MG. Maria da Graça Amorim/MA. Maria Elenice Anastácio/RN. Alessandra da Costa Lunas/RO. Wilson Hermuth Gottens/GO. Suplentes: Joel José Farias/SE. Alberto Ercílio Broch/RS. Raimunda Celestina de Mascena/CE. Manoel Cândido da Costa/RN. “Avançar na Construção do Projeto Alternativo de Desenvolvimento Rural Sustentável”. Raimunda Celestina de Mascena/CE e Simone Battestin/ES. Juraci Moreira Souto/MG. Manoel Carlos Dantas/RO. Paulo César Ventura Mendonça/RJ. Regina Rodrigues de Freitas/AC. Gilson Francisco da Silva e Maria Helena Baungarten. 04 a 10 de novembro de 2007. Manoel Candido da Costa/RN. Domingos Albuquerque Paz/MA. Maria de Fátima R. Maria do Ó do Nascimento Melo/AL. Cláudia Pereira Farinha/DF. para o quadriênio 2005/2009 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Conselho Fiscal: Francisco Sales de Oliveira/MA. Antoninho Rovaris/SC. “entre tantas deliberações. os trabalhadores e trabalhadoras rurais deverão determinar qual o tipo de sindicalismo que irá representá-los no próximo milênio”. vale destacar a criação da Comissão Nacional da Juventude Trabalhadora Rural e da estrutura cooperativista ligada ao MSTTR. Geraldo Teixeira de Almeida/MS e Antonio Vitorino da Silva/AL. Maria da Glória da Silva/MT. Paulo de Tarso Caralo/ES. outra. Maria Lucinete Nicácia de Lima/AM. Ademir Mueller/PR e Elizete Hintz/RS. encabeçada pelo baiano Edson Pimenta. da Silva/PI. Maria José de Carvalho/PE. A direção eleita teve a seguinte composição: Diretoria Efetiva: Manoel José dos Santos/PE. A direção eleita teve a seguinte composição: Diretoria Efetiva: Manoel José dos Santos /PE. Simone Battestin/ES. Juraci Moreira Souto/MG. Conselho Fiscal: Francisco Sales. Uma chapa encabeçada por Manoel de Serra e.

40 anos Ata de Posse da Diretoria e Conselho Fiscal da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG. “Reforma Agrária e Agricultura familiar como base para o desenvolvimento rural – Sustentabilidade e qualidade de vida. Sindicatos – Brasil – História I. 04 a 10 de novembro de 2007.1985 Anais do 5º Congresso Nacional dos Trabalhadores Rurais – 1991 Anais do 1º Congresso Nacional Extraordinário dos Trabalhadores Rurais .1994 Anais do 6º Congresso Nacional dos Trabalhadores Rurais – 1995 Anais do 7º Congresso Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais – 1998 Anais do 2º Congresso Nacional Extraordinário dos Trabalhadores Rurais .Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Bibliografia:                Anais do 4º Congresso Nacional dos Trabalhadores Rurais . p. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Manfredi. Cleia Anice. .112 - . Instituto Socioambiental. Título PORTO. Sílvia Maria – Formação sindical no Brasil : história de uma prática cultural / Silvia Maria Manfredi – São Paulo : Escrituras Editora. Sindicalismo – Brasil – História 2. 2003.107 O Golpe Militar de 64 e a Instauração do Regime Militar – CPDOC – Fundação Getúlio Vargas – FGV. para o quadriênio 2005/2009. 1996. Reforma Agrária e Meio Ambiente.1999 Anais do 8º Congresso Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais – 2001 Anais da 1ª Plenária Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais – Novembro 2003 Anais do 9º Congresso Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais – 2005 Publicação – Revista Contag .

das quais 59. os serviços domésticos 33%. o país industrializou-se alterou-se a composição de sua população com a absorção intensa da imigração espanhola. dos trabalhadores industriais: Elas perdiam para os homens na agricultura. elas partilhavam. desse trabalho fosse realizada dentro da família. não são apenas demográficas e numéricas: em 1888 extinguiu-se a escravidão. Mais de cem anos depois. O que esses dados do século passado mostram é que muitas mulheres trabalhavam. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). como donas de casa e serviçais domésticas. logravam comprar sua liberdade. sinhás e escravas eram partes da mesma comunhão doméstica. constataremos que elas eram mulheres em sua maioria.070. Política e economicamente. que' consistia na atividade econômica mais importante. No entanto. alimentos em pequenos pedaços de terras que vendiam e assim. não obstante. por 9. Na periferia da grande propriedade territorial estavam os antepassados dos atuais bóias-frias: homens e mulheres pobres e brancos. ano após proclamou-se a República. a propriedade territorial e a escravidão eram eixos do mesmo fenômeno. Às fazendeiras. as mulheres eram dominantes na prestação de serviços pessoais· (81 % do total de pessoas no setor).113 - . eram 78% . De fato. a produção de sabão e velas. durante o Curso de Formação de Educadores/as em Concepção Prática Sindical e Metodologia da Formação. No latifúndio. quanto na indústria. então. naquela ocasião. constatou-se que ela era composta. tanto nos· serviços. desempenhar várias ocupações: supervisionava e controlava todas as atividades caseiras. desde pequenas. eventualmente. 44 Este texto foi distribuído pela Nalú Farias da SOF. alemã e japonesa. a agricultura empregava 25%.099 do sexo feminino. das quais 4. ainda durante o Império. Naquele ano. contudo. cozinha e costura e. as mulheres ficavam com o encargo dos filhos. No caso das mulheres escravas. como agora. Mas às diferenças. o Censo Demográfico de 1980 mostra que a população brasileira é de 119. ainda. com sua produção voltada para o mercado externo. 04 a 10 de novembro de 2007. como cuidar das crianças. foi realizado o primeiro recenseamento da população brasileira. embora parte substancial. cabia. um. Das mulheres que trabalhavam oficialmente. e que.146.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG PARTICIPAÇÃO DAS MULHERES NA LUTA DOS TRABALHADORES E NO MOVIMENTO SINDICAL Maria Valéria Junho Penna44 Em 1872. as tarefas mais duras e pesadas. italiana. 689. eram incorporados às atividades do latifúndio: Nesse grupo.694. as mulheres compunham aproximadamente 45% do que o Censo considerava trabalhadores e. se observarmos o total de pessoas absorvidas. diferentemente de agora. é claro. sem propriedade. com as crianças do sexo masculinas. freqüentemente comercializados nas vilas mais próximas. embora sob o jugo masculino e interminavelmente explorando as escravas. dessas.700.998 mulheres escravas. não se considerou as donas de casa nesse conjunto. o latifúndio. Elas roçavam plantavam e colhiam algumas cultivavam ainda. disperso pelo território brasileiro e desprovido de terras. a família.187 pessoas. tanto domésticas quanto na agricultura. .865 pessoas. realizado pela ENFOC/CONTAG. Nos longínqüos 1872.943 eram mulheres e. formou-se um proletariado urbano rural e a classe média assumiu claros contornos sociais e políticos.

Foi também no século passado que tomou impulso a constituição de um campo de trabalho fundamental para a jovem de classe média: o ensino primário. após incontáveis horas de trabalho. em filó. MULHERES E CRIANÇAS NA FÁBRICA O panorama da convivência das mulheres e crianças com as fábricas foi. A mulher taboleira. aves. desde que com um currículo específico que incluísse bordado branco. palmitos. e a de São Paulo. os homens . cestos. a imigração européia seria a solução para a questão da força de trabalho nas lavouras de exportação e consumo interno e. portanto. a expansão econômica da lavoura para exportação provocou uma crise na lavoura para o abastecimento interno e uma demanda não suprida por mão-de-obra. principalmente em direção às regiões fluminense e paulista.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG freqüentemente abandonados pelos pais. as vagas foram se abrindo às mulheres e. a substituir as mulheres nas oficinas. Como se sabe. iniciando-se o hábito de pagamento diferenciado entre os sexos. de matizes. cortes de roupas brancas e lisas. a sujeira. ainda. até o inicio do século XIX. ainda. expandiu-se a cultura do algodão em São Paulo e surgiram as primeiras fábricas têxteis. para absorção nas lavouras de café. finalmente. não faziam jus a nenhum salário. fundada em 1835. bolo. Aos poucos. reorganizou·se o ensino de formação para o magistério. mulheres e crianças das periferias pobres das cidades forneceram os primeiros braços para essa indústria. promovida pelo Estado em estreita conexão com os empresários. angu. dedicando-se ao comércio ambulante de mercadorias feitas em casa. desde o início. trabalhando uma jornada de até dezesseis horas diárias. o ensino era uma esfera de atividades masculina. dormindo e se alimentando entre máquinas. A longo prazo. No mesmo período. à prostituição.passaram. flores. 04 a 10 de novembro de 2007. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). As primeiras Escolas Normais (a da Bahia. teve origem nesse pequeno comércio ambulante. eram obrigadas. flores de contas e aplicação. . vilas operárias foram sendo construídas. etc. refrescos. à prestação de serviços pessoais como costura ou cozinha e. mesmo porque. em 1871. mas apenas esse. não podiam ser professoras. fundada em 1836) destinavam-se exclusivamente a rapazes. um conjunto de medidas legais restringia o acesso das mulheres às escolas e. desolador: viviam nelas. Em resumo. Apenas em 1827 surgiu a primeira regulamentação que permitia às mulheres freqüentarem o ensino elementar. a libertação de escravos sexagenários. freqüentemente. as restrições progressivas ao tráfego negreiro. a aprender corte e costura e. paulatinamente. A curto prazo. para a indústria em expansão. aceitando-se a participação feminina. milho assado. no entanto. os salários generalizaram-se no interior da indústria. os espancamentos e estupros.freqüentemente imigrantes estrangeiros . por exemplo. café torrado. onde se vendia sonhos. As condições de trabalho supunham. a insalubridade. Não podendo ser alunas. com os homens recebendo salários maiores que as mulheres.114 - . começaram a configurar uma crise na oferta de mão-de-obra e a estimular o comércio interno de escravos. finalmente. a Lei do Ventre livre. Inicialmente. à habilitação profissional. À medida que o século XX se avizinhava.

Dois manifestos. Neles. fábricas que contavam com 1. 19. revelam que foram visitadas. foi no interior desses dois movimentos que as mulheres procuraram demarcar um território para sua luta. Dos 10. de tendência anarquista.80I eram do sexo feminino.) O fato é que as mulheres: além de estarem submetidas. vinham reivindicações mais concretas e imediatas. a condições de trabalho corrosivas. por mais dramática que fosse a vida da mulher operária. mesmo trabalhando além do horário estabelecido. Luzia Ferreira de Medeiros. no início do século. pelas mesmas razões. se todas nos acompanharem nessa luta. o salário era o mesmo. por exemplo. anarquistas e socialistas foram os arquitetos da questão social . no Rio de Janeiro. para confecção de um relatório.499 estrangeiros e 862 de nacionalidade ignorada. O PROTESTO FEMININO No entanto. no subúrbio do Rio. 04 a 10 de novembro de 2007. 2$000 réis.304 recenseados. Em 1901 e 1903. Teresa Fabri e Maria Lopes. assinados por Teresa Cari. diferentemente desses.943 trabalhadores brasileiros. na Anhaia. e se todas forem solidária. (Em Edgar Rodrigues. Porque luta houve. na mesma época. em média. ainda sofriam maus tratos corporais e auferiam salários mais baixos.) Conjuntamente ao apelo em nome dos' "direitos". No Brasil. 6. na Cruzeiro. As refeições eram feitas entre as máquinas. Dados de 1912. foi o veículo utilizado pelas costureiras das confecções para articular suas demandas e organizar seus sindicatos. ficaram célebres. que chamavam de aprendizado. . A Penas uma pia imunda servia· nos de bebedouro. evidentemente. depois de passada a fase do trabalho gratuito. Não tínhamos lugar para comer. Isso. O jornal A Terra Livre. Era o critério dos mestres o direito de comer e tendo ou não tempo para almoçar. se nos derem ouvidos. 7.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Uma operária.uma questão de polícia para o Estado. entraram em greve por solidariedade a uma companheira despedida. Muitas moças foram prostituídas por aquele canalha. Alvorada Operária. na Companhia Industrial de São Paulo. como os homens trabalhadores. podia-se ler: "Devemos demonstrar. Assim. nós começaremos por desmascarar a cupidez dos patrões sanguinolentos". A jornada de trabalho iniciava-se por volta das cinco e meia da manhã e terminava treze horas depois. da fábrica têxtil Bangu. na Álvares Penteado. Na seção de acabamento.115 - . Iniciava o trabalho às seis e terminava por volta das 17 horas . exigindo melhores salários e menor jornada. enfim. Ao mesmo tempo muitas mulheres encabeçaram alguns dos mais importantes movimentos grevistas do período. fizeram uma paralisação contra a diminuição de tarefas. Mestre Cláudio fechava as moças no escritório para força-la à praticar relação sexual. em 1903. que somos capazes de exigir o que nas pertence. esse fato não a fez abdicar da sua capacidade de reação à injustiça e da ação política.sem horário para almoço de definido. os homens recebiam 4$900 réis e as mulheres recebiam 3$000 réis. mas não menos importantes. (A Terra Livre. em São Paulo. Nunca recebíamos horas extras. contou como eram as condições de trabalho já depois da virada do século: "Entrei para a fábrica Bangu no período da primeira guerra mundial com sete anos de idade. paralisaram o trabalho em protesto contra as condições de trabalho e os salários. em 1902. com o 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). do Departamento Estadual do Trabalho de São Paulo.07I 906. dividida entre seus afazeres domésticos e a longa jornada do trabalho assalariado. O salário médio das mulheres era bastante mais baixo que o dos homens: o salário médio masculino na fiação era de 4$500 réis e o das mulheres.

em alguns congressos operários. como por exemplo as chapeleiras. sendo mesmo obstaculada em alguns casos. Dos sindicatos constituídos.. . no Rio de Janeiro. Chapeleiras e Classes Anexas. participaram de nova greve geral por aumento de salário. isso "quando a dona do atelier não prorrogava a jornada até às 20 ou 22 horas. realizado em 1920. No 2º Congresso Operário do Rio Grande do Sul. de nome Alzira. em Porto Alegre. lembra que o trabalho começava às 8 h da manhã. Em 1917. e em 1919. Uma resolução do 3º Congresso Operário Brasileiro. em alguns Congressos Operários.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG agravante de que a operária em questão. lima operária delegada. terminando às 19 h. um dos mais importantes foi a União das Costureiras.) De fato.. as mulheres pararam os trabalhos nas Fábricas Matarazzo. de outro. Fábrica de ligas Peterson. em 1906 e 1907. destacando como essas eram tão árduas que impediam um companheirismo mais vigoroso como o dos homens na vida sindical: “Quando tomamos conta que a jornada de trabalho é de 8 horas e mais. Fábrica de tecidos Mariângela. que após tão fatigante trabalho em troca de um mísero salário . costureiras sob medida. Uma de suas inspiradoras. pois ainda há casas em que se trabalham 14 a 16 horas.. 04 a 10 de novembro de 2007. . quanto há evidências de freqüência de mulheres. as exigências de sua dupla jornada de trabalho que não Ihes deixava tempo para a política . recém-parida.. Kessler & Cia. inclusive discursando. Alvorada Operária. Como já disse.116 - . aconselha vivamente as associações obreiras a se esforçarem para interessar diretamente as operárias na vida sindical. além das havidas no Rio e em São Paulo. MULHERES ENTRAM PARA OS SINDICATOS Embora houvesse inúmeros fatores freando a participação feminina na vida sindical. Companhia de Fiação e Tecidos Porto-Alegrense e trabalhadoras da fábrica de chapéus F. a maioria é composta por mães de famílias.. C.) Por sua vez. (Em Edgar Rodrigues. discursou sobre as condições do trabalho feminino. existem numerosos registros mostrando que um esforço considerável nessa direção foi realizado: não apenas vários sindicatos femininos foram fundados. onde já funcionava a União dos Alfaiates da mesma cidade. necessitando sustentar os seus e ampará-los contra as misérias da vida (. desde as primeiras reuniões de trabalhadores formou-se um certo consenso sobre quais deveriam ser as condições de seu trabalho extra-doméstico. de um lado.ainda assim. confirmando as resoluções do 1º Congresso quanto à situação do elemento feminino no meio proletário. resume esse consenso: "O 3º Congresso Operário. em fábricas por todo o país. Â União foi fundada por 50 operárias e sua primeira medida foi deflagrar uma greve pela redução da jornada de trabalho a oito horas diárias. embora a presença de mulheres não tenha sido usual nos Congressos. Alvorada Operária. sua presença foi destacada. sempre pelo mesmo salário". Fábrica de cigarros Trajano. podemos ainda lembrar o estado de ânimo em que se encontram nossas irmãs. a relutância masculina em aceitá-Ias como companheiras e. fora dispensada pelo mestre que a engravidou. . realizado entre 23 e 30 de abril de 1920. Elvira Boni.. Têxtil Rio Grandense.) " (Em Edgar Rodrigues. pela diminuição da jornada. preocupando-se 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). tecelãs da Cia. tem necessidade de fazer seus serviços domésticos. com sede na rua Senhor dos Passos. etc.

embora discutível para muitos em virtude dos embaraços que terminou por causar para a contratação e a carreira das mulheres." A demanda por uma legislação especial. diminuiu a participação das mulheres no seu interior. repelindo as brutalidades dos patrões e encarregados de serviços intensificando-se a campanha no sentido de que para elas seja abolido o trabalho noturno e o seus salários sejam equiparados aos dos homens. 04 a 10 de novembro de 2007. pelo Decreto 21. não obstante esse decréscimo.117 - . participaram da tentativa de uma greve geral da categoria: em 1925. elas permaneceriam. em Barbacena. eclodiram greves na Fábrica de Tecidos Santa Maria. organizou a Vila Dom Viçosa. em São Bernardo. na prestação de serviços. Deste total de mulheres trabalhadoras. elas militaram no movimento dos trabalhadores: a título de exemplo. No entanto. constata-se que. AS MULHERES COMO FORÇA DE TRABALHO O censo demográfico de 1920 mostrava que então 1.000 mulheres trabalhavam oficialmente. em 1932. tomando o total de pessoas trabalhando nos diversos setores da economia.434. a questão do bem-estar para todos resume-se no seguinte: 1º) Formar um núcleo 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). que tanto proibia seu trabalho noturno. 81 %. PIONEIRAS DA LUTA SOCIAL Algumas mulheres destacaram-se na vida pública e em sua participação junto às organizações operárias. à medida que a indústria se expandiu. de caráter protetor. na agricultura as mulheres eram 9% da força de trabalho. bordadeiras. 31 % na indústria (inclusive em serviços de reparação) e 26% em serviços. apresentando 15% da força de trabalho. a conclusão mais importante é que. na qual 22 casas foram construídas para favelados e. principalmente ma condição de tecelãs e costureiras.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG com a sua educação social e intelectual e para que se estabeleça no trabalho um ambiente de respeito. fizeram greves na Fábrica de Tecidos Irmãos Tognato. vale a pena lembrar que durante toda a década dos vinte. Isabel Ferreira Bertolucci e Bertha Lutz. Maria Lacerda de Moura. na indústria de transformação 36%. professora e escritora. no Rio. em 1931. costureiras e trabalhadoras de fábricas de fósforos em Niterói deram testemunho em A Classe Operária sobre suas condições de trabalho e salários e tentaram ganhar a solidariedade masculina para suas reivindicações. desde então. Convidada para discursar na Federação Operária Mineira. 42% estavam na agricultura. e no início dos anos 30. ainda. fundou a Liga Contra o Analfabetismo.417. . mineira de Manhuaçu nascida em 1877. em Sorocaba. em torno da metade do proletariado têxtil e seriam majoritárias no setor de confecções. cabe destacar Maria Lacerda de Moura. em I 922 no mesmo ano. Outras informações demonstram que. foi reconhecida pelo Estado. acabou por prevalecer e. Assim. Comparando os dados de 1872 com os de 1920. quanto criava condições mais favoráveis à gravidez e estabelecia o princípio do salário igual para trabalho igual. afirmou na ocasião: "A questão social. Dentre várias.

Isabel Bertolucci celebrizou-se pelo seu "Manifesto à Mulher Paulista". 4. da fisiologia.°) Abrir escolas do caráter e da boa vontade. ampliar o amor à Pátria. na escolha de urna profissão. pregar e protestar contra as mentiras convencionais. das ciências enfim. representou o Brasil no Conselho Feminino Internacional. trabalhar para a reivindicação de seus direitos e para sua emancipação mental. por ocasião do movimento constitucionalista. escolas de força moral. fazê-Ia atravessar as fronteiras e olhar a Humanidade de uma só vez. abominar a guerra. Auxiliar as boas iniciativas das mulheres e orienta-Ias. 04 a 10 de novembro de 2007. 6. 7. Assegurar à mulher os direitos políticos que a nossa Constituição lhe oferece e prepará-Ia para o exercício inteligente desses direitos.°) Pregar a Paz. abrangendo as nacionalidades como membros da família humana". porquanto é a força moral que conduz o mundo no dizer de Binet. da filosofia. 5. educando-as num sonho de Paz futura para toda a gente. da educação e da ética. em cujo estatuto se esclareciam seus objetivos: Promover educação da mulher e elevar seu nível de instrução. sem distinção de sexo. juntamente com Olga de Paiva Meira. Proteger as mães e a infância.118 - . da Organização Internacional do Trabalho. . escolas que despertem a iniciativa. 3. Obter garantias legislativas e práticas para o trabalho feminino.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG de resistência feminina. e a obrigação de caia Estado organizar um serviço de inspeção. Em 1922.°) Pregar e exigir a educação popular. das artes . cujo objetivo será protestar contra a escravidão da mulher. em cuja Primeira Conferência foram aprovados os princípios "de salário igual.°) Trabalhar pela juventude e pelo exemplo para dar à criança. já em 1919. a instrução obrigatória. ultrapassando sua condição social e dirigir-se a todas as classes de mulheres. contra a hipocrisia protocolar. Estreitar os laços de amizade com os demais paises americanos. Segundo ela própria. a fim de assegurar a aplicação das leis e regulamentos para a frr0teção dos trabalhadores". 2. sob esses moldes.°) Trabalhar para a criação de uma ou mais universidades femininas. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). 8. incluindo mulheres. Estimular o espírito de sociabilidade e de cooperação entre as mulheres e interessá-Ias pelas questões sociais e de alcance público.°) Promover o estudo da psicologia das forças ancestrais. fundou a Federação Brasileira Para o Progresso Feminino.para o conhecimento da humanidade e das leis evolutivas em favor da beleza e da perfeição dos costumes. No seu manifesto procurou. Bertha Lutz. a fim de garantir a manutenção perpétua da Paz e da Justiça no Hemisfério Ocidental. da higiene. para o mesmo trabalho.de justiça e eqüidade entre os homens. publicado em A Plebe. a fim de preparar o pequenino exército das trabalhadoras que deverão sair para o interior em demanda de outras mulheres de boa vontade. de forma a persuadí-Ias de sua crença pacifista e da imoralidade das guerras. em 03/12/1932. sua origem social estava na classe dos que tudo produzem e nada possuem. detestar a política. fazendo crescer na juventude a necessidade de ideal mais amplo .°) Falar. a educação racional feminina por todo o país.

Com o golpe de 1937 e o Estado Novo. De fato. além de recolher dos nativos e roupas para os soldados. Greve de Massas e Crise Política. pelos direitos das mulheres. pela paz. PARTICIPAÇÃO FEMININA NO PÓSPÓS-GUERRA Terminada a guerra. elaborando. no âmbito do político. onde se fundou a Associação Feminina. como parte da Aliança Nacional libertadora. eram. várias outras grevistas foram indiciadas em processos por sua presença em piquetes. duas delas. "lutar pela solução dos problemas especificas dos bairros. o Estatuto da Mulher. (Idem. Em 1934. em Paris. 04 a 10 de novembro de 2007. a participação feminina foi intensa no movimento contra a carestia: no então Distrito Federal. as reivindicações de Bertha Lutz tiveram de esperar por melhores oportunidades. a greve teve como origem a luta pelo aumento do salário mínimo. em 1935 foi considerada ilegal. destaca-se seu desempenho na greve de 1953. O Estatuto ampliava a licença especial na época do parto para três meses. e algumas delas somente foram concedidas em 1962. em 1949. (Idem). em São Paulo. congelado desde 1951 e desvalorizado pelos constantes aumentos no custo de vida (que Celso Furtado estima como sendo de 50% entre 1949-52). incluindo mulheres de classe média. apresentado por ela e pela Deputada Carlota Pereira de Queiroz. com representantes de vários estratos sociais. Também vale a pena ressaltar o papel que elas cumpriram na organização do movimento de anistia para aquelas pessoas perseguidas ou presas pelo Estado Novo. ressaltaram em discurso os males do fascismo e a necessidade de proporcionar-se instrução política às mulheres. promoveu-se um encontro nacional de várias associações femininas. no entanto. durante os seis meses iniciais de vida do bebê. mais de mil mulheres se congregaram para. no âmbito do estritamente econômico. A greve de São Paulo não foi isolada e dados 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). (Ver José Álvaro Moisés. São Paulo). Na ocasião. operárias e faveladas.) Todo esse esforço acabou por resultar. assistindo-se à prisão de várias de suas integrantes. como suplente da vaga deixada por outro Deputado. freqüentemente organizados em comitês de bairros. na ocasião. Por sua vez. fundou-se a União Feminina que. durante a II Guerra Mundial. contra a elevação do custo de vida. Polis. concedia à trabalhadora o direito de dois períodos diários para amamentação. da dinâmica do movimento operário no período pós Estado Novo. participando da vida pública.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Em 1936. No final dos anos 40 e durante a década seguinte. procuraram igualmente organizar-se.119 - . que paralisou aproximadamente 300 mil trabalhadores e. Ed. combater o nazi-fascismo e sua influência no país. de extrações ideológicas e partidárias diversas. Mas outras mulheres. na constituição da Federação das Mulheres do Brasil. pela defesa e proteção da infância". fechado o Congresso. de meia hora cada um. Nessa ocasião. nas palavras de uma estudiosa. organizou-se o Departamento Feminino da Liga de Defesa Nacional. . lutar contra os aumentos no custo de vida e. participando do Primeiro Congresso Internacional de Mulheres. que consistiu em forte impulso para outros núcleos locais. reduzia de 30 para 20 o número de empregadas no local de trabalho cuja presença exigia creches. cujos objetivos. "a fim de possibilitar-lhes participação efetiva nos movimentos de combate à guerra e aos regimes de força". cuja comissão central a tecelã Mariana Galgaitez terminou por integrar. Bertha passou a integrar a Câmara Legislativa Federal. Embora as mulheres tenham participado de formas variadas.

solidariedade. bonificação de Natal e o protesto contra a carestia.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG coletados por José Álvaro Moisés lhe permitiram falar em 264 paralisações no período 1951-1952. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Em 1940.120 - . 04 a 10 de novembro de 2007. Os Censos Demográficos de 1940 e 1950 continuavam. cujas principais motivações eram a necessidade de aumentos nos salários. acusando queda da participação feminina na indústria e sua persistência na prestação de serviços pessoais.4% e em 1950 para 23.9% do total de trabalhadores. melhores condições de trabalho e. eclodidas em todo país. pagamento de salários atrasados. então. o trabalho industrial das mulheres caíra para 26. em número menor. .

sendo uma chuvosa e a outra seca. Na Região Nordeste. não se consegue vislumbrar muito mais do que a histórica repetição de cenas de fome e sede. observando-se entre um e outro. De acordo com Andrade (1986). surgem desde o período colonial. sendo de 1534 o primeiro relato desse desastre natural (Andrade. porém seca e vulnerável a esse fenômeno natural.255. a região possui clima exteriorizado pela sua vegetação natural. a saber: a Zona da Mata. Diante de tal diversidade.077 km quadrados. contando com alto índice de analfabetismo. intermitentemente. sistemas complementares de exploração agrária. econômicas e políticas que possuem aspectos particulares quanto à estiagem. Para efeitos deste trabalho. mas que se contrapõem econômica e politicamente: o Nordeste da cana-de-açúcar e o Nordeste do gado. com estações bem definidas. Misturam-se a ela aspectos socioeconômicos e políticos que lhe tiram o caráter único de desastre natural. e a zona intermediária. vendem sua força de trabalho. Há também apreciável número de pequenos proprietários que. a dimensão de terras ocupadas pelos latifundiários é grande.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG A MULHER E A EMERGÊNCIA DA SECA NO NORDESTE DO BRASIL Izaura Rufino Fischer 45 Lígia Albuquerque 46 O Nordeste do Brasil tem uma extensão territorial de 1. Na área rural há. e uma população de 42. possuindo áreas úmidas e chuvosas. e sua população tem condição de vida precária. Apesar de não existir grande número de latifúndios. hoje. 2000). 04 a 10 de novembro de 2007. localizando-se aí a maior porção das usinas do Estado e sobretudo aquelas que dispõem de maior dimensão. que dificilmente tem acesso às políticas sociais. ou seja. verificam-se consideráveis desníveis sociais. De acordo com Araújo (1999). também quente. A região é considerada subdesenvolvida. porém apresenta diversidade climática (Moura. a seca será considerada como fenômeno social que agrava a pobreza e afeta particularmente as condições de vida da população. a seca ocorre em diferentes conjunturas sociais. possui 60% de seu território em área considerada vulnerável a esse fenômeno.808. apesar da pobreza do solo em matéria orgânica. reconhecida como polígono das secas. pequeno número de médios e grandes proprietários com elevado padrão de vida. que desde a época colonial deu lugar a três tipos de zonas agrícolas. A dimensão social e política da seca A seca é um fenômeno natural que tem registro no Nordeste desde a colonização da zona semi-árida da região. principalmente no que se refere aos latifúndios insatisfatoriamente explorados. a do Sertão. por um lado. o Nordeste da pequena propriedade e da policultura. A Zona da Mata é apontada como área dos grandes canaviais. A estrutura agrária é bastante concentrada. 1986). com clima quente e úmido.470. 45 46 Pesquisadora da FUNDAJ Idem 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Esta região.121 - . . que representa 18. têm padrão de vida razoável ou precário e que. Embora tendo o caráter natural e acontecendo na mesma região. denominada de Agreste. 27% da população brasileira.7% do território brasileiro. dependendo da qualidade da terra. com trechos quase tão úmidos como a da Mata e outros tão secos como a do Sertão. ao se focalizar a dimensão natural das secas.

o assédio aos governantes. por um lado. especialmente através do rádio e a da televisão. quando da instalação das políticas sociais dirigidas à região. é marcante. pois os horrores da seca fortificam interesses regionais. Assim. além de promoverem ocupação do principal órgão de desenvolvimento da região. através dos sindicatos dos trabalhadores rurais e movimentos sociais que lhe dão visibilidade. formados por grandes proprietários ou pertencentes a famílias abastadas. citado por Araújo (1999). divulgam e denunciam a situação e ação dos trabalhadores. como o da informação. a SUDENE. os mais vulneráveis são geralmente os trabalhadores sem terra e miniproprietários rurais. pressão mais direta sobre as estâncias estaduais e municipais que estão mais próximas. de modo peculiar. 1998) da população não conseguem atravessar os momentos críticos da estiagem sem ajuda externa. segundo Gaspari. No estado de Pernambuco. causa danos à população. por exemplo. o governo se envolve com as conseqüências do fenômeno. Nessa ocasião. enfrentam os efeitos da seca com menor esforço e sofrimento. . transpôs os saques da fome do sertanejo para a sala de jantar do Brasil. a seca. homens e mulheres adotam práticas de luta. Os produtores potencialmente mais resistentes. dá espaços à lógica da contradição. redefinem sua forma de ação ao trocarem o tradicional saque realizado em feiras públicas pelo ataque a transportadores de alimentos administrados pelo governo. a ser pago no longo do prazo ou a fundo perdido (FUNDAJ. para os produtores mais abastados. particularmente os sem terra. 1983). para reivindicar uma política de apoio à população atingida pela seca. como fenômeno social de dimensão secular. em 1958. muda a própria história das estiagens. que só recentemente começaram a fazer parte da agenda governamental. em 1998. a falta 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE).Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG A seca. a catástrofe centrou o tema na consciência nacional. Em 1877. As preocupações em corrigir distorção estrutural proporcionam algum quantum de equidade social e sustentabilidade ambiental. Na implementação das políticas. Também leva à tona o nível de organização política dos mais afetados. Diversas políticas sociais têm sido implementadas no enfrentamento da seca. Os efeitos da seca não atingem igualmente a população e o território do semi-árido. A seca. a seca leva à fundação da SUDENE. além da profundidade da catástrofe. ao dar visibilidade às mazelas sociais da região. em 1915. tais medidas são manuseadas e desviadas no caminho da prática. A mulher exerce. os trabalhadores rurais. Algumas medidas são implementadas sem resultado permanente.122 - . enquanto os proprietários rurais tomam atitudes que lhes proporcionam ganhos que superam suas perdas. pois são geradas no jogo das articulações políticas em que se considera a sociedade como espaço que pertence aos outros. fato que favorece as desigualdades dos benefícios destinados ao socorro da população através de uma política unificada. O momento da seca. Considerando que o Nordeste está dividido em três zonas de diferentes aspectos naturais e que possui infra-estrutura dominada pelas oligarquias agrárias. aproximadamente 32% (Albuquerque. adequadas a cada conjuntura política. a exemplo do crédito financiado a juros baixos. que possibilita a organização da população afetada para se mobilizar e cobrar dos governantes medidas de amparo. muitas das quais destinadas a corrigir distorções conjunturais geradas por modelos econômicos. No entanto. 04 a 10 de novembro de 2007. Assim. mas também propicia benefício. pode significar mais uma oportunidade para aumentar seu poderio e estender seus domínios com o auxílio das políticas sociais. que. principalmente devido à ajuda das políticas sociais.

Tal política é estabelecida a partir de pressões da população que tem seu suporte alimentar afetado. Assim. Os programas têm sido. foram secularmente inventadas. chamada política de emergência. a competição desigual. a seca se instala num cenário em que grande parte do pequeno produtor sem terra reside na periferia da cidade. Essa política tem como objetivo atender a população que se encontra em reconhecido estado de calamidade pública. Além disso. costumes e tradições que parafraseando Hobsbawn (1997). segundo Ianni (1995). esse vasto processo histórico-social. Tais fatores levam a aprofundar os efeitos nefastos da seca sobre a população atingida. que aparecem em pequenas cidades interioranas. é um programa governamental implantado para amenizar ou eliminar conflitos sociais inevitáveis que explodem quando parte da população tem seu nível de subsistência comprometido. por vezes. a prostituição. podem ser consideradas filhotes da globalização. político e cultural continua a expandir-se. sobretudo no que se refere ao abastecimento d’água e geração de renda. pois. de acordo com as prioridades da população. e a prioridade do proprietário da terra é pela produção de alimento para a pecuária. que. 04 a 10 de novembro de 2007. da saúde. Na avaliação de administradores governamentais locais entrevistados. em tese. Com a seca. no Nordeste. enfrentam a concorrência de carne e leite em condições desfavoráveis. Tais efeitos tendem a se agravar. direcionados a outros projetos como o da educação. As políticas sociais criadas em períodos de seca são geralmente transformadas em programas de governo. da água. A política social da seca A política adotada em período de seca. como a insegurança. tendo as verbas alocadas. a exemplo da chamada "frente produtiva. fato que contribuiu para a transferência da renda das regiões mais pobres para as mais ricas. de um modo geral e. além de invadir os mais longínquos recantos do Nordeste. A globalização como aporte econômico. da concorrência entre forças desiguais etc." composta por obra hídrica. 1999). a exemplo da carência de energia elétrica. tem contribuído para redefinir hábitos.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG de infra-estrutura da região rural. pois as regiões afetadas pela catástrofe enfrentam a concorrência com outras localidades que se encontram em plena normalidade. contribuiu para a desaceleração da indústria. a fragilidade do nível educacional da população e a sua convivência com problemas típicos de grandes cidades. que se manifesta através do desemprego. própria da globalização. em função da crise climática. não tem lugar certo de trabalho quando planta. A seca que atingiu o Nordeste do Brasil no período 1997-1999 se instala num contexto já fragilizado pelos efeitos da globalização. econômico. da migração interna na região. do comércio e da agricultura. a pecuária torna-se mais vulnerável diante da globalização. capacitação e alfabetização dos 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Essas mazelas sociais. "Os governantes terão de escolher entre subsidiar o campo ou construir a miséria na cidade". ou se tornam exclusivos. .123 - . crédito etc. o consumo e o tráfico de drogas (Fischer e Melo. é duplicada com a situação de seca. a expectativa para a agricultura é a de que a recuperação seja lenta. particularmente. Os produtores do sequeiro.

As principais ações implementadas pela política social da seca estão assim organizadas: • • • • • • Distribuição de cestas básicas contendo 19 quilos de alimentos (feijão. a preferência aos trabalhadores cabeças de família. óleo. gerados da exploração agropecuária. ter renda de no mínimo 80%. aproximadamente R$ 600. proprietário ou arrendatário). Fabricação de telhas e tijolos a serem utilizados em obras ou mutirões. de 6 a 10 pessoas. Dada a peculiaridade da área. alfabetização|capacitação e saneamento básico. As atividades culturais resumem-se a dinamizar o artesanato nos principais centros do país). residir na propriedade ou aglomerado urbano próximo. farinha. . café. ou dedicando-se à capacitação ou alfabetização. ter idade entre 14 e 60 anos. utilizar força de trabalho familiar. barragens e aguadas. emprego. saúde. Os membros da Comissão devem ser indicados pelas instituições que os representam. foram usados critérios de seleção como: ser trabalhador rural. apenas um poderia ser contemplado. segundo a autora. Construção. a exemplo das frentes ecológicas e culturais (educação ambiental. macarrão). Na seca de 1998. Os recursos para tais ações devem ser administrados por Comissões Paritárias compostas por membros do Estado e representantes da população afetada. conservação e recuperação do meio ambiente e ecoturismo. crédito. As linhas norteadoras das frentes produtivas. acima de 10 pessoas. Tal montante. distribuído através do órgão de desenvolvimento do Nordeste. e. Construção de residências na área rural e recuperação de prédios públicos. Na escolha dos contemplados. foi definido: a prioridade ao trabalhador rural que dependesse da produção agrícola ou pecuária para o sustento da família.124 - . tanques.00 (investimento e custeio). os beneficiados seriam contemplados com alimentos. O núcleo familiar com mais de 7 membros que possuísse aposentado poderia inscrever apenas uma pessoa.000. com o propósito de beneficiar até um milhão de trabalhadores rurais (Melo. recuperação e limpeza de cisternas. destinada principalmente à construção de asfaltos.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG trabalhadores. incluíram outras ações. produtores que se enquadrasse nos critérios da agricultura familiar PRONAF (o candidato deve ser parceiro. 04 a 10 de novembro de 2007. na família de 1 a 5 membros. açúcar.000. barreiros. poderiam ser inscritos dois integrantes. era facultada a participação de três membros do grupo familiar. arroz. fubá. A "frente produtiva" tem o objetivo de preparar a população para conviver com a estiagem.00 foram destinados a atender a população atingida pela catástrofe.000. 1999). educação. foi alocado em vários programas existentes. possuir quantidade de terra que não supere 4 módulos fiscais qualificados na região em vigor. Crédito destinado à criação de infra-estrutura no valor de R$ 450. Essas comissões devem ser formadas nas esferas federal. Produção de brita e paralelepípedo. que poderiam ser usadas realizando trabalho rural ou urbano. Os beneficiados com emprego deveriam estar disponíveis 27 horas semanais. açudes. além de contemplarem recursos hídricos. estaduais e municipais. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). etc. De acordo com a autora.

é considerado estágio fisiológico ligado à necessidade alimentar. 04 a 10 de novembro de 2007. a fome somente se caracterizaria como tal no caso de morte por inanição. e aquele que dispõe de algum quantum de alimento. necessariamente. independentemente da seca. sem dúvida. Assim. obedecem a uma administração rigorosa. . em período de chuvas normais. moradia e outros elementos do bem-estar que. mas especialmente na escassez de alimento. Essa carência ocasiona morte prematura.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG A contribuição da mulher na atenuação da fome na seca O problema da seca não se manifesta no aspecto específico da água. observa-se que a fome no Semi-Árido nordestino constitui uma extensão da pobreza. Esse processo de solidariedade ocorre através da distribuição do pouco alimento que existe na comunidade ou rede de parentesco. é novamente considerada pela família do produtor rural do Sertão nordestino como necessidade básica. Nessa administração. De acordo com Castro (1980). dando-lhe novamente a conotação de necessidade. são direitos do cidadão. e é problema crucial. é através desse arranjo que a solidariedade caricatura a fome. considerados indispensáveis à sua sobrevivência. caracterizada como fome endêmica. a inanição por falta absoluta de alimento. que afeta indistintamente a todos. No passado. Dessa forma. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). relacionada à casa e à mulher. falta de roupas e calçados. a qual. as necessidades não passam pelo crivo do planejamento. Na família estudada do Semi-Árido. falta de terra para trabalhar. A palavra fome. homens e mulheres têm papéis diferenciados. no ser humano.125 - . que não é pensada pelos idealizadores da política da emergência da seca. que. Em qualquer dos significados acima levantados. a seca apenas agrava a situação da fome. socorre quem nada tem para cozinhar. se referem à comida de má qualidade. Diz respeito ao indivíduo e à humanidade. embora não acarrete. em sentido simbólico. como enfatiza Bobbio (1992). Estas. Ao atingir tal estágio. Assim. que. que as famílias dos pequenos produtores rurais caracterizam como necessidades. isto é. que tem causas mais ligadas às desigualdades sociais do que aos fenômenos climáticos. fome é a falta de quaisquer dos quarenta ou mais elementos nutritivos indispensáveis à manutenção da saúde. pois cabe ao elemento feminino enfrentar a difícil tarefa de gerenciar o alimento consumido no cotidiano. enquanto o homem tem a pesada função econômico-social de produzir e distribuir os gêneros alimentícios. especialmente no que se refere ao suprimento alimentar. No sentido moderno. De acordo com Fischer (1998). pode significar muitas coisas juntas. no período de escassez de chuvas. amenizada pela rede de solidariedade entre os iguais. a fome é uma constante nas famílias dos pequenos agricultores do Semi-Árido nordestino. comporta vários significados. a necessidade adquire a conotação de fome. de acordo com Sobrinho (1982). segundo Fischer (1998). mas. quando atinge o indivíduo na sua totalidade e alcança o patamar classificado por Josué de Castro (1980) de epidemia de fome coletiva. carência de assistência médica. o termo se referia à falta de alimento para saciar o apetite. as chamadas necessidades aumentam e comprometem a própria sobrevivência da família sertaneja nordestina. Seria uma visão simplista atribuir a fome da família rural dessa região do Nordeste unicamente à irregularidade pluviométrica que periodicamente desorganiza a produção.

Tem hora que olho pro velho. Só quem sabe o que tá precisando. reclamo o tempo todo. Brigo. o que vai faltar. que geralmente é a mulher. outra vez nem isso pode fazer. principalmente a dona-de-casa. na opinião da mulher pesquisada. fica deprimido e frágil. exigência que ele tende a ler como negação da sua condição de homem. vendo o povo pra comer e a comida sem dar pra todo mundo. Reclamo para o marido e para os filhos porque não vou morrer calada. É difícil repartir a comida. Ele sorri e diz: é.. delimita também o alimento de cada membro durante a refeição. Esse grau de depressão aumenta na medida em que a mulher. passa pela mesa (entrevistado residente no município de Ouricuri). mas. Quer comer 3 vezes por dia. o ânimo e até a vontade de viver". Pobre come só o que tem. esperança. principalmente para as crianças e o marido. muitas vezes. o homem. Enquanto a mulher procura dar vazão a seus impulsos. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). se conformar com o que tem. . O homem rural do Semi-Árido pesquisado dificilmente passa por dificuldades semelhantes às da mulher chefe de família. segurança. a prova mais dura que enfrenta na seca. cabe a ela distribuir "pratos feitos" entre os familiares. o homem tende a assumir calado sua fraqueza e. "não encontro pra quem trabalhar". pois raramente assume o núcleo familiar sozinho. doa a refeição que lhe cabe. principalmente durante a seca. Afino. é. alguém. O fato de ter pouco alimento para servir na hora da refeição. se atrapalha. se a comida vai dar. avalia uma entrevistada do município de Patos. Nessa distribuição. É preciso saber pra ninguém ficar sem nada. 04 a 10 de novembro de 2007. Vale. a mulher rural em estudo. "Esta é uma provação que tira o sono. demonstra sentimento de impotência e apenas tenta se justificar dizendo que "não tenho de onde tirar". diante da falta de comida para servir aos filhos.. Quando ele consegue fico satisfeita. dividindo seu desespero com todos na família .chora e insulta o marido e encara o problema com determinação. ainda. são comedores. Mesa de pobre é desigual: tem dia que faz de conta que tem.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Na administração cotidiana do alimento.. Geralmente. Quem está na cozinha é quem sente a dor de cabeça.. para que todos sejam contemplados eqüitativamente. no geral. mas não tem jeito. além de calcular a quantidade de gêneros alimentícios que deve ser consumida diariamente na unidade familiar. sobretudo. e digo: tu tá mais novo do que eu. por ele próprio. o sossego. O marido é. não ingerem a quantidade que seu apetite permite. os indivíduos. Diante de tal cobrança. principalmente no período da seca. ele sai pra comprar fiado. O marido pergunta: nós vamos fazer o quê? Aí.. são estabelecidas prioridades que contemplam as crianças e o marido. Se tem pouco.. todos têm que comer pouco. A criança não quer saber de onde sai. que tem mais idade do que eu. portanto. contemplado nessa distribuição. diante da limitação do alimento. e consegue inclusive levantar o ânimo dos familiares -. cobra-lhe a obrigação de dono de casa e. Aí dá dor de cabeça. você se aperreia muito (entrevistada do município de Patos). de mantenedor da família. É difícil fazer uma sopa com a metade de um pacote de macarrão para dividir com 8 pessoas. Os filhos e de 13 e 15 anos. de um modo geral. não se conformam com pouco.126 - . Se não usar bem com o juízo. Seu constrangimento resume-se ao não cumprimento de suas obrigações de provedor do lar. e devolve o problema para a mulher. é a mulher. salientar que no processo de distribuição da refeição. O homem apresenta comportamento peculiar no enfrentamento da falta de comida. Caso os pequenos não fiquem relativamente satisfeitos. sobretudo. tarefa que culturalmente lhe é atribuída e cobrada pela sociedade e. Os depoimentos seguintes enfocam a angústia da mulher ao dividir o alimento na unidade familiar: Fico desesperada quando a comida não dá. A parte da mulher esquenta muito. o que é possível. Eu afino a sopa.

. que tem sua alimentação totalmente desequilibrada. que simboliza o sentimento de praticamente todas as entrevistadas. o feijão vinha duro (foi substituído pelo fubá) e a farinha não presta). no preparo do alimento. leite. envergonhado repreende: eu comprei fiado]. como queijo. de forma que se existir produção de feijão. se complementadas com as compras feitas com o salário de R$ 80. Esses arranjos alimentares são. na expressão de Euclides da Cunha. quando tem. para improvisar arranjos nutricionais durante a seca. causa mal estar psicológico e social no homem e na mulher e. tanto com a combinação de alimentos quanto com a escassez e limitação na diversificação de produtos alimentares. Aí. a mulher utiliza seu aprendizado sobre o seu preparo. Feira assim. quantidade e qualidade na junção dos nutrientes. vitaminas e sais minerais dos produtos alimentares. e 11 horas a gente come os caroços do feijão com "cusculho". a título de emergência. segundo Castro (1980). mas pobre come tudo. Hoje não tinha café em casa. Quando a gente pega em dinheiro. versa sobre os arranjos alimentares improvisados pela mulher em época de estiagem: O alimento é fraco na seca. o que ocorre com freqüência. embora tenha a consciência de que a refeição não está balanceada em vista da reduzida diversificação e da quantidade dos itens disponíveis. contém 19 quilos assim distribuídos: 5 de arroz. mesmo desconhecendo o conteúdo de proteínas. repassado através de gerações.127 - . carne de boi.00 (exceto no estado do Piauí. em média. que fazia do sertanejo "um forte". a família se mantém num patamar mínimo de sobrevivência alimentar durante um mês. a família terá a alimentação relativamente equilibrada devido à vivência da mulher rural pesquisada. é só café com açúcar. que rende mais. Este é um tipo de situação que deixa o homem um tanto desmoralizado diante da família e com a autoestima em baixa. carneiro. constituía o grosso do consumo da família sertaneja. que ficam sem ter a quem recorrer para 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). da época restaram o hábito alimentar e a cultura de preparar o alimento. assimilada pela mulher. porque gente fraco não faz feira. 1 de açúcar. 5 de fubá. A dona-de-casa rural da seca dificilmente sabe distinguir proteínas de vitaminas e tampouco entende o que significam sais minerais. pago pelo governo. De manhã.. nós faz a feira. ovos. improvisados com os gêneros da cesta básica doada pelo governo através do Programa de Emergência e que. 04 a 10 de novembro de 2007. A situação torna-se mais crítica quando aquele salário sofre atrasos. porém. sobretudo durante a seca. E embora aquela alimentação balanceada com proteínas e vitaminas que. sabe dosar. prejudicando aquelas fragilizadas famílias. A mulher poupa as iguarias recebidas. Cozinho o feijão de manhã. arroz. Apesar da má qualidade dos alimentos da cesta básica. 15 dias. eu tempero aquele caldo com uma cebola e alho e coloco um pouco de "cusculho". já não exista. Compro o carioquinha. onde é de R$ 60. 2 de farinha. milho. transtornos orgânicos na família rural. Compra 10 quilos de açúcar e 10 quilos de feijão pra 15 dias. Assim.. por vezes. A escassez de alimentos. Mesa de é desigual (entrevistada residente no município de Patos). Deixo o caldo do feijão pra noite. que estava junto. às famílias atingidas pela seca. sem dúvida. de tal forma que duram. manteiga. Alguém deu café e açúcar a ele lá pela rua [o marido. e assim a gente vive. O seguinte depoimento. conforme destacam praticamente todas as entrevistadas (o fubá é ruim. carne (mesmo que eventualmente) e algumas verduras.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG dando-lhe mais uma tarefa: a de pensar sobre o que ele deve fazer. ao todo.00). 4 pacotes de macarrão e 2 latas de óleo vegetal. porque café tá muito caro. cabrito.

Recife: 1998. O trabalho feminino: efeitos da modernização agrícola. dado o seu caráter de região pobre. devido aos freqüentes atrasos nos pagamentos da Frente de Emergência. Universidade de Brasília. e Melo Lígia Albuquerque de. a zona do Sertão semiárido é intermitentemente atingida por secas. A terra e o homem no Nordeste: contribuição ao estudo da questão agrária. Bibliografia Andrade. o que contribui para descontrolar ainda mais seu limitado orçamento familiar. Considerações Finais Como se pode observar. Fischer. Dicionário de Política. 1980. Recife. a contribuição da mulher está presente. Castro Josué de. 1998. levando-a ao caos. Dimensão social e política da seca de 1983. Gênero: uma questão questão no programa de emergência (in Branco Org.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG conseguir qualquer tipo de alimento. Brasília: ed. Os comerciantes da localidade não vendem fiado a esses trabalhadores. Melo. Fome. 2 ed. Hobsbawm Eric e Terence Ranger. auxiliando a política social da emergência. Lígia Albuquerque de. Vozes. 1986. que fragiliza o seu desenvolvimento em todos os aspectos e desmoraliza o indivíduo na sua dignidade. Conselho Conselho de desenvolvimmento de Pernambuco –Condepe. Rio de Janeiro: Paz e Terra. São Paulo: Atlas. Recife: Recife: FUNDAJ. Recife: Massangana. particularmente. 04 a 10 de novembro de 2007. Seca: fenômeno de muitas faces. agricultura e política no Brasil: a chantagem alimentar. 1997. A invenção das tradições. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Fundaj: Recife. Izaura R. Sobrinho Estevan de Lima. (in Branco – Org.) Fundaj. Manuel Correia de. a cada ocorrência de seca. Geografia da fome. As políticas sociais destinadas a essa região ainda não proporcionaram uma base estrutural. 4 ed.) A família rural da seca. Bobbio. Petrópolis. a grande maioria da população tem a sua condição de vida afetada em sua estrutura. 1996 Fischer. Araújo. Sem esse auxílio. pois a fome certamente contaminaria a região. Rio de Janeiro: Antares. 5 ed.128 - . 1982. a fome absoluta ameaça intermitentemente o cotidiano dos atingidos pela seca. 1999. 2 ed. suficiente para que a população conviva com as secas sem passar pelo tormento da fome. . 1983. 1998. Recife. e. Izaura R. Diante da impossibilidade de convivência com esse desastre natural. o Nordeste do Brasil e. Norberto et al. o Estado dificilmente conteria os conflitos sociais e a dizimação da população provocada pelo referido fenômeno. Fundação Joaquim Nabuco – FUNDAJ. Maria Lia Correia de. 1992. Diante de tal realidade.

a agricultura familiar vem ganhando importância como alternativa para o desenvolvimento rural sustentável. tanto nas ações dos movimentos sociais como das políticas públicas governamentais. no campo da sociedade civil. adultos(as). Ao estudar o processo de envelhecimento e masculinização da população rural. Action Aid. Tais riscos não estão relacionados apenas aos limites para expansão ou consolidação da agricultura familiar. ABRAMOVAY. 48 SOARES. Rio de Janeiro: Ipea. Soares considera que a “agricultura familiar provê um conjunto de bens públicos.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG amiliares Muito trabalho e nenhum poder marcam as vidas das agricultoras ffamiliares TACIANA GOUVEIA47 Nos últimos anos. Agradeço a Carmen Silva e a Simone Ferreira. Sem negar que essas características podem ser realizadas pelo modo de produção familiar. Comércio internacional. . entre a potencialidade e a realidade. segurança alimentar e agricultura familiar. Camarano e Abramovay questionam: “Até que ponto o meio rural pode ser um espaço propício na construção da cidadania e de condições de vida capazes de promover a integração econômica e a emancipação social das populações que aí vivem?”49. n. Ricardo. Tomando como 47 Feminista. Por outro lado. entre mulheres e homens. 04 a 10 de novembro de 2007. destacando sua contribuição nos campos da segurança alimentar. In: REBRIP/ACTION AID. funcionalidades e dependência entre o modo como está estruturada a agricultura familiar e as desigualdades de gênero. Rio de Janeiro: Rebrip. envelhecimento e masculinização no Brasil: um panorama dos últimos 50 anos. A mudança de foco aqui operada talvez nos obrigue a olhar menos para as funções que exerce e mais para as estruturas que a sustentam. o discurso sobre agricultura familiar produzido nos últimos anos por vezes a trata como um fenômeno histórico recente e altamente idealizado. demonstrando as conseqüências dessa dinâmica tanto na restrição da autonomia e cidadania das mulheres como no que se refere aos riscos que o próprio modelo corre se não construir possibilidades para o enfrentamento dessas desigualdades. que privilegia o setor latifundiário e a agricultura patronal. Multifuncionalidade da agricultura familiar. mas às suas possibilidades de constituirconstituir-se em um instrumento que promova a democracia e a justiça. jovens e crianças. função econômica e social. desigualdades. é fato que. 2001. Este artigo pretende analisar as relações. bem como o seu caráter multifuncional. Amélia. contradições. especialmente no que se refere à harmonia e à complementaridade entre as ações humanas e a natureza. há longo caminho a ser percorrido que não depende apenas de mudança nas políticas públicas. No que se refere a essas essas políticas. até o momento. de elevado valor para a sociedade em geral”48. Com relação a esse aspecto. Adriano. coordenadora de educação do SOS Corpo – Gênero e Cidadania e integrante do Grupo de Referência do Observatório da Cidadania.129 - . 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). entre a produção e o consumo. 612). a força discursiva não foi suficiente para provocar resultados que alterem os graves padrões de pobreza e exclusão a que estão submetidas as populações rurais – cujas causas estão radicadas no exaustivamente reconhecido modelo modelo de desenvolvimento hegemônico brasileiro. 1999. mas fundamentalmente dos processos sociais e políticos – em suas dimensões contraditórias e conflitivas – presentes na base das análises e ações que tradicionalmente vêm organizando e dinamizando a agricultura familiar. (Textos para discussão. Êxodo rural. 49 CAMARANO. pela colaboração neste texto. parceiras de trabalho no SOS Corpo. tangíveis e intangíveis. A constatação do hiato e da aparente contradição entre os discursos estatais e suas proposições políticas não responde à totalidade do problema a ser enfrentado. sustentabilidade ambiental.

op.. A operação de invisibilidade ocorre em um momento posterior ao trabalho realizado. 53 Id. expressão tão recorrente que já assume um estatuto de verdade. conseqüentemente. Ao mesmo tempo. mas no próprio processo de visibilidade e valorização desse modo de produção. ainda. são as relações de dominação patriarcal que lhes atribui um lugar menor. Cristina. quando os projetos políticos. Buenos Aires: Fundo de Cultura Econômica. cit. A partir dele. Max. E. Não são as mulheres que se ocultam. constrói-se uma hierarquia rígida na ocupação de lugares. 52 BUARQUE. justifica e legitima a opressão e exploração das mulheres. quando as estatísticas e análises – produzidas pelo Estado ou pela sociedade civil – não trabalham os dados separados por sexo. estatais ou da sociedade civil. reproduz e perpetua tal exploração e opressão.] instituída pelas mulheres nos espaços vazios dos grandes latifúndios”52. 50 Em pesquisa recente. oportunidades e benefícios50.. Cabe abrir um parêntese para questionar a chamada invisibilidade das mulheres e seu trabalho na agricultura familiar. enquanto a agricultura familiar não passava de um instituto marginal na economia. atribuição de valores. parece que a situação começa a ser inquietante exatamente nos momentos e movimentos em que elas deixam de estar. agricultura familiar. Para além do reconhecimento verdadeiro e legítimo das injustiças a que as mulheres estão submetidas. ao se organizar a partir deste sistema. não se pode negar que. As mulheres não são invisíveis.gov. atribuir aos outros a incapacidade de enxergar as mulheres muda o sentido da compreensão da realidade e. estão presentes “a crença no caráter inquebrantável do que tem sido feito sempre de uma determinada maneira”51 e a autoridade fundamentada na submissão e nas relações pessoais de convivência íntima e permanente.cnptia. não as consideram como sujeitos de direito. as possibilidades de construção de cidadania e emancipação das mulheres ainda são muito restritas. quando discursos mantêm a suposta universalidade do masculino (“o agricultor”). Longe de ser um mero jogo de palavras. Ricardo et al. “a nossa agricultura familiar é herança de uma atividade basicamente feminina [. ela era vista como uma atividade feminina vinculada ao doméstico. sendo a ausência o que concretiza esse (re)conhecimento.embraba.gov. “é interessante observar que. Economia y sociedad. Integração da perspectiva de gênero no setor da reforma agrária. Tal diferenciação de oportunidades e poderes ocorre não apenas na agricultura familiar. Em outras palavras. . Disponível em: <www. 51 WEBER.gipaf. no momento exato em que ela passa a ocupar um espaço nas grandes políticas. 04 a 10 de novembro de 2007. Dá-se quando é negado às mulheres o direito de decidir.130 - . das estratégias para a superação das desigualdades. muitos setores envolvidos na defesa da agricultura familiar começam a preocupar-se com essas questões. O ethos da agricultura familiar coloca no pai todo poder para organizar não só o empreendimento produtivo como também todo universo de relações que ali ocorrem. elas não são vistas no sentido de seu reconhecimento como sujeitos ativos dos processos produtivos. ABRAMOVAY.br>. ainda de modo incipiente. Abramovay e colegas constataram que 64% dos pais informam que têm o poder sobre todas as atividades da unidade familiar. Tradução da autora. uma vez que é concreta a “rota de saída” das mulheres. Sucessão profissional e transferência hereditária na agricultura familiar. Se o patriarcado é o sistema que cria..br>. na dominação patriarcal. seus protagonistas mudam de sexo”53.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG referência as relações de gênero na agricultura familiar em seu atual formato.incra. ibid. Como bem analisa Buarque. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Disponível em:<www.. 1992. especialmente as mais jovens. do espaço da agricultura familiar. seja ele produtivo ou reprodutivo. tal como definida por Weber.

as mulheres participam na mesma proporção que os homens (capina. Assim sendo. COSTA. as mulheres participam. 04 a 10 de novembro de 2007. Em apenas três atividades. colheita) e. realizada pelos meninos. a presença masculina é maior. em apenas 50% dos casos. das 25 atividades que compõem a esfera reprodutiva. no Ceará55. apenas 20% são realizadas com mais freqüência pelos homens (fazer feira. 56 CAYERES.cnptia. pois os homens estão mais envolvidos na atividade. Nas demais situações. Em quatro dessas atividades. três atividades). como é o caso de trabalho realizado em Paragominas. LOPES. a divisão do trabalho é um pouco diferente. como demonstram os dados a seguir. havendo ainda casos em que participam de todas. Se as mulheres executam as atividades produtivas na mesma proporção que os homens. Na criação de caprinos/ovinos. mas também verdadeiro. Os dados coletados em uma pesquisa54 com as agricultoras familiares da região de Sobral. consertos de utensílios e reparos na casa e trocar o botijão de gás)57. mas só em um caso é exclusiva. pois sua característica principal é ser uma espécie de híbrido entre responsabilidades ditas femininas com aquelas ditas masculinas. as mulheres realizam todas as atividades que compõem o sistema. Rosana. Na área de Sobral. sendo que o trabalho feminino está presente com alta freqüência de sete a nove atividades.gipaf. o mesmo não se pode dizer das atividades reprodutivas. em uma. As tabulações estão em fase de finalização. nos casos restantes.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Onde estão as mulheres? De modo apressado. Etnografia sobre as relações de gênero na agricultura familiar no 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Na criação de suínos. Essa é uma área de extrema pobreza. realizam todas as atividades produtivas e reprodutivas na unidade familiar. em graus variados.131 - . enquanto as mulheres participam de três a cinco). ainda que não exclusiva e. Santana do Acaraú e Meruoca. destocar e vender.embraba. a manutenção do sistema tradicional é assegurada pela sobrecarga de trabalho das mulheres”56. os homens realizam a maioria. 58 Resultados quase idênticos foram encontrados por Puhl. em muitos casos. Moura e Lopes em diagnóstico realizado no Vale do Guaporé (1998). Enquanto que os homens estão envolvidos com as novas técnicas introduzidas e nos treinamentos. basta olhar a dinâmica cotidiana para que se constate que as mulheres. no Pará. onde a maior parte da produção familiar está relacionada com as atividades do roçado e a criação de animais de pequeno porte (aves e suínos).9 mostram que. 57 É interessante observar que a justificativa para o predomínio masculino na troca do botijão não é o peso. onde Cayeres e Costa. Contudo. Já na criação de aves. Análise da mão-de-obra no sistema de produção familiar de uma comunidade amazônica. as 54 Pesquisa realizada em 2003 pelo SOS Corpo – Gênero e Cidadania para Projeto de Desenvolvimento Local Pnud/BNDES. plantio. de todas. em maior ou menor medida. Massapê. são majoritárias (beneficiamento dos produtos). pode-se dizer que as mulheres estão em todos os lugares e não estão em lugar nenhum. das 14 atividades relacionadas com o roçado. há um equilíbrio na divisão das atividades. constataram que “as mulheres têm maior contribuição individual na força de trabalho familiar e na continuidade das atividades tradicionais. Um exemplo disso é levar pessoas doentes ao serviço de saúde que articula a dimensão do cuidado com a saída do espaço familiar58. MOURA. . a freqüência é bem mais baixa que a dos homens: brocar. enquanto 28% das atividades têm uma freqüência maior de realização compartilhada. em 49% dos casos. a participação masculina é muito baixa (em média. analisando o sistema de roça itinerante e o manejo de inovações tecnológicas. replantio. Guilhermina. 55 Composta de quatro municípios: Sobral. mas sim o medo de acidentes provocados pelo vazamento de gás.gov. buscar e rachar lenha. Das 15 atividades listadas. Em todos os lugares porque para além dos dados que as ocultam. Disponível em:<www. eles são majoritários (realizam as 11 atividades. Dados semelhantes são encontrados em pesquisas que investigam contextos diferentes.br>. Ver PUHL. somente elas são as executoras. sendo que.

houve queda de 10% na população rural brasileira. pode-se fazer inferências sobre quem são as pessoas que. em certa medida.22. de acordo com os dados do Censo de 200062. onde um terço dos homens que trabalhavam na atividade agrícola não haviam se casado até os 35 anos) como na América Latina (onde. . as mulheres passaram de 48. atuam para além do especificamente agrícola. 1998. No Brasil. principalmente no contexto dos debates sobre o “novo rural” e os modos como outras dimensões econômicas – como serviços. Em 30 anos. op. Ainda que os dados apresentados não façam referência direta à dimensão da pluriatividade na agricultura familiar. artesanato. Se.132 - . Pesquisa realizada em assentamentos de seis estados do Brasil59 confirma esses dados.47% da população rural para 47%. especialmente aquelas cuja realização é diária e contínua. turismo. sendo possível também estabelecer conexões entre os processos migratórios femininos e o conceito de pluriatividade. Como decorrência. cit. gastronomia e até mesmo um certo modo de vida – que vêm sendo reforçadas nos discursos e políticas como alternativa eficaz para o desenvolvimento rural. 2000.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG mulheres são executoras exclusivas de 52% das atividades reprodutivas. característica considerada fundamental na consolidação desse modo de produção. entre 1991 e 2000. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). 61 Ver CAMARANO e ABRAMOVAY. democracia e políticas públicas. sendo que. 60 É interessante observar que. levando consigo a subvalorização da sua contribuição para a sustentabilidade da agricultura familiar. Brasília: Unesco. já que. é por elas e por meio de seus trabalhos que se realiza a integração entre produção e consumo.). para as mulheres. em 1980. Programa integrado de capacitação em gênero. Silvia. são majoritariamente presentes nas quatro atividades apresentadas – o que as torna multifuncionais para a agricultura familiar. com mais freqüência. havia 5 milhões de homens a mais do que mulheres)61. é necessário pensar a questão da pluriatividade como uma das formas a partir das quais esse modo de produção é constituído e dinamizado. especialmente na condição de mães. os jovens que fazem esse movimento. Miriam. A tendência de diminuição da população feminina no meio rural é histórica. além das atividades domésticas e agrícolas. São as mulheres – independentemente de faixa etária – e. PACHECO. mas vale destacar que a inserção em atividades não-agrícolas é profundamente marcada pelo viés de gênero60. Companheiras de luta ou coordenadoras de panelas?. mesmo nos estudos que tratam do tema da pluriatividade. Analisando os dados para além da sub-representação que parece ocorrer com o trabalho feminino na produção agrícola. econômicos e políticos. Maria Emília.br>. 59 ABRAMOVAY.ibge. 04 a 10 de novembro de 2007. Na maioria dos casos.gov. essa queda foi de 11%. A razão de sexo também é um indicador importante. ao mesmo tempo em que revela os modos como as atividades produtivas das mulheres são invisibilizadas e transformadas em ajuda ou parcialidade. a ausência física das mulheres não significa que elas deixem de ser um elemento da organização e da manutenção do estabelecimento familiar. Vem ocorrendo tanto na Europa (é o caso da França.56 homens para cada 100 mulheres. Não cabe aqui analisar a correção ou não de tais proposições. elas ainda estudam e exercem o magistério. Maria das Graças. Além disso. em 1995. tem-se que as mulheres. em 2000 passou a ser de 109. Rio de Janeiro: Fase. A média brasileira (incluindo o urbano e o rural) na última contagem Vale do Guaporé. a razão de sexo na população rural era de 106. Quarto Caderno: Experiências Rurais. desenvolvimento. 62 Disponível em <www. (Orgs. RUA. não há uma nomeação do sexo daqueles(as) que têm múltiplas inserções produtivas. sendo uma prática condicionada pelos contextos sociais. In: CAMURÇA.

2003. comprovando assim que a estrutura das relações de gênero tem um peso decisivo na dinâmica de desenvolvimento rural. confirmando a força da estrutura familiar mais tradicional. É essa mesma lógica que leva a um maior incentivo para que as filhas invistam na escolarização. Antônio et al. 64 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). suas causas não estão radicadas apenas no tipo de política pública para o desenvolvimento rural nem em condições estritamente econômicas. c) relação entre processos migratórios e graus mais elevados de escolaridade. ou seja. como fica claro no depoimento de uma trabalhadora da fruticultura irrigada de Petrolina.fundaj. Tais processos trazem conseqüências importantes no modo como as mulheres. Além disso. dando-lhes condições de pensar e buscar outros destinos diferentes da submissão absoluta à lógica patriarcal. 65 MELO. .21 63 CAMARANO e ABRAMOVAY. é possível estabelecer rotas que a contornem e minimizem os seus efeitos perversos e injustos. op. O primeiro diz respeito à presença de uma racionalidade nas escolhas das mulheres em não permanecer na agricultura familiar. Semira. A educação formal e os novos mercados para a agricultura familiar. b) dinâmicas das relações de gênero na família. são 96. eu também digo que estou”64. de ser alguém com um lugar no mundo.gov. já que. Gênero e globalização no Vale do São Francisco. como aquelas relacionadas às dimensões socioculturais. Apud BRANCO. interpretam a si mesmas e à realidade. em contextos diversos do ponto de vista político e econômico encontram-se os mesmos processos. em especial as ações políticas dos movimentos de trabalhadoras rurais. É importante levar em conta também as transformações por que passaram as mulheres nas últimas décadas. Texto apresentado no XLI Congresso Brasileiro da Sociedade Brasileira de Economia e Sociologia Rural. em princípio. Juiz de Fora. Rotas de saída Camarano e Abramovay63 levantam três hipóteses para explicar a maior participação feminina nos processos migratórios: a) maior oferta de trabalho para mulheres no meio urbano ligada à expansão do setor serviços. cit. como na maior escolaridade encontrada nas mulheres rurais. Quando meu marido diz ‘é meu’. a remuneração pelo trabalho realizado e a quebra com o tempo indistinto que marcam a ligação entre produção e reprodução dentro da unidade familiar são fatores que transformam o cotidiano das mulheres. tanto no que se refere às conquistas no plano dos direitos. aumentam suas chances de conquistar postos de trabalho mais qualificados.T T Se. as relações de gênero são determinantes tanto no que se refere à preferência por mulheres nos empregos do setor serviços. apresenta uma tendência inversa. Ainda que seja um processo mais marcante na população feminina rural.93 mulheres para cada 100 homens. (Trabalho para discussão n. O acesso ao mundo público. Vale ressaltar dois processos profundamente interligados e pouco considerados. jun. Na perspectiva aqui assumida. 116. dados apresentados por Abramovay e Rua demonstram que o percentual de homens solteiros nos assentamentos é muito superior ao de mulheres. os jovens que investem na qualificação escolar também tendem a deixar a unidade familiar. 04 a 10 de novembro de 2007. Adélia. conforme constataram em pesquisa recente Melo e colegas65. estas três hipóteses possuem estatutos diferentes. Quando ele diz ‘eu estou cansado’.133 - . dando-lhes a possibilidade de se pensarem e atuarem como sujeitos de suas próprias vidas. set. Se ainda não há condições para a ruptura dessa lógica. VAINSENCHER. 2001).Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG populacional. Disponível em: <www.br>. eu também digo. em Pernambuco: “Fiquei uma pessoa independente. especialmente as mais jovens.

25 Id. Ao mesmo tempo. 67 ABRAMOVAY et al. por outro lado. op. Essa situação é muito comum nos períodos de seca no semiárido nordestino. 04 a 10 de novembro de 2007. BRANCO.. ibid. 66 Id. essa já é uma situação difícil. Além disso. na agroindústria.. é necessário considerar o problema da herança. Sendo a atividade feminina.João Pessoa: UFPB. ilógico que procurem outras opções. ibid. terminariam por inviabilizar sua capacidade produtiva. Adélia. Há que se considerar. cit. historicamente marcada pela multifuncionalidade e pluriatividade. que às vezes a migração para áreas urbanas não é uma escolha das mulheres. portanto. tal como ocorreu. . no setor de serviços público e privado ou no trabalho doméstico – para onde migram a maioria das mulheres. quando da recente valorização da agricultura familiar. Mulheres da seca: luta e visibilidade numa situação de desastre. as mulheres não contribuem somente com uma ajuda monetária àqueles que deixaram para trás. mas também da mesma dinâmica patriarcal que afeta as mulheres. “através da migração. mas ajudam os demais familiares a migrarem”69. segundo a análise de Buarque. seja no trabalho assalariado. 2000. não sendo. Como analisam Abramovay e colegas. para as filhas são raríssimas as chances de serem herdeiras. mesmo que haja ausência física de uma mulher. fazendo com que apenas um dos filhos pudesse ocupar o lugar do pai. O patrimônio geralmente não oferece possibilidades de muitas divisões. que. caso ocorressem. “o processo sucessório na agricultura familiar está articulado em torno da figura paterna que determina o momento e a possibilidade de passagem da responsabilidade sobre a gestão do estabelecimento para a futura geração”67. pois uma parte substancial dos rendimentos que as mulheres auferem em trabalhos fora do espaço familiar é nele empregado. Se a rota de saída das mulheres da agricultura familiar significa uma opção legítima na busca da emancipação e da cidadania. uma vez que sendo o poder pouco compartilhado entre as pessoas que estão no estabelecimento familiar. 68 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). as mulheres deixarão de ser os sujeitos centrais da mesma. no momento em que a segunda característica passa a ser considerada uma alternativa viável para o desenvolvimento rural.. pois. já que elas continuam sendo avaliadas pelos mesmos padrões e valores que organizam a agricultura familiar. ainda.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG ocasionando o que eles denominam “questão sucessória na agricultura: que é quando a formação de uma nova geração de agricultores perde a naturalidade com que era vivida até então pelas famílias e indivíduos envolvidos nos processos sucessórios”66. mas uma necessidade imposta pelas dificuldades financeiras do estabelecimento familiar. no sentido do baixo retorno financeiro. para os filhos. não representa nem uma ruptura nem uma solução. ibid. cabe indagar se. os jovens também se encontram em uma posição de submissão. 69 Id. como constatou Branco68 ao afirmar que. nesse contexto. É desnecessário demonstrar que as atividades reprodutivas não são deslocadas para os homens quando as mulheres deixam de trabalhar diretamente na produção familiar. Se.. elas também não se desvinculam da própria agricultura familiar. Essa “perda de naturalidade” é derivada não apenas dos problemas de ordem econômica. as responsabilidades que tinha serão transferidas diretamente para outra mulher da família. como gasto produtivo ou reprodutivo.134 - .

indicam que.135 - . vale-alimentação e vale-gás) como sendo sua própria e única renda: 66% entre aquelas que declararam ter algum rendimento. são consideradas “dependentes”. demonstrando que quase80% das mulheres não auferem nenhum rendimento do seu trabalho. perfazendo 26. para receber tais benefícios. temos que 17. Analisando os números referentes à população masculina ocupada. os dados da última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad). enquanto 13% não auferem nenhum tipo de rendimento. Disponível em:<www. é necessário um deslocamento para o município-sede. não há nenhum tipo de obstáculo legal para que as mulheres sejam proprietárias.08% de homens que não recebem rendimentos pelas atividades que realizam. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Trabalhando com os dados sobre rendimentos das agricultoras familiares da área de Sobral. e 85. aos rendimentos e ao poder de decisão. 72 Os valores dos benefícios são: vale-gás – R$ 15 (a cada 2 meses).unicamp. 87% dos lotes dos assentamentos do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). elastecendo ainda mais o tempo das mulheres. É prudente afirmar que as mulheres são gerentes de uma parte dos recursos familiares porque seu poder de decisão é muito restrito.br>. para o universo das pessoas de 10 anos ou mais ocupadas em atividades agrícolas (não especificamente para a agricultura familiar). Nos demais casos. Os dados por si só indicam a magnitude da exploração a que estão submetidas as mulheres na produção agrícola brasileira. 04 a 10 de novembro de 2007. entrevista concedida por Zoraida Garcia Frias ao jornal eletrônico da Unicamp. Apenas em situações em que eles não preenchem os requisitos necessários ou quando estão ausentes é que as mulheres assumem a titularidade. No entanto. 93% do Banco da Terra e 92% das propriedades familiares têm homens como titulares70.8% recebem menos de meio salário mínimo mensal. No que se refere aos rendimentos. divulgada em 200171. esperas nas filas dos bancos e gastos com transporte que terminam por diminuir ainda mais o já mínimo benefício.71% são classificados como não remunerados. e 8. Perceber os recursos destinados à família como sendo seus próprios recursos demonstra o quanto as mulheres têm dificuldades de se perceber para além desse lugar e da função de gerentes dos parcos72 rendimentos familiares destinados à reprodução cotidiana. já que. e bolsa-alimentação – R$ 15. as mulheres estão majoritariamente nas categorias não-remuneradas (39. mesmo no que se refere às decisões da 70 “A terra da mulher (e do homem)”.gov.37% estão na produção para consumo próprio. Ao mesmo tempo em que confirma que os(as) formuladores(as) das políticas públicas assistenciais colocam as mulheres como responsáveis pelo recebimento desses recursos como se isso fosse uma garantia de sua adequada aplicação.7% no grupo que recebe menos de meio salário mínimo. o que chama a atenção aqui é o alto percentual de mulheres que colocaram os benefícios (bolsa-escola. A aparente contradição se explica ao verificarmos o que é feito das mulheres nas dimensões relativas à posse da terra. Contudo. No Brasil.25%) e produção para consumo próprio (também 39. em novembro de 2002. vê-se que 47. foi afirmado que as mulheres estão em todos os lugares e não estão em lugar nenhum no cotidiano da agricultura familiar.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Direitos pela metade Anteriormente. com teto de três crianças. bolsa-escola – R$ 15 por criança. 71 Disponível em: <www. . Quando se analisa a titulação da propriedade da terra.ibge.br>.25%). também com teto de três crianças. fica evidente o quanto a existência de políticas públicas ou de legislações não é suficiente para minimizar as enormes diferenças de poder entre mulheres e homens.

assim são as mulheres em sua experiência cotidiana na agricultura familiar. não lhes é direito. o poder de decisão é majoritariamente masculino nos seis estados pesquisados (cultivos – de 92% a 66%. nos casos das agricultoras familiares. já que a tradição patriarcal que organiza esse cotidiano nega às mulheres apossibilidade de exercerem um princípio fundamental de ser sujeito: a liberdade de ir e vir. Apesar de se creditar às mulheres o domínio absoluto do espaço reprodutivo. Nos demais estados (Paraná e Rio Grande do Sul).5%. tudo o que envolve dinheiro e saída do espaço restrito do estabelecimento familiar não lhes pertence. No âmbito das atividades produtivas. Contudo. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Esses elementos não podem ficar invisíveis quando a transformação social e política pretendida implica necessariamente a quebra da hegemonia do modelo até então vigente para o desenvolvimento rural. Sem terra. há um percentual maior de mulheres compoder de decisão (55. sem espaço. bastante surpreendente é que. a decisão tende a ser compartilhada pelo casal (38% e 62. 61. sem tempo. mas também para o modo de organização familiar. Ceará. mudemos os sentidos e significados da agricultura e da família. 73 Pesquisa realizada por Abramovay e Rua em 2000.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG esfera reprodutiva.136 - . sendo antinômico que essa radicalidade também não se dirija à dominação patriarcal que organiza a sociedade brasileira. à primeira vista. Mato Grosso e São Paulo). pois só assim nossa ação política poderá resultar numa sociedade que não seja marcada pela meia justiça. vendas dos produtos agrícolas – de 91% a 74%. sendo mais freqüente que os homens tomem essa decisão. O poder de decisão das mulheres é maior na venda dedoces e queijos (de 58% a 41%) e na venda de ovos e aves (80% a 46%). venda de gado – de 93% a 59%). as organizações não governamentais. sem dinheiro. as mulheres têm maior poder de decisão sobre quais alimentos devem ser comprados. .%. a realidade é mais complexa. É preciso que os movimentos sociais. tendo respostas menos uniformes nos estados pesquisados. 41.5%). Em síntese. em nenhum dos estados pesquisados. trabalhadoras e trabalhadores rurais construam projetos e alternativas não apenas para os modos de produção e consumo. sem liberdade. como demonstram os dados da pesquisa “Relações de gênero nos assentamentos rurais”73. 04 a 10 de novembro de 2007. o que pode parecer. sem poder. No que se refere à educação das crianças em quatro estados (Bahia.5% e 44%). ainda que esse poder não seja tão hegemônico como o masculino e se dê em esferas produtivas de menor valor monetário. A primeira vista porque. meia liberdade e meia cidadania.

02/10/1999-TV Bandeirantes. numa produção de vários agentes sociais e práticas políticas intercaladas por experiências femininas de mulheres do campo. ou modalidades de práticas políticas. Essa construção remeteremete-se a uma produção coletiva. e a construção de uma narrativa própria.” nas palavras de Bourdieu (1975). 74 Programa Jogo Aberto. pessoal e social.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Margaridas nas ruas: As mulheres trabalhadoras rurais como categoria política Maria Dolores de Brito Mota “…nem nome nós tinha. deputada Federal/SC74 Resumo Estudo sobre a emergência das mulheres trabalhadoras rurais no mundo público. Uma dimensão formulam--se institucional pela qual se formalizam suas organizações específicas. discurso e imagem específica. através de sua experiência política. como categoria específica. pela qual essas mulheres se identificam como mulheres trabalhadoras trabalhadoras rurais. Buscando a construção e encontrando a experiência das mulheres trabalhadoras rurais A existência das mulheres trabalhadoras rurais no espaço público. envolvendo a criação de um lugar feminino. tornandotornando-se em condições de aparecer e falar publicamente. nós era só mulher com obrigações…” Luci Choinaski. fui em busca do “trabalho social” de construção do objeto “preconstruído. conflitos símbolos. e postulam encontros com os /as personagens e contextos situados no terreno social em que surgem as organizações específicas de mulheres trabalhadoras rurais. em luta por reconhecimento e direitos. combinando diferentes elementos como articulação. Assim. imprimem marcas marcas diferenciadas no movimento sindical dos trabalhadores rurais introduzindo dimensões femininas de vivências e simbolismos que.. lhes permite refazeremrefazerem-se sem medo de ser mulher. nem reconhecimento. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). como uma produção coletiva. de formas de representação/apresentação.137 - . A existência das mulheres mulheres trabalhadoras rurais não decorre automaticamente automaticamente de suas situações de vida. 04 a 10 de novembro de 2007. Uma dimensão experiencial em que ativam mecanismos de aparecimento aparecimento e de fala pública. As mulheres trabalhadoras rurais. nem de revela--se como resultado de uma tomada de consciência espontânea. é aqui abordada na perspectiva da construção de sua emergência como grupo. coletivo personalizado. num fazer e fazer-se. e deparei-me com a questão de uma categoria social fabricada coletivamente. e formulam discursos institucionais sobre elas e para elas. que demandando ando articula a atuação de diferentes agentes sociais com as mulheres rurais. Esses acontecimentos reúnem práticas. demand práticas e saberes que possibilitam a formatação de uma experiência singular. práticas. consubstanciando um movimento social de mulheres trabalhadoras rurais. além de instituírem a sua entrada na política sindical. envolvendo as mulheres trabalhadoras rurais e outros agentes sociais. exprimindoexprimindo-se em diversas dimensões. com identidade. e a sua construção revela conflitos. Construção essa resultante de um trabalho coletivo de agentes múltiplos cujas práticas projetam e revertem figurações sociais. abordada pelo aspecto de sua construção como categoria política política em luta por reconhecimento e direitos. . atuações e autorias. estratégias.

práticas.p. diferente de outros. sendo que “na ação e no discurso. e assim apresentam-se ao mundo humano” (1995. Esse tornar-se um Eu. como mundo desta sociedade e para esta sociedade. revelam ativamente suas identidades pessoais e singulares. com configurações diferenciadas em grupos/facções que disputam entre si a legitimidade. entre a conformação do ser e as formas de conhecer” (idem. vida pública onde é possível constituir-se em ser “conscientemente existente” (idem. numa unidade que sinaliza “a concordância entre as estruturas objetivas e as estruturas cognitivas. dentro e fora do próprio movimento de mulheres trabalhadoras rurais.p. no interior da qual situa-se a idéia de que a emergência de um grupo em luta se faz especialmente por meio de atos de reconhecimento (p.138 - .” E outros autores que transitam por entre essas idéias de um real não apriorístico e resultado de ações projetadas ou não dos sujeitos sociais. em agir. expressandose por imagens. a vita activa. Esse propósito me levou a aproximar-me e a aproximar alguns autores que compreendem a realidade social como realidade construída. Castoriadis. De uma maneira esquemática. O que me colocou diante da questão de identificar as evidências do processo construtor das mulheres trabalhadoras rurais como categoria política. Essa construção se distancia das idéias de determinação e de espontaneísmo. Produção que pode ser aduzida como uma poética. os homens mostram quem são.138).p. Mas. E o agir pressupõe aliança entre pessoas. Arendt que entende a existência social assentada no ser visto e ouvido publicamente. e o próprio momento conjuntural em geral e em particular o das mulheres da zona rural. e como organizaçãoarticulação da própria sociedade” (1995.p. em montagem de uma “ciência do ordinário. nos leva ao encontro da problemática da identidade desse grupo de mulheres. e que está sendo colocada neste contexto como identidade construída coletiva e politicamente. Os processos que permitem o estabelecimento das mulheres rurais como categoria específica.415). Bourdieu que entende o mundo social como uma “realidade que é o lugar de uma luta permanente para definir a realidade” (1989.17). no sentido que é atribuído por Arendt (1995) significando a vida humana empenhada em fazer algo.24). e reivindicou meu olhar sobre esse controvertido conceito nas ciências sociais. presença de outros. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE).192). Destaco Certeau (1996) com a sua busca das tessituras do real dentro do cotidiano.118). vincula-se a mecanismos conectados com a experiência das próprias mulheres rurais junto a outros grupos sociais que são articuladores políticos. como apresentação e estratégias de um grupo social.17) para quem “a palavra ‘categoria’ impõe-se por vezes porque tem o mérito de designar ao mesmo tempo uma unidade social – a categoria dos agricultores – e uma estrutura cognitiva. e nem se mostra como reflexo imediato de uma tomada consciência política espontânea. falas e espaços de modo a conquistar uma outra vida. esbocei o cenário que tornou possível o aparecimento das “mulheres trabalhadoras rurais” como sujeito de discursos e sujeito nos (outros) discursos. as mulheres trabalhadoras rurais.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Categoria aqui é entendida no sentido referido por Bourdieu (1999. essa concordância que permite o conhecer de uma categoria social implica também um processo de reconhecimento pelo qual ganha visibilidade e legitimidade. 04 a 10 de novembro de 2007. manifestam-se como uma produção coletiva. e de tornar manifesto o elo que as une.p.” É uma forma de ser e de conhecer (esse ser). organização. 1993. A esta produção atribuí a idéia de “construção” no sentido de que a categoria das mulheres trabalhadores rurais não se exprime apenas por processos estruturais. de ser uma criação.p. para quem a instituição da sociedade “que é cada vez instituição do mundo. . normalmente atribuídos como determinantes de situações conseqüentes. no sentido original dessa palavra.

delegadas do Primeiro Encontro Continental de Mulheres Trabalhadoras Rurais. camponesas. indica relacionamentos entre diversos agentes sociais e as mulheres trabalhadoras rurais. movimento sindical e organizações não governamentais 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). e no acompanhamento socioetnográfico do cotidiano da militância do Coletivo Estadual de Mulheres da Federação dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais do Ceará – Fetraece. práticas. estratégias. Deparei-me com essa experiência nas condições em que se designam e se exercem como tal – na existência cotidiana de suas organizações específicas. Fui em busca de entender o que possibilitou àquelas mulheres trabalhadoras rurais se definirem. o 8 de Março e a Marcha das Margaridas 2001. e em condições de comunicação. O discurso acadêmico tem uma presença intensa na emergência social das mulheres trabalhadoras rurais corroborando com a instituição de uma identidade desse grupo. rituais que realçavam um processo de fabricação. as primeiras surgiram em 1982 no sertão pernambucano e no interior do sul do país. bóias-frias. sindicatos. na medida em que um dos temas tratados no encontro foi “ o que era ser e se sentir uma mulher trabalhadora rural.139 - . . eram conhecidas e autodenominadas como assalariadas do cacau. Uma via dupla de criação – relações entre mulheres rurais. o III Congresso Estadual da Fetraece. lavradoras. Segundo Scott (1999). Na busca das origens das organizações de mulheres trabalhadoras rurais.” pois não é algo que sempre esteve lá. mas juntas reivindicavam uma única identidade. academia. que é recente. imagens. articulações. a de mulheres trabalhadoras rurais. foram se manifestando elementos como discursos. Esta condição que se apresentava como dada. significa estar sendo vista. posseiras. catadoras de café. a “identidade está amarrada a noções de experiência. Em 1997 deparei-me com mulheres de todo o continente latino-americano e do Caribe. as eleições do Coletivo Estadual.” Do Brasil estavam diversas representações de organizações de mulheres trabalhadoras rurais que se autoreferiam como participantes do Movimento de Mulheres Trabalhadoras Rurais. à espera de ser representada.  O acompanhamento de algumas atividades políticas realizadas pelo Coletivo Estadual de Mulheres da Fetraece. Neste caso. como no acadêmico e no de formações políticas (ONGs. e do Movimento de Mulheres Trabalhadoras Rurais/CE (MMTR-CE). narrativas. políticos). a organização da Campanha Nenhuma trabalhadora rural sem documentos. portanto em relações de re-conhecimento. Tomar as mulheres trabalhadoras rurais como categoria construída é um esforço que me levou a encontrar a experiência historicizada pela qual puderam emergir como categoria política. igreja. emoções.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Discursar é estar em posição de exercer uma fala de direito e estar presente no discurso de outros. conflitos. de produção coletiva. no início dos anos 1980 na Bahia. Os primeiros grupos de mulheres rurais que conheci. reconhecerem e serem reconhecidas como tal. todos circunstanciados por tensões. Eram mulheres de realidades e características diferentes. de fato expressava a conformação de um processo em curso. e do Movimento de Mulheres Trabalhadoras Rurais (MMTR). 04 a 10 de novembro de 2007. identidade. Essa busca seguiu dois caminhos:  A história do surgimento das organizações de mulheres trabalhadoras rurais. que ao longo da investigação foi tomando a forma de uma construção – a construção sociológica das mulheres trabalhadoras rurais como categoria política.

. Esses estudos formulam questões que se situam no campo de uma teoria social crítica e mostram o caráter político da invisibilidade das mulheres rurais nas estatísticas e na vida social. o discurso acadêmico sobre as mulheres trabalhadoras rurais tem sido uma de suas condições de produção. a organização dos Encontros de Esposas. analisando:  A subestimação do trabalho feminino pelos indicadores utilizados nas pesquisas censitárias (mulher de produtor.  Evidenciam o aumento do trabalho feminino no campo e as novas posições que este assume a partir das mudanças introduzidas pela expansão das relações capitalistas no campo que individualizaram a força de trabalho das mulheres intensificando a sua exploração. MNRF. atribuído ao trabalho feminino. pomar. Os estudos acadêmicos são falas legitimadas que atuam no propósito de dar visibilidade à presença das mulheres tanto nas atividades da produção agrícola quanto nas instâncias e manifestações políticas do movimento sindical dos trabalhadores rurais. uma maneira de fazer a sua existência. Seja em nível nacional ou estadual. física. o Cetra e a igreja. fala autorizada.” cuja narrativação das práticas é uma maneira textual de fazer. No Ceará essa matriz articulista está nos interstícios do movimento sindical.  A não inclusão das atividades femininas das políticas de incentivo à produção rural. nos anos 1980.  O caráter de ajuda ou complemento ao trabalho masculino. lhe é permitido apresentar uma outra visão do real. Em torno desse trabalho com as mulheres aproximaram-se várias integrantes dessa instituição e alguns 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Diante de uma pequena presença das mulheres nas reuniões sindicais e da existência de problemas entre os casais pelas ausências dos homens em decorrência de sua participação no movimento. hortas. das pesquisadoras na condição de colaboradoras e assessoras nos eventos que estes movimentos realizam. destacaram-se a presença de vários agentes sociais.junto aos locais onde surgiram os primeiros grupos organizados de mulheres trabalhadoras rurais. 04 a 10 de novembro de 2007. plantas medicinais). a não inclusão da produção de fundo de quintal – criação de pequenos animais. No âmbito das assessorias. Além disso. Essa capacidade do dizer é vista por Certeau (1996) como um “saber – dizer. o encontro com a realidade das mulheres é mais direto. o Coletivo da Fetraece e o MMTRCE. ouvindo as queixas de homens e mulheres iniciaram. A produção acadêmica sobre as mulheres rurais de um lado re-escreve e re-inscreve essas mulheres no mundo social. O primeiro grupo do MMTR-CE se formou na região de Itapipoca. crédito. presente não somente na zona rural mas em toda a sociedade. existe a participação direta. a história do surgimento das organizações de mulheres trabalhadoras rurais está ligada a atuação de ONGs e pastorais. Assim. Os estudos acadêmicos estão também presentes no cotidiano dos movimentos das mulheres trabalhadoras rurais. como intelectuais e as assessorias. em 1980. Nessa área a igreja tinha um trabalho de organização dos agricultores em torno da luta pela terra e da celebração do Dia do Senhor.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Na história do surgimento das organizações estudadas. porque como discurso competente. como textos que subsidiam as discussões sobre suas condições de vida e de trabalho. do qual só participavam homens. O Cetra também estava presente nessa região com uma atuação voltada para a renovação do sindicalismo e a luta pela terra. da igreja católica e da atuação do Centro de Estudos do Trabalho e Assessoria ao Trabalhador (Cetra) e do Centro de Pesquisa e Assessoria (Esplar).140 - . subsídio e mesmo dos programas de reforma agrária.

141 - . como a Comissão de Mulheres Trabalhadoras Rurais da Contag e a Articulação Nacional de Mulheres Trabalhadoras Rurais. na mesma perspectiva dos que estavam sendo construídos na Paraíba. Piauí. saúde da mulher. Dentro da CUT existia o Departamento Estadual de Trabalhadores Rurais. As assessoras foram se formando como assessoras de um trabalho específico com mulheres na medida em que os próprios movimentos de mulheres iam se constituindo. A presença das ONGs nessa história indica a formatação de um outro discurso e práticas articuladas com as trabalhadoras rurais demandando a sua inclusão no espaço social e político. . inicialmente para trocar experiências e ampliar sua capacidade para esse trabalho político organizativo com mulheres rurais. aos quais se articulou. No Brasil. Pernambuco. respectivamente. Em 1991 esse departamento realiza o I Encontro Estadual de Mulheres Trabalhadoras Rurais quando foi criada a Comissão de Mulheres do DETR-Ce. formado por sindicalistas de esquerda que faziam oposição à diretoria pelega da Fetraece. se constroem. O Coletivo e o MMTR vinculam-se a organizações em nível nacional. Uma assessora confessou que aprendeu sobre a questão da mulher com o trabalho que realizava junto às trabalhadoras rurais. e em fevereiro de 1993 a Comissão de Mulheres é transformada no Coletivo Estadual de Mulheres da Fetraece. e na área de atuação do Esplar. Paralelamente a esse processo. O discurso e a prática das ONGs integra-se com o discurso e a prática acadêmica no sentido de compor um grupo produtor de um discurso institucional sobre as trabalhadoras rurais demandando a sua inclusão no espaço público. política e econômica das mulheres brasileiras. São vozes competentes que instauram condições para a legitimação e reconhecimento público das mulheres e que vão também se estabelecendo para criarem um saber e uma prática junto a esse grupo. planejamento familiar e pobreza. numa constituição simultânea. outro foi acontecendo. Esse processo se remete a uma organização de mulheres nos sindicatos de trabalhadores rurais dos municípios de Madalena e Canindé. Em 1986 foi criado no Ceará o Movimento de Mulheres Trabalhadoras Rurais do Ceará. relacionava-se ao crescimento do feminismo e de uma consciência sobre as condições de desigualdade social. como efeito da organização das mulheres e dos trabalhadores rurais no interior da Central Única dos Trabalhadores (CUT). cuja visão de democracia envolvia a inclusão das mulheres e sua igualdade de direitos. de relações internacionais de cooperação entre mulheres. Discutia-se nesses encontros. Esses encontros se entenderam para Sobral e foram sendo ampliados para mulheres solteiras. cujo resultado vai ser a criação do Coletivo Estadual de Mulheres da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado do Ceará (Fetraece). que em 1990 já haviam formado uma Comissão de Mulheres. Bahia e outros Estados nordestinos. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). As assessoras do Cetra foram buscar referências de trabalhos com mulheres rurais e encontrou contatos na Paraíba e em Pernambuco. 04 a 10 de novembro de 2007. O Coletivo teve como território privilegiado as instâncias formais do movimento sindical rural. Esse aspecto institucional da construção das mulheres trabalhadoras rurais compreende também a formalização das suas próprias organizações específicas e de seu reconhecimento legal como trabalhadoras rurais.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG profissionais liberais residentes na região. ganha as eleições da Fetraece. A atuação das ONGs na formação das organizações de mulheres trabalhadoras rurais se dá num contexto mais amplo. Em 1992 o grupo de sindicalistas do DETR-CE. É no encontro entre si que se produzem.

142 - . como entende Ávila (2000) referenciando-se em Arendt (1998). mas com valor. inclusive pela hegemonia não se desfazem. Dessa maneira emergem no campo político e social brasileiro como um grupo organizado. Assim. pautados em relações sociais nas quais se inserem. de aparecer publicamente. que se exprime. ora em nome da classe. formando uma sobreposição de representações apoiadas em conjuntos diferenciados de relações sociais. por meio da campanha pela documentação Nenhuma trabalhadora rural sem documentos implementada em 1996. a primeira “descoberta” que fazem no movimento é de ser gente e ser trabalhadora (pobre). vivem experiências pessoais e coletivas que são base para sua identidade. significando que anunciam seu projeto. A identidade de mulher trabalhadora rural é uma autonomeação a partir de recursos que lhes permitem que se vejam naquilo que sabem de si. instituindo um lugar feminino no território do movimento sindical rural. Envolve sentimentos de pertença e diferenciação. Enquanto um momento marcante da construção da identidade a campanha Nenhuma trabalhadora rural sem documentos mostrou uma disputa permanente pela hegemonia 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). a segunda é de ser mulher também com valor. sendo uma estratégia importante de mobilização e conscientização interna e externa a esse grupo. as disputas. gênero e lugar. interpretada e narrada. Aparecer é estar presente no mundo e inscrever a sua diferença diante de outros. vivida. Como essa restauração não elimina. Essa campanha continua em curso. ora em nome do sexo. rompendo com uma situação de subordinação e com a fixidez de uma condição antes tida como destino. Na medida em que participam de um movimento e realizam suas manifestações públicas. afirmando seu direito a ter direitos. têm ação na esfera política e tornam-se interlocutoras como parte de conflitos. mas apenas legitima e oculta os conflitos. criando formas de representação e apresentação. É preciso que o Estado legitime a sua condição inscrevendo-as como trabalhadoras rurais nas suas instancias burocráticas. Em cena: construindo a existência pública Um movimento social não acontece apenas pela existência orgânica de um grupo. Essa experiência não se explica apenas pela posição estrutural de um grupo como algo que sempre esteve lá para ser descrita mas uma experiência historicizada e neste caso também produzida e exercida coletivamente. feita na medida em que faz as suas próprias agentes. Nessa identidade de mulher trabalhadora rural se articula classe. lutando por direitos e em busca de reconhecimento – fazemse sujeito político. Segundo depoimentos de algumas entrevistas.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Essa institucionalidade também envolve toda a luta das próprias trabalhadoras rurais que configuradas como categoria específica atuam em busca do seu reconhecimento profissional. Por meio dessa ruptura podem ter uma existência própria. mas também por sua capacidade de poder ser visto e ouvido por todos. a unidade é sempre um elemento que está sendo restaurado. . sobretudo. Ter essa inscrição e aposentar-se como tal é uma grande conquista para as mulheres trabalhadoras rurais. 04 a 10 de novembro de 2007. E assim encontramos a experiência singular das mulheres trabalhadoras rurais pela qual se fazem e se apresentam como tais. e cuja composição já supõe um conflito interno. Ser mulher trabalhadora rural significa sentir-se como tal.

lavradoras. seminários.” é preciso sentir-se e mostrar-se como tal. Para se dizer “sou uma mulher trabalhadora rural. internalizada e sentida de modo individuado –ou individualizante –e uma outra experiência que é objetivada. Os modos de fazer essa identidade se assentam numa pedagogia singular que prepara os cenários para uma sociabilidade. religiosas. As características dessa pedagogia se exprimem numa metodologia identificada desde a escolha das assessoras para realizarem o trabalho com mulheres. eventos ou manifestações públicas para as e das trabalhadoras rurais. não podem ser donas da verdade nem autoritárias. acadêmicas). Para tanto é preciso apreender-se como tal. Também nessa metodologia aprendem a se comunicar. em que cada uma vê a si e sente-se como uma mulher trabalhadora rural. Do que é possível perceber nos comportamentos das trabalhadoras rurais. compondo lugares importantes para a construção de identificações. quer em reuniões. que em geral são mulheres que devem saber ouvir. a identidade tem um aspecto de subjetivação e de objetivação que articula conflitos e heterogeneidades ao tempo em que funda uma integração e similaridades. atitudes e símbolos próprios. projetada nas condições sociais. Uma questão é se essa pedagogia faz uma política para as mulheres ou mulheres para a política. E encontramos no cotidiano dos movimentos de mulheres uma pedagogia que lhes permite uma nova sociabilidade e um novo sentimento de si. Essa apreensão requer condições sociohistóricas capazes de promover sentimentos e verdades. Sempre houve mulheres trabalhando e vivendo no campo. ONGs. Embora seja uma produção coletiva. camponesas. Não existe um trabalho com homens. cursos de formação. As diversidades e os conflitos são sempre recompostos em nome da unidade do movimento e dos interesses das mulheres trabalhadoras rurais. ser simples. certezas sobre si. O que existia antes (do movimento) era o cativeiro e a opressão.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG entre o Coletivo e o MMTR-CE e também entre as diversas entidades parceiras que integram a sua coordenação estadual (sindicais. políticas do grupo. 04 a 10 de novembro de 2007. Ao assim se dizerem. representa uma ruptura dessa situação. A formação de uma consciência de si torna–se processo integrante da construção da identidade social e pessoal. Poder falar e sair. As vivências no movimento social permitem refazer a percepção e a posição das mulheres no mundo que as cerca e dentro delas mesmas –e vão permitir a reinterpretação de conceitos. é fundamental que se sintam como tal. históricas. mulheres de produtores que não se diziam –e muitas não se dizem ainda. A experiência experiência no contexto da construção Construir-se como mulher trabalhadora rural envolve vivenciar uma experiência traspassada por mecanismos que promovem objetivações e subjetivações que formata e institui sentimentos. encontros. A construção da identidade desvela-se entre as trabalhadoras rurais como um processo que envolve ou articula uma experiência que é subjetivada.143 - . e se fazem capazes de autonomia escolhendo. não se reconhecem assim. a repassar o vivido e aprendido para outras companheiras. decidindo e participando. . ou nomearem-se. mulheres trabalhadoras rurais. a viver para si. ir a outros lugares. ter experiência em trabalho popular e uma visão política. há uma dimensão individual da construção identitária. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). mas sim um trabalho com mulheres. e é por este que se redefinem e se reposicionam as mulheres nas relações sociais como trabalhadoras e mulheres que têm valor – revêem a si e ao que fazem atribuindo significado e valor.

Esse trabalho com mulheres é um ativador da identidade de mulher trabalhadora rural ao estabelecer possibilidades de formação de uma consciência de si como sujeito capaz de autonomia. para retornar ampliando-se nas bases. e outras que existem entre facções internas ao próprio Coletivo. não desfaz as disputas internas pela hegemonia da categoria. Há uma alternância de hegemonia nas manifestações que essas organizações realizam. mas simbolicamente. Mas a presença das mulheres não se dá apenas fisicamente. do que uma característica ou condição interna. A política de cotas que vem sendo adotada no movimento sindical de trabalhadores rurais é um indicativo da estruturação de uma nova ordem de definição das posições de homens e mulheres na estrutura sindical. tanto as mulheres rurais como as assessoras se inscrevem num coletivo. a partir das quais cada uma estabelece suas práticas e suas posições. e a Comissão de Mulheres enfrenta a discriminação dentro de uma organização mista para estimular a igualdade de oportunidades em seu interior. Isso pôde ser observado na Fetraece pelo processo de estatutização do Coletivo no III Congresso Estadual de 1998 – quando de um órgão atrelado à Secretaria de Formação foi transformado em cargo da diretoria executiva. e o MSTR vem se designando oficialmente desde 2000. Artes de apresentar apresentar e representar Todo esse substrato comum. Os dois grupos vão se constituindo simultaneamente. mas se apresentam com homogeneidade e unidade. Muitas vezes aparece na fala das mulheres a expressão “ocupar espaços na estrutura sindical” referindo-se à inserção da presença feminina nas instâncias oficiais de representação política. Esse processo se apóia em organizações de base. 04 a 10 de novembro de 2007. Nesse circuito incessante. Nas manifestações públicas que realizam. O movimento de mulheres trabalhadores rurais ao fazer-se representante de uma categoria também realiza um trabalho de apresentação de modo a coincidir com as representadas. especialmente as que demarcam as atuações da Articulação Nacional das Mulheres Trabalhadoras Rurais – ANMTR e a Comissão de Mulheres da Contag – reproduzidas em nível estadual entre o Coletivo da Fetraece e o MMTR-CE.144 - . onde participam também outros agentes articuladores. construindo uma experiência particular –apropriando-se cada qual dos segredos de suas razões. . que são expressões concretas de uma inscrição institucional das mulheres se estendendo para as instâncias mais gerais. A ANMTR reivindica para si o compromisso com a inseparabilidade da luta de gênero e de classe. Por meio dessa metodologia reconstroem-se permanentemente em processos de reconhecimento dos quais participam vários grupos sociais –e nos quais se articulam a dimensão pessoal e social. As organizações específicas das mulheres na estrutura sindical e a sua presença física dão conta da ocupação de espaço – entendido como lugares exercidos. em suas identidades respectivas. inclusive com orçamento próprio.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Há um entrelaçamento de vivências entre as assessoras e as mulheres rurais. como movimento sindical dos trabalhadores e trabalhadoras rurais. como o 8 de Março e a Marcha das Margaridas as mulheres cuidam de sua própria aparência como: arrumação e embelezamento da aparência 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). as direções. dando conta da instituição de um lugar feminino. As manifestações realizadas pelas mulheres trabalhadoras rurais estão zoneadas por divergências políticas. embora coabitando alguns espaços sociais comuns. A unidade da categoria é mais uma estratégia política sofridamente construída e desejada.

relatórios. falam mesmo sem estarem certas. gesticulam. reivindicar e se experimentam sem medo de ser mulher. . não sabiam de nada. As músicas em geral são de autoria das próprias mulheres. depois do movimento. em que se experimentam como gente. o meio e o encerramento sempre dinamizando. ganharam fôlego. uso de símbolos e adereços de mulheres e de trabalhadoras rurais como flores e foices. sair de casa. 04 a 10 de novembro de 2007. riem… Quando as discussões se tornam longas e cansativas ou tensas canta-se para quebrar o ritmo pesado e restaurar a atenção. não tinham som. na música ela encontra a alegria e a simpatia do público e pode expressar qualquer sentimento “de uma maneira que o cara não tem como dizer não. e animam o início. músicas e fotos. não eram escutadas. tinham medo de falar. aglutinando e movimentando o grupo. A música introduz o lúdico e por meio dela exercitam um saber – dizer.” As fotografias são recorrentes e também se revelaram como uma fala. ouviram o próprio som. avaliações. saudações. filhos. mulheres trabalhadoras rurais. sem valor. São modos que articulam ritos. cada qual como falas apropriadas. As músicas estão presentes em todos os eventos. Um outro aspecto dessa sensibilidade pública pode ser encontrada em muitas histórias de luta pela terra. trabalhadora e mulher de valor que pode falar. Elegi as poesias. Nas poesias também se referem ao dia-a-dia de trabalho na roça. Com a música as mulheres se juntam. Estão presentes na bagagem das mulheres. falavam por elas. o trabalho no campo onde estão sempre carregando coisas 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). A música anima. Transformam o desqualificado e frágil feminino em força e eficácia política. eram escravizadas. tinham medo e não podiam. Os modos de falar dessas mulheres se manifestam por expressões que são definidas como modos típicos das trabalhadoras rurais fazerem política. As mulheres trabalhadoras rurais a partir dessas vivências vão construindo uma narrativa própria e temporal em que se referem a um antes do movimento. e uma flor bonita e terna. A análise de um conjunto de fotos de documentos produzidos pelos movimentos de mulheres trabalhadoras rurais mostrou a representação da vida delas. quando não falavam. mas há também de compositores e assessores. conflitos e comunicação. Nessa narrativa sobre a história delas no movimento.145 - . quando durante momentos de forte tensão as mulheres com suas crianças tomaram a frente de confrontos para impedir violências e agressões maiores. a conquista da fala é o demarcador de um novo tempo e uma possibilidade concreta pela qual podem contar a própria história. clamaram seus direitos. na luta e nas ruas. Margarida é o seu símbolo – uma mulher forte. que deu a vida pela luta. levantam das cadeiras. nos ambientes dos eventos.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG pessoal. fazem poesias e músicas. não ficam caladas quando não aceitam qualquer coisa. Para Nazaré Flor. dentro de um contexto de utilização freqüente de mensagens visuais. nos relatórios. registrando as histórias. celebra e incute valores e esperança.” Por essas formas de apresentação constroem uma sensibilidade pública utilizando estrategicamente alguns papéis e atributos tradicionais das mulheres – fragilidade. e um depois. tinham vergonha de falar. compositora e integrante do MMTR-CE. como um bloco: “Nós. da conquista de direitos e da felicidade. exprimindo a utopia da união. No tempo que era antes não tinham voz. folders. além de mobilizarem a imprensa e apresentarem-se unificadas. Criam e apresentam poesias para fazer abertura de eventos. falam do sonho da libertação. sensibilidade. no movimento. E nesse contar se reposicionam no mundo. em casa. cada qual com uma atribuição específica: As poesias fazem relatos. batem palmas.

Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG

– pedra, lata de água, filhos, trouxa de roupa; no Movimento estão em movimento,
relaxadas, brincando, viajando, conversando, falando. No Movimento elas se movimentam
e se fazem presentes no mundo.
Se toda fala é sempre de uma falta é isso o que elas mais querem, seus desejos. E essas
falas são emblemas do movimento de mulheres trabalhadoras rurais, expressando o
confronto entre uma forma de vida e um tempo que se encontram em situação de
transformação.

Marcas de mulheres no sindicalismo rural
Os movimentos de mulheres trabalhadoras rurais se situam no território do sindicalismo
rural, no qual estampam sua presença de diferentes maneiras, pelas quais pode se
acessar os pontos de inclusão das mulheres nesse espaço social. Em que pese o fato de
que as lutas das mulheres ainda são vistas como sendo coisas de mulher e não do
conjunto do movimento sindical, aos poucos aparecem situações em que o movimento
como um todo as assume como ocorreu com a Marcha das Margaridas e a Mobilização
Nacional ocorrida em 8 de março.
Os nexos entre as mulheres e o movimento sindical dos trabalhadores rurais construídos
por tantos gestos, passos, artes e falas se esboçam nos seguintes aspectos:
A legitimidade do movimento sindical está apoiada na inclusão das mulheres seja para
mostrar a capacidade e o compromisso das direções políticas de responder às questões
das mulheres, seja nomeando-se como seu representante, o que tem feito a inclusão do
termo trabalhadoras nas manifestações e na própria designação como movimento de
trabalhadores e trabalhadoras rurais. A participação das mulheres então pode ser
presencial e simbólica.
A ampliação da prática de uma mística política, baseada em valores éticos de justiça/diálogo/ternura, na inclusão de todos, numa visão integrada da pessoa, e na
solidariedade. É um momento de todos e o motor do entusiasmo que alimenta o
compromisso por símbolos e participação. As mulheres não dispensam a mística em seu
cotidiano político e a consolidam como prática no campo sindical, mais que o fazem os
homens.
A política de cotas adotada legalmente pelo sindicalismo tem se mostrado um mecanismo
eficiente como estratégia de ação positiva para colocar as mulheres e suas condições de
discriminação na pauta sindical, dando condições para a visibilidade e a participação
feminina. As cotas são efetivamente assumidas pelos setores mais politizados do
sindicalismo, as lideranças, em uma perspectiva de fortalecer o conjunto do movimento;
nas bases, ao nível dos sindicatos municipais podem não ser levadas em conta.
Por fim as dinâmicas de cantar, movimentar o corpo, enfeitar o ambiente, motivar, animar,
alegrar, brincar, rir, dançar, descontrair, ter momentos de confraternização e festa,
exposição e venda de produtos artesanais exprimem um conjunto de características mais
identificadas com a subjetividade, e muitas vezes com forte emocionalidade. No I
Encontro de Mulheres Dirigentes do Sindicalismo Rural-CE, o encerramento foi com muitos
abraços e choros entre assessoras, lideranças e participantes, que diziam: “Conseguimos!
As mulheres cearenses já estão marchando.” Nunca, em 20 anos de aproximação com o
sindicalismo, vi homem chorar por realizar um encontro ou reunião política. Há aqui uma

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vinculação entre subjetividade e cidadania em que a política aparece como lugar de uma
nova sociabilidade e de uma outra experiência subjetiva.
Assim as mulheres trabalhadoras rurais emergem como categoria sujeito político
construído, e não apenas como efeito de mudanças estruturais ou conseqüência natural
de uma tomada de consciência.
Por isso talvez cantem tanto:
Pra mudar a sociedade do jeito que a gente quer
Participando sem medo de ser mulher
Essa mudança enuncia um sujeito capaz de desejos e de sonhos.
Porque a luta não é só dos companheiros
Participando sem medo de ser mulher
Ter um desejo próprio é estabelecer processos de diferenciação e elaborar uma
identidade própria.
Pisando firme sem pedir nenhum segredo
Participando sem medo de ser mulher
Conquistar a existência social permite revelar-se, mostrar-se, apresentando-se e falando
em público sem medo de ser mulher trabalhadora rural.
Referências
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Fase, 2000. Março/Agosto, p.6-11.
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______. “A economia das trocas lingüísticas.” In: Ortiz, Renato. Pierre Bourdieu. São Paulo:
Ática, 1994.
______. O Poder simbólico. Lisboa: Difel, 1989
______.A dominação masculina. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1999
Castoriadis, Cornelius. A instituição imaginária da sociedade. 3.ed. Rio de Janeiro: Paz e
Terra, 1995.
Certeau, Michel de. A invenção do cotidiano. Artes de fazer. Rio de Janeiro: Vozes, 1996.
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Impasses. O feminismo como crítica da cultura. Rio de Janeiro: Rocco, 1994. p. 24-38.
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Scott, Joan W. Experiência. In: Silva, Alcione Leite da et al. (Orgs). Falas de Gênero. Santa
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Thompsom, E. P. A Miséria da teoria. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1981. FortalezaCE, 2005.

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POTENCIAL E LIMITE DAS DISPUTAS POLÍTICAS:
PONTOS PARA REFLEXÃO
REFLEXÃO

Sara Pimenta e Domingos Corcione - Agosto de 2006

Dirigentes e lideranças sindicais constroem projetos políticos ou se identificam com um
entre aqueles já existentes, assumindo sua defesa no cotidiano da vida sindical.
É comum a existência de projetos diferenciados em suas origens e concepções políticoideológicas. Isso resulta em disputas pela predominância e hegemonia de um sobre o
outro.
As disputas políticas não se limitam aos antagonismos entre trabalhadores e classes
dominantes, mas têm lugar no interior do próprio Movimento Sindical e entre este e outros
movimentos e organizações populares. Em muitos casos as disputas internas se tornam
de tal forma acirradas que geram rupturas e levam à criação de novas entidades e
movimentos. Mas há disputas “menores” - não menos importantes - que caracterizam o
cotidiano do MSTTR: disputas de idéias, de espaços, de reconhecimento, de protagonismo
e liderança. Afinal, disputas permanentes de poder.
A dimensão positiva das disputas políticas
As disputas podem ser vistas como elementos que integram a dinâmica política do MSTTR,
em sua dimensão positiva e construtiva, favorecendo a qualificação dos projetos políticos
e a aquisição - pelos dirigentes e lideranças - de maior habilidade na defesa de suas
posições.
A pluralidade ideológica e de posicionamento político confere um novo dinamismo à luta
sindical e aos processos de mudança, pois pode sinalizar o surgimento e a consolidação
de novas práticas. As posições são demarcadas de modo a assegurar os interesses
relacionados com o projeto defendido, colocando em destaque pontos divergentes,
conferindo maior clareza às idéias e facilitando a comunicação.
Idéias, posições e projetos, quando em disputa, ganham maior relevância, são
apresentados e defendidos na perspectiva de fazerem adeptos e construírem sua
hegemonia.
Todo esse processo promove fortes motivações para se avançar com maior garra,
perseguindo as estratégias necessárias para vencer as posições antagônicas ou
diferenciadas e conquistar novos espaços de poder.
Práticas a serem transformadas
Apesar dos aspectos positivos acima ressaltados, é preciso reconhecer que no campo das
disputas políticas ainda persistem posturas e atitudes equivocadas, que ferem a ética e
acabam por comprometer o avanço da organização sindical e a construção de projetos de
mudança social, tais como:

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frente a todas elas. Sem formação não há como qualificar a luta. 04 a 10 de novembro de 2007. portanto. a história. na escuta atenta das posições ou correntes adversárias. um seminário ou uma oficina podem contribuir muito para esclarecer idéias e projetos. para a reflexão mais aprofundada ou a capacitação.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG  Dificuldade de reconhecer o outro como um legítimo interlocutor e de construir um diálogo aberto. mesmo entre pessoas de uma mesma corrente político-ideológica. fazer repensar e aprimorar estratégias e métodos de trabalho. avaliar a caminhada. Um curso de formação. posicionamentos e pessoas que estejam defendendo posições ou projetos diferenciados. é fundamental reconhecer as próprias limitações e se dispor a rever posições. tem um grande rebatimento na ação mobilizadora e transformadora da luta sindical. como Seminários.  Utilização de palavras e gestos ofensivos. . o que demanda alguns compromissos como os abaixo relacionados:  Respeitar a pluralidade de concepções e idéias e buscar compreendê-las de modo a compor uma visão crítica e construtiva. Nessa perspectiva. Nesses espaços. como aquelas anteriormente citadas. reconhecendo-os em seu potencial catalisador de novas concepções e práticas. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). A ação formativa.  Tendência a forjar oportunidades para denegrir a imagem da posição adversária e – em certos casos – humilhar e desqualificar as pessoas que a defendem.  Refletir e aprofundar o debate. mas também tem contribuições a dar. Para isso se faz necessário uma postura aberta ao diferente e o exercício da escuta sempre atenta ao que a outra posição ou corrente tem a transmitir. As atividades de formação têm uma importância primordial na vida sindical. ocorrem debates. para identificar insuficiências e valores de cada posição. que implica.  Resgatar. que acabam por incorrer em desrespeito pessoal com quem esteja representando posições políticas diferenciadas ou adversárias. sobretudo. Forte tendência a distorcer o que se vê e se ouve e a evidenciar somente aquilo que se considera equivocado. explicitar o significado e prever os possíveis desdobramentos de cada concepção e prática. é preciso fazer das ações e atividades formativas espaços estratégicos. mais ou menos acirrados. que reproduzem posturas positivas ou equivocadas. voltados para o estudo. contraditório e incorreto no lado adversário. A formação como espaço estratégico para a construção de novas práticas As disputas. Oficinas ou Encontros de caráter formativo.  Dificuldade de identificar e reconhecer valores e aspectos positivos nas idéias. acontecem também nos “espaços de formação programada”. para que esse rebatimento tenha um impacto realmente positivo. pautando-se pelo estudo e pesquisa. em primeiro lugar.149 - . Cada prática ou concepção revela fragilidades. tão comuns no cotidiano sindical. Contudo.

ela pode ser positiva e dinamizadora da ação social transformadora. pois – reiteramos . primando por uma postura ética e respeitosa para com as pessoas e grupos. nas relações interpessoais. igualitária.  Tratar as disputas políticas como elementos constitutivos de um desafiador processo de construção de consensos.150 - . solidária e respeitosa das diferenças... Na medida em que nos dispormos a construir e assumir novas posturas e práticas para as quais os espaços de formação nos convocar.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG  Fazer da formação um campo profícuo de debates e oportunidades de aprendizado e aprimoramento das idéias e concepções ideológicas. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). de modo que isso nos faça crescer em todas as dimensões: na política. O desafio é conferir às nossas disputas uma dimensão mais humana e humanizadora. Uma disputa que nos aproxime cada vez mais da nova sociedade que queremos construir: justa. Portanto. certamente estaremos dando largos passos para transformar o cotidiano de nossas relações políticas no movimento sindical. . onde se conviva – ao mesmo tempo – na unidade e na diversidade. 04 a 10 de novembro de 2007. coerente com nossos sonhos e utopias. nas relações de gênero. não se trata de acabar com a disputa.

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