Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG

2º Módulo Regional Nordeste
Aracajú (SE), 04 a 10 de novembro de 2007.
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Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG

ÍNDICE SUMÁRIO

Textos

Página

01

Matriz Pedagógica do I Módulo do Curso de Formação de Educadores
e Educadoras em Concepção e Prática Sindical e em Metodologias

01

02

Herança de diferenciação e futuro de fragmentação
fragmentação
Tânia Bacelar

06

03

Ascensão e Queda do Coronelismo
Voltaire Schilling

31

04

Contexto e Diversidade das agriculturas Familiares no Nordeste semisemiárido
Patrick Caron e Eric Sabourin (organizadores)

40

05

Origem e papel dos sindicatos
Altamiro Borges

49

06

História do movimento sindical – Cartilha da CNTE

55

07

Concepções e correntes sindicais no Brasil
Amarildo Carvalho de Souza e Domingos Corcione

67

08

A historia das nossas raízes: itinerário das lutas dos trabalhadores (as)
rurais no Brasil e o surgimento do sindicalismo rural
Maria do Socorro Silva

83

09

Trajetória política da contag - as primeiras lutas

98

10

Participação das mulheres na luta dos trabalhadores e no movimento
sindical
Maria Valéria Junho Penna

111

11

A mulher e a emergência da
da seca no nordeste do Brasil
Izaura Rufino Fischer e Lígia Albuquerque

119

12

Muito trabalho e nenhum poder marcam as vidas das agricultoras
familiares
Taciana Gouveia

127

13

Margaridas nas ruas: As mulheres trabalhadoras rurais como categoria
política
Maria Dolores de Brito Mota

135

14

Potencial e limite das disputas políticas: pontos para reflexão
Sara Pimenta e Domingos Corcione

146

2º Módulo Regional Nordeste
Aracajú (SE), 04 a 10 de novembro de 2007.
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Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG

2°MÓDULO DO CURSO DE FORMAÇÃO DE EDUCADORES E EDUCADORAS EM CONCEPÇÃO, PRÁTICA SINDICAL E METODOLOGIA DA FORMAÇÃO.
(REGIÃO NORDESTE
ORDESTE)
Data: 04 a 10 de novembro de 2007
Local: Hotel Beira Mar
Endereço: AV. ROTARY S/N - ATALAIA VELHA, ARACAJU (SE), FONE / FAX: 79 - 21062106-8989

MATRIZ PEDAGÓGICA
Objetivo Geral:

Contribuir com a formação de militantes do MSTTR, de modo que aprimorem sua capacidade multiplicadora e
potencializadora da ação formativa em suas áreas de atuação.

Objetivos Específicos:



Socializar e aprofundar referenciais teóricos, políticos e ideológicos que fundamentam e alimentam os ideais e a luta
sindical e popular.
Re-avaliar e fortalecer a luta sindical, numa visão e ação sindical transformadoras, estimulando processos de mudanças de
atitudes, comportamentos e práticas individuais e coletivas, coerentes com as exigências de implementação do PADRSS.
Favorecer a experimentação, sistematização e apropriação de novas metodologias pedagógicas que realimentem a prática
formativa do movimento sindical.
Contribuir para a constituição de uma rede de formadores/as que assumam e implementem o projeto de formação do
MSTTR.

2º Módulo Regional Nordeste
Aracajú (SE), 04 a 10 de novembro de 2007.
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EIXOS PEDAGÓGICOS: PEDAGOGIA PARA UMA NOVA SOCIABILIDADE E MEMÓRIA E IDENTIDADE. Estado e politicas públicas. Objetivos Responsáveis Mística de acolhida Avançar no processo de integração do grupo. a identidade de grupos. Rede de educadores (as) TARDE Contexto e origem do sindicalismo no Brasil Brasil até o inicio da década de 30 Amarildo Carvalho – assessor Compreender a formação da classe trabalhadora no da CONTAG Brasil. relatoria e sistematização. Memória e Identidade – Perfil de militância Estabelecer a partir das identidades individuais. -4- . e motivação para militância. raça-etnia. mística e animação. acordos. 04 a 10 de novembro de 2007. NOITE Sessão de Cinema Exibição do Filme “VIDAS SECAS” 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). avaliação. Regional da CONTAG. sistemas de sociedade. tempo de movimento e fatos significativos. convidados Reafirmar os compromissos. geração. Observação: utilizar a linha do tempo como principal recurso pedagógico. Obs: agrupar por gênero.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG EIXO TEMÁTICO: HISTÓRIA. Dia 04 de novembro novembro de 2007 (Domingo) Período Tema e SubSub-temas. trabalho. organização e lutas. ReRe-apropriação do I Módulo Estimular uma releitura do I Módulo e a compreensão da inter-relação entre o I e II módulos (identidade. princípios e objetivos da ENFOC. Articular Rede de educadores (as) de com a mística do I Módulo (elementos da natureza) Sergipe e equipe ENFOC Abertura Política do II Curso Coordenação Política da ENFOC. ESTRUTURA E PRÁTICA SINDICAL. MANHÃ Roteiro. CONCEPÇÃO. comissões de trabalho. favorecendo a percepção de construção histórica tanto das concepções presentes na sociedade. quanto os fatos significativos vivenciados individual e coletivamente. diálogos pedagógicos) Comissões de trabalho: Organização e apoio.

Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Dia 05 de novembro de 2007 (Segunda Feira) Período Tema e SubSub-temas. temas.  Principais demandas e bandeiras de luta. . políticas. 04 a 10 de novembro de 2007. lutas e organização das entidades sindicais do MSTTR) Rede de educadores (as) Dia 06 06 de novembro novembro de 2007 (Terça (Terça Feira) Período MANHÃ E TARDE Tema e SubSub-temas. Objetivos Responsáveis Diálogos pedagógicos Reapropriação dos temas trabalhados nos dias anteriores Equipe ENFOC e Comissão de sistematização Memória da constituição e organização do MSTTR no nordeste (Apresentação das federações e exposição dialogada) Favorecer uma leitura critica da historia. Compreender o processo de organização e as principais bandeiras de luta das organizações nesse período Socorro Silva – colaboradora da ENFOC Memória da constituição e organização do MSTTR no nordeste Preparar as apresentações do Tempo Comunidade (história. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). explicitando: Socorro Silva – colaboradora da ENFOC  As formas anteriores de organização. Socorro Silva – colaboradora da ENFOC TARDE Formação da estrutura sindical oficial Organizações de de trabalhadores no campo brasileiro (das LIGAS Camponesas à ULTAB) Compreender o papel do Estado na organização sindical e nas relações capital e trabalho. econômicas e de lutas no Nordeste. Compreender as relações sociais.  Concepções e correntes políticas na fundação das FETAGs. -5- Comissão de Sistematização uma síntese das fará apresentações.  As mudanças na organização e bandeiras de luta das Federações até os dias atuais. organização e lutas das entidades do MSTTR. Objetivos Responsáveis MANHÃ Contexto regional até a década de 30.

haverá lançamento de filme sobre migração nordestina para o corte da cana em São Paulo – Professor Beto Novaes Dia 07 de novembro de 2007 (Quarta Feira) Período Tema e SubSub-temas Objetivos Responsáveis MANHÃ Diálogos pedagógicos: Leitura critica de duas importantes e estratégicas frentes lutas Memória das lut as dos assalariados e de luta no Nordeste: pela reforma agrária de finais da  Reforma Agrária década de 70 aos anos 80  Organização e Luta dos Assalariados/as. -6-  Raimunda Celestina Mascena – CONTAG de . raça e etnia. Testemunhos:  Rita – CUT/PB  Vanete Almeida – REDELAC Trazer as dimensões de classe. Moderação de Beto Novaes (luta dos assalariados assalariados na região) região) Comissões e equipe ENFOC TARDE Organização das centrais sindicais no Brasil e o dialogo com a CONTAG Testemunho de Francisco Urbano Filho – exex-presidente da CONTAG e José Carmo – Colaborador da FETASE Favorecer maior compreensão sobre a formação das centrais sindicais no inicio dos anos 80 e a participação da CONTAG nesse processo. 04 a 10 de novembro de 2007. Dia 08 de novembro de 2007 (Quinta Feira) Período Tema e SubSub-temas MANHÃ Livre TARDE Memória da Luta das mulheres trabalhadoras abalhadoras rurais no Nordeste. tr Objetivos Responsáveis Favorecer maior compreensão sobre a trajetória organizativa e de luta das mulheres trabalhadoras rurais nordestinas. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE).Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG No dia 06 (noite).

Visualizar o 2º Módulo na sua totalidade. 04 a 10 de novembro de 2007. Construir passos para a realização as atividades inter módulos e GES Equipe Equipe ENFOC Encaminhamentos Reapropriação do Módulo (linha do tempo) Discutir encaminhamentos dos próximos passos. Dia 10 de novembro novembro de 2007 (Sábado) Período MANHÃ MANHÃ Tema e SubSub-temas Diálogos Pedagógicos: Tempo Comunidade Objetivos Responsáveis Refletir sobre o tempo comunidade na estratégia da formação. comissões de avaliação e de sistematização. Amarildo Carvalho – assessor da CONTAG Refletir sobre princípios e estratégias da PNF do MSTTR. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE).Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Dia 09 de novembro de 2007 (Sexta Feira) Período Tema e SubSub-temas Diálogos Pedagógicos MANHÃ Objetivos Responsáveis Reapropriação dos temas trabalhados nos dias anteriores Equipe ENFOC e Comissão de Sistematização Manoel José dos Santos Presidente da CONTAG Memória da organização do MSTTR a Favorecer uma leitura critica sobre a trajetória do MSTTR de 1990 aos nossos dias. Diálogos Pedagógicos: Pedagógicos: Política Nacional de Formação (PNF) do MSTTR Resgatar o histórico da formação sindical do MSTTR e refletir sobre os princípios políticos do PADRSS enquanto referenciais dessa formação. -7- Equipe ENFOC. Estrutura e Prática Sindical Explicitar a importância do PADRSS enquanto referencia de mudanças na organização do MSTTR. . Avaliação / Encerramento Possibilitar uma reflexão avaliativa do 2º Módulo. partir de 1990 TARDE Reflexão sobre a organização e pratica sindical do MSTTR Manoel José dos Santos ontem e hoje Presidente da CONTAG Organização. considerando nexos e pontes para as etapas seguintes.

2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). 04 a 10 de novembro de 2007. com 46% da população rural brasileira. A pobreza.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Herança de diferenciação e futuro de fragmentação Tânia Bacelar de Araújo NESTE ARTIGO. a análise será feita com referência às diferenciações existentes dentro da própria região Nordeste. diferindo da classificação feita pela Sudene que inclui parte do estado de Minas Gerais (região polarizada de Montes Claros). continua a ser uma das características mais marcantes do Nordeste. observa-se o Nordeste do Brasil por sua economia. 1967). utilizando-se portanto dados globais referentes. 1993). porém. enfocando-se suas . Num segundo momento. Apresenta-se inicialmente sucinta descrição da dinâmica geral das atividades econômicas: a região será abordada em seu conjunto. Cabe destacar que na região residem 23. 14% da produção nacional total (medida pelo PIB). em sua grande maioria. Daí a questão posta no título do artigo: o rumo será o da fragmentação? Caracterização inicial Na região Nordeste (20% do território brasileiro) vivem 29% da população do país. O lento crescimento econômico. Concluir-se-á com uma reflexão sobre as tendências atuais da economia nordestina e os primeiros impactos da opção brasileira por uma inserção passiva no mercado mundial em globalização. com maior clareza. É um traço antigo que o dinamismo econômico das últimas décadas não conseguiu alterar significativamente. em 1990. especular-se-á sobre a hipótese do aprofundamento das diferenciações e desigualdades internas. O Nordeste aqui considerado congrega os estados que vão do Maranhão à Bahia. -8- . 12% da produção industrial e quase 21% da produção agrícola. dos 32 milhões de brasileiros indigentes. que durante muitas décadas caracterizou o ambiente econômico nordestino (GTDN. Finalmente. 17. Serão analisados ainda os movimentos de mercadorias e de capitais focalizando-se as décadas de 60. Esforço especial será dedicado à observação das mais importantes articulações econômicas regionais e sub-regionais. quase 46% estão no Nordeste (IPEA . assim. em suas tendências de ligações com o exterior e com as demais regiões do próprio Brasil. o Nordeste tem 63% dos indigentes brasileiros que vivem nas áreas rurais. como se verá a seguir. tendências atuais e perspectivas econômicas. Assim. 70 e 80.3 milhões estavam no Nordeste (55% do total nacional) e mais de 10 milhões residiam na zona rural da região. Levantamento recente do Instituto de Planejamento Econômico e Social – IPEA mostra que. Originam-se. então.5% da população urbana do Brasil e 46% de sua população rural. foi substituído pelo forte dinamismo de numerosas atividades que se desenvolveram recentemente na região. Dos indigentes urbanos do país. destacando-se os novos subespaços dinâmicos e os focos de resistência a mudanças. analisando-se ainda sua inserção nos contextos nacional e mundial. quando visto no contexto nacional.características principais. ao total regional. O Nordeste e seus subespaços serão percebidos. A heterogeneidade e a complexidade da dinâmica nordestina aparecerão. aproximadamente.

e entre 1965 e 1985 o PIB gerado no Nordeste cresceu (média de 6. 04 a 10 de novembro de 2007. particularmente) e com recursos próprios de importantes empresas locais. por investimentos de empresas estatais do porte da Petrobrás (na Bahia e Rio Grande do Norte) e da Vale do Rio Doce (no Maranhão). ano de seca. o velho setor primárioexportador implantado no Nordeste dava mostras de sua incapacidade para continuar impulsionando o desenvolvimento econômico regional.3% ao ano) mais que o do Japão no mesmo período (5. Usando dados que comparam o desempenho da economia brasileira no seu total com o de sua parte localizada no Nordeste. nacionais e multinacionais.9% para 58. Enquanto isso.4% para 18.3%. recém-criada.6 bilhões para US$ 50 bilhões (Araújo. o PIB do Nordeste quase sextuplicou.6% para 29. -9- . constatava ter sido o seu fraco dinamismo nas décadas anteriores a característica mais importante da base produtiva instalada na região. No total. verifica-se nítida melhoria nos indicadores de participação relativa dessa região na economia do país: entre 1960 e 1990 a participação no PIB aumentou de 13. que afetou consideravelmente a produção na zona semi-árida. a economia nordestina apresentou entre 1960 e 1990 um excelente desempenho. a indústria passou de 22. Coordenado por Celso Furtado no final dos anos 50. segundo dados da Sudene para o período. rompendo a fraca dinâmica preexistente. Enquanto a indústria comandava o crescimento econômico no Sudeste. 1996). 1992).5% ao ano). o relatório do Grupo de Trabalho para o Desenvolvimento do Nordeste (GTDN) que fundamentou a estratégia inicial de ação da Sudene. Tais investimentos tiveram importante papel para o posterior dinamismo dos investimentos nas atividades privadas. Entre 1967 e 1989 a agropecuária reduziu sua contribuição ao PIB regional de 27. No global. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Uma das propostas centrais do relatório do GTDN – como ficou conhecido aquele documento – era estimular a industrialização no Nordeste como forma de superar as dificuldades geradas pela velha base agroexportadora nordestina. as atividades urbanas – e dentro delas. entre 1960 e 1990. No início dos anos 60 a Sudene. e o setor terciário cresceu de 49. impulsionadas por incentivos fiscais – 34/18-Finor e isenção do imposto sobre a renda. tanto no setor industrial quanto no terciário. as atividades industriais – ganham crescentemente espaço no ambiente econômico do Nordeste e passam a comandar o crescimento da produção na região. tal percentual caiu para 12. o Nordeste foi a região que apresentou a mais elevada taxa média de crescimento do PIB no país. principalmente –.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Dinamismo econômico: uma herança recente Apesar de vista como região problema pela maior parte dos brasileiros. complementados com créditos públicos (do BNDES e BNB.1% (Sudene. passando de US$ 8. segundo estudo realizado por Maia Gomes (1991). Vários estudos recentes confirmam esse comportamento.9% e em 1990. nas décadas recentes.2% para 17.1%. A partir dos anos 60.6%. concentrou esforços e recursos federais na realização de estudos e pesquisas sobre a dotação de recursos naturais do Nordeste (em particular de recursos minerais) e na ampliação da oferta de infra-estrutura econômica (sobretudo transportes e energia elétrica). De 1960 a 1988 a economia nordestina suplantou a taxa de crescimento média do país em cerca de 10%.

Nordeste: mudanças no perfil produtivo Nas últimas décadas a região promoveu mudança importante na composição de sua produção. crise que afetou mais fortemente o setor industrial e. o que o ajuda a resistir aos efeitos da retração da demanda interna. destinando parte importante às exportações. as tendências gerais da economia brasileira. e nesse novo momento. verifica-se que a dinâmica regional tendeu a acompanhar as oscilações cíclicas da produção total do país. segundo dados da Sudene (1992) para o ano de 1990. Assim. os segmentos produtores de bens de capital e bens de consumo duráveis. tais segmentos não têm grande presença no tecido industrial do Nordeste. arroz. mamona. ambos para exportação. a indústria recentemente instalada no Nordeste resistiu melhor aos efeitos da desaceleração da economia brasileira. 04 a 10 de novembro de 2007. uma das teses centrais do GTDN ficou ultrapassada: não se verifica mais o fato de a economia do Nordeste ir mal. Naturalmente. em sua porção oeste. também o setor de serviços tem tido desempenho bastante razoável na região. Embora as taxas se diferenciem. Conforme dados da Sudene (1992). dentro dele. As atividades agropecuárias vêm perdendo peso relativo no PIB do Brasil e também no do Nordeste. quando visto no ambiente econômico nacional. implantou moderna agricultura de grãos e importantes pólos de fruticultura. por exemplo. apresentando taxas de crescimento anual positivas e superiores à média do país. E é justamente em função das particularidades das estruturas produtivas de cada região brasileira que o Nordeste foi menos atingido pela crise dos anos 80. apesar de suas especificidades locais. também nesse ponto. laranja e milho. enquanto o Centro-Sul vai bem. O movimento de integração econômica comandado pelo processo de acumulação de capitais do Brasil nas últimas décadas havia atingido o Nordeste e solidarizado sua dinâmica econômica às tendências gerais da economia nacional. enquanto se reduzia a área cultivada com algodão. Paralelamente. Sob tal perspectiva. No entanto. A integração produtiva articulara a dinâmica econômica nas diversas regiões brasileiras. expandia-se a que era ocupada com cana-de-açúcar. mandioca e sisal. podendo localizadamente melhor enfrentar a crise nacional. feijão. Permaneceram diferenciações importantes. apresentaram peso crescente na produção regional: 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). as tendências são semelhantes. como ressaltaram em seus estudos Oliveira (1990) e Guimarães Neto (1989). a integração econômica não homogeneizou as estruturas produtivas das diferentes regiões do país. no perfil produtivo da agropecuária nordestina: a partir dos anos 70. a indústria tornou-se relativamente mais importante no total da produção brasileira (34%. . às margens do submédio São Francisco e no vale do Açu (RN). especialmente a partir da segunda metade dos anos 80. o Nordeste continua sendo relativamente mais importante como região produtora agropecuária (20% do total nacional) do que industrial (12%) ou terciária (15%). Ora. Dessa forma. ao especializar-se mais na produção de bens intermediários. com as atividades urbanas avançando mais nos dois casos.10 - . Ao mesmo tempo algumas culturas não-tradicionais na região. por seu valor de mercado relativamente alto. em 1990) do que no Nordeste (30%). Mudanças ocorreram.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Cabe salientar que quando se compara o desempenho das atividades econômicas do Nordeste com a média nacional. Acompanha.

salvo em casos como o das frutas tropicais. em 1970. a partir da estratégia definida no II Plano Nacional de Desenvolvimento (II PND). passando de 13% do total nacional em 1970 para 17% em 1985 (superior à sua participação no PIB brasileiro). Nos anos 70. Como o movimento de desconcentração busca também utilizar recursos naturais disponíveis nas diversas regiões do país. quando o Estado brasileiro. o Nordeste engata na dinâmica nacional. Oliveira. A nova base agrícola da região também tem a vocação para ofertar produtos cujo beneficiamento se dará fora do Nordeste ou até do país. realizou importante programa de investimentos públicos e com ele sustentou a dinâmica da economia nacional num contexto internacional de crise. com parte do projeto localizado no Maranhão. a implantação do pólo petroquímico de Camaçari. principalmente). como anteriormente ressaltado. Tais produtos representavam. nos anos em que a economia brasileira consolida o mercado interno nacional e promove sua integração produtiva. capitais privados buscam novas frentes de investimento em espaços localizados para além do centro mais industrializado do país – o Sudeste. uva (nas áreas irrigadas pelo São Francisco e Açu). Nessa fase. o perfil industrial do Nordeste mudou significativamente com a perda da posição relativa da indústria de bens não-duráveis de consumo e com o crescimento relativo do segmento voltado à produção de bens-intermediários. quando se examinarem os focos de modernidade surgidos na região nas últimas décadas. e a Companhia Vale do Rio Doce implementou o complexo de Carajás. o Nordeste também se incluiu nessa tendência quando a Petrobrás comandou.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG é o caso de frutas como melão. café e soja (em áreas favoráveis do São Francisco. Por outro lado. o Nordeste comparece abrigando alguns pólos importantes de desenvolvimento agroindustrial e industrial.5% em 1989 (Congresso Nacional. 04 a 10 de novembro de 2007. que inclui investimentos da administração pública e das empresas do governo. abacaxi (em manchas favoráveis do sertão e agreste) além de tomate.11 - . Nesse contexto. do complexo da Salgema em Alagoas. no Maranhão. do Agreste e do Cerrado. Fundaj. vai se transformando nos anos pós-60 em região industrial mais especializada em bens intermediários (Araújo. que serão analisados com detalhes adiante. melancia. A indústria. transformada em vinho também no Nordeste. . processada por agroindústrias instaladas na região. com destaque para a instalação do pólo petroquímico de Camaçari. na Bahia. coube ao Nordeste assumir novo papel no contexto da divisão inter-regional do trabalho do país. contabilizada pelo IBGE/FGV. da uva. na Bahia. além do pólo de fertilizantes de Sergipe. dentre outros. Verifica-se a desconcentração da atividade produtiva. enviadas in natura para o mercado consumidor externo. No total da formação bruta de capital fixo. crescendo para 13. e do complexo minero-metalúrgico. apenas 3% do valor da produção agrícola do Nordeste. respectivamente). 1981). 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). 1992). No caso da indústria. manga. 1990. Merecem também referência os investimentos do sistema Eletrobrás. ou da soja. 1993). da produção de alumínio no Maranhão. financiada pelos incentivos da Sudene. demonstra tal perfil: foram os segmentos produtores de insumos que receberam a maior parte dos recursos provenientes do sistema 34/18-Finor. Esse movimento atinge também o Nordeste (Guimarães Neto. 1990. inclusive da atividade industrial. De tradicional região produtora de bens de consumo não-duráveis (têxtil e alimentar. verifica-se a posição do Nordeste como região recebedora de recursos.

produzindo. certas especificidades importantes. Guardam. na maioria delas. o Nordeste tendeu a reproduzir tal padrão. no entanto. até mais que no Brasil. Como se observa do exposto.5 bilhão. . o estado da Bahia merece referência especial não só por ter acompanhado o padrão nacional. maior peso na formação bruta de capital fixo total do que na média nacional. É evidente que o Estado patrocinou fortemente o crescimento econômico nas diversas regiões brasileiras. Investindo. em 1990 respondia pela metade do valor exportado pela região. no geral. serviços comunitários sociais e pessoais. o investimento público foi fundamental. as atividades econômicas do Nordeste tendem. porém. foi o setor público quem puxou o crescimento das atividades econômicas que mais se expandiram na região nos anos 70 e 80. Dentro dele. 04 a 10 de novembro de 2007. No que se refere às atividades de intermediação financeira. Enquanto nos anos 70 e 80 a economia da região cresceu em média 7. O Nordeste também produziu mais para o exterior. para US$ 3 bilhões. mais que as quadruplicando: passam de US$ 7. A heterogeneidade econômica intraintra-regional Deve-se ressaltar que nunca houve um Nordeste economicamente homogêneo e que. triplicando seu valor exportado (de US$ 525 milhões para US$ 1. Entre 1975 e 1990 o Brasil expandiu suas exportações. em 1975. pode-se afirmar que sua presença foi fator fundamental para explicar a intensidade e os rumos do crescimento econômico ocorrido nas últimas décadas. em virtude de variados processos de ocupação humana e econômica : 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). mas por aumentar sua já predominante importância no total vendido pela região no mercado internacional: em 1975.5 bilhão). No Nordeste. a acompanhar bem de perto as principais tendências da economia brasileira. houve excepcional crescimento no Nordeste nas décadas recentes. algumas das quais aparecerão com destaque em outros tópicos deste trabalho. sua economia gerava um terço das exportações nordestinas. o Estado se fazia presente com grande intensidade na promoção do crescimento da economia nordestina. criando infra-estrutura econômica e social. atividades como bens imóveis e serviços às empresas. nos anos 80.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Finalmente. como contabiliza a Sudene (1992). Uma das características importantes da economia do Nordeste é o relevante papel desempenhado nos anos recentes pelo setor público. produção de energia elétrica e abastecimento de água. a tendência à perda de importância dos produtos básicos e ao maior crescimento dos bens manufaturados no valor exportado também se verificou nesse período. a atividade de intermediação financeira crescia. quando a crise se aprofundou excluindo de seus efeitos negativos as atividades de intermediação financeira e os segmentos voltados para a exportação.12 - .6% ao ano. No Nordeste. atividades financeiras. destacaram-se como atividades muito dinâmicas e. era possível destacar subconjuntos sócio-econômicos diferenciados. No Nordeste também se observou a mesma tendência. o setor público tem. expandiram-se na proporção de 10% ao ano. bens imóveis e serviços às empresas. Segundo dados da Sudene (1992). no Nordeste. Enquanto a economia brasileira desacelerava.1 bilhões.6 bilhões de vendas anuais para US$ 31. historicamente. Aliás. as atividades financeiras. Direta ou indiretamente. que passou de US$ 1. duplicando seu valor exportado. incentivando. em 1990.

a crescente heterogeneidade de suas estruturas econômicas. importantes movimentos da economia brasileira tiveram fortes repercussões na região Nordeste nos anos recentes. além do pólo agroindustrial de Petrolina-Juazeiro (com base na agricultura irrigada do submédio São 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). O oeste baiano era um vazio econômico.. • o Nordeste de Sergipe e Bahia. onde desde cedo se desenvolveu uma burguesia banqueira. cabe destaque para o complexo petroquímico de Camaçari. caracterizado pela Fundação IBGE durante certo tempo como integrante da região Leste. 1978) e até o final dos anos 50 visto como área aberta à expansão da fronteira agrícola regional (GTDN. Revelam parte da verdade sobre a realidade econômica e social nordestina. ora como pólos dinâmicos. a cana. questionando inclusive visões tradicionalmente consagradas sobre a região. onde o complexo gado-algodão-agricultura de alimentos conformava uma oligarquia sertaneja que se expandia na acumulação comercial e não existia o complexo canavieiro. Tendências da acumulação privada reforçadas pela ação estatal. • dele já se distinguia o Ceará. até décadas recentes.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG • o Nordeste que se estendia do Rio Grande do Norte até Alagoas. como já o fizemos. 1967). Essas são apenas visões parciais sobre a região nos dias presentes. era comandado por Salvador. focos de dinamismo em grande parte responsáveis pelo desempenho relativamente positivo apresentado pelas atividades econômicas na região. a percepção da realidade econômica nordestina exige análise mais detalhada. que convivem atualmente com as tradicionais áreas agrícolas ou agropastoris da região. Embora traços gerais possam ser identificados. o pólo têxtil e de confecções de Fortaleza. É o que se tentará fazer no próximo tópico do trabalho. mais conhecido como espaço de transição entre o Nordeste seco e a região amazônica. ora como manchas ou focos de dinamismo e até como enclaves. era chamado por alguns estudiosos de meioNorte (Melo. verdadeiro poço sem fundo em que as tradicionais políticas compensatórias de caráter assistencialista só contribuem para consolidar velhas estruturas sócio-econômicas e políticas perpetuadoras da miséria. Tais estruturas são tratadas na literatura especializada ora como frentes de expansão. • o Nordeste do Piauí e Maranhão. Nas últimas décadas mudanças importantes remodelaram a realidade econômica nordestina. Não refletem a atual e crescente complexidade da realidade econômica regional e não permitem desvendar uma das mais marcantes características do Nordeste atual: a grande diversidade. onde a economia açucareira e a pecuária gestavam poderosas oligarquias e incipiente burguesia industrial. Nesse sentido. Áreas dinâmicas de modernização intensa Como vem se tentando demonstrar ao longo deste texto. é mister ressaltar os novos focos de dinamismo da economia regional. o complexo minerometalúrgico de Carajás. o cacau e as zonas de combinações agrícolas sertanejas eram predominantes. Nordeste região problema.13 - . Dentre eles. no que se refere a atividades industriais. Uma análise que perceba as diferentes trajetórias econômicas dos diversos subespaços nordestinos.. fizeram surgir e se desenvolver no Nordeste diversos subespaços dotados de estruturas econômicas modernas e ativas. e mesmo demográfico. mas não apreendem os fatos novos dos anos mais recentes. No campo. Nordeste da seca e da miséria. cidade portuária e mercantil. 04 a 10 de novembro de 2007. . Nordeste sempre ávido por verbas públicas. quando não comandadas pelo Estado brasileiro.

do moderno pólo de fruticultura do Rio Grande do Norte (com base na agricultura irrigada do Vale do Açu). contribuindo também para a elevação das exportações do estado. nos efeitos para a frente conta-se com a perspectiva da instalação de pequenas e médias malharias que se beneficiariam das fiações já existentes. o pólo cearense reunia cerca de três mil empresas.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Francisco).5 bilhões e. por sua vez. sendo de 32. 1993). tentou melhor identificar essas áreas. dado que nesses segmentos existe uma defasagem tecnológica a ser superada. Em 1991. A abertura comercial pode ter implicações negativas sobre a tecelagem e as confecções. o sul dos estados do Maranhão e do Piauí). O parque têxtil e de confecções de Fortaleza é competitivo nacionalmente e. das áreas de moderna agricultura de grãos (que se estendem dos cerrados baianos atingindo. vale registrar que em 1990 o pólo petroquímico de Camaçari contribuiu com 13. com o programa de ampliação previsto.6% da receita tributária do estado da Bahia. constitui um dos principais pilares da crescente importância da produção de bens intermediários no Nordeste. como descrevem Lima e Katz (1993). 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). enquanto os ligados à confecção passavam de 152 para 850. bem como para o crescimento de unidades fornecedoras de aviamentos e linhas (cerca de 80% destes são comprados fora) (Lima & Katz. da UFPE. em virtude de sua atualização tecnológica. O pólo petroquímico de Camaçari. para quase 30% do PIB estadual em 1990). mais recentemente. 1993). O pólo têxtil e de confecções de Fortaleza. em 1960. o pólo de Camaçari representa hoje uma possível base para a esperada verticalização da matriz industrial da petroquímica regional. devido à drástica diminuição na produção de algodão no Nordeste. gerava 60 mil empregos diretos e era responsável por 12% do ICMS do Ceará (Lima & Katz. Menos por seu dinamismo e mais pelo fato de desenvolverem modernas atividades de base tecnológica. Embora as repercussões esperadas fossem maiores. O encadeamento do pólo cearense com a base agrícola da região é reduzido. 1993). . contando com fontes de financiamento diversas. há espaços para um reforço do setor de tecelagem (60% dos tecidos são adquiridos fora do estado). e dos diversos pólos turísticos implantados nas principais cidades litorâneas do Nordeste.14 - .8% o seu peso na receita do ICMS gerado pela indústria de transformação. segundo o Sindicato da Indústria de Confecções do Ceará. concorreu para alterar estruturalmente a economia baiana (aumentando o peso do setor secundário de 12%. importou em investimento total de cerca de US$ 4. Implementado ao longo dos anos 70. Entre 1970 e 1985 o número de estabelecimentos têxteis do Ceará cresceu de 155 para 358. 04 a 10 de novembro de 2007. merecem referência ainda os tecnopólos de Campina Grande (PB) e do Recife (PE). no caso da fiação. caracterizando-as e analisando seus novos impactos e suas perspectivas de expansão (Lima & Katz. chegará a US$ 6 bilhões. Pesquisa recente realizada pelos professores Policarpo Lima e Frederico Katz. Esse complexo industrial foi viabilizado com a participação de capitais privados nacionais e multinacionais e com o suporte estatal (Petrobrás). desponta como um dos importantes centros do setor. Contudo. internacionalmente. Além disso. No que se refere ao segmento das confecções. Quanto aos seus impactos. o que já vem sendo estimulado por empresários ligados ao setor. tanto em âmbito regional como nacional.

1993). uma vez que montou a maior parte da infra-estrutura de captação e distribuição de água. Além disso. Em função desses investimentos. a Alumar é responsável por significativo fluxo mensal de rendimentos. O projeto criou 4. produção estimada em 420 mil toneladas/ano. que tem a CVRD como sócio. implantada na área por agricultores do Sul do país.8%. da energia elétrica de Tucuruí. 04 a 10 de novembro de 2007. após avanços tecnológicos que viabilizaram o cultivo do produto nos cerrados. a Estrada de Ferro Carajás (EFC) integrou-as ao circuito da produção mercantil e contribuiu para dinamizar o pólo agrícola do sul do Maranhão. instalaram-se na área diversas plantas industriais de ramos variados: processamento de alimentos. além dos serviços de manutenção refletidos nos empregos indiretos. destina-se a produzir celulose.15 - . implantando a infra-estrutura para exploração-exportação de minério de ferro. Nessa época. A expansão da economia do oeste da Bahia está associada à introdução e à rápida expansão da soja. mesmo. 1993).200 empregos indiretos (Lima & Katz. estimando-se em 1. tendo ainda articulações a montante via absorção de bauxita do rio Trombetas. além de cerca de 3. quanto ao processamento local em plantas industriais. Trata-se de uma associação de várias empresas. Tiveram importante papel 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE).100 empregos diretos. a presença do Estado foi fundamental. O projeto da Alumar também tem grande peso atualmente na indústria maranhense. As articulações pelo uso do alumínio são reduzidas. materiais de construção. na economia de São Luiz. De forma semelhante ao caso da CVRD.2 bilhão. de soda cáustica de Alagoas. Enquanto eram incorporados à agricultura cerca de 56 mil hectares. O projeto Celmar. com base na implantação de grandes projetos de irrigação. tendo o produto da indústria ampliado sua participação no total estadual de 14. Cortando regiões anteriormente isoladas. e mais três mil no reflorestamento. Para a montagem desse pólo. Ao mesmo tempo deu-se a implantação de grandes projetos de médias empresas nacionais e. embalagens. de cal do Ceará.220 os indiretos. 1990). fertilizantes e rações (Lima & Katz. . destinados tanto à venda in natura para o mercados de maior poder aquisitivo. equipamentos para irrigação. bens de capital. impactos importantes já se notavam nos anos 80: o PIB total do estado aumentou de US$ 2 bilhões em 1980 para US$ 3 bilhões em 1987. gerando diretamente 800 empregos. 1993). externo inclusive. O complexo agroindustrial de Petrolina-Juazeiro surgiu nos anos 70. o setor industrial gerava cerca de 24 mil empregos (Galvão.3% para 21. Também neste caso. já que são exportados 95% do produto (Lima & Katz. As áreas de moderna agricultura de grãos se estendem dos cerrados do oeste baiano ao sul do Maranhão e do Piauí. que resultou em projeto de investimento da ordem de US$ 2 bilhões para a produção de três milhões de toneladas/ano de alumina e 500 mil de alumínio. onde a produção de soja se expande. pelo menos para os padrões locais. Constatou-se o cultivo cada vez maior de produtos de elevado valor comercial. internacionais. a Estrada de Ferro Carajás ajudou a dinamizar a instalação de usinas de ferrogusa e de ferroliga ao longo de sua extensão. em Imperatriz.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG O complexo minero-metalúrgico do Maranhão está associado aos desdobramentos do Programa Grande Carajás (PGC) e ao interesse do capital multinacional em diversificar suas fontes de abastecimento de matérias-primas. a Companhia Vale do Rio Doce (CVRD) desempenhou um dos papéis principais. gerando na fase atual um milhão de toneladas de alumina e 350 mil de alumínio. com investimentos de US$ 1.

. a área plantada com soja expandiu-se 143 vezes e a produção em 848 vezes. Nos anos 90. No caso do semi-árido. O pólo de fruticultura do Vale Açu (RN) cresceu comandado por grandes empresas (com destaque para a Maísa). especialmente soja (460 mil toneladas). 04 a 10 de novembro de 2007. frigorificação de carnes. canavieiras e o sertão semi-árido são as principais e históricas áreas com tal característica. Pelo exposto. 1990) e os investimentos públicos em infraestrutura. Com a soja. Nelas despontam atividades como avicultura. Para o processamento da significativa produção de soja. Mas o crescimento se fez com base na incorporação de terras (a área cultivada rapidamente duplica). em outras áreas a resistência à mudança permanece sendo a marca principal do ambiente socio-econômico: as zonas cacaueiras. uma vez que a pecuária sempre foi atividade privativa dos grandes proprietários locais. Nos anos mais recentes a produção de grãos vem crescendo bastante (em 1992. produziu-se no Piauí e em Tocantins cerca de um milhão de toneladas). pode-se inferir que as mencionadas áreas são pontos de intenso dinamismo econômico implantados no território nordestino. feijão e mandioca). Essas áreas não conhecem crise ou recessão. esses pequenos produtores são obrigados a levar ao mercado o reduzido excedente da agricultura alimentar tradicional de sequeiro (milho. mais do que na elevação dos padrões de produtividade. Quando ocorre. Entre 1980/81 e 1985/86. constituem um Nordeste que não existia há poucas décadas. implanta-se na região todo um conjunto de atividades e práticas ligadas à agricultura moderna.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG os subsídios governamentais (Galvão. a modernização é restrita. seletiva.16 - . impulsionadas pelo Proálcool. calcário) e de equipamentos próprios para a agricultura. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). mais recentemente. as políticas associadas ao Plano Real) contribuiu para tornar ainda mais difícil e frágil a sobrevivência do imenso contingente populacional que habita os espaços dominados pelo complexo pecuária-agricultura de sequeiro. Na ausência do produto. que se especializam na exportação. o que ajuda a manter um padrão dominantemente tradicional. As zonas canavieiras expandiram-se muito nos anos 70. suinocultura. no padrão tecnológico e empresarial da indústria têxtil modernizada na região e. Começam a se desenvolver também atividades de produção de insumos (fertilizantes. diversas usinas são paralisadas. enquanto crescia também a produção de arroz. A produção também se estende para o sul do Maranhão. No início da atual década (safra de 1991/92) foram produzidas 800 mil toneladas de grãos no oeste da Bahia. arroz e feijão. As potencialidades agrícolas e minerais reveladas na região com grande evidência. milho. No arranjo organizacional local. foram instaladas no município de Barreiras duas plantas industriais. Áreas tradicionais Ao mesmo tempo em que diversos subespaços do Nordeste desenvolvem atividades modernas. o algodão era a principal (embora reduzida) fonte de renda dos pequenos produtores e trabalhadores rurais desses espaços nordestinos. Uma nova vaga de centralização de capitais promete deixar vivas apenas as menos resistentes à mudança. a crise do algodão (com a presença do bicudo e as alterações na demanda. com a crise financeira do Estado (velho protetor da ineficiência) e a intensificação da concorrência.

Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Não é sem razão que nos momentos de irregularidade de chuvas ocorridos nos anos recentes. Simultaneamente. não houve mudanças significativas. além de provocar outros consideráveis efeitos. em geral. mas permanente) a muitas famílias sertanejas. Como a estratégia brasileira das últimas décadas foi concentrar a expansão da agropecuária em áreas novas (especialmente no Centro-Oeste). "o capim expulsa a policultura alimentar e o gado tange o homem". a resistência à mudança convive na fase mais recente com importante queda nos preços internacionais do cacau. a questão fundiária agravou-se (Graziano da Silva. com freqüência. Na Zona da Mata. No semi-árido. portanto. Na lúcida afirmação do geógrafo Mário Lacerda de Melo (1980). tiveram impactos negativos. As oligarquias nordestinas. inclusive da estrutura fundiária. cabe destacar que são áreas de ocupação antiga. são incapazes de dispor de reservas para enfrentar um ano seco. 04 a 10 de novembro de 2007. apresentada ao país como desnecessária em muitos fóruns (inclusive nos acadêmicos) com base no sucesso da ocupação de novas terras.1 milhões de pessoas em 1993).17 - . Primeiro. . A questão fundiária é mais dramática e vem se agravando. mas não conseguem acumular: descapitalizados ao final de cada ciclo produtivo. e as que aconteceram. o processo de concentração fundiária tem aumentado nos anos recentes. as tradicionais frentes de emergência (como são chamados os programas assistenciais do governo) alistam enorme número de agricultores (2. pequenos proprietários inviabilizados vendem suas terras a baixos preços e os latifúndios crescem". aprofundando a crise na subregião. os velhos sustentam os jovens nessa parte do Nordeste. Em algumas sub-regiões (como no sertão pernambucano) a maconha tem avançado bastante. no Nordeste também se assistiu a um grande dinamismo agropecuário e agroindustrial no oeste baiano e no sul do Maranhão e do Piauí. em áreas da antiga fronteira agrícola da região. por exemplo. portanto. os incentivos à pecuária fortaleceram e modernizaram tal atividade. proprietárias das áreas de antiga ocupação e sempre bem situadas nas estruturas de poder. como o desaparecimento da cultura do algodão. Crise ainda sem solução nos anos 90. apesar da miséria alarmante que domina nas áreas rurais do 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Na região cacaueira. e o monopólio da cana sobre as áreas cultiváveis se amplia. A hegemonia crescente da pecuária nos moldes em que foi realizada agravou a questão fundiária do Nordeste. Mesmo onde a irrigação introduziu uma agricultura moderna no semi-árido. cobrindo parte da população idosa e assegurando renda (mínima. como a redução da produção de alimentos e a intensificação da emigração rural. E. após tantos anos de dinamismo econômico. como bem explica Andrade (1988). continuavam a beneficiar-se dessa opção conservadora. nos anos de chuva regular. das secas. Nas áreas em que predominam a rigidez das velhas estruturas econômico-sociais e o domínio político das oligarquias tradicionais da região. a questão fundiária permanece praticamente intocada. nas quais as velhas estruturas foram criando sucessivos mecanismos de preservação. Nos anos 60 e seguintes a proposta da reforma agrária foi abandonada na prática pelos sucessivos governos militares e civis. gerando renda ilegal mas capaz de compensar o desaparecimento da renda do algodão. rendeiros e parceiros produzem. Nessas áreas. 1989). a modernização foi conservadora. cita-se a extensão da ação previdenciária. A base técnica modernizou-se. os pequenos produtores. De positivo. também verifica-se o agravamento da já elevada concentração das terras em mãos de pouquíssimos produtores: "na seca. Nesse quadro. que sempre foi a principal da unidade produtiva típica do sertão e do agreste nordestino. há importantes traços comuns. Hoje.

mais particularmente com o Sudeste. como já mencionado. Dos serviços que usa. que "a desigualdade da posse da terra é maior que a da propriedade. 17% são produzidas no Sudeste (dois terços em São 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). tanto no Nordeste como no Brasil. essa participação caiu para 28%. Em 1970 os estabelecimentos com menos de 100 hectares (94% do total) ocupavam quase 30% da área. 04 a 10 de novembro de 2007. Segundo o Mapa da Fome feito recentemente pelo IPEA. Estudo da Universidade Estadual de Campinas – Unicamp destaca.4% do total) aumentaram sua participação na área total. muitas vezes registradas como imóveis distintos para evitar seu enquadramento como latifúndio por dimensão" (Graziano da Silva. por exemplo). 1989).Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Nordeste. Nesses espaços resistentes a mudanças. Na zona semi-árida. sendo a diferença relativa maior no Nordeste. as velhas estruturas sócioeconômicas e políticas têm na base fundiária e no controle do acesso à água seus principais pilares de sustentação e de dominação (política e econômica). instalado a partir dos anos 60 com o apoio dos incentivos federais. em 1985) é superior ao tamanho médio desses no resto do Nordeste (1. no sentido de elevar a desigualdade da distribuição. aqueles com mais de mil hectares (0. Ao mesmo tempo. No semi-árido o acesso à terra é feito por formas precárias (parceria. da qual adquire 66% das matérias-primas e 58% dos serviços que consome. A recente especialização nos bens intermediários reforça essa ligação. Do ponto de vista da origem dos insumos que transforma no processo produtivo e dos serviços que utiliza. 1989). mantém estreitas articulações econômicas com outras regiões brasileiras. Os dados confirmam que a concentração fundiária aumentou no Nordeste nas últimas décadas. .914 hectares. a área total ampliou-se de 74 milhões de hectares para 92 milhões de hectares. Mas o novo parque industrial desenvolveu também importante fluxo de aquisição de serviços e insumos com o Sudeste (em especial com São Paulo). dois terços dos indigentes rurais do país estão no Nordeste. de acordo com os censos agropecuários realizados pela Fundação IBGE. há forte relação com a base econômica nordestina. onde se reproduz a estrutura desigual do resto do Nordeste. um caso ilustrativo é o de grandes fazendas que reúnem áreas de posse e áreas de diferentes escrituras. Novas articulações econômicas do Nordeste Busca-se examinar neste tópico as articulações econômicas estabelecidas entre Nordeste. Ligações econômicas do novo parque industrial O novo parque industrial.18 - .002 hectares). passando de 27% em 1970 para 32% em 1985. das matérias-primas que processa. Esse fato reforça a hipótese de que as formas peculiares de exploração da terra no Nordeste lhe conferem uma estrutura de posse da terra diferenciada da existente na média do Brasil. em 1985. 40% vêm do Sudeste (90% desses de São Paulo). Nesse período. para o mesmo período. a situação é agravada pela presença de latifúndios maiores: lá a área média de 1% dos maiores estabelecimentos (1. outras macrorregiões brasileiras e o resto do mundo. Nesse contexto. caracterizando maior instabilidade e registrandose maior presença de posseiros em comparação com as demais regiões nordestinas (Graziano da Silva. suas sub-regiões (prioritariamente as que experimentaram maior dinamismo nas últimas décadas).

em particular com o mercado internacional. onde se localiza a maior base industrial do país (o Sudeste). com destaque para a região Sudeste e. de cuja produção atual exporta cerca de 95% (Lima & Katz. que destina ao mercado nordestino apenas 20% de sua produção.7 milhão de t / ano. os equipamentos utilizados na montagem desse novo parque industrial foram importados do Sudeste (49%). . no Maranhão. Do exterior vêm apenas 10% dos insumos que aqui são transformados pela indústria (Sudene-BNB. Tal característica é ainda mais forte no segmento extrativo mineral. material elétrico-eletrônico e de comunicações (79%) e química (61%). A predominância da produção de bens intermediários está na base dessa vocação para fora da nova indústria: os insumos que produz são transformados. Portanto. planejado para produzir anualmente 3 milhões de toneladas de alumina e 500 mil de alumínio. destina-se em grande parte a atender à demanda externa. Por outro lado. a construção de um porto (Ponta da Madeira. No que se refere ao mercado de produtos. especialmente de São Paulo (80%). em grande parte. e agora do sul do Maranhão e do Piauí. Estima-se que apenas o oeste baiano. além da implantação da estratégica ferrovia de quase 900 km de extensão. pouco mais de um terço se destina à própria região Nordeste (36%). a relação é predominantemente extra-regional. O mercado extra-regional também tendeu a ser o destino da produção de alguns segmentos da indústria de transformação. O mercado internacional participa com apenas 10% das vendas totais desse segmento da economia nordestina. até 1995. 04 a 10 de novembro de 2007. dentro dela. São Paulo. devendo destinar um milhão de toneladas de derivados ao mercado internacional (Queiroz.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Paulo). e do exterior (33%). O destino principal é o Sudeste. segundo pesquisa da Sudene-BNB. na região de São Luís do Maranhão). Das vendas realizadas pela indústria incentivada. por exemplo. No complexo minero-metalúrgico do Maranhão. borracha (88%). couros e peles (87%). caso de fumo (99%). A sub-região nordestina que vai do oeste baiano ao sul do Piauí e Maranhão tem experimentado um processo de ocupação comandado por agentes econômicos extra- 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Articulações dos modernos pólos agroindustriais Os novos pólos agrícolas também têm estabelecido importantes relações econômicas extra-regionais. 1992. 1993). Não é por acaso que o Projeto Grande Carajás incluiu. a prioridade à exportação é marca dos empreendimentos localmente instalados. Apenas 10% dos equipamentos foram adquiridos das indústrias instaladas no próprio Nordeste (Sudene-BNB. que comprou 53% da produção mineral da indústria instalada com os incentivos federais nas últimas décadas. 1992). produzia 1. Outro exemplo dessa articulação especial com o exterior é o projeto da Alumar. A soja do oeste baiano. 1992). 1992). que compra 44% da produção da indústria incentivada (71% dos quais adquiridos por São Paulo). há novos fluxos comerciais (de mercadorias e serviços) que se intensificaram nas últimas décadas e que articulam a indústria incentivada instalada no Nordeste com outros segmentos da economia brasileira e com o exterior. As produções maranhense e piauiense orientam-se basicamente para o exterior. mais uma vez exportando o excedente predominantemente para a região Sudeste do Brasil.19 - .

dependendo da forma como consolidar-se-á a malha de transportes. Apenas o Sudeste e o Sul. a produção agroindustrial. Suas ligações econômicas e semelhanças geo-socio-econômicas com asdemais sub-regiões do Nordeste são muito tênues. o Nordeste duplicou seu valor exportado. . e os da Bahia e do Ceará triplicaram-nas. 04 a 10 de novembro de 2007.9%.5%). Mudanças nas articulações comerciais O exame da dinâmica comercial da região. especialmente a associada à irrigação. e portanto visualizar melhor as tendências desse tipo de relação econômica entre o Nordeste e os demais espaços do país. No mesmo período. dentre as demais regiões. segundo dados do BB/Cacex. instalada tanto no vale do São Francisco (BA e PE) quanto no vale do Açu (RN). os estados do Piauí e de Sergipe quintuplicaram suas vendas ao mercado internacional.1 bilhões entre 1975 e 1990. implantando processos econômicos e construindo uma paisagem que se assemelha muito mais à macrorregião Centro-Oeste do Brasil. As exceções corresponderam aos estados de Alagoas e de Pernambuco. No mesmo período. apresentaram maior volume na venda de manufaturados (64. No caso do Nordeste a Sudene estimou. o estado do Maranhão intensificou fortemente seus laços econômicos com o mercado externo.1%) tenham tido. Aliás. maior peso relativo que o mesmo item na pauta brasileira (16. O comércio por vias internas (especialmente rodovias) é predominante no Brasil. as exportações de todas as regiões brasileiras tiveram crescimento significativo. passando de US$ 7. em 1990. Mais uma vez seguindo a tendência geral da economia brasileira. que exportaram em 1990 valor menor do que o de 1975 (Sudene. o crescimento das relações com o exterior via venda de manufaturados no caso do Nordeste é notável: enquanto no total das exportações do Brasil os manufaturados passavam de um terço para pouco mais da metade (54. Embora na pauta nordestina os produtos semimanufaturados (30. sua vinculação futura com o Centro-Oeste poderá ser ampliada.3% e 47.6 bilhões para US$ 31. Até os estrangulamentos à continuidade de seu desenvolvimento são mais parecidos com os de Tocantins ou Mato Grosso do que com os do lado oriental nordestino: infra-estrutura de transporte. O Brasil mais que quadruplicou o valor anual de suas exportações. que das exportações totais do Nordeste. um terço se destinou ao mercado internacional e dois terços a outras regiões brasileiras.7 milhões em 1975. Dentro da região. as informações são insuficientes. respectivamente). para US$ 443 milhões em 1990. mostra que o Nordeste tentou acompanhar a tendência mais geral da economia brasileira nos recentes anos de crise.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG regionais e recebido capitais e capitalistas predominantemente não-nordestinos. Da mesma forma. 1996). e as pesquisas disponíveis não são atualizadas. desenvolve importantes articulações econômicas extra-regionais.4%. por exemplo.7%) da participação nas vendas externas entre 1975 e 1990. Desse total. particularmente as relações estabelecidas com o mercado internacional. para 1980.20 - . Para avaliar os fluxos comerciais inter-regionais. em particular no que se refere ao destino de sua produção. instabilidade e retração da demanda interna: ampliar suas articulações com o exterior. passando de um modesto valor exportado de US$ 5. Das 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). 97% transportados por vias internas e apenas 3% por cabotagem.9% para 44. as relações comerciais do Nordeste com o resto do mundo se dão cada vez menos pela venda dos chamados produtos básicos e mais por oferta de produtos semimanufaturados e manufaturados. na pauta do Nordeste o peso relativo desses itens cresceu de 12.

baianos e sergipanos. na época. pois sua participação nas vendas nordestinas para o resto do Brasil passava de 3. Paraíba. .4% no mesmo período (embora sua economia fosse 20% do total nordestino). era a forte emigração de capital produtivo em direção ao Centro-Sul. apenas 18% vieram do exterior e. analisou corretamente que um dos problemas nordestinos. enquanto as exportações para o resto do país não chegavam a representar duas vezes o valor das mercadorias mandadas para o mercado internacional. por sua vez. a rápida intensificação do movimento de oligopolização da economia brasileira e o papel de correia de repasse desempenhado pelos incentivos federais aplicados no Nordeste – como menciona Oliveira (1981) – atuaram no sentido de alterar a orientação desse fluxo econômico. o mais provável é que a articulação comercial dessa parte mais ocidental do Nordeste com o Centro-Oeste e com o Sudeste tenha se ampliado. também atingiu o Nordeste ao se intensificar no espaço do Brasil ao longo das últimas décadas. O inverso acontecia com Pernambuco. 1985). Portanto. dos 82% originados em outras regiões do país. à medida que o dinamismo industrial daquela região abria oportunidades para rentáveis investimentos (GTDN. posto que na década anterior o estado da Bahia representava apenas 25% nas exportações inter-regionais do país (Sudene. 85% chegavam por vias internas (Sudene. pouco menos de 40% do PIB regional. 1985). 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). 1967).Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG importações totais. Pernambuco e Alagoas. A partir dos anos 60. As importações de outras regiões (especialmente do Sudeste) eram quase cinco vezes maiores que o valor importado do exterior em 1980. O relatório que precedeu à criação da Sudene. Embora com percentuais bem mais modestos. invertendo-o. ano em que se classificou como o segundo exportador regional para o mercado nacional. que perdera seu papel de intermediário atacadista.2 vezes as vendas do Nordeste para o resto do país. o Nordeste surge predominantemente como região-mercado (sobretudo para o Sudeste) quando visto no contexto nacional.3% para 8. nos anos 40 e 50. Os dados da Sudene para 1980 já revelavam uma economia baiana fortemente orientada para o mercado nacional: quase 70% das vendas do Nordeste para outras regiões brasileiras tinham origem na Bahia. pois nos anos 50 as compras efetuadas de outras regiões representavam 1.5% em 1975 para 9% em 1980. piauienses. como vinha acontecendo nos anos 70. essa forte tendência surgiu mais recentemente. Integração via movimento do capital produtivo O movimento do capital produtivo. surgida como tendência na década anterior. a menor articulação comercial com o resto do país. Os saldos comerciais do Nordeste têm-se mostrado historicamente positivos nas relações com o exterior e altamente negativos nas trocas inter-regionais. 1985).21 - . o estado do Ceará demonstrava tendência semelhante. No que se refere ao subespaço compreendido pelos estados do Rio Grande do Norte. não parece ter sido revertida nos anos 80 à luz dos dados disponíveis sobre a composição e dinamismo de suas atividades econômicas. No período 1975-1980 tal relação havia aumentado para 2.5 vezes (Sudene. Sua participação nas exportações interregionais caiu de 30. E isso é tendência crescente. cuja economia representava. Todavia. 04 a 10 de novembro de 2007. Como as áreas dinâmicas recentemente instaladas repercutiram com maior intensidade nos espaços maranhenses. cearenses.

tem destaque na atração de tal tipo de empresas: "das 105 grandes empresas sediadas na região. nas últimas décadas. Dados disponíveis em pesquisa (Sudene-BNB. Cabe destacar. o ambiente econômico brasileiro sofreu grandes mudanças nos anos 90. . a maioria das empresas incentivadas fazia parte de grandes grupos econômicos. as relações do Nordeste com outras regiões do país e com o exterior. Dados referentes às mil maiores empresas no país demonstram que. o setor privado promove. Ao contrário.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG A crescente presença de grandes grupos empresariais no Nordeste. Dentre as que atuam no sentido de induzir à desconcentração espacial destacam-se: a abertura 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). É grande o controle do capital por grupos privados ou por sistemas de empresas estatais com sede no Sul e no Sudeste (Guimarães Neto & Galindo. uma reestruturação produtiva. que a presença do grande capital na região já era muito seletiva.22 - . 1993). Na construção civil (impulsionada pelo Sistema Financeiro de Habitação – SFH e por programas de obras públicas importantes) e nos complexos agroindustriais (ligados especialmente à produção de grãos. Além disso. o entendimento das suas atuais tendências remete necessariamente à compreensão do que se passa no país como um todo. Bahia (46%). 1992) demonstram que a recente expansão industrial não é produto da ação de investidores locais. a indústria de transformação produtora de bens intermediários. frutas e pecuária) sua recente presença é marcante. Do ponto de vista setorial. outras não. como acontecera em diversas regiões do país. também de forma intensa e rápida. Paralelamente. novas forças atuam. tanto espacialmente quanto nas atividades econômicas para as quais se dirigira. no entanto. Tendências nacionais atuais e o Nordeste Como a economia do Nordeste havia aprofundado sua inserção no contexto nacional. 1992). em sua maioria extraregionais. a oligopolização se firmado e grandes cadeias de magazines e supermercados se fizeram presentes no Nordeste. umas concentradoras. Paralelamente. a articulação inter-regional via fluxo de capital produtivo ampliou. Pernambuco (18%) e Ceará (11%) concentravam a maior parte (75%) dessas empresas. não se restringe ao setor industrial. em especial a indústria química. Nesse contexto. 23 são indústrias químicas" (Guimarães Neto. Outros segmentos que merecem referência são as indústrias de alimentos e as dedicadas à produção têxtil. 04 a 10 de novembro de 2007. Aspecto relevante a ser destacado diz respeito ao controle do capital no moderno segmento industrial instalado no Nordeste com o apoio dos incentivos federais. reformas profundas na ação do Estado e implementação de um programa de estabilização que já dura três anos. a pesquisa constatou que tais grupos dirigem e controlam os empreendimentos de maior porte da indústria incentivada. como também ocorre em outras regiões. em 1990. Num contexto mundial marcado por importantes transformações. priorização à integração competitiva. também na atividade comercial o capital tem se centralizado. Dentre as principais destacam-se intensa e rápida política de abertura comercial. cerca de 35 são empresas industriais produtoras de bens intermediários e dessas. Portanto. enquanto os empresários nordestinos concentram seu controle sobre empreendimentos de menor porte.

a região Sudeste não só deixa de perder posição relativa da produção nacional – trajetória que percorrera nas duas últimas décadas – como volta a ganhar importância na economia brasileira (passando de 60% a 63% seu peso no PIB do Brasil). tanto por suas políticas explicitamente regionais e de corte setorial/nacional (mas com impactos regionais diferenciados) quanto pela ação de suas estatais. o mesmo acontecendo com os estados de São Paulo e do Rio de Janeiro. em particular para a forma como vem se dando a inserção internacional do Brasil. confirma a hipótese de que. 04 a 10 de novembro de 2007. a ação ativa de governos locais oferecendo incentivos. da resposta dos Estados nacionais para enfrentar os impactos regionais seletivos da globalização. No caso da indústria. maior proximidade com centros de produção de conhecimento e tecnologia. proximidade com os mercados consumidores de mais alta renda. o que é confirmado por recentes estimativas da Sudene (1996). as mudanças tecnológicas que reduzem custos de investimento. as decisões dominantes tendem a ser as do mercado. entre outras. da dinâmica da produção regionalizada das grandes empresas (atores globais) e. constatam que nos anos 90 as regiões Sudeste e Sul deixam de perder posição relativa na produção industrial nacional e 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). ao contrário do que se poderia esperar. maior e mais eficiente dotação de infra-estrutura econômica. "a globalização reforça as estratégias de especialização regional" (Oman.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG comercial podendo favorecer focos exportadores. A nova organização dos espaços nacionais tende a resultar por um lado. entre 1990 e 1995. Alguns estudiosos chegam a mencionar a reconcentração para o caso da atividade industrial (Campolina Diniz & Crocco. . quando a prioridade era dada à montagem de uma base econômica que operava essencialmente no espaço nacional – embora fortemente penetrada por agentes econômicos transnacionais – e lentamente desconcentrava atividades para espaços periféricos do país. estudos e dados recentes permitem pressupor a tendência à concentração do dinamismo em determinados espaços do território brasileiro. como ocorreu no Nordeste.23 - . Estimativas do PIB industrial por macrorregião. no mínimo. No presente. há forças atuando no sentido da concentração de investimentos nas áreas mais dinâmicas e competitivas do país. os novos requisitos locacionais da acumulação flexível. com base em dados da Fundação Getúlio Vargas. Nos anos 90 tende-se a romper o padrão dominante no Brasil das últimas décadas. um papel ativo no processo. Enquanto isso. elaboradas pelo IPEA. a importância da proximidade do cliente final para diversas atividades. dadas a crise do Estado e as novas orientações governamentais e empresariais. as duas maiores bases econômicas do país. Embora as tendências ainda sejam recentes. o crescente papel da logística nas decisões de localização dos estabelecimentos. no mínimo. Autores como Carlos Pacheco (1996) chamam a atenção também para os condicionantes da reestruturação produtiva. especialmente no que diz respeito às estratégias das grandes empresas frente ao cenário da globalização da economia mundial. Mesmo sem ir tão longe. em especial. se interrompeu a desconcentração e. O Estado nacional desempenhava. 1994). por outro. como melhor oferta de recursos humanos qualificados. Atuam nesse sentido. para a interrupção do movimento de desconcentração do desenvolvimento na direção das regiões menos desenvolvidas. os estudos realizados têm convergido para sinalizar. Tais autores constatam que. O Nordeste volta a perder posição (CNI. 1996). estudo recente da Confederação Nacional da Industria. 1996).

fruticultura (vales do São Francisco e do Açu) e a soja (Bahia. vai a Uberlândia (MG). não alteram significativamente as tendências e as preferências locacionais identificadas pelos estudos. aliadas a aspectos relevantes da política de estabilização (câmbio valorizado. o mesmo acontecendo com o estado de São Paulo. Por sua vez. de Campolina Diniz. Piauí e Maranhão).1 bilhões em 1995. Tendência oposta é verificada no Nordeste.7 bilhões em 1993 para alcançar US$ 13. O Nordeste abriga cerca de 15% desses centros dinâmicos. Curitiba (PR). É evidente também que algumas empresas de gêneros industriais mais mão-de-obra intensivos têm buscado se relocalizar no interior do Nordeste. atraídas pela superoferta de mão-de-obra e baixos salários. 04 a 10 de novembro de 2007. para competir com concorrentes externos (principalmente com os países asiáticos). Uma reflexão particular merece o Mercosul. da ufmg. já mencionados. incremento de 50% apenas entre 1993 e 1995. Tendências e preferências que beneficiam as regiões mais ricas e industrializadas do país (Sudeste e Sul). por sua vez. apesar do dinamismo de segmentos com tendências exportadoras. Constatou que a grande maioria deles se encontra num polígono que começa em Belo Horizonte. reduz seu peso na indústria nacional de 12% em 1990. O comércio brasileiro com os demais países do bloco aumentou intensamente nos últimos anos. para 8% em 1994. US$ 8. dos quais 80% estão no Sudeste-Sul. Haddad (1996) tem chamado a atenção para o reforço dado pelo Mercosul a essa tendência de arrastar o crescimento industrial para o espaço que fica abaixo de Belo Horizonte.24 - . No momento em que a política governamental opta por promover rápida e intensa abertura comercial. 1994). Esse percentual era de 68% em 1975 e passara para 81.5% em 1990. alumínio (MA). Também identificando forte tendência à concentração espacial do dinamismo industrial.6 bilhões em 1990. Dados disponíveis demonstram que 82% (em 1995) das exportações do Brasil se originam nas regiões Sul-Sudeste. as exportações nordestinas para o Mercosul cresceram 84% e as importações 64%.5% em 1995.1% em 1995. por exemplo).7 bilhões em 1985. como a indústria de papel e celulose (BA). segundo a mesma fonte. cai para 9. O maior dinamismo no período pós-abertura acelerada verifica-se na base exportadora da região Sul. cabe analisar as tendências das exportações brasileiras. desce na direção de Maringá (PR) até Porto Alegre (RS) e retorna a Belo Horizonte via Florianópolis (SC).Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG voltam a ampliar sua presença em tal atividade no contexto do país.6% em 1990 e para 9. Tais fatos. que respondia por 17% das exportações brasileiras em 1975. trabalho elaborado pelo economista Campolina Diniz (1994). que amplia sua presença no total vendido pelo país ao exterior de 21.5% em 1990 (Campolina Diniz. juros elevados e prazos curtos de financiamento) têm impactado negativamente vários segmentos da indústria instalada no Brasil e afetado especialmente o Sudeste (São Paulo. . em particular). É certo que as conseqüências espaciais de políticas importantes como a de abertura comercial e a de integração competitiva comandada pelo mercado. mas em valores muito pequenos: US$ 420 milhões 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). além da possibilidade de flexibilizar as relações de trabalho (adotando subcontratação. da perspectiva regional. para 24. e São José dos Campos (SP). US$ 3. química (NE-Oriental). O Nordeste. No mesmo período. onde historicamente se concentrara a indústria brasileira. O valor das trocas do Brasil com o Mercosul cresceram de US$ 1. localizou os atuais centros urbanos dinâmicos do país em termos de crescimento industrial. porém.

possibilita à industria de minerais não-metálicos.25 - . geralmente de padrão de localização mais desconcentrado. de menor densidade de capital. No caso nordestino. por razões muito específicas (Zona Franca de Manaus). procuram as regiões de menor nível de desenvolvimento e. embora fora da região industrial tradicional. com base nos dados do Ministério da Indústria. tornando-as extremamente heterogêneas na medida que não se difundem. notadamente o levantamento do Ministério da Indústria. 9. o movimento de integração produtiva que buscava o Nordeste e o Norte nas décadas anteriores. da consolidação dos segmentos básicos e estratégicos no Sudeste. Guimarães Neto destaca que há. deve-se favorecer investimentos cruzados e associações de empresas instaladas no Sudeste e no Sul com os demais países do bloco. através 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). uma divisão espacial de trabalho que induz os investimentos dos grupos metal-mecânico. percebe-se o fortalecimento de especializações em outros estados que. De outro lado. de menor custo de mão-de-obra. simultaneamente.2% em São Paulo). O exame de parte relevante dessas informações permite destacar o caráter espacialmente seletivo dos investimentos industriais que privilegiam alguns espaços específicos nas regiões.4 bilhões dos investimentos – que podem ser regionalizados até o ano 2000 e cujos investidores potenciais podem ser identificados – cerca de 64. Os dados mostram claramente uma divisão de trabalho entre as regiões brasileiras. Em termos macrorregionais. a se concentrar nas regiões onde teve início e se consolidou a indústria moderna brasileira.3% deverão se concentrar no Sudeste (sendo 28. papel e celulose. além de indicadores da ação de alguns bancos oficiais relativos ao financiamento dos investimentos. as informações disponíveis não permitem mais que esboçar algumas possibilidades referentes à futura distribuição espacial da atividade econômica no contexto brasileiro. mais de metade dos investimentos previstos destinam-se a um único estado: a Bahia. no futuro imediato. e setores têxtil.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG de exportações e US$ 478 milhões de importações. E isso sem mencionar a provável instalação de uma montadora de veículos naquele estado. automobilístico e químico – segmentos básicos da chamada indústria pesada – para o Sudeste e. Comércio e Turismo. . pois importante parcela dos segmentos produtivos que definem a dinâmica da economia nacional tende. os segmentos mais leves da indústria. o avanço. no Nordeste. Na análise da distribuição regional dos investimentos segundo os segmentos produtivos mais importantes. os dados do Ministério da Indústria. produtos alimentares e bebidas. Tal dinamismo geral está encobrindo diferenciações. conseguiram. sem dúvida.4%. Em relatório recentemente elaborado para o Ipea. Assim. mais uma vez. calçados. A tendência parece ser. seguramente. 04 a 10 de novembro de 2007. Comércio e Turismo sobre as intenções de investimentos industriais da iniciativa privada.6%. • em termos de investimentos. Guimarães Neto (1996) examina algumas informações. tende agora a se redirecionar para o Mercosul. Vale lembrar que o PIB do Mercosul (sem o Chile e sem o Brasil) é mais que o dobro do PIB do Nordeste e do Norte brasileiros juntos. Enquanto isso. além da indústria eletro-eletrônica e material de comunicações. uma vez que é razoável supor: • deve-se promover uma articulação comercial mais intensa dos outros países do Mercosul com o Sul-Sudeste brasileiro. Comércio e Turismo antes referidos revelam que dos US$ 73. No que se refere às tendências do investimento no país. para as demais regiões. 17. no Sul.

marcam presença em alguns estados específicos e em certos pontos de seus territórios (os focos de competitividade). Em síntese. notadamente quando é orientado para as demais regiões que não o Sudeste. não resta dúvida de que.26 - . os indicadores sobre os investimentos privados em curso indicam grande seletividade na escolha dos espaços nos quais se darão os investimentos no país. bem maior que o encontrado no Norte. demonstram estar havendo. Tornam-se particularmente atraentes nesse novo contexto cidades médias daquelas regiões. em quantidade e qualidade. cada vez mais. As atividades mais estratégicas – e que definem a dinâmica da economia nacional – estão se concentrando no Sudeste.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG de fatores os mais diversos (recursos naturais. subáreas tradicionais e estagnadas. No que se refere ao grande investimento industrial. Como bem destaca Haddad (1996). fortes incentivos regionais. em todo período. o Nordeste perde posição relativa (caindo de 24% para 15% a sua participação entre 1991 e 1995). as informações mais interessantes. 04 a 10 de novembro de 2007. vêm sendo freqüentemente apontadas a existência de mão-de-obra qualificada e a presença de competentes centros de ensino e pesquisa científica e tecnológica. dentre os novos elementos portadores de capacidade de atração de atividades e investimentos. percentual bem maior do que a sua contribuição na geração do produto interno do país. referem-se aos aprovados pelo BNDES para investimentos nos próximos anos. Os dados do seu último relatório. ainda. na maior parte dos anos. especialmente no que diz respeito às atividades industriais. Em meio a essa tendência ascendente do total das aprovações. esconde mais que revela a realidade do país. pela importância relativa dos recursos envolvidos. com a particularidade de que a região registra. similar ou um pouco maior que sua participação na geração do produto interno do país (BNDES. embora registre menor percentual na participação dos recursos aprovados do que a sua participação na economia nacional. Deve-se ressaltar que a divisão do território brasileiro em macrorregiões. condições de infra-estrutura) atrair segmentos específicos que definem subáreas dinâmicas e modernas. 1996). que se torna bem mais patente quando são considerados os valores absolutos dos recursos aprovados. Tal tendência não parece estar sendo compensada pelo financiamento dos bancos oficiais. De fato. as aprovações passam de US$ 3. mostra uma tendência ascendente entre 1991 e 1995. fica nítida uma grande seletividade espacial. O Sudeste. Isso porque. o potencial locacional de áreas do Sul-Sudeste para atrair os novos investimentos é. crescimento gradativo dos valores investidos. que indicam a distribuição regional dos recursos aprovados. portanto. localizadas próximas a eixos de transportes e. Outro ponto importante a se observar atualmente é a tendência de localização de investimentos em infra-estrutura econômica e nos desenvolvimentos científico e tecnológico. Relativamente à atuação dos bancos oficiais. Ainda segundo Haddad. No Nordeste. dotadas de boas condições de acessibilidade (importante em tempos de abertura comercial e globalização intensas). O mesmo ocorre no Sul. muitas vezes em contextos nos quais prevalecem.7 bilhões em 1995. . a partir de 1991. a geografia industrial dos grandes projetos de investimentos privados.8 bilhões em 1991. de menor densidade de capital. os demais segmentos da indústria. para US$ 9. embora seu peso no total ainda continue. essa escolha seletiva está tendendo a privilegiar o estado da Bahia. Nordeste e Centro-Oeste brasileiros. no conjunto do panorama nacional. anunciados no período posterior ao Plano 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE).

enquanto com os investimentos autônomos se antecipam a ele.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Real. agropecuários ou industriais). deixando em segundo plano as áreas menos dinâmicas. revelam evidências inequívocas de que tais projetos (especialmente os de montadoras de veículos) tendem a se concentrar no Sudeste-Sul (de Belo Horizonte para baixo).27 - . e em pontos dinâmicos do Nordeste e do Norte. apenas 3% do total. com recursos que totalizam R$ 54. • Priorizam dotar de acessibilidade os focos dinâmicos do Brasil (agrícolas.4 bilhões. também sem localização definida no documento oficial. ou seja. com impacto no Nordeste). de grande importância para a modelagem territorial do Brasil. Essa orientação estratégica secundariza a integração interna. restritos a uma ou outra região do país (a exemplo da conclusão de Xingó. Outro investimento igualmente estratégico. do ponto de vista das tendências de mercado. Mas os dados parecem sinalizar para tendência a fortalecer (ao invés de contrabalançar) a concentração de novas atividades e de novos investimentos em certos focos competitivos. • Concentram os investimentos no Sul-Sudeste. Para o que interessa nesse trabalho. justamente nas áreas dinâmicas apontadas por Campolina Diniz. na fronteira Noroeste. pelos quais o Estado patrocina infra-estruturas que potencializam dinamismo econômico futuro. no qual o governo federal define os 42 projetos prioritários de investimentos para o biênio 1997-98. fica fora dessa análise o Programa de Desenvolvimento das Telecomunicações (Paste). Os demais são projetos importantes. do ponto de vista dos restritos investimentos patrocinados pelo governo federal era de se esperar ação efetiva no sentido de evitar a ampliação de disparidades já gritantes no Brasil e assegurar a compatibilidade entre inserção na globalização e integração dos diversos espaços do país. enquanto os demais ficam com apenas R$ 195 milhões para o biênio 1997-98. o governo busca ampliar a competitividade de espaços já competitivos. face aos novos paradigmas tecnológico e produtivo e às novas condições de concorrência num mercado mundial em globalização. portanto. Por sua vez. tomem-se os projetos de infra-estrutura que têm capacidade de definir articulações econômicas inter-regionais ou internacionais e.7 bilhões. Os espaços mais dinâmicos atraem projetos federais de infra-estrutura (que ampliam sua acessibilidade) com investimentos da ordem de R$ 5. seguindo os espaços que vêm concentrando maior dinamismo nos anos recentes. revelam algumas características importantes : • Têm uma opção prioritária clara pela integração dos espaços dinâmicos do Brasil ao mercado externo. Na opção do Brasil em Ação. Na opção atual. ou os tradicionais investimentos autônomos. Se. destacando-se obras prioritárias de infra-estrutura. 04 a 10 de novembro de 2007. consistente com a opção brasileira de promover a integração competitiva. o Estado segue o mercado. capazes de influir na organização territorial do Brasil em tempos de globalização. Os projetos prioritários de infra-estrutura econômica. em especial ao Mercosul e ao restante da América do Sul. é o destinado a geração e difusão de conhecimentos científicos e tecnológicos e a formação 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). os espaços mais atraentes tendem a estar situados em áreas concentradas no Sul-Sudeste. . por não ter sido apresentado com o detalhe da localização regional de seus investimentos (orçados em R$ 16 bilhões para o biênio) e o Programa de Recuperação de Rodovias. estratégicos para a futura organização territorial do Brasil. agroindustriais. mas de impacto localizado. Essa é uma das orientações centrais do Programa Brasil em Ação.

especialmente em São Paulo (40. com sua presença. os mais fortes ao concentrar seus financiamentos nas bases científica e tecnológica instaladas no Sudeste brasileiro (62% do total. dados fornecidos pelo CNPq para 1994 (último disponível) revelam que a alocação regional dos investimentos em C&T confirma a União tender a fortalecer. é histórica a concentração espacial dos centro produtores de conhecimento no país (IPEA/DPRU/CGPR. no Brasil dos anos recentes. . Locais bem dotados desses atributos são apontados como atrativos para investimentos. onde os novos fatores de competitividade já são abundantes.5% dos artigos publicados em periódicos nacionais e estrangeiros por pesquisadores do Brasil. Rio de Janeiro. muitas delas abrigam significativo contingente de pessoas (como o grande espaço semi-árido não passível de abrigar focos de agricultura irrigada. Rio Grande do Sul. a distribuição das patentes outorgadas para produtos gerados por grupos de pesquisa no Brasil mostra que. metade delas localizadas em uma única região: o Sudeste. nenhuma outra unidade da Federação fora do Sudeste e Sul conseguiu tal intento. No Nordeste. 17% dos governos estaduais e 8% das estatais). Finalmente. 04 a 10 de novembro de 2007. no Brasil. 95% da área total dessa subregião nordestina). Cabe destacar que o dispêndio em C&T realizado no Brasil nos anos 90 continua muito baixo (0.28 - . forte concentração no Sudeste (com destaque para Rio de Janeiro e São Paulo). dados relativos a 1994 revelam que. predomínio da integração competitiva e estabilização. parece se confirmar a tendência a interromper a desconcentração espacial do 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). mais uma vez. Nota Técnica. Nota Técnica. 82% do gasto total em C&T ainda cabem ao setor público (sendo 57% de responsabilidade do governo federal. das 158 instituições de pesquisa cadastradas pelo CNPq. Um interessante indicador de concentração é o que revela que em apenas cinco estados (São Paulo. Por sua vez. O papel esperado do Estado é o de contrabalançar. O Nordeste abriga 20% das instituições cadastradas (50% das quais em dois estados: Pernambuco e Bahia). constata-se uma distribuição espacial ainda mais concentrada no Sudeste considerando-se a distribuição dos grupos de pesquisa. onde o dinamismo conduzido pela lógica do mercado já é mais intenso. A região responde por 85. ou seja. Por sua vez. dos quais 1/3 só em Pernambuco). em termos financeiros. que despendem entre 2 e 3% de seus PIBs para promover os desenvolvimentos científico e tecnológico. Considerando a produção desses grupos no biênio 1993-94.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG de recursos humanos qualificados. à exceção de PE e DF. fortemente concentrados no Sudeste (69%). O último levantamento efetuado pelo CNPq registrava sete mil grupos de pesquisa ativos no país no primeiro semestre de 1995. e não se concentrar onde o ente privado já prefere se localizar. a relativa ausência de investimentos privados.7% do PIB) quando comparado aos países do G7 e a alguns tigres. Por outro lado. A preocupação que deriva de tais fatores refere-se ao destino das chamadas áreas não-competitivas. também nesse campo. 1996). 81% eram de natureza pública. A distribuição espacial dos produtos e processos tecnológicos desenvolvidos revela.7% do total nacional). Como se percebe. Pernambuco e Paraíba) a participação no total dos Grupos de Pesquisa do país é maior que a participação desses estados no PIB do Brasil (IPEA/DPRU/CGPR. Como ficou evidenciado pelas análises até aqui procedidas. contra apenas 9% no Nordeste. 1996). já no novo contexto de abertura.

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crescimento que ocorria nos anos 70 e 80, quando a análise é feita em escala
macrorregional. Essa interrupção vem sendo comandada pelo mercado e referendada
pelas políticas públicas federais de corte nacional/setorial. Em termos regionais,
sobrevivem instrumentos e políticas herdados do passado, com reduzida capacidade de
impactar as realidades regionais e contrapor-se às novas forças que tendem a se
consolidar.
A ausência de explícitas políticas regionais por parte do governo federal abriu espaço à
deflagração de uma guerra fiscal entre estados e municípios, que buscam contribuir para
consolidar alguns focos de dinamismo em suas áreas de atuação. A combinação desses
dois fatos, vai deixando grandes áreas do país à margem: são os ditos espaços nãocompetitivos.
Por sua vez, as tendências prováveis dos investimentos sugerem que, após a fase de
modesta desconcentração, poderá ocorrer no futuro imediato um processo de
concentração espacial do dinamismo econômico em algumas sub-regiões (focos
dinâmicos) do país.
A conclusão preocupante que emerge das observações e análises aqui apresentadas é a
de que, muito provavelmente, a inserção do Brasil na economia mundial globalizada tende
a ser muito diferenciada, segundo os diversos subespaços econômicos desse amplo e
heterogêneo país. Tal diferenciação tende a alimentar a ampliação de históricas e
profundas desigualdades. Certamente não se repetirão as formas pelas quais se
materializaram essas desigualdades ao longo do século XX, mas provavelmente se
observará aumento da heterogeneidade no interior das macrorregiões. Essa é uma forte
tendência pois o próprio estilo de crescimento da economia mundial é profundamente
assimétrico, como supõe Pacheco (1996), e aos atores globais interessam apenas os
espaços competitivos do Brasil. Espaços identificados a partir de seus interesses privados
e não dos interesses do Brasil.

Rumo à fragmentação?
Face ao exposto, parece evidente que as tendências recentes atuam no sentido de
aprofundar as diferenciações regionais herdadas do passado e, destacando os focos de
competitividade e de dinamismo do resto do país, fragmentar o Brasil para articulá-los à
economia global. A aguda crise do Estado e o tratamento não-prioritário concedido ao
objetivo da integração nacional, nos tempos atuais, sinalizam nessa direção.
Pelo que já é possível apreender, Furtado (1992) chegou a mencionar a construção
interrompida da nação brasileira. A inserção seletiva promovida pelas novas tendências
terão como contra-face da mesma moeda, o abandono das áreas de exclusão (ditas nãocompetitivas). Poderia estar sendo traçado, assim, o roteiro da fragmentação brasileira. E
pelo que já se observa no Nordeste, a região acompanhará a tendência geral, num espaço
em que a herança de desigualdade é muito grave.
No Brasil, a emergência de focos de um novo tipo de regionalismo, intitulado
paroquialismo mundializado por Vainer (1995), sinaliza nessa direção. São locais de
grande dinamismo recente, dotados dos novos fatores de competitividade que montam
sua articulação para fora do país e tendem a romper laços de solidariedade com o resto,
passando a praticar políticas explícitas de segregação contra emigrantes (nordestinos, na

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maioria dos casos), vindos de áreas não-competitivas. Buscam, assim, evitar manchar a
ilha de Primeiro Mundo que julgam constituir (Vainer, 1995).
O futuro parece apontar, especialmente quanto ao Nordeste, para o aprofundamento da
heterogeneidade herdada do passado recente. E tenderão a se ampliar as diferenciações
dentro das macrorregiões, cada uma delas podendo conter distintos tipos de sub-regiões,
como: sub-regiões de áreas dinâmicas, sub-regiões em processo de reestruturação, subregiões estagnadas ou sub-regiões e áreas de potencial pouco utilizado.
É importante considerar que o desenvolvimento regional recente, sobretudo na fase de
desconcentração da segunda metade dos anos 70 até a primeira dos anos 80, reforçou a
heterogeneidade de cada macrorregião, tornando mais nítidas e mesmo maior as
diferenças entre as sub-regiões de cada grande região. Também neste aspecto, o
Nordeste acompanhou e continua a acompanhar o Brasil.
A heterogeneidade crescente vai consolidando dinâmicas particulares no interior dos
diversos estados do Nordeste. Em Pernambuco e no Rio Grande do Norte, por exemplo, o
dinamismo das áreas de fruticultura (de Petrolina ou do vale do Açu) contrasta com a
passividade com que se assiste à crise das áreas do antigo complexo gado-algodão
(embora geograficamente as duas estejam próximas, nos dois estados). O dinamismo do
oeste baiano contrasta com a lentidão com que se buscam alternativas ao cacau, na parte
oriental-sul do estado. Com a ferrovia Norte-Sul e a hidrovia do São Francisco, e sem a
ferrovia Transnordestina (tal como está previsto no Brasil em Ação), a porção ocidental
dinâmica do Nordeste amplia suas chances de interação privilegiada com o Centro-Oeste
e Sudeste. E isola-se, crescentemente, o Nordeste oriental.
Rumamos, agora, para aprofundar as diferenciações pré-existentes, cada um olhando
para si próprio, cada subespaço buscando suas próprias definições e montando suas
articulações. Os atores globais também farão suas escolhas. Rumamos à fragmentação?

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responsável pelo Projeto Cultural do Curso Universitário. feitos e as façanhas deles foram transmitidos. a "guarda burguesa" era uma milícia civil que representava o poder armado dos proprietários que passaram a patrulhar as ruas e estradas em substituição às forças tradicionais. de antepassados dos lamparinas e de lâmpadas. uma espécie de velho barão feudal que. fazendo com que quase todo mundo soubesse de uma "história" ou "causo do coronel". Não só os homens de letras procuraram reproduzir em seus livros o que era viver sob o domínio de um coronel. Ele não só marcou a vida política e eleitoral do Brasil de então como fez por contribuir para a formação de um clima muito próprio. o coronel passou automaticamente a ser visto pelo povo comum como um homem poderoso de quem todos os demais eram dependentes. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Inspirada na instituição francesa. Sinônimo de Poder Poder O governo da Regência (1831-1842) colocou então os postos militares à venda. insiste em manter-se vivo e atuante. tenente-coronel e coronel da Guarda Nacional (não havia o posto de general. Para ser integrante dela era preciso. forjada pelos acontecimentos de 1789. musical e literário que fez da sua figura um participante ativo do imaginário simbólico nacional. . Identificado com o Brasil do passado. 04 a 10 de novembro de 2007. major. podendo então os proprietários e seus próximos adquirir os títulos de tenente. um grande proprietário. a maioria sobre História e História das Idéias Políticas. agrário. As Origens Remotas do Coronelismo O coronelismo institucional surgiu com a formação da Guarda Nacional. como resultado da deposição de dom Pedro I. que tivesse recursos para assumir os custos com o uniforme e as armas necessárias (200 mil réis de renda anual nas cidades A Guarda Nacional.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Ascensão e Queda do Coronelismo Voltaire Schilling1 O coronelismo foi um sistema de poder político que vicejou na época da República Velha (1889-1930). capitão. pela história oral do avô para o seu coronéis neto. desconsiderando as razões do tempo e da época.33 - . rústico e arcaico. um fazendeiro ou um senhor de engenho próspero. Coronel. pois ser alguém de posses. Assim é que com o tempo. ele ainda sobrevive em certas comarcas e em certos estados do Nordeste brasileiro como o poderoso "mandão local". Escreveu 8 livros (*) e mais de 40 polígrafos. geralmente. a luz de velas. caracterizado pelo enorme poder concentrado em mãos de um poderoso local. 1Professor de História e Mestrando na UFRGS. derrubadas pelos revolucionários. o cidadão em armas e 100 mil réis no campo). criada em 1831. prerrogativa exclusiva do Exército). ocorrida em abril daquele ano. um dono de latifúndio. cultural. como os Barões do café.

o coronel.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Configurou-se no Brasil daqueles tempos uma clara distinção social onde os representantes dos dominantes eram identificados pelo ranço militar (coronel. enfraquecido. Quanto à geografia desse fenômeno político. interiorano. sendo comum entre os considerados alfabetizados apenas 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Praticamente ninguém ao redor dele era instruído. a fazenda e a estância. deu-se a ascensão do chefe provincial ou local que adquiria expressão militar e jurídica própria.. O caudilhismo nasceu na Espanha medieval em luta contra os mouros. ou na sela do cavalo. Delmiro Gouvea. puxando os arreios da mula ou do jerico. contra a posição centralista dos conservadores. sendo desde então considerado como o patriarca de todos os caudilhos que se seguiram. Nasceu da Constituição liberal adotada na Espanha de 1837. especialmente na região do Rio da Prata. major. o do caudilhismo ou do caciquismo. Foram célebres as façanhas de Cid. feitas por canoa. Na verdade. Poucos ousando raridade desafiar-lhe a autoridade ou disputar-lhe o mando. carro de boi. dominado pelo latifúndio. promoveu a emergência do cacique. Caudilhismo e Caciquismo O coronelismo na história política nacional nada mais foi do que a expressão brasileira de um fenômeno tipicamente ibérico. Coronelismo. Toda a vez que na Península Ibérica. pode-se dizer que enquanto os coronéis imperavam pelo Brasil afora. balsa. ou a zoológica "cria" (sou "cria" do coronel fulano). mandava num pequeno país do qual ele era um imperador com poder de vida e morte sobre os seus (ainda que não reconhecido juridicamente). isolado do mundo. ficando o México como o principal centro do poder dos caciques. Um universo próprio. que lutou e integrou Valencia ao reino da Espanha no século XI. 04 a 10 de novembro de 2007.34 - . personificação mais acabada do poder privado no Brasil. por uma razão qualquer. a não ser que por perto outro coronel o desafiasse. Esta expressão de clara influência vinda da América serviu para definir a situação que um chefete municipal passou a usufruir dentro do sistema político da monarquia espanhola desde então (desaparecido com a implantação da Ditadura Franquista. .) enquanto que os dominados pelo coronel o eram pela visível identificação genérica de "gente". o campeador. quando um rei dava a um chefe militar ou um aventureiro qualquer que o solicitava uma "carta de partida". charrete. que o autorizava a recrutar homens e a arrecadar recursos para lutar na cruzada contra os homens do califa muçulmano. bem afastado das grandes cidades. Coronelismo. As comunicações eram raras e difíceis. barco. o poder político central ficou abalado. etc. que ao outorgar uma significativa parcela de poder aos municípios. os caudilhos eram comuns na América hispânica. O Cenário do Coronelismo O cenário que envolvia e promovia o coronelismo era o do mundo rural brasileiro. A Geografia do Mandonismo Local O caciquismo é historicamente bem mais recente. o engenho. uma Os moradores eram-lhe inteiramente obedientes. entre 1936-1975).

fazendo com que sua autoridade cobrisse todos os espaços daquela geografia da solidão que era o seu feudo. 04 a 10 de novembro de 2007. Por último. ou a parentela. que ele não se compunha apenas por proprietários de terras. o personalista e o colegiado. quando não miséria dos moradores. A Política do Coronelismo Os republicanos de 1889 ficaram surpreendidos pelo vigor do sistema coronelístico. Num país de dimensões agrárias tão vastas. A imensa quantidade de parentes distantes. b) A família. o compromisso da fidelidade. A Estrutura do Coronelismo Os estudiosos dividiram o coronelismo em três tipos. afilhados e demais protegidos do coronel. permitia ao coronel por meio de casamentos arranjados ampliarem seu domínio. O tribal parece um patriarca de um clã. cujo poder se espalha por vários municípios e deriva dele pertencer a uma família tradicionalmente poderosa. o coronel-padre (como o padre Cícero no Ceará. sendo simultaneamente o detentor do poder político. de Alagoas). havendo igualmente coronéis com outra posição social. aqueles que são mais estáveis. o coronel-industrial (o célebre Delmiro Gouveia. rapidamente verificaram que a universalização do sufrágio não redundou no enfraquecimento dos coronéis. As bases do seu poder são: a) A terra. Apesar de ampliarem os direitos de voto. . permitindo que sua autoridade se espalhasse para regiões bem mais distantes do que a do seu feudo. Escassez e Solidão Materialmente o mundo dos coronéis era povoado pela escassez de tudo e pela pobreza quase que absoluta. portanto compreensível que o coronel exigisse daqueles que se qualificavam como votantes. Na ausência quase que absoluta do Estado. a ter certos atributos que são só dele e são impossíveis de transmitir por herança. o tribal. como prefere Maria Isaura Pereira de Queiroz. assegurando aos alfabetizados poderem tornarse eleitores. Logo era fundamental para a afirmação e continuidade do poder do coronel ele possuir significativas extensões de terra. que explica a enorme dependência que todos tinham dele. geralmente desaparecendo com sua morte. a riqueza dos indivíduos era medida pela extensão da propriedade. o mais famoso líder do catolicismo popular e ídolo dos sertanejos). sendo. que ajudavam a estender o poder dele para fora da família núcleo (a gente do seu próprio sangue). c) Os agregados. O personalista deve tudo ao seu carisma pessoal. compadres. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). tais como o coronel-comerciante. era o coronel quem exercia as mais variadas funções. Estudos posteriores sobre o coronelismo mostraram. entretanto.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG saberem desenhar o nome no papel. colocando gente do seu sangue e da sua confiança em todos os escalões do poder municipal e estadual. jurídico e legislativo do município que lhe cabia. Ele era um pode – tudo. o suficiente para que se tornassem eleitores fiéis dos candidatos propostos pelo coronel. e que dirigem os negócios políticos em comum acordo com outros coronéis sem que haja grandes desavenças entre eles. a quem era preciso recorrer nas mais diversas situações.35 - .

comportarem-se nas eleições tais como bois mansos. em troca de favores.36 - . o universo político do coronel movia-se pelo cochicho.) ou algum tipo de obséquio (atendimento médico. verba para enterro. Observe-se que a não existência do voto secreto (adotado após a Revolução de 1930). Para ampliar ainda mais o seu mando. convocava algum líder local próximo para que também arrebanhasse os votos para o seu candidato. 04 a 10 de novembro de 2007. etc. demonstrativo da impotência e das limitações da democracia brasileira. Este poderia ser um bem material (sapatos. o militar e o coronel. como os cidadãos votantes eram poucos (talvez os que soubessem ler e escrever. vigiava para que o resultado final satisfizesse os partidários do coronel. O eleitor trocava o seu voto por um favor. Em outros acasos. em seu nome. tornaram-se comuns práticas ilícitas de manipulação eleitoral. fazendo deles "defuntos cívicos" que levantavam da tumba para irem até as juntas eleitorais). assumia o papel de porta-voz das inclinações eleitorais do coronel. chapéus. portanto. remédios. classe. consulta médica. um século atrás.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Ao contrário. especialmente no interior do País. o coronel ativava o cabo eleitoral. fizeram o processo eleitoral republicano funcionar a favor deles. era os três poderes do Brasil inevitável que os considerassem como gente de segunda arcaico. podemos destacar o eleitor-peregrino (sujeito que votava diversas vezes) ou o eleitor-fantasma (não davam baixa dos mortos das listas eleitorais. imperava na época da República Velha. e mais toda uma série de trapaças outras que pertencem ao riquíssimo folclore político brasileiro. em seguida. Esta placidez obediente dos que tinham direito a votar fazia com que eles fossem integrantes do curral eleitoral.). bolsa de estudos. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). O resultado das eleições quase sempre passava pelo crivo de um seu representante no conselho eleitoral. alguém prestativo do seu meio que. por assim dizer. aumentando-lhe o constrangimento. enfim. Mecanismos de Poder Para chegar ao povo votante. pelo conchavo e pelo cambalacho. facilitava o controle sobre o eleitor. em detrimento dos poderes regionais e. etc. a expressão acabada do mandonismo dos coronéis. permitindo que alguém votasse em nome deles. colaborando para isso o fato do desaparecimento do poder unitário (representado pelo imperador). Fraudes e Folclore Os coronéis. incapaz de reagir ao despotismo do manda-chuva. Se nas cidades ainda funcionavam os empolgantes comícios. . mal atingisse os 20% da população inteira). matrícula em escola. A fraude. Dentre muitas. roupas. O voto de cabresto foi decorrência disso. Ao O padre. dos municipais. facilmente eles foram conduzidos pelos apaniguados dos mandões. alguém que. a comportarem-se com docilidade. ela era.

atraídos pela aventura. e no vertical. o toma lá. praticado nos antigos reinos medievais. lembra. .37 - . O rebenque.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Instrumentos de Coerção: o Pistoleiro e o Jagunço O coronelismo nunca foi um sistema pacífico. Porque. Para o exercício efetivo disso. o mataréu brasileiro foi ensangüentado pela batalhas travadas por esses exércitos de jagunços. como assegurou o seu personagem Riobaldo. vivendo à sombra da sua autoridade. ameaçadores. implementada em 1902. que venha armado!" O Apogeu do Coronelismo Ao legar ao seu sucessor um mecanismo político mais estável do que aquele que herdara o presidente Campos Salles fundou um sistema de troca de favores que. ou um grupo de jagunços dedicados ao ofício das armas que lhe serviam como uma milícia privada. De certa forma aquilo que se convencionou chamar de política dos governadores. fazendo com que também eles mandassem para a assembléia legislativa na capital do estado. Naqueles tempos. envolvendo todos eles num sistema mútuo de fidelidades e compromissos. O presidente da república exigia que os governadores lhes enviassem bancadas concordes com a sua política. social" 1956). quando ele desejava impingir alguma coisa aos de baixo ou que se negavam a aceitar a sua guarda. espalhou-se pelo país inteiro. instrumento de "paz Inúmera vez como mostrou Guimarães Rosa (Grande Sertões: veredas. ele contava com dois elementos básicos: o pistoleiro contratado para atuar a seu serviço. quando vier. pelos favores e pela macheza do coronel que os comandava. quando não criminosos. 04 a 10 de novembro de 2007. As linhas da violência dirigiam-se em dois sentidos.com os coronéis do seu estado. e assim sucessivamente até chegar-se ao vilão ou ao pároco da aldeia. no horizontal quando o coronel travava uma disputa qualquer com outro rival do seu mesmo porte. partindo do executivo federal. dá cá. Em troca. na sua simplicidade. estes dos barões. A própria natureza do tipo de dominação que ele exercitava implicava na adoção de métodos coercitivos. Estes por sua volta se articulavam. o sertão era tão bravo que "Deus mesmo. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). ele sustentava as propostas regionais dos governadores (inclusive com apoio militar se fosse preciso). deputados acertados com os interesses políticos do governador. os monarcas se sustentavam com o apoio dos condes. geralmente um capanga da sua confiança.

o presidente fez com que o Congresso por ele controlado instituísse a Comissão de Verificação de Poderes (diz-se por sugestão do senador gaúcho Pinheiro Machado). ao redor de 1920. José Bezerra." Um toma lá. Centralizador e autoritário. funcionárias) ao dos potentados rurais. até chegar ao centro do poder no Palácio da Guanabara do Rio de Janeiro. liderada por Getúlio Vargas. o que não vai ser é diplomado. governador da Paraíba.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG A Comissão de Verificação A fim de garantir-se do cumprimento dessa política. ele contrapôs o poder das novas forças emergentes (operários. ao viciar completamente os resultados eleitorais. Com a adoção dos interventores e dos intendentes. foi fundamental para que o coronelismo se eclipsasse a emergência de um executivo federal forte e cada vez mais poderoso. contra um poderoso coronel do sertão chamado José Pereira. durante os quinze anos seguintes Vargas praticou medidas para o irreversível esvaziamento do poder dos coronéis. agentes do governo central enviados para administrar os estados e os municípios foram inevitáveis o encolhimento da autoridade local. 04 a 10 de novembro de 2007. ser reconhecido é outra". o Zé Pereira. mas unicamente se ele estava disposto a cumprir com o acertado entre o governador do seu estado e o presidente da república. dá cá Um enorme mecanismo de favores e contra favores principiando nas fraldas de qualquer município brasileiro estendia-se assim. opôs-se ao coronelismo A Crise do Coronelismo A Guerra da Princesa. não havia maior significado o parlamentar ter recebido ou não os sufrágios necessários. Mesmo quando ele foi sacudido pelas várias revoltas promovidas pelo Movimento Tenentista (em 1922. "ser eleito é uma coisa. formada por cinco parlamentares com a função de apurar se os deputados eleitos nos estados realmente estavam comprometidos em vir dar o seu apoio ao presidente. resumiu e antecipou o que iria ocorrer no Brasil a partir do sucesso da Revolução de 1930. ele mostrou-se hábil em sobreviver. Frase que é uma variação daquela outra atribuída a Pinheiro Machado. Isso é que explica porque o governador da Bahia. desde que tomara posse em outubro de 1928. . Para a comissão. travada por João Pessoa. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE).38 - . Portanto. ter dito. O voto secreto e o voto feminino (inicialmente somente de funcionárias públicas) foram dois dos instrumentos utilizados para isso. 1924 e O centralismo de Vargas 1926). passando antes pelo palácio do governador. aumentando-lhe a presença eleitoral. que assegurou a um oposicionista "eleito o senhor foi. trouxe pelo menos certa estabilidade invejável à turbulenta e instável crônica política brasileira. Pecava-se contra a educação democrática do povo. Durante quase um trintênio esse sistema funcionou a contento. Valorizando o sufrágio urbano.

O Carlismo Antônio Magalhães Com a fim do regime militar. um por um os coronéis foram sendo afastados da política. Em 1984. neutralizarem a força das massas urbanas que lhes eram hostis. Desta forma. ao mesmo tempo. Os militares que ascenderam ao comando do país naquela ocasião.. 04 a 10 de novembro de 2007. entre 1937-1945) (. ele mostrou-se mais ágil em perceber o significado das mudanças que se operaram naquela época. com o objetivo de implantar o seu Projeto do Brasil Grande (a ambição de tornar o país uma potência de médio porte). Unindo uma proposta de modernização da economia com as esdrúxulas práticas que remontavam ao Brasil arcaico.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Situação que se reforçou ainda mais com a proclamação da ditadura do Estado Novo em novembro de 1937.39 - . características do Brasil pós-1945. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). que culminou no afastamento dos generais do poder. num lance ousado e surpreendente. Os generais de 1964. promoveram uma atualização do poder dos coronéis: o neocoronelismo. com os remanescentes do coronelismo. o ex-prefeito e governador Antônio Carlos Magalhães (que fizera sua carreira política aplicando todos os truques perversos do coronelismo ao tempo em que servia como sustentáculo civil local ao regime militar). O cacique político local. derrotados pelas urnas da democracia recém-reconquistada. a imigração para as cidades. e. A industrialização. Talvez por ele ser um caso raro de coronelismo urbano (grande parte da sua fortuna e dos que a ele estão ligados está associada aos meios de comunicação e aos negócios industriais e Carlos imobiliários). . trataram de aliar-se. só fizeram por acelerar ainda mais o declínio do coronelismo. que derrubou o governo de João Goulart. ele de imediato rearticulou-se com a nova elite civil que substituiu os militares em Brasília. ajudaram e fortaleceram as velhas oligarquias. simultâneo ao quase total fechamento político (o mais sufocante que o país conheceu desde os tempos do Estado Novo. ao recorrerem aos casuísmos eleitorais. em Pernambuco e na Bahia. o país conheceu entre 1969-1979 um impressionante desenvolvimento econômico. especialmente no Nordeste. na Paraíba. mudou de lado. no Ceará. ao contrário dos tenentes de 1930. marcado pela eleição indireta de Tancredo Neves à presidência da república em 1984. ACM rompeu com os militares e aderiu à campanha das "diretas já".. isso não sucedeu. porém. ocorreu um estranho e contraditório fenômeno. Na Bahia. no Rio Grande do Norte. Representando a versão mais atualizada do coronelismo. A Revivência do Coronelismo Com o Golpe Militar de 1964.). o crescimento demográfico.

1987) Eul-Soo Pang . Ele sempre teve consciência de que o seu prestígio local devia-se ao apoio escancarado que ele dava a quem estivesse no comando executivo da União. Numa situação onde o autor assume a identidade do coronel para registrar-lhe as impressões.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG O Condestável da Nova República Esta posição. . O mundo rural. recuperado graças ao fidelidade por favores prestados ao Estado da Bahia (polo prestígio de ACM petroquímico de Camaçari. José Ênio .) Carone.40 - . de Aureliano Figueiredo Pinto. permitindo-lhe.) Bruno.. e no já citado Grande Sertões: Veredas de Guimarães Rosa. onde eles se moviam. e os "causos" em que eles foram participantes ativos viraram contos ou histórias dos romancistas e dos roteiristas das telenovelas brasileiras. SP. encontra-se no Memórias do coronel Falcão. que garantiu por duas vezes a eleição do presidente Fernando Henrique Cardoso). RJ. Edgar . 2 vols. a montadora da Ford). SP. a influência dele junto aos seus conterrâneos. 1979) 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). que fosse promovido às antecâmaras do poder como o condestável. granjeou a ele enorme estima e respeito por parte considerável da população. 10 vols.História e paisagens do Brasil (Cultrix. abordou o coronelismo em todas as suas facetas nos seus romances do chamado ciclo do cacau (São Jorge de Ilhéus. os analistas prevêem que o rompimento dele com as fontes das verbas federais terminará por secar. Coronelismo e Literatura Como não poderia deixar de ser a literatura brasileira foi pródiga neste século em abrigar as façanhas e malvadezas dos coronéis. se num primeiro momento trocou a sua Pelourinho.. esta virada do carlismo em favor da redemocratização. e no popularíssimo Gabriela cravo e canela). no futuro.Coronelismo e oligarquias (Civilização Brasileira. quando não os próprios coronéis tornaram-se personagens centrais da obra (como no caso de São Bernardo de Graciliano Ramos. • • • • • Bibliografia Beiguelman. ou o do Coronel e o lobisomem de José Cândido de Carvalho). se bem que oportunista.1959. Paula . em seguida à formação da Nova República. mereceu copiosas descrições.O partido republicano paulista : 1889-1926 (Brasiliense. verba para a recuperação do Pelourinho. Cacau. o escritor brasileiro de maior expressão internacional. Notáveis descrições do cenário em que eles viveram e lutaram encontram-se no Os Sertões de Euclides da Cunha. 04 a 10 de novembro de 2007. o homemforte dos sucessivos presidentes que desde então se sucederam (nos 15 anos seguintes. SP.SP.Formação política do Brasil (Pioneira. Jorge Amado.A República Velha: evolução política (Difel. Ernani Silva . ACM foi ministro das comunicações no governo de José Sarney.. Desta forma.. violento e rústico. eminência parda no governo do presidente Fernando Collor de Mello e o principal avalista do pacto do PFL-PSDB. 1971) Casalecchi. 1967.

Rodolpho .1930. 1966) Silva. .) Queiróz. 1975) Martins. 1985. de 1900-1930) Silva.O mandonismo local na vida política brasileira (Alfa-Omega. Victor Nunes .41 - . 1985. 1977) 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Maria Isaura . 1976) Leal. RJ. SP. a revolução traída (Civilização brasileira.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG • • • • • • • • Freyre. Campinas..Terras devolutas e latifúndio: efeitos da Lei de 1850 (Unicamp.. enxada e voto (Alfa-Omega. 1996) Telarolli. vols. José de Souza . 1981) Nosso Século: Brasil (Abril. 7ª ed.. SP. Hélio .. SP. Lígia Osório .O cativeiro da terra (LECH.Sobrados e Mocambos (José Olympio. Gilberto. SP. RJ.Coronelismo.Poder local na República Velha (Nacional. 04 a 10 de novembro de 2007..

outras culturas contribuíram para um certo dinamismo econômico. a não ser por compra. A crise do mercado açucareiro no século 18 só fez reforçar essa situação. o Nordeste torna-se a região "rejeitada" do Brasil. A produção agrícola alimentar era limitada (Andrade. 2003 3 O vaqueiro recebe como remuneração um bezerro em cada quatro que nascem. Cuert-Muller (1994) mostra que entre 1970 e 1985 a população trabalhando no setor agrícola passou de 3. no início do século 19. 04 a 10 de novembro de 2007. Fig. voltada para o comércio. . de fato. então. pois é capaz de absorver ou reter contingentes significativos de população. No século 20. Brasília. desde a colonização. Como bem destaca Martine (1992). A lei é votada sob a pressão de grandes proprietários cuja preocupação é limitar a ocupação ilegal de terras. Com efeito ela regulariza a situação dos ocupantes. 2). Instaura-se. também. Permite. graças a exportações de açúcar para a Europa. 2 IN: Camponeses do Sertão: Mutação das agriculturas familiares no Nordeste do Brasil. 1990).2 milhões de pessoas. EMBRAPA Informação Tecnológica. a Lei da Terra torna impossível a obtenção de terras.42 - . prática cada vez mais freqüente. "nenhum dos ciclos posteriores veio. constituídos graças ao sistema de remuneração usado pelos grandes proprietários3. região de migração em direção ao sul e à Amazônia (Garcia júnior. Entretanto. as transferências financeiras oriundas da União para o Nordeste foram constantes no decurso dos 2 últimos séculos. modificar muito essa situação. muito cedo conheceu a prosperidade. em seguida. o mercado fundiário. Garcia júnior. essa lei se traduz. Patrick Caron e Eric Sabourin/org. aos vaqueiros dos fazendeiros comprarem terras. e nelas instalar-se com seus rebanhos. segundo Thery (1995a). estas jamais compensaram as grandes transferências de capital e de recursos humanos do Nordeste para o Sudeste (Oliveira. a escolha é feita pelo proprietário. 1981. e. Essa é a origem da agricultura familiar no Nordeste semi-árido (Prado júnior. O Nordeste. o sertão assume o papel de pulmão demográfico do Brasil. Em 1850. Foi no litoral que se constituiu a primeira ilha do "arquipélago brasileiro" e onde o primeiro dos grandes ciclos econômicos do Brasil se desenvolveu (Thery. porém.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG I. Certamente outros mercados se abriram. Em contrapartida. e que essa mão-de-obré constitui uma reserva utilizada ocasionalmente. semi--árido2 Contexto e Diversidade das agriculturas Familiares no Nordeste semi A agricultura brasileira esteve. 1990) . pelo assentamento de inúmeras famílias. Andrade. o desenvolvimento das plantações de cacau no sul do Estado da Bahia". 1960. primeira região colonizada pelos portugueses. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Porém. 1967). 1995a. Porém.0 a 4. dedicada às necessidades do mercado europeu. 1986). Mas a concentração das riquezas nas mãos de uma minoria e o caráter excêntrico da economia (importação de produtos de luxo graças aos recursos advindos das culturas de exportação) frearam o desenvolvimento da Região. a integração econômica é limitada. se bem que dois episódios tenham contribuído para diversificar a base econômica regional: o cultivo do algodão que permitiu uma ocupação mais densa da zona semi-árida.

em particular Celso Furtado. administração encarregada pelo governo federal do "planejamento regional global" (Oliveira. quanto a seus dependentes. . Em 1958. A rentabilidade do investimento é o 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). 1995a. Fonte: Thery.993 km2 (Thery. 4 5 Latifúndio: propriedade de grande porte. 1981). reforça o poder indiscutível dessa elite. "Em 1936. desafio que explica suas ampliações sucessivas em 1946 e 1951: hoje essa área estende-se por 936. ditada por relações do tipo paterna lista. e modernizar o setor agrícola. definindo a área onde a ajuda do governo federal poderia ser concedida. remunerados por um proprietário frequentemente ausente. foi criado um grupo de trabalho que daria origem. tornada produtiva por dependentes. 2. O montante da ajuda da União é diretamente proporcional à extensão das crises climáticas das secas (Molle. subexplorada. procuraram promover a industrialização. depois de um período extremamente seco. por meio de lima política de incentivos fiscais. Sua distribuição. controlada pela elite local. Alguns evocam a indústria da fome para explicar os lucros que daí retiram.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Fig. Empresas rurais: forma de organização reagindo essencialmente a uma lógica econômica. 1991 b). foi delimitado um perímetro de 620 mil km2. no ano seguinte.Sudene -. 04 a 10 de novembro de 2007. Expansão territorial: frentes pioneiras e ciclos econômicos. facilitando a transformação dos latifúndios4 e de pequenas um idades agrícolas camponesas em empresas rurais5. O proprietário segue uma lógica territorial. 1995a). à Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste .43 - . o Polígono das Secas. Os intelectuais que a dirigiam.

2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). . o apego ao campo na região de origem continua relativo. com o retorno à democracia. O temor suscitado pelos movimentos sociais de ligas camponesas junto às elites regionais do Nordeste muito contribuiu para o golpe militar de 1964. Chapéu de Couro. Sertanejo. por uma autonomia relativa quanto ao mercado e pela mediação de poderosos locais. Ao final de alguns anos. 6 7 Segundo a definição de Mendras (1976). De modo clássico. e ainda são. logo se tornaria um verdadeiro tabu. principalmente nas frentes pioneiras e nas regiões de êxodo. O conjunto da classe política e. o papel do setor agrícola em geral. os índices de desenvolvimento foram menos evidentes. por discursos recorrentes sobre a escalada da violência. entre outros. alguns anos mais tarde. Nos anos 80. tratou-se. caracteriza. A implantação de infra-estruturas marca os primórdios dessa política e mobiliza o essencial dos meios financeiros. o período dos projetos públicos e do crédito subsidiado: Polonordeste. Inúmeras denominações são utilizadas quando se evoca a agricultura familiar: pequeno produtor. uma maioria significativa dos produtores das comunidades do sertão. postos de saúde. ao mesmo tempo. agricultura camponesa. tabaco ou cana-de-açúcar) ou temporárias. As relações de trabalho organizam-se em torno dos assalariados. As inquietações em relação ao modelo de desenvolvimento brasileiro. O modelo de desenvolvimento imaginado é um compromisso que alia modernização e emprego rural por intermédio do apoio à agricultura comercial e da organização de comunidades rurais de pequenos produtores. resolver os problemas ligados à pobreza. surgiu. esses projetos visavam reforçar a emergência de pólos de desenvolvimento. São Vicente. vem o tempo das dúvidas. se a implantação das infra-estruturas foi satisfatória. o sentimento de crise traduz-se. Em sua origem. 1985). 1995a). esse apego é real. Apesar de sua conotação política ou ideológica desfavorável. Está associado à permanência de uma sociedade camponesa no sentido usado por Mendras (1976)6. excluindo as pequenas empresas familiares. porém. No decurso dos anos 60. agricultura de subsistência. do cofinanciamento de infra-estruturas comunitárias (escolas. e aquele da agricultura familiar em particular. após o golpe militar de 1964. no Sertão nordestino. poços e açudes. e os recursos financeiros corriam em abundância. O termo agricultura camponesa qualifica somente uma parte desse universo. a incapacidade de controlar a hipertrofia das metrópoles com a redução do êxodo rural e de travar os fenômenos de empobrecimento. armazéns. Os movimentos da população rural sempre foram. o objetivo principal.). em particular com a implantação de perímetros públicos de irrigação e. No sertão. ainda. sobretudo. Foi a época do milagre econômico brasileiro. são questões dirigidas à pesquisa nacional.44 - . 04 a 10 de novembro de 2007. As migrações de agricultores do Sertão foram por muito tempo essencialmente sazonais (colheita do café. a extensão da rede rodoviária foi triplicada. então. minifúndio. O assunto. considerada a possibilidade da reforma agrária. Essas denominações não têm todas o mesmo sentido. de modo mais amplo. a sociedade tomou conhecimento das dificuldades com as quais se depararam esses projetos. a de estradas asfaltadas foi decuplicada (Thery. em escala nacional. A demanda de mão-de-obra no sul é grande. específica ao contexto brasileiro7. O êxodo rural não se estanca. Após o mito da modernidade. Projeto de Apoio ao Pequeno Produtor Rural (Papp). Em contrapartida.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Foi. importantes. construídas essencialmente pela mobilização gratuita da mão-deobra local (Amman. geralmente. então. No Brasil. pode~se falar em agricultura camponesa onde subsiste uma sociedade camponesa marcada por relações de proximidade e de interconhecimento. etc.

As vias naturais de acesso. opôs-se a partir de 1840 à paróqui local. As sesmarias eram medidas em léguas8. No Sertão central. É em função desses elementos que parece pertinente definir agricultura familiar. quanto a concessões anteriores ieita pela colônia portuguesa às ordens missionárias encarregadas de catequizar a comunidades indígenas. reagrupa expressões sociais e modos de produção muito diversificados. os primeiros conflitos eclodiram. Houve igualmente litígios entre o Estado e a Igreja. as características mais ou menos hostis do meio local. às margens do São Francisco. . na falta de melhores termos. Como nos mostra Silva (1999). 1992)9 A ocupação efetuou-se em diferentes datas. nas terras das tribos indígenas dos Tupis. aos senhores da terra. A colonização do Sertão Os primeiros domínios fundiários do Sertão foram conquistados no século 17. com a proclamação da República. Agricultura familiar: uma história de resistência e adaptações A história da agricultura familiar do Sertão se confunde muito com aquela da evolução dos sistemas de pecuária (Caron. No caso de luazeiro. ( Município de Juazeiro. Tais litígios diziam respeito ao direito de recolher impostos. pelos meados do século 17. Eram de natureza feudal e colocavam as grandes famílias umas contra as outras ou contra as comunidades indígenas (Garcez & Sena. em 1710. agravou ainda mais a situação.aos nobres. alvos preferenciais da política de modernização. 1989). a maioria da~ terras pertencia a duas famílias: Guedes de Brito e Dias D' Ávila Esta última possuía. Muito rapidamente. Era comum manter uma margem de uma légua. situadas nas falhas geológicas (Mal/e. entretanto. às margens da zona semi-árida (ver mapa 1 em anexo). A agricultura familiar. pela imprecisão dos limites territoriais. com o pequeno capital amealhado durante o exílio. nos iin do século 19. 1998). pelo absenteísmo dos proprietários das terras e pelos fracos investimentos no setor agrícola. sem limites físicos determinados. a presença de recursos hídricos. A colonização foi caracterizada pela concentração. 1992). a localização estratégica de determinados locais no cruzamento de eixos de comunicação foram critérios determinantes. correspondendo às terras aluviais dos vales ou várzeas. para evitar misturas de gado e outros litígios (Garcez & Sena.45 - . as migrações definitivas constituem um fenômeno recente. chamados de coronéis ou fazendeiros. certas características comuns. "mais de 340 8 9 Uma légua corresponde a 6 km. A agricultura sertaneja continuou por muito tempo apenas produtora de víveres e marginal ou concentrada nas zonas mais elevadas e úmidas do Agreste e do brejo. em 1927. concedidas pelas capitanias _ representando a Coroa portuguesa . A separação entre a Igreja e o Estado.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG agricultor voltava à sua região natal para comprar um pedaço de terra ou um rebanho. pela demarcação dos respectivos perímetros: o da paróquia e o do municípic 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). entre dois domínios. 04 a 10 de novembro de 2007. assim identificada. as sesmarias. de cada um dos lados dos riachos. A agricultura irrigada é recente e seu potencial é limitado a 5% dos 940 mil km2 da região. surgido nas últimas décadas. não concedida a ninguém. segundo as regiões de Sertão. 1991b). apresentando. aos grandes proprietários rurais. como o conjunto de formas de produção que se opõem aos latifúndios e às empresas rurais. Eram verdadeiros impérios. como a valorização da mão-de-obra familiar e a autonomia da gestão dos meios de produção (Sidersky. o litígio só ioi resolvid.

Localidades mencionadas na descrição do processo de colonização. Fig.46 - . Os enormes latifúndios começaram a fracionar-se em virtude do absenteísmo dos proprietários e da crise da pecuária bovina. 04 a 10 de novembro de 2007. o crescimento do setor mineiro de Estado de Minas Gerais e a crise no setor açucareiro acarretaram uma crise na economia nordestina e o deslocamento da bacia pecuária para o Sul do Brasil (Furtado. por exemplo. Baixa Grande) já haviam sido ocupadas desde o século anterior. no centro do Estado da Bahia. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). 3). O recuo econômico e o surgimento dos camponeses No decurso do século 18. em épocas mais tardias A região de Pintadas. muitas vezes. 3. (Fig.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG léguas de terras à~ margens do Rio São Francisco e de seus afluentes" (Andrade. fonte permanente de água. 1977). 1986) A ocupação aconteceu porém. enquanto as regiões: vizinhas (Mundo Novo. Pintadas situa-se numa região menos chuvosa. fora dos eixos de comunicação e não dispunha de nenhum. foi explorada a partir do século 19. .

para as gramíneas. Eles são os primeiros que historicamente cercam os pastos. tecidos. As frentes pioneiras. As cercas necessárias à proteção devem ser de madeira. coletivamente. ainda mais porque os primeiros zebus introduzidos nessa época são menos resistentes às condições climáticas do Sertão. enquanto as áreas agrícolas só aumentam em 50% (Bazin. A difusão de plantas perenes permite aproveitar novas oportunidades de mercado. os caprinos. também. como o capim-buffe/ (Cenchrus ci/iaris). 1960). De fato. eram preferidos aos bovinos. para prover as necessidades de consumo. o crescimento demográfico traduz-se por uma pressão sobre o espaço. mais adaptados às secas e às necessidades de consumo das famílias camponesas. . a partir do século 19. O arame farpado que substitui as cercas de madeira. em particular sobre os percursos na Caatinga. os pequenos proprietários estabeleceram-se. escravos alforriados ou ex-condenados tomaram posse de terras situadas entre as sesmarias ou mesmo inexploradas (Prado Júnior. Paraíba e Pernambuco. nos anos 70. permite cercar mais rapidamente grandes áreas e demanda pouca manutenção e mão-de-obra. Os meeiros produziam algodão nas terras dos fazendeiros. Rio Grande do Norte. As roças e as técnicas para as culturas são manuais. mesmo quando as cercas são construídas na época das secas. até então.223 a 93. cada vez mais numerosas. 04 a 10 de novembro de 2007.) e. no Sertão central da Bahia.47 - . o número de unidades agrícolas passa de 16. Nas zonas mais favorecidas pelas chuvas. Uma economia camponesa surgiu e desenvolveu-se a partir das pequenas unidades agropecuárias. O algodão sempre esteve associado à pecuária. O plantio de alguns hectares a cada ano permite marcar o território e estender as áreas em "propriedade privada". café. É. A estrutura fundiária local e a presença ou ausência de grandes fazendeiros condicionam as dinâmicas pioneiras. por exemplo. a indústria inglesa investiu· no Nordeste. em 1850. No Estado do Ceará. Essa evolução concerne principalmente aos Estados do Ceará. o caso da produção de forragem a partir dos anos 30. sementes de mamona e pequenos ruminantes eram vendidos para comprar outros produtos: pimenta-do-reino. mestiços. cujos rebanhos valorizavam os restos de culturas. As culturas ocupavam pequenas áreas cercadas. É o caso do algodão "Mocó". o caso do sisal ou da mamona. Elas exigem menos mão-de-obra do que as culturas alimentares anuais10. As incertezas climáticas tornavam aleatória qualquer atividade agrícola praticada. O algodão estendeu-se rapidamente. na maioria dos casos. A falta de forragem na época das secas leva grandes proprietários a cercar suas terras a partir da década de 20. É.6% da área total do Sertão. Em razão da Guerra de Secessão e do desmoronamento da produção norte-americana. a partir dos anos 60. Comunidades apareceram e materializaram-se em sítios nas proximidades dos poços. a pecuária era consolidada pela cultura do algodão "Mocó" (arbustivo). A presença de fazendeiros acentua a pressão sobre o espaço e seus recursos. entre outros. enfim. desde a Guerra de Secessão.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Com a Lei da Terra. a partir de 1950. Segundo Silva & Lima (1982). a demanda de mão-de-obra é grande e é essencialmente familiar e os contratos de meeiros são quase inexistentes (fora aqueles com os fazendeiros). Numerosos vaqueiros. Começa a apropriação individual de recursos explorados. para a palma forrageira (Opuntia sp. Hoje seus membros são os descendentes dos primeiros ocupantes ou dos compradores das antigas fazendas. sal. a área de extensão do algodão jamais ultrapassou 21. Certos produtos como queijo. a apropriação do espaço e a modernização agrícola Desde o início do século 20. 1993).382 20 anos mais tarde. graças aos meios financeiros dos quais dispõem ou que podem mobilizar por meio dos projetos 10 As áreas de cultura anuais continuam escassas e raramente ultrapassam 2 ou 3 hectares por unidade familiar. Nas zonas mais áridas. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). logo sua construção e manutenção representam uma obrigação significativamente onerosa com mão-de-obra.

uma generalização rápida de cercamentos. Até os anos 80. Enquanto anteriormente a situação que prevalecia obrigava aquele que cultivava a proteger seus campos. bromeliáceas terrestres. que se traduz pela expulsão dos ocupantes destas terras. Trata-se da grilagem11. Os espaços diversificam-se. O desflorestamento e o cultivo das áreas de Caatinga12 aumentam. suportes e conseqüências dessas transformações. muito tardiamente. referência a seu aspecto durante a seca. que obrigava os criadores a controlar seus animais. Seus animais pastam. freqüentemente. para que ficassem amarelados. em terras não cercadas e. evoluem. geralmente divididos por cercas. É em tal contexto que surge a irrigação. como Pintadas e Ipirá. 12 O termo Caatinga é formado por duas palavras da língua Tupi que significam floresta branca. Estas evoluções e recomposições acontecem em um contexto fundiário muito incerto. apresenta também plantas suculentas (cactáceas e euforbiáceas). ou para as frentes pioneiras da Amazônia. na estação seca. no Nordeste. a partir dos anos 80. alimentam-se da produção de forragem dos pastos cercados. A pressão sobre os recursos acarreta. É uma formação extremamente diversificada em função do tipo de solo e nela encontram-se árvores e arbustos freqÜentemente providos de espinhos e do tipo caducifólios. em apropriação: "a terra pertence àquele que a cerca". os minifúndios. . Assistimos à generalização das cercas de 3 ou 4 fios de arame farpado.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG públicos de desenvolvimento. Grileiro (aquele que se apropria das terras) e grilagem vêm de grilo. bem como uma capa herbácea constituída de espécies anuais. Tal obrigação transformou-se. em 1964. Em alguns provocados. pela colocação selvagem de cercas em terras alheias. Assim. frequentemente violenta. Essas evoluções são acompanhadas pelo crescimento rápido do número de pequenas propriedades rurais. Conflitos eclodem freqüentemente.48 - . coriáceas e espinhosas. industrial e urbano. Outros têm como base novas regras jurídicas: a lei do "pé alto" é especialmente exemplar a esse respeito. os pecuaristas conseguiram fazer votar um decreto municipal para a aplicação de uma lei federal. pois os fazendeiros que usavam essa prática colocavam os falsos títulos das propriedades em gavetas cheias de grilos. no centro da Bahia. Molle (1991 b) 11 Grilagem é o nome dado à apropriação fraudulenta de terras. a reconversão para a produção leiteira. durante a estação chuvosa. Os sistemas técnicos de produção. então. prevalecendo a lei do mais forte. para aqueles que dispunham dos meios. Tais imprecisões são acompanhadas por uma ausência de delimitação física: os limites fundiários estão freqüentemente sujeitos a conflitos. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). que foram seguidos de conflitos. O aparato regulamentar do Estado é deficiente. No Nordeste. eles podiam reduzir o investimento a 4 fios. Na verdade. a maioria dos pequenos ainda não possuía títulos de propriedade. mas proibindo o deslocamento dos animais dos pequenos criadores. Eles permitem o aumento da capacidade de pastoreio e. Estas imprecisões legais acarretaram conflitos jurídicos nos quais se vê o ressurgimento de títulos de propriedade datando da monarquia. que quase sempre acaba em banho de sangue ou na resignação do proprietário lesado. em alguns municípios. em vez de cercar suas pastagens com 7 a 10 fios de arame farpado para impedir a entrada de pequenos ruminantes. que dão à vegetação um aspecto sombrio e cinza durante a estação das secas. Aqueles que não conseguem se adaptar tornam-se assalariados agrícolas ou migram para o sul. hoje. Os pastos de gramíneas forrageais espalham-se consideravelmente. impedindo-os de vaguear. 04 a 10 de novembro de 2007. Assim. O desmoronamento da cotação dos produtos agropecuários de cultivos de sequeiro. grande consumidora de espaço. não há mais novos espaços a serem colonizados e os patrimônios fundiários continuam a dividir-se em ritmo acelerado. eles são. provoca uma reconversão de inúmeros produtores para a pecuária. surgiram inúmeros casos de grilagem. suficientes para os seus bovinos. em certos casos.

econômicos. banana. desde o início da colonização. elas são beneficiadas com apenas 15% dos financiamentos públicos. No Brasil. arcaismo e imobilismo das estruturas sociais herdadas da colonização. Elas são responsáveis por cerca de 30% da produção agrícola nacional. salvo por algumas situações isoladas. depois nas dos peões ou dos meeiros. freqüentemente. 1996). Molle (1991 a) lembra que a agricultura foi desprezada. Os esforços de modernização da agricultura não puderam impedir a concentração dos investimentos públicos e privados e a marginalização da agricultura familiar. A modernização foi. o que corresponde a 15 milhões de pessoas. mais da metade localizada na Região Nordeste (FAO.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG evoca vários fatores para explicar este atraso no desenvolvimento de uma sociedade hidráulica.5 milhões de unidades de produção agropecuária. etc.) e de exportação (cacau. Dos fins do século 19 aos anos 70. entretanto.). Segundo ele. em absoluto. 04 a 10 de novembro de 2007. porém.(Censo 1985). Alguns números permitem precisar essa importância social e econômica.) quanto pelos recursos e empregos que ela proporciona (Veiga. deixada nas mãos dos índios ou dos mestiços. seja para os homens ou para os animais. ela encobre uma realidade pouco conhecida: somente há pouco tempo passa a ser objeto de atenção por parte dos organismos de apoio ao setor agrícola. Engloba. as políticas hídricas foram prioritariamente voltadas para o abastecimento de água.FAO. Elas foram globalmente eficazes e a produção agrícola aumentou consideravelmente. 1994). Sua importância é não somente social. lugar em uma sociedade voltada para a pecuária extensiva. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). graças à construção de grandes barragens (ver o capítulo Manejo da água nos sistemas de sequeiro). sociais e políticos do modelo dominante (Tonneau et aI. econômico e mesmo técnico. este atraso: a rigidez da estrutura fundiária. As instituições públicas de pesquisa e desenvolvimento implantadas nos anos 70 foram planejadas como instrumentos da política de modernização que visava promover o modelo da revolução verde (variedades selecionadas. etc. técnicos. tanto por sua presença de peso nos mercados de produtos alimentares (milho. . mecanização. No Nordeste. a agricultura familiar reúne a maioria da população rural. Apesar de sua importância demográfica e econômica. Desde meados dos anos 80.. Entretanto. essas instituições constatam que não conseguem acompanhar a demanda da agricultura familiar no âmbito social. 1996). a agricultura familiar subsiste no contexto das rupturas e dos limites ecológicos. Um interesse renovado pela agricultura familiar brasileira Hoje. os espaços geográficos e econômicos "desprezados" pelos grandes proprietários e empresas.49 - . irrigação. laranja. 1996). desvios dos esforços empreendidos pelo governo federal. seletiva e fonte de marginalização social e geográfica. café. ou seja. utilização intensa de adubos e pesticidas. Ela ocupa. 1997). 1998). mas também econômica. e concedem uma atenção particular ao contexto econômico e às condições ecológicas da produção (meio ambiente e qualidade dos produtos). cerca de 40% das unidades agrícolas de todo o Brasil (FAO. ela reagrupa cerca de 6. Elas entram em processo de avaliação e de redefinição de suas metas (Abramovay. as unidades agrícolas familiares ocupam 56% da população agrícola ativa. batata. ainda uma parte significativa da população nordestina. feijão. As características das estruturas sócio-políticas regionais e locais que predominaram até os anos 70 explicam. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística -IBGE . a agricultura irrigada representa um estágio de intensificação da atividade agrícola que não encontra. também. por 22% do total da área agrícola (o tamanho médio das unidades agrícolas no Nordeste é de cerca de 13 ha . etc. aproximadamente três milhões de famílias.

porém não foi capaz de fazê-Io sem a exclusão de um número significativo de pequenos produtores. . temas pouco explorado. Essa constatação leva a propor dispositivos específicos de apoio à agricultura familiar. as divergências sobre as modalidades de implantação de um conjunto coerente de ações são importantes. reconhece que a pesquisa se mostrou ineficaz em virtude da orientação de seus trabalhos que. como nos países desenvolvidos. pela ocupação desordenada do território nacional. pelo aumento dos preços dos alimentos perecíveis. Ao Estado e às instituições faltam. Essa síntese adota um caminho diferente. por exemplo. reduzir o êxodo rural. criar empregos. A agricultura familiar está cada vez mais presente nos discursos. uma social e outra neoliberal. entre duas visões. As condições e as formas de acúmulo e da reprodução da agricultura familiar e a gestão de sistemas diversificados são. reorganizar o espaço. em geral. A exclusividade concedida às pesquisas disciplinares realizadas em estação experimental não levava em consideração as condições de produção. Entretanto. Um consenso político real manifesta-se em torno do apoio que ela deveria receber. diminuir os preços dos alimentos perecíveis. A insuficiência dos conhecimentos disponíveis deixa o caminho livre para debates antes de tudo ideológicos. principalmente. Ela tem por objetivo ancorar a análise no diferente e no complexo. "A modernização provocou modificações indiscutíveis das características técnicas e econômicas da agricultura brasileira. sem valorizar a diversificação da produção da unidade agrícola nem as pesquisas econômicas e sociais sobre as "racionalidades" dos produtores e sobre os processos de inovação. manejar os recursos naturais de modo sustentável e atenuar a miséria. 04 a 10 de novembro de 2007. que seriam justificados pelas evoluções recentes do mundo agrícola e pelo contexto político. informações e dados sobre as múltiplas realidades encobertas pelo termo genérico "agricultura familiar". as instituições questionam-se sobre as formas que esse apoio poderia tomar para ser eficaz e sobre as condições da implementação de um programa de reforma agrária. Entre outras coisas. os produtores e os agentes de desenvolvimento não tinham vínculos com a definição e a aplicação prática dos temas e das atividades de pesquisa. principal entidade brasileira de pesquisa agronômica. 1994a). o discurso inflamado freqüentemente toma a dianteira. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). apesar do aumento da produção global. Os objetivos são.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG A Embrapa. Os programas de pesquisa trataram por muito tempo de uma cultura ou de um produto em particular. traduziu-se por uma deteriorização dos mercados urbano e rural do emprego. pela degradação do meio ambiente. visavam à concepção de modelos com alta produtividade biológica e com grande utilização de insumos. Entre a necessária redistribuição inter e intra-regional e a adaptação forçada a um mercado competitivo. 1994a)." (Embrapa.50 - . pela marginalização de mais de dois terços da população rural. este modelo de desenvolvimento. sem levar em conta a diversidade ecológica (Embrapa. quer no campo técnico. econômico ou social. Enfim.

pertencem a um pequeno número de latifundiários e capitalistas. O Sindicato. que a luta de classes atinge a sua plenitude. onde viviam os comerciantes e os artífices . alugar sua força de trabalho. Em compensação. Tudo o que o operário produz acima dessa quantidade de produtos necessária a sua manutenção. Portanto.. os instrumentos de produção etc. entretanto. mas sim por uma necessidade natural dos que vivem de salário. a burguesia. a sociedade se divide claramente em duas classes. por isso. Elas nascem como resultado do esforço espontâneo dos operários para impedir ou atenuar a exploração. A palavra surge do francês . O termo burguesia deriva de burgos. entre patrões e operários há uma constante luta pelo salário”. o capitalista necessita extrair o máximo de mais-valia. Os latifundiários e industriais contratam os operários. De um lado. Isto ocorreu no sistema escravista. os operários tratam de receber o maior salário possível para poder sustentar sua família com uma alimentação abundante e sadia. num longo processo iniciado a partir do século 17. desprovido de tudo. o proletariado. A expressão proletariado vem do latim da antiga Roma e designa os cidadãos que viviam à beira da miséria e que tinham uma prole numerosa. Para elevar os seus lucros. que é o trabalho excedente não repassado ao operário na forma de salário.os germes dos futuros industriais. não trabalha para si. e o faz por um salário. inerente ao capitalismo. “Denomina-se capitalismo a organização da sociedade em que a terra. .syndic .Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Origem e papel dos sindicatos Altamiro Borges13 Desde a divisão da sociedade em classes. É dessa luta cotidiana. dona dos meios de produção instalações. após a superação da comuna primitiva. que surgem as primeiras formas de organização dos trabalhadores. enquanto a massa do povo não possui nenhuma ou quase nenhuma propriedade e deve. Os patrões pagam aos operários exclusivamente o salário indispensável para que estes e suas famílias mal possam sub-existir. Compreende-se que os patrões tratem de reduzir o salário. obrigado a vender a sua força de trabalho aos capitalistas. É nesse último sistema econômico. no modo de produção asiático. obrigando-os a produzir tais ou quais artigos que eles vendem no mercado. Lênin. o patrão embolsa isso: isso constitui o seu lucro. sintetiza de maneira simples as características desse sistema. como a burguesia propaga. dirigente da revolução russa de 1917. viver numa boa casa e não se vestir como mendigos. é um fenômeno típico desse sistema. Ele só surge no modo de produção capitalista. objeto de nosso estudo. no feudalismo e ocorre até hoje no capitalismo. máquinas. quanto menos aos operários. a história das sociedades é marcada pela luta entre explorados e exploradores. Não aparecem por inspiração de “subversivos”. 04 a 10 de novembro de 2007. que eram as pequenas localidades nos arredores dos feudos. Portanto. Do outro. matérias primas etc. 13 Jornalista 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). as fábricas. mas para os patrões.que significa “representante de uma determinada comunidade”.51 - . a massa do povo trabalha para os outros. mais lucro lhes sobra. na economia capitalista. Com a queda do feudalismo na Europa.

nos séculos 17 e 18. É nesse momento. no livro “História da Riqueza do Homem”. Com o objetivo de atrair mão-de-obra livre. pelo aumento do seu poder aquisitivo. as mais precárias. Os salários serão os mais reduzidos e as condições de trabalho. Após muitas marchas e contramarchas. o operariado conta com a vantagem de se constituir em grande quantidade. com o surgimento das grandes fábricas. Num primeiro momento. também agravará as contradições entre capital e trabalho. por exemplo. a partir da introdução de novas máquinas. O desenvolvimento do capitalismo deixará evidente a contradição desse sistema. o depoimento de uma criança de 11 anos a uma comissão do parlamento inglês. eles vão congregar os operários das oficinas e das fábricas. certa vez”. Posteriormente. eles se generalizam. Através desses novos instrumentos.dirigida por Cromwell. Leo Huberman. Berço do capitalismo Os primeiros sindicatos nascem exatamente na Inglaterra . os trabalhadores têm a necessidade de lutar pela diminuição da taxa de mais-valia. Para extrair a mais-valia. focos de resistência à exploração capitalista. os sindicatos se tornam centros organizadores dos assalariados. são constituídos enormes contingentes de desempregados nos centros urbanos. com salários mais aviltados e em piores condições de trabalho. 04 a 10 de novembro de 2007. “se os sindicatos são indispensáveis para a guerra de guerrilhas cotidianas entre o capital e trabalho. os que produzem diretamente as riquezas . como forma de baratear o custo do trabalho através da concorrência. com a superação do trabalho artesanal. e por condições humanas de trabalho. que o capitalismo encontra plenas condições para se expandir e virar o sistema predominante. Nessa luta. em 1816: “Sempre nos batiam se adormecíamos. a burguesia se consolidou no poder. posteriormente da produção manufatureira e. fonte dos lucros. O capitalismo inglês vai viver a partir daí um intenso processo de desenvolvimento. acumulou capital e pode realizar a primeira revolução industrial . atingindo outros setores econômicos. pode introduzir a mulher e o menor no mercado de trabalho. Ele cita.no século 18.o setor dinâmico da sociedade capitalista. ela não necessita mais de mão de obra especializada do artesão. Nesse período.52 - .Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Essa é a lógica do sistema. são também importantes como meio organizado para a abolição do sistema de trabalho assalariado”. meados do século 18. em que a concorrência leva os empresários a uma incessante busca por maiores lucros . que representa a consolidação definitiva desse novo modo de produção.com a redução dos custos operacionais e a elevação da produtividade. a burguesia golpeia os artesãos e suas corporações. que Marx chamará de exército industrial de reserva. descreve esse brutal processo de rebaixamento do nível profissional. em 1640. Trabalhei toda a noite. com o desenvolvimento do próprio sistema. Foi nesse país que se realizou a primeira revolução burguesa da história . que tinham grande poder de barganha. Com as máquinas. Por sua vez. dobrá-la e dar-lhe em nós. Para cumprir esse papel. . Para Marx.considerada o “berço do capitalismo”. ela promoverá os famosos “cercamentos” no campo. aptos ao trabalho assalariado. expulsando os servos das glebas rurais para torná-los “homens livres”. a burguesia inglesa imporá jornada de trabalho que atingiam até 16 horas diárias. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). A introdução das novas máquinas. O Capataz costumava pegar uma corda da grossura do meu dedo polegar.

A própria burguesia que num primeiro momento aprovou a pena de morte. que quatro anos depois foi retomado com novas máquinas quebradas em Londres. Sua atitude. também conhecido como o movimento dos quebradores de máquinas. o Luddismo começou a ser superado como forma de luta da jovem classe operária. Aos poucos. vão gerar resistências entre os explorados. começou a dar sinais de assimilação dessa forma de luta. Que era um erro se contrapor ao desenvolvimento do próprio conhecimento humano. os Luddistas ingleses costumavam cantar uma música que se tornou conhecida. “Entre 1811 e 1812. “Os homens da Inglaterra”. os Luddistas espantaram a burguesia”. que trabalhava numa pequena oficina em Nottingham. . A legislação repressiva não conteve o Movimento Luddista. Afinal. ela constatou que não era a máquina a sua inimiga. As greves e os sindicatos. por exemplo. a classe operária passará por um longo processo de aprendizado até encontrar as formas mais eficientes de luta e concluir que sua união é fundamental para se contrapor ao poder do patronato.palavra que deriva do nome de um oficial inglês encarregado de administrar os negócios do conde Erne. Dessas primeiras lutas da classe operária nasceram belos escritos e poemas. a jovem classe operária viu nas máquinas o seu principal inimigo. será o boicote . da Irlanda. mas sim o uso que o patrão fazia dela. reproduzido no livro de Leo Huberman. não aparecerão num estalo de dedos. em 1812. esse operário destruiu totalmente os teares mecânicos da fábrica num sinal de revolta contra os efeitos da Revolução Industrial. Um das principais formas de luta foi o Luddismo. Sir Boycott era conhecido por seus métodos truculentos no tratamento com os empregados. É nesse período que se generalizava o seguro de patrimônio na Inglaterra e alguns patrões inclusive são flagrados destruindo suas máquinas para adquirir outras mais modernas. informa José Cândido Filho.53 - . Ele se recusava a negociar e os trabalhadores passaram a fazer o mesmo. seu gesto foi imitado em várias cidades da Inglaterra e atingiu também a França. como o de Shelley. 04 a 10 de novembro de 2007. que passou a dar maior atenção às condições de vida e de trabalho do proletariado. O movimento dos quebradores de máquinas também caiu no isolamento diante da sociedade. pela inserção da mulher e do menor nas fábricas em condições degradantes etc. entretanto. Newcastle. Esse processo de luta passará por longas experiências. cidade próxima de Londres. “De pé ficaremos todos/E com firmeza juramos/Quebrar tesouras e válvulas/E arrasar todas as máquinas”. Em pouco tempo. uma lei que punia com a pena de morte os “quebradores de máquinas”. quando quebravam as máquinas. reduzindo-se a pequenos grupos de trabalhadores que destruíam máquinas e espancavam os cientistas que as inventavam. Glasgow. O termo Luddismo deriva do nome do operário têxtil Ned Ludd.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Todas essas condições de exploração. A revolta operária repercutiu também entre a intelectualidade da época. Inexperiente. “A História da Riqueza do homem”. O parlamento Inglês. apesar de individual. expresso os avanços da tecnologia. Segundo José Cândido. aparentemente a máquina é que era responsável pelo desemprego dos trabalhadores especializados. Outra forma de luta que será utilizada na infância da classe operária. refletia o estado de espírito dos artesões. Segundo pesquisas. Mas experiente. propondo que os moradores do povoado não 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Preston. Dundee e outras cidades. próprias do novo sistema econômico. discutiu o assunto e aprovou. que nunca tratara da questão operária. Antes. autor do livro “O Movimento Operário: O Sindicato e o Partido”.

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consumissem os produtos do Conde Erne. Este teve um grande prejuízo e afastou o oficial
inglês do cargo. A sabotagem também será usada nesse período como mecanismo de
pressão dos trabalhadores por seus direitos. O termo tem origem francesa e significa
"tamanco". Os operários franceses usavam esse tipo de calçado para danificar as
máquinas, emperrando a produção.
O salto na ação desse jovem proletariado vai se dar com o recurso da greve uma forma de luta mais avançada para pressionar o patronato. Segundo José Cândido, “A
origem do termo, liga-se à Praça da Greve (place de grève), atualmente praça do Hotel De
Ville, em Paris. Quando desempregados ou para tratarem de assuntos relativos ao
trabalho, os operários costumavam reunir-se ali. Faire grève (fazer greve) significava,
portanto, reunir-se na praça da greve. A greve foi o recurso de luta de maior eficácia nesse
período, tanto na Inglaterra, como nos demais países em que o capitalismo foi
introduzido. Esse recurso se espalhou pelo mundo, sendo encarado de diversas formas.
Para alguns, defensores da manutenção do sistema capitalista, como simples mecanismo
regulador do mercado de trabalho. Para outros, no caso dos Anarquistas, como um fim em
si mesmo. “A greve é tudo”, dirá Bakunin - um dos principais teóricos do movimento
ácrata.
Já para os revolucionários, a greve será vista como uma das principais
armas na luta de guerrilha entre capital e trabalho e como poderoso instrumento de
elevação da consciência e do nível de organização do proletariado. O dirigente da
revolução russa de 1917, Vladimir Ilitch Lênin, escreveu um texto sobre as greves.
Sindicato Clandestino
É nesse processo da luta que a classe operária sentirá a necessidade de se
organizar. É dele que surgirão os sindicatos que na Inglaterra têm o nome de trade-unions
- que significa união de ofício, de profissões. Essas jovens entidades de trabalhadores não
terão as mesmas características dos sindicatos atuais - que conquistaram o
reconhecimento legal, têm sedes, diretores afastados e gozam do direito de negociar com
o patronato. Pelo contrário. No século 17, período de surgimento das trade-unions, elas
serão clandestinas, com muita dificuldade de atuação. A burguesia verá nelas um grande
perigo. Seu temor é que elas unam o grande número de trabalhadores, até aqui dispersos
e vivendo em concorrência entre si pelo emprego. Há registro de associações de
trabalhadores com caráter sindical desde 1699. Nesse ano em Londres, uma greve dos
operários têxteis assustou o governo e a jovem burguesia - que ainda se constituía
enquanto classe. É só no século 18, quando a revolução industrial tomou impulso na
Inglaterra, que os sindicatos vão se generalizar para evitar seu crescimento, o parlamento
inglês aprova em 1799 a combination law, a lei sobre associações que proíbe o
funcionamento de sindicatos.
A violência da burguesia se dará em vários terrenos. No campo legal, elas
serão proibidas. A primeira lei que garantirá a livre associação dos trabalhadores só será
aprovada em 1812, na câmara dos Lordes, em Londres. Além de usar o aparato policial
do Estado para reprimir essas entidades, a burguesia inglesa - e posteriormente de outros
países - também utilizará as milícias privadas. Os jagunços, que hoje são uma marca do
campo em nosso país, já foram muito usados pelo patronato nos centros urbanos. Alguns
se tornaram famosos como o bando Pinkerton, dos EUA - uma poderosa agência de
pistoleiros contratada para reprimir greves e assassinar lideranças operárias.

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Para se proteger dessa violência, no inicio as trade-unions agem totalmente
na clandestinidade. As reuniões são secretas; não há sedes sindicais, campanhas
massivas de sindicalização, nem mesmo negociação direta com o patronato. Algumas
trade-unions inclusive formulam “códigos de participação”, com normas para garantir a
sobrevivência da entidade. Elas fixam a triagem dos trabalhadores que devem ser
convidados para as reuniões clandestinas. A entidade dos têxteis, por exemplo, prevê um
período de observação de dois anos para avaliar se o trabalhador não é dedo-duro,
infiltrado do patrão. Só depois ele é convidado a participar das reuniões. O seu código fala
também de justiçamento dos delatores, compondo um braço armado para amedrontar os
traidores em potencial.
Aos poucos, no entanto, as trade-unions inglesas vão se consolidando. Elas
dirigem mais greves, maiores protestos. Deixam o patronato num dilema. Já que são
proibidas, o empresário não tem como negociar em momentos de greve. Isso gera
grandes prejuízos, principalmente quando não há estoques e surgem encomendas de
produtos. Diante desse crescimento das lutas operárias, é que o parlamento da Inglaterra
irá aprovar, em 1824, a primeira lei sobre o direito de organização sindical dos
trabalhadores. Essa conquista permitirá um poderoso aumento da força do sindicalismo.
Em todos os ramos industriais formam-se trade-unions. Também surgem as “caixas de
resistências” para apoiar financeiramente os grevistas.
O outro avanço nesse período será a organização de federações que
unificam várias categorias. Em 1830 é fundada a primeira entidade geral dos operários
ingleses - a associação nacional para a proteção do trabalho. Ela reunirá têxteis,
mecânicos, ferreiros, mineiros e outras profissões. Chegará a ter cerca de 100 mil
membros e editará um periódico, A Voz do Povo. Na vanguarda do movimento operário
inglês dessa época estarão os têxteis, principalmente os da concentração industrial de
Lancashire. Em 1866, com o avanço da industrialização em outros países, será realizado
o primeiro congresso internacional das jovens organizações de trabalhadores de vários
países. Ela representará um grande salto na unidade dos assalariados, que será
materializado com a fundação da associação internacional dos trabalhadores (AIT),
também conhecida como a primeira internacional.
Apesar de possibilitar um avanço da organização sindical, a lei de 1824 é
contraditória, tendo duas características distintas. Em primeiro lugar, reflete a própria
pressão organizada dos trabalhadores. Em segundo, também indica uma mudança
estratégica da burguesia inglesa. Tanto que a lei foi aprovada na câmara dos Lordes, que
reunia apenas a aristocracia inglesa. Com ela a burguesia procura novos métodos para
controlar o movimento operário. Ela não poderia abandonar o seu projeto de dificultar a
luta e a união dos trabalhadores - fundamental para sua sobrevivência enquanto classe.
Como não era mais possível proibir as trade-unions, ela adota novos meios
de interferir. Como a história vai demonstrar, mesmo legalizados, os sindicatos podem ser
reprimidos. Neste período, muitos industriais pressionarão os operários exigindo a
renúncia formal à participação das trade-unions, como forma de garantir o emprego. A
força policial continuará a ser acionada, deixando um rastro de sangue em toda a
trajetória do movimento sindical. A legalização também permitirá identificar as lideranças,
o que pode facilitar o trabalho de cooptação e corrupção - processo muito usado até hoje
pelo patronato. Além disso, é possível implantar toda uma legislação de controle dos
sindicatos - como a que existiu no Brasil após o governo de Getúlio Vargas.

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Ainda nesse período, fruto da experiência concreta, o proletariado também
desenvolverá a luta política, superando a pressão apenas por reivindicações de caráter
econômico e específico. Surge o movimento cartista na Inglaterra, que representou um
salto na ação operária. O nome deriva de uma “carta”, elaborada em 1837-38, em que os
trabalhadores reivindicam maiores liberdades políticas: direito de voto para todos,
abolição do sistema pelo qual só podiam se candidatar os que tivessem renda, voto
secreto etc. Em seu conteúdo, o cartismo já expressara a luta por liberdades
democráticas e socialistas. Ele será duramente reprimido - com inúmeros cartistas,
sofrendo processo criminal - de “alta traição” - e muitas condenações.
Em outros países, o proletariado participará de ações políticas, sendo a mais
célebre participação na Comuna de Paris. Essa foi a primeira experiência em que a classe
operária alcançou o poder político. Sua duração foi curta - de fim de março a fins de maio
de 1871. Num primeiro momento, a sede do novo poder se instalou na Câmara Federal
dos Sindicatos franceses que também era o local de reuniões da sessão parisiense da
AIT. Essa experiência, que não se alastrou e serviu de base para novos estudos dos
marxistas, foi violentamente reprimida. As tropas do exército francês, que pouco antes
havia sido derrotadas e tornadas prisioneiras pelos alemães, foram libertadas e colocadas
a disposição do governo da França, de Thiers, por ordem e Bismarck. A burguesia
superava as suas divergências para esmagar o movimento operário. A luta contra a
comuna durou uma semana. Mais de 14 mil combatentes foram mortos na guerra ou
foram sumariamente fuzilados; 5 mil operários foram deportados e outros 5 mil
encarcerados.
O próprio Karl Marx, um dos idealizadores da AIT, já havia apontado essa
necessidade de ação política ao proletariado. “O fim imediato dos Sindicatos concretiza-se
nas exigências do dia a dia, nos meios de resistência contra os incessantes ataques do
capital”. Numa palavra, na questão do salário e da jornada de trabalho. Essa atividade
não só é justificada, como necessária. Não podemos privar dela enquanto perdure o modo
atual de produção. Ao contrário, é preciso generalizá-la, fundando e organizando
sindicatos em todos os países. Por outro lado, os Sindicatos, sem que estejam
conscientes disso, chegaram a ser o eixo da organização da classe operária. “Se os
sindicatos são indispensáveis para a guerra de guerrilhas cotidianas entre o capital e o
trabalho, são também importantes como meio organizado para a abolição do próprio
sistema de trabalho assalariado”.
Papel dos Sindicatos
Nessa primeira fase de existência, o sindicalismo vai demonstrar que é um
instrumento indispensável para os assalariados. Com a expansão do capitalismo, que se
torna o sistema predominante a partir do século passado, os sindicatos vão se espalhar
pelo mundo. Deixam de ser um fenômeno na Inglaterra. Num processo dialético, em que o
capital impera, suas contradições aparecem, as lutas operárias têm início e,
conseqüentemente, surgem os sindicatos. Todos os avanços sociais, mesmo que
pequenos ou parciais, serão fruto dessa luta e da formação dos sindicatos. Nada será
dado de mão-beijada pelo capital; nada cairá do céu. Cada nova reivindicação
apresentada pelos trabalhadores representa, num primeiro momento, a redução da taxa
de mais-valia do patrão. Por isso, depende de luta, de pressão organizada. A história da
legislação trabalhista no mundo será a história da luta de classes, em que os sindicatos
jogarão um importante papel.

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e com os metalúrgicos de Osasco que. 04 a 10 de novembro de 2007. a luta sindical perdurou durante um grande período do pós-64 sem atingir plenamente os seus objetivos. com a greve dos trabalhadores e trabalhadoras da Belgo Mineira em Contagem-MG. em 1967. SANTANA. desde a instauração da ditadura militar no Brasil em 1964. desempenharam um papel importante na organização das ações dos trabalhadores e trabalhadoras. Mas. Por outro lado. . Jones Dori Goettert 15 Cf. mesmo sobre forte pressão os trabalhadores e trabalhadoras se organizam e realizam. Os trabalhadores e trabalhadoras enfrentaram. Em 1969. No entanto. As fortes repressões não permitiram que entre 1964 e 1977 houvesse praticamente nenhuma greve ou outras formas quaisquer de manifestação. é importante registrar o papel que a União Nacional dos Estudantes (UNE) desempenhou nesse período. mesmo com a manifestação contrária de alguns grupos de trabalhadores e trabalhadoras que paralisavam isoladamente algumas fábricas afrontando e contestando a política econômica do governo militar ditador. não conseguiram disciplinar as entidades com a ordem social vigente15. a II Conferência Nacional de Dirigentes Sindicais. o Ministro Jarbas Passarinho através de um decreto intervém em vários sindicatos. Em vários 14 Cartilha de Formação CNTE. quando as manifestações ganham as ruas e o interior das fábricas. uma forte repressão às organizações que lutavam contra as políticas salariais que arrochavam o poder de compra e as condições de vida de toda a classe. 2001. mas sem eliminar totalmente o “germe” da subversão que se manteria vivo e crescente até o final dos anos 70. afastando os seus dirigentes que. O governo ditador procurou atacar as cúpulas dos sindicatos realizando intervenções nas organizações. O movimento dos trabalhadores e trabalhadoras organizados em sindicatos ainda conseguiu causar grandes problemas para os ditadores em 1968. fundada em 1937. por mais “irrelevantes” que fossem. desmantelando as estruturas já construídas anteriormente e impedindo qualquer tipo de articulação dos operários que intuísse a formação de um grupo opositor organizado. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). marcando posição contrária à política de arrocho salarial e buscando construir junto aos operários as comissões sindicais de trabalhadores e trabalhadoras. em sua opinião. Essa situação de perseguição de lideranças e de intervenção nas entidades por parte do governo ditatorial continuou.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG HISTÓRIA DO MOVIMENTO SINDICAL14 De 1964 aos nossos dias O golpe militar de 1964 colocou às escuras os movimentos sociais e grevistas que tiveram grande atuação no período 1959/1963. sobretudo. com um forte sindicato.57 - . tem logicamente desempenhado um papel importante na história política nacional. A UNE. As ações do governo também se tornavam duras em relação a qualquer manifestação ou postura de contestação.

a diversidade interna dos grupos que a compunham. 1986. No período pós-60. o AI – 5. PSB. é claro. SEGAL. em que o país viveu um momento político e econômico conturbado. que claramente se posicionavam contrárias ao regime ditatorial militar imposto em 1964. mesmo durante esse período vários sindicatos tentaram. através da organização no “chão das fabricas” fazer frente ao processo de controle sobre o aumento de salários baseado no AI-5. SANFELICE. a ditadura militar demonstrava ainda mais sua truculência e arbitrariedade. As greves começaram a ressurgir no ano de 1978. quando os trabalhadores e trabalhadoras. partido do governo. estavam institucionalizadas. Mas. A posição da UNE frente ao governo continuou sendo a de desaprovação. agora. Ao fechar o Congresso e instituir um bi-partidarismo que forjava uma falsa idéia de democracia com o MDB como “oposição” consentida à ARENA. de 1968. Confederação Geral dos trabalhadores e trabalhadoras e as Ligas Camponesas). a violência sem limites. o assassinato. como inimigos da ordem estabelecida. Uma ordem que não trouxe para a maior parte da população. que procurava remodelar e enquadrar o movimento estudantil na “nova ordem social” ditada pelos militares16. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). 04 a 10 de novembro de 2007. Suas práticas. e mesmo sendo formada em grande parte por estudantes de classe média. firmou-se como uma entidade de força política na coordenação das mobilizações e ações dos estudantes. a UNE procurava demarcar as suas posições ideológicas considerando. PTB. acentuou-se drasticamente com o Ato Institucional número 5. Apesar das suas várias tendências internas.58 - . nenhuma melhora em suas condições de vida17. um pouco distantes da dura realidade vivida pelos trabalhadores e trabalhadoras.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG momentos dessa história. a UNE se uniu aos demais oposicionistas à ditadura (como o PCB. com a manifestação constante do operariado e com a insatisfação dos trabalhadores e trabalhadoras rurais exigindo reforma agrária. 17 Cf. mesmo que timidamente. organizando manifestações e sofrendo uma violenta repressão como resposta. em diversos casos. Já para os militantes de esquerda envolvidos em ações políticas. principalmente num passado recente. mas comungando com os ideais de transformação social (o que pouco tempo depois colocaria a entidade na mira dos ditadores). o AI . à tortura e. A perseguição e repressão sobre os estudantes.5 instaurou a prisão arbitrária. FPN. sindicalistas. manifestações e organizações contrárias à ditadura. trilhando em conjunto o caminho da luta pela redemocratização. 2001. O AI-5 anulou o Estado de Direito no Brasil firmando um governo de direita autoritário. orientar as bases para continuar reivindicando e se contrapondo às políticas de arrocho salarial. e claramente para a grande parte da classe trabalhadora. práticas de repressão política contra todos aqueles que pudessem ser enquadrados ou que se caracterizassem minimamente como subversivos. trabalhadores e trabalhadoras e intelectuais. . já no máximo de sua condição de exploração e percebendo o momento 16 Cf.

abertamente. p. “o terreno de suas funções sindicais. O “novo sindicalismo” extrapolava. que também procurava abarcar outras questões. que o movimento dos trabalhadores e trabalhadoras assume outros patamares. lutam pela democracia: fala-se hoje. os metalúrgicos. é em seu “centro nervoso”. estão ligadas não só à resistência política contra a ditadura.59 - . em 1977. indo além das questões trabalhistas dos primeiros movimentos e estabelecendo a bandeira da democratização política do país19. As greves passaram a ter um crescimento anual considerável.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG político favorável. que passou a ser o momento mais propício para o enfrentamento político. e que tem o ABC paulista como palco inicial. No início de março de 1979. portanto. Os operários enfatizavam que a empresa não havia cumprido o acordo de readmissão de trabalhadores e trabalhadoras dispensados em protestos anteriores. 31. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. mesmo assim os trabalhadores e trabalhadoras mantêm a posição e conseguem novas adesões ao 18 MOISÉS. além das salariais. de inserção no processo de luta da democracia. de confronto com os limites impostos pelo autoritarismo no Brasil ao pleno exercício da cidadania dos trabalhadores e trabalhadoras. de forma a aumentar a participação e a atuação dos trabalhadores e trabalhadoras na política nacional. mas também se contrapõem às investidas políticoeconômicas do capital que arrochavam os salários e aumentavam a exploração do trabalho. O acontecimento primeiro desse período de grande movimentação foi à greve dos trabalhadores e trabalhadoras da Saab-Scania. Essas manifestações aconteciam e continuaram seguindo esta lógica durante algum tempo. o ABC paulista. que os trabalhadores e trabalhadoras são a espinha dorsal do movimento democrático brasileiro”. envolvendo cada vez mais categorias de trabalhadores e trabalhadoras e tendo à frente os operários das fábricas produtoras de automóveis. Contudo. O movimento alastrou-se extrapolando o ABC e chegando a outros municípios como São Paulo e Osasco. 04 a 10 de novembro de 2007. A partir de 1978. 1982. alcançando Minas Gerais. . mesmo com a decisão do Tribunal Regional do Trabalho de considerar a greve ilegal. As manifestações dos trabalhadores e trabalhadoras que se avolumam no final da década de 70. acabando por atingir outros setores da economia. e redefiniu-se em face do conjunto de agentes que. no Brasil. os trabalhadores e trabalhadoras do ABC entram em greve: são por volta de cinqüenta mil trabalhadores e trabalhadoras parados. Com a greve iniciada em 1978 o movimento expande-se e ganha força em outros estados brasileiros. 19 Cf. porque sem eles qualquer “abertura” ou “liberalização” apenas reconstruiria o círculo vicioso da crise do regime autoritário18. com início em 12 de maio de 1978. 2001. Nascia o “novo sindicalismo”. começam a se manifestar e a exigir melhorias no salário que possibilitassem a melhoria das suas condições de vida e de trabalho. constitui-se um amplo movimento social de massas. Estas manifestações continuariam crescendo durante o ano de 1979. A greve estende-se para o interior e o governo a declara ilegal. de democratização interna. SANTANA. nos momentos de negociação de salários (a data base de cada categoria).

esta a tendência do PT: a busca da democracia plena exercida pela massa organizada e participativa. que viam o seu poder de compra diminuído a cada mês. O governo. Será.PT. 04 a 10 de novembro de 2007. que tem gravado em seu manifesto de fundação as idéias básicas de um projeto que visa à construção de uma sociedade igualitária. É nesse momento de agitação e de organização dos trabalhadores e trabalhadoras que surgem a Central Única dos trabalhadores e trabalhadoras . sem explorados nem exploradores20. SILVA. sempre articulado a outras formas de luta organizada como os sindicatos e demais associações populares. declara a intervenção nos sindicatos e deflagra uma série de confrontos em praça pública entre trabalhadores e trabalhadoras e policiais. O PT levanta bandeiras que extrapolavam as questões salariais e que visavam transformações políticas e sociais bastante profundas. que colocavam em questão o regime de governo autoritário dos militares. estabelecendo-se nesse período como uma importante organização política e social e fazendo frente de forte oposição ao governo Figueiredo e depois ao governo Sarney. O movimento continua até o dia 27 de março quando os trabalhadores e trabalhadoras resolvem aceitar a proposta feita pelo patronato. Com o passar de dias de greve o Ministério do Trabalho resolve intervir na negociação. é impulsionada pelo momento histórico-político de grandes 20 Cf. A inflação crescente combinadas ao baixo rendimento dos salários deteriorava as condições de vida dos trabalhadores e trabalhadoras.CUT e o Partido dos Trabalhadores e trabalhadoras . que se baseava de forma clara em um projeto político anticapitalista. demarcando fortemente nesse período uma tendência ideológica socialista. que continua nos anos 80 do século XX. contudo. e em alguns dias são mais de 170 mil trabalhadores e trabalhadoras parados. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). no começo dos anos 80. 2000. dos 16 membros que a compunham. A ascensão da CUT.Central Única dos Trabalhadores. tiveram então como grande elemento aglutinador da classe trabalhadora a questão salarial. Segundo Ozai da Silva (2000).60 - . nos anos 80. . A CUT tornou-se o inimigo número um das políticas governistas e se firmava como a Central que aglutina o maior número de entidades filiadas. tem como pano de fundo o crescimento dos movimentos sociais organizados no Brasil e as intensas lutas dos operários do ABC paulista. sinalizando para uma nova forma de sindicalismo. ainda no regime militar. elaborando propostas que não convencem os trabalhadores e trabalhadoras. que era composta por 12 dirigentes sindicais.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG movimento que se espalha para o interior. então. que estabelecia o prazo de 45 dias para negociação de um piso satisfatório. sendo a participação dos sindicalistas o elemento fundamental para a formação e a caracterização do partido. criada em 1983. assim como o crescimento do PT. na esfera da política institucional. O contexto de formação do Partido dos Trabalhadores. em especial. A insubordinação dos sindicatos e o crescimento do movimento grevista. O PT surge como instrumento necessário de organização e de luta dos trabalhadores e trabalhadoras na política nacional. aglutinava as correntes sindicais mais ativas. fazendo frente às políticas de degradação das condições de vida da classe trabalhadora. de 1979. Já a CUT . essa afirmação pode ser feita com base na análise da formação da primeira Comissão Nacional Provisória.

forçasindical.017 sindicatos de base. por outro.600. passou a Confederação Geral dos Trabalhadores e trabalhadoras. uma ação estratégica mais propositiva. quando foi criada a Confederação Geral dos Trabalhadores e trabalhadoras Brasileiros passando por mudanças. para construir uma central forte. filiadas que representam 8. para Confederação Geral dos Trabalhadores e trabalhadoras. sobre um sindicalismo de “conformismo paralisante”. o sindicalismo brasileiro caminha na contramão dos sindicatos no resto do mundo.61 - . 04 confederações nacionais e 35 federações nacionais /regionais e estaduais A Força Sindical22.br 23 A referência base das informações sobre a Força Sindical foi o site da Central. aberta ao debate interno e com a sociedade”. datando de 1929.000 filiados). em especial. é uma sigla histórica. surge a partir de críticas ao sindicalismo em curso no Brasil. com a implantação do modelo econômico neoliberal. O 21 Site: www. com filiais em 21 Estados e conta com 1. em 1986.org. Antes de prosseguirmos. a CUT procurou na década de 1980. A Força Sindical passou. segundo informações em seu site. para Comando Geral dos Trabalhadores e trabalhadoras (esmagado pelo golpe de 1964). A superação dessas formas de sindicalismo seria possível na medida em que se lançasse “o movimento dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiros à modernidade. A Confederação Geral dos Trabalhadores . foi criada em 1991 a partir de Congresso em São Paulo. mas também de saber negociar. autônoma. à CUT) e. de acordo com Alves (2000).CGT21.cgt. no Brasil vivia-se o que se denominou a década de explosão do sindicalismo. é importante destacar a criação das duas outras maiores Centrais Sindicais brasileiras: a CGT – Confederação Geral dos Trabalhadores e trabalhadoras e a FS – Força Sindical.br 22 Site: www. segundo informações em seu site. . Enquanto nesses países os sindicatos entravam em depressão por falta de participação e por perder poder político. livre. em 1991. hoje abrange todo território brasileiro. a CUT procurou estabelecer. capaz de endurecer quando preciso. firmar um projeto de organização e ação dos trabalhadores e trabalhadoras. 04 a 10 de novembro de 2007. Nesse período. após o seu IV Congresso realizado em São Paulo. com o fim da ditadura e com a crise do Estado e da economia hiperinflacionada. em 1945. Com as mudanças políticas e econômicas ocorridas até o começo dos anos 90.org.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG transformações. inclusive em relação a alguns países na América Latina como a Argentina. Com uma atuação política constante. pluralista. a empreender esforços no sentido de pragmatizar as lutas com “conquistas reais para os trabalhadores e trabalhadoras”. a crítica recaia sobre um sindicalismo de “radicalismo estéril”23 (crítica. o que corresponde a 2. em 1962.056 entidades sindicais. mantendo uma postura reivindicatória e que tinha como principal instrumento de ação e pressão e a greve. classificado como “sindicalismo defensivo”.669. representados por: 1. então. A CGT. De um lado.000 trabalhadores e trabalhadoras (dos quais 30% são sindicalizados. elaborando propostas de políticas que poderiam ser discutidas em fóruns que contassem com a presença de representantes não só dos sindicalistas. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). mas também do governo e do empresariado. para Central Geral dos Trabalhadores e trabalhadoras (início da reestruturação) e 1988.

pelas grandes reformas – previdenciária. tendo em vista que suas bases fundamentais – como o imposto sindical. baseada no contrato coletivo de trabalho – tivesse sido derrotada pelo empresariado e pelos setores mais conservadores do próprio movimento sindical. a pluralidade e a democracia. 1997. vinha a reordenar a organização e a gestão da produção fabril que até então 24 LEITE. p. 25 LEITE. embora a proposta pela qual os setores de ponta do sindicalismo vinham lutando ao longo de todos esses anos – de superação da estrutura sindical corporativa e de sua substituição por uma institucionalidade sindical democrática. não era visto como um bom negócio para o capital. . agrária. A Força Sindical se assenta sobre um discurso que acentua o moderno. política. a classe trabalhadora. ele permitiu um significativo aumento da liberdade de organização e ação sindical. 17. Mesmo que o processo de surgimento e desenvolvimento do “novo sindicalismo” “não tenha sido suficiente para desmontar totalmente a estrutura sindical corporativa erigida desde os anos 30. do judiciário. o monopólio da representação pelo sindicato. que se utilizava dos baixos salários pagos ao operariado como principal elemento da competitividade da indústria nacional. e o “1o de Maio pelo Brasil – por Emprego. portanto. começava a sofrer as transformações nas relações de trabalho e de produção que sinalizavam para transformações que iriam reestruturar o processo produtivo fabril. O aumento de salário requerido pelos trabalhadores e trabalhadoras. Pode-se afirmar.62 - . em 1999. Essa resistência dos trabalhadores e trabalhadoras ia de encontro às políticas de exploração do trabalho estabelecidas pelo capital industrial brasileiro da época. sobretudo o operariado fabril dos anos 80. p. ao conquistar uma capacidade de intervenção política inédita na história do país. tornando-se um dos elementos mais importantes da constituição da hegemonia do capital sobre o trabalho nos anos 80 e 90 do século XX. Apesar do crescimento e da força do movimento operário dessa época. os sindicatos viviam um processo generalizado de enfraquecimento”25. quando. Essa reestruturação tinha como um de seus principais aspectos a inserção de novas tecnologias que visavam à diminuição quantitativa da exploração da força de trabalho e a verticalização da exploração qualitativa. 1997.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Centro de Solidariedade ao (a) trabalhador (a). o “1º de Maio pelo Emprego” em 1998. suas lutas deixaram marcas”24 profundas. fiscal e sindical e pela flexibilização das leis trabalhistas – dando-se status à negociação livre entre empregadores e empregados com o apoio dos sindicatos e das centrais”. “que o movimento sindical brasileiro esteve na contramão da tendência histórica predominante durante a década de 1980. Na verdade. Com isso. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). conseguia colocar seus produtos no mercado a um preço menor que os internacionais. em nível internacional. Essa reestruturação produtiva do capital que começava a se desenhar no Brasil nos anos 80 e que já estava a pleno vapor nos países de centro da economia capitalista. Educação e Qualificação Profissional”. assim como “a luta pela aposentadoria. nesse sentido. a Qualificação Profissional. 04 a 10 de novembro de 2007. 17. o princípio da unicidade sindical e a estrutura confederativa – foram mantidas. foram resultados dessa forma de se construir e de se fazer sindicalismo.

que mais uma vez se viu arcando com o ônus 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). sindicatos e demais organizações. Uma das formas de resistência foi à proposição da instalação das Comissões de Fábrica e a intervenção sindical no processo de decisão da inserção de novas tecnologias no processo produtivo. o processo eleitoral que elegeria. no segundo turno. possibilitando a luta dos trabalhadores e trabalhadoras concomitantemente às transformações. com a reformulação tecnológica de parques industriais em pouquíssimo tempo. a década foi também um período de inflação muito alta e de recessão econômica com aumento do desemprego. O processo de abertura da economia brasileira seguiu tornando-se mais agudo com os governos posteriores. Para os capitalistas. Esse novo arranjo do capital encontra ainda uma força de trabalho organizada. Um dos mais importantes fatos desse momento foi. no Brasil as transformações aconteceram rapidamente. que procurava fazer resistência à ação avassaladora do capital. procurando minimizar os danos e os prejuízos que o operariado sofreria com esse novo modelo de produção. Em 1989 tivemos o enfrentamento. Implanta uma política de importação de bens de consumo e de produção. pelo voto direto. dando os primeiros retoques para liberalização da economia ao iniciar o processo de privatização das empresas estatais brasileiras. com amplo e irrestrito apoio da imprensa nacional (leia-se Rede Globo). Uma que tinha como candidato Luís Inácio “Lula” da Silva. fantoche criado pela burguesia e pelo poder político conservador e demais larápios nacionais. sem dúvida. Dois anos depois tem o mandato cassado por corrupção. que contava com o apoio de uma ampla gama de organização dos trabalhadores e trabalhadoras. É claro que os prejuízos desse processo foram transferidos para a classe trabalhadora. o período de 1980 a 1990. Devemos lembrar que.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG estava montada totalmente nos moldes do esquema de produção taylorista/fordista. o novo presidente do Brasil. Por outro lado. O desfecho não poderia ser pior: Fernando Collor de Melo é eleito presidente com o discurso da necessidade da abertura econômica. era candidato Fernando Collor de Melo. é marcado pelo fim da ditadura militar (1985). com a abertura e a liberalização da economia realizada por Fernando Collor de Mello. de duas frentes bastante diferentes. colocando em risco o processo de acumulação e reprodução do capital. Nesse modelo o descontentamento e a organização dos operários era crescente. esse era o começo da implantação da acumulação flexível baseada no toyotismo. e pela instalação de um governo civil proclamada como a retomada da democracia no Brasil. e que ganharia força no Brasil a partir dos anos 90. se esse movimento seguiu um processo temporalmente mais lento nos países de primeiro mundo. Mas o estrago já estava feito. fatores que colaboraram para uma diminuição das ações reivindicatórias dos trabalhadores e trabalhadoras que se viam pressionados pelo crescente desemprego estrutural. . 04 a 10 de novembro de 2007. do outro lado. ex-líder operário e um dos fundadores do PT. É que.63 - . o ritmo de instalação das novas tecnologias foi bastante forte e agravado pela falta de condição e de tempo que os trabalhadores e trabalhadoras tinham para se contrapor a esse movimento. Mas. organização do processo produtivo criada no Japão e exportada como modelo para os demais países capitalistas.

noutras regiões e setores do país devido à implantação de políticas econômicas que abrem o mercado brasileiro para produtos externos. também. com o governo se empenhado em seguir amplamente a “cartilha” do Fundo Monetário Internacional. impedindo que este tivesse qualquer benefício estipulado por Lei.64 - . As transformações do modo capitalista de produção têm se realizado no Brasil com mais força no âmbito da implantação de políticas de cunho neoliberal e procuraram. mas o faz. um fenômeno que afetou e afeta. 1997. A implementação pelo governo federal de um modelo político econômico centrado no neoliberalismo. a situação do movimento operário muda significativamente com a chegada dos anos 90. 04 a 10 de novembro de 2007. Fernando Henrique Cardoso. dentre outras ações. favorecendo sobremaneira o primeiro. mais trabalhadores e trabalhadoras buscam na informalidade formas de ocupação. 17-18. as ações do governo FHC procurou estimular o surgimento de relações de produção. aumentando de maneira extremamente rápida os níveis de desemprego no país. que de acordo com os princípios liberais não deveria intervir no movimento do mercado. . diminuindo o consumo de produtos internos e desencadeando um processo gerador de mais desemprego. diminuindo gastos na esfera social e contribuindo na soma das transformações estruturais do processo de produção capitalista em nível mundial. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). sem impedimento legal e reduzindo a contestação no campo institucional formal por parte dos sindicatos. tornou a relação entre capital e trabalho mais injusta no Brasil. 26 LEITE. não se encontrava preparado”26. como a automobilística. A partir de 1994. com a eleição do Presidente. Nesse sentido. ao mesmo tempo em que. pp. houve um número crescente de trabalhadores e trabalhadoras brasileiros vivendo o drama do desemprego. tem-se um aumento da miserabilidade de grande parcela da população brasileira. Com a criação de contratos temporários que deixaram o trabalhador e a trabalhadora desprovidos de qualquer direito. privatizando as empresas estatais. que se contrapunham às Leis Trabalhistas vigentes. sobretudo as regiões de grandes indústrias. Mas. As ações das instituições governamentais revelaram a face intervencionista das instâncias burocráticas do Estado. forçou as empresas a acelerar seus processos de reestruturação produtiva.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG necessário a ser pago para o “bom desempenho” dos indicadores da economia nacional. de maneira geral. Neste novo contexto de reestruturação do capital mundial. desde que seja para utilizar o poder político institucional para a otimização das condições de reprodução do Capital. que tem reflexos. Com as dificuldades políticas e econômicas conjunturais locais. Isso acabou barateando o custo do Trabalho para o Capital. Conseqüentemente. ao abrir abruptamente a economia brasileira. “A política econômica neoliberal inaugurada pelo governo Collor em 1990 jogou o país numa profunda crise recessiva. Montado no discurso de geração de postos de trabalho. garantindo às empresas maior flexibilidade no uso e desuso da força de trabalho. agora na era da mundialização dos capitais. gerando novos desafios para os quais o movimento sindical. a política adotada foi a de continuidade da implementação das políticas neoliberais iniciadas por Fernando Collor de Melo. acabar com os “entraves” gerados pelas leis trabalhistas na relação Capital/Trabalho.

Desta forma. O fenômeno crescente do desemprego e da precarização do trabalho. Assim. o discurso ideológico que sustentava as ações governamentais estava fundado no liberalismo econômico. 04 a 10 de novembro de 2007. Neste sentido. frente à “intempéries” do mercado e das investidas extremas de espoliação dos empregadores. como forma de evitar o aumento do desemprego.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Nesse período. contando muitas vezes com a participação de algumas organizações sindicais. que precariza o emprego e. Enquanto o discurso oficial pregava a regularização e a regulamentação dos trabalhadores e trabalhadoras e das transações econômicas informais. para melhor colaborar com o atual contexto organizativo do Capital. Esse fato pode ser constatado se analisarmos os projetos que visavam modificações nas leis que regiam os contratos de trabalho. como conseqüências naturais da nova ordem política e econômica estabelecida para a organização e participação dos atores econômicos no mercado capitalista. foram de estimular a informalidade e a precarização do trabalho. conseqüentemente. reduz o poder de luta organizada da classe trabalhadora. que tem como diretriz a desregulamentação. até pelos discursos oficiais. é no crescimento do desemprego. SINGER. 1998.65 - . corrobora sem disfarce à sua vinculação com o Capital. da desregulamentação e do desmantelamento do aparato institucional que garantia alguns direitos básicos à classe trabalhadora. que são em sua maior 27 Cf. que se reconfiguram modificando a legislação ou mesmo desobedecendo-a. cuja existência passa a ser denunciada como obstáculo à expansão do emprego formal27. o governo FHC sempre procurou justificar a aceitação do crescimento contínuo da precarização das relações de trabalho alimentando uma política de desregulamentação do mercado. fica evidente o desmonte do já insuficiente aparato institucional de proteção ao trabalhador e a trabalhadora. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). do trabalho informal. estimulando a ampliação das condições para o aproveitamento e exploração da força de trabalho. Esta situação demonstra o poder de influência da classe dominante sobre os aparelhos do Estado. . se refletindo no esvaziamento dos sindicatos. a sofrer pressões sobre os seus salários e seus direitos trabalhistas. o que colabora para a degradação das condições de trabalho daqueles que continuam formalmente empregados. no trato das questões relativas ao Trabalho e à economia informal. tornou-se crescente o desemprego. O mesmo Estado que em outros momentos procurou mostrar-se como mediador ou imparcial frente ao confronto Capital X Trabalho. neste contexto de precarização das relações de trabalho. Os que continuam formalmente empregados passam. Pautado em pressupostos liberais. que se mostra o desgaste e a fragilidade das atuais formas de organização dos trabalhadores e trabalhadoras. ficou evidente uma outra contradição na forma de atuação do Estado. ou que permitiam que houvesse contratos de trabalho que não atendessem aos princípios da legislação. são vistos. longe de serem uma anormalidade pelas forças econômicas e políticas dominantes. os pronunciamentos e as atitudes tomadas pelo governo. que de outra maneira só poderia ser conseguido com o crescimento econômico. Desta forma.

As greves. ou no não-enfrentamento por parte destes das atuais condições de exploração do trabalho. pareça não dizer respeito a outras categorias de trabalhadores e trabalhadoras. é que os sindicatos perdem atualmente o seu poder de representação.66 - . Há uma preocupação maior em reintegrar o desempregado ao mercado de trabalho. organizar os trabalhadores e trabalhadoras que estão fora do mercado de trabalho formal. os sindicatos. Com o aumento do desemprego e da informalidade do trabalho tem uma diminuição considerável de sua base de representação. que privilegia a dimensão de categoria e profissional. Logicamente. leva. em grande medida. representam e defendem os direitos de determinada categoria28. e não um projeto de organização dos trabalhadores e trabalhadoras para o enfrentamento da atual política econômica. pois como sabemos os sindicatos acabam por representar um fragmento da classe trabalhadora. em tese. estão fracionados para representar as diferentes categorias. sobretudo no que diz respeito aos direitos trabalhistas conquistados através da luta organizada. Todo esse novo contexto. .Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG parte sindicatos que organizam. a maior exposição de algumas categorias de trabalhadores e trabalhadoras às investidas dos capitalistas no sentido de diminuir o custo do trabalho. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). seja pelo desemprego ou pela informalidade. com o enfraquecimento da entidade representativa. como acontece atualmente com os metalúrgicos do ABC. temos que considerar a fragmentação existente entre os sindicatos instituídos de acordo com a categoria de trabalho. uma categoria específica e não a todos os trabalhadores e trabalhadoras. que por serem reconhecidamente institucionais trabalham dentro de normas que não permitem. 04 a 10 de novembro de 2007. Combinada a terceirização ao desemprego. também legalmente contratados como uma força conjunta frente ao capital. a representatividade sindical é corroída à medida que sua pretensão de falar pelo mundo do trabalho ou ao menos de sua parcela majoritária torna-se crescentemente insustentável. ou não tornam interessante. estão fora da sua área de atuação legal. têm deixado de ser um instrumento de luta dos trabalhadores e trabalhadoras frente ao Capital para passar a 28 Atualmente os sindicatos têm lutado muito mais para a manutenção do emprego do que por melhorias nas condições de trabalho e de salário. já que os desempregados e os trabalhadores e trabalhadoras precarizados. somada à insegurança no emprego gerada pela reestruturação produtiva. pelos motivos aqui apontados. a precarização torna-se um elemento corrosivo da base sob a qual se assenta a legitimidade e representação dos sindicatos. que tem no avanço tecnológico uma maneira de poupar quantitativamente a força de trabalho. Esta fragmentação colabora para que os problemas enfrentados por determinada categoria que cumpre sua função na divisão social do trabalho. organizando. estes trabalhadores e trabalhadoras. Como instituição. informais. A diminuição da participação dos trabalhadores e trabalhadoras nos sindicatos. E por estar organizado política e estruturalmente desta forma fragmentada e institucionalizada. tem se refletido nas atuações dos sindicatos. como não poderia deixar de ser. No aumento da informalidade e de seus efeitos sobre os sindicatos. o que tem impedido por vezes a participação conjunta de toda a classe trabalhadora em suas reivindicações.

29 Cf. Necessário se faz. A principal característica da greve foi a de ser uma reação ofensiva da classe trabalhadora brasileira no sentido de se contrapor às investidas do capital e conquistar direitos para a classe trabalhadora. que procurava a manutenção do controle sobre o trabalho no lugar da produção. sobretudo. principalmente em relação às greves. A quarta greve aconteceu em 1989. A primeira acontece em 1983. como temos visto nos últimos anos. teve grande expressividade no movimento operário dos anos 80. Ao todo foram quatro greves gerais nesse período. em pleno regime militar e protestava contra um decreto que modificava a política salarial. enquanto forma de organização unificada dos trabalhadores e trabalhadoras. em protesto contra o Plano Cruzado II. colocando em questão o controle exercido durante todo período de implantação do capitalismo industrial no Brasil. É justamente no período dos anos 80. chegando a vinte milhões de trabalhadores e trabalhadoras29. particularmente contra o fim do congelamento de preços. mas o movimento dava também ênfase a palavras de ordem como: não ao pagamento da dívida externa. que visavam dar maior espaço e criar melhores condições para o desenvolvimento capitalista no Brasil30. organizando as greves gerais em oposição às políticas adotadas pelo governo brasileiro. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). contrapondo-se ao Plano Bresser e que tinha como motivação as modificações nas políticas salariais. 1999. que o surto de reestruturação produtiva no Brasil sofre um novo avanço. A segunda aconteceu em 1986. apresentar com maior profundidade a atuação da CUT nas décadas de 1980 e 1990. protestando contra mais um plano de estabilização do governo. As greves gerais arquitetadas pela CUT resultaram em fortes movimentos de contestação e foram de grande importância política. de maneira a incorporar as novas tecnologias nos processos produtivos e implementar novas formas de gestão e controle da produção baseadas. Essa última greve também contou com a participação ativa de vários setores: os metalúrgicos e trabalhadores e trabalhadoras da indústria automobilística e química. 30 Cf. O sindicalismo do Brasil nos anos 80 inovava nas suas reivindicações pela criação das comissões de fábrica e desafiava o capital. o número de grevistas nesta greve dobrou em relação à de 1987. semana de quarenta horas e estabilidade de emprego. ALVES. de manutenção de empregos e de alguns dos direitos conquistados historicamente. entre outros.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG realizar ações. pró-imperialistas e pró-latifundiária do governo. nas técnicas utilizadas nas fábricas japonesas e que correspondiam melhor as vontades do capital internacional. reforma agrária. os petroleiros. Adotava uma postura oposicionista franca e direta de maneira a construir uma estratégia sindical combativa em relação à política pró-monopolistas. ainda. BOITO. 2000. 04 a 10 de novembro de 2007. A CUT. composta nesse período pelas correntes sindicais mais ativas. que nesse período também sofria as conseqüências das ações políticas e econômicas comandadas pelo governo. A terceira greve geral comandada pela CUT realizou-se em 1987. os professores da rede pública de ensino federal e estadual. . tendo a participação de dois a três milhões de trabalhadores e trabalhadoras. que modificava a política de indexação dos salários.67 - . o Plano Verão.

e logicamente a CUT. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). para o enfraquecimento das formas organizativas e de luta da classe trabalhadora. A abertura da economia para o capital estrangeiro. As greves deste período foram muito mais na busca de manter os direitos sociais conquistados historicamente. 04 a 10 de novembro de 2007. Tais fatores. o aumento das importações. Com a vitória de Fernando Collor de Mello nas urnas e pelo voto popular. conseqüentemente. somados à reestruturação do processo produtivo com base na aplicação de novas tecnologias. são produtos conhecidos e visíveis desse processo de liberalização da economia. .Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG A partir dos anos 90. tem colaborado para a precarização das relações de trabalho no Brasil e. mesmo com a saída vergonhosa de Collor via Impeachment. o que permitiu uma investida mais dura do capital sobre os trabalhadores e trabalhadoras. a luta sindical. participam de um novo contexto histórico e social no Brasil. pois. Essa crise da organização sindical brasileira acabou por colaborar para a instauração do novo modelo político e de acumulação.68 - . continuou a ser orquestrada pelos seus sucessores Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso. apoiado pelas políticas do governo nacional que estimulou e legalizou a precarização das relações de trabalho. do que movimentos de reivindicação e de tomada de controle do processo produtivo ou de contestação ideológica. é eleito também um projeto neoliberal para a política econômica brasileira. o sindicalismo classista e unificado que havia sido obstáculo durante os anos 80. ou na intenção de manter os empregos existentes. o desmantelamento do parque industrial nacional e o crescimento da miséria e do desemprego. nos anos 90 desarticula-se e se torna debilitado em sua capacidade de movimentação e organização da classe trabalhadora. Um projeto que visava criar as condições para instauração do neoliberalismo e que.

A reflexão e aprofundamento dessas concepções e correntes. étnicas. politicas. luta não apenas por melhores salários. os Anarquistas defendiam as seguintes idéias:  O capitalismo deve ser derrubado e. deve ser implantado o socialismo. econômicas. Os trabalhadores e trabalhadoras não são um todo homogêneo e monolítico. constituem-se em espaços privilegiados de enfrentamento de interesses. A classe trabalhadora. na perspectiva de uma maior compreensão da trajetória e contemporaneidade do sindicalismo no Brasil. raciais. 04 a 10 de novembro de 2007. é reveladora do grau de desenvolvimento da luta de classes. mais também. construída ao longo dos seus 43 anos de existência. Foi feita a opção de nos debruçar sobre 04 concepções e correntes. no campo e na cidade. no campo e na cidade.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG CONCEPÇÕES E CORRENTES SINDICAIS NO BRASIL Amarildo Carvalho de Souza e Domingos Corcione A trajetória das concepções e correntes políticas que constituíram e constituem o movimento sindical brasileiro. AS PRINCIPAIS IDÉIAS DO ANARQUISMO Anarquismo vem da palavra grega ANARQUIA. aliás. melhoria e desenvolvimento do capitalismo”. . Existem diferentes níveis de consciência de classe. de visões de mundo e de projeto de sociedade. muitas vezes distintos. pela superação das desigualdades sociais.69 - . A ENFOC não se propõe a aprofundar todas as concepções e correntes politicas. parte da identidade política do Movimento Sindical dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais. Nesse sentido. Quanto à Sociedade e ao Estado. as organizações sindicais e os movimentos populares. Inclusive. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). a autoridade e a dominação”. que significa “contra o governo. a pesquisar. mais que isso. existem segmentos que muitas vezes expressam programas de “conservação. refletir e compreender as ‘idéias’ que promoveu a constituição e consolidação do movimento sindical brasileiro. de gênero. no campo e na cidade. como alternativa. e de geração. disposto a lutar de forma unânime pelas mesmas bandeiras. Esperamos que estes textos estimulem aos participantes do 1º Curso da ENFOC. revela o grau de independência e maturidade política da classe trabalhadora brasileira.

coordenadas a partir de centros de produção dos trabalhadores e trabalhadoras organizados em sindicatos. que possam favorecer a conscientização dos trabalhadores e trabalhadoras. formar sua consciência política. sustentados exclusivamente pelos trabalhadores e trabalhadoras. sempre preservando a autonomia de cada organização e evitando qualquer tipo de centralização que venham a prejudicar a participação direta dos trabalhadores e trabalhadoras em todas as decisões. forças armadas. parlamento. em formas federativas ou em confederações: em nível local.70 - . Não consideravam a aliança com a classe média. na França. Promover atividades culturais. Bakunin32 . que derrubará o sistema capitalista. sem nenhuma interferência do Estado. dispostos a assumir a liderança na luta pelo socialismo. Deve organizar somente os trabalhadores e as trabalhadoras. Os anarquistas eram contrários à liberação de dirigentes sindicais.. onde todos tenham condições de participar. Para eles os sindicatos:           Devem ser a arma principal de luta para derrubar o capitalismo e implantar o socialismo. o socialismo sem classes e sem Estado. Os anarquistas assumiam uma posição antiparlamentarista e antipartidária. O ANARQUISMO NO MUNDO O anarquismo se iniciou na metade do século XIX. os anarquistas tinham posições bem definidas. descentralizado. Devem priorizar a ação direta (mobilizações. Por meio de Proudhon31. a auto-gestão e o internacionalismo proletário. estadual e nacional. 04 a 10 de novembro de 2007. Deve organizar os trabalhadores e as trabalhadoras.. Devem ser organizados em pequenos grupos de fábrica ou por ofício. como classe que se opõe à classe dos patrões.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG   O socialismo deve ser democrático. boicotes. pois são um mal e uma fonte de opressão. Devem ser organizados a partir do local de trabalho e implementar as lutas reivindicatórias. possibilitando a mais completa democracia. as eleições e a Igreja. Devem ser formados somente por trabalhadores e trabalhadoras conscientes. . greves).que foram seus primeiros idealizadores . levando-as sempre mais adiante.e de outros seguidores. formado por comunidades independentes.). Pregavam a revolução proletária. propondo a criação de cooperativas sem fins lucrativos voltadas para o auto-abastecimento e de bancos que concedessem empréstimos sem juros aos 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). polícia. visando organizar a greve geral. É preciso lutar contra o Estado (governo. Devem se unir segundo os ramos de produção. Devem ser autônomos e livres. 31 Precursor do anarquismo enfatizava o respeito à pequena propriedade. Quanto à concepção e à prática sindical. poder judiciário.

quando varias famílias de imigrantes italianos chegaram ao sul do país. . depois. italianos. sem passar pela intermediação parlamentar: priorizar boicotes. dos panfletos. por meio de imigrantes espanhóis. greves e outras formas diretas de luta. mesmo enfrentando problemas econômicos e repressão.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG se expandiu para a Rússia e para toda a Europa. de determiná-los apenas por sua própria vontade e de. atribuindo um papel político e revolucionário ao cooperativismo rural. franceses e belgas. 32 Outro precursor do anarquismo. portugueses. afirma que "A liberdade é o direito absoluto de todo homem ou mulher maiores de só procurar na própria consciência e na própria razão as sanções para seus atos. sendo substituído por uma "república de pequenos proprietários" organizada num sistema federativo. com a condição de que consintam livremente dela fazerem parte".71 - . seus principais veículos. eleitos por 28 organizações operárias de todo o País. tendo como objetivo a ajuda mútua. Foram muitas as cooperativas e outras organizações de caráter cooperativo criadas pelos anarquistas. O sindicalismo deve ser de resistência e não assistencialista. começaram a ganharam força no Brasil nas últimas décadas do século XIX. 04 a 10 de novembro de 2007. e das decisões dos congressos operários. perante a sociedade da qual fazem parte. em conseqüência. com 43 delegados. particularmente na Itália e na Espanha. apesar de já estarem presentes em alguns segmentos da sociedade brasileira. AÇÃO DOS ANARQUISTAS NOS SINDICATO Em 1906 houve o 1º Congresso Operário Brasileiro. O anarco-sindicalismo influenciou também o campo. O Congresso fundou a Confederação Operária Brasileira (COB). num contexto em que o jogo político era exclusividade das oligarquias e inexistia qualquer proteção ao trabalho. O importante é a ação direta da classe operária. A DIFUSÃO DO ANARQUISMO NO BRASIL As idéias anarquistas. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). A expansão do anarquismo foi rápida nas grandes cidades brasileiras. empreendimentos produtivos e crédito gratuito aos trabalhadores. da imprensa. Dizia que o Estado deveria ser destruído. até chegar aqui no Brasil no final do século XIX. nas primeiras décadas do século XX. Essas famílias formaram comunidades com ideais libertários e constituíram as primeiras cooperativas. mais precisamente no Paraná e posteriormente em Santa Catarina e Rio Grande do Sul. em estreita relação com a luta e o projeto político revolucionário. É preciso combater as visões reformistas dos agentes do Governo e da Igreja Católica. As teorias e táticas do anarco-sindicalismo foram difundidas por meio de livros. As propostas vencedoras do Congresso e a linha predominante da COB eram da corrente dos anarquistas:     A organização dos operários deve ser federativa e não centralizada. serem responsáveis primeiramente perante si mesmos. Suas propostas de supressão do Estado e de todas as formas de repressão encontraram receptividade entre os trabalhadores e trabalhadoras.

contra seu inimigo comum. 04 a 10 de novembro de 2007. Os principais alvos passaram a ser os anarquistas. Havia duas federações estaduais:   A Federação Operária de São Paulo (FOSP). sob a influência anarco-sindicalista.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Como se viu acima. Como era ainda um número reduzido e não possuíam muitos recursos econômicos. que legitimava a deportação sumária de lideranças envolvidas em “distúrbios da ordem” e o fechamento de organizações operárias. no caso em que ele não pudesse entrar em greve. etc. com o desmantelamento da própria COB. e se prepara para a ação final. Everardo Dias e Edgard Leuenroth. A Federação Sindical Regional de São Paulo (FSRSP). A greve de 1917 foi comandada pelos anarquistas. Os primeiros jornais anarquistas e anarco-sindicalistas tentaram se sustentar apenas com as contribuições dos militantes. houve anos difíceis para o movimento operário. sabotagem. por meio de sua própria experiência. boicote. apesar de alguns avanços em termos de legislação social. Em 1921 foi aprovada a Lei de Expulsão dos Estrangeiros. dirigida pelos comunistas.era vista como especialmente eficaz para o proletariado. cada ação direta . A justificativa utilizada para a aprovação dessa lei repressiva era evidente: o movimento operário estava sendo controlado por lideranças estrangeiras radicais.72 - . A sabotagem – por exemplo . . que iludiam trabalhadores e trabalhadoras nacionais! Desde o início dos anos ’30 as principais categorias de trabalhadores e trabalhadoras do Estado de São Paulo estavam organizadas em sindicatos. Como principais divulgadores do ideário anarquista destacaram-se José Oiticica.greve. Essa conclusão partia da seguinte convicção: cada ação direta é uma batalha na qual o proletário conhece as necessidades da revolução. que foi obrigado a enfrentar grandes desafios. isto é. Depois da greve. os anarco-sindicalistas entendiam que “a ação direta deveria ser a grande bandeira do sindicalismo revolucionário". acabaram sendo poucos os jornais anarquistas que chegaram a publicar mais de cinco números. Esse jornal continuou irregularmente até 1920. . O anarco-sindicalismo – assim como o anarquismo em geral – considerava que nas ações diretas seria legítimo o uso de um certo tipo e grau de violência. (sindicatos de cidades do interior. os capitalistas. com o maior número de sindicatos e algumas categorias mais importantes da capital paulista. que não contavam com bases expressivas na capital). pois as máquinas são de mais difícil substituição do que os trabalhadores e as trabalhadoras. Essa concepção e as práticas dela decorrentes se constituíam numa das características diferenciais do anarco-sindicalismo em relação a outras correntes e formas de ação do sindicalismo brasileiro.era considerada um meio dos trabalhadores e trabalhadoras aprenderem a agir de uma maneira solidária em sua luta por melhores condições de trabalho. Isso não quer dizer que não havia outros grupos políticos que dividiam com eles a liderança do movimento operário. a greve geral que “destruirá o sistema capitalista”. A partir de 1908 a COB publicou seu jornal nacional “A VOZ DO TRABALHADOR”. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). A destruição de equipamentos tocaria no ponto fraco do sistema. A maioria de jornais da época atestou a força e organização dos anarquistas do Brasil. O principal foi o recrudescimento da repressão por parte do governo. Por isso.

. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). essa posição os levou ao isolamento político e contribuiu – no contexto das crescentes dificuldades relativas à sobrevivência dos sindicatos livres – para sua perda de influência no movimento sindical. Desde os anos ‘80 foi identificado em muitas atividades de massa o movimento anarco-punk. Existe uma carência de informações relacionadas com o anarquismo e sua atuação na atualidade.a corrente anarquista foi perdendo cada vez mais expressão e presença no movimento sindical. inclusive entre trabalhadores e trabalhadoras. pela OMC e pelo BID. que continua sendo ativo até hoje. refletindo a forte influencia de patrões e do Estado no movimento operário. Os anarquistas podem ser vistos também:   Em manifestações realizadas para expressar insatisfações e protestos contra reuniões e encaminhamentos promovidos pelo grupo de países mais ricos (G 08). 04 a 10 de novembro de 2007. O sindicalismo “amarelo” ou “peleguismo” é um fenômeno antigo no sindicalismo brasileiro. Em organizações sociais – de ambientalistas. que se expandia e se consolidava no Brasil. ONDE ATUAM HOJE OS ANARQUISTAS? Apesar da reduzida presença de anarquistas no sindicalismo.73 - . Esse é o aspecto político e social mais profundo da questão: o “pelego” é o agente dos patrões e do Estado no movimento sindical. Nesses grupos ou reuniões podem até aparecer divergências .. Mais tarde. no Brasil e no mundo. jovens. Contudo. devido à ausência de registros mais precisos. Enquanto a força dos anarquistas foi diminuindo.entre os próprios anarquistas ou entre eles e as demais correntes. É constituído por uma enorme massa de dirigentes burocratizados. suas idéias continuam vivas em vários segmentos da sociedade. quanto às estratégias de luta e à maneira de atuar . foi crescendo a influência dos comunistas no movimento sindical. de mulheres. com a implantação da Estrutura Sindical – que tinha o Estado como seu principal regulador . assim como na oposição ao sindicalismo corporativista.mas eles têm um ponto em comum: a luta contra qualquer sistema opressor. organizações sociais e sindicais.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Durante toda a década de 1930 os anarco-sindicalistas foram à única corrente sindical que se manteve irredutível na defesa da organização autônoma dos trabalhadores e trabalhadoras. para os quais o sindicato tem apenas um papel assistencialista e de intermediário legal nas relações entre o capital e o trabalho. TRAJETORIA DO SINDICALISMO “AMARELO” OU “PELEGO”..

dentre outras – criada naqueles sindicatos em que o pelego era sua representação maior. Já nos primeiros anos da década de 1940 o Estado Novo mostrava seus primeiros sinais de debilidade. em 1912. dado seu caráter secundário na economia agro-exportadora. Com a extinção do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) e do Tribunal de Segurança Nacional – organismos de repressão ideológica e política. deixou de significar a manta colocada entre o cavalo e a sela para amortecer os solavancos e passou a ser sinônimo de sindicalista acomodado e comprometido com os patrões e o governo. O presidente Hermes da Fonseca. Particularmente no Rio de Janeiro era bastante influente essa corrente política moderada. isto é. Principalmente os setores cujas atividades eram indispensáveis para a exportação do café. como historicamente foi feito nas décadas anteriores”. como ferroviários e portuários. Esses grupos preocupavam-se ainda em garantir o reconhecimento dos sindicatos por parte do Estado. “o sindicalismo brasileiro deve ser corporativo. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). interessada em obter conquistas específicas como diminuição da jornada de trabalho e aumentos salariais. Lembre-se aqui a afirmativa do Presidente Washington Luís de que “a questão social era simples caso de policia”. dentistas. Mas foi durante a década de 30 que os pelegos conseguiram as condições mais favoráveis para se eternizarem nas direções sindicais. em prejuízo da autonomia da classe”. Em que pese a forte presença dos anarquistas e. dentre outras coisas.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Já em 1908 o jornal anarquista “A VOZ DO TRABALHADOR” órgão da Confederação Operaria Brasileira – COB definiu-os como “operários que bajulam os potentados. não revolucionária. eram tratadas de forma exclusivamente repressiva. uma vez que sua paralisação estrangularia a economia. tinham prontamente atendidas suas reivindicações. À medida que o Ministério do Trabalho intervinha nos Sindicatos. desenvolveu a primeira ação concreta para uma intervenção governamental nas decisões das organizações de trabalhadores. os amarelos ou pelegos representavam à maioria dos dirigentes na época. esse segmento conservador encontrou ainda mais dificuldades. posteriormente dos comunistas e socialistas nas direções dos sindicatos. O chamado Estado Novo. 04 a 10 de novembro de 2007. Os grupos revolucionários os chamavam pejorativamente de "amarelos". os pelegos eram indicados para dirigi-las a partir das orientações governamentais. pois organizou um congresso com representações sindicais. um sindicalismo que concilie patrões e operários e não um sindicalismo revolucionário. A criação do Imposto Sindical era o que faltava para garantir a imensa estrutura – com médicos. visando controlar os sindicatos e torná-los órgãos de conciliação entre as classes. baseado na luta entre classes inimigas. “Pelego”. escolas. Federações e Confederações e destituía suas direções. de tendência reformista. Já as categorias vinculadas à indústria. Em 1921 o Estado fundou o Conselho Nacional do Trabalho. mais que teve grandes conseqüências. consolidou a seguinte concepção. o sindicalismo amarelo passou a ficar na defensiva. existentes durante o Estado Novo –. Os Sindicatos “amarelos” passaram a ser ainda mais favorecidos pelas vantagens concedidas pelo Estado. Foi criada também a Confederação Sindicalista Corporativista Brasileira. consequentemente.74 - . .

. da confluência de duas atuações sindicais que vivenciaram trajetórias distintas e que. Durante este período. 04 a 10 de novembro de 2007. abraçou o mesmo projeto. uma modernização conservadora.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Uma O avanço das lutas operárias foi freado com o golpe e o governo do Marechal Dutra.anistia aos exilados políticos. colocou na ilegalidade o partido comunista. objetivava . num dado momento. denunciaram a direção pelega da CNTI e apresentaram uma “Carta de Princípios”. que se tornou a principal referencia para a retomada das entidades sindicais operarias. distinta do velho ‘peleguismo’ e perfeitamente inserida na onda neoliberal.dentre outras coisas . O SINDICALISMO DE RESULTADOS E FORÇA SINDICAL O sindicalismo de resultado nasceu. uma nova direita no movimento sindical.estimulou o sindicalismo pelego a um processo de auto-reforma. eleições diretas. fortalecido na grande maioria das entidades sindicais. Dentre outras medidas. para permanecer como órgão de controle sindical e político. da Organização Regional Interamericana do Trabalho – ORIT. durante o congresso promovido pela Confederação Nacional dos Trabalhadores na Indústria – CNTI. os pelegos voltaram a ter hegemonia e domínio sobre os destinos do sindicalismo brasileiro. que penetrou também no movimento sindical em nosso país. Alguns dos pontos centrais do seu ideário são:  Reconhecimento da vitória do capitalismo e da inevitabilidade da lógica do mercado. inicialmente. dominada há décadas pelo pelego Ari Campista. assembléia constituinte . dentre outros organismos sindicais internacionais ligados ao governo norte-americano. por exemplo. O assistencialismo foi mantido e. Assim formou-se. Apesar dessa hegemonia. um grupo de sindicalistas que se autodenominavam ‘autênticos’. decretou a intervenção e suspensão das eleições sindicais. no Brasil.75 - . em julho de 1978. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Dutra proibiu a existência do Movimento Unificado dos Trabalhadores (MUT). fim do bipartidarismo. Além de receberem todos esses apoios financeiros. As transformações mais recentes ocorridas nos anos 1980 . os pelegos receberam apoio financeiro da Confederação Internacional das Organizações Sindicais Livres – CIOSL. procurando coibir as ações autônomas e independentes dos trabalhadores e trabalhadoras.combater o ‘peleguismo’ das Confederações Nacionais. A fundação do Comando Geral dos Trabalhadores (CGT). Tudo isso facilitou que os pelegos retornassem às direções dos sindicatos mais importantes do país. muitos dirigentes pelegos tornaram-se interventores do Ministério do Trabalho durante o governo militar. na segunda metade da década de 1980. A retomada das lutas politicas e sindicais no início dos anos 1960 recolocaram os pelegos na defensiva. Esse sindicalismo foi modificando sua forma de ser. Referimo-nos à confluência da atuação de amarelos ou pelegos com a ação de líderes sindicais pragmáticos. especialmente da CNTI. que em 1964 teve sua presidência ocupada por um deles. a exemplo da CONTAG.

in Jornal dos Trabalhadores Rurais SEM TERRA Ano XXIV – numero 252 – maio de 2006. carros. e exigem uma central sindical que não seja ‘revolucionarista’”. Se crio o mercado interno estou fortalecendo o nosso capitalismo”. Que fazem sucesso freqüentemente pela música de baixíssima qualidade e doam apartamentos. E quanto ao papel dos sindicatos: “O sindicato é um fator de mercado e deve. eletrodomésticos”33. Eu diria que todo sindicato que se preze faz parte da reprodução capitalista. valorizar o preço de mãode-obra”. Foi a Força Sindical que introduziu a prática recorrente de um 1° de maio como um circo para os trabalhadores e trabalhadoras. não cabendo aos sindicatos extrapolarem este âmbito da luta. Diminuir o papel do Estado. Para atrair um grande público. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Por isso. duas confederações e vinte federações – fundada no início de 1991 . é algo muito distinto do peleguismo (sempre atrelado ao Estado e dele porta-voz) e conforma o que caracterizamos como sendo a nova direita no movimento sindical.aliados a uma estratégia que recusa o confronto e procura extrair resultados imediatos nas ações sindicais. Atribuir o papel da ação política exclusivamente aos partidos. ALGUNS REFERENCIAIS TEÓRICOS DO COMUNISMO Com base no assim chamado “socialismo científico” no final do século XIX. Conforme disse Luís Antônio Medeiros. Eu quero a divisão das riquezas e a minha briga não é pela mudança do regime”. que pregam 33 Ricardo Antunes é professor livre docente em sociologia do trabalho na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). chama artistas da indústria cultural. calculadas para que não extrapolem o âmbito da negociação . “Estamos procurando caminhos novos.. qual é o objetivo do sindicato? É lutar para vender a mão-de-obra pelo preço mais alto possível.conformaram uma feição neoliberal e burguesa no seio do movimento sindical brasileiro. Estes pontos básicos . em entrevista à Folha de S. 04 a 10 de novembro de 2007.caminha no sentido de consolidar o sindicalismo de resultado: um sindicalismo que projete “que todos (os trabalhadores) necessitam. reduzindo apenas sua ação a uma linha política privatizante.76 - . Este é o âmbito e o campo ideológico onde o sindicalismo de resultados opera e atua. Paulo (20/08/87): “Eu acho que o capitalismo venceu no Brasil.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG    Restringir a luta sindical à busca de melhorias nas condições de trabalho. a Central organiza grandes manifestações. tendo a frete Karl Marx e Friedrich Engels. A Força Sindical. Essa doutrina passou a se diferenciar tanto dos reformistas. contando com o apoio de cerca de 300 sindicatos. que devem estar totalmente desvinculados da ação sindical. . os sindicatos passaram a ser vistos como instrumentos que devem contribuir para a luta revolucionária do proletariado pela tomada do poder político. É a política de pão e circo. dizíamos. portanto. Pois..

Mas a força do número se quebra pela desunião.garantindo sua taxa de maisvalia. o marxismo condena as tentativas de dividir as organizações sindicais por motivos políticopartidários ou religiosos. Para Marx. Exatamente por isso. preparando para as novas batalhas. “Os sindicatos trabalham bem como centros de resistência contra os ataques do capital. Mostra apenas suas limitações e prega a transformação da luta econômica em luta política pela tomada do poder. Mas a concepção Marxista vai além. erram o caminho porque se limitam a uma guerra de guerrilhas contra os efeitos do sistema existente. o marxismo não adota a mesma visão dos anarquistas nessa questão. Acompanhando a evolução do sindicalismo.. ao mesmo tempo. “os sindicatos sindicatos são indispensáveis para a guerra de guerrilha cotidiana entre o capital e o trabalho”. Outra característica da corrente marxista é a defesa da unidade dos trabalhadores. da inevitável concorrência entre eles próprios. que devem ser “escolas do socialismo”. Muito pelo contrário. nos meios de resistência contra os incessantes ataques do capital”.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG mudanças graduais no capitalismo. acumular forças. Marx diz: “O capital é o poder social concentrado. o marxismo condena o economicismo. para a sua transformação. Relaciona sempre as lutas parciais com seu objetivo final. Mas demonstram ser partes ineficazes em virtude do mal compreendido uso de sua força. as correntes que encaram os sindicatos nos estreitos marcos corporativos. Marx vai perceber a miopia economicista e apontará qual deve ser a tarefa maior dos sindicatos no capitalismo. Partindo desse princípio norteador. a luta puramente econômica não conduz a nada. portanto. já que o capitalismo tem capacidade para assimilar as pequenas melhorias salariais . o marxismo vai fazer esforços no sentido da unidade dos trabalhadores. que á a tomada do poder pelo proletariado. A divisão dos operários é produto e resultado. “Não atuar no seio dos sindicatos reacionários significa abandonar as massas operárias insuficientemente desenvolvidas ou atrasadas à influência de líderes reacionários. que coloquem em risco a organização dos trabalhadores e trabalhadoras. dos agentes da burguesia. Do lado do operário sua única força é o número. Dos sindicatos nascem precisamente os impulsos espontâneos dos operários para eliminar. Seu objetivo imediato “concretiza“concretiza-se nas exigências do diadia-adia. não se limitando a uma visão economicista. a fim de conseguir melhores condições que os coloquem ao menos em situação superior à de simples escravos”. . 04 a 10 de novembro de 2007. Por isso. deve ser rejeitada. que negam a luta política pelo poder. uma greve por interesses imediatos. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). O contrato entre capital e trabalho não pode. como das anarquistas. como centros organizadores do proletariado. Em geral. usando a força organizada como alavanca para a libertação definitiva da classe operária”. Entretanto. ou pelo menos reduzir essa concorrência. Ele aponta que a greve não deve ser vista como a única arma de luta dos trabalhadores e trabalhadoras.77 - . Para Lênin. Para essa concepção.. dos operários aristocratas ou operários aburguesados”. Isso não significa que o marxismo negue a luta econômica. a greve deve ter como principal objetivo organizar os trabalhadores. enquanto o operário só dispõe da sua força de trabalho. repousar nunca em justas condições. Aponta outros objetivos da atividade sindical. Para o marxismo. sobretudo. principalmente o da Inglaterra. Os teóricos do comunismo vêem os sindicatos. em vez de trabalharem.

Os primeiros aos da década de 1930. o partido revolucionário é um estágio superior de organização. a principal palavra de ordem dos comunistas foi “ir às massas”. seja nos breves momentos de vida legal. Para ela. em conseqüência. surgiram as duas características marcantes da atuação comunista: o trabalho em sindicatos reacionários e pelegos e a politização da luta operaria (contra o imperialismo e contra o latifúndio). os comunistas o viam como um espaço a ser ocupado e transformado. muitos esforços foram feitos para fortalecer o movimento sindical. dirigida por sindicalistas ligados ao Ministério do Trabalho ou que aceitavam sua tutela. o marxismo não nega a importância da luta sindical. Nesse sentido. seja na ilegalidade. que viam o Estado como um mal em si. Ao contrário dos anarquistas. Essas concepções os levaram. foram de luta entre os sindicatos livres e o governo. As entidades operárias independentes não aceitavam os decretos sobre sindicalização. que se de um lado não se apresentava como uma alternativa imediata de poder causou apreensão do Estado oligárquico. mas destaca que há diferenças entra assas duas formas de organização e que elas devem ser preservadas. Em 1929 é criada a Confederação Geral dos Trabalhadores Brasileiros – CGTB (funcionando até 1936) sob controle dos comunistas que passam a exercer a hegemonia sobre o movimento sindical brasileiro. embalados pela criação do primeiro Estado socialista na Rússia. levando-os a se chocarem com os anarquistas e com a repressão policial. como em outros países – e a história dos primeiros anos desse movimento é a crônica de seu esforço para derrotar a influencia anarquista e indicar novos rumos à luta operaria e sindical. Quando fala em supremacia do partido. Entre a fundação do Partido Comunista e seu II Congresso em 1925. a concepção marxista ressalta a supremacia do partido político sobre o sindicato. essas premissas não eliminam o risco de uma submissão do sindicato ao partido. Os comunistas defenderam desde o inicio a unidade sindical. o comunismo surgiu a partir da desagregação do anarquismo – e não da crise da social democracia. Contudo. militantes brasileiros fundaram o Partido Comunista do Brasil (PCB). A partir de 1922.78 - . PARTICIPAÇÃO DOS COMUNISTAS BRASILEIROS BRASILEIROS NO MOVIMENTO SINDICAL No Brasil. Entre os fundadores estavam ex-lideranças anarquistas como Astrojildo Pereira e Otávio Brandão. marcado pela forte repressão ao movimento sindical independente e pela regulamentação e controle das relações de trabalho e da organização sindical pelo Estado Getulista. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). . As décadas de 20 e 30 do século passado foi um período de grandes desafios para o movimento sindical brasileiro. Contudo. a buscarem aliados e a participar da vida parlamentar do país.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Exatamente por enfatizar que o primeiro objetivo do proletariado é a conquista do poder político. crescia progressivamente o numero de entidades organizadas conforme a legislação e. 04 a 10 de novembro de 2007. Talvez seja também por isso que os comunistas tenham sido muitas vezes acusados de fazerem do sindicato uma mera “correia de transmissão do partido”.

Essa orientação de fundo oportunista estava baseada na idéia de que. com representantes de 300 sindicatos de todo o país”. sem a presença obrigatória do Ministério do Trabalho. de desenvolvimento pacifico. adotando a legenda PC do B. numa Conferência Nacional Extraordinária. secretário-geral do Partido Comunista. quando foi reorganizado o Partido Comunista do Brasil. e os mais variados atores sociais. perseguida pelo Governo Vargas. num congresso com 400 delegados de 11 estados”. foi criado o Comando 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE).a Constituição e dá origem ao Estado Novo. Getulio Vargas rasgou – por meio de um golpe . desde o proletariado até a burguesia nacional”. que prescindiria da revolução. A reação de militantes comunistas vem a ocorrer com mais força em 1962. rápidas e eficazes para os graves problemas econômicos de hoje”. etc. constituir a Aliança Nacional Libertadora. fechamento do Partido Comunista e da CGTB. o partido coordenou uma ampla articulação de setores nacionalistas para a formação de uma frente democrática. a influencia sindical dos comunistas cresceu. defendia Luiz Carlos Prestes. Tal tendência refletiu-se logo no refluxo da luta pela autonomia sindical e pela destruição da estrutura sindical corporativista. O movimento sindical passou a acomodar-se”. Com o governo do Marechal Dutra. A hegemonia desses setores dentro do partido e dentre os sindicalistas comunistas crescia ano a ano. “o PCB organizou o Congresso de Unidade Sindical. Um novo período de colaboração de classes se esboçava. os direitos individuais e coletivos retornam a normalidade. dando inicio à aliança do Partido Comunista com o Partido Trabalhista Brasileiro.”. “frente única revolucionária anti-imperialista e anti-feudal. após o suicídio do presidente em agosto de 1954. No ano seguinte. Quando o Estado Novo entrou em crise. “ajudando a colocar o movimento sindical em função dos interesses de determinados setores burgueses. em 30 de abril de 1945. 04 a 10 de novembro de 2007. surgia uma nova época. eleição e posse dos dirigentes sindicais independente da aprovação pelo governo. defendiam claramente a conciliação de classes: “por intermédio das organizações sindicais a classe operaria pode ajudar o governo e os patrões a encontrar soluções práticas. principalmente com a extinção do ‘atestado ideológico’. que congregava sindicalistas getulistas. . o Partido Comunista começou a se reorganizar em entidades sindicais. foi desencadeado outra ofensiva conservadora contra a classe trabalhadora: intervenção em mais de 400 importantes sindicatos. Em 1937. apoiado por 300 dirigentes sindicais de 13 estados. “com a derrota do nazismo. os sindicalistas comunistas foram perseguidos e afastados das direções de inúmeras entidades. No mesmo ano. autonomia administrativa para os sindicatos. Com a eleição de Vargas em 1950. “o PCB organizou a Confederação Sindical Unitária do Brasil.”. que lutava por um governo popular e que chegou a congregar em suas fileiras amplas massas populares do país inteiro. Uma de suas primeiras iniciativas foi à rearticulação do movimento sindical independente.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Com a promulgação da Constituição Federal em 1934. perseguição a todos os sindicalistas independentes. a soberania das assembléias sindicais. Naquela conjuntura os sindicalistas comunistas orientados pelo partido. Durante o governo Vargas e.79 - . alem de junto com outros segmentos da sociedade. O Partido Comunista foi praticamente dispersado. Seu manifesto pedia “a mais ampla liberdade sindical. funda o Movimento Unificador dos Trabalhadores – MUT.

como político. Segundo o sermão mais conhecido na Europa no século XVI. principalmente no sindicalismo. A orientação cupulista para o sindicalismo continuava com forte influencia em importantes estruturas sindicais. ALGUNS REFERENCIAIS DO SINDICALISMO CRISTÃO A partir da encíclica Rerum Novarum (Das coisas novas). a Igreja possuía grande poder. os dirigentes sindicais comunistas ligados ao PC do B. Depende dela também para controlar o jovem proletariado. a Igreja perde poder. uma central que colocou em pânico as elites com a perspectiva daquilo que eles chamavam de “República Sindicalista”. 04 a 10 de novembro de 2007. próprias de período feudal. A Igreja exercia esse poder. dependiam da instituição religiosa para manter o controle político. . fluviais e aéreos – CNTTMFA. Os feudos. apesar de num primeiro momento manter suas tradições aristocráticas. dispersos e constituindo-se como mini-Estados. Exercia com exclusividade o poder religioso. via seus tabus ideológicos. Contudo. e suas Federações Estaduais. essa instituição ainda preservava suas tradições elitistas e aristocráticas. esta aparente força não se materializa em reação dos trabalhadores e das suas organizações. A igreja resistiu violentamente ao fim do feudalismo.80 - . A Igreja se adapta ao novo sistema social. ocorre a primeira grande greve operaria no ABC. Até esta data. dos trabalhadores em empresas de credito – CONTEC. a exemplo das Confederações: dos trabalhadores na indústria – CNTI. exigindo o fim da ditadura. ao golpe militar que depôs João Goulart. sendo o poder espiritual do sistema em vigor. As tentativas mais importantes de contrapor-se à perseguição policial e ao arrocho salarial revelaram as limitações existentes e os dilemas em que o movimento operário se debatia. a Igreja Católica adota oficialmente uma doutrina para a sua atuação no movimento social. publicada pelo Papa Leão XIII. a exemplo das greves de Contagem – MG e de Osasco – SP em finais da década de 1960. entretanto vigora. quando o país voltou a mover-se. a própria burguesia dá espaço para a refundação da Igreja. entretanto. O 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Posteriormente.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Geral dos Trabalhadores – CGT. Essa época de recuo durou até 1977. mas os demônios fizeram a burguesia”. anistia aos políticos perseguidos. As relações capitalistas de produção enfraquecem os preconceitos religiosos. em 15 de maio de 1891. passaram a se organizar na Corrente Sindical Classista. etc.tão marcante no período da Inquisição. dos trabalhadores no comercio – CNTC. para preservar a “pureza da alma humana” e através da repressão . Durante o feudalismo. E era também o poder político. Ela era a maior propriedade feudal da Europa. A nova conjuntura forçou o movimento sindical combativo a recuar. Esse conservadorismo não corresponde à mentalidade emanada do novo sistema. Em 1978. dos trabalhadores em transporte marítimos. A partir de 1988. “Deus fez clérigos. O capitalismo. tanto econômico. controlando cerca de 1/3 das terras agricultáveis. o fim da alta do custo de vida.

81 - . autor do livro “O movimento operário: o sindicato e o partido”. haviam abandonado as Igrejas. Surgem os primeiros conflitos de classe. De acordo com essa encíclica papal.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG proletariado. Para a Rerun Novarum. O para qualifica o pensamento socialista como falso. existe no capitalismo “uma desigualdade natural. obedecendo aos princípios da caridade cristã”. chega a afirmar que “a vida econômica e social implica a colaboração de todos os filhos de um mesmo povo. A religiosidade popular não garante mais a sustentação da instituição católica. Ela confia a sorte dos trabalhadores à ação do Estado.“que é um direito natural dos homens”. Para realizar as reformas graduais no capitalismo. que é um marco na viagem da Igreja católica com vista aos movimentos sociais. 04 a 10 de novembro de 2007. Eles rejeitaram energicamente as greves e outras formas de confronto.já que ela reúne patrões e empregados. o luddismo. afirmam que o terreno propício é a própria Igreja . católicas ou protestantes. Com base nessa doutrina. tendo como mediadora a Igreja que dessa forma tenta readquirir o seu poder político. para torná-lo um sistema “justo e eqüitativo”. Entre capital e trabalho não deve haver antagonismos. Leão XIII considera as idéias socialistas subversivas. em 1920. as greves. e também as novas formas de organização dos explorados . Os estatutos dos Círculos Operários 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). A Igreja perde base social. luta de classes obedecendo-se os princípios da “caridade cristã”. A Confederação Internacional dos Sindicatos Cristãos. a harmonia entre as classes. Defenderam o papel assistencialista dos sindicatos. A encíclica propunha a criação dos sindicatos aos moldes das antigas corporações de artesãos e também estimulava a formação de associações mutualistas. O fundamental é a paz social. Outra razão. “Ela nasceu.os sindicatos e as cooperativas. . particularmente a revolução social do marxismo”.” Rejeita. inclusive católicos. Além disso. procurando encontrar-se função social” do capital. Parcelas da jovem classe operária se aproximam das idéias anarquistas e marxistas. segundo o autor. afirma que a Igreja só passou a se preocupar com o movimento sindical como forma de se contrapor ao aumento da influência das idéias revolucionárias. A Rerum Novarum vai criticar tanto o socialismo como o liberalismo. porque prega a supressão da prioridade privada . “o capital e o trabalho devem viver em colaboração um com outro. Muitos historiadores. sobretudo para enfrentar o avanço do socialismo. Daí o surgimento da Rerum Novarum. desiludidas também no plano espiritual (desconfiança da irmandade capitalismo-poder-igreja). “porque gera ódios e extingue nos homens o estímulo ao trabalho”. diferente do servo camponês. de conciliação de classes. é um homem “livre”. ou melhor. é que “o sindicalismo cristão aparece tardiamente (43 anos depois do Manifesto Comunista de Marx e Engels). Miguel Gonzáles Núniz acredita que uma das causas do fraco desenvolvimento da corrente cristã é que ela não atuará nos sindicatos como organismos de luta por conquistas materiais. tinham sido abandonadas por estas”. quando as massas proletárias. Outra característica fundamental do sindicalismo cristão é o anticomunismo. que deve estabelecer leis para proteção e promoção do ser humano. mas para “proteger os trabalhadores católicos contra os perigos socialistas”. os militantes católicos atuaram no sindicalismo com uma concepção reformista. “filhos de um mesmo Deus”. Os exageros de injustiças devem ser reformados. central sindical fundada no Congresso de Haia. explica José Cândido Filho. portanto. necessária e conveniente para o homem. a violência e a luta de classes.

Os Círculos Operários. Escolas de Lideres Operários e Movimento de Orientação Sindical. seu temor era o contágio dos fiéis com as novas idéias. foi acusado de comunista e ameaçado de prisão. escrito por Frei Celso em 1964. 04 a 10 de novembro de 2007. no final da década de 1970. Essa tese. foi levada à prática em vários países. influiria de forma também decisiva na modernização do clero latino-americano e na formulação da Teologia da Libertação.que inclusive é aprovado. O Concilio Vaticano II já havia apontado o caminho da realização do reino de Deus neste mundo neste mundo. uma direção que seria seguida por enorme parcela do clero brasileiro que. a implantação do pluralismo sindical. foram responsáveis pela formação de inúmeras lideranças sindicais em todo o país. envolvendo mais de 2 milhões de filiados. que recomendavam a opção preferencial pelos pobres. Vários materiais foram publicados nesse sentido. Na Constituinte de 1934. tendo a frente o cardeal Sebastião Leme. Calcula-se que no auge do movimento. principalmente na Europa. por sua vez. Helder Câmara. que leva à fragmentação da organização sindical. juntamente com a reação.82 - . em 1968 (confirmadas em Puebla. A Igreja advoga a separação dos católicos dos que professam confissões e idéias diferentes. As mudanças que a Igreja vivia a nível internacional tiveram influencia decisiva nesse quadro. os deputados eleitos com o apoio do LEC (Liga Eleitoral Católica). Estas lideranças estiveram ao lado dos conspiradores do golpe militar de 64. . da Federação dos Círculos Operários de São Paulo. juntamente com os parlamentares da UDN. Em 1966. que proliferaram nas grandes e medias cidades brasileiras a partir de finais da década de 1960. com o apoio da Regional Nordeste II da CNBB. seu numero chegou a atingir entre 50 a 100 mil CEBs. em todo o país. o manifesto “Nordeste. mais uma vez. que atuavam por fora dos sindicatos existentes. dentre eles. os deputados vinculados à Igreja defenderam. a implantação do pluralismo sindical . em 1979).Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Católicos no Brasil são bem elucidativos. uma forte denúncia do regime e da situação da classe trabalhadora. um livreto muito difundido “Como combater os comunistas nos sindicatos”. bispo de Recife. a Igreja organizou os círculos operários. SINDICALISMO CRISTÃO NO BRASIL Desde o início da atuação organizada dos católicos no sindicalismo brasileiro. fundamentavam a atuação dos progressistas da Igreja brasileira. E na Constituinte de 1945. O documento foi confiscado pela policia e os bispos foram proibidos de publicá-lo D. As profundas mudanças promovidas pelo CELAM (Conselho Episcopal Latino Americano) em Medellín. Um dos primeiros itens de seu objetivo era o “combate ao comunismo”. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). desenvolvimento sem justiça”. defendem. a hierarquia católica apresenta ao ditador Getúlio Vargas a proposta de transformar os aproximadamente 400 círculos operários católicos existentes em sindicatos paralelos. como importantes instrumentos de organização e mobilização. A Igreja do Nordeste foi pioneira nas criticas radicais contra o regime. Em pleno Estado Novo. Um dos resultados mais visíveis das mudanças promovidas em Medellín foram as comunidades eclesiais de base – CEBs.

O assassinato de Santo Dias da Silva. CRISTÃOS (católicos) • • • • 2. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). IV Encontro Nacional da Articulação Nacional dos Movimentos Populares e Sindicais). em Goiânia. onde foram estabelecidos “alguns princípios básicos ligados à luta pela democratização da estrutura sindical”. Paulo Evaristo Arns. militantes de outras concepções e correntes políticas. levou a uma maior intensificação das manifestações. . • Combate ao comunismo • • Sem violência. Evitar o agravamento dos conflitos sociais. tornou-se um dos mártires da luta operaria. 04 a 10 de novembro de 2007. com o apoio da imensa maioria dos militantes católicos e. ele que era dirigente da Pastoral Operaria e muito próximo de D. Minas Gerais. essas forças politicas formaram a ANAMPOS (oficialmente. AMARELOS AMARELOS Sem violência. Em 1983. • Sindicatos e organizações • Negação da existência da luta comuns (entre patrões e de classes. • Continuidade do capitalismo. e ativistas ligados às novas diretorias sindicais “autenticas” ocorreu em João Monlevade. Em junho de 1982. em fevereiro de 1980.83 - . QUADROQUADRO-SÍNTESE POSIÇÕES MEIOS PROPOSTOS OBJETIVOS Luta contra as injustiças. oposições sindicais. esse movimento culminou na fundação da Central Única dos Trabalhadores – CUT. Desenvolver a função social do capitalismo. no ano seguinte. • Realização do reino de Deus Teologia da Libertação neste mundo Opção preferencial pelos pobres • Denúncia do regime e da Organização social de base (CEBs situação da classe trabalhadora e as Pastorais) • Redemocratização do país • Reorganização do movimento sindical no campo e na cidade • Colaboração de classes.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Quando o movimento operário brasileiro atingiu novo patamar. em vista de uma sociedade fraterna e justa. A aproximação entre militantes da oposição sindical. principalmente. na onda de greves iniciada em 1978 os militantes católicos tiveram papel destacado na reorganização do movimento sindical. e lideranças católicas. na articulação do Partido dos Trabalhadores. • Formação ideológica de • lideranças sindicais 1. acelerou-se com as greves. de movimentos de base. de comunidades eclesiais de base. • • Colaboração entre as classes. Um importante encontro de lideres de pastorais operarias. no afastamento das diretorias pelegas dos sindicatos e. de movimentos populares.

sem Estado. • Internacionalismo proletário. Revista Debate Sindical. – Jornal dos Trabalhadores Sem Terra. • Antipartidarismo.O que é Sindicalismo. 06 – out/nov/dez – 1989. BIBLIOGRAFIA • • • • • • • • • • ANTUNES. 03 – junho/julho/agosto – 1987. nº. nº 11 – fevereiro/março/abril – 1992. .84 - . nº. 1985. Coleção Primeiros Passos . RUI. • Sindicatos assistencialistas. • • • • • • • O Sindicato é o principal instrumento de luta. • Ação direta contra o Estado e os patrões. Apostila de Concepção.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG 3. Internacionalismo proletário. ANTUNES. 04 a 10 de novembro de 2007. José Carlos – Comunistas II. Destruição do capitalismo. • Destruição do capitalismo. • Greve geral insurrecional. RUI.Abril Cultural. Revista Debate Sindical. Fortalecimento do Estado Revolução proletária. Secretaria Nacional de Formação da CUT. Revista Debate Sindical. RUI. • Auto-gestão. Revista Debate Sindical.CUT Ontem e Hoje. Ricardo L. RUI. nº.C. 1987.C. 07 – março – 1990. COMUNISTAS 4. • O Partido é o principal instrumento de luta. • Combinação de ação legal e clandestina. nº. • Antiparlamentarismo. Ricardo L. Ano XXIV – numero 252 – maio de 2006. RUI. • Revolução proletária.1991. • Greve. José Carlos – Pelegos. • Participação parlamentar.1991. CEPS. • Contra a liberação de dirigentes sindicais. GIANNOTTI Antônio e NETO Sebastião .C. José Carlos – Comunistas I. • Sociedade harmoniosa. ANARQUISTAS operários). Socialismo e Comunismo. Estrutura e Política Sindical. Editora Brasil Urgente . ANTUNES. • Insurreição. José Carlos – Sindicalismo Cristão II. Revista Debate Sindical. . 02 – junho/julho/agosto – 1986. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE).Novo Sindicalismo. José Carlos – A presença dos anarquistas nos sindicatos. Ditadura do Proletariado. Ricardo L. . Editora Vozes . • Sociedade sem classes. • Estrutura Sindical federativa.

invalidez. que se segue. alfaiates. Desde a chegada dos colonizadores portugueses que tivemos. interesses e projetos. num amplo imbricamento de ações. a miséria. Até então. . de confronto com a opressão. de organização. nesse texto. ora manifestando-se como ações específicas e localizadas ou movimentos messiânicos." Gonzaguinha PARA INICIO DE CONVERSA Nos colocamos. mobilização que se constroem nos locais de trabalho. como sujeitos coletivos. como se constituiu a estrutura sindical oficial no Brasil. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). surgiram então às primeiras organizações de socorros mútuos. Doutoranda em Educação da UFPE.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG A HISTORIA DAS NOSSAS RAÍZES: ITINERÁRIO DAS LUTAS DOS TRABALHADORES (AS) RURAIS NO BRASIL E O SURGIMENTO DO SINDICALISMO RURAL Maria do Socorro Silva34 "Da desparecença dos tempos aprendo as tranças e tramas das novas lições. camponeses. Esse processo se dá através de lutas de resistências. sem um caráter essencialmente religioso. caboclos. considerando os limites a que nos propomos discutir o assunto em pauta. As primeiras organizações operárias. a luta pela posse da terra e por melhores condições de vida e de trabalho nas sociedades Colonial. política e econômica. 04 a 10 de novembro de 2007.85 - . A chamada Primeira República. social e ideológica – índios. sociedades de resistência. havia anteriormente trabalhadores. Monárquica35 e Republicana36 A proclamação da República (1889). etc. a ausência de direitos. seleiros. restringeremos nossa análise a elencar alguns movimentos ou lutas que contribuíram para esse processo. é o período de delineamento da identidade social e política do trabalhador brasileiro. o processo no qual é gestado a dinâmica do movimento sindical dos trabalhadores(as) rurais (MSTTR). marcam um dos momentos de maior transformação social já vivido pelo país. caixas beneficentes. que se traduz. diante do desafio de trazer ao debate questões que se inserem nas reflexões em torno do enraizamento histórico do sindicalismo rural no Brasil. Porém. Professora da Faculdade de Educação da UnB/UFCG.assegura o direito à associação e a reunião deixando em aberto qual seria o tipo de organização. No começo do século XIX já existiam algumas associações de artesãos. etc . onde constroem uma identidade e organizam práticas que visam defender direitos. quem trabalhara no Brasil foram os escravos e a sociedade imperial escravista desmerecera inteiramente o ato de 34 Pedagoga e Psicóloga. na roça e na comunidade. mas não uma classe trabalhadora. acidentes no trabalho. ou seja. escravos.com proporções e alcances distintos.. mas organizadas sob a forma de irmandades religiosas. a dependência. barqueiros. ora manifestando-se como amplos movimentos de massa construindo novas formas de organização social. 36 A primeira constituição republicana foi a de 1891 . em nosso país conflitos e rebeliões populares formados por complexa composição étnica. bolsa de trabalho. religiosos. foram associações voltadas para a ajuda mútua em situações de doença. É na teia de constituição dessas lutas que se forjam as condições para a tomada de consciência do que significa ser trabalhador(a) rural. juntamente com a Abolição da escravidão (1888). 35 No período Imperial tivemos apenas o nascimento das primeiras organizações operárias. Os movimentos sociais do campo vem se constituindo ao longo da nossa história. concretamente. Evidentemente. nesse momento.

mas sim constituísse a mão de obra assalariada necessária nos latifúndios. nas regiões Sul e Sudeste. a terra era livre. e no fortalecimento das organizações no momento atual. pois a partir desse momento a terra foi transformada em uma mercadoria a qual somente quem já dispunha dela e de capital pudesse ser proprietários. com isso tivemos uma intensificação dos conflitos por terra e pela libertação dos escravos. trata-se de um trabalho de conscientização e politização. que se disponha a transformar essa realidade. começamos a ter uma nova configuração.86 - . principalmente a borracha e a castanha. italianos. isso impedia que os ex-escravos. Em 1850. e do surgimento. . 1837). para o cultivo do café. No século XIX. vê-se que não é suficiente que o oprimido tenha consciência crítica da opressão. a terra ficou escrava”. milhares de nordestinos. podem sinalizar para descobertas importantes na construção de uma sociedade mais justa. 04 a 10 de novembro de 2007. movimentos de escravos.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG trabalhar. segundo José de Souza Martins. Essa Lei significou o casamento do capital com a propriedade de Terra. enquanto homens ou povos. brasileiros pobres. deve surgir e partir dos próprios oprimidos. Juntamente com o processo de luta contra a escravidão vamos ter a afirmação das leis de locação de serviços que visam regular o trabalho assalariado. os posseiros e os imigrantes pudessem se tornar proprietários.Lutas e mobilizações pela liberdade A luta dos trabalhadores (as) rurais brasileiros pela posse da terra. alemães. do sindicalismo rural brasileiro.” Paulo Freire 1. Nesse mesmo período. todos agricultores pobres atraídos para o Brasil por promessas de terra. na luta incessante de recuperação de sua humanidade". Quando o trabalho ficou livre. suíços. litígios e reações de parcela das populações pobres foram uma 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). professor da USP: “Enquanto o trabalho era escravo. revoltas como da Cabanagem e Balaiada. o império restringiu o direito de posse da terra por meio da Lei de Terras. mas. os trabalhadores não poderiam romper seus contratos a não ser que pagassem ao patrão quantia correspondente e se não o fizessem estariam sujeitos à prisão com trabalhos forçados até pagar suas dívidas. que tiveram um grande peso na formação da atual população de agricultores familiares amazônicos. e a pedagogia decorrente será aquela que tem que ser forjada com ele e não para ele. a partir de 1819. foram para o norte. trabalhar na extração dos produtos da floresta. visando garantir melhores condições de trabalho e de vida fazem parte da história do povo brasileiro: lutas de tribos indígenas. PRIMEIRO MOMENTO: DAS LUTAS PELA LIBERDADE AO SURGIMENTO DO SINDICALISMO RURAL “O movimento para a liberdade. primeiro com a chegada dos primeiros colonos europeus não-portugueses. O resgate do itinerário de algumas dessas lutas que são raízes da organização do campo brasileiro. fugindo da seca e da crise econômica dos engenhos de açúcar. principalmente sobre a forma de parceria ou colonato. (1830. que passaram a ocupar áreas ainda não utilizadas.

na organização coletiva da produção e na resistência e combate a escravidão.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG constante ao longo da nossa história. Durante sua existência foram feitas varias tentativas de destruir Palmares. Por fim. um dia.87 - . aliaram-se aos franceses tomaram a Baía de Guanabara. pela 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). chegou a reunir mais de 20 mil habitantes. . Um dos mais importantes quilombos de nossa história foi Palmares foi construído no fim do século XVI e resistiu até o fim do século XVIII. o governo de Pernambuco solicitou a ajuda do bandeirante paulista Domingos Jorge Velho. os quilombolas encontravam-se sozinhos e apenas podiam contar com o que possuíam. a Espanha trocava os Sete Povos das Missões. tão valente. A paz foi conseguida pelos padres José de Anchieta e Manuel da Nóbrega. a munição dos sitiados tinha de se esgotar. O sistema de vida e produção organizado em Palmares pode resistir a economia patriarcal e escravocrata. Guerra dos Guaranis e a Guerra dos Bárbaros. como também índios e pobres livres. que preparou uma expedição para derrotar os fugitivos. Outros se suicidaram ou renderam-se aos atacantes. Quando isto se deu. na margem esquerda do rio Uruguai. É claro que. e era governando por um rei (sendo o mais conhecido Zumbi) e um conselho formado por chefes dos quilombos. Os negros tinham uma desvantagem: estavam cercados. principalmente contando com o interesse do governo. a) Quilombos Nos quilombos refugiavam não só escravos foragidos. e que tiveram nos camponeses (as) sujeitos protagonistas de várias dessas lutas e mobilizações. que pretendiam escravizá-los. Organizou um exército realmente poderoso e voltou ao ataque. o Tratado de Madrid determinou novos limites entre os impérios coloniais de Portugal e Espanha. a resistência dos quilombolas foi tão grande. A Confederação dos Tamoios Em 1562. b) Missões A luta dos indígenas ao longo da nossa história apresenta raízes de uma organização camponesa. que a luta durou perto de três anos. Durante todos esses períodos tivemos ações populares de intervenção na ordem social. localizava-se na Serra da Barriga entre Pernambuco e Alagoas. os exemplos mais conhecidos são: a Confederações dos Tamoios. práticas reprimidas de participação social e política do povo que colocaram em ebulição os direitos políticos e sociais. antes que a cidadania e a sociedade civil se estabelecessem entre nós. Enquanto os atacantes podiam conseguir reforços e munições de fora. Também ele falhou nas primeiras tentativas. pelo novo acordo. Na área do estuário do Prata. muitos negros fugiram para o sertão. homens altivos. com uma cultura e economia baseada na policultura. 04 a 10 de novembro de 2007. principalmente por meio das missões. Guerra dos Guaranis Em 1750. Mesmo assim. Não fora difícil aos franceses conquistar os tamoios. que há tempos lutavam contra portugueses. mas não desistiu.

Todavia. Lutas messiânicas – 1888 e a década de 1930 As lutas messiânicas se caracterizam pela existência de uma liderança messiânica. Chegou a ter cerca de 10 mil habitantes. Mas já não existia o entusiasmo de antes e as mesmas condições de resistência e luta. Portugal e Espanha voltaram atrás. resistiram por cerca de mais vinte anos sempre lutando como podiam pela posse de suas terras e na tentativa de vencer as injustas estratégias da dominação colonial. os portugueses da Colônia do Sacramento também não estavam satisfeitos com a troca de terras. os Guaranis continuaram a ocupar a área dos Sete Povos.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Colônia do Sacramento. em Santa 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). apesar das degolas. Na comunidade havia um fundo comum destinado a proteção dos velhos e aos doentes. Em 1754. Mas os portugueses e espanhóis se uniram contra os rebeldes. Ao final da construção da ferrovia. Ë por isso que alguns autores chamam as revoltas camponesas do período de lutas messiânicas. alguns sobreviventes foram para as reduções da margem direita do Uruguai. começou a Guerra Guaranítica. Isso significa que a fé era a ligação entre ele e seus seguidores. pois. o exército europeu massacrou os guerreiros guaranis. b) Guerra do Contestado Em 1912. estes bravios guerreiros. o governo concedeu uma enorme extensão de terras à empresa norte-americana Brasil Railway Company. anulando o Tratado de Madrid em 1761. envolvendo todos os membros da família. 04 a 10 de novembro de 2007. Entre outubro de 1896 e outubro de 1897. liderados por Nicolau Ñeenguiru e Sepé Tiaraju. e foi empreendida pelos cariris. além dos índios. mais de 5 mil soldados do exercito e armamentos pesados de guerra foram envolvidos no ataque ao arraial. Em 1752. no trecho previsto para a construção da ferrovia São Paulo-Rio Grande do Sul. Com isso. Guerra dos Bárbaros Essa guerra durou vinte anos. Criou-se um povoado em que o trabalho cooperado foi essencial para a preservação da comunidade. a partir de 1682. O cenário dessa guerra foi uma extensa área do Nordeste. Dentre essas podemos destacar: a) Canudos a terra prometida Os/as trabalhadores rurais e escravos peregrinavam pelo sertão. dos portugueses. particularmente nos vales do Rio Açu (atual Piranhas) e Jaguaribe. Os governos de Madrid e Lisboa tomaram decisões sem levar em conta os interesses dos jesuítas e guaranis. .88 - . cerca de 8 mil trabalhadores ficaram desempregados e passaram a perambular pela região a procura de trabalho. que durou dois anos. cativeiros e reduções em aldeamentos jesuíticos que sofreram ao longo dessa história que lhes fora imposta. Melhor equipado. enviaram comissões para tornar efetivas as mudanças previstas no Tratado. Obrigados a sair. A guerra não resolveu as questões de limites. atrás do beato Antônio Conselheiro. Nesse momento surgiu na região de Campos Novos e Curitibanos. Os Guaranis se revoltaram e se organizaram para defender suas terras. 2. Todos tinham direito a terra e desenvolviam a agricultura para auto-consumo. até se estabelecerem no Arraial do Canudos. dos aprisionamentos.

que a entregou ao beato Zé Lourenço e seus seguidores para trabalharem na terra. acontece o segundo bombardeio aéreo sobre civis na história do Brasil. (o primeiro foi em 1912. mais não conseguem vencer a comunidade. iniciaram uma guerra contra os camponeses para destruir Caldeirão. destruindo assim o povoado. Os produtos excedentes eram vendidos em Juazeiro e no Crato. calçados. os lideres lançaram um manifesto monarquista e declararam a “guerra santa” contra os coronéis. e onde começaram a funcionar as “Escolas Internacionalistas”. ao chegar à época da colheita. c) Guerra do Caldeirão Uma luta de resistência camponesa. Inicialmente ficaram numa área de disputa entre Paraná e Santa Catarina.89 - . A força militar chega ao sítio e os moradores resistem à destruição. retornam usando dessa vez aviões. tais como a Colônia Cecília. no período de 1926-1937. Contestado). O Caldeirão ficou auto-suficiente. cuja ação deveria ser voltada para o desenvolvimento da consciência da classe. As lutas prépré-sindicalistas a) As colônias anarquistas A chegada dos imigrantes para trabalhar nas lavouras do café dos grandes fazendeiros vai trazer mudanças no perfil do campesinato brasileiro. A formação de núcleos ou colônias. O nome Caldeirão refere-se a uma depressão no relevo. organizadas sem propriedade individual. contra os latifundiários. que depois se espalharam por outras áreas de imigração do sul do Brasil. os mutirões. quando foram assassinadas mais de 400 pessoas.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Catarina. desta forma estava sempre devendo ao fazendeiro. Colônia Leopoldina. nos seus armazéns. liderado pelo monge José Maria. até mesmo aviões foram utilizados pra localizar os redutos rebeldes. onde se encontrava água cristalina durante todo o ano. Dias depois. . Sua fama crescia e já influenciava outras cidades. Recebiam um preço de terra onde desenvolvia uma cultura de autoconsumo. temendo o aumento da organização dos trabalhadores e uma possível ocupação de suas terras. 3. O arraial foi dizimado quando o governo enviou cerca de 07 mil soldados do exercito. sofrendo as mais variadas injustiças e perseguições. e a organização de núcleos e colônias que serão precursores do sindicalismo brasileiro. A exploração imposta faz com que se organizem ainda que de forma clandestina (já que o Ato Adicional de 1834 proibia toda e qualquer associação de ofício): surgem as primeiras associações de socorro mútuo. com repudio a 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). artesanato. que. Colônia Nova Itália. sem lei e sem religião. as companhias de terras e as autoridades governamentais. no entanto. Além disso. A área pertencia ao padre Cícero . na Chapada do Araripe. Ninguém se considerava dono de alguma coisa. muitos eram expulsos. a grande concentração de camponeses naquelas terras chamou a atenção dos fazendeiros. casas são incendiadas e pessoas mortas. roupas. Em 1915. por isso chamado de Contestado. que chegou a cerca de 20 mil pessoas. que aconteceu no Ceará. Além de ser explorado com baixa remuneração (a família toda precisava trabalhar para a subsistência). o colono ainda sofria a especulação do fazendeiro. confecção de redes. os anarquistas começaram a se organizar nos sindicatos. pois era obrigado a comprar o que precisava pelo dobro do preço. Todas as ferramentas necessárias para o trabalho eram feitas na própria comunidade.famoso religioso e político da época . um movimento camponês de caráter político-religioso. 04 a 10 de novembro de 2007. porque tinham uma produção diversificada: agricultura. Todavia. etc.

além disso. com o golpe militar. Articulavam a educação entre si. com a contribuição do PCB. desemprego.Bahia em 1940. sendo desencadeada um processo de repressão e o uso intensivo da Lei Adolfo Gordo. começou o processo de expulsão dos posseiros. 37 Desde esse período a necessidade de formação sindical já se fazia presente entre as organizações. quando a nível internacional. seminários. foi solto no ano seguinte e desapareceu. José Porfírio. pois era considerado um veículo de conscientização e transformação das sociedades. etc). toda a região estava organizada na Associação dos Lavradores de Trombas e Formoso. pesquisas.90 - . oficinas. Trabalhadores provenientes do Maranhão e Piauí chegaram ao local liderado por Jose Porfírio e estabeleceram posses numa área de terra devoluta. recusa intransigente ao assistencialismo e mobilização permanente dos trabalhadores para ação direta contra os patrões.governo Hermes da Fonseca). um juiz e um dono de cartório da região. c) Trombas e Formoso Em 1948. que estavam sendo griladas. A partir de 1955 com a construção das rodovias. sem perda de tempo. Os posseiros ganharam muita força na região e formaram vários sindicatos. quando foram presos e torturados pela ditadura militar. reinava fome e miséria. no norte de Goiás. os supostos donos das terras começaram a aparecer de todos os lados e impuseram aos posseiros a condição de derrubar a mata para formação de pasto. Esse processo vai ser intensificado em 1917. ali viviam muitos posseiros. intercâmbios. mobilizações. Em 1907. por um grupo de fazendeiros. ocorria a Primeira Guerra Mundial. é aprovada a Lei Adolfo Gordo para expulsar lideranças sindicais estrangeiras (1907/1913. Eles queriam que os posseiros saíssem das terras. e os anarquistas e socialistas faziam intensa propaganda anti-militarista. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). No final da década de 1950. inclusive acarretando a morte da mulher de José Porfírio. culminando com a Greve Geral. e a formação na ação que ocorre no cotidiano da organização. a organização foi se afirmando. recessão. até a região se tornar um município e Jose Porfírio foi eleito deputado estadual em 1962. Eles começaram então a juntar os posseiros para formar uma associação (visto que os sindicatos rurais ainda não eram reconhecidos). Então os grileiros queimaram as roças e as casas dos camponeses. eles só podiam plantar para subsistência. sendo responsável pela formação de novas mentalidades e ideais revolucionários. . a recusa foi geral. b) Posseiros da Rodovia RioRio-Bahia. Para os libertários a educação ocuparia um papel de destaque. nas comunidades. essa organização foi até a década de 1964. a situação econômica para os trabalhadores (as) estava insuportável: carestia. A valorização das terras da Região de Governador Valadores . foi preso em 1972. e eles pagariam as benfeitorias feitas. 04 a 10 de novembro de 2007. em três dimensões: a educação político-sindical37. o que foi desmentalado em 1964. a construção da Transbrasiliana e o projeto de colonização dos governo federal valorizaram as terras da região de Uruaçu. a educação escolar e as práticas culturais de massa.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG idéia de organizar os trabalhadores em partido político.MG devido à perspectiva da construção da rodovia Rio . Depois de viver na clandestinidade. no trabalho. sistematização coletiva de experiências. já colocavam a educação em suas diferentes dimensões sinalizando para o que chamamos hoje de formação programada (cursos.

buscar aliança com a Coluna Prestes e atuar na área rural brasileira. a quebra da bolsa de Nova York (1929). que identifica a realidade brasileira como sendo de um capitalismo agrário semi-feudal. a estratégia fundamental no operariado não pode basear-se na luta contra o capital. a revolução russa (1917). a etapa primeira representada pela revolução democrático-burguesa é constituída pelo desenvolvimento do capitalismo. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Com isso entendemos porque o BOC vai centrar sua ação nas questões sociais.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG c) Influência Influência do Partido comunista formação do Bloco Operário e Camponês (BOC) A mudança de ênfase no PCB sobre a realidade brasileira. pois para Lênin. seria anti-imperialista e anti-feudal. a fim de que possam ser eliminadas as antigas formas de produção ainda existentes nessas sociedades atrasadas. a crise do café. pelo contrário. 04 a 10 de novembro de 2007. camponeses que começaram a reinvidicar a suspensão do pagamento da dívida externa. artistas. os resultados da revolução de 1930 e as definições do comunismo internacional levaram a uma re-orientação para a “obreirizaçao”. de caráter nacional e democrático. sem questionar o sistema social vigente. O fim da primeira guerra mundial (1914-1918). luta por ela precisamente porque não a tem” (Freire. É esse caráter democráticoburguês que a proposta do BOC confere. Por isso. Na verdade essa aliança acabou tendo uma dimensão mais eleitoral de assegurar candidaturas que assegurassem a defesa dos interesses proletários. leva o partido a formar o Bloco Operário e Camponês (BOC) em 1927. Essa tese se fundamenta na revolução leninista. Daí os acenos a setores da pequena burguesia como forma de romper o bloqueio à ação política que lhe era imposto não só pelas classes dominantes como também pela sua própria fraqueza interna. . onde a revolução seria feita por etapas: a primeira. Essa aliança retoma na ação do partido na década de 1960 com a participação na organização das Ligas Camponesas e dos sindicatos rurais. que consistia em substituir os intelectuais por operários nos cargos e instâncias partidárias e o fim do BOC. Embora esse processo revolucionário deva estar sob a direção política do proletariado. a reforma agrária. 1978).91 - . suas tarefas consistem em desenvolver as forças produtivas capitalistas (modernas). à luta de classes. reformas modernizadoras. o movimento tenentista e a coluna Prestes marcou uma grande seqüência de manifestações de operários. para isso teria que fazer alianças entre o operariado e o campesinato. As divergências com relação a essa aliança. militares. pleiteando. mas sim numa aliança com o campesinato para enfrentar o feudalismo. de caráter socialista. A análise da sociedade como sendo um país semi-feudal. incorporar a luta contra a política da oligarquia. a elaboração de uma legislação protegendo os trabalhadores rurais e colonização em terras devolutas com base em pequenas propriedades. a segunda. daí a necessidade de ampliar sua ação e se aproximar de outras organizações progressistas. SEGUNDO MOMENTO: A IMPLANTAÇÃO DA ESTRUTURA SINDICAL NO BRASIL NO CONTEXTO DO ESTADO NOVO “Ninguém tem liberdade para ser livre. a partir de 1928.

e o fortalecimento de uma classe média urbana. e 3) evitar a emergência da luta de classes. Os diretores só podiam ser brasileiros natos ou com mais de 20 anos de residência. Até essa época todos os sindicatos eram formados por iniciativa de trabalhadores de uma profissão ou categoria e se mantinham através das contribuições de seus associados. De fato. os “tenentes”. sucedendo-lhe a chamada Revolução de São Paulo. A nova lei de sindicalização visava oficializar. que culmina com a formação da Coluna Prestes (1924-1927). A constituição corporativista de 1937 e a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) consolidam a política varguista para o 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Pelo projeto governamental. constituindo a aliança entre desiguais – populismo brasileiro. desencadeiam um ciclo de movimentos armados.para permitir a consolidação do poder dos industriais contra o poder da oligarquia rural. então. sendo obrigação do ministério do trabalho fiscalizar as assembléias e contabilidade dos sindicatos. não consegue se estruturar no restante do Brasil. jornada de trabalho de 08 horas. eram conquistas ou reinvidicações dos trabalhadores ao longo de anos de luta. criador de classes sociais modernas (burguesia industrial e proletariado). ou seja. Os industriais que querem controlar o poder. As oligarquias agrárias. considerando-o como mero fator de produção. 2) disciplinar o trabalho. para uma aliança com a classe operária e a chamada “classe média”. É importante notar que a oligarquia agrária foi capaz de diversificar seus negócios expandindo-se em atividades urbanas. ligadas á lavoura de exportação. essa aliança que se afirma na Região Sudeste. servindo de pára-choques entre tendências conflitivas nas relações do capital com o trabalho. proteção ao trabalho das mulheres e das crianças. Os sindicatos eram livres. entram enquanto classe. O projeto sindical populista de Vargas previa a adoção de leis que. cujo início é a revolta do Forte de Copacabana (1922). utilizando o sindicato como “para-choque. 04 a 10 de novembro de 2007. as chamadas leis sociais: pensões de aposentadoria. de arma autônoma dos trabalhadores. inaugura as condições que permitiriam no decorrer dos anos seguintes.92 - . num persistente processo de decadência econômica. Lideradas pelo seu segmento mais radical. e aproveitarse do capital industrial. em agência colaboradora do Estado. que mostrou uma capacidade insuspeita de se manter no controle do poder político ate 1964. atrelar os sindicatos ao recém criado Ministério do Trabalho. embora o sistema político continue fortemente influenciado por ela. sem perder sem abrir mão do autoritarismo e conservadorismo. independentes e funcionavam como organismos de luta por melhores condições de vida e salário. os objetivos básicos da Lei de Sindicalização eram claros: 1) transformar o sindicato. . os sindicatos deveriam funcionar como um órgão de conciliação entre os trabalhadores e os patrões e como um órgão de caráter assistencialista. A lei de sindicalização definindo o sindicato como órgão de colaboração com o poder público. o Estado. o decreto conhecido como Lei de Sindicalização (decreto 19. não tem força para fazê-lo sozinhos. e sua vinculação com o rural. tendo Getúlio Vargas com seu representante. de 19 de março de 1931). entre o capital e o trabalho.770. a modernização conservadora e a construção do Estado Moderno. apelam. através de associações. o que lhes garantia e fortalecia seus currais eleitorais. que insatisfeita com o domínio imposto pelas oligarquias agrárias.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG A revolução de 1930. na verdade. É dentro desse contexto que o Governo Vargas assina em 15 de março de 1931.

Tubarão em Santa Catarina. de 1957. foi um dos fatores que impediram a elaboração e a implementação de uma legislação especifica para o campo. o Ministério do Trabalho só tinha reconhecido o sindicato rural de Campos. Também o Pacto de Unidade e Ação (PUA). A CLT exclui os trabalhadores rurais do direito a sindicalizar-se apesar de lhes assegurar o direito ao salário mínimo. A inexistência de uma organização no campo que aglutinasse essas bandeiras. Uma vez constituído o sindicato de acordo com a lei.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG movimento operário. Ilhéus e Itabuna. Assim até 1955. além da presença permanente nos sindicatos em assembléias e no controle das finanças. inclusive acionando a polícia para reprimir qualquer tentativa de organização e mobilização dos trabalhadores (as) rurais. Rio Formoso e Serinhaém. parceiros. e a divulgação de um regime sindical especifico. em São Paulo que chegou a aglutinar não só sindicatos mas federações de mulheres. quase não existiam juntas de conciliação e julgamento nas cidades do interior. exigia-se ainda. 2005). O estimulo a sindicalização era acompanhada por uma propaganda doutrinaria que envolvia benefícios sociais advindos de um conjunto de leis trabalhistas. foram organizados sindicatos de forma localizada e isolada. Belmonte. e os proprietários rurais agiam de forma repressiva. não considerando a especificidade do trabalho no campo. o mais antigo do país. No entanto. Embora existisse uma legislação que permitia a criação de sindicatos.038 se autoriza de forma explicita a sindicalização rural. entidades estudantis. com a instalação da justiça do trabalho e a criação do imposto sindical. porém esta lei não foi implementada. . significando progressivamente a implantação de um projeto totalitário de poder. Muitas eram as dificuldades para esse tipo de organização: a legislação trabalhista era feita para os trabalhadores urbanos. ou o Comando Geral dos Trabalhadores (CGT). o regime corporativista. além de associações mais voltadas aos interesses dos pequenos produtores. como arrendatários. para o seu reconhecimento o envio de seus estatutos ao Ministério do Trabalho para aprovação. deram certa autonomia e permitiram articular melhor as lideranças e deram mais vigor as lutas dos trabalhadores (Abreu e Lima. Portanto. dentre as quais a educação constituiu um dos mecanismos de propaganda e de convencimento. organizado a partir da greve de 1953. posseiros e pequenos proprietários. principalmente por meio das práticas de formação sindical incentivadas pelo Ministério do Trabalho. nos sindicatos dirigidos por ministerialistas ou ‘amarelos’. A construção da estrutura sindical oficial (e a ideologia corporativista que lhe dá suporte) não foi somente produto da repressão e do silêncio a que foram subjugados os setores mais combativos e de esquerda do movimento sindical brasileiro.93 - . 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). somente em 1944 através do Decreto 7. em Pernambuco. à época. associações de bairro. No que se refere à defesa dos direitos trabalhistas na área rural. 04 a 10 de novembro de 2007. Rio de Janeiro (que tinha sido criado em 1938). o código civil não permitia a organização de sindicatos rurais. de 1962. na Bahia. as influências das correntes comunistas e anarquistas criaram organizações paralelas como foi o caso do Pacto da União Intersindical (PUI). e em seguida: Barreiros. Foi também resultado de uma série de medidas legais e político-ideológicas que engenhosamente articuladas.

Zé Vicente Após a segunda guerra mundial. no nível estadual além das lideranças camponesas. As Ligas se organizavam em “delegacias ou núcleos. ê. que resistiram ao processo de despejo. na missa. lavradores. parlamentares”. envolvia profissionais liberais. com a construção de grandes obras e expansão de crédito. distritos ou fazendas. para fornecer assistência médica. contra as ações de despejo acionadas pelos usineiros e latifundiários. as organizações camponesas passaram a se contrapor. ê. o PCB manteve algum trabalho no campo. ê Somos gente nova vivendo o amor Somos comunidade. fundada inicialmente com fins basicamente assistenciais. A partir das Ligas os camponeses organizados faziam um trabalho de denúncia. Nesse processo. “A repressão atribuiu o nome de Ligas à organização desses trabalhadores para caracterizá-los como comunistas. impuseram o aumento do foro e tentaram expulsar os foreiros da terra. surgiram três grandes organizações camponesas que deram uma outra fisionomia ao debate e as lutas dos camponeses (as) no País: a) Ligas camponesas Em 1955. boletins. do aumento dos dias de cambão. 2005). cordéis. criar escolas e uma caixa funerária para seus associados. povo do Senhor. . e começaram a participar da formação da Sociedade Agrícola dos Plantadores e Pecuaristas de Pernambuco (SAPPP). houve uma aceleração do processo de penetração capitalista. se tornando um movimento de luta pela Reforma Agrária que se espalhou por vários Estados do Nordeste. estudantes.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG TERCEIRO MOMENTO: OS CAMPONESES ORGANIZADOS COMO CLASSE Somos gente nova vivendo a união Somos povo. intelectuais. em Vitória de Santo Antão. e posteriormente. semente de uma nova nação. pão e paz. no campo. eram compostas só de camponeses. etc. As ligas utilizavam diferentes estratégias para organizar e formar os trabalhadores: conversas na feira. Como reação a esse processo. 2005). b) União dos Lavradores e Trabalhadores Trabalhadores Agrícolas – ULTAB Mesmo na ilegalidade. da supressão do direito do cultivo do sitio. (Abreu e Lima. de forma articulada. os donos do Engenho Galileia. Através da expulsão do morador. agitação. pequenos proprietários e moradores de engenho (que tinham direito a cultivar a lavoura branca e a obrigação de prestar três dias de serviço por semana ao proprietário). jurídica. parceiros. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). No período de 1954 a 1964. em alusão ao nome por estes utilizados para certas organizações populares”(Abreu e Lima. e em 1954. resistência na terra e mobilizações.94 - . biscateiros e outros mais E juntos vamos celebrar a confiança Nesta luta na esperança de ter terra. Em âmbito local. por município. nos locais de trabalho. ê Vou convidar os meus irmãos trabalhadores Operários. 04 a 10 de novembro de 2007. foram duramente atingidos os foreiros.

marcou o reconhecimento social e político da categoria camponesa e o reconhecimento do seu potencial organizativo dentro da sociedade brasileira. em 1963. sendo a primeira experiência na perspectiva sindical no campo brasileiro. da ULTAB. inclusive a Igreja Católica. atingindo outros setores da sociedade. tendo-se discutido o direito a organização dos trabalhadores rurais em associações e sindicatos. não encolho a mão: avanço levando um ramo de sol. com a presença de 303 representantes de 16 estados. o direito de greve. foi fundada a ULTAB. que aliavam as lutas por direitos trabalhistas e reforma agrária e do surgimento dos sindicatos de trabalhadores e trabalhadoras rurais. adoção de medidas de apoio a produção etc. a reforma agrária. 04 a 10 de novembro de 2007. que embora explicitasse as divergências. o que já era o bastante para deixar os latifundiários muito aborrecidos com o governo. Nesse período foi criado o Estatuto do Trabalhador Rural (1963). . que passou a atuar na perspectiva de fortalecer a posição da Igreja entre os camponeses através da criação de sindicatos38. do Master e a influência do 38 No Rio Grande do Norte. realizado em 1961. Essas três organizações durante sua existência assumiram algumas lutas de forma unificada. CAMPO: PO: CONTAG SURGE A PRIMEIRA ORGANIZAÇÃO SINDICAL NACIONAL NO CAM Ainda que o gesto me doa. o movimento camponês cresceu e as discussões sobre a questão fundiária ampliaram-se. a greve no setor canavieiro em Pernambuco. c) Movimento dos Agricultores Agricultores Sem Terra – MASTER Surgiu no Rio Grande do Sul em 1950. Em Jaboatão (PE) o padre Crespo e o Padre Antonio Melo no Cabo (PE) passam a criar sindicatos com um objetivo declarado de enfraquecer o avanço das Ligas Camponesas e do PCB. que obteve conquistas significativas para a categoria ou a participação em Congressos como o I Congresso Nacional dos Lavradores e Trabalhadores Agrícolas. a partir da resistência de 300 famílias de posseiros. em áreas previamente escolhidas. inovava com relação às formas de luta. As principais eram a reforma agrária. reforma na educação e no sistema bancário.. a vida que vai comigo é fogo: esta sempre acesa Thiago de Mello A existência das Ligas Camponesas.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG na II Conferencia Nacional de Lavradores. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). que concedia aposentadoria por invalidez ou por velhice como resultado das lutas lideradas pelas Ligas Camponesas no Nordeste. A década de 1960 chega com o país falando de reformas de bases. Mesmo enrolada de pó. dentro da noite mais fria. formando acampamentos e organizando estratégias de defesa.95 - . dentro das terras dos latifundiários. o então Bispo Dom Eugenio Sales funda em 1960 o Serviço de Orientação Rural (SAR) uma organização beneficente da Igreja destinada a fundar sindicatos. previdência social.. como por exemplo. Até 1962 48 sindicatos foram fundados e 16 deles foram reconhecidos. das federações e da CONTAG. A partir. pois executava a ocupação de terras.

acabou sendo promulgada com modificações. pela ditadura militar. na busca pela melhoria das condições de vida dos trabalhadores do campo. de agricultores. prisão e tortura para os opositores e censura prévia nos meios de comunicação. setores da Igreja. Já em 1964. que reuniu 1. que obrigou muitos agricultores familiares a saírem do campo. vinculada às estruturas formadas pela Igreja junto aos movimentos populares. o que ocorreu em 22 de dezembro de 1963. no Maranhão. sendo que 27 eram reconhecidas oficialmente pelo Ministério. serem colocadas em segundo plano. A mobilização popular a favor das reformas amedrontou a classe dominante. sendo reconhecida em 31 de janeiro de 1964. as tropas militares ocuparam os pontos estratégicos do país. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Em março de 1971. com a participação de trabalhadores rurais de 18 estados. a AP formalizou a influência do marxismo e se proclamou partido com a denominação de Ação Popular Marxista-Leninista (APML). Foi da Juventude Estudantil Católica que partiram as primeiras discussões que operaram mudanças políticas e ideológicas e sua transformação em uma organização marxista-leninista. da Zona Canavieira em Pernambuco. da região Cacaueira da Bahia. Recém criada a CONTAG. 04 a 10 de novembro de 2007. temiam que fosse apenas o começo de uma série de transformações radicais no país. provenientes das Ligas e os comunistas”. como resposta as reinvidicações do movimento sindical. autoritarismo. que por um lado definiu regras para os contratos de arrendamento e parceria. “A CONTAG torna-se a primeira entidade sindical camponesa de caráter nacional reconhecida legalmente. e do Vale do Pindaré. de lavradores.AP39. 1985). que viu bandeiras de lutas políticas dos trabalhadores. com um grande aumento da miséria na área rural e nas cidades. de pescadores. Nos primeiros anos da década de 1960. ainda fortemente influenciada pelo ideário humanista cristão. perseguição militar. sendo denominada Estatuto da Terra. esse foi o quadro político criado pelo regime militar para arrasar toda oposição a sua forma de governar o país. foi decretada a Primeira Lei de Reforma Agrária do Brasil elaborada ainda no Governo João Goulart.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG PCB e da Ação Popular. Esse processo culminou na realização do 1º Congresso Nacional dos Lavradores e trabalhadores agrícolas. desde os setores mais à direita. a da reforma agrária. as bandeiras de lutas atualizadas e ampliadas e estabelecidas linhas de ação comum. Em 1962. 39 Foi formada em Belo Horizonte (MG). A AP deslocou militantes para as fábricas e para o meio rural. de concepções e de formas de organização. a partir de grupos de operários e estudantes ligados à Igreja Católica: a Juventude Operária Católica (JOC). em Belo Horizonte coordenado pela ULTAB. camponeses e estudantes. pela reforma agrária. principalmente entre os últimos. Juventude Universitária Católica (JUC) e a Juventude Estudantil Católica (JEC). (Revista dos 40 anos da CONTAG). Ajustou em seu interior diversas concepções e correntes de pensamentos. Articular nacionalmente as lutas passou a ser uma das principais preocupações. em 1961.600 delegados de várias organizações. apesar das diferentes correntes de pensamento. e por outro incentivou o pacote da Revolução Verde. em 1962. já existiam 42 federações. que continuou sua ação política durante a ditadura (ACO. de trabalhadores rurais. em especial. sofre de imediato a violência do golpe militar sobre as lideranças de sua organização. que solicitou a realização de um Congresso Nacional para criação da Confederação. desrespeito a constituição. . em alguns estados mais de duas: de assalariados. A resposta das elites veio de imediato no dia 31 de março de 1964. distribuídos em 29 federações. a AP possuía penetração entre operários. fizeram com que a organização dos trabalhadores(as) rurais em sindicatos fosse acelerada. da área de Pariconha e Água Branca em Alagoas. sendo efetuadas experiências em meios populares como o ABC paulista. pelo Decreto Presidencial 53.96 - .517.

impostos nos sindicatos e federações pela ditadura. Priorizava a oralidade e a expressão corporal. da importância do ambiente cultural na formação do ser humano. “Após a intervenção. tendo como interventor José Rotta. A partir de 1966. Portanto. Eram organizações quase clandestinas em grande parte fomentadas ou apoiadas pela Igreja. prosas e cordéis. as relações comunitárias de parentesco e de vizinhança foram à base da organização dos “posseiros”. Outro instrumento utilizado no final da década de 1960 e meados de 1970. Os materiais de comunicação sindical foram fundamentais para garantir minimamente uma ação articulada nacional. foi o sócio-drama. A formação sindical centrava sua ação na alfabetização dos trabalhadores (as). Também reproduziam as poesias. . O trabalho comunitário e de pequenos grupos foi á estratégia adotada durante muitos anos para resistir e formar novas lideranças durante a fase da ditadura. Foi na experiência de comunidades já existentes. na difusão de práticas agrícolas e cursos políticos para formar novas lideranças. do trabalho em grupos. 04 a 10 de novembro de 2007. por exemplo.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Logo na sua criação tinha sido constituída uma equipe de “educação sindical” com o objetivo de capacitar lideranças e dirigentes a fim de mantê-los informados. dialogando com os desafios do dia-a-dia. na sua organização já construída e na solidariedade que novos migrantes foram rompendo as fronteiras do latifúndio na região. buscando a organização dos sindicatos e federações. que durante a ditadura tiveram que atuar de forma quase clandestina. O cerceamento das liberdades individuais e coletivas inibia qualquer divulgação de trabalhos que pudessem.97 - . caso a repressão militar resolvesse censurar os textos.(Revista 40 anos da CONTAG) O cotidiano e o estímulo à organização dos trabalhadores (as) rurais eram reproduzidos por meio de personagens. revistas e jornais. foi constituída uma Junta Governativa que durante um ano administrou a CONTAG.”(Revista 40 anos da CONTAG). sem serem perturbados pela Policia ou pelo Ministério do Trabalho. na Amazônia. Eram boletins. para estimular uma visão crítica daquele momento que o país vivia sem chamar a atenção do poder público (Revista CONTAG 40 anos). Os autores das histórias utilizavam pseudônimos. nas temáticas do movimento e da realidade social e política do país. De meados da década de 60 até o final da década de 70. durante toda a década de 1970. escritas pelos trabalhadores (as) rurais. No ano seguinte. A formação se traduzia em práticas educativas para garantir núcleos organizados nos locais de trabalho e para fortalecer o processo de retirada dos interventores e sindicalistas pelegos. da formação de base. esse período nos ensinou a importância da comunidade. e superar as dissidências alimentadas durante o período de intervenção. uma diretoria foi eleita para administrar a entidade durante o período de 1965 a 1968. regional e estadual. as lutas 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). em seu conteúdo. Os núcleos formados por famílias extensas e vizinhos. A criatividade marcou esse período. os autores estariam protegidos. e foram ficando na terra e produzindo. formavam uma rede importante de relações através das quais se recrutavam os membros das comunidades para as ações coletivas. liderados pelos mais antigos. que tinham como objetivo central a conscientização e a socialização das vitórias e lutas do MSTTR. trabalhadores que resistiam à ditadura buscaram retomar o controle da entidade. ser interpretado como “ofensivo” ao governo e a “ordem pública”.

Brasília. Maria da Glória. e de outros galos que com muitos outros galos se cruzem os fios de sol de seus gritos de galo. (1985) História da classe operária no Brasil: Gestação e nascimento -1500 a 1888. a educação. CONTAG. Tecendo a manhã João Cabral de Melo Neto Um galo sozinho não tece uma manhã: ele precisará sempre de outros galos. Recife: Editora Universitária da UFPE: Editora Oito de Março. Pedagogias em Movimento – o que temos a aprender dos Movimentos Sociais? In: Currículo sem Fronteiras. projetos. para que a manhã. De um que apanhe esse grito que ele lançou e o lance a outro. a saúde. 2004. os valores humanistas. . Revista dos 40 anos.98 - . (2003). Minas Gerais. ecologicamente sustentável com equidade e justiça social continuam na agenda do dia para tecer o amanhã. a soberania alimentar. 1985. as relações igualitárias de gênero e etnia.1. 2005. muitas vezes com o amparo da força pública. Rio de Janeiro: ACO. 28-49. A militarização proporcionou diferentes e combinadas formas de violência contra os trabalhadores. Jan/Jun. Miguel. desde uma teia tênue. entre todos os galos REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ACO. A violência da polícia. GOHN.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG camponesas eclodiam por todo o território nacional. a luta pela terra. portanto. 04 a 10 de novembro de 2007. os conflitos fundiários triplicaram e o governo. escorada na justiça desmoralizada. No ano derradeiro do governo militar. n. de um outro galo que apanhe o grito que um galo antes lançou e o lance a outro. Maria do Socorro de. As desigualdades sociais e a exclusão continuam acirrando as contradições de nossa sociedade. Construindo o sindicalismo rural: lutas. pp. que decretou ações contra os trabalhadores. pela cidadania. ABREU E LIMA. pelo meio ambiente. A violência do peão que é o jagunço da força privada. ARROYO. se vá tecendo. defendendo claramente e tão somente os interesses dos latifundiários. vinculadas à luta por uma sociedade economicamente justa. a participação popular. AÇÃO CATÓLICA OPERÁRIA. Essas diferentes ações fomentam a resistência e a luta por uma sociedade justa e solidária até os nossos dias. partidos. (1999) Educação não formal e cultura política: impactos sobre o 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). v 3. utilizando recursos dos grileiros e grandes empresários. ainda na perspectiva de controlar a questão agrária determinou a militarização do problema da terra. os jagunços dos latifundiários e a polícia assassinavam um trabalhador (a) rural a cada dois dias.

Cortez. MANFREDI. v. SILVA.71). 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Silvia Maria. 2006. São Paulo: Escrituras Editorial.99 - . História dos movimentos sociais no campo.A. 1981. Revolução de 30: a dominação oculta-São Paulo:Brasiliense.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG associativismo do terceiro setor. Maria do Socorro. O comando geral dos trabalhadores (CGT) no Brasil (1961-1964). 1989. Formação Sindical no Brasil: história de uma prática cultural. 1996. (Coleção Questões da nossa época. TRONCA. 04 a 10 de novembro de 2007. Leonilde Servolo. Ítalo A. L. 2004. NEAD/Brasília. MEDEIROS. . NEVES. Da raiz a flor: a produção pedagógica dos movimentos sociais e a Educação do Campo. São Paulo. Rio de Janeiro: FASE. Belo Horizonte: Vega.

em 1962 acontece o 1º Congresso de Trabalhadores na Lavoura do Nordeste. Em 1954.). onde várias lideranças se destacaram. 04 a 10 de novembro de 2007. 40 Publicação – Revista Contag 40 anos 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). de forma articulada. Lavradores realizada em São Paulo. No processo de organização e luta. uma década depois. promovendo uma das mais importantes lutas da época. conseqüentemente. O primeiro presidente foi Lyndolpho Silva. as Ligas Camponesas e sindicatos autônomos. pelo Decreto Presidencial 53. Em Pernambuco. foram criadas outras organizações como o Movimento dos Agricultores Sem Terra – MASTER na região sul do país. em Goiás. O MASTER. A Ação Popular – AP (ligada aos católicos radicais) e a União dos Lavradores e Trabalhadores Agrícolas do Brasil – ULTAB. Em 22 de dezembro de 1963. As organizações de esquerda com atuação no campo buscaram atualizar e ampliar as bandeiras de luta e estabelecer linhas de ação comuns.. as organizações camponesas passaram a se contrapor. fizeram com que a organização dos trabalhadores rurais em sindicatos fosse acelerada. decidiram pela criação da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG. A luta camponesa passa a ter uma postura politizada e politizadora. viria a ser o primeiro presidente da CONTAG. Foi quando surgiu a primeira experiência de Ligas Camponesas e. em 1963 a ULTAB organizou a 1ª Convenção Brasileira de Sindicatos Rurais (Natal-RN). trabalhadores rurais de 18 estados.AS PRIMEIRAS LUTAS40 Na década de 50. Em 1963 uma greve no setor canavieiro envolveu a Federação dos Lavradores. A CONTAG nasceu em um momento crítico da atividade política do país. distribuídos em 29 federações. As várias formas de organizações camponesas passaram a sentir a necessidade de uma articulação nacional que representasse os interesses e as demandas específicas. . CONTAG Nessa conferência. A CONTAG torna-se a primeira entidade sindical camponesa de caráter nacional legalmente reconhecida. reconhecida em 31 de janeiro de 1964. ULTAB durante a II Conferência Nacional dos Lavradores. contra as ações de despejo acionadas pelos usineiros (Porecatu/PR) e da luta dos posseiros e arrendatários de Trombas e Formoso. resistindo ao regime imposto pelos militares. CONTAG – PRIMEIRA ORGANIZAÇÃO SINDICAL NACIONAL NO CAMPO As Ligas Camponesas. no Engenho Galiléia.100 - .Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG TRAJETÓRIA POLÍTICA DA CONTAG .517. fundaram a Sociedade Agrícola e Pecuária dos Plantadores. município de Vitória de Santo Antão. Neste sentido organizaram: o 1º Congresso Nacional dos Lavradores e Trabalhadores Agrícolas (1961) – convocado e coordenado pela ULTAB.. dentre outros. nos limites da região Agreste com a Zona da Mata de Pernambuco. de resistência camponesa articulada a objetivos políticos mais definidos (. surgiu a União dos Lavradores Agrícolas do Brasil – ULTAB. que. foram identificadas as bandeiras prioritárias entre elas o ”estímulo à criação de sindicatos de trabalhadores rurais”.

Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG O golpe militar de 64 foi uma contra-revolução que barrou mudanças estruturais de democratização da sociedade brasileira. a direção da CONTAG foi deposta e alguns dirigentes foram presos. deu-se início à implantação de um regime político marcado pelo “autoritarismo”. O Estatuto da Terra. tornando irreversível o processo de concentração fundiária. a defesa da reforma agrária foi unânime. preocupando-se com um projeto agrícola afinado com sua política econômica. Colocou à margem a pequena produção e favoreceu a ampliação ainda da concentração de terra e de renda no país. As lideranças políticas sindicais comprometidas com a luta por direitos e liberdade. mais tarde. por exemplo. urbana e rural. as Ligas Camponesas e grupos católicos como a Juventude Universitária Católica (JUC) e a Ação Popular (AP). Foi o início de uma articulação ampla. . resistiram como puderam ao regime militar e no 1º Congresso Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CNTR. não conseguiram saldar. realizado em São Paulo. Com o golpe. Houve um estímulo à especulação com a terra e de concessões a grandes empresas para atuarem no campo. As pessoas também foram atingidas em seus direitos individuais e coletivos. contando com a presença de sindicalistas rurais de quase todos os estados. dentre outras coisas. em especial nas áreas de fronteira agrícola. Com o golpe militar. Os dirigentes sindicais mais combativos foram cassados. Ainda assim. mediante a desapropriação de terras por interesse social. a União Nacional dos Estudantes (UNE). congregando representantes dos trabalhadores rurais. Essa situação. o Comando Geral dos Trabalhadores (CGT). torturados e substituídos por interventores que conduziam os sindicatos como órgãos de colaboração do Estado. o Rio de Janeiro é transformado em sede da Conferência Nacional Intersindical. 04 a 10 de novembro de 2007. O Ato Institucional (AI) foi criado pelo governo militar – cujo objetivo era justificar os atos de execução. elaborado durante o governo de João Goulart. A repressão à atuação sindical não permitia que os assalariados rurais pleiteassem seus direitos trabalhistas. Nessa conferência. com profundas modificações. estava clara a existência de dois grupos políticos. mas. A política salarial. Os militares justificavam sua ação afirmando que o objetivo era restaurar a disciplina e deter a “ameaça comunista”.101 - . de consolidação de uma chapa para concorrer às eleições da CONTAG. resultou na perda de muitas propriedades. marcou uma nova etapa em relação à legislação existente. O golpe foi deflagrado contra o governo de João Goulart. uma violenta repressão atingiu setores politicamente mais mobilizados à esquerda como. adquirindo máquinas e equipamentos mediante financiamentos que. permitindo. controlada pelo governo. outro ligado a trabalhadores e lideranças que se mostravam comprometidos com as lutas dos trabalhadores. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). presos. Milhares de pessoas foram presas e casos de tortura transformaram-se em atos comuns. Os pequenos e médios produtores foram incentivados a se modernizarem. A idéia aguçou o conflito em torno da propriedade. foi promulgado devido às pressões internacionais e internas. Nos primeiros dias após o golpe. a intervenção do Estado no setor fundiário. impedia os aumentos reais e garantia ao patronato à crescente exploração de mão-de-obra barata. bancários e industriários. aliada à ausência de uma política diferenciada de créditos. um ligado ao interventor e. O governo militar concentrou-se na modernização das relações capitalistas no campo e nos projetos de colonização nas áreas de fronteira. Em 1967. No 1º Congresso Nacional de Trabalhadores Rurais da CONTAG.

Um espaço chamado “Conversa de Caboclo” que contavam estórias sobre o cotidiano dos trabalhadores rurais. Lançaram o periódico “O Trabalhador Rural”. por meio da formação de lideranças. para chamar a atenção dos camponeses sobre a importância da organização sindical. O PIN previu ações específicas para cada setor. causaria uma reação violenta do patronato e do poder público. O PIN marcou a singularidade do MSTTR dentro do sindicalismo brasileiro. que reafirmava: “É.PIN. 1968 e 1969. foi transcrita a carta ao Papa Paulo VI. informativo que levava as idéias e propostas da direção da CONTAG acerca das bandeiras de lutas e da organização sindical às Federações. Enquanto as outras confederações urbanas existentes tinham dúvidas entre resistir ou aceitar a intervenção no movimento sindical. iniciou um contínuo trabalho de conscientização dos trabalhadores rurais sobre os seus direitos. apresentando análises sobre a conjuntura nacional e sugerindo encaminhamentos para reflexão nos estados. a chapa encabeçada por José Francisco da Silva impõe a derrota ao interventor e então presidente da CONTAG. cooperativismo e de organização sindical. que vai dar nosso valor? É uma sociedade composta de agricultor. legislação trabalhista. Em uma dessas estórias consta esse trecho: “E quem é esse sindicato. A formação de líderes era essencial para o futuro do MSTR. 04 a 10 de novembro de 2007. em grande número. foram incentivadas as ações coletivas. Empossada. que ameaçavam e puniam os líderes sindicais. qualificando-os para a luta cotidiana. No caso dos assalariados. assinada por José Francisco. sinônimo de um poder político. Os textos reproduzidos no periódico demonstram explicitamente o enfrentamento da CONTAG diante das políticas do governo militar. social e cultural que contrariam a função social de propriedade. por exemplo. pois seria de fundamental importância não apenas para os diretamente envolvidos nos conflitos pela terra. Nós 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). por promoverem reuniões dos grupos nos Sindicatos de Trabalhadores Rurais. A preocupação maior era criar um instrumento capaz de garantir a unidade do MSTR diante da divisão política revelada no processo eleitoral. para vencer barreiras centenárias de irracionalidades geradas pelo latifúndio. Nesse período. Num dos primeiros números dessa revista.102 - . econômico. O PIN elegeu a reforma agrária como uma das bandeiras de luta capaz de propiciar a unidade do movimento. A necessidade de organizar os trabalhadores nos municípios e constituir sindicatos era uma das grandes demandas do movimento sindical naquele momento. por apenas um voto de diferença. forçando uma tomada de posição favorável aos trabalhadores. a nova diretoria (1968) convocou todas as federações para um encontro. a direção da CONTAG qualificou ainda mais a sua forma de comunicação com a base. agrícola. lançando a revista mensal “O Trabalhador Rural”. Durante os ‘anos duros’ do regime ditatorial militar. Por meio de cursos sobre a realidade brasileira. em Petrópolis (RJ). mas também para o pequeno produtor e o assalariado. Essa proposta. é necessária uma decisão drástica e enérgica pela reforma agrária”. A revista “o Trabalhador Rural” era um dos meios utilizados para chamar os trabalhadores para organização sindical. quando levada à prática. a fim de elaborar um Plano de Integração Nacional . . os dirigentes do MSTR aceleraram o processo de organização e politização da categoria. agrária. a CONTAG optou pelo enfrentamento ao poder econômico e político em uma de suas principais bases: a democratização da terra e a organização política dos trabalhadores rurais. para abarrotar as Juntas de Conciliação e Julgamento. criadas pela equipe técnica da Contag e assinadas com nomes fictícios.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Fruto da união operária e camponesa. José Rotta.

Municípios brasileiros Inicio de 1969 3959 Final de 1971 3959 Municípios com Municípios sem Média de sindicatos sindicato sindicatos 705 1045 3254 2914 sócios por 800 1132 Fonte: Revista O Trabalhador Rural Em março de 1971. Em 1979 acontece o 3º Congresso Nacional Nacional dos Trabalhadores Rurais. Demonstrou que o conceito de desenvolvimento do governo era diferente da idéia do MSTR: “milhões de camponeses continuam morrendo de fome (. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). em seu discurso de abertura. de dois milhões e meio de associados para mais de cinco milhões”. Durante o 3º Congresso Nacional de Trabalhadores Rurais. em 1971. Em maio de 1977 foi empossada a direção para o triênio 1977/1980. de 1960 a 1971. 04 a 10 de novembro de 2007. 1971 ocorreu a Reunião do Conselho Deliberativo que escolheu a diretoria da CONTAG para o triênio 1971/1974. Reunindo diversos representantes das Federações concluíram que: a) o diálogo deve ser a base para a construção de uma proposta educativa para o campo. tendo como presidente José Francisco/PE. preocupados com a importância da educação para o desenvolvimento do campo. ambos fundadores da CONTAG. a direção da CONTAG politizou o debate sobre o papel da organização sindical e utilizou repetidamente o lema “Sindicalismo autêntico.103 - . passamos de 19 para 21 Federações. é Sindicalismo livre”.. de 1. o presidente José Francisco recordou: “apesar das condições desfavoráveis para o trabalho sindical entre o último Congresso e os dias atuais. logo o governo militar buscou impedir a posse da diretoria eleita. conforme a tabela abaixo: Levantamento numérico do movimento sindical em 22 estados. pra acabar com a tal de meia. em 1979. . inclusive Brasília e Guanabara. Francisco/PE esta foi a 4ª eleição da CONTAG.. A CONTAG segue sua trajetória e realiza seu 2º Congresso Nacional dos Trabalhadores Rurais .). nunca foi a marca do movimento sindical coordenado pela CONTAG. porque crescer é bem diferente de desenvolver”. que será criticada. para daí se chegar à escolha da ação e a própria ação.275. Em abril de 1980. de volta ao país após vários anos de exílio. demonstraram que a estratégia adotada pelo MSTR foi acertada. foi organizado um Encontro Nacional em Petrópolis. já em 1968. e b) o método a ser utilizado.500 sindicatos para 2. Denunciou a intenção de cooptação do governo através do assistencialismo. foi empossada a direção para o triênio 1980/1983 e a festa de posse contou com a presença dos exex-dirigentes Lyndolpho Silva Silva e José Pureza da Silva. deve levar em conta o conhecimento da realidade.CNTR em 1973. que representou um marco para a organização da classe trabalhadora rural. mas o Brasil está em franco crescimento. conhecimento e crítica.” A luta essencialmente corporativa.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG vai lá se reunir. Que sempre nos tem trazido amarrado no nó da peia. Na revista “O Trabalhador Rural”. Sim. Levantamento elaborado pela CONTAG. Rurais dando visibilidade nacional ao sindicalismo de trabalhadores coordenados pela CONTAG.

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A CONTAG estava consolidada, não como um espaço desse ou daquele ‘modo de pensar o
sindicalismo’, mas de todas as correntes políticas existentes. Rompeu com a visão
imediatista da luta sindical e buscou atender às outras dimensões e necessidades do ser
humano, inclusive, apontando o conceito de desenvolvimento que se queria para o campo:
“O desenvolvimento deve vir acompanhado de transformações sociais e políticas”.
O mesmo aconteceu com o estímulo à participação, em registros internos, vê-se que
reuniões de avaliação e planejamento sempre estiveram presentes na história dessa
entidade, inclusive, com a participação da assessoria nesses momentos, demonstrando
como praticar democracia interna, mesmo em momentos difíceis e sob ameaça constante
dos militares.
No 4º CNTR em 1985 o debate sobre o modelo de reforma agrária defendido pelo MSTR
foi o ponto alto. Os delegados aprovaram a realização de eleições da CONTAG e
Federações em Congresso, com mandato de três anos. Em dezembro de 1985 aconteceu
a 1ª Eleição Congressual da história da CONTAG.
Apesar da deliberação do 4º CNTR, a eleição da Diretoria e do Conselho Fiscal da CONTAG,
gestão 1989/1992,
1989/1992 não aconteceu em congresso. As urnas foram colocadas nas sedes
das federações. A votação foi de um delegado por sindicato. A Diretoria Efetiva teve como
presidente
presidente Aloísio Carneiro/BA.
Carneiro/BA Nessa eleição foi eleita a primeira mulher, Gedalva de
Carvalho/SE, enquanto suplente da direção da entidade.
No 5º CNTR,
CNTR em novembro de 1991 a participação da base foi ampliada qualitativa e
quantitativamente. Elegeram o dirigente Francisco Urbano/RN como presidente da
CONTAG.
Em agosto de 1994 foi realizado o 1º Congresso Nacional Extraordinário dos
Trabalhadores Rurais – CNETR. Neste congresso participaram a direção executiva da
CONTAG, a direção efetiva das federações e os delegados eleitos em número
correspondente a 10% dos sindicatos filiados a cada federação. Foi assegurada a
participação das diretoras da CONTAG, como delegadas, e de duas trabalhadoras rurais
por estados.
O 6º CNTR acontece em maio de 1995 explicitando a necessidade da classe trabalhadora
rediscutir a sua prática de luta e de convivência democrática com as divergências. O 6º
CNTR foi um marco, pois a partir daí o Movimento Sindical dos Trabalhadores e
Trabalhadoras Rurais – MSTTR incorporou o conceito de agricultura
agricultura familiar às suas
formulações, dando os passos iniciais para a construção de um projeto alternativo de
desenvolvimento rural, a participação efetiva das mulheres na Diretoria da CONTAG e uma
maior abertura para os jovens e as pessoas da 3ª idade. No 6º CNTR também foi aprovada
a filiação da CONTAG à Central Única dos Trabalhadores - CUT. Em 1995 foi oficializada
estatutariamente a Comissão Nacional de Mulheres Trabalhadoras Rurais, cuja
Coordenadora passou a integrar a Diretoria da CONTAG. A Comissão Nacional de Mulheres
Trabalhadoras Rurais – CNMTR elege a sua Coordenadora Nacional, Margarida Maria
Alves da Silva (Hilda) do STTR de Surubim/PE.
Dois anos (1997) depois foi realizada a 1ª Plenária Nacional de Mulheres Trabalhadoras
Rurais que discutiu as lutas específicas das mulheres e a sua relação com as lutas do
conjunto da categoria.
O 7º Congresso representou um marco, em 1998 mais de 1.400 delegados e delegadas
debateram e aprovaram um Projeto Alternativo de Desenvolvimento Rural Sustentável –
PADRS. Nascia o PADRS representando um passo significativo para a articulação e

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unificação das lutas da categoria na esfera nacional e para o fortalecimento de um novo
tipo de interseção campo e cidade.
O projeto ampliou a visibilidade política das mulheres coordenadas pela CNMTR, que já
haviam conquistado a inclusão da Coordenação da Comissão Nacional no Estatuto da
CONTAG. Incluíram mais um “T” no nome do congresso, que passou a ser 7º Congresso
Nacional de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais – CNTTR. Foi aprovada também a cota
de, no mínimo, 30% de mulheres em todas as instâncias do sindicalismo rural. Foi eleito
como presidente Manoel José dos Santos/PE.
Neste Congresso os trabalhadores e trabalhadoras rurais aprovaram: o Projeto Alternativo
de Desenvolvimento
Desenvolvimento Rural Sustentável - PADRS,
PADRS, tendo por princípio a realização de uma
ampla e massiva reforma agrária, expansão, valorização e fortalecimento da agricultura
em regime de economia familiar, centrado na inclusão social, no desenvolvimento social,
econômico, ecologicamente sustentável e no fim de todas as discriminações, em especial
as de gênero, de geração, raça e etnia. Para a implementação do Projeto Alternativo de
Desenvolvimento Rural Sustentável - PADRS desenvolveu-se um trabalho de formação de
lideranças em desenvolvimento local, através do Programa de Desenvolvimento Local
Sustentável – PDLS, voltado para a animação e estímulo a processos de desenvolvimento
sustentável ao nível local, possibilitando uma maior intervenção nas políticas públicas e
nos Planos Municipais.
Em outubro de 1999 foi realizado o 2º Congresso Extraordinário buscando atualizar e
potencializar o MSTTR para o desafio de implementação do PADRS. o 2º CNETTR discutiu e
deliberou especificamente sobre estrutura, organização, gestão e auto-sustentação do
MSTTR. Este processo de avaliação e discussão interna tem possibilitado continuar na
construção de um movimento sindical autônomo, combativo, ético e participativo.
Em Março de 2001 acontece o 8º CNTTR , onde o MSTTR reafirmou a estratégia
estratégia de
continuidade e o avanço no processo de implementação do PADRS, indicando a
necessidade de atuação efetiva na organização da produção e comercialização. Foi criada
a Comissão Nacional de Jovens Trabalhadoras e Trabalhadoras Rurais e a Coordenadora
da Comissão, Simone Battestin/ES foi eleita junto com a Direção Efetiva da CONTAG.
Neste congresso foi deliberada a necessidade do MSTTR participar articuladamente das
Eleições Eleitorais e de eleger representantes dos trabalhadores e trabalhadoras rurais.
Os Congressos da CONTAG garantiram o debate, a socialização e a integração nacional
das políticas do Movimento Sindical dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais – MSTTR.
Ver anexo I sobre a trajetória das Eleições e Congressos Nacionais da CONTAG.
Desde então, o Movimento Sindical de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais vem
aperfeiçoando suas proposições e ações em torno da construção e implementação do
PADRS, se contrapondo aos padrões dos sucessivos modelos de desenvolvimento
implementados no Brasil. Modelos estes, que embasados na preservação do latifúndio e
na produção de monoculturas para exportação, fizeram aprofundar a exclusão social, o
desemprego, a concentração da terra e renda, sendo responsáveis, também, pela
violência no campo e pela alta degradação ambiental.41
Como também, implementando e ajustando, permanentemente, o Projeto Alternativo de
Desenvolvimento Rural Sustentável - PADRS. Sua última atualização ocorreu no 9º
Congresso Nacional da CONTAG, realizado em Brasília, no ano de 2005. Dentre os vários
41

PORTO, Cleia Anice. “Reforma Agrária e Agricultura familiar como base para o desenvolvimento rural –
Sustentabilidade e qualidade de vida, Reforma Agrária e Meio Ambiente, Instituto Socioambiental, 2003, p.107

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ajustes, ressalta-se a reflexão sobre o princípio da SOLIDARIEDADE.
SOLIDARIEDADE Durante o 9º
Congresso,
Congresso as trabalhadoras e trabalhadores rurais entenderam não ser possível se opor
ao neoliberalismo sem implementar profundas mudanças nas relações sociais
estabelecidas entre homens e mulheres, de todas as idades, raças e etnias que vivem e
trabalham no campo.
Logo, a solidariedade foi compreendida enquanto principal elemento para a construção de
relações fraternas entre a classe trabalhadora rural, na perspectiva de um mundo melhor.
Nosso projeto passou a ser denominado: Projeto Alternativo de Desenvolvimento Rural
Sustentável e Solidário – PADRSS.
A construção do PADRSS foi a primeira iniciativa concreta de unificar as demandas do
campo, considerando as diferenças e especificidades regionais, culturais, produtivas,
ambientais, organizativas, de gênero, geração, raça e etnia. E ainda propõe alternativas
específicas que consideram as demandas das pessoas no âmbito das suas características
produtivas, a exemplo das assalariadas e assalariados rurais, das agricultoras e
agricultores familiares, assentados, acampados, meeiros, posseiros, extrativistas, dentre
outros.
A incorporação das propostas do PADRSS no dia-a-dia do MSTTR estimulou profundas
mudanças em nossas entidades, garantindo um salto qualitativo e dinâmico às respostas
necessárias ao atendimento das demandas da base. A ampliação das frentes de lutas do
MSTTR foi uma delas. Não bastava atuar nas questões trabalhistas, previdenciárias, de
acesso à terra e crédito, sem articular essas lutas com outras políticas necessárias e
estratégicas para garantir o desenvolvimento rural sustentável que se pretende.
A ampliação das frentes de lutas acabou estimulando o MSTTR a expandir e qualificar
suas direções. Foram criadas as secretarias específicas, primeiramente na CONTAG, em
seguida nas Federações, e em muitos Sindicatos de Trabalhadores e Trabalhadoras
Rurais.
Essas mudanças apontaram para a necessidade de investir na formação política, sindical
e profissional de novas
novas lideranças sindicais e técnicas do MSTTR. Essas ações formativas
deram visibilidade a um público estratégico para as mudanças, a juventude e as mulheres
trabalhadoras rurais.
Ainda hoje, esse processo formativo busca conjugar a formação política sindical com as
demandas por melhoria das condições de trabalho, aumento da renda e dos salários,
direitos trabalhistas e previdenciários, elevação dos níveis de escolaridade, de formação e
requalificação profissional, habitação rural, saneamento básico, saúde pública e de
qualidade, educação do campo e lazer.42 Conjugadas com as demandas estruturantes do
desenvolvimento rural sustentável, como o acesso à terra, crédito, infra-estrutura social e
produtiva, condições de comercialização, tecnologias de produção adaptada à agricultura
familiar e aos ecossistemas.
A estratégia do MSTTR se orientou pelo estímulo à participação política e à gestão
democrática na comunidade, município, território ou região, levando os excluídos e
marginalizados do campo a serem protagonistas de uma outra realidade, sem perder de
vista a articulação entre o local, o regional e o territorial com o global, o rural com o
urbano, na perspectiva de uma sociedade justa, democrática, igualitária e solidária.
Tal estratégia exige uma participação efetiva nos processos políticos e eleitorais, nos
espaços de concepção e gestão de políticas públicas e, o permanente debate com a
42

Anais da 1ª Plenária Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais – Novembro 2003

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CONTAG. Foi reconhecidamente. É a maior entidade camponesa da América Latina organizada em 27 Federações Estaduais de Trabalhadores na Agricultura e 4. luta e ampliação das possibilidades concretas de implementarmos e consolidarmos o PROJETO ALTERNATIVO DE DESENVOLVIMENTO RURAL SUSTENTAVEL E SOLIDÁRIO – PADRSS. 03 Encontros Nacionais de Juventude. Os Congressos da CONTAG adquiriram cada vez maior importância política e capacidade no aprofundamento das questões de interesse da categoria. . Mas. Não queremos dizer que o projeto vá resolver num passe de mágica os desafios históricos que estão postos para trabalhadores e trabalhadoras rurais brasileiras. e principalmente a inclusão e organização das mulheres trabalhadoras de base. igualitária e solidária em nosso País. Essa organização se constitui no Movimento Sindical dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais . a maior mobilização nacional de mulheres já realizada na história do país. contando também com a adesão das trabalhadoras urbanas. pela convocação da Assembléia Nacional Constituinte. em seus 43 anos de existência. sem dúvida. A CONTAG foi fundada no dia 22 de dezembro de 1963 em 01 Congresso Nacional. 04 a 10 de novembro de 2007. Em sua história de luta. 01 Congresso Nacional da Terceira Idade. reivindicação e negociação das políticas essenciais para o meio rural. militar pela anistia política. foram o fortalecimento das organizações e comissões de mulheres nos STTRs.estar da representatividade dos trabalhadores e trabalhadoras rurais do nosso país. proposição. MSTTR É essencial que tenhamos viva. em sua primeira edição mobilizou milhares de trabalhadoras rurais dos municípios. estados e regiões. de maneira decisiva. Pólos/Regionais.107 - . 03 Plenárias Nacionais de Mulheres Trabalhadoras Rurais. A Confederação Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Agricultura – CONTAG. social e cultural das mulheres trabalhadoras 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). dar visibilidade e reconhecimento ao papel político. marcada pela mobilização. foram realizados mais 08 Congressos Nacionais de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais. 01 Plenária Nacional de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais. a CONTAG continua engajada na defesa permanente dos interesses dos trabalhadores e trabalhadoras rurais.nacional. estaduais e municipais . representa um salto qualitativo para nossa organização. mobilização. A partir de 1995.que hoje é considerado como a “data“database” para a categoria trabalhadora rural.100 Sindicatos de Trabalhadores Rurais. democrática.MSTTR. na Constituinte de 1988 e foi participante do Comitê em Defesa da Ética na Política que levou ao “Impeachment” o presidente Fernando Collor de Mello. 02 Congressos Nacionais Extraordinários de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais. tendo como um dos principais objetivos reverter o processo neoliberal e viabilizar políticas públicas necessárias à implementação do PADRSS. A história da CONTAG é marcada também por ações de massa em defesa dos interesses da categoria. A CONTAG nestes 43 anos se engajou nas principais lutas do povo brasileiro: contra a ditadura militar. o MSTTR passou a se mobilizar anualmente no “Grito da Terra Brasil” . Desde então. FETAGs. para a construção de uma sociedade mais justa.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG sociedade sobre a concepção de espaço rural e do desenvolvimento que propomos. existência com o esforço e a participação de milhões de trabalhadores e trabalhadoras rurais. tem contribuído. Os principais objetivos da Marcha. em prol do bem . A Marcha das Margaridas é outra ação de massa importante no contexto do MSTTR. no Movimento “Diretas Já”. por eleições diretas para presidente e governadores. econômico. unida e ativa essa grande estrutura de representação construída ao longo desses 43 anos.

com a gradual extinção do minifúndio e do latifúndio”. João de A. desde a fundação da CONTAG construindo o MSTTR. vêm. Sebastião Lourenço de Lima/MG. da S. Por apenas 01 voto de diferença. 2º Congresso Nacional dos Trabalhadores Rurais . Damasceno/RN. Cavalcante/PB. 2ª Eleição da Com o golpe militar. as organizações que atuam no campo criam a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG. Nobor Bito/. no ano seguinte foi eleita para o período de 1965 a 1968 a diretoria composta por: José Rotta/SP. o presidente da CONTAG enfatizou a necessidade de cumprimento do Estatuto da Terra para: “estabelecer um sistema de relações entre o homem. em cada município e estado.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG rurais no Movimento Sindical de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais – MSTTR e na sociedade. Previdência. 4ª Eleição da Em março de 1971. Educação. A CONTAG procurou se estruturar como uma entidade legítima de representação dos trabalhadores e trabalhadoras rurais em defesa dos interesses da classe camponesa. do Nascimento/PE. mobilizando. Francisco Urbano de A. O congresso deliberou sobre: Legislação Rural. de Faria/RJ. trabalho. 3ª Eleição da Em 1968. Joaquim A. propondo e negociando políticas agrícolas diferenciadas. a classe trabalhadora faz valer sua vontade. Machado/SP e José Felix Neto/SE. capaz de promover a Justiça Social.108 - . José Ari Griebler/RS. Filho/RN. Acácio F. Nossa trajetória é fruto de organização. e Nestor Vera/SP. dos Santos/RJ. Euclides A. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). foram escolhidos: Jose Felix Neto/SE. articulação e mobilização dos Sindicatos e Federações de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais que. Uma encabeçada por José CONTAG Rotta. Joaquim Damasceno/RN e Antonio J. . A próxima Marcha das Margaridas acontecerá em agosto de 2007. Geraldo F. Agenor P. O congresso contou com a participação de 29 federações. Agostinho José Neto/RJ. Foram eleitos para o mandato de 1968/1971: José Francisco/PE. Cavalcante/PA. a chapa encabeçada por José Francisco saiu vitoriosa. de trabalho e de construção de conhecimentos capazes de promover as transformações necessárias para um desenvolvimento sustentável em nosso país. onde apenas 11 Federações votavam. Para o Conselho Fiscal. Tarciso G. contando com o apoio de entidades sindicais urbanas e da base do movimento sindical de trabalhadores rurais. ocorreu a Reunião do Conselho Deliberativo que escolheu a CONTAG Diretoria da CONTAG para o triênio 1971/1974. Agostinho J. Mendes/CE e Manoel P. composta pelos diretores efetivos: José Francisco/PE. João de A. Reforma Agrária e Desenvolvimento Agrícola. a propriedade rural e o uso da terra. Sobrinho/PA. foi eleita a primeira Direção Executiva: Lyndolpho Silva/RJ. direitos trabalhistas e políticas sociais que resgatam a área rural enquanto espaço de vida. Joaquim B. democrático e de construção de estratégias comuns.CNTR. CONTAG Uma Junta Governativa foi indicada pelo Ministério do Trabalho e. de luta. Gomes/CE. No encerramento. José Felix Neto/SE. Miqueletti/PR. A eleição ocorreu na reunião do Conselho Deliberativo da CONTAG. Ao final. a direção da CONTAG foi deposta e alguns dirigentes presos. de 18 estados. José Benedito da Silva/AL e Otavio F. Gomes/CE. Zacarias Pedro/SC. Neto/RJ. Otávio F. a outra chapa por José Francisco. Filho/PB. o progresso e o bem-estar do trabalhador rural e o desenvolvimento econômico do país. as eleições contaram com duas chapas. 04 a 10 de novembro de 2007. José Palhares/RN e João Jordão da Silva/PE. O Conselho Fiscal: Joaquim Coutinho/RN. José Lazaro/PR. contribuindo para a ampliação e o fortalecimento da organização e representação sindical no meio rural: reivindicando. ANEXO I Trajetória das Eleições e Congressos Nacionais da CONTAG 1ª Eleição da CONTAG Em Congresso participativo. que representava a influência do Ministério do Trabalho e.

9ª Eleição da CONTAG A Direção Efetiva era composta por: José Francisco da Silva/PE. que apesar de subordinada à presidência da entidade. Henrique Gomes Vilanova/PI. Vidor Jorge Congresso”. Divino Goulart/GO. André Montalvão/MG. Eraldo Lírio de Azevedo/RJ. Leocadio N. Erny 1989 não ocorreu em Knortst/RS. da Silva/AL. foi empossada a direção para o triênio 1983/1986. Canalle e João Tavares da Silva. Francisco Sales/MA. Octavio Adriano Klafke/RS. Gelindo Zulmiro Ferri/RS. Roberto T. Eraldo Lírio de Azevedo e Henrique Gomes Vilanova. O Conselho Fiscal foi composto por: Álvaro Diniz. Francisco Urbano A. Elio Neves/SP. Euclides D. de Souza. Estevam N. Filho/RN. André Montalvão/MG. 4º Congresso Nacional dos Trabalhadores Rurais . de Souza e Norberto Kortmann 8ª Eleição da CONTAG Em abril de 1983. . André Montalvão/MG. Acácio F. Trindade. de Souza/MT. A Diretoria Efetiva foi composta por: José Francisco da Silva/PE. João F. Antenor Beni/PR.CNTR. CONTAG em Congresso” Jonas P. 7ª Eleição da CONTAG Em abril de 1980.Nessa eleição foi eleita a primeira mulher. Roberto T. Eraldo Lírio de Azevedo/RJ. Ezidio V. de Souza e Norberto Kortmann. Filho/RN. André Montalvão/MG. 10ª Eleição da CONTAG A Diretoria Efetiva eleita era composta por: Aloísio Carneiro/BA. O Conselho Fiscal foi composto por: Álvaro Diniz. Roberto T. Eraldo Lírio de Azevedo/RJ. Canalle e Jonas P. de Souza/MT. o Conselho de Representantes da CONTAG elegeu a nova diretoria para o triênio 1974/1977. A Diretoria Efetiva era composta por: José Francisco da Silva/PE. José Amadeu Araújo/CE. de Carvalho/ES. de Souza/MT. Pedro Ramalho/MS e José Amadeu Araújo/CE. Francisco Urbano A. Francisco Urbano A. Horiguti/SP. Orgenio Rott/RS. enquanto suplente da direção da entidade. José “Eleição da CONTAG de Francisco da Silva/PE. Faita/SP. Pedro Ramalho/MS e Adevair N. As mulheres conquistam a Comissão Nacional Provisória da Trabalhadora Rural. José Felix/SE. de Oliveira. O Conselho Fiscal foi composto por: Henrique Gomes Vilanova. O Conselho Fiscal foi composto por: Álvaro Diniz. dos Santos/RJ e José B.109 - . O Conselho Fiscal foi composto por: Álvaro Diniz. 6ª Eleição da CONTAG Em maio de 1977. Francisco Urbano A. Filho/RN e Osmar Araújo/PI. Filho/RN. José Felix/SE. dava os primeiros passos para consolidar a organização das mulheres trabalhadoras rurais. “a democratização da terra é a base para a democracia no Brasil”. Gelindo Zulmiro Ferri/RS. Jonas P. a sergipana Gedalva de Carvalho. de Souza. da Silva/AL. foi empossada a Direção para o triênio 1977/1980. Paulo F. de Souza/MT. foi empossada a direção para triênio 1980/1983. Francisco Urbano A. Filho/RN. de Almeida/BA. “Reforma Agrária para acabar com a fome e o desemprego no campo e na cidade”. “1ª Eleição da história da Pinheiro/RS.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Trajetória das Eleições e Congressos Nacionais da CONTAG 5ª Eleição da CONTAG Em março de 1974. Francisco Sales/MA. João F. da Silva/AL. Filho/RN e Henrique Gomes Vilanova/PI. Trindade/ES. Jonas P. Aloísio Carneiro/BA. O Conselho Fiscal foi composto por: Jonas P. Francisco Urbano A. 04 a 10 de novembro de 2007. José B. A Direção Efetiva era composta por: José Francisco da Silva/PE. A Diretoria Efetiva era composta por: José Francisco da Silva/PE. de Souza e Norberto Kortmann. 3º Congresso Nacional dos Trabalhadores Rurais – CNTR – “Um marco na História da classe trabalhadora rural”. Paulo F. João F. Euclides D. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Horiguti/SP. dos Santos/RJ e José B. Acácio F. Jonas P. Horiguti/SP. Norberto Kortmann/SC.

Avelino Ganzer/PA. “Rumo a um Projeto Alternativo de Desenvolvimento Rural Sustentável”. 1º Congresso Nacional Extraordinário dos Trabalhadores Rurais – CNETR “. o Conselho Deliberativo aprovou a realização de um Congresso Extraordinário. no mesmo período em que ocorreriam as eleições gerais de 1994. 7º Congresso Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais – CNTTR. pelo Rio Grande do Norte 12ª Eleição da CONTAG 13ª Eleição da CONTAG 6º Congresso Nacional dos Trabalhadores Rurais – CNTR. Conselho Fiscal: José Roberto de Assis. nem miséria. José Francisco da Silva/PE. Juarez L. Alberto Ercílio Broch/RS. Filho/RN.. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). “Nem fome. Conselho Fiscal: Antonio Zarantonello. Pereira/MG. Itálico Cielo/RS. O campo é a solução”. Francisco Sales/MA. José Raimundo de Andrade/PB e Francisco Sales/MA. para rediscutir e redefinir suas lutas”. Airton Luiz Faleiro/PA e Sebastião Rocha/MG. em agosto de 1994. da Silva/PI e Raimunda Celestina de Mascena/CE. Norival Guadaghin/SP.. passou a ter três dirigentes na direção efetiva da CONTAG. Aloísio Carneiro/BA.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Trajetória das Eleições e Congressos Nacionais da CONTAG 11ª Eleição da CONTAG 5º Congresso Nacional dos Trabalhadores Rurais – CNTR. Wilson Paixão e Osmar Araújo. Divino Goulart e Almir José Feliciano. Gerônimo Brumatti/ES.. José Fialho/MS. O Congresso Extraordinário foi coordenado pelo Presidente em exercício. Francisco Urbano estava licenciado para concorrer a uma vaga para o Senado Federal. A partir do 7º – CNTTR. As novas diretoras ocuparam a Coordenação da CNMTR e as Secretarias de Políticas Sociais e a Secretaria de Organização e Formação Sindical. As eleições de agora terão a responsabilidade de construir o amanhã. “TERRA. A Direção Efetiva eleita era composta por: Francisco Urbano A. Hilário Gottselig/SC. o MSTR reuniu mais de dois mil delegados (as) de todo o país. Tereza Silva/MG. não podemos sacrificar a nossa intervenção nos processos eleitorais gerais que o país viverá. Maria Santiago de Lima/RO. em Brasília. Antonio Zarantonello e Maira Bottega. A direção eleita teve a seguinte composição: Diretoria Efetiva: Francisco Urbano A. Constatando que o próximo congresso aconteceria na segunda quinzena de novembro.110 - . Conselho Fiscal: Antonio Zarantonello. “apesar das tentativas de desarticulação das organizações sociais promovidas pelo governo. Guilherme Pedro Neto/GO. PRODUÇÃO. de Fátima R. 04 a 10 de novembro de 2007. Aloísio Carneiro. Francisco Miguel de Lucena/CE. convocando um congresso massivo em Brasília.. Hilário Gottselig/SC.”. SALÁRIO”. Filho/RN. .

Wilson Hermuth Gottens/GO. 04 a 10 de novembro de 2007. Alessandra da Costa Lunas/RO. Francisco Miguel de Lucena/CE. Maria Lucinete Nicácia de Lima/AM. Juraci Moreira Souto/MG. Ademir Mueller/PR e Elizete Hintz/RS. Maria Elenice Anastácio/RN. Raimunda Celestina de Mascena/CE. Alberto Ercílio Broch/RS. Domingos Albuquerque Paz/MA. encabeçada pelo baiano Edson Pimenta. Maria José de Carvalho/PE. Juraci Moreira Souto/MG. Airton Faleiro/PA. Maria do Ó do Nascimento Melo/AL. Manoel Candido da Costa/RN. A direção eleita teve a seguinte composição: Diretoria Efetiva: Manoel José dos Santos /PE. Pedro Mário Ribeiro/MG. da Silva/PI. Manoel Cândido da Costa/RN. . Maria de Fátima R. Guilherme Pedro Neto/GO. “Consolidando o Projeto Alternativo de Desenvolvimento Rural Sustentável”. outra. 43 Fonte: Ata de Posse da Diretoria e do Conselho Fiscal da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG.111 - . Paulo de Tarso Caralo/ES. Gilson Francisco da Silva e Maria Helena Baungarten. Cláudia Pereira Farinha/DF. é o futuro sendo construído hoje” Duas chapas concorreram à eleição da direção da CONTAG. David Wilkerson Rodrigues/BA. José de Jesus Santana/BA. Alberto Ercílio Broch/RS. Antoninho Rovaris/SC. Carmem Helena Ferreira Foro/PA. 14ª Eleição da CONTAG 8º Congresso Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais – CNTTR. A direção eleita teve a seguinte composição: Diretoria Efetiva: Manoel José dos Santos/PE. Raimunda Celestina de Mascena/CE e Simone Battestin/ES. Regina Rodrigues de Freitas/AC. Simone Battestin/ES. Maria da Glória da Silva/MT. Liberalino Ferreira de Lucena/PB. Geraldo Teixeira de Almeida/MS e Antonio Vitorino da Silva/AL. para o quadriênio 2005/2009 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Maria do Ó do Nascimento/AL. Manoel Carlos Dantas/RO.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Trajetória das Eleições e Congressos Congressos Nacionais da CONTAG 2º Congresso Nacional Extraordinário dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais – CNETTR “A prioridade será a discussão na base. Suplentes: Joel José Farias/SE. 15ª Eleição da CONTAG43 9º Congresso Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais – CNTTR. vale destacar a criação da Comissão Nacional da Juventude Trabalhadora Rural e da estrutura cooperativista ligada ao MSTTR. Conselho Fiscal: Francisco Sales de Oliveira/MA. Antonio Lucas Filho/GO. “entre tantas deliberações. Uma chapa encabeçada por Manoel de Serra e. os trabalhadores e trabalhadoras rurais deverão determinar qual o tipo de sindicalismo que irá representá-los no próximo milênio”. Maria da Graça Amorim/MA. Josefa Rita da Silva/BA. Paulo César Ventura Mendonça/RJ. Hilário Gottselig/SC. Antonio Soares Guimarães/CE. Conselho Fiscal: Francisco Sales. “Avançar na Construção do Projeto Alternativo de Desenvolvimento Rural Sustentável”. Suplentes do Conselho Fiscal: Maria das Graças Darós/SC.

.1999 Anais do 8º Congresso Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais – 2001 Anais da 1ª Plenária Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais – Novembro 2003 Anais do 9º Congresso Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais – 2005 Publicação – Revista Contag .Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Bibliografia:                Anais do 4º Congresso Nacional dos Trabalhadores Rurais . 1996. Cleia Anice. “Reforma Agrária e Agricultura familiar como base para o desenvolvimento rural – Sustentabilidade e qualidade de vida.107 O Golpe Militar de 64 e a Instauração do Regime Militar – CPDOC – Fundação Getúlio Vargas – FGV. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Instituto Socioambiental.1985 Anais do 5º Congresso Nacional dos Trabalhadores Rurais – 1991 Anais do 1º Congresso Nacional Extraordinário dos Trabalhadores Rurais . Sílvia Maria – Formação sindical no Brasil : história de uma prática cultural / Silvia Maria Manfredi – São Paulo : Escrituras Editora.1994 Anais do 6º Congresso Nacional dos Trabalhadores Rurais – 1995 Anais do 7º Congresso Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais – 1998 Anais do 2º Congresso Nacional Extraordinário dos Trabalhadores Rurais .40 anos Ata de Posse da Diretoria e Conselho Fiscal da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG. Título PORTO. Manfredi. 04 a 10 de novembro de 2007. 2003. Sindicatos – Brasil – História I. Sindicalismo – Brasil – História 2. para o quadriênio 2005/2009.112 - . p. Reforma Agrária e Meio Ambiente.

De fato. o país industrializou-se alterou-se a composição de sua população com a absorção intensa da imigração espanhola. formou-se um proletariado urbano rural e a classe média assumiu claros contornos sociais e políticos. com as crianças do sexo masculinas. por 9. as mulheres compunham aproximadamente 45% do que o Censo considerava trabalhadores e. desse trabalho fosse realizada dentro da família. alemã e japonesa. o latifúndio. Na periferia da grande propriedade territorial estavam os antepassados dos atuais bóias-frias: homens e mulheres pobres e brancos. 04 a 10 de novembro de 2007. não obstante. as tarefas mais duras e pesadas. Elas roçavam plantavam e colhiam algumas cultivavam ainda. italiana. ainda durante o Império. Às fazendeiras. não se considerou as donas de casa nesse conjunto. a propriedade territorial e a escravidão eram eixos do mesmo fenômeno.099 do sexo feminino. ano após proclamou-se a República.070. O que esses dados do século passado mostram é que muitas mulheres trabalhavam. sem propriedade. Das mulheres que trabalhavam oficialmente. No caso das mulheres escravas. como donas de casa e serviçais domésticas.146. No latifúndio. constatou-se que ela era composta. naquela ocasião. não são apenas demográficas e numéricas: em 1888 extinguiu-se a escravidão. elas partilhavam. e que. um.998 mulheres escravas. dessas. as mulheres eram dominantes na prestação de serviços pessoais· (81 % do total de pessoas no setor). foi realizado o primeiro recenseamento da população brasileira. o Censo Demográfico de 1980 mostra que a população brasileira é de 119. como cuidar das crianças. freqüentemente comercializados nas vilas mais próximas. embora parte substancial. é claro. contudo. realizado pela ENFOC/CONTAG. as mulheres ficavam com o encargo dos filhos. alimentos em pequenos pedaços de terras que vendiam e assim.865 pessoas. tanto domésticas quanto na agricultura. . eventualmente. Nos longínqüos 1872. desempenhar várias ocupações: supervisionava e controlava todas as atividades caseiras. disperso pelo território brasileiro e desprovido de terras. logravam comprar sua liberdade. dos trabalhadores industriais: Elas perdiam para os homens na agricultura. eram incorporados às atividades do latifúndio: Nesse grupo. quanto na indústria. a família. Mais de cem anos depois. ainda.694. com sua produção voltada para o mercado externo. cabia. diferentemente de agora. 689. No entanto.700. 44 Este texto foi distribuído pela Nalú Farias da SOF. cozinha e costura e. Política e economicamente. se observarmos o total de pessoas absorvidas. Mas às diferenças. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). das quais 4.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG PARTICIPAÇÃO DAS MULHERES NA LUTA DOS TRABALHADORES E NO MOVIMENTO SINDICAL Maria Valéria Junho Penna44 Em 1872. como agora.113 - . constataremos que elas eram mulheres em sua maioria.943 eram mulheres e. os serviços domésticos 33%. que' consistia na atividade econômica mais importante. sinhás e escravas eram partes da mesma comunhão doméstica. então. eram 78% . embora sob o jugo masculino e interminavelmente explorando as escravas. desde pequenas. Naquele ano. tanto nos· serviços. durante o Curso de Formação de Educadores/as em Concepção Prática Sindical e Metodologia da Formação. a produção de sabão e velas. a agricultura empregava 25%.187 pessoas. das quais 59.

não faziam jus a nenhum salário. milho assado. aceitando-se a participação feminina. refrescos. de matizes.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG freqüentemente abandonados pelos pais. As primeiras Escolas Normais (a da Bahia. As condições de trabalho supunham. em filó. ainda. para a indústria em expansão. fundada em 1835. um conjunto de medidas legais restringia o acesso das mulheres às escolas e. principalmente em direção às regiões fluminense e paulista. reorganizou·se o ensino de formação para o magistério. 04 a 10 de novembro de 2007. a libertação de escravos sexagenários. vilas operárias foram sendo construídas. cestos. até o inicio do século XIX. eram obrigadas. À medida que o século XX se avizinhava. com os homens recebendo salários maiores que as mulheres. o ensino era uma esfera de atividades masculina. freqüentemente. mesmo porque. paulatinamente. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). flores de contas e aplicação. flores. a sujeira. Aos poucos. a Lei do Ventre livre. começaram a configurar uma crise na oferta de mão-de-obra e a estimular o comércio interno de escravos. No mesmo período. teve origem nesse pequeno comércio ambulante. Apenas em 1827 surgiu a primeira regulamentação que permitia às mulheres freqüentarem o ensino elementar. fundada em 1836) destinavam-se exclusivamente a rapazes. ainda. desde que com um currículo específico que incluísse bordado branco. A mulher taboleira. dedicando-se ao comércio ambulante de mercadorias feitas em casa. onde se vendia sonhos. à prostituição. MULHERES E CRIANÇAS NA FÁBRICA O panorama da convivência das mulheres e crianças com as fábricas foi. etc. A longo prazo. bolo. e a de São Paulo. Inicialmente. Foi também no século passado que tomou impulso a constituição de um campo de trabalho fundamental para a jovem de classe média: o ensino primário. mas apenas esse. a aprender corte e costura e. cortes de roupas brancas e lisas. A curto prazo. desde o início. os homens . dormindo e se alimentando entre máquinas.114 - . trabalhando uma jornada de até dezesseis horas diárias. finalmente. a insalubridade. a expansão econômica da lavoura para exportação provocou uma crise na lavoura para o abastecimento interno e uma demanda não suprida por mão-de-obra. após incontáveis horas de trabalho. os salários generalizaram-se no interior da indústria. à prestação de serviços pessoais como costura ou cozinha e. no entanto. a substituir as mulheres nas oficinas. angu. aves. iniciando-se o hábito de pagamento diferenciado entre os sexos.freqüentemente imigrantes estrangeiros . palmitos. café torrado. a imigração européia seria a solução para a questão da força de trabalho nas lavouras de exportação e consumo interno e. por exemplo. portanto. mulheres e crianças das periferias pobres das cidades forneceram os primeiros braços para essa indústria. as vagas foram se abrindo às mulheres e. finalmente. . desolador: viviam nelas. as restrições progressivas ao tráfego negreiro. para absorção nas lavouras de café. em 1871. Não podendo ser alunas. Em resumo. à habilitação profissional. não podiam ser professoras. os espancamentos e estupros.passaram. Como se sabe. expandiu-se a cultura do algodão em São Paulo e surgiram as primeiras fábricas têxteis. promovida pelo Estado em estreita conexão com os empresários.

entraram em greve por solidariedade a uma companheira despedida. da fábrica têxtil Bangu. Alvorada Operária.304 recenseados. e se todas forem solidária. assinados por Teresa Cari. na Anhaia. (Em Edgar Rodrigues. 04 a 10 de novembro de 2007. enfim. em média. exigindo melhores salários e menor jornada. No Brasil. Dos 10. do Departamento Estadual do Trabalho de São Paulo. para confecção de um relatório. anarquistas e socialistas foram os arquitetos da questão social . em 1902. Não tínhamos lugar para comer.) O fato é que as mulheres: além de estarem submetidas. nós começaremos por desmascarar a cupidez dos patrões sanguinolentos".943 trabalhadores brasileiros. Isso. mesmo trabalhando além do horário estabelecido. foi no interior desses dois movimentos que as mulheres procuraram demarcar um território para sua luta. Iniciava o trabalho às seis e terminava por volta das 17 horas .sem horário para almoço de definido. Neles. na Companhia Industrial de São Paulo. Era o critério dos mestres o direito de comer e tendo ou não tempo para almoçar. Luzia Ferreira de Medeiros. A Penas uma pia imunda servia· nos de bebedouro. no subúrbio do Rio. Porque luta houve. contou como eram as condições de trabalho já depois da virada do século: "Entrei para a fábrica Bangu no período da primeira guerra mundial com sete anos de idade. Muitas moças foram prostituídas por aquele canalha. As refeições eram feitas entre as máquinas. com o 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). na Cruzeiro. em São Paulo. Na seção de acabamento.115 - . por exemplo.80I eram do sexo feminino. dividida entre seus afazeres domésticos e a longa jornada do trabalho assalariado. ficaram célebres. esse fato não a fez abdicar da sua capacidade de reação à injustiça e da ação política. A jornada de trabalho iniciava-se por volta das cinco e meia da manhã e terminava treze horas depois. 7.07I 906. como os homens trabalhadores. depois de passada a fase do trabalho gratuito. vinham reivindicações mais concretas e imediatas. Dados de 1912. O salário médio das mulheres era bastante mais baixo que o dos homens: o salário médio masculino na fiação era de 4$500 réis e o das mulheres. fizeram uma paralisação contra a diminuição de tarefas. evidentemente. Nunca recebíamos horas extras. que somos capazes de exigir o que nas pertence. que chamavam de aprendizado. 6. os homens recebiam 4$900 réis e as mulheres recebiam 3$000 réis. fábricas que contavam com 1. Teresa Fabri e Maria Lopes. por mais dramática que fosse a vida da mulher operária. na mesma época. Dois manifestos. Ao mesmo tempo muitas mulheres encabeçaram alguns dos mais importantes movimentos grevistas do período. diferentemente desses. 19. . de tendência anarquista. no início do século.499 estrangeiros e 862 de nacionalidade ignorada. Assim. se todas nos acompanharem nessa luta. (A Terra Livre. O jornal A Terra Livre.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Uma operária. revelam que foram visitadas. ainda sofriam maus tratos corporais e auferiam salários mais baixos. paralisaram o trabalho em protesto contra as condições de trabalho e os salários. Em 1901 e 1903. em 1903. se nos derem ouvidos. no Rio de Janeiro. Mestre Cláudio fechava as moças no escritório para força-la à praticar relação sexual. o salário era o mesmo. mas não menos importantes. na Álvares Penteado. a condições de trabalho corrosivas. pelas mesmas razões.) Conjuntamente ao apelo em nome dos' "direitos". podia-se ler: "Devemos demonstrar.uma questão de polícia para o Estado. O PROTESTO FEMININO No entanto. 2$000 réis. foi o veículo utilizado pelas costureiras das confecções para articular suas demandas e organizar seus sindicatos.

sempre pelo mesmo salário". pela diminuição da jornada. Kessler & Cia. . Alvorada Operária.. podemos ainda lembrar o estado de ânimo em que se encontram nossas irmãs. tem necessidade de fazer seus serviços domésticos. 04 a 10 de novembro de 2007. Fábrica de cigarros Trajano. Alvorada Operária. desde as primeiras reuniões de trabalhadores formou-se um certo consenso sobre quais deveriam ser as condições de seu trabalho extra-doméstico.) De fato. em fábricas por todo o país. existem numerosos registros mostrando que um esforço considerável nessa direção foi realizado: não apenas vários sindicatos femininos foram fundados. MULHERES ENTRAM PARA OS SINDICATOS Embora houvesse inúmeros fatores freando a participação feminina na vida sindical.) " (Em Edgar Rodrigues. destacando como essas eram tão árduas que impediam um companheirismo mais vigoroso como o dos homens na vida sindical: “Quando tomamos conta que a jornada de trabalho é de 8 horas e mais. em alguns Congressos Operários. confirmando as resoluções do 1º Congresso quanto à situação do elemento feminino no meio proletário. Dos sindicatos constituídos. fora dispensada pelo mestre que a engravidou. (Em Edgar Rodrigues. participaram de nova greve geral por aumento de salário. lembra que o trabalho começava às 8 h da manhã.. de outro. além das havidas no Rio e em São Paulo.. sendo mesmo obstaculada em alguns casos.) Por sua vez.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG agravante de que a operária em questão.ainda assim. Companhia de Fiação e Tecidos Porto-Alegrense e trabalhadoras da fábrica de chapéus F. etc. quanto há evidências de freqüência de mulheres. Como já disse. em alguns congressos operários. inclusive discursando. . com sede na rua Senhor dos Passos. Chapeleiras e Classes Anexas. tecelãs da Cia. recém-parida. terminando às 19 h. Fábrica de ligas Peterson. um dos mais importantes foi a União das Costureiras. e em 1919. como por exemplo as chapeleiras. Elvira Boni. preocupando-se 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). realizado em 1920. C. aconselha vivamente as associações obreiras a se esforçarem para interessar diretamente as operárias na vida sindical. Em 1917. de um lado. as mulheres pararam os trabalhos nas Fábricas Matarazzo. em Porto Alegre. sua presença foi destacada. no Rio de Janeiro. No 2º Congresso Operário do Rio Grande do Sul.. de nome Alzira. embora a presença de mulheres não tenha sido usual nos Congressos. onde já funcionava a União dos Alfaiates da mesma cidade.. Fábrica de tecidos Mariângela. que após tão fatigante trabalho em troca de um mísero salário . Â União foi fundada por 50 operárias e sua primeira medida foi deflagrar uma greve pela redução da jornada de trabalho a oito horas diárias.116 - .. em 1906 e 1907. costureiras sob medida. pois ainda há casas em que se trabalham 14 a 16 horas. a maioria é composta por mães de famílias. Uma resolução do 3º Congresso Operário Brasileiro. discursou sobre as condições do trabalho feminino. . realizado entre 23 e 30 de abril de 1920. necessitando sustentar os seus e ampará-los contra as misérias da vida (. Têxtil Rio Grandense. Uma de suas inspiradoras. isso "quando a dona do atelier não prorrogava a jornada até às 20 ou 22 horas. resume esse consenso: "O 3º Congresso Operário. a relutância masculina em aceitá-Ias como companheiras e. as exigências de sua dupla jornada de trabalho que não Ihes deixava tempo para a política . lima operária delegada.

na qual 22 casas foram construídas para favelados e. Assim. no Rio. afirmou na ocasião: "A questão social. fundou a Liga Contra o Analfabetismo. foi reconhecida pelo Estado. elas militaram no movimento dos trabalhadores: a título de exemplo. em 1931. e no início dos anos 30. em torno da metade do proletariado têxtil e seriam majoritárias no setor de confecções. embora discutível para muitos em virtude dos embaraços que terminou por causar para a contratação e a carreira das mulheres. mineira de Manhuaçu nascida em 1877. quanto criava condições mais favoráveis à gravidez e estabelecia o princípio do salário igual para trabalho igual. em 1932. em Sorocaba. de caráter protetor. participaram da tentativa de uma greve geral da categoria: em 1925. eclodiram greves na Fábrica de Tecidos Santa Maria. bordadeiras. desde então. professora e escritora. apresentando 15% da força de trabalho. AS MULHERES COMO FORÇA DE TRABALHO O censo demográfico de 1920 mostrava que então 1. principalmente ma condição de tecelãs e costureiras. Dentre várias.000 mulheres trabalhavam oficialmente. a questão do bem-estar para todos resume-se no seguinte: 1º) Formar um núcleo 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). em Barbacena. costureiras e trabalhadoras de fábricas de fósforos em Niterói deram testemunho em A Classe Operária sobre suas condições de trabalho e salários e tentaram ganhar a solidariedade masculina para suas reivindicações. 04 a 10 de novembro de 2007. Convidada para discursar na Federação Operária Mineira. Comparando os dados de 1872 com os de 1920. Isabel Ferreira Bertolucci e Bertha Lutz.117 - . cabe destacar Maria Lacerda de Moura. vale a pena lembrar que durante toda a década dos vinte. a conclusão mais importante é que. diminuiu a participação das mulheres no seu interior." A demanda por uma legislação especial. acabou por prevalecer e.417. repelindo as brutalidades dos patrões e encarregados de serviços intensificando-se a campanha no sentido de que para elas seja abolido o trabalho noturno e o seus salários sejam equiparados aos dos homens. constata-se que. elas permaneceriam. na agricultura as mulheres eram 9% da força de trabalho. No entanto. na indústria de transformação 36%. em São Bernardo. não obstante esse decréscimo. . na prestação de serviços.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG com a sua educação social e intelectual e para que se estabeleça no trabalho um ambiente de respeito. que tanto proibia seu trabalho noturno. Maria Lacerda de Moura. Outras informações demonstram que. à medida que a indústria se expandiu. em I 922 no mesmo ano. PIONEIRAS DA LUTA SOCIAL Algumas mulheres destacaram-se na vida pública e em sua participação junto às organizações operárias. 31 % na indústria (inclusive em serviços de reparação) e 26% em serviços. organizou a Vila Dom Viçosa. Deste total de mulheres trabalhadoras.434. 81 %. pelo Decreto 21. 42% estavam na agricultura. ainda. fizeram greves na Fábrica de Tecidos Irmãos Tognato. tomando o total de pessoas trabalhando nos diversos setores da economia.

2. fundou a Federação Brasileira Para o Progresso Feminino. Proteger as mães e a infância. 8. Estreitar os laços de amizade com os demais paises americanos. fazê-Ia atravessar as fronteiras e olhar a Humanidade de uma só vez. a educação racional feminina por todo o país. da higiene. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). já em 1919.°) Abrir escolas do caráter e da boa vontade. detestar a política. Segundo ela própria. a fim de garantir a manutenção perpétua da Paz e da Justiça no Hemisfério Ocidental. . escolas que despertem a iniciativa. em cuja Primeira Conferência foram aprovados os princípios "de salário igual.para o conhecimento da humanidade e das leis evolutivas em favor da beleza e da perfeição dos costumes. Bertha Lutz.°) Trabalhar para a criação de uma ou mais universidades femininas. em cujo estatuto se esclareciam seus objetivos: Promover educação da mulher e elevar seu nível de instrução. Auxiliar as boas iniciativas das mulheres e orienta-Ias. ultrapassando sua condição social e dirigir-se a todas as classes de mulheres. de forma a persuadí-Ias de sua crença pacifista e da imoralidade das guerras. 3. porquanto é a força moral que conduz o mundo no dizer de Binet. publicado em A Plebe. sob esses moldes. incluindo mulheres. Obter garantias legislativas e práticas para o trabalho feminino. Assegurar à mulher os direitos políticos que a nossa Constituição lhe oferece e prepará-Ia para o exercício inteligente desses direitos. abrangendo as nacionalidades como membros da família humana". trabalhar para a reivindicação de seus direitos e para sua emancipação mental.de justiça e eqüidade entre os homens. na escolha de urna profissão. a fim de assegurar a aplicação das leis e regulamentos para a frr0teção dos trabalhadores". das ciências enfim. por ocasião do movimento constitucionalista. da filosofia.°) Promover o estudo da psicologia das forças ancestrais. abominar a guerra.°) Trabalhar pela juventude e pelo exemplo para dar à criança. 6. da educação e da ética. das artes . No seu manifesto procurou. da Organização Internacional do Trabalho.°) Pregar e exigir a educação popular. da fisiologia. juntamente com Olga de Paiva Meira. escolas de força moral. contra a hipocrisia protocolar. Em 1922.°) Falar. Isabel Bertolucci celebrizou-se pelo seu "Manifesto à Mulher Paulista". sua origem social estava na classe dos que tudo produzem e nada possuem.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG de resistência feminina. para o mesmo trabalho. Estimular o espírito de sociabilidade e de cooperação entre as mulheres e interessá-Ias pelas questões sociais e de alcance público. ampliar o amor à Pátria.118 - . representou o Brasil no Conselho Feminino Internacional. a fim de preparar o pequenino exército das trabalhadoras que deverão sair para o interior em demanda de outras mulheres de boa vontade. 4. pregar e protestar contra as mentiras convencionais. sem distinção de sexo. 7. e a obrigação de caia Estado organizar um serviço de inspeção. fazendo crescer na juventude a necessidade de ideal mais amplo . em 03/12/1932. educando-as num sonho de Paz futura para toda a gente.°) Pregar a Paz. cujo objetivo será protestar contra a escravidão da mulher. a instrução obrigatória. 5. 04 a 10 de novembro de 2007.

em Paris. assistindo-se à prisão de várias de suas integrantes. como suplente da vaga deixada por outro Deputado. duas delas. 04 a 10 de novembro de 2007. promoveu-se um encontro nacional de várias associações femininas. em 1949. como parte da Aliança Nacional libertadora. freqüentemente organizados em comitês de bairros. São Paulo). cuja comissão central a tecelã Mariana Galgaitez terminou por integrar. participando do Primeiro Congresso Internacional de Mulheres. e algumas delas somente foram concedidas em 1962. congelado desde 1951 e desvalorizado pelos constantes aumentos no custo de vida (que Celso Furtado estima como sendo de 50% entre 1949-52). cujos objetivos. (Ver José Álvaro Moisés. participando da vida pública. que paralisou aproximadamente 300 mil trabalhadores e. PARTICIPAÇÃO FEMININA NO PÓSPÓS-GUERRA Terminada a guerra. em 1935 foi considerada ilegal. na ocasião. incluindo mulheres de classe média. durante os seis meses iniciais de vida do bebê. reduzia de 30 para 20 o número de empregadas no local de trabalho cuja presença exigia creches. apresentado por ela e pela Deputada Carlota Pereira de Queiroz. Polis. a greve teve como origem a luta pelo aumento do salário mínimo. operárias e faveladas. lutar contra os aumentos no custo de vida e. no âmbito do político.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Em 1936. de meia hora cada um. contra a elevação do custo de vida. Ed. Com o golpe de 1937 e o Estado Novo. elaborando. onde se fundou a Associação Feminina. durante a II Guerra Mundial. procuraram igualmente organizar-se. mais de mil mulheres se congregaram para.) Todo esse esforço acabou por resultar. fechado o Congresso. da dinâmica do movimento operário no período pós Estado Novo. Greve de Massas e Crise Política. "a fim de possibilitar-lhes participação efetiva nos movimentos de combate à guerra e aos regimes de força". no âmbito do estritamente econômico. de extrações ideológicas e partidárias diversas. fundou-se a União Feminina que. a participação feminina foi intensa no movimento contra a carestia: no então Distrito Federal. nas palavras de uma estudiosa. O Estatuto ampliava a licença especial na época do parto para três meses. Nessa ocasião. Embora as mulheres tenham participado de formas variadas. o Estatuto da Mulher. De fato. eram. além de recolher dos nativos e roupas para os soldados. pela defesa e proteção da infância". várias outras grevistas foram indiciadas em processos por sua presença em piquetes. ressaltaram em discurso os males do fascismo e a necessidade de proporcionar-se instrução política às mulheres. Bertha passou a integrar a Câmara Legislativa Federal. no entanto. (Idem). que consistiu em forte impulso para outros núcleos locais. Em 1934. as reivindicações de Bertha Lutz tiveram de esperar por melhores oportunidades.119 - . destaca-se seu desempenho na greve de 1953. combater o nazi-fascismo e sua influência no país. em São Paulo. Por sua vez. pela paz. Na ocasião. na constituição da Federação das Mulheres do Brasil. A greve de São Paulo não foi isolada e dados 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Também vale a pena ressaltar o papel que elas cumpriram na organização do movimento de anistia para aquelas pessoas perseguidas ou presas pelo Estado Novo. Mas outras mulheres. (Idem. No final dos anos 40 e durante a década seguinte. organizou-se o Departamento Feminino da Liga de Defesa Nacional. . "lutar pela solução dos problemas especificas dos bairros. com representantes de vários estratos sociais. pelos direitos das mulheres. concedia à trabalhadora o direito de dois períodos diários para amamentação.

cujas principais motivações eram a necessidade de aumentos nos salários. pagamento de salários atrasados. então.120 - .4% e em 1950 para 23. melhores condições de trabalho e.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG coletados por José Álvaro Moisés lhe permitiram falar em 264 paralisações no período 1951-1952. em número menor. 04 a 10 de novembro de 2007. Em 1940. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). eclodidas em todo país. . bonificação de Natal e o protesto contra a carestia.9% do total de trabalhadores. o trabalho industrial das mulheres caíra para 26. solidariedade. acusando queda da participação feminina na indústria e sua persistência na prestação de serviços pessoais. Os Censos Demográficos de 1940 e 1950 continuavam.

121 - . com trechos quase tão úmidos como a da Mata e outros tão secos como a do Sertão.255. sendo de 1534 o primeiro relato desse desastre natural (Andrade. intermitentemente. a saber: a Zona da Mata. 27% da população brasileira. sendo uma chuvosa e a outra seca. 1986). Apesar de não existir grande número de latifúndios. Embora tendo o caráter natural e acontecendo na mesma região. que desde a época colonial deu lugar a três tipos de zonas agrícolas. Esta região. sistemas complementares de exploração agrária. Misturam-se a ela aspectos socioeconômicos e políticos que lhe tiram o caráter único de desastre natural. econômicas e políticas que possuem aspectos particulares quanto à estiagem. Na Região Nordeste. principalmente no que se refere aos latifúndios insatisfatoriamente explorados. hoje. vendem sua força de trabalho. verificam-se consideráveis desníveis sociais. Diante de tal diversidade. contando com alto índice de analfabetismo. reconhecida como polígono das secas. e sua população tem condição de vida precária. com estações bem definidas.7% do território brasileiro.808. que representa 18. Para efeitos deste trabalho. a seca será considerada como fenômeno social que agrava a pobreza e afeta particularmente as condições de vida da população. que dificilmente tem acesso às políticas sociais. a do Sertão. denominada de Agreste. mas que se contrapõem econômica e politicamente: o Nordeste da cana-de-açúcar e o Nordeste do gado. . 45 46 Pesquisadora da FUNDAJ Idem 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). por um lado. localizando-se aí a maior porção das usinas do Estado e sobretudo aquelas que dispõem de maior dimensão. De acordo com Araújo (1999). ou seja. observando-se entre um e outro. porém apresenta diversidade climática (Moura. 04 a 10 de novembro de 2007. a dimensão de terras ocupadas pelos latifundiários é grande. possuindo áreas úmidas e chuvosas. pequeno número de médios e grandes proprietários com elevado padrão de vida. e uma população de 42. apesar da pobreza do solo em matéria orgânica. A Zona da Mata é apontada como área dos grandes canaviais.470. A dimensão social e política da seca A seca é um fenômeno natural que tem registro no Nordeste desde a colonização da zona semi-árida da região. De acordo com Andrade (1986). Na área rural há. ao se focalizar a dimensão natural das secas. também quente.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG A MULHER E A EMERGÊNCIA DA SECA NO NORDESTE DO BRASIL Izaura Rufino Fischer 45 Lígia Albuquerque 46 O Nordeste do Brasil tem uma extensão territorial de 1. A região é considerada subdesenvolvida. porém seca e vulnerável a esse fenômeno natural. possui 60% de seu território em área considerada vulnerável a esse fenômeno. a região possui clima exteriorizado pela sua vegetação natural. Há também apreciável número de pequenos proprietários que. com clima quente e úmido. têm padrão de vida razoável ou precário e que. surgem desde o período colonial.077 km quadrados. dependendo da qualidade da terra. o Nordeste da pequena propriedade e da policultura. 2000). A estrutura agrária é bastante concentrada. não se consegue vislumbrar muito mais do que a histórica repetição de cenas de fome e sede. e a zona intermediária. a seca ocorre em diferentes conjunturas sociais.

No estado de Pernambuco. o assédio aos governantes. divulgam e denunciam a situação e ação dos trabalhadores. que possibilita a organização da população afetada para se mobilizar e cobrar dos governantes medidas de amparo. além de promoverem ocupação do principal órgão de desenvolvimento da região. em 1998. enfrentam os efeitos da seca com menor esforço e sofrimento. por um lado. .122 - . a ser pago no longo do prazo ou a fundo perdido (FUNDAJ. mas também propicia benefício. particularmente os sem terra. enquanto os proprietários rurais tomam atitudes que lhes proporcionam ganhos que superam suas perdas. através dos sindicatos dos trabalhadores rurais e movimentos sociais que lhe dão visibilidade. fato que favorece as desigualdades dos benefícios destinados ao socorro da população através de uma política unificada. Também leva à tona o nível de organização política dos mais afetados. transpôs os saques da fome do sertanejo para a sala de jantar do Brasil. a catástrofe centrou o tema na consciência nacional. formados por grandes proprietários ou pertencentes a famílias abastadas. pressão mais direta sobre as estâncias estaduais e municipais que estão mais próximas. Assim. a seca. Assim. As preocupações em corrigir distorção estrutural proporcionam algum quantum de equidade social e sustentabilidade ambiental. tais medidas são manuseadas e desviadas no caminho da prática. para reivindicar uma política de apoio à população atingida pela seca. adequadas a cada conjuntura política. pode significar mais uma oportunidade para aumentar seu poderio e estender seus domínios com o auxílio das políticas sociais. a exemplo do crédito financiado a juros baixos. o governo se envolve com as conseqüências do fenômeno. redefinem sua forma de ação ao trocarem o tradicional saque realizado em feiras públicas pelo ataque a transportadores de alimentos administrados pelo governo. homens e mulheres adotam práticas de luta. a SUDENE. citado por Araújo (1999). Na implementação das políticas. por exemplo. ao dar visibilidade às mazelas sociais da região. especialmente através do rádio e a da televisão. é marcante. a seca leva à fundação da SUDENE. Em 1877. Algumas medidas são implementadas sem resultado permanente. Nessa ocasião. dá espaços à lógica da contradição. pois são geradas no jogo das articulações políticas em que se considera a sociedade como espaço que pertence aos outros. em 1915.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG A seca. principalmente devido à ajuda das políticas sociais. quando da instalação das políticas sociais dirigidas à região. para os produtores mais abastados. aproximadamente 32% (Albuquerque. os trabalhadores rurais. Os efeitos da seca não atingem igualmente a população e o território do semi-árido. Considerando que o Nordeste está dividido em três zonas de diferentes aspectos naturais e que possui infra-estrutura dominada pelas oligarquias agrárias. A seca. em 1958. causa danos à população. de modo peculiar. No entanto. 1998) da população não conseguem atravessar os momentos críticos da estiagem sem ajuda externa. Diversas políticas sociais têm sido implementadas no enfrentamento da seca. muitas das quais destinadas a corrigir distorções conjunturais geradas por modelos econômicos. como fenômeno social de dimensão secular. como o da informação. a falta 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). pois os horrores da seca fortificam interesses regionais. 1983). Os produtores potencialmente mais resistentes. muda a própria história das estiagens. 04 a 10 de novembro de 2007. os mais vulneráveis são geralmente os trabalhadores sem terra e miniproprietários rurais. A mulher exerce. que. além da profundidade da catástrofe. que só recentemente começaram a fazer parte da agenda governamental. segundo Gaspari. O momento da seca.

1999). o consumo e o tráfico de drogas (Fischer e Melo. própria da globalização. a seca se instala num cenário em que grande parte do pequeno produtor sem terra reside na periferia da cidade. segundo Ianni (1995). em tese. tem contribuído para redefinir hábitos. Essa política tem como objetivo atender a população que se encontra em reconhecido estado de calamidade pública. tendo as verbas alocadas.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG de infra-estrutura da região rural. capacitação e alfabetização dos 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Além disso. sobretudo no que se refere ao abastecimento d’água e geração de renda. que. podem ser consideradas filhotes da globalização. As políticas sociais criadas em períodos de seca são geralmente transformadas em programas de governo. que se manifesta através do desemprego. de um modo geral e. da água. A globalização como aporte econômico. Com a seca. da saúde. esse vasto processo histórico-social. A seca que atingiu o Nordeste do Brasil no período 1997-1999 se instala num contexto já fragilizado pelos efeitos da globalização. Os produtores do sequeiro. Tais fatores levam a aprofundar os efeitos nefastos da seca sobre a população atingida. contribuiu para a desaceleração da indústria. a competição desigual. Essas mazelas sociais. a fragilidade do nível educacional da população e a sua convivência com problemas típicos de grandes cidades. que aparecem em pequenas cidades interioranas. direcionados a outros projetos como o da educação. a pecuária torna-se mais vulnerável diante da globalização." composta por obra hídrica. Tais efeitos tendem a se agravar. por vezes. . crédito etc.123 - . econômico. como a insegurança. enfrentam a concorrência de carne e leite em condições desfavoráveis. foram secularmente inventadas. a exemplo da chamada "frente produtiva. pois. do comércio e da agricultura. político e cultural continua a expandir-se. a exemplo da carência de energia elétrica. Os programas têm sido. "Os governantes terão de escolher entre subsidiar o campo ou construir a miséria na cidade". costumes e tradições que parafraseando Hobsbawn (1997). da migração interna na região. é um programa governamental implantado para amenizar ou eliminar conflitos sociais inevitáveis que explodem quando parte da população tem seu nível de subsistência comprometido. e a prioridade do proprietário da terra é pela produção de alimento para a pecuária. fato que contribuiu para a transferência da renda das regiões mais pobres para as mais ricas. A política social da seca A política adotada em período de seca. no Nordeste. Na avaliação de administradores governamentais locais entrevistados. 04 a 10 de novembro de 2007. além de invadir os mais longínquos recantos do Nordeste. pois as regiões afetadas pela catástrofe enfrentam a concorrência com outras localidades que se encontram em plena normalidade. Tal política é estabelecida a partir de pressões da população que tem seu suporte alimentar afetado. é duplicada com a situação de seca. a prostituição. ou se tornam exclusivos. não tem lugar certo de trabalho quando planta. de acordo com as prioridades da população. particularmente. chamada política de emergência. a expectativa para a agricultura é a de que a recuperação seja lenta. em função da crise climática. da concorrência entre forças desiguais etc. Assim.

educação. a preferência aos trabalhadores cabeças de família. crédito. 1999). etc. Essas comissões devem ser formadas nas esferas federal. recuperação e limpeza de cisternas.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG trabalhadores. A "frente produtiva" tem o objetivo de preparar a população para conviver com a estiagem. Tal montante. estaduais e municipais.00 foram destinados a atender a população atingida pela catástrofe. possuir quantidade de terra que não supere 4 módulos fiscais qualificados na região em vigor. era facultada a participação de três membros do grupo familiar. farinha. incluíram outras ações.00 (investimento e custeio). Os recursos para tais ações devem ser administrados por Comissões Paritárias compostas por membros do Estado e representantes da população afetada. conservação e recuperação do meio ambiente e ecoturismo. foi definido: a prioridade ao trabalhador rural que dependesse da produção agrícola ou pecuária para o sustento da família. 04 a 10 de novembro de 2007. açudes. O núcleo familiar com mais de 7 membros que possuísse aposentado poderia inscrever apenas uma pessoa.000.124 - . foi alocado em vários programas existentes. a exemplo das frentes ecológicas e culturais (educação ambiental. emprego. Na seca de 1998. ou dedicando-se à capacitação ou alfabetização. apenas um poderia ser contemplado. saúde. que poderiam ser usadas realizando trabalho rural ou urbano. foram usados critérios de seleção como: ser trabalhador rural. açúcar. os beneficiados seriam contemplados com alimentos. ter renda de no mínimo 80%. Construção. residir na propriedade ou aglomerado urbano próximo. arroz. As atividades culturais resumem-se a dinamizar o artesanato nos principais centros do país). na família de 1 a 5 membros. ter idade entre 14 e 60 anos. de 6 a 10 pessoas. utilizar força de trabalho familiar. Os beneficiados com emprego deveriam estar disponíveis 27 horas semanais. óleo. Produção de brita e paralelepípedo. De acordo com a autora. tanques. produtores que se enquadrasse nos critérios da agricultura familiar PRONAF (o candidato deve ser parceiro. alfabetização|capacitação e saneamento básico. barreiros. e. proprietário ou arrendatário). café. fubá. acima de 10 pessoas. poderiam ser inscritos dois integrantes. gerados da exploração agropecuária. aproximadamente R$ 600. barragens e aguadas. Fabricação de telhas e tijolos a serem utilizados em obras ou mutirões. destinada principalmente à construção de asfaltos. segundo a autora. Construção de residências na área rural e recuperação de prédios públicos. com o propósito de beneficiar até um milhão de trabalhadores rurais (Melo. As principais ações implementadas pela política social da seca estão assim organizadas: • • • • • • Distribuição de cestas básicas contendo 19 quilos de alimentos (feijão.000. . além de contemplarem recursos hídricos. distribuído através do órgão de desenvolvimento do Nordeste. Os membros da Comissão devem ser indicados pelas instituições que os representam. As linhas norteadoras das frentes produtivas. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Na escolha dos contemplados. macarrão).000. Crédito destinado à criação de infra-estrutura no valor de R$ 450. Dada a peculiaridade da área.

125 - . quando atinge o indivíduo na sua totalidade e alcança o patamar classificado por Josué de Castro (1980) de epidemia de fome coletiva. que não é pensada pelos idealizadores da política da emergência da seca. a qual. dando-lhe novamente a conotação de necessidade.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG A contribuição da mulher na atenuação da fome na seca O problema da seca não se manifesta no aspecto específico da água. especialmente no que se refere ao suprimento alimentar. comporta vários significados. Esse processo de solidariedade ocorre através da distribuição do pouco alimento que existe na comunidade ou rede de parentesco. enquanto o homem tem a pesada função econômico-social de produzir e distribuir os gêneros alimentícios. sem dúvida. fome é a falta de quaisquer dos quarenta ou mais elementos nutritivos indispensáveis à manutenção da saúde. considerados indispensáveis à sua sobrevivência. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). isto é. Nessa administração. em sentido simbólico. a seca apenas agrava a situação da fome. é através desse arranjo que a solidariedade caricatura a fome. . se referem à comida de má qualidade. falta de terra para trabalhar. amenizada pela rede de solidariedade entre os iguais. Essa carência ocasiona morte prematura. a fome somente se caracterizaria como tal no caso de morte por inanição. embora não acarrete. em período de chuvas normais. carência de assistência médica. as chamadas necessidades aumentam e comprometem a própria sobrevivência da família sertaneja nordestina. independentemente da seca. relacionada à casa e à mulher. caracterizada como fome endêmica. e é problema crucial. a inanição por falta absoluta de alimento. que tem causas mais ligadas às desigualdades sociais do que aos fenômenos climáticos. no período de escassez de chuvas. 04 a 10 de novembro de 2007. que. No sentido moderno. que. e aquele que dispõe de algum quantum de alimento. a fome é uma constante nas famílias dos pequenos agricultores do Semi-Árido nordestino. como enfatiza Bobbio (1992). observa-se que a fome no Semi-Árido nordestino constitui uma extensão da pobreza. De acordo com Castro (1980). Assim. o termo se referia à falta de alimento para saciar o apetite. De acordo com Fischer (1998). obedecem a uma administração rigorosa. de acordo com Sobrinho (1982). Dessa forma. no ser humano. falta de roupas e calçados. socorre quem nada tem para cozinhar. Assim. pode significar muitas coisas juntas. segundo Fischer (1998). Ao atingir tal estágio. mas especialmente na escassez de alimento. é considerado estágio fisiológico ligado à necessidade alimentar. A palavra fome. são direitos do cidadão. a necessidade adquire a conotação de fome. é novamente considerada pela família do produtor rural do Sertão nordestino como necessidade básica. pois cabe ao elemento feminino enfrentar a difícil tarefa de gerenciar o alimento consumido no cotidiano. homens e mulheres têm papéis diferenciados. que afeta indistintamente a todos. Estas. que as famílias dos pequenos produtores rurais caracterizam como necessidades. necessariamente. No passado. Seria uma visão simplista atribuir a fome da família rural dessa região do Nordeste unicamente à irregularidade pluviométrica que periodicamente desorganiza a produção. as necessidades não passam pelo crivo do planejamento. Diz respeito ao indivíduo e à humanidade. moradia e outros elementos do bem-estar que. Em qualquer dos significados acima levantados. mas. Na família estudada do Semi-Árido.

principalmente a dona-de-casa.. o homem tende a assumir calado sua fraqueza e. doa a refeição que lhe cabe. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE).. Nessa distribuição. muitas vezes. a mulher rural em estudo. o homem. não se conformam com pouco. que tem mais idade do que eu. são comedores. o ânimo e até a vontade de viver". alguém. O marido é. esperança. que geralmente é a mulher. se conformar com o que tem. Quem está na cozinha é quem sente a dor de cabeça.126 - . 04 a 10 de novembro de 2007. demonstra sentimento de impotência e apenas tenta se justificar dizendo que "não tenho de onde tirar". você se aperreia muito (entrevistada do município de Patos). além de calcular a quantidade de gêneros alimentícios que deve ser consumida diariamente na unidade familiar. O homem apresenta comportamento peculiar no enfrentamento da falta de comida. Diante de tal cobrança. É difícil repartir a comida. o sossego. Caso os pequenos não fiquem relativamente satisfeitos. para que todos sejam contemplados eqüitativamente. não ingerem a quantidade que seu apetite permite. principalmente durante a seca. todos têm que comer pouco. passa pela mesa (entrevistado residente no município de Ouricuri).chora e insulta o marido e encara o problema com determinação. sobretudo. exigência que ele tende a ler como negação da sua condição de homem. Eu afino a sopa. Os filhos e de 13 e 15 anos.. Enquanto a mulher procura dar vazão a seus impulsos. Pobre come só o que tem. sobretudo. Os depoimentos seguintes enfocam a angústia da mulher ao dividir o alimento na unidade familiar: Fico desesperada quando a comida não dá. "não encontro pra quem trabalhar". e consegue inclusive levantar o ânimo dos familiares -. Aí dá dor de cabeça. Geralmente. a prova mais dura que enfrenta na seca. Reclamo para o marido e para os filhos porque não vou morrer calada. ele sai pra comprar fiado. contemplado nessa distribuição. fica deprimido e frágil. Esse grau de depressão aumenta na medida em que a mulher. Se tem pouco. reclamo o tempo todo. É preciso saber pra ninguém ficar sem nada. O fato de ter pouco alimento para servir na hora da refeição. segurança. se a comida vai dar. "Esta é uma provação que tira o sono. Mesa de pobre é desigual: tem dia que faz de conta que tem. se atrapalha. os indivíduos. Brigo. Tem hora que olho pro velho.. A criança não quer saber de onde sai. tarefa que culturalmente lhe é atribuída e cobrada pela sociedade e. de mantenedor da família. principalmente no período da seca. no geral. vendo o povo pra comer e a comida sem dar pra todo mundo. outra vez nem isso pode fazer. é a mulher. o que vai faltar. mas.. diante da limitação do alimento. diante da falta de comida para servir aos filhos. Quer comer 3 vezes por dia. mas não tem jeito. Ele sorri e diz: é. Vale. por ele próprio. . O homem rural do Semi-Árido pesquisado dificilmente passa por dificuldades semelhantes às da mulher chefe de família. são estabelecidas prioridades que contemplam as crianças e o marido. principalmente para as crianças e o marido. e digo: tu tá mais novo do que eu. Afino. Só quem sabe o que tá precisando. e devolve o problema para a mulher. O marido pergunta: nós vamos fazer o quê? Aí. cabe a ela distribuir "pratos feitos" entre os familiares. delimita também o alimento de cada membro durante a refeição. É difícil fazer uma sopa com a metade de um pacote de macarrão para dividir com 8 pessoas. na opinião da mulher pesquisada. cobra-lhe a obrigação de dono de casa e.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Na administração cotidiana do alimento. salientar que no processo de distribuição da refeição. A parte da mulher esquenta muito. Seu constrangimento resume-se ao não cumprimento de suas obrigações de provedor do lar. Se não usar bem com o juízo. portanto. de um modo geral.. ainda. avalia uma entrevistada do município de Patos. Quando ele consegue fico satisfeita. dividindo seu desespero com todos na família . é. pois raramente assume o núcleo familiar sozinho. o que é possível.

O seguinte depoimento. Alguém deu café e açúcar a ele lá pela rua [o marido. A escassez de alimentos. transtornos orgânicos na família rural. embora tenha a consciência de que a refeição não está balanceada em vista da reduzida diversificação e da quantidade dos itens disponíveis. carneiro. no preparo do alimento. conforme destacam praticamente todas as entrevistadas (o fubá é ruim. milho. por vezes. A dona-de-casa rural da seca dificilmente sabe distinguir proteínas de vitaminas e tampouco entende o que significam sais minerais. ao todo. . Mesa de é desigual (entrevistada residente no município de Patos). a título de emergência. 4 pacotes de macarrão e 2 latas de óleo vegetal. 15 dias. que simboliza o sentimento de praticamente todas as entrevistadas.00). quantidade e qualidade na junção dos nutrientes. Compra 10 quilos de açúcar e 10 quilos de feijão pra 15 dias. e assim a gente vive. leite. carne de boi. pago pelo governo. 2 de farinha. na expressão de Euclides da Cunha. que fazia do sertanejo "um forte". quando tem. de tal forma que duram. Aí. se complementadas com as compras feitas com o salário de R$ 80. às famílias atingidas pela seca. da época restaram o hábito alimentar e a cultura de preparar o alimento. Feira assim. onde é de R$ 60. eu tempero aquele caldo com uma cebola e alho e coloco um pouco de "cusculho". sobretudo durante a seca. A mulher poupa as iguarias recebidas. 1 de açúcar. porque café tá muito caro. que tem sua alimentação totalmente desequilibrada. causa mal estar psicológico e social no homem e na mulher e. o que ocorre com freqüência. a mulher utiliza seu aprendizado sobre o seu preparo. cabrito. Este é um tipo de situação que deixa o homem um tanto desmoralizado diante da família e com a autoestima em baixa. Apesar da má qualidade dos alimentos da cesta básica. Hoje não tinha café em casa. tanto com a combinação de alimentos quanto com a escassez e limitação na diversificação de produtos alimentares. 5 de fubá.. Quando a gente pega em dinheiro. mas pobre come tudo. é só café com açúcar. carne (mesmo que eventualmente) e algumas verduras. prejudicando aquelas fragilizadas famílias. E embora aquela alimentação balanceada com proteínas e vitaminas que. em média.. Assim. versa sobre os arranjos alimentares improvisados pela mulher em época de estiagem: O alimento é fraco na seca. manteiga. envergonhado repreende: eu comprei fiado]. Cozinho o feijão de manhã. já não exista. constituía o grosso do consumo da família sertaneja. de forma que se existir produção de feijão. Deixo o caldo do feijão pra noite. 04 a 10 de novembro de 2007. que rende mais. arroz. nós faz a feira. que ficam sem ter a quem recorrer para 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). improvisados com os gêneros da cesta básica doada pelo governo através do Programa de Emergência e que.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG dando-lhe mais uma tarefa: a de pensar sobre o que ele deve fazer. a família terá a alimentação relativamente equilibrada devido à vivência da mulher rural pesquisada. Compro o carioquinha. sabe dosar. mesmo desconhecendo o conteúdo de proteínas. vitaminas e sais minerais dos produtos alimentares. A situação torna-se mais crítica quando aquele salário sofre atrasos. o feijão vinha duro (foi substituído pelo fubá) e a farinha não presta). porque gente fraco não faz feira. porém. sem dúvida. que estava junto. Esses arranjos alimentares são.127 - .00 (exceto no estado do Piauí. para improvisar arranjos nutricionais durante a seca. a família se mantém num patamar mínimo de sobrevivência alimentar durante um mês. contém 19 quilos assim distribuídos: 5 de arroz. segundo Castro (1980). repassado através de gerações. De manhã. assimilada pela mulher. ovos. e 11 horas a gente come os caroços do feijão com "cusculho". como queijo.

Seca: fenômeno de muitas faces. (in Branco – Org. Dicionário de Política. As políticas sociais destinadas a essa região ainda não proporcionaram uma base estrutural. O trabalho feminino: efeitos da modernização agrícola. o Nordeste do Brasil e. Fundação Joaquim Nabuco – FUNDAJ. auxiliando a política social da emergência. Sobrinho Estevan de Lima. Bibliografia Andrade. Izaura R. Bobbio. 1997. Fischer. o Estado dificilmente conteria os conflitos sociais e a dizimação da população provocada pelo referido fenômeno. Maria Lia Correia de. Recife. Fome. suficiente para que a população conviva com as secas sem passar pelo tormento da fome. 2 ed. agricultura e política no Brasil: a chantagem alimentar.) Fundaj. Melo. São Paulo: Atlas.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG conseguir qualquer tipo de alimento. Gênero: uma questão questão no programa de emergência (in Branco Org. Recife: Recife: FUNDAJ.) A família rural da seca. Izaura R. e. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Dimensão social e política da seca de 1983. levando-a ao caos. Recife: 1998. 2 ed. 04 a 10 de novembro de 2007. 1980. Recife: Massangana. Castro Josué de. a zona do Sertão semiárido é intermitentemente atingida por secas. dado o seu caráter de região pobre. 1998. 1999. 1996 Fischer. Diante da impossibilidade de convivência com esse desastre natural. Lígia Albuquerque de. a fome absoluta ameaça intermitentemente o cotidiano dos atingidos pela seca. Vozes. que fragiliza o seu desenvolvimento em todos os aspectos e desmoraliza o indivíduo na sua dignidade.128 - . pois a fome certamente contaminaria a região. Sem esse auxílio. 1998. Universidade de Brasília. A invenção das tradições. Recife. Considerações Finais Como se pode observar. 5 ed. Hobsbawm Eric e Terence Ranger. Brasília: ed. a contribuição da mulher está presente. 1986. Rio de Janeiro: Antares. Conselho Conselho de desenvolvimmento de Pernambuco –Condepe. . 1983. Rio de Janeiro: Paz e Terra. Diante de tal realidade. a grande maioria da população tem a sua condição de vida afetada em sua estrutura. Geografia da fome. o que contribui para descontrolar ainda mais seu limitado orçamento familiar. 1992. Fundaj: Recife. a cada ocorrência de seca. devido aos freqüentes atrasos nos pagamentos da Frente de Emergência. particularmente. Manuel Correia de. Norberto et al. Petrópolis. A terra e o homem no Nordeste: contribuição ao estudo da questão agrária. 1982. e Melo Lígia Albuquerque de. Araújo. 4 ed. Os comerciantes da localidade não vendem fiado a esses trabalhadores.

envelhecimento e masculinização no Brasil: um panorama dos últimos 50 anos. pela colaboração neste texto. 48 SOARES. Sem negar que essas características podem ser realizadas pelo modo de produção familiar. a agricultura familiar vem ganhando importância como alternativa para o desenvolvimento rural sustentável. 04 a 10 de novembro de 2007. desigualdades. especialmente no que se refere à harmonia e à complementaridade entre as ações humanas e a natureza. Êxodo rural. adultos(as).129 - . entre a produção e o consumo. até o momento. no campo da sociedade civil. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). é fato que. funcionalidades e dependência entre o modo como está estruturada a agricultura familiar e as desigualdades de gênero. Adriano. Este artigo pretende analisar as relações. Por outro lado. a força discursiva não foi suficiente para provocar resultados que alterem os graves padrões de pobreza e exclusão a que estão submetidas as populações rurais – cujas causas estão radicadas no exaustivamente reconhecido modelo modelo de desenvolvimento hegemônico brasileiro.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG amiliares Muito trabalho e nenhum poder marcam as vidas das agricultoras ffamiliares TACIANA GOUVEIA47 Nos últimos anos. bem como o seu caráter multifuncional. que privilegia o setor latifundiário e a agricultura patronal. A constatação do hiato e da aparente contradição entre os discursos estatais e suas proposições políticas não responde à totalidade do problema a ser enfrentado. In: REBRIP/ACTION AID. Agradeço a Carmen Silva e a Simone Ferreira. tanto nas ações dos movimentos sociais como das políticas públicas governamentais. 1999. destacando sua contribuição nos campos da segurança alimentar. Tais riscos não estão relacionados apenas aos limites para expansão ou consolidação da agricultura familiar. Ricardo. segurança alimentar e agricultura familiar. o discurso sobre agricultura familiar produzido nos últimos anos por vezes a trata como um fenômeno histórico recente e altamente idealizado. Camarano e Abramovay questionam: “Até que ponto o meio rural pode ser um espaço propício na construção da cidadania e de condições de vida capazes de promover a integração econômica e a emancipação social das populações que aí vivem?”49. tangíveis e intangíveis. coordenadora de educação do SOS Corpo – Gênero e Cidadania e integrante do Grupo de Referência do Observatório da Cidadania. Tomando como 47 Feminista. demonstrando as conseqüências dessa dinâmica tanto na restrição da autonomia e cidadania das mulheres como no que se refere aos riscos que o próprio modelo corre se não construir possibilidades para o enfrentamento dessas desigualdades. ABRAMOVAY. Ao estudar o processo de envelhecimento e masculinização da população rural. sustentabilidade ambiental. mas fundamentalmente dos processos sociais e políticos – em suas dimensões contraditórias e conflitivas – presentes na base das análises e ações que tradicionalmente vêm organizando e dinamizando a agricultura familiar. Soares considera que a “agricultura familiar provê um conjunto de bens públicos. há longo caminho a ser percorrido que não depende apenas de mudança nas políticas públicas. No que se refere a essas essas políticas. (Textos para discussão. mas às suas possibilidades de constituirconstituir-se em um instrumento que promova a democracia e a justiça. entre mulheres e homens. Multifuncionalidade da agricultura familiar. A mudança de foco aqui operada talvez nos obrigue a olhar menos para as funções que exerce e mais para as estruturas que a sustentam. contradições. . entre a potencialidade e a realidade. Rio de Janeiro: Ipea. 2001. Rio de Janeiro: Rebrip. de elevado valor para a sociedade em geral”48. Action Aid. 612). 49 CAMARANO. parceiras de trabalho no SOS Corpo. jovens e crianças. função econômica e social. Com relação a esse aspecto. n. Comércio internacional. Amélia.

incra. das estratégias para a superação das desigualdades. seus protagonistas mudam de sexo”53. não as consideram como sujeitos de direito. Economia y sociedad. Se o patriarcado é o sistema que cria. E. na dominação patriarcal. mas no próprio processo de visibilidade e valorização desse modo de produção. 52 BUARQUE. atribuição de valores.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG referência as relações de gênero na agricultura familiar em seu atual formato. muitos setores envolvidos na defesa da agricultura familiar começam a preocupar-se com essas questões.br>. Cristina. O ethos da agricultura familiar coloca no pai todo poder para organizar não só o empreendimento produtivo como também todo universo de relações que ali ocorrem. “a nossa agricultura familiar é herança de uma atividade basicamente feminina [. elas não são vistas no sentido de seu reconhecimento como sujeitos ativos dos processos produtivos. Abramovay e colegas constataram que 64% dos pais informam que têm o poder sobre todas as atividades da unidade familiar. Cabe abrir um parêntese para questionar a chamada invisibilidade das mulheres e seu trabalho na agricultura familiar. op.gov. ABRAMOVAY. Max.br>. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). enquanto a agricultura familiar não passava de um instituto marginal na economia.] instituída pelas mulheres nos espaços vazios dos grandes latifúndios”52. expressão tão recorrente que já assume um estatuto de verdade.gov. 04 a 10 de novembro de 2007. especialmente as mais jovens. são as relações de dominação patriarcal que lhes atribui um lugar menor. 53 Id. não se pode negar que.. estão presentes “a crença no caráter inquebrantável do que tem sido feito sempre de uma determinada maneira”51 e a autoridade fundamentada na submissão e nas relações pessoais de convivência íntima e permanente. no momento exato em que ela passa a ocupar um espaço nas grandes políticas. constrói-se uma hierarquia rígida na ocupação de lugares. quando as estatísticas e análises – produzidas pelo Estado ou pela sociedade civil – não trabalham os dados separados por sexo. Buenos Aires: Fundo de Cultura Econômica. ainda. sendo a ausência o que concretiza esse (re)conhecimento.cnptia. 1992. Tal diferenciação de oportunidades e poderes ocorre não apenas na agricultura familiar. A partir dele. justifica e legitima a opressão e exploração das mulheres. ibid. Integração da perspectiva de gênero no setor da reforma agrária. as possibilidades de construção de cidadania e emancipação das mulheres ainda são muito restritas. 51 WEBER. Como bem analisa Buarque. agricultura familiar. quando discursos mantêm a suposta universalidade do masculino (“o agricultor”). 50 Em pesquisa recente. Tradução da autora. Não são as mulheres que se ocultam.. ela era vista como uma atividade feminina vinculada ao doméstico. ao se organizar a partir deste sistema. reproduz e perpetua tal exploração e opressão. As mulheres não são invisíveis. estatais ou da sociedade civil.130 - . “é interessante observar que.embraba.. A operação de invisibilidade ocorre em um momento posterior ao trabalho realizado. Sucessão profissional e transferência hereditária na agricultura familiar. Disponível em:<www. parece que a situação começa a ser inquietante exatamente nos momentos e movimentos em que elas deixam de estar.. tal como definida por Weber. seja ele produtivo ou reprodutivo. Para além do reconhecimento verdadeiro e legítimo das injustiças a que as mulheres estão submetidas. Longe de ser um mero jogo de palavras. uma vez que é concreta a “rota de saída” das mulheres. Ricardo et al. Ao mesmo tempo.gipaf. Disponível em: <www. atribuir aos outros a incapacidade de enxergar as mulheres muda o sentido da compreensão da realidade e. quando os projetos políticos. Dá-se quando é negado às mulheres o direito de decidir. ainda de modo incipiente. . Em outras palavras. do espaço da agricultura familiar. cit. conseqüentemente. oportunidades e benefícios50.

no Pará.gov. somente elas são as executoras.embraba. como é o caso de trabalho realizado em Paragominas. os homens realizam a maioria.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Onde estão as mulheres? De modo apressado. Contudo. três atividades). as 54 Pesquisa realizada em 2003 pelo SOS Corpo – Gênero e Cidadania para Projeto de Desenvolvimento Local Pnud/BNDES. onde Cayeres e Costa.gipaf. em maior ou menor medida. Em todos os lugares porque para além dos dados que as ocultam. em graus variados. COSTA. em 49% dos casos. as mulheres participam. constataram que “as mulheres têm maior contribuição individual na força de trabalho familiar e na continuidade das atividades tradicionais. Massapê. enquanto as mulheres participam de três a cinco). colheita) e. a freqüência é bem mais baixa que a dos homens: brocar. LOPES. a divisão do trabalho é um pouco diferente. pois os homens estão mais envolvidos na atividade. Disponível em:<www. plantio.cnptia. Nas demais situações. Etnografia sobre as relações de gênero na agricultura familiar no 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). mas sim o medo de acidentes provocados pelo vazamento de gás.9 mostram que. ainda que não exclusiva e. As tabulações estão em fase de finalização. mas só em um caso é exclusiva. realizada pelos meninos. 57 É interessante observar que a justificativa para o predomínio masculino na troca do botijão não é o peso. de todas. sendo que o trabalho feminino está presente com alta freqüência de sete a nove atividades. realizam todas as atividades produtivas e reprodutivas na unidade familiar. 04 a 10 de novembro de 2007. MOURA. Se as mulheres executam as atividades produtivas na mesma proporção que os homens. as mulheres participam na mesma proporção que os homens (capina. Em apenas três atividades. há um equilíbrio na divisão das atividades.131 - . Já na criação de aves. mas também verdadeiro. eles são majoritários (realizam as 11 atividades. são majoritárias (beneficiamento dos produtos). 56 CAYERES. pode-se dizer que as mulheres estão em todos os lugares e não estão em lugar nenhum. Análise da mão-de-obra no sistema de produção familiar de uma comunidade amazônica. a manutenção do sistema tradicional é assegurada pela sobrecarga de trabalho das mulheres”56. Ver PUHL. Na criação de suínos. 58 Resultados quase idênticos foram encontrados por Puhl. Na criação de caprinos/ovinos. Dados semelhantes são encontrados em pesquisas que investigam contextos diferentes. Assim sendo. sendo que. Guilhermina. o mesmo não se pode dizer das atividades reprodutivas.br>. Essa é uma área de extrema pobreza. Das 15 atividades listadas. buscar e rachar lenha. enquanto 28% das atividades têm uma freqüência maior de realização compartilhada. onde a maior parte da produção familiar está relacionada com as atividades do roçado e a criação de animais de pequeno porte (aves e suínos). 55 Composta de quatro municípios: Sobral. Enquanto que os homens estão envolvidos com as novas técnicas introduzidas e nos treinamentos. . havendo ainda casos em que participam de todas. Os dados coletados em uma pesquisa54 com as agricultoras familiares da região de Sobral. como demonstram os dados a seguir. Santana do Acaraú e Meruoca. a presença masculina é maior. no Ceará55. as mulheres realizam todas as atividades que compõem o sistema. em muitos casos. nos casos restantes. replantio. destocar e vender. Na área de Sobral. Moura e Lopes em diagnóstico realizado no Vale do Guaporé (1998). a participação masculina é muito baixa (em média. das 25 atividades que compõem a esfera reprodutiva. em apenas 50% dos casos. apenas 20% são realizadas com mais freqüência pelos homens (fazer feira. em uma. Rosana. Um exemplo disso é levar pessoas doentes ao serviço de saúde que articula a dimensão do cuidado com a saída do espaço familiar58. analisando o sistema de roça itinerante e o manejo de inovações tecnológicas. basta olhar a dinâmica cotidiana para que se constate que as mulheres. pois sua característica principal é ser uma espécie de híbrido entre responsabilidades ditas femininas com aquelas ditas masculinas. Em quatro dessas atividades. das 14 atividades relacionadas com o roçado. consertos de utensílios e reparos na casa e trocar o botijão de gás)57.

Maria Emília. No Brasil. A média brasileira (incluindo o urbano e o rural) na última contagem Vale do Guaporé. . a razão de sexo na população rural era de 106. PACHECO. 59 ABRAMOVAY.br>. para as mulheres. característica considerada fundamental na consolidação desse modo de produção.ibge. tem-se que as mulheres. a ausência física das mulheres não significa que elas deixem de ser um elemento da organização e da manutenção do estabelecimento familiar.132 - . já que. houve queda de 10% na população rural brasileira. 62 Disponível em <www. atuam para além do especificamente agrícola. artesanato. elas ainda estudam e exercem o magistério. Rio de Janeiro: Fase. (Orgs. os jovens que fazem esse movimento. são majoritariamente presentes nas quatro atividades apresentadas – o que as torna multifuncionais para a agricultura familiar. é por elas e por meio de seus trabalhos que se realiza a integração entre produção e consumo. Se. com mais freqüência. pode-se fazer inferências sobre quem são as pessoas que. Brasília: Unesco. Como decorrência. principalmente no contexto dos debates sobre o “novo rural” e os modos como outras dimensões econômicas – como serviços. sendo possível também estabelecer conexões entre os processos migratórios femininos e o conceito de pluriatividade. em certa medida. havia 5 milhões de homens a mais do que mulheres)61. Programa integrado de capacitação em gênero. onde um terço dos homens que trabalhavam na atividade agrícola não haviam se casado até os 35 anos) como na América Latina (onde. Miriam. é necessário pensar a questão da pluriatividade como uma das formas a partir das quais esse modo de produção é constituído e dinamizado. democracia e políticas públicas. cit. em 1980. especialmente na condição de mães. não há uma nomeação do sexo daqueles(as) que têm múltiplas inserções produtivas. além das atividades domésticas e agrícolas. Na maioria dos casos. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). em 1995. em 2000 passou a ser de 109. Quarto Caderno: Experiências Rurais. In: CAMURÇA. 2000. mesmo nos estudos que tratam do tema da pluriatividade. entre 1991 e 2000. sendo que.). Vem ocorrendo tanto na Europa (é o caso da França. desenvolvimento. 61 Ver CAMARANO e ABRAMOVAY. econômicos e políticos. turismo. Ainda que os dados apresentados não façam referência direta à dimensão da pluriatividade na agricultura familiar. 04 a 10 de novembro de 2007. A razão de sexo também é um indicador importante. São as mulheres – independentemente de faixa etária – e. Analisando os dados para além da sub-representação que parece ocorrer com o trabalho feminino na produção agrícola. de acordo com os dados do Censo de 200062.56 homens para cada 100 mulheres. A tendência de diminuição da população feminina no meio rural é histórica. Maria das Graças. op. gastronomia e até mesmo um certo modo de vida – que vêm sendo reforçadas nos discursos e políticas como alternativa eficaz para o desenvolvimento rural. ao mesmo tempo em que revela os modos como as atividades produtivas das mulheres são invisibilizadas e transformadas em ajuda ou parcialidade. 60 É interessante observar que. as mulheres passaram de 48. Além disso. sendo uma prática condicionada pelos contextos sociais. Companheiras de luta ou coordenadoras de panelas?. Em 30 anos. especialmente aquelas cuja realização é diária e contínua.22. Não cabe aqui analisar a correção ou não de tais proposições. essa queda foi de 11%. 1998. mas vale destacar que a inserção em atividades não-agrícolas é profundamente marcada pelo viés de gênero60.47% da população rural para 47%. Silvia. levando consigo a subvalorização da sua contribuição para a sustentabilidade da agricultura familiar. Pesquisa realizada em assentamentos de seis estados do Brasil59 confirma esses dados.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG mulheres são executoras exclusivas de 52% das atividades reprodutivas.gov. RUA.

Tais processos trazem conseqüências importantes no modo como as mulheres.gov. b) dinâmicas das relações de gênero na família. O primeiro diz respeito à presença de uma racionalidade nas escolhas das mulheres em não permanecer na agricultura familiar.133 - . Apud BRANCO. Juiz de Fora.93 mulheres para cada 100 homens.21 63 CAMARANO e ABRAMOVAY. A educação formal e os novos mercados para a agricultura familiar. op. estas três hipóteses possuem estatutos diferentes. 64 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Rotas de saída Camarano e Abramovay63 levantam três hipóteses para explicar a maior participação feminina nos processos migratórios: a) maior oferta de trabalho para mulheres no meio urbano ligada à expansão do setor serviços. dando-lhes a possibilidade de se pensarem e atuarem como sujeitos de suas próprias vidas. Ainda que seja um processo mais marcante na população feminina rural. eu também digo que estou”64. apresenta uma tendência inversa. em especial as ações políticas dos movimentos de trabalhadoras rurais. é possível estabelecer rotas que a contornem e minimizem os seus efeitos perversos e injustos.fundaj. como na maior escolaridade encontrada nas mulheres rurais. Adélia. É importante levar em conta também as transformações por que passaram as mulheres nas últimas décadas. Na perspectiva aqui assumida. VAINSENCHER. a remuneração pelo trabalho realizado e a quebra com o tempo indistinto que marcam a ligação entre produção e reprodução dentro da unidade familiar são fatores que transformam o cotidiano das mulheres. em contextos diversos do ponto de vista político e econômico encontram-se os mesmos processos. Semira. Gênero e globalização no Vale do São Francisco. de ser alguém com um lugar no mundo. Se ainda não há condições para a ruptura dessa lógica. já que. são 96. Texto apresentado no XLI Congresso Brasileiro da Sociedade Brasileira de Economia e Sociologia Rural. eu também digo. em princípio. os jovens que investem na qualificação escolar também tendem a deixar a unidade familiar. como aquelas relacionadas às dimensões socioculturais.br>. 2003. . comprovando assim que a estrutura das relações de gênero tem um peso decisivo na dinâmica de desenvolvimento rural. ou seja. c) relação entre processos migratórios e graus mais elevados de escolaridade. Quando ele diz ‘eu estou cansado’. aumentam suas chances de conquistar postos de trabalho mais qualificados. Além disso. O acesso ao mundo público. set. dando-lhes condições de pensar e buscar outros destinos diferentes da submissão absoluta à lógica patriarcal. interpretam a si mesmas e à realidade. Antônio et al. suas causas não estão radicadas apenas no tipo de política pública para o desenvolvimento rural nem em condições estritamente econômicas.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG populacional. dados apresentados por Abramovay e Rua demonstram que o percentual de homens solteiros nos assentamentos é muito superior ao de mulheres. Disponível em: <www. Vale ressaltar dois processos profundamente interligados e pouco considerados. como fica claro no depoimento de uma trabalhadora da fruticultura irrigada de Petrolina. tanto no que se refere às conquistas no plano dos direitos.T T Se. 65 MELO. conforme constataram em pesquisa recente Melo e colegas65. jun. 04 a 10 de novembro de 2007. as relações de gênero são determinantes tanto no que se refere à preferência por mulheres nos empregos do setor serviços. confirmando a força da estrutura familiar mais tradicional. É essa mesma lógica que leva a um maior incentivo para que as filhas invistam na escolarização. 2001). em Pernambuco: “Fiquei uma pessoa independente. 116. especialmente as mais jovens. cit. (Trabalho para discussão n. Quando meu marido diz ‘é meu’.

como gasto produtivo ou reprodutivo. pois uma parte substancial dos rendimentos que as mulheres auferem em trabalhos fora do espaço familiar é nele empregado. as responsabilidades que tinha serão transferidas diretamente para outra mulher da família. Se. “o processo sucessório na agricultura familiar está articulado em torno da figura paterna que determina o momento e a possibilidade de passagem da responsabilidade sobre a gestão do estabelecimento para a futura geração”67. Se a rota de saída das mulheres da agricultura familiar significa uma opção legítima na busca da emancipação e da cidadania. por outro lado. mas ajudam os demais familiares a migrarem”69. essa já é uma situação difícil. no setor de serviços público e privado ou no trabalho doméstico – para onde migram a maioria das mulheres.. historicamente marcada pela multifuncionalidade e pluriatividade. Sendo a atividade feminina. O patrimônio geralmente não oferece possibilidades de muitas divisões. cit. na agroindústria. pois. Mulheres da seca: luta e visibilidade numa situação de desastre..Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG ocasionando o que eles denominam “questão sucessória na agricultura: que é quando a formação de uma nova geração de agricultores perde a naturalidade com que era vivida até então pelas famílias e indivíduos envolvidos nos processos sucessórios”66. ilógico que procurem outras opções. “através da migração. . 69 Id. para os filhos. seja no trabalho assalariado. 25 Id.. ibid. Além disso. portanto. nesse contexto. mas uma necessidade imposta pelas dificuldades financeiras do estabelecimento familiar. 2000. terminariam por inviabilizar sua capacidade produtiva. para as filhas são raríssimas as chances de serem herdeiras. as mulheres não contribuem somente com uma ajuda monetária àqueles que deixaram para trás.João Pessoa: UFPB. é necessário considerar o problema da herança. que. elas também não se desvinculam da própria agricultura familiar. uma vez que sendo o poder pouco compartilhado entre as pessoas que estão no estabelecimento familiar. fazendo com que apenas um dos filhos pudesse ocupar o lugar do pai. ibid. cabe indagar se. 67 ABRAMOVAY et al. que às vezes a migração para áreas urbanas não é uma escolha das mulheres. BRANCO. não representa nem uma ruptura nem uma solução. no sentido do baixo retorno financeiro.. mas também da mesma dinâmica patriarcal que afeta as mulheres. como constatou Branco68 ao afirmar que. Essa situação é muito comum nos períodos de seca no semiárido nordestino. Essa “perda de naturalidade” é derivada não apenas dos problemas de ordem econômica. Há que se considerar. no momento em que a segunda característica passa a ser considerada uma alternativa viável para o desenvolvimento rural. Como analisam Abramovay e colegas. caso ocorressem. ibid. já que elas continuam sendo avaliadas pelos mesmos padrões e valores que organizam a agricultura familiar. segundo a análise de Buarque. mesmo que haja ausência física de uma mulher. Adélia. quando da recente valorização da agricultura familiar. 04 a 10 de novembro de 2007. as mulheres deixarão de ser os sujeitos centrais da mesma. ainda. Ao mesmo tempo. 68 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). É desnecessário demonstrar que as atividades reprodutivas não são deslocadas para os homens quando as mulheres deixam de trabalhar diretamente na produção familiar. op. não sendo. tal como ocorreu. os jovens também se encontram em uma posição de submissão. 66 Id.134 - .

.gov. aos rendimentos e ao poder de decisão. as mulheres estão majoritariamente nas categorias não-remuneradas (39. esperas nas filas dos bancos e gastos com transporte que terminam por diminuir ainda mais o já mínimo benefício. temos que 17. fica evidente o quanto a existência de políticas públicas ou de legislações não é suficiente para minimizar as enormes diferenças de poder entre mulheres e homens. No Brasil. os dados da última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad).71% são classificados como não remunerados.unicamp.7% no grupo que recebe menos de meio salário mínimo. Os dados por si só indicam a magnitude da exploração a que estão submetidas as mulheres na produção agrícola brasileira. bolsa-escola – R$ 15 por criança. também com teto de três crianças. o que chama a atenção aqui é o alto percentual de mulheres que colocaram os benefícios (bolsa-escola.8% recebem menos de meio salário mínimo mensal. mesmo no que se refere às decisões da 70 “A terra da mulher (e do homem)”.ibge. entrevista concedida por Zoraida Garcia Frias ao jornal eletrônico da Unicamp.08% de homens que não recebem rendimentos pelas atividades que realizam. Disponível em:<www.25%). indicam que. 87% dos lotes dos assentamentos do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).br>.25%) e produção para consumo próprio (também 39. Contudo. Analisando os números referentes à população masculina ocupada. Quando se analisa a titulação da propriedade da terra. É prudente afirmar que as mulheres são gerentes de uma parte dos recursos familiares porque seu poder de decisão é muito restrito. foi afirmado que as mulheres estão em todos os lugares e não estão em lugar nenhum no cotidiano da agricultura familiar. 04 a 10 de novembro de 2007. Perceber os recursos destinados à família como sendo seus próprios recursos demonstra o quanto as mulheres têm dificuldades de se perceber para além desse lugar e da função de gerentes dos parcos72 rendimentos familiares destinados à reprodução cotidiana. perfazendo 26.br>. para o universo das pessoas de 10 anos ou mais ocupadas em atividades agrícolas (não especificamente para a agricultura familiar). 72 Os valores dos benefícios são: vale-gás – R$ 15 (a cada 2 meses). elastecendo ainda mais o tempo das mulheres. Ao mesmo tempo em que confirma que os(as) formuladores(as) das políticas públicas assistenciais colocam as mulheres como responsáveis pelo recebimento desses recursos como se isso fosse uma garantia de sua adequada aplicação.135 - . e bolsa-alimentação – R$ 15. Apenas em situações em que eles não preenchem os requisitos necessários ou quando estão ausentes é que as mulheres assumem a titularidade. em novembro de 2002. Nos demais casos. e 85. e 8. A aparente contradição se explica ao verificarmos o que é feito das mulheres nas dimensões relativas à posse da terra. vê-se que 47. vale-alimentação e vale-gás) como sendo sua própria e única renda: 66% entre aquelas que declararam ter algum rendimento. enquanto 13% não auferem nenhum tipo de rendimento. divulgada em 200171. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). são consideradas “dependentes”. para receber tais benefícios. 71 Disponível em: <www.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Direitos pela metade Anteriormente. já que. No que se refere aos rendimentos. não há nenhum tipo de obstáculo legal para que as mulheres sejam proprietárias. com teto de três crianças. 93% do Banco da Terra e 92% das propriedades familiares têm homens como titulares70. é necessário um deslocamento para o município-sede. Trabalhando com os dados sobre rendimentos das agricultoras familiares da área de Sobral.37% estão na produção para consumo próprio. demonstrando que quase80% das mulheres não auferem nenhum rendimento do seu trabalho. No entanto.

mas também para o modo de organização familiar. 61. sem poder. bastante surpreendente é que.%. sem espaço.5% e 44%). não lhes é direito. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE).5%. É preciso que os movimentos sociais. o que pode parecer. o poder de decisão é majoritariamente masculino nos seis estados pesquisados (cultivos – de 92% a 66%.136 - . Esses elementos não podem ficar invisíveis quando a transformação social e política pretendida implica necessariamente a quebra da hegemonia do modelo até então vigente para o desenvolvimento rural. como demonstram os dados da pesquisa “Relações de gênero nos assentamentos rurais”73. No que se refere à educação das crianças em quatro estados (Bahia. Nos demais estados (Paraná e Rio Grande do Sul). Contudo. sendo antinômico que essa radicalidade também não se dirija à dominação patriarcal que organiza a sociedade brasileira. Mato Grosso e São Paulo). Em síntese.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG esfera reprodutiva. a decisão tende a ser compartilhada pelo casal (38% e 62. sem dinheiro. tendo respostas menos uniformes nos estados pesquisados. A primeira vista porque. Ceará. Apesar de se creditar às mulheres o domínio absoluto do espaço reprodutivo. 04 a 10 de novembro de 2007. sem liberdade. nos casos das agricultoras familiares. No âmbito das atividades produtivas. as organizações não governamentais. sem tempo. ainda que esse poder não seja tão hegemônico como o masculino e se dê em esferas produtivas de menor valor monetário. 73 Pesquisa realizada por Abramovay e Rua em 2000. assim são as mulheres em sua experiência cotidiana na agricultura familiar. as mulheres têm maior poder de decisão sobre quais alimentos devem ser comprados. venda de gado – de 93% a 59%). sendo mais freqüente que os homens tomem essa decisão. meia liberdade e meia cidadania. a realidade é mais complexa. Sem terra. há um percentual maior de mulheres compoder de decisão (55. já que a tradição patriarcal que organiza esse cotidiano nega às mulheres apossibilidade de exercerem um princípio fundamental de ser sujeito: a liberdade de ir e vir. . à primeira vista. vendas dos produtos agrícolas – de 91% a 74%. tudo o que envolve dinheiro e saída do espaço restrito do estabelecimento familiar não lhes pertence. trabalhadoras e trabalhadores rurais construam projetos e alternativas não apenas para os modos de produção e consumo. 41. pois só assim nossa ação política poderá resultar numa sociedade que não seja marcada pela meia justiça. O poder de decisão das mulheres é maior na venda dedoces e queijos (de 58% a 41%) e na venda de ovos e aves (80% a 46%). mudemos os sentidos e significados da agricultura e da família.5%). em nenhum dos estados pesquisados.

Esses acontecimentos reúnem práticas.” nas palavras de Bourdieu (1975). com identidade. é aqui abordada na perspectiva da construção de sua emergência como grupo. nem de revela--se como resultado de uma tomada de consciência espontânea. abordada pelo aspecto de sua construção como categoria política política em luta por reconhecimento e direitos. nem reconhecimento. e a sua construção revela conflitos. numa produção de vários agentes sociais e práticas políticas intercaladas por experiências femininas de mulheres do campo. Assim. através de sua experiência política. de formas de representação/apresentação. envolvendo a criação de um lugar feminino. atuações e autorias. envolvendo as mulheres trabalhadoras rurais e outros agentes sociais. e a construção de uma narrativa própria. e formulam discursos institucionais sobre elas e para elas. As mulheres trabalhadoras rurais. pela qual essas mulheres se identificam como mulheres trabalhadoras trabalhadoras rurais. num fazer e fazer-se. Buscando a construção e encontrando a experiência das mulheres trabalhadoras rurais A existência das mulheres trabalhadoras rurais no espaço público. combinando diferentes elementos como articulação. coletivo personalizado. exprimindoexprimindo-se em diversas dimensões. Essa construção remeteremete-se a uma produção coletiva. como uma produção coletiva. conflitos símbolos. nós era só mulher com obrigações…” Luci Choinaski. como categoria específica.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Margaridas nas ruas: As mulheres trabalhadoras rurais como categoria política Maria Dolores de Brito Mota “…nem nome nós tinha. imprimem marcas marcas diferenciadas no movimento sindical dos trabalhadores rurais introduzindo dimensões femininas de vivências e simbolismos que. consubstanciando um movimento social de mulheres trabalhadoras rurais. e postulam encontros com os /as personagens e contextos situados no terreno social em que surgem as organizações específicas de mulheres trabalhadoras rurais. estratégias. além de instituírem a sua entrada na política sindical. lhes permite refazeremrefazerem-se sem medo de ser mulher. deputada Federal/SC74 Resumo Estudo sobre a emergência das mulheres trabalhadoras rurais no mundo público. . A existência das mulheres mulheres trabalhadoras rurais não decorre automaticamente automaticamente de suas situações de vida. Uma dimensão experiencial em que ativam mecanismos de aparecimento aparecimento e de fala pública. em luta por reconhecimento e direitos. práticas. Construção essa resultante de um trabalho coletivo de agentes múltiplos cujas práticas projetam e revertem figurações sociais. 04 a 10 de novembro de 2007. Uma dimensão formulam--se institucional pela qual se formalizam suas organizações específicas. 02/10/1999-TV Bandeirantes. ou modalidades de práticas políticas. 74 Programa Jogo Aberto. discurso e imagem específica.. fui em busca do “trabalho social” de construção do objeto “preconstruído.137 - . pessoal e social. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). tornandotornando-se em condições de aparecer e falar publicamente. que demandando ando articula a atuação de diferentes agentes sociais com as mulheres rurais. demand práticas e saberes que possibilitam a formatação de uma experiência singular. e deparei-me com a questão de uma categoria social fabricada coletivamente.

p. e que está sendo colocada neste contexto como identidade construída coletiva e politicamente. E o agir pressupõe aliança entre pessoas. as mulheres trabalhadoras rurais.p. vincula-se a mecanismos conectados com a experiência das próprias mulheres rurais junto a outros grupos sociais que são articuladores políticos. 04 a 10 de novembro de 2007. essa concordância que permite o conhecer de uma categoria social implica também um processo de reconhecimento pelo qual ganha visibilidade e legitimidade. e de tornar manifesto o elo que as une. Bourdieu que entende o mundo social como uma “realidade que é o lugar de uma luta permanente para definir a realidade” (1989. e assim apresentam-se ao mundo humano” (1995.p. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). sendo que “na ação e no discurso.415). revelam ativamente suas identidades pessoais e singulares. Produção que pode ser aduzida como uma poética.192). Arendt que entende a existência social assentada no ser visto e ouvido publicamente. numa unidade que sinaliza “a concordância entre as estruturas objetivas e as estruturas cognitivas. Mas. presença de outros. expressandose por imagens. e o próprio momento conjuntural em geral e em particular o das mulheres da zona rural.” É uma forma de ser e de conhecer (esse ser). no interior da qual situa-se a idéia de que a emergência de um grupo em luta se faz especialmente por meio de atos de reconhecimento (p. no sentido original dessa palavra. Destaco Certeau (1996) com a sua busca das tessituras do real dentro do cotidiano. . esbocei o cenário que tornou possível o aparecimento das “mulheres trabalhadoras rurais” como sujeito de discursos e sujeito nos (outros) discursos. os homens mostram quem são. vida pública onde é possível constituir-se em ser “conscientemente existente” (idem.p.138 - . práticas.17) para quem “a palavra ‘categoria’ impõe-se por vezes porque tem o mérito de designar ao mesmo tempo uma unidade social – a categoria dos agricultores – e uma estrutura cognitiva.p.138). falas e espaços de modo a conquistar uma outra vida.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Categoria aqui é entendida no sentido referido por Bourdieu (1999. Castoriadis. dentro e fora do próprio movimento de mulheres trabalhadoras rurais. organização. a vita activa. como apresentação e estratégias de um grupo social.118). de ser uma criação. em montagem de uma “ciência do ordinário. Esse propósito me levou a aproximar-me e a aproximar alguns autores que compreendem a realidade social como realidade construída. com configurações diferenciadas em grupos/facções que disputam entre si a legitimidade. manifestam-se como uma produção coletiva. no sentido que é atribuído por Arendt (1995) significando a vida humana empenhada em fazer algo. De uma maneira esquemática. nos leva ao encontro da problemática da identidade desse grupo de mulheres.p. em agir. Esse tornar-se um Eu. Os processos que permitem o estabelecimento das mulheres rurais como categoria específica. 1993. Essa construção se distancia das idéias de determinação e de espontaneísmo. como mundo desta sociedade e para esta sociedade. e nem se mostra como reflexo imediato de uma tomada consciência política espontânea. entre a conformação do ser e as formas de conhecer” (idem. e reivindicou meu olhar sobre esse controvertido conceito nas ciências sociais.” E outros autores que transitam por entre essas idéias de um real não apriorístico e resultado de ações projetadas ou não dos sujeitos sociais. para quem a instituição da sociedade “que é cada vez instituição do mundo. e como organizaçãoarticulação da própria sociedade” (1995.17). normalmente atribuídos como determinantes de situações conseqüentes. A esta produção atribuí a idéia de “construção” no sentido de que a categoria das mulheres trabalhadores rurais não se exprime apenas por processos estruturais. diferente de outros.24). O que me colocou diante da questão de identificar as evidências do processo construtor das mulheres trabalhadoras rurais como categoria política.

de fato expressava a conformação de um processo em curso. identidade. a de mulheres trabalhadoras rurais. políticos). Essa busca seguiu dois caminhos:  A história do surgimento das organizações de mulheres trabalhadoras rurais. práticas. e em condições de comunicação. . rituais que realçavam um processo de fabricação. lavradoras. Fui em busca de entender o que possibilitou àquelas mulheres trabalhadoras rurais se definirem. O discurso acadêmico tem uma presença intensa na emergência social das mulheres trabalhadoras rurais corroborando com a instituição de uma identidade desse grupo. Neste caso. e no acompanhamento socioetnográfico do cotidiano da militância do Coletivo Estadual de Mulheres da Federação dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais do Ceará – Fetraece. que é recente. 04 a 10 de novembro de 2007. Eram mulheres de realidades e características diferentes. e do Movimento de Mulheres Trabalhadoras Rurais/CE (MMTR-CE). no início dos anos 1980 na Bahia. a organização da Campanha Nenhuma trabalhadora rural sem documentos. o 8 de Março e a Marcha das Margaridas 2001. o III Congresso Estadual da Fetraece. a “identidade está amarrada a noções de experiência. conflitos.  O acompanhamento de algumas atividades políticas realizadas pelo Coletivo Estadual de Mulheres da Fetraece. eram conhecidas e autodenominadas como assalariadas do cacau. Em 1997 deparei-me com mulheres de todo o continente latino-americano e do Caribe.” pois não é algo que sempre esteve lá. imagens. Deparei-me com essa experiência nas condições em que se designam e se exercem como tal – na existência cotidiana de suas organizações específicas. indica relacionamentos entre diversos agentes sociais e as mulheres trabalhadoras rurais. significa estar sendo vista. e do Movimento de Mulheres Trabalhadoras Rurais (MMTR). posseiras. todos circunstanciados por tensões.139 - . na medida em que um dos temas tratados no encontro foi “ o que era ser e se sentir uma mulher trabalhadora rural. Uma via dupla de criação – relações entre mulheres rurais. Na busca das origens das organizações de mulheres trabalhadoras rurais. mas juntas reivindicavam uma única identidade. estratégias. reconhecerem e serem reconhecidas como tal. Tomar as mulheres trabalhadoras rurais como categoria construída é um esforço que me levou a encontrar a experiência historicizada pela qual puderam emergir como categoria política. narrativas. as primeiras surgiram em 1982 no sertão pernambucano e no interior do sul do país.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Discursar é estar em posição de exercer uma fala de direito e estar presente no discurso de outros. movimento sindical e organizações não governamentais 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). delegadas do Primeiro Encontro Continental de Mulheres Trabalhadoras Rurais. Esta condição que se apresentava como dada. catadoras de café. que ao longo da investigação foi tomando a forma de uma construção – a construção sociológica das mulheres trabalhadoras rurais como categoria política. à espera de ser representada. camponesas. academia.” Do Brasil estavam diversas representações de organizações de mulheres trabalhadoras rurais que se autoreferiam como participantes do Movimento de Mulheres Trabalhadoras Rurais. sindicatos. bóias-frias. de produção coletiva. como no acadêmico e no de formações políticas (ONGs. Os primeiros grupos de mulheres rurais que conheci. foram se manifestando elementos como discursos. igreja. as eleições do Coletivo Estadual. portanto em relações de re-conhecimento. Segundo Scott (1999). articulações. emoções.

existe a participação direta.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Na história do surgimento das organizações estudadas.” cuja narrativação das práticas é uma maneira textual de fazer. .junto aos locais onde surgiram os primeiros grupos organizados de mulheres trabalhadoras rurais. MNRF. nos anos 1980. lhe é permitido apresentar uma outra visão do real. a não inclusão da produção de fundo de quintal – criação de pequenos animais. crédito. presente não somente na zona rural mas em toda a sociedade.140 - . física. hortas. em 1980. Em torno desse trabalho com as mulheres aproximaram-se várias integrantes dessa instituição e alguns 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). 04 a 10 de novembro de 2007. O primeiro grupo do MMTR-CE se formou na região de Itapipoca. do qual só participavam homens. Assim. subsídio e mesmo dos programas de reforma agrária. Além disso. plantas medicinais). ouvindo as queixas de homens e mulheres iniciaram. O Cetra também estava presente nessa região com uma atuação voltada para a renovação do sindicalismo e a luta pela terra. No âmbito das assessorias. Esses estudos formulam questões que se situam no campo de uma teoria social crítica e mostram o caráter político da invisibilidade das mulheres rurais nas estatísticas e na vida social. das pesquisadoras na condição de colaboradoras e assessoras nos eventos que estes movimentos realizam. Os estudos acadêmicos são falas legitimadas que atuam no propósito de dar visibilidade à presença das mulheres tanto nas atividades da produção agrícola quanto nas instâncias e manifestações políticas do movimento sindical dos trabalhadores rurais. uma maneira de fazer a sua existência. destacaram-se a presença de vários agentes sociais. No Ceará essa matriz articulista está nos interstícios do movimento sindical. o Coletivo da Fetraece e o MMTRCE.  Evidenciam o aumento do trabalho feminino no campo e as novas posições que este assume a partir das mudanças introduzidas pela expansão das relações capitalistas no campo que individualizaram a força de trabalho das mulheres intensificando a sua exploração. analisando:  A subestimação do trabalho feminino pelos indicadores utilizados nas pesquisas censitárias (mulher de produtor. o discurso acadêmico sobre as mulheres trabalhadoras rurais tem sido uma de suas condições de produção. a organização dos Encontros de Esposas. da igreja católica e da atuação do Centro de Estudos do Trabalho e Assessoria ao Trabalhador (Cetra) e do Centro de Pesquisa e Assessoria (Esplar). Nessa área a igreja tinha um trabalho de organização dos agricultores em torno da luta pela terra e da celebração do Dia do Senhor. o Cetra e a igreja. A produção acadêmica sobre as mulheres rurais de um lado re-escreve e re-inscreve essas mulheres no mundo social. o encontro com a realidade das mulheres é mais direto. pomar. Os estudos acadêmicos estão também presentes no cotidiano dos movimentos das mulheres trabalhadoras rurais. fala autorizada. Seja em nível nacional ou estadual. a história do surgimento das organizações de mulheres trabalhadoras rurais está ligada a atuação de ONGs e pastorais. Diante de uma pequena presença das mulheres nas reuniões sindicais e da existência de problemas entre os casais pelas ausências dos homens em decorrência de sua participação no movimento. Essa capacidade do dizer é vista por Certeau (1996) como um “saber – dizer. porque como discurso competente. como intelectuais e as assessorias. como textos que subsidiam as discussões sobre suas condições de vida e de trabalho. atribuído ao trabalho feminino.  A não inclusão das atividades femininas das políticas de incentivo à produção rural.  O caráter de ajuda ou complemento ao trabalho masculino.

Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG profissionais liberais residentes na região. se constroem. A presença das ONGs nessa história indica a formatação de um outro discurso e práticas articuladas com as trabalhadoras rurais demandando a sua inclusão no espaço social e político. Esses encontros se entenderam para Sobral e foram sendo ampliados para mulheres solteiras. planejamento familiar e pobreza. outro foi acontecendo.141 - . ganha as eleições da Fetraece. política e econômica das mulheres brasileiras. aos quais se articulou. Paralelamente a esse processo. Pernambuco. relacionava-se ao crescimento do feminismo e de uma consciência sobre as condições de desigualdade social. de relações internacionais de cooperação entre mulheres. . O Coletivo e o MMTR vinculam-se a organizações em nível nacional. Esse aspecto institucional da construção das mulheres trabalhadoras rurais compreende também a formalização das suas próprias organizações específicas e de seu reconhecimento legal como trabalhadoras rurais. cujo resultado vai ser a criação do Coletivo Estadual de Mulheres da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado do Ceará (Fetraece). Dentro da CUT existia o Departamento Estadual de Trabalhadores Rurais. As assessoras do Cetra foram buscar referências de trabalhos com mulheres rurais e encontrou contatos na Paraíba e em Pernambuco. e na área de atuação do Esplar. na mesma perspectiva dos que estavam sendo construídos na Paraíba. Uma assessora confessou que aprendeu sobre a questão da mulher com o trabalho que realizava junto às trabalhadoras rurais. Discutia-se nesses encontros. cuja visão de democracia envolvia a inclusão das mulheres e sua igualdade de direitos. que em 1990 já haviam formado uma Comissão de Mulheres. São vozes competentes que instauram condições para a legitimação e reconhecimento público das mulheres e que vão também se estabelecendo para criarem um saber e uma prática junto a esse grupo. A atuação das ONGs na formação das organizações de mulheres trabalhadoras rurais se dá num contexto mais amplo. Em 1991 esse departamento realiza o I Encontro Estadual de Mulheres Trabalhadoras Rurais quando foi criada a Comissão de Mulheres do DETR-Ce. O discurso e a prática das ONGs integra-se com o discurso e a prática acadêmica no sentido de compor um grupo produtor de um discurso institucional sobre as trabalhadoras rurais demandando a sua inclusão no espaço público. numa constituição simultânea. Bahia e outros Estados nordestinos. como efeito da organização das mulheres e dos trabalhadores rurais no interior da Central Única dos Trabalhadores (CUT). Em 1992 o grupo de sindicalistas do DETR-CE. As assessoras foram se formando como assessoras de um trabalho específico com mulheres na medida em que os próprios movimentos de mulheres iam se constituindo. Piauí. como a Comissão de Mulheres Trabalhadoras Rurais da Contag e a Articulação Nacional de Mulheres Trabalhadoras Rurais. formado por sindicalistas de esquerda que faziam oposição à diretoria pelega da Fetraece. saúde da mulher. e em fevereiro de 1993 a Comissão de Mulheres é transformada no Coletivo Estadual de Mulheres da Fetraece. 04 a 10 de novembro de 2007. respectivamente. No Brasil. Em 1986 foi criado no Ceará o Movimento de Mulheres Trabalhadoras Rurais do Ceará. inicialmente para trocar experiências e ampliar sua capacidade para esse trabalho político organizativo com mulheres rurais. O Coletivo teve como território privilegiado as instâncias formais do movimento sindical rural. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). É no encontro entre si que se produzem. Esse processo se remete a uma organização de mulheres nos sindicatos de trabalhadores rurais dos municípios de Madalena e Canindé.

pautados em relações sociais nas quais se inserem. Na medida em que participam de um movimento e realizam suas manifestações públicas. Ser mulher trabalhadora rural significa sentir-se como tal. a segunda é de ser mulher também com valor. criando formas de representação e apresentação. ora em nome da classe. Aparecer é estar presente no mundo e inscrever a sua diferença diante de outros.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Essa institucionalidade também envolve toda a luta das próprias trabalhadoras rurais que configuradas como categoria específica atuam em busca do seu reconhecimento profissional. Em cena: construindo a existência pública Um movimento social não acontece apenas pela existência orgânica de um grupo. Enquanto um momento marcante da construção da identidade a campanha Nenhuma trabalhadora rural sem documentos mostrou uma disputa permanente pela hegemonia 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). afirmando seu direito a ter direitos. sobretudo. Como essa restauração não elimina. Dessa maneira emergem no campo político e social brasileiro como um grupo organizado. instituindo um lugar feminino no território do movimento sindical rural. interpretada e narrada. vivem experiências pessoais e coletivas que são base para sua identidade. de aparecer publicamente. rompendo com uma situação de subordinação e com a fixidez de uma condição antes tida como destino. a unidade é sempre um elemento que está sendo restaurado. inclusive pela hegemonia não se desfazem. Nessa identidade de mulher trabalhadora rural se articula classe. vivida. gênero e lugar. Envolve sentimentos de pertença e diferenciação. Essa campanha continua em curso. lutando por direitos e em busca de reconhecimento – fazemse sujeito político. Por meio dessa ruptura podem ter uma existência própria. Assim. e cuja composição já supõe um conflito interno. Ter essa inscrição e aposentar-se como tal é uma grande conquista para as mulheres trabalhadoras rurais. É preciso que o Estado legitime a sua condição inscrevendo-as como trabalhadoras rurais nas suas instancias burocráticas. significando que anunciam seu projeto. ora em nome do sexo. como entende Ávila (2000) referenciando-se em Arendt (1998). formando uma sobreposição de representações apoiadas em conjuntos diferenciados de relações sociais. 04 a 10 de novembro de 2007.142 - . a primeira “descoberta” que fazem no movimento é de ser gente e ser trabalhadora (pobre). que se exprime. feita na medida em que faz as suas próprias agentes. as disputas. mas apenas legitima e oculta os conflitos. Essa experiência não se explica apenas pela posição estrutural de um grupo como algo que sempre esteve lá para ser descrita mas uma experiência historicizada e neste caso também produzida e exercida coletivamente. A identidade de mulher trabalhadora rural é uma autonomeação a partir de recursos que lhes permitem que se vejam naquilo que sabem de si. E assim encontramos a experiência singular das mulheres trabalhadoras rurais pela qual se fazem e se apresentam como tais. por meio da campanha pela documentação Nenhuma trabalhadora rural sem documentos implementada em 1996. mas também por sua capacidade de poder ser visto e ouvido por todos. têm ação na esfera política e tornam-se interlocutoras como parte de conflitos. Segundo depoimentos de algumas entrevistas. mas com valor. sendo uma estratégia importante de mobilização e conscientização interna e externa a esse grupo. .

não podem ser donas da verdade nem autoritárias. compondo lugares importantes para a construção de identificações. A experiência experiência no contexto da construção Construir-se como mulher trabalhadora rural envolve vivenciar uma experiência traspassada por mecanismos que promovem objetivações e subjetivações que formata e institui sentimentos. decidindo e participando. ou nomearem-se. E encontramos no cotidiano dos movimentos de mulheres uma pedagogia que lhes permite uma nova sociabilidade e um novo sentimento de si. políticas do grupo. históricas. Do que é possível perceber nos comportamentos das trabalhadoras rurais. e é por este que se redefinem e se reposicionam as mulheres nas relações sociais como trabalhadoras e mulheres que têm valor – revêem a si e ao que fazem atribuindo significado e valor. em que cada uma vê a si e sente-se como uma mulher trabalhadora rural. projetada nas condições sociais. ter experiência em trabalho popular e uma visão política. camponesas. representa uma ruptura dessa situação. a viver para si. Para se dizer “sou uma mulher trabalhadora rural. Para tanto é preciso apreender-se como tal. Também nessa metodologia aprendem a se comunicar. que em geral são mulheres que devem saber ouvir. As diversidades e os conflitos são sempre recompostos em nome da unidade do movimento e dos interesses das mulheres trabalhadoras rurais. Embora seja uma produção coletiva.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG entre o Coletivo e o MMTR-CE e também entre as diversas entidades parceiras que integram a sua coordenação estadual (sindicais. ONGs. acadêmicas). atitudes e símbolos próprios. encontros. eventos ou manifestações públicas para as e das trabalhadoras rurais. não se reconhecem assim. e se fazem capazes de autonomia escolhendo. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Poder falar e sair. internalizada e sentida de modo individuado –ou individualizante –e uma outra experiência que é objetivada.143 - . certezas sobre si. . As características dessa pedagogia se exprimem numa metodologia identificada desde a escolha das assessoras para realizarem o trabalho com mulheres. Sempre houve mulheres trabalhando e vivendo no campo. Ao assim se dizerem. quer em reuniões. 04 a 10 de novembro de 2007. A construção da identidade desvela-se entre as trabalhadoras rurais como um processo que envolve ou articula uma experiência que é subjetivada. Os modos de fazer essa identidade se assentam numa pedagogia singular que prepara os cenários para uma sociabilidade. mas sim um trabalho com mulheres.” é preciso sentir-se e mostrar-se como tal. Uma questão é se essa pedagogia faz uma política para as mulheres ou mulheres para a política. ir a outros lugares. religiosas. há uma dimensão individual da construção identitária. lavradoras. mulheres de produtores que não se diziam –e muitas não se dizem ainda. cursos de formação. a identidade tem um aspecto de subjetivação e de objetivação que articula conflitos e heterogeneidades ao tempo em que funda uma integração e similaridades. a repassar o vivido e aprendido para outras companheiras. seminários. O que existia antes (do movimento) era o cativeiro e a opressão. Não existe um trabalho com homens. ser simples. As vivências no movimento social permitem refazer a percepção e a posição das mulheres no mundo que as cerca e dentro delas mesmas –e vão permitir a reinterpretação de conceitos. mulheres trabalhadoras rurais. é fundamental que se sintam como tal. A formação de uma consciência de si torna–se processo integrante da construção da identidade social e pessoal. Essa apreensão requer condições sociohistóricas capazes de promover sentimentos e verdades.

Esse trabalho com mulheres é um ativador da identidade de mulher trabalhadora rural ao estabelecer possibilidades de formação de uma consciência de si como sujeito capaz de autonomia. dando conta da instituição de um lugar feminino. para retornar ampliando-se nas bases. Nesse circuito incessante. do que uma característica ou condição interna. . que são expressões concretas de uma inscrição institucional das mulheres se estendendo para as instâncias mais gerais. e a Comissão de Mulheres enfrenta a discriminação dentro de uma organização mista para estimular a igualdade de oportunidades em seu interior. O movimento de mulheres trabalhadores rurais ao fazer-se representante de uma categoria também realiza um trabalho de apresentação de modo a coincidir com as representadas. Os dois grupos vão se constituindo simultaneamente. A unidade da categoria é mais uma estratégia política sofridamente construída e desejada. Nas manifestações públicas que realizam. Artes de apresentar apresentar e representar Todo esse substrato comum. tanto as mulheres rurais como as assessoras se inscrevem num coletivo. como o 8 de Março e a Marcha das Margaridas as mulheres cuidam de sua própria aparência como: arrumação e embelezamento da aparência 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). A política de cotas que vem sendo adotada no movimento sindical de trabalhadores rurais é um indicativo da estruturação de uma nova ordem de definição das posições de homens e mulheres na estrutura sindical. e o MSTR vem se designando oficialmente desde 2000. e outras que existem entre facções internas ao próprio Coletivo.144 - . 04 a 10 de novembro de 2007. A ANMTR reivindica para si o compromisso com a inseparabilidade da luta de gênero e de classe. As manifestações realizadas pelas mulheres trabalhadoras rurais estão zoneadas por divergências políticas. as direções. em suas identidades respectivas. Mas a presença das mulheres não se dá apenas fisicamente. especialmente as que demarcam as atuações da Articulação Nacional das Mulheres Trabalhadoras Rurais – ANMTR e a Comissão de Mulheres da Contag – reproduzidas em nível estadual entre o Coletivo da Fetraece e o MMTR-CE. não desfaz as disputas internas pela hegemonia da categoria. mas simbolicamente. Há uma alternância de hegemonia nas manifestações que essas organizações realizam.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG Há um entrelaçamento de vivências entre as assessoras e as mulheres rurais. As organizações específicas das mulheres na estrutura sindical e a sua presença física dão conta da ocupação de espaço – entendido como lugares exercidos. Por meio dessa metodologia reconstroem-se permanentemente em processos de reconhecimento dos quais participam vários grupos sociais –e nos quais se articulam a dimensão pessoal e social. construindo uma experiência particular –apropriando-se cada qual dos segredos de suas razões. Isso pôde ser observado na Fetraece pelo processo de estatutização do Coletivo no III Congresso Estadual de 1998 – quando de um órgão atrelado à Secretaria de Formação foi transformado em cargo da diretoria executiva. como movimento sindical dos trabalhadores e trabalhadoras rurais. onde participam também outros agentes articuladores. Esse processo se apóia em organizações de base. embora coabitando alguns espaços sociais comuns. a partir das quais cada uma estabelece suas práticas e suas posições. inclusive com orçamento próprio. Muitas vezes aparece na fala das mulheres a expressão “ocupar espaços na estrutura sindical” referindo-se à inserção da presença feminina nas instâncias oficiais de representação política. mas se apresentam com homogeneidade e unidade.

Nessa narrativa sobre a história delas no movimento. ouviram o próprio som. gesticulam. fazem poesias e músicas. Nas poesias também se referem ao dia-a-dia de trabalho na roça. Transformam o desqualificado e frágil feminino em força e eficácia política. reivindicar e se experimentam sem medo de ser mulher. E nesse contar se reposicionam no mundo. e uma flor bonita e terna. como um bloco: “Nós. As mulheres trabalhadoras rurais a partir dessas vivências vão construindo uma narrativa própria e temporal em que se referem a um antes do movimento. além de mobilizarem a imprensa e apresentarem-se unificadas.” As fotografias são recorrentes e também se revelaram como uma fala. em casa. o trabalho no campo onde estão sempre carregando coisas 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). Margarida é o seu símbolo – uma mulher forte. trabalhadora e mulher de valor que pode falar.” Por essas formas de apresentação constroem uma sensibilidade pública utilizando estrategicamente alguns papéis e atributos tradicionais das mulheres – fragilidade. filhos. 04 a 10 de novembro de 2007. que deu a vida pela luta. A música introduz o lúdico e por meio dela exercitam um saber – dizer.145 - . nos ambientes dos eventos. Elegi as poesias. ganharam fôlego. saudações. sair de casa. Para Nazaré Flor. na luta e nas ruas. As músicas estão presentes em todos os eventos. não eram escutadas. nos relatórios.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG pessoal. sensibilidade. A análise de um conjunto de fotos de documentos produzidos pelos movimentos de mulheres trabalhadoras rurais mostrou a representação da vida delas. celebra e incute valores e esperança. tinham medo e não podiam. riem… Quando as discussões se tornam longas e cansativas ou tensas canta-se para quebrar o ritmo pesado e restaurar a atenção. clamaram seus direitos. No tempo que era antes não tinham voz. falam do sonho da libertação. da conquista de direitos e da felicidade. mulheres trabalhadoras rurais. não ficam caladas quando não aceitam qualquer coisa. Um outro aspecto dessa sensibilidade pública pode ser encontrada em muitas histórias de luta pela terra. não sabiam de nada. na música ela encontra a alegria e a simpatia do público e pode expressar qualquer sentimento “de uma maneira que o cara não tem como dizer não. cada qual com uma atribuição específica: As poesias fazem relatos. eram escravizadas. não tinham som. batem palmas. sem valor. levantam das cadeiras. o meio e o encerramento sempre dinamizando. relatórios. registrando as histórias. dentro de um contexto de utilização freqüente de mensagens visuais. quando durante momentos de forte tensão as mulheres com suas crianças tomaram a frente de confrontos para impedir violências e agressões maiores. Com a música as mulheres se juntam. Os modos de falar dessas mulheres se manifestam por expressões que são definidas como modos típicos das trabalhadoras rurais fazerem política. e animam o início. exprimindo a utopia da união. depois do movimento. cada qual como falas apropriadas. compositora e integrante do MMTR-CE. A música anima. folders. tinham medo de falar. . falavam por elas. As músicas em geral são de autoria das próprias mulheres. falam mesmo sem estarem certas. no movimento. músicas e fotos. mas há também de compositores e assessores. em que se experimentam como gente. São modos que articulam ritos. quando não falavam. avaliações. Estão presentes na bagagem das mulheres. uso de símbolos e adereços de mulheres e de trabalhadoras rurais como flores e foices. a conquista da fala é o demarcador de um novo tempo e uma possibilidade concreta pela qual podem contar a própria história. aglutinando e movimentando o grupo. e um depois. tinham vergonha de falar. conflitos e comunicação. Criam e apresentam poesias para fazer abertura de eventos.

Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG

– pedra, lata de água, filhos, trouxa de roupa; no Movimento estão em movimento,
relaxadas, brincando, viajando, conversando, falando. No Movimento elas se movimentam
e se fazem presentes no mundo.
Se toda fala é sempre de uma falta é isso o que elas mais querem, seus desejos. E essas
falas são emblemas do movimento de mulheres trabalhadoras rurais, expressando o
confronto entre uma forma de vida e um tempo que se encontram em situação de
transformação.

Marcas de mulheres no sindicalismo rural
Os movimentos de mulheres trabalhadoras rurais se situam no território do sindicalismo
rural, no qual estampam sua presença de diferentes maneiras, pelas quais pode se
acessar os pontos de inclusão das mulheres nesse espaço social. Em que pese o fato de
que as lutas das mulheres ainda são vistas como sendo coisas de mulher e não do
conjunto do movimento sindical, aos poucos aparecem situações em que o movimento
como um todo as assume como ocorreu com a Marcha das Margaridas e a Mobilização
Nacional ocorrida em 8 de março.
Os nexos entre as mulheres e o movimento sindical dos trabalhadores rurais construídos
por tantos gestos, passos, artes e falas se esboçam nos seguintes aspectos:
A legitimidade do movimento sindical está apoiada na inclusão das mulheres seja para
mostrar a capacidade e o compromisso das direções políticas de responder às questões
das mulheres, seja nomeando-se como seu representante, o que tem feito a inclusão do
termo trabalhadoras nas manifestações e na própria designação como movimento de
trabalhadores e trabalhadoras rurais. A participação das mulheres então pode ser
presencial e simbólica.
A ampliação da prática de uma mística política, baseada em valores éticos de justiça/diálogo/ternura, na inclusão de todos, numa visão integrada da pessoa, e na
solidariedade. É um momento de todos e o motor do entusiasmo que alimenta o
compromisso por símbolos e participação. As mulheres não dispensam a mística em seu
cotidiano político e a consolidam como prática no campo sindical, mais que o fazem os
homens.
A política de cotas adotada legalmente pelo sindicalismo tem se mostrado um mecanismo
eficiente como estratégia de ação positiva para colocar as mulheres e suas condições de
discriminação na pauta sindical, dando condições para a visibilidade e a participação
feminina. As cotas são efetivamente assumidas pelos setores mais politizados do
sindicalismo, as lideranças, em uma perspectiva de fortalecer o conjunto do movimento;
nas bases, ao nível dos sindicatos municipais podem não ser levadas em conta.
Por fim as dinâmicas de cantar, movimentar o corpo, enfeitar o ambiente, motivar, animar,
alegrar, brincar, rir, dançar, descontrair, ter momentos de confraternização e festa,
exposição e venda de produtos artesanais exprimem um conjunto de características mais
identificadas com a subjetividade, e muitas vezes com forte emocionalidade. No I
Encontro de Mulheres Dirigentes do Sindicalismo Rural-CE, o encerramento foi com muitos
abraços e choros entre assessoras, lideranças e participantes, que diziam: “Conseguimos!
As mulheres cearenses já estão marchando.” Nunca, em 20 anos de aproximação com o
sindicalismo, vi homem chorar por realizar um encontro ou reunião política. Há aqui uma

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vinculação entre subjetividade e cidadania em que a política aparece como lugar de uma
nova sociabilidade e de uma outra experiência subjetiva.
Assim as mulheres trabalhadoras rurais emergem como categoria sujeito político
construído, e não apenas como efeito de mudanças estruturais ou conseqüência natural
de uma tomada de consciência.
Por isso talvez cantem tanto:
Pra mudar a sociedade do jeito que a gente quer
Participando sem medo de ser mulher
Essa mudança enuncia um sujeito capaz de desejos e de sonhos.
Porque a luta não é só dos companheiros
Participando sem medo de ser mulher
Ter um desejo próprio é estabelecer processos de diferenciação e elaborar uma
identidade própria.
Pisando firme sem pedir nenhum segredo
Participando sem medo de ser mulher
Conquistar a existência social permite revelar-se, mostrar-se, apresentando-se e falando
em público sem medo de ser mulher trabalhadora rural.
Referências
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Ávila, Maria Betânia. Feminismo e Sujeito Político. In: Revista Proposta. Rio de Janeiro:
Fase, 2000. Março/Agosto, p.6-11.
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______. “A economia das trocas lingüísticas.” In: Ortiz, Renato. Pierre Bourdieu. São Paulo:
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______. O Poder simbólico. Lisboa: Difel, 1989
______.A dominação masculina. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1999
Castoriadis, Cornelius. A instituição imaginária da sociedade. 3.ed. Rio de Janeiro: Paz e
Terra, 1995.
Certeau, Michel de. A invenção do cotidiano. Artes de fazer. Rio de Janeiro: Vozes, 1996.
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Impasses. O feminismo como crítica da cultura. Rio de Janeiro: Rocco, 1994. p. 24-38.
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Thompsom, E. P. A Miséria da teoria. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1981. FortalezaCE, 2005.

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POTENCIAL E LIMITE DAS DISPUTAS POLÍTICAS:
PONTOS PARA REFLEXÃO
REFLEXÃO

Sara Pimenta e Domingos Corcione - Agosto de 2006

Dirigentes e lideranças sindicais constroem projetos políticos ou se identificam com um
entre aqueles já existentes, assumindo sua defesa no cotidiano da vida sindical.
É comum a existência de projetos diferenciados em suas origens e concepções políticoideológicas. Isso resulta em disputas pela predominância e hegemonia de um sobre o
outro.
As disputas políticas não se limitam aos antagonismos entre trabalhadores e classes
dominantes, mas têm lugar no interior do próprio Movimento Sindical e entre este e outros
movimentos e organizações populares. Em muitos casos as disputas internas se tornam
de tal forma acirradas que geram rupturas e levam à criação de novas entidades e
movimentos. Mas há disputas “menores” - não menos importantes - que caracterizam o
cotidiano do MSTTR: disputas de idéias, de espaços, de reconhecimento, de protagonismo
e liderança. Afinal, disputas permanentes de poder.
A dimensão positiva das disputas políticas
As disputas podem ser vistas como elementos que integram a dinâmica política do MSTTR,
em sua dimensão positiva e construtiva, favorecendo a qualificação dos projetos políticos
e a aquisição - pelos dirigentes e lideranças - de maior habilidade na defesa de suas
posições.
A pluralidade ideológica e de posicionamento político confere um novo dinamismo à luta
sindical e aos processos de mudança, pois pode sinalizar o surgimento e a consolidação
de novas práticas. As posições são demarcadas de modo a assegurar os interesses
relacionados com o projeto defendido, colocando em destaque pontos divergentes,
conferindo maior clareza às idéias e facilitando a comunicação.
Idéias, posições e projetos, quando em disputa, ganham maior relevância, são
apresentados e defendidos na perspectiva de fazerem adeptos e construírem sua
hegemonia.
Todo esse processo promove fortes motivações para se avançar com maior garra,
perseguindo as estratégias necessárias para vencer as posições antagônicas ou
diferenciadas e conquistar novos espaços de poder.
Práticas a serem transformadas
Apesar dos aspectos positivos acima ressaltados, é preciso reconhecer que no campo das
disputas políticas ainda persistem posturas e atitudes equivocadas, que ferem a ética e
acabam por comprometer o avanço da organização sindical e a construção de projetos de
mudança social, tais como:

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tem um grande rebatimento na ação mobilizadora e transformadora da luta sindical. frente a todas elas. portanto. sobretudo. reconhecendo-os em seu potencial catalisador de novas concepções e práticas. A ação formativa. é fundamental reconhecer as próprias limitações e se dispor a rever posições. pautando-se pelo estudo e pesquisa. que acabam por incorrer em desrespeito pessoal com quem esteja representando posições políticas diferenciadas ou adversárias. Nessa perspectiva.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG  Dificuldade de reconhecer o outro como um legítimo interlocutor e de construir um diálogo aberto. ocorrem debates. acontecem também nos “espaços de formação programada”. As atividades de formação têm uma importância primordial na vida sindical. Forte tendência a distorcer o que se vê e se ouve e a evidenciar somente aquilo que se considera equivocado. em primeiro lugar.  Refletir e aprofundar o debate. explicitar o significado e prever os possíveis desdobramentos de cada concepção e prática. mesmo entre pessoas de uma mesma corrente político-ideológica.  Tendência a forjar oportunidades para denegrir a imagem da posição adversária e – em certos casos – humilhar e desqualificar as pessoas que a defendem. Um curso de formação. mas também tem contribuições a dar. A formação como espaço estratégico para a construção de novas práticas As disputas.  Resgatar.  Utilização de palavras e gestos ofensivos. posicionamentos e pessoas que estejam defendendo posições ou projetos diferenciados. para que esse rebatimento tenha um impacto realmente positivo. voltados para o estudo. na escuta atenta das posições ou correntes adversárias. Sem formação não há como qualificar a luta. fazer repensar e aprimorar estratégias e métodos de trabalho. Nesses espaços. tão comuns no cotidiano sindical. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). a história. 04 a 10 de novembro de 2007. que implica. é preciso fazer das ações e atividades formativas espaços estratégicos. avaliar a caminhada. como aquelas anteriormente citadas. para identificar insuficiências e valores de cada posição. um seminário ou uma oficina podem contribuir muito para esclarecer idéias e projetos.  Dificuldade de identificar e reconhecer valores e aspectos positivos nas idéias. Para isso se faz necessário uma postura aberta ao diferente e o exercício da escuta sempre atenta ao que a outra posição ou corrente tem a transmitir. contraditório e incorreto no lado adversário. Cada prática ou concepção revela fragilidades. que reproduzem posturas positivas ou equivocadas. mais ou menos acirrados. .149 - . Contudo. como Seminários. Oficinas ou Encontros de caráter formativo. para a reflexão mais aprofundada ou a capacitação. o que demanda alguns compromissos como os abaixo relacionados:  Respeitar a pluralidade de concepções e idéias e buscar compreendê-las de modo a compor uma visão crítica e construtiva.

150 - . primando por uma postura ética e respeitosa para com as pessoas e grupos.Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG  Fazer da formação um campo profícuo de debates e oportunidades de aprendizado e aprimoramento das idéias e concepções ideológicas. de modo que isso nos faça crescer em todas as dimensões: na política. coerente com nossos sonhos e utopias. .. onde se conviva – ao mesmo tempo – na unidade e na diversidade.  Tratar as disputas políticas como elementos constitutivos de um desafiador processo de construção de consensos.. igualitária. certamente estaremos dando largos passos para transformar o cotidiano de nossas relações políticas no movimento sindical. Uma disputa que nos aproxime cada vez mais da nova sociedade que queremos construir: justa. nas relações interpessoais. 2º Módulo Regional Nordeste Aracajú (SE). O desafio é conferir às nossas disputas uma dimensão mais humana e humanizadora. não se trata de acabar com a disputa. solidária e respeitosa das diferenças. Portanto. pois – reiteramos . Na medida em que nos dispormos a construir e assumir novas posturas e práticas para as quais os espaços de formação nos convocar.ela pode ser positiva e dinamizadora da ação social transformadora. 04 a 10 de novembro de 2007. nas relações de gênero.

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