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232 3.3 Formacao do musedlogo: por que em nivel de pos-graduacao? ? Waldisa Riissio Camargo Guarnieri sd. Sempre que sou convidada a falar sobre formagio de pessoal em um semindrio, congresso ou encontro, tenho a preocupacdo de esclarecer ndo estar a dizer. coisas novas, ou sequer, de maneira original. Em geral, repito muitas ideias j expostas em aula, artigos, de jornais, em textos para corigressos etc. Por isso, me perdoem a ‘maneira informal de tratar 0 tema, sem diivida uma das mais sérias questdes referentes a preservacao e comunicacao do patrimonio cultural, pois o trabalhador de museu é de fundamental importancia Para a manutencao do trindmio orientador do processo cultural; esse trindmio consiste em trés atividades distintas ¢ interligadas, a saber, preservar, informar e agir. No processo cultural, a acao de preservar implica criar uma meméria, cujo repertério serve a informagio, que por ser conscientizadora, precede toda a agio modificadora, geradora de novos fatos culturais Esse circuito, pela sua propria dinamica, exige a intervencao de agentes cuilturais extremamente participantes, conscientes e criticos. Bé ai que se interligam as palavras: museologia, museu, museélogo. Que ¢ Museologia, hoje? Que é museu? Que vem a ser esse profis- sional ainda um tanto raro entre n6s, o Musedlogo? Embora os estudiosos ainda se dividam quanto ao cardter da Mu- seologia, cujo conceito vai desde de ciéncia em formagio ou em nasci- ‘mento, pasando pelo.de ciéncia pritica e de ciéncia aplicada, até o de arte e“religido” (num sentido meio figurado), vai-se firmando a tendéncia para afirmar que a Museologia é, sendo uma ciéncia, ao menos uma disciplina de carter cientifico.. 1 Comaniagio ad Acavo nto de studs Brass da Univer de Sto Paulo (EB.USI, ormnago profisons] neu ver, essas diferentes expressbes designam, na verdade, ificando, podemos dizer que a Museologia 6 uma ciéncia em for O seu carater cientifico ¢ dado, sobretudo, pelo fato de possuir um feo como centro de seu interesse e investigacao. Que objetoéesse? ‘Durante muito tempo se repetiu que Museologia éa ciéncia dos museus. A e6ricos hoje, indagam, com bastante propriedade, se po- Jina como a ciencia dos hospitais, ou mo a ciéncia das escolas.? Assim, hoje se admite que 0 institucional necessdria @ agao museolégiea, mas nao pode lo como objeto de uma ciéncia. a Mugeologia & a ciéncia do fato museoldgico, ¢ fato museo- profuunda entre o Homemt (sujeito que conhece) ¢ 0 Objeto lade de que o Homem também participa), num cendrio io, 0 Museu. Tenho insistido em que a institucionaliza- wo apenas o reconhecimento de quem cria o organismo -m geral, alguém de estrutura de Poder), mas sobretudo pliblico da comunidade. cientifico do pensamento museol6gico; jlogia como ciéncia, ainda que em construcao; o caraterigualmente cientifico da transmissio de conhecimentos ‘ol6gicos e, portanto, da formacao do profissional de museu; 4) ocarater politico (no sentido mais amplo e generoso dessa palavra) trabalho do muse6logo. desse conceito se infere que a relacdo Homem-Objeto, ou Hi Realidade pela complexidade de conhecimentos relacionados com os elementos dessa relagio exige um estudo de carater interdisci- plinar © dé, 2 instituigao museu, uma exigencia de multiprofissionalidade. {EGOROVA eSCHREINER em MiP, m1. Waldisa Rosi Camargo Guarnien 233 234 Ao alinhavar estas ideias, cabe-me enfatizar que o es da Museologia exige, cada vez mais, o trato inteiiscipl intura do ensino brasileiro, s6 me parece viavel e .6s-graduado, quando os estudantes jé possuem dot disciplina, na qual estio “formados”. Entretanto, por questo de honestidade, devo deixar foi apenas essa convicgao que nos levou a empreender a cursos pés-graduados para formagao de musedlogos. Nunca sera demais lembrar que Somos pioneiros, mas nao pois, em Sao Paulo, jé se formam em nivel pés-gradisado oc arquetilogos. Eh outras profissdes que admitem dois niveis diferen 80: licenciatura ou bacharelado e pos-graduacao (mestrad Considerando as diversidades culturais; pol regides do pais e a.coexisténcia de tempos 50 ppossibilidace de formacao em varios niveis nao d mais aberta e inteligente. Por que optamos pela pos-graduacio? Além da questéo da interdis idade, hd, pelo menos, sina razbes de fato, ¢ uma, de fato e de di Quanto a instituigao © Curso de Museologia da Fesp surgiu junto a Escol de Cienclas Sociais que 6 também, vanguatdeira na forma saclores ecientistas sociais, tendo, hoje, entre os cerca de duzentos formados, a maioria dos qua as universidades do pats e, alguns, no exterior. Convémy Forma do masedlog: por due em nivel de pe radio? quando sobreveio o Decreto-Lei de 1946, que reconheceu e autorizou 0 funcionamento da Fundaco Escola de Sociologia e Politica de Sao Paulo (Fesp), esta jé possuta, desde 1941, a Escola Pos-Graduada e, desde 1933, a Escola Livre de Sociologia e Pol economia, a primeira do pais. Do trabalho da Escola Livre de Sociologia ¢ Politica resultaram obras como O roteiro do café, de Sérgio Milliet (1944), e a Histéria econdmica do Brasil, de Roberto Simonsen (1937). Entre os ex-alunos da Escola de Sociologia € Politica (do bacharelado, lembramos: Darcy Ribeiro, Oracy Nogueira, ‘Noemia Ipélito, Virginia Leone Bicudo, Juarez Rubens Brando Lopes; entre os primeiros mestres formados pela Escola Pés-Graduada de Cién- clas Sociais, Gioconda Mussolini, Florestan Fernandes, Lucila Hermann. Isto para citar apenas alguns nomes.* fato de o Curso ter surgido junto a esta Escola beneficiou sua es- trutura e forma pedagégica desde o inicio, pois seguiu a trilha da Escola P6s-Graduada, estabelecendo nao apenas a multiprofissionalidade como essencial ao desenvolvimento do programa pedagégico, mas, também, a interiisciplinaridade coms Método. O momento ‘© momento em que surgiu 6 Curso é outro dado importante. Em.1977, 0 MEC se manifestava contrariamente a abertura de outros cursos de Museologia emntvel de bacharelado. O Curso da Universidade Federal da Bahia se encontrava praticamente bloqueado, sem nenhu- ‘ma manifestagao de protesto, exceto a solitaria e solidaria atitude do professor Mario Barata, que enviou carta ao Reitor daquela instituicao, manifestando-se contra o fechamento do Curso. Ja que faltavam outras ‘vozes solidérias, que se ouvisse ao menos uma, solitéria. Encontros decultura, ealizados em Brasilia eSalvador, propunham um Sistema Nacional de Museus: este previa alguns Polos Regionais de Formagio, situando-os no Rio de Janeiro, na Bahia, em Recife, Porto Alegre e Curitiba Qu seja, So Paulo nao teria nentium centro de formagio de pessoal pra museus. 3 ROAR Dea. mt a nets Caine MOMOWAMA PS mr rg Wilda Rssio Camargo Guarnis 236 Novos regulamentos Foi ngsse momento que surgiu a Resolugto'14/77 do CFE/MEC. Ela nos proporcionava um duplo.e atil instrumento de trabalho: em imei idicamente eficaz, ializagio que, feitos sucessivamente, se somariam, perfazendo 03 créditos necessérios a um Mestrado dentro da Escola Pos-Graduada de Ciencias Sociais. Ao mesmo tempo, funcionariam também como meras especializagées, de modo a permitir o trabalho em éreas restritas, como profissional do- tado de formacio anterior e especializado em determinado segmento da Ciencia Museol6gica, mas nao sendo museélogo. oxmago do musologs: porque em sve de poe raduacio? 3.4 Quem sao e 0 que sao 0s museélogos?? Waldisa Riissio Camargo Guarnieri sd, ‘Alé algum tempo atrés, quando se falava em conseroador de musew, ‘era acompanhada de um gesto universal: dedos da mao unidos, "u menos ritmicamente de um para 0 outro lado, simu- ‘© p6 existente sobre um objeto imaginario ou invisivel. inte a frase em que as pessoas franziam as sobrancelhas indagador: “Muse6logo? Ah... Musedlogo, nao 6?” ha pelo menos alguns anos, 0 termo parece ndo surpreen- jovem! E trabalhando em museu...” (E. cobservacio pode se justificar quando ‘a quadra dos 20...) (retanto, admitir que ainda ha certa surpresa entre a fe das pessoas e mesmo entre os profissionais de areas afins a0 Musedlogo, sobretudo aqueles que, de uma ou outra itavam ou exercem ainda fungdes de musedlogo. termo vem se alirmando cada vez mais, impondo-se, em relacdo a outros, usados durante longo tempo, tais valor e Curador. que a nova terminologia ndo decorre de um modismo is tem a ver com as profundas e répidas mudangas sofridas pela Cigncia Museolégica e pelo principal espaco espe- igo museal. ila em que se pastou da mera observaco, da mera descrigo seol6gico (entendido como expositivo), transitando pelo conjunto de técnicas descritivamente transmitidas, para conhecimento especffico, nessa mesma maneira se Waldisa Rissio Camargo Guarneri 237