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Moluscos e Saúde Pública no Brasil

Ignacio Agudo - 09/2006

Como expresso em anteriores oportunidades pelos mais diversos autores, desde
tempos ancestrais muitas e variadas vem sendo as justificativas trazidas à tona
para tentar explicar a óptica e o porquê do conhecimento e estudo aprofundado
desses seres maravilhosos e impressionantemente diversificados que são os
Moluscos, sendo que entre as tantas abordadas particularmente destaca uma pela
sua imediata e sensível importância para a população, a denominada Malacologia
Médica, ativamente integrada aos campos atingidos pelo setor da Saúde Pública,
tanto a nível Zootecnista Veterinário como Médico-Sanitário propriamente dito
(Zoonoses), na sua condição de vetores ou transmissores de doenças de tipo
parasítico ao homem.

Zooantroponose é um outro termo dado às doenças que podem ser passadas dos
animais para o homem.

fundamentalmente. podendo estas serem divididas. nos revela de imediato que no território geográfico brasileiro atualmente são contabilizadas pelo menos três formas de doenças do tipo “Verminoses ou Parasitoses” transmitidas por moluscos vetores diversos. DOENÇAS PARASÍTICAS TRANSMITIDAS POR MOLUSCOS NO BRASIL Uma ampla revisão geral introdutória. baseada na substanciosa literatura especializada disponível sobre o tema. por se tratar de problemas de saúde pública situados na categoria das chamadas “doenças negligenciadas”. pela sua vez e a grandes rasgos. em dois grandes grupos principais. principalmente. razão pela qual ganham importância destacada. ainda diretamente relacionadas ao denominado “Saneamento Ambiental Inadequado”. terrestres e límnicos/de águas doces. conforme o espaço e ambientes onde estas se desenvolvem: .Envolvidos na transmissão de um conjunto de doenças parasitárias com prevalência significativa em países da América Latina e África. em determinadas situações a participação dos Moluscos é indispensável para que a transmissão da doença se instale em uma localidade.

1). Doença exótica (*).gênero Biomphalaria (Fig. Acredita-se que hoje sejam cerca de 12 milhões os brasileiros infectados ou portadores desta verminose. principalmente. é uma infecciosa parasitária típica das Américas. Ásia e África. abrangendo os Estados nordestinos do Ceará e Alagoas.. pela sua condição de “pandemia” com alto índice de interesse sanitário e/ou epidemiológico humano. Pernambuco. Os Estados do Brasil onde a “Esquistossomose” se apresenta com maior freqüência são Bahia. acreditando-se iniciou a sua expansão interna em tempos modernos após o ano de 1920. nos Estados do Nordeste e em Minas Gerais. 1907 (PLATYHELMINTHES: TREMATODA) (Fig. pode ser considerado o maior foco endêmico de Esquistossomose do mundo. Minas Gerais. um grave problema de saúde pública global que se espalhou rapidamente.ESQUISTOSSOMOSE. 2 . . partindo da sua área geográfica endêmica inicial. atualmente. XISTOSE OU BARRIGA D’ÁGUA Produzida pelo verme Schistossoma mansoni Sambon. conforme especialistas. sendo que o Brasil. 1. Paraíba. 2). Também conhecida como “Doença do Caramujo”.Fonte: Passos 1998 Fig. encontrados. Agudo TRANSMITIDAS POR MOLUSCOS LÍMNICOS 1. e transmitida em forma natural no Brasil por 3 espécies de caramujos de água doce da família Planorbidae . chegou ao Brasil trazida pela colônia Portuguesa junto com os escravos africanos (**). Fig.Foto Autor: I. Rio Grande do Norte. sendo a doença parasítica (verminose) melhor estudada no território nacional.

3 . Caprinos. Nas Américas é encontradas principalmente na Argentina. e transmitida em forma natural no Brasil por 2 espécies de caramujos Fig. . em geral. sendo que dita verminose apresenta estudos no Brasil orientados mais para o nível Veterinário específico em gado Bovino e Ovino. Ovinos. possuindo grande interesse econômico. (**) Ao mesmo tempo em que os escravos eram enviados às mais diversas regiões do país.Fonte: Carvalho et al 2005 De ampla distribuição geográfica (cosmopolita). 2. ocasionalmente. desde a época da colonização. 4). (*) Ovos do helminto foram encontrados inclusos em múmias chinesas e do Egito de mais de dois mil anos . 1758) (PLATYHELMINTHES: TREMATODA) (Fig.. Chile. sendo desta forma. como Rio Grande do Sul e Mato Grosso. os moluscos transmissores também eram encontrados em quase todas as regiões onde nunca tinha havido saneamento básico...FASCIOLOSE OU FASCIOLÍASE HEPÁTICA Produzida pelo verme Fasciola hepatica(Linnaeus. Cuba. e pouco/baixo interesse sanitário e/ou epidemiológico humano. México e Porto Rico. 4 . Uruguai. com ocorrência nos Estados do Sul e Sudeste..Alagoas. Fig. Venezuela. infectar o homem. assim como na Saúde Pública por. Já no Brasil é encontrada nas regiões de maiores criações de gado.. Agudo de água doce da família Lymnaeidae (gêneroLymnaea) (Fig. Bubalinos e vários mamíferos silvestres. que as condições para a disseminação da doença sempre foram favoráveis . 3). ocorre principalmente em regiões de clima tropical e subtropical do mundo. Sergipe e Espírito Santo. sendo considerada importante na Medicina Veterinária por acometer criações de Bovinos. Suínos.Foto autor: I.

hortas. os seus hospedeiros definitivos na natureza são roedores.Fonte: Carvalho et al Fig. Agudo Doença parasitária típica e nativa das Américas. sendo uma doença considerada “emergente”. e ainda com a veiculação popular sem fundamentação científica na mídia (de acordo a especialistas atuantes na área). sendo que o grupo malacológico que mais ganha atenção neste sentido (principalmente na região Sul do Brasil) é o pertencente às popularmente denominadas “lesmas-lixa”.Foto Autor: I. lavouras. 7 . 7). Fig. do caracol exótico africano invasor Achatina (Lisoachatina)fulica Bowdich. com escassos estudos efetivamente realizados até agora no Brasil. 1822 (Fig. 6) como “portador e ativo transmissor” do verme causador da citada doença. comuns na sua maioria próximos do homem em canteiros. assim como certas “semi-lesmas” exóticas da família Limacidae. incluindo as 3 espécies ligadas ao homem – a Ratazana . quintais e jardins. 1971 (ASCHELMINTHES: NEMATODA) (Fig. 5). situação que vem gerando além desnecessárias situações de pânico entre a população. moluscos terrestres desprovidos de concha representantes da família Veronicellidae (Fig. 6 .TRANSMITIDAS POR MOLUSCOS TERRESTRES 1. 5 .ANGIOSTRONGILÍASE ABDOMINAL Produzida pelo verme Angiostrongylus (Parastrongylus) costaricensis Morera & Céspedes. Agudo Fig.Foto Autor: I. e transmitida naturalmente por diversas espécies de caracóis e lesmas (nativos e exóticos).

P.ou Rato-de-esgoto. . razão pela qual ganham importância destacada.L.S. principalmente. M. 1974  Pilsbry.R.  Cate. 1994 .C. 1987  Oliveira.Referências  Beesley. sendo que roedores silvestres também são hospedeiros definitivos e adaptados ao nematódeo em questão.1234 pp..."Seashells of Brasil".5 CSIRO Publishing: Melbourne. 2. e o Camundongo. Collection.C. A. .J."Recent Xenophoridae". Part A XVI 563 pp. R. Rattus rattus (Linneus.F. K."Bivalve Seashells of Western North America".. and A. 1999  Moscatelli. M. xii + 445. Pearce. OUTRA MATERIA Doenças transmitidas por moluscos Moluscos: Envolvidos na transmissão de um conjunto de doenças parasitárias com prevalência significativa em países da América Latina e África.(eds)(1998). Ross. onde são vetores diretos e indiretos de outras doenças.& Bernard.& Alf.1992  Kreipl.E. Part B VIII 565 . . 1989  Sturm. Valdés. T.."A Classification of the living Molusca". U.V. K. PA. A. 1758).(10)1979  Coan. 2000  Keen. 1769). A."A Review of the Triviidae". F. com populações enormes em muitos ambientes humanos.2nd E."Sea Shells of Tropical West America".A. UFJF".2006.."Manual of Conchology".ed. The Mollusks: A Guide to Their Study. . 1897-8  Rios. Americam Malacological Society. and Preservation. "Molusca: The Southern Synthesis Fauna of Australia" Vol. Henry A. SBMNH.H. P. E. o Rato ou Rato-de- telhado. . 1758).B. Pittsburgh. ."The Superfamily Strombacea from Western Atlantic". Mus musculus (Linneus. . C. G. .Scott.492p.R.Myra ."Dicionário Conquilio Malacológico.P & Oliveira.A. Crawford Neill . V. .Rio Grande: FURG. em determinadas situações a participação dos Moluscos é indispensável para que a transmissão da doença se instale em uma localidade. Rattus norvegicus(Berkenhout. & Wells. Pp.  Vaught.

hortas. da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e da Universidade de Khon Kaen. os autores ressaltam que os profissionais de saúde precisam estar atentos para identificar novos casos e a população deve adotar medidas de prevenção simples. principalmente no contato com caramujos. Casos de meningite transmitida por caramujo se espalham pelo país Por: Maíra Menezes/IOC Uma nova forma de meningite está se espalhando pelo Brasil nos últimos anos. por diversas espécies de caracóis e lesmas (nativos e exóticos). XISTOSE OU BARRIGA D’ÁGUAProduzida pelo verme Schistossoma mansoni Sambon. tenagophila. publicado na revista científica Memórias do Instituto Oswaldo Cruz. TRANSMITIDAS POR MOLUSCOS TERRESTRES ANGIOSTRONGILÍASE ABDOMINAL:Produzida pelo verme Angiostrongylus (Parastrongylus) costaricensis Morera & Céspedes. ela já foi diagnosticada em seis estados. Veja o artigo completo. O levantamento faz parte de um estudo de pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz). incluindo o caramujo gigante africano. DOENÇAS PARASÍTICAS TRANSMITIDAS POR MOLUSCOS NO BRASIL: Três formas de doenças do tipo “Verminoses ou Parasitoses” transmitidas por moluscos vetores diversas. Chamada de meningite eosinofílica ou angiostrongilíase cerebral. Sudeste e Sul do país. terrestres e lemniscos de águas doces. Considerando que o verme foi detectado no Brasil há menos de dez anos. Transmitida principalmente por moluscos. TRANSMITIDAS POR MOLUSCOS LÍMNICOS: ESQUISTOSSOMOSE. da Tailândia. Biomphalaria glabrata e B.fundamentalmente. 1971 (ASCHELMINTHES: NEMATODA) e transmitida naturalmente. straminea Considerada uma “pandemia” no Brasil com alto índice de interesse sanitário ou epidemiológico humano. sendo uma doença considerada “emergente”. a infecção é causada pelo verme Angiostrongylus cantonensis. comuns na sua maioria próximos do homem em canteiros. . ainda diretamente relacionadas ao denominado “Saneamento Ambiental Inadequado”. nas regiões Nordeste. quintais e jardins. por se tratar de problemas de saúde pública situados na categoria das chamadas “doenças negligenciadas”. lavouras. com escassos estudos efetivamente realizados até agora no Brasil. e transmitida em forma natural no Brasil por 3 espécies de caramujos de água doce da família Planorbidae – gênero.

foram confirmados 34 casos da infecção em pacientes de Pernambuco. o médico Carlos Graeff-Teixeira. um animal que tem capacidade de sobreviver em praticamente qualquer ambiente e também costuma viajar nos navios. Paraná e Rio Grande do Sul. Dentro dos moluscos as larvas vão crescer. Assim como os ratos. Eliminadas nas fezes destes animais. as larvas do parasito são ingeridas pelos caramujos. São Paulo. Espírito Santo. Um dos autores da pesquisa. cantonensis são encontradas nos roedores: é neles que os vermes se reproduzem. contendo as larvas do parasito”. explica a pesquisadora Silvana Thiengo. Porém. Caramujo africano é o vetor mais frequente No Brasil. garantindo sua continuidade. as pessoas também podem ser infectadas se ingerirem os caramujos ou a baba (muco) liberada por eles. os moluscos fazem parte do ciclo de vida do verme. A bióloga é chefe do Laboratório de Malacologia do IOC. a disseminação do parasito é favorecida pelo grande número de moluscos. Originário da Ásia. O aumento do transporte marítimo entre os países propicia a introdução do verme em novas áreas”. que atua como referência nacional em malacologia médica junto ao Ministério da Saúde. “Esse parasito é próprio de roedores. Rio de Janeiro. . “O ciclo se fecha quando os ratos comem os moluscos infectados. uma das autoras do artigo recém-publicado. que se tornou uma praga no país. com um óbito. da PUC-RS. em especial da espécie Achatina fulica – o chamado caramujo gigante africano. atingindo a fase em que se tornam capazes de infectar animais vertebrados. especialmente da ratazana. Desde então. destaca. As formas adultas doA. afirma que a chegada da doença era esperada por causa das características do verme. cantonensis foi associado a um caso de meningite pela primeira vez no território brasileiro em 2006. o A.

os próprios moradores podem fazer a limpeza de quintais e hortas infestados. assim como pessoas que trabalham em hortas e jardins podem ser considerados grupos de risco para a doença. a infecção costuma ocorrer por meio da ingestão acidental destes animais ou do muco liberado por eles. Todas elas podem propagar a doença. Na ausência de luvas. Crianças e indivíduos com deficiência mental. há potencial para a transmissão da doença. “O Achatina é um excelente transmissor da infecção. verduras e frutas. como balde ou bacia. o hábito de comer moluscos crus é um dos principais fatores para a disseminação da meningite eosinofílica. Segundo Silvana. avalia Silvana. que fica a dois dias de barco de Manaus. Catar os caramujos é a principal medida recomendada para eliminá-los. adotando medidas de precaução. Os locais onde os caramujos infectados foram detectados variam desde as maiores cidades do país – São Paulo e Rio de Janeiro – até municípios isolados – como Barcelos. Já no Brasil. Ou seja: ainda que nem todos os estados tenham registrado casos até o momento. “Evitar o contato dos moluscos com as mãos é fundamental. também foram encontradas outras espécies de moluscos infectadas pelo parasito. deve-se usar um saco plástico para proteger a pele”. Introduzido no Brasil na década de 1980. cantonensis. acrescentando que é importante recolher também os ovos. legumes e frutas crus sem a higienização adequada também pode levar à infecção. ele é encontrado em áreas urbanas e rurais e fica muito próximo das pessoas. O consumo de verduras. uma vez que os moluscos liberam muco sobre os alimentos e também podem acabar sendo picados e ingeridos despercebidamente junto com saladas ou temperos. O contato frequente da população com o molusco facilita a transmissão”. Os animais e ovos recolhidos devem ser colocados em um recipiente. o caramujo gigante africano é encontrado hoje em 25 estados e no Distrito Federal.A pesquisadora destaca que o verme infecta diversos tipos de moluscos. A única área do país onde o molusco ainda não foi identificado é o estado do Rio Grande do Sul. Capaz de se alimentar de diversos tipos de plantas ornamentais. e submersos em solução preparada com uma parte de hipoclorito de sódio (água . mas o caramujo gigante africano tem sido o vetor mais frequente. Medidas de prevenção No sudeste da Ásia. Dados compilados pelos pesquisadores do IOC e da PUC-RS mostram que em 11 estados já foram coletados caramujos desta espécie infectados pelo verme A. indica a bióloga. que costumam ficar semienterrados. incluindo algumas espécies nativas do Brasil. Em oito estados.

Uma vez ingeridas. as larvas do verme migram para o sistema nervoso central e se alojam nas meninges – membranas que envolvem o cérebro. Após 24 horas de imersão. esclarece Carlos. Segundo Carlos Graeff-Teixeira. Os sintomas são os mesmos de outras formas de meningite. o tratamento é importante para amenizar os sintomas e reduzir as chances de agravamento da doença. cantonensis começa com a ingestão do caramujo ou de muco do molusco infectado.sanitária) para três de água. Em muitos casos. acrescenta. pois os parasitos não conseguem se reproduzir no ser humano e morrem naturalmente. mas em uma concentração muito menor do que a usada para matar os caramujos: a orientação é colocar uma colher de sopa do produto em um litro de água e deixar os alimentos de molho por 30 minutos antes do consumo. No entanto. O atraso no diagnóstico é um dos fatores que contribuem para o agravamento do quadro: cada dia de dor de cabeça prolongada aumenta em 26% as chances de coma. “O verme morre mesmo sem o uso de remédios. legumes e frutas. é importante realizar esta análise em todos os casos suspeitos de meningite”. a reação inflamatória muito forte desencadeada pelo organismo em resposta à infecção pode ser danosa”. Diferentes opções de terapia são apresentadas no estudo. a solução pode ser dispensada e as conchas devem ser colocadas em um saco plástico e descartadas no lixo comum. O organismo inicia uma reação inflamatória. podendo ser realizada com sabão comum. A água sanitária também deve ser utilizada para higienizar verduras. os pacientes apresentam também rigidez da nuca e febre. cantonensis em diversos estados do Brasil. a dor de cabeça causada pela meningite eosinofílica é tão intensa que costuma levar os doentes a procurar os serviços de atendimento de emergência. a doença é autolimitada. Sintomas. líquido que fica entre as meninges e é extraído através da punção lombar. que resulta no quadro de meningite. “Considerando a presença do A. causadas por vírus e bactérias. diagnóstico e tratamento A meningite causada por A. Embora não exista uma medicação com eficácia comprovada para matar os parasitos. Porém. o diagnóstico correto da doença depende de resultados laboratoriais – um passo a passo é apresentado no artigo publicado na revista Memórias do Instituto Oswaldo Cruz. Uma comparação realizada pelo pesquisador . alguns pacientes desenvolvem formas graves e o índice de mortes é de 3%. Entre as etapas mais importantes está a análise do líquor. A lavagem das mãos após os procedimentos é fundamental. Por isso. Geralmente.

No Brasil. nas pessoas tratadas com anti-inflamatórios do tipo corticoides. importado ilegalmente do leste e nordeste africanos como um substituto mais rentável do escargot. atua na identificação do molusco e no estudo das doenças que ele pode transmitir ao homem. só perdendo para os desmatamentos. Caramujo africano: quais os reais riscos para a população? De acordo com dados da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN). mostra que enquanto pacientes medicados apenas com analgésicos podem apresentar dor de cabeça por meses. a economia e também para a saúde humana é o caramujo africano. também autor do artigo e um dos maiores especialistas no tratamento da doença. O Departamento de Malacologia do Instituto Oswaldo Cruz (IOC). por exemplo. a pesquisadora Silvana Thiengo comenta os reais riscos oferecidos pela espécie e esclarece quais cuidados devem ser tomados pela população. Centro de Referência Nacional em Malacologia Médica. o caramujo africano apresenta densas populações . o sintoma permanece por menos de uma semana. um exemplo com impactos negativos para a natureza. as espécies invasoras representam a segunda maior ameaça à biodiversidade em todo o planeta. em média. Gutemberg Brito Atualmente na fase explosiva da invasão. Em entrevista. introduzido no país no final da década de 80. tailandês Kittisak Sawayawisuth.

Cinco meses mais tarde. como ser rico em proteínas. Porém. a demanda não existiu e os criadores soltaram os moluscos inadvertidamente na natureza. A promessa era de lucro imediato. como o brasileiro não tem hábito de consumir este tipo de alimento. além do Distrito Federal. por exemplo. ou seja. Temos notícia de que a espécie foi introduzida no Brasil através de uma feira agropecuária que aconteceu na década de 80. Onde o caramujo africano está presente no país atualmente? Cerca de duas décadas depois de ser introduzida. no estado do Paraná. Este molusco é consumido principalmente na África e tem suas vantagens nutricionais. fulica em margens de rios e em vegetação flutuante. O propósito inicial era comercializar a espécie para consumo. Atualmente. observamos no Brasil a presença de A. incluindo a região amazônica e reservas ambientais. No total de 5. estamos presenciando a fase mais explosiva da invasão. Gutemberg Brito . Pecuária e Abastecimento (MAPA). Em junho de 2006. havia registros em 57 dos 92 municípios do Rio. em 23 dos 26 estados brasileiros. No entanto.561 municípios brasileiros. Qual o resultado do fracasso desta tentativa? O caramujo africano foi importado para consumo humano. a ocorrência de densas populações. em junho de 2002 havia registros da presença do caramujo africano em oito municípios. Como ela chegou ao Brasil? Achatina fulica é uma espécie de origem africana. já eram 16 municípios. constituídas por grandes exemplares desses moluscos. Na feira realizada no Paraná. Apesar de ser um molusco terrestre. No Rio de Janeiro. O maior número de municípios infestados está concentrado nas regiões Sudeste e Centro-Oeste. sobretudo nas regiões Sudeste e Centro-Oeste O Caramujo Gigante ou Caramujo Africano é uma espécie invasora. há registros da presença do caramujo africano em 439 – cerca de 8%. foram comercializados kits que incluíam a matriz com um número determinado de exemplares e livretos que ensinavam como iniciar a criação. sem imaginar o mal que estavam causando. não consta registro de autorização de importação deste material no Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) ou no Ministério da Agricultura. como uma opção ao escargot. hoje a espécie está presente.

antes de se alojar nos pulmões. Uma delas é chamada de meningite eosinofílica. principal diferença entre o caramujo africano (direita) e a espécie nativa O caramujo africano está presente em ambientes urbanos. Além disso. tomate e alface são alguns dos itens mais atingidos. brócolis. A proliferação rápida desses moluscos vem assustando a população. O ciclo da doença envolve moluscos e roedores. como essas populações são formadas por animais de grande porte [10cm. batata- doce. sobretudo em áreas de produção agrícola em pequena escala onde o caramujo africano pode ser considerado uma praga agrícola. causada por um verme [Angiostrongylus cantonensis]. que passa pelo sistema nervoso central. em média]. abóbora. Quais os prejuízos neste contexto? Nos ambientes urbanos as populações desses moluscos são muito densas. A especialista Silvana Thiengo indica o desenho das bordas dos caramujos. invadem e destroem hortas e jardins. Quais os verdadeiros riscos oferecidos pelo caramujo africano? Existem duas zoonoses que podem ser transmitidas pelo caramujo africano. mas também em ambientes rurais. Banana. não há registro de nenhum . Perdas econômicas têm sido observadas. O homem pode entrar acidentalmente neste ciclo. causam muitos transtornos às comunidades das áreas afetadas. No Brasil.

que em hipótese nenhuma devem ser ingeridos. Mesmo assim. comendo praticamente de tudo. Além disso.caso desta doença. mas não transmitidos pelo caramujo africano.5% [1 colher de sopa de água sanitária diluída em um 1 litro de água filtrada] por cerca de 30 minutos. por perfuração intestinal e peritonite. que já foi verificada em ilhas do Pacífico. A angiostrangilíase abdominal [causada pelo parasitoAngiostrongylus costaricensis] muitas vezes é assintomática. deve-se lavar bem as hortaliças e deixá-las de molho em uma solução de hipoclorito de sódio a 1. antes de serem consumidas. O que explica este fato? As densas populações desse molusco no Brasil devem-se principalmente ao seu grande potencial biótico e à ausência de patógenos específicos. Quais cuidados a população deve tomar? A principal providência a ser tomada é o controle através da catação. é preciso todo o cuidado ao manusear os moluscos encontrados livres no ambiente. quando a catação é feita. A melhor opção é a catação manual com as mãos protegidas com luvas ou sacos plásticos. A segunda zoonose é a angiostrongilíase abdominal. Qual o risco dos caramujos africanos passarem a transmitir estas doenças? No atual estado do conhecimento. com casos já registrados no Brasil. Apesar de serem herbívoros. Um exemplar pode colocar em média 200 ovos por postura e se reproduzir mais de uma vez por ano. Por isso. sendo portanto considerado um hospedeiro potencial para o parasita. causador da angiostrongilíase abdominal – mas. Em testes realizados em laboratório. trata- se de um hospedeiropotencial. eles se escondem para se proteger do sol. horários em que os caramujos estão mais ativos e é possível coletar a maior quantidade de exemplares. . Estes ovos são mais ou menos do tamanho de uma semente de mamão. Durante o dia. é preciso estar atento para catar e destruir os ovos também. Achatina fulica não se revelou um bom hospedeiro. As populações de caramujo africano são muito numerosas. podemos afirmar que o risco do caramujo africano transmitir estas duas parasitoses é muito pequeno. mas em alguns casos pode levar ao óbito. O uso de pesticidas não é recomendado em função da alta toxicidade dessas substâncias. friso. Austrália e Estados Unidos. no sudeste asiático. Este procedimento pode ser realizado nas primeiras horas da manhã ou à noitinha. são muito vorazes e pouco exigentes para se alimentar. branco-amarelados e ficam semi-enterrados.

não é recomendado porque seu uso em excesso prejudica o solo e plantio. já que. ele pode vir a se infectar com outras formas e se tornar hospedeiro intermediário de doenças humanas. Outras opções são jogar água fervente num recipiente para matar os caramujos recolhidos ou incinerar. Já encontramos larvas de parasitos de aves ou outros animais domésticos. Como é possível distinguir as duas espécies? O Megalobulimus sp é uma espécie da nossa fauna e se parece com o Achatina fulica por seu tamanho. este fato aponta que a população de caramujo africano já está inserida nas áreas onde ocorrem ciclos de parasitos. como o Aedes aegypti. Como o IOC contribui para o conhecimento sobre o caramujo africano? Nós analisamos caramujos enviados por secretarias de saúde de todo o Brasil e avaliamos a possível presença de parasitos causadores de doenças. é importante poder distinguir a diferença entre os dois para que a espécie brasileira não seja prejudicada. Porém. o Megalobulimus sp. não cortante. Já a concha do Megalobulimus sp é mais bojuda. que não têm interesse humano. tem menos giros e sua abertura é espessa. pela proximidade com residências. vetor do vírus da dengue. desde que estes procedimentos sejam realizados com segurança. Como o molusco nativo do Brasil se reproduz pouco. A concha de Achatina fulica tem mais giros e é mais alongada. O material pode ser ensacado e descartado em lixo comum. conhecido como caramujo-da-boca-rosada ou aruá-do-mato. O caramujo africano costuma ser confundido com um molusco nativo brasileiro.Como eliminar os caramujos depois da catação? O sal. Quais são as perspectivas para o controle natural dessas populações pelas próprias condições do meio-ambiente? . mas é preciso quebrar as conchas para que elas não acumulem água e se transformem em focos de mosquitos. ele coloca apenas dois ovos em cada ciclo reprodutivo. cobertos com cal virgem e enterrados. gorda. O Plano de Ação para o Controle de Achatina fulica do IBAMA recomenda que após a catação os moluscos devem ser esmagados. Esta atividade de vigilância epidemiológica é fundamental para monitorar de que forma os caramujos africanos podem oferecer risco à população. Esta é a maior preocupação dos pesquisadores. No entanto. que seria uma opção para eliminar os moluscos. Também atuamos no treinamento e capacitação de técnicos das áreas de saúde e ambiente sobre o tema.

a grande explosão do caramujo africano ocorreu poucos anos depois de sua introdução. embora não tenham sido eliminados no país. que realizam o controle natural dessa população. Hoje. os estudos ecológicos sobre essa espécie ainda são incipientes e as perspectivas que temos são baseadas em experiências de outros países. Esperamos que o mesmo que aconteceu no Havaí aconteça aqui no Brasil. sem dúvida. quando foi introduzido. Renata Fontoura 15/03/07 . como os Estados Unidos e a Índia. bactérias. ambiente de origem do caramujo gigante. como. Em algumas regiões da Índia. é promovermos o controle através da ação da própria população através da catação e da eliminação dos exemplares. No Brasil. estabilizando-se em níveis toleráveis. já não se encontram mais exemplares grandes como os encontrados aqui e a população diminuiu bastante. onde a introdução já ocorreu há mais de 100 anos. existem patógenos. seguindo as recomendações que já mencionamos. não foi observado declínio nas populações desses moluscos. mas o fundamental. Já no Havaí. em função de fatores ainda não totalmente conhecidos. por exemplo. onde o caramujo gigante não é nativo. na década de 30.Na África. fungos e parasitos.