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AQUISIÇÃO DA ESCRITA

HL 311 B – Aquisição da Linguagem
Silvana Perottino

historicamente situadas. que privilegiam regularidades e tendências gerais).Texto 1: Horizontes e limites de um programa de investigação em aquisição da escrita (1999) . que sobre ela atua. • Interesse pelo dado singular – singularidade reveladora que permite formular inferências abdutivas. a linguagem. Concepção teórica sócio-histórica de linguagem: “[linguagem] Tomada como atividade.168). . por isso contar com dados privilegiados – sinais. episódicos e idiossincráticos (diferente de abordagens de cunho quantitativo. ao mesmo tempo que constitui os polos da subjetividade e da alteridade. é também constantemente modificada pelo sujeito. • Programa de investigação científica em aquisição da escrita baseado nos pressupostos do chamado Paradigma Indiciário (Ginzburg. Abaurre • Nos estudos sobre a aquisição da representação escrita da linguagem: dados singulares. Uso de inferências abdutivas (hipóteses que consistem em inferir o antecedente do consequente: o fenômeno F seria explicável naturalmente se a hipótese H fosse verdadeira). Interesse por sujeitos reais nas situações reais de interlocução. indícios – para decifrá-la.” (p. 1968): a realidade é opaca.Maria Bernadete M. como trabalho. para descobrir regularidades que subjazem aos fenômenos superficiais. Baseado em Franchi (1987).

opta por escrever. • Dado singular: a escrita da palavra “muito” (p. uma modalidade que ao longo do seu percurso evolutivo teria rompido quaisquer vínculos com o oral. ou do til na letra u). . • Outra posição: autonomia radical da escrita em relação à oralidade. na sequência do texto.. segundo se pode depreender das marcas deixadas pelo lápis no papel. Depois. G.172) – a criança. no documento original depositado no banco de dados do Projeto).Relação oralidade-escrita • Uma posição – crianças produzem uma escrita “colada” na oralidade. muni. • Hipótese da autora: no intervalo entre as duas hipóteses radicais anteriores. a forma muinto (são ainda frequentes em outros textos o acréscimo de um n. representando por meio das letras os próprios sons da fala. mui (nesta ordem. faz três tentativas: mui.

pré-escola particular • .G.. 6 anos.

à formulação da hipótese H. • Do fato surpreendente F chega-se. (PRIMEIRA HIPÓTESE) . que há razão para que a hipótese H seja verdadeira. por violar a fonologia da língua. por abdução. pode haver uma interação entre os fatos da oralidade e as formas que assume a escrita. em certas circunstâncias.• A palavra “muito” é excepcional no sistema fônico da língua. pode-se afirmar. do qual escapa por ser o único item em que se admite nasalização da vogal provocada pela presença da consoante nasal que a antecede. mas. se dá. na sílaba (nasalização de vogais. no português. por efeito de consoantes nasais que vêm após as vogais – ex: “banha”) – É um estranhamento que tal nasalidade progressiva provoca nas crianças. então. que se verdadeira. explica naturalmente o fato: MUINTO (‘muito’) a modalidade escrita é autônoma em relação à modalidade oral. Seguindo-se a forma lógica da inferência abdutiva.

diz respeito ao conhecimento. depois começam a usar as letras alfabeticamente. da estrutura fonológica interna da sílaba. Posteriormente. bem como a posição que devem ocupar na estrutura das sílabas. dominando. as estruturas silábicas do tipo CV (sílaba canônica) –BOCA. as crianças do Projeto usam letras para representar inteiras sílabas (AO para ‘gato’). exatamente. (SEGUNDA HIPÓTESE) • Se antes. . poderia desencadear o vazamento do oral para o escrito? (isso de um ponto de vista estritamente linguístico) • A própria constituição fonológica da palavra que a torna excepcional. começa o problema de representação dos segmentos que ocupam posições nas sílabas com estrutura mais complexa que CV. na escrita. nos eventos de escrita. (PRIMEIRA HIPÓTESE) A hierarquia dos constituintes silábicos na fonologia da língua revela mais do que a simples “troca” ou “omissão” de letras. por parte das crianças.• Questão: O que. Sílabas CVC: SUTO (‘susto’) Sílabas CCV: GADI (‘grande’) • Trata-se de decidir sobre o número de segmentos que devem ser representados.

como um dos domínios prosódicos postulados. E a partir da combinação de sílabas no domínio prosódico surgem os pés. A hierarquia interna em que a sintaxe interna (máxima) é onset ou ataque e rima (núcleo e coda) CVC: SUSTO CCV (C) (C): CRINA. por ‘estragar’. para manter a regularidade da alternância CV. por isso. BRINCO. • Sílabas: unidades fonológicas dotadas de estrutura interna. a análise dos constituintes das sílabas e sua hierarquia nas representações fonológicas subjacentes. muitas vezes.• Dado singular: BIRNCO (‘brinco’): não tem a ver com a maneira como as crianças pronunciam as palavras. esetarga. serve de locus para a organização dos segmentos. (SEGUNDA HIPÓTESE) • Nas chamadas hierarquias prosódicas. . MONSTRO • Mais difícil de representar segmentos em posições de sílabas mais complexas: sílabas com coda preenchida ou ataque ramificado. taradi por ‘tarde’. a inserção de vogais na sequência. a partir das exigências do próprio sistema alfabético. como em turama por ‘turma’. a sílaba. locus da alternância acentual que define o ritmo linguístico. mas sim com a maneira como vão elaborando.

M. escola particular .S. 8 anos. 2ª série..

B. hipóteses e provas. M. Dados de aquisição de escrita: considerações a respeito de indícios. A criança demonstra sensibilidade em relação à percepção do sintagma fonológico (um dos domínios da hierarquia fonológica). (Abaurre. M. 2011) .Dado singular: as escritas de jateim (‘já tem’) e jabotarao (‘já´botaram’).

para as escritas idiossincráticas. • Relação entre os dados de escrita inicia e o componente fônico da linguagem: 1) Aspectos fonéticos de diferentes variedades da língua.Conclusão • Projeto inspirado no Paradigma Indiciário – voltado para o individual.. • Interesse do Projeto em investigar a relação entre a emergência dos estilos individuais e os estilos dos gêneros (gêneros textuais ou discursivos) em si. . dentre as alternativas abertas pela língua. E como marca do trabalho com a linguagem. 2) Componente fonológico: as estruturas silábicas e a hierarquia prosódica (segmentação na escrita inicial) Ainda.. para as mais diferentes instâncias de manifestações de marcas da subjetividade. • Estilo: modos como vão se operando as escolhas.

• Papel da escola: dar chances às crianças para vivenciarem o que precisam aprender. O cientista e a criança começam a procurar uma entrada para esse mundo. para decifrar sistemas de escritas antigos). o autor compara o cientista à criança: deve andar por vários caminhos até chegar à verdade e decifrar um sistema de escrita. sentirem que o que fazem é significativo e vale a pena ser feito. para descobrir como o sistema de escrita funciona (no caso do primeiro.Texto 2: A respeito de alguns fatos do ensino e da aprendizagem da leitura e da escrita pelas crianças na alfabetização (1998) Luís Carlos Cagliari • Inicialmente. • Sala de alfabetização: a aprendizagem como ato individual. .

reproduzir um modelo que lhe foi apresentado. leitura perante a classe). as razões pelas quais faz ou deixa de fazer algo. demonstrar que o professor ensinou direito. para que o professor avalie se o aluno “acompanha” ou ficou para trás. (Critica aos testes). igual para todos. Verifica-se não se o aluno aprendeu ou não. Alfabetizar pelas cartilhas (BaBeBiBoBu) é desastroso e. passo a passo.Métodos 1) Método das cartilhas: Ensina tudo. através dos elementos dominados. do mais fácil ao mais difícil: o aluno parte de um ponto inicial zero. Aplicam-se testes de avaliação (ditado. quando o aluno progride nos estudos. Verificar o que se passa na mente do aluno. faz isto apesar da escola. A cartilha é um “caminho suave”? . exercícios estruturais. numa ordem hierarquicamente estabelecida. mas se o aluno sabe responder ao que se pergunta. de maneira lógica e ordenada. e vai progredindo. são coisas que o método não permite que o aluno manifeste.

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Era tarde e Carlito dormia.“Texto” de Cartilha Carlito partiu no barco verde. Que calor! Vou nadar! (No Reino da Alegria) . Carlito parou perto da árvore. Acordou e comeu carne de carneiro. O barco era longo e forte.

ir para uma “classe de alunos de seu nível”. ser ridicularizado pelos colegas.Métodos 2) Método baseado nas ideias do construtivismo: Extremo oposto das cartilhas. mas apenas de promover situações para o aluno fazer algo. Papel do professor não é ensinar. demorar demais. . perturbado pelos pais. Risco: de andar em círculos.

Crítica ao construtivismo: uso do rótulo “sílaba” para classificar fatos que não se caracterizam como o que se define por “sílaba”. não. para fazer sentido para os alunos. quando necessário. dizendo: ra-pa-is. temos a letra x que pode representar duas sílabas ou duas consoantes: táxi (=ta-ki-si ou ta-ksi). analisá-las. ou quando fala formiga?”). . nem sempre procuram atribuir uma letra a uma sílaba. O professor deve avaliar o tipo de pergunta que faz aos alunos (Ex: realismo nominal?! Uso concreto da linguagem!!!: “Que palavra é maior. como conceito – diferente de uma imagem –. mas observam os elementos vocálicos e consonantais da fala e escrevem representando essas saliências fonéticas que. A palavra como tal não tem tamanho. ou a letra t. não ocupa espaço. que pode representar um ou dois sons. Ao lerem o que escreveram atribuem uma letra a cada sílaba. é imaterial e. Algumas crianças escrevem aai para rapaz (dito “rapais”). é totalmente abstrata. você mexe mais a boca quando fala boi. O que é concreto é a pronúncia e a escrita. Ela é pré-letrada (do ponto de vista do nosso sistema de escrita). as letras não representam padrões silábicos. como em tia (=ti-a ou tchi-a). Quando a criança não usa letras do nosso alfabeto (rabisco a cada palavra ou a cada sílaba que vai pronunciando) não é argumento para ser pré-silábica”. às vezes. A representação apenas de consoantes não pode ser chamada de representação silábica. Ensinar é compartilhar as dificuldades do aprendiz. ou seja. às vezes. boi ou formiga?” Melhor seria “Quando você fala. mas os elementos consonantais. peso. correspondem às sílabas e. Mas a criança não tem condições discursivas para explicar ao seu interlocutor o que realmente fez (baseando-se nas saliências auditivas (vogais) e articulatórias (consoantes)). Ensinar não é repetir um modelo até que se aprenda o ele quer dizer. No nosso sistema. entendê-las e sugerir soluções. vivido.Métodos 3) “Interação” Interação como ferramenta de aprendizagem: ensino compartilhado. e ser memorizado e usado.

quando a fala apresenta formas lexicais diferentes daquelas contempladas pela ortografia. Escrita apoiada no caráter alfabético das letras leva alguns alunos a escreverem errado a partir da observação da própria fala. “patinho”. acrescentar nossa opinião a respeito dele. uzlivru e tem de escrever “os homens trabalham”. após a decifração. Ex: escrita de “hélice” com LC. “bicicleta”. pátio. Nas questões de concordância: ozomi trabaia. é preciso conhecer qual é a ortografia da palavra e representá-la da maneira estabelecida. “planta”. costumamos. • Leitura é para buscar um texto e não apenas o valor fonético das letras. Nós. Diferenças entre leitura pública. Depois. mas ideográfica). . Princípio alfabético não garante uma escrita correta. para gato. “os livros”. estabelece os seus limites de uso e constitui a alma dos sistemas de escrita.• A representação de consoantes e vogais serva apenas para se observar a fala e ter-se uma orientação inicial para escrever uma palavra. • Questão: O que a criança conhece a respeito da escrita antes de entrar na escola? (menção ao letramento por parte do autor?) • A leitura guia e cria a escrita. pranta. ou HTO. ou CAMLO. para “camelo”. como já leitores. Os nomes das letras servem de guia para mostrar que sons elas representam. psicreta e tem de escrever “dentro”. leitura incidental (como se a escrita não fosse de base fonográfica. Ex: aluno que fala drentu.

• Papel do professor: explicar a elas o que elas já sabem. para dar um passo à frente. nos eventos de escrita. poderia desencadear o vazamento do oral para o escrito? (isso de um ponto de vista estritamente linguístico) . e o que precisam fazer e como. • Questão do Cagliari: O que a criança conhece a respeito da escrita antes de entrar na escola? • Questão da Bernadete: O que. o que fizeram e por que fizeram. exatamente. nas suas tentativas de aprendizagem. como também cada aprendiz tem sua maneira de aprender.Conclusão • Cada sistema de escrita tem suas especificidades.