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Democracy and post­democracy in the political thought of Jacques Rancière considering the notions of equality, ethics and dissensus

Democraciaepós­democracianopensamentopolíticodeJacques

Rancièreapartirdasnoçõesdeigualdade,éticaedissenso

Democracyandpost­democracyinthepoliticalthoughtofJacquesRancière

consideringthenotionsofequality,ethicsanddissensus

ThalesLelo *

ÂngelaCristinaSalgueiroMarques **

* ÉmestrandopeloProgramadePós­GraduaçãoemComunicaçãoSocialdaUniversidadeFederalde

MinasGerais(BeloHorizonte,MG,Brasil).E­mail:thales.lelo@gmail.com

** ÉprofessoradoProgramadePós­graduaçãoemComunicaçãoSocialdaUniversidadeFederalde MinasGerais(BeloHorizonte,MG,Brasil).E­mail:angelasalgueiro@gmail.com

RESUMO

Oobjetivodesteartigoéexplicitarmelhorasdiferentesdimensõesdoconceitodedemocracia

desenvolvidoporJacquesRancière,destacandotrêsaspectosconceituaisespecíficos.Osconceitosde

igualdadeedissensodefinemademocraciacomoaçãopolíticaeprocessodeverificaçãodaigualdade

asseguradapelalei,configurando­secomooutraformademontaracenapolíticadissensual.Jáoconceito

deéticaassumeafunçãodeexplicaroqueRancièrechamadepós­democracia,ouseja,ademocracia

comoambiente,comocenárioemqueavidasesubmeteàlei.Nossoobjetivoaoressaltaressesdois

âmbitosdopensamentodoautorérevelartantoumaconcepçãodepolíticaquepoderia,talvez,trazer

novasesperançasapartirdeumconceitodepolíticabaseadoemformasdissensuaisdecomunicaçãoe

expressãoqueinventammodosdeser,veredizerafimderedefinirosmodosdeorganizaçãoe

distribuiçãodocomumquedefinequemtomapartedeumacomunidadeecomosedásuaparticipaçãoe

produçãodenovasformasdeenunciaçãocoletiva,quantoumdiagnósticopessimistafeitopeloautorcom

relaçãoaofuncionamentodemocráticoeéticodassociedadescontemporâneas.

Palavras­Chave:democracia;JacquesRancière;igualdade;açãopolítica;ética;dissenso

ABSTRACT

Theaimofthisarticleistoelucidatethedifferentaspectsoftheconceptofdemocracydevelopedby

JacquesRancière,drawingattentiontothreespecificconceptualdimensions.Theconceptsofequalityand

dissentdefinedemocracyaspoliticalactionandprocessofverificationoftheequalityassuredbylaw,

configuringanothermannertocreatethepoliticalsceneofdissensus.Ontheotherhandheconceptof

ethicsassumesthefunctiontoexplainwhatRancièrecalldemocracyassurrounding(habitat),asascene

wherelifeisdominatedbythelaw.InhighlightingthesetwoaspectsofRancière'sthoughtweintendedto

bothdiscloseapessimisticdiagnosisregardingthedemocraticandethicalfunctioningofthecontemporary

societiesandbringhopebyaconceptionofpoliticsbasedonthedissentingformsofexpressionand

communicationwhichinventwaysofbeing,seeingandsayinginordertoredefinethewaysoforganization

anddistributionofthecommonwhichdefineswhotakespartofacommunityandhowthecitizenscan

participateandproducenewformsofcollectiveenunciation.

Keywords:democracy;JacquesRancière;equality;politicalaction;ethics,dissensus

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Democracy and post­democracy in the political thought of Jacques Rancière considering the notions of equality, ethics and dissensus

NocentrodareflexãopolíticadofilósofoJacquesRancièreestãoosconceitosdedemocracia,dissenso eigualdade.Emváriosdeseustextos( Rancière,2004 , 2010a , 2011a , 2011b ),eleargumentaquea democracianãopodeserconfundidacomumaformadegovernoouummododevidasocial.Demodo geral,paraele,ademocraciaé"ainstituiçãodaprópriapolítica,deseusujeitoedaformadarelação entretermoscontraditóriosquedefinemumsujeito"( Rancière,2010a ,p.32).Apolítica­vistanãocomo disputasdepoderesimcomoacriaçãodissensualdecenas,argumentosemodosdevisibilidade­ea construçãodosujeitopolítico(edesuasações)enquanto"serdefala"e"serigual"definemomodo comoademocraciaseconfiguranareflexãodeRancière.Paraele,ademocraciasetraduzpelaação políticaqueconfrontaeperturbaaordemconsensualdefuncionamentodoEstado(chamadapeloautor deordempolicial).Talaçãoédesenvolvida,segundoRancière,pelodemos,pelaspessoasquenãose confundemcomumacoleçãodemembrosdacomunidade,nemcomasclassestrabalhadorasdopovo ouosexcluídos,deformageral. 1 "Elassãoumapartesuplementarnarelaçãodacontagemdaspartes dapopulação,tornandopossívelidentificarapartedosnãocontadosnocontextodotododa comunidade"( Rancière,2010a ,p.33).Afiguradodemos,oudos"sem­parte",relaciona­semenosaos sujeitosemsi,emaisàsoperaçõessimbólicasepráticaspolíticasquedãoaveraexistênciade lógicasquedefinemquempodeequemnãopodefazer­sevisível,audíveleconsiderávelcomoum igual.

Assim,interessaaRancièreidentificarcomoademocraciaseconstituicomoformadeagirpolíticopor meiodainscriçãoeenunciaçãodossujeitosemumacenadedissenso,quesecriaeserecriapormeio desuasações.Aodefinirapolíticacomoa"cenanaqualsecolocamemjogoaigualdadeoua desigualdadedosparceirosdeconflitoenquantoseresfalantes"( Rancière,1995 ,p.81),Rancièrenos fornecepistasparaentendermoscomoasrelaçõesintersubjetivasdevemseconfiguraremumacena naqualumjogocomunicativoedissensualsedesenvolveeauxiliaosindivíduosaseconstituírem comosujeitosemancipadosenquanto,aomesmotempo,colocaemxequeumaordemdominanteque apagaconflitos,diferençaseresistências.Contrapondo­seaHabermas 2 eàestruturadeum"mundo comum"sustentadopelaracionalidade,universalidadeeconsenso,Rancièreafirmaqueapolítica precisacontemplartambémarelaçãodesigualqueseestabeleceentreosinterlocutores,alémda configuraçãodaprópriasituaçãodecomunicação/interlocução( Marques,2013 a).

Arazãopelaqualapolíticanãopodeseridentificadacomomodelodaaçãocomunicativaé queelepressupõequeosparceirosjáestejamconstituídosenquantotais,easformas discursivasdastrocasimplicariamumacomunidadedediscursonaqualos constrangimentosjáestariamexplicitados.Oqueéprópriododissensoéqueosparceiros nãoestãodeantemãoconstituídos,nemoobjetodediscussãoenemmesmoacenade conflito.Aquelequedesejamostrarquefazpartedeummundocomumqueooutronão

vê,nãopodesevalerdeumalógicanormativaimplícita(Rancière,2004,p.244).

AaçãopolíticaparaRancière,então,dizrespeitoàproposiçãodecontextos,desituações comunicativasqueconstroemasposiçõesdossujeitosemumcenárioqueéfrutodacombinaçãoentre argumentoseencenaçãodramática.Talcombinaçãoderivadofatodeque,segundo Rancière(1995 ),a argumentaçãopolíticaé,aomesmotempo,aconstruçãoracionaldepontosdevistaeademonstração deummundopossívelnoqualtaispontosdevistapodemcontarcomoargumentos.Éporissoque,ao ladodaargumentação,Rancièresalientaaexistênciadeumadramatização(própriadacenateatral)na qualossujeitospodemserquemsãoepodemser"outracoisa",istoé,terumaexistênciapolíticapara alémdonomeedolugarquelhesfoiatribuídopelaordemconsensual.Sobesseaspecto,ospobres,os trabalhadoreseasmulheres,porexemplo,podemdeliberarsobrequestõesadministrativas,revelando quenãoénecessárioserespecialistaparaexerceropoder.Eelespodemfazerisso,segundoRancière, desdequenãorestrinjamsuasdemandasanecessidadesparticulares,masqueastraduzameas aproximemdedemandascoletivas.ÉessemovimentodetraduçãoqueRancièreassociaàigualdadee aumadesidentificaçãoqueposicionaossujeitosemummovimentodeconstanteconexãoe desconexãocomos"nomes"queoscaracterizamequecaracterizamsuaslutas.

Nãohávidapolítica,mascenapolítica.Aaçãopolíticaconsisteemmostrarcomopolíticoo queévistocomosocial,econômicooudoméstico.Elaconsisteemborrarasfronteiras. Issoéoqueacontecequandoagentes"domésticos"­trabalhadoresoumulheres,por exemplo­reconfiguramsualuta/disputacomolutaconcernenteaocomum,ouseja, concernenteàquallugarpertencemounãoequemécapazouincapazdeproferir

enunciadosefazerdemonstraçõessobreocomum(Rancière,2011a,p.4).

DeacordocomRancière,oqueconstituioespaçopolíticoestáintimamenteligadoaumconflitode

enunciaçãoquesurgequando,nacenadedissenso,os"sem­parte"nãotomamapalavraapartirdo

lugarquelhesfoiatribuídosociologicamente,masseinscrevemnacenapormeiododiscurso,da

argumentaçãoedosrecursospoéticosdaexperiência,afastando­sedoespaçoedostatusquelhesfoi

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designadopelaordempolicial.Os"sem­parte"sedesidentificamquandodesejammostrarqueexistem,

paraalémdosnomeseatributosquelhesforamatribuídospelaordempolicial,outrosnomesque

identificamsuasdemandascomocoletivaseosidentificamcomocapazesdedesenvolverhabilidades

quevãoalémdaquelasquegeralmentelhessãoatribuídas.

Noentanto,aatuaçãocriativadaquelesquenãosãocontadoscomosujeitospoliticamenterelevantesé

minadapeloqueRancièrechamadetransformaçãodeumacomunidadepolíticaemumacomunidade

ética"quejuntapovosepartessingularesemumúnicopovoqueésupostamentecontadocomoigual"

( Rancière,2010b ,p.189).Nacomunidadeética,osuplementododemosnãoaparecemais,umavezque todosestãoincluídos.Acomunidadeéticaeconsensualéaquelaquepartilhaocomumdeformanão litigiosa,massimunificadora.Essacomunidadetambémésaturada,umcorpocoletivocomseus lugaresefunçõesalocadosdeacordocomcompetênciasespecíficas(edesiguais)degrupose

indivíduos,semespaçoparaexcessos( Rancière,2011b ).Essaimagemtraçadaparacaracterizara

comunidadeatualretrataadescrençadeRancièrecomrelaçãoàdemocracia(ou,comoveremos,à

pós­democracia),umavezqueesseregimereiteraareduçãodapolíticaaodiscursohomogeneizador

doEstadooudalei,promovendoumlastroconsensualparaacoexistência.

AdemocraciaemRancièreapresenta,portanto,umafacepositivaeumanegativa.Emsuadimensão positiva,ademocraciaseconfundecomaaçãopolíticaecomaverificaçãodaigualdade pretensamenteexistenteentreosindivíduos,configurando­secomooutraformademontaracena política,"aoproduzirdiferentesrelaçõesentrepalavras,ostiposdecoisasqueelasdesignameos tiposdepráticasquedesenvolvem"( Rancière,2010a ,p.54).Emsuadimensãonegativa,ademocracia, oumelhor,após­democraciaseconfundecomumambiente:"[E]laémaishabitatdoqueluta;éo espaço/cenárionoqualnosencontramosaoinvésdeumaposiçãorequerendosacrifícioedecisão"

( Rancière,2004 ,p.75).Nasseçõesseguintes,tentaremosexplicitarmelhorasdiferentesdimensõesdo

conceitodedemocraciadesenvolvidoporRancière,incorporandoascríticastecidasàssuasproposições

nesseâmbitoefinalizandocomsuaabordagemdoqueseriaapós­democracia.Nossoobjetivoao

ressaltaressesdoisâmbitosdopensamentodoautor,érevelarumaconcepçãodepolíticaquepoderia

tantotrazernovasesperançasderedefiniçãodosmodosdeorganizaçãoedistribuiçãodocomum(que

definequemtomapartedeumacomunidadeecomosedásuaparticipação)quantomapearseu

diagnósticopessimistacomrelaçãoaofuncionamentodemocráticodassociedadescontemporâneas.

Democraciaegovernodaquelesquenãocontam

Emdiversaspassagensaolongodesuaobra,Rancièresededicaaformularumconceitode

democracia.Contudo,adefiniçãoofertadapeloautorganhacontornosmaisdefinidosquandoele

distingueoqueéounãodemocracia.Porexemplo,emumaentrevistaconcedidaaDavidePanagia,

essaconstruçãoconceitualassimsemanifesta:

[A]democracianãoéumregimepolítico,nosentidodeumaformaconstitucional,nem mesmoummododevida(comoaprendemosatravésdasociologiaTocquevilliana)oua culturadopluralismoedatolerância.Ademocraciaé,propriamentedizendo,ainstituição simbólicadopolíticonaformadopoderdaquelesquenãosãodesignadosaexerceropoder ­umarupturanaordemdalegitimidadeedadominação.Ademocraciaéopoder paradoxaldaquelesquenãocontam:acontagemdaquelesquenãosãocontados(Rancière,

2000,p.124,grifosnossos).

Aoexaminarmosacitaçãoacimademaneirasegmentada,podemosinicialmenteafirmarquea democracianãoserefereaumaformaconstitucional.Issoporque,paraoautor,aquiloqueéchamado atualmentede"governodemocrático",defatonadamaiséqueumaaristocracia( Rancière,2010a ).A ordemqueseautoproclamacomolegítimacarregaconsigoodeverdedistribuirosnomesqueos sujeitosdevemtereasposiçõesquedevemocuparnoâmagodavidapública.Noliberalismo,quem assumeessafunçãoéoEstado.ComoTodd May(2009 )salienta,noregimeatualoEstadoatuaenquanto umdistribuidor,eaquiloqueelepretendedistribuiréaigualdade,traduzidasobaformadelei.O paradoxodessaproposiçãoseenunciadaseguintemaneira:seaigualdadepresumeuma horizontalidadeentreinterlocutores,comoentãopodeumdospolosdointercâmbioassumiropapelde "agentedemocrático"provedordaigualdade?Talmaneiradepensarademocraciahierarquizaos corpos:háumconjuntodenomesdesujeitosaqueméoutorgadoodireitodeimporaoutrosuma maneiradeserepensar.Sobesseaspecto, Rancière(2006 )iráfalardasincursõesmilitaresrecentes promovidaspelosEstadosUnidosaoIraquecomoexemplosideaisdesseregime:ademocraciaea igualdadesetornam"bens"aseremdisseminados(mesmoqueàforça)àquelesqueaindanãotiveram asupostacompetênciadereconhecersuasbenesses.Estesoutrossetornaminimigosdademocraciae devemserexterminados.

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OcasodosconflitosbélicostravadosnoOrienteMédioéumadaspontasextremasdeuma

problemáticadefiniçãodademocraciaqueRancièretrazparasuadiscussão.Elaapontaparaaquestão

deque,seháumregimeconstitucionalprópriodademocracia,calcadoemigualdadedecondições,por

exemplo,entãoháaquelesquefazempartedoregime(quejáforammarcadoscomobrasãoda

igualdade)ehá,dooutrolado,aquelesquenãosãoreconhecidosnessaordemeque,porsuavez,não

podemparticipardavidacomumenãopodemfalarsobreelalegitimamenteatéquecedamaosseus

desígnios(essetemaseráretomadonadiscussãoacercadapós­democracia).

Masseademocracianãoseidentificacomumaconstituiçãoparticular,tambémnãoépropriamente

ummododevida.QuandoRancièretecesuascríticasaessaformadepensarademocracia,eleofaz

correlacionandocorrentesteóricascontemporâneasfundadasporautorescomoAlexisdeTocqueville,

JürgenHabermaseHannahArendt,comumfilãodopensamentoclássicogrego,provenientede

AristótelesePlatão.Diantedeautoresdeépocastãodiferentes,otraçounificadorqueRancière

encontraresidenamaneiracomoasreflexõesseaproximaramnointuitodeidentificarqualidadese

competênciasquepossamdistinguir,semmuitasressalvas,aquelesquesãohábeisematuarno

espaçopúblicodediscussãodosinteressespartilhados(quesãodestinadosàpolítica)eaquelesquese

ocupammaisintensamentedesuaprópriavidaprivada­eque,porisso,nãopossuemtempoou

habilidadesnecessáriasparatomarparteemdebatesmaisamplos.

Oautorretoma,apartirdePlatão,umaquestãocentralparaessaconcepçãodademocracia:porque algunstomamaposiçãodaquelequegovernaenquantooutrossesubmetemeobedecem?Apartir dessaindagação,sãolistadasdiferentesdisposiçõesantropológicasparagovernar(boanascença, riqueza,força,ciência,autoridade)queenvolvemadistribuiçãodelugaresefunçõesaossujeitos.Mas tais"disposiçõespara"agovernançadevemsercomplementadaspelas"disposiçõespara"a submissão,quaissejam,aausênciadasqualidadesacimamencionadas.Essaéa"ordemnaturaldas coisas",ocomandoquasemíticodopastorsobreseurebanho­comandoque,porsuavez,instalauma desigualdadefundamentalentreasposiçõespossíveisdeseremassumidaspelossujeitos.Écriadauma dicotomiaentre"aobscuridadedavidadomésticaeprivadaearadianteluminosidadedavidapública dosiguais"( Rancière,2001 ,p.10).Enessaoposiçãooqueéretiradododomíniocomumassumeduas formas:"umaconfiguraçãoexplícitaquedenegadireitospolíticosparacertaspartesdapopulaçãocom baseemcritériosdegênero,declasseouétnicos;eumaimplícitaquerestringeaesferadacidadania aumtipodeterminadodeinstituições"( Rancière,2010a ,p.57) 3 .

Masháumainterrupção,umintervalonessamaneiradedistribuiroslugareseosnomescombaseem suavaloraçãoparaobemcomum.EmPlatão,comodestaca Rancière(2006 ),aordempodetambém estarancoradaemum"governopelachance".Sobesseaspecto,pelosorteiodedadossedefinequem éogovernador.Essesorteionãopressupõenenhumaqualidadeespecial,nenhumacompetênciaque promovaadistinçãoentreolídereseussubordinados.Essanomeação,semuma"disposiçãoao comum"jálegitimada,levaaogovernoaquelesquenãosãomaisqualificadosparagovernardoque parasergovernados.Issoaconteceporqueumbomgovernodevetambémserfeitoporaquelesque nãoanseiamopoder,quenãose"dispõema"agovernarpelapossedevirtudesqueseacoplamao seunomeequerevelamconstantementeasuadisposiçãopelocomum.

Essademocracia,quepodesertambémentendidacomopluralismonostermosdeumaentradanavida públicasemumainsígniadevalorreconhecido,éafontededesconfortosteóricosquedePlatão persistematéacontemporaneidade.Rancièreafirmaqueofilósofogregodescrevera,tomandopor referênciao"governopelachance",umestadodecoisascaótico,noqualacidadedemocráticaestaria comseusvaloresinvertidos,comsuaordemnaturalcomprometida:"[A]oinvésdegovernar,os governantestinhamqueobedecer,( )paisobedeciamseusfilhos,eosvelhosimitavamosnovos,e noqualasmulhereseosescravossãolivrescomohomensesenhores"( Rancière,2010a ,p.49­50) 4 .A democraciasetornaumvilão:éummeiodeminaraautoridade,adisciplinaeosacrifícioassociado aosinteressescomuns(SamuelHuntington);éoreinoda"tiraniadamaioria",dasmassas descontroladas,semnenhumaaptidãoparaatomadadedecisões(AlexisdeTocqueville);éa expansãodasdiferentesopiniõesindividuais,quenãoseencontramparaodebate(GustaveLeBon).

Mas,nessemovimento,Rancièrepercebequeademocracia,enquantorupturacomum"modelo

natural"deordenaçãodoscorpos,tambéméainstituiçãosimbólicadopolíticonaformadopoder

daquelesquenãosãodesignadosaexerceropoder.No"governopelachance",ademocraciarevela

queaverdadeiraessênciadaartedegovernaréasuaausênciadeessência.Sequalquerumpode

assumiragovernançaporumsimpleslancededados,entãonãohánenhuma"disposiçãonatural"ao

comando,essa"disposição"écontingente.

Ademocracia,inscritasobacontingênciadadefiniçãodoslugaresedasposiçõesaseremassumidas

pelossujeitos,apontaparaumaigualdadequehánoseiodetodadesigualdade:opoderqueos

governantesexercemsobreosseusgovernadosésustentadoporumacapacidadedecompreensão

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mútuaqueconectaambos.Paraqueumadistribuiçãodesigualdascoisasedoslugaresfaçasentidoé precisoqueosenvolvidosnapartilha 5 sejamcapazesdefalaredeentenderunsaosoutros:"[P]ara obedeceraumaordem( )deve­secompreenderaordemedeve­secompreenderqueépreciso obedecer­lhe.E,parafazerisso,éprecisojáseroigualdaquelequemanda"( Rancière,1996 ,p.31).A "ordemnatural"dascoisasécorroídaporessa"igualdadedeinteligências",quecriaumhiatoentreo queumaconfiguraçãodocomumpermitever(sujeitosqueordenampublicamenteevozespassivas queacatam)eoqueelarealmenteopera(sujeitosemconexãodecompreensãoe,aomesmotempo, desconectadospelasposiçõesdiferentesimplicadasemseusnomes).Emoutraspalavras,opoderdo melhor(obtidoporatributosdenascença,riquezaetc.),sópodeexistirapartirdo"poderdosiguais".

Democraciaeigualdade

JacquesRancièreconstatouaexistênciadaigualdadedeinteligênciasentreaspessoasapartirda históriadopedagogofrancêsJosephJacotot,contadaemOmestreignorante:cincoliçõessobrea emancipaçãointelectual( Rancière,2002 ).Nela,oprotagonista,exiladonoperíodopósRevolução Francesa,acabachegandoaFlandres,regiãonortedaBélgica,eláseencontradiantedadifíciltarefa deensinarparaalunosquesósabiamholandêsflamenco,enquantoelesósabiaofrancês.Jacotot tentaquebraressagrandebarreirainicialatravésdacriaçãodeumpontocomumentreeleeseus estudantes:indicaaelesaleituradeTelêmaco,emfrancês,esolicitaque,apósaleitura,todos escrevamsuasimpressõesdaobranesseidioma.Oprofessoresperavaqueasinterpretaçõesfossem rudimentaresoumesmoincipientes,jáqueessessujeitosestavamprivadosdeexplicaçõese desmobilizadospelasdificuldadesimpostasporumanovalíngua.Masoqueeleencontrounos trabalhosdeseusalunosfoiummaterialdeextremaqualidade,tãorico"comosomenteospróprios francesespoderiamfazê­lo"­segundosuaconcepçãoatéentão.Jacototconcluidessaexperiênciaque, semesmosujeitosabandonadosàsuaprópriasortepodemvirtualmentecompreenderoqueoutros fizerameapreenderam,épossívelentãoque"todainteligênciasejaigualequeestaigualdadesejaum pressupostoquerequerdemonstraçãoenãoumametaqueprecisaseralcançada" (Rancière,2000 ,p.

122).Assim,a"igualdadedeinteligências"nãopresumequetodasasmanifestaçõesdeinteligência

sejamequivalentesentresi,massimque"amesmainteligênciacapazdefazerpoemasfictícios,

invençõespolíticasouexplanaçõesteóricas,éamesmainteligênciaquecompreendeassentençasem

geral"( Rancière,2011a ,p.14) 6 .

Sobesseviés,aigualdadenãoéumdesígnioouobjetivoaseratingido.ElaédescritaporRancière comoumapremissaquepermiteadistribuiçãodesigualdoslugaresaseremocupadospelossujeitose que,portanto,deveserquestionadaeverificadaatravésdaconstanteencenaçãoargumentativae dramáticadeumdano 7 .Esteúltimoexpõeumaformaproblemáticadeinscriçãodossujeitosno comumqueapartaaquelesquepodem"fazer"políticadaquelesquedevemsesubmeteraleise regras.

Rancièreargumentatambémqueaigualdadenãoépontodepartidaparaqueossujeitos,emsituação deparidade(garantidapelauniversalidadedalei),estabeleçamtrocascomunicativasafimdedefinir umcomum,istoé,"umespaçopolêmicodeconfrontoentreformasopostasdedefiniçãodoquedeve sercompartilhado"( Rancière,2009 ,p.277).Pelocontrário:elaasseguraatrocapolíticajustamentepor seralgoaserdeclarado,postoàprovaeverificadoconstantementepelossujeitos.Apolítica,segundo ele,seconstituijustamenteporquecolocaemquestãoapretensaigualdadequeexistiriaentreos sujeitosqueparticipamdavidapolíticadeumacomunidadeequeseriaasseguradapelosdireitos.Esse questionamentodaigualdadepermiteaexposiçãodeumdanonamedidaemquerevelaque, originalmente,existemparcelasquenãosãocontadascomoparteefetivadeumacomunidade,ou seja,existemsujeitosquesãovistoscomoincapazesdeaportarcontribuiçõessignificativasparaavida emcomum.Sobesseaspecto,épossívelafirmarquea"cenadoconflitopolíticoéconstituídapormeio daverificaçãodaigualdadedosfalantesemumacenadedesigualdadeeexplicitaçãodeumdano, fazendocomqueesseespaçocomumapareçaviadesentendimento"( Dean,2011 ,p.91).

Seaigualdadenãoéumpressupostoese,naordemvigente,elaéconstantementecamufladapor nomesatribuídosaossujeitos,conferindo­lhesconsideraçãoevalorizaçãodiferenciadasemrazãode sua"disposição"ounãoparaavidapública­lançandoàsmargensdoprivadoaquelesquenão deveriamfazermaisqueobedeceraoscomandos­,entãoépossível,emumadadasituação,verificar acontingênciadessadistribuiçãodesigual.Oprocessodeverificaçãodaigualdadeenvolveaação criativaepoéticadeevidenciar,naspartilhasatéentãotraçadas(istoé,asdistribuiçõesdovisível,do audíveledoenunciável),oshiatosqueoconsensopretendeapagar,demodoapermitirainstauração decenaspolêmicas.Emtaiscenas,segundoRancière,seconformaumprocessodemocráticotramado como"aaçãodesujeitosque,trabalhandonointervaloentreidentidades,reconfiguramasdistribuições dopúblicoedoprivado,douniversaledoparticular"( Rancière,2006 ,p.61).Suaconceituaçãocarrega

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umapotênciacrítica,jáqueademocraciaéconcebidacomoumaforçadeigualdadenasengrenagens

dadominação,demodoaseexprimircomoaquiloqueafastaapolíticadeserumsimplesreforçoda

lei.

Democraciaedesidentificação

Aquinosaproximamosdanoçãodedemocraciaconstruídapelofilósofoeapresentadacomo"opoder paradoxaldaquelesquenãocontam:acontagemdaquelesquenãosãocontados"( Rancière,2004 ,p.

52).Opoderdaquelesquenãoestãocomputadosnasomadaspartesdosdesignadosparaavida

públicaéodeevidenciarasincongruênciasnaprópriacontagem,asdistânciasqueexistementreos

nomesdossujeitos,comsuastopografiasdemarcadasesuaordemtracejada(ordemquedivideo

poderpelanascença,pelariquezaepelacompetência),easpráticasqueseconfiguramnassituações

concretas,equerevelam,pormeiodeumadesidentificação,queépossívelassumirmaisqueum

nomerestritoaumuniversodeinteresseparticular.

Emlinhasgerais,adesidentificaçãodáaverumaconstanteconexãoedesconexãoentrenomesque

definemparaosujeitopolíticoseulugaremumacomunidade.Alógicadasubjetivaçãopolíticanãoé

jamaisasimplesafirmaçãodeumaidentidade,elaésempre,aomesmotempo,anegaçãodeuma

identidadeimpostaporumoutro,fixadapelalógicapolicial.Apolíciadesejanomesexatos,que

marquemparaaspessoasolugarqueocupameotrabalhoquedevemdesempenhar.Apolítica,por

suavez,dizdenomes"impróprios"queapontamquesujeitospodemsermaisqueoscriptdefinido

pelolugarqueocupamsocialmente:osnomesquerecebemequenãose"adéquam"àclassificação

policialmanifestam,comovimos,apresençadeumdano.

Aigualdadeéentãoavaliadaemsituação,masnãoemproldeumaidentidadequeunificariaos

indivíduosemumtermocomum,massimatravésdasdistânciasquesãoarquitetadasentreelese

seusdiversosnomes.Poresseprisma,ademocraciaéumprocessocontraaprivatizaçãodavida,é

umprocessodealargamentodaesferapúblicaedocomumquedefineaformadeumacomunidade

queganhacorpoquandoessaesferaassumeumaformapolêmica,comoanteriormenteressaltado.

Éimportanteteremmentequeocomum,paraRancière,nãoexisteemsieporsimesmo,masse produznomovimentonoqualeleécolocadoemquestão,nocentrodeumconflitodissensualsobrea existênciadeumacenacomumesobreaexistênciaequalidadedaquelesquenelasefazempresentes equetentam,pormeiodesuasaçõeseenunciações,tratarumdano.Éomovimentoininterruptode definiçãoeredefiniçãodocomumquedelineiaostraçosmaismarcantesdapolíticasegundoRancière, vistoqueeleadefinecomofrutodeumprocessodedesentendimentoquesedesdobraemuma"cena naqualsecolocamemjogoaigualdadeouadesigualdadedosparceirosdeconflitoenquantoseres falantes"( Rancière,1995 ,p.81).Assim,nemossujeitospolíticosnemacenanaqualsedesenvolvem suasaçõessãovistoscomojádados,masganhamcorpoquandosãoexplicitadasasfronteirasque definemquemfazpartedocomumequemdeleestáalijado.

EmOdesentendimento,Rancièrefaladeum"dispositivoternário"quesemanifestanademocracia enquantointerrupçãodadistribuiçãonãoproblemáticadosnomesdeumsujeitoemfunçãodesuas

"competênciaspara"participardocomum:1)"ademocraciaéotipodecomunidadequeédefinido

pelaexistênciadeumaesferadeaparênciaespecíficadopovo"( Rancière,1996 ,p.102)­essaaparência nãoéumailusãoqueseopõeaoreal,massimaintrodução,noâmbitodaexperiência,deum"visível quemodificaoregimedovisível"( Rancière,1996 ,p.102);2)Opovoquetomaessecampode aparênciasnãoseenquadraemdefiniçõessociológicaseétnicas­opovo(demos),porintermédiodo qualhádemocracia,é"ainstituiçãodesujeitosquenãocoincidemcompartesdoEstadoouda sociedade,sujeitosflutuantesquetranstornamtodarepresentaçãodoslugaresedasparcelas"

( Rancière,1996 ,p.103);porfim,3)Rancièreargumentaqueaaparênciadessepovoéolugarde

conduçãodeumlitígio,quenãoéumconflitodeinteresses,mas"umainterlocuçãoquepõeemjogoa

própriasituaçãodeinterlocução"( Rancière,1996 ,p.103).

O"dispositivoternário",queassociaoaparecerdodemosparaotratamentolitigiosodeumdano,pode serativadocomocenademocráticaemqualquerlugar( May,2009 ).Na"ordemnatural"osatoresse constroememsuassituaçõesdefalasemquestionaroslugaresqueocupamnasociedade­aindaque adistribuiçãodesigualdeposiçõesentreelessósejapossívelpormeiodeumpressupostode igualdade.Masessacontingênciada"ordemnatural"écontinuamentepassíveldeseraveriguadapor essamesmapremissa.NaspalavrasdeMay,"ademocraciapolíticapodeemergiremqualquerlugar, desdeoespaçodetrabalho,passandopelasaladeaulaatéoteatroouarua"( May,2009 ,p.17).Mas porquenemsempreissoocorre?

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RancièrevemsendocriticadoexatamentenessepontoporautorescomoPaulina Tambakaki(2009 ).Para ela,afilosofiapolíticadoautorpermiteentreverolitígioinstauradonodispositivoternárioda democraciaocorrendosomenteemmomentosraros,pontuais­enemsempreeficazes.E,seapolítica érara,elapodenuncaocorrer,epodenuncarevigoraroregimeconstitucionalouumamaneira particulardedistribuiçãodesigualdosnomeseespaçosaseremassociadosaossujeitos.Acreditamos, contudo,queháumaincompreensãoporpartedessaautoradoqueestásugeridonopensamento políticodeRancière.Emumtextorecente,opróprioautorrespondeuaestacríticadaseguinteforma:

Nãosignificaqueeureduziapolíticaamomentosexcepcionaiseevanescentes.Amera encenaçãodopolíticoraramenteapareceemumaformapura,mashápolíticaemuma porçãodemeios"confusos"econflituosos,eapolíticafazumamemória,umahistória.E háumadinâmicahistóricadapolítica:umahistóriadosacontecimentosquerompemcomo

curso"normal"dotempo(Rancière,2011a,p.5).

Tendoissoemmente,importanteéressaltarqueapolíticaeademocraciaemRancièrenãosãoraras, jáqueaaparentefugacidadedelasé,narealidade,umacaracterísticaqueasimpededeserem elevadasaumnívelontológico(comosehouvesseummodoprópriodapolítica,umtipodeinscrição padronizadaparaademocracianascenas).Ainterrupçãona"aparênciavisível"epretensamente naturaldoscorpospodeacontecerdemuitasmaneiras,eprecisaseracompanhadaemato,emsua realização( Deranty,2003 ).Nessasaçõesconcretasdeverificaçãodaigualdade,opensamentode Rancière,comoapontaChristian Ruby(2007 ),evidenciaumaprofundaconfiançanacapacidadedos sujeitosdeinterromperocursopresentedomundo,apostando,paratal,emumapolíticadaação,e emumademocraciaqueevocaque"ofimdaaçãonãoésóodeseinserirdentrodaquiloquejá existe,masdeconstantementeredesenharainstânciadavidacomum"( Ruby,2007 ,p.166).

Acompreensãodapolíticacomoaçãoquepromoverupturasnaordemconsensualpormeiodo dissensoéretomadaporRancièreemumaentrevistaconcedidaaMax Blechmanetal.(2005 ).Nela,os entrevistadoresinterrogam­noseaatençãoparaassituaçõesemquesãocriadasirrupçõesà"ordem natural"temcomopontodechegadaautopiadeumacomunidadepolíticaideal.Emsuaresposta, Rancièresalientaqueestámenospreocupadocomosresultadosdosmovimentosdereconfiguraçãodo sensíveldoquecomo"empoderamentodasatuaiscapacidadesdequalquerumatravésdaprática dissensual"( Rancière,2005 ,p.292).Issoporque,seestivesseimersaemcadamanifestaçãodapolítica apeçadeumquebra­cabeçaquelevasseaumprojetofuturoemquefossepossívelencaixartodosos itensemseusdevidoslugares,entãonãohaveriamaisespaçoparaodissenso.ParaRancière,tal projetode"comunidadeporvir"remeteàpropostadePlatãodeumacomunidadeconsensualconcreta ­formadeorganizaçãoemquenãorestariampartesnãoregistradasnacontadasociedadeoumesmo oportunidadesparaquea"ordemnatural"dadistribuiçãodepapéiselugaresfosseabaladapor elementoslitigiosos.

Comessaargumentação,oautoradvogaemfavordeumaemancipaçãoavaliadaenquantoprocesso,e nãoapartirdeseusresultados.DentreosleitorescríticosdeRancière,Todd May(2010 )éaqueleque maisacompanhatallinhaderaciocínio,assegurandotambémque,seomovimentoemancipatório fossesubordinadoaosseusresultadosfactíveis(areorganizaçãodosensívelefetuada),haveriaa tendênciadequefossedesqualificadoemseucaráterpolítico,casonãoatingisseumobjetivopré­ estipuladoestrategicamente.Assim,aavaliaçãosobreoqueseriaounãopolíticaseriarealizadanãoa partirdaemergênciadeumacenadedissensoemsuamaterialidade,masporforçasexternasquese responsabilizariamemjulgar,deforadaação,suaefetividade 8 .Nessehorizonte,ficariaperdidoum elementoimportantedapolíticaemancipatóriaedademocracia,queéoprocessodereconfiguração dasvidasdaquelesqueparticiparamdeumacenadedissensonaocasiãodesuamaterialização (incluídosaquitambémaquelesqueseviramrepentinamenteemumasituaçãonaqualelementos antesnãovisíveiseaudíveisemseucampodepercepçãopassaramaexistir).NaspalavrasdeMay, "ummovimentoquesurgeapartirdapressuposiçãodaigualdade,masquenãoatingeumimpacto,é falho.Contudo,éummovimentodemocrático"( May,2010 ,p.78).

MasapreocupaçãodeRancière(edealgunsdeseusleitores)comomomentoemqueéconstruída

umacenadedissenso,dirigindoumaatençãocontínuaparaoprocessodeverificaçãodaigualdadeem

seudevirpode,entretanto,levaraumaapreensãorestritivadademocraciaeaumavisãotrágicada

história,quepraticamenteanulaaesperançaquemobilizasujeitosalutaremembuscade

transformaçõessociais(sobreoque,comoserávistoadiante,opróprioRancièrejáprocurou

discorrer).Oesclarecimentodosegundopontotornaráoprimeiromaisclaro.Comotratado

anteriormenteatravésdaremissãoaPlatão,"aordemnaturaldascoisas"éadesigualdadena

distribuiçãodoscorposnacomunidadepolítica,responsávelpelaexistênciadeelementosnãocontados

nasomadaspartesdasociedade.Massãoesseselementosquetêmopotencialparainstituir,pela

democracia,aaçãopolíticaemancipatória,revelando,nacriaçãodeumacenalitigiosa(quesevaledo

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axiomadaigualdadedeinteligências)umprocedimentocontínuodeverificaçãodaigualdade.Tal

procedimentoexpõeasfraturasnaformadesigualdecontagemdoscorpos,vozeselugaresde

existênciae"aparência"queeraefetuadaatéentão.

Porém,setodaordemé"naturalmente"desigual,comoexpõeOliver Davis(2010 ),entãoqualquer tentativaderedistribuiçãoigualitáriapromovidapormecanismosinstituídossópromoveriaa reproduçãodadesigualdade(aindaquesepossafalarempioresemelhoresordenspoliciais,nos termosdeRancière).Issoporqueadistribuiçãopresumeumdistribuidor,e,paraRancière,aigualdade nãoimplicapassividade,massimuminteresseativodossujeitosenvolvidosquesofremcomumdano. Masnãosóasboasintençõesdeorganismosinstituídosestãocomprometidasnessavisada.Emuma açãopolíticaemancipatóriabem­sucedida,oresultado,namelhordashipóteses,éumareconfiguração daordemdosensível.Masquandoacenadedissensoseaquieta,aformadecontagemdaspartesda sociedadecontinuadesigualemsuacontingênciacaracterística.Bruno Bosteels(2009 )concluidesse raciocínioqueahistóriaparaRancièreestariasubsumidaàspráticasopressivasededominação.Para esseautor,asconjunturashistóricasnopensamentodeRancièreestariamdeterminadasenquanto sucessivasépocascobertasporumaformainvariantedepolítica(policial),aqualpossuiuma "propriedadeimprópria",queéadepossuirumsegredo,qualseja,aigualdadedetodoscomtodos queservecomobasedoabismooriginalnaordemcomunitária.Sobesseaspecto,háuma despolitizaçãohistóricadasmudançassociaiseumaassociaçãodafaceestataldapolíticaaumdestino (poisasformas"policiais"sãoconstantesaolongodotempo).

Sendoa"ordemnatural"contingenteum"destino",elevandoemconsideraçãoque,peloprincípioda igualdadedeinteligências,nãoépossíveldizerqueexistamatoresmaisconscientesdasformasde exploraçãoedeopressãodoqueasprópriassubjetivaçõespolíticasquederivamdodemos(ousem­ parte) 9 ,logoaaçãoemancipatóriaperdedevistatodaaesperançademudançaqueaenvolve:seos sujeitosjásabemoqueénecessárioparacriarumacenapolêmica,esesabemqueaofinaldesua mobilizaçãonãoterãobonsresultados,oumesmopoderãovislumbrarprofundastransformaçõesna sociedade(mesmoemumfuturolongínquo),entãoporqualrazãoelesagem?

NaentrevistaacimareferidaqueRancièreconcedeuaMax Blechmanetal.(2005 ),essaquestãodesponta deoutramaneira,ouseja,comosentrevistadoresinterrogandooautorsobreatragicidadedeseu pensamentopolítico,quepercebeasrupturascomocontinuamentereincorporadasàordempolicial. Rancièrerespondeaosentrevistadoresqueoqueévistoporelescomouma"reincorporação"das irrupçõesàdistribuiçãohierárquicadoscorposemcomunidade,poreleéavaliadoenquantoum processode"sedimentação",emqueseconstróiuma"vivamemóriadapolítica"quepoderáser reencenadaemumaocasiãoposterioroportuna,levandoanovasinscriçõesdaigualdadequesevalem deleis,instituiçõessociaisconstituídasetc Emsuaspalavras,"oslugaresdesedimentaçãosão tambémlugaresparainscriçãodesignificantesdemocráticosquepodemabrir,equeabrem,novos

espaçosparaodissenso"(Rancière,2005,p.298).Porisso,aindaqueconsidereasrealizações

operadaspelaaçãopolíticacomoprovisórias,nãoasapreciacomotrágicas.

Porém,senovamenteretomarmosomovimentodeRancièrederefletirsobreadesigualdade, considerandocomoiguaisaquelesqueaordemsocialjulgacomodesprovidosdecompetênciaspara tomarpartenocomum(deformaaacompanharseusanseiosnaconstruçãodecenaslitigiosas),não parecefazermuitosentidoqueessessujeitossejammotivadosadarinícioaumprocedimentode verificaçãodaigualdadeeexporumdanosemesperançasoutrasquenãoasdeumaremota possibilidadedesedimentaremosresultadosdesuasaçõespolíticasemumtipodememóriahistórica (quepoderáounãoserreavivadanofuturo).Ossujeitosorganizamsuasesperançasedesejosemprol deemancipaçãoedereformulaçãoconcretadaordemvigente(oquenãoquerdizerqueelesaspiram aqueelasetorneoutraordem,massimqueelaaomenospoderásetransmutar,apósaação,emum tipodeorganizaçãosocialmaisafeitaaconsideraraigualdadeumprincípiodeinterlocuçãoentre coletivos).ComoAlberto Toscano(2011 )afirma,mesmoqueosmomentospolíticossejamrarosese manifestemconfusamente,nãoépossíveldesconsiderarque,emsuaemergência,elesvisamamais doquesuabrevecontinuidadepodeoferecernocurtoprazodeumlitígio.

Toscanoressaltaquea"emancipaçãoéumprocessoquenãopodesersimplesmentereduzidoà afirmaçãodaigualdade,masenvolveanecessidadedenosvoltarmosemdireçãoàinvestigaçãodas condiçõesparaainstituiçãoedurabilidadedaigualdade"( Toscano,2011 ,p.232).Segundoopesquisador italiano,comessametaemvista,oreconhecimentodanãonaturalidadedadominaçãosetornamais ummotivoparainvestigarsuaespecificidade(oqueédiferentedeassumi­lacomoumdestino incontornável).Nessainvestigação,pode­segerarumpensamentocontra­hegemônicopassíveldese tornarumacriativaoposiçãoadesigualdadesestruturais,interferindonaordemvigenteerastreando maneirasdeproduzirconhecimentoemancipatório,afinal,éprecisoconheceralgoparaseoporaele

( Toscano,2011 ).Emsuma,paraesseautor,seRancièrenãoreconheceadeterminaçãodaaçãoquefaz

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comquesujeitoscriemumacenadissensualvisandoatransformaçõesconcretasnaspartilhasdo sensível(enãosósedimentaçõesmnemônicas),passaentão"aeternizarainvarianteetranscendental estruturadadominaçãoedaincapacitação(apolícia)"( Toscano,2011 ,p.232).

Peter Hallward(2009 )fazcoroàscríticasacimatecidasaopensamentopolíticodeRancière,chegandoà constataçãodequeaconcepçãodedemocraciadesseautorérestritivaequiçáinconsequente.Se"a políticaémaisummeiodereconhecerumadesautorizaçãoedeslegitimaçãogeneralizadadoqueuma formadeparticiparemprocessosagonísticosnosquaisaspessoassetornamautorizadas,deforma inédita,pormeiodeumprincípioativodemilitância"( Hallward,2009 ,p.155),entãooqueseperdeaqui éumolharparaadeterminaçãodaação.ParaHallward,Rancièrenãoolhaparaaslutasqueperduram nacenapúblicaequenecessitamdeorganização,defidelização,detomadadeposição(paraalémda manifestaçãodairrupção).Oquepodeocorrer,porfim,équeopensamentodeRancièrerecaiaem umolharinconsequentedademocracia,quesupõequeojogodaigualdadeedapolíticapossaporsisó bastarparaaconstruçãodecenasdissensuaissólidas.Oriscodissoéacabaremum"reinode substancializadodaimaginação",ótimoparaasteorizações,maspoucooperacionalizávelnaprática concretadalutapolítica( Hallward,2009 ).

Pós­democracianacontemporaneidade

Aoargumentarqueademocracianãopodesercaracterizadaexclusivamentepelauniversalidadeda lei, Rancière(2010a )defendeaideiadeque,umavezqueauniversalidadeéconstantementeprivatizada pelalógicadaaçãogovernamental,ouniversaltemquesersuplementadoporformasdesubjetivação ecasosdeverificaçãoqueimpeçamaaceleradaprivatizaçãodavidapública.Contudo,eleapontaque asubjetivaçãopolíticaeaverificaçãodaigualdadeencontram­seemdificuldadesnomodelo democráticopautadopeloneoliberalismo.Nessemodelo,ademocracia"nãoémaispercebidacomoo objetodeumaescolha,masvividacomoambientefamiliar,comoohabitatnaturaldoindividualismo pós­moderno,nãomaisimpondolutasesacrifíciosemumacontradiçãoextremacomosprazeresda eraigualitária"( Rancière,2010b ,p.75).Essademocraciavividaémaisambientedoqueluta;éo espaço/cenárionoqualnosencontramosaoinvésdeumaposiçãorequerendosacrifícioedecisão. Comohabitat,ademocraciaassumeumafacetaética.

Noqueserefereàguinadaouviradaéticadapolítica, Rancière(2010b )enfatizaqueaéticase configurariahojecomoacolonizaçãodofatopelodireito,ouseja,asupressãodadivisãoentrefatoe direito 10 ,quedefineummododeestruturaçãosimbólicadacomunidaderesponsávelporafastaro dissensoeestabeleceraidentificaçãodetodasasformasdediscursosedepráticassobomesmo pontodevistaindistinto:opontodevistaconsensual.Oconsenso,segundoele,nãodeixaquesurjam intervalosentreovividoeanorma:eleforçaumacoincidênciaentreambos.Seuobjetivoseriaode produzirumasobreposiçãoentreleisefatos,demodoqueasleissetornassemidênticasàvidasocial, preenchendointervaloseespaçosvazios( Marques,2013 b).

Após­democraciaédescritapor Rancière(2010b )comoumademocraciaqueeliminaaaparênciaea disputa,ficandoreduzidaaosmecanismosdoEstadoedacombinação/trocadeinteresses.Essa democraciadoconsensodestróiadisputaemarcaareduçãodapolíticaaodiscursoconsensualdo estadooudalei,quepromovemaisdoqueumlastroconsensualparaacoexistência.Após­ democraciacimentaoprogramadoEstado,impõeumapercepçãounidimensionaldomundoemque conflitosedesentendimentosforambanidosdoreinodavisibilidade,dacenadeaparência,retornando somentesobformasmalignas,sobosignodasupressãoeeliminaçãodaalteridade( Tambakaki,2009 ,p.

102).Oconsensoapagaapolíticaporqueelaestánodissenso,nalutaenacontestação.

Oconsensoestabeleceentãoumenquadramentoconceitualeimagéticoparaqualquerinteraçãoe discussão,cujascontradiçõespassamdespercebidasporcoincidiremcominteresseshegemônicosou porrefletiremsituaçõesexistentesevistascomoinalteráveis.Porisso,elereduzoprocessopolíticoa umjogodeespecialistas( Rancière,2004 ).Se,porumlado,nãohásujeito(nemcomunidade)sem normas,deoutro,reduzi­loereduzirsuasexperiênciasaoâmbitodanormatividadesignificariauma adequaçãoperfeitaàregulaçãoinstitucionaleestatal.

Napós­democracia,segundoRancière,"acomunidadepolíticatendeasertransformadaemuma comunidadeética,quejuntapovosepartessingularesemumúnicopovoqueésupostamentecontado comoigual"( Rancière,2010b ,p.189).Todosestãoincluídos.Osexcluídosnãosãomaisatores conflituais,masaquelesqueacidentalmenteseencontramforadagrandeigualdadedetodos,para quemacomunidadeprecisaestenderamãoafimderestabelecerovínculosocial.Nacomunidade política,aquelesquenãosãocontadoscomoparte,comoparceirosiguais,aparecemcomosujeitos políticossuplementares,portandoumdireitoqueaindanãofoireconhecidooutestemunhandouma

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injustiçanoestadodedireitoexistente.Masnacomunidadeéticaessesuplementonãoaparecemais

umavezquetodossãoconsideradospartesintegrantesdeumcoletivo.

EssaimagemtraçadaparacaracterizaracomunidadeatualretrataadescrençadeRancièrecom relaçãoàdemocraciainstitucional,umavezqueesseregimereiteraareduçãodapolíticaaodiscurso consensualdoEstadooudalei,promovendoumadissociaçãoentreexperiênciasenormas.Porisso, eleopõeàcomunidadeéticaumacomunidadedepartilha.Estaúltimaresultadoprocessode verificaçãodaigualdade,umavezqueelacriaumespaçoquepressupõeapartilhadamesmarazão, mastambémumespaçonoqualaunidadesóexisteemumaoperaçãodedivisão:"umacomunidade polêmicadepartilhasuscitadaporimporumaconsequêncianãoreconhecidadaigualdadegarantida porlei"( Rancière,2004 ,p.166).

Alberto Toscano(2011 )éumdoscríticosdessadescrençadeRancièreparacomostemposatuais,ediz queeladerivadapróprialógicaargumentativadoautor.SegundoToscano,Rancièrepensaaordem existentecomocontingente,eacreditaquetodoesforçoportentarencontrarumaordemnessalógica sópodelevaràreproduçãodadominação.Nãohágradaçõesnessetipodepensamento,etodaideia deordemsocialéconcebidaoucomocontingenteoucomo"natural"(comoanteriormentefoi discutido).Assim,pensaradinâmicaeconômicacontemporâneaseriaatuarjuntoaomercado neoliberal(polícia),epensarnanecessidadedaeconomiaserialevaraumadesconfiançaaindamaior comahonestidadedopropositor.Aideiade"realismo"tambémsóseriaaduplicaçãodarealidade comodestinodentrodosistemaconsensual,ea"necessidade"umatautologia(talqualsuaasserção axiomáticasobreaigualdade).

Poressavisada,nãosurpreendequeapolíticasejapercebidacomo"rara"emtalconceituação,jáque elasóocorreriaparaforadetodasasredesdeorganizaçãosocialexistentes.Menosimprovávelainda seriadizerquevivemostemposapolíticos,jáque,emtaldefiniçãodepolítica,quaisquerépocas seriamapolíticas( Toscano,2011 ).Jodi Dean(2011 )tambémacompanhaessacrítica,diagnosticandoque, aocontráriodoqueapresentaRancièrecomaideiadepós­democracia,nostemposatuaiscadavez menosaspessoasseencontramemsituaçãodemútuoentendimento(comonasconversasemredes sociaisentrepessoasquepartilhamentresiumaigualincompreensãomútua).Nessesentido,aautora defendequeserianecessáriaapresençamaisincisivadaordempolicialemdeterminadas circunstâncias,comoparaexcluirgruposfundamentalistasdadistribuiçãojádesigualdoscorposem comunidadeoumesmoparaprotegersujeitosfragilizadosporumacondiçãodeexpropriaçãoe opressão.

CONSIDERAÇÕESFINAIS

Asrelaçõestraçadasentreosconceitosdedissenso,política,igualdadeedemocracianopensamento

deRancièresuscitam,comovimos,váriascríticas.Consideramosrelevanteretomá­lasbrevemente

para,emseguida,apresentarcomoRancièrenosfornecealgunspontosdeesperançaparaa

democracianohorizontedeumacenaconsensualdominante.

Umaprimeiracríticaremeteaoentendimentodepolíticacomomomentopontual,enãocomo processo.AutorescomoSlavoj Žižek(2004 )ePeter Hallward(2009 )afirmamqueRancièrenãoexplicapor queecomoexatamenteapolíticairruptivairáperturbaraordempolicial,enemcomoasirrupções darãoorigemaumprocessodemudançasquesesustenteaolongodotempo.Paraambos,os desdobramentosdoenfrentamentopolícia/políticasãopoucoexplorados,sendoqueapolíticapoderia seresumiraumaaçãoprovocadora,perturbadora,queinterrompeofluxodeoperaçõesdaordem policial,masqueacabaseconfigurandocomopontual,semumplanejamentoparaaefetiva incorporaçãodasmudançasreivindicadas.

Osefeitosdapolíticaentendidaenquantocriaçãodeumacenateatraldedissensosão esporádicoseintermitentes.Umavezqueacenaédesmontada,restapoucoounada.Uma sequênciadeimprovisaçãoédifícildesermantidaalongoprazo.Faltainvestiremumtipo depoderqueapolíticatenhadeimporumamudançaefetivanaconfiguraçãodeuma

situação(Hallward,2009,p.152).

Žižek(2004 )comentaqueRancièreresisteemdesenvolvermelhorapontamentossobreoprocessopor meiodoqualessesmomentosdedistúrbio(ou"explosõesdemocráticasmomentâneas"queminama ordempolicialestabelecida)sãoreabsorvidosporessaordemquepretendemreconfigurar.Comisso, eleestarianegligenciandoumasegundadimensãoqueévitalparaapolíticaemancipatória,ouseja,a dimensãoprocessualquedesempenhaopapeldetraduzir/inscreveraexplosãodemocráticanaordem policial,impondoàrealidadesocialumanovaordem.

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Umasegundacrítica,queestáintimamenteligadaàanterior,decertomodo,sustentaque,para Rancière,apolíticaéumtipodedesautorizaçãogeneralizadaoudedeslegitimaçãodapolícia­maisdo queumaquestãodeparticipaçãoemprocessosagonísticospormeiodosquaisaspessoassetornam politicamenteautônomas( Tambakaki,2009 ).Talcríticapodeserexpressaatravésdasseguintes questões:"Emquemedidaaordempolicialseapresentavulneráveldiantedasinvestidas perturbadorasdacenadedissenso?AconcepçãodeigualdadedeRancièreésótransgressiva, provocativa,ouapontaparamudançasmaisprofundas?"( Hallward,2009 ,p.153).

Davis(2010 )tentaquestionarainvalidaçãodopensamentodeRancièreapartirdaoposição"pontualvs. processual",quesupostamentecaracterizariasuaconcepçãodeaçãopolítica,afirmandoqueRancière nãodesconsiderasernecessáriolevaremcontaoprocessodeinscriçãoemobilizaçãoquesegueo momentodarevolta.Antesdetudo,éimportantedizerqueRancièrenuncaestabeleceuumaseparação dicotômicaentreaçãopolíticaderupturaeaçãopolíticadeconsolidaçãodemudançasdelongoprazo. Apenaselesemostramaisenfaticamentepreocupadocomoprocessopolítico­poéticodecriaçãoe instauraçãodecenasdedissensopelossujeitospolíticosquandodesejamcolocaràprovaoestatuto igualitárioquelheségarantidopelasleisenormas.

Paraentraremumatrocapolítica,torna­senecessárioinventaracenanaqualaspalavrasditasse tornamaudíveis,naqualosobjetospodemsefazervisíveiseosindivíduospodemserreconhecidos.É

nessesentidoquepodemosfalardeuma"poéticadapolítica"(Panagia,2000,p.116).

AaçãopolíticaparaRancièrenecessita,portanto,deumacombinaçãodedoisprocedimentosque,ao contráriodoqueindicamoscríticos,nãopodemserseparados.Deumlado,elaprecisademomentos poéticosnosquaisseformam"novaslinguagensquepermitemaredescriçãodaexperiênciacomum, pormeiodenovasmetáforasque,maistarde,podemfazerpartedodomíniodasferramentas linguísticascomunsedaracionalidadeargumentativa"( Rancière,1995 ,p.91).E,deoutro,aaçãopolítica requeruminvestimentogradativodossujeitosemumacomunicaçãoargumentativaedialógicacapaz depermitiraverificaçãodaigualdadeeatransformaçãodevozesdesorientadasemdiscursosde contestaçãoeresistência."Assim,nãosepodesepararumaordemracionaldeargumentaçãodeuma ordempoéticadocomentárioedametáfora,poisapolíticaéproduzidaporatosdelinguagemquesão, aomesmotempo,argumentaçõesracionaisemetáforaspoéticas"( Rancière,1995 ,p.86).

Emsuma,asituaçãodecomunicaçãoinstauradanascenasdedissensomarcanãosóaimportânciada

contextualização,doreconhecimentoedavisibilidadedosinterlocutores,mastambématematização

argumentativo­poéticadeumobjeto/questãopercebidocomopertencenteaoâmbitodo"comum".

Porfim,umaterceiracríticaendereçadaaRancièrepodeserarticuladaapartirdaseguinte

provocação:comoodissensopodeserbenéficoparapráticasdemocráticas?Vimosqueademocracia

institui,masnãofacilitaolitígiopolítico,aindamenoshoje.QuandoRancièrefalaarespeitodapós­

democracia,elebuscajustamenteinvestirnarestauraçãodepráticaspolíticasdissensuaisemmeioa

umavassaladorambientedeconcordânciaedesmobilizaçãogeradoporumaéticaquenãoenxergaa

igualdadecomoprocessodeconstanteverificação,mascomopontodepartidaque,apriori,afirmaa

inclusãolegaldetodosnacomunidade.Apesardesseesboçosombriodoqueseriaaatuaçãodaética

noâmbitopolíticoatual,Rancièreapontaque,antesderemeteràsnormas,aéticadeveriaser

examinadaapartirdeduasdimensõesprincipais:ethoscomomododeser,comomododevidaque

garanteaossujeitosoestabelecimentodeumaidentidadeevínculocomumentorno;e,emsegundo

lugar,ethoscomoprincípiodeação.Pormeiodessesegundosentido,aéticatambémapresentariaum

carátersocial,pois,emboracentradanoindivíduo,elaédomíniodeinter­relação,dasrelaçõessociais

nointeriordasinstituiçõesedascomunidades.Aéticaestariaassociada,noâmbitodacomunidadee

desuasaçõesepráticas,àatribuiçãoacadaumdasuaparte,sendocadaumdestinatáriodeuma

partilhajusta.

Épossíveldizerque,demodogeral,aquestãodaéticaemRancièreédadapelomodocomoapartilha dosensívelérealizada.Ditodeoutromodo,sãoasformasdepartilhadosensívelquedefinema maneiracomoosindivíduosserelacionam,nomeiamoqueconsideramjustoouinjustoeconstituemo comumqueosarticulaemumacomunidade.Aéticaassociadaàpartilhadosensívelpromovidapela políciaprivilegiaossujeitoscujaocupação(trabalho)eposiçãosocialdefinemeatestamsuas competênciasaocomum,fazendo­osvisíveiseaudíveisemumespaçodiscursivo.Jáapartilhado sensívelpromovidapelapolíticavisaretiraroscorposdeseuslugaresassinalados,configurandouma comunidadedepartilhaelibertando­osdequalquerreduçãoàsuafuncionalidade.Nessesentido,a democraciaseconfiguracomocomunidadedepartilhanosdoissentidosdotermo:umaadesãoaum mundoquesópodeserexpressoemtermosantagônicos(divisão)eumestarjuntos (compartilhamento)quesópodeassumiraformadeumconflito( Rancière,2004 ).

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Democracy and post­democracy in the political thought of Jacques Rancière considering the notions of equality, ethics and dissensus

Apartilhadosensívelassimconcebidainstauraumconflitoacercadoquesignificafalar,assimcomo sobreoshorizontesdepercepçãoquedistinguemoaudíveldoinaudível,ocompreensíveldo incompreensível,ovisíveldoinvisível.Aéticavistasobesseaspectorestituiriaàdemocraciaseu caráterdeinsurgência,deruptura,dereconfiguraçãodoimaginárioatravésdacriaçãodecenas dissensuaisnasquaisaigualdadeéconstantementepostaemquestão.Odissensoalimentaaprática democráticaquandoatravessadopelaestética,quandodáavercenas,personagens,manifestaçõese enunciaçõesqueconstroemumtipodeparticipaçãoqueimplicaaconstantereinvençãodossujeitose dosespaçosdesua"aparência". Rancière(2004 )ressaltaqueapermanênciadademocracianãoestá associadaaopreenchimentodetodosostemposmortoseespaçosvaziosporformasdeparticipaçãoe decontra­poder,masàrenovaçãoconstantedosatoresedesuasações.Porisso,aexperiência democráticadissensualétambémpermeadapelaestética:osujeitodemocráticoéumserquetomaa palavradiantedooutro,eétambémumsujeitopoéticoquereconfiguramaterialmentee simbolicamenteoterritóriodocomum.

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1 "Emmeutrabalho,tenteiconceitualizarapráticademocráticacomoainscriçãodapartedaquelesque nãopossuemparte­oquenãosignificaosexcluídos,masqualquerum.Essainscriçãoéfeitapor recémchegados,quepermitemquenovosobjetosapareçamcomopreocupaçõescomuns,enovas

vozesapareçamesejamouvidas"(Rancière,2010a,p.60).

2 AdistinçãoqueRancièreestabeleceentreseupensamentopolíticoeaTeoriadaAçãoComunicativa nãoseconfiguracomoumacríticaaprofundada.Trata­semenosdeummovimentodeseposicionar "contra"Habermas­afinalRancièretambémestátratandodainterlocuçãocomunicativa­emaisum movimentodereafirmarseuargumentodequeaessênciadapolíticaéodissenso(emHabermas,o dissensoperturbaoalcancedoentendimento).EmRancière,oconsensonãosignificaconcordância argumentativa,masavitóriadaordempolicialqueatodospareceincluir,diminuindo,assim,as chancesdeocorrerumadivisãonosensocomum,umadisputasobreoqueédadoesobreo

enquadramentosegundooqualvemosalgoqueédado"(Rancière,2004,p.69).Paraumareflexão

maisdetalhadaacercadaoposiçãoentreHabermaseRancière,verMarques(2013a).

3 AexplicaçãoquePlatãoencontraparaaordemsocialemergeemummomentoemquesurgira

odemosnasociedadegrega.SegundoOliverDavis(2010),odemosdoqualRancièrefalaapareceuem

594antesdeCristo,quandoasreformasdeSolonaboliramaescravidão,permitindoosurgimentode

umaclassedesujeitosquenãopossuíamnenhumdosatributostradicionaisparaavidapública

(riqueza,nascençaouexcelênciamoral),masque,aindaassimdesejavamparticipardoprocesso

político.Essedesejofundouodanoinaugural,querevelouqueaquelescompreendidospelodemosnão

eramcontadosnasociedade.

4 ComoexplicaPeterHallward(2009),oestadodecoisascaóticodescritoporPlatãonãosóé

decorrentedeodemosteralcançadoogoverno,mastambémdaexpansãodoteatro.Platãoexclui

ambosdaesferapública.RancièrepercebequeesseincômodoemPlatãoderivadeseuentendimento

dequeamimesesconfundiriaaordemdascoisasedasdistribuições.Noteatro,osatoressão

seduzidosaagirdemododiferentedospapéisatreladosaseuslugaresfuncionaisedistribuídos

previamente.

5 "Apartilhadosensívelfazverquempodetomarpartenocomumemfunçãodaquiloquefaz,do tempoedoespaçoemqueessaatividadeseexerce.Assim,terestaouaquela'ocupação'define

competênciasouincompetênciasparaocomum"(Rancière,2005,p.16).

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6 NaspalavrasdeToddMay,"setomamosaigualdadedeinteligênciasemumsensomaiscotidiano paraindicarquesomoscapazesdeconstruirvidassignificativasaoladodeeeminteraçãocomoutros, entãooconceitodeigualdadedeinteligênciassetornamaisconvincenteemaisrelevante

politicamente"(May,2010,p.77).

7 Nacenaconflitualdapolítica,umdanoénomeadoeapresentadocomoalgoqueexpressaafalhada ordemsocialpolicialemreconheceraigualdadequedeveriaexistirentreaspartesqueintegramuma comunidade.SegundoRancière,odanonãoéumainjúriapontualcausadaaumindivíduoougrupo, deixando­osàesperadeumacompensação."Nãohápossibilidadedereparaçãododano,masháum lugarcomumpolêmicoparaotratamentododanoeparaademonstraçãodaigualdade"(Rancière,

2004,p.121).

8 ToddMayilustraessaproblemáticadaseguinteforma:"Imagineummovimentoqueemergeapartir dapressuposiçãodeigualdade,masqueenfrentaumaordempolicialtãoentrincheiradaquefalhaem promovermudançasnareferidaordem.Seaausênciadesucessofoirelevanteparaaquestãodequal movimentoédemocrático,entãoocaráterdemocráticodoengajamentopolíticonãoseriamais

definidopelodemos,masporforçasexternasaele"(May,2010,p.78).

9 ConformeobservadoporDeranty(2003),pelacondutaepistemológicadeRancièrenãoépossível

dizerqueointelectualtemmaisconsciênciadaexploraçãodoqueaquelesquesãoexplorados(opapel

doinvestigadornestesentidoseriasóodeajudarossujeitosaexpressarsuaprópriaexperiência).

10 Adistinçãoentrefatoedireito,entreseredeverser,éfeitanointuitodesalientarqueas

experiênciasnãopodemsersubsumidas,dirigidasereguladaspelasnormassoboriscodeuma

diluiçãodaespecificidadedaspráticaspolíticas,culturaisesociaisdossujeitos.

Recebido:30deSetembrode2014;Aceito:21deDezembrode2014