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O GOVERNO JOÃO GOULART AS LUTAS SOCIAIS N O BRASIL -1961-1964 8 edição revista e a m p l i a d a a CONCLUSÕES Se o golpe de Estado no Brasil não f o i absolutamente inevitável, também não f o i absolutamente casual. Fatores vários confluíram e determinaram a queda do governo de João G o u l a r t , em l de abril de 2 1964, em meio a contradições sociais e políticas, tanto internas quanto externas, que o forte i m p u l s o da industrialização do país, durante os anos 1950, aguçou. O golpe de Estado em 1964 constituiu u m episódio da luta de classes, c o m o qual o empresariado, sobretudo seu setor estrangeiro, tratou de conter e r e p r i m i r a ascensão dos trabalhadores, cujos interesses, pela primeira vez na história do Brasil, condiciona- v a m diretamente as decisões da presidência da República, devido às vinculações de João Goulart com os sindicatos. A s multinacionais, que investiam nos países em desenvolvimento, como o Brasil, em busca de fatores mais baratos de produção, para compensar a queda da taxa de lucro nos Estados U n i d o s e na Europa, não p o d i a m tolerar, naquela conjuntura, u m governo sensível às reivindicações sindicais, o esta- belecimento de u m regime do tipo social-democrata, de garantia do trabalho, semelhante ao existente nos estados de bem-estar social, de onde os capitais então emigravam. E a C I A , por meio das mais variadas modalidades de ações encobertas e operações para solapar o governo do presidente João engravesceu a crise interna, induzindo artificialmente 416 LUIZ ALBERTO M O N I Z BANDEIRA o processo político à radicalização, m u i t o além dos próprios impulsos intrínsecos das lutas sociais, com o objetivo de provocar a intervenção das Forças Armadas e a execução do golpe de Estado. A derrubada do presidente João Goulart refletiu, outrossim, a muta- ção da estratégia de segurança do hemisfério, promovida pelor Estados U n i d o s depois da Revolução Cubana, redefinindo as ameaças, com prioridade para o i n i m i g o i n t e r n o , i . e., a subversão, e d i f u n d i n d o , através, sobretudo, da Junta Interamericana de Defesa, as doutrinas de contrainsurreição e da ação cívica, que atribuíam às Forças Armadas maior protagonismo político nos países da América L a t i n a . E m tais condições, a intervenção das Forças Armadas no processo político do Brasil e de outros países da América L a t i n a , em especial a partir de Revolução Cubana, constituiu u m fenómeno de política internacio- nal, u m reflexo da Guerra Fria, visando a ditar decisões diplomáticas e modificar diretrizes de política exterior. A s s i m aconteceu no Brasil, onde o general H u m b e r t o Castelo Branco, logo após a implantação da ditadura, r o m p e u as relações diplomáticas c o m Cuba e, incondicio- nalmente, se alinhou com os Estados U n i d o s . M e s m o que provas concretas não existissem - e muitas existem - sobre a ingerência direta do Pentágono, estimulando e apoiando golpes militares na América Latina, não restava a menor dúvida de que suas pressões levaram os Estados U n i d o s a reconhecer e a cultivar "rela- ções amistosas com as piores ditaduras de d i r e i t a " , pois, conforme a Embaixada do Brasil em W a s h i n g t o n , em 1963, salientou,"do ponto de vista dos setores militares de W a s h i n g t o n tais governos são muito mais úteis aos interesses da segurança continental do que os regimes constitucionais". A ameaça aos interesses de segurança dos Estados 1 U n i d o s na América L a t i n a não era exatamente a luta armada pró- -comunista, como as guerrilhas na Venezuela e na Colômbia, mas, 1 "Política externa norte-americana - Análise de alguns aspectos", Anexo 1 e único ao Ofício n° 516/900.1 (22), secreto, Embaixada em Washington ao Ministério das Relações Exteriores, Washington, 13 j u n . 1963, A V 1 R E - B , 900.1(00), Política Internacional, de (10)a(98), 1951/66. O GOVERNO J O Ã O GOULART 417 sim, o aprofundamento da própria democracia, particularmente no Brasil, onde o recrudescimento aas tensões económicas e dos conflitos sociais aguçava a consciência nacionalista e os sentimentos antinorte- -americanos, na maioria do povo, passaram a condicionar as decisões políticas do governo. E o que levou o Brasil à beira de u m estado quase revolucionário, se é que assim se pode considerar o transbordamento da democracia, f o i principalmente o fato de que o presidente John K e n - nedy, apesar das promessas de reformas da Aliança para o Progresso, reagiu diante da nacionalização das empresas de energia elétrica, bem como da política externa independente que o Brasil executava, do mes- mo modo que o presidente D w i g h t Eisenhower, em face das primeiras mudanças empreendidas por F i d e l Castro, após conquistar o poder em Cuba. A s s i m , as lutas sociais, das quais, no Brasil, a comunidade empresarial americana participava como significativo segmento de suas classes dominantes, condicionaram, em larga medida, o comportamen- to de Kennedy e a forte hostilidade dos Estados U n i d o s a G o u l a r t , porquanto as corporações multinacionais não p o d i a m tolerar nos new industrializing countries n e n h u m governo de corte social-democrático, que, sob influência dos sindicatos, favorecesse a valorização da força de trabalho e aumentasse os custos de produção. O C o u n c i l of the Américas, sob a liderança de D a v i d Rockfeller, empenhou-se na desestabilização do governo João G o u l a r t , c o m o conhecimento e a participação da C I A , conforme o depoimento do ex-Embaixador do C h i l e , E d w a r d K o r r y , perante o Senado dos Es- tados U n i d o s . N o segundo semestre de 1962, somando-se à I T & 2 T , a H a n n a Co. passou a pressionar o governo Kennedy para não dar qualquer assistência financeira ao Brasil até que G o u l a r t resolvesse o caso do cancelamento de suas concessões no quadrilátero ferrífero de M i n a s Gerais. E o banqueiro W i l l i a m H . Drapper, que visitou o Brasil em missão oficial, manteve, durante as primeiras semanas de 2 Depoimento de Edward Korry, ex-embaixador dos Estados Unidos no Chile durante o Governo de Salvador Allende, perante o Senado norte-americano, i n : Jornal do Brasil, 14 fev.1977. 418 LUIZ ALBERTO M O N I Z BANDEIRA outubro daquele ano, diversos contatos com elementos da comunida- de empresarial norte-americana e, refletindo suas opiniões, sugeriu a Dean Rusk que os Estados U n i d o s adotassem a linha dura, recusando qualquer ajuda ao balanço de pagamentos do Brasil, até que G o u l a r t aplicasse u m plano de estabilização monetária satisfatório para o F M I ou caísse do governo, tragado pela voragem da crise de suas contas externas. Sua perspectiva era a de que G o u l a r t provavelmente não executaria o plano de estabilização monetária e, inflectindo mais para a esquerda, possibilitaria a "polarização das forças políticas domésticas" e, em u m a segunda etapa, o golpe de Estado, c o m a instauração de forte regime m i l i t a r de direita, "mais b e m orientado para os Estados U n i d o s " . John Richard, executivo da R C A e presidente da Câmara 3 Americana de Comércio, sugeriu-lhes que os Estados Unidos forçassem o colapso económico do Brasil, com o corte de toda ajuda ao governo João Goulart, de modo a produzir sua queda e abrir o caminho para os militares. O embaixador L i n c o l n G o r d o n , por sua vez, temeu que 4 Goulart se fortalecesse, na onda do antiamericanismo e realizasse ex- propriações maciças de empresas dos Estados U n i d o s , razão pela qual propôs o adiamento de tão drásticas decisões, por poucos meses mais, até a realização do plebiscito, em 6 de janeiro de 1963, quando o povo decidiria pela restauração do presidencialismo. 5 Entretanto, embora o governo G o u l a r t aprovasse a inspeção dos navios com destino a Cuba, durante a crise dos mísseis, demonstrando que a defesa de sua autodeterminação não significava favorecimento da expansão m i l i t a r da União Soviética ou abdicação dos compromissos fundamentais com o Ocidente, Kennedy, em dezembro de 1962, j á se mostrou desmesuradamente inquieto e nervoso com a situação no Brasil. N o dia 11 daquele mês, reuniu o Comité Executivo do Conselho de Segurança Nacional para examinar a "ameaça comunista" no Brasil e a crise do seu balanço de pagamentos. A o que tudo indica, naquela opor- 3 Leacock, 1979, p.656. 4 Idem, ibidem, p.656. 5 Idem, ibidem, p.657. O G O V E R N O J O Ã O GOULART 419 tunidade, decidiu-se que os Estados U n i d o s suspenderiam totalmente qualquer financiamento ao governo João Goulart, nada fazendo, como prorrogação de vencimentos, para aliviar as dificuldades de suas contas externas, e só destinando recursos aos Estados, depois denominados "ilhas de sanidade a d m i n i s t r a t i v a " , cujo governadores eram m i l i t a n - 6 tes anticomunistas.' N o dia seguinte, ao falar à imprensa, referiu-se duramente à situação do Brasil, declarando que uma inflação de 5% ao mês anulava a ajuda norte-americana e aumentava a instabilidade política. Segundo ele, u m a inflação no r i t m o de 50% ao ano não tinha precedentes e os Estados U n i d o s nada podiam fazer para beneficiar o povo do Brasil, enquanto a situação monetária e fiscal dentro do país fosse tão instável. Sua atitude, a afirmar, praticamente, que outra nação 8 estava em bancarrota, chocou o governo G o u l a r t , que a considerou i r - responsável, pois seus efeitos económicos e políticos seriam desastrosos para o Brasil e, em particular, para seus créditos externos. E, enquanto sua entrevista repercutia, Kennedy, ao receber em audiência, no dia 13, o senador Juscelino Kubitschek, ex-presidente do Brasil, e A l b e r t o Lleras Camargo, ex-presidente da Colômbia, prognosticou que, não importando o que os Estados Unidos fizessem, a situação do Brasil devia deteriorar-se. E m face de tal perspectiva, desde pelo menos j u l h o de 9 1963, os Estados U n i d o s j á haviam começado a estudar vários planos de contingência, denominados Brother Sam, que consistiam no envio da força-tarefa norte-americana, i n c l u i n d o o porta-aviões Forrestal, para o litoral do Brasil, visando a dar apoio logístico aos insurgentes e até desembarcar marines, se o golpe de Estado provocasse uma guer- ra c i v i l , caso em que a A r g e n t i n a solicitaria a intervenção da O E A , conforme o general Leopoldo Suarez, ministro da Defesa, comunicou a Washington, após conferência com o presidente A r t u r o I l l i a e o m i - 6 Entrevista de L i n c o l n G o r d o n a Roberto Garcia, i n : Veja, São Paulo, 9 mar. 1977. 7 U m dos beneficiados foi Carlos Lacerda, então governador do Estado da Guanabara, em que a cidade do Rio de Janeiro se transformara com a transferência do D i s t r i t o Federal para Brasília em 21 de abril de 1960. 8 Kennedy, 1962, p.871. O Estado de S. Paulo, 13 fev.1962; Diário de Notícias, 14 fev.1962. 9 Idem, ibidem. 420 LUIZ ALBERTO M O N I Z BANDEIRA nistro das Relações Exteriores, M i g u e l A n g e l Zavalla O r t i z . 1 0 Goulart estava informado de que a esquadra dos Estados U n i d o s , no Caribe, j á se movimentava na direção de N a t a l . E não resistiu porque t i n h a plena consciência de que, se tentasse fazê-lo, "haveria uma sangueira, uma sangueira inútil". Não t i n h a condições nem meios para resistir ao golpe de Estado. Se aceitasse a opinião de Leonel Brizola e tentasse a resistência, a partir do Rio Grande do Sul, a guerra c i v i l eclodiria, haveria a intervenção armada dos Estados Unidos, cujas tropas desem- barcariam no Espírito Santo e em São Paulo. O Brasil seria d i v i d i d o . Tornar-se-ia outro Vietnã, em situação m u i t o pior, porque não t i n h a fronteiras nem com a C h i n a n e m com a União Soviética para receber armamentos. Não havia a menor chance de êxito. Seria uma tragédia de proporções internacionais, que só prejudicaria o povo brasileiro. E, ao evitá-la, João G o u l a r t demonstrou mais uma vez a sua grandeza, o caráter de u m grande estadista, que colocou os interesses nacionais acima de sua posição pessoal. N u n c a desejou deflagrar u m a guerra c i v i l nem t i n h a a ambição de tornar-se ditador, razão pela qual, inter alia, aceitou a implantação do parlamentarismo. Jamais, no entanto, abdicou de suas convicções. João Goulart não era u m homem fraco nem inepto, como certos seg- mentos da esquerda, inclusive Leonel Brizola, pretenderam caracteriza- -lo. Pelo contrário. O golpe evidentemente poderia ser evitado se ele fosse fraco, se cedesse às pressões das forças conservadoras, se obe- decesse às imposições económicas, financeiras e políticas dos Estados U n i d o s , rompendo relações com Cuba, r e p r i m i n d o o m o v i m e n t o sin- dical e d e m i t i n d o os elementos considerados de esquerda. O presidente João G o u l a r t tornou-se u m dos grandes vultos da his- tórica política do Brasil. È, no entanto, u m dos mais incompreendidos e injustiçados, tanto pelas forças que t r i u n f a r a m com o golpe m i l i t a r de 1964 quanto por alguns segmentos da esquerda, que assimilaram 10 Telegrama da Embaixada Americana para o Departamento de Estado, Buenos Aires, I a abr. 1964, L B J L . O G O V E R N O J O Ã O GOULART 421 u m contrabando ideológico da direta e aplicaram, indiscriminadamen- te, a teoria do populismo. O governo de João G o u l a r t , quando caiu, contava c o m 76% da opinião pública a seu favor, elevado índice de popularidade, não obstante a formidável campanha, que a oposição interna e externa promovera, c o m o objetivo de o desestabilizar. E o embaixador dos Estados U n i d o s , L i n c o l n G o r d o n , ao comentar a M a r c h a da Família, com Deus, pela Liberdade, realizada no Rio de Janeiro como manifestação de apoio ao levante militar, observou que "a única nota triste f o i a participação obviamente limitada das classes baixas", 11 ou seja, a ausência de trabalhadores. C o m efeito, o golpe de Estado no Brasil, instigado e sustentado pela comunidade dos homens de negócios e pelos proprietários de terras, constituiu nitidamente u m episódio da luta de classes, a refletir o aguçamento, tanto no nível nacional quanto internacional, dos antagonismos sociais e políticos, que atingiram uma gravidade inaudita na América L a t i n a , a partir do t r i u n f o da Revolução Cubana em 1959. Os militares, vinculados política e ideologicamente à antiga Cruzada Democrática, foram os que então se apossaram do poder e, a sagrarem oputsh como Revolução Democrática ou Revolução Redentora, recor- reram aos métodos de guerra civil, para destruir a oposição e esmagar toda e qualquer forma de resistência. Entretanto, como homenagem do vício à virtude, eles tiveram de conservar, formalmente, os traços cons- titucionais e alguns aspectos da mecânica democrático-representativa, de m o d o a não constranger a administração do presidente L y n d o n Johnson, sucessor de Kennedy, perante a própria opinião pública nos Estados U n i d o s , e não dificultar, em consequência, sua cooperação m i l i t a r e financeira c o m o regime autoritário. 11 Telegrama, L i n c o l n G o r d o n a Dean Rusk, Rio de Janeiro, 2 abr. 1964, N S A , CEP, v.3, LBJL.