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Contribuição de Motores de Indução para Correntes de Falta

Gabriel Alves Mendonça - 2010667101

Resumo

O presente trabalho apresentará uma breve avaliação da contribuição de motores de indução

para correntes de falta. Uma vez que programas para estudos elétricos só consideram a contribuição de motores maiores que 50 cavalos, e visto a dificuldade em obter dados experimentais de motores deste porte, o trabalho irá concentrar em avaliar esta contribuição a partir de simulações. Neste caso, tanto o modelo do sistema quanto do motor foram obtidos de um sistema real.

Introdução

O estudo de faltas em sistemas elétricos é basicamente em regime permanente podendo, em

muitos casos, ser simplificado em um circuito equivalente, circuito de Thevenin, onde as tensões devido a uma falta são obtidas a partir de um divisor de tensão. Deste modo, existe um consenso em realizar aproximações no modelo do motor de indução tal que suas correntes de curto-circuito são calculadas de modo semelhante, [7 e 8]. Este é, então, tratado como um circuito equivalente por fase cujos parâmetros são alterados ao longo do tempo de modo a

acomodar as alterações do comportamento da máquina durante o transiente da falta.

A norma IEC para faltas em sistemas AC trifásicos obtêm a corrente simétrica no instante da

falta, I K " , pelo circuito de Thevenin e calcula os outros parâmetros da corrente de falta, valor de

pico, corrente DC e corrente de ruptura, a partir de I K " e fatores de correção que caracterizam

os

tipos diferentes de sistemas, e.g. radiais ou em malha, valores diferentes para X/R.

O

guia do IEEE para cálculo de corrente de curto-circuito em sistemas de potência industriais e

comerciais [7] também possui um capítulo reservado à análise da contribuição dos MI à corrente de falta. Contudo, o guia propõe uma alteração no valor da reatância de acordo com

o momento em que se deseja obter a corrente de falta. No caso, para motores de baixa

potência (<250HP) só há a parcela AC simétrica enquanto para motores de grande porte o

estudo propõe um cálculo mais preciso para esta, além de incluir a componente DC.

Neste trabalho, a contribuição do motor será avaliada a partir da simulação dinâmica deste. No caso, a máquina será submetida a faltas trifásicas, avaliando em um primeiro caso o pior casos no que se refere a severidade do afundamento, respectivamente. A partir das simulações, o resultado será comparado com o obtido pelo método apresentado pela norma IEC 60909.

Metodologia de Trabalho

Posto que os efeitos de Motores de Indução somente são considerados em estudos de curto circuito para máquinas cuja potência excede 50 cavalos, e devido à dificuldade de obter

condições para obtenção de resultados práticos, o presente trabalho concentrará basicamente na análise de um sistema através de simulações. Trabalhando nesta linha, existem diversas referências na literatura contendo modelos para simulação dinâmica de motores de indução, modelos que inclusive consideram efeitos de saturação no circuito de magnetização. Porém, devido ao empecilho da necessidade de um conhecimento extensivo da máquina para modelar

o efeito da saturação, deste modo o estudo irá verificar os efeitos da saturação no modelo dinâmico apenas qualitativamente.

Por fim, a partir de simulações do modelo simplificado que é utilizado nos programas de cálculo de curto-circuito e de simulações do modelo dq0 de um Motor de Indução, o trabalho irá comparar a contribuição deste equipamento para cada caso e avaliar se as aproximações são pertinentes.

Sistema Elétrico de Potência

A norma IEC 60909-0 estabelece um procedimento geral, pratico e conciso para determinar as

correntes de curto circuito em plantas industriais e comerciais. Os resultados são obtidos aproximando o sistema por um modelo equivalente, conhecido por circuito de Thevenin.

Como o objetivo do presente trabalho é avaliar o resultado obtido por programas de cálculo de curto-circuito, o modelo utilizado na simulação deve estar em concordância com o adotado por estes programas. De modo geral, estudos elétricos utilizam o padrão IEC 60909-0 para o cálculo de faltas. Este padrão utiliza de uma aproximação do sistema por um circuito de Thevenin equivalente, tal como mostrado na figura 12.

de Thevenin equivalente, tal como mostrado na figura 12. Figura 1 - Circuito de Thevenin equivalente

Figura 1 - Circuito de Thevenin equivalente [8].

Assim, o modelo proposto foi obtido de uma planta industrial cujo sistema distribuição é radial com apenas uma fonte de alimentação, a concessionária local. Os valores para impedâncias características foram obtidos a partir de dados do projeto ou estimados de acordo com guias e normas conhecidas. A figura 13 ilustra sistema elétrico da planta já simplificado mostrando apenas a carga. Esta consiste motor de indução de 3600KW ligado diretamente na rede.

Os dados deste circuito estão expostos abaixo.

o

Concessionária

 

Tensão de operação

 

230kV

 

Potência de curto-circuito – trifásica

 

10.321,9 MVA

 

Potência de curto-circuito – fase terra

 

3.399 MVA

o

Transformadores

 

T1

T2

 

% Z

6,2

12,6

 

X/R

34,1

26

o

Cabos

T2 por ter núcleo tipo envolvido possui uma impedância de seqüência zero de 9,6% A barra de 69kV é alimentada por dois transformadores em paralelo com Z de 12% cada

 

Cabo 1

Cabo 2

Comprimento

850

650

Nº condutores por fase

10

2

Impedância – Seq. Pos. (Ω/km)

0,0787 + j0,1503

0,0842 + j0,188

Impedância – Seq. Zero. (Ω/km)

1,1821 + j0,

0,2947 + j0,658

A barra de 69kV é alimentada por dois circuitos em paralelo, cada cabo possui 5 condutores por fase

o Motor

Folha de dados em anexo.

5 condutores por fase o Motor Folha de dados em anexo. Figura 2 - Sistema Elétrico.

Figura 2 - Sistema Elétrico.

O circuito utilizado nas simulações está ilustrado na figura 14. Os dados do sistema equivalente estão expostos na tabela abaixo.

Tensão de linha nominal

13,8 kV

Potência de Curto-Circuito

364.6 MVA

X/R

9

Corrente de Falta

15.200 kA

Os dados do motor estão em anexo. Utilizando estes dados de placa, o modelo ilustrado na figura 14 foi obtido e será utilizado nas simulações.

na figura 14 foi obtido e será utilizado nas simulações. Figura 3 - Parâmetros do Motor

Figura 3 - Parâmetros do Motor de Média Tensão.

Figura 3 - Parâmetros do Motor de Média Tensão. Figura 4 - simulação para análise de

Figura 4 - simulação para análise de curto-circuito.

O motor, tal como indicado na figura 14, é do tipo barras profundas. Este tipo de motor possui características melhores na partida quando comparado com um motor convencional. O motor com rotor em barras profundas utiliza do efeito pelicular que ocorre quando este é submetido correntes de maior freqüência. Quando o motor está partindo a freqüência das correntes do rotor varia entre valores desde a freqüência da rede até zero, para um escorregamento unitário até zero. Assim, com um valor de resistência rotórica maior na partida, o torque produzido pela máquina será maior.

Para a simulação em questão, a variação da resistência e da reatância entre os valores dados pelo modelo, fig. 12, será considerada linear. As figuras 14 e 15 ilustram a velocidade do motor e o torque produzido pela máquina contra o torque da carga, respectivamente.

Figura 5 - Velocidade desenvolvida pela máquina durante a partida. Figura 6 - Torque produzido

Figura 5 - Velocidade desenvolvida pela máquina durante a partida.

5 - Velocidade desenvolvida pela máquina durante a partida. Figura 6 - Torque produzido pela máquina

Figura 6 - Torque produzido pela máquina (preto) e torque da carga (vermelho).

Cálculo de Curto Circuito - IEC 60909

O guia do IEC estabelece procedimentos e modelos que levam a resultados que são em geral bem aceitos pela comunidade técnica. A determinação das correntes de falta é obtida através de relações analíticas simples de modo a permitir o uso do método em programas de estudos elétricos com aplicação em sistemas de grande porte.

Em termos de análise dos efeitos de um curto no sistema elétrico, um cálculo das correntes de falta em função do tempo é deveras dispendioso e impraticável em sistemas com um número grande de barras. No caso, a forma de onda esperada para a corrente está apresentada na figura 16.

Porém, objetivando um procedimento mais prático, o guia IEC determinas alguns que são suficientes para caracterizar a onda desde o instante em que ocorre a falta até o momento em que algum equipamento de proteção atua. De acordo como indicado na figura.

"

á

é

" − − á − − é − Figura 7 Corrente de curto-circuito para falta "próxima

Figura 7 Corrente de curto-circuito para falta "próxima do gerador" [IEC - 60909]

Tal como indicado pela norma, motores de indução de média e baixa tensão contribuem com a corrente de falta por alguns ciclos. Devido ao fluxo produzido pelas correntes rotóricas, uma força contra-eletromotriz aparecerá no estator alimentando a falta com correntes assimétricas cuja forma aproxima à apresentada na figura 16. No caso, a contribuição do motor para a corrente inicial, I k ", é dada pela seguinte equação:

"

=

=

√3 ∙

(1)

A impedância Z M do motor é determinada a partir da corrente e tensão nominal da máquina,

I rM e U rM sua corrente de rotor bloqueado, I an .

A determinação do decaimento desta contribuição caracterizada por duas constantes, µ e q.

Estas constantes são utilizadas para aproximar a forma de onda da corrente a partir de características do motor. A norma IEC determina o valor dos fatores supracitados para quatro instantes: 0,5 ciclo, 1,5 ciclo, 5 ciclos e 12,5 ciclos de uma onda de 50Hz. Isto decorre do fato de que a norma deseja fornecer a corrente a partir dos tempos de operação do equipamento de operação. O fator µ pode ser encontrado a partir da figura 17.

O fator µ apresentado na figura 17 pode ser utilizado para determinar a corrente de falta no

instante em que se espera que a proteção do sistema opere, I b . Porém, para o cálculo das correntes do motor, um segundo fator é utilizado devido ao fato de que a contribuição possui um amortecimento maior, dado pela principalmente pela constante de tempo do circuito do rotor, e em estado estacionário tem valor nulo. No caso, o fator q pode ser obtido a partir da

figura 18. A corrente I b é então determinada pela seguinte equação.

"

=

(2)

Figura 8 - Fator µ para determinação da corrente I b . Figura 9 -

Figura 8 - Fator µ para determinação da corrente I b .

Figura 8 - Fator µ para determinação da corrente I b . Figura 9 - Fator

Figura 9 - Fator q para cálculo da componente simétrica da contribuição do motor.

Utilizando os dados de um motor de 3,6MW, cuja folha de dados está apresentada em anexo, poder-se-á determinar a componente simétrica corrente de contribuição do motor para os quatro valores de tempo de atraso da proteção. Objetivando um estudo mais completo, os valores de q e µ foram calculados para então serem interpolados. As figuras 19 e 20 ilustram as curvas obtidas em função do tempo para cada fator. Deste modo, utilizando a equação (2) a componente simétrica pode ser determinada. A figura 21 ilustra o resultado obtido para o motor estudado.

Figura 10 - Fator µ em função do tempo para cálculo da corrente I b

Figura 10 - Fator µ em função do tempo para cálculo da corrente I b .

µ em função do tempo para cálculo da corrente I b . Figura 11 - Fator

Figura 11 - Fator q em função do tempo para cálculo da corrente I b .

O valor de pico da corrente de falta leva em consideração a componente DC desta. A norma IEC assume que toda falta ocorre quando a tensão da fonte é nula, o que implica no máximo valor para o transitório. Neste caso, a componente DC poderá ser obtida pela seguinte relação:

= 2 "

(3)

A forma para a corrente de falta, obtida a partir destas duas componentes, I b e I DC , está ilustrada na figura 21.

Figura 12 - Componente simétrica da corrente I b . A partir do sistema ilustrado

Figura 12 - Componente simétrica da corrente I b .

A partir do sistema ilustrado na figura 15 poder-se-á simular a operação do motor quando o sistema que o alimenta está em condição de falta. A partir desta simulação, a figura 22 apresenta a contribuição do motor de indução para a corrente de falta.

do motor de indução para a corrente de falta. Figura 13 - Corrente do MI obtida

Figura 13 - Corrente do MI obtida pela simulação.

Esta corrente é sustentada pelo fluxo do rotor que, como observado na forma da corrente, irá decair de acordo com a constante de tempo deste circuito. De modo geral, os valores obtidos pela norma apresentaram resultados razoáveis frente ao modelo simulado. Considerando a operação de equipamentos de proteção, o fator da corrente adquirida pela norma ser menor que apresentada pela simulação constitui em um resultado conservador. A proteção parametrizada a partir da norma irá operar mais rapidamente caso a corrente real fosse a apresentada na figura 13.

A título de ilustração, a figura 23 apresenta a variação do fluxo do rotor durante a falta. O fluxo abaixo está referencia ao estator tanto na relação de espiras quanto na freqüência.

tanto na relação de espiras quanto na freqüência. Figura 14 - Fluxo produzido pelas correntes rotóricas.

Figura 14 - Fluxo produzido pelas correntes rotóricas.

Este decaimento, apesar de não ser considerado no modelo do motor para cálculo da corrente simétrica de falta, I k ", posto que o circuito utilizado para a análise considera uma força eletromotriz constante, ele é considerado pelo fator q, fig. 20, para a corrente I b . A figura 15 ilustra o módulo do fluxo normalizado em função do tempo de modo a melhor caracterizar o transitório.

do tempo de modo a melhor caracterizar o transitório. Figura 15 - Decaimento da velocidade do

Figura 15 - Decaimento da velocidade do motor (vermelho) contra o decaimento do fluxo no entreferro (azul).

Pode-se observar que para o motor em questão, a constante de tempo é pequena em relação

à constantes de tempo mecânica. Nesta figura, a velocidade do motor é apresentada

juntamente com o fluxo produzido pelo rotor. O valor da velocidade decaiu 12% para uma queda de 64% no fluxo do rotor.

Diversos estudos acerca do transitório da máquina submetida a um curto-circuito utiliza esta aproximação [14-16]. Nestes, tanto a obtenção de um modelo para simulação do motor quanto a formulação analítica da máquina perante uma falta no sistema elétrico consideram o transiente elétrico separado do transiente mecânico.

Conclusões

O presente trabalho foi conduzido de modo realizar uma primeira avaliação do principal

procedimento para o cálculo da contribuição do motor de indução para correntes de falta. Para tal, um modelo simplificado do motor de indução foi implementado a partir de dados de um motor de média tensão real. O circuito Thevenin equivalente de um sistema real e um gerador de faltas foram utilizados na avaliação de modo que as principais grandezas da máquina puderam ser observadas durante todo fenômeno. Como o objetivo do projeto era comparar o resultado com o que proposto pela norma IEC 60909, os mesmos dados do motor foram utilizados para calcular a contribuição do motor. Como foi mostrado, a norma apresenta

resultados conservadores sob a ótica do sistema de proteção.

Trabalhos Futuros

Este estudo fornece embasamento para outros trabalhos na mesma área.

o

Avaliação da contribuição do motor para faltas assimétricas.

o

Melhoria do modelo do motor, principalmente na consideração do efeito pelicular na resistência e reatância do rotor.

o

Avaliação do efeito da saturação do fluxo de magnetização.

Referências

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