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J o r n a l ivros ivros 1 Jornal Janeiro/Fevereiro de 2014 • Edição especial

Janeiro/Fevereiro de 2014 • Edição especial • Distribuição Gratuita

Astroanedotário: um tributo aos “filhos de Urânia”

No passado, o ofício de astrólogo exigia não só conhecimentos de astronomia, mas também grande dose de coragem e audácia.

Texto de Bira Câmara

R otulada por Franz Cumont como a “mais persistente alucinação do homem”,

Cumont como a “mais persistente alucinação do homem”, Urânia, musa da astro- logia, da astronomia e

Urânia, musa da astro-

logia, da astronomia e da geometria, rainha dos céus, representada com um globo numa das mãos

ra e até césares, a astrologia pro- duziu um riquíssimo anedotário que até agora ainda não foi de-

Obras

“puta da Babilônia” nas palavras de Anthony West e Gerhard Toonder, “filha tola e infame da astronomia” por Kepler, “dama desonrada” segundo o escritor Walter Scott, são mui-

tos os adjetivos recebidos pela astrologia por parte de seus ad- versários e detratores. No entan- to, a verdade é que ela tem atra- vessado os séculos sem perder o crédito, pelo menos entre o povão, e não é sem motivo que Rudolf Thiel afirmou ser a astrologia o movimento espi- ritual mais bem sucedido de

todos os tempos. Por mais que os astrônomos a rene- guem, os céticos a escarne-

çam e os religiosos esper- neiem à sua menção, ela continua de pé desafiando o tempo e sobrevivendo até mesmo aos astrólogos ignorantes, aos fabricantes de horóscopos de jornais, aos seus detratores e, sobretudo, aos misticóides que – sem nenhum conhe- cimento astrológico – apelam para ela para justificar suas profecias esta- pafúrdias. Estudada e praticada no passado por sábios, religiosos, senhores da guer-

vidamente compilado.

sobre história da astrologia há muitas, mas nenhuma que

eu saiba centrada apenas no seu lado anedótico. O Astroanedotário não se pro-

põe a ir mais longe do que isso e não tenta, portanto, fazer um inventário da his- tória da astrologia no sentido acadêmico ou dentro de um ri- gor histórico. Deixo isso aos eruditos; meu interesse é pela lenda, pela ficção, pela cu- riosidade, pelo insólito. A história da vida dos grandes

astrólogos do passado se mistura ao fantástico e ao maravilhoso, como pode-

mos ver nas lendas de Michael Scot e de Albumasar. Elas es- tão espalhadas pelos livros de história, em autores como Suetônio, Tácito, Dion Cassius, Plínio, Diodoro da Sicília, Plutarco, Heródoto, e tantos outros; gente que viveu numa época em que os historiadores ainda não haviam pensado em cometer uma lobotomia na História e apagar de sua memória qualquer refe- rência à astrologia. Mas quem os lê hoje

em dia?

Histórias da

Astrologia

de Bira Câmara, 240 páginas, ilus- trado.

Um painel da história da astrologia sob o prisma anedótico. Histórias, fatos pitorescos e curiosos sobre astrólogos, adivinhos, reis, papas e personalidades históricas.

Pedidos:

jornalivros@gmail.com

astrólogos, adivinhos, reis, papas e personalidades históricas. Pedidos: jornalivros@gmail.com ASTROANEDOTÁRIO

ASTROANEDOTÁRIO

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2 J o r n a l ivros ivros Apogeu e decadência da astrologia Arte divinatória
2 J o r n a l ivros ivros Apogeu e decadência da astrologia Arte divinatória

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2 J o r n a l ivros ivros Apogeu e decadência da astrologia Arte divinatória

Apogeu e decadência da astrologia

Arte divinatória injustamente calu- niada nos dias de hoje pelos homens de ciência, a astrologia gozou de grande prestígio entre reis e príncipes na anti- guidade. Alexandre, o Grande, consul- tava astrólogos e se guiou pelas suas pre- dições ao conquistar o mundo. Júlio César, diz-se, era conhecedor e prati- cante da ciência dos astros. Cleópatra chegou a “plantar” um astrólogo (Se- leuco) ao lado de Marco Antônio, para melhor manipulá-lo. Otávio Augusto te- ve a sua ascensão e o seu império fulgu- rante prognosticado por um astrólogo ao nascer. Tibério não só consultava as- trólogos (teve ao seu lado o grande Trasilo), como também praticava a as- trologia com rara perspicácia. Nero ja- mais se arrependeu de seguir a risca os conselhos do seu astrólogo Balbílio (fi- lho de Trasilo). Sétimo Severo foi bus- car na Ásia uma esposa para fazer cum- prirem-se as predições dos astros. Mar- co Aurélio acreditava na astrologia, bem como Adriano, Vespasiano, Alexandre Severo e Juliano. Frederico II teve em Michael Scot, astrólogo, sua eminência parda. Os reis portugueses da época dos descobrimentos marítimos jamais des-

Um grego famoso protagonizou uma das primeiras anedotas da astrologia: Ésquilo (525-456 a.C.), o célebre criador da tragédia grega. Apesar da reputação de filósofo e pensador, diz a lenda que ele se mudou para o campo aos sessenta e nove anos, para escapar à previsão de seu horóscopo, segundo o qual morreria esmagado pela queda de uma casa. Todavia, uma águia desajeitada carregando uma tartaruga deixou escapar sua presa justamente quando voava por cima de Ésquilo. E ela foi cair bem na cabeça do ilustre poeta, provocando-lhe a morte e fazendo cumprir seu horóscopo

Clichê profético

Não nos cabe julgar a veracidade das lendas e episódios envolvendo as- trólogos e adeptos desta velha arte. Quando muito, aqui ou acolá, podemos arriscar alguma conjectura, imaginar que os fatos foram distorcidos e revestidos com o manto da fantasia. Mas vale o re- gistro. Notamos em muitas predições um clichê característico, que se repete ao longo do tempo com mudanças de tempo e de lugar. Assim, astrólogos cal- deus previnem Alexandre que ele en- contraria a morte se entrasse na Babilô- nia; o adivinho adverte Júlio César para

tomar cuidado com “os idos de Mar- ço”; outro alerta Juliano a temer os “campos frigios”; a Frederico II, Michael Scot profetiza que encontra- ria a morte “debaixo de uma flor e uma grade de ferro”; Catarina de Médicis é alertada para evitar Saint-Germain; e

Poderíamos

suspeitar de predições feitas a posteriori, arranjadas pelos cro- nistas para que se cumprisse o clichê profético. Ou, também, por que não apelar para a neu- rolinguistica e supor que uma profecia feita por alguém que tenha o status de adivinho pos- sa ficar enraizada no subcons- ciente da pessoa, fazendo com que ela corra de encontro ao seu destino? Esse tipo de pre- dição na verdade tem pouco ou nada a ver com previsão astrológica e parece mais produto de algum tipo de clarivi- dência ou premonição, obtida por ou- tras técnicas. É sabido que muitos as- trólogos do passado usavam também outras formas de adivinhação como o aruspicínio, a quiromancia, a necroman- cia. O nome “caldeu”, dado aos prati- cantes da astrologia, estendia-se a um amplo leque de gente que abrangia adi- vinhos, magos e charlatães de toda es-

pécie.

adi- vinhos, magos e charlatães de toda es- pécie. J ornalivros Boletim informativo de literatura e

Jornalivros

Boletim informativo de literatura e bibliofilia Editor: Bira Câmara

Contacto:

tel. (11) 3224-0457 jornalivros@gmail.com

www.jornalivros.com.br

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J o r n a l ivros ivros 3 prezaram as orientações de seus astró- logos
J o r n a l ivros ivros 3 prezaram as orientações de seus astró- logos

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prezaram as orientações de seus astró- logos judeus. D. Duarte, o único que ignorou seus conselhos, pagou caro por isso. Elizabeth I, da Inglaterra, tinha John Dee, astrólogo, como seu conselheiro particular. Catarina de Médicis teve uma legião de astrólogos a seu serviço. Kepler serviu a Rodolfo II e ao duque de Walles- tein como astrólogo e Galileu ao duque da Toscana. Richelieu e Luís XIV con- sultavam Morin de Villefranche, o últi- mo grande astrólogo da tradição antiga. Até o século dezesseis raros foram os reis, príncipes ou papas que não tive- ram a seu serviço estes audaciosos pra- ticantes da ciência das estrelas. E nem mesmo o decréscimo de credibilidade após o decreto de Colbert, em 1666, banindo a astrologia das universidades impediu que ela continuasse a seduzir os poderosos. Napoleão também teve o seu astrólogo particular e conta-se que sua carreira começou a declinar quan- do deixou de ouvi-lo. No século vinte, nazistas e aliados lançaram mão de as- trólogos e de predições astrológicas como arma de guerra. Peron, na Argen- tina, promoveu seu astrólogo (Lope Rega) ao cargo de ministro do Bem Estar Social. O presidente Reagan, que passou à história por ter dado fim à Guerra Fria, foi orientado pela astrólo- ga Joan Quigley. Em minhas pesquisas, não desco- bri nenhum governante que tenha se ar-

rependido de ter ouvido os conselhos de seus astrólogos. Já o mesmo não se pode dizer dos economistas, cuja ciên- cia (embora de origem muito mais re- cente) tem levado governantes à des- graça e nações à bancarrota.

Astrólogo: profissão de alto risco no passado

Mas não tenham a ilusão de que o ofício de astrólogo e adivinho era coisa fácil no passado. Muito pelo contrário, sempre foi dos mais arriscados na Anti- guidade, pois os poderosos não costu- mavam perdoar as profecias acertadas, quando anunciavam desastres, nem quando falhavam se previam sucessos. Nabucodonosor, rei da Babilônia, man- dou executar todos os adivinhos por- que não conseguiam interpretar um de seus sonhos. Na Atlântida, segundo a lenda, seus habitantes executaram os adivinhos que previram a destruição do continente. Já o profeta Isaías acabou executado por Manasses, por ter anun- ciado a destruição de Jerusalém. Mui- tos astrólogos pagaram com a vida a au- dácia de prever o destino dos podero- sos, como Ascletárion por ter anuncia- do o fim do imperador Domiciano. Já Vétius Valens foi parar na masmorra depois de prognosticar destino brilhan- te a um soberano da Ásia, que era o maior inimigo do rei que o hospedava em sua corte na Pérsia. Na Idade Mé-

r ei que o hospedava em sua corte na Pérsia. Na Idade Mé- Um astrólogo, diante

Um astrólogo, diante de Giovanni Galeano, duque de Milão, disse-lhe:

— Senhor, termine logo seus

negócios, pois não viverá muito tempo.

— Como você sabe? —

perguntou-lhe o duque.

— Pela ciência dos astros.

— E você? Quanto tempo

viverá?

— Minha estrela me promete

uma vida longa — respondeu

o astrólogo.

— É mesmo? Você verá como

é bom se fiar tanto nas

estrelas

enforcá-lo imediatamente.

— E mandou

tanto nas estrelas enforcá-lo imediatamente. — E mandou Na antiga China acreditava- se que o eclipse

Na antiga China acreditava- se que o eclipse era provocado por um dragão que devorava o Sol. Segundo a lenda, há quatro mil anos existiam dois astrólogos imperiais, Hi e Ho, cujos deveres eram bater tambores para afastar

o dragão. Mas durante um

eclipse em que estavam embriagados descuidaram

de suas obrigações, o dragão veio e então o sol foi devorado. O dragão, porém, generosamente vomitou a sua presa, mas o Imperador não foi tão generoso e ordenou que os infelizes Hi

e Ho fossem degolados

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4 J o r n a l ivros ivros Nenhum outro soberano demonstrou tamanho apreço pela
4 J o r n a l ivros ivros Nenhum outro soberano demonstrou tamanho apreço pela

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4 J o r n a l ivros ivros Nenhum outro soberano demonstrou tamanho apreço pela

Nenhum outro soberano demonstrou tamanho apreço pela astrologia e pelas artes divinatórias do que a rainha Catarina de Médicis (1519- 1589). Extremamente supersticiosa e fatalista, como Juliano, Rodolfo II e outros tantos reis, viveu cercada por verdadeira legião de astrólogos e adivinhos. Além do italiano Lucas Gauric, seu astrólogo oficial, consultava também Ulrico de Mogúncia, o médico

e astrólogo Augier Ferrier, e

Nostradamus, que a teria iniciado na astrologia. Trouxe

o astrólogo florentino

Cosimo Ruggieri a Paris e empregou-o como preceptor de seu quarto filho, o duque d’Alençon.

dia, o astrólogo Pietro D’Abano só es- capou da fogueira da Inquisição porque morreu no cárcere; já Cecco D’Ascoli, seu compatriota e contemporâneo, não teve a mesma sorte e acabou na foguei- ra. Ao final do século XV, o astrólogo de Carlos VII, Symon de Phares, pas- sou o fim de sua vida defendendo-se nos tribunais do Santo Ofício sem que o rei levantasse uma pa- lha para livrar sua pele. Cosimo Ruggieri, um dos astrólogos prediletos de Catarina de Médicis, foi parar nas galés por envol- ver-se em intrigas e cons- pirações. Lucas Gauric, outro de seus astrólogos famosos, passou por maus momentos depois de prognosticar ao prín- cipe de Bolonha que ele seria expulso de seu rei- no: foi preso e torturado por cinco dias. No século dezessete, o frade francis- cano francês Nobilibus, astrólogo cé- lebre em sua época, foi enforcado e queimado por crime de magia. No sé- culo vinte, o regime nazista valeu-se dos

talentos do astrólogo suiço Karl Ernst Kraft, que depois caiu em desgraça,

acabou preso e deportado para o cam-

po de Buchenwald, morrendo de tifo durante a viagem de trem. No fascinante mundo dos astrólo- gos há uma galeria de personagens dos mais diversificados tipos, que vai des-

de o temperamento narcisista, briguen- to e excêntrico de um Tycho Brahe à natureza melancólica e depressiva de um Kepler, passando pelo caráter am- bíguo e “mineiro” de um Lilly, pelo si- nistro conspirador Ruggieri, pelo inescrupuloso Dr. Forman, pelo mago promotor de prodígios Michael Scot,

sem esquecer o caráter lascivo e vicio-

so de Cardan. E não po-

demos esquecer tam- bém os artistas e escri- tores que a estudaram, como Virgílio, Dante, Camões, Dürer, Balzac, Goethe, André Breton, Fernando Pessoa, Henry Miller e muitos outros.

O que poderia haver de

comum entre todos es- ses homens, além de uma grande sede de co- nhecimento e a paixão pela astrologia? Aparentemente os as- trólogos nascem aleatoriamente debai- xo de todos os signos, mas seria inte- ressante tentar descobrir se o planeta Urano apareceria com relevância esta- tística nos seus mapas de nascimento. Talvez um estudo comparativo entre o horóscopo dos grandes astrólogos do passado e dos adeptos célebres da as- trologia como Catarina de Médicis, Frederico II, Tibério, Rodolfo II e tan- tos outros, pudesse nos ajudar a enten- der melhor a natureza dos “filhos de

Urânia”.

II, Tibério, Rodolfo II e tan- tos outros, pudesse nos ajudar a enten- der melhor a
II, Tibério, Rodolfo II e tan- tos outros, pudesse nos ajudar a enten- der melhor a

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J o r n a l ivros ivros 5 Audácia e obstinação dos astrólogos Ao longo
J o r n a l ivros ivros 5 Audácia e obstinação dos astrólogos Ao longo

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Audácia e obstinação dos astrólogos

Ao longo do tempo, até o século dezessete, os astrólogos ocuparam qua- se sempre posição de destaque junto aos homens que detinham o poder, e não se pode ignorar a influência que ti- veram no curso de muitos aconteci- mentos do passado. Os registros his- tóricos sobre a atuação deles são abun- dantes. Na época dos césares estiveram envolvidos em intrigas e conspirações, ajudando a derrubar ou elevar impera- dores, como Balbílio e Seleuco entre outros. Classe de homens audaciosos e obstinados conseguiram sobreviver às perseguições encarniçadas de alguns Césares e aos diversos éditos de expul- são do Senado romano. Na Idade Mé- dia, com o ocaso do império romano do Ocidente, sobreviveram entre os bizantinos e os árabes. Enquanto a Eu- ropa mergulhava na longa noite do escolasticismo, os astrólogos muçulma- nos e judeus promoveram a síntese do conhecimento astronômico e astroló- gico da antiguidade, e o transmitiram depois aos europeus. Nem mesmo as bulas condenatórias da Igreja consegui- ram detê-los. No século XII eles eram, sobretudo, monges e alquimistas, como Roger Bacon e Santo Alberto Magno, mergulhados na mística cristã e sedu- zidos pelo magismo da tradição árabe. Outros, como Bonatti, fizeram da arte da guerra uma especialidade astrológica para colocar-se a serviços dos prínci- pes. No Renascimento, além de médi- cos e conselheiros, voltaram a partici- par de conspirações políticas e exerce- ram também o papel de espiões, como o caso de John Dee, Ruggieri e do pró- prio Nostradamus. Tal qual verdadeiros cavaleiros er- rantes eles se deslocavam pelas cortes da Europa deixando um rastro de len- das sobre predições infalíveis e curas miraculosas. A publicação da obra de Copérnico, que era também astrólogo amador, foi saudada como o tiro de mi-

sericórdia contra a astrologia pelos seus detratores, mas ela continuou de pé. O século dezesseis foi marcado pe-

lo hermetismo e pelo rosacrucianismo,

que deixaram sua marca nos astrólogos da época. Uma onda de misticismo var- reu a Europa e havia verdadeira febre pelos estudos alquímicos e a busca da Pedra Filosofal. No século XVII os astrólogos tam- bém não conseguiram deixar de lado a vocação para o envolvimento na políti- ca e engajaram-se na Guerra Civil In-

glesa, dividindo-se entre monarquistas

e parlamentaristas. Nesta “guerra de

almanaques”, muitos deles pegaram em armas para fazer valer suas predições as- trológicas. Mas, a partir desta época, começaram a ser ridicularizados e me-

nosprezados pelos homens de ciência.

Século XVII:

astrologia como piada

De novo os detratores da astrolo-

gia saudaram seu tiro de misericórdia, desta vez na obra de Newton (também

outro entusiasta dela

cotas de La Fontaine e Voltaire, os as- trólogos viraram caricatura como per-

sonagens de teatro sob a pena do inglês Congréve e do espanhol La Barca. No século das luzes já ocupavam um papel secundário, limitados a produção de almanaques astrológicos populares que tinham grande aceitação apenas entre as classes mais baixas. Swift e Voltaire escarneceram os astrólogos e os tornaram motivo de piada; Walter Scott criticou-os implacavelmente; mas isso não impediu que Goe- the estudasse astrologia e lhe rendesse tributo, assim como

Os astrólogos dos sé-

Balzac

Alvo das cha-

A astrologia no fundo do poço

No século XVIII, na Inglaterra, a astrologia já

estava excluída do currículo das Universidades de Oxford

e Cambridge, e na Alemanha

a cadeira ficou vaga. O seu

descrédito era tão grande que na fundação do observatório de Greenwich, em 1675, John Flamsteed —

primeiro astrônomo real inglês — traçou o seu horóscopo e perguntou aos seus colegas: Risum teneatis, amici? (Conseguem conter o riso, amigos?).

O descrédito da astrologia

entre os intelectuais e pessoas cultas reflete-se na produção literária da época, como bem ilustra a fábula de La Fontaine (1621-1695), poeta e acadêmico francês:

Um astrólogo, certo dia, deixou-se cair no fundo de um poço. E disseram-lhe:

grande tolo, se mal podes ver aonde põe os pés, como te atreves a decifrar o que não enxergas?

).

os pés, como te atreves a decifrar o que não enxergas? ). culos dezoito e dezenove

culos dezoito e dezenove não tinham mais a aura de respeita- bilidade que desfrutavam no passado nem eram também ho- mens de ciência com boa aco- lhida entre reis e príncipes. No início do século vinte, desa-

creditada pelos astrônomos e

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6 J o r n a l ivros ivros Henrique VII, rei da Inglaterra, perguntou certa
6 J o r n a l ivros ivros Henrique VII, rei da Inglaterra, perguntou certa

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Henrique VII, rei da Inglaterra, perguntou certa vez a um astrólogo se ele sabia onde o rei passaria o natal. O astrólogo respon- deu-lhe que não tinha ideia. — Então eu sou mais hábil do que você, respondeu-lhe o rei, pois eu sei que você o passará na Torre de Londres. — E o mandou para lá no mesmo instante.

Um duque de Mântova tinha na sua estrebaria uma égua de raça que estava prenha e pariu um mulo. Anotou a hora e enviou emissários aos astrólogos mais célebres da Itália, pedindo-lhes o horóscopo do bastardo nascido em seu palácio. Matreiramente, não especificou que se tratava de um mulo. Os adivinhos se desdobraram para agradar ao príncipe, acreditando que fosse o seu filho. Uns predisseram que ele seria um grande general do exército, outros foram mais exagerados, mas todos, sem exceção, o cumularam de elevadas dignidades

mas todos, sem exceção, o cumularam de elevadas dignidades cientistas, a astrologia sobreviveu nas colunas de

cientistas, a astrologia sobreviveu nas colunas de horóscopo dos jornais e re- vistas, e nos almanaques astrológicos.

Por causa deste apelo popular, a predi- ção astrológica voltou a ser utilizada como instrumento de propaganda du- rante a Segunda Guerra Mundial, tan-

to pelos nazistas como pelos ingleses.

Antes disso, na guerra russo-japonesa,

o alto comando nipônico tinha astró-

logos oficiais e nenhum ataque era de- terminado sem terem antes consulta- do os astros e sem a certeza de que eram favoráveis.

Final do século XX:

renascimento astrológico

O último “tiro de misericórdia” nessa velha senhora foi a chegada do homem à Lua, quando os astrônomos fizeram ironias a respeito do horósco- po dos astronautas. Mas a morta teima em continuar viva, cada vez mais for- te, e a enterrar seus inimigos e detra- tores Quando se pensava que ela havia

sido varrida para a lata de lixo da His- tória como uma superstição do passa- do, eis que ela ressurge com toda força nas últimas décadas do século vinte. Vi- vemos hoje uma verdadeira Renascen- ça do conhecimento astrológico, com

o surgimento de uma nova classe de

profissionais das mais diversas áreas, empenhados na sua renovação e no res- gate de antigos textos. Há um grande interesse pelo estudo das técnicas usa- das pelos astrólogos do passado e uma

filtragem do que elas têm de eficaz. As- sim como no final da Idade Média, quando a astrologia beneficiou-se da in- venção da imprensa para se tornar mais estudada e conhecida, no presente ela

se beneficia também dos novos meios

de comunicação, como a Internet. Por certo o computador não substituirá o

livro, mas tem contribuído enorme- mente para o fluxo de informações e a democratização do conhecimento, nes-

te verdadeiro boom dos estudos astro-

lógicos em plena alvorada do terceiro

milênio. Aliás, compilar uma obra como esta há três décadas seria uma tarefa pe- nosa, dada a escassez de obras específi- cas sobre história da astrologia, biogra- fias e textos de astrólogos antigos. Hoje, através da Internet, verdadeiras rarida- des bibliográficas do mundo inteiro, que

em passado recente não se encontrari- am no Brasil, estão a disposição dos pes-

quisadores. Nessa alvorada do século XXI, a popularidade alcançada pela astrologia só é comparável a que gozava no impé- rio romano na época em que a era de Áries estava no seu ocaso. E, curiosa- mente, ela atingiu o auge no tempo do imperador Augusto, quando os roma- nos viviam sob a expectativa do cum- primento de profecias que anunciavam a queda iminente do império e o fim do mundo. Atento a esse momento de pas- sagem de ciclo, o poeta Virgílio anteci- pou a vindoura Nova Era celebrando o nascimento da “criança” que encerra- ria a Idade de Ferro e traria de volta a Idade de Ouro no mundo inteiro. Cris- to nasceria alguns anos depois, mas o Cristianismo só tomaria corpo como instituição e imporia seus paradigmas ao Ocidente três séculos mais tarde, quan- do então começou de fato a era de Pei- xes. Há certa similaridade entre estes

dois momentos históricos: ambos refle- tem a decadência de um mundo e a ex- pectativa de um novo ciclo por vir. Na- quela época, como agora, o momento é de confusão; um caldo de sincretismo místico e religioso corrói a religião tra- dicional, provocando a sua gradativa destruição para que algo novo tome o seu lugar. A civilização toda passa por esse processo alquímico coletivo de morte-regeneração, a noite negra da

alma antes que aconteça o renascimento. Não estão, pois, completamente er- rados os entusiastas adeptos da New Age:

como os baianos, começaram a pular carnaval antes da época; como galos insones, cantam na madrugada escura

iludidos pelo clarão de uma lâmpada acesa

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J o r n a l ivros ivros 7 A lua no imaginário poético Uma verdadeira
J o r n a l ivros ivros 7 A lua no imaginário poético Uma verdadeira

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A lua no imaginário poético

Uma verdadeira plêiade de poetas como Cruz e Souza, Bilac, Fernando Pessoa, Baudelaire, Manuel Bandeira, Paulo Bonfim, entre outros, cantaram a lua em seus poemas e a consagraram como o astro dos poetas, dos loucos e dos apaixonados.

como o astro dos poetas, dos loucos e dos apaixonados. A lua sempre exerceu um grande

A lua sempre exerceu um grande

fascínio sobre a imaginação humana,

e inspirou mitos e crendices popula-

res em todas as culturas do planeta des- de a antiguidade. Depois do sol, ela era a maior divindade do paganismo e tudo indica que até hoje nosso sa- télite mantém esta aura mística, pelo menos entre os

poetas que sempre a cultuaram atra- vés dos tempos com um fervor quase

religioso. A partir do século XVIII, prin- cipalmente na literatura francesa, a lua e as estrelas cativaram os poetas a tal ponto que poesias falando de- las se tornaram cada vez mais co- muns. E até hoje é raro o poeta que não tenha feito pelo menos um ver- so dedicado a elas.

que não tenha feito pelo menos um ver- so dedicado a elas. Coletânea de Poetas da

Coletânea de Poetas da Lua e das Estrelas, ilustrada, 186 páginas, 2012. Seleção e pre- fácio de Bira Câmara

A Nova Era:

Os Deuses Estão de Volta?

Uma tese provocativa e original sobre a era de Aquário.

Uma tese provocativa e original sobre a era de Aquário. A determinação do início da Era

A determinação do início da Era

de Aquário, com base em cálculos astronômicos e astrológicos funda- mentados, estabelece sua alvorada por

volta de 2.400-2600 D.C, ao contrário do que acreditam os místicos de plantão

e astrólogos desinformados.

O período atual é de transição do

velho para o novo ciclo, de uma mistura das tendências que deverão prevalecer no futuro com resíduos do passado, pois ainda não temos perfeitamente definido o que será o sistema filosófico

ou religioso predominante na Nova Era. Por enquanto, todos os mo-

vimentos em torno deste tema podem ser con- siderados manifestações precoces de um novo espírito, de uma nova religiosidade que ainda tem de buscar

socorro no misticismo antigo. Por

mais que o espírito cartesiano seja execrado pelos “aquarianos”, pre- cisamos lançar mão dele para separar o joio do trigo, utilizando a ferra- menta da razão e do bom-senso na tarefa de expurgar as ervas daninhas da superstição, do charlatanismo, da desinformação e das idéias viciadas.

Breviário de Profecias do Fim do Mundo

Um levantamento das principais profecias sobre o fim do mundo

Os antigos davam grande importância aos fenôme- nos celestes, vendo neles uma mensagem dos deu- ses. Assim, um cometa,um eclipse, uma estátua ful- minada por um raio ou o nascimento de um animal com duas cabeças eram considerados sinais, pres- ságios de algum evento marcante. A propagação do cristianismo não mudou isso e os homens continua- ram a dar importância a estes sinais. Na verdade, a crença cristã, fundamen- tada na ressurreição de Cristo e na promessa de sua volta no final dos tempos, acabou alimen- tando a fantasia de místicos e religiosos faná- ticos que tentam em vão, até hoje, adivinhar quan- do o mundo vai acabar.

Edição de bolso (2010), ilustrada, 130 páginas.

que tentam em vão, até hoje, adivinhar quan- do o mundo vai acabar. Edição de bolso

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8 J o r n a l ivros ivros Papas, uma história bem agitada episódios marcantes
8 J o r n a l ivros ivros Papas, uma história bem agitada episódios marcantes

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Papas, uma

história bem

agitada

episódios marcantes da história do Papado

bem agitada episódios marcantes da história do Papado À venda na: Livraria Treze Listras R. Aurora

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O FUTURO ESTÁ CHAMANDO

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O FUTURO ESTÁ CHAMANDO Edward Griffin 104 páginas, Editora Lux, 2013. Sua visão da História

104 páginas, Editora Lux, 2013. Sua visão da História do século XX mudará após ler este livro.

da História do século XX mudará após ler este livro. Alexandre, ou o Falso Profeta Luciano

Alexandre, ou o Falso Profeta

Luciano de Samósata

2013, 59 páginas, formato 13,5 X 20,5 cm., ilustra- da. Versão e prefácio de Bira Câmara. A edição traz também Oráculos e adivinhos na Grécia e Astrolo- gia e Magia no império romano, dois capítulos do livro “Histórias da Astrologia”, de Bira Câmara.

Discurso Contra os Cristãos

de Celso

Prefácio e notas de Bira Câmara, com introdução de Louis Rougier. 148 páginas. Texto fundamental para o estudo de história da religião.

Texto fundamental para o estudo de história da religião. A Morte Maurice Maeterlinck Tradução portuguesa de
Texto fundamental para o estudo de história da religião. A Morte Maurice Maeterlinck Tradução portuguesa de

A Morte

Maurice Maeterlinck

Tradução portuguesa de Cândido de Figueiredo, revista e atualizada. Prefácio e nota biográfica de Maeterlinck por Bira Câmara 203 páginas, formato 13,5 X 18 cm.

Palavras Cínicas

Albino Forjaz Sampaio

Brochura, 85 páginas, formato 11,5 X 18,5 cm., 2012. Ilustrado com várias caricaturas de Forjaz de Sampaio. Atualização ortográfica e texto de apresentação de Bira Câmara.

ortográfica e texto de apresentação de Bira Câmara. O Esoterismo da Serpente Verde Tradução do conto
ortográfica e texto de apresentação de Bira Câmara. O Esoterismo da Serpente Verde Tradução do conto

O Esoterismo da Serpente Verde

Tradução do conto iniciático de Goethe, com a inter- pretação do seu simbolismo esotérico e maçônico por Oswald Wirth. 2001, 131 págs, 13,5 X 20,5 cm.

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