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No ode

E vejo porque ver quase muito. Nas ladeiras e neblinas o meu corpo, subitamente,
absorveu em demasia tudo, quase um tudo. Neblinou em minha alma por trs dias
ininterruptos. Depois passou como se fosse cadente, estrela, trouxe um sol imenso.
Tolo de mim, ai de mim! Fiquei aqui, torto, sonhador. Quis escrever uma ode, ode no,
romance. Mas passou um dia, dois dias, fugiu de mim a prosa, os versos, o sono.
Borbulhou ainda assim por mais um dia todo fulgor, toda dor que me causou. Causou.
Minha dor - nas ladeiras de pequenas pedras retangulares, molhadas e negras - esvaiu-
se entre seus cantos, linhas, frestas, epiderme. Pedras. A neblina que se condensou, o
fog, nuvem em gua, gotcula de magoa e amor impossvel.

E eu vi tudo como um sonho em meio ao nevoeiro. Via. Poemo voc em prosa,


inalcanvel destino, fuga, rota. Por trs dias me fizeste intil e feliz. Feliz por ser
totalmente intil. Como toda alegria intil, como tudo que importa, intil. E,
enquanto subia minhas pernas e ps por ladeiras infindas, sem cansao, minha alma
corria bem nua, acredite. Alegria. Alegria que se resume em nada mesmo, apenas isso,
fulgor, fome, cafena, risos, chuva, alma de inquieto. No sei por que sempre fui assim,
amante de pequenas coisas esquecidas como pedrinhas teimosas e redondas que
repousam nos cantos, beiradas de ruas tristes, musgos nos muros velhos, ruas...

Quando no me pude fugir definitivo at voc, imbatvel idealista, como toda mulher,
mesmo que crua de uma nudez deslumbrante, algo como que amor partido despediu-
se em lusco-fusco, rpido, brusco. Despeo-me agora s para dizer que terminou meu
tempo, breve relato de algo que se eclipsou. Pequenas palavras para dizer que ainda
morro de um amor passageiro por voc.