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SENAC

Marco Antônio Batista Franklin de Matos

Três visões sobre a ordem autocrático-burguesa no Brasil

São Paulo

2015

SENAC

Marco Antônio Batista Franklin de Matos

Três visões sobre a ordem autocrático-burguesa no Brasil

Trabalho

de

conclusão

 

de

curso

apresentado

ao

Centro

Universitário

SENAC- Lapa, como exigência parcial

para

obtenção

de

grau

de

Pós

graduado

em

Gestão

e

Produção

Jornalística.

Orientadora: Profa

.. dos Santos Rocha

Ms. Ivone Ananias

São Paulo

2015

3

Folha de aprovação

Marco Antônio Batista Franklin de Matos

Três visões sobre a ordem autocrático-burguesa no Brasil

Trabalho

de

conclusão

 

de

curso

apresentado

ao

Centro

Universitário

SENAC- Lapa, como exigência parcial

para

obtenção

de

grau

de

Pós

graduado

em

Gestão

e

Produção

Jornalística.

Orientadora: Prof. Ms. Ivone Ananias dos Santos Rocha

  • 1. Examinador (a)________________________________________

  • 2. Examinador (a)________________________________________

  • 3. Presidente

_______________________________________

AGRADECIMENTOS

Aos meus colegas e amigos de sala A minha orientadora, Ivone A Dileta, primavera de todas as manhãs

A

Ivan e Júlio, luzes do futuro

Não é um bom presságio para a democracia brasileira se apresentar sob a retórica de significar uma comunidade fraterna quando se encontra envolvida em uma política de vocação grã-burguesa.

Luiz Werneck Vianna

RESUMO

O objetivo do presente trabalho é analisar postagens de três blogs representativos do jornalismo político no Brasil atual. Em cada um desses blogs, vieram à superfície visões de mundo e ideologias de três correntes do pensamento político na sociedade brasileira atual e seus embates e conflitos. A primeira visão é ao do pensamento liberal conservador, outra é a da esquerda pragmática ora no poder. E a terceira visão representa o pensamento de setores democráticos da nova esquerda brasileira que tentam, a partir da crise do modelo societário vigente no Brasil, buscar uma nova alternativa política, econômica e social e para o nosso País.Permeando as análises dos três blogs, mostramos a importância dos blogs políticos e das novas redes sociais para o desenvolvimento do debate político no Brasil, abrindo novos horizontes para a concretização de nosso processo democrático. O trabalho se insere dentro de um contexto sócio-político movido por contradições intensas e grande radicalização; por isso, pretende adotar uma posição de equilíbrio e moderação para alertar o leitor sobre a maneira mais serena e democrática de enfrentar tais conflitos.

Palavras chave: pensamento liberal conservador; esquerda; jornalismo político; processo democrático.

ABSTRACT

The goal of this study is to analyze a few posts from three representative political journalism blogs in Brazil today. Each of these blogs has brought to light worldviews and ideologies from three streams of political thought in current

Brazilian society and their struggles and conflicts.The first view is the one of conservative liberal thought, another one is the pragmatic left wing now in charge. And the third view represents the thought of a new Brazilian left wing’s democratic sectors that coming from the crisis of the current social structure in Brazil try to seek a new political, economic and social alternative for our country. Going through the three blogs’ analysis, we show the importance of political blogs and new social medias for the political debate’s development in

Brazil, opening new horizons for the solidification of our democratic process.

Keywords:

conservative

democratic process.

liberal thought; left-wing; political journalism;

SUMÁRIO

  • 1. INTRODUÇÃO.................................................................................................9

    • 1.1 Objetivo geral

............................................................................................

11

  • 1.2 Objetivos específicos ...............................................................................17

  • 1.3 Metodologia ...............................................................................................19

    • 2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA....................................................................20

    • 3. OS BLOGS NO CONTEXTO GERAL E SOCIAL .........................................24

      • 3.1 O blog de Reinaldo Azevedo: a defesa da ordem autocrático -burguesa

sob a capa do liberalismo ...............................................................................28

  • 3.2 O blog 247: o pragmatismo a serviço do poder político ........................38

  • 3.3 O blog de Gilvan Cavalcanti de Melo: uma proposta democrática

e pluralista ........................................................................................................48 4.Conclusão .....................................................................................................60 REFERÊNCIAS

1. INTRODUÇÃO

O objetivo deste trabalho é analisar o conteúdo ideológico de três blogs políticos que ganharam destaque em nosso País durante os últimos anos marcados por intensa batalha política. Como a História demonstra, a luta política nunca acontece somente nos desvãos da atividade parlamentar ou nas confrontações de rua: ela se organiza antes e sempre nos discursos ideológicos que lhes dão sustentação e confiabilidade. Antes de ganhar as ruas e as tribunas, elas se solidificam nas mentes e nos corações, fazem parte daquele universo singular que Leandro Konder chamou de “batalha das ideias(KONDER, 1984).

É analisado em nossas pesquisas o conteúdo de três blogs políticos situados em diferentes espaços da política brasileira nos últimos 12 anos marcados pela ascensão do Partido dos Trabalhadores (PT) ao poder central em Brasília e pela manutenção do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) como principal força política de oposição ao PT, uma oposição nem sempre marcada pela coerência e pela combatividade, pois identificada com os principais aspectos da política econômica praticada pelo partido governista.

Dois dos três blogs pesquisados demonstram posições ideológicas situadas nos dois extremos a que nos referimos, o do PT e do PSDB, e um terceiro blog tenta apresentar um discurso mais equilibrado e centrado na análise multifacetada do processo histórico em curso no Brasil, fugindo à polarização entre PT e PSDB tida por alguns como suficiente para elucidar os desdobramentos mais refinados de tal processo histórico.O blog que a nosso ver representa (embora de forma muitas vezes caricatural) as propostas do PSDB é o de Reinaldo Azevedo, conceituado jornalista da revista Veja, do jornal Folha de São Paulo e da Rádio Jovem Pan. O blog que faz a defesa do PT é o Brasil 247,alimentado pela colaboração de diversos integrantes,funcionando seu discurso como porta- voz de enunciados

ideológicos comprometidos com a política oficial do governo federal em todos os governos da era PT.

O blog que, segundo nossa hipótese, tenta estabelecer uma síntese dialética mais criativa e mais de acordo com a complexidade da realidade histórico- social brasileira (de acordo com as análises de nosso contexto social realizadas por Florestan Fernandes e Carlos Nelson Coutinho) é o assinado pelo militante de esquerda, Gilvan Cavalcanti, durante muito tempo representante do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e hoje militando nas fileiras do Partido Popular Socialista (PPS). Tal blog, intitulado Democracia política e novo reformismo, não veicula somente conteúdos assinados por Gilvan Cavalcanti, dando espaço para renomados pensadores políticos brasileiros situados em posições ideológicas que têm na valorização da democracia política o norte de suas investigações, assumindo um discurso nuançado e distante das teses excludentes dos dois blogs anteriores. Como exemplos de tais colaboradores, podemos citar a título de ilustração os nomes dos sociólogos Luiz Werneck Vianna e Marco Aurélio Nogueira, e do jornalista Luiz Sérgio Nascimento Henriques.

O tema abarca, pois, um conteúdo bastante vasto e a complexidade de tal conteúdo, naturalmente, não poderá ser esgotada (nem é nossa pretensão fazê-lo) na análise de alguns posts veiculados pelos blogs pesquisados. Um trabalho como este pode servir para compreender o conflito político que se observa no Brasil entre PSDB e PT, e como a natureza deste conflito não pode esgotar a análise de período histórico tão rico, de resto vulgarizado no discurso de seus protagonistas com conceitos vazios e próprios à agitação partidária, tais como “neoliberalismo”, “bolivarianismo”, “lulismo”, “herança maldita” e tantos outros. Nossa análise, ao contrário, será sustentada por uma tentativa de interpretação da realidade histórica do Brasil fundamentada em teorias sólidas e comprovadamente pertinentes, como as de Florestan Fernandes e de Luiz Werneck Vianna. (FERNANDES, 2005; VIANNA ,2011)

1.1 Objetivo Geral

O objetivo geral deste trabalho é situar o debate político travado nos três blogs citados acima e que desenvolveu em nosso País ao longo dos últimos anos dentro do contexto histórico-social do Brasil como nação inserida dentro do sistema capitalista mundial globalizado. O Brasil faz parte desse sistema mundial como economia dependente e associada, isto é, submetida às injunções internacionais determinadas pelas economias centrais, particularmente, a economia dominante dos Estados Unidos da América. Apenas para citar um exemplo: o debate travado no País nas últimas eleições trouxe à tona essa dependência de maneira torta e enviesada; o PSDB apresentou-se como fiador de uma inserção soberana do Brasil no circuito globalizado internacional (inserção que, de resto, não se efetivou), o PT apresentou-se como protagonista de uma inserção autônoma, o que certamente não corresponde à análise dos fatos, visto que nossa economia no período petista continuou atrelada às imposições do capitalismo internacional e boa parte de nossas receitas foram orientadas para o pagamento dos juros escorchantes de nossas dívidas externa e interna, na verdade uma única dívida submetida ao jugo dos banqueiros nacionais e internacionais.

Segundo o estudo de historiadores insuspeitos de nossa realidade histórica, a dependência existe desde o nascimento do País, articulado desde sempre para produzir como colônia, condição que foi sendo renovada ao longo dos séculos sempre no quadro global de funcionamento do capitalismo mundial. É evidente que essa dependência foi sendo alterada ao longo dos séculos, mas sempre dentro de um quadro geral de submissão aos interesses dos grandes centros internacionais. Exemplo eloquente de tal situação se deu em 1964 quando as forças democráticas e populares lideradas pelo PCB e por setores do trabalhismo apostaram numa aliança com a burguesia industrial brasileira na luta pelas chamadas reformas de basee foram abandonadas por tais forças tão logo o governo Goulart ensaiou medidas que atingiriam seus interesses de classe.

O professor e jornalista Flávio Tavares analisa detalhadamente em seu livro sobre o golpe civil-militar de 1964 como o eixo das articulações golpistas foi criado e desenvolvido nos Estados Unidos e como setores da burguesia brasileira cortejados pelas esquerdas de então como aliados aderiram desde o início à movimentação sediciosa:

A conspiração civil-militar se desenvolveu para acabar com um governo que os conservadores acusavam de todos os males do passado, do presente e, até, dos que viriam no futuro. Na voragem de reunir tudo e todos- das verdades às mentiras, do inventado à realidade- os conspiradores tiveram na indecisão de Jango um inesperado e decisivo aliado. A insinuação de uma luta prolongada o acovardou muito além do seu conhecido sentido de conciliação, foi além de seu comportamento de

negociar para não ter de resistir. (

)

Como dizia Darcy Ribeiro,

... Jango Goulart não foi derrubado pelos seus erros, mas- sim

pelos seus acertos. (TAVARES, 2014, pág. 250)

A análise de Tavares deixa evidente que, na base do golpe militar que inseriu o Brasil como economia dependente e associada no interior do capitalismo monopolista estavam as forças que ainda hoje comandam a nação e impedem que possamos estabelecer um sistema econômico e político autônomo e voltado para as necessidades de nosso povo. Tal situação, como já vimos, decorre de um longo processo histórico de dependência estrutural que jamais foi sequer tocado nos últimos governos tucanos ou petistas. Como demonstraremos no devido tempo, as observações e análises dos blogs de Azevedo ou do Brasil 247 não tocam nem de longe em tal problemática, e quando fazem, o fazem no sentido da tergiversação e do engodo.

Florestan Fernandes, com sua habitual clarividência, em obra clássica sobre a dominação burguesa no Brasil nos esclarece sobre tais episódios:

Ainda é cedo para uma avaliação de caráter global e prospectivo. Contudo, parece claro que os elementos que compõem a dominação burguesa (especialmente as forças que representam a grande burguesia industrial e financeira,bem como a burguesia internacional,diretamente envolvida nesse jogo econômico e político) compreenderam com clareza a oportunidade histórica com que depararam e, depois de uma

curta hesitação pendular, trataram de aproveitá-la a fundo.(

..

.)

Esse fato põe-nos diante de uma realidade nova. A crise do poder burguês não se resolveu mediante a evolução internado

capitalismo competitivo. (

)

Todavia, nada disso foi posto a

... serviço de uma transição independente e não ocorreu nenhuma ruptura nas relações de dependência: ao contrário, atrás da crise política (a partir de dentro) havia uma crise econômica ( de fora para dentro), e estase resolveu através da reorganização do padrão de dominação externa( que é o que significou a passagem do capitalismo competitivo para o capitalismo monopolista: uma nova forma de submissão ao imperialismo). Coerente com sua lógica econômica e política, o poder burguês fez da iniciativa privada e de seu sistema um verdadeiro bastião, que protege e une os interesses privados internos e externos (agora associados ao poder público também no nível econômico). (FERNANDES ,2005, pág. 256-

257)

Fica claro pela análise de Florestan Fernandes que o eixo de poder após o golpe de 1964 deslocou-se para as frações da burguesia nacional mais comprometidas com o arranjo do capitalismo internacional, dentro do qual o Brasil exerce um papel secundário. Tal situação nos últimos anos só se agravou e podemos usar a essência da análise de Florestan para aplicá-la mutatis mutandis ao que ocorreu em nosso País a partir de 1994, com o Plano Real, isto é, a subordinação cada vez maior de nosso capitalismo à agenda do capitalismo mundial. Tal submissão se expressou no famoso tripé econômico posto em prática por Pedro Malan nos anos FHC e que Lula e Dilma só reforçaram em seus governos. (A tentativa do governo Dilma de reverter o tripé sem romper com as amarras da política econômica elitista e excludente a partir de 2011 só confirma o eixo de nossas observações).

O caráter dependente de nosso capitalismo teve consequências históricas sobre nossa intelectualidade que, premida pelas circunstâncias, passou a viver sob a dominação burguesa numa esfera de atividade que Carlos Nelson Coutinho, tomando de empréstimo uma categoria fartamente utilizada pelo filósofo húngaro Gyorgy Lukács, chamou de “intimismo à sombra do poder”. O domínio do capitalismo monopolista no Brasil se deu por meio de uma categoria de Lênin constantemente usada por Luiz Werneck Vianna na análise da realidade social brasileira, a “via prussiana”, mostrando que o capitalismo em nosso País esteve sempre conduzido pelas chamadas “revolução pelo

alto”, acordos orquestrados pelas classes dominantes entre elas, excluindo as massas populares de qualquer protagonismo na cena política ou qualquer intervenção sobre os destinos da cidadania. É preciso, pois, que compreendamos que as duas situações estão interligadas: a “via prussiana” é um caminho de desenvolvimento capitalista dependente que exclui o povo das

grandes decisões, gerando o “intimismo à sombra do poder”, que é o espaço aparentemente “livre” e autônomo dentro do qual a intelectualidade exerce

suas atividades longe de qualquer contato com as classes subalternas prejudicadas pelo sistema social elitista. Presos dentro deste espaço semelhante a uma torre de marfim, os intelectuais fazem reflexões dominadas pelo discurso dominante (caso de Reinaldo Azevedo) ou por sucedâneos deste discurso (como o blog Brasil 247, que justifica a política petista de conciliação entre as classes sociais, de conciliação entre o velho e o novo como sinônimo de transformação social verdadeira).

O ensaísta Carlos Nelson Coutinho faz reflexões acuradas sobre as consequências deste processo histórico sobre a intelectualidade brasileira:

Essa problemática pode ser resumida na idéia de que o processo de modernização econômico-social no Brasil seguiu uma “via prussiana” ou uma “revolução passiva” (o conceito é de Antonio Gramsci, nota do autor MAFM). Recordemos as características centrais do fenômeno: as transformações ocorridas em nossa História não resultaram de autênticas revoluções, de movimentos provenientes de baixo para cima, envolvendo o conjunto da população, mas se processaram sempre através de uma conciliação entre os representantes

dos grupos opositores economicamente dominantes, conciliação que se expressa sob a figura política de reformas

“pelo alto”. ( ) ... O conjunto desses pressupostos prepara um clima favorável a que a cultura se desenvolva naquele clima asfixiante que- valendo-me de uma expressão de Thomas Mann recolhida por Lukács- chamei em outro local de “intimismo à sombra do

poder”. Esse “intimismo” liga-se diretamente ao problema da ornamentalidade da cultura. O processo de cooptação não obriga necessariamente o intelectual a se colocar diretamente a serviço das classes dominantes enquanto ideólogo; ou seja, não o obriga a criar ou defender apologias ideológicas do existente. O que a cooptação faz é induzi-lo- através de várias formas de pressão, experimentadas consciente ou inconscientemente- a optar por formulações culturais anódinas,

“neutras”, socialmente assépticas. O “intimismo à sombra do

poder” lhe deixa um campo de manobra ou de escolha aparentemente amplo, mas cujos limites são determinados precisamente pelo compromisso tácito de não por em discussão os fundamentos daquele poder a cuja sombra ele é livre para cultivar a própria “intimidade”.( COUTINHO, 2000, pág. 50 e 54-55)

É importante reforçar o raciocínio de Coutinho e ampliá-lo até abarcar nosso

tema: o “intimismo” é um espaço de confinamento dos intelectuais que não lhes

permitem ir além do estabelecido pela ordem capitalista dominante, entendida de maneira ampla, entendida como reprodutora do capital globalizado e monopolista, e não simplesmente como o governo de plantão que serve a tal ordem estabelecida.

Assim, compreenderemos a postura de Reinaldo Azevedo como de “apologia do existente” (na ótica de Coutinho) e a do Brasil 247 como defesa da mesma ordem geral capitalista, atenuada em alguns de seus efeitos mais cruéis por reformas cosméticas coordenadas pelos centros de decisão do capitalismo mundial (como, de resto, Francisco de Oliveira já analisou exaustivamente em sua obra). Retornando à idéia de Coutinho de “revolução passiva” (e voltamos a insistir que o conceito é de Gramsci), é bastante significativo analisar à luz desse conceito a troca de guarda realizada em 2002 quando, ao arrepio de todas as expectativas dos movimentos populares, Lula assumiu o governo e manteve a mesma política econômica do governo de Fernando Henrique Cardoso. Fez mais: nomeou um banqueiro para o comando do Banco Central, o senhor Henrique Meirelles, e aprofundou a política de aumento do superávit primário para assegurar ao sistema financeiro o pagamento escorchante dos juros de nossa dívida. Cremos que não haverá um exemplo mais límpido de “conciliação de classes” e “revolução pelo alto” do que este. Naturalmente, aqui não é o local adequado para analisarmos as causas da adaptação do PT ao poder dos monopólios capitalistas, sendo talvez necessário recorrer ao

“transformismo”, outro conceito da lavra de Gramsci, que dá conta da adesão

de setores populares ao domínio do capitalismo. Lembraríamos nesse caso, como já o fez Chico de Oliveira, o sentido farsesco de tal adesão, pois na Europa capitalista, a integração da socialdemocracia aos mecanismos de

dominação do capitalismo durou quase um século de batalhas de classe, enquanto no Brasil assumiu simplesmente a assinatura de uma providencial

“Carta ao povo brasileiro” feita por Lula meses antes de sua posse.

O importante é fixarmos o universo de nosso tema: um País dominado historicamente por um sistema capitalista dependente e associado ao capital internacional e, dentro desse quadro, transformações sociais realizadas “pelo alto”, marginalizando-se as classes populares e limitando a adesão dos intelectuais a um projeto efetivo de mudanças democráticas. Nesse contexto, serão analisadas algumas das postagens de Reinaldo Azevedo (o “intelectual orgânico” das classes dominantes), do Brasil 247 (o intelectual a serviço da manutenção do sistema dominante por vias aparentemente mais suaves) e o blog de Gilvan Cavalcanti(segundo a análise proposta, tentando propor mudanças estruturais na sociedade brasileira) .O tipo de sociedade reinante no Brasil e objeto de análise dos três blogueiros pode ser definido, recorrendo ainda uma vez a Florestan Fernandes como “ordem autocrático-burguesa”, já que sua dinâmica está inteiramente voltada para a hegemonia do grande capital.

1.2 Objetivos específicos

Analisar o discurso de Azevedo e do Brasil 247, tão distintos entre si, mas pertencendo ambos ao mesmo espaço de reprodução da ideologia dominante no Brasil, aquele espaço demarcado pela reprodução da ordem autocrático- burguesa. O blog de Gilvan Cavalcanti procura estabelecer uma síntese dialética (histórico- sistemática, na concepção de Lukács), capaz de dar respostas mais precisas na busca de uma compreensão equilibrada da realidade brasileira.

Reinaldo Azevedo conforma-se, em suas reflexões, ao discurso de justificação das desigualdades e da exclusão reinantes em nosso País. Defensor de teses liberais, não se alinha ao liberalismo mais avançado que se abre para os dramas sociais, como foi o caso, por exemplo, de liberais como Ulysses Guimarães ou Teotônio Villela. É interessante lembrar que há reflexões

contemporâneas sobre o papel do liberalismo mais avançado nos embates políticos de hoje, como as do teórico italiano Norberto Bobbio. A esse respeito, é também importante a leitura de Giuseppe Vacca, que, num de seus livros, analisa o significado do liberalismo mais radical na batalha política de hoje, pois, unido a setores de esquerda tradicional e a setores socialdemocratas, pode estabelecer uma profícua aliança renovadora, como aconteceu na Itália com a formação do Partido Democrático. (VACCA ,2009).

Naturalmente, esse liberalismo mais comprometido com as causas dos mais pobres não é o liberalismo de Reinaldo Azevedo, radicalmente individualista e inserido num contexto de valorização absoluta do mercado como regulador de todas as relações sociais. (Nesse sentido, é instigante analisar os últimos pronunciamentos do Papa Francisco condenando duramente o domínio do mercado sobre as relações humanas e criticando com vigor a “idolatria do dinheiro” imperante em nossa sociedade). A ideologia que sustenta o discurso é a abraçada por vastos setores das novas classes médias urbanas, temerosas sempre de políticas sociais que se proponham a transformar o quadro de desigualdade de nossa organização social.

Outro objetivo é contextualizaras opiniões de Azevedo na ótica do que Gramsci chamou de “senso comum”, isto é, o nível mais superficial da realidade social encontrado no discurso coloquial do cotidiano. Depois das manifestações de massa de junho de 2013, esse discurso se viu dominado por um forte sentimento de medo e rancor (sentimentos dominantes em muitos setores dessas camadas médias urbanas), quando alguns deles passaram a flertar abertamente com a volta dos militares ao poder, clamando até por um intervencionismo anacrônico e fora de propósito. Tais palavras de ordem vocalizadas por setores dantes tão distantes da prática política regular

expressa o que tenho chamado, em conversas mais superficiais, de “direita festiva”, pois sequer têm noção da gravidade que tais solicitações acarretariam

à Nação, como de resto, verificou-senas conseqüências nefastas do golpe militar de 1964 para a economia e para a cultura do Brasil.

O terceiro objetivo é entender o porquê de o blog Brasil 247seguiroutra vertente. Isso porque, o PT ascendeu ao poder cercado de esperanças de transformações profundas na estrutura social brasileira. O programa oficial do Partido, renegado na prática pela famosa “Carta ao povo brasileiro”, não previa uma mudança no sentido do socialismo, mas apontava para medidas “democrático-populares” que poderiam se constituir em grandes avanços para a construção em nosso País de uma democracia verdadeiramente participativa, para algo próximo do que Pietro Ingrao chamou “democracia de massas”. (INGRAO, 1981).

Outro objetivo específico é estudar o blog de Gilvan Cavalcanti, que, ao contrário dos anteriores, foge à polarização PT X PSDB e se abre à perspectiva de uma reordenação democrática da sociedade brasileira, projeto que se inspira na mais moderna tradição da esquerda contemporânea, centrada na conquista de uma sociedade radicalmente democrática.

Faz parte ainda deste estudo extrair as consequências das três posições descritas para o enriquecimento democrático do diálogo pluralista no Brasil de hoje, tão prejudicado por tensões sociais e por discursos marcadas pela intolerância e pelo radicalismo.

1.3 Metodologia

Nossa pesquisa deverá atingir seus objetivos por meio de postagens dos três blogs citados como representativos de tendências políticas distintas no universo atual da política brasileira. Correndo o risco de simplificar, poderíamos definir tais posições como: o liberalismo conservador de Reinaldo Azevedo, a esquerda socialista autoritária do Brasil 247 (que, ademais, aderiu ao projeto político conservador dominante) e a esquerda democrática e pluralista de Gilvan Cavalcanti.

O método utilizado é o “histórico-sistemático” desenvolvido por Gyorgy Lukács

em suas análises da política, do fenômeno social e da estética.

O ponto de

partida é a análise de um contexto histórico-social para chegar aos conceitos produzidos pelos autores, e depois, retornar a tal contexto para desvendara função social por eles exercida na sociedade brasileira dentro de um determinado período histórico.

Outro aspecto é o de análise dialética que Lukács faz da interação entre essência e aparência dentro da totalidade social como forma de desmistificar o pensamento cotidiano e chegar até níveis mais profundos da realidade, tradição filosófica que o pensador húngaro aperfeiçoou a partir de leituras atentas de Hegel e Marx. Por meio desta metodologia, é possível mostrar que o discurso ideológico nem sempre consegue captar a essência do real, ficando muitas vezes prisioneiro de suas aparências.

Ao mesmo tempo, estão sendo utilizadas postagens dos três autores para comparar suas posições divergentes sobre fatos específicos e sobre questões gerais, tentando construir ao final do trabalho uma visão multifacetada da realidade social brasileira, visto que fundamentada em visões distintas e, muitas vezes, diametralmente opostas.

2. A IMPORTÂNCIA DO WEBJORNALISMO

Como sabemos, o surgimento da internet e da rede de comunicação global trouxe mudanças radicais no funcionamento da sociedade capitalista e na percepção que este funcionamento passou a ter nas mentes de seus integrantes, sejam usuários ou não de instrumentos de comunicação eletrônica. Edilson Cazeloto, em ensaio sobre o surgimento da nova era nas comunicações, destaca vários aspectos importantes sobre tal fenômeno. O primeiro, essencial para o estudo de nosso tema, é a gritante desigualdade em escala planetária da fruição destes mecanismos de comunicação por parte de cidadãos bem sucedidos (transformados em “cidadãos globais”, sem vínculo

necessário com seus países de origem) e os menos favorecidos, envolvidos muitas vezes na luta pela sobrevivência que os impede de fruições mais descompromissadas com as tecnologias de ponta.

Mesmo assim, Cazeloto põe em destaque que, apesar das flagrantes desigualdades, a sociedade capitalista atual sofreu forte influência dos novos meios de comunicação; o autor nos explica o conteúdo de seu conceito:

Chama a atenção daqueles que se dedicam ao estudo das

implicações sociais da tecnologia a “coincidência” cronológica

entre o período dessas mudanças e o fenômeno da

informatização do cotidiano, perceptível com mais clareza no “barco” dos ricos, mas que não deixa de chacoalhar com suas

ondas a “jangada” dos pobres. Chamo de informatização do cotidiano não apenas a disseminação de equipamentos de informática, mas também (e sobretudo) o surgimento e o predomínio de práticas culturais mediadas por esses equipamentos. Bater papo na internet, mandar mensagens de texto pelo celular, usar cartões com chips nos bancos ( e até no ônibus), assistir vídeos e ouvir músicas em formato digital: tudo isso faz parte desse fenômeno, que ganhou força a partir dos anos 70 do século XX. (CAZELOTO,2010, pág.166-167)

Depois de salientar com muita propriedade que autores contemporâneos importantes como Antonio Negri e Michael Hardt chegam a tratar o fenômeno da informatização com o próprio fenômeno da “pós- modernização”, Cazeloto chama nossa atenção para o fato de que a informatização nada mais é do que a passagem de uma sociedade industrial para uma sociedade de conhecimento e de múltiplos sistemas de informação. Em linguagem marxista, diríamos nós: é a passagem do capitalismo monopolista de Estado para um capitalismo monopolista hiper-concentrado e focado em eixos restritos de conhecimento e de técnica, deixando uma massa imensa de excluídos dos bens materiais e dos produtos de consumo segundo o Papa Francisco, “uma massa de bilhões de descartáveis”.

Outro aspecto importante frisado por Edilson Cazeloto e que terá implicações

com

nosso

tema

é

a

velocidade

assumida

conhecimento:

pela

nova

sociedade

de

De

todos

os

traços

constituintes

e

mútuos

entre

a

informatização do cotidiano e a pós-modernidade, o mais importante é, sem dúvida, o vetor da velocidade. A mudança acelerada e sem finalidade é um ponto nodal que faz convergir esses dois movimentos, integrando-os tanto no nível da produção quanto da cultura. Idem, pág. 168.

Depois de demonstrar que a velocidade sempre esteve presente na articulação da sociedade capitalista, pois sem pressa não é possível atender ao mercado (basta pensar nas técnicas capitalistas do fordismo e do taylorismo, o autor fala do extremo a que chegou a velocidade na moderna estrutura social:

Até o princípio da propriedade, sagrado nos primórdios da industrialização, é sacrificado em nome da agilidade e do escapismo. No lugar do “proprietário dos meios de produção”, inimigo sempre facilmente identificável, surgem os

“investidores”, que podem estar em qualquer lugar, a qualquer

momento. No lugar do “dono”, um grupo anônimo e sem face

de funcionários dirigentes que não fazem senão cumprir

“ordens superiores” ou atender às “normas do mercado” para

maximizar os lucros. A “propriedade”, em si, evidentemente

permanece como um pilar do capitalismo, mas e dinamizada na

forma de participações acionárias, fusões, conglomerados, cadeias produtivas, joint-ventures etc.(Idem, pág. 171)

É importante a análise de Cazeloto, cujas ideias complexas não são discutidas, além da caracterização desta nova etapa do capitalismo com o tempo da

informatização, da velocidade e do proprietário “anônimo” dos meios de

produção, sua conclusão final de que qualquer uso da internet que tenha caráter não capitalista (ou anticapitalista) é um “uso desviado” do previsto no sistema, pois o usuário nessas condições estaria se servindo de brechas e interstícios para provocar fendas e rupturas no totalitarismo dominante.

O webjornalismo se situa dentro deste quadro e sua utilização por parte de uma infinidade de blogueiros, autônomos ou não, tendo sentido anticapitalista

ou não, contribui decisivamente para a difusão na opinião pública de sentidos alternativos aos veiculados pela mídia oficial. Que se pense no caso da corrupção em nossa vida pública, sempre visto como um desvio comportamental de indivíduos (como é a visão,por exemplo, expressa por Reinaldo Azevedo), mas, cada vez mais hoje vista como parte integrante e essencial ao funcionamento “normal” do capitalismo autocrático em nosso País( basta lembrar que a adesão ao PT ao condomínio do poder necessariamente o levou à prática sistemática da corrupção).

Outra estudiosa dos novos fenômenos desenvolvidos nos últimos anos na área das comunicações é Pollyana Ferrari.

A autora descreve fenômenos desenvolvidos no que ela chama de “ambiência cibernética”,como a desterritorialização da escrita, base sem a qual não se sustentaria a existência dos blogs. Para conseguir fundamentar sua análise de maneira mais clara, Ferrari mergulha no universo do cinema, com reflexões sobre diretores e filmes que conseguiram captar o que ela chama de “angústia do ser pós-moderno”, fazendo referência a clássicos como ao Stanley Kubrick de De olhos bem fechados (1999), o David Lynch de A estrada perdida( 1997) ou o Robert Altman do emblemático Shotcuts ( 1993). Segundo Ferrari, esses filmes e outros do gênero constituem um novo gênero que procura fixar os encontros e desencontros, as angústias, amores e a solidão de personagens agindo em conexão dialética com as grandes metrópoles da atualidade. A interconexão contínua entre as diversas situações muitas vezes não se dá por inteiro nas telas, mas depende de novas regras de assimilação e de informação desenvolvidas pelo expectador, que as aprende no novo território da cultura ocidental construído ao longo tempo pela conversação e por suas vivências que explicitam um “sentido particular do mundo”. (FERRARI, 2010, pág. 80)

Para caracterizar melhor essa nova etapa da percepção humana nas sociedades modernas, Ferrari recorre a uma interessante observação de MacLuhan em 1954, que afirmou:

antes da imprensa, um leitor era alguém que discernia e sondava enigmas. Após a imprensa, passou a significar alguém que corria os olhos, que escapulia ao longo das superfícies

...

macadamizadas do texto impresso (

)

à imprensa, à

... mecanização da escrita, sucedeu, no século XIX, a fotografia e,

em seguida, a mecanização da fala ao telefone, no fonógrafo e no rádio. Com o cinema e a televisão, sobreveio a mecanização da totalidade da expressão humana, da voz, do

gesto e da figura humana em ação. (

)

cada um desses

... estágios da mecanização da expressão humana comparou-se, no seu âmbito, à revolução deflagrada pela própria mecanização da escrita. (FERRARI, 2010, pág. 81)

Partindo da premissa da “ambiência cibernética” e das observações

agudas de MacLuhan, Pollyana Ferrari demonstra a conexão entre hipertexto e hipermídia, colocando no centro de suas preocupações a importância do jornalismo dentro desta nova conjuntura marcada por

aquilo que ela chama de “narração interativa. A autora nos fala também

da criação por parte dela de um projeto de participação e integração dos

leitores na transformação e recriação de textos, sejam eles poesias, contos,folhetins ou histórias do cotidiano, o Remix Narrativo. Neste quadro novíssimo de interconexão entre texto e outras mídias ( base para o desenvolvimento dos blogs), a autora nos esclarece:

O participante pode alterar uma narrativa textual existente a partir do desenrolar da trama; mudar os personagens ou de formato, ou seja, continuar o conto com inserção de uma imagem, áudio ou vídeo. A cada bloco temático é possível espiar, participar, modificar ou iniciar uma nova narrativa- apropriando-se do formato existente ou escolhendo outro numa lúdica brincadeira entre formatos multimídias. (FERRARI, 2010 ,pág. 88)

  • 3. OS BLOGS NO CONTEXTO GERAL E SOCIAL

É dentro deste ambiente de novas e inesperadas conexões que surgem possibilidades para o jornalismo colaborativo, participativo ou mesmo político,

pois o clima vivido por nossas sociedades “pós-modernas” é propício a encaminhar o leitor para novas formas de entendimento e de manifestação. Basta lembrarmos o papel do facebook e da internet em geral na difusão das manifestações de junho de 2013 no Brasil e na derrubada da ditadura egípcia

em 2011 no que se convencionou chamar de início da “Primavera árabe”.

A respeito do papel assumido na era atual pelos blogs, podemos nos valer de instigante artigo escrito por André Borges, no qual o autor mostra como se desenvolveu tal instrumento de comunicação, tido no início de sua história

como simples “brincadeira entre adolescentes”. O autor comenta, com

propriedade, que a imprensa tradicional preocupa-se muito com essa nova ferramenta colocada a serviço do jornalismo e que não é a primeira vez na História que um novo meio de comunicação coloca em risco sua própria

existência.

Depois de mostrar que no ano 2000 os primeiros blogs ainda começavam a

“tagarelar na web” e que na primeira metade desta década, o fenômeno

totalizava 30 milhões de endereços, reunia mais de 700 mil atualizações diárias, o equivalente a 29 mil publicações por hora, Borges comenta que tal expansão deixou claro para os jornalistas que o momento atual acabou com a exclusividade dele na transmissão das notícias. Com isso, é possível acrescentar que acabou também a exclusividade dos grandes meios de comunicação na divulgação de seus pontos de vista, sempre coadunados com a ideologia dominante a serviço do capital monopolista. Nas análises dos três blogs escolhidos, observaremos que se Azevedo expressa um ponto de vista “oficial”, Dirce e Cavalcanti ultrapassam esses limites, e mesmo as reflexões de Azevedo, sofrem as contingências do novo ambiente cibercultural, podem ser contestadas por leitores mais ativos e, muitas vezes, mostram incongruências e paradoxos ao sofrer o crivo de uma observação mais atenta e participativa.

Borges analisa em seu texto as complexas relações que se estabeleceram entre a grande imprensa e os blogs e faz referência a nomes conhecidos do

jornalismo, político ou não, que são os fiadores de que a nova ferramenta veio para ficar:

Não muito próximos das discussões sobre o papel da grande mídia e seu futuro, os blogueiros brasileiros também têm mostrado que a grande rede é um prato cheio para a verve literária. Já perceberam isso muitas editoras, que vasculham a web em buscas de bons textos e boas idéias. O blogjornalismo também já saiu do estágio embrionário no Brasil. Profissionais consolidados da imprensa nacional, como Fernando Rodrigues, José Roberto Torero e Ricardo Noblat são alguns exemplos do espaço cativo que os blogs conquistaram no meio digital, sinalizando o potencial da nova ferramenta. Carregados de

“furos”, opiniões e um tom mais informal, os blogs passaram a

freqüentar, diariamente,o espaço nobre das principais páginas eletrônicas da rede. (BORGES, 2010, pág. 46)

Citando jornalista inglês Simon Jenkins, que já chefiou publicações de renome como The Economist, The Times e The Guardian, Borges nos mostra que um dos maiores desafios do jornalismo atual é provar que suas tradicionais qualidades, como a precisão das informações, o levantamento de notícias e a confiabilidade ainda justificam sua existência, sendo que os blogs proliferam de maneira autônoma e com informações muitas vezes alternativas com relação ao circuito oficial visitado pela grande imprensa. Jenkins destaca também o paradoxo que se manifesta no conteúdo dos blogs jornalísticos: eles vivem do fato noticiado pela grande mídia, sendo muitas vezes acompanhado por um público não somente ávido por novas informações, mas também ansioso por saber as opiniões pessoais do blogueiro sobre determinados eventos, o que contribui para a disseminação de tais blogs.

Na continuação de seu texto, Borges destaca algumas experiências interessantes realizadas em blogs políticos com a ativa participação dos cidadãos e aponta também para a necessidade que os grandes meios eletrônicos têm de enfrentar tais experiências, sendo obrigados a seguir, mesmo a contragosto, tais tendências. Mesmo assim, suas informações tendem sempre a serem limitadas aos círculos econômicos e culturais nos quais estão inseridos, o que não ocorre com os blogs jornalísticos autônomos:

É neste momento que os blogs, mais uma vez, podem se tornar ainda mais atraentes, oferecendo maior diversidadee combatendo uma suposta pasteurização da cobertura jornalística. Mídias tradicionais do Brasil e de todo o mundo já perceberam isso e, alheios a discussões catastróficas ou decisões radicais , começam a utilizar o blogjornalismo como uma extensão do trabalho que já fazem,seja no meio impresso, na televisão ,rádio ou na própria internet. ( ) ...

A visão de que ficaria para os jornais impressos a função de

divulgar o “aprofundamento das notícias”, enquanto a internet

estaria mais atrelada ao efêmero, já não faz o menor sentido.Na realidade, até hoje nãos se criou nada mais dinâmico e estruturado como o meio digital para lidar com o acesso ilimitado a conteúdos relacionados. Está na internet a notícia dada minuto a minuto. E por trás dela, toda e qualquer informação sobre o tema que o usuário queira buscar. (BORGES, 2010, pág. 51)

Desta maneira, André Borges fala sobre a importância do blog jornalístico em nossa sociedade, revelando de maneira nítida sua capacidade de difundir novas informações e, acima de tudo, sua condição de divulgar opiniões pessoais dos jornalistas (ou blogueiros), aspecto fundamental para nossa análise das três vertentes ideológicas e políticas contidas nos três blogs por nós analisados na continuidade deste trabalho. No final de seu texto, Borges novamente destaca a importância dos blogs para o futuro do jornalismo, embora se mostre reservado quanto aos desdobramentos concretos deste

futuro. Como ele mesmo reafirma, “no futuro, lá estarão milhares de blogs para dar a notícia”.

Antes de entrar na análise dos três blogs por nós escolhidos, é interessante frisar que a própria imprensa tradicional reconhece o papel desempenhado pela internet nos últimos acontecimentos políticos e sociais no Brasil. A título de exemplo, podemos citar comentário publicado em O Estado de São Paulo do dia 9 de março de 2015, à página 4 do caderno de Política. Os jornalistas Pedro Venceslau e Thais Arbex assim comentam esse papel:

As primeiras grandes manifestações de junho de 2013 foram convocadas pelo Movimento Passe Livre, um grupo formado majoritariamente por estudantes universitários de esquerda.

Em pouco tempo, os protestos cresceram com adesões espontâneas oriundas de uma corrente de insatisfação

generalizada pelas redes sociais. (

...

)

A onda

que parecia

grande quebrou antes das eleições, mas começou a se formar

novamente no segundo turno da sucessão presidencial de 2014.

Desta vez, porém, o “contra tudo que está aí” foi substituído pelo

antipetismo. E pela primeira vez em sua história, o PSDB colocou milhares de pessoas nas ruas em defesa da candidatura de Aécio Neves (PSDB).

Falando sobre o movimento atual de tentativa de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff, os jornalistas completam:

Foi logo depois do segundo turno, com a vitória da presidente Dilma Rousseff sobre Aécio numa eleição apertada, que as primeiras organizações virtuais antipetistas começaram a ganhar status.

Em seguida, a matéria indica que os primeiros antipetistas, que proclamam a necessidade do impeachment de Dilma, eram três no início e, hoje, são mais de vinte, graças ao poder de difusão da idéia e de recrutamento de participantes via internet. Naturalmente, os blogs políticos não estão alheios a essa movimentação e seus principais porta-vozes defendem ardorosamente suas posições, uns alinhando-se com as manifestações programadas para o próximo dia 13 de março (em defesa da permanência do atual governo, entre outras nuances), e outros se alinhando com os protestos marcados para o dia 15 de março (que abrigam desde grupos convictos da necessidade do impeachment até grupos de extrema-direita que pregam a intervenção militar, passando por entidades defensoras do Estado de Direito Democrático e contra a corrupção).

Verificamos, assim, a importância dos blogs políticos e da internet em geral na atual quadra de nossa sociedade e, de maneira geral, no mundo atual

atravessado por sérias contradições econômicas ,políticas e sociais do sistema capitalista em mais de suas cíclicas crises de reprodução.

3.1

O

BLOG

DE

REINALDO

AZEVEDO:

A

DEFESA

DA

ORDEM

AUTOCRÁTICA SOB A CAPA DO LIBERALISMO

atravessado por sérias contradições econômicas ,políticas e sociais do sistema capitalista em mais de suas cíclicas

Na análise das postagens de Reinaldo Azevedo, escolhemos um critério aparentemente aleatório para realizar as escolhas dos textos. Na verdade, o critério foi decisivo para os objetivos de nosso trabalho, concentrado em demonstrar a filiação de Azevedo aos setores da sociedade identificados com o modelo excludente e concentrador instalado no Brasil nas últimas décadas. Desta maneira, evitou-se a escolha de postagens excessivamente datadas e foram consideradas as postagens de cunho mais geral ( ou filosófico), nas

quais abundam as reflexões que deixam nítidos os compromissos de Azevedo

com a “via prussiana” de desenvolvimento do capitalismo em nosso País. É

interessante lembrar que Azevedo age como “intelectual orgânico” das classes dominantes (a expressão é de Antonio Gramsci), mas evita sempre assumir tal postura, assumindo o horizonte liberal-democrático como pretenso eixo de seu pensamento. Ora, nós sabemos com Roberto Schwarz que o liberalismo em formações dependentes como a nossa fez parte daquele longo processo histórico chamado certeiramente de “ideias fora do lugar”. Como veremos no desenvolvimento de nosso trabalho, na análise dos romances de Machado de Assis, Schwarz nos chama a atenção para os personagens oriundos das elites dominantes que defendiam ideias liberais para uso social e mantinham em suas propriedades o trabalho escravo como base de sua sustentação produtiva.

Em texto escrito logo após a eleição de Gilberto Kassab para a prefeitura de São Paulo em novembro de 2008, quando o então prefeito derrotou Marta Suplicy, Azevedo polemiza com a historiadora Maria Victoria Benevides, que apoiara a candidata petista derrotada nas urnas. Fazendo uso de suas ironias irreverentes e, muitas vezes, agressivas, Azevedo chama, em seu blog, a historiadora de “pseudo intelectual” e a acusa de compactuar com o “amoralismo” da campanha petista que, na reta final, serviu-se de ataques à vida pessoal do candidato para tentar “desconstruí-lo” (de resto, método antiético continuamente usado nas campanhas petistas, como vistoem 2014 com as críticas fraudulentas atiradas contra Marina Silva e Aécio Neves).

Mas, o desta queda mensagem do blog vai além desta constatação. Numa característica típica de seu discurso, Azevedo recorre às generalizações indevidas e abstratas para associar a prática petista com a prática da esquerda em geral, como se o PT fosse a encarnação de uma esquerda única e que agiria em bloco. No mesmo texto, o autor expressa mais um dos tópicos constantemente difundidos pelo pensamento conservador, que é a indevida associação entre liberalismo e democracia. Falando sobre as diferenças entre “direita” e “esquerda” (novamente o pensamento abstrato), Azevedo afirma:

Outra diferença nada ligeira é que o fascismo, felizmente, não deixou senão defensores residuais e sem importância. Já os epígonos intelectuais do socialismo homicida, como se nota acima, estão na academia, na imprensa, nos governos e integram o establishment das democracias, construídas à sua revelia. Afinal, o regime democrático é obra do liberalismo.

“Que papo mais antigo, Reinaldo! O muro já caiu!” É fato. Masa

amoralidade da esquerda sobreviveu aos escombros.

Como podemos verificar, além da generalização a-histórica, o pensamento do jornalista confunde o desenvolvimento histórico do capitalismo para justificar sua posição de apoio ao sistema dominante no Brasil que, diga-se de passagem, não pode ser visto (como quer o autor) com um capitalismo “puro” e abstrato. Carlos Nelson Coutinho, em ensaio, fala sobre a conquista da democracia política como culminação de um longo processo percorrido pelas classes trabalhadoras:

Embora as “Declarações de Direitos Humanos” tenham

afirmado, desde o início do século XVIII,a soberania popular- ou, em outras palavras, a extensão da cidadania a todos os membros do corpo social-, a efetiva socialização da política ocorreu tardiamente nos Estados liberais capitalistas. Na prática, os primeiros regimes liberais restringiram tanto o direito de associação quanto o de sufrágio ,limitando as franquias políticas à camada dos proprietários. O sufrágio universal masculino, condição mínima para a generalização da cidadania no plano formal, foi um direito conquistado apenas e graças às lutas das classes trabalhadoras- no final do século XIX e início do XX; ainda mais tardia foi a conquista do sufrágio feminino. A formação de sindicatos, por sua vez, foi proibida pelos regimes liberais em nome da liberdade de mercado; num país como a França, por exemplo, o reconhecimento do direito legal de associação sindical e de greve só teve lugar em 1884, ou seja, mais de dez anos após a Comuna de Paris. Foi também relativamente tardio o surgimento do partido político tal como o conhecemos hoje, isto é, o partido de massa, que se tornou elemento decisivo para a formação da vontade política em qualquer regime liberal-democrático contemporâneo. ( COUTINHO,2000, pág. 26 e 27)

Observamos, assim, que a confusão entre liberalismo e democracia em Azevedo nasce não somente de seu desconhecimento básico do desenvolvimento histórico (tão bem destacado por Coutinho), mas também por sua adesão a um método de pensamento formal e abstrato, focado num conflito a-histórico entre esquerda e direita.

Outro ponto importante a ser analisado nos textos de Azevedo é a ligeireza com que trata da obra de intelectuais de respeito como Antonio Gramsci. Independentemente de quaisquer convicções ideológicas ou políticas, é consenso hoje que o pensamento do dirigente político do Partido Comunista Italiano constitui um marco na evolução das ciências sociais e políticas e, concordemos ou não com ele, suas reflexões permaneceram como referências teóricas ao logo dos séculos XX e XXI, contribuindo para a obra de sociólogos de peso, como Florestan Fernandes, Fernando Henrique Cardoso ou Umberto Cerroni.

Por meio de conceitos que atualmente já fazem parte do cotidiano até mesmo do jornalismo político, Gramsci contribuiu decisivamente para a compreensão das complexas relações nas sociedades modernas entre democracia política e socialismo, mostrando como o regime socialista pode ser conquistado por meio do aprofundamento (e nunca da negação) das instituições democráticas. Um de seus melhores divulgadores, Luciano Gruppi, assinala sobre o pensamento gramsciano:

A iniciativa política leva em conta a situação objetiva, a fim de intervir na mesma e levá-la a soluções mais avançadas, coerentes com as possibilidades nelas contidas. Verifica-se uma articulação dialética entre objetivo democrático e objetivo socialista, sem o menor esquematismo, como aquele dos que hoje costumam opor reforma dentro do sistema e reforma contra o sistema. Trata-se aqui de reforma dentro do sistema, que é, porém, contra o sistema, que golpeia o sistema, que permite sua superação. (GRUPPI, 1978, pág. 46)

Por meio de relações densas entre democracia e socialismo, a obra de Gramsci trabalha com conceitos que, como vimos, foram incorporados à dinâmica dos estudos sociais e políticos na contemporaneidade, tais como:

hegemonia política, sociedade civil, sociedade política, transformismo, bloco histórico etc. Porém, para Reinaldo Azevedo, segundo postagem realizada em 16 de maio de 2007, nada disso importa, pois Gramsci seria um pensador cuja obra “ ficou na grelha da empulhação um pouco mais do que a de Lênin e, por isso, chega à mesa do debate com menos sangue e disfarça, assim, a sua vigarice”. Mais uma vez, podemos observar que a indigência intelectual de Azevedo associa-se à sua insistência em ver no PT o único representante de uma esquerda unitária e sem contradições. Após desqualificar Gramsci no debate sobre Educação, o blogueiro afirma:

Admiradores da obra de Gramsci se irritam quando afirmo que o PT é, na essência, gramsciano. Entendo. Um partido que usa cueca como casa de câmbio; que chegou a ter como gramáticos da nova aurora Silvinho Pereira e Delúbio Soares; que é comandado por uma casta sindical com todas as características de uma nova classe social, folgazã e chegada a prebendas, convenham, parece feito de matéria ainda mais ordinária. Não tenho por Gramsci o apreço que eles têm. Ao

autor cabe o epíteto de teórico da “ditadura perfeita”, uma

expressão do escritor peruano Vargas Llosa.

Segundo a lógica de Azevedo, o envolvimento do PT com práticas clientelísticas e corruptas depois de ascender ao poder, é suficiente para, primeiro, chamá-lo de “gramsciano” e, depois, de desqualificá-lo como tal. E um fato curioso: Azevedo cita em prol de seus argumentos o grande escritor Mario Vargas Llosa, este sim, um digno representante do liberalismo mais avançado e comprometido com as causas sociais. O que tem o raciocínio polarizador e enrijecido de Azevedo com as tradições mais autênticas do liberalismo moderno? Podemos procurar em expoentes do liberalismo, como Vargas Llosa ou Norberto Bobbio e não acharemos sequer vestígios de um raciocínio tão pobre e sem sustentação teórica.

Alguém poderá argumentar que o espaço de um blog político não é o mais adequado para desenvolver reflexões teóricas mais complexas. Nada mais errado. Já vimos a importância nos dias de hoje do blogjornalismo e sabemos que suas manifestações políticas são um importante canal de amadurecimento de propostas políticas. Sendo assim, não é obrigatório que neste espaço se discutam temas do alcance dos ensejados por Gramsci; porém, o que nãos e pode aceitar é que tais temas sejam analisados de maneira panfletária e descuidada, levando à desinformação e ao falso debate político. Para quem se apresenta como liberal, realmente é constrangedor tal postura.

Em outro trecho de sua postagem, Azevedo afirma:

Ninguém conseguiu, incluindo os teóricos fascistas que ele combatia,ser tão profundo na defesa de uma teoria totalitária como Gramsci nessa passagem. Observem que se trata de aniquilar qualquer sistema moral. Toda a verdade passa a ser instrumental. Até a definição do que é virtuoso e do que é criminoso atende ás necessidades do partido ...

Para quem conhece minimamente a obra de Gramsci, tais assertivas soam como disparates, pois o pensador italiano notabilizou-se como pensador de uma via democrática e pluralista para o socialismo, tendo como herdeiros de seu legado histórico os representantes do Partido Comunista Italiano (hoje, Partido Democrático), que sintetizaram sua longa trajetória no celebre conceito

de Enrico Berlinguer da “democracia como valor universal”. Além disso, a

história mostra que Gramsci foi perseguido dentro das fileiras do PCI por

discordar frontalmente das posições dogmáticas e autoritárias de Stálin e do Partido Comunista da URSS.

A respeito dos vínculos entre democracia e socialismo nos sucessores de Gramsci, Carlos Nelson Coutinho afirma num de seus mais densos ensaios sobre a questão:

Não

é

aqui

o

local

para

examinar

em

detalhe

os

desenvolvimentos que a teoria de Gramsci experimentou em

mãos de seus continuadores, em particular entre os comunistas italianos. Gostaria apenas de destacar dois conceitos que, diretamente inspirados em Gramsci, parecem- me resumir a resposta mais lúcida que o pensamento marxista contemporâneo apresentou até aqui para a questão democrática: o conceito de “democracia progressiva”, elaborado por PalmiroTogliatti, e o e “democracia de massas” , formulado por Pietro Ingrao. (COUTINHO, 1996, pág.88)

Como fica claro, a tradição gramsciana no pensamento político italiano não abre mão das ideias de democracia, de pluralismo e, a partir de Berlinguer, de alternância de poder. Apesar de se dizer comprometido com o liberalismo, na análise apresentada, Azevedo não valoriza a contribuição de Gramsci tachando suas ideias de “vigarice” e de “empulhação”. Roberto Schwarz, em suas análises da obra de Machado de Assis, chamou nosso liberalismo de “fora de lugar”. Mais que isso, se forem levadas em conta as posições dos teóricos aqui apresentados, em autores como Azevedo, tais ideias ganham seu lugar, que é o da defesa de uma ordem autocrática iniquamente injusta.

Outro aspecto assinalado nas reflexões de Azevedo é a maneira superficial e até mesmo preconceituosa com que ele aborda questões relacionadas a minorias sociais, como índios ou moradores da periferia. Burlando também aí tradições liberais voltadas para a valorização de uma sociedade democrática, o blogueiro chega a usar palavras chulas para falar da cultura da periferia. Isso se observa na postagem de 5 de novembro de 2008, cujo título significativamente revelador é A crença na “cultura da periferia” é coisa de gente com miolo mole, afirma Azevedo:

Um antropólogo da maldade não acredita ser possível ensinar matemática ou a poesia de Camões e Manuel Bandeira ao

morro ou à periferia, mas está certo de que o morro e a

periferia é que têm de ensinar funk e rap aos “imperialistas” e

aos “playboys”, já que se trataria da expressão de um novo sistema de valores. É como se aquela civilização já não fosse a

nossa.( ) ...

Que coisa formidável! Estamos diante da defesa de uma nova forma de apartheid, um dos refúgios do “pensamento” da esquerda contemporânea. Se a tentativa de ver a “cultura da

periferia” como um sistema com valores próprios é só coisa de

gente de miolo mole, uma banalidade,essa visão

“preservacionista” da civilização da miséria pode assumir uma

face cruel quando o assunto é, por exemplo, segurança

pública. A polícia, segundo os antropólogos da maldade,

estaria proibida de subir o morro sem o prévio “consentimento” da comunidade, ou isso caracterizaria uma “invasão”. A

disposição de enfrentar o crime, que seqüestra as áreas pobres das cidades, é encarada como um ato de guerra, uma hostilidade a um país estrangeiro. E os mortos nos confrontos-

exceção feita aos policiais, os “soldados invasores”- serão sempre vítimas inocentes do país agressor.

Em poucas linhas, concentra-se boa parte do discurso de Azevedo em seus aspectos mais relevantes. Primeiro, a visão estreita da cultura como constituída por segmentos estanques que não se relacionam entre si; mais uma vez, observamos nesta passagem a visão dualista e abstrata de Azevedo de opor, de maneira rígida e mecanicista, dois pólos de uma contradição, que, assim, torna-se abstrata. ( Que se pense na maneira enrijecida que ele analisa a oposição PT X PSDB). As relações entre as culturas ( incluindo, naturalmente, a cultura da periferia e tantas outras) com a cultura universal, na visão do jornalista, é estreita e excludente, e não dialética e integrada, como por exemplo, foram observados nos estudos do pensador húngaro Gyorgy Lukács que, no auge do stalinismo, se opôs justamente a essa visão maniqueísta.]

Outro ponto a observar nos trechos ora analisados é o discurso autoritário (que nasce desta visão excludente) com relação às comunidades periféricas. Nesse sentido, Azevedo se desfaz alegremente do discurso liberal e assume a visão da ordem autocrático-burguesa dominante no Brasil, ao justificar ações truculentas da polícia nos morros e ao assumir o velho discurso da segurança pública como território da violência e do arbítrio. Fica claro, nesta passagem, a renúncia a quaisquer veleidades liberais e a incorporação do tradicional discurso da direita, de cunho fascista, que vê nos morros inimigos que devem ser abatidos a tiros. Qualquer noção mais humanista e racional de segurança pública, neste contexto, é descartada no horizonte estreito do autoritarismo e da violência sobre os mais pobres.

No discurso aparentemente liberal de Azevedo, se diluem as melhores tradições do pensamento liberal, cujo núcleo não é, ao contrário do que muitos pensam, tão somente a valorização do mercado, mas incorpora muitos outros elementos, talvez tão ou mais importantes que o mercado. José Guilherme Merquior, expressão luminosa do pensamento liberal em nosso País, em obra sobre o debate das ideias, cita Hannah Arendt como expressão maior do liberalismo, afirmando:

Mas a raiz última do totalitarismo é, no entender de Arendt, o desaparecimento da esfera pública na cultura moderna, toda ela voltada para o eu. Uma civilização egocêntrica e intimista afasta os homens da experiência da realidade, que é pública e os torna vítimas fáceis das ficções totalitárias.

E em outro trecho:

As ditaduras modernas não são legítimas- são despóticas. Daí a dramaticidade, em nosso tempo acossado por tantos

“despotismos esclarecidos”, do imperativo do estado de direito,

garante único e insubstituível da autonomia do cidadão e da segurança do indivíduo. (MERQUIOR, 1981, pág. 206 e 215).

Merquior, tão distante ideologicamente de Carlos Nelson Coutinho, se refere ao

“intimismo” que marca as sociedades modernas, responsável pelo surgimento de uma “civilização do egoísmo” e campo autônomo, para Coutinho, daquela

situação que conduz o intelectual desligado das massas populares a viver

numa “torre de marfim”, separado dos grandes problemas nacionais.

Outro aspecto a destacar na análise do liberal Merquior é sua valorização do Estado de Direito, das garantias individuais e constitucionais na luta contra os “despotismos esclarecidos” da era atual. Nesse sentido, essa visão afasta-se por inteiro da visão de Azevedo, justificando o arbítrio como eixo da “segurança pública”, e se afastará também da concepção pragmática e mistificadora de

José Dirceu, justificando a adesão do PT à ordem autocrática. Mas encontrará guarida nos textos do blog de Gilvan Cavalcanti, impregnados por um discurso moderno e pluralista, que vê na construção de uma nova sociedade socialista o espaço privilegiado para a manutenção e a expansão permanentes das liberdades democráticas.

3

..

2

O BLOG 247: O PRAGMATISMO A SERVIÇO DO PODER POLÌTICO

José Dirceu, justificando a adesão do PT à ordem autocrática. Mas encontrará guarida nos textos do

A característica principal das postagens que analisadas no blog Brasil 247 é a defesa apaixonada do projeto político liderado pelo PT e colocado em prática no Executivo Federal a partir de 2003, com a posse de Luiz Inácio Lula da Silva. As postagens se referem a um período recente marcado por manifestações de rua contestando o governo Dilma Rousseff, particularmente os eventos realizados em São Paulo nos últimos dias 15 de março e 12 de abril de 2015.

Nem sempre suas análises refletem inteiramente o pensamento do PT, mas são importantes para que possamos compreender sua participação no pólo alternativo oposto ao de Reinaldo Azevedo, mas, na verdade, representando o outro lado da polarização com o PSDB. O que os une, na aparente contradição (e isto é, sem dúvida, um paradoxo), é a defesa da ordem autocrática instalada

38

no Brasil após o chamado período da redemocratização. A defesa feita por

Azevedo é realizada por meio de um falso liberalismo, a do Brasil 247 por meio dos valores de uma esquerda autoritária e pragmática, na linha do stalinismo tantas vezes denunciado por GyorgyLukács. A postura de Azevedo é agressiva ,a do 247, enviesada, tortuosa, sem deixar de ser também agressiva. O primeiro opta pelo ataque contínuo a seu inimigo preferido, a “esquerda”; o segundo manifesta-se por meio de uma posição defensiva, sendo seus inimigos preferidos a “ mídia golpista”, “as elites brasileiras”, os “falsos democratas” etc. Ambos trabalham com polarizações abstratas e não com

argumentações; por isso, precisam sempre de inimigos que são demonizados e justificam suas polêmicas posições.

O primeiro texto que analisaremos do Brasil 247 nos serve como introdução a este pensamento dogmático que só vê acertos na experiência petista no poder e que tenta ocultar o que salta aos olhos de qualquer observador atento da política brasileira: o compromisso do PT com os alicerces econômicos da era FHC, a submissão do projeto petista às injunções do grande capital na gestão econômica do País e acrescente insatisfação de vastas parcelas da sociedade com relação a esse projeto político.

Em postagem de 13 de abril de 2015, analisando as manifestações de rua realizadas em São Paulo e que, segundo o Datafolha, mobilizaram mais de 100 mil pessoas, Dom Orvandil escreve:

Se a direita mobilizasse o povo seria uma afronta à lógica. A direita não tem relação orgânica com os pobres, com os trabalhadores, com os indígenas, com os negros, com as mulheres, nem mesmo com a falsa classe média. Esses segmentos não se sentem vinculados aos que os exploraram historicamente e os mantiveram sob as botas autoritárias da repressão ( ) ...

Desde 2003, a direita desesperada joga detritos por e-mails e pela mídia com o objetivo de difamar e destruir as imagens das lideranças legitimamente constituídas, porque são caminhantes com o povo (sic!)e formadas pelas lutas sociais ( ) ...

Penso que há dois tipos de analfabetos políticos:

um

é

o

composto dos

arrogantes

histéricos

que

não

leem,

que

confundem

política

com

conflito

de

classes,

Estado

com

mercado, que

bebem

os

detritos

com

sólidos

e

tudo

despejados pela mídia imunda, mas se arrogam a impor aos

berros e ameaças idéias vazias em vez de argumentos que não têm.

Foi analisado ainda que desde o início de sua explanação, já aparece

aposição defensiva e sectária do autor, pois de pronto se refere às

manifestações como sendo “de direita” e sendo organizadas por “analfabetos

políticos”, numa evidente expressão de sentimentos subjetivos preconceituosos e agressivos. Afinal, o direito de manifestação não é assegurado pela Constituição Federal a todos, não importando se sejam de centro, direita ou esquerda? Ou esse direito só deve ser exercitado por aqueles que concordam com as posições de Dom Orvandil? Não seria essa visão o fundamento de um pensamento político que, no limite, nos levaria ao totalitarismo stalinista que tão mal fez à esquerda e ao projeto socialista?

O que chama a atenção no discurso de Orvandil, além do sectarismo, é o tom de contundente agressividade, no qual se revela a ideia (cara à tradição

stalinista) de ver no Partido o porta-voz da Verdade Absoluta e o dono de todas as certezas. Nesse contexto (que é o mesmo de Azevedo, trocando a visão de

direita por uma visão pretensamente “de esquerda”), se compreende que o

autor, ao invés de usar argumentos teóricos e políticos, se sirva de expressões

como: “analfabetos políticos “ “direita reacionária” “detritos imundos despejados pela mídia”, etc.

Neste caso, o discurso argumentativo é substituído por um discurso de xingamentos e de grosserias, permeado por um claro tom de irracionalidade e de passionalismo, além de claramente distanciado da realidade objetiva, pois nega o fato evidente de que a “direita” foi, sim, capaz de mobilizar multidões em dois eventos recentes.

Nesta argumentação do blogueiro, vemos com clareza meridiana o objetivo de tergiversar e ocultar os dados referentes à crise política e econômica vivida pelo País após 12 anos de domínio petista. O autor foge a esta importante situação de crise para dirigir seu texto para o caminho da defesa apaixonada de um governo supostamente voltado para os pobres e combatido pelas elites, quando na verdade a última pesquisa do Datafolha mostra a presidente Dilma rejeitada por 64% da população, sendo tal rejeição elevadíssima entre os extratos mais desvalidos da sociedade, outrora responsáveis pelas vitórias eleitorais petistas.

Ora, a chave para a interpretação dos argumentos de Orvandil está na tergiversação e no ocultamento dos vínculos do governo Dilma com os grandes grupos monopolistas que atuam no País,vínculos confirmados hoje com a adesão à política recessiva de Joaquim Levy. A tarefa do escritor petista é inglória: transformar um governo associado aos grandes grupos econômicos em governo preocupado em ajudar as massas trabalhadoras e mais pobres de nosso País. Mais uma vez, aparece o caráter defensivo de seu discurso.

Ontem, 12 de abril, bem que poderia ser também proclamado como o dia dos bobos de direita e dos analfabetos políticos.

Quem não recebeu e-mail com barbaridades contra o ex- presidente Lula e contra a candidata Dilma? Eram frases grosseiras, estúpidas e criminosas que entupiam nossas caixas eletrônicas. Muitos dos remetentes daquele lixo eram covardes anônimos apoiados pela mídia golpista.

Note-se que os comentários desta postagem são de abril de 2015, dias depois das grandes manifestações de massa que puseram a nu para os brasileiros o caráter antinacional e antipopular das políticas do governo federal( caráter tornado claro nas análises citadas feitas por Luiz Werneck Vianna). (VIANNA, 2011) Depois que milhões de cidadãos ganharam nas ruas em protestos contínuos direcionados não apenas contra o governo Dilma, mas sim, decisivamente contra o próprio PT, Brasil 247 continua raciocinando com as mesmas ideias dos idos de 2002, quando o “medo ainda não havia vencido a

esperança”. As nuances na política econômica que Lula introduziu em seu

segundo mandato e que Dilma aprofundou (maior intervenção do Estado na gestão do processo produtivo, tentativa de incentivar o crédito sem correspondência com investimentos na produtividade e na infra-estrutura etc) a partir de 2011,a essa altura dos acontecimentos já mostravam seu caráter limitado para amenizar a instabilidade econômica do País e já prenunciavam a grave crise política que vivemos hoje. Porém, os blogueiros do Brasil 247 continuavam a ver o mundo cor de rosa, qual o Pangloss de Voltaire ...

E para confirmar o que dissemos acerca da necessidade que esse discurso autoritário tem de demonização do Outro, o autor volta sempre suas baterias contra ex-aliados ( como Marina Silva), inimigos perenes ( como FHC, o

“neoliberalismo”) ou a mídia golpista. Num comentário de 13 de setembro de

2013, ao comentar a adesão de certos setores da mídia ao golpe de 1964, como as Organizações Globo, José Dirceu (líder histórico do petismo), incorre

em seu blog político nos mesmos erros do Brasil 247. Primeiro, não admite que os atores políticos mudem conforme as circunstâncias políticas mudaram, isto é, se a Globo apoiou em 1964 um golpe militar, eternamente ela será representante do golpismo militarista, independentemente das condições

políticas vigentes no Brasil. Segundo, se esquece de avisar ao leitor atento que ele ( e tantos outros em 1964) cometeu um sério erro de estratégia política ao aderir de maneira açodada à luta armada como tentativa de derrotar a ditadura, que só foi vencida pela política de unidade democrática que Dirceu e seus

seguidores chamavam desdenhosamente de “reformista” e “burguesa”.

Segundo, analisa de maneira generalizante e abstrata (na mesma linha de Reinaldo Azevedo, com sinais trocados) o papel da mídia nos eventos que culminaram com o golpe militar e, particularmente, no período de luta contra a

ditadura instalada no poder.

Referindo-se ao papel da mídia nestes episódios, ele nos diz:

Não

se

trata

de

promover

uma

caça

às

bruxas

ou

um

linchamento público e muito menos de censurar ou cercear de

alguma forma a atuação, hoje em dia,dos vários grupos da

mídia que apoiaram o golpe de 1964 e ajudaram a sustentar a ditadura militar até1985 ( ) ...

Mas é em nome da liberdade de imprensa que devemos nos aprofundar em descobrir quais interesses motivaram a atuação pró-ditadura dos jornais brasileiros.

Não é o caso aqui de discutir o caráter estranho de tais afirmações sobre a liberdade da imprensa na pena de um ator político que sempre defendeu a “regulamentação da mídia” (uma tentativa disfarçada de censurar a imprensa) e que sempre defendeu de maneira a-crítica o regime cubano, que apesar de seus méritos, não é o melhor exemplo de imprensa livre e autônoma. O que nos interessa é mostrar o caráter ambíguo do discurso, pois diz não desejar caça às bruxas”, mas é exatamente esse caminho que percorre. Em outro trecho do mesmo comentário, Dirceu afirma:

Afinal, muitos dos jornais que ainda exercem grande influência na opinião pública- o próprio editorial de O Globo cita O Estado de São Paulo e a Folha de São Paulo- tiveram voz ativa na defesa das arbitrariedades militares. Não é um caso de interesse público saber o quanto das motivações daquela época ainda influenciam a atuação desses jornais até hoje?

Nesta passagem, salta aos olhos a idéia de realizar, sim, a “caça às bruxas”, pois em nenhum momento são citados interesses dos jornais no processo político, limitando-se o autor a praticar um discurso de insinuações e alusões, sem dados concretos, misturando posições de 1964, de 1985 e de 2013. Salta aos olhos também o caráter abstrato das formulações, pois as diversas tendências políticas representadas pelos órgãos jornalísticos são reduzidas a

“compromissos com a ditadura militar”. Ora, no caso dos três jornais citados, tal

análise é grosseiramente inverídica, pois quem acompanhou a história da resistência à ditadura sabe que o papel exercido pelo jornal O Estado de São Paulo neste processo foi altamente favorável à conquista das liberdades democráticas. Depois do apoio inicial ao governo Castello Branco, que tinha compromissos com o estabelecimento de uma democracia formal no Brasil, o matutino paulista combateu energicamente o regime militar, denunciou a tortura

utilizada pelos esbirros da ditadura, esteve ao lado das forças democráticas em todos os episódios relevantes da luta contra o arbítrio, desde o combate ao AI- 5 até a eleição de Tancredo Neves, passando pelas Diretas-já e pelo assassinato de Wladimir Herzog. Fazer vistas grossas ao papel exercido pelo O Estado na luta frontal contar a ditadura ( o que lhe valeu, então, uma rígida censura) faz jus à desinformação que o blog de Dirceu veicula para tentar justificar os desacertos de seu partido no poder, ou coloca em evidência uma tentativa clara de falsificar a realidade histórica.

Em comentário assinado por Dirceu em 2 de agosto de 2013, o distanciamento do autor em relação à realidade objetiva dos fatos ( distanciamento que levou o governo Dilma à situação difícil de hoje), serve para demonstrar outro dos

aspectos essenciais do “método” de raciocínio de nosso autor. É característica de base da esquerda autoritária (da qual Dirceu é expoente), como já assinalou Gyorgy Lukács, a ruptura com o método marxista, que é um método “histórico- sistemático” por estar sempre colado à realidade histórica. O “stalinismo”,

matriz do pensamento autoritário e burocrático de vastas parcelas da esquerda, trabalha sempre com o que Lukács chamou de oportunismo taticista, isto, é, as palavras de ordem do momento não obedecem a uma linha estratégica coerente e ética, mas sim, se adaptam às circunstâncias da conjuntura, e tentam justificá-las, transformando a tática política em mero aproveitamento (vantajoso para o partido e não para as massas populares) de situações aparentemente favoráveis.

É o “taticismo oportunista” lukacsiano em plena aplicação, mesma postura que se manifesta no blog Brasil 247 quando Davis Sena Filho, em texto publicado em 3 de abril de 2015, analisa as manifestações de rua realizadas no último dia 12 de abril e tenta desqualificá-las como “de direita” e investe contra o jornalismo ao lançar diatribes contra a cobertura da Globo News a respeito de tais eventos:

Acompanhei a cobertura dos protestos pelaGlobo News e suas

congêneres acontecidos ontem em várias cidades do Brasil. A

Globo News, televisão “limpinha e cheirosa” dos magnatas

bilionários, os irmãos Marinho, porta-voz do coxismo desenfreado e elitista de uma classe média alienada, preconceituosa e reacionária, que organizou passeatas

fracassadas contra a corrupção e “tudo o que aí está”, sem,

todavia, possuir uma agenda de reivindicações sociais, que lute em prol dos interesses dos trabalhadores, como protestar contra a aprovação do projeto de terceirização aprovado por uma Câmara conservadora que tenta governar o País no lugar do Executivo.

Excrescências como Eduardo Cunha e os conservadores da Câmara dos Deputados, que votaram contra os trabalhadores e as crianças pobres, são frutos das espigas vazias que voaram pelas ruas do Brasil em junho de 2013 e em 15 de março de 2015. Os baderneiros quase elegeram um traficante arrolado

na Lava Jato, em Furnas e no “suiçalão” para rebentar com o

Brasil no exercício da Presidência.

É significativo verificar que o discurso de Sena Filho recorre sempre a fatores externos para justificar os fracassos do governo petista: novamente, é invocada a imprensa e o sempre lembrado “Congresso conservador”, esquecendo-se o autor que foi esse mesmo Congresso que sustentou os governos Lula/Dilma desde 2003. Observou-se que a cobertura de uma emissora de televisão ( independente de seus erros e acertos) é definida como “manifestação de coxismo desenfreado” (adesão às políticas do PSDB, segundo a visão do autor), o presidente da Câmara dos Deputados( até ontem aliado preferencial do petismo) é chamado de “excrescência” e o candidato à Presidência da República pelo maior partido da oposição ( merecedor de mais de 51 milhões e votos) é tachado levianamente de “traficante” e seus leitores de “baderneiros”.

Esse discurso arrogante e autoritário tem tudo a ver com as piores tradições fascistas e muito pouco a ver com as origens do projeto petista de transformar a sociedade por meio de generosas mudanças democráticas nascidas na base da sociedade brasileira.

Não é necessário recorrer ao cenário atual de desempenho do governo federal (à beira de uma crise institucional de conseqüências imprevisíveis) para mostrar o quanto o raciocínio de Senna Filho está descolado da realidade dos

fatos; hoje, a essa altura de nosso processo político e social, qualquer analista isento (que não tenha o objetivo defensivo e “taticista” de justificar e não de compreender), teria se dado conta do caráter impreciso e voluntarista de tais análises da realidade.

Tal desligamento da realidade objetiva só se pode compreender em razão de uma polarização grosseira entre duas posições políticas, uma à direita e outra à esquerda, que não encontra guarida nos setores mais lúcidos de PT ou PSDB, mas que se expressam de maneira agressiva entre os porta-vozes do radicalismo analisado neste texto, os blogs de Reinaldo Azevedo e do Brasil

247.

Como vimos anteriormente, o PT rapidamente acomodou-se às estruturas arcaicas vigentes no País e passou de opositor ao sistema em seu gestore defensor. As frágeis medidas populares assistencialistas levadas à prática nada mais foram do que pequenos avanços em práticas já realizadas na era FHC, com um pouco mais de recursos para implementá-las em razão do boom econômico trazido pela alta dos preços das commodities no mercado internacional de trocas. A adesão à ordem autocrática se manifestou, de maneira patética, na adoção das práticas de corrupção, clientelismo e aparelhamento dos órgãos do Estado tão caras às elites dominantes, conforme vastamente analisado em clássicos da sociologia política brasileira, em obras como Os donos do poder”, de Raimundo Faoro, ou Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Hollanda.

A partir daí, o discurso de seus líderes e ideólogos passou a ser o discurso defensivo (tragicamente assumido por intelectuais do peso de Marilena Chauí ou Emir Sader) de justificar o caminho tortuoso assumido pelo PT e de servir- se de exemplos da era tucana para uma melancólica tentativa de dizer que

“todos os gatos são pardos”. Procuraremos acompanhar os descaminhos de tal

discurso em algumas postagens do blog Brasil 247, defensor assumido da prática política do PT, outrora um promissor partido de esquerda, hoje enredado nas teias de um processo de corrupção desvendado pela Operação Lava Jato. No destino político do PT do Brasil 247 não se expressa, por meio

do “transformismo” gramsciano o destino de todo um projeto de poder a serviço

dos mais humildes e explorados?

Nesse sentido, o blog Brasil 247 é um exemplo límpido de uma posição política no espectro partidário nacional: a voz de uma esquerda autoritária e desligada de seu projeto original de mudança e de transformação. O raciocínio é sempre tortuoso, acrobático, eivado de meias verdades e de xingamentos, pois seu propósito não é lançar temas para o debate público, mas ,sim justificar a adesão do PT ao bloco dominante e à manutenção (com pequenas mudanças cosméticas) da ordem autocrático-burguesa em nosso País. Somente tal propósito explica tamanho distanciamento da realidade social por parte de um analista político.

A adesão da esquerda à ordem burguesa trouxe outros prejuízos à gestão da coisa pública, temas, que evidentemente, o autor nem de longe trata, como: o aparelhamento do Estado (a velha confusão stalinista entre Partido e Estado),

a corrupção desenfreada para a perpetuação do poder, a governabilidade transformada em balcão de negócios. Tudo isso não é abordado pelo autor (a não ser na linha da luta contra “as mentiras da mídia golpista”), posto que está fora de seus horizontes teóricos e políticos. Não nos esqueçamos que,

segundo Luiz Inácio Lula da Silva, “nunca antes na História deste País”, o

Brasil foi tão bem dirigido. E este bordão, tão ridicularizado por uns e louvado por outros, se explica pela forte influência de setores da esquerda stalinista sobre o ex-presidente, dos quais José Dirceu é um dos representantes.

Em célebre análise sobre o fenômeno stalinista, Lukács demonstrou como ele procurou se viabilizar invocando para si uma primazia absoluta sobre o processo histórico, contrapondo de maneira radical “cultura burguesa” e “cultura proletária”, como o PT não se cansa de fazer, auto-proclamando-se o papel de construtor de um País radicalmente novo. Lukács nos diz:

A verdadeira refutação metodológica de qualquer utopia se baseia precisamente nesta concepção da continuidade histórica. Para os utópicos, algo radicalmente novo torna-se

realidade segundo as leis da “razão”; para o marxismo, ao

contrário, é o próprio desenvolvimento histórico-social que se inova em determinados pontos de inflexão. Portanto, não é que emerja à realidade algo inédito, mas “simplesmente” que determinadas atitudes, comportamentos etc. dos homens, que

até aquele momento só podiam se realizar como “exceções”,

podem agora alcançar uma universalidade social .( LUKÁCS, 2008, pág. 166)

Muitos anos se passaram depois desta análise de Lukács sobre os descaminhos do stalinismo. E se parte de seus métodos são revividos pelo governo que Dirceu tenta justificar, seria inadequado tratar suas reflexões como tentativas de conquistar alguma utopia. Da antiga utopia de mudança social, só restou, lamentavelmente, o discurso pragmático de defesa de um estado de coisas insustentável. Talvez, encontremos elementos de utopia na análise do próximo blog, cujos propósitos são “utopicamente” possíveis de realização, pois se fundamentam na construção de uma ordem democrática e pluralista, e não em projetos partidários de adesão à ordem existente.

3.3

O

BLOG

DE

GILVAN

CAVALCANTI

DE

MELO:

UMA

PROPOSTADEMOCRÁTICA E PLURALISTA

realidade segundo as leis da “razão”; para o marxismo, ao contrário, é o próprio desenvolvimento histórico-social

Neste blog, e no círculo de intelectuais e militantes políticos que o sustentam, o que interessa é a proposta de transformação democrática da realidade brasileira, longe de políticas econômicas ortodoxas ou de políticas patrimonialistas de ocupação do Estado para se perpetuar no poder. O que se discute é um caminho democrático para a mudança social no Brasil na linha da Declaração de Março de 1958 do Partido Comunista Brasileiro, que teve em Armênio Guedes um de seus precursores. Gilvan Cavalcanti de Melo expressa bem o ideal desta nova esquerda que se articula ao redor do blog citado:

Penso que ser de esquerda, hoje, seria incorporar os valores históricos dos quais ela nasceu: liberdade, democracia, justiça, igualdade, solidariedade, trabalho. Mas, também acrescentar os novos valores, o abecê do novo século: cidadania, direitos, laicismo, inovação, criatividade, integração, mérito, multiculturalismo, oportunidade, segurança, sustentabilidade e internacionalização, valores estes consagrados na Constituição de 1988. (MELO, 2007, pág.268)

Gilvan Cavalcanti de Melo, antigo quadro da esquerda brasileira em sua vertente mais afinada com os princípios democráticos, oriundos da Declaração de Março de 1958 do Partido Comunista Brasileiro, organizou um blog político que, aos poucos, tornou-se um espaço plural de discussões do panorama político-social brasileiro na linha mais afinada com a idéia de procura de um

novo tipo de sociedade, o que um dia, Lucio Lombardo Radice batizou de “um

socialismo a inventar”.

Cavalcanti expressa em seu espaço, a nosso ver, o melhor e mais rico contraponto aos dois extremos da já desgastada polarização entre PT e PSDB (expressa em nosso trabalho pelas reflexões de Reinaldo Azevedo e José Dirceu), polarização que levou o quadro institucional brasileiro ao impasse que hoje presenciamos. De um lado, a tentativa de reduzir as contradições da sociedade brasileira a conflitos secundários, como defesa absoluta do mercado ou intervenção do Estado,fazendo de um ou outro o únicograve problema da

nação; de outro lado, um projeto originariamente transformador que aderiu à ordem dominante e agravou suas contradições por meio de práticas caras ao patrimonialismo histórico de nossas classes dominantes e por meio de outras práticas inerentes ao stalinismo caboclo, como confusão entre Partido e Estado, aparelhamento da máquina pública, hegemonismo sem freios, tentativa de controlar os organismos autônomos da sociedade civil etc.A linha geral que atravessa o blog de Cavalcanti, apesar das nítidas peculiaridades de cada

autor, aponta para a superação desta falsa polarização e encontra seu traço de

união no que Berlinguer chamou de “democracia como valor universal”,

conceito depois tão bem explorado por Carlos Nelson Coutinho.

A título de ilustração, podemos analisar alguns aspectos deste novo pensamento de esquerda (que, como já vimos, tem sua origem em Gramsci), e que se instalou na Itália de maneira nítida pelo menos uma década antes das primeiras formulações de Mikhail Gorbatchov sobre a perestroika e a glasnost, isto é, a fracassada tentativa de reformar o “socialismo real” soviético na linha da democracia política e do humanismo. Em 1977, por ocasião das comemorações do aniversário da Revolução de Outubro na URSS, Enrico Berlinguer manifestou-se de maneira decisiva sobre o ideário político que movia o Partido Comunista Italiano:

A experiência realizada nos levou à conclusão- assim como aconteceu com outros partidos comunistas da Europa capitalista- de que a democracia é hoje não apenas o terreno no qual o adversário de classe é forçado a retroceder, mas é também o valor historicamente universal sobre o qual se deve fundar uma original sociedade socialista. (BERLINGUER, 2009, pág. 116)

Fica claro nesta afirmativa de Berlinguer que qualquer transformação social profunda e estável a ser realizada nos dias de hoje, especialmente que aponte na direção do socialismo, só pode se concretizar no terreno da democracia política e no respeito às instituições democráticas. É nessa linha que se desenvolve o blog Democracia política e novo reformismo que escolhemos como alternativa concreta à polarização entre os blog de Reinaldo de Azevedo

( alinhado à defesa do chamado “livre mercado”) e ao Brasil 247 ( alinhado à defesa de um governo que se confunde com um partido político, cujo projeto autoritário de poder não se coaduna com a democracia política e com a validade democrática da alternância no poder).

É evidente que, depois de Berlinguer, a realidade do capitalismo monopolista em nossos dias sofreu muitas transformações e o pensamento desta esquerda democrática também sofreu significativas mudanças, procurando se adaptar à nova realidade. Para citar somente um exemplo de ressonância mundial, citaremos o exemplo do teórico Giuseppe Vacca, integrante do Partido Democrático da Itália ( herdeiro das melhores tradições do PCI), que realizou ultimamente toda uma reflexão para atualizar a essência do pensamento da esquerda democrático aos novos rumos seguidos pela sociedade

contemporânea depois da queda do Muro de Berlim, do “socialismo real” e das

novas tecnologias inseridas no novo contexto do capitalismo globalizado. Em importante artigo sobre a nova situação mundial, Vacca esclarece:

A onda neoliberal,

pois,

não

era

apenas uma “confusão

ideológica” ou um ataque “ de direita” ao “Estado social” e às

conquistas dos trabalhadores. Também havia isso no

determinismo tecnológico e na apologia das “novas formas de

sujeito”, que a sustentavam no plano cultural. Mas, no fundo, a

onda neoliberal sustentava-se numa mudança de contexto

histórico do desenvolvimento capitalista e dos “conflitos de autoridade”: a transição para o neoindustrialismo

microeletrônico e a globalização dos mercados. O fato de não percebê-lo levou as esquerdas a correr atrás dos acontecimentos de modo fragmentário e anacrônico,

defendendo também

aspectos

indefensáveis

assistencial”.

(VACCA 2009, pág. 76)

do

“Estado

Em outro contexto, Vacca fala sobre a importância para a batalha política de hoje (tese fundamental no arcabouço teórico do blog de Gilvan Cavalcanti) da idéia de um novo reformismo capaz de dar sustentação ao projeto moderno de transformação social:

Capitalismo e socialismo referem-se a dois planos diversos da realidade e não são comparáveis: o capitalismo é um modo de produção, o socialismo é um critério de regulação do desenvolvimento econômico, que, portanto, não se contrapõe ao primeiro, mas propõe-se orientá-lo. Para superar este falso dilema, foi necessário elaborar o conceito de regulação, naturalmente, não estamos falando de elaboração puramente intelectual, mas de experiência histórica concreta. Aproximamo-nos assim, do ato de nascimento do reformismo: a

crise dos anos trinta e a invenção de um “modo de regulação”

do desenvolvimento alternativo ao do velho liberalismo, que entra em colapso. (VACCA, 2009 ,pág. 191)

Naturalmente, aqui não é o local indicado para analisarmos questões tão complexas. Mas, queremos sublinhar que o blog de Cavalcanti, apontado por nossa pesquisa como caminho alternativo aos dois blogs anteriores, trabalha com esses conceitos atualíssimos e, por isso, apesar da diversidade de enfoques de seus protagonistas (ou talvez justamente por tal diversidade), consegue se posicionar nas batalhas do jornalismo político de maneira mais eficaz que os tais blogs reprodutores da polarização PT- PSDB ou, em outra linguagem, polarização entre mercado e intervenção do Estado na economia e na organização social. O blog de Cavalcanti, a nosso ver, está mais aparelhado conceitualmente (e sem compromissos ideológicos ou partidários rígidos e limitadores) para desenvolver um pensamento mais livre e mais democrático e à altura dos desafios atuais.

A ruptura do blog que analisamos com relação aos pressupostos teóricos e ideológicos dos dois blogs anteriores se dá na ruptura efetiva com a “via prussiana” para o capitalismo (caminho de desenvolvimento baseado em

reformas cosméticas realizadas “pelo alto”, sem a participação popular) e com o que Carlos Nelson Coutinho chamou de “intimismo à sombra do poder”, um

espaço pretensamente autônomo de reflexão no qual o intelectual se mantém distante dos conflitos que possam colocar em xeque a ordem autocrática dominante no Brasil.

Como demonstrado, Azevedo e Brasil 247 (cada um à sua maneira), trabalham dentro deste horizonte restrito e não discutem o fundamento de tal ordem, isto, é, a ausência de um projeto alternativo radicalmente democrático. Na primeira postagem que analisaremos dentro do blog Democracia política e novo reformismo, aparecerá com destaque a valorização da democracia política como esteio de transformações sociais no Brasil.

Em texto publicado no jornal O Estado de São Paulo de 16 de abril de 2014 e reproduzido logo em seguida no blog, o ensaísta Luiz Sérgio Nascimento Henriques mostra que a evolução do processo histórico brasileiro no caminho

do que Vacca chamou de “reformismo forte” deveria ter acontecido pelo

caminho tortuoso e difícil do aprofundamento faz liberdades democráticas, e não, como tantas vezes tentou a esquerda, pela via do golpismo e do aventureirismo romântico e suicida.

No texto, luminosamente batizado de O claro enigma das liberdades, Henriques argumenta de maneira sólida, evidenciando que o golpe militar de 1964 poderia ter sido evitado se as esquerdas tivessem apostado de maneira radical na manutenção do regime democrático, ao invés de levar água ao moinho da direita chancelando palavras de ordem obscuras e golpistas como “reforma agrária na lei ou na marra” ou apoiando tentativas esdrúxulas como a inconstitucional candidatura de Leonel Brizola em 1965 nas eleições presidenciais. Para o autor, a maneira pouco determinada em lidar com o claro enigma das liberdades” contribuiu decisivamente para a derrota das esquerdas não somente em 1964, mas, sobretudo na resistência à ditadura instalada quando, dos grupos de esquerda, somente o PCB encampou a idéia de formação de uma ampla frente democrática para derrotar o regime, atuando sempre dos pequenos espaços existentes na institucionalidade ditatorial. Falando sobre essas limitações do pensamento e da prática da esquerda, Nascimento Henriques comenta:

O “combate nas trevas” da extrema esquerda militarizada,

isolada socialmente e fadada a ser moída nas máquinas de

morte montadas com o recrudescimento ditatorial, teve como

contrapartida no campo oposicionista a sempre fecunda aliança

entre liberais e comunistas no PCB, alinhados desde o começo

no MDB, o “partido consentido” que acirraria as dificuldades do

regime mediante formas superiores de luta, que podem ser sintetizadas no mecanismo historicamente decisivo representado pelo voto universal. Uma aliança que, a exemplo das frentes antifascistas dos anos 1930, em alguns pontos teve o poder de alterar positivamente a cultura política até mesmo dos PCs stalinizados , ampliando seu raio de influência ao indicar o rumo do afastamento dos vários e entrelaçados

aspectos autoritários (e totalitários) do bolchevismo original.

Concluindo o texto, Henriques nos diz:

Aqui, porém, não se trata de fazer ou discutir doutrina, mas de saber na prática,a cada momento, se as esquerdas, hoje não mais clandestinas e muitas vezes com poder de mando legítimo, decifraram plenamente o claro enigma das liberdades “burguesas” e o assimilaram a seu patrimônio de valores. De uma resposta positiva a essa questão incessante dependem, em grande parte, as possibilidades de renovação democrática da civilização brasileira.

Configura-se, assim, a questão central da vida política brasileira, a questão

democrática. A resposta a “essa questão incessante”, na linguagem de

Henriques, é a resposta ao desafio democrático, essencial para encaminhar soluções aos dramas da sociedade contemporânea. Segundo o blog de Cavalcanti, esse desafio deve ser enfrentado numa perspectiva socialista e não liberal; porém, socialismo não deve ser confundido com a supremacia de um partido político disposto a remendar a ordem dominante (como constatamos no

Brasil 247), nem tampouco liberalismo deve ser confundido com a defesa do arbítrio e da desigualdade em nossas relações sociais (como verificamos em Azevedo). O fundamento da nova sociedade deverá se sustentar sempre na democracia política, em quaisquer circunstâncias, é a mensagem que recebemos de Luiz Sérgio Nascimento Henriques.

O segundo texto é de autoria do próprio Gilvan Cavalcanti de Melo, organizador do blog Democracia política e novo reformismo. Em publicação de 9 de junho de 2014, antes pois, do início da campanha às eleições presidenciais que deram o segundo mandato para a presidente Dilma Rousseff, Cavalcanti escreveu sugestivo comentário sobre o objetivo, segundo ele, das forças democráticas mais lúcidas na atual quadra de nossa vida política, a busca de

uma “terceira via” para a criação de um caminho alternativo à polarização já

desgastada entre PT e PSDB. O título do comentário de nosso autor é justamente As eleições e a “terceira via” e nele Cavalcanti faz uma síntese histórica instigante sobre o papel das polarizações na vida política nacional desde o período da redemocratização, iniciado em 1945 após a queda do Estado Novo de Vargas.

Antes, porém, da análise da polarização na vida política brasileira, Cavalcanti faz um breve histórico das transformações sofridas ao longo da História pelo conceito de “terceira via”. Fala das polêmicas entre socialistas e comunistas na década de 70 (com as intervenções de Norberto Bobbio e Pietro Ingrao), nas quais o conceito era utilizado para definir uma sociedade socialista democrática, distante do capitalismo monopolista e do socialismo burocrático ao estilo soviético. Chega até a década de 90 quando a idéia é assimilada pelos trabalhistas ingleses por meio de seu principal teórico, Anthony Giddens, que a coloca em evidência na ação política de Tony Blair. Cavalcanti nos diz a esse respeito:

Em seguida, nos idos de 1990, reaparece o conceito através do sociólogo inglês Anthony Giddens, mas com outro viés:

tentativa de conciliar uma política econômica ortodoxa e uma política social progressista. À primeira vista, parecia ser uma corrente que apresentava uma conciliação entre capitalismo de livre mercado e socialismo democrático. Muitos dos seus defensores a tinham como algo além do capitalismo de livre mercado e do socialismo democrático. Tinham a concepção alternativa da “terceira via” como “centrismo radical”.

Continuando suas reflexões, Cavalcanti nos mostra que o conceito chegou ao Brasil de maneira desajeitada, visto que, em nosso País, desde as eleições de 1945, a polarização política sempre fez parte de nosso quadro político-eleitoral. Para provar sua tese, ele se dá ao trabalho de analisar todas as eleições presidenciais até 2010, sempre destacando o surgimento da polarização.

No entanto, com a passagem dos anos, o grupo intelectual reunido em torno do blog Democracia política e novo reformismo (do qual Gilvan Cavalcanti faz parte), se dedicou a recriar, nas condições brasileiras, a idéia da “terceira via” justamente com o objetivo de encontrar uma saída para nossos impasses políticos e sociais, congelados por meio da contraposição contínua entre tucanos e petistas. Nasce, assim, por meio dos vários colaboradores do blog, a idéia atualizada da “terceira via” como caminho para se concretizar uma alternativa democrática, pluralista e de esquerda a nosso processo político. Independente de escolhas partidárias ou mesmo de candidaturas, o grupo solidificou este caminho e passou a desempenhar um papel de destaque nos debates políticos e acadêmicos.

Muitos de seus integrantes apoiaram a candidatura de Marina Silva às eleições presidenciais de 2014, outros estiveram ao lado de Luciana Genro, e houve participantes do grupo que cerraram fileiras com Aécio Neves, o que confirma o caráter pluralista desta corrente de pensamento. Cabe realçar a importância, para o blog de Cavalcanti, da democracia política como fundamento da ação política e da “terceira via” como norte a conduzir o País a uma nova experiência de poder desvinculada da polarização tradicional entre PT e PSDB.

Num outro texto, publicado na coletânea de ensaios O que é ser esquerda, hoje?Gilvan Cavalcanti repõe a idéia de uma nova sociedade no Brasil em termos bem assertivos:

Um tema que deveria ficar bem límpido, cristalino para a esquerda moderna: não há no horizonte nenhuma perspectiva

de “revolução” à vista. Deveria, alem do que, considerar que

essa palavra tem algo a ver com a idéia de recriação do mundo

a partir do zero, radicalmente novo. Isso, na prática, não existe.

E o mais grave: as duas “revoluções”, a francesa e a russa,

foram impondo limites à cidadania. O indivíduo poderia ser censurado, preso ou proibido de deixar os seus países por

pensar de forma diversa dos “revolucionários”, o que levou à

falta de democracia: os jacobinos, na França, e os

bolcheviques, na Rússia.

(CAVALCANTI, 2013, pág. 268)

Nesta passagem, os dois eixos de reflexão do novo pensamento democrático da esquerda se entrelaçam de maneira cabal: a democracia política (livre das manipulações do jogo tradicional das elites e do aparelhamento dos órgãos públicos por um pretenso partido salvacionista e messiânico) ,é o único caminho estável para a conquista de uma nova sociedade, distante também de um dos grandes males das sociedades latino-americanas, a crença no

populismo e na falsa ideia de um líder carismático a conduzir o povo até a

“Terra Prometida”.

Nossa análise do blog de Cavalcanti se fecha com um texto assinado por um dos expoentes do novo pensamento de esquerda no Brasil, Luiz Werneck Vianna. O texto foi publicado em O Estado de São Pauloem 17 de maio de 2014 e, em seguida, reproduzido no blog que estamos analisando. Sob o sugestivo título de O vinho novo e os velhos odres, Werneck Vianna analisa a conjuntura política de então e nos transmite importantes conceitos para que possamos compreender os próprios objetivos do espaço jornalístico e político em questão, o blog Democracia política e novo reformismo.

Werneck Vianna elabora sua reflexão depois dos acontecimentos de junho de 2014 quando multidões estiveram nas ruas no Brasil para protestar contra o aumento das passagens de ônibus e contra os gastos exorbitantes com a Copa do Mundo, protestos que se estenderam a outros temas importantes, como a precariedade dos serviços públicos.

Ele fala, pois, dentro de um período crítico na história recente, ele reflete dentro

do “olho do furacão”. E esse dado nos é importante, pois coloca em destaque o

pensamento do grupo que se exprime por meio do blog de Cavalcanti por meio da pena de Vianna, consagrado estudioso da realidade brasileira desde a

década de 70 com Liberalismo e sindicatos no Brasil. No texto ora em questão, Vianna analisa a ruptura entre o Estado e a sociedade civil no Brasil (chega a falar em apartheid), em decorrência da falta de canais válidos para estabelecer uma conexão mais concreta entre as duas esferas. O autor afirma:

À falta de canais e por descrença nos existentes- até os mais longevos respeitáveis como os do sindicalismo- eles transbordam tumultuariamente nas ruas, ignorando até as diretrizes de suas lideranças, como nos casos recentes da greve dos garis e dos rodoviários cariocas.

Destacando a importância da Constituição de 1988 para a evolução política do País (o que põe em evidência a idéia da democracia política como única via para as transformações no Brasil), Werneck mostra como a quebra dos vínculos entre cidadania e representação pode nos levar a um beco sem saída de proporções gigantescas (situação que estamos vivendo atualmente, sem sombra de dúvidas).

Em outra passagem de seu texto, o autor afirma:

Sem conhecer a prática da associação no mundo civil, o social se manifesta como matéria-prima em estado bruto tal como toma conta das ruas desde as jornadas de junho. O governo do PT, em nossa história política, tem sido de fato o partido que mais se aplicou, na prática e em sua retórica, à questão social. Contudo, como na famosa parábola do Evangelho, condicionou vinho novo em odres velhos, trazendo os movimentos sociais para o interior do Estado à moda do velho corporativismo. Com essa operação anacrônica, inibiu a plena maturação deles, rebaixados em sua autonomia pelos seus vínculos com o Estado, que, vela ou abertamente, os abriga. E, sobretudo, desanimados da vocação para se expandirem. Como é visível a olho nu, esse meio não tem sido pródigo em produzir lideranças políticas relevantes nem dá conta do que se passa nas ruas.

Como podemos verificar, a posição de Werneck remete a uma séria e relevante questão: a autonomia dos movimentos sociais e das diversas esferas da sociedade civil, fonte viva para o aprofundamento de qualquer regime democrático confiável. Tal autonomia é vital também para que não se consolide na sociedade o “apartheid ”entre Estado e organizações sociais, como se vê hoje. (Não falamos, é evidente, de movimentos sociais cooptados pelo Estado e que atuam, pois, sem nenhuma autonomia).

Completando seu raciocínio sobre a autonomia dos movimentos sociais (base de uma democracia alicerçada na Constituição de 1988), o autor nos diz:

O social, numa sociedade de massas com o tamanho da brasileira, ao emergir à superfície em busca de direitos de cidadania, não tem como se manter contido pela ação organizadora do Estado. Para ficar na parábola, é muito vinho para poucos odres. Os direitos reclamados por ela estão afiançados pela lei e são respaldados pelo discurso oficial, mas a questão dolorosa que fica é o deles estarem bem longe das suas mãos ,enquanto assiste com ira ao desenrolar de escândalos na administração pública e, com indiferença, à febril agitação, em ano de sucessão presidencial, das classes políticas- no Brasil, essa categoria exótica existe.

A autonomia dos movimentos sociais deve (ou deveria) estar sempre vinculada à universalidade dos órgãos da democracia representativa para que tivéssemos em nosso País uma sociedade organizada por meio do que os constituintes chamaram de “democracia participativa” e que nós preferimos chamar, com Pietro Ingrao, de “democracia de massas”. E essa idéia é

fundamental nos discurso reformista e democrático do blog de Gilvan Cavalcanti, ela perpassa todas as reflexões que investigamos, a partir do texto de Luiz Sérgio Nascimento Henriques(realçando o valor da institucionalidade democrática em nossa vida republicana, passando pelo discurso de Cavalcanti

destacando o conceito de “terceira via”) até as ricas sugestões de Werneck

Vianna nos sentido de se pensar nosso regime democrático de maneira mais complexa, longe dos discursos superficiais ou que justificam o aparelhamento das instituições do Estado por um partido político.

4.

CONCLUSÃO

Nosso propósito com o presente trabalho foi chamar a atenção para a influência cada vez maior que os blogs jornalísticos exercem na formação política dos leitores contemporâneos. Com rápida difusão da Internet, os blogs alternativos passaram a ser instrumentos de informação e de conhecimento para um público sempre maior e sempre mais interessado em discutir política fora dos marcos estreitos dos grandes meios de comunicação de massa, jornais ou emissoras de televisão. À medida em que esse público se consolidou dentro do mercado capitalista, os blogs políticos passaram a ter mais influência e a cativar um público cada vez maior e mais preparado para lê- los.

Dentro de tal contexto, tomamos como objeto de análise três importantes blogs políticos do jornalismo brasileiro atual e vislumbramos neles três posições políticas dentro de nosso quadro político atual. Antes da análise propriamente dessas três posições políticas, analisamos em linhas gerais o quadro de nossa formação econômico-social baseado na vitória em nosso País de um sistema capitalista dependente e associado ao capitalismo globalizado mundial. Recorrendo a pesquisas de Florestan Fernandes, Carlos Nelson Coutinho, Leandro Konder, Luiz Werneck Vianna e outros, mostramos que o desenvolvimento deste capitalismo dependente gerou no Brasil uma ordem autocrática e burguesa, na qual as liberdades democráticas são continuamente ameaçadas e sua vigência estará sempre condicionada aos interesses de dominação do grande capital internacional associado ao capital nacional. Nesse contexto, os intelectuais responsáveis pela difusão e discussão das ideias políticas e culturais e autores dos diversos blogs políticos desenvolvem suas reflexões prisioneiros da ideologia dominante e submetido ao que Lukács,

parafraseando Thomas Mann, chamou de “intimismo à sombra do poder”, um

espaço autônomo reservado ao intelectual pelo sistema capitalista dependente

dentro do qual ele tem “liberdade” para criar e refletir, desde que se mova

dentro do “intimismo” e que suas ideias não ultrapassem os rígidos limites estabelecidos pela ordem autocrática.

No quadro apontado, analisamos dois blogs que se contrapõem pelas ideias mas que se completam por conduzir suas reflexões pela mesma trilha do radicalismo de direita e pelo radicalismo de esquerda, um tentando inviabilizar os governos do PT, o outro tentando desesperadamente defendê-los, mas ambos comprometidos com os fundamentos da ideologia que sustenta a ordem burguesa dominante.

Falamos, naturalmente, dos blogs de Reinaldo Azevedo e do Brasil 247. Como tentativa de síntese dialética e alternativa a esses pólos opostos, apresentamos as análises contidas no blog Democracia política e novo reformismo, organizado por Gilvan Cavalcanti de Melo e freqüentado por outros intelectuais importantes da cena política brasileira. Neste blog, a nosso ver, a esquerda se reencontra com suas melhores tradições democráticas e pluralistas e assume um ponto de vista mais universal para dar conta dos dilemas atuais da sociedade brasileira, vendo na democracia política o caminho para a edificação de uma nova sociedade e superando as limitações contidas na falsa polarização entre PT e PSDB, polarização que não está mais apta para pensar a nossa realidade de maneira criativa e propositiva. Ela é prisioneira do passado e nós ansiamos por um futuro mais democrático e mais pluralista em nosso País.

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