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A conversão, tradicionalmente conhecida como derivação imprópria, é um processo de

formação de palavras que consiste na inclusão de uma palavra numa nova classe, sem que se
verifique qualquer alteração formal da palavra e sem que se adicionem afixos. Esta inclusão
obriga a que a palavra passe a estar sujeita às regras de flexão da classe em que se integrou.

Ex: andar (verbo) Ú andar (nome). Ao passar a nome andar flexiona como os nomes com a
mesma terminação: andar(es).

Ex: No mercado de arrendamento há muito poucos andares.

Em português encontramos palavras originárias de classes diversas que se convertem em nomes.


Vejamos os exemplos seguintes:

Nova
Classe inicial Exemplo Exemplo
classe

Contra O carro bateu contra uma Contra Num negócio, é preciso ver os prós e
(preposição) árvore. (nome) os contras.

Olhar Olhar o mar faz bem à Olhar


A criança tinha um olhar muito vivo.
(verbo) saúde. (nome)

Mal Ele sentiu-se mal durante o Mal


Faz o bem, não faças o mal.
(advérbio) jogo. (nome)

Outro dos processos que não envolvem a adição de afixos é a derivação não afixal. Consiste na
formação de nomes a partir de verbos, através da substituição da vogal temática e do sufixo de
flexão verbal pelo índice temático (e eventuais sufixos de flexão) .

Ex: pescar Ú pesca. Retira-se ao radical pesc a vogal temática a e o sufixo de flexão de infinitivo
r, substituindo-os pelo índice temático a. Tradicionalmente, a gramática definia este processo
como derivação regressiva.
Alguns exemplos de derivação não afixal:

Nova
Classe inicial Exemplo
classe

Debater Debate Em política, o debate de ideias é muito


(verbo) (nome) importante.

Olhar Olho
Eles têm olho para o negócio.
(verbo) (nome)

Comprar Compra
As compras de bens de consumo estão a diminuir.
(verbo) (nome)

Composição:
Definimos dois tipos: a composição morfológica e a composição morfossintática. No primeiro
caso, formamos palavras através da associação de dois radicais (habitualmente de origem grega
e/ou latina) ou de um radical e uma palavra. Esta associação faz-se, normalmente, através de
uma vogal de ligação (psic+o+logia = psicologia; luso+descendente = lusodescendente). No
segundo, a formação das palavras faz-se através da associação de duas ou mais palavras:
Ex: surdo-mudo; quebra-mar; homem-rã; fim de semana.

Vejamos alguns exemplos de composição morfológica:

Palavra Descrição Flexão Exemplos

Só o 2.º elemento flexiona em


Psicopata Radical + Radical o/a/(s) psicopata(s)
número

Só o 2.º elemento flexiona em o/a/ (s)


Infodependente Radical + palavra
número infodependente(s)

Radical + radical + Só o 2.º elemento flexiona em o/a/(s)


Neurofisiologista
radical número neurofisiologista (s)

Convém ainda referir que na composição morfológica estão envolvidos processos morfológicos,
como a variação em número, enquanto que na composição morfossintática a associação das
palavras se faz também através de processos sintáticos e semânticos, os quais, por sua vez,
dependem da estrutura do composto (nome + nome; nome + adjetivo; adjetivo + adjetivo; verbo
+ nome).

Isto quer dizer que se ambas as palavras tiverem igual contributo para o valor semântico do
composto, o contraste em género e a flexão em número atingem os dois elementos (exemplos 1
e 3 do quadro).

Por outro lado, se o valor semântico da palavra da esquerda for modificado pela da direita, o
contraste de género e a flexão em número afetam apenas a palavra da esquerda (exemplos 2 e
4). Ainda no caso de o composto ser constituído por uma forma verbal na 3ª pessoa do singular
e por um nome, apenas flexiona o nome (exemplo 5). Finalmente, não se verifica contraste em
género nem flexão em número nos compostos constituídos verbo na 3ª pessoa e nome no
plural (exemplo 6).

Vejamos alguns exemplos de composição morfossintática:

Palavra Descrição Flexão Exemplos

Flexionam ambas as
1. Trabalhador- Ele/ela /eles/elas é /são
Nome + nome palavras em género e
estudante trabalhador(es) (a) (as)
número.
estudante(s).

Apenas a 1ª palavra Ele desarmadilhou duas


2. Bomba-relógioNome + nome
flexiona em número. bombas-relógio.

Flexionam ambas as
Ele/ela /eles/elas é /são
3. Surdo-mudo Adjetivo + adjetivo palavras em género e
surdo/os /as mudo(a) (os) (as).
número.

Apenas a 1ª palavra Passo os fins de semana a


4. Fim de semanaNome + prep + nome
flexiona em número. trabalhar.

Apenas a 2ª palavra Hoje, raramente se veem


5. Picapau Verbo + nome
varia em número. picapaus.

Nenhuma das palavras


6. Saca-rolhas Verbo + nome Comprei dois saca-rolhas.
flexiona.
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Os processos de criação ou formação de palavras existentes em português são:

• afixação (derivação e modificação);

• conversão (derivação regressiva e derivação imprópria);

• composição (morfológica, morfossintática).

A afixação é o processo em que se associa um afixo a uma forma de base permitindo a

formação de uma palavra. A afixação pode ocorrer por derivação ou modificação. A derivação

designa o processo de formação de palavras através de um afixo derivacional (prefixo ou sufixo

que determina as propriedades morfossintáticas, como a classe a), o género dos nomes b), o

tipo de conjugação dos verbos c), da forma de base em que ocorre):

a) [an]o anual

radical nominal adjetivo

b) [ram]o ramagem

radical nominal masculino nome feminino

c) [ferv]er fervilhar

radical verbal 2.ª conjugação verbo 1.ª conjugação

A derivação pode ser:

derivação por prefixação — consiste na junção de um afixo à esquerda da forma de base


(denominado de prefixo), por exemplo:

gordura antigordura

radical nominal adjetivo

derivação por sufixação — consiste na junção de um afixo à direita da forma de base (sufixo),
alterando a suas propriedades morfossintáticas, por exemplo:

[bel]o beleza

radical adjetival nome

derivação parassintética — consiste na junção simultânea de um prefixo e um sufixo a uma forma


de base. Na parassíntese não é possível suprimir um dos afixos, por exemplo:

abonecar (*aboneca / *bonecar )


A modificação designa o processo morfológico de formação de palavras que decorre da junção
de um afixo modificador a uma forma de base, por sufixação a) ou por prefixação b):

a) livro livrinho

radical nominal nome

b) fazer refazer

radical verbal verbo

A conversão inclui os processos derivação regressiva e derivação imprópria. A derivação


regressiva consiste no processo de formação de nomes a partir de verbos, em que se retira um
segmento à forma de base:

atacar ataque

A derivação imprópria consiste no processo de formação de palavras que não implica qualquer
alteração formal, na medida em que apenas se procede à alteração da classe da palavra:

O jantar [nome] estava óptimo.

Vamos jantar [verbo].

A composição designa o processo morfológico de formação de palavras que associa duas ou


mais formas de base.

Este processo pode realizar-se através da composição morfológica ou composição


morfossintática. A composição morfológica resulta da associação de dois ou mais radicais
ligados entre si por meio de uma vogal de ligação, podendo ocorrer um hífen entre os radicais:

organ[i]grama

afro-americano

A composição morfológica pode ser:

composição morfológica de coordenação: ocorre quando os radicais da palavra composta


apresentam um estatuto idêntico contribuindo de igual modo para a interpretação semântica da
palavra. Os compostos deste tipo são adjetivos, e o contraste de género e flexão de número
ocorre no final da palavra (Ex: socioeconómico — socioeconómicas).

composição morfológica de subordinação: ocorre quando o radical que se apresenta à


esquerda modifica semanticamente o da direita, pelo que existe uma forte dependência
semântica entre os dois radicais. Alguns destes radicais ligam-se por uma vogal de ligação, i ou
o, podendo ocorrer um hífen entre eles (Ex: fotografia, luso-descendente, ped[agogia] (em
pedagogia não é necessária a vogal porque o segundo radical começa por vogal)
A composição morfossintática designa o processo que associa duas ou mais palavras. Estes
compostos podem ter uma estrutura de:

coordenação: integra palavras com estatuto idêntico, pelo que estas contribuem de igual modo
para a interpretação semântica do composto. A coordenação associa particularmente nomes,
podendo também incluir alguns adjetivos, conforme, actor-encenador, surda-muda, e a flexão
ocorre nos dois constituintes, conforme surdas-mudas.

subordinação: integra única e exclusivamente nomes. O nome da esquerda é considerado o


núcleo, e o da direita, o modificador. A flexão ocorre no primeiro constituinte (Ex: bombas-
relógio). Nestas estruturas os constituintes não apresentam um estatuto semântico idêntico, e o
valor semântico do nome à esquerda é modificado pelo valor semântico do nome da direita:

bomba-relógio

reanálise: combina uma forma verbal flexionada na terceira pessoa do singular do presente do
indicativo e uma forma nominal [cf.a)]. A flexão ocorre no segundo constituinte [cf. b)]:

a) guarda-roupa

b) guarda-roupas

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Apesar de permitir a formação de palavras, a flexão não é um processo de criação. Aplica-se
às palavras variáveis, permitindo especificar as suas propriedades morfossintáticas e
morfossemânticas. A flexão é obrigatória e sistemática, podendo ser nominal ou verbal. A flexão
nominal aplica-se aos nomes e adjetivos, especificando o número singular ou plural. De notar
que o contraste de género não é considerado um processo de flexão (Gramática da Língua
Portuguesa, Mateus et alii) dado que não é um processo obrigatório (apenas os nomes animados
possuem contraste de género) e pode realizar-se através de outros processos de formação de
palavras como derivação (cf. embaixador/embaixatriz), composição (cf. crocodilo-fêmea),
contraste de género através de diferentes palavras (cf. ovelha/carneiro) ou contraste de género
através do índice temático (cf. gato/gata). A flexão verbal aplica-se aos verbos através da flexão
em tempo-modo-aspecto e pessoa-número, ajustando-se à conjunção a que pertence o verbo
(1.ª, 2.ª e 3.ª).