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POLÍCIA MILITAR DA BAHIA

CENTRO DE FORMAÇÃO E APERFEIÇOAMENTO DE PRAÇAS


CURSO ESPECIAL DE FORMAÇÃO DE SARGENTOS

DIREITO
APLICADO/
DIREITO MILITAR
APLICADO

ELABORAÇÃO: SD PM ANDRÉ ABREU DE OLIVEIRA (pós-graduando em Direito


Penal Militar e Direito Processual Penal Militar; pós-graduando em Ciências Criminais;
bacharel em Direito; sócio do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais; autor de diversos
artigos).
APRESENTAÇÃO

O objetivo da presente apostila é servir como material complementar às aulas


ministradas pelos instrutores da disciplina Direito Aplicado/Direito Militar Aplicado,
que na verdade compreende a junção do conteúdo apresentado normalmente em
duas matérias distintas. Essa disciplina unificada, por sua vez, como se infere do
próprio título, trata do Direito e do Direito Militar aplicado à atividade policial-militar,
analisando aqueles institutos das Ciências Jurídicas de maior incidência no dia a dia
do policial militar, mais especificamente do sargento PM.
A parte relativa ao Direito Aplicado traz algumas noções de Direito
Constitucional, especialmente acerca dos direitos e garantias fundamentais, bem
como alguns conhecimentos elementares de Direito Penal, principalmente o exame
de determinados crimes em espécie, dentre aqueles com os quais se depara o
policial militar com maior frequência no desempenho de suas atividades.
Já a parte destinada ao Direito Militar Aplicado trata mais precisamente do
Direito Penal Militar e do Direito Processual Penal Militar, já que o Direito
Administrativo Disciplinar Militar, que também compõe o Direito Militar, é objeto de
outra disciplina do curso, no caso Legislação PM. Assim, o conteúdo desse material
engloba o exame de certos aspectos fundamentais da Teoria Geral do Direito Penal
Militar, bem como a análise de alguns crimes militares em espécie, dentre aqueles
previstos para o tempo de paz.
Integra, ainda, esta apostila, algumas noções de Direito Processual Penal Militar,
especialmente aquelas relacionadas à prisão em flagrante delito por cometimento de
crime militar e ao inquérito policial militar. Isto porque o futuro sargento PM,
conforme dispõe o Código de Processo Penal Militar, poderá funcionar como
escrivão tanto na lavratura do auto de prisão em flagrante, como na instauração de
inquérito policial militar, exceto se figurar como indiciado um oficial.
Enfim, espera-se que o constante nesta apostila atinja sua finalidade, qual seja a
de auxiliar, de maneira simples e objetiva, o novo Aluno do Curso de Formação de
Sargentos PM, servindo, ao menos, de estímulo para estudos mais aprofundados.
Desejamos sucesso nos estudos!
Salvador, janeiro de 2011.

Sd 1ª Cl PM André Abreu de Oliveira


SUMÁRIO

DIREITO APLICADO………………………………………………………….………….......5
1 CONCEITO DE DIREITO............................................................................................7

2 NOÇÕES DE DIREITO CONSTITUCIONAL..............................................................7


2.1 DIREITOS E GARANTIAS FUNDAMENTAIS..........................................................8
2.1.1 Direito à vida……………………………………………………………………….......9
2.1.2 Direito à liberdade de locomoção…………………………………………………..9
2.1.3 Direito à inviolabilidade do domicílio…………………………………………….10
2.1.4 Direito à reunião pacífica………………………………………………………......11
2.1.5 Direito à ampla defesa e ao contraditório……………………………………....12

3 NOÇÕES DE DIREITO PENAL................................................................................13


3.1 CONCEITO DE DIREITO PENAL..........................................................................13
3.2 CRIMES EM ESPÉCIE..........................................................................................14
3.2.1 Crime de homicídio...........................................................................................14
3.2.2 Crime de furto....................................................................................................17
3.2.3 Crime de roubo..................................................................................................20
3.2.4 Crime de extorsão…………………………………………...................................22
3.2.5 Crime de resistência.........................................................................................24
3.2.6 Crime de desobediência...................................................................................26
3.2.7 Crime de desacato............................................................................................27
3.2.8 Crime de corrupção ativa…………………………………………………….........28
3.2.9 Crime de tráfico de drogas...............................................................................29
3.2.10 Crime de porte ilegal de arma de fogo..........................................................32

DIREITO MILITAR APLICADO……………………………………………………………36

DIREITO PENAL MILITAR………………………………………………………..............38

1 TEORIA GERAL DO DIREITO PENAL MILITAR……….........................................41


1.1 DIREITO PENAL MILITAR: INTRODUÇÃO..........................................................41
1.2 DIREITO PENAL MILITAR NO BRASIL: BREVE HISTÓRICO.............................42
1.3 CRIME MILITAR ...................................................................................................43
1.3.1 Crime militar: definição……............................................................................43
1.3.2 Classificação dos crimes militares: crime militar próprio e impróprio…...44
1.3.3 Crimes militares em tempo de paz: art. 9º do CPM.......................................45
1.3.4 Conceito de superior.......................................................................................51
1.4 A JUSTIÇA MILITAR ESTADUAL.........................................................................51

2 CRIMES EM ESPÉCIE: CRIMES MILITARES EM TEMPO DE PAZ.....................54


2.1 CRIME DE RECUSA DE OBEDIÊNCIA……………………………………………..54
2.2 CRIME DE VIOLÊNCIA CONTRA INFERIOR………………………………………55
2.3 CRIME DE OFENSA AVILTANTE A INFERIOR …………………………………...57
2.4 CRIME DE ABANDONO DE POSTO………………………………………………...57
2.5 CRIME DE EMBRIAGUEZ EM SERVIÇO………………………………………......59
2.6 CRIME DE DORMIR EM SERVIÇO………………………………………………….60
2.7 CRIME DE DESAPARECIMENTO, CONSUNÇÃO OU EXTRAVIO……………..61
2.8 CRIME DE PECULATO………………………………………………………………..62
2.9 CRIME DE CONCUSSÃO E CRIME DE CORRUPÇÃO PASSIVA………….......64
2.10 CRIME DE PREVARICAÇÃO ………………..……………………………………..66

DIREITO PROCESSUAL PENAL MILITAR……………………………………………..67

1 PRISÃO EM FLAGRANTE DELITO NO CPPM......................................................69


1.1 EFETIVAÇÃO DA PRISÃO EM FLAGRANTE DELITO NO CPPM………...........69
1.2 PRISÃO EM FLAGRANTE DELITO NO CPPM: ESPÉCIES………………….......70
1.3 LAVRATURA DO AUTO DE PRISÃO EM FLAGRANTE DELITO………………..71

2 INQUÉRITO POLICIAL MILITAR (IPM)..................................................................73


2.1 INQUÉRITO POLICIAL MILITAR: NOÇÕES GERAIS……………………………..73
2.2 O ESCRIVÃO NO INQUÉRITO POLICIAL MILITAR……………………………….74

REFERÊNCIAS……………........................................................................................77
DIREITO
APLICADO
7

1 CONCEITO DE DIREITO

Sem deixar de reconhecer a impossibilidade do estabelecimento de um conceito


único de Direito, já que inúmeros são os seus significados, para fins da presente
disciplina, podemos conceituá-lo como um “conjunto de regras obrigatórias que
garante a convivência social harmônica graças ao estabelecimento de limites à
ação de cada um dos indivíduos em sociedade” 1 . Logo, fica evidente que o
Direito surge como uma necessidade para que a sociedade possa conviver em
harmonia. Para isso, o Direito necessita impor suas normas por meio da coerção;
seja pelo poder intimidatório decorrente de sanções previstas para aqueles que se
negarem a cumprir esses preceitos, seja pela força propriamente dita, utilizada, por
exemplo, para restabelecer a ordem pública quando esta é violada.
Assim, o policial militar, como encarregado da aplicação da lei que é, tem o
dever de fazer cumprir essas normas de conduta social que constitui o Direito. Por
isso, deve continuamente buscar o aprimoramento de seus conhecimentos jurídicos,
para que possa pautar sua atuação sempre dentro da legalidade.

2 NOÇÕES DE DIREITO CONSTITUCIONAL

Modernamente, a Polícia Militar tem como papel primordial não apenas a


manutenção da ordem pública, mas também a própria efetivação dos direitos
fundamentais dos cidadãos. O atual perfil político-constitucional do nosso país — de
Estado Democrático de Direito — impõe essa nova realidade na atuação policial. Por
sua vez, “o artigo 2º [do CCEAL2] requer que os encarregados da aplicação da lei,
no cumprimento do dever, respeitem e protejam a dignidade humana, mantenham e
defendam os direitos humanos de todas as pessoas”3.
De outro lado, não serão poucas as ocasiões em que o policial militar deverá
restringir ou limitar o gozo desses mesmos direitos fundamentais em prol da

1
VAZ, Anderson Rosa. Introdução ao direito. Curitiba: Juruá, 2007, p. 22.
2
Código de Conduta para os Encarregados da Aplicação da Lei.
3
Para servir e proteger…, 2005, p. 173.
8

coletividade. Por essas razões, é imprescindível que o PM detenha minimamente


algumas noções acerca dos direitos e garantias fundamentais.

2.1 DIREITOS E GARANTIAS FUNDAMENTAIS

Do que foi dito acima, já se pode perceber que os direitos e garantias


fundamentais não são absolutos, havendo, pois, situações em que haverá restrição
ou limitação na fruição desses direitos e garantias. Como ensina Walber de Moura
Agla 4 , “um dos principais vetores para a limitação dos direitos fundamentais é o
interesse público, obedecendo ao princípio do bem comum. A utilização excessiva
do direito fundamental não pode afrontar os interesses da coletividade […]”. Desse
modo, quando o policial militar, no cumprimento de suas funções, restringe direitos
dos cidadãos, o faz com fundamento no Poder de Polícia, que “é a atividade do
Estado consistente em limitar o exercício dos direitos individuais em benefício
do interesse público”5.
Ainda, os estudiosos do tema costumam diferenciar direitos e garantias
fundamentais, já que a própria Constituição Federal, em seu Título II, faz referência
a essas duas espécies. Nessa perspectiva, direitos são as prescrições declaratórias
que dão existência às prerrogativas reconhecidas, enquanto que garantias são os
elementos que asseguram o gozo dos direitos e servem também para limitar os
poderes do Estado 6 . Exemplificando, no inciso XXXIII do art. 5º da Constituição
Federal está previsto o direito à informação junto aos órgãos públicos, ao passo em
que o inciso LXXII do mesmo artigo traz a garantia desse direito por meio do
habeas data.
Também é importante lembrar que os direitos e garantias fundamentais não são
constituídos por somente aqueles discriminados nos 78 incisos do art. 5º da
Constituição Federal. Esse rol traz apenas alguns exemplos, somando-se a eles
outros direitos e garantias decorrentes dos tratados e convenções internacionais de
que o Brasil seja parte [por exemplo, a Convenção Americana sobre Direitos
Humanos], bem como aqueles decorrentes do próprio regime democrático e dos
4
AGRA, Walber de Moura. Manual de Direito Constitucional. São Paulo: RT, 2002, p. 143.
5
DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. Direito administrativo. 20. ed. São Paulo: Atlas, 2007, p. 104.
6
CHIMENTI, Ricardo Cunha; CAPEZ, Fernando; ROSA, Márcio Fernando Elias; SANTOS, Marisa
Ferreira dos. Curso de Direito Constitucional. 3. ed. São Paulo: Saraiva, 2006, p. 55.
9

princípios constitucionais [estes chamados direitos e garantias implícitos]. No


entanto, como este espaço não comporta um estudo mais aprofundado, somente
serão brevemente examinados alguns dos direitos e garantias em espécie
elencados no art. 5º da CF, aqueles que reputamos mais intimamente ligados à
atuação policial-militar.

2.1.1 Direito à vida

O direito à vida, consistente no direito de maior relevância, já que a fruição dos


demais direitos dele dependem, tem a garantia de sua inviolabilidade expressa no
caput do art. 5º da Constituição Federal. Em que pese sua tamanha importância, o
direito à vida não é absoluto, existindo situações nas quais ele poderá ser
excepcionalmente suprimido. É o caso, por exemplo, da pena de morte, que, apesar
de em regra ser proibida, é permitida na situação de guerra declarada, conforme
disposto no art. 5º, inciso XLVII, da Constituição. Também, pelo instituto da legítima
defesa, será lícita a ação de alguém que, para salvaguardar sua própria vida ou a de
um terceiro, retira a vida de outrem, que os agride injustamente, consoante prevê o
art. 23, II, do Código Penal comum, e o art. 42, II, do Código Penal Militar.
Por seu turno, os policiais militares, algumas vezes, deparam-se com
acontecimentos nos quais serão obrigados a investir contra a vida de alguém. Esses
casos de uso da força letal, no entanto, restringem-se à excepcionalidade, melhor
dizendo, “o uso letal intencional de armas de fogo só poderá ser feito quando for
estritamente inevitável para proteger a vida”7, conforme dispõe o princípio de nº. 9
dos Princípios Básicos sobre o Uso da Força e Armas de Fogo (PBUFAF). Nessas
hipóteses extremas, o policial militar agirá com respaldo legal no supramencionado
instituto da legítima defesa, sua ou de outrem, que consiste em uma das causas
excludentes da ilicitude.

2.1.2 Direito à liberdade de locomoção

A Constituição Federal, em seu art. 5º, inciso XV, assegura que “é livre a
locomoção no território nacional em tempo de paz, podendo qualquer pessoa, nos

7
Para servir e proteger…, 2005, p. 300.
10

termos da lei, nele entrar, permanecer ou dele sair com seus bens”. Esse direito,
também conhecido como direito de ir e vir, estabelece que os indivíduos, em regra,
podem circular livremente com seus bens por todo território nacional. Qualquer
interferência ilegal a esse direito pode ser combatida por meio de habeas corpus,
previsto no inciso LXVIII do mesmo art. 5º, segundo o qual: “conceder-se-á ‘habeas-
corpus’ sempre que alguém sofrer ou se achar ameaçado de sofrer violência ou
coação em sua liberdade de locomoção, por ilegalidade ou abuso de poder”. Além
disso, tratando-se de policial militar, se houver por parte deste abuso em relação ao
direito analisado, responderá por crime previsto na Lei nº. 4.898/65, conhecida como
Lei dos Crimes de Abuso de Autoridade, a qual prevê, em seu art. 3º, alínea a, que:
“constitui abuso de autoridade qualquer atentado à liberdade de locomoção”.
Entretanto, como todos os outros, esse direito não é absoluto, havendo
situações em que os cidadãos não poderão usufruí-lo em toda sua plenitude. É o
caso, por exemplo, do período carnavalesco, quando, em determinados locais, fica
proibido o trânsito de veículos, pela grande quantidade de transeuntes. Nessas
situações é comum o PM alegar para o cidadão que não está restringindo o seu
direito de ir e vir, uma vez que ele pode passar sem o automóvel. Porém, como visto,
o “direito de ir e vir” inclui o direito da pessoa transitar com os seus bens, logo,
sendo o veículo um bem do indivíduo, há, sim, restrição a esse direito. Acontece
que, nessa hipótese, a restrição é legal e decorre do Poder de Polícia, o qual tem
como fundamento a predominância do interesse público sobre o particular, que
confere à Administração Pública posição de supremacia sobre os administrados8.

2.1.3 Direito à inviolabilidade do domicílio

O direito à inviolabilidade do domicílio vem previsto no art. 5º, inciso XI, da CF,
segundo o qual: “a casa é asilo inviolável do indivíduo, ninguém nela podendo
penetrar sem consentimento do morador, salvo em caso de flagrante delito ou
desastre, ou para prestar socorro, ou, durante o dia, por determinação judicial”.
Desse modo, ao passo em que o dispositivo em questão traz a proteção do
domicílio, também elenca as hipóteses de flexibilização desse direito fundamental.

8
DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella, op. cit., p. 102.
11

Dentre essas situações, à do flagrante delito deve ser conferida uma atenção
especial, uma vez que o PM, com certa frequência, irá com ela se deparar. Assim,
quando se tratar de casos de flagrante delito, o policial poderá adentrar o domicílio
mesmo contra a vontade do seu dono. A questão é saber se esse estado de
flagrância refere-se a crime que está sendo cometido no interior do domicílio ou se
inclui também os casos em que o delito foi cometido fora da casa e o infrator, sendo
perseguido e ainda em estado de flagrância, invade domicílio alheio. Para Nestor
Távora e Rosmar de Alencar9, por exemplo:

Se em razão da perseguição, o agente vier a se homiziar numa casa, e


diante da situação de flagrância, por não ter havido a interrupção da
perseguição, o executor poderá adentrar na residência, sendo dia ou noite,
pois, por autorização constitucional, o ingresso domiciliar ocorreria para
concretizar o flagrante, tendo assim pleno cabimento.

Afora daqueles casos acima enumerados, o policial militar só poderá entrar no


domicílio alheio com o consentimento do morador. Se assim for necessário, é
conveniente que o PM arrole testemunhas dessa anuência do morador antes de
entrar na residência.
Finalmente, vale lembrar que o quintal, a garagem, a laje e a varanda da casa,
por exemplo, integram o domicílio, gozando, pois, da proteção constitucional
referida. Já os espaços abertos ao público dos estabelecimentos empresariais, como
a parte aberta aos clientes de um bar ou de uma farmácia, não possuem essa
proteção. Porém, os compartimentos não abertos ao público em geral desses
estabelecimentos, como a parte de dentro do balcão do bar ou da farmácia, têm a
tutela constitucional do domicílio, não podendo o PM entrar sem o consentimento do
responsável ou fora daqueles casos acima descritos.

2.1.4 Direito à reunião pacífica

Conforme disposto no art. 5º, inciso XVI, da CF: “todos podem reunir-se
pacificamente, sem armas, em locais abertos ao público, independentemente de
autorização, desde que não frustrem outra reunião anteriormente convocada para o
mesmo local, sendo apenas exigido prévio aviso à autoridade competente”. Logo, a

9
TÁVORA, Nestor; ALENCAR, Rosmar A. C. R. de. Curso de direito processual penal. 2. ed. rev.,
ampl. e atual. Salvador: Juspodivm, 2009, p. 439.
12

regra é a de o policial militar não interferir nas reuniões em locais aberto ao público,
no sentido de impedi-las, quando se deparar com a ocorrência delas. Todavia, essas
reuniões devem ser pacíficas e sem armas, pois, caso algum participante esteja
portando ilegalmente arma, deverá ser preso em flagrante delito pelo PM. Com
relação a isso, Alexandre de Moraes10, utilizando-se da lição de Celso de Mello,
explica que “[…] não será motivo para dissolução da reunião o fato de alguma
pessoa estar portando arma. Nesses casos, deverá a Polícia desarmar ou afastar tal
pessoa, prosseguindo-se a reunião, normalmente, com os demais participantes que
não estejam armados”. Também, se houver qualquer prática de violência por parte
dos reunidos, deverá haver a devida interferência da Polícia Militar.
Por fim, o dispositivo constitucional determina que a reunião seja informada
previamente à autoridade competente, o que não significa pedido de autorização, já
que esta não é exigida pela Constituição. Esse prévio aviso da reunião serve para
que a Administração possa organizar-se antecipadamente, acionando, por exemplo,
seus órgãos responsáveis pelo trânsito e a própria Polícia Militar. Ainda, essas
reuniões não poderão bloquear totalmente as vias de acesso, impossibilitando a
locomoção de outras pessoas.

2.1.5 Direito à ampla defesa e ao contraditório

O art. 5º, inciso LV, da Constituição Federal, estabelece que “aos litigantes, em
processo judicial ou administrativo, e aos acusados em geral são assegurados o
contraditório e ampla defesa, com os meios e recursos a ela inerentes”. Esse
dispositivo constitucional trata do contraditório, que consiste na “possibilidade de se
produzir uma assertiva contrária àquela que foi realizada pela acusação […]”11, e da
ampla defesa, a qual “permite ao cidadão se contrapor às acusações que lhe forem
imputadas, permitindo-lhe provar sua inocência”12. Como também se percebe, esse
direito alcança tanto os processos judiciais quanto os processos administrativos. Em
relação a esses últimos, cabe lembrar que o Supremo Tribunal Federal, por meio da

10
MORAES, Alexandre de. Direitos humanos fundamentais: teoria geral. 8. ed.São Paulo: Atlas,
2007, p. 169-170.
11
AGRA, Walber de Moura., op. cit., p. 193.
12
Ibid., p.193.
13

Súmula Vinculante nº. 5, expressou que: “a falta de defesa técnica por advogado no
processo administrativo disciplinar não ofende a Constituição”.
Contudo, especificamente no tocante aos policiais militares do Estado da Bahia,
será imprescindível a defesa técnica por advogado nos processos administrativos
disciplinares a que sejam submetidos. Isto porque a Constituição do Estado da
Bahia, em seu art. 4º, inciso VIII, prevê que “toda pessoa tem direito a advogado
para defender-se em processo judicial ou administrativo, cabendo ao Estado
propiciar assistência gratuita aos necessitados, na forma da lei”.
Também, a Lei nº. 7.990/2001, Estatuto dos Policiais Militares do Estado da
Bahia, em seu art. 70, inciso III, ao tratar da citação do PM acusado em processo
disciplinar, determina que esta deverá conter “a obrigatoriedade do acusado fazer-se
representar por advogado”. O mesmo Estatuto, em seu art. 74, caput, estabelece
que “a defesa do acusado será promovida por advogado por ele constituído ou por
defensor público ou dativo”.
Assim, o teor da Súmula Vinculante nº 5 não retira a obrigatoriedade de os
policiais militares do Estado da Bahia serem representados por advogados quando
submetidos a processo administrativo disciplinar. Mesmo porque a supracitada
súmula não determinou a proibição dessa obrigatoriedade nas legislações em que
haja essa previsão, mas somente deixou claro que não constitui ofensa à
Constituição a falta de defesa por advogado nas hipóteses em que essa não seja
obrigatória, o que não é o caso do Estado da Bahia.

3 NOÇÕES DE DIREITO PENAL

3.1 CONCEITO DE DIREITO PENAL

O Direito Penal pode ser definido como “o segmento do ordenamento


jurídico que detém a função de selecionar os comportamentos humanos mais
graves e perniciosos à coletividade, capazes de colocar em risco valores
fundamentais para a convivência social e descrevê-los como infrações penais,
cominando-lhes, por conseguinte, as respectivas sanções ou medidas de
14

segurança, além de estabelecer todas as regras complementares e gerais


necessárias a sua correta e justa aplicação”13 (grifo nosso).
Pela própria definição acima exposta, já é possível vislumbrar a relevância do
conhecimento desse ramo do Direito por parte do policial militar, consistindo em um
dos mais importantes no desempenho da atividade policial-militar. No cumprimento
de sua missão constitucional de policiamento ostensivo e de preservação da ordem
pública, principalmente em seu aspecto segurança pública, o PM busca exatamente
evitar aqueles comportamentos criminosos, ou, não sendo possível evitá-los, reprimi-
los de imediato. De um jeito ou de outro, deve saber precisamente quais condutas
são tipificadas como crime ou contravenção penal pelo Direito Penal, para, então,
lidar adequadamente com a sua prevenção ou repressão, quando da impossibilidade
de evitá-las.

3.2 CRIMES EM ESPÉCIE

3.2.1 Crime de homicídio

Código Penal

Homicídio simples

Art. 121. Matar alguém:


Pena - reclusão, de seis a vinte anos.

Caso de diminuição de pena

§ 1º Se o agente comete o crime impelido por motivo de relevante


valor social ou moral, ou sob o domínio de violenta emoção, logo
em seguida a injusta provocação da vítima, ou juiz pode reduzir a
pena de um sexto a um terço.

Como já visto antes, a vida consiste no direito fundamental de maior importância,


uma vez que a fruição de todos os demais direitos dependem da preexistência dela.
O Código Penal, em seu art. 121, protege esse direito, incriminando a conduta
daquele que mata alguém, ou seja, destrói a vida humana de outrem. O homicídio

13
BONFIM, Edilson Mougenot; CAPEZ, Fernando. Direito penal: parte geral. São Paulo: Saraiva,
2004, p. 3-4.
15

tutela especificamente a vida humana extrauterina, isto é, a partir do nascimento, já


que a vida intrauterina é protegida pela incriminação do aborto. A confirmação da
morte é realizada pelo médico-perito, razão pela qual o PM deverá socorrer a vítima
quando houver simples suspeita de morte, exceto nas situações em que seja
recomendável esperar o socorro no local ou em que a morte seja evidente, por
exemplo, com a decapitação da vítima. Nesses casos, deverá isolar o lugar do
acontecimento, seja para proteger a vítima até a chegada do socorro, seja para
preservar o local do crime para atuação dos peritos, respectivamente.
O caput do art. 121 traz a figura do homicídio simples, ou melhor, aquele
homícidio sem incidência de qualquer das hipóteses previstas no homicídio
qualificado ou do chamado privilegiado. Já este último, na verdade causa de
diminuição de pena, conforme o § 1º do art. 121, restará caracterizado quando for
cometido pelo agente movido por motivo de relevante valor social ou moral, ou sob o
domínio de violenta emoção, logo depois de injusta provocação da vítima. São
exemplos: o morador que mata o bandido estuprador de mulheres da vizinhança, o
pai que mata o traficante que aliciou seu filho, o marido que, logo após flagrar a
mulher traindo-o, ainda é provocado por esta. Aqui, haverá redução da pena de um
sexto a um terço.

Homicídio qualificado

§ 2° Se o homicídio é cometido:
I - mediante paga ou promessa de recompensa, ou por outro
motivo torpe;
II - por motivo futil;
III - com emprego de veneno, fogo, explosivo, asfixia, tortura ou
outro meio insidioso ou cruel, ou de que possa resultar perigo
comum;
IV - à traição, de emboscada, ou mediante dissimulação ou outro
recurso que dificulte ou torne impossivel a defesa do ofendido;
V - para assegurar a execução, a ocultação, a impunidade ou
vantagem de outro crime:
Pena - reclusão, de doze a trinta anos.

O homicídio será qualificado, tendo uma pena consideravelmente maior, quando


executado naquelas hipóteses elencadas nos incisos do § 2º do art. 121 do Código
16

Penal. O inciso I trata do homicídio cometido por qualquer motivo repugnante,


trazendo como exemplo aquele mediante pagamento ou promessa de recompensa.
Já o inciso II cuida do homicídio por motivo insignificante, como alguém que mata
uma pessoa porque esta simplesmente recusou-se a baixar o volume do som de seu
veículo. O inciso III refere-se ao homicídio executado por meio traiçoeiro, cruel ou
que possa trazer perigo a outras pessoas, como aqueles com emprego de veneno,
fogo, explosivo, asfixia ou tortura, que são os exemplos do dispositivo em comento.
O inciso IV traz a hipótese do homicídio praticado mediante qualquer recurso que
dificulte ou torne impossivel a defesa da vítima, como a traição, a emboscada ou a
dissimulação. O homicídio executado por disparo de arma de fogo pelas costas
enquadra-se nesse inciso IV, por ser cometido à traição. Entretanto, como explica
Rogério Greco, “se, por exemplo, um traficante de drogas, que era perseguido pela
polícia, foge atirando para trás, visando acertar os policiais que se encontravam no
seu encalço, caso venha a ser atingido nas costas, esse fato, ainda assim, deverá
ser considerado como hipótese de legítima defesa por parte dos policiais, que
atiraram com a finalidade de fazer estancar a agressão injusta que era praticada
contra sua pessoa14”. Por fim, como prevê o inciso V, será também qualificado o
homicídio praticado para garantir a execução, a ocultação, a impunidade ou
vantagem de outro crime.

Homicídio culposo

§ 3º Se o homicídio é culposo:
Pena - detenção, de um a três anos.

Diz-se culposo o homicídio quando cometido sem intenção do resultado morte,


nem tampouco por ter o agente assumido o risco da produção desse evento, mas
por ter agido com imprudência, negligência ou imperícia. “A imprudência é uma ação
em que o agente manifesta desprezo pelas cautelas normais. Negligência, a
omissão de um determinado comportamento que deveria ter o agente. Imperícia,
uma inabilidade15”.

14
GRECO, Rogério. Atividade policial: aspectos penais, processuais penais e administrativos e
constitucionais. 2. ed. rev., ampl. e atual. Niterói: Impetus, 2009, p. 162.
15
RODRIGUES, Maria Stella Villela Souto Lopes. ABC do direito penal. 13. ed. rev., atual. e ampl.
São Paulo: RT, 2001, p. 300.
17

Todavia, em se tratando de homicídio culposo cometido na condução de veículo


automotor, o delito será o do art. 302 do Código de Trânsito Brasileiro. O policial
militar deve lembrar que, conforme a regra do art. 301 do CTB, se o condutor tentou
prestar pronto e integral socorro à vítima, mas esta não sobreviveu, não cabe prisão
em flagrante delito desse motorista. De qualquer modo, ele deverá ser levado à
presença do delegado de polícia, para registro da ocorrência e posterior instauração
de inquérito policial por crime de trânsito.

3.2.2 Crime de furto

Código Penal

Furto

Art. 155. Subtrair, para si ou para outrem, coisa alheia móvel:


Pena - reclusão, de um a quatro anos, e multa.
§ 1º - A pena aumenta-se de um terço, se o crime é praticado
durante o repouso noturno.
§ 2º - Se o criminoso é primário, e é de pequeno valor a coisa
furtada, o juiz pode substituir a pena de reclusão pela de
detenção, diminuí-la de um a dois terços, ou aplicar somente a
pena de multa.
§ 3º - Equipara-se à coisa móvel a energia elétrica ou qualquer
outra que tenha valor econômico.

Segundo dados do InfoPen Estatística, sistema de informações penitenciárias do


Departamento Penitenciário Nacional (Depen), da população carcerária dos últimos
anos, a maioria responde pelo crime de roubo. Em seguida, estão os presos por
tráfico de drogas, sendo que, em terceiro lugar, os presos por furto. A partir desses
números, já é possível perceber com quais delitos o policial militar possivelmente irá
se deparar com maior frequência em seu dia a dia. Por conta disso, deverá conhecer
muito bem os aspectos legais relacionados a tais crimes, para que possa melhor
atuar quando da ocorrência deles.
O crime de furto consiste na subtração, para si ou para um terceiro, de coisa
móvel pertencente a outrem. Essa subtração, para caracterização do furto, não
18

poderá ser realizada por meio de violência contra a pessoa ou ameaça, pois, se
assim for, haverá roubo, e não furto. Já a violência contra a coisa não descaracteriza
o furto, por exemplo, no arrebatamento vigoroso de um relógio. Deverá, também,
haver a intenção de ficar com a coisa furtada, ainda que seja para um terceiro. Se a
coisa subtraída for devolvida no mesmo local e do mesmo modo em que se
encontrava, não existirá crime de furto, mas o chamado furto de uso, que não é
infração penal no Direito Penal comum. Porém, esse comportamento é incriminado
no Direito Penal Militar, consistindo no delito de furto de uso (art. 241 do Código
Penal Militar).
Ainda, não será objeto de furto a coisa abandonada pelo proprietário ou a coisa
sem dono. Diferentemente ocorre com a coisa perdida, uma vez que, apesar de sua
apropriação não constituir furto, poderá caracterizar o crime de apropriação de coisa
achada (art. 169, II, CP).
De acordo com o posicionamento mais atual dos tribunais superiores, o furto
consuma-se independentemente da posse pacífica da coisa subtraída, ainda que
esta seja recuperada, logo em seguida, pela perseguição imediata 16 . Do mesmo
modo, haverá consumação quando, por exemplo, no furto praticado por mais de um
indivíduo, um deles fugir com a coisa, sendo detido somente os demais. Igualmente,
o furto será consumado se, durante a fuga, a coisa for jogada ao chão, sendo
destruída, ou atirada longe, não sendo mais recuperada.
Quando o furto for praticado durante o repouso noturno, a sua pena será
aumentada em um terço. Nesse ponto, é importante lembrar que o local do delito é
irrelevante, incidindo essa majoração da pena mesmo nos estabelecimentos
comerciais e no furto de veículo estacionado na rua, por exemplo, quando efetuados
nesse período.
Pela regra do § 2º do art. 155, se a coisa subtraída for de pequeno valor e o
criminoso for primário, o juiz poderá substituir a pena de reclusão pela de detenção,
diminuí-la de um a dois terços, ou aplicar somente a pena de multa. Coisa de
pequeno valor, consoante entendimento jurisprudencial, será aquela cujo valor não
ultrapasse o de um salário mínimo. Já o criminoso primário é aquele que não é
reincidente, ou seja, em relação ao qual ainda não houve nenhuma sentença
transitada em julgado por qualquer outro delito.

16
STF, 1ª Turma, HC nº 92.922-RS, Rel. Min. Carmem Lúcia, j. 15/05/2009, DJ 12/03/2010.
19

Também, segundo a regra do § 3º do art. 155, é considerada coisa móvel a


energia elétrica. Os chamados “gatos” de energia enquadram-se no delito de furto,
havendo situação de flagrância enquanto estiverem ocorrendo, o que autoriza a
realização da prisão em flagrante delito pelo PM. Em relação à captação clandestina
de TV a cabo, existem decisões judiciais recentes no sentido de configurar o delito
de furto (p. ex.: STJ, 5ª Turma, REsp nº 1.076.287-RN, Rel. Min. Arnaldo Esteves
Lima, j. 02/06/2009, DJ 29/06/2009).

Furto qualificado

§ 4º - A pena é de reclusão de dois a oito anos, e multa, se o crime


é cometido:
I - com destruição ou rompimento de obstáculo à subtração da
coisa;
II - com abuso de confiança, ou mediante fraude, escalada ou
destreza;
III - com emprego de chave falsa;
IV - mediante concurso de duas ou mais pessoas.
§ 5º - A pena é de reclusão de três a oito anos, se a subtração for
de veículo automotor que venha a ser transportado para outro
Estado ou para o exterior.

O § 4º do art. 155 traz, em seus incisos, as hipóteses de furto qualificado,


estipulando uma pena mais rígida em relação ao furto simples. O delito de furto será
qualificado quando cometido com destruição ou rompimento de obstáculo à
subtração da coisa. Se, por exemplo, o sujeito quebra o vidro de um automóvel para
subtrair o aparelho de CD que está em seu interior, responderá por furto qualificado,
ainda que existam decisões judiciais recentes considerando essa situação furto
simples. Por outro lado, se o vidro for quebrado para que o agente possa adentrar
no veículo e subtraí-lo, haverá furto simples.
Haverá, também, furto qualificado quando este for praticado com abuso de
confiança (por exemplo, por uma empregada doméstica que possui uma cópia da
chave da casa dos patrões por confiança destes nela), mediante fraude (ex.: alguém
que se passa por agente da Sucam para ter acesso a residência e furtar algo dali),
escalada (pulando um muro alto de uma casa, por exemplo) ou destreza (como no
20

furto realizado pelo chamado “lanceiro”, que consegue subtrair a carteira de alguém
com habilidade suficiente para que este não perceba).
No furto realizado com emprego de chave falsa, outra hipótese de furto
qualificado, o sujeito pode utilizar-se de uma cópia clandestina da chave original, da
denominada “chave mixa” ou de qualquer objeto que se preste a abrir fechaduras.
O furto será igualmente qualificado quando praticado mediante concurso de
duas ou mais pessoas. Nesse caso, poderá haver coautoria, quando todos os
envolvidos praticam a execução do furto, ou participação, quando alguém presta
auxílio moral ou material ao executor do delito, como o sujeito que deixa
destrancada a porta do local de trabalho para que outro adentre o local e subtraia
bens que ali se encontram.
Finalmente, o § 5º do art. 155 traz, em separado e com uma pena diferente das
demais, mais uma figura de furto qualificado, quando este for de veículo automotor
que venha a ser transportado para outro Estado ou para o exterior. Ressalte-se que
veículo automotor pode ser um automóvel, uma motocicleta, um caminhão, entre
outros. Assim, além de o objeto do furto ser necessariamente um veículo automotor,
este deverá ser efetivamente levado para outro Estado brasileiro ou para outro país.

3.2.3 Crime de roubo

Código Penal

Roubo

Art. 157. Subtrair coisa móvel alheia, para si ou para outrem,


mediante grave ameaça ou violência a pessoa, ou depois de havê-
la, por qualquer meio, reduzido à impossibilidade de resistência:
Pena - reclusão, de quatro a dez anos, e multa.
§ 1º - Na mesma pena incorre quem, logo depois de subtraída a
coisa, emprega violência contra pessoa ou grave ameaça, a fim de
assegurar a impunidade do crime ou a detenção da coisa para si
ou para terceiro.
§ 2º - A pena aumenta-se de um terço até metade:
I - se a violência ou ameaça é exercida com emprego de arma;
II - se há o concurso de duas ou mais pessoas;
21

III - se a vítima está em serviço de transporte de valores e o agente


conhece tal circunstância.
IV - se a subtração for de veículo automotor que venha a ser
transportado para outro Estado ou para o exterior;
V - se o agente mantém a vítima em seu poder, restringindo sua
liberdade.
§ 3º - Se da violência resulta lesão corporal grave, a pena é de
reclusão, de sete a quinze anos, além da multa; se resulta morte, a
reclusão é de vinte a trinta anos, sem prejuízo da multa.

O delito de roubo, como já citado anteriormente, é a maior causa das prisões


nos últimos tempos. Logo, é o crime com o qual possivelmente o policial militar mais
irá se deparar no exercício de sua atividade, requerendo bons conhecimentos
acerca de suas particularidades. Assim como no furto, no roubo a coisa alheia móvel
é subtraída, para si ou para outrem, porém mediante violência contra a pessoa ou
grave ameaça. Há, ainda, uma terceira forma de execução do roubo, conhecida
como violência imprópria, na qual o sujeito, utilizando-se de qualquer meio, coloca a
vítima em uma impossibilidade de resistência. Exemplo desta, é a situação em que o
indivíduo coloca sonífero na bebida de alguém para, em seguida, quando este
estiver impossibilitado de resistência, subtrair seus pertences.
Já na hipótese do § 1º do art. 157, ocorre o denominado roubo impróprio,
quando o sujeito subtrai a coisa, inicialmente sem violência contra a pessoa ou
grave ameaça, mas as emprega, após a subtração, para assegurar a impunidade do
delito ou a detenção da coisa. Nesse caso, será responsabilizado com a mesma
pena do crime de roubo do caput do art. 157.
O § 2º do art. 157 elenca os casos de aumento de pena do roubo, prevendo uma
majoração de um terço até metade para aquelas situações descritas. A primeira
delas, é quando a violência ou ameaça do roubo é exercida com emprego de arma,
que pode ser arma de fogo ou qualquer outra, como faca, canivete, pau, pedra,
facão, etc. A arma de brinquedo, apesar de se prestar para o cometimento do roubo,
já que tem poder intimidatório, não faz incidir essa causa de aumento de pena, pois
não possui poder ofensivo. Nesse sentido, decidiu o Superior Tribunal de Justiça: “A
intimidação com arma de brinquedo não autoriza a incidência da majorante do inciso
I no delito de roubo (Súmula 174 do STJ cancelada)” (STJ, Resp nº 237.236-SP,
Rel. Min. Felix Fischer, j. 08/11/2001, DJ 04/02/2002 ).
22

A pena também será aumentada quando houver concurso de duas ou mais


pessoas no roubo. Assim como no furto, esse concurso poderá ser por coautoria ou
participação.
Igualmente, haverá incidência da causa de aumento de pena no roubo contra
vítima que está em serviço de transporte de valores e o agente conhece essa
circunstância. Aqui, o entendimento é de que o transporte deve ser realizado por
terceiros, para isso contratados, e não pelo próprio dono dos bens subtraídos.
Outra situação em que a pena será aumentada é a do roubo de veículo
automotor que venha a ser transportado para outro Estado do território nacional ou
para outro país. Nesse caso, o veículo automotor deverá necessariamente levado
para outro Estado brasileiro ou para o exterior.
Também, quando no roubo o agente mantiver a vítima em seu poder,
restringindo sua liberdade, existirá causa de aumento de pena. Essa hipótese não é
a do chamado “sequestro relâmpago”, pois esta configura o delito de extorsão
qualificada, como será visto adiante. Seria, então, aquela situação, por exemplo, na
qual o agente, após roubar o automóvel da vítima, a coloca no porta-malas, para
evitar que chame a polícia, soltando-a há alguns quilômetros do local do crime.
Por fim, no § 3º do art. 157 do Código Penal, tem-se a previsão do chamado
latrocínio, isto é, o roubo qualificado pelo resultado morte, com uma pena de
reclusão de vinte a trinta anos. Diferentemente do que é divulgado muitas vezes pela
imprensa, não é exatamente o roubo seguido de morte, já que, ainda que esta
ocorra antes da subtração, também haverá latrocínio. É importante lembrar que,
conforme o teor da Súmula 610 do STF, “há crime de latrocínio, quando o homicídio
se consuma, ainda que não se realize o agente a subtração de bens da vítima”.

3.2.4 Crime de extorsão

Código Penal

Extorsão

Art. 158. Constranger alguém, mediante violência ou grave


ameaça, e com o intuito de obter para si ou para outrem indevida
vantagem econômica, a fazer, tolerar que se faça ou deixar fazer
alguma coisa:
Pena - reclusão, de quatro a dez anos, e multa.
23

§ 1º - Se o crime é cometido por duas ou mais pessoas, ou com


emprego de arma, aumenta-se a pena de um terço até metade.
§ 2º - Aplica-se à extorsão praticada mediante violência o disposto
no § 3º do artigo anterior.
§ 3º - Se o crime é cometido mediante a restrição da liberdade da
vítima, e essa condição é necessária para a obtenção da vantagem
econômica, a pena é de reclusão, de 6 (seis) a 12 (doze) anos,
além da multa; se resulta lesão corporal grave ou morte, aplicam-
se as penas previstas no art. 159, §§ 2º e 3º, respectivamente.
(Incluído pela Lei nº 11.923, de 2009).

O crime de extorsão consiste em constranger (obrigar, forçar) alguém, mediante


violência ou grave ameaça, e com a finalidade de obter para si ou para outrem
indevida vantagem econômica, a fazer, tolerar que se faça ou deixar fazer alguma
coisa. Assim, não é necessário o recebimento da indevida vantagem econômica
para a consumação do delito, basta que a vítima, constrangida por violência ou
ameaça, faça, tolere que se faça ou deixe fazer alguma coisa. Nesse sentido, a
Súmula nº. 96 do STJ dispõe: “o crime de extorsão consuma-se independentemente
da obtenção da vantagem indevida”. Atualmente, um exemplo comum do delito de
extorsão é o chamado golpe do falso sequestro, no qual a vítima é compelida,
mediante ameaça e pela simulação do sequestro de algum familiar, a adquirir
recargas para telefone celular e repassar os seus códigos.
Cumpre, ainda, diferenciar o crime de extorsão do crime de roubo, já que ambos,
apesar de serem delitos distintos, possuem algumas semelhanças. Conforme ensina
Cristiane Dupret, “hoje prevalece que a diferença está no comportamento da vítima.
Quando for dispensável para a consumação do crime haverá roubo. Quando for
indispensável, haverá extorsão”17. Se um indivíduo obriga a vítima a realizar uma
transferência bancária para sua conta, o comportamento dessa vítima é
indispensável, uma vez que a operação dependerá do fornecimento da sua senha,
havendo, pois, crime de extorsão. Por outro lado, se o sujeito, apontando um
revólver, pede que a vítima entregue a bolsa, esta conduta da vítima não é
indispensável, já que o bandido pode arrancá-la à força, logo se trata de roubo.
O § 1º do art. 158, de forma semelhante ao crime de roubo, prevê o aumento da
pena, de um terço até metade, quando a extorsão for cometida por duas ou mais

17
DUPRET, Cristiane. Manual de direito penal: parte geral e especial. Niterói: Impetus, 2008, p. 425.
24

pessoas. No entanto, para incidir essa causa de aumento de pena, deverá haver
necessariamente coautoria, não incidindo na participação, já que o texto exige que
o crime seja “cometido por duas ou mais pessoas”. Existirá, ainda, o mesmo
aumento de pena se o delito for praticado com emprego de arma.
De acordo com o § 2º do art. 158, na extorsão praticada mediante violência, se
desta resultar lesão corporal grave ou morte, serão aplicadas as penas do roubo
qualificado pelo resultado lesão corporal grave e do latrocínio, respectivamente.
Enfim, a partir da Lei nº. 11.923, de 17 de abril de 2009, o chamado “sequestro
relâmpago” foi incluído, acertadamente, no crime de extorsão, consistindo em uma
forma qualificada desse delito, prevista no § 3º do art. 158 do CP. Antes disso, havia
muita divergência no enquadramento da conduta conhecida como “sequestro
relâmpago”, algumas vezes tida como extorsão mediante sequestro, outras, como
roubo qualificado pela restrição da liberdade da vítima, mas nenhuma delas se
adequava àquele comportamento. Hoje, com a inclusão dessa figura delituosa no
crime de extorsão, o problema foi resolvido. Nessa espécie de extorsão qualificada,
o criminoso se vale da restrição da liberdade da vítima como condição necessária
para a obtenção da indevida vantagem econômica. O exemplo mais comum é
aquele em que a vítima é levada pelo criminoso a um caixa eletrônico e, mediante
violência ou grave ameaça, obrigada a realizar saques de sua conta bancária,
utilizando-se de seu cartão e senha.

3.2.5 Crime de resistência

Código Penal

Resistência

Art. 329. Opor-se à execução de ato legal, mediante violência ou


ameaça a funcionário competente para executá-lo ou a quem lhe
esteja prestando auxílio:
Pena - detenção, de dois meses a dois anos.
§ 1º - Se o ato, em razão da resistência, não se executa:
Pena - reclusão, de um a três anos.
§ 2º - As penas deste artigo são aplicáveis sem prejuízo das
correspondentes à violência.
25

Por vezes, o policial militar, na execução de ato legal, mais comumente a prisão
em flagrante delito, depara-se com a oposição desse procedimento, seja por parte
do indivíduo contra o qual se pratica a ação, seja por parte de familiares ou amigos
deste. Quando essa oposição for realizada mediante violência ou ameaça contra o
PM, ou contra quem lhe preste auxílio, haverá o delito de resistência, conforme o
dispositivo legal acima descrito. Assim, para ocorrência desse crime, o ato praticado
pelo policial militar deve ter amparo legal. Também, só haverá delito de resistência
se existir violência ou ameaça contra o policial militar que pratica o ato ou contra
quem o auxilia. Em caso de violência, as penas estabelecidas para esta [por
exemplo, lesão corporal ou homicídio] serão somadas a do delito de resistência,
segundo estabelecido no § 2º do art. 329 do Código Penal. Do contrário, se não
houver violência nem ameaça, não subsistirá o crime de resistência, podendo
configurar outro, como o de desobediência, que será visto adiante. Desse modo,
como destaca Jorge Cesar de Assis, “quem foge da polícia, se deita no chão ou se
agarra num poste não está resistindo”18.
Todas as vezes em que ocorrer o delito em questão, deverá ser lavrado o
chamado Auto de Resistência, que nada mais é do que o documento contendo a
descrição minuciosa de como se deu os fatos relacionados à resistência. A
obrigatoriedade desse termo, mais precisamente no caso de resistência perante o
cumprimento da prisão, tem previsão legal no art. 292 do Código de Processo Penal
e no art. 234 do Código de Processo Penal Militar.
Ainda, de acordo com o § 1º do art. 329 do CP, se por causa da resistência o ato
legal deixa de ser executado, a pena passa a ser de um a três anos de reclusão. É a
hipótese, por exemplo, do familiar da pessoa presa em flagrante que, mediante
violência ou ameaça, interfere na prisão, impedindo que esta ocorra porque o infrator
conseguiu fugir após sua interferência.
Por fim, o delito de resistência, por conta de sua pena máxima prevista, que é de
dois anos de detenção, constitui crime de menor potencial ofensivo, conforme
disposto no art. 61 da Lei nº. 9.099/95. Logo, se o autor da infração, após a lavratura
do Termo Circunstanciado de Ocorrência (TCO), for imediatamente encaminhado ao
Juizado Especial Criminal (o que não é comum acontecer) ou se comprometer a ele
comparecer, mediante termo de compromisso, não poderá ser preso em flagrante.

18
ASSIS, Jorge Cesar de. Lições de direito para a atividade policial militar. 2. ed. Curitiba: Juruá,
1994, p. 62.
26

Por outro lado, se se negar a qualquer desses procedimentos, poderá ser preso em
flagrante delito.

3.2.6 Crime de desobediência

Código Penal

Desobediência

Art. 330. Desobedecer a ordem legal de funcionário público:


Pena - detenção, de quinze dias a seis meses, e multa.

Neste delito em questão, há desobediência a uma ordem legal emanada de


funcionário público, no nosso caso específico, o policial militar. Por seu turno, o PM
deverá ter competência legal para proferir a ordem, pois, estando esta fora de suas
atribuições legais não haverá delito de desobediência. Também, essa desobediência
não poderá ser realizada através de ameaça ou violência, já que nessa hipótese,
como já visto, o crime será o de resistência. Além disso, se o sujeito desobedece
uma ordem legal mediante violência ou ameaça, não existirão dois crimes, mas
somente o de resistência, uma vez que este delito mais grave absorverá o de
desobediência, que é menos grave em relação ao anterior.
Convém, ainda, lembrar que não haverá crime de desobediência por parte do
condutor de veículo que se negar a realizar o teste do etilômetro (bafômetro)
oferecido pelo PM em uma “blitze”. Nesse caso, o motorista estará exercendo seu
direito de não autoincriminação, com fundamento no art. 8º, nº. 2, alínea g, da
Convenção Americana sobre Direitos Humanos, e no art. 5º, inciso LXIII, da
Constituição Federal, só devendo incidir as medidas administrativas do Código de
Trânsito Brasileiro19 diante dessa recusa.
Assim como o crime de resistência, o delito de desobediência também é infração
penal de menor potencial ofensivo. Do mesmo modo, se o sujeito que cometeu essa
infração, depois da lavratura do Termo Circunstanciado, for imediatamente

19
“Art. 277 […].
o
§ 3 Serão aplicadas as penalidades e medidas administrativas estabelecidas no art. 165 deste
Código ao condutor que se recusar a se submeter a qualquer dos procedimentos previstos no caput
deste artigo”. (Incluído pela Lei nº 11.705, de 2008).
27

encaminhado ao Juizado Especial Criminal ou se comprometer a ele comparecer,


não poderá ser preso em flagrante delito. Do contrário, negando-se a qualquer
desses procedimentos, poderá haver prisão em flagrante delito.

3.2.7 Crime de desacato

Código Penal

Desacato

Art. 331. Desacatar funcionário público no exercício da função ou


em razão dela:
Pena - detenção, de seis meses a dois anos, ou multa.

O crime previsto no art. 331 do Código Penal incrimina a conduta daquele que
desprestigia a Administração Pública, representada, naquela ocasião, pelo
funcionário público desacatado. Por essa razão, ainda que o policial militar não se
sinta ofendido ou tenha aceitado pedido de desculpas, mas tenha realmente ocorrido
a ofensa, subsistirá o delito de desacato. Em relação a isso, Lélio Braga Calhau cita
a seguinte ementa de decisão judicial: “‘Bicheiros detidos por desacato. Policiais
militares que no caminho para a D.P. aceitam pedido de desculpas e liberam os
presos. Ausência de comunicação do ocorrido. Prevaricação cometida’. (TJRJ)20”.
O crime de desacato pode ser cometido por diversas formas, não estando
restrito ao uso de palavras. Como ensina E. Magalhães Noronha, “consiste em
palavras, gritos, gestos, escritos (presente o funcionário), vias de fato e lesões
corporais” 21 . O que é exigido para caracterização do desacato é a finalidade de
ofender nessas ações. Desse modo, se a violência exercida pelo particular contra o
funcionário público tem por objetivo tão somente humilhar este último, haverá delito
de desacato. Por outro lado, se a violência tem por finalidade opor-se à execução de
ato legal, existirá crime de resistência. Além disso, em qualquer hipótese, o policial
militar deverá estar presente no local da ofensa, ainda que não esteja frente a frente

20
CALHAU, Lélio Braga Calhau. Desacato. Belo Horizonte: Mandamentos, 2004. (Coleção Ciências
Criminais, v. 12), p. 91.
21
NORONHA, E. Magalhães. Direito penal. Atualização de Adalberto José Q. T. de Camargo Aranha.
20. ed. São Paulo: Saraiva, 1995. v. 4, p. 308.
28

com o ofensor, podendo, por exemplo, encontrar-se de costas quando palavras de


calão são proferidas.
Vale lembrar que o simples descontentamento ou indignação do particular
perante o ato do policial militar, por si só, não caracteriza o crime de desacato.
Agora, se esses sentimentos forem exteriorizados por meio de palavras, gestos ou
atos depreciativos ou humilhantes, subsistirá o delito de desacato.
Finalmente, sendo o desacato crime de menor potencial ofensivo, uma vez que
sua pena máxima estabelecida é de dois anos de detenção [ou multa], em regra,
não haverá imposição de prisão em flagrante. De qualquer modo, o infrator deverá
acompanhar o policial militar até a delegacia de polícia, para lavratura do termo
circunstanciado, não podendo se negar a isso.

3.2.8 Crime de corrupção ativa

Código Penal

Corrupção ativa

Art. 333. Oferecer ou prometer vantagem indevida a funcionário


público, para determiná-lo a praticar, omitir ou retardar ato de
ofício:
Pena – reclusão, de 2 (dois) a 12 (doze) anos, e multa.
Parágrafo único. A pena é aumentada de um terço, se, em razão da
vantagem ou promessa, o funcionário retarda ou omite ato de
ofício, ou o pratica infringindo dever funcional.

O crime de corrupção ativa consiste no oferecimento ou na promessa de


vantagem indevida, pelo particular, a funcionário público, com o intuito de que este
pratique, omita ou retarde ato de ofício. Essa vantagem deve ser indevida, mas, em
que pesem alguns entendimentos contrários, não precisa ser necessariamente
econômica. Consuma-se o delito, por exemplo, com a promessa de se manter
relações sexuais com o funcionário público caso este deixe de praticar determinado
ato de ofício. Também, conforme os verbos do tipo legal, duas são as formas de
cometimento do crime de corrupção ativa: por oferecimento ou promessa de
vantagem indevida. Na primeira, o particular já disponibiliza a vantagem indevida
imediatamente; na segunda, compromete-se a entregá-la futuramente.
29

Para consumação do crime de corrupção ativa, basta que haja o oferecimento


ou a promessa da vantagem, independentemente da aceitação pelo funcionário
público. Se este último receber ou aceitar a promessa, também cometerá crime, só
que o de corrupção passiva. Por outro lado, se o pedido ou exigência partir do
funcionário público e o particular entregar essa vantagem indevida solicitada ou
exigida, não cometerá crime. Igualmente, se o particular oferecer ou prometer
vantagem indevida ao funcionário público depois de este já haver praticado o ato de
ofício, não estará caracterizado o crime de corrupção ativa, pois o oferecimento ou
promessa devem ser anteriores ao ato de ofício. Ainda, parte considerável da
doutrina e da jurisprudência tem entendido não haver crime de corrupção ativa
naquelas hipóteses em que a conduta do particular se resume a pedir ao policial
para “dar um jeitinho”.
O parágrafo único do art. 333 do Código Penal prevê um aumento da pena para
o particular nas situações em que o funcionário retarda ou omite ato de ofício, ou o
pratica infringindo dever funcional, por conta da vantagem ou da promessa.
Ressalte-se, porém, que, no caso de o funcionário praticar o ato de ofício, ainda que
motivado pela vantagem ou promessa, sem infringência de seu dever funcional, não
incidirá causa de aumento de pena. Nessa hipótese, o particular responderá pelo
crime de corrupção ativa simples, pois não é vislumbrado um dano maior à
Administração pela prática do ato, já que este foi executado sem transgressão do
dever funcional.

3.2.9 Crime de tráfico de drogas

Lei nº. 11.343/2006

Dos Crimes

Art. 33. Importar, exportar, remeter, preparar, produzir, fabricar,


adquirir, vender, expor à venda, oferecer, ter em depósito,
transportar, trazer consigo, guardar, prescrever, ministrar,
entregar a consumo ou fornecer drogas, ainda que gratuitamente,
sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou
regulamentar:
Pena - reclusão de 5 (cinco) a 15 (quinze) anos e pagamento de
500 (quinhentos) a 1.500 (mil e quinhentos) dias-multa.
30

§ 1º Nas mesmas penas incorre quem:


I - importa, exporta, remete, produz, fabrica, adquire, vende, expõe
à venda, oferece, fornece, tem em depósito, transporta, traz
consigo ou guarda, ainda que gratuitamente, sem autorização ou
em desacordo com determinação legal ou regulamentar, matéria-
prima, insumo ou produto químico destinado à preparação de
drogas;
II - semeia, cultiva ou faz a colheita, sem autorização ou em
desacordo com determinação legal ou regulamentar, de plantas
que se constituam em matéria-prima para a preparação de drogas;
III - utiliza local ou bem de qualquer natureza de que tem a
propriedade, posse, administração, guarda ou vigilância, ou
consente que outrem dele se utilize, ainda que gratuitamente, sem
autorização ou em desacordo com determinação legal ou
regulamentar, para o tráfico ilícito de drogas.

Primeiramente, o policial militar deverá saber distinguir o tráfico de drogas


propriamente dito ou equiparado, consistente naquelas condutas acima descritas, do
porte de drogas para consumo pessoal. Com base no art. 28 da Lei nº. 11.343/2006,
conhecida como Lei de Drogas, comete o chamado crime de porte de drogas para
consumo pessoal, e não tráfico de drogas, aquele que adquirir, guardar, tiver em
depósito, transportar ou trouxer consigo, para consumo pessoal, drogas sem
autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar. Percebe-se,
pois, que a infração penal não é “usar” a droga, mas portá-la (ou transportá-la,
guardá-la, etc.) para consumo pessoal. Assim, caso o PM, em uma abordagem
policial, constate que o agente consumiu droga (por exemplo, com vestígios desse
comportamento ou mesmo com a própria confissão do indivíduo), mas não a traz
mais consigo, não poderá conduzi-lo até uma delegacia de polícia.
Ressalte-se, ainda, que, a partir da Lei nº. 11.343/2006, não mais existe pena
privativa de liberdade para quem porta drogas para consumo pessoal. Hoje, as
penas são: advertência sobre os efeitos das drogas, prestação de serviços à
comunidade e medida educativa de comparecimento a programa ou curso
educativo. Também, quem é flagrado atualmente portando (transportando, etc.)
drogas para consumo pessoal não pode ser preso em flagrante delito, conforme
prevê o art. 48, § 2º, da Lei de Drogas. Qual procedimento, então, deve ser adotado
pelo PM quando flagra alguém nessa situação? De acordo com as regras desse
31

mesmo art. 48, o agente deverá ser conduzido à autoridade policial (delegado de
polícia) para lavratura do termo circunstanciado e imediato encaminhamento ao
Juizado Especial Criminal, sendo mais comum, na prática, o conduzido se
comprometer, mediante termo, a comparecer posteriormente a esse juízo
competente.
Já o crime de tráfico de drogas caracteriza-se quando alguém importa, exporta,
remete, prepara, produz, fabrica, adquire, vende, expõe à venda, oferece, tem em
depósito, transporta, traz consigo, guarda, prescreve, ministra, entrega a consumo
ou fornece drogas, ainda que gratuitamente, sem autorização ou em desacordo com
determinação legal ou regulamentar. Incorre nas mesmas penas do delito anterior,
ou seja, cinco a quinze anos de reclusão e multa, aquele que importa (exporta, etc.),
ainda que gratuitamente, sem autorização ou em desacordo com determinação legal
ou regulamentar, matéria-prima, insumo ou produto químico destinado à preparação
de drogas. Igualmente, fica sujeito a essas penas aquele que semeia, cultiva ou faz
a colheita, sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou
regulamentar, de plantas que se constituam em matéria-prima para a preparação de
drogas. Atualmente, o regulamento que determina quais substâncias são
consideradas drogas é a Portaria nº. 344/98 da Anvisa, em seu Anexo I, sendo mais
comum o policial militar encontrar, em seu dia a dia, drogas como maconha,
cocaína, crack, entre outras.
Por fim, o policial militar deverá conhecer as regras para determinar se a droga
encontrada com alguém destinava-se ao seu consumo pessoal ou ao tráfico de
entorpecentes. Para essa distinção, conforme disposto no § 2º do art. 28 da Lei nº.
11.343/2006, são levados em conta a natureza e a quantidade da substância
apreendida, o local e as condições em que se desenvolveu a ação, as circunstâncias
sociais e pessoais do agente, bem como a sua conduta e seus antecedentes. Ainda
que esse dispositivo legal faça referência expressa ao juiz na utilização desses
critérios, é evidente que o delegado de polícia também se valerá deles para o juízo
de tipicidade na fase investigatória. Observa-se, também, que, apesar de se levar
em conta a quantidade da droga apreendida, não há uma quantidade
preestabelecida para se configurar o tráfico de drogas. Dessa maneira, o PM deverá
atentar-se para todos os detalhes da ação policial, descrevendo-os minuciosamente
para a autoridade policial, possibilitando que esta realize o correto enquadramento
típico da conduta flagrada.
32

3.2.10 Crime de porte ilegal de arma de fogo

Lei nº. 10.826/2003

Porte ilegal de arma de fogo de uso permitido

Art. 14. Portar, deter, adquirir, fornecer, receber, ter em depósito,


transportar, ceder, ainda que gratuitamente, emprestar, remeter,
empregar, manter sob guarda ou ocultar arma de fogo, acessório
ou munição, de uso permitido, sem autorização e em desacordo
com determinação legal ou regulamentar:
Pena – reclusão, de 2 (dois) a 4 (quatro) anos, e multa.

Posse ou porte ilegal de arma de fogo de uso restrito

Art. 16. Possuir, deter, portar, adquirir, fornecer, receber, ter em


depósito, transportar, ceder, ainda que gratuitamente, emprestar,
remeter, empregar, manter sob sua guarda ou ocultar arma de
fogo, acessório ou munição de uso proibido ou restrito, sem
autorização e em desacordo com determinação legal ou
regulamentar:
Pena – reclusão, de 3 (três) a 6 (seis) anos, e multa.

Antes de tudo, o policial militar deve ter em mente que existem situações nas
quais o porte de arma de fogo é legalmente permitido, devendo conhecer de
antemão quem possui essa licença ou autorização, conforme o caso. Consoante
disposto no art. 6º da Lei nº. 10.826/2003, que ficou conhecida como Estatuto do
Desarmamento, estão legalmente autorizados a portar arma de fogo, com validade
em âmbito nacional e mesmo fora de serviço, os militares das forças armadas, os
policiais federais, rodoviários federais, civis e militares, os bombeiros militares.
Também, porém condicionados à comprovação de capacidade técnica e de aptidão
psicológica para o manuseio de arma de fogo, os agentes operacionais da ABIn, os
agentes do Departamento de Segurança do Gabinete de Segurança Institucional da
Presidência da República e os integrantes dos órgãos policiais do Senado Federal e
da Câmara dos Deputados.
Quanto aos militares do Exército, segundo as regras da Portaria nº. 01/2006, do
Departamento Logístico do Exército, podem portar arma de fogo os oficiais de
carreira, com validade indeterminada do porte, os oficiais temporários, com validade
33

do porte limitada ao prazo de convocação, e os subtenentes e sargentos de carreira


estabilizados. Os sargentos não estabilizados, os sargentos temporários e os
taifeiros, cabos e soldados estabilizados não poderão portar arma de fogo, salvo
quando excepcionalmente autorizados. Em qualquer caso, quando o militar do
Exército possuir autorização para porte de arma de fogo, esta constará do respectivo
Certificado de Registro de Arma de Fogo (CRAF). Já as praças que estejam
prestando o serviço militar inicial obrigatório, os taifeiros, cabos e soldados não
estabilizados e as praças especiais (exceto o aspirante-a-oficial oriundo de curso de
formação de oficiais de carreira) não poderão obter autorização para portar arma.
Ainda de acordo com o art. 6º do Estatuto do Desarmamento, os integrantes das
guardas municipais das capitais dos Estados e dos Municípios com mais de
quinhentos mil habitantes também poderão portar arma de fogo, mesmo fora de
serviço, mas restrito ao limites territoriais do Estado do agente (já que houve
revogação do art. 45 do Decreto nº. 5.123/2004, o qual restringia o porte aos limites
do Município). Entretanto, essa autorização está condicionada à formação funcional
desses integrantes em estabelecimentos de ensino de atividade policial e à criação
de corregedoria própria e autônoma, assim como à existência de ouvidoria, como
órgão permanente, autônomo e independente.
O mesmo art. 6º da Lei nº. 10.826/2003 autoriza o porte de arma aos integrantes
das Carreiras de Auditoria da Receita Federal do Brasil e de Auditoria-Fiscal do
Trabalho, cargos de Auditor-Fiscal e Analista Tributário, devendo, todavia,
comprovarem a capacidade técnica e de aptidão psicológica para o manuseio de
arma de fogo. Igualmente, e sob a mesma condição, os integrantes do quadro
efetivo dos agentes e guardas prisionais, os integrantes das escoltas de presos e as
guardas portuárias. Porém, no caso dos guardas portuários, competirá à Polícia
Federal avaliar a capacidade técnica e a aptidão psicológica, assim como expedir o
Porte de Arma de Fogo deles, segundo o parágrafo único do art. 36 do Decreto nº.
5.123/2004.
Por sua vez, pela Lei Orgânica da Magistratura Nacional (art. 33, inciso V) e pela
Lei Orgânica Nacional do Ministério Público (art. 42), respectivamente, os juízes e
promotores de justiça são autorizados a portar arma de fogo. Também, pela Portaria
nº. 021/2002, do Departamento Logístico do Exército, os juízes e promotores de
justiça poderão adquirir uma pistola calibre .40 para uso pessoal.
34

Afora os casos vistos acima, denominados de portes funcionais, que constituem


espécies de licença, existe, ainda, o porte de arma de fogo, com autorização de
competência da Polícia Federal, para as pessoas que cumprirem as exigências
previstas no Estatuto do Desarmamento. Atualmente, são poucas as autorizações
para esse tipo de porte de arma, uma vez que as regras para sua obtenção são
bastante rígidas. De qualquer maneira, conforme o art. 26 do Decreto nº.
5.123/2004, as pessoas que o possuem não poderão portar sua arma em locais
públicos, tais como igrejas, escolas, estádios desportivos, clubes, agências
bancárias ou outros locais onde haja aglomeração de pessoas em virtude de
eventos de qualquer natureza. Pelo mesmo dispositivo, também não poderá portá-la
em estado de embriaguez ou sob o efeito de drogas ou medicamentos que
provoquem alteração do desempenho intelectual ou motor. Se o policial militar
flagrar alguém, mesmo com autorização para porte de arma, naqueles lugares ou
em estado de embriaguez ou sob efeito de drogas, deverá encaminhá-lo à delegacia
de polícia para apreensão da arma.
Vale ressaltar que o certificado de registro de arma de fogo não autoriza ao seu
proprietário o porte da arma, mas tão somente a mantê-la exclusivamente no interior
de sua casa, ou dependência dessa, ou, no seu local de trabalho, desde que seja
ele o titular ou o responsável legal pelo estabelecimento ou empresa, por exemplo,
exercendo o cargo de gerente. De qualquer forma, ele deverá escolher um ou outro
local para deixá-la permanentemente, não podendo ficar transportando do trabalho
para casa, ao final do expediente. Isto porque, para qualquer transporte com a arma,
no qual ela não será conduzida para pronto emprego, deverá ser previamente
solicitada guia de trânsito à Polícia Federal. Não cumprido esses requisitos, haverá
crime de porte ilegal de arma de fogo, mesmo com a arma registrada.
Desse modo, sempre que alguém, fora de sua residência ou local de trabalho
quando proprietário ou responsável, portar, deter, adquirir, fornecer, receber, ter em
depósito, transportar, ceder, ainda que gratuitamente, emprestar, remeter, empregar,
manter sob guarda ou ocultar arma de fogo, acessório ou munição, fora das
situações estudadas de autorização, estará incorrendo no crime de porte ilegal de
arma de fogo. Se a arma de fogo for de uso permitido (revólver calibre .38, pistola
calibre .380, etc.), o delito será o do art. 14 do Estatuto do Desarmamento, com
pena prevista de dois a quatro anos de reclusão e multa; se for de uso restrito ou
proibido (pistola calibre .40, pistola calibre 9 mm, revólver calibre .357 magnum, etc.)
35

o crime será o do art. 16, com pena de três a seis anos de reclusão e multa. Nessa
última hipótese, de arma de uso restrito ou proibido, ainda que o indivíduo seja
flagrado com a arma em sua residência ou local de trabalho, se não possuir
autorização para isso, responderá com base no mesmo art. 16 da Lei nº.
10.826/2003. Já no caso das armas de uso permitido, se flagrado em sua residência
ou local de trabalho quando proprietário ou responsável, sem autorização, o crime
será outro — o de posse irregular de arma de fogo de uso permitido —, previsto no
art. 12, com pena de um a três anos de detenção e multa.
Finalmente, cumpre lembrar que, pelas regras do parágrafo único do art. 16, a
posse ou porte de arma de fogo, mesmo de uso permitido, com numeração, marca
ou qualquer outro sinal de identificação raspado, suprimido ou adulterado, equipara-
se ao crime de posse ou porte de arma de fogo de uso restrito. Também é
equiparado a esse delito a conduta daquele que possuir, detiver, fabricar ou
empregar artefato explosivo ou incendiário, sem autorização ou em desacordo com
determinação legal ou regulamentar, comportamento este bastante comum nos
eventos em estádios de futebol.
36
37

DIREITO
MILITAR
APLICADO
38
39

DIREITO PENAL MILITAR


40
41

1 TEORIA GERAL DO DIREITO PENAL MILITAR

1.1 DIREITO PENAL MILITAR: INTRODUÇÃO

Diferentemente do direito penal comum, no qual predomina o princípio da


liberdade, o direito penal militar tem seu fundamento na manutenção da normalidade
das instituições militares, sobrepondo-se, assim, a hierarquia e a disciplina. Nessa
perspectiva, Ione de Souza Cruz e Claudio Amin Miguel definem o direito penal
militar como “um ramo do Direito Penal, especial, criado não com a finalidade de
definir crimes para militares, mas sim de criar regras jurídicas destinadas à proteção
das instituições militares e o cumprimento de seus objetivos constitucionais”.22
Ainda, doutrinariamente, o direito penal costuma ser subdividido em direito penal
comum e direito penal especial, encontrando-se exatamente nessa última subdivisão
o direito penal militar, como colocado acima pelos autores. Entretanto, há algumas
divergências entre os estudiosos no que diz respeito aos critérios utilizados para se
chegar a essa conclusão.
Para Esmeraldino Bandeira, por exemplo, “crime comum ou de direito comum é
o que consiste na violação dos deveres gerais impostos pela lei penal a todos os
indivíduos indistintamente”. Por outro lado, “crime especial é o que resulta da
infração de certos deveres impostos pela referida lei a determinadas pessoas em
virtude de uma situação, de um cargo ou de uma profissão […]”.23 Nesse mesmo
sentido, porém acrescentando o elemento bem jurídico, Célio Lobão conclui que “o
Direito Penal Militar é especial não só porque se aplica a uma classe ou categoria de
indivíduos […], como também, pela natureza do bem jurídico tutelado”.24
Por outro lado, para E. Magalhães Noronha25, o melhor critério para distinguir o
direito penal comum do direito penal especial seria o de se considerar o órgão
jurisdicional que irá aplicá-los, isto é, justiça comum ou especializada,
respectivamente.

22
CRUZ, Ione de Souza; MIGUEL, Claudio Amin. Elementos de Direito Penal Militar: Parte Geral. 2.
ed. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2008, p.1.
23
BANDEIRA, Esmeraldino O. T. Direito, Justiça e Processo Militar. 2. ed. Rio de Janeiro: Francisco
Alves, 1919, v. 1, p. 17.
24
LOBÃO, Célio. Direito Penal Militar. 3. ed. atual. Brasília: Brasília Jurídica, 2006, p. 48.
25
NORONHA, E. Magalhães. Direito penal: introdução e parte geral. Atualização de Adalberto José
Q. T. de Camargo Aranha. 38. ed. rev. e atual. São Paulo: Rideel, 2009, v. 1, p. 9.
42

1.2 DIREITO PENAL MILITAR NO BRASIL: BREVE HISTÓRICO

Inicialmente, o Direito Penal Militar que vigorava no Brasil era o proveniente de


Portugal, mais especificamente dos denominados Artigos de Guerra do Conde de
Lippe, datados de 1763. Essa legislação estabelecia penas extremamente cruéis,
tais como a pranchada, que consistia em golpear o apenado com a espada em
prancha, e o carrinho perpétuo, na qual eram utilizadas argolas de ferro presas às
pernas do condenado.
Em seguida, conforme lição de Loureiro Neto, “com a chegada de D. João VI ao
Brasil, pelo alvará de 21 de abril de 1808, criou-se o Conselho Supremo Militar e de
Justiça e, em 1834, a Provisão de 20 de outubro previa crimes militares […]”. 26
Ressalte-se que o Conselho Supremo Militar e de Justiça constitui o embrião do
atual Superior Tribunal Militar, marco da Justiça Militar brasileira, considerada a
justiça mais antiga do país. Vale lembrar, ainda, que a data do alvará de criação
desse Conselho aparece, por diversas vezes, como sendo 1º de abril de 1808.
Em 7 de março de 1891, por meio do Decreto nº. 18, foi criado o Código Penal
da Armada [hoje, Marinha do Brasil], que tinha sua aplicação restringida a essa
instituição militar. Essa legislação teve seu alcance ampliado ao Exército pela Lei nº.
612, de 29 de setembro de 1899. Após isto, em 24 de janeiro de 1944, através do
Decreto-lei nº. 6.227, foi instituído o Código Penal Militar, comum às três Forças
Armadas — Marinha, Exército e Aeronáutica —, que vigorou até o surgimento do
atual Código, em 1969.
Por fim, o Decreto-lei nº. 1.001, de 21 de outubro de 1969, estabeleceu o vigente
Código Penal Militar, tendo sido este decretado pelos então Ministros da Marinha de
Guerra, do Exército e da Aeronáutica Militar [hoje, Marinha do Brasil, Exército
Brasileiro e Aeronáutica], a Junta Militar, com base nas atribuições conferidas pelos
Atos Institucionais nº. 5 e nº. 16. Esse Código vem estruturado, assim como o
Código Penal comum, em duas partes: Parte Geral e Parte Especial. A primeira, que
vai do art. 1º ao 135, composta de um Livro Único, traz a chamada Teoria Geral do
Direito Penal Militar; a segunda, que vai do art. 136 ao 410, estabelece os crimes em
espécie. Essa última é subdividida nos Livros I e II, que contêm, respectivamente, os
crimes militares em tempo de paz e os crimes militares em tempo de guerra.

26
LOUREIRO NETO, José da Silva. Direito penal militar. São Paulo: Atlas, 1992, p. 21.
43

1.3 CRIME MILITAR

1.3.1 Crime militar: definição

Constituição Federal

Art. 124. À Justiça Militar compete processar e julgar os crimes


militares definidos em lei”. (grifo nosso).

Art. 125. […]

§ 4º Compete à Justiça Militar estadual processar e julgar os


militares dos Estados, nos crimes militares definidos em lei e as
ações judiciais contra atos disciplinares militares, ressalvada a
competência do júri quando a vítima for civil, cabendo ao tribunal
competente decidir sobre a perda do posto e da patente dos
oficiais e da graduação das praças. (Redação dada pela Emenda
Constitucional nº 45, de 2004) (grifo nosso).

Art. 5º. […]


LXI - ninguém será preso senão em flagrante delito ou por ordem
escrita e fundamentada de autoridade judiciária competente, salvo
nos casos de transgressão militar ou crime propriamente militar,
definidos em lei. (grifo nosso).

A partir dos dispositivos constitucionais acima elencados, percebe-se, pois, que


a Constituição Federal de 1988 utilizou o denominado critério objetivo ou critério
ratione legis (do latim: em razão da lei) para definir crime militar. Segundo esse
critério, crime militar será aquele estabelecido em lei como tal. Atualmente, essa lei é
o Decreto-lei nº. 1.001, de 21 de outubro de 1969 — o Código Penal Militar (CPM).
Ressalte-se, contudo, que, a despeito de a Constituição e o próprio CPM terem
adotado o critério ratione legis, outros critérios também são observados
concomitantes a este na legislação penal militar em vigor, tais como: critério ratione
loci (do latim: em razão do lugar), critério ratione personae (do latim: em razão da
pessoa), critério ratione temporis (do latim: em razão do tempo).
Desse modo, para analisar se determinada conduta consiste em crime militar,
dever-se-á, antes de tudo, verificar se este comportamento consta tipificado na
Parte Especial do Código Penal Militar. Caso a conduta se amolde a alguma
44

daquelas previstas na Parte Especial do CPM, examina-se se há incidência de


alguma das hipóteses do art. 9º do CPM, que será estudado adiante. Preenchido
esses dois requisitos, haverá crime militar.
Por outro lado, se a conduta que se pretende verificar não constar na Parte
Especial do Código Penal Militar, não haverá crime militar. É o caso, por
exemplo, do crime de porte ilegal de arma de fogo. Como não existe previsão desse
comportamento no CPM, se o militar for flagrado portando uma arma de fogo com a
numeração adulterada, responderá por crime comum (art. 16, parágrafo único, IV, da
Lei nº 10.826/2003, Estatuto do Desarmamento), ainda que esteja de serviço.
Também é o que ocorre nos crimes de abuso de autoridade, os quais não constam
tipificados no CPM. Por isso a seguinte redação da Súmula nº 172 do STJ:
“Compete à Justiça Comum processar e julgar militar por crime de abuso de
autoridade, ainda que praticado em serviço”. Em suma: crime militar é todo aquele
assim definido em lei.

1.3.2 Classificação dos crimes militares: crime militar próprio e impróprio

A distinção do crime como propriamente militar ou não tem uma grande


importância prática. Isto porque a Constituição Federal, em seu art. 5º, LXI, prevê
que: “ninguém será preso senão em flagrante delito ou por ordem escrita e
fundamentada de autoridade judiciária competente, salvo nos casos de
transgressão militar ou crime propriamente militar, definidos em lei” (grifo
nosso). Desse modo, quando se tratar de crime propriamente militar, também
chamado de crime militar próprio, poderá, excepcionalmente, ocorrer a prisão fora
dos casos de flagrante delito ou ordem judicial. Ex.: prisão cautelar efetuada pelo
encarregado do IPM, com base no art. 18 do CPPM.
Além disso, conforme a regra prevista no art. 64, II, do Código Penal comum,
para efeito de reincidência, não serão considerados os crimes militares próprios (ou
propriamente militares). Assim:

 Crime propriamente militar (ou militar próprio): Aquele que


somente o militar pode cometer. Ex.: Abandono de posto (art. 195 do
CPM).
45

Obs.: O crime de insubmissão, que é um crime previsto no CPM (art. 183) e só


pode ser cometido por civil, é considerado por alguns autores como crime
propriamente militar, sendo, pois, para essa corrente, uma exceção ao conceito
supracitado. Para outros, como é o caso de Célio Lobão27, o crime de insubmissão
é crime impropriamente militar.

 Crime impropriamente militar (ou militar impróprio): Aquele que,


tendo também previsão na legislação penal comum, torna-se crime
militar pela afetação às instituições militares, seja pela pela condição
de militar de quem o pratica e/ou da vítima, seja pela natureza militar
do lugar onde é praticado, seja pela anormalidade do tempo em que é
praticado. Ex.: Homicídio (art. 205 do CPM) praticado por militar da
ativa contra outro militar da ativa.

1.3.3 Crimes militares em tempo de paz: art. 9º do CPM

Como já dito anteriormente, para caracterização de determinada conduta como


delito militar, primeiramente deve ser constatada a sua tipificação como crime na
Parte Especial do Código Penal Militar. Depois disto, além desse requisito, deve
haver a ocorrência de uma das situações elencadas no art. 9º do CPM. Assim
sendo, faz-se imprescindível o estudo desse dispositivo da Parte Geral do CPM, que
será analisado a seguir.

Código Penal Militar

Art. 9º. Consideram-se crimes militares, em tempo de paz:


I - os crimes de que trata este Código, quando definidos de modo
diverso na lei penal comum, ou nela não previstos, qualquer que
seja o agente, salvo disposição especial;

O inciso I do art. 9º do CPM traz duas hipóteses de crimes militares: os crimes


tipificados no Código Penal Militar e também no Código Penal comum, porém
definidos diferentemente neste último, e os crimes tipificados exclusivamente no
Código Penal Militar. São exemplo dos primeiros: o crime de incêndio (art. 268 do
27
Op. cit., p. 407.
46

CPM), o crime de desacato a militar (art. 299 do CPM), entre outros. Já dos
segundos, são exemplo: o crime de deserção (art. 187 do CPM), o crime de
desrespeito a superior (art. 160 do CPM), etc.
Em regra, nos crimes deste inciso, qualquer pessoa, militar ou civil, poderá ser
sujeito ativo. Contudo, se a lei dispuser de outra forma, só haverá o crime para
determinado sujeito. Por exemplo, no crime de deserção o sujeito ativo deverá ser
necessariamente o militar, pois assim a lei exige. Já no crime de insubmissão (art.
183 do CPM) o sujeito ativo só poderá ser o civil, já que a lei assim também define.
Além disso, no âmbito da Justiça Militar estadual, o civil não cometerá crime militar,
restringindo a aplicação desse dispositivo aos militares dos Estados. Todavia, essa
restrição não existe na Justiça Militar da União.

II - os crimes previstos neste Código, embora também o sejam


com igual definição na lei penal comum, quando praticados:
a) por militar em situação de atividade […] contra militar na mesma
situação […];
b) por militar em situação de atividade […], em lugar sujeito à
administração militar, contra militar da reserva, ou reformado […]
ou civil;
c) por militar em serviço ou atuando em razão da função, em
comissão de natureza militar, ou em formatura, ainda que fora do
lugar sujeito à administração militar contra militar da reserva, ou
reformado, ou civil;
d) por militar durante o período de manobras ou exercício, contra
militar da reserva, ou reformado […] ou civil;
e) por militar em situação de atividade […] contra o patrimônio sob
a administração militar, ou a ordem administrativa militar;

O inciso II diz respeito aos crimes previstos tanto no Código Penal Militar quanto
no Código Penal comum, em ambos com igual definição. Por exemplo: homicídio no
CPM (art. 205) e homicídio no CP (art. 121), calúnia no CPM (art. 214) e calúnia no
CP (art. 138). Nesse caso, o que vai caracterizar a infração como delito militar é a
incidência de uma das situações das alíneas do inciso em análise. Perceba-se que
neste inciso o sujeito ativo será sempre o militar da ativa (ou em situação de
atividade).
47

Pela alínea “a”, vai ocorrer crime militar sempre que o delito seja praticado por
um militar da ativa contra outro militar também da ativa, mesmo fora de serviço e
ainda que não saibam da condição de militar um do outro.
Na alínea “b”, existe a previsão de crime militar quando a conduta delituosa
ocorrer em local sujeito à administração militar e contra militar da reserva, contra
militar reformado ou contra civil.
Já pelo disposto na alínea “c”, haverá crime militar quando o delito for praticado
por militar de serviço ou atuando em razão da função. Exemplo dessa última
hipótese é o do policial militar que, estando fora de serviço, intervém em um roubo
contra terceiro, lesionando-o, o que, em tese, caracterizaria crime militar. Por outro
lado, a jurisprudência tem entendido que não haverá crime militar quando a investida
se dá contra o próprio PM, agindo este em autodefesa. Por exemplo, quando o PM é
a própria vítima do roubo e reage, lesionando o bandido, situação na qual haverá,
em tese, crime comum. Claro que nessas situações hipotéticas o militar estará
acobertado por excludente de ilicitude, mas, ainda assim, é necessário que se saiba
se — em tese — há crime militar ou crime comum, até mesmo para fins de
instauração de inquérito policial militar ou comum. Ainda conforme esta alínea “c”,
ocorrerá crime militar quando a infração penal for praticada por militar da ativa em
comissão de natureza militar ou em formatura. Em todos esses casos, mesmo fora
de lugar sujeito à administração militar. O sujeito passivo será o militar da reserva, o
militar reformado ou o civil.
A alínea “d” prescreve que haverá crime militar quando o delito for praticado por
militar da ativa, durante o período de manobras ou exercício militar, contra militar da
reserva, militar reformado ou civil.
Segundo o descrito na alínea “e”, vai haver crime militar quando o militar da ativa
praticar a conduta delituosa contra o patrimônio sob a administração militar ou contra
a ordem administrativa militar. Ressalte-se que o patrimônio não precisa
necessariamente pertencer à Administração Militar, mas basta que esteja sob sua
administração, tais como algumas viaturas locadas pela Polícia Militar.

III - os crimes praticados por militar da reserva, ou reformado, ou


por civil, contra as instituições militares, considerando-se como
tais não só os compreendidos no inciso I, como os do inciso II,
nos seguintes casos:
48

a) contra o patrimônio sob a administração militar, ou contra a


ordem administrativa militar;
b) em lugar sujeito à administração militar contra militar em
situação de atividade […] ou contra funcionário de Ministério
militar ou da Justiça Militar, no exercício de função inerente ao seu
cargo;
c) contra militar em formatura, ou durante o período de prontidão,
vigilância, observação, exploração, exercício, acampamento,
acantonamento ou manobras;
d) ainda que fora do lugar sujeito à administração militar, contra
militar em função de natureza militar, ou no desempenho de
serviço de vigilância, garantia e preservação da ordem pública,
administrativa ou judiciária, quando legalmente requisitado para
aquele fim, ou em obediência a determinação legal superior.

O inciso III do art. 9º do CPM elenca as hipóteses em que o sujeito ativo do


crime militar será o militar da reserva, o militar reformado ou o civil. Cabe lembrar
que o civil, por disposição constitucional que será analisada mais adiante, não
comete crime militar perante às instituições militares estaduais. Assim sendo,
quando se fizer referência aqui ao civil como sujeito ativo do crime militar, estar-se-á
referindo ao cometimento de delito no âmbito das Forças Armadas.
A alíne “a” traz a hipótese de crime militar quando a infração penal for praticada
por militar da reserva, militar reformado ou civil contra o patrimônio sob a
administração militar ou contra a ordem administrativa militar. Por exemplo, quando
um civil danifica propositadamente uma viatura do Exército. Por outro lado, se um
civil danificar uma viatura da Polícia Militar, será responsabilizado pelo cometimento
de crime comum.
Já pelo disposto na alínea “b”, haverá crime militar quando o militar da reserva, o
militar reformado ou o civil, em local sujeito à administração militar, praticar o delito
contra militar da ativa ou contra funcionário de Ministério militar [hoje, Ministério da
Defesa] ou da Justiça Militar, todos no exercício de função inerente ao seu cargo.
Na alínea “c”, há previsão de ocorrência de crime militar quando o delito for
cometido por militar da reserva, militar reformado ou civil contra militar em formatura,
ou durante o período de prontidão, vigilância, observação, exploração, exercício,
acampamento, acantonamento ou manobras.
49

A alínea “d” prevê a caracterização de crime militar quando a conduta delituosa


for praticada, mesmo que fora de local sujeito à administração militar, por militar da
reserva, militar reformado ou civil contra militar em função de natureza militar, ou
desempenhando serviço de vigilância, garantia e preservação da ordem pública,
administrativa ou judiciária, quando legalmente requisitado para aquele fim, ou em
obediência a determinação legal superior. Quando se tratar de militares das Forças
Armadas, estes deverão estar desempenhando suas funções típicas, pois a
jurisprudência não tem considerado crime militar, por exemplo, o delito cometido por
civil contra militar do Exército, de serviço, atuando no trânsito. Já no caso dos
policiais militares, são consideradas atividades típicas dos militares estaduais o
policiamento ostensivo e o policiamento ostensivo de trânsito. Porém, como já dito,
os civis não cometem crime militar no âmbito das instituições militares estaduais.
Quanto à possibilidade de cometimento de crime militar nas hipóteses do inciso
III do art. 9º por militar estadual da reserva ou reformado, a jurisprudência tem
entendido pela competência da Justiça Militar estadual para processo e julgamento.
Nesse sentido, veja-se a ementa de decisão do Tribunal de Justiça Militar do Estado
de Minas:
Ementa: Major reformado da Polícia Militar que, em entrevero com
guarnição da Polícia Militar, exercendo função de natureza militar, ofende,
desrespeita, injuria e vilipendia os militares, sem razão, com palavras chulas
e de baixo calão, deprimindo-lhes a autoridade - o que contraria seu dever -
comete o crime militar de desacato a militar (art. 9º, inc. III, letra “d”, do
CPM). (TJMMG, Apelação nº 2.253, Rel. Juiz Cel PM Jair Cançado
Coutinho, j. 04/11/2003, p. 02/12/2003).

Apesar disso, Célio Lobão 28 entende que o militar estadual da reserva ou


reformado não incorrerá naquelas hipóteses do inciso III, só respondendo na Justiça
Militar estadual, na inatividade, pelos crimes cometidos durante o serviço ativo.

Parágrafo único. Os crimes de que trata este artigo, quando


dolosos contra a vida e cometidos contra civil, serão da
competência da justiça comum.

O parágrafo único do art. 9º do CPM foi incluído pela Lei nº. 9.299, de 8 de
agosto de 1996. Esse dispositivo prevê que os crimes de que cuida o art. 9º, os
quais foram acima examinados, quando dolosos contra a vida e praticados contra

28
Op. cit., p. 141.
50

civil, serão da competência da justiça comum. Logo após a vigência dessa lei,
existiram vários entendimentos pela sua inconstitucionalidade, sendo inclusive este
o posicionamento do Superior Tribunal Militar. Essa alegação se deu porque o
legislador ordinário, ao invés de retirar os crimes dolosos contra vida de civis do rol
dos crimes militares, o que seria possível conforme a própria Constituição, preferiu
mudar a competência de processo e julgamento para Justiça comum, mas sem
alterar a sua característica de crime militar. Acontece que a Constituição Federal, em
seu art. 124, caput, já estabelece que os crimes militares serão processados e
julgados pela Justiça Militar. Aí estaria a inconstitucionalidade da Lei nº. 9.299/96.
Entretanto, em relação à Justiça Militar estadual, não se pode mais alegar a
inconstitucionalidade do processo e julgamento na Justiça comum dos crimes
dolosos contra a vida de civis cometidos por militares dos Estados. Isto porque, a
partir da alteração realizada pela Emenda Constitucional nº. 45/2004, a própria
Constituição Federal, em seu art. 125, § 4º, confirmou essa regra. Todavia, como
essa modificação constitucional deu-se somente no âmbito da Justiça Militar
estadual, continua a discussão sobre a inconstitucionalidade da Lei nº. 9.299/96 na
Justiça Militar da União. De qualquer forma, na prática, a Lei nº. 9.299/96 continua
sendo aplicada tanto no âmbito da Justiça Militar estadual quanto da Justiça Militar
da União, tendo o Supremo Tribunal Federal (RE nº 260404) entendido que houve
uma exclusão implícita dos crimes dolosos contra vida de civis do rol dos delitos
militares.
Em que pese esse entendimento do STF, a própria Lei nº 9.299/96, ao alterar o
CPPM, acrescentando-lhe o § 2º ao seu art. 82, dispôs neste que: “Nos crimes
dolosos contra a vida, praticados contra civil, a Justiça Militar encaminhará os autos
do inquérito policial militar à justiça comum”. Isto é, determinou a instauração de IPM
nesses casos e seu encaminhamento, em primeiro lugar, à Justiça Militar, para que
esta remeta-o, depois, para a Justiça comum. Ou seja, esses delitos continuaram
sendo crimes militares, inclusive com a instauração de IPM, porém com a
competência para processo e julgamento da justiça comum.
51

1.3.4 Conceito de superior

Código Penal Militar

Conceito de superior

Art. 24. O militar que, em virtude da função, exerce autoridade


sobre outro de igual posto ou graduação, considera-se superior,
para efeito da aplicação da lei penal militar.

Em regra, o superior é aquele que detém um maior grau hierárquico, em relação


a um subordinado, na escala hierárquica. É o caso, por exemplo, do sargento em
relação ao soldado. Entretanto, excepcionalmente, para fins de aplicação da lei
penal militar, será considerado superior aquele que, por conta de determinada
função, exerce autoridade sobre outro militar de mesmo posto ou graduação. Esse
superior é chamado pelos autores de superior funcional. Ex.: Um sargento na função
de sargento-de-dia será considerado superior a outro sargento fora dessa função.
Assim, este último poderá incorrer no crime de desrespeito a superior (art. 160 do
CPM), caso pratique esta conduta contra o primeiro.

1.4 A JUSTIÇA MILITAR ESTADUAL

Constituição Federal

Art. 125. Os Estados organizarão sua Justiça, observados os


princípios estabelecidos nesta Constituição.

[…]

§ 3º A lei estadual poderá criar, mediante proposta do Tribunal de


Justiça, a Justiça Militar estadual, constituída, em primeiro grau,
pelos juízes de direito e pelos Conselhos de Justiça e, em
segundo grau, pelo próprio Tribunal de Justiça, ou por Tribunal de
Justiça Militar nos Estados em que o efetivo militar seja superior a
vinte mil integrantes. (Redação dada pela Emenda Constitucional nº
45, de 2004).
§ 4º Compete à Justiça Militar estadual processar e julgar os
militares dos Estados, nos crimes militares definidos em lei e as
52

ações judiciais contra atos disciplinares militares, ressalvada a


competência do júri quando a vítima for civil, cabendo ao tribunal
competente decidir sobre a perda do posto e da patente dos
oficiais e da graduação das praças. (Redação dada pela Emenda
Constitucional nº 45, de 2004).

§ 5º Compete aos juízes de direito do juízo militar processar e


julgar, singularmente, os crimes militares cometidos contra civis e
as ações judiciais contra atos disciplinares militares, cabendo ao
Conselho de Justiça, sob a presidência de juiz de direito,
processar e julgar os demais crimes militares. (Incluído pela
Emenda Constitucional nº 45, de 2004).

A partir da Emenda Constitucional nº. 45, de 2004, ocorreram algumas


modificações na Justiça Militar estadual. Hoje, os julgamentos na primeira instância
da Justiça Militar estadual podem acontecer de duas maneiras: pelo juiz de direito do
juízo militar, antigo juiz-auditor militar, de forma isolada, ou pelo Conselho de
Justiça, sob a presidência do juiz de direito do juízo militar. De qualquer forma, a
Justiça Militar estadual só é competente para julgar os militares dos Estados, nunca
civis.
O juiz de direito do juízo militar será competente para julgar e processar
singularmente os crimes militares cometidos contra civis e as ações judiciais contra
atos disciplinares militares. Nessas situações, atuará sozinho, sem interferência do
Conselho de Justiça. Ressalte-se que estão daí excluídos os crimes dolosos contra
a vida de civis, que, como visto anteriormente, passaram a ser de competência da
Justiça comum, mais especificamente do Tribunal do Júri.
Nos demais crimes militares, será competente para processo e julgamento o
Conselho de Justiça. Este é composto pelo juiz de direito do juízo militar, que agora
o preside, e por quatro juízes militares, que são sorteados entre os oficiais das
Polícias Militares e Corpos de Bombeiros Militares. Cada um dos cinco membros do
Conselho tem direito a um voto, não havendo prevalência entre o voto do juiz de
direito e dos demais. O juiz de direito será o primeiro a votar e em seguida os juízes
militares, por ordem inversa de hierarquia. Desse modo, se o Conselho for composto
por um tenente-coronel, um major, um capitão e um tenente, a ordem de votação
será a seguinte: primeiro votará o tenente, depois o capitão, a seguir o major e, por
fim, o tenente-coronel.
53

Ainda, duas são as espécies de Conselho de Justiça: Conselho Permanente de


Justiça e Conselho Especial de Justiça. O primeiro é competente para processar e
julgar as praças pelo cometimento de crime militar. Ele será composto por quatro
oficiais sorteados, que nele funcionarão como juízes militares pelo período de três
meses consecutivos, mais o juiz de direito do juízo militar, que será seu presidente.
Já o segundo é competente para processar e julgar os oficiais pelo cometimento de
crime militar. Também será composto, além do juiz de direito do juízo militar, que
igualmente o presidirá, por quatro oficiais, porém estes serão sorteados para
atuarem como juízes militares em cada processo específico. Nesse caso, deverá ser
observada a precedência hierárquica dos juízes militares sobre o acusado.
Por fim, a Justiça Militar estadual será constituída, em segundo grau, pelo
próprio Tribunal de Justiça ou pelo Tribunal de Justiça Militar, nos Estados que
instituírem este último. Para isso, é necessário que o efetivo de militares estaduais
seja superior a vinte mil integrantes. Atualmente, apesar de existirem Estados com
efetivo superior a esse número, como é o caso do Estado da Bahia, somente três
deles criaram Tribunal de Justiça Militar: Minas Gerais, Rio Grande do Sul e São
Paulo. Por outro lado, como já dito, para os Estados que não instituírem o Tribunal
de Justiça Militar, o Tribunal de Justiça será a segunda instância da Justiça Militar
estadual, que é o que ocorre em quase todos os Estados atualmente, inclusive na
Bahia.
54

2 CRIMES EM ESPÉCIE: CRIMES MILITARES EM TEMPO DE PAZ

2.1 CRIME DE RECUSA DE OBEDIÊNCIA

Código Penal Militar

Recusa de obediência

Art. 163. Recusar obedecer a ordem do superior sobre assunto ou


matéria de serviço, ou relativamente a dever imposto em lei,
regulamento ou instrução:
Pena - detenção, de um a dois anos, se o fato não constitui crime
mais grave.

O delito de recusa de obediência, crime propriamente militar, constitui uma das


espécies de insubordinação, esta que dá nome ao Capítulo V do Título II (Dos
Crimes contra Autoridade ou Disciplina Militar). Conforme a descrição do art. 163,
comete o crime em questão aquele que se recusa obedecer ordem de superior, logo
é delito que só pode ser cometido por um subordinado em relação a um superior
hierárquico. Todavia, convém lembrar a regra do art. 24 do CPM, segundo a qual
poderá ser considerado superior, para fins de aplicação da lei penal militar, aquele
que, em virtude de determinada função, exerce autoridade sobre outro militar de
mesmo posto ou graduação, por exemplo, um sargento na função de sargento-de-
dia. Nessa hipótese, ainda que a ordem parta de um militar de mesmo grau
hierárquico daquele que a recebe, mas que esteja no exercício de função de
comando, poderá restar configurada a infração penal em comento. Em todo caso, o
militar deverá conhecer a condição de superior de quem emite a ordem.
Por sua vez, a ordem emanada deve consistir em assunto ou matéria de serviço,
ou, ainda, ser relativa a dever imposto em lei, regulamento ou instrução. Acerca da
ordem relativa a assunto ou matéria de serviço, conforme Loureiro Neto, “significa
que ela deva ter relação com as atribuições funcionais do militar, visando, portanto,
o interesse da corporação a que pertence e não interesses particulares. Assim, não
pode ser considerado assunto ou matéria de serviço a ordem dada por um oficial a
seu subordinado no sentido de que este limpe seu veículo”29. Também, a ordem
dada deve ser legal, pois, de outro modo, sendo o descumprimento relativo a uma

29
Op. cit., p. 131.
55

ordem ilegal, não haverá crime de recusa de obediência. No entanto, se a


ilegalidade da ordem não for manifesta, executando-a o subordinado, não
responderá este, mas, sim, o superior que a ordenou, isto segundo a regra do art. 38
do CPM. Ainda, conforme leciona o autor supracitado, a ordem deve ser pessoal, o
que “significa que deve ser dirigida a um ou mais inferiores determinados; as de
caráter geral não são ordens desta natureza e seu não cumprimento constitui
transgressão disciplinar”30.
O crime de recusa de obediência, de acordo com o disposto no art. 88, II, alínea
a, do CPM, e no art. 617, II, alínea a, do CPPM, impede a concessão do benefício
da suspensão condicional da pena. Do mesmo modo, pelo art. 270, parágrafo único,
alínea b, do CPPM, o indiciado ou acusado por esse delito não terá direito à
liberdade provisória. Também, em conformidade com o art. 97 do CPM e com o art.
642, parágrafo único, do CPPM, o livramento condicional somente será concedido
depois de cumpridos dois terços da pena, quando normalmente, para o condenado
primário, seria necessário o cumprimento de metade da pena.
Por fim, vale lembrar que só haverá o delito de recusa de obediência caso o fato
não constitua outra infração penal de maior gravidade. Por exemplo, se a recusa for
realizada por dois ou mais militares reunidos, não existirá o crime em questão, mas o
de motim ou, se os militares estiverem armados, o de revolta, infrações penais estas
mais graves em relação ao delito de recusa de obediência.

2.2 CRIME DE VIOLÊNCIA CONTRA INFERIOR

Código Penal Militar

Violência contra inferior

Art. 175. Praticar violência contra inferior:


Pena - detenção, de três meses a um ano.

Resultado mais grave

Parágrafo único. Se da violência resulta lesão corporal ou morte é


também aplicada a pena do crime contra a pessoa, atendendo-se,
quando for o caso, ao disposto no art. 159.

30
Idem, ibidem, p. 131.
56

O crime de violência contra inferior, delito propriamente militar, como é evidente,


exige a condição de superior do sujeito ativo, com a ressalva acima comentada do
art. 24 do CPM, quando também poderá excepcionalmente ser praticado por militar
de mesmo grau hierárquico do agredido. Como leciona Edgard de Brito Chaves
Júnior, “a lei pune o emprego de meios violentos não compatíveis com a vida militar,
tanto mais quando empregados pelo superior hierárquico, tal a condição de sua
responsabilidade profissional”31. Esses meios violentos podem consistir em tapas,
socos, chutes, empurrões, entre outros. Em que pese alguns autores defenderem
que o crime em análise tanto engloba a violência física quanto a moral, prevalece o
entendimento de que essa infração penal somente se caracteriza pelo emprego de
violência física. Ressalte-se que, para que haja o delito em comento, a condição de
inferior deve ser conhecida pelo superior. Também, não sendo necessário que haja
lesão corporal para ocorrer o crime de violência contra inferior, o exame de corpo de
delito é dispensável, a não ser que exista efetivamente lesão. Nesse último caso,
consoante disposto no parágrafo único do art. 175, será aplicada a pena de ambos
os crimes. Do mesmo modo, se da violência resultar morte, o agente responderá
pelo crime de homicídio e violência contra inferior, com a soma das penas. No
entanto, essa segunda pena será reduzida de metade, se ficar evidenciado que o
agressor não quis esse outro resultado nem assumiu o risco de produzi-lo.

2.3 CRIME DE OFENSA AVILTANTE A INFERIOR

Código Penal Militar

Ofensa aviltante a inferior

Art. 176. Ofender inferior, mediante ato de violência que, por


natureza ou pelo meio empregado, se considere aviltante:
Pena - detenção, de seis meses a dois anos.
Parágrafo único. Aplica-se o disposto no parágrafo único do artigo
anterior.

De forma semelhante ao delito anterior, no crime de ofensa aviltante a inferior


também há utilização de violência, com a diferença de que esta é empregada aqui
31
CHAVES JÚNIOR, Edgard de Brito. Direito penal e processo penal militar. Rio de Janeiro: Forense,
1986, p. 177.
57

como meio de humilhar o inferior. A redação do art. 176 fala de ofensa a inferior
mediante ato de violência que, por natureza ou pelo meio empregado, se considere
aviltante. Segundo Célio Lobão32, “o aviltamento [a humilhação] resultante de ato
inerente à própria natureza da violência é aquele em que a violência realiza-se de
maneira a aviltar, a humilhar, o subordinado, como aplicar tapas no rosto, nas
nádegas, cuspir no rosto, puxar as orelhas, etc.”. Por sua vez, “o ato aviltante pelo
meio empregado consiste em cometer violência, com humilhação, com desonra, do
ofendido, como retirar sua roupa, deixando-o despido em local onde não possa
abrigar-se, a vista de todos, pendurá-lo pelos pés, etc.”33. Ainda, o delito em análise,
que é crime propriamente militar, para sua ocorrência, exige que a condição de
inferior seja conhecida pelo agente que o pratica.
Por outro lado, se um militar ofender outro militar, de mesmo posto ou
graduação, e sem subordinação funcional, por meio de ato de violência aviltante,
não cometerá o delito em questão, mas incorrerá no do art. 217 do CPM, crime de
injúria real. Também responderá pelo delito de injúria real o militar, ainda que
superior hierárquico, que ofenda mediante ato de violência aviltante um outro militar
sobre o qual desconhece sua condição de inferior.
Finalmente, pela regra do art. 270, parágrafo único, alínea b, do CPPM, o
indiciado ou acusado pelo crime de ofensa aviltante a inferior não terá direito à
liberdade provisória.

2.4 CRIME DE ABANDONO DE POSTO

Código Penal Militar

Abandono de posto

Art. 195. Abandonar, sem ordem superior, o posto ou lugar de


serviço que lhe tenha sido designado, ou o serviço que lhe
cumpria, antes de terminá-lo:
Pena - detenção, de três meses a um ano.

O art. 195 do CPM incrimina o abandono de posto, crime propriamente militar,


que se perfaz quando o militar, sem ordem superior, deixa o posto ou lugar de
32
Op. cit., p. 292.
33
Idem, ibidem, p. 292.
58

serviço para o qual havia sido designado ou o serviço que lhe competia, antes de
terminá-lo. Na lição de Cícero Coimbra e de Marcelo Streifinger, “[…] no abandono
de posto ou de lugar de serviço, há sempre uma área geográfica delimitada, com
menor (posto) ou maior (lugar de serviço) amplitude. Pode ocorrer, todavia, que a
atividade desempenhada pelo militar não tenha uma delimitação espacial ou, se o
tiver, essa delimitação não é tão importante para o desempenho da função confiada
ao militar” 34 . Por exemplo, quando o PM é escalado na guarda do quartel, esta
consiste em um posto; já quando é designado para o policiamento ostensivo a pé
em uma determinada rua, esta constitui o seu lugar de serviço; por seu turno,
quando assume a função de rondante, esta missão compõe o serviço. Assim sendo,
três são as situações em que existirá o crime de abandono de posto: quando o
militar deixar o posto, o lugar de serviço ou o serviço propriamente dito.
Vale lembrar que, em relação ao serviço para o qual o militar tinha sido
designado, conforme ensina Edgard de Brito Chaves Júnior 35 , “entende-se por
serviço qualquer um que se enquadre nas atribuições do agente, não só as
peculiares da profissão de militar, como também as de outra natureza,
indispensáveis ou necessárias à tropa, tais como preparo de alimentação, serviço de
limpeza, burocrático etc.”. Ressalte-se, ainda, que, por ser um crime de perigo
abstrato, o delito de abandono de posto não exige a ocorrência de qualquer risco
concreto de dano ocasionado pelo abandono, havendo na própria conduta uma
presunção desse perigo.
De outro lado, não há necessidade de um grande lapso temporal fora do posto,
lugar ou serviço para se configurar o delito em comento. É o que ensina Ramagem
Badaró 36 : “Na caracterização do crime de abandono de posto basta a ausência
momentânea, não autorizada ou não justificada do militar em lugar ou ocasião em
que deveria estar presente, por dever militar e em razão de ordem de serviço” (grifo
do autor).

34
NEVES, Cícero Robson Coimbra; STREIFINGER, Marcelo. Apontamentos de direito penal militar:
parte especial. São Paulo: Saraiva, 2008, v. 2, p. 305.
35
Idem, p. 21.
36
BADARÓ, Ramagem. Comentários ao Código Penal Militar de 1969. São Paulo: Juriscredi, 1972, v.
2, p. 64.
59

2.5 CRIME DE EMBRIAGUEZ EM SERVIÇO

Código Penal Militar

Embriaguez em serviço

Art. 202. Embriagar-se o militar, quando em serviço, ou


apresentar-se embriagado para prestá-lo:
Pena - detenção, de seis meses a dois anos.

O delito de embriaguez em serviço, crime propriamente militar, apresenta-se, na


verdade, em duas condutas: a de embriagar-se o militar, quando em serviço, e a de
se apresentar o militar embriagado para o serviço. Na primeira, o militar assume o
serviço estando sóbrio, mas, durante o seu transcorrer, embriaga-se; enquanto que,
na segunda, o militar já se apresenta embriagado para assunção do serviço. Em
qualquer caso, essa embriaguez poderá ser resultante de álcool ou outras
substâncias análogas, sendo que, se o militar for flagrado com a substância
entorpecente nas dependências da Unidade PM, consumindo-a ou prestes a
consumi-la, responderá pelo delito do art. 290 do CPM, independentemente do
estado de embriaguez em que poderá encontrar-se37. Ainda, o crime de embriaguez
em serviço, assim como o delito de abandono de posto, é crime de perigo abstrato,
não exigindo prova da ocorrência de qualquer situação de risco concreto decorrente
da embriaguez do militar.
Por seu turno, a prova da embriaguez, diferentemente do atual crime de
embriaguez ao volante do Código de Trânsito Brasileiro, não é necessariamente
realizada pelo teste de alcoolemia (exame de sangue) ou do etilômetro (bafômetro).
Isto porque o crime de embriaguez em serviço, em sua descrição típica, não prevê
qualquer nível alcoólico mínimo por litro de sangue, somente exigindo a prova da
ebriedade do militar, independentemente da quantidade de álcool que tenha
ocasionado essa embriaguez. Entretanto, vale aqui a regra da não auto
incriminação, pela qual ninguém poderá ser compelido a produzir provas contra si
mesmo, podendo, então, o militar negar-se a realizar os testes de alcoolemia e do
etilômetro. De qualquer maneira, será apto a comprovar a embriaguez o exame
clínico, sendo que o militar não terá direito a recusar-se estar na presença do
médico-perito, o qual poderá atestar seu estado de ebriedade.
37
NEVES, Cícero Robson Coimbra; STREIFINGER, Marcelo, Op. cit., p.333.
60

2.6 CRIME DE DORMIR EM SERVIÇO

Código Penal Militar

Dormir em serviço

Art. 203. Dormir o militar, quando em serviço, como oficial de


quarto ou de ronda, ou em situação equivalente, ou, não sendo
oficial, em serviço de sentinela, vigia, plantão às máquinas, ao
leme, de ronda ou em qualquer serviço de natureza semelhante:
Pena - detenção, de três meses a um ano.

O delito do sono, como é conhecido o crime de dormir em serviço, ocorre


quando o militar dorme, em serviço, em qualquer das situações acima elencadas.
Esse delito, além de crime propriamente militar, é também crime de perigo abstrato,
sendo, pois, desnecessária a prova de perigo concreto advindo do comportamento
do militar que dorme em serviço. O policial militar, no cumprimento de sua missão
institucional, já frequentemente exposto ao risco dela decorrente, ao dormir em
serviço, torna esse perigo, a si próprio e aos que tem o dever de proteger,
potencialmente maior. Todavia, só é criminalizada a conduta daquele militar que
dorme em serviço intencionalmente, não havendo qualquer previsão da forma
culposa do delito, mas tão somente a sua modalidade dolosa.
O art. 203 traz, ainda, a descrição de algumas funções, no exercício das quais,
caso o militar durma, haverá o crime de dormir em serviço. No entanto, aquelas
situações são apenas exemplificativas, uma vez que o dispositivo faz referência a
“situação equivalente” à função de oficial de quarto ou de ronda e, em relação às
praças, a “qualquer serviço de natureza semelhante” ao serviço de sentinela, vigia,
plantão às máquinas, ao leme e de ronda. Por conta disso, Cícero Coimbra e
Marcelo Streifinger lembram que “é perfeitamente possível a ocorrência do delito no
serviço de policiamento ostensivo das Polícias Militares, uma vez que, se Oficial,
como já postulamos, enquadrar-se-á na figura do Oficial de Ronda, e, se Praça,
estará em serviço de natureza semelhante ao de ronda. Note-se que o Policial Militar
que realiza o patrulhmento em determinada região, em verdade, vigia a área sob o
prisma da preservação da ordem pública”38. E esses mesmos autores colocam que,
por serem sempre de vigilância as situações previstas no delito em análise, não o

38
Op. cit., p. 337.
61

cometerá aquele militar que dormir na execução de atividade administrativa39. De


qualquer forma, esse militar será responsabilizado na esfera administrativa
disciplinar.

2.7 CRIME DE DESAPARECIMENTO, CONSUNÇÃO OU EXTRAVIO

Código Penal Militar

Desaparecimento, consunção ou extravio

Art. 265. Fazer desaparecer, consumir ou extraviar combustível,


armamento, munição, peças de equipamento de navio ou de
aeronave ou de engenho de guerra motomecanizado:
Pena - reclusão, até três anos, se o fato não constitui crime mais
grave.

Modalidades culposas

Art. 266. Se o crime dos arts. 262, 263, 264 e 265 é culposo, a pena
é de detenção de seis meses a dois anos; ou, se o agente é oficial,
suspensão do exercício do posto de um a três anos, ou reforma;
se resulta lesão corporal ou morte, aplica-se também a pena
cominada ao crime culposo contra a pessoa, podendo ainda, se o
agente é oficial, ser imposta a pena de reforma.

Atualmente, é cada vez mais comum a perda ou extravio de arma de fogo


pertencente à Corporação por parte de policiais militares. A grande maioria
dessas ocorrências deve-se a situações de caso fortuito ou força maior, nas
quais o PM não tem culpa alguma, ou a circunstâncias em que o policial
militar atuou com culpa, ou seja, com imprudência, negligência ou imperícia.
Acontece que, nessa última hipótese, em que restar comprovada a culpa do
PM, ele responderá pelo crime de desaparecimento, consunção ou extravio,
em sua modalidade culposa (art. 265 c/c art. 266, ambos do CPM). Nesse
sentido, é o teor decisão judicial citada por Jorge Cesar de Assis40 a seguir:

39
Idem, ibidem, p. 337.
40
ASSIS, Jorge Cesar de. Comentários ao Código Penal Militar. 6. ed. rev. e atual. Curitiba: Juruá,
2008, p. 596.
62

“Ementa: Condenação por extravio de revólver pertencente à Brigada Militar,


art. 265 c.c. o art. 266, ambos do CP Militar. Age com culpa stricto sensu, na
modalidade de negligência, policial militar que, após várias horas de trabalho, sem
que tenha despendido qualquer esforço físico, perde, do coldre, o revólver com o
qual executava o serviço. Alegações de defeito no coldre fornecido pela
administração se mostram incapazes de elidir a responsabilidade do militar, de vez
que lhe incumbia examinar o equipamento antes de utilizá-lo. Apelo improvido.
Unânime. (TJM/RS — Ap. Crim. 2.957/97 — Rel. Juiz Cel. João Vanderlan
Rodrigues Vieira — J. em 11.06.1997 — Jurisprudência Penal Militar, jan./jun.
1997, p. 148)”.
Além da situação acima descrita do armamento, que é a mais comum, também
caracteriza o delito a conduta daquele militar que faz desaparecer, consome ou
extravia combustível, munição, peças de equipamento de navio ou de aeronave. Por
outro lado, se ficar comprovado que o PM, em qualquer uma das hipóteses
supramencionadas, agiu de forma dolosa, intencional, será responsabilizado pelo
disposto no art. 265, que é a forma dolosa da infração penal em comento. Vale,
ainda, destacar que o delito de desaparecimento, consunção ou extravio é crime
impropriamente militar.

2.8 CRIME DE PECULATO

Código Penal Militar

Peculato

Art. 303. Apropriar-se de dinheiro, valor ou qualquer outro bem


móvel, público ou particular, de que tem a posse ou detenção, em
razão do cargo ou comissão, ou desviá-lo em proveito próprio ou
alheio:
Pena - reclusão, de três a quinze anos.

Peculato-furto

§ 2º - Aplica-se a mesma pena a quem, embora não tendo a posse


ou detenção do dinheiro, valor ou bem, o subtrai, ou contribui
para que seja subtraído, em proveito próprio ou alheio, valendo-se
63

da facilidade que lhe proporciona a qualidade de militar ou de


funcionário.

Peculato culposo

§ 3º - Se o funcionário ou o militar contribui culposamente para


que outrem subtraia ou desvie o dinheiro, valor ou bem, ou dele se
aproprie:
Pena - detenção, de três meses a um ano.

O crime de peculato está previsto tanto no Código Penal comum quanto no


Código Penal Militar, sendo este último um crime impropriamente militar. Tendo
previsão em ambas as legislações, o que irá determinar a sua caracterização como
delito militar são as regras do art. 9º do CPM, já estudadas anteriormente. Desse
modo, o policial militar, de serviço, que incorrer nas condutas descritas no crime de
peculato, que serão vistas a seguir, cometerá crime militar, do art. 303 do CPM, e
não o crime comum do art. 312 do CP, isto com base no art. 9º, II, alínea c, do CPM.
Vale dizer que o delito em questão tem como sujeito ativo tanto o militar quanto o
funcionário civil da Administração Militar, porém, como o civil não comete crime
militar na esfera militar estadual, só será feita referência ao militar.
O caput do art. 303 traz duas espécies de peculato: o peculato apropriação e o
peculato desvio. O primeiro, consiste na apropriação de dinheiro, valor ou qualquer
outro bem móvel, público ou particular, de que o militar tenha a posse ou detenção
por conta do cargo que exerce, em proveito próprio ou alheio. Ex.: Um policial militar,
servindo na Sala de Meios, se apropria de alguns cartuchos de que tem a posse em
razão dessa função. Nessa hipótese, comete o crime de peculato apropriação. Já no
segundo caso, o militar, nas mesmas condições da modalidade anterior, ao invés de
apropriar-se, desvia o dinheiro, valor ou qualquer outro bem móvel. Em qualquer
uma das modalidades, a pena é de três a quinze anos de reclusão.
Como exposto acima, o bem apropriado ou desviado pode ser público ou
particular, desde que esteja na posse do militar em razão do cargo. É a situação
descrita na seguinte decisão judicial, trazida por Jorge Cesar de Assis41: “Ementa:
Peculato. Configuração. Comete o crime de peculato policial militar que se apropria
de arma apreendida em virtude de detenção de civis que praticavam roubo contra

41
Op. cit., p. 663.
64

transeuntes. Caracterizado, na situação, infidelidade contra a Administração Militar.


Unânime. (TJM/SP — Ap. Crim. 4.271/96 — Rel. Juiz Lourival da Costa Ramos
— J. em 10.02.1998 — Ementário de Jurisprudência 1994-1997)”.
Agora, se o militar, não tendo a posse ou detenção do dinheiro, valor ou bem, o
subtrai, ou coopera para que seja subtraído, em proveito próprio ou alheio,
utilizando-se da facilidade proporcionada por sua qualidade de militar, comete o
crime de peculato furto, previsto no § 2º do art. 303 do CPM. De igual modo, a pena
será de três a quinze anos de reclusão. Exemplo dessa conduta é a do policial
militar que, aproveitando-se do livre acesso à seções da Unidade, subtrai algum
objeto ali utilizado.
Por outro lado, se o policial militar contribuir culposamente, por exemplo, por
negligência, esquecendo a porta da seção que trabalha aberta, para que alguém
subtraia ou desvie o dinheiro, valor ou bem, ou dele se aproprie, cometerá o delito
de peculato culposo. Essa infração penal está elencada no § 3º do art. 303 e tem
pena prevista de três meses a um ano de detenção.

2.9 CRIME DE CONCUSSÃO E CRIME DE CORRUPÇÃO PASSIVA

Código Penal Militar

Concussão

Art. 305. Exigir, para si ou para outrem, direta ou indiretamente,


ainda que fora da função ou antes de assumi-la, mas em razão
dela, vantagem indevida:
Pena - reclusão, de dois a oito anos.

Corrupção passiva

Art. 308. Receber, para si ou para outrem, direta ou indiretamente,


ainda que fora da função, ou antes de assumi-la, mas em razão
dela vantagem indevida, ou aceitar promessa de tal vantagem:
Pena - reclusão, de dois a oito anos.

Aumento de pena

§ 1º A pena é aumentada de um terço, se, em conseqüência da


vantagem ou promessa, o agente retarda ou deixa de praticar
qualquer ato de ofício ou o pratica infringindo dever funcional.
65

Diminuição de pena

§ 2º Se o agente pratica, deixa de praticar ou retarda o ato de


ofício com infração de dever funcional, cedendo a pedido ou
influência de outrem:
Pena - detenção, de três meses a um ano.

Assim como no peculato, os delitos de concussão e de corrupção passiva, que


são crimes impropriamente militares, têm previsão tanto no Código Penal comum
quanto no Código Penal Militar. Conforme a regra do art. 9º, II, alínea c, do CPM, o
policial militar, quando de serviço, se incorrer nas condutas neles descritas,
cometerá os crimes de concussão e de corrupção passiva, respectivamente, dos
arts. 305 e 308 do CPM — crimes militares.
Na concussão, o militar exige, para si ou para outrem, direta ou indiretamente,
mesmo que fora da função ou antes de assumi-la, mas em razão dela, vantagem
indevida. Na corrupção passiva, o militar, nas mesmas condições anteriores, ao
invés de exigir, recebe essa vantagem indevida ou aceita promessa de recebimento
desta. É importante lembrar que, em ambos os crimes, não é necessário o efetivo
recebimento da vantagem para sua consumação. Assim, a diferença entre um e
outro delito encontra-se tão somente na ação de “exigir” vantagem indevida na
concussão e na conduta de “receber” ou “aceitar promessa” de vantagem indevida
na corrupção passiva. Ainda, como destaca Jorge Cesar de Assis42, “a corrupção
passiva militar exige sempre a iniciativa do corruptor, já que o corrompido apenas
recebe a vantagem indevida ou aceita a promessa de tal vantagem, jamais a
solicita”.
Por exemplo, cometerá crime de concussão um PM que, ao efetuar uma
abordagem, ordenar a um condutor inabilitado que lhe entregue, para não autuá-lo,
determinada quantia em dinheiro. Por outro lado, nesse mesmo exemplo, se o
condutor, ao ser abordado, antes de qualquer manifestação do PM, oferecer a este
uma quantia, para que não seja autuado por ele, caso o PM receba essa vantagem,
incorrerá no delito de corrupção passiva.
Na corrupção passiva, existe a previsão de uma causa de aumento de pena, em
um terço, no caso de o agente retardar ou deixar de praticar qualquer ato de ofício

42
Op. cit., p. 675.
66

ou praticá-lo infringindo dever funcional, por conta da vantagem ou da promessa de


seu recebimento.
Há, ainda, a chamada corrupção passiva privilegiada, constante no § 2º do art.
308 do CPM. Nesta, o militar pratica, deixa de praticar ou retarda o ato de ofício com
infração de dever funcional, cedendo a pedido ou influência de outra pessoa, e não
em consequência da vantagem ou promessa. Por exemplo, policial militar que,
atendendo a pedido de um amigo seu, libera alguém que havia sido flagrado por ele
portando ilegalmente uma arma de fogo.

2.10 CRIME DE PREVARICAÇÃO

Código Penal Militar

Prevaricação

Art. 319. Retardar ou deixar de praticar, indevidamente, ato de


ofício, ou praticá-lo contra expressa disposição de lei, para
satisfazer interesse ou sentimento pessoal:
Pena - detenção, de seis meses a dois anos.

Havendo previsão do crime de prevaricação no Código Penal comum e no


Código Penal Militar, deverá ser aplicada a regra do art. 9º, II, alínea c, do CPM,
para o policial militar em serviço. Logo, nessa situação, se a conduta do PM
amoldar-se a do crime de prevaricação, que é a mesma nos dois Códigos, cometerá
o delito impropriamente militar, do art. 319 do CPM, e não a do art. 319 do CP
comum. Valendo-se, mais uma vez, da lição de Jorge Cesar de Assis43, “o delito se
consuma de três maneiras. Na primeira, o agente retarda (protrai, delonga); na
segunda ele deixa de praticar (omissão) e; na terceira ele pratica (ação) contra
disposição legal o ato de ofício (aquele que se compreende nas atribuições do
servidor; que está na esfera de sua competência, administrativa ou judicial)”. Em
todo caso, o agente é motivado pela satisfação de interesse ou sentimento pessoal.
Comete esse delito, por exemplo, o policial militar que, ao efetuar uma abordagem e
constatar que o licenciamento do veículo de um motorista está atrasado, libera o
condutor sem autuá-lo porque ficou compadecido pela sua situação financeira.

43
Idem, ibidem, p. 704.
67

DIREITO PROCESSUAL PENAL


MILITAR
68
69

1 PRISÃO EM FLAGRANTE DELITO NO CPPM

1.1 EFETIVAÇÃO DA PRISÃO EM FLAGRANTE DELITO NO CPPM

Código de Processo Penal Militar

Pessoas que efetuam prisão em flagrante

Art. 243. Qualquer pessoa poderá e os militares deverão prender


quem for insubmisso ou desertor, ou seja encontrado em flagrante
delito.

Este dispositivo do Código de Processo Penal Militar refere-se especificamente,


além da prisão nas situações de insubmissão e deserção, à ocorrência de flagrante
delito nos crimes militares. Tanto é assim, que os militares das Forças Armadas,
com fundamento nesse art. 243, não estão obrigados a prender em flagrante delito
quem comete crime comum, mas somente quem for surpreendido no cometimento
de crime militar. Ocorre que, no caso das Polícias Militares, os integrantes destas,
além de militares dos Estados, também são policiais, logo ficam obrigados não só
pelo art. 243 do CPPM, como também pelo art. 301 do CPP comum, que estabelece:
“qualquer do povo poderá e as autoridades policiais e seus agentes deverão prender
quem quer que seja encontrado em flagrante delito”. Esse último dispositivo legal diz
respeito justamente à prisão em flagrante nos crimes comuns.
A prisão em flagrante, a qual os militares das Forças Armadas são obrigados a
efetuar nos crimes militares e os PMs tanto nos crimes militares quanto nos comuns,
é conhecida como flagrante compulsório. Já a prisão em flagrante realizada por
civis, ou por militares das Forças Armadas nos crimes comuns, uma vez que não
têm o dever de efetuá-las, é denominada de flagrante facultativo. Na hipótese de
flagrante compulsório, o militar deverá efetuar a prisão independentemente de quem
esteja nessa situação de flagrância, ainda que se trate de superior hierárquico.
Nesse ponto, vale conferir a redação do art. 223 do CPPM, segundo o qual: “a
prisão de militar deverá ser feita por outro militar de posto ou graduação superior;
ou, se igual, mais antigo”. Porém, como ensina Alexandre Henriques da Costa44,
“neste aspecto, verifica-se que o regramento do artigo 243 do Código de Processo
44
COSTA, Alexandre Henriques da. Manual prático dos atos de polícia judiciária militar. São Paulo:
Suprema Cultura, 2004, p. 38.
70

Penal Militar é mais específico em relação à prisão em flagrante delito que a


previsão do artigo 223 do mesmo Codex, considerando-se que neste são tratadas as
prescrições gerais das modalidades de prisão provisória, aplicáveis à prisão
preventiva, à detenção, etc., não se coadunando entretanto com a previsão do artigo
243”.
Consoante disposto no art. 230, alínea a, do CPPM, em caso de flagrante, a
captura se fará pela simples voz de prisão do executor. Ainda, na execução da
prisão em flagrante, com base no art. 234, o policial militar estará autorizado ao uso
da força estritamente nos casos em que houver desobediência, resistência ou
tentativa de fuga por parte do preso. Poderá também empregar força em relação a
terceiros, se houver resistência por parte destes.

1.2 PRISÃO EM FLAGRANTE DELITO NO CPPM: ESPÉCIES

Código de Processo Penal Militar

Sujeição a flagrante delito

Art. 244. Considera-se em flagrante delito aquele que:

a) está cometendo o crime;

b) acaba de cometê-lo;

c) é perseguido logo após o fato delituoso em situação que faça


acreditar ser ele o seu autor;

d) é encontrado, logo depois, com instrumentos, objetos, material


ou papéis que façam presumir a sua participação no fato
delituoso.

Infração permanente

Parágrafo único. Nas infrações permanentes, considera-se o


agente em flagrante delito enquanto não cessar a permanência.

Os dois primeiros casos, daquele que está cometendo o delito e daquele que
acabou de cometê-lo, são chamados pelos autores de flagrante próprio ou
propriamente dito. Na primeira situação, o agente é surpreendido ainda na execução
do crime, por exemplo, efetuando disparos contra a vítima. Já na segunda, o delito
71

acabou de ser consumado, como na hipótese em que o sujeito descarregou


completamente sua arma, atirando contra a vítima.
A terceira situação, quando alguém é perseguido logo após o fato delituoso em
situação que faça acreditar ser ele o seu autor, é denominada de flagrante impróprio
ou quase flagrante. Aqui, conforme lecionam Nestor Távora e Rosmar Antonni45, “a
crença popular de que é de 24 horas o prazo entre a prática do crime e a prisão em
flagrante não tem o menor sentido, eis que, não existe um limite temporal para o
encerramento da perseguição”.
A última hipótese, daquele que é encontrado, logo depois, com instrumentos,
objetos, material ou papéis que façam presumir a sua participação no fato delituoso,
é conhecida como flagrante presumido ou ficto. É o caso, por exemplo, do indivíduo
que é achado, logo depois de um homícidio, nas proximidades deste, tentando
esconder uma faca e bastante sujo de sangue.
Por fim, o parágrafo único do art. 244 do CPPM trata da prisão em flagrante nos
chamados crimes permanentes. Nestes, consoante o dispositivo, o estado de
flagrância prolonga-se enquanto não for cessada a permanência do delito, sendo
autorizada a prisão em todo esse período. São crimes permanentes, por exemplo, o
sequestro e cárcere privado, a posse ilegal de arma de fogo, algumas condutas do
tráfico de drogas, entre outros.

1.3 LAVRATURA DO AUTO DE PRISÃO EM FLAGRANTE DELITO

Código de Processo Penal Militar

Lavratura do auto

Art. 245. Apresentado o preso ao comandante ou ao oficial de dia,


de serviço ou de quarto, ou autoridade correspondente, ou à
autoridade judiciária, será, por qualquer deles, ouvido o condutor
e as testemunhas que o acompanharem, bem como inquirido o
indiciado sobre a imputação que lhe é feita, e especialmente sobre
o lugar e hora em que o fato aconteceu, lavrando-se de tudo auto,
que será por todos assinado.

A prisão em flagrante delito, quando da sua ocorrência naquelas situações


acima examinadas, deverá ser formalizada por meio do Auto de Prisão em Flagrante
45
Op. cit., p. 448.
72

Delito (APFD). De acordo com o caput do art. 245 do CPPM, a autoridade


competente para lavratura do auto será o Comandante da Unidade, o oficial de dia,
de serviço ou de quarto, bem como outra autoridade correspondente. No auto,
ficarão registrados o local, a data e a hora dos fatos, assim como a descrição
minuciosa do ocorrido, com a qualificação e oitiva de todos envolvidos.

Designação de escrivão

§ 4º Sendo o auto presidido por autoridade militar, designará esta,


para exercer as funções de escrivão, um capitão, capitão-tenente,
primeiro ou segundo-tenente, se o indiciado for oficial. Nos
demais casos, poderá designar um subtenente, suboficial ou
sargento.

Quando o auto for presidido por autoridade militar, ou seja, nos casos de prisão
em flagrante por crime militar, já que nos crimes comuns a autoridade competente
será o delegado de polícia, aquela autoridade militar designará um escrivão.
Segundo as regras do § 4º do art. 245, no caso específico da PMBA, se o indiciado
for oficial, deverá ser designado, para execer as funções de escrivão no APFD, um
capitão PM ou um 1º tenente PM. Por outro lado, sendo o indiciado praça ou praça
especial, a designação recairá em um subtenente PM ou em um sargento PM.
Como expõe Alexandre Saraiva46, o “escrivão é o responsável pela confecção
do auto de prisão em flagrante, exercendo, por conseguinte, destacada função em
serviço da persecutio criminis”. Assim, o sargento PM, quando no exercício das
funções de escrivão na lavratura do auto de prisão em flagrante, deverá elaborar as
peças que o compõem, seguindo as orientações do presidente do APFD.

46
SARAIVA, Alexandre José de Barros Leal. Inquérito policial e auto de prisão em flagrante nos
crimes militares. São Paulo: Atlas, 1999, p. 74.
73

2 INQUÉRITO POLICIAL MILITAR (IPM)

2.1 INQUÉRITO POLICIAL MILITAR: NOÇÕES GERAIS

Código de Processo Penal Militar

Finalidade do inquérito

Art. 9º. O inquérito policial militar é a apuração sumária de fato,


que, nos termos legais, configure crime militar, e de sua autoria.
Tem o caráter de instrução provisória, cuja finalidade precípua é a
de ministrar elementos necessários à propositura da ação penal.

Em consonância com o disposto no art. 9º do CPPM, Alexandre Saraiva47 define:


“o Inquérito Policial Militar (IPM) é, portanto, o conjunto de diligências efetuadas pela
Polícia Judiciária Militar, destinado a reunir os elementos de convicção referentes à
autoria e à materialidade de um crime militar, a fim de que o Ministério Público Militar
possa exercer a ação penal”. Observa-se, pois, que o destinatário final do inquérito
policial militar será o Promotor de Justiça Militar, o qual se valerá do que ali foi
apurado para intentar a ação penal militar, ainda que, para propositura desta, não
seja indispensável o IPM. Vale, ainda, ressaltar que, como o IPM tem caráter de
instrução provisória, ou seja, “seu conteúdo não é suficiente para a condenação do
indiciado”48, não há que se falar em réu ou acusado nesta fase de sua instauração,
havendo, sim, investigado ou indiciado.
O art. 10 do CPPM elenca, em suas alíneas, as situações em que se iniciará o
inquérito policial militar, sendo que, em todas elas, a instauração propriamente dita
ocorrerá a partir de Portaria do Comandante. Uma dessas hipóteses, a da alínea f,
prevê a instauração de IPM quando, de sindicância feita em âmbito de jurisdição
militar, resultar indício da existência de infração penal militar. Em conformidade com
esse dispositivo, o art. 60, inciso IV, da Lei nº. 7.990/2001, Estatuto dos Policiais do
Estado da Bahia, dispõe que da sindicância poderá resultar instauração de inquérito
policial militar. Acerca desse assunto, Alexandre Saraiva49 chama a atenção para o

47
Idem, p. 14.
48
VIOLA, João Carlos Balbino. Manual de investigação criminal militar. Belo Horizonte: Líder, 2005, p.
51.
49
Idem, ibidem, p. 26.
74

fato de que “não é incomum a abertura de sindicâncias em situações em que ab


initio está demonstrada a ocorrência de crime militar. […] Destarte, cabe ao
Ministério Público coibir referida ilegalidade, promovendo a responsabilidade penal
da autoridade que se absteve de praticar o ato de ofício que lhe era exigido:
instaurar o IPM”. Assim, uma coisa é a instauração de sindicância quando somente
havia indícios de transgressão disciplinar e, no decorrer desta investigação, surgirem
vestígios de cometimento de crime militar, instaurando-se, após a sua conclusão, o
devido IPM; outra situação é, já existindo indicíos suficientes da ocorrência de crime
militar, instaurar-se sindicância, ao invés do adequado IPM, o que constitui
ilegalidade perante o Código de Processo Penal Militar.

2.2 O ESCRIVÃO NO INQUÉRITO POLICIAL MILITAR

Código de Processo Penal Militar

Escrivão do inquérito

Art. 11. A designação de escrivão para o inquérito caberá ao


respectivo encarregado, se não tiver sido feita pela autoridade que
lhe deu delegação para aquele fim, recaindo em segundo ou
primeiro-tenente, se o indiciado for oficial, e em sargento,
subtenente ou suboficial, nos demais casos.

Compromisso legal

Parágrafo único. O escrivão prestará compromisso de manter o


sigilo do inquérito e de cumprir fielmente as determinações deste
Código, no exercício da função.

Aqui valem as mesmas regras de designação do escrivão na lavratura do auto


da prisão em flagrante, isto é, se o indiciado for um oficial, deverá ser designado,
para execer as funções de escrivão no IPM, um capitão PM ou um 1º tenente PM.
Em sendo o indiciado praça ou praça especial, a designação deverá recair em um
subtenente PM ou em um sargento PM. Por conta dessa previsão legal, o futuro
sargento PM deverá conhecer muito bem as incumbências do escrivão, já que
possivelmente irá atuar nessa função. No inquérito policial militar, o escrivão poderá
já ser designado pela própria autoridade militar que o mandou instaurar. Caso não
75

haja essa designação prévia, a escolha será feita pelo encarregado do IPM, o que é
mais comum acontecer.
Ao ser designado para exercer as funções de escrivão no IPM, o militar deverá
prestar compromisso de manter o sigilo do inquérito e de cumprir fielmente as
determinações do CPPM, no exercício da função. Esse compromisso será reduzido
a termo, o qual será juntado aos autos do IPM. Como ensina João Carlos Balbino
Viola50, “o compromisso do escrivão é um ato que deve ser feito sempre na forma
escrita, devendo ser assinado pelo encarregado e pelo nomeado. O ato de
nomeação, quando feito pelo encarregado, e o compromisso, devem ser autuados
logo após a portaria de instauração”.
Consoante prevê o art. 21 do CPPM, o escrivão será responsável por reunir,
num só processo, por ordem cronológica, todas as peças do IPM, sendo também por
ele numeradas e rubricadas as folhas dos autos. O escrivão, que também tem a
responsabilidade pela guarda dos autos do IPM, quando houver juntada de
qualquer documento, após o despacho do encarregado, deverá lavrar o respectivo
termo de juntada, mencionando a data desse ato.
Além do mais, conforme disposto no art. 19, § 1º, do CPPM, encontra-se entre
as funções do escrivão lavrar assentada do dia e hora do início das inquirições ou
depoimentos, bem como do seu encerramento ou interrupções, ao final daquele
período. Como explica Jorge Cesar de Assis51, “a assentada a que se refere o artigo,
nada mais é do que o Termo que é lavrado pelo escrivão do inquérito, do
depoimento da testemunha”.

50
Op. cit., p. 144.
51
ASSIS, Jorge César de. Código de Processo Penal Militar anotado: artigos 1º ao 169. 2. ed. 3. tir.
Curitiba: Juruá, 2008, v. 1, p. 57.
76
77

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______. Código de Processo Penal Militar anotado: artigos 1º ao 169. 2. ed. 3. tir.
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