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D&A 1:1 (2009/1), 160-162 ISSN 2175-0386

Resenha: Além da Pobreza e da Riqueza


Vanessa Belmonte

GOUDZWAARD, Bob, DE LANGE, Harry.


Beyond Povery and Affluence. Toward an
Economy of Care With a Twelve-Step
Program for Economic Recovery. Grand
Rapids: Eerdmans, 1994, 176 p.

Bob Goudzwaard é membro do Parlamento Holandês e conhecido fora dos Países Baixos como
um pensador criativo que reflete sobre a economia cristã. Ajudou a formular a base e os
princípios do Manifesto do Partido Democrático Cristão Holandês e participa do Conselho
Holandês das Igrejas. Neste livro, apresenta uma perspectiva econômica cristã e, juntamente
com Harry de Lange, analisa as características e conseqüências do desenvolvimento econômico,
apontando para um caminho de mudança e renovação da economia.

O Caminho do desenvolvimento econômico

A partir do exame do crescimento da pobreza, degradação ambiental e desemprego, os autores


tecem um questionamento crítico do caminho pelo qual o atual desenvolvimento econômico e
tecnológico tem conduzido a humanidade. Segundo os autores, esses três impasses econômicos
adquiriram dimensões e características tais que apontam para um caminho de destruição. Assim,
é urgente a necessidade de compreender o que está por trás da teoria e prática econômicas que
têm conduzido a nossa sociedade por esse caminho. A partir disso, torna-se possível pensar em
uma renovação econômica cuja aplicação nos conduziria por um caminho diferente.

Um cálculo que saiu errado

Sua abordagem teórica considera os pressupostos por trás do pensamento econômico, clássico e
neoclássico, e seus reflexos na sociedade. Os autores apresentam um diagnóstico das falhas
desse pensamento na busca pela ‘felicidade’ e as conseqüências de suas práticas na vida da
sociedade como um todo. O que ocorreu foi como um cálculo no qual toda a sociedade pagou um
alto preço para realizar, mas que ao final não apresentou um resultado positivo, e agora, não é
possível refazer.

A reforma proposta parte da consideração da visão cristã de economia, ou seja, do sentido


original da palavra oikonomia, cujo significado abrange o estudo da criação e a relação
responsável do homem com o que está sob seu cuidado. Sem apelar para um irracionalismo
econômico ou uma fuga religiosa, os autores desmascaram a idéia de desenvolvimento e
prosperidade tão buscados pela sociedade analisando as teorias e suposições doentias que
fundamentam as ações econômicas das pessoas. A partir do reconhecimento de uma cosmovisão
deturpada por trás da prática econômica e das conseqüências de sua aplicação para a
humanidade, Goudzwaard e de Lange demonstram que a economia chegou em um ponto no qual
ela precisa ser fundamentalmente renovada.

Economia do cuidado


Vanessa Belmonte é administradora de empresas, secretária da Aket e secretária voluntária de L’Abri Fellowship Brasil.

Diálogo & Antítese: Revista de Religião e Transdisciplinaridade –Vol 1, No 1, (2009/1)


Resenha: Além da Pobreza e da Riqueza (Goudzwaard & De Lange) 161

Seis paradoxos do crescimento econômico são apresentados, seguidos por uma análise
detalhada dos três maiores impasses econômicos atuais: a expansão da pobreza, a destruição
ambiental e a perda do trabalho (em quantidade e qualidade). Os maiores dilemas econômicos do
século XXI são encarados de frente, deixando clara a incapacidade do pensamento econômico
atual em prover uma solução adequada, justamente, por ele considerar apenas os aspectos
relacionados à produção, consumo e renda em uma economia de mercado.

Quando os setores produtivo e de consumo dirigem a economia, então o trabalho, o


meio-ambiente, as pessoas e a cultura em geral ficam subordinados à sua busca constante por
maior produtividade e consumo, a qualquer preço. E assim são afetados negativamente. Suas
necessidades não são consideradas, seus limites não são respeitados, suas características não
são preservadas.

De acordo como os autores, a renovação econômica inclui a inversão dessas estruturas.


Nessa inversão, os setores produtivo e de consumo estariam subordinados às necessidades e
características do trabalho, do meio-ambiente e da cultura, passando-se de uma economia que
ignora as necessidades reais dos pobres e das gerações futuras para uma economia que as
considera em primeiro lugar.

Desse modo, a partir de uma cosmovisão cristã da economia, os níveis de renda e consumo
estariam subordinados às necessidades de cuidado. Tal inversão de prioridades inverteria a
direção da economia. Para os autores, esta seria uma “precare economy” (economia do
pré-cuidado), ou seja, uma economia na qual o cuidado pelas pessoas e pelo meio-ambiente vem
antes da preocupação com o aumento de produção e consumo, e não depois. A nossa atual
economia, uma “postcare economy” (economia do pós-cuidado), se empenha com todas as
forças para alcançar níveis máximos de produção e consumo e, somente após isso, tenta aliviar
a montanha de necessidades existentes e, geralmente, com formas extremamente caras de
compensação.

Promover o cuidado necessário para as necessidades de subsistência, a qualidade do


trabalho, a sustentabilidade da agricultura e do ecossistema urbano, e melhorar o
desenvolvimento de oportunidades, especialmente para os países do terceiro mundo, são
objetivos que caracterizam uma nova economia, uma “economy of enough” (economia do
suficiente), na qual os paradoxos atuais teriam um fim. Sua tarefa legítima seria restaurada, de
forma que o crescimento econômico não violaria os limites da sustentabilidade dos mais pobres
de hoje e das gerações futuras.

Sociedade túnel

De forma a ilustrar as características descritas, Goudzwaard e De Lange comparam a sociedade


atual com um túnel. Nesse túnel, não vemos a luz, mas pagamos um alto preço através da
exclusão dos mais fracos, expulsão de pesos sociais e ambientais para outros setores da
sociedade e extração máxima do trabalho, do meio-ambiente e do próprio ser humano, para
encontrá-la.

A renovação econômica sugerida representa uma mudança da ‘sociedade túnel’ para a


‘sociedade árvore’. Nessa, todas as células cooperam para o seu desenvolvimento e crescimento.
Em determinado ponto, a árvore pára de crescer e direciona seus esforços para a produção do
fruto. Ela busca prover oportunidades suficientes para gerar trabalho significativo, suprir as
necessidades materiais básicas em casa e ao redor do mundo, desenvolver um ambiente
sustentável para nós e para as gerações futuras, e também, preservar a arte e a cultura.

Um programa de doze passos

Diálogo & Antítese: Revista de Religião e Transdisciplinaridade –Vol 1, No 1, (2009/1)


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Após tecer uma análise detalhada dos dilemas econômicos e suas conseqüências na sociedade,
apresentando gradualmente a proposta de renovação econômica, os autores encerram o livro
com a proposta de um programa de doze passos concretos.

Essa proposta representa um desafio ao estudo da economia, sugerindo, implicitamente, uma


reforma de seu currículo dentro da academia. Juntos, esses passos desenham um novo caminho
a seguir. Segundo os autores, eles podem ser adaptados e alterados, não representando uma
fórmula rígida a ser seguida exatamente, conforme apresentada.

O primeiro passo refere-se ao sistema monetário mundial e ao relacionamento entre os países


ricos e os países pobres. O segundo refere-se à forma como as pessoas direcionam seus salários
e o aumento de sua renda. O terceiro sugere a adoção do título de ‘empresa responsável’ às
organizações que assumirem sua responsabilidade de cuidado social e ambiental.

Do quarto ao sétimo passo estão relacionadas atitudes a ser tomadas pelo governo, tanto
quanto à criação de políticas para controle de preços, proteção ambiental, seguridade social e
definição de limites para produção, como à criação de outras medidas para o crescimento
econômico, além do PIB.

O oitavo passo incentiva a discussão pública dos padrões econômicos definidos pelo mercado.
O nono avalia a tecnologia moderna, de forma a assegurar a entrada de trabalho e a criatividade
humana no processo produtivo. O décimo sugere a criação de uma rede de trabalho, na qual
pessoas e organizações com essa visão se uniriam para buscar possíveis direções a seguir. O
décimo primeiro passo avalia a existência de padrões de cuidado social e ambiental nos acordos
de comércio internacional. E, finalmente, o décimo segundo considera a necessidade de mudança
no estilo de vida ocidental, atingindo a mentalidade de desperdício e luxúria, tão presente na vida
de cada pessoa.

Conclusão

A proposta dos autores atinge desde o trabalhador individual até às grandes empresas, o governo
e a sociedade como um todo. As questões levantadas nesse livro não podem mais ser ignoradas.
Será possível que os impasses econômicos de nosso tempo e o surgimento simultâneo desses
impasses não sejam um acidente? Estamos mesmo avançando para o desenvolvimento enquanto
tudo o mais em nossa sociedade está sendo destruído, inclusive nós? Será que existe realmente
uma luz no fim desse túnel? Por fim, o objetivo do livro é desafiar não somente cristãos, mas
todos nós, a desenvolver uma crítica filosófica e científica da economia, adotando uma nova
postura diante da vida.

Diálogo & Antítese: Revista de Religião e Transdisciplinaridade –Vol 1, No 1, (2009/1)