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EXCELENTÍSSIMO SENHOR DOUTOR JUIZ DE DIREITO DA ....ª VARA CÍVEL DA


COMARCA DE ARACAJU – Sergipe

SINDUSCON – SINDICATO DA INDÚSTRIA DA


CONSTRUÇÃO CIVIL DO ESTADO DE SERGIPE, pessoa jurídica de direito privado
(doc. 01), inscrita no Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas – CNPJ sob nº
13.079.041/0001-67, com sede na Rua Praça Siqueira de Menezes, n° 299, Bairro
Santo Antônio, CEP: 49060-650, Aracaju/Se, por seus advogados in fine assinados
(instrumento de mandato incluso – DOC. 02), vem respeitosamente perante Vossa
Excelência, propor a presente

AÇÃO DE OBRIGAÇÃO DE FAZER CUMULADA COM PEDIDO DE CONVERSÃO


EM INDENIZAÇÃO EM CASO DE DESOBEDIÊNCIA

contra VOTORANTIN CIMENTOS NORTE/NORDESTE S/A, sito na Rua Madre de


Deus, 27 – 14. andar – Recife/PE, CEP – 50030-906 (TEL. 81 – 2101-4236/2101-
4238), pessoa jurídica de direito privado, pelas razões fáticas e jurídicas a seguir
aduzidas:

I. DA PRELIMINAR

Preliminarmente, requer o benefício da gratuidade de justiça,


uma vez que, conforme os fatos narrados, o Autor nunca se beneficiou
monetariamente com o pacto realizado com a Ré para beneficiar os seus associados,
além de se tratar o autor de pessoa jurídica de direito privado sem fins lucrativos,
fazendo, pois, jus à concessão do referido benefício independentemente de
comprovação da insuficiência de recursos.
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II. DO MÉRITO (Dos fatos e do Direito)

1. DOS FATOS

O Autor, sindicato da classe das construtoras, em virtude da


alta expansão do mercado imobiliário em Aracaju, firmou um pacto verbal com a
empresa-Ré que se consubstancia em descontos especiais para compra de cimento
das empresas suas associadas, beneficiando a classe e também o próprio cidadão,
que pode se valer do repasse desses descontos quando da compra dos seus imóveis,
razão pela qual justificada está a sua legitimidade ativa ad causam.

Para a realização do referido pacto, ficou convencionado que


somente os associados que estivessem adimplentes com as suas contribuições
sindicais pudessem participar, razão pela qual o Autor passou a fazer campanhas
internas visando grande divulgação do benefício, que vinha sendo garantido de
maneira ininterrupta, valendo todos os esforços e trabalhos realizados pelo Autor em
prol da efetivação do pactuado com a Ré.

Os documentos em anexo (DOC. 03) demonstram como se


dava o desconto, ficando acertado que ao ser efetivada a compra, o desconto
certamente seria concedido, evitando assim os chamados cartéis que beneficiam
apenas uma pequena parte de empresas. A intenção do Suplicante, além de outras,
também visou evitar a discriminação de empresas, posto que, para ter acesso aos
descontos, bastaria ser associada e estar em dia com suas obrigações, independente
de tamanho ou faturamento.

Tal procedimento adotado entre as partes, como se vê dos


documentos em anexo, apenas confirmou a primeira obrigação contraída pela Ré,
restando insofismável que o pacto verbal entre o Autor e a Ré efetivamente se
concretizou, tendo sido estabelecido inclusive as condições do negócio.

Acontece que, sumariamente, como num passe de mágica e


ante a completa revelia do Suplicante e de seus associados, a Ré resolveu negar aos
associados do Autor o referido desconto, nem mesmo nada noticiando a este acerca
dos motivos de não mais fazê-lo, o que vem sendo feito atual e, sabe-se
oficiosamente, em benefício exclusivo a empresários do setor, que, ao contrário dos
associados do Autor, podem vir a não repassar os descontos à população quando da
aquisição de seu imóvel, o que põe em risco a ordem pública, além do risco de notória
e futura formação de cartel e monopólio sob a exploração do mercado, que sempre foi
objeto de combate por parte do sindicato ora Autor, se configurando em negócio muito
diferente do que o realizado com o Autor, razão pela qual deverá funcionar o
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Ministério Público nesta demanda e ser oficiada a Polícia Civil para as devidas
apurações.

Na tentativa de regularizar à vexatória situação e ante a


cobrança de seus associados, o Suplicante enviou alguns integrantes de sua diretoria
executiva ao Recife, a fim de proceder ao encontro com o Réu. Lá chegando, foram
recebidos pelo Sr. Otavio Carvalho, obtendo apenas a proposta indecorosa que a Rë,
no máximo, poderia continuar dando os descontos àquele corpo diretor apenas, o que
foi de imediato rechaçado. Nada mais sendo resolvido desde então, demonstrando o
completo descaso do Réu com o caso em tela.

Tentadas várias formas amigáveis por contatos verbais de


continuidade do benefício, não restou alternativa ao Autor senão uma notificação
extrajudicial por escrito. Conforme se depreende da resposta a esta notificação
extrajudicial, a Ré, diplomaticamente, apenas argüi que faz o acordo com quem quiser,
confirmando, mais uma vez que a obrigação contraída com o autor sempre ocorreu
dentro da legalidade mas, por motivos ignorados e talvez escusos - razão pela qual
deve funcionar o Ministério Público -, a Ré não mais se obriga ao cumprimento do
pactuado com o Autor.

Repare-se a ata de uma reunião realizada recentemente em


03.10.2007, em Brasília/DF, onde estavam presentes um dos representantes da
Diretoria da Câmara Brasileira da Indústria da Construção – CBIC, representantes dos
sindicatos da classe da construção civil de todo o território nacional e membros do
Sindicato Nacional da Indústria do Cimento -SNIC, um dos representantes da Ré, Sr.
Marcelo Chamma e um dos diretores do Autor, Sr. Valdir Pinto. Estando ali todos
presentes, a Ré, ao ser interpelada pelo Autor acerca de tal impasse, mais uma vez
diplomaticamente preferiu fugir do tema ora abordado, expressando tão somente
“haver um problema em Aracaju, que com a sua visita em breve, tudo seria resolvido”.
Visita essa, diga-se de passagem, nunca ocorrida. (DOC. 04)

Outrossim, tal recusa injustificada está a acarretar enorme


prejuízo econômico aos associados do Autor, haja vista muitos planos contábeis para
o exercício de novos empreendimentos e construções e continuidade dos já em
execução terem sido feitos sob a perspectiva do desconto já adquirido por vezes
anteriores, tendo o associado que correr o risco de fazer novos negócios financeiros
arriscados para poder concluir as obras em tempo hábil frente aos seus consumidores,
cidadãos de bem que sonham com a sua casa própria.

Foram esgotados todos os meios suasórios para a


possibilidade de convencer a Ré acerca da obrigação de fazer resultante do pacto
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verbal supra mencionado, sem contudo, lograr êxito, motivo pelo qual se faz uso da
presente ação.

Por fim, resta indubitável que dos fatos narrados configura-se


o ato passível de reparação nos termos da legislação vigente caso a Ré se negue a
continuar a fornecer os descontos aos associados do Autor, até mesmo pelo fato de
ser a Ré a detentora de maior poder econômico sobre o Autor, mas que em nada lhe
permitiria rescindir unilateralmente o pacto firmado.

Ademais, cumpre ressaltar ainda que danos morais estão


sendo acometidos ao Autor, pois em face de tal situação, os associados andam
inconformados, alegando não ter sido a entidade Autora capaz de ter obtido um
simples desconto de cimento aos seus associados e ainda de ter sido a sua liderança
de classe jogada “a bancarrota”, posto que diversos associados encontram-se
aguardando uma postura do Autor, em razão da confiança por eles depositada em
seus negócios em completa “perda de tempo”, tendo ainda que se sujeitar às
exigências feitas à época pelo Autor para a aquisição do benefício e assim obterem
os referidos descontos... um verdadeiro abuso, que será tratado em tópico próprio,
mais adiante.

2. DO DIREITO

O ordenamento jurídico vigente contempla a presente ação


com procedimento ordinário, com fulcro nos artigos 287 e 461 do Código de Processo
Civil, caracterizando-se pelo fato de obter o Autor, da parte do juiz, a emissão de um
preceito para que a Ré faça alguma coisa, sob a cominação de certa pena.

"Art. 287 - Se o autor pedir que seja imposta


ao réu a abstenção da prática de algum ato,
tolerar alguma atividade, prestar ato ou
entregar coisa, poderá requerer cominação de
pena pecuniária para o caso de
descumprimento da sentença ou da decisão
antecipatória de tutela."

" Art. 461 - Na ação que tenha por objeto o


cumprimento de obrigação de fazer ou não
fazer, o juiz concederá a tutela específica da
obrigação ou, se procedente o pedido,
determinará providências que assegurem o
resultado prático equivalente ao do
adimplemento
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§ 1º - A obrigação somente se converterá em


perdas e danos se o autor o requerer ou se
impossível a tutela específica ou a obtenção
do resultado prático correspondente.
§ 2º - A indenização por perdas e danos dar-
se-á sem prejuízo da multa".

No caso em tela, o Autor procura o amparo da Lei para que a


Ré dê continuidade ao pacto, hoje à disposição dos interesses de poucos (que
disfarçadamente alega ser interesse exclusivamente seu como se tratasse de
obrigação facultativa), direito este que os associados do Autor já adquiriram por força
do pacto verbal já referido e da rotina prática anterior incorporada como fato, como se
faz prova os documentos ora acostados, onde diversos associados apresentam
faturas não ressarcidas, totalmente inconformados com tal situação.

DO CONTRATO FIRMADO E DA LESÃO À BOA-


FÉ DA SUPLICANTE

"A boa-fé é uma cláusula geral cujo conteúdo é estabelecido


em concordância com os princípios gerais do sistema jurídico (liberdade, justiça e
solidariedade, conforme está na Constituição da República)...", conforme refere Ruy
Rosado de Aguiar Júnior in "A Boa-fé na Relação de Consumo" (artigo publicado na
Revista de Direito do Consumidor, v. 14, p. 24).

"A influência da boa-fé na formação dos institutos jurídicos é


algo que não se pode desconhecer ou desprezar." (Clóvis do
Couto e Silva in "A Obrigação como processo", p. 27.)

Os tempos atuais estão sendo marcados pelas “brigas”, guerras,


fome, enfim, miséria em sua amplitude gramatical, inclusive miséria mental, pois a
honra está por um fio.

Em apertada síntese, pois, a novel principiologia contratual tem


por escopo teleológico alcançar a Justiça Contratual, que é uma espécie de Justiça
Comutativa, segundo magistério de Fernando Noronha, em obra “Direito dos
Contratos e seus Princípios Fundamentais. 1ª edição. São Paulo: Saraiva, 1994, p.
215, ao observar que "a justiça contratual será, portanto, uma modalidade de justiça
comutativa. Se a justiça costuma ser representada pela balança de braços
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equilibrados, a justiça contratual traduz precisamente a idéia de equilíbrio que deve


haver entre direitos e obrigações das partes contrapostas numa relação contratual".

Inserido assim na seara da Justiça Contratual, destaca-se, com


realce, o princípio da boa-fé objetiva.

Distinção entre a boa-fé objetiva e a subjetiva

À luz da doutrina, há marcante diferença entre a boa-fé objetiva


e a subjetiva.

No que concerne à boa-fé subjetiva, também denominada boa-fé


crença, sua concepção se acha ligada ao voluntarismo e ao individualismo que
informam o Código Civil de 1916, podendo ser definida como um estado psicológico
contraposto à má-fé, em que há ausência de má-fé, fundada em um erro de fato, ou
melhor, em um estado de ignorância escusável. É traduzida como um estado íntimo,
de crença, um estado de ignorância de uma pessoa que se julga titular de um direito,
mas que, em verdade, é titular exclusivamente de seu juízo e imaginação.

Nesse diapasão, assim a conceitua Alinne Arquette Leite Novais:


"A boa-fé subjetiva corresponde ao estado psicológico da pessoa, à sua intenção, ao
seu convencimento de estar agindo de forma a não prejudicar outrem na relação
jurídica." (NOVAIS, Alinne Arquette Leite. Os Novos Paradigmas da Teoria Contratual: O
Princípio da Boa-fé Objetiva e o Princípio da Tutela do Hipossuficiente. In: Problemas de
Direito Civil-Constitucional. Gustavo Tepedino (coordenador). 1ª edição. Rio de Janeiro:
Renovar, 2000, p. 22.)

Já a boa-fé objetiva, também denominada “boa-fé lealdade”,


significa o dever de agir de acordo com determinados padrões, socialmente
recomendados, de correção, lisura e honestidade. Trata-se de uma regra de conduta,
a ser seguida pelo contratante, pautada na honestidade, na retidão, na lealdade e,
principalmente, na consideração para com os interesses legítimos e expectativas
razoáveis do outro contratante, visto como um membro do conjunto social.

Para bem aclarar a distinção entre ambas, assim preleciona a


Professora Judith Martins-Costa , insigne jurista gaúcha:
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"A expressão ‘boa-fé subjetiva’ denota ‘estado de consciência’,


ou convencimento individual de obrar (a parte) em conformidade
ao direito (sendo) aplicável, em regra, ao campo dos direitos
reais, especialmente em matéria possessória. Diz-se ‘subjetiva’
justamente porque, para a sua aplicação, deve o intérprete
considerar a intenção do sujeito da relação jurídica, o seu
estado psicológico ou íntima convicção. Antitética à boa-fé
subjetiva está a má-fé, também vista subjetivamente como a
intenção de lesar a outrem. Já por ‘boa-fé objetiva’ se quer
significar – segundo a conotação que adveio da interpretação
conferida ao § 242 do Código Civil alemão, de larga força
expansionista em outros ordenamentos, e, bem assim, daquela
que lhe é atribuída nos países da common law – modelo de
conduta social, arquétipo ou standard jurídico, segundo o qual
‘cada pessoa deve ajustar a própria conduta a esse
arquétipo, obrando como obraria um homem reto: com
honestidade, lealdade, probidade’. Por este modelo objetivo
de conduta levam-se em consideração os fatores concretos do
caso, tais como o status pessoal e cultural dos envolvidos, não
se admitindo uma aplicação mecânica do standard, de tipo
meramente subsuntivo."( A Boa-Fé no Direito Privado. 1ª edição,
2ª tiragem. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2000, p. 411.)
(GRIFOS NOSSOS)

Ao que parece, a sua importância tende a universalizar-se, ao


ponto mesmo de as Nações Unidas reconhecerem a boa-fé objetiva como um
parâmetro hermenêutico nos tratados que versem sobre o comércio internacional,
como a Convenção de Viena (1980), que trata da compra e venda de mercadorias,
cuja cláusula 7 deste tratado assim reza: "Na interpretação da presente Convenção
ter-se-á em conta o seu caráter internacional bem como a necessidade de promover a
uniformidade da sua aplicação e de assegurar o respeito da boa-fé no comércio
internacional".

Em suma, é a ‘era dos estatutos’, a qual, igualmente inspirada


na principiologia da Constituição Federal de 1988, produziu o Código de Defesa do
Consumidor, de matriz constitucional, vez que o legislador constituinte erigiu a defesa
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do consumidor à categoria de direito fundamental (artigo 5°, XXXII) e a princípio da


ordem econômica (artigo 170, V), ambos da Carta Magna/88.

Em verdade, considerado a lei rejuvenescedora do Direito Civil


Brasileiro, o Código de Defesa do Consumidor foi quem, pela vez primeira, positivou
expressamente a boa-fé objetiva no ordenamento jurídico pátrio, mencionando-a em
dois momentos, sendo o primeiro no capítulo da política nacional de relações de
consumo (artigo 4°, III) e o segundo na seção das cláusulas abusivas (artigo 51, IV).

Num primeiro momento, a boa-fé objetiva aparece como


princípio, a saber:

Artigo 4°: A Política Nacional das relações de Consumo tem por


objetivos o atendimento das necessidades dos consumidores, o
respeito à sua dignidade, saúde e segurança, a proteção de
sues interesses econômicos, a melhoria da sua qualidade de
vida, bem como a transparência e harmonia das relações de
consumo, atendidos os seguintes princípios: (...)

III – harmonização dos interesses dos participantes das relações


de consumo e compatibilização da proteção do consumidor com
a necessidade de desenvolvimento econômico e tecnológico, de
modo a viabilizar os princípios nos quais se funda a ordem
econômica (art. 170 da Constituição Federal), sempre com base
na boa-fé e equilíbrio nas relações entre consumidores e
fornecedores".

Num segundo momento, a boa-fé objetiva aparece como


cláusula geral, ou seja:

"Art. 51. São nulas de pleno direito, entre outras, as cláusulas


contratuais relativas ao fornecimento de produtos e serviços que:

IV- estabeleçam obrigações consideradas iníquas, abusivas, que


coloquem o consumidor em desvantagem exagerada, ou sejam
incompatíveis como a boa-fé ou a equidade".
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Agora, com a edição do novo Código Civil, definitivamente e pela


primeira vez na legislação civil brasileira, a boa-fé objetiva passa a ser consagrada, de
forma clara a expressa, conforme dispõe o artigo 422:

"Art. 422. Os contratantes são obrigados a guardar, assim na


conclusão do contrato, como em sua execução, os princípios de
probidade e boa-fé".

O princípio da boa-fé objetiva no novo Código Civil

A abalizada doutrina, e, muito especialmente, o grande jurista


alagoano Paulo Luiz Netto Lôbo , assesta que:

"a boa-fé objetiva é regra de conduta dos indivíduos nas


relações jurídicas obrigacionais. Interessam as repercussões de
certos comportamentos na confiança que as pessoas
normalmente neles depositam. Confia-se no significado comum,
usual, objetivo da conduta ou comportamento reconhecível no
mundo social. A boa-fé objetiva importa conduta honesta, leal,
correta. É a boa-fé de comportamento".( Princípios Sociais dos
Contratos no Código de Defesa do Consumidor e no Novo Código
Civil. In: Revista de Direito do Consumidor. São Paulo: Revista dos
Tribunais, abril-junho, 2002, v. 42, p. 193.)

Em igual sentido, ‘mutatis mutandis’, elucida Cláudia Lima


Marques que:

“a "boa-fé objetiva significa, portanto, uma atuação ‘refletida’,


uma atuação refletindo, pensando no outro, no parceiro
contratual, respeitando seus interesses legítimos, suas
expectativas razoáveis, seus direitos, agindo com lealdade, sem
abuso, sem obstrução, sem causar lesão ou desvantagem
excessiva, cooperando para atingir o bom fim das obrigações: o
cumprimento do objetivo contratual e a realização dos
interesses das partes". (Contratos no Código de Defesa do
Consumidor. 3ª edição. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1999, v. I,
p. 106-107).
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A boa-fé objetiva se acha inserida no novo Código Civil enquanto


um princípio, de cunho social, estampado que se acha pela cláusula geral disposta no
artigo 422.

Aliás, nesse sentido, o novel codificador agiu bem em positivar a


boa-fé objetiva enquanto cláusula geral, na medida que, através dessa técnica
legislativa, faculta-se ao aplicador do Direito uma linha teleológica de interpretação,
objetivando a abertura do sistema jurídico para permitir o ingresso de princípios e
valores, de forma ‘não-casuística’.

A cláusula geral é uma valiosa técnica legislativa que, não


obstante a sua vagueza semântica, segundo uma parcela da doutrina, representa um
importante instrumento de vivificação do ordenamento jurídico, desde quando, é claro,
seja prudente e sabiamente operada pela magistratura, no sentido de acompanhar a
dinamicidade e a vicissitude da vida moderna.

A boa-fé objetiva trata-se, pois, de um princípio, ou de uma


cláusula geral.

Por oportuno, registre-se que a norma do artigo 422 do Código


Civil de 2002 refere-se a ambos os contratantes do contrato comum, civil ou comercial,
não podendo o princípio ser aplicado preferencialmente ao contratante devedor, mas
aplicado a qualquer deles, indistintamente.

E ainda: que o princípio da boa-fé objetiva, segundo a melhor


doutrina, aplica-se aos contratantes antes, durante e após o contrato, ou seja, é
aplicável à conduta dos contratantes antes da celebração (in contrahendo) ou após a
extinção do contrato (post pactum finitum).

8. A acolhida jurisprudencial sobre a boa-fé objetiva

No dizer de Bruno Lewicki (Panorama da boa-fé objetiva. In:


Problemas de Direito Civil-Constitucional. Gustavo Tepedino (Coordenador). 1ª edição. Rio
de Janeiro, p.71), o debate sobre a boa-fé objetiva em nossos tribunais, mormente nas
cortes superiores, tem se dado de forma esporádica e tênue, possivelmente em razão
da cultura jurídica herdada pelos operadores do direito, na sua grande maioria ainda
11

muito ligada à idolatria da codificação, na medida que entende e admite o Código Civil
como a ‘constituição do direito privado’.

Tal visão deve ser rechaçada.

A moderna civilística advoga a resistematização do sistema


jurídico civil, a partir da Constituição Federal, enquanto vértice do ordenamento
jurídico, e não mera base deste.

É o chamado Direito Civil Constitucional, ou seja, a legislação


civil lida e interpretada à luz do Texto Constitucional e não o inverso.

Nesse sentido, pois, é de se aplaudir alguns votos proferidos


pelo então Desembargador Ruy Rosado de Aguiar Junior, do Tribunal de Justiça do
Rio Grande do Sul, lavrados no final da década de oitenta e os primeiros anos da
década de noventa, os quais, fazendo ou não menção expressa ao princípio da boa-fé
objetiva passaram a corporificar uma renovada concepção do direito das obrigações.

À guisa de exemplo, trazemos à baila o famoso ‘caso dos


tomates’, cujo acórdão foi lavrado em 06/06/1991, relatado pelo jurista citado, "no
qual, de forma majoritária, entendeu-se que uma vigorosa empresa do ramo
alimentício era responsável pelas perdas dos agricultores que haviam confiado na
compra de sua safra de tomates – o que a Ré fazia sistematicamente, ano após ano,
exercitando um comportamento que instava a parte autora ao plantio, inclusive através
da distribuição de sementes. Como naquele ano a empresa negara-se a comprar a
produção, movida por interesses próprios, determinou-se que ela deveria
"...indenizar aqueles que lealmente confiaram no seu
procedimento anterior e sofreram o prejuízo".
Mais recentemente, o mesmo jurista, agora já Ministro Ruy
Rosado de Aguiar, do Superior Tribunal de Justiça, assim relatou: "O compromisso
público assumido pelo ministro da Fazenda, através de Memorando de Entendimento,
para suspensão de execução judicial de dívida bancária de devedor que se
apresentasse para acerto de contas, gera no mutuário a justa expectativa de que essa
suspensão ocorrerá, preenchida a condição. Direito de obter a suspensão fundado no
princípio da boa-fé objetiva, que privilegia o respeito à lealdade" (STJ, 4ª T., RMS
6183, rel. Min. Ruy Rosado de Aguiar, v.u., j. 14.11.1995).
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A bem se ver, pois, como bem ressalta a doutrina, o princípio da


boa-fé objetiva tem uma ‘vocação expansionista’, agora muito mais alargada em face
de sua expressa previsão legal, no Código Civil de 2002.

À vista do laborioso trabalho da jurisprudência alemã, a partir da


Primeira Guerra Mundial, a cláusula da boa-fé objetiva difundiu-se à larga, mas não
chegou a ser adotada pelo Código Civil de 1916. Ao contrário, o Código Civil em vigor
consagrou a boa-fé subjetiva, mormente em matéria possessória.

Dogmaticamente inconfundíveis, a boa-fé subjetiva diz com um


estado de ignorância de uma pessoa, de estar agindo a não prejudicar outrem,
enquanto a boa-fé objetiva diz com uma regra de conduta, pautada na lealdade e
honestidade, a ser observada pelos contratantes, tanto na celebração quanto na
execução do contrato.

De início consagrada pelo Código de Defesa do Consumidor, a


boa-fé objetiva ingressa na legislação civil pela norma do artigo 422 do Código Civil de
2002, como um princípio social, uma linha teleológica de interpretação, sob a forma de
uma cláusula geral, o que significa, a grosso modo, um instrumento à disposição do
aplicador do direito para vivificar o ordenamento jurídico, diante da voluptuosidade dos
fatos sociais hodiernos.

Todavia, com o advento do novel Código Civil, espera-se que a


magistratura nacional, com prudência e coragem, dê concretude a esse novo princípio
contratual, o qual, em suma, busca alcançar a Justiça Contratual.

Por oportuno, a Autora apresenta acórdão proferido nos autos


da apelação cível oriunda da 16ª Câmara Cível do TJRS, possui nº 598209179,
figurando como apelante Eunice Dias Casagrande e, como apelada, Acemil
Empreendimentos Imobiliários Ltda. Contendo o seguinte teor:

"RESPONSABILIDADE PRÉ-CONTRATUAL OU CULPA IN CONTRAHENDO. Tendo


havido tratativas sérias referentes à locação de imóvel, rompidas pela requerida sem
justificativa e sem observância dos deveres anexos decorrentes do princípio da boa-fé
objetiva, cabe indenização. Lições doutrinárias. Apelo provido em parte."
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Cuida-se de ação visando à declaração de validade de contrato de locação, com


conseqüente condenação da demandada ao pagamento de multa por inadimplemento
integral de obrigação pactuada (art. 1.193, CC), ou em quantia arbitrada pelo juízo,
cumulada com indenização por danos morais.

Em síntese, alegou a demandante que, no dia 13/11/95, candidatou-se à locação de


um imóvel para fins residenciais, imóvel este administrado pela demandada,
oportunidade em que recebera preferência na locação.

Aduz que assinara os contratos de locação juntamente com seus fiadores, tendo os
devolvido à demandada, objetivando, em conseqüência, que lhe fossem entregues as
chaves, bem como fosse lhe dada a posse dos imóveis. Todavia, diz que a
demandada negou-se a assinar os respectivos contratos, ao argumento de que o
proprietário do imóvel teria desistido da locação, momento em que este revogou a
procuração outorgada à demandada para administração dos imóveis.

Sustenta existir, entre as partes, contrato verbal em plena vigência. Pleiteia,


pois, a declaração de validade do contrato, incluindo-se, aí, pagamento de multa
por inadimplemento integral de obrigação, nos termos do disposto no art. 1193
do CC, ou valor arbitrado pelo juízo, cumulada com indenização por danos
morais.

Citada, a demandada contestou a ação. Aduz, em síntese, que a demandante,


efetivamente, teria se candidatado à locação do imóvel, todavia sem ter recebido
qualquer preferência, isso em 13/11/95. Diz que em 22/11/95 o proprietário do
apartamento revogou a procuração que autorizava à ré a administração do imóvel, o
que ensejou a impossibilidade de celebrar o contrato de locação com a demandante.
Defende, pois, que, como não houve celebração de nenhum contrato de locação, os
respectivos efeitos não podem incidir, não sendo devido, pois, a indenização por
cláusula penal. Refere inexistir, in casu, o alegado contrato verbal, bem como a
ocorrência de dano moral à demandante em face do episódio.

O voto condutor do julgado, aplicou os fundamentos que orientam a


responsabilidade pré-contratual. Fundamentou a relatora que, na hipótese,
incide o princípio da boa-fé objetiva, atuando como norma de conduta entre os
contraentes. Referiu que, desse princípio, decorrem os chamados deveres
14

anexos ou secundários ou acessórios, como são os de cuidado, de informação


ou aviso, e de cooperação.

Concluindo o voto condutor que, efetivamente, ocorrera sérias tratativas


relativamente ao contrato de locação à época em que a apelada detinha poderes
para administrar os imóveis e que o contrato chegou a ser elaborado, mas que
não fora devidamente efetivado sem que ficasse evidenciada a razão da
desistência da locação, não tendo a apelada se comportado com o respeito em
relação à apelante, cuidado esse que deve pautar todas as relações negociais,
entendeu o colegiado ser cabível a indenização por danos morais em face da
frustração e incômodos causados.

O princípio da boa-fé objetiva, de relevante e importante aplicação no âmbito do


Direito Privado, ganha espaço na oportunidade onde se averigúa o comportamento
dos contraentes desde já o momento da negociação preliminar até o término do
contrato, com efetivo adimplemento da obrigação, tendo-se em mente a visão da
totalidade, da obrigação como um processo; ambas as partes devem atuar com
lealdade e cooperação, comprometendo-se, mutuamente, à garantia da palavra
empenhada, respeitando as respectivas expectativas criadas de modo a
preservar o comportamento ético que se pauta e se objetiva para o fim de
preservar a segurança jurídica das relações negociais.” (GRIFAMOS)

No magistério de Judith Hofmeister Martins-Costa (10. in "O


direito privado como um "sistema em construção": as cláusulas gerais no Projeto do
Código Civil Brasileiro", artigo publicado na Internet:
www.ufrgs.br/mestredir/doutrina/martins1.htm.), a eminente doutora ensina, citando
expressão de Ernesto Wayar (11), que "cada pessoa deve ajustar a sua própria conduta
a esse arquétipo, obrando como obraria um homem reto: com honestidade, lealdade,
probidade"; e mais adiante preleciona:

"Por este modelo objetivo de conduta levam-se em consideração os fatores concretos


do caso, tais como o status pessoal e cultural dos envolvidos, não se admitindo uma
aplicação mecânica do standard... o que vem a significar que, na concreção da boa-fé
objetiva deve o intérprete desprender-se da pesquisa da intencionalidade da parte, de
nada importando, para a sua aplicação, a sua consciência individual no sentido de não
estar lesionando direito de outrem ou violando regra jurídica. O que importa é a
15

consideração de um padrão objetivo de conduta, verificável em certo tempo, em


certo meio social ou profissional e em certo momento histórico."

Segundo Clóvis do Couto e Silva in "A obrigação... ", p. 30,


encontramos:

“E o que se busca em exigir dos contratantes o dever de


lealdade, de probidade e de honestidade? Como se disse, a
busca da ética aos partícipes da relação negocial (tanto o credor
como, também, o devedor), fixando-se uma situação de mútua
assistência a fim de atingir o objetivo comum, ou seja, o correto
adimplemento da obrigação, que é a sua finalidade .”

A pedra-de-toque para a presente questão está ligada à natureza


jurídica da obrigação assumida pela consignatário. Alguns autores entendem que a
obrigação assumida pelo mesmo é alternativa, outros que se trata de uma obrigação
facultativa

A obrigação alternativa é espécie do gênero obrigação


composta, sendo esta a que se apresenta com mais de um sujeito ativo, ou mais de
sujeito passivo, ou mais de uma prestação. A obrigação alternativa ou disjuntiva é,
assim, uma obrigação composta objetiva, tendo mais de um conteúdo ou prestação.
Normalmente, a obrigação alternativa é identificada pela conjunção ou, que tem
natureza disjuntiva, justificando a outra denominação utilizada pela doutrina.

Já a obrigação facultativa não está prevista no Código Civil.


De qualquer modo é normalmente tratada pela doutrina. Maria Helena Diniz dá um
exemplo didático dessa obrigação in facultate solutionis: "se alguém, por contrato, se
obrigar a entregar 50 sacas de café, dispondo que, se lhe convier, poderá substituí-las
por R$ 20.000,00, ficando assim com o direito de pagar ao credor coisa diversa do
objeto do débito" (Curso de Direito Civil Brasileiro. 2º Volume, São Paulo: Saraiva,
2002, p. 124).

Vale lembrar que nessa obrigação o Autor não pode exigir que
a Ré escolha uma ou outra prestação, sendo uma faculdade exclusiva deste.
Conseqüência disso, havendo impossibilidade de cumprimento da prestação, sem
culpa do autor, como demonstrado, a obrigação se resolve, em perdas e danos como
o equivalente da obrigação, mais a indenização cabível.
16

Em sendo deferido o pedido do Autor, como assim aguarda


confiante, no que se refere às providências e obtenção do resultado prático, que
devem ser tomadas pela empresa-ré, no sentido de continuar a prestar o benefício de
descontos na compra de cimento pelos associados do Autor, requer-se seja
assinalado prazo à mesma para cumprimento da ordem judicial.

Ainda, na mesma decisão definitiva, requer o Autor, seja


fixado o valor de multa penal por dia de atraso ao cumprimento da ordem, com
base no art. 644, cc. art. 461, ambos do CPC, com as introduções havidas pela Lei nº
10.444, de 07.05.2002.

Aliás, uma vez demonstrado nos autos o direito do Autor de


continuar fornecendo aos seus associados o desconto sob a compra de cimento,
lesados pela ruptura do pacto laboral unilateralmente pela Ré sem que houvesse mais
a respectiva fruição, há que ser o benefício convertido em indenização substitutiva,
independentemente de previsão na norma que os originou. Isto porque a conversão de
obrigação de fazer inadimplida em perdas e danos encontra previsão expressa nos
arts. 248 do Novo Código Civil (equivalente ao art. 879 do antigo Código Civil) e 461
do Código de Processo Civil.

Vale ressaltar, sobre a responsabilidade da Requerida pelo


serviço que oferece, para tanto, necessário transcrever novamente dizeres do Dr.
Sérgio Cavalieri Filho em sua obra já citada, na pág. 366, sobre a Teoria do Risco do
Empreendimento:

"...todo aquele que se disponha a exercer alguma


atividade no mercado de consumo tem o dever de
responder pelos eventuais vícios ou defeitos dos bens e
serviços fornecidos, independentemente de culpa. Este
dever é imanente ao dever de obediência às normas
técnicas e de segurança, bem como aos
critérios de lealdade, quer perante os
bens e serviços ofertados, quer perante
os destinatários dessas ofertas . A
responsabilidade decorre do simples fato de dispor-se
alguém a realizar atividade de produzir, estocar,
distribuir e comercializar produtos ou executar
determinados serviços. O fornecedor passar a ser o
garante dos produtos e serviços que oferece no
mercado de consumo, respondendo pela qualidade e
segurança dos mesmos."(grifos nossos)
17

Este posicionamento doutrinário é ratificado pela


jurisprudência em grande número de decisões, como esta:

"O dano moral não é estimável por critérios de dinheiro. Sua


indenização é esteio para a oferta de conforto ao ofendido,
que não tem a honra paga, mas sim uma reparabilidade ao
seu desalento." (TJSP - 5ª C. - Ap. - Rel. Silveira Neto,
j.29/10/92 - JTL - LEX 142/104)

DA NECESSIDADE DE SE IMPEDIR A CARTELIZACAO DO CIMENTO

Excelência, o Autor entende que permitir que a empresa de


cimento passe a dar descontos independentes a quem achar conveniente, faz cair por
terra o livre acesso da população em escolher essa ou aquela construtora que mais
lhe seja economicamente viável para aquisição de uma casa própria, até mesmo
porque uma construtora, por comprar um cimento em valor inferior a outra, terá mais
condições de preço para vender seus imóveis, mesmo sendo estes inferiores a outro,
mas em face do valor bastante menor que pagou por um item essencial à construção,
qual seja, cimento, poderá vender mais, em detrimento não apenas de seus
concorrentes, mas principalmente da população, não sendo sadia tal concorrência.

Oras, isto, por si, acabará acarretando em


profunda lesão ao cidadão, que é o consumidor final!
O que não falar também de licitações Excelência? Pois,como
concorrer com empresas que adquirem produto tão essencial à construção quanto o
cimento, com preços muito inferiores? Como superar tais valores? Será praticamente
impossível. Assim, uma concorrência pode ser ganha não por uma empresa
porventura mais qualificada, mas simplesmente por aquela que apresentou a melhor
oferta, impossível de ser batida em face da compra totalmente desleal efetivada. O
Poder Publico igualmente será lesado.

Enfim, como se vê, os reflexos desta nova


atitude da Ré atingirá to setor público em larga
abrangência.
18

O tema “ cartelização” já foi anteriormente travado em nosso


Estado, havendo inclusive um projeto para CPI. Vejamos inclusive uma publicação
ocorrida no JORNAL DA CIDADE::

“Um assunto tratado aqui no JORNAL DA CIDADE abriu uma discussão


oportuna sobre o preço praticado em Sergipe pelas revendedoras de cimento.
O Estado, segundo pesquisas parciais, teria um dos sacos de cimento
mais caros do país. E o pior: há a suspeita de prática de cartel na
comercialização do produto. A paridade do valor cobrado, que tem uma
margem muito pequena de diferença, deixou o Ministério Público estadual com
algumas dúvidas. O caso será tratado com a atenção que merece a partir de
agora.

O preço do cimento, salgado e bem parecido nas lojas do Estado, motivou a


Procuradoria Geral do Estado a abrir uma investigação. O procurador Pedro
Dias pretende avaliar alguns aspectos do assunto, como o preço, pois entende
que há indícios de formação de cartel. Caso se depare com provas nesta fase
dos estudos, não descarta a hipótese de encaminhar o caso ao Conselho
Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e ao Judiciário. Tem razão o
promotor.

As suspeitas que povoam a cabeça de Pedro Dias sempre intrigaram o


consumidor sergipano e já foram alvo de protestos das construtoras locais.
Teriam ameaçado importar o produto de países do Leste Europeu em
retaliação aos preços praticados em Sergipe. O Ministério Público quer saber
por que existe uma diferença tão absurda entre o preço do cimento vendido no
Estado e o valor do mesmo produto, que é fabricado em duas indústrias de
Sergipe, comercializado em outros Estados. Alguma coisa está errada, não
tenham dúvida e logo teremos explicações.

Se o promotor encontrar indícios de cartelização o caso terá a repercussão que


merece, ou seja, será tratado no âmbito da Justiça criminal, pois estará se
cometendo, neste caso, um crime contra o consumidor. Pedro Dias espera
contar com a ajuda do Sindicato da Indústria da Construção Civil
(Sinduscon), entidade que nunca conseguiu digerir o preço do cimento no
Estado. Numa pesquisa inicial, já conseguiu obter algumas informações
importantes, como o valor do cimento vendido aos construtores sergipanos: R$
15. O problema é que o mesmo produto é vendido pela metade do preço para
19

fora do Estado. "Em tese, teria que ser vendido mais barato aqui no Estado, pois
não existe custo de frete", argumenta o promotor.

A iniciativa do Ministério Público é acertada e pode corrigir essa distorção.


Pode até redundar numa mudança drástica, pois se for provado o cartel e
prática abusiva quem será beneficiado é o consumidor. O assunto também
interessa ao deputado federal José Carlos Machado, que não vê motivos para
um saco de cimento custar tão caro em Sergipe.

Essa discussão, que interessa tanto à economia do Estado, surge em


bom momento. Há um expressivo crescimento na oferta de imóveis, que
podem ser barateados se o preço do cimento cair, e ainda um aumento no
consumo do produto, na venda direta ao consumidor, pois o aracajuano
constrói ou reforma suas residências aproveitando o bom momento da
economia no país. O que todos aguardam agora é que outros segmentos da
sociedade e também a classe política passem a se interessar pela questão.
Quem sabe outros setores que também praticam preços abusivos passem a
agir com mais moderação e respeito.”

O JORNAL DA CIDADE registra há mais de dois anos a prática de cartel no


Estado de Sergipe. Primeiro os postos de combustíveis, depois as redes de
supermercados e farmácias e agora a questão do preço do cimento. O
procurador dos Estado, Pedro Dias, tem se empenhado nesta questão e obtido
resultado favorável para a sociedade. Mas, afinal, o que é cartel? A definição
legal de cartel, ou seja, a descrição daquilo que a lei proíbe expressamente,
fala em “fixar ou praticar, em acordo com concorrente, sob qualquer forma,
preços e condições de venda de bens ou de prestação de serviços” (Lei nº
8.884, e 1994, artigo 21, inciso I).”

Ademais, Sergipe é o menor Estado do País, e em


conseqüência, as distancias são menores e as jazidas locais, próximas das
fábricas. É de supor, portanto, que todos gozam de incentivos fiscais, não
justificando termos um dos preços de cimento mais altos do País.

Dessa forma Exa., é notória a discriminação a que vem


sofrendo os associados da Suplicante, bem como o prejuízo que sofrera a
população como um todo, acaso tal regra continue tendo aplicação por parte do
Réu.
20

DOS DANOS MORAIS SOFRIDOS POR PARTE DO SUPLICANTE

DANO A HONRA OBJETIVA DA SUPLICANTE

Transcreva-se novamente o acórdão proferido nos autos da apelação


cível oriunda da 16ª Câmara Cível do TJRS, possui nº 598209179, figurando como
apelante Eunice Dias Casagrande e, como apelada, Acemil Empreendimentos
Imobiliários Ltda. Contendo o seguinte teor:

"RESPONSABILIDADE PRÉ-CONTRATUAL OU CULPA IN CONTRAHENDO. Tendo


havido tratativas sérias referentes à locação de imóvel, rompidas pela requerida sem
justificativa e sem observância dos deveres anexos decorrentes do princípio da boa-fé
objetiva, cabe indenização. Lições doutrinárias. Apelo provido em parte."

Primeiramente, relevante elucidar o viés constitucional que permeia o presente


pedido, visto que a Carta Magna pauta todo o ordenamento jurídico pátrio, irradiando
princípios e regras gerais. Neste diapasão, seguem alguns dispositivos constitucionais
violados pela Autora:

“Art. 5º - Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer


natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes
no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à
segurança e à propriedade, nos termos seguintes:
V – é assegurado o direito de resposta, proporcional ao agravo,
além da indenização por dano material, moral e à imagem;
X – são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem
das pessoas, assegurando o direito a indenização pelo dano material
ou moral decorrente de sua violação;” (grifos aditados).

Seguindo a exposição do embasamento jurídico do pleito ora formulado,


importante trazer a baila os dispositivos constantes no Codex Civil que são aplicáveis
ao caso sub examine:
21

“Art. 52 – Aplica-se às pessoas jurídicas, no que couber, a


proteção dos direitos da personalidade.”

“Art. 186 – Aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência


ou imprudência, violar direito e causar dano a outrem, ainda que
exclusivamente moral, comete ato ilícito.”

“Art. 187 – Também comete ato ilícito o titular de um direito que,


ao exercê-lo, excede manifestamente os limites impostos pelo
seu fim econômico ou social, pela boa-fé ou pelos bons
costumes.”

“Art. 927 – Aquele que, por ato ilícito (art. 186 e 187), causar dano a
outrem, fica obrigado a repará-lo.” (grifos acrescidos).

Ressalte-se que inexiste qualquer divergência legal ou jurisprudencial


no que tange a possibilidade de pessoas jurídicas sofrerem danos morais e à sua
imagem, constituindo-se inclusive em matéria sumulada pelo Superior Tribunal de
Justiça, senão veja-se:

“Súmula 227 do STJ – A pessoa jurídica pode sofrer dano moral.”


(grifos nossos).

A atitude praticada pela Ré “fere de morte” a honra objetiva da


Autora, que se trata de uma entidade de classe que existe para cuidar dos interesses
de seus associados e que não mede esforços para fazê-lo, de forma correta e idônea,
agindo sempre com lisura.

Conclui-se que o ordenamento jurídico pátrio preocupou-se em


englobar diversos dispositivos constitucionais e infra-constitucionais no intuito de
resguardar o direito à integridade moral, à honra objetiva, imagem, ao bom nome, a
boa reputação, boa fama etc, devendo os mesmos, no presente caso, saírem do
campo da abstração para irradiarem seus efeitos diante do caso concreto ora em
análise, onde se observa uma explícita violação aos referidos dispositivos.
22

Direitos da personalidade aplicáveis às pessoas jurídicas.

"... fazem jus ao reconhecimento de atributos intrínsecos à sua essencialidade, como,


por exemplo, os direitos ao nome, à marca, a símbolos e à honra. Nascem com o
registro da pessoa jurídica, subsistem enquanto estiverem em atuação e terminam
com a baixa do registro, respeitada a prevalência de certos efeitos posteriores, a
exemplo do que ocorre com as pessoas físicas. .."

Por tal princípio enunciado por Bittar, são compatíveis todos


aqueles direitos intrínsecos e essenciais à existência da pessoa jurídica, protegendo-
se desde o momento de seu registro – nascimento da pessoa jurídica -, até o seu
encerramento, protegendo-se, ainda, certos direitos mesmo após tal encerramento.
Sobre essa última assertiva, da mesma forma que, por exemplo, a honra de pessoa já
falecida poderá ser alvo de proteção a ser requerida pelos parentes – "cônjuge
sobrevivente, ou qualquer parente da linha reta, ou da colateral até o quarto grau" -,
nos termos do artigo 12, parágrafo único, do novo Código, com o encerramento da
pessoa jurídica, por esse raciocínio de compatibilidade do artigo 52 – dando direitos da
personalidade às pessoas jurídicas -, em tese, será admissível a proteção da honra da
pessoa jurídica "morta", já com suas atividades encerradas, por seus antigo sócios, e
até herdeiros, na mesma ordem fixada no artigo 12, vez que notoriamente podem
sofrer conseqüências patrimoniais e extrapatrimoniais tendo em vista participação em
antiga pessoa jurídica. Acrescentamos, ainda, que não há disposição no novo Código
que vede tal interpretação, aliando-se que toda e qualquer interpretação deve ser
fixada aqui no sentido de promover a inovação trazida, dos direitos da personalidade à
pessoa jurídica, bem como por ser a honra direito fundamental protegido
constitucionalmente.

Resta, portanto, saber quais seriam os direitos, a priori,


aplicáveis às pessoas jurídicas.

Podemos destacar, dentre outros, já que ilimitados, como direitos


da personalidade aplicáveis às pessoas jurídicas: honra, reputação, nome, marca e
símbolos (direito à identidade da pessoa jurídica), propriedade intelectual, ao segredo
e ao sigilo, privacidade, e assim todos que, com o avanço do direito, fizerem-se
necessários à proteção dos desdobramentos e desenvolvimento da "vida" das
pessoas jurídicas.
23

Reparação civil dos danos causados por ofensa aos direitos da personalidade
da pessoa jurídica.

O sancionamento, na órbita civil, da ofensa aos direitos da


personalidade é o dever de reparar o dano moral causado, sendo que esse, vale
lembrar, não é necessariamente uma ofensa a um direito da personalidade, mas sim
uma ofensa a um bem jurídico extrapatrimonial, dentre eles, os direitos da
personalidade.

Nesse sentido, a doutrina já tem havido como cabível a


reparação do dano moral causado à pessoa jurídica, notadamente contra sua honra
objetiva – direito da personalidade -, pelo que a teor dos artigos 12 e 52, já citados, do
novo Código Civil, reforço terá também a jurisprudência, que vem sendo franca nesse
sentido.

Assim, a jurisprudência, que já teve força no sentido contrário à


concessão de reparação de dano moral à pessoa jurídica, firmou-se de forma
majoritária pela sua permissão:

"RESPONSABILIDADE CIVIL - Danos morais - pessoa jurídica - Ao adquirir


personalidade, a pessoa jurídica faz jus à proteção legal e estatal à sua honra objetiva,
considerada assim a reputação que goza em sua área de atuação. O dano moral puro
é aquele em que a ofensa que lhe deu causa não traz reflexos patrimoniais,
independendo, sua reparação, da existência de prejuízos econômicos oriundos do
ataque irrogado. Recurso conhecido e improvido."

"RESPONSABILIDADE CIVIL - DANO MORAL - PESSOA JURÍDICA -


ADMISSIBILIDADE - INSTITUIÇÃO FINANCEIRA QUE PROTESTA INDEVIDAMENTE
TÍTULO CAMBIAL - FATO QUE ACARRETA CONSEQÜÊNCIAS DANOSAS DE
ORDEM PATRIMONIAL À EMPRESA - OFENSA À HONRA OBJETIVA
CARACTERIZADA - INDENIZAÇÃO DEVIDA - A honra objetiva da pessoa jurídica
pode ser ofendida pelo protesto indevido de título cambial, cabendo indenização pelo
dano extrapatrimonial daí decorrente."

Da mesma forma que assim no que se refere à honra, quanto


aos demais direitos da personalidade da pessoa jurídica também é plenamente cabível
24

a sua tutela, nos mesmos moldes a ensejar a reparação, notadamente, dos danos
morais causados.

Ainda, quanto à reparação civil, deve-se aduzir que não só


prejuízos extrapatrimoniais são causados no momento de ofensas aos direitos da
personalidade, podem também ser causados danos materiais, advindos, por exemplo,
de perda sensível nos resultados econômicos, provenientes de abalo na honra da
pessoa jurídica, incide, nesse caso, a Súmula nº 37 do Superior Tribunal de Justiça
sobre cumulação dos danos moral e material, pelo que admissível na mesma ação o
pedido de reparação de todos os danos causados pela ofensa ao direito da
personalidade.

Assim sendo, plenamente cabível a ação visando a reparação


dos danos causados aos direitos da personalidade da pessoa jurídica.

Fazendo uso das palavras de Planiol, patrimônio não significa


riqueza. Nele se computam obrigações e todos os bens de ordem material e moral,
entre estes o direito à vida, à honra, à liberdade e à boa fama.

Como chegar ao dano moral e à obrigação de indenizar?

Através do estudo do ato ilícito, que é aquele praticado em


descompasso com o ordenamento jurídico.

A prática de ato ilícito deve ser punida e desestimulada.

Toda lesão a qualquer direito traz como conseqüência a


obrigação de indenizar.

A responsabilidade civil enfatiza o dever de indenizar sempre


que os elementos caracterizadores do ato ilícito estiverem presentes.

A teoria da responsabilidade civil está construída sobre a


reparação do dano. Tal princípio emerge do art. 159, do Código Civil Brasileiro:
25

“aquele que por ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência violar


direito ou causar prejuízo a outrem, fica obrigado a reparar o dano”.

É oportuno trazer à reflexão as ponderações de CAIO MÁRIO


DA SILVA PEREIRA: “para a determinação da existência do dano, como elemento
objetivo da responsabilidade civil, é indispensável que haja ofensa a um bem
jurídico”.

O dano é tratado em sentido amplo, ilimitado, irrestrito.

DANO MORAL - O VALOR DE SUA REPARAÇÃO

Modernamente, verificamos que o dano moral não corresponde


à dor, mas ressalta efeitos maléficos marcados pela dor, pelo sofrimento. São a apatia,
a morbidez mental, que tomam conta do ofendido. Surgem o padecimento íntimo, a
humilhação, a vergonha, o constrangimento de quem é ofendido em sua honra ou
dignidade, o vexame e a repercussão social por um crédito negado.

Para que se amenize esse estado de melancolia, de desânimo,


há de se proporcionar os meios adequados para a recuperação da vítima.

Quais são esses meios? Passeios, divertimentos, ocupações,


cursos, a que CUNHA GONÇALVES chamou de “sucedâneos”, que devem ser pagos
pelo ofensor ao ofendido.

Não se está pagando a dor nem se lhe atribuindo um preço e


sim aplacando o sofrimento da vítima, fazendo com que ela se distraia, se ocupe e
assim supere a sua crise de melancolia.
26

AUGUSTO ZENUN considerou impróprio o vocábulo


“sucedâneo”, denominando os meios adequados para a recuperação do ofendido de
“derivativos”.

Derivativo significa ocupação ou divertimento com que se


procura fugir a estados melancólicos.

O derivativo não representa a dor, mas os meios para combater


os males oriundos da dor (tristeza, apatia, tensão nervosa).

Condenar o ofensor por danos morais implica reparar o


necessário para que se propicie os meios de retirar o ofendido do estado melancólico
a que fora levado.

Questiona-se agora a dor.

A dor não é generalizada, é personalíssima, varia de pessoa a


pessoa (uns sentem-na menos, outros em maior profundidade). Uns são mais fortes,
outros mais suscetíveis ao sofrimento.

Há pessoas que dispensam os derivativos: são os estóicos, os


de coração empedernido.

Na avaliação do dano moral, o juiz deve medir o grau de seqüela


produzido, que diverge de pessoa a pessoa. A humilhação, a vergonha, as situações
vexatórias, a posição social do ofendido, o cargo por ele exercido e a repercussão
negativa em suas atividades devem somar-se nos laudos avaliatórios para que o juiz
saiba dosar com justiça a condenação do ofensor.
27

Há ofensor que age com premeditação, usando de má-fé,


unicamente para prejudicar, para arranhar a honra e a boa fama do ofendido. Neste
caso, a condenação deve atingir somas mais altas.

Bisando CAIO MÁRIO DA SILVA PEREIRA: “o fundamento da


reparabilidade pelo dano moral está em que, a par do patrimônio em sentido técnico,
o indivíduo é titular de direitos integrantes de sua personalidade, não podendo a
ordem jurídica conformar-se em que sejam impunemente atingidos”.

Costumam os julgadores atentar para a repercussão do dano na


vida do ofendido e para a possibilidade econômica do ofensor.

A Constituição Federal, em seu art. 5°, incisos V e X, prevê a


indenização por dano moral como proteção a direitos individuais, o que já haviam feito
o Código Brasileiro de Telecomunicações, a Lei de Imprensa e a Lei dos Direitos
Autorais, especificamente.

IVES GANDRA MARTINS considera relevantes alguns aspectos,


os quais devem ser analisados pelos julgadores: extensão do dano; situação
patrimonial e imagem do lesado; situação patrimonial do ofensor; intenção do
autor do dano.

Toda vez que houver ataque à honra, à dignidade, à reputação


de uma pessoa, deverá estar presente a reparação pelo dano moral.

Há os que acham que a reparação pelo dano moral vem


associada à reparação pelo dano material.

O que se valora é a repercussão da lesão sofrida.


28

O Ministro do STJ CARLOS A. MENEZES assim se manifestou:


“não há falar em prova do dano moral e sim prova do fato que gerou a dor, o
sofrimento, sentimentos íntimos que o ensejam”.

PONTES DE MIRANDA foi fervoroso adepto da reparação por


dano moral: os padecimentos morais devem participar da estimação do prejuízo. O
desgaste dos nervos, a moléstia da tristeza projetam-se no físico, são danos de fundo
moral e conseqüências econômicas.

6. Conclusões.

Diante do exposto, podemos concluir sobre os direitos da personalidade e sua


aplicação às pessoas jurídicas no novo Código Civil que:

a)os direitos da personalidade são elencados e protegidos expressamente;

b)há norma de aplicação, no que for compatível, dos direitos da personalidade às


pessoas jurídicas;

c)tal tutela se dará enquanto tiver existência a pessoa jurídica, e em certos casos, até
mesmo após encerradas suas atividades, por seus sócios ou herdeiros;

d)os direitos da personalidade são ilimitados, sendo os lembrados no novo Código a


título exemplar;

e)no que se refere às pessoas jurídicas, são seus direitos da personalidade todos
aqueles atributos inerentes e essenciais a sua existência e desenvolvimento, sendo
dever o seu respeito de caráter absoluto, como característica dos direitos da
personalidade;

f) podem ser citados exemplarmente como direitos da personalidade aplicáveis às


pessoas jurídicas: honra, reputação, nome, marca e símbolos, à identidade,
propriedade intelectual, ao segredo e ao sigilo, e privacidade.
29

g)a tutela dos direitos da personalidade da pessoa jurídica pode se dar em caráter ou
de emergência, para cessar lesão ou sua ameaça, ou principal, com vistas à
reparação do dano causado;

h)a reparação dos danos causados aos direitos da personalidade da pessoa jurídica
podem ser materiais e morais, sendo plenamente cumuláveis.

DA TUTELA ANTECIPADA INAUDITA ALTERA PARS

É fato incontroverso que para o deferimento de TUTELA ANTECIPADA,


o que faz com dois requisitos devem concorrer simultaneamente: a verossimilhança
das alegações invocadas e o receio de dano irreparável ou de difícil reparação.
Passemos então a examiná-los.

A verossimilhança das alegações invocadas geradas por prova


inconteste encontra-se fartamente demonstrada pelas razões de fato e de direito
acima expostas, uma vez que existe um acordo firmado entre as partes, no sentido de
conceder descontos aos associados da Suplicante que estejam em dia com suas
obrigações sindicais e havendo o descumprimento por parte da Ré, forçosamente se
comprova que esta causando lesão aos associados da Suplicante, mormente ainda
alguns deles estarem aguardando receber valores ainda não repassados pelas
compras de cimento somente efetivadas em face de se acreditar na palavra do
sindicato ora Autor de que com suas obrigações sindicais regularizadas receberiam
descontos, independente de tamanho, ordem ou faturamento.

Saliente-se ainda que a plausibilidade do direito pleiteado se externa de


modo sólido e inequívoco, como ocorre no presente feito, e, assim, não há que se
exigir tanto a presença do receio de dano irreparável ou de difícil reparação, pois o
simples fato de os associados da suplicante não estão obtendo o desconto na compra
do cimento, igualmente verdadeiro que está sendo formada, não sabemos se direta ou
30

indiretamente, o “cartel do cimento” . Sobre o tema, o brilhante Dr. Salomão Viana,


Juiz Federal da 4ª Vara da Seção Judiciária do Estado da Bahia, assim se pronunciou:

PROCESSO Nº 2004.33.00.003759-9 - DECISÃO LIMINAR


publicada no DJ de 27/04/04 [...]
E nesses casos em que o fumus boni iuris se apresenta
pujante não se há que exigir tanto a presença do periculum
in mora. (...)
E no caso sub judice não se pode dizer que há certeza e
evidência da inexistência de risco de dano, pois não se pode
desconsiderar a presença desse risco – a configurar um
periculum in mora mínimo, mas suficiente à concessão da
liminar – no fato de que às associadas da impetrante só
restam dois caminhos para evitar se submeter às
conseqüências do não recolhimento do tributo: curvar-se à
exigência da cobrança (para pedir de volta a quantia depois),
ou efetuar depósito suspensivo da exigibilidade do crédito
(para levantamento após o fim do processo).
Uma e outra hipóteses – é bem de se ver – implicarão, para as
empresas contribuintes, a disponibilização de uma quantia em
dinheiro para se ver livre de uma exação que, tudo está a indicar,
é indevida. Esse quadro pode, sem dúvidas, criar riscos para a
eficácia da futura sentença, caso venha ela a ser favorável à
impetração, pois lesões que vierem a ser provocadas em
decorrência do recolhimento, cuja eventual indenização somente
se pode dar pela via morosa dos precatórios, serão de difícil
reparação.
Assim sendo, concedo a liminar requerida para o fim de
determinar.... [...] )

O perigo de dano irreparável ou de difícil reparação consiste


exatamente não só no fato de os associados estarem comprando cimento em valor
bastante superior aos seus concorrentes, praticamente ficando de fora das
concorrências publicas e privadas, posto não poderem jamais alcançar os preços de
seus concorrentes, por estes comprarem cimento em valor muito inferior. Vemos
dificuldades também no setor privado, pois não restam duvidas que um imóvel
construído com insumos mais baratos e com mesma qualidade que os dos associados
do Autor, a escolha comercial é bastante clara por parte dos consumidores.
31

Percebe-se claramente que caso não seja deferida a antecipação dos


efeitos da tutela, inclusive para que a Ré deposite os valores ainda não repassados
aos associados da Suplicante em face das compras efetivadas no passado, como se
faz prova as faturas anexas, a lesão será inevitável e talvez de difícil reparação. Alie-
se ainda ao fato da suspensão imotivada dos descontos respectivos, até mesmo
porque é inconteste a existência de acordo para a compra de cimento com referidos
descontos.

Deste modo, com supedâneo no art. 273, inciso I, do Código de


Processo Civil, e no art. 151, inciso V, do CTN, o Autor requer lhe sejam concedidos os
efeitos da tutela, a fim de que o réu deposite os valores ainda não pagos aos seus
associados, bem como que se digne em determinar a continuidade dos descontos a
todos os associados do suplicante, enquanto não restar decidido quem realmente tem
direito na presente demanda, ficando determinado ainda que seja concedido os
descontos pactuados, até mesmo porque se os descontos existem é porque a margem
de lucro do réu é enorme, além do mais, acaso ação seja julgada improcedente ao
final, a ré retira os descontos e passa a cobrar a todas as empresas os valores das
diferenças não pagas.

Já o contrário será o caos pois os prejuízos serão irreversíveis, como


perda de contratos de licitação, perda de vendas, etc.

DO PEDIDO

Por tudo exposto, serve a presente ação, para requerer à


Vossa Excelência, se digne:

a) Conceder a TUTELA ANTECIPADA para o fim de que o Réu deposite


os valores ainda não pagos aos seus associados, bem como que se
digne em determinar a continuidade dos descontos a todos os
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associados do suplicante, enquanto não restar decidido quem


realmente tem direito na presente demanda, ficando determinado ainda
que seja concedido os descontos pactuados, até mesmo porque se os
descontos existem é porque a margem de lucro do Réu é enorme, além
do mais, acaso ação seja julgada improcedente ao final, a Ré retira os
descontos e passa a cobrar a todas as empresas os valores das
diferenças não pagas.

Que seja notificado o douto representante do Ministério Público


Estadual, no prazo de lei, a fim de cumprir sua quota processual expressamente
prevista no inciso IX do artigo 129 da CF/88, em face do flagrante interesse
publico da demanda.

b) ordenar a CITAÇÃO da RÉ no endereço inicialmente indicado, quanto à


presente ação, para que, perante esse Juízo, querendo, apresente a
defesa que tiver, dentro do prazo legal, sob pena de confissão quanto à
matéria de fato ou pena de revelia, com designação de data para
audiência a critério do D. Juízo, devendo ao final, ser julgada
PROCEDENTE a presente ação, sendo a mesma condenada nos
seguintes termos:

c) compelida por sentença a continuar a fornecer os descontos aos


associados do autor no mesmo percentual anteriormente firmado,
ressaltando-se que em caso de descumprimento da decisão ora perseguida
e postulada, seja cominada multa diária de R$ 1.000,00 (hum mil reais)
limitada a 30 (trinta) dias quando, não tendo ainda efetivada a continuidade
do benefício de desconto sobre a compra de cimentos pelos associados do
autor, se sujeitará ao pagamento de uma indenização, cumulativa à multa
diária cominada, tudo a título compensatório e punitivo, em favor do autor,
em valor pecuniário justo e condizente com o caso apresentado em tela,
qual, no entendimento do Autor, amparado em pacificada jurisprudência,
deve ser equivalente a 100.000,00 cem mil reais, ou então, em valor
que esse D. Juízo fixar, pelos seus próprios critérios analíticos e
jurídicos;

d) condenação em danos morais causados pelo Réu ao Suplicante, na


comprovada desmoralização de sua liderança como entidade de classe, em
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face dos fatos acima alegados, a fim de causar impacto efetivamente


inibitório, em valor que V. Exa., entender por conveniente;

e) incluir na esperada condenação da Ré, a incidência juros e correção


monetária na forma da lei em vigor, desde sua citação;

f) ainda, condenar a Ré ao pagamento das custas processuais que a


demanda por ventura ocasionar, bem como perícias que se fizerem
necessárias, exames, laudos, vistorias, conforme arbitrados por esse D.
Juízo, além dos honorários advocatícios na base de 20% (vinte por cento)
sobre o total da condenação ou que, pelo princípio da sucumbência V. Exa.
saberá arbitrar;

g) ressarcimento dos valores não quitados aos associados em face das


compras efetivadas cujos descontos, apesar de garantidos, não foram
repassados;

e) citação do Ministério Público, a fim de dar sua contribuição, em face do


flagrante interesse público que a demanda possui.

O autor protesta pela produção de todas as provas


admissíveis em juízo, juntada de novos documentos, bem como pelo depoimento
pessoal do representante legal da Ré, ou seu preposto designado, sob pena de
confissão, oitiva testemunhal, vistorias, laudos e perícias de todo gênero – se
necessidade houver, para todos os efeitos de direito.

Dá-se à causa o valor de R$ 1.000,00 (Hum mil reais), para efeitos


puramente fiscais.

Nestes Termos,
Pede Deferimento
Aracaju, 20 de novembro de 2007.

JOSÉ EDUARDO DORNELAS SOUZA JOSÉ RILTON TENÓRIO MOURA


OAB/SE 328/A OAB-BA 1178-A