Você está na página 1de 2

4

CAPÍTULO I O ESSENCIAL DA DIDÁTICA E O TRABALHO DE PROFESSOR

Os alunos mais velhos comentam entre si: Gosto dessa professora porque ela tem didática . Os
mais novos costumam dizer que com aquela professora eles gostam de aprender.
Provavelmente, o que os alunos querem dizer é que essas professoras têm um modo acertado
de dar aula, que ensinam bem, que com eles, de fato, aprendem. Então, o que é ter didática? A
didática pode ajudar os alunos a melhorarem seu aproveitamento escolar? O que uma
professora precisa conhecer de didática, para que possa melhorar o seu trabalho docente?
Acredito que a maioria do professorado tem como principal objetivo do seu trabalho conseguir
que seus alunos aprendam da melhor forma possível. Por mais limitações que uma professora
possa ter (falta de tempo para preparar aulas, falta de material de consulta, insuficiente domínio
da matéria e dos métodos de ensino, desânimo por causa da desvalorização profissional etc.),
quando a professora entra na sua classe, ela tem consciência de sua responsabilidade em
proporcionar aos alunos um bom ensino. Apesar disso, saberá ela fazer um bom ensino, de
modo que os alunos aprendam melhor? Há diversos tipos de professores no ensino
fundamental. Os mais tradicionais contentam-se em transmitir a matéria que está no livro
didático. Suas aulas são sempre iguais, o método de ensino é quase o mesmo para todas as
matérias, independentemente da idade e das características individuais e sociais dos alunos.
Pode até ser que esse método de passar a matéria, dar exercícios e depois cobrar o conteúdo
numa prova, dê alguns bons resultados. O mais comum, no entanto, é o aluno memorizar o que
o professor fala, decorar o livro didático e mecanizar fórmulas, definições etc. Esse tipo de
aprendizagem (vamos chamá-la de mecânica, repetitiva) não é duradoura. Na verdade, aluno
com uma aprendizagem de qualidade é aquele que desenvolve raciocínio próprio, que sabe
lidar com os conceitos e faz relações entre um conceito e outro, que sabe aplicar o
conhecimento em situações novas ou diferentes, seja na sala de aula seja fora da escola, que
sabe explicar uma idéia com suas próprias palavras. Há professores tradicionais que sabem
ensinar os alunos a aprender assim, mas a maioria deles não se dá conta de que a
aprendizagem duradoura é aquela pela qual os alunos aprendem a lidar de forma independente
com os conhecimentos. Os professores que se julgam mais atualizados (vamos chamá-los de
progressistas) variam bastante os métodos de ensino. Preocupam-se mais com as diferenças
individuais e sociais dos alunos, costumam fazer trabalho em grupo ou estudo dirigido, tentam
usar mais diálogo no relacionamento com as crianças, são mais amorosos. Essa forma de
trabalho didático é, sem dúvida, bem mais acertado do que a tradicional. Entretanto, quase
sempre acabam tendo um entendimento de aprendizagem parecido com o tradicional. Na hora
de cobrar os resultados do processo de ensino, pedem a memorização, a repetição de fórmulas
e definições. Mesmo utilizando técnicas ativas e respeitando mais o aluno, fica a atividade pela
atividade. Ou seja, muitos professores não sabem como ajudar o aluno a, através de uma
atividade, elaborar de forma consciente e independente o conhecimento. Em outras palavras,
as atividades que organiza para os alunos não os levam a uma atividade mental, não levam os
alunos a adquirirem métodos de pensamento, habilidades e capacidades mentais para
poderem lidar de forma independente e criativa com os conhecimentos que vão assimilando.

Na perspectiva sócio-construtivista, o objetivo do ensino é o desenvolvimento das capacidades


intelectuais e da subjetividade dos alunos através da assimilação consciente e ativa dos
conteúdos. O professor, na sala de aula, utiliza-se dos conteúdos da matéria para ajudar os
alunos a desenvolverem competências e habilidades de observar a realidade, perceber as
propriedades e características do objeto de estudo, estabelecer relações entre um
conhecimento e outro, adquirir métodos de raciocínio, capacidade de pensar por si próprios,
fazer comparações entre fatos e acontecimentos, formar conceitos para lidar com eles no dia-a-
dia de modo que sejam instrumentos mentais para aplicá-los em situações da vida prática. Por
que o termo sócio-construtivista? É sócio porque compreende a situação de ensino e
aprendizagem como uma atividade conjunta, compartilhada, do professor e dos alunos, como
uma relação social entre professor e alunos frente ao saber escolar. Quer dizer: o aluno
constrói, elabora, seus conhecimentos, seus métodos de estudo, sua afetividade, com a ajuda
do professor. O professor é aqui um parceiro mais experiente na conquista do conhecimento,
interagindo com a experiência do aluno. O papel do ensino - e, portanto, do professor - é
mediar a relação de conhecimento que o aluno trava com os objetos de conhecimento e
consigo mesmo, para a construção de sua aprendizagem. O papel do ensino é possibilitar que
o aluno desenvolva suas próprias capacidades para que ele mesmo realize as tarefas de
aprendizagem e chegue a um resultado. Em resumo, atitude sócio-construtivista significa
entender que a aprendizagem é resultado da relação ativa sujeito-objeto, sendo que a ação do
sujeito sobre o objeto é socialmente mediada. Implica, portanto, o papel do professor enquanto
portador de conhecimentos elaborados socialmente, e interações sociais entre os alunos. A
sala de aula é o lugar compartilhamento e troca de significados entre o professor e os alunos e
entre os alunos. É o local da interlocução, de levantamento de questões, dúvidas, de
desenvolver a capacidade da argumentação, do confronto de idéias. É o lugar onde, com a
ajuda indispensável do professor, o aluno aprende autonomia de pensamento. Este é o ponto
mais importante de uma atitude sócio-construtivista. A didática e o trabalho de professores A
Didática é uma disciplina que estuda o processo de ensino no seu conjunto, no qual os
objetivos, conteúdos, métodos e formas organizativas da aula se relacionam entre si de modo a
criar as condições e os modos de garantir aos alunos uma aprendizagem significativa. Ela
ajuda o professor na direção e orientação das tarefas do ensino e da aprendizagem,
fornecendo-lhe segurança profissional. Essa segurança ou competência profissional é muito
importante, mas é insuficiente. Além dos objetivos da disciplina, dos conteúdos, dos métodos e
das formas de organização do ensino, é preciso que o professor tenha clareza das finalidades
que tem em me nte na educação das crianças. A atividade docente tem a ver diretamente com
o para quê educar , pois a educação se realiza numa sociedade formada por grupos sociais
que têm uma visão distinta de finalidades educativas. Os grupos que detêm o poder político e
econômico querem uma educação que forme pessoas submissas, que aceitem como natural a
desigualdade social e o atuai sistema econômico. Os grupos que se identificam com as
necessidades e aspirações do povo querem uma educação que contribua para formar crianças
e jovens capazes de compreender criticamente as realidades sociais e de se colocarem como
sujeitos ativos na tarefa de construção de uma sociedade mais humana e mais igualitária. A
Didática, portanto, trata dos objetivos, condições e meios de realização do processo de ensino,
ligando meios pedagógico-didáticos a objetivos sócio-políticos. Não há técnica pedagógica sem
uma concepção de homem e de sociedade, como não há concepção de homem e sociedade
sem uma competência técnica para realizá-la educacionalmente. Por isso, o planejamento do
ensino deve começar com propósitos