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Título do Original: “Die Ermordung einer Butterblume”

Autor: Alfred Döblin


Tradução: Janice F. Belther Romanello
Revisão: Marion Fleischer Livramento

O assassinato de uma margarida


O senhor vestido de preto tinha contado seus passos, um, dois, três, até cem e de trás para
frente, enquanto subia o largo caminho entre pinheiros em direção a Santa Otília e, a cada
movimento, ele balançava o quadril para a direita e para a esquerda, de modo que, às vezes,
cambaleava; em seguida, esquecia-se dos trejeitos.
Os olhos castanhos claros, gentilmente esbugalhados, fitavam o chão, que resvalava sob
seus pés, os braços balançavam nas juntas dos ombros, de forma que metade dos punhos
brancos da camisa caía sobre as mãos. Quando um feixe de luz vespertina entre os troncos
forçava o piscar dos olhos, a cabeça fazia um movimento descontrolado, as mãos faziam
rápidos e irritados movimentos de defesa. A delgada bengalinha balançava na mão direita
sobre as gramíneas e se divertia com as flores.
Enquanto o senhor seguia sempre calmo e distraído o seu caminho a bengala ficou presa
em uma frágil erva daninha. O senhor sério não se deteve; puxou-a, ainda caminhando, de
leve pelo cabo, e então, preso pelo braço, olhou ofendido ao redor, puxou-a em vão num
primeiro momento, depois, com as duas mãos, livrou a bengalinha com um repelão e, sem
fôlego, com duas olhadelas rápidas para a bengala e para a grama, recuou bruscamente, de
forma que a corrente de ouro saltou sobre o colete preto.
Fora de si, o gordo ficou ali por um momento. A cartola escorregava sobre a nuca. Encarou
as flores emaranhadas, para então, com a bengala em riste e a face rubra, avançar sobre elas
e golpear as plantas mudas. Os golpes zuniam à esquerda e à direita. Hastes e folhas
voavam sobre o caminho.
Respirando ruidosamente, com olhos chamejantes o senhor prosseguia na sua caminhada.
As árvores passavam rapidamente por ele, o senhor não reparava em nada. Ele tinha um
nariz arrebitado e um rosto imberbe achatado, um rosto infantil envelhecido e uma
boquinha delicada.
Em uma curva fechada do caminho que levava para o alto, era necessário ficar atento.
Enquanto marchava mais tranqüilo e, irritado, afastava com as mãos o suor do nariz, sentiu
com as mãos que seu rosto tinha se contorcido totalmente, que seu peito ofegava
vigorosamente. Ele se assustou com a idéia de que alguém poderia vê-lo, algum dos seus
parceiros de negócios ou uma dama. Alisou o rosto e se convenceu, com um furtivo
movimento de mão, de que ele estava liso.
Ele andava calmamente. Por que ofegava? Sorriu timidamente. Tinha pulado à frente das
flores e feito um massacre com a bengalinha, sim, havia dado golpes com aqueles
violentos, mas certeiros movimentos de mão, com os quais estava acostumado a bofetear os
seus aprendizes, quando estes não eram suficientemente hábeis em caçar as moscas no
escritório e apresentá-las devidamente selecionadas de acordo com o tamanho.

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Freqüentemente o homem sério balançava a cabeça pelo estranho acontecimento. “A gente
fica nervoso na cidade. A cidade me deixa nervoso”, balançou pensativo os quadris, pegou
a cartola e com ela abanou a cabeça, refrescando-a com o ar impregnado do perfume dos
pinheiros.
Pouco tempo depois, estava contando novamente os passos, um, dois, três. Colocava um pé
diante do outro, os braços balançavam nas juntas dos ombros. De repente o senhor Michael
Fischer viu, enquanto seu olhar vagueava pela beira do caminho, como uma figura
atarracada, ele próprio, se afastou da relva, se lançou sobre as flores e decepou a cabeça de
uma margarida. Aconteceu de forma muito clara à sua frente, o que, anteriormente, havia
acontecido no caminho escuro. Essa flor ali era igualzinha à outra. Essa uma atraiu o seu
olhar, a sua mão, a sua bengala. Seu braço ergueu-se, a bengalinha zuniu, vupt, a cabeça
voou para longe. A cabeça deu uma cambalhota no ar, desapareceu na grama. O coração do
negociante batia freneticamente. Agora a cabeça cortada da planta afundava e mergulhava
na grama. Ia para o fundo, cada vez mais para o fundo, passando pela camada de grama,
penetrando na terra. Agora começava a descer vertiginosamente em direção ao centro da
terra, nenhuma mão podia segurá-la. E lá em cima, do toco do corpo, caíam gotas, sangue
branco brotava do pescoço, em direção ao buraco, de início em pequenas quantidades,
como acontece com um paralítico que perde saliva pelos cantos da boca, depois aos
borbotões, escorria gosmento, com uma espuma amarela, em direção ao senhor Michael que
inutilmente procurava fugir, pulando para a direita, pulando para a esquerda, tentando saltar
por cima, enquanto aquela coisa já se avolumava aos seus pés.
Mecanicamente o senhor Fischer assentou o chapéu sobre a cabeça molhada de suor,
pressionou as mãos juntamente com a bengala contra o peito. “O que aconteceu?”
perguntou depois de algum tempo. “Não estou bêbado. A cabeça não pode cair, ela tem que
ficar deitada, tem que ficar deitada na grama. Estou convencido de que ela agora jaz quieta
sobre a grama. E o sangue - - . Eu não me lembro desta flor, não sei de nada, de
absolutamente nada.”
Ele pasmara, perturbado, desconfiado de si mesmo. Em seu íntimo, tudo fixava-se na
excitação feroz, pensava com horror na flor, na cabeça afundada, na haste sangrando. Ele
ainda continuava pulando por cima do fluxo gosmento. Se alguém o visse, um dos seus
parceiros de negócios ou uma dama.
Michael Fischer se aprumou, segurou firme a bengala com a direita. Deu uma olhada em
seu casaco e firmou sua postura. Os pensamentos insistentes ele haveria de dominar.
Autodomínio. Essa falta de obediência ele, o chefe, haveria de controlar energicamente. É
preciso se opor a esta gente: “Em que posso ser útil? Em minha firma não se admite tal
comportamento. Criado, fora com esse sujeito.” Enquanto isso, parado, gesticulava com a
bengala. O senhor Fischer assumira uma expressão de frieza e rejeição, agora ele queria
ver. Sua superioridade chegou a tanto que ele, lá em cima, na larga estrada, fez troça de
seus temores. Como seria engraçado, se no dia seguinte, em todas as colunas de afixação de
anúncios de Freiburg estivesse pendurado um cartaz vermelho dizendo: “Assassinato de
uma margarida adulta, no caminho entre Immental e Santa Otília, entre as sete e nove horas
da noite. Suspeito do assassinato ..., etc.” Assim troçava o cansado senhor vestido de preto,
usufruindo o frescor do entardecer. Lá embaixo as babás, os casais de namorados haveriam
de ver o que as suas mãos tinham feito. Haverá gritarias e um corre-corre desesperado para
casa. Os criminalistas pensariam nele, no assassino que, astuto, se ria furtivamente. O

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senhor Michael arrepiou-se ante a própria audácia, ele nunca teria imaginado que era tão
abjeto. Mas lá embaixo jazia, visível para a cidade inteira, uma prova de sua ação rápida e
enérgica.
Hirto, o tronco se ergue no ar, sangue branco brota do pescoço.
O senhor Michael estendeu as mãos em um leve movimento defensivo.
Lá em cima o sangue coagula espesso e pegajoso, de forma que as formigas ficam grudadas
no líquido.
O senhor Michael passou as mãos nas fontes e expirou ruidosamente.
E pertinho dali, na relva, apodrece a cabeça. É esmagada, dissolvida pela chuva, decompõe-
se. Uma lama amarela e fedorenta vai resultar dela, esverdeada, cintilando amarelada,
viscosa como vômito. Isto se levanta com vida, escorre em direção a ele, em direção ao
senhor Michael, quer afogá-lo, aflui ruidosamente contra o seu corpo, esguicha em seu
nariz. Ele pula, agora já saltita apenas na ponta dos pés.
O sensível senhor estremeceu. Sentiu um gosto horrível na boca. Não conseguia engolir de
nojo, cuspia sem parar. Tropeçava muitas vezes, continuava, com os lábios levemente
azulados, a saltar agitadamente.
“Eu me recuso, eu me recuso terminantemente a manter qualquer tipo de relação com a sua
firma.”
Apertou o lenço contra o nariz. A cabeça tinha que sumir, a haste tinha que ser encoberta,
fincada na terra, enterrada. A floresta tinha o cheiro da planta morta. O cheiro acompanhava
o senhor Michael, tornava-se cada vez mais intenso. Uma outra flor tinha que ser plantada
naquele lugar, uma cheirosa, um jardim de cravos. O cadáver no meio da floresta tinha que
sumir. Sumir. No momento em que o senhor Fischer quis parar, ocorreu-lhe que era ridículo
voltar, mais que ridículo. O que ele tinha a ver com a margarida? Ficou com uma raiva
atroz ao pensar que quase fora pego de surpresa. Ele se havia descontrolado e mordeu o
dedo indicador: “Fica atento, estou dizendo, fica atento, velhaco, seu maldito.” Ao mesmo
tempo um grande medo apoderou-se dele traiçoeiramente.
O gordo sombrio olhou amedrontado ao redor, levou a mão ao bolso da calça, tirou um
pequeno canivete e abriu-o.
Entrementes os seus pés continuavam a andar. Os pés começavam a irritá-lo. Eles também
queriam se arvorar em senhores; indignava-o o insistente impulso deles em seguir avante.
Haveria de amansar logo esses cavalinhos. Eles haveriam de sentir quem era o dono. Uma
esporada bem cortante nos flancos já os domaria. Eles levavam-no cada vez mais adiante.
Parecia até que ele estava fugindo do local do crime. Ele não permitiria que alguém
acreditasse numa coisa dessas. Um esvoaçar de pássaros, um gemido distante pairava no ar,
e vinha lá de baixo. “Parem, parem!” gritou para os pés. Então, fincou o canivete em uma
árvore.
Com os dois braços, enlaçou o tronco e ralou as faces na casca. Suas mãos dedilhavam o ar
como se amassassem alguma coisa: “A Canossa não vamos, não.”
Com a testa franzida o senhor mortalmente pálido estudou as fendas da árvore, curvou as
costas como se de trás algo fosse pular sobre ele. Ele sempre ouvia soar de novo a ligação
telegráfica entre ele e o local, embora quisesse, com batidas dos pés, emaranhar e desligar
os fios. Ele tentava esconder de si mesmo, que sua raiva já tinha diminuído, que nele
palpitava um leve desejo lascivo, um desejo lascivo de ceder. Lá no fundo algo o levava a
cobiçar a flor e o local do crime.

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O Senhor Michael fazia flexões com os joelhos, farejava o ar, procurava captar os sons por
todos os lados, sussurrava amedrontado: “Só quero enterrar a cabeça, mais nada. Aí tudo
fica bem. Depressa, por favor, por favor.” Infeliz, fechou os olhos e deu um giro como que
por descuido sobre o calcanhar. Depois seguiu perambulando, como se nada tivesse
acontecido, com o passo despreocupado de alguém que usufrui um passeio, assobiando
baixinho, em tom despreocupado e acariciando, enquanto respirava aliviado, os troncos das
árvores ao longo do caminho. Fazendo isso, sorria e sua boquinha ficou redonda como um
orifício. Em voz alta, cantou uma canção que lhe ocorreu de repente: “Coelhinho estava
sentado na toca e dormiu.” Imitou o saracotear, o rebolar dos quadris e o balançar dos
braços de momentos atrás. Consciente da culpa, tinha enfiado a bengalinha na manga. Às
vezes, recuava rápida e furtivamente na curva do caminho, temendo que alguém o
observava.
Talvez ela ainda vivesse; é, como é que ele sabia que ela já estava morta? Passou-lhe pela
cabeça que poderia curar a flor ferida, sustentando-a com pauzinhos e envolvendo a cabeça
e a haste com um esparadrapo. Começou a andar mais depressa, a esquecer a sua postura, a
correr. Repentinamente, tremeu de expectativa. E numa curva do caminho levou um tombo
ao topar com um tronco de árvore caído, machucou o peito e o queixo, e soltou um gemido.
Quando se levantou, esqueceu o chapéu na grama; a bengalinha quebrada rasgou-lhe a
manga do casaco; ele nada percebeu. Ah, queriam retê-lo, mas nada haveria de detê-lo. Ele
haveria de encontrá-la. Ele voltou a subir a encosta. Onde era o lugar? Ele precisava
encontrar o lugar. Se pelo menos pudesse chamar a flor. Mas, qual era o seu nome? Ele
nem ao menos sabia como ela se chamava. Ellen? Talvez ela se chamasse Ellen,
certamente seu nome era Ellen. Sussurrou para a grama, curvou-se para tocar as flores com
a mão.
“A Ellen está aqui? Onde ela está? Ei vocês, aí. Ela está ferida, na cabeça, um pouco abaixo
da cabeça. Vocês talvez ainda não saibam. Eu quero ajudá-la; eu sou médico, um
samaritano. E então, onde está ela? Vocês podem confiar em mim, podem crer.
Mas, como é que ele, que a destruíra, haveria de reconhecê-la? Talvez até já a estivesse
tocando com a mão, é possível que ela estivesse dando, bem pertinho dele, seus últimos
suspiros.
Isso não podia acontecer. Ele berrava: “Entreguem-na, não me desgracem, seus malditos.
Eu sou um samaritano. Será que não me entendem?”
Deitou-se no chão, procurou, revolveu cegamente a grama, enrolando e arranhando as
flores, enquanto sua boca estava aberta e seus olhos tremeluziam. Por longo tempo
permaneceu entorpecido.
“Devolver. É necessário estabelecer condições. Preliminares. O médico tem um direito
sobre o doente. Leis precisam ser apresentadas.”
As árvores erguiam-se profundamente negras no ar cinzento ao lado do caminho e por toda
parte. Já era tarde também, a cabeça certamente já estava murcha. O pensamento derradeiro
da morte apavorou-o e fez estremecer os seus ombros.
O vulto preto redondo levantou-se da grama e cambaleou ao longo da beira do caminho
morro abaixo.
Ela estava morta. Pelas suas mãos.
Ele suspirou e esfregou a testa pensativo.

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Iriam cair em cima dele, de todos os lados. Que caíssem, nada mais o preocupava. Era-lhe
tudo indiferente. Eles iriam cortar-lhe a cabeça, arrancar as suas orelhas, por as sua mãos no
carvão em brasa. Ele não podia fazer mais nada. Ele sabia que isso iria divertir a todos, mas
não deixaria escapar nenhum gemido que desse prazer aos maldosos carrascos. Eles não
tinham o direito de puni-lo, eles mesmos eram abjetos. Sim, tinha matado a flor e eles não
tinham nada a ver com isso, e isso era o seu direito que defenderia contra todos. Era o seu
direito matar flores e não se sentia obrigado a justificar isto. Poderia matar quantas flores
quisesse, num raio de mil milhas, para o norte, sul, oeste, leste, por mais que dessem risadas
sarcásticas. E se continuassem rindo assim, os esganaria.
Ele ficou parado, seus olhares venenosos devassavam a profunda escuridão dos pinheiros.
Seus lábios estavam estufados de sangue. Então, continuou a caminhar apressado. Sem
dúvida era sua obrigação apresentar os seus pêsames aqui na floresta, às irmãs da falecida.
Ele argumentou que o acidente acontecera quase sem a sua interferência, ele lembrou o
triste estado de exaustão no qual se encontrava quando subia a encosta. Mencionou o calor.
No fundo queria deixar bem claro que todas as margaridas lhe eram indiferentes.
Desesperado, sacudiu novamente os ombros: “O que é que ainda vão fazer comigo?”
Passou os dedos sujos nas faces; estava completamente desnorteado.
O que significava tudo aquilo? Pelo amor de Deus, o que estava procurando aqui?
Queria retirar-se sem ser percebido pelo atalho mais curto, descendo pela diagonal através
das árvores; queria refletir com clareza e calma. Bem devagar, ponto por ponto.
Para não escorregar no chão liso, vai se apoiando de árvore em árvore. A flor, pensou com
malícia, pode ficar lá mesmo no caminho, onde ela está. Tais ervas daninhas mortas
existem aos montes pelo mundo afora.
Mas o terror o assalta no momento em que vê uma pálida gota de resina que ele acaba de
tocar. A árvore chora. No escuro, fugindo por um trilha, logo percebe que o caminho se
estreita estranhamente, como se a floresta o estivesse atraindo para uma armadilha. As
árvores se reúnem em um tribunal.
Ele precisa sair.
Correndo, ele se choca de novo contra um pinheiro baixo que bate nele com suas mãos
levantadas. Então, ele abre caminho com violência, enquanto sangue começa a jorrar pelo
seu rosto. Ele cospe, debate-se, golpeia as árvores com os pés, gritando em voz alta,
escorrega morro abaixo em cambalhotas, e por fim, com atabalhoamento, pelo último
declive à beira da floresta, em direção às luzes da vila, com o paletó rasgado em torno da
cabeça, enquanto atrás dele a montanha rumoreja ameaçadora, sacode os punhos, fazendo
ouvir por todos um rachar e quebrar de árvores que o perseguem e injuriam.
Imóvel, o senhor gordo permanece junto à lanterna na frente da pequena igreja da vila.
Estava sem o chapéu, no cabelo desgrenhado havia agulhas de pinheiro que ele não retirava.
Respirava com dificuldade. Quando sangue quente começou a escorrer pelo dorso do nariz
e a gotejar sobre as botas, ele levantou vagarosamente com as duas mãos uma ponta do
paletó e a pressionou sobre o rosto. Depois elevou suas mãos em direção à luz e se admirou
ao ver as grossas veias azuis sobre o dorso da mão. Ele alisou os grossos nódulos e não
conseguiu fazê-los desaparecer.
Agora estava sentado como um tolo em seu quarto, dizendo em voz alta para si mesmo:
“Aqui estou eu, aqui estou eu”, e olhando desesperado pelo quarto. Andava para lá e para
cá. Tirou a roupa e escondeu-a em um canto do guarda-roupa. Vestiu um outro terno preto

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e, sentado em seu divã, leu o jornal. Ele o amassava enquanto lia; algo tinha acontecido,
algo tinha acontecido. Sentiu isso inteira e nitidamente no dia seguinte, quando estava
sentado à sua escrivaninha. Estava petrificado, não conseguia praguejar, e um estranho
silêncio o rodeava.
Com forçada veemência disse a si mesmo que tudo aquilo não passava de sonho, mas as
arranhaduras em sua testa eram verdadeiras. Então devem existir coisas que são
inacreditáveis. As árvores haviam batido nele, tinha havido uma gritaria pela falecida.
Ficava sentado lá, absorto e, para surpresa dos aprendizes, sequer ligava para as moscas que
zuniam. Em seguida, maltratava os aprendizes com cara sombria, neglicenciava o trabalho
e andava de lá para cá. Freqüentemente era visto esmurrando a mesa, estufando as
bochechas, gritando, um dia poria ordem no negócio e em todos os lugares. Iriam ver só.
Ele não deixaria ninguém fazer dele o que quisesse. Ninguém mesmo.
Na manhã seguinte, enquanto fazia contas, inesperadamente algo insistia que ele
depositasse dez marcos em uma conta em nome da flor. Ele se assustou, entregou-se a
amargas reflexões sobre a sua debilidade e pediu ao procurador que continuasse a fazer as
contas. À tarde, ele mesmo, com frieza taciturna, colocou o dinheiro em uma caixa especial;
ele foi até mesmo compelido a abrir uma conta para ela; ele tinha ficado cansado, queria
sossego. Logo depois sentiu-se forçado a dar-lhe comida e bebida como oferenda. Uma
pequena gamela foi colocada para ela próximo ao lugar do senhor Michael. A governanta,
pasma, levantou as mãos para os céus, quando ele lhe ordenou esta disposição, mas o
senhor, em um inaudito acesso de fúria, proibiu toda e qualquer crítica.
Ele expiava, expiava sua misteriosa culpa. Ele celebrava um ritual religioso com a
margarida, e o tranqüilo negociante afirmava agora que cada pessoa tem a sua própria
religião, que é necessário assumir uma postura pessoal diante de um Deus inefável. Há
coisas que nem todos compreendem. Na austeridade de sua cara de macaquinho tinha
aparecido uma expressão de sofrimento; também a sua corpulência havia diminuído, seus
olhos estavam fundos. Como uma consciência de esposa a flor se imiscuía, severa, em suas
atividades, das grandes às pequenas do cotidiano.
Nestes dias, o sol brilhava com freqüência sobre a cidade, sobre a catedral e sobre a
montanha do castelo, brilhava com toda exuberância. Aí, certa manhã, o empedernido
chorou copiosamente junto à janela, pela primeira vez desde a sua infância. Subitamente
chorou tanto que quase lhe partiu o coração. Toda essa beleza roubou-lhe Ellen, a odiada
flor, com cada beleza do mundo ela agora o acusava. O raio de sol brilha, ela não o vê, ela
não pode sentir o perfume do jasmim branco. Ninguém contemplará o lugar de sua
ultrajante morte, nenhuma oração será proferida lá. Isso tudo ela podia jogar na cara dele,
mesmo que fosse ridículo e ele contorcesse as mãos. Ela estava privada de tudo: do luar, da
felicidade das noivas no verão, do tranqüilo convívio com o cuco, das pessoas que
passeavam pelos arredores com os carrinhos de bebê. Cerrou firmemente a boquinha, ele
queria impedir as pessoas de subir a montanha. Se ao menos o mundo tivesse sumido com
um suspiro, para que a flor calasse o bico. Sim, pensava em suicídio, para finalmente
acabar com esta agonia.
Ocasionalmente, tratava-a amargurado, desdenhando-a, colocava-a contra a parede num
rápido assalto, enganava-a em pequenas coisas, virava bruscamente, como que
inadvertidamente, a sua gamela, enganava-se nas contas em prejuízo dela, tratava-a, às
vezes, de forma ardilosa como se fosse um concorrente nos negócios. No aniversário da sua

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morte, fez de conta que não se lembrava de nada. Somente quando ela aparentemente
insistiu em uma comemoração discreta e recatada, dedicou meio dia à sua memória.
Por ocasião de uma festa circulou, certa vez, a pergunta quanto ao prato preferido dos
presentes. Quando perguntaram ao senhor Michael o que ele preferia comer, este respondeu
friamente: “Margaridas. Margaridas são o meu prato preferido.” Todos caíram na risada, o
senhor Michael, porém, afundou-se na cadeira; com os dentes cerrados ouviu as risadas e
deliciou-se profundamente com a raiva da margarida. Sentia-se como um dragão
monstruoso que engole pacatamente criaturas vivas, pensava em coisas japonesas confusas
e em haraquiri. Embora, intimamente, aguardasse uma punição severa por parte dela.
Travava com ela, sem cessar, uma guerrilha como esta; continuamente oscilava entre
tormento mortal e enlevo, ele se deliciava, amedrontado, com os gritos furiosos dela, que,
às vezes, acreditava ouvir. Todo dia pensava em novas maldades, freqüentemente retirava-
se, muito agitado, do escritório para o quarto, para forjar planos sem ser importunado. E,
secretamente, essa guerra continuava, e ninguém sabia dela.
A flor pertencia a ele, fazia parte do conforto de sua vida. Ele pensava, admirado, no tempo
que vivera sem a flor. Agora ia freqüentemente, com uma expressão obstinada, passear
pela floresta em direção a Santa Otília. E enquanto ele, em um ensolarado entardecer,
descansava sobre um tronco de árvore caído, ocorreu-lhe subitamente o pensamento: Aqui,
neste lugar, onde estava sentado agora, estivera a margarida, Ellen. Tinha que ser aqui.
Melancolia e angustiante devoção se apoderaram do senhor gordo. Como tudo tinha
mudado! Desde aquela noite até hoje. Absorto, ele deixou os olhos amistosos, levemente
sombrios vagarem sobre as ervas daninhas, as irmãs, talvez as filhas de Ellen. Após longa
reflexão, um lampejo maroto iluminou a sua face lisa. Ah, a sua querida flor haveria de
levar uma rasteira agora. Se ele removesse da floresta uma margarida, uma filha da falecida,
se a plantasse em casa, a cuidasse dela com carinho, assim, a velha passaria a ter uma
jovem rival. É, pensando bem, com isso ele poderia expiar totalmente a culpa pela morte da
velha, pois ele salvaria a vida desta flor e compensaria a morte da mãe, mesmo porque esta
filha muito provavelmente haveria de sucumbir por aqui. Ah, como ele irritaria a velha
com isso, desprezando-a totalmente. O negociante, versado em leis, lembrou-se de uma
parágrafo sobre a compensação da culpa. Com a ajuda do canivete, ele tirou da terra uma
plantinha próxima, levou-a nas mãos com todo cuidado para casa e plantou-a em um
suntuoso vaso de porcelana revestido de ouro, o qual colocou sobre uma mesa de mosaicos
no seu quarto de dormir. Sobre o fundo do vaso, escreveu com carvão: “Artigo 2403
parágrafo 5”.
Diariamente, feliz, ele regava a planta com devoção maldosa e fazia oferendas à falecida
Ellen. Por lei, e eventualmente com medidas policiais, ela estava forçada à resignação, não
recebia mais a gamela, nem refeições, nem dinheiro. Com freqüência, deitado no sofá, ele
acreditava ouvir o seu choramingar, os seus gemidos prolongados. A autoestima do
senhor Michael cresceu de forma inesperada. De vez em quando, ele tinha quase um ataque
de megalomania. Nunca a sua vida transcorrera tão serenamente.
Quando, certa noite, viera contente e despreocupado do seu escritório para a sua residência,
a sua governanta disse-lhe calmamente, logo à porta, que a mesinha havia tombado durante
a limpeza e que o vaso quebrara. Ela jogara a planta fora, aquela porcaria sem valor,
juntamente com todos os cacos. O tom sóbrio, levemente desdenhoso, com o qual ela

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relatou o incidente, deixou transparecer que ela simpatizava intensamente com o
acontecido.
O redondo senhor Michael fechou a porta com estrondo, bateu as mãos pequeninas, deu um
sonoro grunhido de felicidade e pegando a mulher surpresa pelos quadris, levantou-a para o
alto, tão alto quanto as suas forças e a altura da mulher o permitiram. Em seguida, saiu
saracoteando do corredor para o seu quarto com os olhos tremeluzindo, excitado ao
máximo; sua respiração era ofegante, suas pernas calcavam pesadamente o chão; seus
lábios tremiam.
Ninguém ia poder falar mal dele; ele não tinha desejado a morte desta flor nem nos seus
mais secretos pensamentos, nem o pensamento mais fugaz havia planejado isso. Agora a
velha, a sogra, poderia praguejar e dizer o que ela quisesse. Não tinha nada a ver com ela.
Estavam quites. Agora estava livre de todo o clã da margarida. O direito e a sorte estavam a
seu favor. Não havia mais dúvidas. Ele tinha logrado a floresta.
Quis ir imediatamente a Santa Otília, dirigir-se a esta floresta tola e ranzinza. Em
pensamentos já agitava a sua bengalinha preta. Flores, girinos e sapos haveriam de ver. Ele
poderia matar, o quanto quisesse. Ele não dava a mínima para todas as margaridas.
De tanta satisfação e de tanto rir, o gordo e corretamente vestido negociante senhor
Michael Fischer rolava sobre o seu divã.
Depois levantou-se de um salto, ajeitou o chapéu na cabeça e, passando pela governanta
perplexa, precipitou-se para a rua.
Ria e bufava alto. E assim desapareceu no escuro da floresta.

* * *