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Problema: Quais os reflexos da audiência de custódia no encarceramento de mulheres pelo

tráfico de drogas?

Hipótese:

“Introdução”

Iniciar falando da mais nova conquista do Estado brasileiro:

Dados do Infopen, divulgados no início de dezembro de 2017, mostram que o país passou a
Rússia e atingiu, no ano de 2016, o terceiro lugar no mundo em número de pessoas presas.

Link para matéria: https://www.nexojornal.com.br/entrevista/2017/12/11/O-Brasil-passou-a-


R%C3%BAssia-em-popula%C3%A7%C3%A3o-carcer%C3%A1ria.-Como-chegamos-aqui

62% de mulheres presas por tráfico de drogas (2016)

Mais de 30% de presas provisórias (dados 2014/2015, infopen mulheres). Taxa nacional
(homens e mulheres): 40%, dados de 2016. 293 mil presos provisórios.

“(...)para as ocorrências envolvendo droga, 91% das prisões são efetuadas como resultado da
‘entrada franqueada’, ou seja, sem autorização judicial, dos policiais nas residências das pessoas
presas, com a justificativa de que o tráfico seria um crime permanente. (...)Entretanto, em 48%
dos casos investigados, a pessoas presa não estava em pose da droga sobre a qual se lhe
imputou a responsabilidade” (Implantação da audiências, Depen, 2016)

59,2% dos processos criminais se originam de prisões em flagrante (IPEA, 2014)

Nas audiências de custódia, as prisões feitas por suposto cometimento do crime de tráfico de
drogas geram a menor quantidade de solturas. Em São Paulo, a taxa de liberação é de menos de
30%, não obstante os presos terem sido pegos com pequenas quantidades de drogas, ao menos
em 93% dos casos sem arma, e em 34%dos casos sem estar na posse de qualquer quantia de
dinheiro, a maioria não apresentando antecedentes criminais (RJC, 2013).

Incluir dados extraídos de reportagens sobre o efeito da audiência de custódia nos crimes
relacionados ao tráfico de drogas cometidos por mulheres.

STF, 2015, ADI 5240 e ADPF 347: decisões favoráveis à implementação da audiência de custódia
no Brasil. A última estabeleceu o prazo de 90 dias para que todos os estados começassem a
efetivar as audiências. Logo em seguida, o CNJ publicou a Resolução 213 (12/2015), dispondo
sobre a aplicação das audiências de custodia em todo o país.

Sobre a Audiência de Custódia

Prevista na Convenção Americana de Direitos Humanos (artigo 7º, número 5) e no Pacto


Internacional dos Direitos Civis e Políticos (artigo 9º, número 3), ambos os textos foram
ratificados pelos Estado brasileiro. Art. 5º, § 1º da Constituição Federal: “As normas definidoras
dos direitos e garantias fundamentais têm aplicação imediata”.

(...)a lógica judicial permanece vinculada a banalização da prisão, a amplitude interpretativa do


que seja a ‘garantia da ordem pública e econômica’ leva à homologação do flagrante a ser regra
no sistema processual penal brasileiro.

Nesse contexto, a audiência de custódia surge como instrumento cuja finalidade, entre outras,
é a de contenção do Estado de Polícia, isto é, de limitar o poder punitivo. A audiência de custódia
tem previsão normativa na Convenção Americana de Direitos Humanos (também denominada
de Pacto de São José da Costa Rica):

Art. 7° - Direito à liberdade: [...]

5. Toda pessoa presa, detida ou retida deve ser conduzida, sem demora, à presença
de um juiz ou outra autoridade autorizada por lei a exercer funções judiciais e tem
o direito de ser julgada em prazo razoável ou de ser posta em liberdade, sem
prejuízo de que prossiga o processo. Sua liberdade pode ser condicionada a
garantias que assegurem o seu comparecimento em juízo.

No mesmo sentido, assegura o art. 9.3, do Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos.

(...)a audiência de custódia refere-se ao direito de todo cidadão/ã preso/a ser conduzido, sem
demora, à presença de um juiz afim de que o magistrado analise a legalidade assim como a
necessidade da prisão além de verificar eventuais maus tratos ao preso havidos até ali, podendo
determinar a imediata apuração de qualquer abuso que venha a tomar conhecimento. No que
diz respeito ao controle da legalidade da prisão, poderá o juiz no momento da audiência de
custódia: (1) relaxar a prisão em flagrante ilegal; (2) decretar a prisão preventiva ou outra
medida cautelar alternativa à prisão; (3) manter solta a pessoa suspeita da prática de
determinado delito, se verificar ausentes os pressupostos de cautelaridade previstos no art. 312
do CPP.

Na justificativa:

Por representar uma diminuta parcela da população carcerária, as mulheres foram durante
muito tempo negligenciadas em estudos acadêmicos relacionados ao tema. Tal cenário, no
entanto, vem se modificando nos últimos anos, diante do explosivo aumento no número de
mulheres presas por crimes relacionados ao tráfico de drogas. (Mostrar dados). Somente na
Universidade Federal da Paraíba foram apresentados X dissertações/teses

https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2017/12/08/numero-de-mulheres-
presas-dispara-e-20-estados-ja-tem-presidios-femininos-superlotados.htm

- O tema é bastante efervescente. A população carcerária feminina cresce exponencialmente e


o tráfico, como já mencionado, corresponde ao principal enquadramento típico dessa mulheres.
Nos últimos anos, houve um grande fluxo de estudos que tinham por objeto a análise desse
fenômeno, no entanto, nenhum deles investiga os efeitos da audiência de custódia sobre o
encarceramento dessas mulheres pelo delito de tráfico de drogas;

- A audiência de custódia foi implementada há um tempo relativamente pequeno (pouco mais


de dois anos).

Nos objetivos/problema:

- Realizar um estudo bibliográfico contemplando a historicidade da teoria criminológica,


incluindo as contribuições da criminologia feminista, negra e latino-americana para o debate
(em suas diversas vertentes);

- Assistir a um número de expressivo de audiências de custódia no primeiro semestre de 2018


no Fórum Criminal;
- Entender a dinâmica das audiências da custódia na prática; os discursos que são produzidos no
ambiente em que ocorrem /Analisar/investigar a forma com que ocorrem as audiências de
custódia nos crimes relacionados ao tráfico de drogas (artigos) cometidos por mulheres.

- Avaliar os impactos das audiências de custódia para as mulheres acusadas de tráfico de drogas
em João Pessoa;
- Identificar os eventuais obstáculos e desafios que devem ser superados para a execução
eficiente e regular das audiências de custódia para a população aqui investigada
 Aprofundar a análise acerca dos efeitos que as políticas de recrudescimento das
legislações penais da América Latina vêm apresentando em relação às mulheres;

 Analisar relatórios, registros estatísticos, dentre outros, que forneçam informações


acerca do perfil das mulheres encarceradas, os efeitos de seu aprisionamento, as
características dos delitos por elas cometidos, dentre outras informações;

 Analisar relatórios, registros estatísticos, dentre outros, que forneçam informações


sobre a implementação da audiência de custodia no Brasil e, mais especificamente, em
João Pessoa.
Fundamentação teórica

Perspectivas teóricas centrais: criminologia crítica e feminista, ambas como discursos de


denúncia.

Criminologia crítica X criminologia positivista (investigações acerco do crime centravam-se na


figura do indivíduo, e buscava-se “causas” da criminalidade – paradigma etiológico; criminologia
como uma ciência causal-explicativa; crime como um fenômeno natural, uma realidade
ontológica).

Após a virada criminológica proporcionada pelo paradigma do etiquetamento ou labeling


approach, houve a ampliação do foco de análise da criminologia, passando-se a investigar os
mecanismos institucionais que definem os processos de criminalização
A partir da década de 1960, ocorre, no âmbito da criminologia, a
passagem do paradigma etiológico para o da Reação Social (Labelling
Approach). Nesse contexto, há um deslocamento do interesse pelas “causas”
do crime, e do criminoso em si, para a reação social que se constrói em torno
da conduta desviada. E, mais especificamente, direciona-se o olhar para o
próprio sistema penal, enquanto articulador de processos de definição (por
meio dos processos legislativos) e de seleção (reação das agências oficiais de
controle), a que se cunhou chamar de criminalização primária e secundária,
respectivamente – sendo mais apropriado, portanto, falar-se em processos
de criminalização, em vez de criminalidade, e de criminalizado, no lugar de
criminoso (BARATTA, 2002, p. 85).

O grande avanço proporcionado pelo Labeling no estudo do crime e a


consequente ruptura com o modelo vigente na criminologia tradicional
permitiram a fomentação de bases para o desenvolvimento da Criminologia
Crítica. Esta introduz um novo elemento ao cenário construído até então: a
seletividade. Partindo de uma base marxista, centrada na análise da relação
entre explorador e explorado e na perspectiva econômico-política do desvio,
a Criminologia Crítica reassume o papel político da disciplina, buscando
problematizar o sistema penal, que se mostra desigual na seleção dos
indivíduos que são por ele atingidos (BATISTA, 2013).
A criminologia crítica, no entanto, não se mostrou suficiente para investigar as especificidades
que permeiam o processo de criminalização das mulheres. Nesse contexto, a inserção de certas
categorias de análise como o gênero e o patriarcado no seio da criminologia mostraram-se
essenciais para a compreensão da lógica androcêntrica que define o funcionamento das
estruturas do controle punitivo.
*Sobre o gênero: é um termo central nas análises teóricas feministas. Década de
70: Kate Millet e Gail Rubin são consideradas as primeiras autoras a fornecer uma
conceituação para o termo: “sistema de relações sociais que transforma a
sexualidade biológica em um produto da atividade humana”. Pode ser
simplificadamente definido como “construção cultural do feminino e do masculino
por meio de processos de socialização que forma o sujeito desde seu
nascimento”.
Para Scott, o gênero é um campo primário no qual ou por meio do qual se articula
o poder; “o gênero se dissolve na conceituação e constituição do próprio poder”.
Nicholson: “é o conhecimento que estabelece significados para diferenças
corporais”
E Butler?
*Sobre o patriarcado: “manifestação e institucionalização do domínio masculino
sobre as mulheres, sobre a família e que se estende à sociedade em geral”. O
próprio sistema penal se mostra bastante patriarcal e promove uma dupla violência
contra a mulher: invisibiliza as violências de gênero e, por outro lado, quando a
mulher sujeito ativo do delito, há a aplicação de um conjunto de metarregras que
produzem o aumento da punição ou o agravamento das formas de execução das
penas exclusivamente em decorrência da condição de gênero (Salo de Carvalho)

apesar de fundamentais na teoria feminista, os estudos de gênero sofreram severas


críticas por negligenciar em suas análises as realidades vividas pelas mulheres
negras, lésbicas e as do chamado “terceiro mundo”. Nesse contexto, emergem as
críticas das feministas negras, queer e latino-americana como possibilidades para um
campo de estudo que dialogue com os novos sujeitos do feminismo.

Dentre essas novas perspectivas que emergiram ao longo dos últimos anos,
merece destaque o feminismo negro ao colocar em evidência as particularidades
discriminatórias sofridas pelas mulheres negras, que não se sentiam representadas
pelo feminismo ocidental, branco e de classe média.

A proposta trazida pelo viés criminológico negro e multiétnico possibilita a


confrontação da violência e da atuação do sistema penal sobre essa população,
incorporando o paradigma racial, de gênero e de classe nos estudos feministas em
criminologia (CAMPOS, 2014). E, considerando a predominância de mulheres negras
no perfil da população encarcerada no Brasil, as contribuições proporcionadas por
esta ótica criminológica podem auxiliar na compreensão do fenômeno estudado,
sem desconsiderar outras categorias de análise podem surgir ao longo da
investigação.

Merece destaque, ademais, a importância de se “descolonizar” o estudo acerca


do crime na América Latina, adotando-se, como base teórica neste estudo,
investigações que tragam perspectivas próprias desta região, a fim de se romper com
a hegemonia e dependência em relação ao pensamento europeu e norteamericano.
Nesse contexto, as contribuições de Rosa del Omo e Lola Aniyar de Castro podem
ser consideradas pioneiras, como menciona Zaffaroni (2015, p. 2):
Este torrente de claridad que se esparcía por todo nuestro saber y que nos llamaba
a la responsabilidad frente a la propia vida de nuestros semejantes, provino de
Venezuela y fue obra de dos mujeres: las profesoras Lola Aniyar de Castro y Rosa del
Olmo. Sus escritos e intervenciones conmovieron a toda la criminología
latinoamericana y extendieron sus efectos al penalismo, aunque éste, hasta el
presente, busca refugio infructuosamente en la caverna del normativismo.

No final da década de 1980, del Omo (1988) já analisava o fenômeno do


encarceramento feminino pelo tráfico de drogas. Em “Drogas y criminalización de la
mujer” (DEL OLMO, 1988), a autora examina dados socioeconômicos da
criminalidade e os processos de criminalização pelas drogas, e afirma que, em
momentos de crise econômica, atravessada por muitos países latino-americanos, a
mulher vê-se obrigada a entrar no negócio ilegal das drogas por necessidades
econômicas e como estratégia de sobrevivência. No mesmo sentido, pontua
Giacomello (2013, p.18):

(...)a feminização da pobreza aliada aos papéis de gênero favorece o ingresso das
mulheres no tráfico de drogas. O aumento de lares monoparentais chefiados por
mulheres, juntamente com o contexto de desigualdade social e falta de
oportunidades que afetam a maior parte da população latinoamericana criam o
cenário ideal para o fomento do tráfico de drogas como uma alternativa laboral
informal e ilícita para esta população.

Busca-se, assim, a partir das contribuições trazidas pela criminologia latino-


americana, aliada aos enfoques feministas, de raça e críticos a respeito do sistema
penal, investigar de forma aprofundada o tema proposto.

Sobre a pesquisa de campo / metodologia


Coleta de informações qualitativas e quantitativas concernentes às Audiências de
Custódias realizadas em João Pessoa, em crimes relacionados ao tráfico de drogas
cometidos por mulheres.
*A ideia não é apenas quantificar o número de audiências realizadas e a taxa de manutenção
ou não da prisão. Pretende-se analisar a própria execução de cada audiência; os discursos que
são sintetizados pelos atores desse procedimento; as razões levantadas para negar ou
conceder a liberdade das mulheres; compreender, em suma, a dinâmica dessas audiências na
prática.

- “Teorias colaboram para esclarecer melhor o objeto de investigação; ajudam a levantar


questão, a focalizar o problema, as perguntas e a estabelecer hipóteses com mais
propriedade; permitem maior clareza na organização dos dados; iluminam a análise dos
dados,
- Abordagem quantitativa e qualitativa.
- Instrumento a ser utilizado na pesquisa de campo: observação participante. Esta
ajudará a pesquisadora a vincular os fatos a suas representações e a desvendar as
contradições entre as normas e regras e as práticas vividas cotidianamente pelo grupo
observado (livro pesquisa social)