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EIXO 2.

ESPAÇOS FORMATIVOS, MEMÓRIAS E NARRATIVAS

HISTÓRIA DE VIDA, HISTÓRIA DOS ENCONTROS E FORMAÇÃO


Thimoteo Pereira Cruz
Universidade Federal de Goiás – Regional Catalão
thimpc@hotmail.com

No decorrer da graduação em Psicologia, fui tomado por uma insatisfação, devido a boa
parte das teorias enquadrarem a subjetividade em categorias e escalas, que incitou a busca por
outros conhecimentos e espaços que pudessem ser significativos para a formação de psicólogo.
Nesse período, participei de projetos de extensão que proporcionaram encontros intensos com
pessoas, artes, saberes, lugares. Mais tarde, no estágio de licenciatura fui instigado a dialogar
com outras áreas do conhecimento e a outros modos de pensar o processo ensino-aprendizagem.
Também, na elaboração do trabalho de conclusão de curso, investiguei os efeitos do olhar nos
encontros com a deficiência, tomando como referência autores como Deleuze, Guattari, Rolnik,
Kastrup, Chauí, entre outros.
Esses e outros encontros, proporcionaram o interesse pela Educação e direcionaram a
elaboração do projeto de pesquisa para participar do Mestrado do Programa de Pós-Graduação
em Educação da UFG/Catalão. Um dos questionamentos norteadores da proposta foi: como as
experiências vividas (encontros) compõem a atuação do psicólogo? A partir disso, propus
investigar as histórias dos encontros como disparadores dos modos de pensar e viver as práticas
profissionais, procurando perceber como os encontros podem desencadear concepções, rupturas
e devires na atuação dos psicólogos e como o falar de si se torna instrumento de formação
humana e profissional.
São essas experiências, apresentadas de modo breve, que impulsionaram a escrita desse
texto. São momentos específicos da minha formação, são encontros e intensidades vividas.
Esses encontros e suas intensidades colocam-me à disponibilidade para novas composições,
possibilidades, territórios, afetos, atravessamentos. Compõem o modo de pensar a formação e
atuação profissional, a Educação, o processo ensino-aprendizagem, a vida. Possibilitam
compreender que nas histórias de vida há experiências e história de encontros que compõem
aquele que fala de si.
Contudo, ao incluir a história dos encontros no veio teórico-metodológico da pesquisa
com história de vida, faz-se necessário definir aspectos que contornam, dão forma ou deforma,
aquilo que se chama de encontro. Tendo como referência a filosofia de Deleuze para a
compreensão dos encontros, este texto visa pensar a pesquisa com histórias de vida, a partir da
história dos encontros, que incluem a dimensão intensiva das experiências vividas.

Histórias de vida

Considerando que as experiências de vida apontam dados importantes para a


compreensão da formação, na atualidade, os estudos com histórias de vida têm ganhado
significativa relevância no cenário da Educação (NÓVOA, 1995). Nóvoa (1995) alega que as
histórias de vida permitem o levantamento e a reflexão sobre os momentos significativos dos
percursos pessoais e profissionais de quem fala, sendo essa ação condição necessária para
reconhecimento de si e para apropriação dos saberes de que são portadores.
Fossatti (2010) afirma que as histórias de vida, geralmente, abordam situações,
acontecimentos, vivências que fizeram sentido, de algum modo, para as pessoas que se
constituem autores de suas histórias. Conforme o autor, nesse método, o pesquisador auxilia o
entrevistado na narração de sua própria história, contribuindo para que o mesmo possa
identificar e falar de suas experiências, fatos e situações que fizeram ou continuam fazendo
sentido em seu existir. Para Peres e Assunção (2010) as histórias de vida trazem o saber sobre
as marcas das trajetórias vividas e buscam os fios dos saberes pessoais que matriciam a atuação
profissional.
Sobre as marcas, Rolnik (1993), a partir de sua trajetória acadêmica, fala que elas
compõem a sua formação docente. Para ela, no campo visível há uma relação entre um eu e um
ou vários outros; na dimensão invisível da realidade, o que há é uma textura que vai se fazendo
dos fluxos que constituem nossa composição atual, conectando-se com outros fluxos, somando-
se e esboçando outras composições.
Rolnik (1993) denomina marcas, os estados inéditos que se produzem em nossos corpos,
a partir das composições que vamos vivendo. Cada um destes estados constitui uma diferença
que instaura uma abertura para a criação de um novo corpo. Essas marcas são produzidas nos
encontros ao longo da vida.
Nessa perspectiva, a formação decorre dos encontros significativos das trajetórias de
vida. Levando em consideração que cada um pode vivenciar esse processo de modo diverso, as
histórias de vida, podem sugerir informações importantes para a compreensão da formação
pessoal e profissional.

História dos encontros


Orlandi (2009) afirma que Deleuze consolidou conceitualmente uma filosofia da
experiência: a experiência da complexidade dos encontros. Para o autor, essa filosofia não se
define do ponto de vista da empiria e do dogma.

O que ela quer assinalar é “o ponto ‘crítico’ em que a diferença, como


diferença, exerce a função de reunir”. É no sentido de um diferencial capaz de
reunir heterogêneos que ela se define como “empirismo transcendental”. Se
acharmos que uma tal filosofia complica as coisas, ela nos responderá que a
complicação já está nos próprios encontros. Em nossos estados de vivência
comum, nesses estados de não-filosofia, sentimos que uma admiração, um
espanto ou um susto em face de algo é uma experiência complexa que nos
lança para dimensões não contidas nesse algo, mas que nele insistem.
(ORLANDI, 2009 p. 258)

Nessa filosofia, o encontro ordinário está exposto a uma reviravolta instantânea que
pode projetar tudo para fora dos eixos. Segundo Orlandi (2009), é como se a vida se sentisse
abalada por um vinco em que uma experiência ordinária é dobrada junto a outra, a
extraordinária. Percebemos, então, que a complexidade da experiência dos encontros depende
do que se passa nessa dobra. Para o autor, cada um sente e exprime a seu modo essa ocorrência
simultânea de linhas divergentes, a estranha dobradura na qual os juntados experimentam seu
próprio vínculo como sendo aquilo que os lança num tempo fora dos eixos.
O termo encontro, conforme Cunha (1982), deriva do latim incontrare, surge da junção
in + contra, onde “in” significa dentro de; “contra” pode significar ir contra alguém. Vieira
(2007) aborda que incontrare pode representar união, junção, confluência, choque, colisão,
briga, luta, disputa esportiva. Incontrare, também, referia-se a encontro de adversários. Ainda,
significava enfrentar, estar face a, mas com o tempo o sentido de animosidade desapareceu.
Os significados do termo incontrare parecem indicar aspectos para se pensar os
encontros. Se, inicialmente, o termo se referia a algum tipo de violência, o encontro em Deleuze
pode indicar certa violência posta pelo estranhamento, que para Orlandi (2009) gerariam as
estranhas dobraduras que nos lança a outros devires e possibilidades do pensar.
Nesse sentido, o encontro não trata da hora marcada, da experiência ordinária, da forma
ou modo como ocorre ou de quem se encontra. Essas dimensões referem-se àquilo que a
consciência é capaz de conceber: os afetos já vividos, as expressões já vistas, o sentidos já
experimentados. Esses são os encontros extensivos, os quais Orlandi (2009) considera como
necessários e úteis do ponto de vista da sobrevivência, dos passeios, da vida em geral, mas que
não dão conta da complexidade dos encontros. Já os encontros intensivos ativam-nos a estados
aos quais somos involuntariamente lançados; abre-nos a virtualidades que estão aquém ou além
aspecto extensivo.
A intensidade nos encontros “fissura a linha do sentir, escapa das ligações recognitivas
comandadas pelo senso comum, [...] forçando-nos a perguntar pelo que se passa nesse estranho
instante” (ORLANDI, 2009 p. 262). Há neles alguma coisa que força a pensar e não sabemos
ainda como opera esse algo. É a complexidade da experiência que pede passagem.
Segundo Orlandi (2009), na experiência dos encontros há a reelaboração da relação
entre sentir e pensar, pois a pluralidade dos sentidos não concebem o que se passa quando, ao
romper a própria tecedura do sentir, uma fissura propaga-se como raio e vem fissurar o pensar,
o imaginar. Para o autor, essas experiências provocam variações em nosso poder de ser afetado,
forçando-nos a sentir, a memorar, a imaginar... a pensar de outro modo, sem o apoio dos
dispositivos de simplificação do já vivido, dos dispositivos de fixação de identidades, de
semelhanças, de oposições e de analogias. Os fluxos intensivos abrem afectos e perceptos, isto
é, outros modos de sentir e perceber; disparam no próprio pensar um pensamento intenso.
Nessa direção, investigar a partir das histórias dos encontros é voltar a atenção para os
momentos em que se percebe as rupturas e fissuras que vão aparecendo nas histórias de vida.
Não se trata de buscar encontros pré-definidos, mas exige o trabalho minucioso da atenção para
cartografar os fluxos e processos intensivos que surgem nas narrativas de si. Assim como há
nos encontros intensivos alguma coisa que força a pensar e não se sabe como opera esse algo,
as histórias de vida podem trazer dados em que o investigador se depara com algo lhe escapa e
estranha e não se sabe ao certo o que aconteceu. Narrador e investigador, juntos, trabalham no
intuito de fazer emergir as marcas, os estados inéditos que se produziram ao longo da vida, ou
seja, a história dos encontros.

Considerações Finais

O rastreio das histórias dos encontros por meio das histórias de vida parecem considerar
aspectos importantes para a compreensão da formação pessoal e profissional. Pensar a partir
dessa perspectiva propõe outra compreensão a respeito do método de pesquisa que trabalha com
histórias de vida, que não desconsidera o que se tem desenvolvido nos estudos atuais, mas,
tendo como ponto de partida a filosofia de Deleuze, esse método é reinventado e lançado ao
campo das intensidades. Se, conforme Orlandi (2009), Deleuze considera a filosofia como a
arte de inventar os próprios conceitos para pensar nosso mundo e nossa vida, a reflexão sobre
os encontros mostra-se como campo de invenção de conceitos acerca dos aspectos que podem
aparecer nas narrativas de si.
Assim, pesquisar a história dos encontros propõem conceber cada um deles como
processo intensivo que direciona a formação. Nessa concepção, a formação pessoal e
profissional passa pelas linhas que fissuram o pensar e o sentir, que geram estados inéditos e
possibilidades inusitadas decorrentes da violência dos encontros.

Referências Bibliográficas

CUNHA, Antônio Geraldo da. Dicionário Etimológico Nova Fronteira da Língua Portuguesa.
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982.

FOSSATTI, Paulo. Por uma Logobiografia: possíveis contribuições de Viktor E. Frankl para
uma história de vida com sentido. In: ABRAHÃO, Maria Helena Menna Barreto (Org.).
(Auto)biografia e formação humana. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2010. p. 89-108.

NÓVOA, Antonio. Os professores e as histórias da sua vida. In: NÓVOA, Antonio (Org.),
Vidas de Professores. Porto-Portugal: Porto, 1995. 2ª ed. p. 11-31.

ORLANDI, Luiz Benedicto Lacerda. Deleuze. In: PECORARO, Rossano (Org.). Os Filósofos
Clássicos da Filosofia. Petrópolis: Editora Puc-Rio e Editora Vozes, 2009, vol. III, p. 256-279.

PERES, Lúcia Maria Vaz; ASSUNÇÃO, Alexandre Vergínio. A narrativa de si como mestra
do autoconhecimento: leituras a partir do imaginário. In: ABRAHÃO, Maria Helena Menna
Barreto (Org.). (Auto)biografia e formação humana. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2010. p. 139-
158.

ROLNIK, Suely. Pensamento, corpo e devir: uma perspectiva ético/estético/política no trabalho


acadêmico. Cadernos de subjetividade, v. 1, n. 2, p. 241-251, 1993.

VIEIRA, Waldo. Enciclopédia da Conscienciologia. Foz do Iguaçu: Ed. Editares, 2007.