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AS REIVENÇÕES DA RODA

Em um tempo remoto, quando os homens começaram a se agrupar em busca de


auxílio mútuo para garantir a sobrevivência de todos, uma única família poderia ser
uma aldeia. Nessas famílias, os homens empenhavam-se na captura de animais e
na colheita de frutos que podiam ser transformados em alimento. Além de facilitar a
busca e a obtenção de mais alimentos para o grupo, as aldeias feitas de família
favoreciam a defesa comum contra os ataques dos animais e o enfrentamento das
intempéries de uma natureza pouco compreendida. Todavia, quando a família
conseguia ultrapassar as adversidades imediatas, o crescimento natural da aldeia
significava usualmente sua morte. Logo os animais desapareciam da região e as
árvores e os arbustos jaziam sem frutos. Restava aos homens, às mulheres e às
crianças partirem para outro local, deixando ali boa parte do que haviam construído,
já que não havia como transportar os resultados de seus esforços para longe.

Eis que um dia, quando toda a aldeia se preparava para partir, um filho se
aproximou do pai para aconselhar-se. Na noite anterior, após lamentar o que perdia
por causa da partida, imaginou que se colocasse um tronco embaixo de um grande
fardo de peles poderia transportar muito mais do que o pouco que conseguiam
arrastar ou levar preso às costas. O fardo se movería mais facilmente e ocuparia
poucos homens, permitindo que outros providenciassem alimento e proteção ao
longo da jornada. Nem bem ele acabara de falar, o pai experiente já recusava a
sugestão. Para ele, aquilo não iria dar certo. As peles poderíam se soltar quando
começasse o movimento, o tronco poderia deslizar e esmagar os homens que o
puxavam e daí por diante. Em suma, era tudo muito complexo para ser colocado
em prática. O melhor era continuar do jeito que estavam.

Muitas estações vieram e muitas aldeias desapareceram. Algumas, entretanto,


conseguiram permanecer. Favorecidos pela proximidade de uma corrente de água,
os homens não mais apenas caçavam e colhiam o que encontravam nos arredores
de seus acampamentos. Eles buscavam domesticar a natureza, criando animais e
disseminando grãos pela terra para mais tarde recuperá-los multiplicados. Com
isso, as aldeias cresceram e permitiram que diversas famílias se agrupassem. Para
governar a aldeia, já não bastava o pai comum. Agora, os destinos da aldeia
passaram a ser entregues aos pais mais velhos, que constituíam o conselho de
anciãos.

Em uma dessas aldeias, o conselho de anciãos determinou que se construísse uma


muralha para proteger os habitantes de vizinhos belicosos e de animais selvagens
que os atacavam aproveitando-se da escuridão da noite. Para essa construção,
fazia-se necessário arrastar grandes blocos de pedra que destruíam tudo na sua
passagem, inclusive a vida daqueles que os arrastavam. Foi por isso que um dos
chefes dos transportadores imaginou que se colocasse o bloco de pedra sobre dois
troncos ficaria mais fácil guiar o transporte, além de agilizar o trabalho. Quando
levou a idéia ao conselho, os anciões explicaram que todas as construções da
aldeia haviam sido feitas do mesmo modo. Aquela era a maneira segura que todos
conheciam, não valia a pena correr o risco das inovações. Eles sempre fizeram
assim e haviam chegado à velhice, os jovens deviam fazer o mesmo.

Muitos sóis e muitas luas se passaram. As aldeias cresceram e se multiplicaram.


Algumas delas ganharam importância por ser o lugar onde os produtos eram
armazenados ou concentravam as operações de troca entre as aldeias próximas.
Nessas grandes aldeias, tudo era regido por uma casta de homens que mantinham
estreitas relações com os deuses. Eram eles que diziam quando plantar, quando
colher, quando os deuses estavam em fúria ou em paz com os homens.

Certo dia, um noviço dessa casta de reguladores sociais aproximou-se de seu


superior e revelou que havia descoberto uma forma de facilitar o transporte dos
grãos das aldeias vizinhas para serem guardados na grande aldeia. Ele havia
observado que, ao se arrastar os fardos de grãos entre uma e outra aldeia, se
perdia uma enorme quantidade pelo rompimento dos fardos. Desse modo, seria
conveniente que se colocasse os fardos sobre uma plataforma, encaixando-a sobre
dois troncos roliços. Os fardos ficariam protegidos e os grãos não se perderíam.
Atribuía aquela idéia a uma inspiração divina, uma vez que as extremidades em
círculo apontavam as formas perfeitas do deus sol e da deusa lua. O superior mal
ouviu o noviço. Com autoridade daqueles que têm um contato mais próximo com o
alto e o desconhecido, explicou que essa inspiração nada tinha de divina. Na
verdade, deveria prover de algum espírito maligno e deveria ter como objetivo
ofender os deuses. Se fosse realmente de origem divina, teria ocorrido a um
superior e não a um simples noviço. Determinou, portanto, que ele calasse seus
pensamentos e, para evitar que o espírito indesejado se manifestasse outra vez,
ocupasse o corpo e a mente apenas com orações, como faziam todos os outros
noviços.

Os homens nasceram e morreram. As aldeias cresceram e se fortificaram. Os


habitantes de uma aldeia passaram a combater os de outra em busca do domínio
que trazia riquezas. Os homens adotaram a guerra e a escravidão como modo de
vida. As aldeias maiores e mais fortes eram agora governadas por um único
homem, que se dizia rei. Foi em uma dessas aldeias grandes e fortificadas, agora
chamadas reinos, que um jovem conselheiro se aproximou do rei para lhe
apresentar o que chamava de Transporte Divino. Tratava-se de uma pequena caixa
colocada sobre um tronco fino cujas extremidades eram guarnecidas com duas
bolas achatadas que fariam a caixa se mover. Para o movimento, a caixa deveria
ser atada a um animal forte e veloz.

O rei achou a idéia interessante e chamou os outros conselheiros para que se


pronunciassem. O jovem conselheiro aguardou com ansiedade a decisão de seus
pares. Quando finalmente, após cuidadoso exame do projeto, o mais velho dos
conselheiros falou, sentiu grande decepção. Com a condescendência típica dos que
acreditam saber bem mais do que os outros, o conselheiro mais velho informou ao
rei que isso já fora feito antes, só que com outro nome. Tantas vezes fora feito,
tantos diferentes nomes foram empregados, mas em nenhuma das ocasiões havia
funcionado. A força dos deuses estava no rei e não em um objeto criado pelos
homens.

Houve, porém, uma aldeia pequena, uma aldeia grande e um reino em que um
homem deu forma a suas inquietações, outro a seus sonhos e outro a suas
descobertas. Foi assim que a roda foi inventada e reinventada. Porém, se a roda foi
inventada e reinventada em tantas sociedades é porque sempre houve alguém que
acreditou no novo, na possibilidade de fazer diferente. Se a roda não foi inventada
ou reinventada em algumas sociedades é porque sempre houve alguém que
pensou que não daria certo porque era demasiado complexo. Alguém que não
aceitava tentar o novo porque sempre fora feito daquela maneira e funcionava.
Alguém que não aceitava o novo porque a idéia não era dele ou temia perturbar
quem estava acima na cadeia do poder. Alguém que por desconhecimento ou culto
da ignorância, ou simplesmente por arrogância, acreditava que o novo era apenas
outro nome para aquilo que já havia sido feito antes.