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O Realismo Estético

como Método
Professor Edson José Sant’Ana
Movimento, Período,
Estilo, Estética e
Método
Movimento

Processo, desenvolvimento.

Organização de pessoas com um


propósito, um objetivo.
Período

Lapso de tempo, época;

Espectro de tempo que reúne


certas características de um
determinado estilo.
Estilo

Maneira ou arte de escrever;

Maneira de se fazer arte.


Estética
Suscetível de se perceber pelos sentidos;

Conhecimento da beleza na Arte e na


Natureza;

Teoria ou filosofia do Belo (conjunto de


sensações experimentadas no contato com a
obra de arte ou na manifestação da natureza);

Teoria ou filosofia da Arte.


Método
!
1. Procedimento, técnica ou meio de
fazer alguma coisa, esp. de acordo
com um plano;
2.Processo organizado, lógico e
sistemático de pesquisa, instrução,
investigação, apresentação etc.
Realismo como método?
Importa esclarecer que por Realismo,
entendemos algo para além do período e do
movimento estético ocorridos a partir da
segunda metade do século XIX e que uma
obra realista não corresponde à obra atada a
certos aspectos da realidade, fetichizando-
o s , a s s i m c o m o n ã o c o r re s p o n d e à
panfletagem política denuncista.
O realismo na arte não consiste em fazer
das obras panfletos políticos ou em
explicitar uma opinião superficialmente
tendenciosa favorável às forças
progressistas da sociedade. Pelo
contrário, a tese subjacente à obra deve
surgir da própria narrativa, da própria
conexão entre as ações colocadas em
conflito.
Por realismo, queremos nos referir,
aqui, à atitude artística realista, ou
procedimento estético que vem a ser
“ a re p ro d u ç ã o ve rd a d e i ra d e
personagens típicos em
circunstâncias típicas”.
Na obra realista, todo objeto
representado – natural ou feito pelo
homem – deve ser humanizado; a
atenção deve ser focalizada sobre a sua
significação humana, de um ponto de
vista histórica e socialmente específico.
O realismo, em relação aos seus meios,
métodos, elementos formais e estilísticos,
está necessariamente sujeito à
modificação, porque reflete uma realidade
que se modifica constantemente, e não
uma realidade estática.
Realismo é um método de apropriação
da realidade que consiste em captar o
movimento do real, apoiado no
recurso à narrativa e à tipicidade.
O método narrativo
O método narrativo tem primazia na literatura
realista por ser o método estético que está
focado nas ações das pessoas (personagens),
por ordenar e hierarquizar as relações sociais
definidoras de seus destinos, por ser o método
através do qual o narrado é integrado ao
motivos geradores – há articulação entre
eventos, fenômenos e pessoas.
A Tipicidade

O típico para o materialismo histórico e


dialético é diferente do típico para o
Po s i t i v i s m o e d o t í p i c o p a ra o
Weberianismo .
Enquanto para a sociologia compreensiva de
Weber o tipo é uma idealização (projeção
utópica) e para o Positivismo de Durkheim o
tipo é uma abstração estatística, para Marx, o
típico pode ser definido como um exemplar que
exprime com clareza a verdade da espécie, pois
concentra as tendências essenciais da espécie.
Já em sua Introdução a uma estética
marxista, Lukács (1978) substitui as
expressões tipo/típico, pelas expressões
particular/particularidade. Para ele, o
particular é aquele fenômeno, manifestação
singular, que possui as características do
genérico, universal.
Realismo vs Naturalismo
Descrição Narração
O descrito não tem relação com os O narrado se integra aos motivos
motivos geradores geradores de forma necessária
Predomina o quadro estático As cenas se sucedem de forma
dramática
Ponto de vista do espectador (como Impera o ponto de vista do personagem
se o narrador estivesse olhando para (como se o olho do narrador estivesse
fora do texto) voltado para dentro do texto)
Estória marcada por casualidades Casualidades se integram na estória
Narrador contempla Narrador convive
Detalhe se independentiza Detalhe se integra
As coisas tendem a se nivelar As coisas se articulam
Acentua os resultados Destaca o processo
Coisas são descritas Fatos humanos são narrados
O CONTRABANDO POÉTICO DE ODAIR
DE MORAIS EM SEU POEMA DA PÁGINA 17

aluno absolvido –
eu também roubava giz
pra escrever no portão
Odair de Morais
A saturação poética é a capacidade de um poema
dizer muito com pouco. E o que marca neste texto,
do poeta Odair de Morais, é sua capacidade
sintética de dizer que embora o tempo passe e que
no nível das aparências as coisas tenham mudado,
existe, essencialmente, uma conservação: o
instante pictórico deste poema, sua pintura do
momento, diz daquilo que se foi e do que se é,
fixando o passado no presente.
Assim, o contrabando poético deste texto não
consiste na transposição do presente para o
passado e do passado para o presente, num
movimento ambíguo, de mão dupla. Ele, o
contrabando, se esconde sob esse movimento,
modo artístico de dizer sem ter dito aquilo que não
mudou como o passar dos anos: condições de
trabalho, estudo e ludismo, em uma periferia que
vem sendo re-tratada no mais da obra deste poeta.
Na fusão das contas-ente do poema,
sobra, apenas, o que liga o homem-
professor ao menino-estudante: a
necessidade da expressão e a
precariedade do instrumental para o
trabalho.
No plano da aparência, apressamo-nos em dizer da
ligação entre o adulto e o infante, numa digressão
Bacheradiana, sem, no entanto, tocar na
materialidade daquilo que não é dito expressamente
e que, na realidade, é o centro da construção
poética: a ação (roubar) e o objeto (giz). Ao
registar “eu também roubava giz”, recai sobre o
poema todo o peso do mundo real, uma vez que, em
pl eno sécul o XXI , as escol as dependem,
excessivamente, de um material tão arcaico e
insalubre quanto este.
O que chama atenção, então, é a ancoragem do
lirismo na materialidade do cotidiano: não há
espaço para transcendências metafísica,
inconformismo pueril, saudosismo romântico ou
nefelibatismo. A prática, como disse o filósofo, é o
critério que deve ser usado para se julgar a
verdade; e a imediatez da vida, recrutada para o
texto, aponta para o fato de que duas gerações
estão presas e são vítimas do subdesenvolvimento
da sociedade em que estão inseridas.
A absolvição, então, é um ato de benevolência
secundária, e talvez desnecessária, uma vez que mestre e
discípulo são vítimas, objetos do mundo em que vivem. –
Dado relevante: melodicamente, a utilização do vocábulo
“aluno” não interferiria na construção do poema, senão
semanticamente, pois poderia, sem prejuízo do ritmo ter
sido utilizada a expressão “estudante”: “sem luz”, o
estudante; “sem luz” o professor. Apagados pela poeira
do pó-de-giz, anulada a hierarquia, entre iguais, não
pode haver absolvição, ato facultado aos juízes.
!
Ambos foram roubados.
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