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PELA REESTRUTURAÇÃO DA DÍVIDA PÚBLICA BRASILEIRA (04/2018)

Política Econômica da Maioria – POEMA

A partir da análise das publicações oficiais sobre a Dívida Pública Federal, percebemos que
existem riscos reais associados à sua estrutura, de modo que julgamos ser cabível uma
reestruturação no que diz respeito ao uso do endividamento público, ao arcabouço jurídico-
institucional que o envolve, bem como à composição, prazos de vencimento e, sobretudo, ao
custo dessa dívida.

Para que fique claro nosso ponto de vista, vamos desenvolver o tema por partes. Assim, vamos
expor a que dívida exatamente nos referimos, qual o verdadeiro problema relativo a essa
dívida, quais as consequências desse problema, para quem a dívida é um problema, quem se
beneficia com isso, o que caracteriza esse problema, como ele de fato se dá, o que fazer para
resolvê-lo e qual o papel de uma auditoria da dívida nesse processo.

O que é dívida pública?

Dívida Pública Federal (DPF) é a dívida contraída pela União sob a forma de contratos e/ou
títulos, que deve ser paga em moeda estrangeira (dívida externa) ou em moeda nacional
(dívida interna). É claro também que a dívida “interna” em títulos não é tão interna assim,
pois, como vamos ver, apesar de ser paga em moeda nacional, está em boa parte nas mãos de
gente que reside fora do país.

Fala-se também em Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG), que soma à DPF os títulos que o
Banco Central do Brasil possui em carteira para fins de política monetária, mais as dívidas das
administrações direta e indireta da União, estados e municípios com bancos nacionais e
internacionais públicos e privados e agências multilaterais, descontadas algumas aplicações
financeiras e as dívidas de empresas públicas financeiras.

Fala-se bastante também em Dívida Líquida do Setor Público (DLSP), que nada mais é do que a
DBGG descontados os Créditos do Governo Geral, o saldo com títulos livres na carteira do
Banco Central e o resultado financeiro das operações com reservas cambiais1.

Além disso, existem as dívidas dos estados e municípios com o Tesouro Nacional, que não são
contabilizadas como dívidas do governo geral, mas que geram recursos para os pagamentos da
Dívida Pública Federal2.

Neste artigo, trataremos quase exclusivamente da dívida federal interna em títulos, isto é, da
Dívida Pública Mobiliária Federal interna (DPMFi), que correspondia, à época de redação deste
texto, a mais de 96% do estoque total de DPF3. É essencialmente esta dívida que queremos
reestruturar, o que defendemos que seja feito em conjunto à repactuação das dívidas dos
estados e municípios.

1
FAQ BCB, 2016, Indicadores fiscais: https://goo.gl/Mxw4H9 (pgs. 14, 15 e 16).
2
As dívidas de estados e municípios podem ser consultadas no site do BCB: https://goo.gl/cDVW1t
3
Relatório Mensal da Dívida (RMD), Tesouro Nacional, agosto de 2017: https://goo.gl/BNHRrT (pg. 11).

1
De todo caso, pode parecer que ao colocarmos a dívida pública em questão nós pensemos que
a dívida em si mesma é “ruim”, o que não é verdade. A dívida pública é um instrumento
legítimo de financiamento do Estado, indispensável para qualquer projeto de desenvolvimento
nacional. Entretanto, o uso que tem sido feito da dívida pública nas últimas duas décadas não
tem nada a ver com qualquer projeto de desenvolvimento do Brasil. Em outras palavras, o
problema da dívida pública brasileira é que ela está sequestrada pela lógica do rentismo.

O que é rentismo?

Imaginem alguém que possua muitas casas... Esta pessoa talvez nunca tenha trabalhado, mas
tem a vida garantida pelos aluguéis pagos pelos inquilinos todo santo mês. Esta é a lógica do
rentismo, isto é, arrancar renda de outra pessoa como decorrência pura e simples do direito
de propriedade sobre algo, sem relação direta com um processo econômico produtivo.

Da mesma maneira vivem alguns proprietários de terras rurais, proprietários de patentes,


proprietários de marcas, grandes possuidores de títulos de dívida pública etc.

Isso significa, como vamos ver com mais atenção, que a dívida pública se reproduz e tem
crescido incessantemente nas últimas décadas não porque era necessário captar recursos para
fazer investimentos públicos em benefício do desenvolvimento social e econômico do país,
mas sim porque era preciso proteger da inflação e rentabilizar enormes quantias de dinheiro
de propriedade dos ricos, dinheiro que não era arrecadado como imposto para virar
investimentos públicos, não era investido na oferta de bens e serviços e na geração de
empregos e que tinha ainda menos razão de ser arriscado na economia real com as altíssimas
taxas de juros historicamente praticadas pelo Estado brasileiro.

Dinheiro por si só não rende juros. Então, os que têm muito dinheiro sobrando compram
títulos (públicos e privados, mas geralmente públicos) que rendem juros e possuem
virtualmente nenhum risco de inadimplência. Assim, incessantemente, os ricos vão ganhando
rios de dinheiro, ou por diversas maneiras de rentismo, ou pela exploração do trabalho alheio,
ou por métodos inconfessáveis, e esse dinheiro vai rendendo juros e esses juros viram ainda
mais ativos que, por sua vez, rendem mais dinheiro e mais juros, e títulos vão virando mais
títulos, numa ciranda financeira que vira e mexe se descola da capacidade de criação de renda
da economia real, que sempre deve pagar a conta da farra.

O rentismo sobre a dívida pública brasileira significa basicamente duas coisas: 1. Que a dívida
se multiplica sem praticamente nenhuma contrapartida em investimentos públicos de
verdade, como construção de estradas, portos, hidrelétricas, escolas, hospitais etc., crescendo
como uma bola de neve financeira. 2. Que a dívida pública se transformou em um meio de
transferir renda dos mais pobres para os mais ricos, em uma distribuição de renda ao
contrário, sendo uma das razões pelas quais o nosso país é um dos mais desiguais do mundo.

A dívida sequestrada pelo rentismo transforma como que magicamente dinheiro em mais
dinheiro, sem relação direta com a oferta de bens e serviços, por meio da espoliação do
dinheiro público, sugando dinheiro da base da sociedade para o topo, fazendo os pobres mais
pobres e os ricos mais ricos.

2
Uma das maneiras que o Estado tem de compensar os seus gastos é por meio da arrecadação
tributária. No Brasil, 4/5 da carga tributária incide sobre salários e consumo, o que onera
muito mais os mais pobres4. E se os credores exigem que o serviço da dívida5 não seja pago
indefinidamente com a contração de mais dívidas, se as privatizações nunca bastam, se os
lucros e dividendos das empresas públicas remanescentes são insuficientes, se o lucro do
Banco Central não dá, e se os sacrifícios dos contribuintes de estados e municípios que tiveram
suas dívidas federalizadas também nunca bastam, “economiza-se” dos tributos federais para o
pagamento infinito da dívida da União.

Assim, a dívida pública brasileira foi transformada em um dos mais perversos capítulos do
neoliberalismo no Brasil. Muito se falou das privatizações, que levantaram dinheiro para saldar
dívida, diga-se de passagem. Mas com o sequestro rentista da dívida pública foi-se além da
liquidação de patrimônio nacional, passando-se a uma paulatina privatização da receita e da
capacidade de emissão monetária do Estado brasileiro, com a criação de um rígido arcabouço
jurídico-institucional que garante o funcionamento da finança pública como uma bomba de
sucção dos recursos públicos para os ricos.

É assim que nas últimas décadas o povo brasileiro foi vítima de um ajuste fiscal permanente,
que sob a desculpa esfarrapada de manter a “saúde financeira do país” sacrificou os
investimentos públicos para pagar juros, o chamado “superávit primário”6.

O que eles chamam “responsabilidade fiscal”, nós chamamos espoliação! Pilhagem!

É claro que parte dos títulos é emitida para fins de desapropriações da reforma agrária, crédito
para agricultura familiar, crédito estudantil etc., o que corresponde plenamente ao interesse
público. Mas essa parte é muito pequena.

Portanto, reestruturar a dívida pública para nós significa combater o rentismo, liberando a
dívida para seu uso devido.

Como a dívida pública mobiliária federal chegou ao tamanho atual?

Em dezembro de 1994, o estoque de títulos públicos federais fora da carteira do Banco Central
era de pouco mais de R$ 59,3 bilhões7. O estoque atual da DPMFi é de mais de R$ 3,2 trilhões.
Isso significa que num período de pouco mais de duas décadas o estoque de dívida pública se
multiplicou em mais de 53 vezes.

Esse crescimento se explica não porque tivemos uma extraordinária política de


desenvolvimento sustentada pelo endividamento público (o que não é verdade de modo
algum), mas por duas razões principais: 1. Porque as taxas de juros (tanto pré-fixadas quanto

4
Carga Tributária no Brasil 2016, análise por tributos e por carga de incidência, Receita Federal:
https://goo.gl/53yJPq (pg. 35)
5
Chama-se “serviço” da dívida o total dos encargos com a dívida em um dado período, ou seja,
refinanciamento, amortizações, juros, taxas etc.
6
Resultado primário é a diferença entre as receitas primárias e as despesas primárias, isto é, excluídas
as receitas e despesas com juros. Receita > Despesa = Superávit. Receita < Despesa = Déficit.
7
Banco Central do Brasil, Notas econômico-financeiras para a imprensa, Histórico, Política Fiscal, março
de 1998, Q1: https://goo.gl/Et8Gk4

3
pós-fixadas) sempre foram muito altas em todo esse período. 2. Porque os juros nominais
pagos sempre foram muito maiores que os superávits primários, mesmo que o aumento da
dívida tenha sido causa de significativo aumento na carga tributária ao longo desse período, de
modo que nós sempre fomos contraindo cada vez mais dívida para pagar juros8.

Esse crescimento também se explica em função do Plano Real, que sempre dependeu de taxas
de juros muito elevadas sobre os títulos públicos para atrair o ingresso de dólares no país, o
que mantém o Real artificialmente valorizado e, em alguma medida, ajuda a estabilizar a
inflação, dado que o Brasil regrediu enormemente em sua industrialização e se confirmou no
período como importador líquido de bens de capital e insumos à produção, de modo que as
variações cambiais têm alguma influência sobre o nível geral de preços. No entanto, se
queremos de fato arrancar uma das raízes da nossa inflação, precisaremos libertar a finança
pública do sequestro rentista para investimentos em infraestrutura que possibilitem a
retomada do processo de industrialização.

Alguém poderia dizer que pelo menos a dívida não necessariamente gera custo imediato em
termos de dinheiro público para o pagamento de juros, posto que constantemente
refinanciamos o estoque (rolagem da dívida) e normalmente pagamos juros com mais emissão
de dívida sobre a qual incidem mais juros. Mas não é bem assim. Em 2016 foram abatidos na
necessidade de emissão de dívida nova R$ 191,31 bilhões de recursos orçamentários9, o que é
quase o dobro do orçamento da Educação, para se ter uma ideia. Os recursos orçamentários
utilizados em 2016, ano em que houve déficit primário do governo federal, vieram de
dividendos da União, lucro do Banco Central, recursos oriundos do pagamento de juros e
amortizações das dívidas de Estados e Municípios com a União (dinheiro fresco de impostos
municipais e estaduais) etc.10

Então, a União tira de onde dá e de onde a legislação obriga para pagar os juros, mas como a
carga de juros é enorme, esses juros vão sempre virando mais dívidas e mais juros. Apenas em
2016, a apropriação de juros ao estoque da DPMFi foi de R$ 344,7 bilhões11. Também pudera!
No ano de 2016 pagamos mais de R$ 407 bilhões em juros nominais, sendo que em 2015 já
havíamos pago mais de R$ 501 bilhões, e só de janeiro a agosto de 2017 pagamos mais de R$
271 bilhões12.

Assim, a dívida pública interna em títulos, excluindo-se a dívida em posse do Banco Central13,
chegou a 50,8% do PIB em agosto de 2017, o que equivale a 133% do orçamento efetivo da

8
20 anos de economia brasileira 1995-2016, Centro de altos estudos brasileiros no século XXI:
https://goo.gl/GqnAHi (pgs. 95, 100 e 103).
9
Relatório Anual da Dívida (RAD), 2016, “Necessidade de Financiamento do Tesouro Nacional”:
https://goo.gl/u5EdN3 (pg. 21).
10
Tesouro Nacional: https://goo.gl/A971if
11
RAD 2016, pg. 27.
12
Banco Central do Brasil, Notas econômico-financeiras para a imprensa, Histórico, Política Fiscal,
janeiro de 2016 e 2017 e setembro de 2017: https://goo.gl/Et8Gk4
13
A Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG) se encontra em 73,7% do PIB. Idem, setembro de 2017.

4
União14. Além disso, pelas razões apontadas acima, a dívida vem crescendo de modo
acelerado: 21,4% em 2015, 11,45% em 2016 e já cresceu 9,64% até agosto de 2017 15, tendo
como forçoso efeito colateral políticas de austeridade fiscal empurradas goela abaixo com a
desculpa do crescimento acelerado da dívida, além de uma enorme e desnecessária tragédia
social com a escassez de serviços básicos e o desemprego.

Dívida pública e restrição orçamentária

Do ponto de vista da ciência econômica, é preciso que fique claro o seguinte: a existência da
dívida pública não limita a priori os gastos com saúde, educação etc. Dentre as receitas e
despesas correntes, os gastos primários não necessariamente disputam espaço fiscal com os
juros; superávits primários não são sempre absolutamente necessários e, com ainda mais
razão, reestruturar a dívida certamente fará com que os investimentos públicos (obras de
infraestrutura, por exemplo) não disputem espaço com as despesas de capital relativas ao
refinanciamento da dívida para manutenção do rentismo.

Trocando em miúdos, isso significa que a carência de gastos em saúde, educação etc. deve-se
exclusivamente à falta de força política para fazê-lo.

As finanças públicas não se assemelham em nada às finanças domésticas ou empresariais. As


famílias ou empresas não definem a própria renda; já o governo pode escolher taxar os mais
ricos se precisar de dinheiro16. As famílias ou empresas não possuem um Banco Central e um
Tesouro Nacional; já o governo, via de regra, emite soberanamente sua própria moeda,
constituindo-se como emprestador de última instância do sistema financeiro nacional, e emite
títulos públicos pagos na moeda que ele mesmo emite. As famílias ou empresas não definem a
taxa de juros e não estipulam as condições em que tomam empréstimos; o governo pode fazê-
lo em larga medida, desde que não tenham sido politicamente fabricadas condições que o
restrinjam. Quando as famílias ou empresas gastam, nada do que foi gasto volta para elas; já o
governo, quando gasta, injeta renda na economia e recebe uma parcela de volta como
arrecadação tributária. Por fim, famílias precisam de renda prévia para gastar; já o governo,
pelas razões expostas acima, usa a arrecadação tributária apenas para compensar os seus
gastos, que precedem lógica e cronologicamente a própria arrecadação, enxugando da
economia excessos de liquidez.

A finança pública real, portanto, não é como se houvesse uma manta curta e tivéssemos que
necessariamente optar entre cobrir gastos com saúde, educação, previdência etc. para não
descobrir os gastos com dívida e não nos tornarmos “caloteiros”.

A dívida é permanentemente rolada, isto é, emite-se novos títulos para garantir o resgate de
títulos vincendos ou troca-se títulos velhos por novos, por assim dizer. Do mesmo modo, pode-

14
Senado Federal, Portal do Orçamento, Painel Cidadão, orçamento planejado 2017, “orçamento
efetivo” exclui repartição de recursos com estados e municípios e refinanciamento da dívida:
https://goo.gl/Qkkrfa
15
RAD 2015, pg. 35 (https://goo.gl/uAheAu); RAD 2016, pg. 27; RMD, agosto de 2017, pg. 12.
16
Ao taxar os mais ricos, que têm maior propensão a poupar do que a gastar, porque têm mais dinheiro
“sobrando”, o governo assim não derruba a economia por não diminuir o consumo agregado. Ao taxar
os mais ricos dentre os ricos, esse raciocínio é ainda mais válido.

5
se emitir dívida nova para pagar os juros, desde que haja para tanto autorização prévia do
Congresso (CF, art. 167, III). E o ritmo de crescimento da dívida não seria instável, dando
desculpas para políticas fiscais restritivas, se não pagássemos juros tão altos e, assim, não
precisássemos permanentemente integrar enormes somas de juros ao estoque.

Mas a gestão neoliberal da finança pública faz parecer que existe essa manta curta. Porém, a
única manta curta que existe é aquela que mal serviria para cobrir a desfaçatez de Ministros da
Fazenda e Diretores do Banco Central de plantão, sempre ávidos por restringir os
investimentos públicos para beneficiar os rentistas.

“Economizar” no gasto público para pagar juros é ainda menos recomendado em períodos de
recessão, pois isso por si só piora a situação da atividade econômica. Muitas vezes, dado que o
Estado é o maior agente econômico da quase totalidade dos países capitalistas, haver maior
gasto do que arrecadação é a única maneira de sustentar o crescimento da economia, o que
antecipa a criação de valor17, salva a perspectiva de arrecadação futura e garante a própria
estabilidade da relação dívida/PIB.

Mas com ou sem recessão, o ajuste fiscal vem sendo praticado há mais de vinte anos em nome
da dívida sob a alcunha simpática de “responsabilidade” fiscal, tendo se transformado em
verdadeira política de estado ao longo desse tempo. Porém, é sobretudo a partir do começo
de 2015 que ele veio com intensidade e “insanidade” inéditas, chegando a se fazer valer de
maneira brutal sob a forma constitucional do “teto de gastos” (EC 95) aprovado ao fim de
2016. O resultado concreto da última rodada de ajuste foi que só pioraram os indicadores da
dívida em relação ao PIB, tanto porque o aumento dos juros aumentou a dívida, quanto
porque a redução do gasto público e o próprio aumento dos juros comprometeram o PIB e
consequentemente a arrecadação de tributos, num país em que a carga tributária depende
tanto do consumo.

O que tentaremos deixar ainda mais claro de agora em diante é que a simples existência de
dívida pública não necessariamente deve causar restrições na oferta de serviços públicos, de
modo que as restrições praticadas só são possíveis devido a características particulares da
dívida brasileira e, sobretudo, às forças políticas dominantes no país.

Portanto, a única restrição orçamentária é a luta de classes. O único fator que realmente limita
a elasticidade dos orçamentos públicos é a capacidade organizada de diferentes grupos sociais
controlarem politicamente o Estado, não havendo restrições financeiras “naturais” nem
resistências insuperáveis.

Prova de que não existe nenhuma restrição orçamentária dada de antemão é o fato de que os
ricos conseguiram multiplicar o estoque de dívida mobiliária interna em proveito próprio em
53 vezes em pouco mais de duas décadas além de terem sugado algo da ordem de R$ 900
bilhões só em superávits primários do Governo Central entre 1994 e 2014 ininterruptamente18,

17
Por “valor” estamos entendendo aqui, grosso modo, a oferta de bens e serviços na economia real.
18
Tesouro Nacional, Política Fiscal, Histórico do Resultado do Tesouro Nacional: https://goo.gl/tXrdiz.
“Governo Central” corresponde ao Tesouro Nacional, Banco Central e Previdência.

6
isso tudo apenas porque foram capazes de controlar o processo político-institucional do país
desde então.

Dívida pública e desemprego

Como já foi dito, a dívida da União é uma alternativa de “investimento” para os ricos. É assim
que eles próprios chamam a negociação com títulos públicos: “investimentos”. Ocorre que
investimento, no duro, é comprar máquinas e equipamentos, abrir lojas, fábricas, comprar
insumos, ampliar negócios, melhorar a produção etc. É assim que se produz mercadorias e
serviços. É assim que o IBGE calcula a “taxa de investimento”19 da economia de verdade. E é
assim que os empregos são gerados.

Mas se engana quem pensa que existe uma divisão tão rígida entre o capital dito “produtivo” e
esse tal de “capital financeiro”, do qual o rentismo sobre a dívida pública seria expressão
particular. Nas economias capitalistas modernas (e quando falamos “modernas” estamos
falando desde o começo do século XX20), existe total imbricação entre os circuitos produtivos
de acumulação e as diversas modalidades rentistas de acumulação financeira ou
“centralização” de capitais21. Não à toa, as empresas ditas “produtivas” invariavelmente
prezam pelo que elas chamam de “ganhos de tesouraria” (particularmente os ganhos com
títulos públicos por meio de fundos de investimento), e algumas possuem departamentos
financeiros tão bem estruturados quanto seus departamentos operacionais. Então não são
apenas as empresas financeiras, como os bancos, que ganham com a dívida pública. Elas são
apenas as que ganham mais.

Em tempos de crise, aliás, se por um lado os empresários “produtivos” fazem pressão política
para que o Estado corte gastos sociais com um discurso moralista de “austeridade” e
“retomada da confiança na economia”, por outro lado, eles pressionam o mesmo Estado,
desde as suas entranhas e também por meio da imprensa econômica, para que aumente seus
gastos com juros. Em um contexto no qual os empresários têm grandes incertezas sobre o quê,
como e para quem produzir, eles se refugiam na soberania da dívida pública.

Assim, a economia real perde postos de trabalho em duas pontas: perde porque os
empresários não investem na produção para “investir” nos títulos; e perde porque o Estado
diminui o seu gasto. Uma regra macroeconômica fundamental é a de que o gasto de um é a
renda de outro, logo, se o Estado diminui os seus gastos, salários não são pagos, encomendas
não são feitas às empresas, trabalhadores são demitidos, trabalhadores sem salários
consomem menos ou não consomem, o que diminui ainda mais o uso da capacidade instalada
das empresas, que demitem mais trabalhadores e não encomendam a outras empresas, que
diminuem a produção e demitem trabalhadores... Esse é o segredo do que se chama na ciência
econômica de “efeito multiplicador do gasto”.

19
Dada pela Formação Bruta de Capital Fixo e pela Variação de Estoques, tais como constam nas Contas
Nacionais do IBGE.
20
Ver “Imperialismo, fase superior do capitalismo”, de Vladimir Lenin e “O capital financeiro”, de Rudolf
Hilferding.
21
A “acumulação” financeira, a rigor, não produz riqueza nova, apenas redistribui riqueza pré-existente.

7
Por fim, vale observar que não apenas os juros sobre a Dívida Pública Mobiliária Federal
interna retraem a geração de empregos. A DPMFi paga juros altos tanto em seus títulos
remunerados pela taxa básica de juros da economia (SELiC), quanto em seus títulos com taxas
de juros pré-fixadas ou indexados a índices inflacionários. Mas além dela existe a dívida
mobiliária na carteira do Banco Central do Brasil, atrelada à SELiC, definida pelo próprio BCB,
com a qual este operacionaliza parte fundamental da política monetária, determinando por
meio de operações de compra e venda de títulos diárias as taxas de juros praticadas no
mercado interbancário de reservas. Grosso modo, se a SELiC é alta, os bancos preferem
entregar o dinheiro para o BCB e isso influencia as taxas de juros praticadas para emprestar a
outros bancos, empresas e pessoas físicas. Logo, se a SELiC é alta, o crédito é mais caro,
empresas tomam menos empréstimos e fazem menos investimentos, menos postos de
trabalho são necessários, menos salários são pagos, famílias consomem menos e isso tudo
gera mais desemprego.

No período em que estamos baseando nossos dados, o que vimos foi uma estabilidade em
patamar muito elevado da taxa básica de juros reais, isto é, a taxa definida pelo BCB
descontada a inflação. Os juros caíram, mas a inflação caiu de modo proporcional ou mais
acelerado em determinados momentos, o que gerou manutenção de juros reais muito
elevados, explicando parte do desemprego observado no período, pelo fato de isso encarecer
o crédito e gerar demissões em atividades econômicas sensíveis a crédito barato, como
construção civil, por exemplo.

Quem exatamente ganha com a dívida pública?

Até o último Relatório Mensal da Dívida antes do fechamento deste texto, o estoque da Dívida
Pública Mobiliária Federal interna se dividia da seguinte maneira22:

- 25,18% de fundos de investimento;

- 24,83% de fundos de previdência;

- 22,37% de instituições financeiras;

- 12,66% de não-residente;

- 4,81% do governo;

- 4,69% de seguradoras;

- 5,45% outros.

A primeira coisa que gostaríamos de destacar é a categoria “não-residentes”. À primeira vista,


pode parecer que apenas os juros referentes a 12,66% do estoque escoam para fora do país.
Mas não é bem assim. A categoria “não-residentes” diz respeito apenas às contas de pessoas
físicas e jurídicas relativas aos fundos ou outras entidades de investimento coletivo com
residência ou sede no exterior. Entretanto, uma parte dentro de uma das maiores fatias da
dívida, a de instituições financeiras, também remete seus rendimentos ao exterior. A categoria

22
Relatório Mensal da Dívida (RMD), Tesouro Nacional, agosto de 2017: https://goo.gl/BNHRrT (pg. 14)

8
“instituições financeiras” representa os títulos em posse dos bancos comerciais e de
investimento, nacionais e estrangeiros, além de corretoras e distribuidoras23.

Além disso, outra parte considerável da Dívida Pública Federal (DPF), a Dívida Pública Federal
externa (DPFe), também suga recursos públicos brasileiros para fora do país. A DPFe possui (no
mês de referência do texto) estoque equivalente a R$ 117,57 bilhões, sendo que mais de 90%
desse estoque é referente a uma dívida em títulos e o restante em contratos24.

Como o Tesouro Nacional não divulga discriminadamente o estoque de DPMFi em mãos de


instituições financeiras estrangeiras, não é possível determinar com exatidão o volume de
dívida “externa”, num sentido amplo do termo, ou seja, dívida que escoa recursos públicos
para fora do país. Porém, a julgar pela lista dos “dealers” do Tesouro, que é o conjunto de 9
instituições financeiras legalmente autorizadas a comprar os títulos da DPMFi diretamente da
autoridade fiscal, é possível dizer que mais ou menos a metade dos compradores de títulos do
chamado “mercado primário” são instituições essencialmente estrangeiras25.

Se é lícito fazer ilações com base simplesmente na quantidade de bancos estrangeiros


presentes no mercado primário de títulos da dívida “interna”, poderíamos dizer que estamos
seguindo à risca a tradição colonial do “quinto dos infernos”, posto que pelo menos 1/5 da
Dívida Pública Federal remeteria recursos públicos para fora, da mesma forma como
remetíamos 1/5 da produção de ouro nacional como imposto ao império português.

Em relação aos fundos de investimento, que possuem aparentemente a maior parte da dívida,
cabe observar que eles congregam os “investidores” a que nos referimos quando falamos da
relação entre dívida pública e desemprego. Além disso, parte dos títulos referentes à rubrica
“outros” pertence diretamente às empresas do setor assim chamado “produtivo”.

Sobre a rubrica “governo”, cabe observar que boa parte dessa dívida ajuda na formação de
caixa para o BNDES, tanto com emissões diretas em nome do banco quanto com o rendimento
das aplicações de fundos para-estatais que também compõe a captação de recursos do
banco26. O caixa do BNDES, por sua vez, beneficia principalmente os grandes empresários com
empréstimos subsidiados ao preço pago por todos nós da diferença entre os custos de
captação e os juros recebidos pela instituição pelos empréstimos.

Também é importante observar que os fundos de previdência privada possuem parte


considerável da dívida. Aliás, dado o “teto de gastos”, pode-se afirmar que os fundos de
previdência privada seriam os principais beneficiários de uma reforma da previdência nos
moldes discutidos pelo governo neoliberal, ou seja, tendo em vista dificultar o acesso aos
benefícios previdenciários. Os fundos privados ganhariam tanto com o aumento dos superávits

23
Ver nota 46 do Relatório Anual da Dívida 2016, Tesouro Nacional, pg. 37.
24
RMD, pg. 11.
25
A lista dos dealers vigente de 10/08/2017 a 31/01/2018 trazia 4 bancos comerciais e de investimentos
estrangeiros, além de um banco catalogado como nacional, mas cujo capital é originalmente espanhol e
que remete recursos para a matriz, o Santander. Fora que os bancos “brasileiros” presentes na lista,
exceto a Caixa Econômica Federal, são todos bancos de capital aberto, com considerável participação
acionária estrangeira. Para consultar a lista dos dealers: https://goo.gl/kZERDx
26
Relatório da Administração Sistema BNDES 2016: https://goo.gl/jwYdJC (pg. 16).

9
primários, resultante de maior sobra das contribuições sociais no caixa da Seguridade27,
quanto com o aumento da fatia de mercado de setores da classe média que deixarão de ver
vantagem na previdência pública e poderão optar por planos de previdência complementar.

De todo caso, são os bancos nacionais e estrangeiros os que mais ganham com a dívida
pública. Além da parcela de DPMFi em posse de “instituições financeiras”, os bancos
comerciais são proprietários em larga medida dos fundos de previdência abertos28, que
correspondem a mais de 60% do estoque de DPMFi mantido por fundos de previdência29.
Assim, é possível dizer (de modo meramente aproximativo) que cerca de 37% do estoque da
dívida está nas mãos dos bancos, isso sem levar em consideração as “seguradoras”, que são
também em larga medida propriedades de grandes corporações bancárias.

Dívida pública e a classe média

Em meados de 2002, foi criado o programa Tesouro Direto, com o intuito de vender títulos
públicos a pessoas físicas pela internet. O programa tem a adesão de “investidores” com poder
de poupança mais limitado, que se encaixam no perfil que aqui estamos chamando de “classe
média”, ou seja, trabalhadores com o garrote da escravidão assalariada um pouco mais frouxo,
profissionais liberais, pequenos capitalistas, funcionalismo público etc., ou seja, um conjunto
composto pelas franjas das classes sociais fundamentais.

Esses “investidores” encontram nos títulos públicos uma maneira mais vantajosa de guardar
dinheiro do que nas cadernetas de poupança, para fins de complemento futuro de renda,
financiamento de bens, pequenos empreendimentos etc.

Do ponto de vista do rentismo, o mais importante é o efeito propagandístico do programa, que


fornece um lastro à crença ideológica de parte da classe média nas políticas econômicas
neoliberais. É assim que várias “consultorias de investimento”, muitas delas de fundo de
quintal, patrocinam textos nas seções econômicas dos portais de notícia discorrendo sobre a
galinha dos ovos de ouro do governo, fazendo pessoas com alguma grana no bolso se
imaginarem parte do mundo das altas finanças.

Com efeito, o estoque de dívida interna em títulos relativo ao Tesouro Direto é de pouco mais
de 1,4% do total30. Assim, a classe média esbraveja a favor do latifúndio rentista ignorando o
tamanho da sua parte cabida, de onde vem o dinheiro que remunera os títulos públicos e os
danos aos direitos sociais e ao circuito produtivo do país causados pela espoliação financeira.

Neste ponto, contudo, vale firmarmos o acordo político de que qualquer reestruturação da
dívida deve manter os compromissos com o programa Tesouro Direto, dadas a sua pequena

27
Análise da Seguridade Social 2015, ANFIP: https://goo.gl/hdJx45 (pg. 29).
28
Fundos de previdência abertos são fundos comercializados por bancos e seguradoras, que podem ser
adquiridos por qualquer pessoa física ou jurídica. Fundos fechados são fundos criados por empresas
voltados exclusivamente aos seus funcionários.
29
RAD, pg. 39.
30
RMD, agosto, pg. 7. Esse estoque compõe parte da rubrica “outros” indicada anteriormente.

10
dimensão e a sua utilidade na formação de poupança de longo prazo31 para pessoas que
majoritariamente não “vivem de renda” e não compõem as classes dominantes.

A classe média também acessa a dívida pública por meio dos fundos de previdência privada, o
que, neste caso, também daria uma relativa função social ao pagamento de juros. Portanto, a
reestruturação da dívida pública que defendemos deve garantir que não haja perdas nos
investimentos desses trabalhadores dos setores médios, ao passo que nos livrarmos do
rentismo também ajudaria no aperfeiçoamento da previdência pública.

As características da dívida pública brasileira

A captura rentista da finança pública por meio do endividamento ocorre por causa de
características concretas da dívida relativas ao arcabouço jurídico-institucional que a engloba,
à sua composição, à sua estrutura de maturação, ao seu custo e à sua gestão.

A Constituição Federal, no parágrafo 1º do artigo 164, proíbe que o Banco Central do Brasil
faça empréstimos ao Tesouro Nacional, o que obriga o governo a ter necessariamente que
financiar os seus déficits com emissão de títulos públicos. Além disso, a Lei Complementar
101/2000, mais conhecida como Lei de Responsabilidade Fiscal, disciplina de forma definitiva a
extorsão dos recursos públicos para os pagamentos da dívida em todas as esferas de governo.

Também existe uma sintonia fina entre consecutivos Ministros da Fazenda, Secretários do
Tesouro, Presidentes do Banco Central e o mercado financeiro. Ao longo das últimas décadas,
esses postos-chave da condução econômica do Estado têm sido ocupados direta ou
indiretamente por representantes do financismo32.

A estrutura de maturação da dívida possui duas características fundamentais: Estoque


vincendo em 12 meses muito elevado e prazo médio de vencimento muito curto.

O estoque com vencimento em 12 meses em agosto de 2017 era de 16,64% do total ou R$


546,9 bilhões, quantia consideravelmente alta em relação à capacidade de o Estado levantar
fundos para saldá-la nesse período, dada sua impossibilidade jurídica em fazer uso de emissão
monetária (empréstimos do BCB) para saldar dívida. Esse estoque, que já chegou a 46% do
total da DPMFi em 200433, vem diminuindo ao longo do tempo em termos relativos, mas como
a dívida vem aumentando incessantemente, percebe-se que ele cresceu em termos absolutos.

Vale observar que boa parte do estoque vincendo em 12 meses está em mãos de credores
não-residentes, cujas carteiras são compostas amplamente por títulos pré-fixados34, sendo que

31
O Tesouro Direto ajuda na formação de poupança para aquisição da casa própria ou como “pé de
meia” para situações de vulnerabilidade, como desemprego de setores sem direitos trabalhistas
formais, e até mesmo complemento de renda na velhice.
32
Dantas, Eric G.; Perissinoto, Renato. Ministros da área econômica do Brasil (1964-2015), fevereiro de
2016: https://goo.gl/oNi2ka. Codato, Adriana; Dantas, Eric G.; Perissinoto, Renato. Perfil dos Diretores
do Banco Central do Brasil dos governos Lula, Dilma e Cardoso, novembro de 2014:
https://goo.gl/LpD8y7. The observatory of social and political elites of Brazil.
33
RAD 2004: https://goo.gl/RBhdYJ (pg. 35).
34
RMD, agosto de 2017, pg. 14.

11
mais de 61% do estoque vincendo em 12 meses é constituído por títulos pré-fixados35, que
constituem a maior parcela da DPMFi (34,53%)36 e possuem em geral os menores prazos de
vencimento37.

O prazo médio de vencimento da DPMFi também pode ser considerado problemático. Em


agosto de 2017, todo o estoque possuía vencimento médio de 4,27 anos. O Tribunal de Contas
da União, em um relatório de 201538, assinalava que essa estrutura de vencimentos estava
muito abaixo da média internacional, o que, sobretudo do ponto de vista dos credores
estrangeiros, aumenta a percepção de risco sobre a nossa dívida interna.

A partir dessas duas características, deve-se ter em mente que:

“A estrutura de maturação da dívida está relacionada com seu risco de


refinanciamento. Este é dado pela possibilidade de o Tesouro Nacional, ao
acessar o mercado para refinanciar sua dívida vincenda, encontrar condições
financeiras adversas que impliquem elevação em seus custos de emissão, ou
até, no limite, não conseguir levantar recursos no montante necessário para
honrar seus pagamentos”.39

Ou seja, o Estado brasileiro tem que refinanciar ou “rolar” a sua dívida e, para tanto, dado o
arcabouço jurídico-institucional vigente, encontra-se à mercê do que cobram os donos do
dinheiro.

A princípio, é o governo e não o “mercado” que tem o poder de determinar os juros.


Contingentemente, se os credores não querem aceitar um título soberano unicamente pela
sua segurança, garantindo-lhes não muito mais do que a preservação do seu poder de compra
em Reais, nós só somos constrangidos a vender-lhes com prejuízo porque a estrutura da dívida
atual, seu arcabouço jurídico e a infiltração dos agentes do mercado nas instituições da finança
pública dão ao lance dos rentistas total prerrogativa sobre o nosso.

O governo tem o poder originário de impor a taxa de juros pelo simples fato de que os donos
do dinheiro fogem da inflação como animais fogem de uma floresta em chamas. Entretanto, a
dívida cresceu de tal modo, constituiu-se de tal maneira e sob tais constrangimentos legais,
que se seguirmos as regras fundadas nela tal como ela é ficamos suscetíveis ao movimento
inercial da taxa de juros exigida pelo mercado.

Não à toa, segundo o Relatório de referência, o custo médio acumulado em 12 meses da


DPMFi encontra-se em cerca de 11% a.a.40, isso quando tivemos na média dos últimos 12
meses uma “inflação acumulada em 12 meses” de cerca de 5%41, o que concretizou um juro

35
RMD, agosto de 2017, pg. 15.
36
RMD, agosto de 2017, pg. 13.
37
RAD, 2016, pg. 34.
38
Acórdão 1798/2015, R3.
39
RAD 2016, pg. 32. Itálico nosso.
40
RMD, agosto de 2017, pg. 18.
41
IPCA, média ponderada da série histórica do acumulado em 12 meses de agosto de 2017 a agosto de
2016: https://goo.gl/Q2xDBu (pg. 17).

12
real médio da ordem de 6%! Qual atividade produtiva oferece um retorno acima da inflação
tão fácil, sem correr nenhum risco? E esse custo sempre tende a aumentar na medida em que
os sequestradores percebem o desespero da vítima.

As coisas ficam desoladoras se olhamos para o custo médio dos títulos pré-fixados, que
possuem curto ou curtíssimo prazo de vencimento e compõem a maior parte do estoque total
de títulos da DPMFi. No Relatório de referência, os títulos pré-fixados garantidos pelo Tesouro
Nacional ofereciam taxa média de retorno acumulada em 12 meses de mais de 12% a.a. Se
olharmos para o estoque total de títulos pré-fixados negociados no mercado, a rentabilidade
média calculada chega a 18%42!...

Vale dizer que essa orgia conta com um verdadeiro colchão kingsize de liquidez de mais de R$
1 trilhão de reais43. Os pagamentos relativos à dívida pública são garantidos pelo saldo da
conta que o Tesouro possui no Banco Central, a Conta Única do Tesouro (CUT), composto por
uma enorme quantidade de dinheiro público, legalmente à disposição dos credores, oriunda
de superávits primários, remuneração da própria CUT, aplicações financeiras federais, lucro do
BCB e pagamentos das dívidas de estados e municípios com a União, que fica totalmente à
disposição dos credores44. Esse dinheiro corresponde a cerca de sete meses do serviço da
dívida45 e poderia ser muito melhor utilizado, em parte, para outros fins, que não tornar os
ricos ainda mais ricos.

A própria estratégia de “gestão” da dívida pública professada pela Secretaria do Tesouro


Nacional tende a reforçar a captura da política econômica pelos credores. A STN tem como
objetivo aumentar a parcela do estoque de DPMFi de títulos pré-fixados46. Como vimos, os
títulos pré-fixados possuem o menor prazo médio de vencimento, sendo que 61% da dívida
que vence em 12 meses é composta por eles, que são os mais lucrativos para os rentistas.
Além disso, quase 90% da carteira de títulos dos credores de fora do país é composta por pré-
fixados47, sendo essa gente especialmente suscetível às agências classificadoras de risco48, que
levam esses mesmos elementos em consideração para suas avaliações, de modo que esses
fatos trazem problemas adicionais à rolagem da dívida diante de qualquer política econômica
indesejada pelo “mercado”, dada a tendência ao aumento do custo de emissões e dado o livre
fluxo global de capitais, posto que esses credores, que obtêm rendimentos em moedas fortes,
não possuem obstáculos para conversão de moeda, podendo aplicar na dívida “interna” do
país que julgarem melhor, tendendo a se desfazer mais facilmente dos papéis que julgar
indesejáveis.

42
RMD, agosto de 2017, pgs. 13, 18 e 22.
43
Banco Central do Brasil, Demonstrações financeiras contábeis, passivo em moeda local, “obrigações
com o governo federal”: https://goo.gl/GuHwbb
44
Acórdão TCU 315/2009.
45
Senado Federal, Portal do Orçamento, Painel Cidadão, Orçamento autorizado 2017, composição por
objeto de gasto. Considera amortizações + juros e encargos.
46
Plano Anual de Financiamento (PAF) 2017, Tesouro Nacional: https://goo.gl/s6cBYC (pg. 9).
47
RMD, agosto de 2017, pg. 14.
48
Uma Agência de Classificação de Risco de Crédito é uma empresa que avalia determinados produtos
financeiros ou seus emissores e classifica esses ativos ou empresas segundo o grau de risco de não
pagamento no prazo fixado.

13
A STN alega que tal “objetivo estratégico” traz “maior previsibilidade em relação à trajetória da
dívida”, mas a única coisa previsível a se deduzir é que o poder de barganha em favor do
rentismo e os ganhos dos ricos seriam ainda maiores. Além disso, o esquema rentista sobre a
DPMFi estaria livre das suscetibilidades da política monetária praticada pelo Banco Central,
que é quem define os juros pós-fixados ou flutuantes ou a taxa SELiC. O patamar
injustificavelmente alto da taxa básica de juros, que referencia parte considerável do estoque
da DPMFi e a maior parte dos títulos na carteira do Banco Central é questionado até por
capitalistas que, por essa razão, veem secar a torneira da concessão de crédito por parte dos
bancos comerciais.

Por fim, o que quisemos mostrar é que as características apontadas acima representam o
poder real dos credores em direcionar os rumos do núcleo duro da política econômica
brasileira. Portanto, sem reestruturar a dívida em sua composição, estrutura de maturação e
custos, bem como sem reformar a arquitetura financeira do Estado brasileiro não
escaparemos do sequestro rentista.

As amarras do rentismo são como teias de aranha, só podem ser rompidas à força. Se
tentamos nos mover nelas, acabamos ainda mais presos. De modo que não podemos cair na
ilusão de uma estratégia gradualista, como se pouco a pouco fôssemos nos livrar do problema.
As características da dívida já estão consolidadas e ela cresce cada vez mais. E o único
resultado de tudo isso é que tanta gente “empresta” para o governo e o povo não vê nem a
cor do dinheiro.

Como ocorre de fato o sequestro rentista da dívida?

O Tribunal de Contas da União, em seu Acórdão nº 1798/2015, alertava que o elevado custo da
dívida poderia levar a um risco de sustentabilidade, querendo dizer com isso que poderia
chegar um momento, a depender de conjunturas políticas e econômicas singulares, no qual
não teríamos condições de refinanciar a dívida ou não teríamos disponibilidades suficientes
para honrá-la simplesmente porque a dívida nos exige demais e quanto mais ela cresce
perpetuando as suas características, maior o seu “prêmio de risco”, de modo que ao fim desta
escalada geométrica poderíamos nos tornar insolventes.

Do ponto de vista estritamente teórico, é no mínimo questionável que um país com moeda
soberana possa se tornar insolvente na moeda que ele mesmo emite. Entretanto, se
considerarmos a limitação legal efetivamente dada de o BCB não poder financiar o Tesouro
Nacional no Brasil49, a infiltração dos agentes do mercado nas instituições da política
econômica e se levarmos em conta o formato concreto da dívida interna brasileira, com
estoque vincendo em 12 meses muito grande (em boa parte na mão de não-residentes), prazo
médio de vencimento muito curto, elevado custo médio, relação dívida/PIB crescendo em
ritmo acelerado, fica mais palpável a hipótese desse “risco de sustentabilidade” ou de um risco
de refinanciamento da dívida.

Então, existem condicionantes reais que propiciam o sequestro da política fiscal por meio da
dívida pública, que constituem o fundamento material de toda a cantilena neoliberal sobre

49
Constituição Federal, art. 164, §1º e Lei de Responsabilidade Fiscal, LC 101/2000, art. 39, §2º.

14
“equilíbrio financeiro” e “austeridade”. Significa que qualquer que seja o governo e qualquer
que seja a política econômica alternativa tentada, haverá pressões reais dos credores fundadas
em fatores objetivamente dados.

Mas será que os credores não iam mesmo rolar a dívida se praticássemos juros menores? O
que nos impede de baixar os juros? Um título público possui baixo risco de inadimplência pelo
fato de ser garantido pelo soberano, que pode tributar, liquidar patrimônio, fazer cortes de
gastos e, no limite, emitir moeda. Isto é, um país tem que estar em completa destruição para
não honrar os seus compromissos. E se pararmos para pensar que o Brasil gasta com juros
mais do que países em guerra50, fica pouco plausível pensar que os endinheirados recusariam
preservar seu poder de compra na moeda de um país sem histórico de grandes conturbações,
que goza estar entre as maiores economias do mundo, ainda mais se o Brasil for o país de
residência deles!

Entretanto, a dívida interna brasileira possui um agravante adicional em relação ao seu risco
de refinanciamento. Com base em dados que já indicamos acima, pode-se inferir que boa
parte da dívida de curto prazo, composta majoritariamente por títulos pré-fixados, está em
mãos de “não-residentes”. Gente que vive fora, que em geral obtém renda em dólares ou
outra moeda forte, pode, a princípio, fazer uma consideração simples antes de decidir aplicar
na dívida brasileira: a taxa de juros real praticada no Brasil cobre os juros reais dos títulos do
Tesouro norte-americano (Federal Reserve), descontadas as perdas eventuais com a
desvalorização do Real frente ao dólar? De modo que os credores não-residentes tendem a
aplicar dinheiro nos países em que o juro real satisfaça esta condição.

O mesmo raciocínio dos gringos não vale para os “investidores” residentes no Brasil, posto que
é muito mais fácil o Real se desvalorizar frente ao dólar, o que tende a impor aplicações que
não passem por conversão cambial.

De todo caso, uma eventual reestruturação da dívida deve levar em consideração medidas de
controle de capitais, que impeçam desvalorização brutal do câmbio, o que aumentaria ainda
mais o risco de refinanciamento de parcelas da dívida em mãos de não-residentes. Já os
credores residentes no país tenderiam a aceitar juros reais menores para a manutenção de seu
poder de compra em Reais, dado que as taxas de juros de outros países estão em geral muito
menores nos últimos anos e devido à taxa de câmbio, que pode cobrar uma parte do dinheiro
na ocasião de sua externalização.

Reestruturar a dívida, nos elementos que vamos propor, removeria os condicionantes que
favorecem a chantagem rentista, além de trazer efeitos plausíveis no sentido de impor alguma
medida ao endividamento do Brasil.

Reestruturar a dívida para combater o rentismo

Com base em tudo que foi discutido, vamos listar os pontos centrais que devem abranger uma
reestruturação da dívida pública interna em títulos, tendo como objetivo combater o rentismo,
posto que ele é um dos principais motores da desigualdade econômica e social de nosso país:
50
O artigo “A enorme taxa de juros do Brasil: será que os brasileiros podem suportá-la?”, de Mark
Weisbrot e outros, faz comparações a esse respeito: https://goo.gl/xZWr1I (pg. 6-8).

15
1. Construir força social consciente sobre o problema do rentismo, até que essa força social
possa se converter em força política, é pré-condição para qualquer tentativa de política
econômica que vise garantir pleno emprego e direitos sociais.

2. Para inviabilizar o rentismo, é preciso: a) revogar o §1º do art. 164 da Constituição Federal,
que proíbe o Banco Central de fazer empréstimos ao Tesouro Nacional, colocando-o sob
pressão financeira constante dos credores privados – se o BCB pode “ajudar” o TN do mesmo
modo como faz com grandes bancos com problemas de liquidez na condição de emprestador
de última instância, some completamente o risco de refinanciamento da dívida pública, fora
que tais empréstimos não necessariamente teriam custo em juros, dado que o resultado do
BCB é arrecadado pelo TN; b) revogar os dispositivos da Lei de Responsabilidade Fiscal que
cristalizam na institucionalidade fiscal do país a austeridade permanente.

3. Combater efetivamente o rentismo significa reduzir o custo médio da dívida.

4. Diminui o poder de barganha dos rentistas diminuir o estoque da dívida com vencimento no
curto prazo, o que se faz alongando o perfil de vencimento e distribuindo de modo equilibrado
os prazos de resgate.

5. É preciso diminuir paulatinamente e o máximo possível o estoque de dívida em mãos de


gente não-residente no país, o que fortalece a economia nacional e também diminui o poder
de barganha do rentismo como um todo.

Vale dizer que a única maneira de extirpar definitivamente o rentismo seria superar o
capitalismo, pois o rentismo, em suas várias modalidades, está fundado na própria lógica da
acumulação capitalista.

Conforme avança a acumulação capitalista, ou seja, conforme avança a concentração da


propriedade privada dos meios de produção, dos meios de vida e sobretudo do dinheiro, o
valor da riqueza “velha” cobra implacavelmente seu tributo à riqueza “nova”.

O acúmulo de dinheiro é o objetivo central do modo de produção capitalista. Conforme se


acumula dinheiro, é preciso encontrar maneiras de protegê-lo da “desvalorização” ou perda do
poder de compra, resultantes dos fenômenos inflacionários, derivando-se deste fato toda
espécie de parasitismo financeiro.

Portanto, a luta particular pela superação do rentismo sobre a dívida pública pode assumir
caráter antissistêmico, muito embora, a princípio, seja um objetivo plenamente integrável à
ordem e até desejável em alguma medida, posto que o próprio custo da dívida, em
determinadas condições, constitui risco de sustentabilidade.

Em que medida reduzir a taxa básica de juros ajuda a combater o rentismo?

É comum ouvir da boca de economistas sensíveis ao problema do rentismo que baixar a taxa
básica de juros seria solução suficiente. Tal medida, com impacto imediato na política
monetária do Banco Central, teria importância fundamental para baratear as taxas de juros
praticadas pelos bancos e seria uma medida vital para a ampliação do investimento privado e
para uma retomada consistente do crescimento econômico e da geração de empregos.

16
Contudo, o estoque de “juros flutuantes” de DPMFi é de 31,92%51. Logo, reduzir o juro real
relativo à taxa SELiC seria medida suficiente apenas para combater o rentismo sobre cerca de
1/3 da dívida.

Entretanto, para combater o rentismo de modo geral seria necessário reduzir os custos
relativos aos outros 2/3 do estoque. A partir de análises criteriosas, pode-se fazer uma
repactuação das taxas de juros pré-fixadas e dos prazos de vencimento. Além disso, na
própria rolagem e nas novas emissões deve-se praticar juros mais baixos.

Alguns títulos com juros flutuantes possuem uma parte fixa que também pode ser revista.
Além disso, os títulos indexados pelo câmbio compõem parte pequena do estoque e os títulos
indexados à inflação, muito apreciados pelos fundos de previdência e pelo Tesouro Direto,
possuem, via de regra, prazos de vencimento bastante longos, contribuindo pouco para o risco
imediato de refinanciamento da dívida.

O papel de uma auditoria da dívida

Nas medidas que listamos acima para reestruturação da dívida, partimos do pressuposto de
que é preciso certa correlação de forças para efetivá-las. A partir disso, devemos ter em mente
que a correlação entre forças sociais e políticas não é algo simplesmente dado, mas algo que
se constrói. Força social, ademais, não é algo que se constrói gratuitamente, a esmo, isto é,
sem um propósito bem definido, e a construção de força social é pré-condição para a
construção de força política organizada.

De modo que para combater o rentismo sobre a dívida pública e pôr fim ao ajuste fiscal
permanente das últimas duas décadas, que tem como efeitos deletérios a deterioração do
mercado de trabalho e a restrição de direitos, nosso ponto de partida deve ser, em termos de
agitação e propaganda, construir a percepção da dívida pública como um problema.

Trata-se antes de tudo de uma questão pedagógica/epistemológica, e não meramente


econômica. Conceber que devemos combater o rentismo ou não se resume ao fato de
acharmos certo ou não que rios de dinheiro público brasileiro sejam escoados para fora do
país ou que os impostos pagos pelos pobres sejam sistematicamente sugados para tornar os
ricos ainda mais ricos. Mas para que as pessoas sejam levadas a formar juízo sobre isso, é
preciso buscar mediações, pontos de contato entre o entendimento que queremos
proporcionar às pessoas e as noções que elas já têm.

A melhor maneira de não ensinar algo a alguém é matraquear um entendimento


imediatamente abstrato e, portanto, inacessível. Parte bem intencionada dos economistas de
esquerda preocupados com o problema do rentismo e com a formulação de saídas viáveis para
o Brasil gasta muita saliva sobre “finanças funcionais”, “teoria monetária moderna”,
“macroeconomia”, “heterodoxia”, e blá blá blá. Ocorre que a despeito da verdade e da
utilidade desses conhecimentos, é de se considerar que eles sejam inacessíveis em dois
sentidos: ou porque não chegam ao grande público; ou porque, quando chegam, entram por

51
RMD, agosto de 2017, pg. 13.

17
um ouvido e saem pelo outro, porque prestar atenção e se deixar mover por discursos dessa
natureza exige curiosidade prévia.

Ao contrário disso, todas as pessoas possuem noções espontâneas sobre o que é uma dívida e,
consequentemente, sobre o que é uma dívida abusiva. Qualquer pessoa que já tenha se
atolado em dívidas com bancos por causa de juros abusivos entende perfeitamente o
funcionamento básico do sequestro rentista e o quão injusta essa dívida é, bem como entende
a necessidade de “renegociar” esses juros e até mesmo o estoque resultante dessa bola de
neve, porque senão os bancos irão tomar na justiça os seus bens ou sufocar o orçamento
familiar, da mesma maneira como os credores da dívida pública exigem que se liquide o
patrimônio do povo ou que sejam feitos superávits primários.

No geral, existe um enorme anseio do povo por saúde, educação, transporte, empregos dignos
etc., e é muito difundida no senso comum a opinião de que o Estado só não tem dinheiro para
gastar com serviços públicos por causa da corrupção, sendo essa a tônica da narrativa da
grande mídia. Mas as coisas mudariam muito de figura se o povo soubesse falar de centenas
de bilhões, comparando valores etc. A consciência política geral avançaria muito se fosse
difundida a percepção de que existe uma dívida que condiciona o modo como se dá o gasto
público, que serve de desculpa para os sacrifícios exigidos pelo governo, dívida que se constitui
sem gerar um centavo de gasto com aquilo que o povo deseja e necessita. As pessoas
entendem imediatamente o que é uma dívida com contrapartida e o que não é.

Precisamos de ganchos para puxar a atenção do povo e a partir daí gerar esclarecimento sobre
o funcionamento real da finança pública. Qualquer experiência cognitiva ocorre assim, indo do
particular ao geral, dos preconceitos aos conceitos, do aparentemente concreto ao
entendimento, usando-se noções e dados imediatos como trampolim.

O lado de lá entende muito bem tudo isso. As comparações entre orçamento público e
orçamento familiar, que eles usam para justificar que o governo tem que fazer “economias” e
honrar o que deve, apesar de falsas (e até absurdas, cientificamente), seguem um didatismo
exemplar, democratizando a mentira.

Assim, temos que saber identificar quais elementos imediatos presentes na consciência
ingênua são mobilizados pelo tema da dívida. A partir disso, podemos desenvolvê-los até
chegar ao problema do rentismo e a partir do problema do rentismo a uma consciência crítica
mais geral ou, marcadamente, uma “consciência de classe” e uma consciência de que é
necessário construir uma alternativa política para resolver o problema. E é neste sentido que
defendemos a bandeira da auditoria.

Em primeiro lugar, a bandeira da auditoria da dívida é funcional à aglutinação de força social


que pode se converter em força política organizada, o que é provado pela atuação nacional da
entidade Auditoria Cidadã da Dívida (ACD). Além disso, o tema da dívida oferecer um fio
narrativo capaz de amarrar as lutas fragmentadas por direitos sociais e de hackear o debate
sobre corrupção, afinal, não existe promiscuidade maior entre público e privado do que na
dívida pública federal, levando as pessoas inicialmente comovidas por esse tema a se
depararem com temas econômicos fundamentais.

18
Este aspecto da “corrupção” é diretamente trabalhado pela ACD ao descrever o “sistema da
dívida” como um esquema de fraudes. Nós, da POEMA, temos ressalvas em relação a esta
abordagem, posto que o grosso da dívida atual é relativo à incorporação de juros, processo
que se deu com um forte verniz legal, de modo que se houve “fraude”, foi fraude legalizada.
Assim, é preferível tratar a questão de modo diretamente político, atenuando o tom moralista.

Em segundo lugar, a realização oficial de uma auditoria serviria para dar transparência à
reestruturação da dívida e ampla publicidade ao problema do rentismo.

Do mesmo modo como é impensável fazer uma greve sem os trabalhadores, reforma agrária
sem a mobilização dos sem-terra e uma reforma urbana sem a mobilização dos sem-teto, seria
impensável a guinada de política econômica que desejamos sem ampla mobilização cidadã,
sem induzir o povo a se tornar um agente dessa política econômica. Em outras palavras, não
há como combater o rentismo sem mobilizar o povo contra os rentistas. E se fôssemos capazes
de construir uma alternativa política para mudar os rumos da economia precisaríamos de
sustentação social permanente. Até porque haverá terrorismo de mercado diante de qualquer
tentativa de mudar a política econômica. E a única maneira de enfrentar o terrorismo é pela
resistência consciente.

Uma auditoria da dívida seria uma espécie de Comissão da Verdade, que serviria para
denunciar a infâmia das políticas econômicas neoliberais, para esclarecer oficialmente a
população sobre a necessidade de outra política econômica, para amplificar a percepção sobre
como o parasitismo rentista trava o uso financeiro do Estado em benefício do povo, o papel do
Estado em geral para a defesa dos ricos e para gerar responsabilização pelo problema.

Os grandes meios de comunicação e os políticos da ordem sempre dizem que a dívida é um


problema e que a austeridade é necessária. Então o povo deve saber qual é o problema afinal!

De modo que uma auditoria da dívida cumpriria função tática. A política econômica
necessariamente envolve questões intrincadas e muitas vezes áridas, entretanto, seria um
enorme erro de nossa parte nos conformarmos a essas dificuldades e desenharmos nossa
política como medida puramente técnica. A presidente Dilma, em seu primeiro mandato,
mirando a política monetária, e aproveitando um contexto internacional favorável, baixou a
taxa básica de juros na canetada, o que tem efeito significativo para combater o rentismo
sobre a dívida pública interna pós-fixada; mas o que nós vimos logo em seguida é que essa
medida, correta do ponto de vista técnico, não se sustentou politicamente, seja porque na
ocasião se passou a leiloar mais títulos pré-fixados com juros maiores, seja por toda a pressão
política que aumentou a partir daí, culminando em um deprimente golpe parlamentar, sem
que a maioria do povo tenha entendido o que se passou. Vale observar, de passagem, que esta
medida, diferente do que pregam os sacerdotes do mercado, não descontrolou a inflação nem
o câmbio.

Assim, para combater o rentismo, é uma importante mediação encarar a própria dívida
enquanto problema social, econômico e político e apenas uma bandeira de luta como
auditoria, em alguma medida já disseminada, pode gerar ampla percepção da dívida enquanto
problema, até porque é uma “auditoria” que se coloca em questão. Erram os economistas que
não veem nenhum problema com a dívida, ou porque fazem tábula rasa da República Rentista

19
ou porque se limitam a pensar como bons economistas, esquecendo-se de serem bons
militantes.

É verdade que circulam certos mal-entendidos, em parte induzidos por artifícios didáticos, que
devem ser desfeitos. A metade dos nossos impostos não vai para pagar dívida. A dívida, por si
só, não é fator de nenhuma restrição orçamentária. O país não está quebrado por causa da
dívida etc. E dentre os mal-entendidos, o principal a ser desfeito é aquele utilizado para causar
indignação moral a favor dos rentistas. Não, auditoria não é calote! Auditoria é apenas uma
investigação pública minuciosa. Auditoria é transparência!

Nós da POEMA partimos do pressuposto de que pelo que já se sabe da dívida através dos
documentos oficiais regularmente divulgados é necessário reestruturá-la. Nosso objetivo
estratégico está declarado de antemão, porque a verdade já está dada em parte, de modo que
uma investigação aprofundada cumpriria papel complementar e acessório.

Por fim, nos moldes como propomos a reestruturação, não necessariamente reivindicamos o
confisco do dinheiro dos rentistas relativo ao principal da dívida ou a “anulação” da dívida.
Muito embora seja possível que uma auditoria de fato venha a comprovar fraudes ou
irregularidades por ocasião da emissão de determinados lotes. Quem não deve, não teme.

Mesmo no caso de uma auditoria indicar problemas na emissão de títulos, defendemos que
apenas os primeiros beneficiados mapeados sejam responsabilizados. Diariamente, uma
enorme quantidade de títulos é comercializada no mercado secundário, de modo que
simplesmente anular esses títulos prejudicaria apenas os seus carregadores atuais, sem
nenhum impacto para os beneficiários diretos das supostas “ilegalidades”. Além disso,
qualquer penalidade decorrente desse tipo de investigação deve evitar a geração deliberada
de crises no sistema bancário, caso no qual a tentativa de gerar justiça e reparação apenas
criaria problemas adicionais.

Por fim, a comprovação de irregularidades na emissão de dívida daria anda mais razão ao
anseio de repactuação dos juros sobre o estoque vigente da dívida e, no limite, as penalidades
aplicadas poderiam reforçar um processo de nacionalização do sistema bancário, a depender
do tamanho da culpa dos principais agentes financeiros do país em eventuais crimes contra o
povo brasileiro através de uma dívida que cresceu 53 vezes nos últimos 20 anos.

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