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[1] — setembro de 2010 — revista cultural novitas nº 7

Editorial
Pois bem, chegamos ao segundo ano de nossa revista. E com
louvor, já que os leitores só aumentam. Bom sinal, minha gente. Aos
poucos, sem pressa, vamos acostumando mais e mais pessoas a exercer
o maior direito do ser humano: usar o cérebro. Sim, pois aqui não se
encontra somentes poesias embargadas de sentimentos e sofrimentos,
Revista Cultural ou contos vampirescos. Entrevistas e artigos são uma ótima maneira
de ensinar a pensar.
Novitas
Ano II Número VII
Setembro de 2010 Esta edição do que há, nada falta. Mais um ícone da música
popular brasileira, imerecidamente não lembrado quando das
discussões que vemos por aí, o grande Luiz Américo, nos concedeu

uma ótima entrevista. E temos música nova e de extrema qualidade
com Makely Ka, em texto genial do jornalista Marcelo Dolabela. Na
Literatura há David Coimbra — nossa primeira entrevista presencial
—, que embora se acredite regional, tem ases na manga para mais
de um Brasil. Há Van Luchiari, nossa nova autora embora velha
Esta é uma publicação da Editora Novitas em
conhecida. E mais artigos, resenhas (inclusive de meu livro “Contos
periodicidade bimestral, distribuída em forma
eletrônica e gratuita. que ninguém conta”), crônicas, contos, poesias. Enfim, precisamos
Todos os textos, imagens ou qualquer aumentar de 20 para 29 páginas, pois com tanto conteúdo de
outra forma de manifestação aqui publicados qualidade não houve como cortar algo.
foram devidamente solicitados a seus autores, que
autorizaram sua utilização por meio de mensagem
Na capa, para quem não sabe, há o símbolo de Libra.
eletrônica.
Imagens não creditadas a outros são
de autoria de David Nobrega, excluindo-se aquelas Eu sabia disso? Não, mas a sempre presente astróloga
que sejam relativas aos autores de artigos e de Madalena, também @ofiodavida no twitter, me elucidou e veio a
alguma maneira ligada aos entrevistados (imagens calhar. Libra, segundo ela, “fala da busca de equilíbrio da Natureza,
pessoais ou de suas obras).
renovação de ciclos, um período intermediário onde cada ser(...)” —
na íntegra, leia em fiodavida.blogspot.com — e acredito pertinente
para o momento que vivemos.

Mesmo não sendo este o melhor de lugar para de se tocar em


assunto político vale lembrar que, gostando ou não, você terá que
escolher quem comandará o país durante os próximos anos. Assim,
use Libra ( Veja que interessante, a revista sai sob o signo libriano
e esta é a sétima edição. Coincidências...) e mantenha o equilíbrio.
Estude. Com tantos escândalos, impossível ser conivente com a
corrupção que grassa nosso erário, enriquecendo quem se diz patriota.
Não vá pelas cartilhas partidárias, mas use o cérebro, como disse lá no
primeiro parágrafo.
Editores:
Tudo bem, você é daqueles que não acredita em Astrologia
Letícia Losekann Coelho
nem em Política? Não há problema... Apenas pense que muita gente
David Fordiani Nóbrega que é descrente da vida precisa que você, que tem poder de voto, faça
uso dele com sabedoria.

Pelo bem de todos nós, povo...

Isento de registro ISBN, conforme instrução David Nobrega

da Biblioteca Nacional.

revista cultural novitas nº 7 — setembro de 2010 — [2]


Diretor executivo de esportes e colunista do jornal Zero Hora além de comentarista da TVCOM
e escritor. Participa do programa Pretinho básico, na rádio Atlântida. É autor de mais de 10 títulos e
já ganhou diversos prêmios literários e jornalísticos.
Simpático e inteligente, passeia pelos mais diversos assuntos entre seus livros e suas crônicas.
Perfeccionista, trabalha em cada texto como se fosse o melhor de sua vida além de pesquisar
muito para escrever.
Escreve regularmente no blog http://ht.ly/2BLMF (ClicRBS)
Não escreve no twitter, porém há um fake autorizado com a conta @DdCoimbra.

Editora Novitas: Como é ver os teus linguagem. E achei divertido, gostei. mudar tudo que o repórter faz, porque
livros virarem peça de teatro (“Saltos Esquisito, mas tu vê aquilo que tu quer fazer do jeito dele. Mas tem coisas
de Scarpin”, baseada em “Jogo de escreveu e fica assim: “ Bah! Eu escrevi que não precisam ser refeitas, não é?
Damas” e “Mulheres”)? Tu pensas em isso!”
escrever roteiro? N: Alguns escritores gaúchos,
N: Não dá um certo ciúme de ver tuas principalmente iniciantes, tem
David Coimbra: O José Pedro que está personagens por assim dizer na mão de uma visão de que precisa sair do
fazendo um filme sobre meu romance outras pessoas? RS para fazer sucesso. Apesar desse
“Canibais” queria que eu escrevesse pensamento, se formos verificar a lista
o roteiro mas dai eu pensei: “Pô, vou DC: Não, não chega a isso. Claro que dos mais lidos (com raras exceções),
escrever o roteiro sobre um troço que mudaram um monte de coisas e tal. todos são gaúchos: Scliar, Martha
eu já escrevi, né?”. Achei demais. De Eu resisto à tentação de ficar pensando Medeiros, Lya Luft, Carpinejar e
repente, se der vontade algum dia, sei “Ah, poderia ficar melhor”, porque dai teus próprios livros. Aqui no RS o
lá.... seria de meu jeito. que nos parece é que existem ilhas de
Agora ver a peça assim, cultura, que não se misturam. Então
como quando eu vi pela primeira vez N: Aí o roteiro teria que ser teu... falta alguma coisa, porque no final
encenada, foi interessante, divertido, das contas aqui é um grande centro
porque é outra linguagem, outra forma DC: Sim, claro, assim como a direção cultural...
de comunicação. Não pode esperar que e outras coisas. Achei bacana, a gente
aquilo que tu escreveu seja parecido não pode ter esse tipo de apego. É a DC: É assim: precisa e não precisa siar
com aquilo que está sendo encenado. mesma coisa aqui no jornal, que eu daqui. Porque se você não é lido em
Outra forma de se expressar, outra sempre digo que tem editor que quer São Paulo, você fica restrito a este
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âmbito regional. O Veríssimo pegou N: Tu é um autor de assuntos variados. de desrespeito aos direitos humanos.
no Brasil inteiro com uma situação Teus textos geram polêmica. Qual Porque ai é um Estado infringindo
especial, primeiro porque é filho do foi a crônica ou livro que gerou mais uma norma que é humanitária básica.
Erico Verissimo, já carrega esse nome polêmica? Tem uma outra coisa que as
e que, quer queira quer não, é válido. pessoas ficam bravas comigo que é
Depois criou o “Analista de Bagé”, onde DC: Várias crônicas. Teve uma que quando contesto esses ativistas, como
ele escreveu uma antologia de crônicas escrevi quando um cachorro mordeu os antropólogos, que dizem que todas
“internacional”, sabe? Independente meu filho que os defensores dos as culturas são iguais e tal. Eu digo que
de onde tu estejas se tu esta lendo animais do mundo inteiro, mundo não, que não são todas iguais. A cultura
aquele livro tu esta rindo, se divertindo. inteiro mesmo, me enviaram milhares ocidental é superior e é superior
Da maneira como ele consegue se de email´s. Tanto que eu tive que porque prega que todos são iguais,
comunicar, é um clássico. O Moacir escrever outra crônica pedindo calma, enquanto os outros não, eles pregam a
Scliar tem 80 e tantos livros escritos e porque estavam até me ameaçando. diferença. E mais do que isso, a cultura
uma atuação de escritor que é muito Recebi email dos USA, da China... ocidental atingiu — depois de vários
forte. Um cara que atua como escritor, massacres, de crueldade —, um nível
a função dele é ser escritor, se dedica a N: Da China, onde inclusive comem encontrado na Europa e na América
isso e também conquistou o apoio da cachorro... do Norte e que a gente pode chamar
mídia. A Martha Medeiros conseguiu de teoria de direitos humanos, que é


uma comunicação com a mulher de DC: Impressionante, de todo lugar. único na história do mundo. Nunca
classe média Pessoas me xingando. Até hoje ainda se chegou a esse ponto na defesa dos
Não sou interessante, recebo um ou outro. Escrevi outra direitos humanos, como o que existe na
corajoso, cuma onquistou
coluna no
crônica sobre, os vegetarianos. Uma
gozação, enlouqueceram, foram lá
cultura ocidental moderna, algo que na
cultura oriental não existe. Não existe
estou Rio de Janeiro, fazer manifestação no lançamento de na China, não existe no Oriente Médio,
tentando no Globo, um livro meu... Mas eu não escrevo não existe em outras partes do oriente.
ser então são casos para fazer polêmica não, viu? Tu diz No ocidente é basicamente pela cultura
particulares. que causam polêmica tal. Eu escrevo europeia e norte-americana.
honesto e a cada texto eu tento fazer o melhor Atingimos um nível onde
para dizer N: Então tu sai texto da minha vida. Porque eu gosto se defende as mulheres — que são
o que eu daqui, vai para de escrever, sou jornalista para escrever iguais aos outros —, os homossexuais
estou lá faz sucesso e e não escritor jornalista. Sempre na — que são iguais aos outros — e tu
depois volta? minha vida tudo o que sempre quis pode ter qualquer posição política,
realmente foi escrever bem. E trabalho para isso partidária, religiosa, o que nada mais
pensando. DC: Ah, mas se todos dias. Então eu sempre tento fazer é que a liberdade do ser humano
você faz sucesso lá você faz sucesso aqui o melhor texto. E tento ser sincero como indivíduo, não é? Isso é cultura
e a premissa contrária não é verdadeira. naquilo que estou escrevendo. Tento ocidental. Aí as pessoas se chocam,
Eu sou um escritor regional, quem me dar minha opinião mesmo, com porque tu está dizendo que os
conhece lá são meus colegas jornalistas. sinceridade e com honestidade. Tem europeus e americanos são superiores.
Meu nome não é um nome que tu que ser honesto naquele texto ali. Sim, porque quando uma pessoa pensa
falas lá fora e as pessoas reconhecerão Então, agora escrevi um texto assim sobre os direitos humanos, ela é
como acontece aqui, entendeu? A “Viva o Imperialismo”, sobre aquele superior. Uma pessoa que pensa assim
Lya Luft não, ela tem uma história negócio que os caras cortaram o nariz e se coloca em um outro plano. Ou tu
pregressa, mulher do Celso Pedro as orelhas da moça lá no Afeganistão. E vai me dizer que um talibã que é capaz
Luft (professor, gramático, filólogo, lingüista aí sobretudo no blog – os comentaristas de fazer aquilo tudo com uma mulher
e dicionarista brasileiro http://pt.wikipedia. de blog são muito agressivos, né? -- te é um ser superior? Ao contrário, ele
org/wiki/Celso_Luft) e ela agora, mais chamam de babaca, por exemplo. Eu se coloca abaixo da humanidade. Até
avançada, conseguiu a coluna na Veja publico tudo, não deixo que censurem estou desenvolvendo esse assunto aqui
e reconhecimento dos livros e tal. Tem nada, a não ser que falem de outras com vocês e vai virar assunto para a
grandes escritores aqui, como o Faraco pessoas, ai sim eu tiro. Mas eu não faço próxima coluna...
(Sergio Faraco http://pt.wikipedia.org/wiki/ isso para gerar polêmica. Eu penso o Por que eu estou te dizendo
Sergio_Faraco), por exemplo, que é um que escrevi, mesmo. Eu não sou um isso? Porque é algo que eu penso, eu
baita de um escritor, e vende 2000 imperialista no sentido de defender jogo com a honestidade, não é coragem.
livros. Isso aqui, no Rio Grande do Sul. os Estados Unidos, mas defendo a “Ah porque tu é corajoso”. Não sou
intervenção da ONU. São casos graves corajoso, estou tentando ser honesto

revista cultural novitas nº 7 — setembro de 2010 — [4]


rua. Não acontece isso. A carta, o papel, que aumenta o número de
tu não vai escrever uma carta leitores. Tu achas que aumenta o
para xingar o cara, porque ai número de leitores ou mantem?
tu tem que escrever, tem que
ir lá, postar. Tudo isso faz DC: Eu acho que o que aumenta o
com que o leitor reflita. número de leitores é a educação básica
Agora, por exemplo, mesmo. O e-book é outro meio de
um email é muito diferente leitura. Já se leu em papiro, já se leu
de um comentário de blog. em porcelana, em conchas, se leu
Tem muito dessas sutilezas também naquelas lousas que os caras
na internet. O cara do apagavam e depois escreviam em
email é mais preparado cima, palimpsesto. Aí chegou o livro, a
que o comentarista de prensa, que fez com que a informação
blog. acelerasse e agora o e-book vai pegar.
Mais cedo mais tarde pega, porque
N: Como funciona teu é muito prático. Eu vi um desses ai
processo de criação para os outro dia e tu regula o tamanho da
para
livros? fonte, regula luminosidade, tem 1500
dizer o que eu
livros numa coisinha deste tamanho,
estou realmente pensando.
DC: Depende do livro. Tem um que vira página, marca a página, busca. Se
eu estou escrevendo agora, um livro tem alguma referência sobre aquilo,
N: O que trava as pessoas hoje,
modesto, que é “A História do Mundo e tu tem dicionário, tu tem Wikipedia.
principalmente quem está na mídia,
o Sentido da Vida”. Publiquei no blog já Vai continuar a existir livro de papel?
é o tal politicamente correto. Você
uns cinco capítulos. É que eu gosto para Claro, isso sempre vai existir.
acaba tanto se policiando para ser
caramba de história. Mesmo que eu
politicamente correto que você acaba
esteja lendo um romance, estou lendo N: Hoje em dia aqui no Brasil as
não pensando por você. Tudo que se
um outro de história junto, mais os pessoas leem na média 1 ou 2 livros por
escreve tem que dar aquela maquiada,
filmes, seriados sobre história. As vezes ano...
antes de publicar.
eu conto algumas dessas histórias no


jornal e as pessoas gostam. Meu livro DC: Se muito...
DC: Olha, se você ficar com medo de
“Jogo de Damas” também é isso. E aí
levar pau, então é melhor não escrever
nada. Ah, tu vai ser criticado? Aí tu
resolvi fazer isso, a Historia do Mundo N: Sim, e é (...)
escreve um texto anódino, ninguém
— é claro que é uma brincadeira —.
A História do Mundo não é um livro
concentrado
em quem está
eu estou
no colégio e nas escrevendo
vai querer ler, sem sal.
histórico, mas é um livro de histórias
N: Como é tu lida com a crítica? Não a
da história, vamos dizer assim. Mas
ao mesmo tempo é história. Estou
universidades.
São livros de
agora um
crítica real, mas a agressão na internet.
curtindo isso para caramba. Agora lista, elas são livro
DC: Isso é algo novo e na imprensa, a
estou na parte dos egípcios e ai releio
todos aqueles livros que tenho que
obrigadas a ler.
Então o Brasil
modesto,
gente que escreve para jornal, tem que
aprender a trabalhar com isso. Porque
falam sobre os egípcios. Isso eu gosto não é um pais que é “A
de fazer. de leitores e História do
nunca antes houve esse acesso.
sim um país
N: E tuas anotações ainda ficam de escritores. Mundo e o
N: Alguns esquecem que do outro lado
em papel ou já migrou de vez para o Quando que Sentido da
da tela tem gente também.
computador? tu acha que as
DC: É... tua reação vai direto. “Tu é um
coisas no Brasil Vida”
DC: Ah, os dois... Eu uso as duas vão mudar?
imbecil!”.
coisas. Escrevo muito nos próprios
É aquela coisa assim, antes tu
livros. Se tu pegar meus livros vai ali ver DC: De novo, educação básica. Não tem
tinha que escrever uma carta para o
um monte de anotações. outra solução que não seja a educação
cara do jornal. Se tu ligar para o cara,
básica. Não é só para cultura, para a
ele vai te responder. Ninguém pega o
N: E o e-book? Muitos autores apostam leitura, é tudo... Segurança pública, a
telefone e te liga para xingar. Na rua? Tu
no e-book, dizendo que vai substituir educação entre as pessoas, para o
anda na rua e ninguém vem te xingar na
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desenvolvimento do Brasil mesmo, que de Porto Alegre “Jô na estrada”, baseado Você sempre escuta aquela
é algo básico, estrutural. E educação em três folhetins que lancei no blog, história de que as editoras não
básica é aquela coisa de tu pegar a que alterei, modifiquei o final. Esse investem em escritores iniciantes.
criança, colocar no colégio o dia inteiro, livro tem uma linguagem diferente, Autor iniciante é o que é, iniciante.
valorizar a educação. E isso tinha que porque eu começo escrevendo e o Para vencer tem que deixar de ser
ser a prioridade número zero para Fraga (ilustrador de editorial do Jornal ZH iniciante. Não tem como fazer alguma
o Brasil. Como aconteceu na Coreia — http://fragacaricaturas.blogspot.com/) coisa sem tempo. Esse cara que fez
e na Alemanha. E também porque é complementa contando a mesma o Millenium, o sueco Larsson (Stieg
muito mais difícil. As Universidades e história com quadrinhos. Não é que Larsson http://www.trilogiamillennium.com.
faculdades estão todas prontas. Agora ele ilustre a história, ele continua br/), escreveu um best seller espetacular.
na educação básica, colocar professor contando a história de onde parei. E Ele terminou de escrever, lançou o livro
ali, criar bibliotecas, quadras de esporte estou escrevendo o modesto “Mistério e morreu. É um negócio espetacular,
e até dentistas, alimentação e tal, é do Mundo e o Sentido da Vida”. todo mundo leu, fizeram filme, etc,
difícil. Por isso que deveria ser antes mas isso é coisa de um em um milhão.
da prioridade um... tem que ser a zero, N: Um conselho para os autores Então não adianta, se o cara
mesmo. iniciantes? quer escrever, o que ele tem que fazer é
se tornar um não-iniciante. E ler muito!
N: Estás trabalhando em novos DC : Nelson Rodrigues tinha uma
projetos? frase assim: ”Conselho para os jovens, ***
DC: Vou lançar um novo livro na feira envelheçam”.

andrea lucia barros


resenha literária — apenas o necessário
Um projeto nascido do Twitter. Essa é intenso, mas não profundo. (Lembre sempre
a primeira definição de Apenas o necessário. que são apenas 140 caracteres, ok? Por isso, a
O trabalho reúne frases marcantes expressão “um pouco” entrou na frase anterior.)
de 36 “twitteiros”. A rede social Devaneios de um paulista que teve
é conhecida por limitar em 140 a felicidade de ordenar bem as
caracteres o que se digita, pois palavras. Algumas frases chegam
é isso que pode se encontrado a provocar certa confusão mental,
no livro da editora Novitas. então passe para a próxima.
Originalidade, intensidade e, O que o livro tem melhor é a
até mesmo, modernidade é a integração entre pessoas de
outra forma de definir Apenas o varias idades de todo o país. Isso
necessário. torna a experiência abrangente
O título já é uma forma em todos os sentidos. Um arco-
de mostrar a brevidade da obra, íris de gêneros, regionalismos e,
pois, assim como as curtas frases, principalmente, de pensamentos.
a leitura é rápida. Efêmero? Sim, A leitura de Apenas o necessário
afinal, aquilo que vai para a internet tende a é rápida e prazerosa. Embora existam alguns
ser breve. Na verdade, a qualidade do texto textos que tornam a leitura truncada, não se
mostra que é possível encontrar boas coisas preocupe, pois é tão rápido que o leitor nem
no mundo virtual. Porém, é preciso ficar irá perceber.
atento, caso contrário os textos poderão Este e-book pode ser baixado
passar rapidamente à sua frente e acabar gratuitamente em:
despercebidos. www.editoranovitas.com.br/e-book
Um exemplo do que foi mencionado Andrea Lucia Barros é jornalista, escritora e
acima é encontrado logo na sexta página. O crítica literária
leitor já irá encontrar um texto um pouco mais andrealuciabarros.com.br
revista cultural novitas nº 7 — setembro de 2010 — [6]
letícia losekann coelho Augusto dos
Anjos morreu
opinião — desapego pelo teu antes de poder
ver seu talento
Você sabe quem inventou fontes de renda. Vamos pregar o “de força reconhecido. a
a bicicleta? Não foi a Caloi. Você graça” de modo amplo e para todas comprar Sim, ele morreu!
sabe quem inventou a luz? Não as profissões, assim podemos voltar tal CD ou
(Se você não
foi a AESUL nem a CEEE nem a época do escambo. tal livro
o Governo Federal. Você sabe Esses dias li a besteira que é você sabia, meus
quem inventou o rádio? Não foi a correto foi Augusto dos Anjos pois que tira o sentimentos.)
Atlântida nem a Jovem Pam.Você ganhou pouco com sua obra. Ou dinheiro
sabe quem criou esse soneto? “Eu não se ensina mais literatura no da carteira e compra. E se você
possa me dizer do amor (que tive):/ colégio de forma verdadeira ou as consome o mercado anda. Isso
Que não seja imortal, posto que pessoas estão tendo mais recreio funciona desde que o primeiro
é chama / Mas que seja infinito que aula. Augusto dos Anjos morreu escritor escreveu o primeiro livro ou
enquanto dure.”Com certeza não foi antes de poder ver seu talento o primeiro ator encenou a primeira
seu professor de Literatura. reconhecido. Sim, ele morreu! (Se peça.
Descoberta: O mundo tem você não sabia, meus sentimentos.) O desapego pregado é
mais de trinta anos. Pode parecer Fato é que alguém ou alguéns o plágio aceitável. Quando o
assustador, descobrir algo assim de até hoje lucram com os livros de escritor ou músico é famoso rende
forma tão repentina mas faz tempo Augusto dos Anjos ou atualmente manchete mas se não é, a briga pelos
que essa terra é habitada e as “coisas as obras estão sendo distribuídas direitos autorais fica parecendo um
do mundo” foram criadas por de graça? Eu pelo menos, não vejo alimento para o ego. Como existe
alguém ou alguéns. livros impressos e distribuídos sem um mercado, um autor, alguém que
Você pode encontrar as custo do Augusto dos Anjos, por aí. criou, os créditos devem ser dados.
informações de forma fácil mas A descoberta dos últimos Mesmo que a pessoa escreva por
é porque alguém um dia ralou tempos para alguns é que existe exemplo, por puro prazer, foi ela
muito para isso acontecer. Segunda um comércio cultural. Jura!, dirão quem escreveu. Texto ou frase de
surpresa: As coisas não surgem do alguns. Juro! Ninguém trabalha autoria desconhecida é algo comum
nada, alguém as fez e merece os de graça, e o mesmo comércio que não existe. Arte não é o que
créditos além dos lucros. cultural que você desconhece e você planta e colhe da terra, arte é
Mas alguns pregam o muitas vezes critica é aquele que criada por um indivíduo.
desapego, mas o desapego dos é capaz de fabricar bizarrices Respeite a intelectualidade e a
outros... Não o próprio. Criou-se artisticas e você consome sem se cultura. Ao invés de você achar
a mentalidade que a cultura deve preocupar com o preço. O mercado brecha para copiar e reclamar do
ser de graça para ser consumida, cultural movimenta dinheiro de preço de livros, CD’s, peças de
ou seja, precisamos de trabalho “gente grande” e merece o devido teatro e tudo voltado a cultura,
voluntário nessa área de forma respeito. Atores, escritores, pintores, você poderia se engajar em um
urgente sob pena de logo mais cantores, agentes, empresários, movimento muito mais interessante:
alguém ter a ideia de acabar com livrarias, teatros, cinemas, gráficas, O de baixar impostos, preço da
a cultura. Engraçado que não vejo estúdios todos envolvidos no gasolina e todo o consumo diário.
ninguém pregar o desapego com o mercado cultural que é feito por Se baixássemos nossos impostos
trabalho de médicos, advogados, você e por mim que consumimos teríamos mais dinheiro para
psicológos,políticos, etc... O despego cultura. O consumidor tem papel consumir cultura. Ou a cultura
precisa ser cultural, como se a fundamental no comércio cultural mesmo não paga mais imposto para
arte fosse um passatempo e nada alem da mídia que divulga, mas ser feita?
profissional. Existem sim os que vejam bem, estamos em épocas que
desenvolvem atividades artísticas todos podem sobresair no meio. É
por puro prazer e sem visar lucro, só utilizar as ferramentas de forma
mas com certeza possuem outras consciente. Não é a mídia que te
Letícia Losekann Coelho
Pedagoga, escritora e editora
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Twitter é uma ferramenta cada vez mais utilizada, lapidando o ócio ou temperando o aço nosso
de cada dia. E através de uma indicação vinda dali, vinda de nossa boa amiga Luma (@luzdeluma)
conhecemos Makely. E nessa noite, a música de bom gosto e sonante como há muito não se encontra
passou a fazer parte da playlist desta Editora.
Conheça mais sobre Makely Ka, em texto de Marcelo Dolabela(*)

Makely Ka – a fome da karne


O exílio de Caetano Veloso e Gilberto Barnabé, Itamar Assumpção, Tetê Espíndola,
Gil em Londres em 1969 deu por encerrado Vânia Bastos, Eliete Negreiros, Paulo Barnabé
o momento da Tropicália e abriu um fosso & Patife Band, Robinson Borba, Hermelino
na história da experimentação sonora na Nader, Premeditando O Breque, Rumo e
música brasileira. O que viria substituir essa Língua de Trapo.
revolução? Até meados da década de 1970, Novamente a experimentação era
algumas respostas surgiram: Walter Franco, a tônica dominante. Experimentar com:
Secos & Molhados, Sá – Rodrix & Guarabira, texto, melodia, ritmo, harmonia, arranjo,
Raul Seixas, Belchior, Raimundo Fagner, interpretação e instrumental.
Alceu Valença, entre outros. A Vanguarda, assim como a Tropicália,
Mas a melhor resposta sairia das organicamente, teve vida curta. Em menos
próprias lides tropicalistas. Gal Costa de cinco anos, seus artífices se dispersaram:
aglutinou vozes dispersas e estabeleceu o contratados por majors, abandonando a
que alguns críticos e historiadores da MPB dicção radical, incorporados a “falsa” linha
designaram de Pós-Tropicália: Jards Macalé, evolutiva da MPB.
Waly Sailormoon, Jorge Mautner, Luiz As contribuições não foram poucas, mas
Melodia, Pitti, Lanny Gordin, Rogério Duprat ficaram, quase sempre, como influência aqui
e Os Novos Baianos. Continuação e ruptura e ali e não como linguagem.
em um mesmo lance de dados. Nos últimos dez anos, foram surgindo
Somente dez anos depois, a música intérpretes e compositores que efetivamente
brasileira veria um momento tão inovador estabeleceram uma espécie de Pós-
e revolucionário, com o surgimento da Vanguarda Paulistana.
chamada Vanguarda Paulistana. De Arrigo O cantor, compositor, instrumentista e

revista cultural novitas nº 7 — setembro de 2010 — [8]


poeta Makely Ka é, sem dúvida, nome de sutis
destaque nessa nova cena.
Seu mais recente álbum —
“Autófago” — é um bom exemplo de
como os paideumas da Tropicália e
da Vanguarda Paulistana foram relidos
e ampliados em uma poética doce-
amarga dylan-leminskiana sobre base
ruído-lírica entre samplers e microfonias.
Em um primeiro momento, ao ouvir
o CD-suporte, como Makely designa no
minimanifesto “abpd a pqp”, o que surge
em primeiro plano é o trabalho poético
com o texto: rimas enviesadas (males /
maxilares; tenso / sonso; crítico / prático;
vítima / síndico; santo / cancro; crédito /
médico; fibra / diga, etc.), afinal, na faixa
“Não se meta”, Makely já avisa: “eu rimo
a torto e a direita”; falsa-técnica palavra- funcionam como desvios
puxa-palavra; estrutura anafórica (eu não subliminares (Glauber Rocha, no programa
sou... / eu não sou...; estou aprendendo... Abertura; Hugo Chavez, na Onu; Subcomandante
estou aprendendo...); e, principalmente, Marcus, no México. Maiakovski, na União
temas retorcidos: o cotidiano canabalizando Soviética).
a metafísica; a metafísica, em (auto) O resultado é vigorosamente pop-
fagocitose situacionista (em “Equinócio”: experimental. Pop-linguagem; pop-Prometeu
“Um átomo dentro da esfera / gera um que permuta temperatura de mundos díspares
sistema que gira...”). As melodias trazem um e produz efeitos ímpares, na concepção
batuque psicodélico, uma espécie de Hendrix Duchamp-Warhol-Zappa.
executando uma cuíca digital. Às vezes, a Makely é o “Ka”ra (khlebnikoviano)
troca de instrumentos amplia essa levada: o nesse cara-e-coroa. Entre o volátil pop e o
contrabaixo soa como guitarra; a repetição inflamável experimental. Entre o mutável
vocal, como percussão; e a multiplicidade e o permanente. Autófago, não da própria
percussiva, com recorrência e loop mântricos. espécie, mas da improvável “fome”.
Entre texto, sonoridade e voz, os samplers
Marcelo Dolabela é poeta, jornalista, pesquisador, escritor e crítico de música, autor do ABZ do Rock Brasileiro e Amonia,
entre outros.
Fotos de Gisele Moura com tratamento gráfico de Bruno Brum. Adaptação de David Nobrega.
Leia mais e escute Makely em makelyka.com.br

“Contos de Varanda”
de Maurício de Oliveira
(vencedor do I Concurso Novitas de Contos e Crônicas)

Breve!
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se depara com a morte. A princesa finalmente, afunda
daniela blanco na água etérea da vida, que lhe recolhe na morte; a água
a recebe assim como a concebeu. Lá a vida não mais a
o tempo da espera alcançará. O tempo não tem mais a menor importância.
A espera já está terminada.
Sozinha novamente, o tempo começa a dar Falar sobre o tempo me parece paradoxal, pois
mostras de suspensões e descontinuidade. É findo o enquanto se fala, o tema do embate não para ou espera
breve período em que acreditou viver e ter controle até que se chegue a uma conclusão. Seria então o falar
sobre a vida. É finda a crença de que algo mais além do sobre o tempo, não viver?
tempo da espera lhe é possível. Seu príncipe-vida talvez Transformar estes questionamentos em imagens
nunca tenha existido, apenas se manteve na ilusão. Ela em movimento, imagens que só chegam ao seu fim
não é a única desiludida. Os personagens que circundam apoiando-se no tempo, é ainda mais extraordinário.
sua vida, também encontram, um a um, a linha do Maya Deren trás a tona estas e outras questões com
tempo; mas logo são atirados ao longe; logo se perdem seu filme Ritual in Transfigured Time. A proposta de
novamente. criar uma narrativa sobre o tempo, em um período em
O tempo expandido da dor a leva novamente que a linearidade era quase que imprescindível na arte
ao príncipe-vida. Mas este agora não a engana. Ela sabe de contar histórias, foi desafiadora. Essa linearidade,
tratar-se de uma ilusão; como um monumento, uma mesmo que difícil de ser compreendida se faz presente
Torre de Babel que pretendia alcançar o Paraíso, mas só no filme como o único meio de contar a história não-
serviu à incomunicabilidade. linear do tempo.
Agora é a vida que tenta alcançá-la, tomando Link do filme no Youtube:
para si o condutor de sua trajetória. Mas à princesa, http://www.youtube.com/
não interessa mais iludir-se; apavora-a apenas a ideia. A watch?v=xrWNXLPFz40
vida pulsa, dá saltos em seu encalço; mas para quando
Daniela Blanco é designer, ilustradora e colunista da
Revista Capitu ( revistacapitu.com )

contos que ninguém


conta
O novo livro de
David Nobrega, autor
e editor da Novitas, já
encontra-se disponível.

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editoranovitas.com.br e
encomende já o seu!

Veja resenha de Andre Lucia Barros na página 29 desta revista.

revista cultural novitas nº 7 — setembro de 2010 — [10]


poesia

O DESPERTAR

Flávia Braun
fbbraun.blogspot.com

Ecoa em si o suave som da alma.


Do céu, a Lua ilumina o quarto escuro.
Nessa mágica cena, do sonho desperta.
E vive a noite mais intensa de sua existência...
Noite em que o sonho a leva ao mundo real.

E o que é real, mesmo? ( ela sempre questiona )


Real é sentimento, é movimento, é emoção, é coração.
Real é o amor, que é impalpável, inspirador.
E ela resolve se aninhar nos braços dele, nesse calor sem fim.

Do sonho guardou a vontade de ser o mais belo dos jardins.


Da janela do quarto a Lua acenou,
Mostrando que seu despertar fora certeiro.
A hora de viver o mais intenso sentimento chegara.

Olhou nos olhos dele, tocou seu rosto.


O sorriso confirmando o futuro que se anunciava.
Mais presente do que nunca.
E eterno por toda sua duração.

INSENSATEZ DOIDIVANAS PALAVRAS DESNUDAS

Cristiano Melo Lú Martins


cristianooliveirademelo.blogspot.com sweetychaos.blogspot.com

Eu te amo
Você me ama
Laudanizado pela amorfa esfera epigeica Amemo-nos, então.
Fálica e acefalina, pusilânime estoico, Dias longe. Noites perto
Abre asas sobre a jocosa ética Braços e abraços
Certame infalível e verborrágico. Sonhos despertos
Faz tempo te amei
Estupefato de sua denegável aleivosia E hoje é igual
Rubra a face desmedida em verdade, Orgulho, respeito, pele,
Furta da presa a alma lealdada com coisa e tal
hipocrisia, Risos cúmplices
Funesto corteleiro da improvida Palavras desnudas.
amizade. Conheço teu olhar
Sei quando falar. Quando
Se clama ao amor o escudável calar
ludibriante, Entre estranhamentos e
Grita ao desafeto tal feita doentia. desentendimentos
Horda de palavras melotômicas adiante. os dias passam, eles passam
Nada mais natural
Da responsabilidade não se pode fugir Mar de rosas e comercial de
em quantia, margarina
No futuro aguarda a esfinge galante. não combinam com a vida real.
Jus alçada da sorte que lhe virá em
serventia.
[11] — setembro de 2010 — revista cultural novitas nº 7
MARIA JOÃO

Flávia Brito
sabe-de-uma-coisa.blogspot.com RENDEIRAS DO TEMPO

Thiago Azevedo
mangaepoesia.blogspot.com
Se há nesse mundo alguém capaz de guardar, descansodaalma.blogspot.com
Esse alguém é Maria João.
Resignada não há como Maria João.
Silenciosa não há como Maria João.
Vai a mulher rendeira,
Maria João guarda nos bolsos moedas e separar mais retalhos,
dores brancas. corta, picota e costura,
Maria João guarda no peito palavras e são restos de pano,
é colcha de trapo.
despedidas.
Cada pedaço, uma história,
Guarda nos pés a intenção dos passos. um jardim de rosas,
Guarda no corpo a intenção dos ossos. um novo botão de flor,
Guarda na boca a intenção dos risos. restos de tecido rendado
desmonta e remonta em lavor.
Guarda na alma a intenção dos riscos.
Retalhos de tempo,
Maria João enovela as vontades num colcha de memória,
carretel parte, de partes, de partes,
E guarda. passado, futuro e presente,
que formam nossas histórias.
Maria João acomoda as feridas num cesto
E guarda. Mais uma parte que se fia,
Mais um trapo que se funde,
A coragem embrulhada em papel de pão: pequenas centelhas de tempo,
Guardada por Maria João. colcha sempre incompleta,
eterno movimento, em amiúde.
O amor trancado num pingente de coração:
Guardado por Maria João. Incansável mulher rendeira,
que a vida fia e descostura,
Maria João vai guardando, e guardando, e nossos velhos e gastos pedaços,
guardando... colcha de tempo que fulgura,
somando a mais e mais restos
E guardando... de outros pedaços de trapos.
E guardando.

Maria João guarda o choro no castanho dos


olhos
E é difícil carregar nos ombros o peso
desse olhar gemente.

Silenciosa não há como Maria João.


Resignada não há como Maria João. SUBCULTURA INCONSCIENTE
Guardando tudo.
De toda gente. Sylvia Beirute

e em experiência directa
comunicar com a personalidade
das influências
que envaidecem o meu lado absoluto,
poder que domina.

dissecar uma mãe e um pai salientes,


curiosidades nas minhas metáforas, bem
como os sentidos que coexistem e amam,
e toda uma subcultura

inconsciente no meu autoconfronto.


revista cultural novitas nº 7 — setembro de 2010 — [12]
(À)TONA

Monica Saraiva
blogdamoni.blogspot.com

Mas era eu, E possa, enfim, dividir


Que por não ser mais criança O que todo esse tempo foi soma.
Não podia ter caído nessa
brincadeira Aproveita e me livra da cela
Nesse jogo de mau gosto Eu não caibo em abertura de
De te fantasiar ser o oposto novela
Da mesmice corriqueira. E esquece Cazuza e Bebel
Pois não precisas dizer mais
Hoje guardo de herança nada
A solitária idealização Fica assim, onde estás
Dos milhares de euteamos No lugar de onde nunca saiu
repetidos em vão, No teu posto, de onde nunca
No meu pé, o teu beijo permitiu
Dessa máscara de desejo, A minha oferta de céu,
Desejo de um só endereço, Minha porta escancarada...
Menor, bem menor que mereço
Muito menos que eu tinha pra Devolve o meu cheiro, viu?
dar. E vê se leva o teu que esqueceste
aqui
Vai querer me negar? É que eu preciso dormir!
Quer dizer que um dia chegou a
me amar? Esquece meu rosto,
Que num estalar se transforma o Meus olhos,
amor em erro Meus sinais.
E fazes dele o enterro Deixa-me livrar do teu gosto
Sem sequer me convidar? Dos teus olhos,
E de tudo mais.
Faz um favor:
Recolhe cada uma das cenas de Enfrento cada meia-noite
teatro mal-feito Como se a última fosse
Engole cada um dos versos baratos São madrugadas de açoite, de rio
Apaga aquelas letras escritas a correr
sem pudor. É claro que eu sei perder!
Todos os atos Mas é que o sabor doce
Registrados de um jeito Esse, que vinha de um ser
Que cicatrizaram embaixo do – que hoje eu sei -
cobertor. Não era você
Ainda faz lembrar feito canção
Não sei de onde veio essa A tela que eu desejei
autoridade O amor que nela pintei
De usar da inverdade Desperdiçado, largado no chão
Pra despertar a boba menina Em completo desprezo, desdém
Se fazendo de bom rapaz. Por alguém que eu criei,
Não, não fala mais! Que nunca existiu, mais ninguém.
Nem canta ao meu ouvido em
nenhum idioma A propósito, a saber,
Recompõe, ou melhor, desafina Desprazer em (re)conhecer.
Pra que eu não consiga traduzir

DE PALAVRA

Kiara Guedes
www.nesteinstante.com

Das metáforas que não usei Tentei até prosopopeia


De todas as que apostrofei Mas nem mesmo
Nada A persuasão das entrelinhas
Em inversão nem se fala Faz uma palavra
De tudo tentei Mudar de ideia

[13] — setembro de 2010 — revista cultural novitas nº 7


LIXO E FUGA

Bruno Bossolan
tormentos.wordpress.com
Eu me enganei Emana de nós dois
Pensando E de cada um
Confiando em qualquer um Pro seu próximo
Jogando palavras a quem me foi Que está ao lado
dado Na frente
De presente Esperando pelo toque
Sendo da mesma matéria E não ser tocado
Enriquecido de carbono e potássio Pode causar
Mas pelo jeito Repulsa
Foi empobrecido
De lixo e fuga Eu fujo pra longe
De mim
Um punhado de gente fraca De tudo o que há
Gestos compressores Existindo no bafo
Atitudes especulativas Dos visionários
Saneamento intestinal Profetas
Para o enriquecimento Eruditos
Genuíno da amizade Beberrões
Soltando na cria enfurecida
E você sofre tudo isso em Gotas de complacência
silêncio
Porque seu mártir causa tanta Não é poesia
repugnância É um túnel claro
E te condenam por ser nojento Como você enxerga a sua
existência
Acordo Definhando na neblina
Desperto Piscando
Estou acomodado no chão Limpando os olhos
E daí pra frente segue a rotina Mas sem parar
Com essa bola que vai rolando Olhando pra baixo
Na mesma rua Só quando o penhasco
No mesmo sentido Estiver amontoado
Sem sentido Sobre seu corpo

As pessoas são diferentes Percorre a alma


E então inconformadas Numa velocidade
A expressão do cansaço Irremediável
É a mesma em todas as faces Inexorável
Saltita nas veias
Eu não queria ter infectado Dança
Com essa minha indiferença Harmoniosamente
Dos padrões sentimentais Pulsa nos instintos
Não queria ter mostrado Como uma vitrola
Que posso sentir Arranhando
Apenas com os olhos A pele machucada
Espetacularmente moldada
Então eu fiquei escondido No banalismo
Cego no buraco Deságua no mundo
Meus outros sentidos se aguçaram No lixo urbano
Impurezas no meu corpo Fedorento e lucrativo
Ainda virgem Pra uma fuga
Voraz e perpétua
Noites em estado Assim com os ossos
Morto Doentes e as pernas
Estado num trópico E as mãos e a cara
Morto No cotovelo um roxo
Instável na mesa de cirurgia Manchas de agressão
Morto Da esperança
Estado da vida E te cala
Numa morte comemorativa
Ponderável fantasia Calando a voz
Morto Os sentimentos
A razão
A vulgaridade flui Consciência da derrota
Do meu sorriso E vai embora
Emana da sua mente
revista cultural novitas nº 7 — setembro de 2010 — [14]
Luiz Américo nasceu Américo Francisco Filho, em Santos, no
litoral paulista.
Para os quarentões é fácil lembrar das frequentes aparições deste
cantor em programas de televisão, como Silvio Santos, Chacrinha, Flávio
Cavalcanti...
Mais fácil ainda é lembrar de seu maior sucesso — “Camisa 10” —, que com bom-humor
dava um grande puxão de orelha nos boleiros da época.
Hoje, além de continuar cantando e compondo, é empresário da noite. A Lucky Scope,
sua casa noturna, está localizada no Guarujá e ali se apresenta acompanhado de seus filhos — a
Banda Feitiço —, aos sábados.
Mais uma grande personalidade de nossa música brasileira que honra a Novitas,
dispondo-se a responder algumas poucas perguntas, que podem ser lidas abaixo:

Editora Novitas: Como o santista Américo Francisco outros 11 vencedores do ano.


Filho enveredou pelo samba e tornou-se Luiz Américo? Fui o grande vitorioso e o prêmio na época era
uma viagem pro exterior, que na época vendi e pude
Luiz Américo: Comecei cantando com 13 anos de idade comprar uma casa para os meus pais. Fui campeão com
em programas infantis e em rádios, até ser convidado a meu verdadeiro nome: “Américo Francisco Filho“, mas
gravar um compacto duplo com duas músicas românticas. após ter vencido o concurso fui contratado por uma grande
Em 1968, com 21 anos fui inscrito por amigos no Programa gravadora e achavam que Américo não era um bom nome
de Calouros do Sílvio Santos, onde tinham as provas e queriam colocar Luiz Fernando, mas meu pai
semanais.Fui campeão da segunda semana, e disputei a
final do mês onde me sagrei vitorioso. No final do ano
teria a grande final — a prova anual que
foi no Pacaembú — e me tornei
campeão, ganhando dos
(Américo Francisco) não deixou e acabei convencendo graça do povo. Hoje lançam absurdos na internet e de
que colocassem “Luiz Américo” repente vira um hit, mesmo o artista não tendo nenhuma
qualidade. Mas sei também que a nova geração acaba
EN: O seu maior sucesso provavelmente foi “Camisa 10”, conhecendo mais meus sucessos do passado devido a
que criticava a Seleção Brasileira de 1974. A Seleção que internet. Acho então que é uma faca de 2 gumes, tanto
disputou a Copa do Mundo de 2010 não merecia uma ajuda a divulgar músicas e artistas bons, quanto também
alfinetada daquelas? divulga porcarias. Acho que é uma super ferramenta,
mas sem controle de qualidade.
LA: Meu primeiro sucesso foi “Desafio” (“Quando eu
tiver com a minha cuca cheia de cachaça”), também EN: De cantor e compositor, ganhador de inúmeros
conhecida como “Cachaça” e aí na sequência veio o prêmios e grandes parcerias , a empresário da noite. O
“Camisa 10” que fez muito sucesso, ficando mais de que ficou para trás te dá sensação de missão cumprida
um ano nas paradas de sucesso de todo o Brasil. Essa ou ainda podemos esperar novidades?
seleção do Dunga merecia um aperto maior, pois faltou LA: Tenho a sensação de missão cumprida e de que
comprometimento e muita humildade! Mas meu maior marquei uma geração. Mas principalmente por ter dois
sucesso foi “Fio da Véia”! filhos que seguiram meus passos de cantor e que juntos
conseguimos montar uma casa noturna que faz sucesso
EN: Acredita que ouviremos MPB de qualidade nas há 18 anos com mais de duas mil pessoas por sábado,
rádios novamente? que curte nossa música e nosso som. Mas com certeza
podem esperar novidades, pois já estamos trabalhando
LA: Há muito tempo atrás a gente não imaginava na gravação de um DVD com todos
ouvir samba tocando em FM, mas hoje os meus sucessos e com convidados
toca muito samba de qualidade junto “Tenho a especiais!
de muito samba ruim. Acho que muita
MPB de qualidade toca em FM, mas não
sensação
EN: Por falar em grandes parcerias,
como realmente deveria tocar. Portanto, de missão poderia contar ao nossos leitores mais
acredito que o Brasil está passando por
uma evolução musical e espero que daqui
cumprida e de jovens alguns dos grandes nomes com
quem tenha subido aos palcos? Com
a algum tempo possamos ouvir músicas que quem lhe agradou mais trabalhar?
de qualidade e principalmente bem marquei uma
gravadas, o que hoje não tem ocorrido... LA: Cantei com grandes nomes da MPB
geração.” como Ângela Maria, Nelson Gonçalves,
EN: A internet, para os artistas em geral, Benito di Paula, Jair Rodrigues, João
pode ser uma ferramenta — ajudando a resgatar Nogueira, Agepê e muitos outros, mas apesar de ser
grandes nomes e divulgando novos talentos — como sambista sempre gostei muito de seresta. Meu maior
pode ser perniciosa, por conta da pirataria. Qual tua prazer foi ter gravado com Sílvio Caldas um dos maiores
visão do assunto? seresteiros do Brasil e de quem meu pai era fã. Tive o
prazer de conviver com o Sílvio Caldas um bom tempo
LA: Hoje acho que existe muito sucesso forçado! em Atibaia-SP.
Antigamente o artista tinha que ser bom e cantar com
orquestras em programas de rádio e de tv ao vivo, para
ir se destacando e caindo na

revista cultural novitas nº 7 — setembro de 2010 — [16]


EN: Vários artistas atuais tem regravado tuas EN: Podemos enviar uma cópia desta entrevista para
composições, como no passado outros tantos as o Zagalo?
cantavam...
LA: Com certeza! Na época cheguei a encontrar o
LA: Alcione gravou “Desafio...(Cachaça)”, e a Clementina Zagallo mas ele sempre levou na brincadeira. Quem não
de Jesus e Os Embaixadores do Samba gravaram “Na gostou muito e ficou muito puto na época foi o Leão!
hora da sede”. Depois o Wilson Simonal gravou “Não me Mas foi bobagem, não entendeu a brincadeira!
deixe sozinho”. Atualmente, tive a felicidade de ver meus
filhos, o Grupo Feitiço, gravarem “Carta de Alforria” , EN: Então o samba acabou virando coisa de família...
pela Zélia Duncan gravando “Na hora da sede” e o Zeca
Baleiro, que gravou “Fio da Véia” . LA: O maior prazer para mim, é dividir o palco com
meus filhos e saber que o maior prazer deles é de
EN: Independente do sucesso de uma canção, sempre dividirem o palco comigo.
há aquela que é o xodó do cantor/compositor. Existe Recentemente eles inauguraram uma casa
alguma que lhe seja especial? de samba em Santos de nome “Typographia Brasil”
em minha homenagem e com todos os meus troféus
LA: Fiz várias músicas que adoro, mas que não se (Cassino do Chacrinha, Globo de Ouro, etc), sete Discos
tornaram sucesso, mas a música que fiz, que mais gosto de Ouro e um Disco de Platina, além de contar um
e que também foi um grande sucesso foi “Carta de pouco da minha história.
Alforria”.
Quer saber mais sobre o Luiz Américo? Nada melhor que ouví-lo, ao vivo, cantando com seus filhos da Banda Feitiço,
em uma das duas casa da família:

luckyscope typographia brasil


praça walter bellian, 86 rua XV de novembro, 115/117
guaiúba - guarujá - sp - brasil centro - santos - sp - brasil

www.luckyscope.com.br www.typographiabrasil.com.br

[17] — setembro de 2010 — revista cultural novitas nº 7


Muito se fala sobre artistas multimídias, embora muitos deles sejam especiais
em determinada área, enquanto “pincelam” por outras.
Esse não é o caso de Van Luchiari, que pinta, canta, escreve, fotografa e —
garanto que basta lhe fornecer os materiais corretos – borda, caseia e chuleia.
Abaixo conheça mais sobre essa artista que em breve terá seu livro publicado
pela Novitas, nas palavras de quem mais a conhece: ela mesma.

EU - PLEONASMO aspectos. Quero ser sempre um pouco pior em outros.


Uma certa dureza é necessária. Pura sobrevivência.
É preciso esclarecer... Sou pessoa de poucas Entenda.
palavras, mas gosto que elas signifiquem alguma Sou preguiçosa. Minha preguiça é de rede
coisa. balançando e livro pousado no colo.
Sou melancólica e introspectiva. Gosto de ser Sou de bons amigos e boa companhia. Tenho
discreta com as coisas que sinto. pânico de multidões (eu me relaciono com elas só
Não sou muito de fazer festa com tudo, mas quando canto). Prefiro a intimidade às badalações.
aquilo que me estimula eu faço questão de celebrar. Qualidade é importante e eu prezo isso. Sim, sou
Sou exibicionista. Sou tímida. Tento parecer muito na minha. E só porque sou na minha não quer
esperta, mas no fundo, acredito em todo mundo. dizer que sou arrogante. Não confundam introspecção
Sou de fácil manuseio, apesar do excesso de com falta de educação.
desconfiança. Não sou metida, Sou é distraída! Eu gosto de um bom filme, um bom livro, um
Não gosto que me ignorem, que me enganem, bom amigo pra sair e bebericar e conversar e aprender
que me enrolem, que me deixem no vácuo, esperando. e rir e chorar...
Fujo de unanimidades. Burrice me broxa. Não me acho inteligente e nem intelectual
Grosseria, estupidez, preconceitos e injustiças me demais, mas sei que conheço as pessoas profundamente.
irritam, me deixam indignada. Isso já nasceu comigo, essa intuição sobre tudo. Minha
Gosto dos que se entregam, dos que se alma é antiga.

apaixonam. Eu reconheço alguns talentos que eu tenho.


Ai de quem inveja o que sou, o que tenho e o que Entrego-me a eles sem medo. Não os nego. Sei muito
busco, porque minha alma é ESCUDO, é ESPELHO, bem que eles me salvam e me mantém inteira, mesmo
é BUMERANGUE... quando tudo em volta desaba e vira caos.
Quando tenho muito sono, me dá crise de Elogios me desconcertam. Nunca sei o que
riso. Aliás, crises de riso são constantes... para me fazer com eles. Então aceito.
manter protegida. Se vc não presenciou alguma, Não deixo que saibam das minhas fragilidades, mas
provavelmente ainda verá. elas existem tantas e pasme: coram, envergonhadas
Sou perfeccionista e exigente comigo mesma. quando alguém as percebe.
Quero ser sempre um pouco melhor em alguns Eu tenho uma memória estranha que às

revista cultural novitas nº 7 — setembro de 2010 — [18]


vezes me deixa na mão. Mas nunca Eu contenho verdades, algumas
(raramente, vá lá!) esqueço a letra de ocultas. Sou mistério e gosto de sê-
uma música. lo.
Sou uma pessoa de poucas Eu omito desejos. Eu só me
palavras. Mas acredite: quando falo é arrisco e me lanço porque o ar que
pra valer. É verdadeiro. Saiba. me segura é denso. Denso de vida,
Você pode até pensar que denso de coragem instantânea e
tenho tudo, que sei de muitas coisas... nova.
Que gosto de chocolate, que como Mas não sou descartável, nem item
morangos gemendo, que tenho insônia, que amo de coleção, nem troféu, nem comum. Sou única e
muitas coisas, que adoro assistir Friends, que amo mereço ser tratada como tal. Sou rara e por isso quero
minha casa, que almoço com a família respeito.
pelo menos duas vezes por semana e O palco é o meu real. A minha
valorizo isso (Já fiquei sem por algum ilusão mora nos bastidores. Quando
tempo e posso garantir que assim acaba o espetáculo é que começa a
não é um bom modo de se viver). minha fantasia. Essa que me destrói
Que no dia a dia eu sou simples, mas e me embala. Que me atormenta e
adoro conforto e mordomias. Que me me alivia. Que me realiza e dói.
entrego, que me masturbo, que leio Sim... eu sou nada. Sou
“Calvin & Hobbes”, que beijo bem, amanhecer cansado, anoitecendo.
que sou perfeccionista, que tenho Um pedaço escuro do dia. Chance
medo de dirigir, que pinto, que assisto desperdiçada. Sou do avesso, sou
13 filmes por semana, que quase não controversa. O que eu quero é ser
falo, que falo demais, que sou louca, tudo. Para alguém. Para mim. Para
que não sei dançar como antes, que você talvez. Ou não. Tanto faz.
tenho mania de guardar cartas e Eu exijo - e pretendo -
fotos e pessoas, que sinto saudades verdades. Eu jamais serei breve ou
dos amigos, que gente inteligente esquecimento. Escrevo no silêncio e
me estimula, que cozinho muito bem, que mudo os meu silêncio é cheio de sons. Sons que eu te entrego
móveis de lugar sempre que me nas mãos e que entram pelos teus
entedio, que meus olhos são verdes ouvidos e percorrem teu corpo.
e turquesa, que canto, que gosto O que eu te dou me faz eterna
de ar condicionado mesmo no frio, em ti.
que durmo pouco e por isso fiz E eu gosto de eternidades.
olheiras, que banhos me excitam, E agora? Você me conhece?
piscinas também, talento também,
que gosto de perfume, que adoro
fazer amor no mar, que faço arte,
que faço arte e mais arte... E que Quer mais? Então acesse:
prefiro deixar abertas todas as
janelas para que entrem todos os Van Luchiari
insetos (Sábia canção).
Se dá tudo errado eu grito,
xingo, falo palavrões. Se dá fome,
eu trepo. Se eu amo, eu AMO. Se Twitter: www.twitter.com/vanluchi
eu odeio, só detesto um pouco. Se sangro, perdoo.
Esquecer, não esqueço. Meus amigos de verdade, esses VAN FILOSOFIA! - vanluchi.blogspot.com
eu AMO pra valer, VALORIZO mais que tudo e MIMO MY SPACE (músicas) - myspace.com/vanluchiari
até doer. Os outros, eu RESPEITO MAHALÎLLA (banda)- mahalilla.com.br
totalmente. LOJA VIRTUAL: zazzle.com.br/vanluchi
Não tenho medo de estar só, tenho
medo de estar vazia. Não tenho medo da
morte. Tenho muito medo é da dor. Eu
sou assim: um elo entre o bom e o ruim.
Um caminho íngreme e maravilhado. Todas as imagens aqui dispostas
Talvez o caminho errado. O começo são do acervo da autora. Todos os
de algum fim ou o princípio de alguma direitos reservados, com cessão para
eternidade. Uma pedra no sapato. Uma
palavra repetida. Um olhar que entra e esta matéria exclusivamente.
desvenda. Profunda e introspectiva.
[19] — setembro de 2010 — revista cultural novitas nº 7
contos

A ARTE DE PERDER
Álisson da Hora
pontispopuli.blogspot.com

“A arte de perder não é nenhum mistério;


tantas coisas contêm em si o acidente
de perdê-las, que perder não é nada sério.”
Elizabeth Bishop
Aqui deitado olho o resto de dormência em uma tarde que se alongou madrugada
dela, sono suspirado em que eu poderia imaginar adentro, apagada como almas tocadas por
um monte de loucuras, um monte de cogitações, álcool e tranquilizantes —assustada como
mas não. Só fica a certeza de que é a última vez, espíritos arrojados do alto de céus sem nuvens
de que um silêncio talvez reinará como se fosse e que tristemente acabam acalentadas em mãos
uma vitória dos clichês, da mesmice, quando na dormentes —, é inútil. A repetição visita minha
verdade é apenas mais uma face do desencontro mente, minha sombra dependurada na parede
e da tortura que nos espreita a cada momento em não mostra meu rosto, o tempo e o espaço vivem
que vivemos. Aqui deitado busco a sua sombra a brincar com meus pensamentos que pareço ver
deitada na parede, também, com o rosto sabe- a se debaterem no chão, teimosos, engasgados,
se lá onde e o pensamento sabe-se em que lá travados: um quadro da minha vida. Um bar
paragens. A repetição de tantas coisas em pouco eternizado, uma conversa sustentada por milênios
tempo me faz crer que o tempo o espaço a vida como gotas d’água de uma tortura chinesa, cada
por vezes fica uma coisa meio travada, engasgada, segundo de perda, de dano. Abandono. A aparição
teimosa em se perpetuar em situações estranhas do silêncio agora reina enquanto lá fora um
deflagradoras de tonturas e equívocos. Mãos mundo de tolices de promiscuidades talvez nos
trementes que reconhecem que os chistes e as afaste de vez. Não sei por onde o seu pensamento
pragas lançadas em volta de mesas repletas de caminhará depois de hoje. Livros queridos não me
garrafas e tranquilizantes, a doce nostalgia de servirão de cobertor, não desfrutarei de vitória
jovens que estão envelhecendo, a melancolia alguma. As portas vão se fechar, nenhuma música
de uma tarde de idades que vão se apagando e mais riscar o meu caminho e deixar marcas. É
que vão reconhecendo as tardes que já se foram, assim. E eu fico aqui, sentindo o suspiro derretido
que se fecham como livros queridos, mas que dele sobre mim. Grave recordação deitada por
martelam os corações e não os reabrimos tocados sobre minha sombra, pelas minhas sombras. E eu
por uma estranha prudência. Que diz: acabou. aqui ficarei. Para quando as portas se fecharem.
Acabou. Essa estranha prudência deitada Ficarei com o olho no chão. Eu. Aqui. Deitada.

“Caóticos de Uma Mulher Crônica”


de Tatiana Cavalcanti
Breve!
(Visite o site da autora : taticavalcanti.com.br)

revista cultural novitas nº 7 — setembro de 2010 — [20]


AMOR MORTO
Tâmara Lopes
inntimidade.blogspot.com

“Se tens um coração de ferro, bom proveito.


o meu, fizeram-no de carne, e sangra todo dia.”
José Saramago
Só amei três vezes e nas três, morri. minhas coxas roçarem uma na outra pra me
Dizem as más línguas que já morri muito mais desmanchar. Ele achava graça e dizia que era
que isso. Vai ver não me lembro. E se não me natural esse desmantelo todo aos 19. E teve
lembro é por que não senti. Minha primeira um dia que me ligaram do hospital. Leucemia.
morte foi aos 16 anos. Eu havia mudado para E mais uma vez, enquanto ele morria de câncer,
Goiás e namorava um cara. Um tipo metaleiro eu morria de parada respiratória. Fiquei mau.
e estudante de geografia. Namorado perfeito Entrei em depressão. Tentei suicídio, mas não
e a gente ia junto pra tudo que era canto. funcionou. E cai fácil no papo de Cássia “...
Era a coisa mais linda de se ver. Aos sábados, mudaram as estações, nada mudou... mas, eu
freqüentávamos um planetário. Ele me falava sei que alguma coisa aconteceu, tá tudo assim
de astros, estrelas e planetas e eu achava ele tão diferente...” O tempo passou e aos 25 jurei
o cara mais inteligente do mundo. A gente não que não morreria mais de amor. Nada mais me
se largava e até causava inveja na vizinhança. passaria a perna. Nem amor, nem ódio, nem
Aos 16 anos, eu era romântica. Eu só queria leite derramado, nem ilusão, nem nada. Eu
saber de romantismo. E pensávamos em ter agora era adulta e não morreria mais nos braços
quatro filhos e todos eles já tinham nome. Oito de amor nenhum. Pronto! Tava decidido. Fui
meses depois os pais deles se transferiram pra me dando em outras camas, sem amor mesmo.
Brasília e lá se foi meu amor. De mala e cuia. Até que um dia, botei pra quebrar. Escancarei
Nos víamos sempre que dava. E aos poucos foi de vez. Enchi a cara e sai beijando todo mundo.
morrendo a paixão. Depois quando já não tinha “Sou fera. Sou bicho. Sou anjo. Sou mulher...”
mais paixão, fui morrendo também. Meu amor E tudo foi por terra. Acordei em cama alheia e
morrendo por asfixia. Amor sem paixão é morte até disse: “Eu te amo”. Fiquei noiva. De aliança
certa. E meu namorado, o romântico perfeito, e tudo. A família inteira festejou. E até casa
morreu e nunca mais o vi. E fui crescendo. chique mobiliada, com carrão e um labrador no
Depois da minha primeira morte, comecei a jardim, eu tinha. E ele lia tudo que era livro que
fumar maconha e andar embriagada de vodca eu gostava. E a gente tomava porre de vinho e
com coca cola. Minha mãe disse que eu estava ia pra balada de rock. Ah! Bendito seja esses
ficando viciada e que aquilo não era certo. As homens de 40. Por fim, deu pra sentir ciúme.
pessoas costumam confundir vontade com Era ciúme o tempo todo. E deu pra me negar
vicio. São coisas diferentes. Não sei explicar. E leitura e beijos. Até que me negou amor. E era
”...ainda somos os mesmo e vivemos como os murro em ponta de faca e ciúme em cima de
nossos pais..”. Eu vivia cantarolando. Aos 19 ciúme. Até que um dia, de tanto ciúme, ele me
anos, veio o moço da biblioteca . Eu sempre traiu. Acordei decidida a matar o amor. Ele foi
frequentava a biblioteca da faculdade depois da pro trabalho e eu fiz as malas. Foi nesse dia,
aula. Ele era uma espécie de mestre. Era mais que morri pela terceira vez. Entrei no taxi. Vi
velho que eu uns 20 anos. Ele era adulto e se o tempo passar e percebi que o espetáculo
preocupava comigo. Tinha uma mania de me perdeu a graça. Tudo fica muito serio, dietético
chamar de Menina. Na hora eu ficava de cara e linear. Tomei consciência das minhas mortes.
feia. Não gostava de ser menina diante de tanto Na verdade, nunca quis morrer. Era tempo
saber. Depois, eu ate gostava. Ele me ensinava de voltar a ser o que eu não seria, se tivesse
de música clássica, de literatura, de vinhos e me a chance de escolher de novo. Nunca fui boa
fazia entender Portinari. E quanta bobagem eu em múltiplas escolhas e decidi seguir a regra.
falava. Ele falava de texturas, quebra de cores, Quatro anos depois fiz do tempo meu ditador.
a suavidade dos traços fortes e eu lá, bem no Estado civil, Eu.
meio da minha meninice me desmanchando. É, acho mesmo que cheguei ao fim. Morta
Aos 19 eu me desmanchava fácil. Bastava sentir de vez.
[21] — setembro de 2010 — revista cultural novitas nº 7
DA CANÇÃO DO FIM PARA O COMEÇO POSSÍVEL ELOQUÊNCIA
Talita Prates Van Luchiari
historiadaminhaalma.blogspot.com vanluchi.blogspot.com

Ouve, meu amor Fica aqui, dentro desse amor que não morre,
não morre, não morre.
: eis que a Vida quis inaugurar em mim uma — Oi. Como estás?
nova vida — e eu me assustei com a novidade. (Aos pedaços. É uma confusão, sabe? Eu
Preciso do tempo para fazer com que esse novo fique quero dizer-te que gostaria de ter, apenas por um
conhecido e um pouco gasto e eu possa olhá-lo com instante, esses teus olhos que me vêem assim tão
menos estranheza, e para isso é imprescindível certa diferente do que eu sei que sou por dentro. Ou não
dose de solidão. sei. Ou não tenho. Porque eu sou só esse meu abismo
buscando asas. Apenas essa fresta escancarada na
: nessa busca pungente e vital que tenho pele... ferida aberta que não sara. Essa coisa em
empreendido pela minha verdade, descobri que
metamorfose. E essa vontade de enfiar-me numa
padeço do desconhecido do amor — só sei dele o que
cápsula e perder-me desse tempo que não me
minha fantasia foi capaz de inventar. No mais, só tive
entende e me corrói. Me corrói, entende?
pistas. E descobrir que até hoje eu só havia inventado
o amor me desesperou — é como ter vertido dor em
Queria dizer-te dessa imensidão mascarada
vão, ter saudade do que nunca foi — um desperdício que eu trago escondida sob esse véu melancólico.
da vida (que é o grande pecado). Dizer-te que sou profunda, mas de uma profundeza
intragável, asfixiante.
Mas agora houve a mudança, meu amor (?), e Sou submersa. E não sei se um dia chegarei à
ela veio de onde eu menos esperava — de dentro do superfície de mim. E assim me faço porque o silêncio
mim (no mim existem coisas que o eu desconhece). me habita e sem ele eu não existo.
Eu, até aí tão inflexível na estrutura, ousei desconstruir Acostumei-me a ser essa solidão disfarçada
tanta coisa, ousei colocar a casa abaixo e visitar o de alegria. Vulnerabilidade vestida de fortaleza.
vazio da ausência dos pontos de apoio. Questionei os Também preciso contar-te como é tão melhor
dogmas que embalavam minha bonança e minha vida o meu dia quando acordo longe de mim. Ou quando
segura. Para que?, você se pergunta... Para poder me bebo café fresco ou saboreio morangos ou descubro
reerguer sozinha e nova e sã e livre. Li-vre. uma música. E como me sinto viva quando deixo-me
molhar pela chuva ou quando atravesso os minutos
E te confesso (como é bom te confessar o que sem que nada me machuque, nem eu mesma. E
está além da minha nudez óbvia!) que tais descobertas como eu gosto quando não há espinhos nas coisas,
me foram possíveis graças ao desnudamento da nas pessoas, na vida. E dos pequenos prazeres que
própria realidade (aalétheia tão desejada?): os sonhos eu tenho nessas coisinhas diárias que cabem todas
estão acordando, as expectativas vestem trajes mais tão imensas nas minhas mãos. Entende?
transparentes e a fantasia tem se me apresentado Eu queria que tu soubesses dessa blindagem
como exceção, não mais a regra. que eu carrego em mim. Dessa capa que me protege
e envolve corpo, alma, palavras, tudo. Essa casca
O que eu quero? Eu desejo que o nosso amor
impenetrável com jeito invencível, mas que por
(e a própria Vida) seja possível e tangível, sem fábula
dentro chora e se desmancha.
ou expectativas de perfeição. Não faço questão de
alardes, mas de clareza. É esse o meu desejo. Ainda É... eu queria mesmo dizer-te que essa que
que para isso a gente tenha que inventar o fim: para você vê daí da altura dos teus olhos, é, no fundo,
que o começo seja real. uma finitude. Uma substância etérea prestes a
diluir-se e ser esquecida, porque nada mais é do
É preciso reinaugurar a nossa história. que um mero desvio de si mesma.
Mas no fundo eu também queria pedir-te,
(Não sei se o que vou te dizer é invenção, mas: voraz, com todo o meu silêncio: não te desvies de
eu te amo. Se o amor fosse uma escolha, eu escolheria mim.)
te amar.) — Estou bem, obrigada.
revista cultural novitas nº 7 — setembro de 2010 — [22]
VORAZ MOTIVOS PARA ODIAR UMA MARIAZINHA
André Salviano Flávia Queiroz
confrariadostrouxas.blogspot.com relicariovazio.blogspot.com

“Toca de tatu, lingüiça e paio, boi zebú Mariazinhas... Desde pequena as encontro
Rabada com angú, rabo de saia por aí: aliciantes e astutas. Tem a perversa mania de
Naco de perú, lombo de porco com tutu aparecer na hora errada. Falam com leveza e simpatia,
E bolo de fubá, barriga d´água.” são espertas, às vezes bonitas e sempre odiosas.
Aldir Blanc, João Bosco e Paulo Emílio Pois é, admito que sou daquelas pessoas passionais
e suscetíveis. Tudo me tange. Leonina, ciumenta e
passional. Uma junção explosiva.
Eu queria comer tanto, mas sem engasgar, eu Não gosto de quase nada. Mas tenho a terrível
queria comer demais. Vivia com fome, muita fome, necessidade de me sentir amada por tudo o que
a terapeuta dizia que os amores light’s me fariam desperta meu querer.
bem Você precisa se alimentar melhor, ela dizia. E Aí elas aparecem: as Mariazinhas. Muitas se
eu querendo carne sangrando, batata frita, feijão chamam Joana, Natália, Juliana ou sei lá mais o quê...
carregado de carne salgada, pernil bem temperado: Mas todas são Mariazinhas!
alecrim, folha de louro, pimenta do reino, limão, Aquele tipo de garota que compete sem
cominho etc. Lombo de porco com tutu, torresminho, anunciar batalha (as piores!). Ligam no celular dele
rabada com agrião. O que acontece com essas meninas quando a gente tá discutindo relação ou fazendo
de hoje? A maioria só quer saber de fast-food, eu as pazes, esbarram "por acaso" e começam papos
ficava puto! intermináveis dos quais não faço nem ideia. Mandam
Naquela noite eu tinha bebido muito, alucinado recados carinhosos e dúbios. Me enlouquecem e
desci a rua da Lapa, chegando na Mem de Sá olhei pra ainda são vítimas.
lua: cheia, linda. Eu vazio, um trapo. Uma menina de É provável que eu também já tenha sido
olhos verdes se aproximou, mas pra mim eram azuis, uma Mariazinha na vida de alguma Flávia por aí.
ela disse verdes duas vezes, eu continuava vendo Mariazinhas são inimigos disfarçados em pele de
azuis. Cigana? Talvez quisesse me enganar, dinheiro, pêssego e com olhos brilhantes. Tem voz suave, e pelo
levar pra cama. Paramos um tempo na esquina com menos por um instante, balançam o coração do cara
a Gomes Freire, duas cervejas, dois Sampoerna de que a gente gosta.
menta, uma piada, dois sorrisos sem graça. Subimos Pois é, a culpa é sempre delas! Afinal, “ele” é só
até a Riachuelo, entramos no Sinuca da Lapa. Cerveja uma peça... Nunca faria por mal... O cara de quem se
de garrafa. Porra, eu com tanta fome. No dia seguinte, gosta é sempre o príncipe encantado, mesmo que caia
por volta do meio-dia, notei que minha vida precisava do cavalo branco enquanto cavalga ou que não tenha
mudar. Outros caminhos, andanças outras. um reino.
Mandei um foda-se pra minha terapeuta, Ele me ama! Mesmo que olhe pra alguma
que se dignou a dizer Você precisa de bons modos, maldita Mariazinha por aí, ou fale com ela do jeito que
menino! Mas eu preciso mesmo é de Amor. Com A eu gostaria que falasse comigo. Ele é perfeito e cheio
maiúsculo, e que não me deixe morrer de fome, e que de imperfeições (mas isso é outra história, talvez com
não me sacie apenas numa noite, ou duas. o título de "Joãozinho").
Eu quero um banquete. Cansei de migalhas.

“ O Aniversário de Bruxameixa”
de Madalena Barranco

Breve!
[23] — setembro de 2010 — revista cultural novitas nº 7
O COMPLEXO HOMEM-MACHO

Marcelo Soriano
yohoy.blogspot.com

Nós homens (machos), já nascemos com a sina talento para o futebol. Bem lembro, nas seleções da
de ter de fazer bonito na vida. Geralmente, já somos educação física (nos tempos de colégio), quando dois
recebidos ao nascer com apelidos de “Campeão”, colegas bons de bola escolhiam sistematicamente um a
“Galo Cinza”, “Terror da Vizinhança”... Não raro, um para os seus times, não raro era eu ficar por último
na porta do quarto da maternidade, pendurar-se e haver discussões, porque ninguém me queria no seu
chuteirinhas ou luvinhas de boxe. Mal nascemos e já staff. E (maldição da Lei de Murphy!), os gordinhos
nos projetam como dândis, comedores de rapaduras e sempre figuravam no time dos “sem-camisa”. Voltando
raparigas, egocêntricos e infiéis reis do puteiro. Este é a mim... Recordo que na adolescência os homens-
o estereótipo do Homem-Macho, aquele que esbanja machos começaram a despontar, ao passo que os
piadas nas rodas de amigos, o que ostenta suas homens-não-tão-machos começavam a “desapontar”.
conquistas masculinas como se fossem troféus, aquele Os machos já se ensaiavam com as garotas, enquanto
que faz do sexo um esporte sem valor sentimental, os outros tendiam ao onanismo ritualístico.
enfim, aquele que pratica obscenidades em público Interessante é que os machos crescem primeiro, já,
e os outros aplaudem. Não parece leve, pois, o fardo os outros, ficam para trás e parece que nem para
existencial que espera o Homem-Macho que acaba de crescer servem. Os machos fazem e acontecem e são
chegar ao mundo! Assustado com o cenário caótico o orgulho dos pais (machões frustrados, facilmente
que o recepciona neste mundo carnal, logo que chega, desmoralizados pela mãe ou mulher). Nós, os não-
sem saber que “homem não chora”, o recém nascido tão-machos, ficávamos lá, à cabaleira da sociedade
não resiste e põe a boca no mundo... Buáááá! hipócrita, analisando, observando, testemunhando
a ascensão alheia... Tive três amigos-machos nesta
*** época. O primeiro tornou-se operário da construção
“Meu nome é Rubens”, esta foi a frase mais civil. O segundo começou a puxar fumo e, logo
longa que o recém desencarnado ex-presidiário pôde depois, a puxar etapas na penitenciária. O terceiro,
pronunciar diante de São Pedro — O Porteiro do Céu. hoje, é flanelinha. Continuamos amigos, mas por
O engraçado é que do “Céu” (lá de dentro do tão força da contingência social e cultural, deixamos de
sonhado paraíso catolicista), cada vez que as portas conviver. Minha primeira namorada só apareceu aos
se abriam vinha um rufo de som abafado; aliás, som 21, quando eu estava por me graduar em engenharia.
abafado e ar viciado, úmido, enfumaçado e quente. Acredito que meus pais já mudaram (a contragosto)
Uma longa fila de espera se formava ali fora e São seu pré-conceito sobre o homem-macho frustrado no
Pedro, um Drag King de cabelos neon, contava os qual se tornou o seu filho. Se fosse hoje, certamente,
enfileirados e os vistoriava com uma passada de olhos pendurariam na porta da maternidade um esquadro
por cima dos escalpos... “Tu sim. Tu não. Tu sim. Tu ou — quem sabe? — uma agenda e um relógio.
não...”, assim a fila andava vagarosamente. Ali fora
fazia frio. Era uma noite molhada. “O limbo é assim.”, ***
dizia um casal que parecia já ser experiente naquela O Analista de Bagé seria o profissional ideal
situação. “Hostess! Lembra de mim?”, gritou um para terapeutizar o Homem-Macho. Depois de cinco
homem afeminado de meia idade que, pelo jeito, já minutos sendo analisado, o tratamento eficaz viria à
quarava na fila há um século. São Pedro o fitou e disse: tona como um golpe perverso: “um chute nas bolas
“Tu não!”. Lá dentro - dava para ver, cada vez que as é teu melhor remédio, vivente!”. E o homem-macho
portas se abriam, seres andróginos se movimentando pagaria a consulta com satisfação...
mecanicamente com olhos ausentes, imersos numa
atmosfera psicodélica, sincopada, minimalista e com ***
iluminação estroboscópica ofuscante; máquinas
carburadas com balinhas de Ecstasy. Sim! O Céu... A Não aconselho a ninguém, principalmente um
visão do Paraíso é uma festa rave. homem-não-tão-macho a se auto-analisar. Corre o
risco de acabar se concluindo.
***
Eu, Marcelo, não me tornei pugilista. Sequer tive ***
revista cultural novitas nº 7 — setembro de 2010 — [24]
Há que se observar uma, nem tão sutil, autocrítica, ouso relacionar algumas expressões
diferença: não confundir (confundir, neste caso, que jamais devem ser articuladas pela boca de um
equivale literalmente a “trocar as bolas”) homem-não- homem-macho complexado e legítimo:
tão-macho com macho-não-tão-homem. É evidente
que a inversão do jogo de palavras pode conduzir o ◊ Eu não bebo cerveja.
sujeito a um status de macho-floreado ou macho-
arco-íris, que, na mais amena das hipóteses do boca ◊ Prefiro novela a futebol.
a boca social, pode evidenciar complexos e rotulações
tradicionalistas, não a respeito do tamanho do pênis, ◊ A maioria das mulheres não é vagabunda.
mas quanto aos infortúnios da fase anal.
◊ Eu amo e sou fiel a minha esposa.
***
◊ Meu filho há de ser um sensível e culto escritor.
Para finalizar esta crônica conturbada e pseudo-

“Meleca, a Bruxinha Sapeca”


de Marcos de Andrade

Breve!

REFLEXO DE MIM
Tatiana Cavalcanti
taticavalcanti.com.br
No reflexo do monitor do laptop um rosto meio cinqüenta vidas serão poucas e rasas para que eu
cansado. possa aprender que ser over é cafona para cacete e
Dois traços bem fortes dos dois lados da boca. E os humanos costumam cuspir no sapato dos cafonas
no meio da testa outra marca que parece que franziu, emocionais.
mas não franziu não. Eu acho bem mais fácil só ser. Só que não pode,
Parei o que estava fazendo, minimizei todas não cabe, é quase falta de educação ou de inteligência.
as janelas e me fixei no contorno. Tentei relaxar E eu mudo o rumo das coisas para o reflexo clarear.
os músculos entre osso do nariz, testa e tudo mais. E eu danço uns tangos que eu acho dramáticos
Estavam relaxados. demais, mas se é isso que tem, vamos lá. Dançar a
Me olhei por uns três minutos só respirando. A vida qualquer que seja a nota para celebrar a sorte
sabedoria é a arte de prestar atenção. de ter um Renato. De chão, de teto, de cobertor, de
Em mil momentos me detesto como se eu cúmplice, de parceiro de um jeito que grande parte do
fosse meu único e maior inimigo. Em alguns raros eu Universo não sabe como é ser.
me idolatro como um sobrevivente de guerra faz com É só um dia qualquer em que eu me olhei com
a liberdade. calma e atenção.
Eu não canso de viver, mas meu reflexo, esse Um dia qualquer só que com mais rugas.
aqui na minha frente me diz que é hora de parar. É só isso a vida. Um monte de boas experiências
Parar de ir tão longe e tão alto sem saber cair. Parar que viram marcas no corpo para a gente não fingir que
de querer ganhar o mundo quando tudo que se tem é possível esquecer com meia dúzia de botox e uns
é só um monte de sensações que o mundo não quer silicones espalhados por aí.
nem saber o que é e nem para o que serve. Outras
[25] — setembro de 2010 — revista cultural novitas nº 7
se em algo que frequentemente ilude os incautos,
álisson da hora fazendo-os crer em uma “retidão” que as livra de todo
o “embuste” que só os que manipulam a linguagem –
repensando propostas sejam os poetas e/ou os escritores – sabem fazer.
Mas essa conversa é antiga e fatalmente nos
remeteria aos anseios republicanos de Platão. Ou ao
Italo Calvino escreve, em “Seis propostas para o “realismo socialista” ou à fala do general espanhol
próximo milênio”, que “A literatura (e talvez somente a Millan Astraya, aliado de Franco (que disse: “sempre
literatura) pode criar os anticorpos que coíbam a expansão que me falam em Cultura, dá-me vontade de pegar na
da peste da linguagem”. Escritas pouco antes de sua pistola”); a verdade é que a tal peste alastrou-se sob a
morte - como se sabe, a sexta proposta não chegou a ser forma do “politicamente correto”, da falsa liberdade da
terminada - para as Charles Eliot Norton Poetry Lecture linguagem, enfim, sem estar sob o poder dos “donos”
(também comumente conhecidas simplesmente como dela outrora – e nunca foram donos de coisa alguma,
“Conferências Norton”) da Universidade de Harvard, como diz Virgínia Celeste de Carvalho, minha amiga, a
as tais lições americanas repensam que conceitos “democracia começa na linguagem”.
literários deveriam ser cultivados (e salvaguardados) Mas, se o capitalismo cria a ilusão de liberar
não somente para o século algo, como ironiza a Marilena Chauí, cercando
XXI, como nossa mentalidade tudo com uma necessidade de
imediatista pode supor, mas O que renegamos, o que funcionalismo absurda, e de
para o milênio mesmo. certa forma concordamos que
Não sei se Calvino
aceitamos? Dentro de tal a escolha é livre, e cada um
repensaria suas posições se pensamento, sensato é, ainda busca o que realmente quer,
tivesse vivido ao menos a virada por que nos debruçamos, nos
do milênio. Em 1985, ainda
que haja alguém que julgue debatemos, nos revoltamos
vivíamos uma ordem de coisas sensato tentar arrebanhar contra aquilo que ao nosso ver
oriundas da primeira metade do é reconhecidamente nocivo
século XX que, por bem ou por
de qualquer jeito corações e e enganador? Talvez porque
mal, de forma capenga, ditava almas, quase que como um reconheçamos, ao menos nós,
condutas e pensamentos. Eu que nos propomos a escrever
creio que ele repensasse, sim,
proselitismo camuflado de e a brincar com a linguagem,
ainda que reiterasse ainda mais certa prepotência... que não adianta somente
cada um dos cinco valores que ele buscar funcionalismos ou até
arrolou para suas conferências. mesmo admitir que a literatura
Mesmo não vivendo a reviravolta que aconteceu no em si não tem finalidade alguma. Calvino tanto sabia
mundo da informação, com a disseminação da web, ele disso que imaginou uma vez um castelo de destinos
já pressentia, com essa sensibilidade inata aos artistas cruzados. Borges, os seus labirintos. Kafka, suas
em geral, o quanto a “peste da linguagem” já começava encruzilhadas. Vivemos no fio da navalha a procurar
a se espalhar. valores que delimitem e norteiem a nossa produção
E que peste é essa? O que seria forte o suficiente estética. O que renegamos, o que aceitamos? Dentro
para contaminar as pessoas e as fizesse crer que de tal pensamento, sensato é, ainda que haja alguém
viver uma pobreza de significados - disfarçada de um que julgue sensato tentar arrebanhar de qualquer jeito
suposto enriquecimento de “valores morais” ou mesmo corações e almas, quase que como um proselitismo
pessoais, em detrimento de toda a farsa camuflado de certa prepotência (“Porque Literatura É
que a ficção e a poesia produz, nos tirando ISSO que eu faço!”), viver sempre a repensar o que é o
do caminho da retidão... -, longe da leveza, fazer literário. Já recebi críticas ferozes por crerem que
da rapidez, da exatidão, da visibilidade eu queria impor uma visão academicista e tradicional
e da multiplicidade, é mais salutar do das coisas – como houve quem criticasse o Calvino
que viver a ressignificação do pelo mesmo “crime”. Não é por aí. Quando paramos
mundo? O mais irônico, para refletir verdadeiramente sobre um destes valores
e talvez fosse esse o que o escritor italiano elenca em seu livro – ou sobre
maior temor de Calvino, outras, quem sabe mais inerentes a nós – vemos que
é a capacidade de esta a questão não é um mero julgamento do que é cabível
peste, como um vírus e do que não é. É o questionamento sobre o que se
mutante, transformar- quer ver como algo programático, verdadeiro minarete
revista cultural novitas nº 7 — setembro de 2010 — [26]
a clamar pela presença das mentes deslambidas, que
ao invés de quererem fazer literatura querem mesmo gerana damulakis
é aparecer – desculpem a crueza – e do que é feito
de forma “espontânea”. Espontâneo porque não quer literatura contemporânea
criar de fato um impacto maior do que é capaz de criar.
Ninguém derruba castelo de cartas com uma granada.
O tema literatura contemporânea é muito
E o não programado, o que não se quer fazer modelar
vasto, seriam necessárias muitas páginas, seriam
salvaguarda uma das coisas mais primárias que se vê
levantados muitos debates. Refinando o tema, ainda
“líquido”, apenas para usar um termo do Zygmunt
assim, precisaríamos de muito espaço para analisar
Bauman: o indivíduo.
a literatura contemporânea, nesta altura e já agora
Ao expor suas propostas, Calvino, ainda que
restrita ao nosso país, pois também o mundo é vasto,
membro do Oulipo (a Oficina de Literatura Potencial,
como dizia o outro.
que dentre outros nomes tem consigo o Georges Perec,
Ao passar para uma região, ou para o espaço
o Raymond Queneau, o Jacques Roubaud e o Marcel
de apenas um estado — no caso, a minha Bahia —
Bénabou) – que nunca se propôs a ser modelo de nada,
posso retratar o que ocorre nos demais estados do
aliás, só a (re)pensar continuamente a literatura –
Brasil, excetuando o famoso eixo Rio-São Paulo e,
primou por lembrar exemplos individuais. Com o tempo,
talvez, o Rio Grande do Sul, pois este último tem mais
as “escolas” se desfazem ao peso da poeira e do juízo,
leitores e editoras, sendo visto como um estado que
e ficam somente as obras. A peste da linguagem tem
sabe usufruir de sua literatura.
horror ao individualismo e à autenticidade. Fugindo da
Em poucas palavras: o que ocorre na Bahia é o
planificação, dos programas, dos manifestos, que muitas
seguinte: embora se saiba que a literatura brasileira
vezes julgo ser apenas máscaras para um fascismo ou um
nasceu na Bahia com Gregório de Matos e os outros
esquerdismo manco – ou no caso, agora, de um certo
poetas da época, e se saiba igualmente de nomes
espalhafato em querer-se mostrar antenado ou mesmo
famosos como Castro Alves, Adonias Filho, Jorge
“descolado”, o que fica é o individual, aquela voz que
Amado, a verdade é que hoje não se tem conhecimento
sempre é sufocada quando se mostra crítica. Por isso
nos outros estados do que se vem fazendo de literatura
talvez, que a crítica tenha falido: ou foi calada pelas vozes
da mais alta qualidade na Bahia.
que se proclamaram autocríticas, ou justamente por
Principalmente nos últimos anos tem havido
calar vozes que criticavam essa propalada autocrítica.
uma intensa atividade literária com vasta produção de
João Cabral de Melo Neto disse sabiamente,
livros, inclusive de novos autores que, infelizmente,
ecoando o pensamento de outros grandes, que cada
por circunstâncias de distribuição, não chegam às
um tem a sua própria poética. E que dentro dela cada
livrarias do país.
um faz e refaz as suas regras, suas ideias, seus valores.
Fugindo da questão localista, procuro voltar
Talvez falte a tantas pessoas que tentem fugir da peste
e pensar em uma abordagem mais interessante.
da linguagem a qual Calvino se refere esse pensamento.
Afunilando, pois, ainda mais, vários caminhos
É ter para si – e somente para si – tais regras. Não adianta
poderiam ser tomados. É melhor conservar a mirada
mais tentar perpetuar reunismos, imaginar escolinhas
em um ponto específico e trazer apenas a problemática
ou movimentos. O movimento é do eu. Não com um
que procura localizar o lugar do escritor e o lugar do
egocentrismo bobo que não admite troca de ideias. Os
leitor nos dias atuais.
indivíduos interagem e repensam. A literatura precisa
O leitor, o grande leitor, ainda senta na
mais disso, deste repensar, menos holofotes e factóides.
poltrona, ou deita no sofá, na cama, e abre seu grande
Caso contrário, necessitaríamos de uma
livro para desfrutar do prazer da grande literatura? O
infinidade de milênios para a próxima proposta.
texto literário contemporâneo entende, ou comporta,
Bibliografia: o grande leitor, o grande livro do grande escritor, a
BAUMAN, Zygmunt. Vida líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., grande literatura?
2007
CALVINO, Italo. Seis propostas para o próximo
Atualmente, a chamada literatura produz livros
milênio: lições americanas. São Paulo: como objetos de consumo, colocados nas livrarias
Companhia das Letras, 1994. em setores bem definidos: best sellers, auto-ajuda,
Virgínia C. Carvalho: casainabitada.com.br infanto-juvenil, infantil etc, como nas gôndolas dos
supermercados, ou nas secções dos magazines. Tal
atmosfera afasta o leitor sensível — para não usar,
Álisson da Hora é Mestrando mais uma vez, a expressão grande leitor.
em Teoria da Literatura – UFPE Em linhas muito gerais, foi desse modo
que a literatura encontrou alternativas para fugir
[27] — setembro de 2010 — revista cultural novitas nº 7
do esquema estanque que vinha engessando sua ganhou com a falta de preconceito em relação não
produção. Acompanhando a escalada tecnológica, a apenas ao conteúdo (ao que é assunto poético e ao que
opção tomada pela literatura foi a internet. Podem não é), ganhou, enfim, com a falta de constrangimento.
torcer o nariz para os blogs, mas E mais: em ambas, na prosa e na
é nos blogs que encontramos a Principalmente nos poesia, os modos de linguagem
produção literária contemporânea últimos anos tem havido estão totalmente de acordo
realizada pelos escritores de todo o com a cadência mais acelerada,
Brasil. A opção atende ao escritor e uma intensa atividade ou seja, com a velocidade em
ao leitor. literária com vasta frases curtas, com a comunicação
Muitos livros nasceram em breve, de forma a assemelhar-
blogs. Aqui, na Bahia, vários desses produção de livros, se com o cinema, quando até os
livros atenderam aos pedidos de inclusive de novos personagens das narrativas são
seguidores dos blogs. E posso falar formados, na mente do leitor,
da emoção que, tanto o escritor, autores que, infelizmente, pelo que realizam em ações,
quanto seus leitores, experimentam por circunstâncias de dispensando perfis psicológicos.
no dia do lançamento. Já em Poderíamos concluir que há
quatro ocasiões, os blogueiros distribuição, não chegam maior participação do leitor para
que colhem o material postado e às livrarias do país. completar o texto? Creio que
passam este material para o livro sim, mais do que nunca o leitor é
impresso, chegaram a criar outro blog, específico para coautor.
o lançamento. Em suma: blogs foram construídos Ainda assim, a literatura continua associada
apenas sobre o livro, para divulgar o lançamento, às leis do mercado econômico, o qual, contas feitas,
para informar sobre o escritor, para fazer uma pré- coloca em risco valores artísticos; contudo, é notório
venda. No dia da festa, os blogueiros se reúnem, o que ela, a literatura, quer existir e resistir às mudanças
espírito é o de um encontro de pessoas que sentem que o tempo vem velozmente impondo e segue em
algo em comum naquele instante, há muita alegria no frente, mesmo que fugindo de modismos, para
ar. A resposta, sendo tão boa, vem incrementando a permanecer com o potencial e a realização dessa
produção literária e a leitura. força, a força da arte literária.
Vale registrar que a prosa, na blogosfera, perde Procure os blogs que ofereçam literatura de
a verbosidade porque, tendo cada postagem um qualidade, separe o joio
espaço restrito para não espantar leitores (a maioria do trigo, é fácil identificar.
não gosta de ler textos longos na tela), isto acabou Depois, resta aproveitar uma
privilegiando o miniconto, o microconto. Já a poesia boa leitura.

Gerana Damulakis é escritora e crítica literáriaa

Uma editora que investe em novos autores!


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revista cultural novitas nº 7 — setembro de 2010 — [28]
andrea lucia barros
resenha literária — contos que ninguém conta
Um livro de contos, para ser bom, A ambição e arrogância estão juntas nesse
deve contar com uma boa narrativa, bons conto. É claro que tudo vai depender do
personagens e boas histórias. Caso essa ponto de vista do leitor, mas esse deve ser
mistura não aconteça ele, com certeza, estará considerado o melhor conto do livro. A
fadado ao esquecimento. Pois são justamente história é encorpada e muito bem amarrada.
esses três elementos que são encontrados no Trata-se de um texto em que o ápice, na
livro Contos que ninguém conta de David verdade, não está no meio dele, mas, sim, no
Nóbrega. Em seu livro, o autor consegue fazer todo. Desde o início o leitor é cativado pela
com o que leitor tenha muitas sensações no simplicidade do texto e da narrativa. Mas é
decorrer da leitura. Raiva, angústia, nojo, dor, melhor não falar muito porque ele realmente
sofrimento, amor, alegria e felicidade. Todos merece a leitura.
esses sentimentos estão ali, nas palavras de Já Deus e o Diabo revela lados
David. interessantes do ser humano e do mundo
Em Tardias reflexões, o atual. Um diálogo aberto e franco
leitor encontrará uma história cuja entre os dois personagens que
narrativa é um soco no estômago. A dão título ao conto se desenrola
transformação (e degradação) pela em um bar. Um pobre ser comum
qual passa a personagem é muito é pego para testemunhar o bate-
bem construída e os elementos papo. É bastante divertido. Para
que compõem o conjunto são um autor, uma das coisas mais
perfeitos. Com uma outra tônica, importantes é conseguir amarrar
Nóbrega toma a loucura como um texto. Isso significa conseguir
ponto de partida para Amizades. conduzir a história sem que haja
Aqui, o texto revela o contraste um erro qualquer. É exatamente
de classes sociais e como a mente isso que David faz em Subumano.
humana pode ser pega de surpresa por seus A história, que parece despretensiosa, se
pensamentos. revela mais complexa do que se imagina. O
O poder de escrever leva ao receptor a final é um dos mais interessantes do livro.
mensagem codificada, isto é, o autor coloca O livro além de abordar temas
no texto uma carga que, a sua maneira, variados é interessante pela narrativa ardida
poderá remeter a determinado sentimento. de Nóbrega. Ele não poupa palavras para
Contudo, quando a mensagem é revelada por descrever cada lugar e personagem. Em sua
outrem se transforma em algo totalmente obra os elementos que compõem a narrativa
diverso. É o caso do conto Lobo em que o são tão bem articulados que é fácil ler um
narrador, em primeira pessoa, relata ações conto atrás do outro sem perceber que, aos
rotineiras de sua vida. Porém, para quem lê poucos, o livro vai terminando. Uma bela
a história pode passar algo repugnante. Com leitura para um leitor que deve estar cansado
isso, David atinge em cheio seu objetivo. de procurar algo diferente nas estantes das
Revelar sensações é uma das maiores metas livrarias.
de um autor.
Na mesma prateleira de Tardias Andrea Lucia Barros é jornalista, escritora e
reflexões pode-se colocar Doutor. Sublime! crítica literária
andrealuciabarros.com.br
[29] — setembro de 2010 — revista cultural novitas nº 7