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Ainda acerca da crise económica.

6) a crise do
neoliberalismo
30/09/2010

A crise nanceira e a recessão económica mostraram a insu ciência do mercado


enquanto quadro regulador, e o sintoma mais patente da derrocada do neoliberalismo
foi a intervenção maciça do Estado para debelar a recessão. Por João Bernardo

Os dirigentes das classes dominantes têm o hábito salutar de admitir a fragilidade das
suas ideologias, e Marx disse mais ou menos o mesmo ao observar que a Igreja
Anglicana preferiria renunciar à maior parte dos seus dogmas do que a uma pequena
parte das suas propriedades. Precisamente, renunciam aos dogmas para conservar a
lucidez que lhes permite manter as propriedades. Aparentemente a extrema-esquerda,
como não tem propriedades nenhumas, agarra-se ao dogma. Lembrei-me disto ao ler
que Mahmoud Mohieldin, professor da Universidade do Cairo e ministro do
Investimento no governo egípcio, declarara que «não se trata só de uma crise da
economia. Trata-se de uma crise do pensamento económico. Trata-se de uma crise que
está a deixar perplexos muitos partidários de reformas». (Devo prevenir os leitores de
que, consoante o uso português, chamo mil milhões ao que os brasileiros chamam
bilhão, ou seja, 109, e bilião ao que no Brasil se chama trilhão, um milhão de milhões, ou
seja, 1012.)

Uma crise de regulação


O m do fordismo e a redução da hegemonia económica do Estado representaram o
triunfo da microeconomia sobre a macroeconomia. No sistema nanceiro esta
mudança foi assinalada pela adopção de modelos matemáticos complexos, com o
objectivo de fornecerem uma réplica antecipada do comportamento do mercado. Mas
será que se estava neste caso a obedecer à hegemonia do mercado ou a subordinar o
mercado a um factor de plani cação? Prever o mercado é sujeitar-se ao mercado ou,
pelo contrário, substituir-se ao mercado? A questão tem implicações teóricas mais
amplas do que é possível abordar aqui, mas cabe pelo menos dizer que na sua origem
está a di culdade de traçar uma demarcação nítida entre capitalismo de mercado e
capitalismo de Estado. Parece-me que se deveriam aplicar hoje ao sector nanceiro as
re exões que Galbraith dirigiu há mais de quarenta anos para o sector industrial em
The New Industrial Society. O pior é que os modelos de previsão do comportamento do
mercado ofuscaram quem os usava a ponto de lhes fazerem perder a noção de que nem
se tratava já de mercado nem ainda de uma intervenção organizada sobre o mercado.

Aqueles modelos matemáticos de gestão do risco


conjugaram-se com os derivativos para abrir a etapa da
actividade nanceira que derrocou estrondosamente em
2007. Vista assim a situação, a necessidade urgente de
institucionalizar novos mecanismos de regulação
macroeconómicos indica uma crise do neoliberalismo. Os
neoliberais não se limitavam a defender que os governos deviam restringir o seu escopo
de acção em benefício das grandes empresas. Mesmo dentro do âmbito empresarial,
eles defendiam a redução das instituições reguladoras a um mínimo e consideravam
que era o mercado o melhor quadro de regulação. Aliás, não vejo motivo para lhes
chamar neoliberais, porque essa apologia das capacidades reguladoras do mercado é
tão velha como o capitalismo, mas não é de questões semânticas que me proponho
tratar aqui. O neoliberalismo limitou muito o poder de coordenação económica dos
governos, mas as grandes companhias transnacionais foram incapazes de gerar, no seu
próprio plano, substitutos institucionais dessa coordenação. Tal como defendiam os
neoliberais, a soberania das rmas transnacionais efectivou-se mediante o mercado.
Ora, a crise nanceira desencadeada em 2007 e a recessão económica de 2008-2009
mostraram a insu ciência do mercado enquanto quadro regulador.
Se compararmos a situação dos Estados Unidos e da Europa com a situação da China e,
em geral, dos restantes BRICs [1] e dos países asiáticos, veri camos que não foi a
desregulamentação do mercado de trabalho e a precarização das relações laborais que
provocou a crise. O trabalho não está menos precarizado nos países emergentes que
resistiram à crise. Parece até que a desregulamentação do mercado de trabalho obrigou
cada tipo de pro ssional a adequar-se ao nível de quali cações de que as empresas
necessitam, cando reforçado o processo de exploração e aumentando a produtividade
global. Não é no mercado de trabalho que detecto as necessidades de regulação
assinaladas pela actual crise. Elas fazem-se sentir, por um lado, no mercado nanceiro,
como assinalarei neste artigo; e, por outro lado, como hei-de analisar no artigo
seguinte, na insu ciente coordenação entre o âmbito transnacional da actividade
económica e a esfera em que vigoram as instituições reguladoras, que não podem
extravasar os espaços nacionais ou, quando a sua autoridade decorre de acordos
internacionais, não podem extravasar os conglomerados de nações. Nesta perspectiva,
a crise não foi gerada por con itos entre as classes, mas por problemas internos das
classes capitalistas.

A intervenção estatal nos Estados Unidos e na União Europeia

O sintoma mais patente da derrocada do neoliberalismo foi a acção do Estado para


debelar a recessão. Mostrando mais uma vez que os dogmas são a primeira coisa a atirar
pela borda fora de um navio em perigo, o então secretário norte-americano do Tesouro
Hank Paulson, muito contra as suas convicções e os seus desejos, já que ele mesmo
deixara ir à falência o Lehman Brothers, apressou-se a adoptar medidas de intervenção
maciça. Como observou Barack Obama no seu discurso de tomada de posse, «a questão
hoje não é saber se o nosso governo é demasiado grande ou demasiado pequeno, mas
saber se ele funciona». E assim a travagem da recessão ao longo de 2009 foi, nas
palavras de The Economist de 19 de Dezembro de 2009, «o resultado da maior, mais
ampla e mais rápida reacção governamental conhecida na história». Num suplemento
de 13 de Fevereiro de 2010 desta revista, precisamente um dos órgãos que mais
consistentemente tem defendido a auto-regulação dos mercados, Matthew Valencia
considerou que «a noção de que os mercados podem encarregar-se de se controlar a si
mesmos revelou-se o erro mais dispendioso do mundo, necessitando de 15 biliões de
dólares em injecções de capital e outras formas de apoio».
Segundo o Banco Mundial, os subsídios propostos para a
indústria automóvel em todo o mundo até ao nal do
primeiro trimestre de 2009 montaram a 48 milhares de
milhões de dólares, sendo cerca de 90% gastos nos países
ricos. Em Fevereiro de 2009 os subsídios concedidos nos
Estados Unidos à General Motors e à Chrysler ascenderam a
17,4 milhares de milhões de dólares e o governo havia-lhes prometido fundos até ao
limite de 62 milhares de milhões de dólares. Além disso, um programa federal passou a
conceder um subsídio a quem vendesse o automóvel antigo para adquirir um novo. A
intervenção deu resultado porque, restabelecida a con ança dos compradores e
reorganizada a General Motors sob a autoridade judicial, a administração da empresa
anunciou em Abril de 2010 que, cinco anos antes do m do prazo, pagara totalmente
8,4 milhares de milhões de dólares recebidos como empréstimo do governo dos Estados
Unidos, do Canadá e da província de Ontário.

Em Outubro de 2008, no auge da crise, o governo norte-


americano criou o Troubled Asset Relief Programme
(TARP), destinado a salvar o sector nanceiro. De acordo
com as normas do TARP, o governo federal cava
autorizado a despender até 700 milhares de milhões de
dólares, mas no orçamento apresentado em Janeiro de 2010 o custo do TARP, que no
orçamento anterior fora calculado em 341 milhares de milhões de dólares, foi revisto
para 117 milhares de milhões e a administração admitia então que o custo nal se
aproximaria dos 90 milhares de milhões de dólares. Se acreditarmos nestes números o
programa foi um êxito porque, segundo estimativas do Fundo Monetário Internacional,
a resolução das anteriores crises bancárias sistémicas custara, em média, o equivalente
a 13% do Produto Interno Bruto (PIB), enquanto a Secretaria do Tesouro considerou em
Janeiro de 2010 que o custo nal do TARP seria inferior a 1% do PIB. No entanto, a
maior parte do apoio prestado ao sector nanceiro não se processou através do TARP
mas mediante outras agências. E em Fevereiro de 2009 o secretário do Tesouro, Tim
Geithner, declarou que esperava usar o TARP para atrair capitais privados, de modo a
que tudo canalizasse mais 2,5 biliões de dólares para o sector nanceiro.

Entretanto, para manter solventes a Fannie Mae e o Freddie Mac, que detêm ou
garantem mais de metade das hipotecas residenciais norte-americanas, o Tesouro já
lhes adiantou 145 milhares de milhões de dólares, e ainda isto se pode considerar um
êxito relativo, porque fora inicialmente autorizado o dispêndio de 400 milhares de
milhões. E para impedir a falência da seguradora American International Group, o
governo norte-americano adiantou 180 milhares de milhões de dólares.

Além dos fundos concedidos directamente às empresas industriais e nanceiras, dos


quais 30 milhares de milhões de dólares se destinam às pequenas empresas, a
administração Obama apresentou em 2009 projectos de crédito scal em benefício das
camadas desfavorecidas e admitiu um estímulo scal no montante de 787 milhares de
milhões de dólares, a ser aplicado na maior parte pelos estados, numa tentativa de
reanimar a economia também pelo lado do consumo. O custo nal desse estímulo seria
de 862 milhares de milhões de dólares, mas o Congresso acabou por aprovar apenas
uma soma bastante mais reduzida.

Nada disto seria possível se a Reserva Federal não tivesse expandido muito a base
monetária, de modo que as reservas bancárias, que entre Setembro de 2007 e Setembro
de 2008 se haviam em média mantido em 11 milhares de milhões de dólares, chegaram
a quase 900 milhares de milhões em meados de 2009.

Na medida das suas necessidades e das suas possibilidades, os demais governos


seguiram o exemplo norte-americano, e no total os governos da Organização para a
Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) assumiram compromissos que no
nal de 2009 equivaliam a 2,5% do PIB. Se tomarmos como critério os países do G-20,
os seus governos aplicaram em 2009 estímulos scais que, em conjunto,
corresponderam a 2% do PIB mundial. A intervenção económica maciça dos
governantes norte-americanos e dos seus colegas das principais economias, numa
acção contracíclica nanciada pela emissão pecuniária — temos aqui o epitá o do
neoliberalismo e do monetarismo. Em 2010, nos Ministérios das Finanças e entre a
tecnocracia governamental dos países do G-7 destacam-se duas correntes de
pensamento. Uma facção minoritária, que inclui alguns defensores no Banco Central
Europeu e dispõe de apoio no Banco de Pagamentos Internacionais, sustenta que, se se
procedesse a um sério esforço para reduzir os dé ces, isto aumentaria a con ança do
público e tornaria menos necessárias as despesas governamentais. Mas a facção
hegemónica, que conta com os ministros das Finanças e com a direcção do Fundo
Monetário Internacional, defende que nos países ricos é demasiado cedo para cortar os
estímulos económicos e para proceder a restrições monetárias ou scais. Não parece
que o neoliberalismo e o monetarismo estejam a ressurgir.

A intervenção estatal na China

Medidos em percentagem do PIB, os estímulos económicos adiantados pelos países


emergentes membros do G-20 ultrapassaram os estímulos devidos aos países ricos, o
que indica que o esforço para debelar a crise tem sido proporcionalmente maior nos
países emergentes. Esta situação mais ainda contribuiu para pôr em causa o
neoliberalismo, que nunca deteve nas economias em desenvolvimento o mesmo
prestígio que alcançara nos Estados Unidos e na Europa.

Na China a ligação entre a alta burocracia política e a alta


administração das instituições nanceiras é ainda mais
íntima do que noutros lugares, e a liberalização não atingiu
os bancos, que continuaram a ser regidos de forma
conservadora. Na verdade, até de agrar a crise de 2007 o
sistema nanceiro chinês bene ciou do melhor de dois mundos porque, se os bancos
ocidentais não tivessem criado e difundido novos instrumentos duciários, teria sido
impossível sustentar o anterior crescimento económico. Talvez este peculiar equilíbrio
ajude a compreender o facto de a China ser uma das raras economias cujo sistema
bancário não foi atingido pela crise, tendo os empréstimos bancários aumentado 24%
em 2008. A China pôde assim assumir rapidamente o primeiro lugar na adopção das
medidas contracíclicas, e o facto de o país que melhor resistiu ao descalabro nanceiro
e à recessão industrial ter sido aquele onde se mantivera mais vigorosa a acção
económica do Estado constitui uma nova demonstração do fracasso do neoliberalismo.

Em Novembro de 2008 o governo chinês anunciou um


conjunto de medidas de estímulo económico no montante
de 4 biliões de yuans, correspondente então a 585 milhares
de milhões de dólares, o mais elevado em todo o mundo. Só
cerca de 30% seria proveniente de fundos governamentais, e
a maior parte do restante seria subsidiado por créditos bancários. Como os bancos
chineses cumprem ordens do governo, a execução das medidas anticíclicas cou
muitíssimo facilitada. No primeiro semestre de 2009 o crédito bancário foi cerca de
50% superior ao que havia sido em todo o ano de 2008, e em Junho de 2009 os novos
empréstimos foram mais de quatro vezes superiores ao seu montante de Junho de
2008, tendo o crédito aumentado 34% de Agosto de 2008 para Agosto de 2009, quatro
vezes mais rapidamente do que o PIB nominal, e estando em Dezembro de 2009 32%
acima do seu montante no nal de 2008. Usando outra perspectiva de avaliação, os
empréstimos bancários em 2009 foram equivalentes a cerca de 1/3 do PIB. Em seguida o
crédito progrediu a um ritmo mais moderado e o governo deu instruções aos bancos
para que em 2010 não ultrapassassem um limite total do crédito inferior em 22% ao
montante de 2009.

3/5 do crédito concedido na China em 2009 dirigiram-se


para projectos de infra-estruturas. Este tipo de
investimentos tem três consequências: de imediato,
multiplica os postos de trabalho e, portanto, aumenta os
rendimentos salariais; também de imediato, amplia as
encomendas às empresas tanto de bens materiais como de
serviços; e, a prazo, contribui para estimular a produtividade. Por isso os investimentos
em infra-estruturas, desde que sejam bem seleccionados, constituem uma das
maneiras mais seguras de reactivar a economia. Isto implica, aliás, que não devem ser
adoptadas medidas scais que levem os governos a reduzir as despesas em infra-
estruturas. Em certos meios ocidentais o governo chinês foi muito criticado por ter
dirigido os estímulos mais para os investimentos do que para o consumo. Mas esta
crítica é duplamente errada, primeiro, porque os investimentos em infra-estruturas
aumentam o emprego e, por aí, o consumo e, em segundo lugar, porque uma parte dos
subsídios governamentais se dirigiu directamente para o consumo.

A partir de Fevereiro de 2009 os habitantes das zonas consideradas rurais — onde


vivem 54% da população — passaram a bene ciar de um desconto de 13%, nanciado
pelo governo, para a aquisição de frigorí cos [geladeiras], máquinas de lavar,
televisões e outros artigos do mesmo tipo. Envolvendo mais de 200 milhões de famílias,
esta medida destinava-se a ser válida durante quatro anos. E em Março de 2009 passou
também a bene ciar de um desconto a compra de automóveis pelas famílias rurais. O
vice-ministro do Comércio, Fu Ziying, declarou então que estes descontos poderiam
fazer com que a venda de artigos de consumo nas zonas rurais aumentasse 2,5%. Note-
se, porém, que a recessão levou muitos migrantes internos a perderem os empregos nas
cidades, suspendendo o envio de dinheiro para as famílias ou regressando às regiões de
origem, o que provocou uma redução do rendimento disponível nos agregados
familiares rurais. Segundo o Banco Mundial, o regresso dos migrantes, procurando
trabalho nos lugares de onde haviam partido, fez com que os salários não agrícolas nas
zonas rurais caíssem quase 1/5 entre 2007 e 2009. Entretanto, os residentes nas áreas
urbanas começaram a bene ciar de subsídios para a troca de produtos como
electrodomésticos e automóveis por modelos mais recentes.

Entre as medidas de estímulo ao consumo poderá contar-se a promessa de melhoria do


sistema de segurança social, que, se for efectivada, permitirá às famílias reduzirem a
poupança e, portanto, comprarem mais bens. Em Janeiro de 2009 o governo chinês
anunciou para o período de 2009-2011 um gasto suplementar de 850 milhares de
milhões de yuans, equivalentes então a 125 milhares de milhões de dólares, destinado a
fornecer assistência médica básica a pelo menos 90% da população em 2011. No
entanto, as próprias autoridades consideram que os investimentos em saúde pública e
segurança social demorarão bastantes anos até se repercutirem numa redução sensível
da poupança familiar, e é conveniente saber que, apesar de as despesas governamentais
em educação, saúde e segurança social terem duplicado na China entre 2005 e 2008,
elas representam só 6% do PIB, enquanto nos países da OCDE representam uma média
de cerca de 25% do PIB.

As greves e outros movimentos de contestação têm estado bastante animados nos


últimos tempos na China. Segundo uma publicação o cial, os con itos de trabalho no
Guangdong — uma província onde existe uma grande concentração de rmas
estrangeiras — na primeira metade de 2009 aumentaram 30% relativamente a idêntico
período do ano anterior, sendo o aumento de 42% no primeiro trimestre; e no Zhejiang
o aumento dos con itos de trabalho, nesse primeiro trimestre, a uma taxa anual, foi de
quase 160%. Especialmente notável foi a greve de duas semanas que paralisou a Honda
em Maio de 2010, uma das maiores e mais longas greves numa empresa de capital
estrangeiro, e em Junho foi a Toyota a paralisar. Todavia, as medidas governamentais
de promoção do consumo interno levam-me a crer que estes movimentos não
consigam chegar a um ponto crítico. No Guangdong, onde os con itos de trabalho se
haviam intensi cado, os salários mínimos subiram mais de 20%, contrastando com as
subidas de 10% a 15% ao ano que têm sido usuais no país. E em resposta à greve a
Honda concedeu aumentos salariais que em alguns casos chegaram a 24%. Mais
notável ainda é o caso dos operários de uma das subcontratantes da Honda, a
Atsumitec, que entraram em greve em Julho de 2010 e conseguiram um aumento
salarial de 47%.

Os aumentos salariais devem ser considerados como factores de activação do mercado,


tanto mais que estão asseguradas taxas de crescimento económico anual superiores a
8%, cifra que as autoridades, com razão ou sem ela, consideram indispensável para
assegurar a paz social. Por outro lado, o governo tem mostrado interesse em promover
a penetração dos sindicatos o ciais no interior das liais chinesas das rmas
transnacionais. Além de as companhias com a força de trabalho sindicalizada estarem
sujeitas a um imposto de 2% sobre o montante destinado aos salários, elas cam
obrigadas a incluir nos níveis superiores das suas administrações representantes dos
trabalhadores, aprovados pelos sindicatos, que participam nas reuniões sobre decisões
estratégicas. Através dos sindicatos, a tecnocracia governamental introduz-se na
gestão das empresas. É certo que os sindicatos o ciais servem mais para conter as
reivindicações do que para estimulá-las, mas é possível admitir que o governo procure
aproveitar-se das greves para reforçar o ramo sindical do poder de Estado perante os
investidores estrangeiros, além de as usar também para reforçar os estímulos ao
consumo, deixando isolados os trabalhadores mais contestatários.

O Banco Mundial considerou que as medidas


governamentais de investimentos e subsídios seriam
responsáveis por cerca de 3/4 do crescimento do PIB chinês
em 2009. Em meados de 2009, Tao Wang, uma economista
da rma nanceira UBS, admitiu que os novos
investimentos chineses em infra-estruturas, os cortes de impostos, os subsídios ao
consumo particular e o aumento das despesas em assistência médica equivaleriam em
todo esse ano a um estímulo pelo governo central num montante de cerca de 3% do PIB.
E acrescentando as despesas em infra-estrutura nanciadas por bancos, o total poderia
equivaler a 4% do PIB. Também em meados de 2009 Mingchun Sun, um economista da
rma nanceira Nomura, previu que os estímulos governamentais fossem su cientes
para conseguir uma taxa de crescimento de 8% naquele ano. Com efeito, veri cou-se
que o crescimento do PIB real entre os últimos trimestres de 2008 e 2009 ultrapassou
10%. As medidas de recuperação económica da China foram iniciadas e dirigidas pelo
governo central, tanto directamente como pela in uência que ele exerce sobre as
administrações bancárias, de tal modo que o poder de Estado saiu fortalecido.
Segundo Josh Felman, do departamento de estudos asiáticos do Fundo Monetário
Internacional, no início de 2008 toda a contribuição do investimento para o
crescimento económico chinês proviera de empresas não estatais, na maior parte
decorrentes do sector privado, enquanto a partir de Dezembro de 2008 e no primeiro
semestre de 2009 mais de metade proveio de empresas estatais. A uma constatação
convergente chegou o Banco Mundial no China Quarterly Update de Junho de 2009,
avaliando que na primeira metade de 2009 o investimento chinês in uenciado pelo
governo foi 39% mais elevado do que um ano antes, enquanto o investimento
determinado pelo mercado aumentou apenas 13%, o que implicou que o investimento
in uenciado pelo governo, que fora responsável por cerca de 1/5 do aumento dos
investimentos totais em 2008, passara a ser responsável por cerca de 3/5 em 2009. No
plano do consumo particular a ampliação da procura foi conduzida pela intervenção
económica do Estado, e no plano empresarial as di culdades que a crise nanceira
suscitou a muitas rmas privadas facilitaram a sua aquisição por empresas estatais.
Num paradoxo que decerto os neoliberais não esperariam, na China os mecanismos do
mercado serviram para reforçar o capitalismo de Estado.

A intervenção estatal na Índia e no Brasil

Uma evolução comparável à da China ocorreu em outros países emergentes. Entre as 30


maiores companhias cotadas em bolsas, 9 têm a sede em países emergentes, onde
contam o Estado como accionista principal. Mas são sobretudo os BRICs que aqui me
interessam. Tanto a Índia como a Rússia de Valdimir Putin podem classi car-se como
capitalismos burocráticos, muito afastados dos ditames do neoliberalismo, e nestes
dois países o Estado detém a maior posição no sistema bancário, que não havia sido
objecto de medidas liberalizadoras. Na Rússia, a crer no economista Andrei Vernikov,
em 2010 os bancos sob controlo estatal detêm 54% dos activos do sector. Aliás, as duas
únicas rmas bancárias russas de dimensões consideráveis são controladas pelo
Estado, estando o resto do sector disperso por rmas menores. Na Índia os bancos
estatais aumentaram para 74% a sua participação nos empréstimos totais, excluindo os
praticados pelos bancos rurais regionais. Entretanto, no Brasil, em nais de 2009 os
três grandes bancos controlados pelo Estado detinham 42% dos activos do sector
nanceiro e eram responsáveis por 37,6% do crédito total, uma percentagem que se
tem ampliado. De Setembro de 2008 até Janeiro de 2010 o crédito oriundo dos bancos
privados aumentou menos de 10%, enquanto o dos bancos públicos aumentou 50%.
Especialmente signi cativo é o facto de o BNDES, um banco de desenvolvimento estatal
brasileiro destinado a nanciamentos a longo prazo e com um balanço superior ao do
Banco Mundial, prever no último trimestre de 2009 que os seus empréstimos
aumentariam mais de 40% até ao nal do ano, chegando ao dobro dos adiantados em
2007. O crédito anual concedido pelo BNDES é agora equivalente a 4,5% do PIB, e
calcula-se que em 2010 ele nanciará 40% dos investimentos totais do Brasil na
indústria e nas infra-estruturas. Os quatro países emergentes menos afectados pela
recessão, incluindo o país de quem depende hoje o crescimento económico mundial e
dois países que têm contribuído seriamente para este crescimento, oferecem um
desmentido dos postulados neoliberais. Mas ainda aqui se faz notar o decoupling de que
os comentaristas económicos falam, o desatrelar dos países ricos e dos principais
países emergentes, seguindo rumos divergentes.

A privatização do Estado na União Europeia e nos Estados Unidos

O decoupling faz-se notar porque nos Estados Unidos e na União Europeia o aumento
da intervenção económica estatal não tem ocasionado qualquer hegemonia do Estado
na economia. Bem pelo contrário, são os governos que estão ao serviço das empresas e
os subsídios não levaram a nacionalizações. Um exemplo agrante é o governo norte-
americano, que passou a deter 61% das acções da General Motors mas que, evitada a
falência da empresa, prevê começar a vendê-las no nal de 2010. E como os muitos
milhares de milhões de dólares canalizados para o American International Group pelo
governo norte-americano, que passou assim a deter 80% das acções, permitiram que
esta seguradora regressasse à prosperidade, os seus administradores anunciaram em
Agosto de 2010 que se preparavam para restabelecer a separação entre a rma e o
governo.

«Os governos podem ter salvo os bancos no Outono de


2008», observou The Economist de 29 de Maio de 2010,
«mas eles contam com os bancos para colocar a sua dívida
no mercado e mesmo para comprá-la». Nunca os governos
recorreram tanto ao crédito desde o nal da segunda guerra
mundial. Economistas do Fundo Monetário Internacional calcularam, em meados de
2009, que a dívida pública nos dez países mais ricos, que havia correspondido a 78% do
PIB em 2007, subiria para 106% em 2010 e para 114% em 2014. Ora, o acréscimo da
dívida pública equivale a uma privatização do Estado; e assim, numa época em que os
governos aumentam os subsídios às empresas em risco e ao mesmo tempo se recusam a
nacionalizá-las, o avolumar da dívida pública con rma o domínio das empresas,
enquanto órgãos soberanos informais, sobre os governos e as instituições estatais. É
certo que uma subida demasiado pronunciada da dívida pública poderá pressionar os
governos a aumentarem a in ação, a qual implica uma redução real dos seus
compromissos, em detrimento dos capitalistas credores. Mas este perigo está hoje
distante nos países ricos. Entretanto — e aqui se observa outra faceta do decoupling —
a dívida pública dos países emergentes membros do G-20 equivalera a 38% do PIB em
2007, segundo um estudo do Fundo Monetário Internacional, que prevê que em 2014
ela terá descido para 35%.

O aumento da dívida pública nos Estados Unidos e na União Europeia tem sido
acompanhado pelo aumento do dé ce governamental, destinado a contrariar o declínio
do consumo, com o consequente acréscimo da poupança. E ao mesmo tempo que o
recurso aos estímulos contracíclicos leva os governos a aumentar o dé ce, a diminuição
do rendimento dos impostos, motivada pelo abrandamento da actividade económica,
deixa os governos depauperados e mais ainda os pressiona a agravar o dé ce. Nos
Estados Unidos o dé ce orçamental federal correspondeu a 1% do PIB no ano scal de
2007-2008, mas em meados de 2009 previa-se que no ano scal de 2008-2009
atingisse 12% ou 13% do PIB. Na verdade foi inferior, limitando-se a 10%, mas mesmo
assim foi o maior desde o nal da segunda guerra mundial. E como a economia norte-
americana continua estagnada e se admite a necessidade de recorrer a novos estímulos
económicos, a gura-se possível o aumento do dé ce governamental, ainda que dé ces
persistentes possam elevar as taxas de juro, com efeitos recessivos.

A oração fúnebre pronunciada pelo Fundo Monetário Internacional

Importa distinguir se o dé ce é sustentado por credores nacionais ou por capitais


voláteis estrangeiros. Nos Estados Unidos o dé ce federal detido pelo público
correspondia no nal de 2009 a cerca de 40% do PIB; e no Japão, onde a poupança é
muito elevada, no nal de 2008, 94% dos títulos do governo eram detidos
internamente. Em países como a Grécia, Portugal e a Espanha, porém, que sofrem neste
momento sérias di culdades, dívidas públicas muito elevadas são em grande parte
dependentes do crédito externo, o que pode levar à internacionalização de movimentos
de pânico e a retiradas bruscas de capital ou, pelo menos, a uma acentuada retracção.
Ora, em Fevereiro de 2010 o Fundo Monetário Internacional publicou um estudo onde
se admitia a necessidade de alguns países instaurarem medidas de controlo dos capitais
para evitar um in uxo excessivo. Os autores desse artigo chegaram à conclusão de que,
durante a recente crise nanceira, o PIB descera menos drasticamente nos países que
tinham já instaladas medidas de controlo do in uxo de capitais externos. No passado os
economistas do Fundo costumavam aconselhar os países ameaçados por in uxos de
capitais a apreciar a sua moeda, malgrado as consequências negativas para as
exportações do país; em alternativa, recomendavam uma diminuição das taxas de juro,
para tornar o país menos atractivo para os capitais estrangeiros, o que, no entanto,
podia levar ao sobreaquecimento da economia. E o Fundo Monetário Internacional
reincidiu nas inovações em Julho de 2010, aconselhando a adopção de políticas que
conjuguem as economias scais com um certo laxismo monetário.

Aquela revisão de um dos elementos básicos da liberdade internacional dos mercados


nanceiros e este repúdio do dogma monetarista, ambos aspectos de que o Fundo foi
durante tantos anos um zelador severo, equivalem a uma oração fúnebre perante o
cadáver do neoliberalismo.

Nota

[1] Chama-se BRICs ao conjunto formado pelo Brasil, Rússia, Índia e China. Ver a este
respeito o segundo artigo desta série.

Esta série inclui os seguintes artigos


1) O declínio dos Estados Unidos
2) A nova hegemonia
3) A China em primeiro plano
4) O problema da produtividade
5) Transnacionalização e espaços nacionais
6) A crise do neoliberalismo
7) Uma crise de regulação
8) A crise de regulação na zona do euro