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Círculos

 Marxistas  –  Sessão  XIV  

     
 

Herbert   Marcuse   nasceu   em   Berlim   1898.   Foi   aluno   de   Heidegger.  


Membro   exilado   do   antigo   Instituto   de   Pesquisa   Sociais   em  
Frankfurt,  que  mais  tarde,  por  força  da  Segunda  Guerra  Mundial,  se  
desloca  para  os  Estados  Unidos,  tendo  dado  lugar  àquela  que  hoje  
chamamos  de  Escola  Crítica  de  Frankfurt.  

 
Herbert  Marcuse  
Ensaio  de  1965  

Tolerância  Repressiva  

Este ensaio examina a ideia da tolerância na nossa sociedade industrial avançada.


A conclusão é a de que a realização do objectivo da tolerância exigiria intolerância
para com as orientações políticas, atitudes e opiniões dominantes, e a extensão da
tolerância perante as orientações políticas, as atitudes e opiniões colocadas fora
da lei ou suprimidas. Por outras palavras, a tolerância aparece novamente hoje
como era originalmente, pelo início da era moderna – um objetivo parcial, uma
prática e uma noção subversiva e libertadora. Por outro lado, o que é hoje
proclamado e praticado como tolerância, é, em muitas das suas manifestações
mais eficazes, na verdade, um serviço à causa da opressão.

O autor tem plena consciência de que, no presente, não existe nenhum


poder, nenhuma autoridade ou nenhum governo que traduziria para a prática a
tolerância libertadora, mas acredita que é a tarefa e dever do intelectual identificar
e salvaguardar as possibilidades históricas que parecem que se tornaram
possibilidades utópicas – que é sua tarefa para quebrar a laje de opressão para
abrir o espaço mental à compreensão e ao reconhecimento do que a sociedade que
é e faz.

A tolerância é um fim em si. A eliminação da violência, e a redução da


repressão conforme necessário para a proteção do homem e dos animais da
crueldade e agressão são condições prévias para a criação da sociedade
humana. Tal sociedade ainda não existe; os progressos nesse sentido estão, talvez
hoje mais do que nunca, contidos pela violência e repressão numa escala
global. Assim como com os impedimentos contra a guerra nuclear, com a ação
policial contra a subversão, com a assistência técnica na luta contra o
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imperialismo e do comunismo, com os métodos de pacificação nos genocídios neo-


coloniais, a violência e a supressão são promulgadas, praticadas e defendidas por
governos democráticos e autoritários de igual modo, e a população sujeita a esses
governos são educadas a fim de apoiar tais práticas como necessário para manter
o status quo. A tolerância estende orientações a políticas, condições e modos de
comportamento que não devem ser tolerados, porque impedem, se não destroem,
as hipóteses de criação de uma existência livre do medo e da miséria.

Este tipo de tolerância fortalece a tirania da maioria contra a qual


protestaram os liberais autênticos. O lugar1 político da tolerância
mudou: enquanto é retirada da oposição, de forma mais ou menos tranquila e
constitucionalmente, é feita conduta obrigatória em relação às políticas
estabelecidas. Passa-se a tolerância de um estado ativo a um estado passivo, de
prática a prática não-prática: um laissez faire em favor das autoridades
constituídas. São as pessoas que toleram o governo, que por sua vez tolera
oposição no âmbito determinado pelas autoridades constituídas.

A tolerância para com o que é radicalmente mau aparece agora como bom
porque serve a coesão do todo no caminho para a riqueza ou mais abundância. A
tolerância perante a estupidificação sistemática2 das crianças e adultos, de igual
modo, pela publicidade e propaganda; a libertação de impulsos destrutivos na
condução violenta; o recrutamento e o treino de forças especiais; a tolerância
impotente e benevolente perante a fraude desenfreada sobre as transações
comerciais; os resíduos e obsoletização planeada da atividade normal, não são
distorções ou aberrações, são a essência de um sistema que promove a tolerância
como um meio para perpetuar a luta pela existência e a supressão de
alternativas. As autoridades da educação, da moral e da psicologia são ferozes
contra o aumento da delinquência juvenil; são menos vociferadores contra a
apresentação orgulhosa, em palavras, de facto ou por imagens, de mísseis cada
vez mais poderosos, foguetes e bombas – a delinquência de maturidade de uma
civilização inteira.

De acordo com a proposição dialética é o todo que determina a verdade – não no


sentido de que o conjunto é anterior ou maior do que as suas partes, mas no
sentido de que a sua estrutura e função determinam todas as condições e relações
                                                                                                                       
1
 No  original  locus.  
2
 No  original  “systematic  moronization”,  de  “moron”.    

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específicos. Então, dentro de uma sociedade repressiva, mesmo os movimentos


progressivos ameaçam tornar-se no seu contrário na medida em que eles aceitam
as regras do jogo. Para pegar num caso muito controverso: o exercício dos direitos
políticos (tais como votar, escrever cartas à imprensa, aos senadores, etc.,
manifestações de protesto com uma renúncia priori de contra-violência) numa
sociedade de administração total serve para fortalecer essa administração
testemunhando a existência de liberdades democráticas que, na realidade,
mudaram o seu conteúdo e perderam a sua eficácia. Neste caso, a liberdade (de
opinião, de assembleia, de discurso) torna-se num instrumento para absolver a
servidão. E, no entanto (e só aqui a proposição dialética mostra a sua plena
intenção) a existência e a prática dessas liberdades permanecem uma pré-
condição para o restabelecimento da sua função original de oposição, uma vez que
o esforço para superar as suas (muitas vezes autoimpostas) limitações se
intensifica. Geralmente, a função e o valor da tolerância dependem da igualdade
predominante na sociedade em que a tolerância é praticada.

A tolerância parece sujeita aos critérios dominantes: o seu âmbito e limites


não podem ser definidos em termos da respectiva sociedade. Por outras palavras,
a tolerância é um fim em si mesma somente quando é verdadeiramente universal,
praticada pelos governantes como pelos governados, pelos senhores e os
camponeses, pelos xerifes como suas vítimas. E tal tolerância universal só é
possível quando nenhum inimigo real ou alegado exija, em nome do interesse
nacional, a educação e o treino das pessoas na violência militar e na destruição.

Enquanto estas condições não prevalecerem, as condições para a tolerância


estão ‘minadas’3: são determinadas e definidas pela desigualdade
institucionalizada (que é certamente compatível com a igualdade constitucional),
i.e., pela estrutura de classes da sociedade. Em tal sociedade, a tolerância está de
facto limitada pelo duplo plano da violência ou repressão legalizado (polícia, forças
armadas, guardas de todos os tipos) e a posição privilegiada detida pelos os
interesses predominantes e os seus “conhecimentos”.

Estas limitações de fundo da tolerância são geralmente anteriores às limitações


explícitas e judiciais, conforme definidas pelos tribunais, pelos costumes, pelos
governos, etc. (Por exemplo, “claro e presente perigo", ameaça para a segurança

                                                                                                                       
3
 ‘loaded’.  

 
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nacional, heresia). Dentro do enquadramento de tal estrutura social, a tolerância


pode ser seguramente praticada e proclamada. É-o em dois tipos:

a tolerância passiva das atitudes e ideias firmemente estabelecidas, mesmo


que os seus efeitos nocivos sobre o homem e a natureza sejam evidentes, e

a tolerância ativa, oficial, concedida tanto à direita e como à esquerda, aos


movimentos de agressão como aos movimentos de paz, ao partido do ódio
como ao da humanidade. Denomino esta tolerância não-parcial de
"abstrata" ou "pura" porquanto se abstém de tomar lados – mas ao fazê-lo
protege, na verdade, a já estabelecida máquina de discriminação.

A tolerância que aumentou o alcance e o conteúdo da liberdade foi sempre parcial


– intolerante para com os principais representantes do status quo da repressão. A
questão era apenas limitada ao grau e extensão da intolerância. Na sociedade
liberal firmemente estabelecida da Inglaterra e dos Estados Unidos, as liberdades
de discurso e de reunião foram concedidas até aos inimigos radicais da sociedade,
porquanto não passassem da palavra ao facto, do discurso ao ato.

Confiando nas limitações básicas e eficazes impostas pela sua estrutura de


classe, a sociedade parecia a praticar a tolerância geral. Mas a teoria liberal
colocou uma condição importante à tolerância: era para ser "apenas aplicada aos
seres humanos na maturidade das suas faculdades”. John Stuart Mill não se
refere apenas a crianças e menores; ele elabora: "A liberdade, enquanto princípio,
não se aplica a qualquer estado de coisas que se encontre anterior ao momento
em que a humanidade se tenha tornado capaz de se aperfeiçoar pela discussão
livre e igualitária". Antes desse momento, os homens podem ainda ser uns
bárbaros, e "o despotismo é um modo de governo legítimo para lidar com os
bárbaros, entendido que o seu fim é o avanço, e que os meios justificados por ele
realmente efetivam esse fim".

Estas palavras de Mill, frequentemente citadas, têm uma implicação menos


familiar quanto ao que o seu significado depende: da relação interna entre
liberdade e verdade. Há um sentido no qual a verdade é o fim da liberdade, e a
liberdade deve ser definida e limitada pela verdade. Mas em que sentido pode ser a
liberdade motivação de verdade?4 A liberdade é autodeterminação, autonomia – e

                                                                                                                       
4
 Now  in  what  sense  can  liberty  be  for  the  sake  of  truth?  

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isso é quase uma tautologia, mas uma tautologia que resulta de uma série de
juízos sintéticos. Isso especifica a capacidade de cada um determinar a sua
própria vida: ser capaz de determinar o que a fazer e o que não fazer, o que há
para sofrer e o que não.

Mas o objecto dessa autonomia nunca é o indivíduo privado, contingente como ele
é na realidade ou acaba por ser; é antes o indivíduo enquanto ser humano que é
capaz de ser livre com os outros. E o problema de tornar possível tal harmonia
entre a liberdade de cada indivíduo e de outro não é o de encontrar um
compromisso entre concorrentes, ou entre a liberdade e a lei, entre o interesse
geral e o do indivíduo, estado social público ou privado numa sociedade
estabelecida, mas na criação de uma sociedade na qual o homem não esteja
escravizado por instituições que prejudicam a autodeterminação desde o
início. Por outras palavras, a liberdade está ainda por ser criada, mesmo na mais
livre das sociedades existentes. E a direção pela qual deve ser procurada, e as
mudanças institucionais e culturais que podem ajudar a alcançar este objetivo
são, pelo menos nas civilizações avançadas, compreensíveis , ou seja, podem ser
identificadas e projetadas, com base na experiência, pela razão humana.

Na interação entre teoria e prática, verdadeiras e falsas soluções distinguem-se –


nunca com a evidência da necessidade, nunca enquanto positivas, apenas com a
certeza de uma chance fundamentada e razoável, e com a força persuasora do
negativo. [...] Mas a experiência e compreensão da sociedade existente pode muito
bem permitir a identificação do que não é condutor a uma sociedade livre e
racional, do que dificulta e distorce as possibilidades da sua criação. Liberdade é
libertação, um processo histórico específico na teoria e na prática, e como tal tem
os seus sucesso e os seus erros, suas verdades e falsidades.

A incerteza quanto às possibilidades desta distinção não anula a sua


objetividade histórica, mas precisa de liberdade de pensamento e de expressão
como condições prévias para encontrar o caminho para a liberdade – necessita
de tolerância. Mas essa tolerância não pode ser indiscriminada e idêntica no que
diz respeito ao conteúdo da expressão, nem da palavra ou da ação; não pode
proteger palavras falsas e ações erradas que claramente contradizem e contrariam
as possibilidades de libertação. Essa tolerância indiscriminada é justificada em
debates inofensivos, em conversa, em disputas académicas; é essencial na
investigação científica, na religião íntima. Mas a sociedade não pode ser

 
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indiscriminatória onde a pacificação da existência, onde a sua liberdade e


felicidade estão em jogo: aqui, certas coisas não pode ser ditas, certas ideias não
podem ser expressas, certas orientações políticas não pode ser sugeridas, certos
comportamentos não pode ser permitidos sem fazer da tolerância um instrumento
para a manutenção da submissão abjeta.

O perigo da "tolerância destrutiva" (Baudelaire), da "neutralidade


benevolente" para com a arte, têm sido reconhecidos: o mercado, que absorve
igualmente bem (embora muitas vezes com súbitas flutuações) arte, anti-arte e
não-arte, todos os possíveis estilos, escolas e formas em conflito, em conflito,
fornece um "receptáculo complacente, um amigável abismo" (Edgar Wind, Arte e
Anarquia - Nova York: Knopf 1964, p. 101) no qual o impacto radical da arte, o
protesto da arte contra a realidade estabelecida, é engolido. No entanto, a censura
da arte e da literatura é regressiva em todas as circunstâncias. O trabalho real
(authentic oeuvre) não é e não pode ser um pilar da opressão, e a pseudo-arte (que
pode ser um tal pilar) não é arte. A arte aparece contra a história, resistindo à
história que tem sido a história da opressão, porque arte submete a realidade a
leis que não aquelas estabelecidas: às leis da Forma que criam uma realidade
diferente – a negação daquela estabelecida mesmo quando a arte representa a
realidade estabelecida.

Mas na sua luta com história, da arte submete-se à história: a história entra na
definição da arte e entra na distinção entre arte e pseudo-arte. Acontece, então,
que o que antes era arte se torna pseudo-arte. Formas anteriores, estilos e
qualidades, modos prévios de protesto e rejeição não podem recapturados por, ou
contra, uma sociedade diferente. Há casos em que uma obra genuína carrega uma
mensagem política regressiva – Dostoievski é um exemplo relevante. Mas, em
seguida, a mensagem é cancelada pelo trabalho em si: o conteúdo político
regressivo é absorvido, aufgehohen na forma de arte; no trabalho como na
literatura.

(....) [A] lição parece clara. A intolerância atrasou o progresso e prolongou o tempo
de execução e tortura de inocentes durante séculos. Isto conclui o caso da
tolerância indiscriminada, "pura"? Há condições históricas em que tal tolerância
impede a liberação e multiplica as vítimas que são sacrificadas para o status
quo? Pode a garantia indiscriminada de direitos e liberdades políticas ser

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repressiva? Pode tal tolerância servir para conter uma mudança social
qualitativa?

Irei discutir esta questão apenas com referência aos movimentos políticos,
atitudes, escolas de pensamento, filosofias que são "políticas" no sentido mais
amplo – concernindo a sociedade como um todo, obviamente transcendendo o
âmbito do particular. Além disso, proponho uma mudança no foco da discussão:
focar-se-á não apenas, ou não principalmente, na tolerância para com o
extremismos radicais, minorias, movimentos subversivos, etc., mas
preferencialmente da tolerância para com as maiorias, em relação à opinião oficial
e pública, aos protetores institucionalizados de liberdade. Neste caso, a discussão
só pode ter como seu quadro de referência uma sociedade democrática, na qual as
pessoas, enquanto indivíduos e como membros de uma organização política e
outras organizações, estão envolvidas na tarefa de fazer, manter e mudar as
políticas. Num sistema autoritário, as pessoas não toleram – sofrem políticas
estabelecidas.

Sob um sistema de direitos e liberdades civis constitucionalmente garantidos e


(geralmente sem muitas ou muito notáveis exceções) praticados, a oposição e a
dissidência são toleradas, a menos que atinjam a violência e/ou levem à exortação
para a, e a organização de, subversão violenta. A assunção subjacente é a de que a
sociedade estabelecida é livre, e que qualquer melhoria, mesmo uma mudança na
estrutura social e nos valores sociais, deve vir no curso normal dos
acontecimentos, preparada, definida, e comprovada em discussão livre e plana
igualdade, no mercado aberto de ideias e pontos de vista. [Relembrando Stuart
Mill e a crítica que tinha feito] (...) É teoricamente possível construir um estado em
que uma multidão com diferentes pressões, interesses e autoridades se equilibram
mutuamente, resultando num verdadeiramente geral e racional. Mas tal
construção adapta-se pobremente a uma sociedade em que os poderes são e
permanecem desiguais e até aumentam o seu peso desigual, quando cada um
segue seu próprio caminho. E ainda pior se enquadra quando a variedade de
pressões se unifica e condensa num conjunto dominante, integrando os poderes
particulares opostos em virtude de um padrão de vida que está a aumentar, e uma
concentração crescente de poder. Em seguida, o trabalhador, cujo interesse real
está em conflito com a empresa, o consumidor comum, cujo interesse real está em
conflito com o produtor, o intelectual, cuja vocação conflitua com a do seu

 
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empregador, encontram-se submetidos a um sistema contra o qual são impotentes


e são considerados irrazoáveis.

A ideia de alternativas possíveis evapora para uma dimensão


completamente utópica na qual se sente em casa, porquanto uma sociedade livre
é, de facto, irrealisticamente e indefinivelmente diferente das sociedades
existentes. Sob estas circunstâncias, qualquer melhoria que possa ocorrer "no
normal curso dos eventos", sem subversão é provável que a melhoria na direção
seja determinada pelos interesses particulares que controlam o todo.

Pelas mesma razão, aquelas minorias que se esforçam para conseguir uma
mudança do conjunto em si, sob óptimas condições que raramente prevalecem,
vão ser livres para deliberar e discutir, para discursar e reunir – e vão permanecer
inofensivas e indefesas perante a maioria dominante, que se manifestam contra a
mudança social qualitativa. Esta maioria está firmemente fundamentada na
crescente satisfação das necessidades, e na coordenação tecnológica e mental, o
que testemunha o desamparo geral de grupos radicais num sistema social que
funciona bem.

Na democracia afluente, a discussão afluente prevalece, e dentro do


enquadramento estabelecido, é tolerante em larga medida. Todos os pontos de
vista podem ser ouvidos: o Comunista e o Fascista, de Direita e de Esquerda, o do
branco e o do preto, as cruzadas pelo armamento e pelo desarmamento. Mais
ainda, em intermináveis debates nos meios de comunicação, a opinião estúpida é
tratada com o mesmo respeito que a inteligente, o mal informado pode falar tanto
quanto o desinformado, e a propaganda cavalga a par da educação, a verdade a
par da falsidade.

Esta tolerância pura do que faz e não faz sentido é justificada pelo
argumento democrático de que ninguém, nenhum grupo ou indivíduo, está na
posse da verdade e é capaz de definir o que é certo e o que é errado, o bom e o
mau. Portanto, todas as opiniões em disputa devem ser submetidas "às pessoas"
para que deliberem e escolham. Mas eu já sugeri que argumento democrático
implica uma condição necessária, nomeadamente, que as pessoas devem ser
capazes de deliberar e escolher com base no conhecimento, que devem ter acesso
a informação autêntica, e, nesta base, a sua avaliação deve ser o resultado de um
pensamento autónomo.

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No período contemporâneo, o argumento democrático para a tolerância


abstrata tende a ser invalidado pela invalidação do processo democrático. (...)
[C]om a concentração de poder económico e político e com a integração de opostos
numa sociedade que utiliza a tecnologia como um instrumento de dominação, a
dissensão efetiva parece estar bloqueada onde deveria emergir livremente; na
formação de opinião, na informação e comunicação, no discurso e reunião. Sob o
governo monopolista dos media – eles próprios meros instrumentos do poder
económico e político – há uma mentalidade que é criada, para a qual o certo e o
errado, o verdadeiro e o falso são predefinidos sempre que afetem os interesses
vitais da sociedade. Isto é anterior a qualquer expressão e comunicação, uma
questão de semântica: o bloqueio da dissensão efetiva, do reconhecimento daquilo
que não é da ordem estabelecida que começa na linguagem que é publicado e
administrado. O significado das palavras é rigidamente estabilizado. A persuasão
racional, a persuasão para o oposto não é senão bloqueada. As avenidas de
entrada estão fechadas para o significado das palavras e ideias que não sejam as
as estabelecidas – estabelecidas pela publicidade dos poderes vigentes, e
comprovada nas suas práticas. Outras palavras podem ser proferidas e ouvidas,
outras ideias podem ser expressas, mas, na escala maciça da maioria
conservadora (fora de tais enclaves como a "intelligentsia"), são imediatamente
"avaliadas" (i.e. automaticamente entendidas) em termos de linguagem pública –
uma língua que determina a priori a direcção em que o processo de pensamento
avança. Assim, o processo de reflexão termina onde ele começou: nas condições e
relações dadas. Auto-legitimado, o argumento da discussão rejeita a contradição,
porque a antítese é redefinida em termos da tese. Por exemplo, tese: nós
trabalhamos para a paz; antítese: nós preparamo-nos para a guerra (ou até: nós
fazemos guerra); unificação de opostos; a preparação para a guerra é trabalhar
para a paz. A paz é redefinida como incluindo necessariamente, na situação
vigente, a preparação para a guerra (ou mesmo a guerra) e é nessa forma
Orwelliana que o significado da palavra "paz" se estabiliza.

Assim, o vocabulário básico da língua Orwelliana opera como categorias a


priori da compreensão: prefiguram todo o conteúdo. Estas condições invalidam a
lógica da tolerância que envolve o desenvolvimento racional do significado e que
exclui o fechamento dos significados. Consequentemente, a persuasão através da
discussão e a equitativa apresentação de opostos (mesmo onde são, na verdade,
iguais) facilmente perdem a sua energia libertadora enquanto factores de

 
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compreensão e aprendizagem; é muito mais provável que fortaleçam a tese


estabelecida e que rejeitem as alternativas.

A imparcialidade do tratamento mais equitativo de pontos de vista em


concorrência ou em conflito é certamente um requisito básico para a tomada de
decisão no processo democrático – é um requisito igualmente básico para
identificar os limites da tolerância. Mas numa democracia com organização
totalitária, a objetividade pode cumprir uma função muito diferente,
nomeadamente, a promoção de uma atitude mental que tende a esbater as
diferenças entre verdadeiro e falso, informações e doutrinação, certo e errado. (De
facto, a decisão entre visões opostas foi feita antes da apresentação e a discussão
ser levada a cabo – feita, não por uma conspiração ou de um patrocinador ou
editor, e não por uma ditadura, mas antes por um "normal curso dos eventos",
que é, claro, o curso dos eventos administrados, e a mentalidade moldada por um
tal curso. Também, aqui, é o conjunto que determina a verdade. Em seguida, a
decisão faz-se sentir, sem qualquer violação aberta da objetividade, em coisas
como fazer um jornal (com a repartição de informações vitais em pedaços
dispersos entre materiais irrelevantes, itens irrelevantes, relegando algumas
notícias radicalmente negativas para um lugar obscuro), na justaposição de
anúncios chamativos com horrores inqualificáveis, na introdução e interrupção
das transmissões informativas com publicidade estridente. O resultado é
uma neutralização de opostos, uma neutralização, contudo, que ocorre nas
fundações firmes da limitação estrutural da tolerância e de acordo com uma
mentalidade preformada. Quando uma revista insere, lado a lado, um relatório
negativo e positivo sobre o FBI, esta cumpre sinceramente os requisitos da
objectividade: contudo, o mais provável é que ganhe a positiva, porque a imagem
positiva da instituição está profundamente gravada na mente das pessoas. Ou, se
um repórter transmite a tortura e assassinato de defensores dos direitos civis com
o mesmo tom não-emotivo que usa para descrever o mercado de ações ou tempo,
ou com a mesma enorme emoção com que fala nos seus anúncios, então tal
objetividade ela é fraudulenta – mais, ela ofende a humanidade e verdade, por ser
calma quando devia ser enfurecida, por renunciar à acusação quando a acusação
está nos próprios factos. A tolerância expressa em tal imparcialidade serve para
minimizar, ou até mesmo absolver, a intolerância e a opressão prevalecentes. Se a
objetividade tiver alguma coisa a ver com a verdade, e se a verdade é mais do que
uma questão de lógica e da ciência, então este tipo de objetividade é falsa, e este

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tipo de tolerância desumana. E se for necessário quebrar o universo estabelecido


da significância (e a prática incluída nesse universo), a fim de tornar possível ao
homem descobrir o que é verdadeiro e falso, essa imparcialidade enganosa terá
que ser abandonada.

As pessoas expostas a esta imparcialidade não são tábuas rasas, são


doutrinadas pelas condições sob as quais vivem e pensam e as quais não
transcendem. Para as habilitar a tornarem-se autónomas, a encontrarem por si
próprias o que é verdadeiro e o que é falso para o homem na sociedade existente,
teriam que ser libertadas da doutrina dominante (que já não é reconhecida como
doutrinação). Mas isto significa que a corrente teria de ser invertida: elas teriam
que obter informação desviada na direção oposta. Porque os factos nunca são
dados imediatamente e nunca acessíveis de forma imediata; são estabelecidos,
"mediados" por quem os fez; a verdade, “toda a verdade”, ultrapassa esses fatos e
requer a ruptura com sua aparência. Esta ruptura – pré-requisito e condição
necessária para toda a liberdade de pensamento e de expressão – não pode
ser alcançada dentro do enquadramento estabelecido da tolerância abstrata e da
falsa objetividade, porque são precisamente esses os fatores que pré-condicionam
a mente contra a ruptura.

As barreiras reais que a democracia totalitária ergue contra a eficácia da


dissensão qualitativa são fracas e bastante agradáveis em comparação com as
práticas de uma ditadura que proclama educar o povo na verdade. Com todas as
suas limitações e perversões, a tolerância democrática é, em todas as
circunstâncias, mais humana do que uma intolerância institucionalizada que
sacrifica os direitos e liberdades das vidas das gerações futuras. A questão é se
esta é a única alternativa. [...] Em qualquer caso, o contraste não está entre a
democracia em abstrato e ditadura em abstrato.

[...] Seguramente, não se pode esperar que nenhum governo encoraje a sua
própria subversão, mas numa democracia tal direito é confiado às pessoas (ou
seja, à maioria das pessoas). Isto significa que os caminhos não devem ser
bloqueados para que uma maioria subversiva se possa desenvolver, e se eles forem
bloqueados pela repressão organizada e doutrinação, a sua reabertura pode exigir
métodos aparentemente anti-democráticos. Estes incluiriam a eliminação da
tolerância de pensamento e reunião de grupos e movimentos que promovem
orientações políticas agressivas, armamento, chauvinismo, discriminação baseada

 
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na raça e religião, ou que se opõem à extensão dos serviços públicos, segurança


social, assistência médica, etc. Adicionalmente, a restauração da liberdade de
pensamento pode necessitar de restrições novas e rígidas nos ensinamentos e
práticas das instituições de ensino, que através dos seus métodos e conceitos
próprios, servem para enclausurar a mente no universo estabelecido do discurso e
comportamento – excluindo assim a priori uma avaliação racional das alternativas.

[...] Por quem pode ser feita, e por que padrões, a distinção política entre
verdadeiro e falso, entre progressivo e regressivo (para esta esfera, os dois pares
são equivalentes) e a sua validade ser justificada? Para começar, proponho que a
questão não pode ser respondida em termos da escolha entre a democracia e a
ditadura, segundo a qual, no passado, um indivíduo ou grupo, sem qualquer
controle efetivo de base, arroga para si o poder de decisão. Historicamente, mesmo
nas democracias mais democráticas, as decisões vitais e finais que afetam a
sociedade como um todo, têm sido tomadas, constitucionalmente ou de facto, por
um ou vários grupos sem o controle efetivo das próprias pessoas. A pergunta
irónica: quem educa os educadores (i.e. os líderes políticos) também se aplica à
democracia. A única alternativa autêntica e negação da ditadura (no que diz
respeito a esta questão) seria uma sociedade na qual "o povo" se tornasse em
indivíduos autónomos, livres das exigências repressivas de uma luta pela
existência no interesse da dominação, e, enquanto tais seres humanos, escolher
seu governo e determinar a sua vida.

[...] Por outras palavras, é possível para identificar em que direção as


políticas, opiniões, e movimentos existentes teriam que ser modificados para
melhorar as possibilidades de haver uma paz que não seja idêntica à guerra fria
ou a uma pequena guerra quente, e a uma satisfação das necessidades que não se
alimente da pobreza, da opressão, e da exploração. Consequentemente, é também
possível identificar políticas, opiniões e movimentos que promovam esta
possibilidade, e os que fazem o seu contrário. A supressão dos regressivos é um
pré-requisito para o fortalecimento dos progressivos. A questão de quem é
qualificado para fazer todas estas distinções, definições, identificações da
sociedade como um todo tem resposta agora lógica, nomeadamente, todos os que
estão na "maturidade das suas faculdades" como seres humanos, todos os que
aprenderam a pensar racional e autonomamente. [...] Numa sociedade que entrou
na fase de administração e doutrinação totais, este seria, de facto, um número
pequeno, e não necessariamente o dos representantes eleitos pelo povo. O

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problema não é o de uma ditadura educacional, mas o de quebrar a tirania da


opinião pública e dos seus criadores na sociedade fechada.

A tolerância libertadora, então, significaria intolerância face a movimentos


de Direita e tolerância face a movimentos da Esquerda. [...] Em diferentes
circunstâncias passadas, discursos dos líderes Fascistas e Nazis foram o prólogo
imediato aos massacres. A distância tornou-se muito curta entre a propaganda e a
ação, entre a organização e mobilização das pessoas. Mas a disseminação das
palavras poderia ter sido contida antes que fosse tarde demais: se a tolerância
democrática tivesse sido retirada quando os futuros líderes começaram a sua
campanha, a humanidade teria tido a possibilidade de evitar Auschwitz e uma
Guerra Mundial. [...]

As várias opiniões e "filosofias" já não podem competir pacificamente pela


aderência e persuasão em bases racionais: o "mercado das ideias" é organizado e
delimitado por aqueles que determinam o interesse nacional e do indivíduo. Nesta
sociedade, para a qual os ideólogos proclamaram o "fim da ideologia", a falsa
consciência tornou-se a consciência geral – desde o governo até aos seus últimos
objectos. As minorias pequenas e fracas5 que lutam contra a falsa consciência e
seus beneficiários devem ser ajudadas: a sua manutenção é mais importante do
que a preservação dos direitos e liberdades concedidos aos poderes
constitucionais, e dos quais abusam, para oprimir essas minorias.

[...] Mais do que nunca, é verdadeira a proposição de que o progresso da


liberdade exige o progresso na consciência da liberdade. Onde a mente foi
transformada em sujeito-objeto da política e dos políticos, a autonomia intelectual,
o domínio do pensamento "puro", tornou-se uma questão de educação política (ou
antes: de contra-educação).

                                                                                                                       
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 The  small  and  powerless  minorities.  

 
Bloco  de  Esquerda  -­‐  Porto   13