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Prática de Ensino

Material Teórico
Educação e Direitos Humanos

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Cruzeiro do Sul Virtual
Educação e Direitos Humanos

• Introdução
• Desenvolvimento dos direitos civis, políticos e sociais
• O desenvolvimento dos direitos no Brasil
• Direitos Humanos e sociedade
• A prática dos direitos humanos no ambiente escolar
• Considerações finais

··O objetivo desta unidade é discutir o tema Educação e direitos humanos.


A preocupação central é apresentar a você, educando, de maneira introdutória,
como a questão dos direitos humanos foi se desenvolvendo ao longo dos anos.
Nesse sentido, também, é nossa preocupação desenvolver a reflexão sobre a
importância do ensino de direitos humanos na escola.

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Unidade: Educação e Direitos Humanos

Contextualização

Mesmo sem saber, todos os dias, em nosso cotidiano, esbarramos em questões ligadas ao
exercício dos direitos humanos, seja na fila de um banco, nas páginas de um jornal ou nas
relações travadas na universidade. Contudo, nem sempre, essas questões são tratadas com a
devida seriedade, muitas vezes, não temos noção do quanto são importantes.
É comum, em nossa sociedade, ouvirmos da boca de pessoas ditas “de bem” coisas
espantosas. Muitas delas infundadas e baseadas em frases de efeito como a que diz que:
“em nosso país, não existem direitos humanos para as vítimas, somente para os bandidos”.
Entretanto, essa é uma frase que encobre todos os desmandos ocorridos em nossa sociedade,
apresentando apenas um tipo de vítima.
Além de perigoso, esse tipo de comentário é altamente pernicioso para a reflexão sobre
os direitos humanos, dado que apresenta um pensamento reduzido, que aponta quem são
os bandidos e quem são os mocinhos de maneira fechada, sem possibilidades de reflexão de
outras alternativas.
Invariavelmente, encontramos esse tipo de argumento circulando livremente, como se
estivéssemos falando de um assunto banal ou de uma partida de futebol. Um dado importante é
verificar que ele, também, provém do ambiente escolar, sem ser trabalhado ou problematizado
com via a ser superado. Na escola, precisamos não só refletir sobre essas questões, mas
também trabalhar na vontade de ir além, criando novas maneiras de lidar com a questão em
sala de aula.

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Introdução

Vivemos em uma época em que a tecnologia, as relações de trabalho e as questões


da diversidade são realidades irrefutáveis, pois já fazem parte do nosso cotidiano. Essas
questões vêm ganhando foco cada vez mais nítido no conjunto de direitos individuais e
coletivos que conhecemos pelo nome de direitos humanos. Diante disso, a reflexão sobre
esse tema se faz necessária, também, no ambiente escolar; afinal, a escola é a instituição
elementar no processo de sensibilização para o exercício da cidadania. Com isso, pensar
essa questão é, em última instância, refletir justamente sobre a problemática da justiça e do
exercício da igualdade.

A luta que se faz até hoje por mais direitos se amplia a cada dia, devido ao alargamento das
perspectivas da diversidade humana. Questões que há cinquenta anos se mostravam adequadas
ao exercício democrático, hoje já são relativizadas, pois são insuficientes para atender às
demandas atuais. O próprio termo igualdade deve ser problematizado, dado que hoje temos
a devida noção de que não somos iguais concretamente, mas necessitamos de códigos legais
que nos iguale juridicamente, protegendo-nos das ações de indivíduos ou grupos contrários
aos nossos interesses.

Essa dinâmica está dentro de nossas escolas, atingindo as políticas públicas voltadas para
a Educação como um todo. Assim sendo, refletir sobre elas é um meio para a construção
de uma realidade mais interessante. Nesse sentido, é conveniente verificar como ocorreu o
desenvolvimento dos direitos humanos e qual é o seu legado para as nossas vidas.

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Unidade: Educação e Direitos Humanos

Desenvolvimento dos direitos civis, políticos e sociais

A grande maioria dos grupos humanos, ao longo da história, buscou criar códigos e normas
que orientassem a conduta dos indivíduos. Entretanto, esses códigos, muitas vezes, não
falados, mas entendidos, eram transmitidos oralmente por meio dos mitos e dos ensinamentos
morais. Eles só se transformaram em documentos que puderam ser não só transmitidos como
replicados com a invenção da escrita.
De maneira estrita, podemos apontar que o conjunto de leis mais antigo que se tem notícia
é conhecido como o Código de Hamurabi. Ele data de cerca de 5 mil anos.

Representação do “Código de Hamurabi”. Escrito em escrita cuneiforme, contava com leis, tais quais a lei do Talião, ou seja, o
princípio do “dente por dente, olho por olho”, também difundido na bíblia judaica (Torá) e na bíblia cristã (Velho Testamento).

Fonte: estudopratico.com.br

Após o Código de Hamurabi, somente séculos depois teríamos notícias de outro


compêndio de leis. Esse ficou conhecido como Leis de Clístenes, foi ele quem fundou as
bases da democracia grega, dando o direito de participação política aos cidadãos gregos.
A democracia enquanto forma de governo inexistia anteriormente. Após as Leis de
Clístenes, a democracia grega surge concretamente, tendo em conta que o cidadão para
participar das decisões deveria ser maior de 18 anos e ter cumprido o serviço militar, bem
como condições de sustento e não ser escravo ou mulher.

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Clístenes (565 a.C. – 492 a.C.) foi membro da aristocracia grega, mas lutou para que os
cidadãos gregos pudessem ter alguns direitos. É considerado um dos pais da democracia.

Fonte: Wikimedia Commons

Não obstante, tanto em um caso quanto no outro, essas leis estavam voltadas para
a proteção do Estado, não dos indivíduos. Isso quer dizer que elas voltavam-se para a
proteção do poder estabelecido, e não das pessoas. No primeiro (Código de Hamurabi),
estavam voltadas para a proteção do Estado; no segundo, centravam-se em defender as
instituições democráticas.

Vale ressaltar que, nessas sociedades, não existia o conceito de indivíduo como
entendemos hoje – como qualquer outro elemento do mundo social, ele foi criado ao
longo de séculos. Somente no período histórico conhecido por medieval é que podemos
ver o começo do esboço de leis voltadas para a proteção do indivíduo. Vejamos como isso
foi se desenvolvendo.

Do século XIII ao século XVIII, temos alguns códigos importantes. Esses compêndios de
medidas foram postos em prática no continente europeu, especificamente na Inglaterra, e
promoviam a proteção individual. Desses, destacam-se a Magna Carta (1215-1225), que
protegia os “homens livres”, e a Petição de Direitos (Petition of Rights) de 1628, a qual
buscava o reconhecimento de direitos dos súditos do rei.

Em 1689, entrou em vigor a Carta de direitos (Bill of Rights), que dava relevo à soberania
popular. O princípio dessa carta de leis centrava-se em estabelecer os poderes da monarquia
inglesa, convertendo-a em uma monarquia constitucional – é importante lembrar que essas leis
cabiam apenas à Inglaterra e aos seus habitantes.

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Unidade: Educação e Direitos Humanos

A Magna Carta possivelmente foi o código legal mais importante para que outros
conjuntos de medidas pudessem surgir nos países de língua inglesa.

Fonte: humanrights.com

Pela ação do parlamento inglês, a Petição de Direitos foi promulgada pelo rei Carlos I em 1628.

Fonte: humanrights.com

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Contudo, ainda no século XVIII, nas colônias inglesas na América do Norte, iniciava-se
um processo da maior importância para a ampliação dos direitos em um sentido mais geral.
Esse processo se configurou como a independência dessas colônias, colocando-as como uma
república federativa. Desse período, alguns documentos foram marcantes: a Declaração dos
Direitos da Virgínia (1776) e a Constituição de 1787. Foram feitas emendas na Constituição,
posteriormente, que visavam dar mais clareza às liberdades individuais e aos limites do Estado.
Um dado interessante é que, mesmo muito avançadas, essas leis distinguiam os seres humanos.
No geral, esses documentos defendiam que todos os cidadãos norte-americanos tinham o
direito de liberdade ao culto religioso, política, de reuniões pacíficas, de imprensa. Formavam,
assim, um conjunto de direitos que denominamos de direitos civis.

Voltando ao continente europeu, a outra experiência revolucionária gerou frutos para o


desenvolvimento dos direitos. A chamada Revolução Francesa se deflagrou em 1789 contra o
poder estabelecido do Absolutismo, doutrina monárquica que se estabelecia na concentração
de poderes nas mãos do soberano. A situação de opressão gerada pelo Estado absoluto pôs
em curso forças contrárias que, com base nas ideias oriundas do Iluminismo e no incentivo
da burguesia, causaram o evento que ficou conhecido como A queda da bastilha. Assim,
o clamor por liberdade, igualdade e fraternidade foi anunciado como direitos universais e o
lema entoado e defendido no documento aprovado pela Assembleia Nacional Constituinte, a
Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão (1789). Então, como no caso americano,
essa promulgação não incluía a todos, pois as mulheres não foram abarcadas.

Os documentos surgidos tanto da Independência Estadunidense e da Revolução Francesa


se transformaram em base para muitos outros códigos legais surgidos com a expansão dos
estados nacionais, como o Brasil. Desse modo, podemos dizer que esses eventos trouxeram
importantes contribuições para que pudessem se desenvolver direitos individuais.

Feminista, jornalista, historiadora e revolucionária, Olympe de Gouges (1748–1793)


foi executada na guilhotina por defender os direitos das mulheres.

Fonte: Alexandre Kucharski (1741–1819)/Wikimedia Commons

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Talvez, o mais importante legado desses documentos oriundos dos códigos ingleses, passando
pela Independência estadunidense e Revolução Francesa, sem dúvida, foi a Declaração
Universal dos Direitos Humanos (1948), que procurava apresentar um conjunto de direitos
essenciais a todos os seres humanos. Essa declaração, evidentemente, por conta da força da
soberania nacional de cada país, não tinha o caráter de ser assumida plenamente por todos
os países, mas servia como uma orientação – embora essa orientação desse ênfase ao fato de
que os direitos humanos seriam mais importantes do que os governos.
O que podemos reter dessa trajetória é que houve uma progressão dos direitos, mas caberia
fazer aqui distinções para que possamos melhor entendê-los no passado e assim também
nos situarmos melhor no presente. Nesse sentido, é necessário pontuar que cada época foi
marcada por reivindicações próprias.
Dessa forma, se no período medieval, na Inglaterra a partir do século XII, a questão
era buscar o reconhecimento dos indivíduos e suas liberdades, assim como a limitação do
poder monárquico; em um segundo momento, no outro lado do Atlântico, coube às colônias
americanas voltarem-se à independência e luta pelas liberdades individuais – o que foi seguido
pelos franceses durante a Revolução Francesa e que ampliava a proposição de direitos,
estendendo-os a todos os “homens”.
Como aponta T.H Marshall (1957), entre os séculos XII e XVIII, a luta fora pelos direitos
civis, ou seja, pelos direitos individuais de liberdade de culto, de reunião, contratual (escolha de
emprego), de propriedade e de justiça, que assegurava a possibilidade de ampla defesa. Esses
códigos, como mencionados acima, foram a base para que pudesse ser proposta a Declaração
Universal dos Direitos Humanos.
Já nos anos decorrentes a essas manifestações sociopolíticas, os direitos políticos surgiram
como desdobramentos dos direitos civis. Os direitos políticos estão associados à formação dos
Estados nacionais e atrelados à concepção de cidadania moderna. Esses direitos garantiriam a
participação dos cidadãos na vida política, assegurando a possibilidade de voltarem e ser votados
em processos eleitorais. Garantiam, também, a liberdade de pensamento e de reunião. Mesmo
sendo aceito amplamente, esse conjunto de medidas só foi posto em prática de maneira mais
visível a partir do século XX.
Contudo, vale ressaltar, que só foram postos em prática a partir da mobilização de vários
grupos sociais, como a luta dos trabalhadores em toda a Europa já em pleno século XIX.
Foi também no século XX que os direitos sociais passaram a ser incorporados ao rol de
direitos. Assim, o acesso à saúde, educação, habitação, ao transporte, lazer e à cultura se
transformou em direitos. É importante apontar que esses conjuntos de leis não foram postos
de maneira igual em todos os países, cada realidade nacional, política e social procurou atender
às suas próprias demandas.

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O desenvolvimento dos direitos no Brasil

O caso do Brasil, como aponta José Murilo de Carvalho (2006), é peculiar, dado que aqui, ao
invés de haver primeiro se desenvolvido os direitos civis, os políticos e por último os sociais, ocorreu
o contrário. De acordo com o autor, os direitos sociais foram os primeiros a serem estabelecidos
e só depois os direitos políticos, e por último os civis, obedecendo a lógica dos interesses e as
demandas políticas e sociais das classes dominantes do país. Isso porque os governos autoritários
que aqui se implantaram tutelaram a ampliação dos direitos sociais com fins políticos.
Durante o Estado Novo, nos anos 1930, sob o comando de Getúlio Vargas, foram garantidos
direitos sociais. As leis da CLT (Consolidação das Leis de Trabalho) são oriundas dessa época e
contam com a garantia de direitos sociais. Esse conjunto de direitos obteve uma evolução em
seus conteúdos em detrimento dos outros. Já durante a Ditadura Civil-militar (1964–1984),
nota-se um avanço dos direitos sociais. É desse período a criação do INPS, ou seja, o sistema
nacional de previdência e do FUNRURAL, que possibilitava o acesso à aposentadoria aos
trabalhadores rurais.

No Brasil, assim como em diversos países, as mulheres só muito tardiamente puderam ter reconhecidos os seus direitos políticos.
Isso demonstra que a efetivação dessas medidas, como um todo, foi sendo posta em prática de maneira gradual e desigual.

Fonte: americaslibrary.gov

Isso quer dizer que houve rupturas que minaram o pleno desenvolvimento dos direitos civis
e políticos no Brasil. Essas quebras têm relação com os recentes desdobramentos históricos
do país. Podemos citar o advento do Estado Novo (1937–1945) e a Ditadura Civil-militar
implantada no Brasil, no período de 1964 até 1984. É interessante notar que houve um
período relativo de retomada desses direitos entre os anos de 1945 a 1964. Durante esses
anos, houve uma retomada do desenvolvimento dos direitos civis e políticos, suplantados pela
Ditadura de 1964.

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Unidade: Educação e Direitos Humanos

O período atual aponta para essa retomada Parlamentares comemoram a promulgação da Constituição de 1988.
democrática da liberdade política e garantia dos
direitos individuais. Essa retomada se iniciou com
o processo de abertura política lenta e gradual
proposta pelo governo do general Geisel, em
1978, que culminou na Lei de Anistia. Posta em
prática em 1979, ela possibilitou aos exilados
retornarem ao país. Entretanto, somente dez
anos depois, o processo de abertura política
foi concretizado a partir da aprovação da
Constituição 1988, que ainda está em vigor –
apesar das várias emendas. Fonte: senado.gov.br

No geral, podemos perceber que o desenvolvimento dos direitos no Brasil está calcado em
suas peculiaridades sociopolíticas, em que fica evidente que as forças políticas se apropriaram
dos momentos históricos para fazer valer os seus interesses e não os da população.

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Direitos Humanos e sociedade

Pudemos ver que há uma crescente evolução dos direitos civis, políticos e sociais. Partindo
dos direitos individuais e chegando aos direitos coletivos, há uma linha que os liga e aponta
para a luta constante em busca de se ter direitos reconhecidos.
Mas do que tratam realmente? Para responder a essa questão, poderíamos apontar que se
trata de um conjunto de direitos básicos que se refere a todos os seres humanos, abarcando a
livre manifestação de ideias, o direito à vida e à escola, por exemplo. Entretanto, se dermos
uma passada de olho rápida em nossa realidade imediata, verificamos que poucos têm acesso
a direitos e regalias, enquanto muitos, nem sequer, têm noção de que esses direitos existem.
Como pensar essa disparidade de acesso? De acordo com João Ricardo W. Dornelles
(1989), para pensar essa questão é necessário levar em consideração que no Brasil e na
América Latina não há uma tradição cultural ou valorização dos direitos humanos. Isso porque,
nessa região, proliferaram várias experiências ditatoriais, nas quais as liberdades democráticas
foram suplantadas em nome das políticas de segurança nacional.
As lutas contra esse poder foram violentas, deixando vários mortos e desaparecidos, bem
como um grande contingente de pessoas torturadas, que guardam até hoje as sequelas das
sessões de horror, as quais foram submetidas. A ação desses homens e mulheres possibilitou
maior foco para as questões das liberdades civis e políticas – o que foi reconhecido com
a Constituição de 1988; contudo, a questão continua aberta: se olharmos os números de
homicídios praticados pela polícia no país, teremos uma breve noção de que estamos, ainda,
longe de ver esses direitos, vigorando efetivamente.

Em flagrante desrespeito aos direitos humanos, as cadeias brasileiras seguem em condições subumanas.
Será que a tortura foi extinta no Brasil?

Fonte: pragmatismopolitico.com.br

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Unidade: Educação e Direitos Humanos

Isso quer dizer que há relações de força que, ideologicamente, buscam criar a noção de
que existem dois mundos no nosso país: o da ordem, em que impera a honestidade e os bons
costumes, e o do caos, em que a degeneração moral, a violência, a bandidagem são dominantes.
Esses fatores, de acordo com Dornelles (1989), só servem para causar terror na população
e abrir espaço para ações autoritárias por parte da polícia, de milícias e esquadrões da morte,
que buscando fazer justiça com as próprias mãos, contribuem ainda mais para que a violência
se instale de vez.
Ironicamente, percebemos que essas ações não afetam os “donos do poder”, somente
as camadas populares. Esse tipo de pensamento associa, diretamente, as áreas geográficas
mais pobres da cidade com a criminalidade, pontuando diretamente geográfica e socialmente
quem é propício ao crime, como se isso fosse algo natural e inerente às pessoas que vivem
nesses espaços urbanos. O que é esquecido é que essas áreas são abandonadas pelas políticas
públicas e pelo Estado.
Nesse sentido, ao se fazer a devida reflexão sobre os direitos humanos no Brasil, devemos
proceder levando em conta os diversos fatores que se impõem em nossa sociedade, para que
não fiquemos com pensamentos estanques que beiram o fascismo e o preconceito, racial e
de classe.

Divulga-se a ideia de que as proteções dos direitos individuais e coletivos


para toda a população e o pleno exercício da cidadania constituem um
meio de estímulo ao crime, de privilégio aos bandidos e de “boa vida”
aos presos. Como se esta fosse a realidade vivida pela imensa maioria
marginalizada de nossa sociedade. [...] Cria-se, assim, um quadro
Diálogo com o Autor ideologizado que perversamente identifica as entidades de defesa dos
direitos humanos como defensores de bandidos, como entidades ligadas
ao mundo do crime e que preferem dar atenção aos maus ao invés de se
preocuparem com as vítimas (DORNELLES, 1989, p.58).

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A prática dos direitos humanos no ambiente escolar

Uma maneira de reverter esse quadro, em que se impõe a ideologia que exclui e violenta
as pessoas, é apostar em uma educação voltada para a liberdade e emancipação. Para tanto,
a promoção de práticas democráticas no ambiente escolar é imprescindível e envolve toda a
comunidade escolar.
Não obstante, o que nos surpreende, quando nos voltamos à realidade do ambiente escolar,
é que a questão dos direitos humanos nas escolas, ainda, é pouco trabalhada. As autoras
Angela Viana Machado Fernandes e Melina Casari Paludeto (2010) discutem essa questão,
apontando para a necessidade da entrada dessa temática no currículo da escola brasileira.
Para as autoras, é insuficiente ter apenas menções sobre o assunto, é necessário que ele seja
ensinado realmente. Sendo esse um fato mais do que necessário, a pergunta que se faz é:
como atuar no ensino de direitos humanos?
Um caminho interessante nos é apresentado pela pesquisadora Vera Maria Candau
(2008). Ao trabalhar essa problemática, a autora aponta que, para enfrentar os desafios
que o ensino de direitos humanos comporta, é necessário o desenvolvimento de uma
educação intercultural. Dito de outra maneira, é preciso que se pense a educação inserida
no contexto cultural dos educandos. A proposta da autora é que se promovam processos de
desnaturalização, o reconhecimento e a valorização das diferenças e o resgate do processo
de identidades.
O processo de desnaturalização consiste em problematizar aquilo que se apresenta a nós
como natural, como, por exemplo, as relações étnico-raciais. Assim, ao se problematizar
essa questão, voltamo-nos à valorização e ao reconhecimento das diferenças, o que nos leva
a buscar resgatar as identidades oprimidas pelo mascaramento da humanidade do outro. São
etapas que se ligam de maneira lógica de modo a encadear ações concretas.
Dessa forma, inevitavelmente, trabalharemos com as ciências sociais de maneira mais
intensa, pois são elas que nos darão ferramentas adequadas para pensar as diferenças, a
reconstituição das identidades e a possibilidade de que a ação conscientizadora possa se
efetivar de maneira satisfatória.
Nesse sentido, o desafio que se impõe é grande, pois configura em um trabalho lento e
gradual, mas que tem urgência em ser efetuado. Além de ser necessário que o educador se
atente para a sua formação e constante reflexão sobre o tema, no intuito de melhor orientar os
educandos, é de suma importância que toda a comunidade se envolva e participe desse diálogo
que se inicia no ambiente escolar.
Só com o trabalho em conjunto poderemos reverter um quadro perverso pintado pelas
cores do preconceito e do descaso pela vida humana. Atuar em prol dos direitos humanos é
ter em conta que:
Quando se fala em direitos humanos não se pensa em realidades estanques,
compartimentadas. Não se pensa que apenas os ‘bons”, os “mocinhos da
história” têm direitos humano, pensa-se e atua-se integralmente, tendo uma
visão global da realidade em que vivemos (DORNELLES, 1989, p. 59).

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Unidade: Educação e Direitos Humanos

Manter o pensamento no todo é a ideia central quando se trata da temática aqui discutida.
Em sala de aula, é imprescindível que o educador procure apresentar que a realidade, na qual o
educando está inserido é muito mais ampla do que se apresenta para ele. Há que se incentivar
os educandos a irem além, buscando quebrar a barreira da ideologia dominante no que tange
a se pensarem enquanto indivíduos, que vivem em contato com a diferença e a diversidade
constantemente. Finalmente, é preciso demonstrar que a defesa dos direitos do “outro” é a
nossa própria defesa.

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Considerações finais

Pudemos ver que os direitos humanos são um conjunto de direitos básicos que se
desenvolveram ao longo de séculos. Com isso, foi possível apontar que foram necessários
muitos conflitos e revoluções para que pudéssemos ver alguns deles se concretizar de fato.
Saímos de direitos que visavam a apenas a manutenção e fortificação do coletivo e passamos
a direitos que reivindicavam a defesa das individualidades e igualdades, incidindo em direitos
que garantiriam o acesso à saúde e educação, ao transporte e ao trabalho digno, e entramos,
por fim, na esfera da defesa das diferenças como meio de valorização das identidades.
Vimos, ainda, que a questão ganha tons dramáticos quando verificamos que, no Brasil,
está associada diretamente à violência. Isso porque esse conjunto de direitos é remetido pelo
senso comum como estando apenas a favor da defesa de bandidos ou minorias. Entretanto,
pudemos argumentar que essa é uma ideologia nefasta, pois, ao tecer tal raciocínio, esquece
de que não há separação entre o mundo dos malfeitores e das pessoas de bem, mas uma só
realidade compartilhada entre seres humanos e, nesse sentido, os direitos servem para todas
as pessoas, independentemente de gênero, cor, religião ou ideologia política.
A valorização dos direitos humanos é, assim, a valorização de toda a humanidade, mas não
de uma humanidade pensada homogeneamente; as diferenças são elas mesmas defendidas
como marcadores de identidades e por isso devem ser defendidas, pois se constituem em
elementos essenciais para a formação das individualidades.
Finalmente, apontamos que, dentro do ambiente escolar, ainda hoje, essa temática não
faz parte do currículo, embora haja uma demanda urgente para que se trate desse tema de
maneira aberta, sempre buscando incentivar os educandos a uma cultura de paz movida pelo
reconhecimento e defesa das diferenças como um aspecto marcante dessa cultura.

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Unidade: Educação e Direitos Humanos

Material Complementar

Artigos:
CANDAU, Vera Maria. Direitos humanos, educação e interculturalidade: as tensões entre
igualdade e diferença. Rev. Bras. Educ., Rio de Janeiro, v. 13, n. 37, p. 45-56, Abr., 2008.
Acesso em: 20 Fev. 2015.
http://ref.scielo.org/ym65bf

FERNANDES, Angela Viana Machado; PALUDETO, Melina Casari. Educação e direitos humanos:
desafios para a escola contemporânea. Cad. CEDES, Campinas , v. 30, n. 81, p. 233-249,
Ago., 2010. Acesso em: 20 Fev. 2015.
http://ref.scielo.org/9sy7yn

GARCIA MENDEZ, Emilio. Origem, sentido e futuro dos direitos humanos: reflexões para uma
nova agenda. Sur, Rev. int. direitos human., São Paulo, v.1, n.1, p. 6-19, 2004. Acesso em
20 Fev. 2015.
http://ref.scielo.org/34rwkm

Livros:
FELIZARDO, Aloma Ribeiro (org.). Ética e direitos humanos: uma perspectiva
profissional [livro eletrônico]. Curitiba: intersaberes, 2012.

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Referências

CANDAU, Vera Maria. Direitos humanos, educação e interculturalidade: as tensões entre


igualdade e diferença. Rev. Bras. Educ., Rio de Janeiro, v.13, n.37, p.45-56, Abr., 2008.
Disponível em http://ref.scielo.org/ym65bf. Acesso em: 20 Fev. 2015.

Carvalho, José Murilo de. Cidadania no Brasil: o longo caminho. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 2006.

DORNELLES, João Ricardo W. O que são Direitos Humanos. São Paulo: Brasiliense, 1989.

FERNANDES, Angela Viana Machado; PALUDETO, Melina Casari. Educação e direitos


humanos: desafios para a escola contemporânea. Cad. CEDES, Campinas, v. 30, n. 81,
p. 233-249, Ago., 2010. Disponível em http://ref.scielo.org/9sy7yn. Acesso em: 20 Fev.
2015.

Marshall, Thomas Humprey. Cidadania, classe social e status. Rio de Janeiro: Zahar, 1967.

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Unidade: Educação e Direitos Humanos

Anotações

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