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itos (7n Sdo Paulo, de Virgínia Leone Bicudo, é


nliosacontribuição pura o eonhecimenlo de uma
ise notável das ciêneias sociais no Brasil. A au-
)ra integrou, com Gioconda Mussolini e Oracy
logueira, a primeira turma de mestres formada
o País, sob a orientação de Donald Pierson, na
íivisão de Estudos Pós-Graduados da Escola Li-
re de Sociologia e Política de São Paulo.
Este livro é sua dissertação, defendida em
945. Inspirado pela pesquisa realizada por
ierson na Bahia, pelas idéias formuladas por
Iverett Stonequist acerca do homem marginal
pelos trabalhos de Robert Park sobre as rela-
ões raciais, o estudo examina as atitudes so-
iais relativas às diferenças raciais entre pretos
mulatos das camadas me'dias e das camadas
opulares. As diferenças raciais são entendidas
omo diferenças relativas à cor da pele e a ou-
'os atributos da aparência. Como os indivíduos
e cor concebem a si próprios, suas inter-rela-
ões e suas relações com os indivíduos bran-
os? Virgínia Leone Bicudo era negra e men-
iona discretamente a consciência dos motivos
essoais que a moviam e do valor da interação
o estabelecimento das condições psicoafetivas
iara a situação da entrevista. Seu estudo bem
etrata o momento fecundo em que o aprendi-
ado da pesquisa e da interpretação analítica
os problemas sociais começava a ganhar fei-
ão acadêmica contemporânea. Se lembrarmos
ue Bicudo realizou também entrevistas com
larticipantes da “Associação de Negros Brasi-
eiros” (nome fictício da Frente Negra Brasilei-
a, que existiu entre 1931 e 1937) e examinou
locumentos e matérias publicadas no mensário
lessa instituição, o valor de sua pesquisa real-
a-se ainda mais.
É bem reconhecida a forte ligação intelectual
ATITUDES RACIAIS
DE PRETOS E MULATOS
EM SÃO PAULO
FundaçA» liacola de
Sociologia c Política
dc Sâo Paulo

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Coordenação Editorial
R od rig o E stramanho de A lmeida
ATITUDES RACIAIS
DE PRETOS E MULATOS
EM SÃO PAULO
V irgínia L eone B icudo
ED IÇÃO O R G A N IZA D A POR

M arcos C hor M aio


C opyright © 2010 hy Editora Sociologia c Política

Ficha catalográfica - Editora Sociologia e Política - FESPSP

Atitudes raciais de pretos e mulatos em São Paulo / Virgínia Leone Bicudo,


A872 Marcos Chor Maio (org.) - São Paulo: Editora Sociologia e Política, 2010.
192 p.

1. Ciências Sociais 2. Atitudes Étnico-Raciais 3. Negros e Aspectos Sociais


4. São Paulo (SP)
I. Bicudo, Virgínia Leone. II. Maio, Marcos Chor
ISBN: 978-85-62116-03-2 CDD 305. 816

índice para catálogo sistemático:

1. Ciências Sociais: Atitudes Étnico-Raciais CDD 305.816

Im agem d a capa: Ampliação de foto


de Virgínia Leone Bicudo. Década de 1930.
(ver foto da página seguinte)
Fonte: Acervo pessoal de Rosa Zingg

Direitos Reservados à
Editora Sociologia e Política
Rua General Jardim, 522 - Vila Buarque
01223-010 - São Paulo - SP - Brasil
Tel. Fax 0 55 11 3123-7800
www.fespsp.org.br - editora@fespsp.org.br

Printed in Brazil 2010


Foi feito depósito legal
A PR ESEN TA Ç Ã O

A edição ora apresentada dá continuidade a série de publi­


cações sobre História das Ciências Sociais Brasileiras da Edi­
tora Sociologia e Política da Fundação Escola de Sociologia e
Política de São Paulo (FESPSP).
Aqui, também, “Atitudes raciais de negros e mulatos em São
Paulo” é uma hom enagem à autora. Aluna e professora da Es­
cola de Sociologia e Política, socióloga e psicanalista, pesquisa­
dora e profissional da saúde e da educação, Virgínia Leone
Bicudo completaria, em 2010, cem anos de vida.
Nesta edição, além do tratamento crítico do organizador e
dos colaboradores, está a íntegra da dissertação de Bicudo.
Até agora não publicado, o texto teve ortografia e normas atu­
alizadas. Pela cessão dos direitos de publicação da obra, bem
com o pelo apoio constante, muito agradecemos a Rosa Zingg,
sobrinha de Virgínia.
Ao fim do volume, um caderno de imagens compila fotos e
documentos sobre a autora e sua trajetória.

São Paulo, novembro de 2010

R odrigo E stramanho de A lmeida


Editora Sociologia e Política - FESPSP

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PR EFÁ CIO

Acomodação ou consciência da discriminação?

...s o u d o en te e sei, p o rta n to , o n d e d ó i (en trev ista d o n s 8 )

E studo d e a titu d es r a c ia is d e p r e to s e m u latos em S ão P au lo'


é importante documento de um período que mostra simulta­
neamente o processo de desenvolvimento das ciências sociais
brasileiras e a situação do negro na capital paulista. Trata-se de
texto apresentado em 1945 por Virgínia Leone Bicudo à divisão
de estudos de Pós-Graduação da Escola Livre de Sociologia e
Política de São Paulo, naquele m om ento instituição com ple­
mentar da USP. No cenário da sociologia, então se consolidan­
do nos cursos de ciências sociais fundados no decênio anterior
na cidade, a tese faz parte de um conjunto de pesquisas desen­
volvidas por professores e alunos daquela escola dedicado à
temática “populações marginais”, referida a negros, imigrantes
japoneses e alem ães.12
A concepção de marginalidade tem aqui um caráter defi­
nido estritamente se a confrontarmos às aplicações do termo
em investigações desenvolvidas nos anos posteriores. Apoia-se
nas formulações de Everett Stonequist, que considera marginal
0 indivíduo que age em um quadro de incerteza psicológica
1 Esse é o título original da dissertação de Virgínia Leone Bicudo. No título da presente
publicação suprimimos a palavra “Estudo”. - Nota do Editor.
2 Para consultar as pesquisas sobre imigração desenvolvidas na Escola Livre de Sociologia
e Política de São Paulo, ver Nucci (2010).
por estar colocado entre dois mundos sociais (STONEQUIST,
1937). Essa situação reflete-se em seu íntimo, operando através
de representações opostas em relação a esses dois universos:
discórdia e harmonia, atração e repulsa. Seriam problemas
experimentados por pessoas em processo de transição entre
duas culturas. Suas pesquisas foram realizadas junto a grupos
étnicos minoritários da sociedade norte-americana. Trata-se
de desdobramento de conceitos cunhados por Robert E. Park
(1921, 1928, 1932 e 1937) que têm com o fundamento a ideia
de conflito cultural, o qual remete diretamente à formação da
identidade (PARK, 1928, 1932 e 1937; PARK; BURGUESS, 1921).
Lembremos que Park foi orientador de Donald Pierson, o qual,
por sua vez, orientou a tese de Virgínia Leone Bicudo.
Vários pontos desenvolvidos por Park embasam a argumen­
tação deste livro, embora nem sempre sejam explicitamente
discutidos. Primeiramente, a noção de r e la ç õ e s ra cia is, acom ­
panhada dos processos sociais referidos à qualidade dessas re­
lações; em segundo lugar, o conceito de a titu d e, articulado ao
de interação social; em terceiro, a conotação atribuída à m u ­
d a n ç a social-, em quarto, a concepção de m a r g in a lid a d e. Ve­
jamos brevem ente o significado dessas categorias para aquele
autor e verifiquemos com o são operacionalizadas por Virgínia.
Em sentido amplo, Park concebe as relações raciais presentes
em uma sociedade — levando em consideração a história da
imigração — com o estáveis ou tensas, as últimas podendo ge­
rar conflitos de várias ordens. Considera esse desenvolvimento
através de passos sucessivos, representados pelos processos
sociais de contato, com petição, acom odação e assimilação.
Certamente, o contato significa situação s in e q u a n o n para a
existência e a evolução dos outros processos. Segue-se a com ­
petição, consequência da busca de lugares sociais e profissio-

12
nais, e ainda a afirmação o/ou conquista de um espaço cultural,
O terceiro passo supõe um duplo movimento, que com preende
os diferentes com ponentes da sociedade envolvente e o(s)
grupo(s) minoritário(s): trata-se da acom odação. Quando nao
consegue a realização deste objetivo, resta ao “grupo de fora"
abrir mão da maior parte de suas características diferenciado
ras e assumir a assimilação. No sentido que Park lhe confere,
assimilação é o processo de interpenetração e fusão pelo qual
indivíduos ou grupos adquirem lembranças, sentimentos e all
tudes de outras pessoas ou outros grupos e partilham de sua
experiência e história, integrando-se a estes numa vida cultural
comum (PARK; BURGUESS, 1921).
A visão de Park sobre a sociologia com o a ciência do
com portam ento coletivo permite que conceba atitude com o
o modo de percepção de pessoas ou objetos, elem ento da
personalidade que não se confunde com as idéias de valor
ou ação. O conceito pôde ser usado por ele com o estratégia
para refletir sobre as transform ações sociais, mas, ao mesmo
tempo, se traduz em posição de certo modo ambígua quando
referida à mudança e ao m odo com o as pessoas poderíam
provocá-las. De um lado, conflito e acom odação sucediam-se,
e essa alternância teria a com unicação com o instrumento, pos
sibilitando o equilíbrio nas diferentes situações em que ambos
aparecem. D e outro, atribuía ao indivíduo a quase impossi
bilidade de conhecim ento do outro (a tese de B lin d n ess, de
William Jam es), o que faz avançar a análise e também a limil;i
na direção de com preender com o as pessoas foram configura
das segundo as im posições dos conflitos grupais. Em outros
termos, a tensão reside na dupla face apresentada pelas so­
ciedades humanas: um aspecto é explicitado através dos con
flitos entre indivíduos e grupos independentes pelo domínio
econôm ico, social, territorial; o outro mostra os elem entos de
sua sustentação — consenso, solidariedade e objetivos sim­
bolicam ente com partilhados.3
Dessa posição decorre a conotação conferida à mudança
social. Chamo a atenção do leitor para a noção operada por
Virgínia Leone Bicudo, que lembra: “Consoante as observações
de Robert E. Park, as mudanças sociais com eçam com as mu­
danças nas atitudes condicionadas pelos indivíduos, operando-
se posteriormente mudanças nas instituições e nos mores” (B I­
CUDO, 1945, p. 2; ver, neste volume, p. 64).
Fisher e Strauss, em seu estudo sobre o interacionismo, m os­
tram com o essa concepção de passagem automática entre in­
divíduo e instituições configura a visão de Robert Park da so­
ciedade com o autorreguladora. Park podia ver o influxo de
sulistas, de negros rurais para as cidades do Norte com o causa
inevitável de conflito racial, sem tratar esses choques com o
oportunidades de pressionar pelos programas de integração
racial. Os processos básicos de mudança social estavam além
da legislação. As pessoas resolveríam os problemas básicos de
conflito e acom odação muito melhor do que a legislação pouco
realista (FISHER; STRAUSS, 1980, p. 609).
Retomando o que foi dito antes, marginalidade, para Park, é
um traço da personalidade. Apresenta-se com o um fenôm eno
psicológico individual resultante de tensões e conflitos decor­
rentes de elem entos antagônicos provenientes de culturas diver­
sas incorporados pelo indivíduo em uma situação de mudança
social (PARK, 1928). As críticas que têm sido feitas a essa con­
cepção são conhecidas, o que me poupa da retomada de seu
exame. Lembro apenas um aspecto importante presente nessas
críticas: o enfoque no indivíduo ressalta apenas as consequên-
3 Ver a análise sobre Park de Coser (1971).

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cias de uma situação social que condiciona a marginalidade. Em
outros termos, as condições sociais que geram a marginalidade
ficam intocadas numa reflexão que toma a direção psicológico-
cultural. Além disso, sem o estudo da situação social que gera
a marginalidade, fica comprometida a análise sobre as possibi­
lidades da com petição em uma situação de igualdade.
Volto agora ao trabalho de Virgínia Leone Bicudo. Seguindo
a reflexão das ciências sociais da época, que associam mu­
dança social ao processo de integração dos grupos na socie­
dade envolvente, conform e procurei apontar anteriormente, as
discussões sobre a igualdade de condições para o exercício
da com petição estão ausentes dos objetivos de sua tese. No
entanto, apesar desse problema não constar do protocolo da
pesquisa, sua profunda intuição sobre a situação social do ne­
gro permite a emergência, através das histórias de vida e tam­
bém do estudo da “Associação de Negros”, do ponto central da
questão, a qual só mais tarde entrará no debate da sociologia
brasileira sobre a questão racial.
A autora opera com a questão da identidade, mostrando
como esta se expressa em atitudes e mesmo na organização
da ação individual. Para o desenvolvimento dessa temática, es­
tuda dois grupos — negros e mulatos — , subdivididos segundo
sua classe social, utilizando para essa classificação a condição
econôm ica, a profissão e o nível de instrução dos entrevistados.
Nos relatos, atitudes e expressões sobre a ação individual se
entrelaçam. As histórias de vida mostram os contatos primários.
A descrição da “Associação de Negros Brasileiros” e passagens
do mensário “Os Descendentes de Palmares” dão a dimensão
das possibilidades da ação coletiva, tanto em direção da as­
similação “dos grupos de cor à população branca”, quanto da
denúncia da discriminação.
Aspecto crucial da form ulação dessa identidade — o pro­
cesso de socialização — é reconstruído através das históri­
as de vida, estas mais aprofundadas nos casos dos negros
pertencentes às classes sociais intermediárias. A situação de
contato ou não com brancos durante a infância é lembrada,
sem a análise direta da construção do s e lf decorrente dessas
relações. Mas, novam ente, a sensibilidade da autora, via en ­
trevistas, abre uma brecha para a visualização de novas pers­
pectivas abertas à análise: a) a percepção tardia, por grande
parte dos negros da existência da discrim inação; b) os claros
limites no desenvolvim ento dos papéis sociais, econôm ico-
prohssionais e culturais, que não alcançam correspondência
entre si; c) o isolam ento autoim posto por negros e mulatos
que alcançaram ascensão social; d) o conflito existente entre
a ação na direção da integração-assim ilação e a aceitação da
situação racial.
Um entrevistado, criado por brancos na casa de quem sua
mãe trabalhava com o doméstica, aponta para o fato de que
essas relações mascaram a situação de discriminação racial
presente na sociedade. Sentia-se tratado “com o igual” no seio
da família; contudo, lembra: “Mas o vigário me advertia sem­
pre: ‘Lembre-se que você não é igual a eles.’ Eu, porém, não
com preendia o sentido daquelas palavras. Somente muito mais
tarde as entendi” (ver, neste volume, p. 74).
Outro, profissional liberal, recorda a infância pobre, cerca­
da de restrições e de sua descoberta da existência do precon­
ceito racial, primeiramente por m eio de um quadro na igreja,
que representava um santo branco pisando na cabeça de um
satanás negro. Depois, aos 7 anos de idade, lendo um livro,
“onde uma figura representava os anjos bons e os maus. Havia
me despertado a atenção o fato de os anjos escurecerem à me-


dida que se tornavam maus. Com tristeza, eu identifiquei a cor
preta ao m al.” (ver, neste volume, p. 80).
A consciência da separação entre os papéis profissionais e
os sociais aparece em inúmeros relatos. A do ch efe’negro, que
recebe um convite de formatura de seu subordinado branco e
ouve o com entário deste no dia seguinte: “Ontem minha irma
ficou preocupada vendo-me convidá-lo para a festa de forma
tura e me censurou. Tranquilizei-a imediatamente, dizendo- IIu*
que o havia convidado porque sabia que o senhor não iria."
(ver, neste volume, p. 73). Ou ainda: “Há tempos, fui homc
nageado com um alm oço pelos meus amigos brancos, listes
procuraram o Hotel d’Oeste para a homenagem, mas, quando
o gerente soube que o alm oço seria oferecido a um preto, em
bora me conhecesse, recusou aceitar a encom enda” (ver, neste
volume, p. 76).
O isolamento social autoimposto por negros e mulatos surge
em várias narrativas. Como na do entrevistado que conta sei
sempre convidado por um amigo íntimo branco às festas em
sua casa, “às quais não com pareço. No dia seguinte, sempre me
telefona, indagando por que não compareci. Houve uma festa
de formatura no Esplanada, convidou-me e não fui, mas noto
que, não sendo em sua casa, ele até hoje não reclamou por eu
não ter ido” (ver, neste volume, p. 7). Ou na do dentista que
diz: “Quanto mais minha consciência se foi esclarecendo, tanto
mais fui me afastando dos meios de recreação. Nesses ambi
entes não me sinto bem ” (ver, neste volume, p. 92).
O conflito entre a “necessidade de assimilação” e a consciên­
cia de existência da discriminação aparece em várias falas. São
expressivas desse conflito as palavras da funcionária pública
mulata que, de um lado, sente a dor da discriminação e, de
outro, evita o enfrentamento do problema, buscando “integrar

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se”. No início da entrevista, diz: “A cor motiva grande com plexo
de inferioridade: a gente se sente inferior ao branco, feia, di­
ferente, e muitas vezes tem vergonha de si m esm a” (ver, neste
volume, p. 110). Mais adiante, afirma: “Não seria capaz de amar
um preto ou um mulato, mas, desde que não se percebam
traços de ascendência preta, eu me casaria com uma tal pessoa.
O que importa é a aparência” (ver, neste volume, p. 111).
Ou ainda as afirmações da mulata — casada com um branco
— que reconhece a existência do preconceito de cor manifesto
de várias maneiras: “Uns demonstram o preconceito com b e ­
nevolência exagerada e outros com muito desprezo. Naturali­
dade ou igualdade no trato do branco para as pessoas de cor
não h á” (ver, neste volume, p. 111). E, no decorrer da conversa,
mostra ambiguidade de sentimentos: “Não tenho experiências
pessoais desagradáveis, porque fugi muito do negro, e, com o
mulata, procurei me assemelhar ao branco” (ver, neste volume,
p. 112). Logo a seguir, afirma constatar o aborrecimento do
marido “por eu ser de cor [...] demonstra pena ou vergonha
quando observa algum traço físico nos filhos. Estes ressenti­
mentos dele me ofendem, e nos põem em conflito” (ver, neste
volume, p. 112).
Embora quase sempre velada, a denúncia de uma socie­
dade cruel — que, ao m esm o tem po, através dos com por­
tam entos e ações, afirma a inferioridade racial e nega essa
afirmação — coloca, para alguns entrevistados, a necessidade
de interiorizar, de algum m odo, a dignidade que lhes é tantas
vezes negada. Por exem plo, um dos entrevistados lem bra, de
passagem , a longa história das sofisticadas civilizações afri­
canas, em bora não as articulasse à sua difusão entre os bran­
cos europeus. Outro inveja a situação dos negros nos Estados
Unidos, por viverem uma clara situação de desigualdade que

18
/
lhes permite forte coesão social, a qual abre espaço a reivin­
dicações de direitos.
Às vezes, o silêncio diz muito mais do que as palavras. É
interessante notar que Virgínia não se refere a movimentos so­
ciais que denunciem ou lutem contra a situação de exclusão
tantas vezes apontada nas entrevistas existentes no momento
de sua pesquisa.4 Ela se refere a uma “Associação de Negros
Brasileiros” e ao jornal por esta publicado,5 e indica seu iní­
cio e seu fim: 1931 e 1937, respectivamente. Portanto, ambos
desapareceram no início do Estado Novo, e a pesquisa feita
pela autora encerrou-se antes do término deste período. A re­
pressão exercida sobre os movimentos sociais na época pode
ser considerada com o uma das explicações que levam a que
vários entrevistados afastem a possibilidade de m obilizações
direcionadas contra a discriminação racial.
O quadro de limitação das liberdades característico daquele
momento é de grande importância quando relacionado ao
comportamento individual (veja-se o isolamento que alguns
entrevistados se impõem). Nesse nível, a recusa ao enfrenta-
mento de várias situações sociais que “exporiam ” sua condição
racial caracteriza-se com o estratégia de evitar o conflito, mas
creio que as razões são mais amplas: pode representar, tam­
bém, a fuga à dor com que a discriminação, expressa por vários
comportamentos em relação aos negros, os atingiría. A não
admissão clara da discriminação talvez os protegesse naquele
dado momento, mas os afasta da análise do quadro em que
estão inseridos. Afasta-os de perceber o conflito com o cons-
4 Os dados foram coletados entre 1941 e 1945.
5 Ela diz: “Por razões óbvias, o nome da associação e, a seguir, o titulo do seu mensário
são fictícios” (ver, neste volume, nota à p. 122). Graças a uma consulta que fiz a Mário
Augusto Medeiros da Silva, a quem não escapa nem mesmo o mais obscuro boletim da
imprensa negra, pude identificar tanto a associação quanto o jornal. Agradeço muito a ele,
mas respeitarei o desejo da autora, não os divulgando.

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titutivo da sociedade; e, no caso da discriminação racial, da
reflexão sobre as razões que fundam esse conflito.
Embora a tese da existência de uma democracia racial no
Brasil esteja por trás de várias narrativas dos entrevistados —
e, segundo Pierson (BICUDO, 1945, p. 6 l; ver, neste volume,
p. 156), a mobilidade social do mulato expresse essa situação
— , Virgínia insiste em mostrar, mediante algumas entrevistas, a
presença da consciência da exclusão. Embora extrapolando os
termos por ela usados, eu diria o sentimento da discriminação.
Veja-se, com o ilustração, a expressão “sou doente e sei por­
tanto onde me dói” (ver, neste volume, p. 76), usada por um
deles e que coloco com o epígrafe deste prefácio.
A vivência da discriminação como dor lembra-me um conto
de Primo Levi. Ele, que foi sempre consciente das conspirações
contra a continuidade da vida, escreve sobre seu personagem:

Ruminou uma ideia sobre a qual não pensava havia tempos, porque
sofrerá bastante: que não se pode extirpar a dor, nem se deve, pois
ela é nossa guardiã. Frequentemente é uma guardiã estúpida, porque
inflexível, fiel à sua tarefa com uma obstinação maníaca, e nunca se
cansa, ao passo que todas as outras sensações se cansam, se dete­
rioram, especialmente as mais prazerosas. Mas não se pode suprimir
a dor, fazê-la calar, porque faz parte da vida, é a sua salvaguarda
(LEVI, 2005, p. 91).

De certo modo, a tese da existência de uma democracia racial


no Brasil funciona como a versamina do conto de Levi, droga
descoberta e aplicada por Kleber e capaz de transformar a dor
em prazer. Já foi apontado por vários analistas da questão racial
como essa afirmação funda uma consciência falsa da realidade
(várias vezes denunciada pelos entrevistados por Virgínia) e

20
J
opera com o um impeditivo à coesão do grupo discriminado.
Ou, ainda, funciona com o obstáculo a movimentos sociais que
denunciem a precariedade da condição do negro na sociedade
brasileira. Sem fazer diretamente uma crítica ao que será pos­
teriormente denominado “mito da democracia racial”, a tese de
Virgínia Leone Bicudo, agora publicada com o livro, contribuiu
para o avanço dessa temática e possibilitou novas abordagens
sobre o problema da discriminação racial.

São Paulo, novembro de 2010

E lide R ugai B astos


Professora titular do Program a d e Pós-Graduação
em Sociologia da Universidade Estadual de Cam pinas (UNICAMP).

Referências

BICUDO, Virgínia Leone. Estudo d e atitu des ra ciais d e p retos e m u­


latos em São P au lo. 1945. Dissertação (Mestrado em Ciência) — Es­
cola Livre de Sociologia e Política de São Paulo, São Paulo, 1945.

COSER, Lewis. M asters o f S ociolog ical Thought: ideas in historical


and social context. New York: Harcourt Brace Jovanovich, 1971.

FISHER, Berenice M.; STRAUSS, Anselm L. O interacionismo. In:


BOTTOMORE, Tom; NISBET, Robert (Orgs.). H istória d a a n á lise
sociológ ica. Tradução de Waltensir Dutra. Rio de Janeiro: Zahar
Editores, 1980, p. 596-649.

LEVI, Primo. Versamina. In: LEVI, Primo. 71 contos. Tradução de


Maurício Santana Dias. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

21
NUCCI, Priscila. Os intelectuais d ia n te do racism o an tin ip ôn íco no
Brasil: textos e silêncios. São Paulo: Annablume, 2010.

PARK, R. E. Human Migration and the Marginal Man. A m erican


J o u r n a l o f Sociology, 33, p. 881-893, 1928.

______ . Introduction. In: STONEQUIST, E. The M argin al Man-, a


study in personality and culturç conflict. New York: Charles Scrib-
ner’s Sons, 1937.

______ . Introduction. In: YOUNG, Pauline V. The Pilgrims ofR u s-


sian-Tow n: the community of spiritual christian jumpers in Amer­
ica. Chicago: University of Chicago Press, 1932.

PARK, R. E.; BURGUESS, E. W. In troduction o f the Scien ce o f Soci­


ology. Chicago: University Of Chicago Press, 1921.

STONEQUIST, E. The M argin al Man. a study in personality and


Culture Conflict. New York: Charles Scribner’s Sons, 1937.

22
I

IN TR O D U Ç Ã O : A C O N TR IB U IÇ Ã O
DE V IR G ÍN IA LEO N E BICU D O
A O S ESTU D O S SO B R E A S RELA ÇÕ ES
RA CIA IS N O BRA SIL

M arcos C hor M aio*

Desde criança eu sentia preconceito de cor. Queria o curso de socio­


logia porque, se o problema era esse preconceito, eu deveria estudar
sociologia para me proteger do preconceito, que é formado ao nível
sociocultural (BICUDO, 1994, p. 6).

Os elos entre subjetividade, preconceito de cor e a Escola Livre


de Sociologia e Política (ELSP) parecem evidentes no depoi­
mento de Virgínia Leone Bicudo (1910-2003). Passaram-se prati­
camente cinco décadas desde que ela defendeu sua dissertação
de mestrado intitulada E stu do d e A titu des R a c ia is d e P retos e
M u latos em S ão P a u lo (1945), investigação pioneira sobre as
relações raciais em um grande centro urbano, sob a orientação
do sociólogo Donald Pierson. A pesquisa foi desenvolvida en­
tre os anos 1941 e 1944 e a dissertação defendida no ano se­
guinte. Tendo por base estudos de caso, entrevistas, exam e
de documentação da Frente Negra ,Brasileira (1931-1937) e do
jornal Voz d a R a ç a , Virgínia Bicudo traça um amplo painel das
relações sociais na cidade de São Paulo. Por meio do estudo
das “atitudes raciais” e orientada pelas interseções entre Socio­
logia, Antropologia e Psicologia Social - Bicudo apresenta um

Sociólogo, Doutor em Ciência Política é Professor do Programa de Pós-Graduação em


História das Ciências e da Saúde da Casa de Oswaldo Cruz (FIOCRUZ) e pesquisador do
CNPq.

23
universo dividido em classes representado por negros, mulatos
e brancos. Este mundo desigual é perm eado por conflitos,
com petição, mobilidade social, busca de status, preconceito de
cor e discriminação racial.
A partir dos ricos depoimentos de homens e mulheres das
camadas populares e médias , Virgínia Bicudo demonstra, lem ­
brando as reflexões de Dumont (1997, p. 303-316), que no m o­
mento em que a percepção hierárquica do mundo cede lugar
ao ideário igualitário, emerge o racismo. Assim, a socióloga
torna evidente a possibilidade do conflito racial em contexto
intelectual em que prevalecia a visão do consenso.
A titu des R a c ia is d e P retos e M u latos em S ão P au lo, junto com
os trabalhos de Oracy Nogueira, apresenta nova reflexão sobre
as relações entre cor/raça e classe social. Evidencia a persistên­
cia do preconceito de cor m esm o quando se atenua as dife­
renças sociais. O estudo suscita uma visão mais rica e matizada
da produção das ciências sociais desenvolvida por instituições
brasileiras. Sob a direção de Donald Pierson, a Divisão de Es­
tudos Pós-Graduados da Escola Livre de Sociologia e Política
produziu um conjunto de pesquisas, a exem plo da investigação
sociológica de Virgínia Bicudo, que permite repensar os estu­
dos sobre as relações raciais no Brasil.
A partir das marcas da trajetória de Virgínia Bicudo, considero
que ela concebeu o conflito com o parte constitutiva da vida
social. Os achados sociológicos de sua dissertação de mestrado
contrapõem-se às visões tradicionais acerca da existência de har­
monia racial na sociedade brasileira calcada no pressuposto de
que o preconceito de cor estaria subsumido ao de classe. Nesse
sentido, o trabalho pioneiro de Bicudo, ao lado das pesquisas
realizadas por Oracy Nogueira, revelam o protagonismo e a atu­
alidade dos estudos sobre as relações raciais no Brasil realizados

24
pela Escola Livre cie Sociologia e Política nos anos 1940 e 1950.
Educadora sanitária, visitadora psiquiátrica, cientista social,
professora universitária, psicanalista, divulgadora científica,
protagonista de diversas iniciativas no plano da institucionaliza­
ção da psicanálise no Brasil, eis o mundo diverso em que Virgí­
nia transitou. Cabe então conhecerm os um pouco da trajetória
multifacetada de Virgínia Bicudo em período de efervescência
intelectual na ELSP.

Primeiros Tempos: da Educação Sanitária às Ciências Sociais

Virgínia Leone Bicudo nasceu na cidade de São Paulo, filha


de Joana Leone, branca, imigrante pobre de origem italiana, e
de Teófilo Bicudo, negro e afilhado de fazendeiro de café em
Campinas. O padrinho de Teófilo, Bento Augusto de Almeida
Bicudo, foi senador pelo Partido Republicano Paulista (PRP),
positivista e fundador do jornal O E stad o d e S ão P au lo. Durante
a infância e adolescência residiu no bairro popular da Luz,
na Rua São Caetano, a Vila Economizadora, conjunto de habi­
tações construídas no final do século XIX que abrigava fun­
cionários públicos, imigrantes e operários (MEDRANO, 2006).
Lá morou com os pais e cinco irmãos. Seu pai, Teófilo, contou
com o apoio financeiro do coronel Bicudo, quando se trans­
feriu para a cidade de São Paulo a fim de realizar sua formação
escolar. Estudou no tradicional Ginásio do Estado e ingressou,
por influência política do padrinho, nos Correios e Telégrafos,
onde veio a se tornar alto funcionário.6
6 Virgínia Leone Bicudo. Documentos Diversos, CEDOC-FESPSP; http://almanaque.info/
ProvinciaSP/PROVINCIASP.htm; http://www.al.sp.gov.br/web/legislativo/parlament/capi-
tulo2/partell.pdf, acessado em 23/03/2010; Os avós maternos de Virgínia Bicudo vieram
da Sicilia (Itália) para o Brasil no fim do século XIX, no contexto da grande leva de imi­
gração italiana. Trabalharam em Campinas, na fazenda de café do coronel Bicudo. O pai
morou e trabalhou na fazenda do coronel Bicudo, sendo tratado como filho pelo coronel.

25
Família d e V irgínia Leone B icudo na casa d a V ila E conom izadora. Da esquerda
para a direita vêem-se as irmãs Lourdes e H elena, a m ãe, Dona Joana, a irmã
C arm em com a boneca, o p a i Sr. Teófilo B icudo, Teófilo Filho e V irg in ia B icudo.
S ão Paulo, 3 d e m arço d e 1 9 2 9 .

Em 1933, a morte de Teófilo Bicudo levou a primogênita a


assumir a responsabilidade pelo sustento da família.*7 Da Luz ao
Jardim Paulista, eis a circulação de Virgínia Bicudo pela geogra­
fia da cidade espelhando o processo de mobilidade social m e­
diante a educação, espaço privilegiado no qual as mulheres de
classe média com eçaram a ascender ao mundo das profissões
de maior reconhecim ento social. Em 1930, após estudar na Es­
cola do Brás e no Ginásio do Estado, Bicudo concluiu o curso
secundário na tradicional Escola Normal Caetano de Campos.8
Em seguida, exerceu o magistério na categoria de “professora
substituta perm anente” nos Grupos Escolares Carandiru e Con-

A mãe, Joana, foi babá da filha de criação do coronel. Na fazenda, Teófilo e Joana se
casaram. Posteriormente, Teófilo foi estudar em São Paulo, por decisão de Bento Bicudo.
Entrevista de Rosa Zingg, sobrinha de Virgínia Leone Bicudo, a Marcos Chor Maio. São
Paulo, 17/12/2009.
7 Entrevista de Rosa Zingg a Marcos Chor Maio. São Paulo, 17. dez. 2009-
8 A tradicional instituição pública de ensino denominada Escola Modelo Caetano de Cam­
pos, situada no bairro da Luz, em São Paulo, foi criada em 1890. Sobre a ideologia das
escolas modelos, ver Carvalho (2002).

26
y
solução.9 Ela foi chamada a lecionar em escola rural de Maran-
cluba (Ubatuba), mas acabou seguindo outro destino, induzida
pelo pai, ao ingressar no Curso de Educadores Sanitários do
Instituto de Higiene de São Paulo.10
Criado em 1925, o Curso de Educadores Sanitários do In­
stituto de Higiene estava voltado para professores primários
devido à longa duração do curso de enfermagem e à falta de
profissionais formados nesta área em São Paulo. A partir de
uma visão preventiva, os educadores ministravam conhecim en­
tos teóricos e práticos de higiene em escolas e centros de saúde
(FARIA, 2006, p.181). O surgimento do curso coincidiu com
um momento de crescente profissionalização das mulheres das
classes médias urbanas. As políticas educacionais entre as déca­
das de 1920 e 1940 foram fundamentais à inserção gradativa das
mulheres no campo profissional e acadêmico. As mudanças no
sistema escolar, associadas às transformações mais amplas -
como a urbanização e a industrialização - contribuíram para a
redefinição dos papéis sociais femininos nos centros urbanos
da época. A expansão progressiva da econom ia impulsionou
as atividades das mulheres para fora do mundo do trabalho
doméstico (AZEVEDO; FERREIRA, 2006, p. 217-220). Desse
modo, a presença das mulheres no curso de educadores san­
itários e nos serviços de saúde representou um novo patamar
no universo social feminino (ROCHA, 2005). Ao concluir o
curso de um ano em 1932 e realizar estágio no primeiro se­
mestre de 1933, Virgínia Bicudo foi contratada pela diretoria do
Serviço de Saúde Escolar do Departamento de Educação para
9 Esta informação me foi concedida gentilmente pela psicanalista Maria Angela Moretz-
sohn, da Divisão de Documentação e Pesquisa da História da Psicanálise da Sociedade
Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP).
10 Entrevista de Rosa Zingg (2009). Lista de alunos da türma de 1932 do Curso de Educa­
dores Sanitários. Centro de Memória da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de
São Paulo.

27
T

Professor e colegas d o C urso d e Educadora Sanitária d o Instituto d e H ig ie n e .


V irgínia é a prim eira d a esquerda p a ra a direita, na prim eira fila , d e roupa escura,
chapéu e lenço bran co no pescoço. S ão Paulo, 1 9 3 2 .

dar aulas de higiene em educandários da cidade de São Paulo


(ZINGG, 2009).
Em 1936 ela ingressou no curso de graduação em Ciências
Políticas e Sociais da Escola Livre de Sociologia e Política (ELSP).
As ciências sociais passaram a ser uma das alternativas profis­
sionais emergentes para as mulheres11 e, no caso de Bicudo,
permitiu o aprofundamento da visada sociológica adquirida no
âmbito da educação sanitária, na estreita relação entre puericul­
tura e condições de vida (MAIO, 2010).
Trazendo sua experiência sanitarista, Bicudo matriculou-se
em instituição pioneira no campo das ciências sociais no Brasil,
criada em 1933, fruto dos esforços intelectuais de setores da
elite paulista que buscavam alternativas políticas, a partir da
formação de quadros técnicos, à derrota da Revolução Constitu-
cionalista de 1932. As Ciências Sociais tornam-se importante

11 Sobre a presença feminina nos cursos de ciências sociais em São Paulo nos anos 1940 e
1950 ver Anuários da ELSP. Ver também Miceli (1989).

28
J
fonte de conhecim enlo para as incipientes organizações de
planejamento econôm ico e desenvolvimento social (LIMONGI,
1989; SIMÕES, 2009; DEL VECCHIO; DIÉGUEZ, 2009). Sob os
auspícios da ELSP foram realizados estudos sobre o negro; pa­
drão de vida e assistência filantrópica na cidade de São Paulo;
enquetes sobre preconceito e atitudes raciais; pesquisas de
opinião pública, imigrantes, condições de trabalho e personali­
dade dos operários; higiene mental e psicanálise; experiência
social de doenças; estudos de comunidades rurais; projetos de
desenvolvimento de comunidade, etnologia indígena, etc.12
Para contemplar o amplo e diversificado leque temático de
suas pesquisas, a ELSP, sob ascendência norte-americana, con­
tratou sociólogos e antropólogos estrangeiros, tais como: Horace
Davis, Samuel Lowrie, Donald Pierson, Radcliffe-Brown, e rece­
beu a visita temporária de outros: Franklin Frazier, Melville Her-
skovits, Charles Wagley (MASSI, 1989). Inspirando-se na Escola
Sociológica de Chicago13, a ELSP adotou perspectiva interdiscipli-
nar como nas relações entre Antropologia, Sociologia e Psicologia
Social. Fez dos problemas urbanos e rurais seus laboratórios.
O bacharelado da ELSP tinha a duração de três anos e, no
período em que Virgínia Bicudo foi aluna da Escola, a grade
curricular era composta das seguintes disciplinas: Biologia
Social, Economia Social, Estatísticas, Introdução à Economia,
Sociologia, Ciência Política, Contabilidade, Economia Interna­
cional, Finanças Públicas, História das Doutrinas Econômicas,
Psicoténica, Administração Pública, Contabilidade, Economia
Internacional, Educação Nacional, Finanças Públicas, História

12 Ver Anuários da Escola Livre de Sociologia e Política.


13 No final do século XIX, Chicago transformou-se num verdadeiro “laboratório social’’
em decorrência dos problemas sociais advindos da urbanização e da industrialização. As
Ciências Sociais da Universidade de Chicago foi pioneira na proposta de uma sociologia
empírica tendo em vista propósitos reformistas. (VALLADARES, 2005).

29
Econôm ica do Brasil e Psicologia Social. Em 1938, Bicudo ba­
charelou-se em Ciências Sociais e Políticas sendo a única mu­
lher formada numa turma de 8 alunos.
Neste período, Virgínia Bicudo conheceu o m édico e psi­
canalista Durval Marcondes, que atuava no Serviço de Saúde
Escolar desde meados da década de 1920 e foi professor da
disciplina Higiene Mental para o Curso de Educadores Sani­
tários a partir de 1937. No ano seguinte, criou o Serviço de
Higiene Mental Escolar (SHME) da Secretaria de Educação do
Estado de São Paulo, ocasião em que Virgínia Bicudo tornou-se
visitadora psiquiátrica. O SHME funcionava por intermédio das
clínicas de orientação infantil, cujas funções eram a prevenção
e o tratamento de problemas psíquicos da criança (BICUDO,
1941). Marcondes e Bicudo tinham outro elo em comum: a psi­
canalista alemã e judia Adelheid Koch, refugiada do nazismo.
Ele a conheceu em 1936 e Bicudo tornou-se a primeira mulher
a ser analisada por Koch, a partir de 1937. (BICUDO, 1989;
SAGAWA, 2002). No início da década de 1940, Bicudo passou
a lecionar, junto com Marcondes, as disciplinas Higiene Men­
tal e Psicanálise na ELSP. Esta parceria profissional e intelec­
tual contribuiu para a transformação da instituição acadêmica
num importante espaço de difusão e de institucionalização dos
“saberes psi” em São Paulo, entre os anos 1930 e 1950.14

“Na Escola de Sociologia se estudava o problema do Negro”15: a


pesquisa sobre atitudes raciais na ELSP

Em diversas entrevistas, Virgínia fala em “sofrimento” com o um


importante motivo para sua opção pelo curso de ciências so-

14 Sobre a história dos “saberes psi”, ver Duarte (2005).


15 Entrevista de Virgínia Leone Bicudo a Marcos Chor Maio era 25. Set. 1995; ver Maio, 2010.

30
c iais na ELSP, “imaginando <|iic‘ lá (...) descobriría as causas da
dor c, portanto, o lenitivo" (BICUDO, 1989, p. 95).16 Em alguns
depoimentos17, ela revela que foi alvo de preconceito na infân­
cia pelo fato de ser negra, chegando ao dramático relato sobre
um episódio de discriminação racial sofrido pelo pai:

“ Vou contar uma coisa tristíssima da história [de Teófilo Bicudo]. Ele
queria fazer universidade. Na época era Curso Superior. E ele queria
ir para Medicina. Então estava no sexto ano do ginásio. Veja que
homem esforçado, hein? Veio de empregado doméstico que ele era,
depois foi subindo e fez o Ginásio do Estado. E quando terminou o
Ginásio do Estado naquele ano, ele passava direto para Faculdade de
Medicina. Naquele tempo não havia vestibular para Medicina. Termi­
nava o ginásio e entrava na Medicina ou em qualquer curso superior.
Então, o professor que chamava Barros ou Barrinhos, do ginásio do
último ano, quando viu que meu pai ia para Faculdade de Medicina,
reprovou. Porque ele disse que negro não podia ser médico.”18

Teófilo Bicudo tinha forte ascendência sobre a filha. Ele era


um parâmetro no plano ético, no mundo do trabalho e na
16 Em outra entrevista declara: “Foi dentro desse curso [de ciências sociais da ELSP] que
eu tive a felicidade de pela primeira vez encontrar uma noção'de conflito psíquico, um
superego, um processo de sublimação, um Freud. Então pela primeira vez eu soube que
havia não só conflito entre indivíduo e ambiente, mas havia conflito mental” (CANDIOTA,
1977, p.8).
17 O psicanalista Paulo Cesar Sandler lembra o comentário de Bicudo: “Desde pequenina
eu fui vista como uma ‘negrinha pobre’. Quando cresci, meu crime foi ser mulher emanci­
pada”. (SANDLER, 2004, p. 29). Em depoimento a Meyer (2004) Virgínia recordou que: “Eu
fui criada fechada em casa, quando eu sai foi para ir à escola e foi quando pela primeira
vez, na escola, a criançada começou: ‘negrinha, negrinha’. Quando eu estava dentro de
casa eu nunca tinha ouvido. Então eu levei um susto” (p. 17-18). Virgínia Bicudo expôs a
motivação sociológica para o ingresso na ELSP, com base em sua vivência do preconceito
de cor: “Desde criança eu sentia preconceito de cor. Queria o curso de sociologia porque,
se o problema era esse preconceito, eu deveria estudar sociologia para me proteger do pre­
conceito, que é formado ao nível sociocultural” (BICUDO, 1994, p.6). Damasceno (2010,
p.12) aponta para a importância dos estudos sobre os intelectuais negros no Brasil.
18 Entrevista de Virgínia Leone Bicudo a Marcos Chor Maio em 25. Set. 1995; ver Maio
( 2010 ) .

31
centralidade que a educação assumiu no seio da lamília com o
um m eio indispensável para a ascensão social. A vivência do
racismo pela menina da Vila Economizadora transformou a ex­
periência social e individual do preconceito de cor em reflexão
intelectual, nomeando-a “questão racial”.
Em 1942, Bicudo ingressou na recém-criada Divisão de Estu­
dos Pós-Graduados da ELSP, coordenada pelo sociólogo norte-
americano Donald Pierson (1900-1995)19. Sob a orientação de
Pierson, ela se interessou pelos “estudos de atitudes”, na con­
fluência da sociologia com a psicologia social. Inicialmente,
seu projeto de pesquisa se intitulava “Estudo da Consciência
de Raça entre Pretos e Mulatos de São Paulo”20, que já revelava
o interesse da socióloga pelo tema das tensões raciais. Indica­
va ainda a proposta comparativa implícita com o caso baiano,
pesquisado por Pierson.
O tema das relações étnicas e raciais adquiriu maior visibili­
dade na agenda de pesquisas da ELSP no início dos anos 1940
com os estudos acerca “da com petição entre diferentes ‘cores’ e
nacionalidades” e “sobre atitudes raciais entre brancos e negros
em São Paulo”, utilizando questionários, entrevistas e histórias
de vida.21 A ELSP estava em sintonia com as transformações
urbano-industriais que vinham ocorrendo na cidade inspiran-
do-se nos estudos sociológicos sobre Chicago.
Dos três alunos (Virgínia Bicudo, Gioconda Mussolini e Ora-
cy Nogueira) da primeira turma do mestrado da ELSP (1942-
1945), Bicudo e Nogueira realizaram pesquisas sobre atitudes
raciais, chegando a conclusões distintas do orientador Donald
19 Sobre Donald Pierson, ver Corrêa (1987).
20 Carta de Donald Pierson a Virgínia Bicudo, 21. Ago. 1942. Acervo Virgínia Leone Bicudo,
Divisão de Documentação e Pesquisa da História da Psicanálise da SBPSP.
21 A Tentative Outline of Expenditures for Research and Translations in Connection with
the Grant of the Rockefeller Foundation for the Year 1941, 3p. Acervo Donald Pierson.
Arquivo Edgard Leuenroth (AEL)/UNICAMP.

32
Pierson. Nogueira elaborou dissertação sobre o estigma na ex­
periência social de tuberculosos, na qual se encontram os te­
mas das atitudes sociais e dos estereótipos (NOGUEIRA, 2009).
Publicou no curso de graduação artigo sobre o preconceito de
cor com base em investigação sobre atitudes desfavoráveis de
anunciantes de São Paulo ao contratarem trabalhadores de cor
a partir de anúncios de procura e oferta de emprego do jornal
D iário P opu lar.
Quanto à natureza das atitudes adversas aos negros em São
Paulo, esta não se limitaria ao “preconceito de raça” e tampou­
co ao “preconceito de classe”. Nogueira sugere uma “terceira
via”, o preconceito de cor, que seria um “tipo de preconceito
intermediário”, uma espécie de intersecção entre cor e classe,
não se confundindo com o de estrato racial — próprio ao m o­
delo norte-americano, no qual a ascendência negra, mesmo
que longínqua, definiría a identidade racial do indivíduo —
nem com o preconceito de classe, na medida em que negros
e pardos localizados em posições sociais elevadas na estrutura
social não estariam imunes a atributos negativos preconcebi­
dos derivados da cor (NOGUEIRA, 1942, p. 357; CAVALCANTI,
1996; MAIO, 2008). Diferente da chave interpretativa pierso-
niana, que privilegia o preconceito de classe, ele afirma que
processos de ascensão social não cancelam as marcas raciais.
Em seu estudo sobre atitudes raciais, Bicudo apresenta afini­
dades com o trabalho de Nogueira.
Durante o mestrado (1942-1945), Bicudo cursou diversas disci­
plinas que abordavam aspectos sociológicos e antropológicos so­
bre as relações étnico-raciais. Das disciplinas, professores e notas
alcançadas temos: Raça e Cultura (ministrada por Donald Pier­
son), na qual obteve nota 9,0; Negro no Brasil (Donald Pierson),
9 e !4; Etnologia Brasileira (Herbert Baldus), 9,0; Assimilação e

33
Aculturação (Emilio Willems), 6,0; Princípios de Antropologia So­
cial (A. R. Radcliffe-Brown), 6,0; Estudos da Sociedade (Donald
Pierson), 9,0; Métodos nas Ciências Sociais (Donald Pierson), 9,0;
Introdução à Antropologia Social (Antonio Rubbo Müller), 7,0.22
Da plêiade de professores e da diversidade de cursos, “Negro
no Brasil”, ministrado por Donald Pierson, foi a disciplina em
que Bicudo alcançou a maior nota. Na dissertação, ela aborda
tema concernente à tradição, das ciências sociais brasileiras, do
persistente exercício de reflexão sobre os problemas e desafios
recorrentes da sociedade em se constituir com o nação moderna.
O negro com o questão é analisado nos anos 40 em contexto no
qual as inquietudes intelectuais sobre nossa sociedade passam
a ser vistas mediante a crítica ao ensaísmo e pela afirmação de
uma rigorosa produção do conhecim ento científico no âmbito
da incipiente institucionalização das ciências sociais no Brasil,
especialm ente em São Paulo e no Rio de Janeiro (VILHENA,
1997, p. 134-135).
Em seu estudo sobre a “questão racial” (BICUDO, 1945),
Virgínia Bicudo combina análise sociológica (estrutura de clas­
ses, mobilidade social, status, valores sociais, preconceito de
cor) com psicologia social ( “atitudes sociais”). Converge assim
para sua formação em ciências sociais associada a estudos e
experiências no campo da psicanálise. Na trilha de Pierson, ela
escolheu tema frequentado desde as primeiras décadas do sé­
culo XX pelo Departamento de Sociologia da Universidade de
Chicago, a exem plo do estudo clássico de Thomas e Znaniecki
(1918), que abordam processos de ajustamento dos imigrantes
poloneses nos EUA. Este fenôm eno, traduzido por expressivas

22 Ver carta de Donald Pierson a Virgínia Bicudo, datada de 18 de maio de 1944, no Acervo
Virgínia Leone Bicudo, Divisão de Documentação e Pesquisa da História da Psicanálise da
SBPSP. Os nomes dos professores das disciplinas podem ser encontrados nos anuários da
ELSP (1942 a 1944), quando Bicudo fez os cursos.

34
y
mudanças culturais, foi analisado na interseção entre valores
coletivos e atitudes individuais, ressaltando a dimensão sub­
jetiva nas interações sociais. Nesse momento, as pesquisas so­
bre atitudes raciais (preconceitos e estereótipos) enfatizavam
as críticas ao determinismo biológico, ao suposto caráter in­
ato das ações humanas, buscando as razões psicossociológi-
cas das hostilidades entre grupos sociais — étnicos, religiosos,
econôm icos, etc. (KLINEBERG, 1940, p. 346-347; RICHARDS,
1997). Em sintonia com esta perspectiva, Robert Park concebe
as atitudes a partir de motivações econôm icas, religiosas, de
busca de status ou suscitadas pela discriminação a minorias,
entre outras (PARK, 1931, p. 31)23.

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d e V irgínia Leone B icudo. S ão Paulo, 1 9 4 5 .

23 sobre a experiência de Park no Brasil, ver Valladares (2010).

35
Além de Park, Bicudo inspira-se em outro sociólogo da Uni­
versidade de Chicago, Ellsworth Faris, que entende a atitude
dos indivíduos a partir de determinados objetos que, no caso
da professora da ELSP, é o preconceito. Na perspectiva de Faris
(1937, p. 9-11), as atitudes deveríam ser analisadas em m om en­
tos de crise, pois revelam períodos de desorganização social;
ele segue interpretação de Park, que concebe as atitudes com o
expressão de momentos de tensão, de transformação social. Na
chave interpretativa de Park, “as mudanças sociais com eçam
com as mudanças nas atitudes condicionadas pelos indivíduos,
operando-se posteriormente mudanças nas instituições e nos
‘m ores’” (BICUDO, 1945, p. 2; PARK, 1931, p. 27 e 43).
A pesquisa de Virgínia Bicudo foi realizada entre 1941 e 1944,
durante o Estado Novo e ao longo da Segunda Guerra Mundial.
Utilizou sua experiência com o visitadora psiquiátrica, que já
vinha abordando criticamente, embasada em histórias de vida,
os casos da “chamada ‘criança-problem a’” (BICUDO, 1942, p.
42-43), alvos de preconceito ao serem transformadas em “cri­
anças escorraçadas [...] crianças estigmatizadas com o perversas”
(BICUDO, 1942a, p. 23). Elas seriam um fenôm eno sociológico
e psíquico derivado das tensões familiares, do contexto social.
O trabalho com o visitadora psiquiátrica expôs Bicudo às
tensões, preconceitos, violência e marginalização social que
envolviam as crianças das camadas populares. Esta realidade
estava longe do consenso. Sua prática profissional influenciou
a perspectiva sociológica de Bicudo, ao conceber um mundo
marcado pelo conflito social. Esta visada ganhou refinamento
sócio-antropológico na ELSP, especialm ente no mestrado.
Em sua investigação, ela orientou-se pelos estudos de Noguei­
ra (1942), Pierson (1945) e Stonequist (1937) e por artigos sobre
“atitudes sociais” de Park e Faris. Elegeu relatos de pais de alu-

36
y
nos de escolas públicas residentes em quatro bairros populares
(Bela Vista, Santana, Barra Funda e M ooca) e um de classe
média (Vila Mariana). As entrevistas foram realizadas com fa­
miliares que frequentavam a Clínica de Orientação Infantil da
Seção de Higiene Mental da Secretaria de Saúde do Estado de
São Paulo. Constou ainda do conjunto de depoentes24, ex-mili-
tantes da Frente Negra Brasileira (FNB), organização política de
ampla visibilidade nos anos 1930 em São Paulo, que foi coloca­
da na ilegalidade pelo governo estadonovista, assim com o ou­
tras organizações da sociedade civil (Andrews, 1991, 148-156).
Bicudo utilizou também o jornal da FNB: Voz d a R a ç a .25
A pesquisadora usou duas variáveis para qualificar seu uni­
verso: cor e classe social. Selecionou aspectos fenotípicos,
sendo que os pretos26 foram classificados pela cor, pelos ca­
belos “encarapinhados” e pelos pais que exibiam semelhantes
características. O princípio classificatório para os entrevistados
mulatos foi um dos pais ser preto e outro branco, ou um pardo
e outro branco, ou ambos pardos. Em termos de configuração
das classes sociais dos depoentes, as variáveis foram: renda,
profissão e instrução. (BICUDO, 1945, p .5).27
Bicudo verificou que os negros de m enor poder aquisitivo
apresentavam atitudes de maior rejeição em relação aos próprios
negros e mulatos, quando comparados com os brancos. Alguns

24 Foram realizadas mais de 30 entrevistas (BICUDO, 1945, p.3).


25 Bicudo deu nomes fictícios a FNB, denominada “Associação dos Negros Brasileiros”,
e o jornal Voz da Raça, intitulado “Os Descendentes de Palmares”. Uma das razões para
o uso dessas denominações diz respeito ao contexto político autoritário em que Bicudo
realizou a pesquisa. .
26 Em “Estudo de Atitudes Raciais entre Pretos e Mulatos em São Paulo”, Bicudo utiliza
predominantemente as categorias: preto, mulato e branco. Neste trabalho, uso os termos
negro, mulato e branco.
27 No caso da educação, os critérios foram: 1) até o curso primário completo para as cama­
das populares; 2) o curso secundário para os setores médios. Em termos de renda familiar,
Bicudo definiu acima de Cr$ 500,00 o perfil de classe média, e menos de Cr$ 500,00 as
classes populares (BICUDO, 1945, p.5).

37
entrevistados declararam não haver união entre os negros, pois
eram “invejosos e competitivos”. Outros afirmaram ser mais
bem tratados por brancos do que por negros. De acordo com a
análise dos relatos, tais atitudes de rivalidade entre os pretos e
de convívio mais harm onioso destes com os brancos estariam
calcadas no sentimento de inferioridade dos negros suscitado
pelo grupo dominante. Ao perceberem os brancos com o mais
simpáticos, os negros das çamadas populares seriam movidos
por um mecanismo de evitação do conflito com os brancos e
assim produziríam uma com pensação ao sentimento de subal-
ternidade (BICUDO, 1945, p. 63).
Em relação aos negros das camadas médias, as atitudes ra­
ciais apareceram com maior ênfase, na medida em que os en­
trevistados seriam alvos mais visíveis do preconceito de cor.
Um deles, criado por brancos e com curso secundário, chegou
a colocar em dúvida a citação do sociólogo Donald Pierson:
“Afirma-se na Bahia, com o fez o professor Pierson, que o negro
rico não sofre preconceitos (sic). Tal afirmação não é verda­
deira em São Paulo” (BICUDO, 1945, p. 9). O depoente contou
que passara por diferentes situações de preconceito no cotidi­
ano: não ser convidado para festas na casa de amigos brancos,
sofrer restrições na entrada em restaurantes da elite e não con­
seguir namorar mulheres brancas ou mulatas por oposição das
famílias (BICUDO, 1945, p. 10-20). Os negros das classes médi­
as têm ressentimento e são pessimistas quanto à possibilidade
de haver solidariedade entre brancos e negros. Estes, segundo
Bicudo, pertencentes aos estratos médios, enfrentavam o sen­
timento de inferioridade provocado pelas atitudes de precon­
ceito dos brancos, mediante determinados meios de ascensão
social, tais com o o casamento, o exercício de profissões liberais
e da “boa aparência” (BICUDO, 1945, p. 22). Mesmo quando

38
ascendiam profissionalmente ou conseguiam um diploma de
nível superior, eles continuavam a sofrer constrangimentos no
meio social branco, o que provocaria a consciência de cor (B I­
CUDO, 1945, p. 21-22). Reforçando a crítica de seu depoen-
te a Pierson, Virgínia considera São Paulo um contraponto à
experiência baiana. Ela pondera que no caso paulista, “talvez
mais acentuadamente do que na Bahia, a posição ocupacional
inferior do negro incluiría aspectos da luta no nível de status
social, isto é, com mais dificuldades venceriam os méritos pes­
soais, por que encontrariam maior resistência com o negros”
(BICUDO, 1945, p. 42).
De acordo com Bicudo, entre os mulatos das camadas popu­
lares se observava consciência de cor mais acentuada do que
entre os pretos do mesmo estrato social, pois manifestavam
atitudes de evitação, receosos de serem chamados de “negros”.
Nos depoimentos, ficou evidente o desejo das mulatas das
classes baixas de procurar cônjuges da mesma cor, pois não
desejavam se unir a negros e tampouco sofrer preconceito por
terem se casado com brancos (BICUDO, 1945, p. 30).
No caso das atitudes dos mulatos das classes médias, os de­
poimentos demonstrariam a presença do sentimento de inferi­
oridade. Na visão de Bicudo, eles ansiavam ser reconhecidos
com o brancos uma vez que estavam conscientes de que a cor
era uma barreira à ascensão social. (BICUDO, 1945, p. 36-37).
Ela se inspira em Nogueira (1942), ao considerar que o mu­
lato procurava adquirir símbolos do grupo branco dominante,
consciente de que a discriminação estaria na razão direta da
associação de sua cor com a origem africana. Este seria um
indicador preciso da existência no Brasil de “um preconceito
de cor, distinto do preconceito de raça ou de classe” (BICUDO,
1945, p. 38).

39
Na segunda parte da dissertação, Bicudo aborda, com o m en­
cionado acima, a Frente Negra Brasileira (FNB), através de en­
trevistas com militantes e análise de exemplares do porta-voz
da organização: o jornal Voz d a R aça. A instituição era fruto
da m obilização dos estratos sociais médios que creditavam à
“barreira de cor” as condições adversas vividas pelos negros
na sociedade brasileira. O objetivo da FNB era criar uma soli­
dariedade entre os negros para a luta “contra os obstáculos à
ascensão social em consequência da cor” (BICUDO, 1945, p.
47). Por meio da educação, do trabalho, da valorização profis­
sional e da ação política, os negros seriam reconhecidos pelo
grupo branco dominante (BICUDO, 1945, p. 47).
Na conclusão, Bicudo observa que, quanto mais o negro
ascende social e econom icam ente, maior é a possibilidade de
ocorrer consciência racial, destoando assim de seu orientador
Donald Pierson. Em B ra n co s e p r e to s n a B a h ia , Pierson (1945,
p. 421) conclui que “existe preconceito no Brasil, mas é pre­
conceito antes de classe que de raça, apesar de estar, até certo
ponto, ligado à cor”. No capítulo ‘“Ideologia racial’ e atitudes
raciais”, ele constata, com base em pesquisa de fontes orais e
documentais realizada em Salvador, a reduzida atenção confe­
rida ao conflito racial ou ao seu controle pela sociedade baiana
(PIERSON, 1945, p. 269-270). As atitudes raciais seriam carac­
terizadas por uma série de estereótipos, especialmente quanto a
mulatos e negros. Pierson (1945, p. 295-296) vê a sociedade ba­
iana com o “constituída em classes, em que a com petição toma
antes a forma de luta entre as classes (que por motivo de ordem
histórica vieram a coincidir em considerável extensão com a
cor) que de luta entre as raças ou cores em si m esmas”. Os
negros que conseguem alcançar certo statu s social, segundo o
sociólogo, tenderíam a ser incorporados ao grupo dominante

40
y
branco. Assim, a consciência racial dos negros baianos seria
mínima, pois as atitudes estariam no âmbito da chave classista.
Diferente de Pierson, Bicudo indica a importância da análise
do conflito social e do racismo. Os esforços de pretos e mu­
latos pela conquista de novo status social, mediante investi­
mentos em educação e formação profissional, não levariam à
eliminação “das distâncias sociais na linha de cor”, devido à
persistência do preconceito de cor (BICUDO, 1945, p. 65). As
tensões sociais entre brancos e negros seriam mais explícitas,
tendo em vista as barreiras raciais impostas aos negros dos se­
tores médios, que procurariam ascender socialmente.
O estudo sociológico de Virgínia Bicudo guarda afinidade
com investigações desenvolvidas som ente nos anos 1950. Os
limites à ascensão social de negros de classe média produzem
movimentos sociais a exem plo da FNB e processos de afirmação
de identidades raciais com o caminho à superação das “barrei­
ras de cor”. Assim com o Bicudo, inclusive com um capítulo in­
titulado “Atitudes, Estereótipos e Relações Raciais”, o sociólogo
Luiz de Aguiar Costa Pinto (O N egro n o R io d e J a n e ir o , 1953),
chegou a conclusão semelhante à cientista social ao analisar a
atuação do Teatro Experimental do Negro na virada dos anos
1940 para os anos 1950.28
No final da Segunda Guerra Mundial, Virgínia Bicudo apre­
sentou reflexão inovadora, ao considerar a cor com o importante
variável na produção de desigualdades sociais em contexto in­
telectual no qual prevalecia a máxima de que o preconceito de
classe seria reinante na sociedade brasileira. Sua arguta análise
sociológica antevê interpretações realizadas apenas na década

28 Além do trabalho de Pinto (1953), o estudo de Bicudo (1945) aproxima-se da pesquisa de


Nogueira (1955) e se diferencia da análise de Bastide e Fernandes (1955), a qual considera as
assimetrias raciais a partir das desigualdades sociais. Sobre as diferentes perspectivas presen­
tes no Projeto Unesco, ver Maio (1997); sobre Pinto, ver Maio (2009) e Villas Bôas (2006).

41
de 50, no contexto do ciclo de pesquisas sobre as relações ra­
ciais no Brasil patrocinado pela Unesco.

Virgínia Bicudo no Projeto Unesco

Ao concluir a primeira dissertação de mestrado sobre a “questão


racial” defendida em uma instituição universitária brasilei­
ra, Bicudo continuou lecionando na ELSP e exercendo suas
atividades de visitadora psiquiátrica e psicanalista. Em 1945,
conheceu o psicólogo social Otto Klineberg, da Columbia Uni-
versity, que chegara dos EUA com a missão de, a um só tempo,
trazer a experiência norte-americana no campo da psicologia
social para o Brasil e criar o Departamento de Psicologia da
Universidade de São Paulo (USP). Bicudo assistiu ao Seminário
de Psicologia Social,29 oferecido por Klineberg na Faculdade de
Filosofia, Ciências e Letras (FFCL) da USP, em 1946. Foi ainda
convidada a participar do livro P sico lo g ia m o d ern a , organizado
pelo psicólogo canadense, durante a estada de Klineberg no
Brasil, entre 1945 e 1947. Esta obra, publicada em 1953, teve
o propósito de estimular o desenvolvimento da psicologia no
Brasil, em diálogo com outros campos disciplinares. A coletânea
contou com a colaboração de pesquisadores oriundos da an­
tropologia, da psicologia social, da sociologia, da educação, da
higiene mental e da psicanálise.30 Eles estavam vinculados à
29 A partir de 1945, Bicudo tornou-se professora-assistente da cadeira de Higiene Mental
da Faculdade de Higiene e Saúde Pública da USP. Em 1946, começou a ministrar o curso
de Higiene Mental na Faculdade de Enfermagem, anexa à Faculdade de Medicina da USP.
Deu aulas de Higiene Mental do Trabalho no curso de Organização Racional do Trabalho
promovido pelo Instituto de Organização Racional do Trabalho (Idort), além de participar
do curso de Higiene Mental patrocinado pela Legião Brasileira de Assistência (LBA). Ver
Virgínia Leone Bicudo. Documentos Diversos, CEDOC-FESPSP.
30 O livró Psicologia moderna contém artigos que tratam de tópicos como cultura e perso­
nalidade, diferenças individuais e grupais, atitudes e opiniões, etc. Fizeram parte da coletâ­
nea, entre outros, Durval Marcondes, Anita Cabral, Herbert Baldus, Mário Wagner Vieira da
Cunha, Lourenço Filho, Virgínia Leone Bicudo, Aniela Ginsberg e Betti Katzenstein.

42
y
USP, à ELSP, à Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, à
Faculdade Nacional de Filosofia (do Rio de janeiro) e a institu­
tos paulistas de educação, psicologia e psiquiatria, o que revela
a rede intelectual e institucional tecida por Klineberg. Neste
período, foi criada a Sociedade de Psicologia de São Paulo.
As intersecções entre sociologia e psicologia social adquiriram
mais visibilidade no final dos anos 40, quando ainda se viviam os
ecos do Holocausto e a busca de inteligibilidade de um fenôm eno
inédito na história da humanidade. Estudos de estereótipos, ati­
tudes e caráter nacional foram alguns dos tópicos da agenda de
pesquisa em ciências sociais do pós-guerra (KLINEBERG, 1949).
Em setembro de 1949, a Organização das Nações Unidas para a
Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) aprovou uma agenda
antirracista, sob o impacto do nazismo, da visível persistência
do racismo em diversos países e do processo de descolonização
africano e asiático. Em junho de 1950 foi inserido no programa
da agência internacional a realização de um ciclo de pesquisas
sobre as relações raciais no Brasil, país considerado um contra-
exemplo em matéria de racismo, em perspectiva comparada com
a experiência internacional, notadamente os EUA e a África do
Sul do pós segunda guerra (MAIO, 1999).
Otto Klineberg teve papel relevante com o diretor interino do
Departamento de Ciências Sociais e consultor da Unesco no de-
lineamento da pesquisa sobre relações inter-raciais no Brasil.
Ele recomendou à Unesco que realizasse ampla e diversificada
investigação, incluindo regiões tradicionais e modernas no in­
tuito de observar o com plexo e matizado padrão de relações
raciais no país (MAIO, 1999, p. 148). Enfatizou a importância da
inclusão dos aspectos psicossociais nas pesquisas e sugeriu qua­
tro nomes: Aniela Ginsberg, Cícero Christiano de Souza, Betti
Katzenstein e Virgínia Bicudo. Quanto à última sugestão, em

43
documento endereçado ao etnólogo Alfred Métraux, chefe do
Setor de Estudos sobre Raça do Departamento de Ciências So­
ciais da Unesco, Klineberg informou que Bicudo encontrava-se:

[...] in the Division of Mental Health of the São Paulo School System,
working with Dr. Durval Marcondes. [...] She is part Negro in origin,
and is very much interested in the problem of race relations. She
wrote quite a good master’s essay on the attitudes of Negrões in São
Paulo to Negro-White relations. This was done under the direction of
Donald Pierson of the Escola Libre [sic] (p. 7).31

Com estas credenciais, Virgínia Bicudo foi incorporada à


equipe do Projeto Unesco. Dando continuidade ao estudo re­
alizado no mestrado, ela pesquisou, a partir da coleta de in­
form ações de uma amostra significativa do alunado do então
curso primário de escolas públicas no município de São Paulo
(4.520 escolares), as atitudes raciais na vida escolar. Incluiu na
pesquisa entrevistas com familiares de crianças e adolescentes
(9 a 15 anos) das camadas populares e médias. O universo de­
lineado era com posto por 86,32% de brancos, 6,86% de negros,
3,99% de japoneses e 2,89% de mulatos. Os escolares foram
classificados de acordo com o fenótipo, a saber: traços físicos,
tipo de cabelo e cor da pele.
Os objetivos da pesquisa eram “evidenciar os sentimentos e
os mecanismos psíquicos de defesa manifestos nas atitudes re-

31 “[...] na Divisão de Saúde Mental da Secretaria de Educação de São Paulo, trabalhando


com o dr. Durval Marcondes. [...] Ela tem ascendência em parte negra e está muito interes­
sada no problema das relações raciais. Ela escreveu uma dissertação de mestrado muito
boa sobre as atitudes dos negros nas relações entre negros e brancos em São Paulo. Isto foi
realizado sob a direção de Donald Pierson da Escola Libre [sic] (p. 7)”, in Klineberg, Otto.
“Comments on memorandum regarding research on race relations in Brazil", 1/8/1950, p.
4, in: Race Questions & Protection of Minorities. REG 323.1. Part II up to 31/VII/50 (BOX
REG 145). Unesco Archives. Tradução do autor.

44
y
lacionadas com a cor dos colegas e verificar a influência das
relações intrafamiliares no desenvolvimento daquelas atitudes”
(BICUDO, 1955, p. 227-228). Um questionário, baseado nas per­
guntas “Perto de quem você gostaria de sentar-se?” e “Perto de
quem você não gostaria de sentar-se?” (BICUDO, 1955, p. 229),
foi utilizado para aferir as atitudes de rejeição ou de intimidade
e aproximação entre os alunos, associando-as à cor da pele e
lembrando a escala de distância social de Bogardus (1933).
Ao serem indagados sobre os motivos das atitudes de rejeição,
os alunos citaram o fato de o colega negro ser “mau aluno, mal­
doso, mal-educado e mau amigo”. Cabe destacar que os termos
“sujo, porco, pobre, negro ou de outra raça” foram pouco utili­
zados, o que demonstra que foi mínima a rejeição por motivos
visivelmente raciais. Diante disso, Bicudo ressaltou a hipótese de
“os sentimentos hostis relacionados com a cor terem sido cen­
surados e portanto camuflados” (BICUDO, 1955, p. 244-245). O
critério racial só apareceu nitidamente em 18 das 8.072 respostas
dadas quanto aos motivos de evitação em relação ao colega de
classe. Dentre as denominações atribuídas aos negros mais re­
jeitados, encontram-se “ruim, briguento, malcriado, malcompor-
tado, mal-educado, copiador” (BICUDO, 1955, p. 290).
No caso dos familiares entrevistados, os brancos buscam
ocultar suas atitudes adversas em relação a mulatos e negros.
Um repertório de comentários foi acionado: “há bons e maus
entre brancos e pretos”; “são todos hum anos”; “o que faz as
pessoas diferentes é a educação e a instrução”. Todavia, evi­
tariam relações mais próximas em certas situações da vida pri­
vada, com o casamentos com pessoas de cor. Outro grupo se
manifestaria francamente contra os negros, demonstrando que
estes seriam “perversos, maus, bêbados, desonestos, vagabun­
dos, ladrões e m acum beiros” (BICUDO, 1955, p. 294).

45
Ao final do estudo, Bicudo chegou a conclusões similares
àquelas apresentadas em sua dissertação de mestrado. Na
pesquisa patrocinada pela Unesco, ela apontou que o estu­
dante negro foi o que mais se rejeitou entre os escolares de cor,
e que tal atitude ocorria porque o negro “reafirmava as atitudes
do branco com o meio de defender-se de uma rejeição de fora
maior, a qual uma rebelião aberta poderia acarretar” (BICUDO,
1955, p. 285). Bicudo apresentara semelhante visão em sua dis­
sertação de mestrado; a presença do conflito racial novamente
aparece com o a autora registra em sua análise sobre a Frente
Negra Brasileira, na qual afirmou que os negros reprimiam seu
ódio contra os brancos, tem endo um contra-ataque destes (B I­
CUDO, 1955, p. 285).
Na dissertação, Bicudo evidenciava que o preconceito de cor
aparecia com o um impeditivo aos grupos de cor: mesmo di­
ante dos esforços de negros e mulatos para elevar seu status
educacional e profissional, eles continuavam a sofrer restrições
no meio social dos brancos, devido à permanência no País do
preconceito de cor (BICUDO, 1945, p. 65). A única opção seria o
branqueamento, ou seja: “à medida que o indivíduo ‘branqueia’
na cor e na personalidade encontra maior aceitação social” (BI­
CUDO, 1945, p. 38). Nesta linha de pensamento, no estudo da
Unesco a pesquisadora notou que o preconceito quanto aos mu­
latos tendia a diminuir quando estes “embranqueciam”. Para Bi­
cudo, o fato de o mulato com “característica de branco conseguir
integrar-se no grupo de brancos milita a favor da tese pela qual
a discriminação do branco contra o negro corresponde a um
preconceito de cor e não de raça” (BICUDO, 1955, p. 291-292).
Esta conclusão converge para a análise de Oracy Nogueira.
A participação de Bicudo no “projeto U nesco” contribuiu
para a produção de um conjunto de dados e análises sistema-

46
tizadas sobre o preconceito e a discriminação racial no Brasil.
Sua pesquisa foi tratada com o mero “apêndice”, bem com o
as de Oracy Nogueira e Aniela Ginsberg, em R ela çõ es R a c ia is
en tre N egros e B r a n c o s em S ão P a u lo (BASTIDE; FERNANDES,
1955). Na primeira página do livro consta que ele foi organi­
zado “sob a direção dos professores Roger Bastide e Florestan
Fernandes.” Logo no início do estudo de Bicudo, lê-se uma nota
de autoria de Paulo Duarte, jornalista, político, antropólogo,
um dos mentores intelectuais da Universidade de São Paulo,
editor da revista Anhembi e personagem central nos intercâm­
bios culturais e políticos Brasil-França (BASTOS, 1988). Ele foi
o responsável pela publicação do livro com as pesquisas sobre
as relações raciais em São Paulo. Em suas palavras:

Concluiu-se no capítulo anterior [escrito por Florestan Fernandes], a


publicação do relatório do inquérito Unesco-ANHEMBI sobre as re­
lações raciais entre negros e brancos de S. Paulo. Para dar ideia da
maneira por que se realizou esse inquérito sob a direção de Roger
Bastide e Florestan Fernandes, ambos professores da Universidade
de S. Paulo, iniciou-se a publicação de alguns documentos ou, se o
quiserem, protocolos de pesquisa, que serviram de base a essa impor­
tantíssima investigação social. A série destes trabalhos foi selecionada
dentro de numerosos relatórios parciais, sendo escolhidos os mais
importantes de cada face das pesquisas realizadas. O presente foi
feito por d. Virgínia Leone Bicudo, professora de Psicanálise e Hi­
giene Mental da Escola de Sociologia e Política de S. Paulo, a quem
aqueles ilustres professores [Bastide e Florestan] confiaram o estudo
das atitudes dos alunos dos grupos escolares da Capital em relação
com a cor dos seus colegas. A sua leitura demonstra bem o rigor e a
seriedade com que se realizou o inquérito patrocinado pela Unesco e
pela revista ANHEMBI (BICUDO, 1955, p. 227).

47
Duarte afirma que o estudo de Bicudo seria orientado por
Bastide e Fernandes. Indo além, ele o qualificou de “alguns
docum entos”, “protocolos de pesquisa”, “relatórios parciais”.
Na introdução de Roger Bastide não há qualquer m enção ao
trabalho de Bicudo tampouco aos de Nogueira e Ginsberg. Di­
ferente de Oracy Nogueira, que reagiu ao equívoco de Duarte
publicando carta,32 na revista A n h em b i evidenciando a total
32 Em carta a Paulo Duarte, Nogueira, sentindo-se prejudicado pela forma como seu traba­
lho fora inserido na edição da pesquisa da Unesco em São Paulo, historia sua inserção no
ciclo de investigações realizadas no Estado. Em primeiro lugar, afirma que sua participação
na pesquisa ocorreu a partir de negociações diretamente estabelecidas com Alfred Métraux
em dezembro de 1950. Em seguida, considera que o conjunto de estudos realizados em São
Paulo parece, em seu formato, com aqueles levados a efeito na Bahia, os quais procuraram
contrastar a capital com comunidades do interior. Como já se encontrava em andamento
“um estudo monográfico do município de Itapetininga, julgou [...] Métraux mais razoável e
viável que aprofundasse meu estudo [...] Vê, pois, V. S. que meu estudo não pode ser consi­
derado nem como subsídio nem como apêndice do realizado pelos nossos amigos comuns,
os ilustres professores Bastide e Fernandes, nem, ainda, como tendo sido executado sob a
orientação dos mesmos, como consta da capa do volume. Aliás, o subtítulo posto na capa
— ‘Ensaio sociológico sobre as origens, as manifestações e os efeitos do preconceito de
cor no m unicípio (é meu o grifo) de São Paulo’ ;— torna ilógica a inclusão do meu estudo
no mesmo volume, pois como poderia um trabalho sobre o município de Itapetininga ser
considerado parte ou subsídio de outro sobre o município de São Paulo, ambos realizados
simultaneamente” (carta de Oracy Nogueira a Paulo Duarte, publicada em Anhembi, ano
V, nQ6, novembro de 1955, p. 554-555). Em sua resposta, Duarte faz breve histórico da ori­
gem do Projeto Unesco em São Paulo e revela completo desconhecimento das negociações
entre Nogueira e Métraux. Indo além, afirma que, durante o processo de edição do livro,
não recebeu qualquer informação por parte de Bastide, Fernandes ou Nogueira a respeito
da independência do trabalho deste último. No entanto, Duarte não perde a oportunida­
de para desqualificar Nogueira, ao considerá-lo um desconhecido da revista Anhembi.
Ademais, ao se referir ao subtítulo, o jornalista comenta que “nós [da revista A n hem bi
estranhamos que o [...] trabalho [de Nogueira] não fosse sobre a Capital de S. Paulo, campo
principal da pesquisa. Atribuímos no entanto o fato a uma razão principal: o desejo do
professor Bastide, exato como sempre, de ilustrar o inquérito para fins comparativos com
uma pesquisa numa cidade do interior” (carta de Paulo Duarte a Oracy Nogueira, publicada
em Anhem bi, ano V, na 6, novembro de 1955, p. 556). Fernandes 098 6 , p. 16), trinta anos
depois, lembra que, “'por lapso editorial’ (devido provavelmente ao desejo de Paulo Duarte
salientar o trabalho de R. Bastide e F. Fernandes), o volume coletivo saiu com o título da
primeira monografia. Além disso, os créditos de uma edição cooperativa não foram incor­
porados à página de rosto e um dos estudos arrolados no índice (publicado anteriormente
pela revista Anhem bi) deixou de ser transcrito”. O texto omitido da edição de 1955 a que
se refere Fernandes é “Preconceito racial de marca e preconceito racial de origem”. Os
trabalhos de Nogueira, Bicudo e Ginsberg foram excluídos da segunda edição do livro.
Apenas os estudos de Fernandes e Bastide foram republicados no volume 305 da Coleção
Brasiliana, com uma mudança do título da publicação original: em vez de “Relações raciais
entre negros e brancos em São Paulo”, passa a ser R elações entre bran cos e negros em São
Paulo. São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1959, p. 8.

48
/
independência de sua pesquisa sobre as relações raciais era
Itapetininga a com eçar pelo contrato firmado diretamente com
a Unesco, Bicudo não teria manifestado qualquer reação pú­
blica. Embora, até o momento, não se tenha encontrado docu­
mentos que com provem a existência de um contrato entre a
Unesco e Bicudo, à semelhança do que ocorreu com Nogueira,
é provável que tenha havido um convite, um contrato indi­
vidual com a organização internacional.
A publicação dos estudos de Virgínia Bicudo e Oracy Noguei­
ra com o “apêndices” representa o retrato de uma época das
ciências sociais em São Paulo. A ELSP encontrava-se em crise
institucional, especialm ente a partir da saída, por motivos de
saúde, de Donald Pierson, nos primeiros anos da década de
1950. Acrescentem-se as disputas acadêmicas entre a ELSP e a
FFCL-USP. Como diria Alfred Métraux: elas seriam “institutiones
rivales”.33 Estavam identificadas com tradições sociológicas dis­
tintas que se traduzem frequentem ente em visões, por vezes,
estereotipadas, a exem plo da contraposição visada empírica
(ELSP) versus perspectiva teórica, abstrata (FFCL).
O envolvimento de Bicudo com o ciclo de pesquisas da
UNESCO ocorreu simultaneamente às suas atividades na So­
ciedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, na ELSP e no
Serviço de Higiene Mental da Secretaria de Saúde do Estado de
São Paulo. Na década de 1950 houve a ampliação das iniciativas
de Bicudo no cam po da institucionalização da psicanálise no
Brasil (BICUDO, 1989, p. 97). Em 1955, Bicudo viajou a Londres
para aprofundar seus conhecim entos psicanalíticos. Freqüentou
cursos no Instituto de Psicanálise da Sociedade Britânica e se

33 Métraux, Alfred. “Rapport au Directeur Général sur Mission au Brésil (16 nov. - 20 déc.
1950)” p.l, in Race Questions & Protection of Minorities. REG 323.1. Part II up to 31A W 50
(BOX REG 145), Unesco Archives.

49
especializou em psicanálise da criança na Tavistock Clinic, sob
a supervisão de Esther Bick (VALLADARES, 1996). Em 1956,
N osso M u n do M ental, livro organizado a partir do programa da
rádio Excelsior, apresentado por Virgínia, e de sua coluna no
jornal F o lh a d a M an h ã, foi lançado em São Paulo. Trata-se de
uma obra de divulgação científica utilizando meios de com uni­
cação de massa, algo inédito no campo da psicanálise no país.34
Na década de 1960, de volta ao Brasil, após cinco anos de es­
tudos na Inglaterra, Bicudo tornou-se professora e diretora do
Instituto de Psicanálise da Sociedade Brasileira de São Paulo.
Em 1970, dando continuidade a seus esforços em prol da ins­
titucionalização da psicanálise no país, ela fundou o Grupo
Psicanalítico de Brasília. No ano seguinte, Virgínia organizou o
Instituto de Psicanálise de Brasília. Em 1976, iniciou o curso de
Form ação de Analistas de Crianças, com a colaboração de Lygia
de Alcântara Amaral (ROCHA; HAUDENSCHILD, 2004, p.69).
No decorrer das décadas de 1980 e 1990, Virgínia Bicudo par­
ticipou de Conferências, Jornadas, Encontros e produziu uma
vasta obra científica veiculada principalmente em periódicos
nacionais na área da psicanálise.
Na última frase de uma entrevista publicada nos C a d ern o s
P agu , Bicudo confessou, em tom bem-humorado: “eu sempre
brinco que estreei o divã no Brasil” (MAIO, 2010). Ela poderia
ter ampliado o leque de evidências que confirmam sua trajetória
ímpar de mulher que protagonizou a criação e o desenvolvi­
mento de instituições e a produção de conhecim ento científico
no campo das ciências sociais e da psicanálise.

34 O livro condensa vários estudos sobre a personalidade desenvolvidos por Bicudo em


diferentes instituições de ensino: a ELSP, Associação Brasileira de Psicanálise e, principal­
mente, a Seção de Higiene Mental do Serviço de Saúde Escolar de São Paulo. Ao longo do
livro, a autora ilustra seus conceitos teóricos por meio de casos exemplares, que reconsti­
tuem problemas familiares e situações cotidianas (BICUDO, 1956).

50
y
A titudes R a c ia is d e P retos e M ulatos em S ão P a u lo é um encon­
tro bem sucedido da interdisciplinaridade (sociologia, antropo­
logia e psicologia social) presente nos estudos da Escola Livre de
Sociologia e Política. A socióloga Virgínia Bicudo é fruto desse
processo desenvolvido nos anos 1940 e 1950. Arguta análise
acadêmica associada à sensibilidade em questões sócio-raciais
são as marcas de distinção do estudo de Virgínia Bicudo.
Há 15 anos, Virgínia Bicudo concedeu-m e uma entrevista
(MAIO, 2010). Nossa conversa aconteceu na então residência
da psicanalista, na Avenida 9 de Julho. Em certo m omento, ela
me mostrou orgulhosamente uma foto da turma de formatura
do sr. Teófilo, seu pai, no prestigioso Ginásio do Estado. Ao
me lembrar deste encontro, tão cheio de sentidos, eu o associo
a uma frase do sociólogo Alberto Guerreiro Ramos: “É preciso
não carregar a pele com o um fardo.”35

Referências

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60
ATITUDES RA CIA IS DE PRETO S
E M ULATO S EM S Ã O PA U LO

V irgínia L eone B icudo

I ntrodução 63

Atitudes manifestadas por indivíduos entrevistados 67


a) Casos de pretos da classe social “inferior” 68
Análise das atitudes manifestadas nos casos apresentados 71

b) Casos de pretos das classes sociais intermediárias 72


Análise das atitudes manifestadas pelos entrevistados
das classes sociais intermediárias 96

c) Casos de mulatos da classe social “inferior” 103


Análise das atitudes manifestadas nos casos dos mulatos
da classe social “inferior” 108

d) Casos de mulatos das classes intermediárias 110


Análise dos casos de mulatos das classes sociais
intermediárias 120

e) Atitudes reveladas numa associação de homens


de cor por um dos membros da diretoria 123
Análise do material referente à “Associação de
Negros Brasileiros” 152

R esumos e hipóteses para pesquisa posterior 157

61
Introdução

() presente trabalho é um estudo preliminar que visa ilustrar a


aplicação de um m étodo e uma técnica na coleta de dados e
abrir caminho para pesquisas posteriores.
O problema abordado refere-se às atitudes raciais de pretos
e mulatos, em São Paulo. Através de alguns casos, procuramos
conhecer as atitudes de pretos e mulatos relacionadas com a
questão racial, a fim de levantar hipóteses que exigirão novas
observações para confirmá-las, melhorá-las ou substituí-las.
Na coleta do material, assumimos a posição de observador,
procurando no mundo exterior as evidências para a formação
das hipóteses. Todavia, ao iniciar o trabalho de campo, pos­
suíamos um corpo de conhecim entos que nos sugeriu a esco­
lha do problema a estudar, assim com o a orientação do plano
de investigação. Referimo-nos ao trabalho N egrões in B ra sil, de
Donald Pierson (PIERSON, 1942b), o qual tomamos com o base,
e ao trabalho de Everett V. Stonequist intitulado The m a rg in a l
m an (STONEQUIST, 1937).
A atitude é um elem ento da personalidade adequado para o
estudo de relações raciais. Sendo a atitude determinada pela
natureza original do homem e pelas condições sociais em que
vive, é necessário distinguir entre atitudes individuais e atitu­
des sociais. As atitudes sociais expressam o aspecto subjetivo
da cultura e conduzem ao conhecim ento das condições so­
ciais que concorreram para sua form ação. Segundo expressão
de Faris (1937, p. 133), a atitude é o m odo de conceb er um
objeto. Constitui, portanto, um m eio exato e fértil para o co ­
nhecim ento da atitude de uma pessoa pedir-lhe que defina
objetos particulares. As atitudes, diz o mesm o autor, repre­
sentam os aspectos estáveis e organizados da personalidade e

63
tendem a persistir enquanto funcionar bem e permitir a con­
duta para proceder de um m odo satisfatório. Evidencia-se a
profunda significação das atitudes no processo de interação
social. Não m enos significativo é o estudo das atitudes sociais
para a investigação dos processos de mudança social. Conso­
ante as observações de Park (1931, p. 17), as mudanças sociais
com eçam com as mudanças nas atitudes condicionadas pelos
indivíduos, operando-se posteriorm ente mudanças nas insti­
tuições e nos m ores.
O m étodo e a técnica empregados na pesquisa foram o es­
tudo de caso e a entrevista. Procuramos conhecer as condições
de casos individuais e de uma associação de “homens de cor”,
empregando com o técnicas de trabalho a entrevista e a análise
de opiniões emitidas no jornal mensário dessa associação. O
material referente à associação de homens de cor, dem ons­
trando as atitudes assumidas publicamente, valeu-nos para as
observações de aspectos da estrutura social, observação esta
aprofundada no conhecim ento de outros aspectos evidencia­
dos pelas entrevistas.
Para atingir a finalidade das entrevistas no conhecim ento das
atitudes sociais no que concerne à “raça”, demos sempre aten­
ção aos aspectos de interação entre o entrevistador e o entre­
vistado. Quanto ao primeiro, procuramos estar conscientes dos
motivos pessoais que nos conduziram à pesquisa, bem como
conhecer nossas atitudes sobre o problema em estudo para o
desenvolvimento de autocontrole e autocrítica e, assim, evitar
interferir na entrevista e na interpretação do material colhido
com possível projeção de condições pessoais. Quanto ao en­
trevistado, consideramos o fenôm eno do rap p ort ou da trans­
ferência, procurando estabelecer as condições psicoafetivas em
que o entrevistado se dispõe a comunicar-nos suas atitudes,

64
I
mesmo aquelas que em geral estejam intimamente ocultas por
censuras sociais, m edos ou outros motivos.
Entrevistamos mais de 30 pessoas para realizar nosso tra­
balho de caráter “exploratório”, isto é, trabalho de sondagem
com o objetivo de levantar hipóteses para pesquisas subse­
quentes com maior número de observações. Foi nosso intento
obter um relativo número de casos, a fim de que as hipóteses
sugeridas pelo material coligido apresentassem certo grau de
validade. Im pondo-se a limitação da observação, o número,
de casos foi limitado pela verificação da variabilidade das ati-
l udes apresentadas nos diferentes casos. Aliás, este é o critério
adotado quando utilizamos a técnica da entrevista: “O número
de entrevistas necessárias difere com a variabilidade da infor­
mação obtida. Quanto mais os entrevistados diferem em seus
relatórios, tanto mais pessoas são necessárias para entrevistas”
(BINGHAN; MOORE, 1934, p. 36).
Além dos casos por nós entrevistados, tivemos a contribuição
dos alunos do Seminário de Método dirigido pelo prof. Donald
Pierson, os quais apresentaram observações sobre atitudes de
pretos e mulatos em São Paulo.
Este trabalho foi realizado em São Paulo, tendo sido iniciado
em 1941 e terminado em 1944. Dos 30 casos apresentados, 11
foram encontrados na Clínica de Orientação Infantil da Seção
de Higiene Mental Escolar, representando, portanto, elementos
das classes sociais que enviam crianças para os grupos esco­
lares. Visitando os grupos escolares da Capital, tomávamos o
endereço de escolares pretos ou mulatos e nos dirigíamos aos
pais, dizendo-lhes que desejávamos conhecer as condições do
ambiente afetivo para orientá-los na educação dos filhos.
Procedíamos exatam ente com o nos demais casos da Clínica,
em que, visando a melhor ajustamento da personalidade da

65
criança, faz-se necessário o estudo do am biente afetivo. De
fato, em todos os casos foi sempre imprescindível uma ori­
entação educativa. Esta situação de dependência' da Clínica
na qual os pais dos escolares foram colocados facilitou-nos a
tarefa de estabelecer contato com pessoas estranhas. Os casos
foram colhidos em diversos grupos escolares, situados nos se­
guintes distritos: Bela Vista, Santana, Vila Mariana, Barra Funda
e Mooca. Todos, com exceção de um, pertenciam à classe so­
cial “inferior”.
As pessoas de cor das classes sociais intermediárias foram
procuradas por meio de apresentações, de sorte que inicial­
mente aquelas pessoas eram informadas sobre nosso intento.
Todas as entrevistas tiveram por finalidade conhecer as atitudes
do individuo de cor referente ao preto, ao mulato e ao branco.
As relações raciais, no sentido mais amplo, conform e com ­
preendeu Park (1939, p. 3), podem abranger todas as acom o­
dações nas quais algum equilíbrio relativamente estável foi al­
cançado, assim com o as situações de conflito. Dentro de tão
vasto terreno, circunscrevemos nossa observação às atitudes ra­
ciais de pretos e mulatos. A p rio ri, não sabíamos quais fossem
as possibilidades de elaborar hipóteses sobre a situação racial
através da observação de atitudes raciais. Podemos afirmar, en­
tretanto, que só foram formuladas as hipóteses que, a nosso
parecer, o material permitiu.
Por dever de gratidão, aqui fica expressa uma homenagem
ao prof. Donald Pierson, que dedicadamente nos orientou em
todo o desenvolvimento da pesquisa. Ao prof. Mário Wagner,
apresentamos nosso reconhecim ento pela contribuição na for­
ma de crítica construtiva. Ao prof. Durval Marcondes, chefe da
Secção de Higiene Mental Escolar, nossos sinceros agradeci­
mentos pela contribuição na coleta de dados.

66
Atitudes manifestadas por indivíduos entrevistados

( lonsiderando que uma das formas de se conhecer determinada


situação racial seja dada pelo status social do mestiço, distribuí­
mos o material colhido nas entrevistas em dois grupos: em um
grupo, reunimos os pretos; em outro, agrupamos os mulatos.
Por sua vez, subdividimos cada grupo em dois subgrupos con­
soante a classe social.
Para a classificação racial do ponto de vista social, que nem
sempre coincide com a classificação da antropologia física, ado­
tamos determinado critério. Na categoria de pretos colocam os
indivíduos de cor preta e cabelos encarapinhados, cujos pais
apresentassem os mesmos traços físicos, e mulatos chamamos
aos de cor parda, possuindo um dos genitores preto e outro
branco, ou um pardo e outro branco ou ambos os genitores
pardos. Através das entrevistas, veremos que a concepção do
mulato de si próprio varia na razão de seu status social: uns se
consideram pretos, enquanto outros se têm por brancos.
Como critério para a classificação social dos entrevistados
baseamo-nos 1) na condição econôm ica, 2) na profissão e 3) no
nível de instrução, por observar que estes fatores constituíam
elementos que determinam nos indivíduos a concepção de
pertencer à classe social inferior ou dela se excluir.
Pertinentes à classe social “inferior”, consideramos os indi­
víduos de pequena capacidade aquisitiva, cuja renda global da
família atingia a Cr$ 500,00, em média (com exceção do caso
n2 18), indivíduos com profissões com o motorista, operário,
servente, cozinheira, empregada doméstica e possuindo no
máximo curso primário.
Os indivíduos reunidos nas classes sociais intermediárias
apresentam capacidade aquisitiva acima de Cr$ 500,00, pos­

67
suem profissões liberais ou são funcionários públicos o têm no
mínimo curso secundário.
É preciso notar que os salários correspondem às condições
econôm icas de 1941, época em que colhem os o material das
entrevistas.

a ) C a so s d e p re to s d a cla sse so cia l “ in ferio r”

Caso ns 1 — Antonia pertence à classe “inferior”. É preta, e


pretos foram seus pais. Aparenta 40 anos. Reside na Vila Mariana
há mais de 20 anos, onde seus pais possuíram uma chácara que
perderam. Até há poucos meses, dava pensões a domicilio, mas,
obrigada a mudar-se de casa por demolição do prédio, perdeu a
freguesia. Atualmente, trabalha por dia com o empregada domés­
tica. Possui quatro filhos: duas jovens de cor parda, de 18 e 16
anos, e dois meninos pretos, um com 12 anos e outro com 10
anos de idade. É analfabeta. Antonia relatou-nos o seguinte:

— Os meus filhos são ilegítimos. A primeira é filha de um português, a


segunda de um mulato, e os dois meninos são filhos de um “p atrício”
[preto]. O português fo i bom para mim; separei-me do preto porque
ele não me ajudava economicamente a criar os filhos. Não quero
mais saber de ligações com ‘patrícios”. Fui criada por branco. Minha
madrinha dizia sempre: “Por que os pretos não se unem, para conse­
guir vida melhor?”Hoje vejo que a raça de cor não tem união, porque
cada um quer ser mais que o outro.

Caso n2 2 — Benedita é cozinheira. Conta 46 anos de idade.


Reside no bairro da Bela Vista. Criou-se em casa de distinta
família em São Paulo, cujo chefe, ao falecer, deixou Cr$100,00,
que recebe mensalmente. Foi casada com um preto e enviuvou

68
Iiá cinco anos. Teve seis filhos: possui apenas duas meninas
menores e duas netinhas escolares. Zela pelas filhas e netas
para que adquiram bons princípios de moral. É filha de pretos,
li analfabeta. Quanto a sua opinião sobre os pretos, disse-nos:

— Ospretos não se casam, ajuntam, porque são criados largados. Não


gosto de ver preto casar com branco, é fa z er pouco caso do preto.

Caso ns 3 — Jo sé é preto, filho de pretos. Tem 32 anos de


Idade. Mora no bairro de Saracura Pequena. Foi criado sem mãe,
em casa de uma família espanhola. Criou-se por si mesmo. Foi
servente de pedreiro; há quatro anos é operário. É alfabetizado,
li casado com uma preta e possui dois filhos. Externou-nos as
seguintes opiniões:

— Não sou fan ático p or esse negócio de união de pretos. Divirto-me


em casa. Nunca fu i desprezado. Dou-me bem com os vizinhos. Entre
os próprios negros, uns querem ser melhor do que outros. Às vezes, sou
mais bem tratado por branco do que p or ‘patrício”.

Caso nQ 4 — Justina transferiu residência do interior para a


Capital há cinco anos. É preta filha de pretos e casada com um
preto motorista. Possui um filho de 9 anos. Aparenta 30 anos;
trabalha com o empregada doméstica. É alfabetizada. Quanto
aos pretos, afirma:

— Quase não tenho relações com gente de cor, porque são pessoas in­
vejosas, desejam ver-nos sempre mal economicamente ou lutando com
doenças; então ficam satisfeitos. Dou-me melhor com os vizinhos bran­
cos. Desejaria ser branca, mas que fazer... Não me sinto infeliz p or ser
preta, mas pelas dificuldades econômicas e pela doença de mamãe.

69
Caso n2 5 — A entrevistada é preta, com 45 anos cie idade,
e casada com um mulato empregado doméstico. Possui dois
filhos, um mulato e um preto. Residem em São Paulo há cinco
anos. Foi cozinheira de uma família em cidade do Interior. É
analfabeta. Moram num barracão. Relato da entrevistada:

— Tenho am izades tanto com pessoas de cor como com brancos. Ter
um filho mulato, mais claro do que nós, os pais, não me dá nenhuma
satisfação, orgulho ou vaidade; ao contrário, gostaria que ele fosse
mais escuro. Quanto o menino nasceu, era tão claro que descon­
fiaram , mas o p ai de meu marido era branco. Acho os pretos mais
orgulhosos do que os brancos. Tenho uma vizinha mulata “grã-fina
veste-se bem e só se dá com grã-finos, apenas cumprimenta os vizinhos
pretos. No Interior, trabalhei como cozinheira durante muitos anos em
casa de fam ília de posses efu i muito querida. Era eu quem preparava
o jantar para pessoas de destaque que iam de São Paulo efu i eu quem
vestiu as noivas da casa. Muitas vezes senti o orgulho dos patrões, mas
acho maior o orgulho entre pretos de melhor situação.

Caso ns 6 — A entrevistada é preta e conta 43 anos de idade.


É empregada doméstica, casada com um preto, o qual trabalha
num bar (limpeza). Vivem com Cr$ 450,00. Habitam um cortiço.
Tem quatro filhos vivos e cinco mortos, sendo três na primeira
infância. É analfabeta. Afirmou-nos não pensar na cor, dar-se
bem com pretos e brancos. Tudo estava bem até a morte (afoga­
do) do hlho de 16 anos que já ganhava para auxiliar a família;
daquele desastre para cá é que se sente aborrecida e nervosa,
chegando a não tolerar as crianças do vizinho (brancas).
Caso n2 7 — Trata-se de uma pessoa de 28 anos de idade,
cor preta e solteira, com um salário de Cr$ 120,00, trabalhando
com o empregada doméstica. Possui cinco irmãs adultas, sendo

70
I
duas cozinheiras e três operárias, e um irmão adulto desor­
deiro. É analfabeta. Do relato da entrevistada:

— O branco fa z pouco caso do preto, p or causa da cor. Quando me


mudei do Interior para São Paulo [há 10 anos], sofri muito, porque na
rua me xingavam de negra ou mexiam comigo. Certo dia, passava
por uma rua [Bela Vista], vestida com uma blusa branca engomada, e
uma moça que sempre me aborrecia me disse: “Mosca caída no leite. ”
Não me contive e virei-lhe um tapa no rosto. Nunca mais ela mexeu
comigo. Nas lojas da cidade, quando a gente entra para comprar al­
guma coisa, só é atendida depois de muito esperar.

A n álise d as a titu d es m a n ife sta d a s n o s c a s o s a p re se n ta d o s

Os casos de pretos da classe “inferior” apresentados evidenciam:


a) distância social entre os pretos manifestada por atitudes
de rivalidade ( “cada um quer ser melhor do que o outro”), de
desprezo ( “é pior o desprezo de preto que melhora econom i­
camente do que o do branco”), de antipatia ( “preto não gosta
do preto”), de antagonismo ( “os pretos são contra os pretos”)
e de inveja ( “os pretos são pessoas invejosas, desejam ver-nos
sempre mal”);
b) os pretos entendem-se melhor com os brancos ( “dou-me
melhor com os vizinhos brancos”); todavia, em face do branco,
há indícios do desejo de manter-se leal ao preto (“não gosto de
ver preto casar-se com branco, é fazer pouco caso do preto”).
A afirmação de que “é pior o desprezo do preto” implica
alguma percepção de desprezo proveniente do branco, assim
com o na expressão “às vezes sou muito mais bem tratada por
branco do que por preto” com preende-se que nem sempre
assim se passa. O preto demonstra sentir-se mais ferido pelo

71
desprezo do próprio preto do que pelo do branco, talvez com o
resultado de seu sentimento de inferioridade, em virtude do
qual, ao mesm o tempo que acentua o antagonismo contra o
preto, torna-se mais suscetível àquele sentimento, enquanto
perante o branco “superior” diminui o sentimento de hostili­
dade e se faz menos suscetível às reações do branco.
Tais atitudes de antagonismo contra o preto e convívio com
os brancos se constituiríam em um dos fatores para a ausência
de solidariedade observada entre os pretos e por alguns deles
lastimada.
Do exposto, depreendem os a seguinte hipótese: as atitudes
do preto da classe social “inferior” para o preto e para o bran­
co estariam baseadas em sentimento de inferioridade, o qual
determinaria sentimento de antagonismo contra o preto e de
simpatia para o branco. A atitude de antagonismo do negro
resultaria em falta de solidariedade entre pretos, enquanto a
atitude de simpatia para o branco não somente torna o pre­
to mais tolerante, com o indiretamente concorre para atenuar
qualquer manifestação de antagonismo da parte do branco, de
onde maior convívio entre pretos e branco.

b ) C a so s de p re to s d as cla sse s so cia is in te rm e d iá ria s

Quando focalizamos os pretos de profissões liberais, intelec­


tuais ou funcionários de carteira, possuindo, portanto, melhores
condições econôm icas e com instrução no mínimo de nível
secundário, observamos que as atitudes ligadas à cor eviden­
ciam-se de forma muito mais pronunciada do que quando nos
referimos ao preto da classe social “inferior”.
Caso ns 8 — Trata-se de um preto criado por branco que,
transferindo-se de importante cidade paulista, fixou residência

72
(■
em Sâo Paulo há cerca cie 20 anos. Possui curso secundário
e exerce uma profissão intelectual. Queixa-se amargamente
por sofrer em consequência de preconceito de cor. Relatamos
suas experiências desagradáveis e humilhantes, das quais se
originou aguda sensibilidade para o trato diário com o branco.
Seguem-se suas palavras:

— A questão racial, no Brasil, prende-se á queda do regime escra­


vocrata, com a abolição da escravatura, que acarretou a ruína de
muitos fazendeiros. Vendo-se arruinados, os fazendeiros investiram
injustamente seu ódio contra o negro, como é facilm ente verificado
nas cidades fastigiosas do interior. Em São Paulo, o preconceito parece
gerado pelo convívio com imigrantes. Afirma-se na Bahia, como o fe z
o professor Pierson, que o negro rico não sofre preconceitos (sic). Tal
afirm ação não é verdadeira em São Paulo. Em primeiro lugar, pode-se
afirm ar que não existe negro economicamente independente; portan­
to, aqui entendemos p or negro rico aquele que fo r instruído, educado.
^4s experiências diárias mostram que também eles sofrem as conse­
quências da cor da pele. O Centro dos Funcionários Públicos vedou
a entrada a moças form adas em nossas escolas secundárias, filhas de
um intelectual que entre nós exerce suas funções, unicamente por se
tratar de pessoas de cor.

— Sob minha chefia trabalham vários moços. Certo dia, um deles en­
tregava-me um convite de festa de form atura em presença de sua irmã.
No dia seguinte, conta-me ingenuamente o rapaz: “Ontem minha irmã
ficou preocupada vendo-me convidá-lo para a festa de form atura e me
censurou. Tranquilizei-a imediatamente, dizendo-lhe que o havia con­
vidado porque sabia que o senhor não iria. ” Acidentes como estes são
pequeninas coisas do branco que mefazem confiar, desconfiando. Pas­
sava diante de um estabelecimento de diversões quando, por algum mo-

73
tivo, parei e ouvi que alguém me dirigia a palavra. Dizia-me o porteiro
do estabelecimento: “Você não pode entrar aqui. ” Eu, que não estava
interessado em entrar naquela casa de diversões, insisti em saber por que
não podería entrar, pedindo fa la r ao gerente. “Ogerente está muito ocu­
pado e não pode atender um negro. "Acontece, porém, que no momento
o gerente apareceu à porta, indagando o que havia. Conhecíamo-nos
por causa do meu trabalho, e logo me indagou; expliquei-lhe o ocorrido.
Virando-separa o porteiro, que era preto, diz-lhe: “Estepreto pode entrar,
ele manda em São Paulo. "E, voltando-separa mim: “Vamos entrar?”Eu,
que não pretendia mais do que aquela satisfação despedi-me.

— A am izade do branco para o negro é sempre interesseira. Dado o


cargo que ocupo, há interesse em me agradar; fora disso, pouco valor
tenho; não sou homenageado simplesmente pela minha pessoa, mas as
atenções são para as funções que exerço.

— Possuo amigos íntimos brancos, com os quais fu i criado na infân­


cia. Somos íntimos até hoje; são pessoas que se hospedam em minha
casa, assim como eu e minha fam ília em casa deles. Vejo nestas am i­
zades a gratidão por minha mãe ter criado pessoas da fam ília deles.
Quando criança, eu e eles sempre éramos tratados igualmente. Mas o
vigário me advertia sempre: “Lembre-se que você não é igual a eles. ”
Eu, porém, não compreendia o sentido daquelas palavras. Somente
muito mais tarde as entendi. Mesmo estes amigos íntimos demonstram
preconceito em certas ocasiões. Estávamos em Santos e terminãvamos o
jantar, quando alguém sugeriu irmos ao cassino. Para lã nos encam i­
nhamos, e um delesfa la ao ouvido do outro. Pela resposta — “Não, ele
é branco. ”—, compreendi o que se passava e disse: “Não vou ao cas­
sino com vocês; podería ir, porque eu entraria, pois o gerente é amigo
meu, mas não quero ir. ”Insistiram para que eu fosse, mas eu não teria
prazer em estar lá. Isto significa que um amigo íntimo, branco, de in-

74
í
fância, teve receio de entrar no cassino em minha companhia.

— Disse-me alguém: “Aqueles negros da rua Direita deviam fa z er como


você: estudar é viver no meio da gente. ” O sindicato dos lojistas dirigiu
um oficio ao delegado da Segurança Pessoal, pedindo providências
para o trânsito de pessoas pela rua Direita, sábado e domingo, especial­
mente com relação às pessoas de cor. Esta atitude é consequência do
preconceito de cor. Acham feio aquele desfile de negros no centro, que
constitui a única manifestação da presença do negro em São Paulo.
Alegam o prejuízo p ara o comércio, mas se o negro da rua Direita tem
baixo poder aquisitivo, eles vão contar às patroas onde viram esta ou
aquela mercadoria e, neste sentido, estariam mais auxiliando do que
atrapalhando o comércio. Penso que a medida a tomar na solução da
concentração do negro na rua Direita consistiría em dar-lhe instrução
e edu cação — desta form a, o negro adquiriría melhores maneiras, as
moças não se apresentariam em trajes de “soirée” na rua e nem con­
versariam em voz alta assuntos que não se falam na rua.

— Tal atitude de preconceito em São Paulo não é única — pelo mes­


mo motivo, cogita-se de tirar a Igreja do Rosário do largo Paissandu,
dizem que para erigir ali um monumento. Discutindo o assunto com
um branco católico, respondeu-me: “É preciso limpar aquele local,
tirar a Igreja dali. ”

— Há dias, em Indianãpolis, uma empregada matou a patroa, porque


esta a chamava de negra. São comuns as reações agressivas por ofen­
sa. Tenho modo de pensar diferente do preto, em geral, que acha que
é necessário reagir contra o branco. O meu argumento é o seguinte:
você é motorista de tal fam ília e sua mulher é empregada doméstica;
você reage, e depois como sustentar seus filhos? Acho que a condição
do negro só poderá melhorar pela divulgação da instrução entre eles.

75
— Há tempos, fu i homenageado com um almoço pelos meus amigos
brancos. Estes procuraram o Hotel d'Oeste para a homenagem, mas,
quando o gerente soube que o almoço seria oferecido a um preto, em­
bora me conhecesse, recusou aceitar a encomenda. Foi necessário que
se realizasse o almoço em outro local.

— Um de meus mais íntimos amigos brancos me convida para todas as


festas em sua casa, às quais não compareço. No dia seguinte, sempre
me telefona, indagando por que não comparecí. Houve uma festa de
form atura no Esplanada, convidou-me e não fui, mas noto que, não
sendo em sua casa, ele até hoje não reclamou p or eu não ter ido.

— Conversando com um dos meus superiores, muito meu amigo, diz-


me naturalmente: “Fiz uma cam panha contra fulano: calcule um
negro querendo ter determinado cargo.” Como estivéssemos diante
de outros empregados, para não envergonhã-lo, concordei com ele,
dizendo: “Essa gente pouco alcança e tem grandes pretensões. ” En­
tretanto, tratava-se de um negro de valor, mas não reagi para evitar
conflitos inúteis.

— Percebo que me tratam com deferência para encobrir qualquer


coisa. Existe preconceito de cor e de classe — sou doente e sei portanto
onde me dói. Opreto sobre na carreira ocupacional dando o triplo. Se
para o branco fo r necessário saber A, o preto deverá saber A, B e C.

— Terminado o curso primário, fu i prestar exames para o curso se­


cundário, na cidade vizinha. Dias depois, os jornais publicaram os
resultados — eu estava colocado em terceiro lugar entre os concor­
rentes. A minha colocação despertou adm iração de todos na cidade.
Muitos chegavam a me perguntar: “Você é o preto que tirou o terceiro
lugar nos exames?” Eu achava natural e não compreendia o motivo

76
I
de tanta adm iração. Mais tarde, ao ingressar na profissão que atual­
mente exerço, fu i submetido a um exame. Entretanto, notei que so­
mente de mim exigiram conhecimentos além do estipulado para os
outros. Depois de comprovar que tinha conhecimento além do espe­
rado, fu i aceito no emprego.

— Consequentemente, resulta ódio, raiva e ressentimento da parte do


negro. Eu perdoo, mas o negro sem educação briga. Vivo isolado de
certas situações sociais, e assim acontece com todos os negros de min­
ha classe — acham-se afastados de certos aspectos da vida social.

— Os pretos pouco se visitam. Hã preconceitos entre o próprio preto.


Muitos não querem demonstrar a sua origem ep or isso não se reúnem.
O negro não quer ser negro. Eu fa ço questão de ser negro. Os pretos
sem educação não gostam de mim: dizem que vivo fazen do graça
para o branco, colocando o negro em ridículo. Uma sociedade recrea­
tiva de pretos me vedou a entrada. Quando vou a uma festa, nas raras
vezes que vou, procuro sempre me apoiar em amigos brancos chega­
dos, evitando ficar só. Quando percebo que vou fica r só, sem apoio de
uma pessoa mais chegada, retiro-me imediatamente.

Caso n2 9

— Meus avós eram pretos; residiram no Interior do estado de São Paulo.


Meu avô materno era português e minha avó era preta. Ele se instalou
na cidade A. com uma banca para vender doces no mercado. Tinha
duas filhas. Ambas se casaram. Minha mãe casou-se duas vezes e teve
12 filhos, sendo um do primeiro casamento. Sou o segundo filho. Meu
irmão mais velho é revisor de um jorn al no Rio de Janeiro. Ele é um
indivíduo cordato. Não se interessa pelo problem a racial, não sente
como eu. É festeiro. Abaixo de mim, havia um irmão que faleceu aos

77
12 anos; depois, segue uma irmã casada bá cinco anos com um preto,
empregado no comércio. O caçula é casado, trabalha em um banco.
Conversa pouco, gosta de observar, é impulsivo. Tem compreensão do
problem a racial, mas não se interessa, porque acha inútil. É carnava­
lesco. Os outros irmãos faleceram pequenos. Meu p a i fo i carpinteiro,
um artista dentro de sua profissão. Cantava e tocava bem. Na cidade
A, fo i um agitador. Formava sociedades no sentido de combater o pre­
conceito racial. Em sua cidade perm anecem asfam ílias escravocratas,
onde o negro se torna um submisso ou agitador. Meu p ai agia através
de bailes. Foi secretário, presidente e orador de várias sociedades de
negros. Lembro-me de que meu p a i tinha gênio arrebatado, impulsivo.
Em casa, quase não conversava, mas tinha amigos, era muito diver­
tido, tocava violão. Faleceu aos 35 anos de idade, atacado de varíola.
Eu contava com Vou 8 anos de idade.

— A. era uma cidade de pobres e ricos, onde os primeiros passavam


tremenda necessidade. Para o sustento das crianças, minha mãe lava­
va roupa e teve o auxílio de minha avô materna. A criançada se
ocupava na entrega de roupa lavada, em auxiliar a passar e engomar.
Eu não gostava disso. Preferia ir ao mercado, onde os fazendeiros da­
vam Cr$ 1,00 para a m olecada segurar o cavalo. À tarde, eu tinha
meus Cr$ 5,00. Ou então eu levava os doces da vovó para o mercado.
Tínhamos forte desejo de comer aqueles doces, mas estávamos proibi­
dos, eram para ser vendidos. No caminho, porém, comíamos a fartar o
arroz doce, tirando cam adas de cima. Cobríamos novamente o arroz
doce com canela em pó que levãvamos escondido, p ara que vovó não
percebesse. Eu tinha 8 ou 9 anos e começava a compreender a neces­
sidade da vida -— gostava imensamente de doces e não podia obtê-los
p orfalta de dinheiro. Da infância ficou-m e gravado o desejo de comer
doces e o fato de não poder satisfazê-lo. Para mim, o doce era tudo.
Uma casa com ercial da cidade, naquele tempo, dava amostras de açú-

78
í
car; eu frequentemente pedia amostra de açúcar para comer. Entrei
para o grupo escolar. Às' vezes, não tinha lanche para levar. Pelo meu
Irmão, minha mãe mandava p ão e uma garrafinha com café. Mas,
quando ela não podia mandar-me o lanche, enchia-me de tristezas,
vendo as outras crianças com marmelada, p ão e manteiga. Mas eu
não pedia. Como hoje, na infância, eu não sabia pedir. Na entrada da
escola, havia uma palm eira que dava coquinhos: eu ia comê-los para
me compensar e depois ia brincar. Nunca fu i dado ao estudo. Não me
preocupava com os problemas difíceis durante as aulas, porque na
escola eu não conseguia resolvê-los. Ia resolvê-los depois, com vagar,
em casa. Parecia que a professora ia me p ôr de castigo se errasse.
Poucas vezes era cham ado ã lousa, e tinha tanta vontade de ser. Gos­
tava de me levantar para ler ou responderperguntas, prazer que rara­
mente satisfiz. O que mais me impressionava, no tempo da escola, era
um quadro de jesuítas entre índios e um outro jesuíta levado pelo ín­
dio para a fogueira. Todas as vezes que eu passasse pelo quadro tinha
de olhã-lo, e sentia a impressão de que também iria ser devorado pelos
índios. Eu não gostava de estudar, mas aprendia com facilidade; fiz os
quatro anos primários sem repetir. Frequentava também o externato
dirigido pelos padres, p ara ospobres: havia catecismo, joão-m inhocaf'
truques, recreio. Os padres brincavam conosco. Eles nos davam nota
de acordo com a frequência. Eu me interessava em ter boas notas, pois
que davam direito a um prêmio: uma roupinha, um brinquedo, p odía­
mos escolher. Fiz a prim eira comunhão aos 12 anos. Vovó levava-me à
igreja. Durante a pregação, eu dormia. Mas lá me impressionava mui­
to um santo com uma espada, pisando na cabeça de um satanás ne­
gro. Depois de moço, voltei ãquela cidade p ara ver o quadro que tanto
me impressionava na infância. Era sempre perto do santo temido que
vovó sentava. Por medo, eu fu gia da companhia dela, sem dizer o mo­
tivo. Ela era enérgica e castigava-me. Eu fu i o mais “trazido no ca-36
36 Tipo de teatro popular de marionetes.

79
bresto”. O satanás negro prendia o meu olhar. Aos 7 anos, mais ou
menos, ganhei um livro, onde uma figura representava os anjos bons
e os maus. Havia me despertado a atenção o fato de os anjos escurece­
rem à medida que se tornavam maus. Com tristeza, eu identifiquei a
cor preta ao mal. Fui manhoso quando criança; era bastante que ti­
rassem o que me pertencia para chorar. Era muito sentimental. Parece
que depois de uma revolução, embarcamos daquela cidade para São
Paulo; eu teria 13 anos. Aqui a fam ília se desbaratou: um irmão fo i
com a madrinha, outro fo i com uma tia, pois minha mãe não podia
sustentar todos. Na minha cidade natal, a situação era diferente: mi­
nha mãe era conhecida, e as fam ílias ricas ajudavam-na. Aqui, a
vida se tornou mais difícil. Minha m ãe não durou muito; ela estava
muito doente. Lembro-me que uma am bulância veio buscá-la e, dois
dias depois, a notícia da morte dela. Antes de morrer, ela não falav a e
apenas escreveu para minha avó: “Não maltrate meus filhos. ”Minha
avó tinha gênio esquisito, distribuiu as crianças. Cada um tomou
rumo diferente. Minha avó e minha tia trabalhavam na cozinha de
uma pensão. Fui para aquela pensão em companhia delas. Outro am­
biente, onde havia horário para as refeições e eu tinha um quartinho
no porão. Comia e dormia melhor. A patroa tinha filhas moças e um
menino mais ou menos da minha idade, com o qual brincava. Apo­
derei-me dos seus brinquedos e estudava em seus livros. Ligávamos
cam painha e outro pequenos serviços desta ordem. Fui criando es­
pírito de curiosidade. Eu tinha medo do escuro e fa z ia força para dor­
mir logo e não me lembrar de que estava só. Lã perm aneci dois anos.
Uma das filhas, casando-se, fo i residir numa cidade do Interior. Man­
daram-me para lã. Fui sozinho. Contava 15 anos. Frequentei uma
escola de padres, curso de admissão ao ginásio. Em casa, tinha a
obrigação do serviço doméstico, limpar o pó, vidros, etc. Eu gostava da
escola, voltava satisfeito. Quase não tinha com quem brincar. Inventa­
va brinquedo no quintal com formigas, besouro. Tinha medo de grilo,

80
í
porque cantava. Unirei para o ginásio. Então tinha esporte e a com­
panhia de rapazes hem arrumados. Minha patroa era enérgica. Certa
vez, ela me viu apanhar duas frutas às escondidas e pô-las na mala da
escola. Ela chamou-me e indagou sobre o que eu levava na mala, tirou
as frutas e esfregou-me no meu rosto. Opior fo i ter manchado a blusa
e ser obrigado a ir para o ginásio assim. Peripécias de quem não é fil­
ho: eu gostava de ir limpo, bem arrumado. Ela castigava-me p or eu
não terpedido. Eu gostava muito de ir à matinê aos domingos. Quan­
do eu “reinava”, era preso no quarto, privado do cinema. Chorava até
me conformar. Cheguei até o 3 Bano ginasial. Certo dia, eu limpava os
móveis da sala de jantar: abri o açúcareiro, tirei uma colher de açú­
car e joguei-a na boca. O patrão, que observava meus movimentos,
aproximou-se silenciosamente e virou-me a mão no rosto sem nada
dizer. Fiquei mudo, olhei-o, larguei os panos efu i para o quarto. De lá
não saí. Pensei mil coisas boas e más. Perdi o prazer de tudo. Eu não
queria olhá-lo. Eu estava completamente mudado. Não queria mais
ficar lã. No dia seguinte, não fu i à escola. Queria voltar para São
Paulo. A patroa me cham a e me explica que tinha sido para me cor­
rigir. Não aceitava nada, queria ir embora. “Então você vai”, decidiu
ela. Chegando em São Paulo, procurei minha fam ília. Não encontrei
ninguém. Com um dinheirinho que possuía, fu i para uma pensão.
Comecei a procurar emprego. Não procurei por muito tempo, porque
na pensão apareceu um homem procurando empregado para ir para
o Interior. Aceitei o emprego; partimos no dia seguinte. O senhor, do
estado de Minas, era dentista e fazendeiro. “Quero você para ajudar
em casa, ir ao sítio e, conforme você se portar, faço-o estudar, quero
fazê-lo gente. ”Muito mais tarde, eu soube que aquele senhor era casa­
do e separado da fam ília. A sua atual companheira com seus dois fi­
lhos, um rapaz de minha idade e uma rapariga, passavam p or seus
filhos e p or ligação legal. Destes, mais tarde ele se separou p or infide­
lidade da mulher. Ligou-se a outra mulher com dois filhos também.

81
Compreendí que o que levava a tais ligações era a atração por cri­
anças. No novo emprego, eu devia fa z er o mesmo serviço doméstico do
qual não gostava. Eu limpava a casa e o consultório, no que era obser­
vado. Limpava a broca e outros apetrechos com tanto cuidado e capri­
cho que o patrão gostou e consentiu que eu ficasse mais no consultório,
que me despertava curiosidade. Quando chegavam clientes, ele não
gostava que eu ficasse no consultório. “Vocêprecisa aprender um ofi­
cio”, disse-me um dia. Arranjou uma oficina de carpintaria e mecâni­
ca para mim e para o “filho". íam os juntos. O trabalho consistia em
fa z er portas, assoalhos, vigotas — eu não me dava bem com tal tra­
balho, preferia fa z er canetas, trabalho mais delicado. Comecei a
aprender a lustrar e, nas horas vagas, fa z ia canetas. Ofilho do patrão
também não gostava do trabalho. Ele aprendia violino. Eu sempre gos­
tei de música. Tinha vontade de aprender um instrumento, mas nin­
guém me orientava. Com uma taquara, fiz uma flauta. Tocava de
ouvido, acompanhando o filho do patrão ao violino. O velho, ouvindo-
me, disse-me: “Você vai aprender música em São Paulo. ” Não saímos
mais de casa — jogávamos futebol e tocavamos. Então o velho me fe z
presente de uma flauta. Comecei a estudar música. Custei a aprender
as figuras musicais. Finalmente, lia bem a música e tinha bom sopro.
O velho começou a se entusiasmar comigo: “Esse negrinho vai dar
gente”, dizia. Fazia questão de me apresentar aos conhecidos: “Esse é
o meu negrinho. ”Paulofo i estudar noutra cidade. Fiquei só. Mas antes
dissofundam os um clube defutebol. O velho observou-nos que precisã-
vamos trabalhar para manter o clube; deu-nos um carrinho de gara-
pa; aos sábados e domingos, nós dois vendíamos garapa pelas ruas.
Apuramos uns Cr$ 50,00. Compramos a bola e duas máquinas fo ­
tográficas; adaptamos nosso quarto para revelações. Cuidãvamos tam­
bém de limpeza do carro. Certo dia, o velho disse-me: “Precisamos
providenciar sua transferência de ginásio para cã, a fim de terminar
o curso. ”Mas a transferência não fo i possível, na cidade só havia es-

82
i
cola normal. Voltei para a cidade onde havia começado o ginásio,
com todas as despesas garantidas pelo velho. Fiquei contente. Mas
comecei a pensar que ficava mal o velho pagar-m e tudo, apesar de eu
ser muito econômico. Não tendo, porém, aptidão alguma, procurei um
lugar para tocar. Estávamos na febre do jazz. Consegui tocar no
“ja z z ’*1 de um restaurante, à noite. Ganhava Cr$ 200,00 por mês.
Escrevi ao velho que a música já estava valendo alguma coisa. No
“jazz", aprendi violino, batería e fu i me tornando conhecido. Tais to­
catas despertaram-me a curiosidade por bebidas e ceias. Aquela ci­
dade tinha intensa vida noturna. Sófum ei aos 20 anos. O velho quase
já não me mandava dinheiro. Depois de um ano, fu i visitá-lo; fiquei
gostando de uma moça. Procurei meios para conversar com ela, que
sempre recusava. Nas vésperas de voltar para a cidade onde estudava,
tomei decisão e fu i fa la r com ela. Sai impressionado — era o primeiro
namoro, idéias completamente mudadas; terminar o curso de ginásio,
ganhar dinheiro para me casar. Prometí escrever-lhe. Trocamos algu­
mas cartas. A vida não se alterou — anos de estudo, de tocatas, de
serenatas. Terminando o curso, volto. O velho providenciou-me tra­
balho em um banco. O ordenado inicial era pequeno, e eu gostava de
vestir-me bem, andar na moda. Tinha dificuldade em conversar com
a moça. Ela era órfã, filh a de preto e italiano. Estava sendo criada pela
fam ília para a qu alfazia serviços domésticos. Afam ília impedia-a que
conversasse comigo. Eu ia fazer-lhe serenatas e conversãvamos às es­
condidas. Criou-se um “ja z z ”, “Bico-doce”. Criei um com o nome “Bi-
co-azedo”. Em todas as festas, tocávamos. Eu sempre am ando a moça.
A fam ília não tinha confiança em mim: “Moço de serenata não dá
futuro. ”Fiquei desgostoso, sem vontade de estudar, e comecei a beber.
O velho me aconselhava: “Isso não lhe fica bem, você chegou até aqui
em sua carreira.” O velho tinha um amigo fazendeiro, com o qual
combinou dar-me uma lição: mas eu não sabia. Recebi ordem para ir37
37 Abreviatura de jazz-band, conjunto musical especializado no gênero jazzístico.

83
T
até aquela fazenda, sob algum pretexto. Lá chegando, o fazendeiro
mandou-me para a roça, com ordem de me darem serviço. Tinha
como cam a uma esteira sobre um cavalete, como os cam aradas. Fui
incumbido de levar comida aos camaradas. Foi-me um choque. Mas
eu tinha um físico forte e orgulho, devia submeter-me sem queixa. En­
quanto os cam aradas almoçavam, eu tinha de capinar. “Hei de aguen­
tar sem dar o braço a torcer”, pensava, “vou mostrar que sou traba­
lhador. ”Por tocar violão e cqntar, fiqu ei estimado pelos camaradas. A
form a da vida deles me revoltava. Alguns queriam sair de lá e não
podiam , faltava-lhes dinheiro. Depois da revolta, fu i me adaptando
ali, conformando-me. Afazen da era completamente isolada e só havia
um trem. Cheguei à conclusão de que ali eu não teria futuro. Lã per­
manecí quatro meses, tomando parte no sofrimento daquela gente.
Cansei-me e fugi da fazen da. Não podendo tomar o trem, fu i a pé, até
alcançar a estrada de rodagem e ficar à espera de algum cam inhão
que me conduzisse de volta. Em trapos, fu i procurar o velho. Contei-lhe
as misérias da fazenda, que nada prometia como futuro, ganhando
Cr$ 50,00 por mês. Aquela vida tinha-me mudado a percepção do
sofrimento. O velho contou-me, então, que havia sido uma lição, por
eu estar perdendo a noção de ser alguma coisa, mas agora, que eu já
estava com mais senso, ia me encaminhar. Começamos a providenciar
minha saída da cidade, por causa da moça. No banco em que traba­
lhava, descobri que iam criar uma coletoria noutra cidade. Decidi ir
para lá, para esquecê-la. O velho conseguiu minha remoção. Aceitei a
única vaga, que era a de faxineiro; não me incomodei com isso. Nas
vésperas da partida, fu i despedir-me da moça; ela estava de acordo
— eu ia guardar o dinheiro para nos casarmos. Na nova cidade, sen­
tia-me só, entre desconhecidos. Trabalhava no banco, no serviço de
limpeza, ganhando Cr$ 150,00por mês. Fazia economia. Sempre fu i
caprichoso; eu comprava toalhas e flores para o meu quarto na pen­
são. Tocava e cantava com as crianças; sempre gostei de crianças. No

84
I
banco, poucos sabiam que eu linha o curso ginasial. Havia mais de
um ano que eu estava como contínuo. Ogerente promoveu-me a auxi­
liar de carteira, em cujo cargo perm anecí um ano, passando a fu n ­
cionário de carteira. As fam ílias que davam festas iam procurar-me
no banco — eu era chefe do “ja z z ”, através do que fu i me impondo no
banco. Somente fu i a passeio, ansioso para ver a namorada, depois de
três anos. Trajava-me bem.

— De São Paulo é enviado um novo gerente para o banco. Visitando


o banco e vendo-me, incumbiu-me de retirar-lhe os móveis da estação.
Daí em diante não me deixou parar mais: levar recados a fam ília, le­
var sapatos para consertar, etc. Até essa época, não me tinha como ne­
gro. Não me tinha despertado a atenção que pudesse existir diferença
ou que quisessem me diminuir. Comecei a pensar: “Sou empregado do
banco; outros também são e com igual categoria, e só a mim manda
levar sapatos para consertar. ” Começou a luta interior. Queria chegar
a uma conclusão, compreensão. Nunca ninguém tinha me dito ser ne­
gro, se bem que inconscientemente sempre me retraísse em tomar parte
nisto ou naquilo; quer me ter como empregadinho particular. Comecei
a fazer tais serviços de má vontade; não fa z ia certo, demorava-me pro­
positalmente. Aborrecido com essa consciência de ser negro, tiro licença
do banco, com a ideia: “Tenho economias, regresso para casar-me e me
emprego por lã. ” Regresso ã cidade e, na noite do dia seguinte, vou à
casa da moça. Fizeram-me entrar na sala de visitas. Fiquei seguramente
umas duas horas à espera. Por fim, indaguei, e disseram-me que ela
não queria mais fa la r comigo. Mandei-lhe dizer que tinha vindo com
boas intenções, de casamento. Nem assim; disseram-me que ela estava
chorando e não queria aparecer. Retirei-me fazen do várias conjeturas;
ela sempre deu-me demonstrações de me querer bem; correspondí, tra­
balhei. Será que a fam ília que a criou não quer que ela se case comigo
para não perder uma empregada fiel? Será que lhe incutiram para não

85
se casar com negro? Não procurei saber. Aborreci-me; fiqu ei um mês
na cidade e voltei para o banco. No trabalho já encontrava hostilidade;
tudo era diferente para mim — o gerente que me chamava para lim­
p ar um objeto... Havia uma moça que eu sabia gostava de mim, mas
sempre eviteifalar-lhe sobre esse assunto, por estar inclinado pela outra.
Barrado pela primeira, decidi conversar com a última. Era uma moça
boazinha, mulatinha, filha de mulatos. Ela cantava no coro da igreja.
Eu ia fazer-lhe serenatas. No espírito, tinha uma revolta: sempre an­
dei direito, desde 16 anos tinha intenção de me casar. Não tocava na
economia. Passeava com a atual namorada. Os pais, porém, se opuse­
ram. Mais se assentou em minha mente que era devido ao preconceito
de cor. Ela me queria muito. Nunca conversei com os pais. Ela e os
vizinhos contavam que ela apanhava por minha causa. Duas vezes em
que passei pela casa dela, a mãe me xingou de negrofeiticeiro, e me ati­
raram pedra. Não quis mais namorá-la; não estava habituado àquele
tratamento. Disse-lhe que minha intenção era honesta. Ela respondeu-
me que tinha 20 anos e com 21 fa ria o que entendesse. Eu, porém, ti­
nha perdido o entusiasmo. Alguns amigos souberam — vexou-me. Nesse
período, vem o momento de fraqueza: a economia que tinha gastei em
cabarés. Entreguei-me à vida alegre. No banco, a mesma atitude do
gerente. Os colegas sempre me quiseram bem. Certo dia, eu estava muito
aborrecido. Ogerente me mandou fa z er um serviço particular, recusei-
me: eu era empregado do banco e não empregado particular. Exaltamo-
nos. Ele me xingou de negrinho. Não houve consequências piores. Pedi
transferência para a matriz. Como não me dessem, pedi demissão.

— Decidi não ser mais empregado de ninguém — ia procurar uma


profissão liberal. Voltei para a casa do velho e, a conselho deste, come­
cei a providenciar ingresso numa escola livre de odontologia, noutra
cidade. Fui para lã, fiz o curso com grande esforço de aplicação, para
revidar perseguições, má vontade das moças, do gerente. Para mostrar

86
(
aos amigos que não era o que pensavam; eu era mais capaz. Tinha o
am or próprio espicaçaclo. Depois de cinco anos de curso, diplomei-me.
Lá não percebí diferença entre os estudantes. Esqueci as peripécias an ­
teriores. Procurei estudar para me p ôr por cima, porque eu sentia que
queriam me inferiorizar e meu esforço era para não me sentir inferior.
Paguei o curso com economias que me sobraram e com auxílio do velho,
dentista de muita experiência. Os primeiros contatos com clientes fo ­
ram cheios de indecisão, de falta de confiança em mim, de medo de er­
rar. Não fiqu ei muito tempo com o velho. Na Revolução de 30, vim para
São Paulo, incorporar-me á classe que estava sendo chamada. Quando
ia embarcar, destacado para Itararé, terminou a Revolução. Conheci
entre os soldados estudantes e me entusiasmei por ficar em São Paulo.
Achei São Paulo diferente — fu i rever os lugares que se mantinham
gravados na lembrança: a rua São Luiz, a feira do largo do Aroucbe,
etc. Fiquei em São Paulo, mas não tinha ideia sobre que fazer. Es­
creví ao velho sobre minha decisão. Nesse período de indecisão, achei
conveniente dar uma chegada à cidade natal, para descobrir meus
parentes. Encontrei um tio que me deu o endereço de parentes em São
Paulo. Vim procurá-los. Encontrei minha tia materna casada, uma
irmã, um irmão e primos, cinco pessoas morando em um quartinho.
Deram-me um canto; mas eu não estava acostumado a morar mal,
a ver a mulher sair cedo para o trabalho. Pensei em ir morar numa
pensão. Mas não ficaria bem. Minha tia sentiría. Além disso, tinha
uma irmã solteira, ela precisava casar-se. Achei que precisavam de
mim e, por sentimentalismo, fiquei. Levantava-me pela manhã quando
já não tinha ninguém em casa; todos tinham ido para o trabalho. Eu
não tinha com quem conversar, estranhava. Saí à procura de empre­
go, pois não tinha dinheiro para montar um escritório. Fui trabalhar
em prótese, com um dentista. Aos poucos, fu i conhecendo o meio de
vida da fam ília. Era esquisito cham ar minha tia de “titia”, como meus
irmãos, tomar-lhe a bênção. Vi que minha tia não se dava com o gênio

87
de minha irmã; estavam sempre em conflito. Meu primo mais velho (40
anos de idade) era carnavalesco, meu irmão também. Convidavam-
me, mas eu chegava em casa e ia estudar; chamavam-me de caipira.
Tanto insistiram que fu i a um baile de casamento. Fui pensando que
fosse, como no Interior, num grande salão. Mas encontrei mais de cem
negros em uma salinha. Não me senti bem ali, quis ir embora. Vi que
era meu dever perm anecer em casa até que minha irmã se casasse. Ela
contou-me que a tia a perseguia, impedia-a em todo namoro. Depois
de um ano mais ou menos, protegi o namoro dela com um rapaz, até
que fizem os o casamento; hoje ela está bem casada. Ensinei ao meu
irmão carnavalesco, e ele se empregou no banco. Os velhos já me ti­
nham estima; eu orientava a casa. Outra prim a também se casou, a
qual também auxiliei. Meu irmão casou-se também. Ficamos eu, os
velhos e o primo de maus costumes, que nunca quis trabalhar. Uma
ocasião, minha tia zangou-se comigo, porque eu quis corrigir o filho.
Em conflito com ela e na situação de sobrinho, eu quis sair de casa.
Mas ela veio às boas, e eu fiquei. Em 1933, conheci uma organização
de pretos. Propus lecionar os negros da sociedade, e aceitaram a pro­
posta. Toda noite, durante dois anos, lecionei. Então fu i convidado a
fa z er parte da diretoria. Mostrava-me refratãrio a namorar. Tinham-
me como orgulhoso; não era tal, não me preocupava com isso. Via esse
aspecto com indiferença; não prestava atenção nas moças. As moças
manifestavam-me, e eu sempre desviava: não tinha intenções. Porfim,
fiqu ei gostando de uma moça daquela sociedade. Conversava com ela,
nunca, porém, dando demonstração de minha intenção. Estudando-a
sempre, procurando conhecer a fam ília. Ela percebia meu interesse.
Falavam. Eu tinha me habituado a fa z er companhia aos velhos. Estes,
especialmente minha tia, opuseram-se ao meu namoro. Eu tinha en­
tão três preocupações importantes: a obrigação dos negros, o am or por
aquela moça e a necessidade de ganhar dinheiro, de me estabelecer.
Encontrando oposição em casa e pertencendo a uma associação de

88
í
negros que exigia uma conduta rela, comecei a namorar escondido.
Porfim , fa lei com. a minha tia que não podería haver cisão na fam ília
se eu trabalhava pela organização do negro. Ela confessou-se com um
padre, que a aconselhou a não se opor.

— Lutava sempre com dificuldades econômicas, mas, mesmo assim,


tinha a intenção de organizar o consultório para me casar. Recorrí a
vários meios de empréstimos, sem nada conseguir. Fiz economias; tirei
o consultório a prestações e o montei. O trabalho ia bem. Neste ínterim,
descobrem-se falsificações na escola pela qual eu me havia form ado.
Os diplomados por aquela escola tiveram de prestar exames para rea­
bilitação. Inscrevi-me; preparei-me e entrei em exame; fu i reprovado.
Fiquei numa aflição tremenda. Via a vida arruinada. Inscrevi-me
para a segunda época, e fu i aprovado. Continuei a trabalhar, entusi­
asmado com o consultório. Resolvi casar-me e pedi a moça. Marquei
o casamento. Acontece que, nesta época, eu já estava na diretoria da
associação. Com tantos afazeres e apaixonado pela questão do negro,
descuidei-me do consultório e a clinica caiu. Pagava o consultório a
prestações, o casamento se aproximava e eu não produzia. Eu tinha
de atender ao aspecto moral da situação — eu podería protelar o casa­
mento, mas não queria, achava que não ficava bem. Resolvi cumprir a
palavra, mesmo quefosse para perder tudo. Já havia comprado móveis,
que vinha pagando. Faltavam três meses para o enlace. A casa estava
alugada. Não podia adiar. Minha fam ília achava-m e louco. Casei-me
com todos os aparatos possíveis. Dentro do primeiro mês de casado,
tudo se resolveu: entreguei o consultório, e então surgiu o problem a dos
clientes com o serviço começado. Entreguei os móveis, pois as duplica­
tas venciam. Sem poder exercer a profissão, não podia pagar o aluguel
da casa. Desaluguei a casa efu i morar com a sogra. De lã, saía cedo
para procurar emprego. Não deixei a associação de negros, onde nada
ganhava. Vinha para a cidade, sem saber onde tomar as refeições.

89
Essa vida durou cinco meses. O que mais m epreocupava eram os cli­
entes com serviço por terminar. Consigo trabalhar no escritório de um
colega, atendendo-lhe os clientes em troca da possibilidade de termi­
nar o trabalho dos meus clientes. Como ele tivesse muita clínica e não
gostasse de trabalhar, propôs-me um ordenado. Não tendo despesa, fu i
guardando o ordenado. A sogra me queria bem. Ela era proprietária
e conhecia bem a situação; as questões de casa ela as resolvia com
minha mulher. Depois de seis meses mais ou menos, dei a entrada de
outro consultório, mas não o retirei; continuei pagando. Minha mu­
lher propôs trabalhar. Descubro um concurso para uma Secretaria do
Estado. Ingressei para o funcionalismo, ganhando Cr$ 300,00; depois
de fa z er um concurso, passo a Cr$ 600,00. Consegui pagar todo o con­
sultório e montá-lo. Comprei novamente móveis, aluguei casa de Cr$
300,00, montei-a. Minha mulher é filh a de mulatos. Ela é inteligente.
Ela compreende o problem a do negro, mas não gosta do meio, esqui­
va-se. Ela tem irmãos; são operários, não se interessam pelo problema
racial. Minha mulher não quis deixar de trabalhar, achando conve­
niente ajudar a casa. Tendo ficad o grávida, fo i obrigada a deixar o
trabalho. Temos um filho com 7 meses. Estou estabilizado.

— Quanto a minha saúde, a única doença que tive foram catapora


aos 8 anos de idade e “surm enagem na ocasião de decadência do
consultório. Naquela ocasião, eu me achava sob o estado de luta espi­
ritual acumulado: um noivado precipitado, eu não esperava pedi-la
em casamento, mas diante do choro dela... Eu tinha pontos de interesse
pessoal antes de assumir aquele compromisso. Estava obcecado pela
associação, onde a política interna estava difícil; abandonei a clínica
e, em consequência, as dificuldades econômicas que se seguiram: fe ­
chamento do consultório e da casa. Sentia angústia, os pés e as mãos
frios. Fiquei impossibilitado de trabalhar durante 6 meses.38
38 Estafa, estresse.

90
— Traços do minha personalidade: sou sentimental quando se trata
de sofrimento humano. Tendo de resolver situações sérias, de tomar
atitudes violentas, sinto-me bem, isto é, sou calmo até demais; resolvo
com ponderação, não me descontrolo. Quando fa ço um ato que depois
reprovo, não me arrependo, mas fico com aquilo no pensamento du­
rante meses. Assim, por exemplo, com amigos: se me desagradam, não
sei discutir, fico magoado; procuro não encontrá-los, porque fico en­
vergonhado — não posso acreditar que tivessem tal ou tal atitude. Sou
impulsivo, com atitudes extremadas. Em todas as atitudes da associ­
ação, procurava impor respeito, demonstrar que eu era capaz de fa zer
0 que eles faziam ; procurava sempre enaltecer o negro que a mim
se chegasse humildemente; dedico-me a uma atividade apaixonada-
mente e me preocupo porque sacrifico outros trabalhos. Não consegui
harm onizar o consultório com os trabalhos sociais. Não sei ficar sem
fazer nada; preciso ter o que me preocupe, fa ç a pensar e lutar. Vejo-me
com muita coisa para fa z er a um só tempo. Ajo mais sob o domínio
do coração do que do cérebro. Tenho mais sentimento coletivo do que
ambições pessoais. Não tinha equilíbrio de sentimento. Sou de muita
boa-fé. Desejo intensamente ser querido, considerado. Faço um tra­
balho a um cliente e, se algum tempo depois, havendo defeito, o cliente
volta, em lugar de impor-lhe condições, fa ço o trabalho gratuitamente
pelo desejo de que a pessoa fique satisfeita. Não admito dúvidas quanto
a minha capacidade. Certa vez, um enfermeiro, durante todo o seu
tratamento, manifestava desconfiança em minha especialidade profis­
sional; percebia pelas perguntas que fa z ia sobre o tratamento. Dei-lhe
todas as explicações, inclusive sobre anatomia, e o despedi. De outra
vez, eu fechava o gabinete dentário. Eram 11 horas da noite, quando
chega uma senhora de automóvel. Ela entra e me pergunta se eu era
capaz de lhe aliviar a dor. Examino o dente, fa ço o diagnóstico — ex­
tração. Cobro-lhe Cr$ 100,00, porque perguntou se eu era capaz. Ela
recorreu a mim, porque àquela hora não encontrava outro dentista.

91
— Tenho conflito mental: um, devido a minha situação racial; dois,
devido a minha situação social. Situação racial: o conflito decorre
p or eu não alcançar uma explicação para a existência de raças dife­
rentes. As diferenças raciais são explicadas de váriasform as: religiosa,
social, etc. Vejo a desigualdade existente em várias raças, o que motiva
conflito. Devia ser uma raça só. Situação social: acho que a situação
social não se justifica. Creio que o conflito racial tende a desaparecer
em fa c e do conflito social. Muitas raças em situação social elevada
desconhecem o problem a racial: p or exemplo, sírios ricos. A situação
social influi na racial. São dois conflitos ligados. A situação racial
poderá desaparecer, prevalecendo a social, p or diferença de posses.
Por questões econômicas, sinto o conflito social em minha mente.

— Meu ambiente social; quanto mais minha consciência se fo i esclare­


cendo, tanto maisfu i me afastando dos meios de recreação. Nesses am­
bientes não me sinto bem. Procuro convívio com pessoas que pensam e
leem; meios de intelectuais brancos e pretos. Sou muito sociável, gosto
de conversar e por isso sou procurado. Não me sinto bem quando não
encontro pessoas para conversar. Nas palestras, tenho prevenção com
idéias que possam ofender. Todo branco conhece minhas idéias. Al­
guns, de inicio, entram em conflito, mas depois acabam amigos. Minhas
idéias são as de auxiliar as raças oprimidas tidas como inferiores, que
o são socialmente. Ofundam ental seria tomar essas raças e trazê-las ao
nível superior, colocando-as em condição que tivessem ascensão social;
estaria resolvida a questão, embora exista muita dificuldade para que
subam. Os brancos me contestam, dizendo que este problem a não ex­
iste. Negam, porque não têm conhecimento do problema. Também há
negros que acham que o problem a não existe. A maioria dos brancos
que compreende o problema sente-o como situação social e não racial.
Como elemento da raça, acho que para o negro há dois problemas: o
racial e o social. Mas o que mais massacra o negro é o social. Um pro-

92
fessorpreto, há algum tempo, fe z concurso para uma carteira de curso
secundário. Foi aprovado, mas lhe opuseram obstáculos de ordem ad­
ministrativa e mesmo jurídica. O negro consciente sente isso como uma
questão moral, por ser negro. Fica abalado, desanimado, revolucionário
por ser negro. Mesmo que o negro não tenha preocupação com estefato,
chega à conclusão de que existe o preconceito racial. Uma vez que o
negro suba economicamente, com melhor padrão de vida, desaparece
de sua mente, não de todo, mas se atenua o pensamento sobre a exis­
tência de um problema puramente racial. Aquele que está em situação
social inferior acumula a situação racial. Não existiría o preconceito se
50% dos negros fossem aceitos. Não existe preconceito individual, mas
coletivo. Em São Paulo, pode-se contar o número mínimo de negros que
tiveram ascensão social. Há má vontade ou vergonha de cham ar o ne­
gro, enaltecendo valores. A criança negra devia ter educação diferente
da que recebe — não basta ter o mesmo ensino. Na escola, o colega não
quer sentar com o negrinho, ou brincar com o negrinho. Nos contos es­
colares, o negrinho está sempre em posição inferior. O negrinho nunca
recita no palco; é como o adulto que estuda e não é aproveitado. A ami­
zade entre brancos e negros é possível. Eu consigo, me retraindo e indo
ao branco preparado. Retraio-me no sentido de não participar da farra
dos brancos; fa ço questão dessa linha de conduta, porque é sempre o
negro o culpado — fo i o negro quem levou o branco à bebida ou a outra
farra, aconteceu porque ele estava em companhia do negro, etc. Se me
convidam para uma festa de gala, vou e, se percebo diferença em me
tratar, eu me retiro, porque não me sinto bem. O branco que me convi­
dou, já pensando em que eu fosse menosprezado por alguém, procura
com modos espalhafatosos, indelicados para o meu íntimo, me enalte­
cer com apresentações bombásticas. Meu modo de pensar torna-se pior
ainda — para estar eu ali é preciso um arauto; se minha presença é
forçada, não é um ato natural, não deveria preocupar tanto aquele que
me convida. Eu queria estar na reunião naturalmente, como os outros,

93
e, se eu lhe disser que me desagradam tais exageros na apresentação,
o branco não compreenderá. Certa vez indagaram-me: “Se você fosse
convidado para uma festa de gala por brancos, você aceitaria o con­
vite e iria?”Aceitaria, por quê? “Porque quero convidá-lo para minha
festa de form atura. Mas se você fosse mal recebido que faria?”Eu não
consentiría em desfazer a festa, apenas convidaria vocês, que me convi­
daram, a se retirarem comigo, como protesto.

— O sentimentalismo está ligado ã minha situação na infância: éra­


mos 12 filhos, dificuldades econômicas, proibição para comer doces.
A prim eira restrição que a criança sente é a que se prende à alimen­
tação: ver na vitrina um doce e não saber quando vai tê-lo é um sofri­
mento. Depois, vem o sofrimento pelas diversões, às quais não se pode
ir. Os indivíduos conscientes deveríam se reunir para resolver o pro­
blema da coletividade, ele tiraria satisfações pessoais.

Caso n2 10 — Trata-se de um preto de 38 anos de idade. É


funcionário público com os vencim entos de Cr$ 750,00. Possui
curso secundário. Está casado com uma mulher de cor parda e
possui dois filhos menores. Relato do entrevistado:

— Não tenho fé nos pretos: sou contra os pretos. Opreto é uma raça
miserável de gente ignorante. Evito a companhia deles. Tenho pre­
venção com o mulato. Considero o branco pela seleção que ele fa z em
festas, não permitindo a entrada de preto. Procuro vestir-me bem para
ter boa aparência.

Caso nQ 11 — Trata-se de um preto de 43 anos de idade. É


filho de pai preto e mãe parda. Exerce o funcionalismo público
ganhando Cr$ 800,00 por mês. Tem curso primário. É casado
com mulher “branca” (filha de mãe parda e pai branco). Possui

94
quatro filhos pardos, os quais fizeram curso secundário. Relato
do entrevistado:

— O preto é uma raça completamente inferior: não vale nada. Evito


trabalhar com subordinados pretos, e, p or outro lado, quero colocar o
branco sob minha autoridade, submetê-lo no trabalho. Fui criado por
brancos e me senti espezinhado. Só possuo relações sociais com bran­
cos. As sociedades de brancos nos vedam participar como sócios. O
preto deve viver separado do branco. Acho que o mulato deve evoluir,
casando-se sempre com branco, para extinguir a raça.

Caso nQ 12 — Refere-se a um preto de 36 anos de idade,


casado com uma parda. Trabalha no com ércio e ganha Cr$
900,00. Tem curso primário. Relato do entrevistado:

— Os pretos são mais relaxados que os brancos. Acho que o governo


devia tomar a iniciativa de educã-los. Ou então os pretos deveríam
unir-se e trabalhar no Interior, para em primeiro lugar organizar sua
vida econômica. Não existe preconceito do branco contra o preto, pois
é o próprio preto quefa z surgir situações de desprezo para ele, devido a
suas atitudes inferiores. Opreto só pensarem dançar. Épreciso instruir
o negro para melhorar suas atitudes,e então ser aceito pelo branco.

Caso n2 13 — O entrevistado é preto. Tem 40 anos de idade.


É casado com mulher branca de classe social inferior à sua, da
qual se separou por infidelidade dela. Possui três filhos pardos
que vivem em sua companhia. Exerce o funcionalismo público,
percebendo Cr$ 700, por mês. Fez curso secundário. É pes­
soa muito afetiva e sensível. Notamos a preocupação em se
vestir bem e falar corretamente. Apresenta-se irônico quanto à
questão de cor. Relato do entrevistado:

95
— O branco diz não ter preconceito contra o negro, mas se contradiz
nas ações e atitudes. Observa-se a tendência do branco para rebaixar
o negro. Eu me divirto com as dificuldades do branco para ocultar
seu preconceito, quando, por exemplo, não deseja convidar o negro
amigo, companheiro, para festas fam iliares. “Negro é negro; onde já se
viu um negro doutor e uma negra de luvas!” Opreto, por sua vez, não
quer ser negro. Os anim ais parecem mais inteligentes: um cavalo preto
ou branco é sempre um cavalo, mas um homem preto é um negro.

A n álise d as atitu d es m a n ife sta d a s p elo s e n tre v istad o s d as


cla sse s so cia is in te rm e d iá ria s

Os pretos das classes sociais intermediárias demonstram ati­


tudes que revelam marcada sensibilidade ligada à cor. Por um
lado, apresentam-se ressentidos e com ódio, pela rejeição do
branco; de outro, desanimados e queixoso pela falta de solida­
riedade entre pretos. Os sentimentos de mágoa e revolta dirigi­
dos contra o branco não são inconscientes, com o parece entre
os pretos da classe social “inferior”, mas conscientem ente repri­
midos pelo medo de provocar atitudes de rejeição mais acen­
tuada. Sobre este aspecto, o entrevistado do caso n2 8 referiu-se
nos seguintes termos: “— [...] Tenho modo de pensar diferente
do preto, em geral, que acha que é necessário reagir contra o
branco. O meu argumento é o seguinte: você é motorista de
tal família e sua mulher é empregada doméstica; você reage, e
depois com o sustentar seus filhos?”
O negro, portanto, oculta seus sentimentos do branco como
defesa, desenvolvendo atitudes de submissão, amabilidade, hu-
morismo, etc. /
O fato de o preto das classes sociais intermediárias não apre­
sentar atitudes diretamente ocorridas da hostilidade que sente

96
contra o branco se explicaria por ter sofrido intenso processo
de identificação. Nos 13 casos até agora apresentados, seis dos
entrevistados afirmaram ser criados por brancos e outros qua­
tro tiveram íntimo convívio com brancos na posição de empre­
gados. Tiveram pois, na infância, mais contato com brancos
do que com pretos. No convívio íntimo com brancos, o preto
adquire as maneiras de pensar e sentir do branco também no
que se refere ao próprio preto, passando a ter para o preto a
mesma atitude e os mesmos sentimentos do branco. Em virtude
dos contatos primários da infância e do mecanismo psíquico da
identificação, o preto introjeta as idéias do branco e passa então
a ver os pretos do ponto de vista do branco, desprezando-os.
Vendo-se também a si próprio do ponto de vista do branco,
perde o direito de reagir contra o branco. Suas energias são
empenhadas no esforço de eliminar os motivos do conceito de
inferioridade, a fim de conquistar a consideração do branco.
Com mentalidade formada pelo branco, o preto desenvolve o
autoideal de branco, que não se expressa abertamente no dese­
jo de ser branco. O preto luta para anular o sentimento de in­
ferioridade desenvolvido em face das atitudes de restrições do
branco. Empenha-se então em conseguir características de sta-
tus superior, através do casamento, do exercício de profissões
liberais, do cultivo intelectual e da “boa aparência”.
Entre os pretos criados por brancos, observamos que uns
conservam status social inferior, enquanto outros atingem as­
censão social. O exam e do material coligido nas entrevistas
sugere que os primeiros foram criadas por brancos com o o b ­
jetivo de torná-las empregados domésticos e os segundos re­
ceberam a educação e instrução orientada dado o interesse da
família que os criava. Estes, educado pelos brancos com mais
atenção, são os que demonstram consciência de cor.

97
O sentimento de inferioridade ligado à consciência de cor,
a inteligência individual e o incentivo proveniente do contato
primário com brancos parecem produzir atitudes que influen­
ciam a ascensão social do preto.
Podem os verificar a atuação de fator inteligência através das
palavras dos entrevistados apresentados nos casos 8 e 9, res­
pectivamente:

— Terminado o curso primário, fu i prestar exames para o curso se­


cundário, na cidade vizinha. Dias depois, os jornais publicaram os
resultados — eu estava colocado em terceiro lugar entre os concor­
rentes. A minha colocação despertou adm iração de todos na cidade.
Muitos chegavam a me perguntar: “Você é o preto que tirou o terceiro
lugar nos exames?” Eu achava natural e não compreendia o motivo
de tanta adm iração. Mais tarde, ao ingressar na profissão que atual­
mente exerço, fu i submetido a um exame. Entretanto, notei que so­
mente de mim exigiram conhecimentos além do estipulado para os
outros. Depois de comprovar que tinha conhecimento além do espe­
rado, fu i aceito no emprego.

— [...] Ofilho do patrão também não gostava do trabalho. Ele apren­


dia violino. Eu sempre gostei de música. Tinha vontade de aprender
um instrumento, mas ninguém me orientava. Com uma taquara, fiz
uma flauta. Tocava de ouvido, acompanhando o filho do patrão ao
violino. O velho, ouvindo-me, disse-me: “Você vai aprender música em
São Paulo. ” Não saímos mais de casa — jogãvamos futebol e tocáva-
mos. Então o velho me fe z presente de uma flauta. Comecei a estudar
música. Custei a aprender as figuras musicais. Finalmente, lia bem a
música e tinha bom sopro. O velho começou a se entusiasmar comigo:
“Esse negrinho vai dar gente”, dizia. [...] Certo dia, o velho disse-me:
“Precisamos providenciar sua transferência de ginásio para cá, a fim

98
í
de terminar o curso." Mas a transferência não fo i possível, na cidade
só havia escola normal. Voltei para a cidade onde havia começado o
ginásio, com todas as despesas garantidas pelo velho. Fiquei contente.
Mas comecei a pensar que ficava mal o velho pagar-m e tudo, apesar de
eu ser muito econômico. Não tendo, porém, aptidão alguma, procurei
um lugar para tocar. Estávamos na febre do jazz. Consegui tocar no
“ja z z ” de um restaurante, à noite. Ganhava Cr$ 200,00 por mês. Es­
creví ao velho que a música já estava valendo alguma coisa.

Correlacionado com o fator inteligência, os contatos primá­


rios entre pretos e brancos constituiríam um estimulo exterior
para a ascensão ocupacional dos primeiros.
No caso referido sob n2 8, observamos que o tratamento dis­
pensado ao entrevistado era o mesmo dado aos dois meninos
da casa. Os três m eninos vestiam as mesmas roupas. Tão igual
era o tratamento e tão íntimo o contato com a família que o cri­
ava, que na infância não lhe fora com preensível a advertência
do vigário: “Lembre-se que você não é igual a eles.” Da família
que o criou recebeu também a orientação para seguir o curso
secundário. Feito adulto, vamos encontrá-lo empenhando ener­
gias para manter status social equivalente aos de seus irmãos
tle criação.
Circunstâncias de ambientes semelhantes às anteriores en­
contramos no caso apresentado sob n2 9:

— [...] Minha avó e minha tia trabalhavam na cozinha de uma pensão.


Fui para aquela pensão em companhia delas. Outro ambiente, onde
havia horário para as refeições e eu tinha um quartinho no porão.
Comia e dormia melhor. A patroa tinha filhas moças e um menino
mais ou menos da minha idade, com o qual brincava. Apoderei-me
dos seus brinquedos e estudava em seus livros. Ligãvamos campainha

99
e outro pequenos serviços desta ordem. Fui criando espírito de curiosi­
dade. Eu tinha medo do escuro e fa z ia força para dormir logo e não
me lembrar de que estava só. Lã perm aneci dois anos. Uma das filhas,
casando-se, fo i residir numa cidade do Interior. Mandaram-me para
lã. Fui sozinho. Contava 15 anos. Frequentei uma escola de padres,
curso de admissão ao ginásio. Em casa, tinha a obrigação do serviço
doméstico, limpar o pó, vidros, etc. Eu gostava da escola, voltava sa­
tisfeito. Quase não tinha com quem brincar. Inventava brinquedo no
quintal com form igas, besouro. Tinha medo de grilo, porque cantava.
Entrei para o ginásio. Então tinha esporte e a companhia de rapazes
bem arrumados.

Aborrecendo-se com os patrões, deixa o ginásio no 32 ano e


volta para São Paulo, à procura de novo emprego:

— [...] Não procurei por muito tempo, porque na pensão apareceu um


homem procurando empregado para ir para o Interior. Aceitei o em­
prego; partimos no dia seguinte. O senhor, do estado de Minas, era
dentista e fazendeiro. “Quero você para ajudar em casa, ir ao sítio e,
conforme você se portar, faço-o estudar, quero fazê-lo gente. ”

Alguns anos depois, em consequência de experiências desa­


gradáveis por causa da cor, decide não ser mais empregado de
ninguém e procurar uma profissão liberal, “fazer o curso com
grande esforço e aplicação para revidar perseguições, má von­
tade das moças e do gerente, para mostrar aos amigos que não
era o que pensavam, era capaz”.
O meio do qual se valeu para superar as frustrações demons­
trava a importância do fator inteligência e do contato primário.
A escolha da profissão liberal baseava-se numa identificação
com o velho que o ajudava.

100
Nos dois casos referidos, notamos: as circunstâncias da infân­
cia, onde os contatos primários entre brancos e pretos permitem
a integração do preto. Mais tarde, em face da frustração do
desejo de conservar contatos primários com brancos, verifica-
se o desenvolvimento da consciência de cor no conflito mental
entre o desejo de consideração e correspondência e a reali­
dade exterior aquém de suas aspirações, pelas restrições que
os brancos da mesma classe lhe fazem. Na solução do conflito
mental, observamos a atuação do fator capacidade intelectiva
do indivíduo e o incentivo oferecido pelo branco, que o criava
para “fazê-lo gente”, não apenas um empregado doméstico.
Entretanto, o acesso ocupacional não lhe confere status so­
cial igual ao do branco do mesmo nível profissional, econôm i­
co e intelectual. O preto que sentia dele se exigirem maiores
esforços para cursar escolas superiores ou obter um “bom ” em ­
prego novamente se traumatiza com as restrições que sofre
na esfera social do branco. Sente-se considerado apenas com o
“profissional”, não com o “pessoa”.
A conquista de um diploma de escola superior ou de um
cargo de responsabilidade não garante ao negro a satisfação do
desejo de ser aceito socialmente sem restrições, conform e as
experiências m encionadas no caso n2 8:

— Sob minha chefia trabalham vários moços. Certo dia, um de­


les entregava-me um convite de festa de form atura em presença de
sua irmã. No dia seguinte, conta-me ingenuamente o rapaz: “Ontem
minha irmã ficou preocupada vendo-me convidã-lo para a festa de
form atura e me censurou. Tranquilizei-a imediatamente, dizendo-
lhe que o havia convidado porque sabia que o senhor não iria.” [...]
Possuo amigos íntimos brancos, com os quais fu i criado na infância.
Somos íntimos até hoje; são pessoas que se hospedam em minha casa,

101
assim como eu e minha fam ília em casa deles. Vejo nestas am izades a
gratidão por minha mãe ter criado pessoas da fam ília deles. Quando
criança, eu e eles sempre éramos tratados igualmente. [...) Mesmo estes
amigos íntimos demonstram preconceito em certas ocasiões. Estava
mos em Santos e terminãvamos o jantar, quando alguém sugeriu ir
mos ao cassino. Para lã nos encaminhamos, e um deles fa la ao ouvido
do outro. Pela resposta — “Não, ele é branco. ”—, compreendí o que
se passava e disse: “Não voy. ao cassino com vocês; podería ir, porque
eu entraria, pois o gerente é amigo meu, mas não quero ir. ”Insistiram
para que eu fosse, mas eu não teria prazer em estar lã. Isto significa
que um amigo íntimo, branco, de infância, teve receio de entrar no
cassino em minha companhia.

O diploma ou cargo de responsabilidade não constitui o meio


suficiente para sua introdução em todos os aspectos da vida so­
cial. O preto, sendo novamente frustrado, procura ajustamento,
isolando-se. Isola-se do branco para evitar o sofrimento de ser
evitado pelo branco em certas situações sociais. Isola-se do
preto em consequência do mesm o sentimento de inferioridade
que o leva a lutar pela aceitação do branco. Considerando-se
inferior, o negro não pode alcançar a satisfação dos desejos de
correspondência e consideração (PIERSON, 1942a, p. 15-20)
através de outro preto.
Enquanto os indivíduos de cor da classe social “inferior” se
acham dispersos entre os brancos, os pretos das classes inter­
mediárias, que se poderiam constituir em líderes, encontram-se
isolados, porque dominados pelo sentimento de inferioridade.
Os pretos das classes sociais intermediárias têm para o mulato
da sua classe social os mesmos sentimentos de mágoa, hostilidade
e desejo de aproximação por se sentirem desprezados por ele.
Parece que na personalidade do preto prepondera a atuação

102
tios desejos de consideração e correspondência em virtude do
sentimento de inferioridade. A vida do preto torna-se uma luta
contínua, mais diretamente contra seu sentimento de inferiori­
dade, do que contra as atitudes do branco que motivam a con ­
cepção de si próprio.
C) ajustamento social do preto na forma de conformismo se­
ria coadjuvado pelas atitudes dos brancos que procuram evitar
susceptibilidades. Tais atitudes de branco, respeitando a sen­
sibilidade daqueles, facilitariam a repressão do sentimento de
hostilidade do preto, situação que explicaria a observação da
parte de negros de que não possuem incentivos para união por
"não serem tão espicaçado pelos brancos”.
O sofrimento do preto em face das restrições sociais que
lhe são impostas o faz invejar a situação social e econôm ica
do negro norte-americano. Aquele sentimento de inveja sugere
que, se de um lado a segregação dos negros em minoria racial
denota o grau de distância social na linha de antagonismo ra­
cial, de outro a segregação constituiría uma armadura coletiva
dentro da qual o grupo se protege par obter a satisfação de
desejos vitais. Comparando com a situação racial de São Paulo,
a possibilidade de ascensão que o sistema de classes sociais
oferece evidencia m enor distância social na linha racial; mas,
por outro lado, o indivíduo se vê mais exposto às rejeições
exteriores, assim com o sem meios para alcançar a satisfação de
desejos vedados pelas classes dominantes.

c ) C a so s d e m u la to s d a cla sse so cia l “ in ferio r”

Distinguimos os casos de mulatos entrevistados em um grupo


à parte dos pretos, seguindo o trabalho de Stonequist (1937),
no qual mostra — aliás, ideia muitas vezes apontada pelos

103
pesquisadores — que o status e o papel de um grupo mestiço
particular podem ser tornado com o índice do problem a racial
mais largo, dada a circunstância particular do híbrido, que le­
vanta para a comunidade o problema especial de determinar
seu lugar dentro da organização social.
Caso n2 14 — Refere-se a uma m oça de 18 anos de idade de
cor parda. É filha ilegítima de mãe preta e pai pardo. Possui três
irmãos, pelo lado materno, sendo uma irmã de 16 anos, filha
de um português, um m enino de 11 anos e outro de 10 anos,
filhos de um preto. A entrevistada fez até o 32 grau primário; é
cozinheira. Relata-nos o seguinte:

— Tenho gênio diferente de minha irmã, que desobedece â mamãe,


saindo á noite. Ela é orgulhosa, xinga-me de negra, diz que não e
minha irmã. Meu p ai era pardo, o dela era português, por isso ela
despreza. Ela quer casar-se com branco e só namora brancos. Xinga
de negros aos irmãos. Não gosta de andar conosco na rua. Quando
saímos juntos, ela anda afastada dos outros. Penso em me casar aos
22 anos e com “patrício”, para que não falem de mim por não ter
procurado “patrício”, para me casar. Já ouvi branco fa la r de minha
irmã quando acom panhada por um namorado branco: “bandeira
paulista”, disseram. Fico nervosa ouvindo tais coisas, e então prefiro
casar-me com um preto. Uma fam ília de italianos, vizinhos, proíbe os
filhos de chegarem à minha casa por questão de cor: certa vez, casti­
garam as crianças porque aceitaram pão de minha casa.

Caso n9 15 — Trata-se de uma parda de 28 anos de idade, que há


10 anos vive maritalmente como um indivíduo pardo, de 30 anos de
idade, empregado de escritório. Este casou-se há cinco anos com
uma moça parda, costureira, da qual tem uma filhinha, possuindo
mais três filhos com a companheira. Conta-nos a entrevistada:

104
I
— Desde menina trabalhei em fábrica, até a idade de 18 anos, quan­
do me uni ao companheiro, certa de que nos casaríamos. Meu p a i e
minha avó, até há alguns meses, ignoravam que eu estava legalmente
ligada ao meu companheiro. Vivemos em continuo conflito, porque
ele não se decide por uma das mulheres. Muitas vezes, tive vontade de
dar na mulher dele, que com ele se casou com o único fito de afastá-lo
de mim. Não agrido quando ela vem fa z er escândalo à minha porta,
lembrando que os jornais dariam a notícia “Uma negra... ou uma
parda espancou...” Se eu fosse branca, já a teria espancado. Muita
gente pensa que, por ser de cor, a pessoa é relaxada. Gosto de gente que
se arruma bem. Há pessoas que nos desprezam por a gente ser de cor,
e têm razão: os de cor são relaxados.

Caso ne 16 — A entrevistada é de cor parda, casada com um


preto, tendo quatro filhos menores pretos. Transferiram-se de
Minas Gerais para São Paulo há 10 anos. Seu marido é operário.
São suas palavras:

— Casei-me com um preto para jam ais ser cham ada de “negra”pelo
marido, ao passo que uma mulher mais clara do que o marido nunca o
chamará de “negro”. Vivemos fechados dentro da fam ília, onde não se
focaliza a cor. Minha sogra não permitiu que as filhas se casassem com
homens mais claros do que elas, para não serem desprezadas pelo mari­
do, enquanto todos osfilhos se casaram com mulheres mais claras. Assim
agiram para evitar que a corfosse motivo de desgostos, e somosfelizes.

Caso n2 17 — A entrevistada, filha de pai branco, italiano, le-


nheiro, e mãe preta, cozinheira, conta 32 anos de idade e está casa­
da com um rapaz branco, sapateiro, filho de italianos, há 12 anos.
Ficou órfã de pai aos 8 anos, tendo de deixar o grupo escolar e
passar a trabalhar na fábrica até os 19 anos. Relata-nos o seguinte:

105
— Minha mãe dizia sempre âs filhas que se casassem com homens
brancos. Este conselho decorria de própria experiência, por ter tido
um casamento feliz, e pela observação da irmã, que, casada com. um
preto, muito sofreu. Foi por influência de minha mãe que me casei
com um homem branco. Aos 19 anos, fu i retirada da fábrica, porque
eu gostava de um homem de cor. Minha irmã mais velha, ao contrário,
até hoje se conserva solteira, à espera de um marido branco. Conhecí
meu marido numa festa fam iliar. À primeira vista, ele achou que eu
devia ser a “mocinha de casa”. Certa vez, tendo me convidado para ir
ao cinema e eu rejeitado o convite, form ou um bom juízo a meu res­
peito. Pedida em casamento, tive muito medo de encontrar a oposição
da fam ília dele, por eu ser de cor. Isto não se deu, fu i bem recebida.
Durante os seis primeiros de casada, residi com meus sogros, onde fu i
feliz, não havendo anim osidade como existia entre minha sogra e a
outra nora branca. Eu agradava minha sogra no trabalho: nunca tive
preguiça e tirava o trabalho das mãos dela, poupando-a. Ainda hoje,
aos sábados, vou à casa dela, lavar-lhe a batería de cozinha. Estive
hospitalizada para fa z er uma operação e, durante minha ausência,
meu marido teve propostas amorosas dentro de minha casa, pois ele,
sendo sapateiro, trabalha em casa. Enfureci-me, tive ciúmes e desejo
de matá-lo. Briguei com aquela vizinha, que muito me ofendeu, xin­
gando-me de negra à toa.

Caso ns 18 — O entrevistado é mulato, casado com mulher


preta e possui sete filhos. É açougueiro, tendo uma renda glo­
bal da família superior à importância de Cr$ 1.000,00. Do relato
do entrevistado:

— Desejo que meusfilhos sigam minha profissão, por ser um modo fácil
de ganhar dinheiro. Faço questão que a minha fam ília tenha boa ali­
mentação. Sou respeitado pelos filhos. Fui criado no estado do Rio por

106
(
muito boa Jumítía, onde mantenho boas relações. Moro há 15 anos em
São Paulo, e quando aqui cheguei senti diferença no trato por causa da
cor. Existe preconceito entre as pessoas de cor por inveja, mau olhado.

O entrevistado é homem orgulhoso. Mora em cortiço e des­


preza os vizinhos com o gente de cortiço. Diz que está proviso­
riamente naquela casa, pretendendo mudar-se logo.
Caso ns 19 — Trata-se de uma senhora de mais de 50 anos
de idade, mulata. Seu marido é branco e ganha Cr$ 150,00, tra­
balhando na limpeza pública. É analfabeta. Possui seis filhos,
estando cinco filhas casadas com branco e um filho casado com
branca. Morou sempre no Interior, onde perm anece a maior
parte de sua família. Está em São Paulo há cinco anos. A en­
trevistada insistiu para que conhecéssem os a beleza dos netos,
crianças de olhos azuis e tez clara. Do relato da entrevistada:

— No Interior, eu costurava e atendia as mulheres como parteira. Aqui


não tenho calma para costurar, fico nervosa de ver tudo sujo [habitação
coletiva]. No Interior, eu tinha uma casa ampla, enquanto aqui tenho
de morar num quarto. Lavo roupa para viver. Meus netos são lindos,
têm olhos azuis e cabelos amarelos. As'pessoas não valem pela cor. Mas
bá pessoas que na rua desconhecem um negro; isso está errado. Esta
neta [menina de 12 anos, parda] é feia, puxou as avós. Sempre lhe digo
que ela não é filha legitima, mas fo i dada e, apesar de ser brincadeira,
ela chora.

Caso n2 20 — Trata-se de uma mulata de 35 anos de idade,


empregada doméstica e analfabeta. É filha ilegítima de pai
branco e mãe preta. Foi criada por brancos, para os quais sem ­
pre trabalhou na posição de empregada doméstica, mas a eles
se refere com o “irmãos de criação”. Relatou-nos o seguinte:

107
— Perdi minha mãe aos 2 anos de idade. Não conhecí meu pai, rnas
sempre ouvifalar dele. Eu era criança quando me disseram, que ele havia,
morrido, e meu patrão comprou uma besta da fazen da de meu pai, eu
adorava aquela besta por que tinha pertencido ao meu pai. Sofri muito
quando criança, por falta de carinho. Trabalhei 12 anos e a patroa
guarda-me o dinheiro, ela morrendo, eu não quis cobrar meus irmãos de
criação, para evitar desarmonia. Vivo só, não frequento bailes. A gente
de cor não presta, não melhora; não é gente unida; quando melhoram a
posição, procuram branco para casar. Épreciso clarear a raça.

Caso n2 21 — Refere-se a uma mulata de 37 anos de idade,


operária, viúva. Possui três filhos, dois dos quais são operários.
A soma dos salários da família perfaz a importância de Cr$
800,00 por mês. São analfabetos. Relatou-nos o seguinte: ca­
sou-se aos 14 anos, com um preto, homem sem juízo que não
gostava de trabalhar, tendo falecido há três anos. Depois de
viúva, mudou-se do Interior para São Paulo. Procura criar os
filhos de forma que sejam amigos.

— Quanto a cor, nunca senti dificuldade por ser pessoa de cor. Dou-
me tanto com brancos, como com pretos. Sei que há brancos que des­
prezam, mas nunca senti isso. Minha melhor amiga é uma compa­
nheira branca defãbrica.

A n álise d as a titu d es m a n ife sta d a s


n o s c a s o s dos m u la to s d a cla sse so cia l “ in ferio r”

À luz dos casos apresentados, traçamos as seguintes consi­


derações: o mulato da classe social “inferior” demonstra cons­
ciência de cor através de atitudes orientadas no sentido de
evitar a ofensa de ser chamado de “negro”. É tão sensível ao

108
desprezo com o negro que inibe suas reações, com o no caso ns
15, em que a entrevistada afirmou não reagir para não ter seu
nome no jornal ligado à especificação de sua cor. A consciência
de cor parece mais acentuada no mulato do que no preto da
mesma classe social. Observamos que o mulato age pensando
sempre na cor da epiderme, quando se case seja com um preto,
seja com um mulato ou um branco. Ou se une a um preto, para
se defender de ser ridicularizado e desprezado pelo branco,
como no caso nQ 1 6 , em que a entrevistada decidiu casar-se
com preto, o mesm o acontecendo no caso na 14; ou procurar
fugir do preto e ligar-se ao branco, pelo mesm o desejo de não
ser desprezado com o preto. A possibilidade de o mulato poder
se defender de ser desprezado com o negro, unindo-se ao preto
ou ao branco, refletiria atitudes exteriores do branco e do preto
para o mulato. Pode-se aceitá-lo, com o no caso ns 17, e pode-
se rejeitá-lo, considerando-o o negro, conform e o receio mani­
festado pela entrevistada do caso n2 17.
O preto do sexo masculino parece ter preferência pelo mu­
lato e pelo branco para as ligações matrimoniais. Por sua vez,
a mulher mais clara o aceitaria com o defesa e conformismo;
neste sentido fala o caso n2 16 .
A consciência de cor apresenta-se mais pronunciada no mu­
lato do que no preto, talvez em consequência da situação de
estar ligado biológica e socialmente aos dois grupos raciais.
Esbatidos os traços físicos da raça dominada, ao mesmo tempo
em que apresenta traços negroides, o híbrido teria o conflito
mental exacerbado. Por um lado, é mais intenso o processo de
identificação com o branco, tendo mais oportunidades para se
aproximar do branco do que o preto; mas, por outro lado, as
marcas raciais podem desenvolver a rejeição social do branco.
Tudo se passa com o se o mulato, sentindo-se com mais direito

109
de ser branco, se tornasse mais consciente das atitudes de res­
trição do branco.

d ) C a so s d e m u la to s d as cla sse s in te rm e d iá ria s

Caso n2 22 — A entrevistada é parda, solteira. Ficando órfã


muito cedo, teve de ajudar a criar os irmãos. O pai foi far­
macêutico. Com muita resistência, relatou suas idéias sobre a
questão de cor:

— Minha fam ília é mestiça, como todos os brasileiros. O único ele­


mento escuro de minha fam ília fo i minha avó paterna, quase preta.
Meu p ai fo i farm acêutico muito estimado por suas maneiras finas.
A fam ília branqueou sempre. Meus irmãos estão casados, são fu n ­
cionários ferroviários. ”

A entrevistada considera-se branca. Suas cunhadas são brancas,


e com orgulho exibiu-nos a sobrinha de tez clara. De outro sobri­
nho, que é pardo, disse: “Não sei por que este saiu moreninho.”
Caso n2 23 — Trata-se de uma m oça parda de 28 anos de
idade, solteira. Possui curso secundário e exerce o funciona­
lismo público. Deu-nos suas opiniões nos seguintes termos:

— A cor motiva grande complexo de inferioridade: a gente se sente


inferior ao branco, feia, diferente, e muitas vezes tem vergonha de si
mesma. Consequentemente, manifesta-se o retraimento, um sentimen­
to de humildade, levando a pessoa a evitar aparecer. Pelo desprezo,
os brancos nos colocam nessa situação. Antigamente, eu sentia muito
mais a atuação daquele complexo; hoje, não tanto, porque procuro
melhorar minha aparência. Quando aluna do grupo escolar, eu tinha
vergonha de fica r diante da classe, e só hoje sei p or quê. Não ando em

110
companhia de prelos ou mulatos, e, diante do branco, não o sinto me
repelindo; d aí me convencer que o desprezo da parte do branco não
era tão forte como eu pensava. Convenci-me de que não sou preta,
apenas descendo de preto pelo lado paterno. Hoje se espera que uma
coisa se realize e se d ã o contrário; atribuo a causa à cor. Por exemplo,
em questão de casamento, penso que até hoje não deu certo por causa
da cor. Apesar disso, sinto-me mais independente do complexo; não
sou tão tímida como fu i. Evito a companhia de preto e do mulato, por
ser um deles, por vergonha. Ninguém quer a companhia deles, a gente
também fica acanhada de andar com eles. Não seria capaz de am ar
um preto ou um mulato, mas, desde que não se percebam traços de
ascendência preta, eu me casaria com uma tal pessoa. O que importa
é a aparência. Jã tive muitas experiências desagradáveis por causa
da cor. Há dias, fu i obrigada a discutir com duas pessoas estranhas,
brancas, por questão de lugar em uma condução, e diz-me uma delas:
“A gente se meter com negro é nisso que dá. ”Nas atitudes com namo­
rado, deixo que ele resolva se me quer ou não. Se eu fosse branca,
não seria tão submissa, mas tomaria a iniciativa para encam inhar
ao casamento.

Caso n2 24 — A entrevistada é uma senhora parda de 31


anos de idade, casada com um branco, professor de curso se­
cundário. Disse-me o seguinte:

— Sob o ponto de vista estético, o preto ou o mulato, que apenas têm a


pretensão de ser branco, são inferiores ao branco. Há preconceito de cor
que se manifesta em todas as atitudes das pessoas em geral: uns demons­
tram o preconceito com benevolência exagerada e outros com muito des­
prezo. Naturalidade ou igualdade no trato do branco para as pessoas de
cor não há. Em consequência do preconceito do branco, o negro se torna
com complexo que o prejudica, porque, se ele tiver iniciativas, ele reali­
zará apenas a metade do que seria capaz, dada a inibição peto complexo
de inferioridade. Ele é inibido em todas as atitudes. Não lenho experiên
cias pessoais desagradáveis, porquefugi muito do negro, e, como mulata,
procurei me assemelhar ao branco. Desde muito criança, ficou tão ar
raigado em mim a atitude de fugir da raça que nunca penso em mim
em termos da cor, mas sinto e observo o que sepassa com outros. No ajus­
tamento ao casamento, minha cor não influiu durante o primeiro ano
de vida conjugal, porque meu.marido considera o brasileiro um mestiço.
Sei que muitas vezes meu marido teve críticas desfavoráveis por se de­
cidir casar comigo, o que me magoou e o feriu. Se eu fosse branca, seria
mais feliz no casamento, porque mais natural, mais espontânea, menos
inibida e menos preocupada com o ponto de vista estético. Atualmente,
sinto dificuldade, porque vejo o aborrecimento do meu marido por eu
ser de cor: passado o período de forte entusiasmo afetivo, ele começou a
sentir uma espécie de desapontamento por me ter como esposa: demons­
tra pena ou vergonha quando observa algum traçofísico nosfilhos. Estes
ressentimentos dele me ofendem, e nos põem em conflito.

Caso nQ 25 — O entrevistado é pardo, de 34 anos de idade,


funcionário público federal. É casado com uma parda e pos­
sui dois filhos menores pardos. Sempre residiu em São Paulo,
mas espera dentro em pouco ser removido para o Rio, tendo
em vista melhorar econom icam ente. Emitiu suas opiniões nos
seguintes termos:

— Nasci sem consciência de cor, isto é, não sabia que fosse considera­
do diferente: creio que por viver onde não havia pretos. A prim eira vez
que tive um choquefo i aos 7 anos, quando entrei para o grupo escolar.
Briguei no primeiro dia de aula: um menino me chamou de negrinho.
Com o tempo, fu i conquistando a estima dos colegas e esqueci o choque.
No curso secundário, as pessoas mais educadas não me chamavam de

112
(
negrinho, só na rua, o que sempre me causava aborrecimentos. Depois
dos 15 anos, percebí que havia má vontade da parte de certos profes­
sores devida à minha cor: embora eu estudasse, não me davam notas
para prom oção. Assim, perdi quatro anos e me desencorajei de seguir
o curso superior. Hoje, sei que aquelas reprovações tiveram força pre­
ponderante em meu destino. Dos 18 aos 21 anos, eu era diferente dos
outros, não namorava. Quando consegui namorar, tratava-se de uma
moça da minha cor. Dois anos depois, casava-me com ela; não que a
amasse, mas para fugir a outras dificuldades de casa. Essefato se deu
há 10 anos. Atualmente, não tenho conflitos ou problemas por causa
da cor. Fiz esforço para integrar-me na classe média. Antes, meus am i­
gos eram mulatos. Então, desagradava-me ouvir "você e fulano são
inseparáveis”; ressaltavam aquilo que me unia, que havia de comum
entre eu e os amigos: a cor. Comentários desta natureza me levaram
a evitar a companhia de mulatos. Hoje, meus amigos são brancos.
Sinto-me considerado p or eles; são meus colegas de trabalho. É impos­
sível conciliar a classe de mulatos com a classe média de brancos. O
preconceito na form a que eu sinto é uma certa timidez por uma ideia
fixa: não tenho boa aparência. Entretanto, muitas vezes se pode ser
apreciado. Sempre há umas más vontades contra a gente, devidas à
cor, como tirar-nos o acesso. Grande parte dos brancos falam com boa
vontade sobre os pretos, encorajando-os. Muitos amigosfazem questão
da minha companhia; justificam-se, dizendo-me que não sou preto. O
preto está em situação inferior. Não tem acesso nos empregos. Vive nos
botequins a gesticular, demonstrando mais aos brancos que é inferior.
Quando aparece um preto que se destaca, o branco fica adm irado pelo
conceito que tem do preto como grupo. O mulato está muito melhor.
Em bailes, o preto toma uma atitude de bárbaro, dançando, pulando
e rindo muito. O mulato dá aos bailes um caráter civilizado, aproxi-
mando-se dos brancos. O mulato é mais competente e está em melhor
situação na vida. Há preconceito entre o mulato e o preto. O mulato

113
fica aborrecido quando em seu baile começa a aparecer muito preto.
Ospretos sentem complexo de inferioridade pelo qual justificam seus
fracassos: sou preto.

Caso n2 26 — O entrevistado é pardo e conta 35 anos de idade.


Exerce uma profissão liberal. Está casado há 10 anos com uma
parda escura de cujo consórcio tem três filhos: dois meninos par­
dos e uma menina preta. Quando criança, morava em companhia
de sua mãe, em casa dos patrões desta. Relatou-nos o seguinte:

— Toda a minha força para fa z er um curso superior vem em con­


sequência da patroa de minha mãe ter alegado a minha cor como
obstáculo para cursar uma escola superior. Ela alegava que ninguém
procuraria um médico ou um advogado da minha cor. Então, ela ten­
tou me encam inhar para o comércio, mas, como eu me opusesse, ela
deixou de auxiliar-me, dizendo: “Faça o que entender sozinho; quero
ver o que você vai dar. ”Diante da dúvida da patroa quanto à minha
capacidade, decidi seguir um curso superior e venci. Antigamente, eu
enfrentava combativamente as dificuldades; hoje deixo que as coisas
tenham seu curso, apenas tiro o corpo para que não me atinjam. A
minha posição social resulta de minha astúcia e do esforço para estar
bem com todos, existindo também um desejo sincero de facilitar a vida
para todos. Há anos, fundei uma sociedade de pretos, com o fim de me­
lhorar a situação do preto, dando-lhe instrução. Este meu intento não
pôde ir adiante, por encontrar obstáculos no próprio negro. O negro
não suporta ver outro negro em situação social melhor do que a sua;
mas, independentemente de minha vontade, eu não podería ceder-lhe
o meu lugar melhor que exigia meu grau superior. Opreconceito con­
tra o negro é variável segundo a procedência do indivíduo, tempo de
radicação. O imigrante, por exemplo, vem do exterior com juízo for­
mado sobre o negro, sem idéias do preto civilizado. Nas nossas escolas

114
superiores, o negro sofre campanha. Eu senti oposição do meio. Hoje
me imponho pelo meu cargo. A campanha ou oposição por preconceito
varia com as classes sociais. Opreconceito consiste em não querer que o
indivíduo de cor apareça. O branco assim age em defesa própria. Nisto
vai um pouco de imitação do que acontece nos Estados Unidos. Aqui,
os brancos desejam impressionar o estrangeiro de que só existe gente
branca. Procurar esconder o preto já é da mentalidade do povo. Se um
descendente de preto tiver aspecto de branco, mesmo que conheçam sua
ascendência, passa por branco. Aqui não se conformam com o fato de
um preto ocupar situação superior. Ao povo parece causar vergonha o
preto ter ação na vida social do País. Opreto é muito intuitivo. Vem de
uma civilização antiga, decaída, que já teve o seu apogeu. Há conceitos
errados em torno do negro: “opreto é desonesto ”, diz-se. O que acontece
é o preto ser pessoa que vive com dificuldade; vive mal, rouba quando
necessita ou por educação defeituosa. Opreto em si não é trabalhador.
É mais sociável que o descendente de índio. Opreconceito dirigido ao
mestiço obedece a leis de acordo com o predomínio de raça em sua
personalidade e traços físicos. Um negro não gosta de ver outro bem. Já
um negro em situação m elhorfaz-lhe campanha contra: “Um elemento
de minha cor por cima quer dizer que eu sou inferior. ”A diferença de
situação entre o Brasil e os Estados Unidos é que aqui não demonstra­
ram ao negro o preconceito numa hostilidade aberta. A situação de
dependência em que o branco o mantevefe z com que ele caísse de uma
vez. O negro saído do cativeiro, acostumado a depender, fo i solto na
rua. O negro vinha da África com organização tribal; aqui teve que se
adaptar ao senhor, para depois ser abandonado. Na casa do senhor,
havia o preto antipatizado e o que gozava de certas regalias, como
a preta que fa z ia doce na casa da sinhã, o preto cocheiro — porém,
não tendo voz ativa, nada podiam fa z er em favor dos outros. Depois
de desorganizada a hierarquia negra, a abolição vinha abandoná-los
na rua. Muitos não saíram da fazenda, por não terem para onde ir. A

115
abolição resultou em independência de indivíduos e não de blocos de
indivíduos. Portanto, após a abolição, não podia haver uma igualdade
entre pretos e brancos, e nem mesmo agora. O elemento branco com
o mando nas mãos é quem predom ina — há negros que gozam de
melhor situação, mas para servir de equilíbrio em controvérsias. O que
concorre para diminuir o preconceito são os interesses circunstanciais.
Nos mestiços em que os traços dos ascendentes pretos se esbateram nota-
se a preocupação em ocultar sua origem por vergonha.

Caso n2 27 — O entrevistado é pardo, solteiro, contando 23


anos. Trabalha em escritório comercial. Seu pai é preto e exer­
ce o funcionalismo público. Suas irmãs são professoras nor-
malistas. Disse-nos o seguinte:

— O problem a racial é muito sério, principalmente no nível social em


que estou; é pior que num nível mais baixo. Quanto mais inteligente,
mais se sente e mais se sofre. A gente vive sempre espezinhada pelos ou­
tros. Não gosto de piadas sobre isso, principalmente quando se referem a
mim-—“O mestiço agora estã ficando sabido!”Opreconceito existe con­
tra o preto e contra o mulato que quer passar por branco. Não posso ir
a certas festas, pois seria impedido de entrar, ou por razões que amigos
brancos me apresentam, como, por exemplo: “Não vá a talfesta, porque
os sócios não vão gostar e você não vai se sentir bem lá. ” Há firm as
brasileiras que não aceitam empregados de cor. Diante dessas situações
de preconceito, fico com raiva. Noto que os colegas se convidam para
festas em casa defam ília e não me convidam; deduzo o motivo. Vejo-me
sempre empenhando em demonstrar valor próprio, que sou inteligente
e em conquistar a amizade, para eliminar contra mim conceitos como
o de que “negro, quando não suja na entrada, suja na saída”. Diante
de alguns, procuro captar a am izade e a confiança, conversando, fa ­
zendo-os ver que meu nível de vida não é mais baixo do que o deles; em
í
fa ce de outros, passo adiante, porque são estúpidos por natureza. Em
minha personalidade, o preconceito influi no sentido de desenvolver
meios para captar confiança e amizade, desenvolvendo conversação
em nível mais elevado do que a mentalidade do amigo: introduzin­
do-o em lugares que ele desconheça por acanhando (por exemplo, num
cabaré fino); demonstrando-lhe que frequento bons lugares; ou apre-
sentando-o a bons amigos para proveito de interesse dele. Empenho-me
em vencer daquele modo o preconceito, porque pode influir na ascen­
são do cargo, e, afinal de contas, a finalidade da vida é evoluir. Opre­
conceito limita meu círculo social, e fico revoltado. Somos revoltados,
mas ninguém tem coragem de tomar uma atitude. Todos desejam uma
modificação imediata, que não épossível. Em consequência do precon­
ceito, não vejo nenhum grande futuro para mim, talvez também por
que não continuei os estudos. Não posso frequentar boas sociedades de
nível superior a que tenho. Com o estudo, podería sufocar o preconceito.
O preconceito pode ser vencido, mas não totalmente: “Fulano é dou­
tor mas é preto... ” Cinquenta por cento das pessoas não consultariam
um médico preto. Não gosto de andar com amigos pretos; quando não
posso andar com os que desejo, ando só. Não namoro pretas. Jã tive
namorada parda ou branca. As mulheres, quanto ao preconceito, têm
mentalidade diferente: para mim, é mqis fá cil conquistar uma branca
de classe mais baixa do que uma mulata. Sim, porque quem aceitar um
namorado de cor parda só pode pertencer a classe mais inferior. A mu­
lata tem maiores aspirações, quer ter um namorado branco. As brancas
são brancas; nesse particular, não precisam desejar mais do que são. A
última namorada que tive era parda;, aparentemente trajava-se muito
bem, sendo isso o que me levou mais a conquistã-la, pois que ainda não
conhecia o seu nível mental. Infelizmente, depois que a conheci interi­
ormente, fo i uma completa decepção: não passava de uma boçal efa z ia
demonstrar claramente o seu interesse por mim, e assim são a maioria
delas. Penso que a melhorform a para o negro progredir seria o método

117
usado nos Estados Unidos, isto é, uma completa separação; lería ele de
produzir para acom panhar o ritmo dos brancos. Poderemos afirmar
que o negro da classe alta dos Estados Unidos é sem dúvida comparável
ao branco da classe média daqui.

Caso ne 28 — Refere-se a uma mulata, de 25 anos de idade,


solteira, residindo com os pais. Exerce o funcionalismo pú­
blico, percebendo Cr$ 500.,00 mensais. Tem curso secundário.
Conteúdo da entrevista no tocante a cor:

— Acho que os pretos estão em situação muito inferior no sentido de


educação e instrução. Tão inferior que nem procuram reagir, mas
descem cada vez mais, entregando-se ao álcool e aos bailes. Para o
mulato há duas situações: uma parte dos mulatos se integra no meio
negro e a outra no meio de brancos, procurando valorizar-se dado o
preconceito do branco. O branco tem preconceito para os caracterís­
ticos da cor. Sinto que existente preconceito contra mim, mas não
demonstram, porque são educados; sou tratada como igual, porém
tenho certeza que no íntimo as pessoas são diferentes, pelo menos nos
ambientes em que estive, no ginásio e atualmente no trabalho. Conse­
quentemente, evito a companhia de pretos e mulatos.

Caso n2 29 — Trata-se de um mulato de 25 anos de idade,


jornalista, com vencim ento acima de Cr$ 1.000,00. É casado
com m oça branca, de classe social inferior à sua. Possui curso
secundário. O entrevistado considera-se branco e se impõe
com o tal, evitando abordar qualquer questão referente a cor.
Relato do entrevistado:

— Moro em São Paulo há dez anos. Nasci no Norte, onde vivi até 12
anos de idade, em companhia de minha mãe e irmãos. Sinto grande

118
desgosto por não ter cabelo bom [possui cabelos crespos, mas não
encarapinhados]. Não sei porque tenho cabelo feio. Todos em minha
fam ília são bonitos e têm cabelo bom. Não possuo nenhum ascendente
preto, do lado materno ou paterno.

Caso nQ 30 — Trata-se de um mulato, de 24 anos de idade,


que trabalha em escritório, percebendo Cr$ 500,00 por mês; é
solteiro e reside com os pais. Possui curso secundário. Relato
do entrevistado:

— A instrução seria o meio de elim inar a hostilidade e a inveja exis­


tente entre as pessoas de cor e de aproximá-las mais ao branco. Mas
o negro não tem estímulo para estudar, porque sabe que, depois de
form ado, não terá a oportunidade de ser aproveitado. Deste modo, tem
que se conform ar com as ocupações de baixas categorias. As pessoas
de cor percebem o desinteresse do branco p ara elas e no íntimo ocul­
tam uma revolta. Não se sentindo aceito pelo branco, o negro prefere
viver isolado. Não épossível negar a existência de preconceito contra o
negro, porém é velado pelo branco.

Caso ns 31 — Refere-se a um mulato de 35 anos de idade,


casado com uma mulata. É funcionário público, percebendo
Cr$ 800,00 m ensais. Possui curso primário. Relato do entre­
vistado:

— Estou ajustado, não sinto problemas. Fui preterido em acesso a car­


gos por ser mulato. Atualmente, estou satisfeito com uma prom oção.
Não tenho ambições de raça. Acho que o preto é uma raça sem futuro
e evito andar em companhia dele. Trabalho muito, além do serviço do
Estado, tendo conseguido construir uma casa própria. Minha m aior
am bição é alcançar independência econômica.
A n á lise d o s c a s o s d e m u la to s d a s c la s s e s s o c ia is in te rm e d iá ria s

Os m estiços das classes sociais intermediárias manifestam ati­


tudes que revelam sentimento de inferioridade, vergonha de
sua origem e marcada sensibilidade relacionada com a cons­
ciência de cor. Esforçam-se no sentido de escapar da categoria
de preto ou mesmo mulato, evitando a com panhia daqueles e
se aproximando do branep. Possuem intenso desejo de passar
por brancos, chegando a se verem brancos e dar ênfase ao
conceito de que os brasileiros são todos mestiços, conform e as
palavras da entrevistada do caso n2 22. Conquistando símbo­
los característicos do branco, o mulato consegue integrar-se no
grupo dominante (caso n2 24). Todavia, não desaparecem de
sua personalidade a sensibilidade e o sentimento de inferiori­
dade relacionados com a consciência de cor.
As classes sociais intermediárias aceitam o mulato desde
que ele se apresente com o “branco”. Com o fim de não ser
repelido com o pessoa de cor, o mulato desenvolve traços de
personalidade e determinadas atitudes. Encontramos o mulato
evitando a com panhia de pessoas de cor. A afirmação do en­
trevistado do caso n2 25 de que o “preto é inferior e o mulato,
mais com petente, acha-se em m elhor situação social” dem ons­
traria m enor oposição da parte do branco em relação ao mu­
lato. No caso em apreço, vimos que os traços físicos refletem,
no nível mental, o pensam ento obsessivo de não possuir boa
aparência. Este pensam ento indica possivelm ente que as di­
ficuldades de ascensão social estão diretamente ligadas à cor.
Ou, em outras palavras: desde que não se perceba a origem
africana, o indivíduo não sentirá dificuldade para ingressar no
grupo dominante, a interação social se dando com o se ele
fosse branco.

120
r

Refere-se o caso nw26 a um indivíduo de cor parda que con­


seguiu fazer o curso superior e posteriormente exercer funções
equivalentes aos direitos conferidos pelo diploma, em conse­
quência de lhe terem apontado a cor com o obstáculo às as­
pirações de fazer um curso superior. Não obstante nosso en­
trevistado ter vencido o curso superior, conserva ainda traços
de personalidade ligadas, por um lado, às marcas raciais e, por
outro, a condições sociais: sentimento de inferioridade, timidez
e desconfiança, reserva excessiva e autocrítica exagerada, que
resultam em uma vida de relativo isolamento social. Seus conta­
tos sociais quase que se restringem ao ambiente de trabalho.
O entrevistado do caso ne 27 percebe restrições sociais devi­
das à cor pelo fato de não poder frequentar festas familiares ou
clubes de brancos, pela rejeição de firmas brasileiras a pessoas
de cor, pela preterição no acesso de cargos e por certos concei­
tos desfavoráveis referentes ao preto. O fato de o sentimento de
inferioridade revestir-se de pensam entos relativos à cor denota
que a situação social lhe apresentou condições que tornaram
possível a objetivação daquele sentimento ligado à cor.
A afirmação do entrevistado de que tem mais facilidade para
namorar m oça branca da classe “inferior” do que uma mulata
de sua classe parece evidenciar a tendência das mulheres do
grupo de posição social inferior para se casarem com pessoas
do grupo de posição superior, fenôm eno denominado hiper-
gamia. Por outro lado, a preferência do homem de cor pela
mulher branca, mesmo de classe inferior a sua, denota o valor
que ele dá a cor branca. Em geral, a mulher branca por ele
conquistada é de nível social inferior ao seu.
As atitudes do mulato decorrentes da consciência de cor cons­
tituem indícios da oposição que ele encontre da parte do bran­
co, enquanto sua posição integrada no grupo dominante indica

121
a fragilidade da barreira que lhe é anteposta. Tal possibilidade
de alcançar status de branco dá evidências da situação racial em
São Paulo. As restrições do branco para o mulato atuam na pro­
porção em que o indivíduo apresenta traços negroides associa­
dos a traços de personalidade com valores de status inferior. À
medida que o indivíduo “branqueia” na cor e na personalidade,
encontra maior aceitação social. “O que importa é a aparência”,
afirmou a entrevistada do caso ne 23.
Os casos apresentados demonstram que não temos o pre­
conceito racial no sentido de uma atitude de antagonismo de
toda a população, atingindo a todos os indivíduos descentes
da raça dominada, mesmo quando remotamente. Entre nós, é
suficiente que os traços raciais sejam atenuados e que o indi­
víduo apresente valores da classe dominante para ser integrado
entre os brancos.
O mulato é discriminado na medida em que lem bre sua
origem africana, principalmente pela cor. Esta observação apoia
a hipótese de Nogueira (1942, p. 328-358), no sentido de existir
entre nós um preconceito de cor distinto do preconceito de
raça e de classe.
Na África do Sul ou nos Estados Unidos, o preconceito é
participado por todos os indivíduos do grupo dominante con­
tra todos os descendentes do grupo dominado, mesmo contra
aqueles que não sejam identificados por marcas raciais, mas
unicam ente pelo conhecim ento de algum antecedente remoto
pertencente à raça menosprezada.
Podem os aplicar aos casos apresentados a interpretação do
prof. Donald Pierson sobre a situação racial na Bahia:

A aceitação deles, de um negro ocasional, de alguns mulatos escuros,


bem como de numerosos mulatos claros nos círculos sociais superiores,

122
r

mostra de maneira concludente o fato de que, se uma pessoa tiver


capacidade e competência geral, a dificuldade da cor pode ser e está
sendo constantemente superada. Enquanto é indubitavelmente verdade
que o status continua extensivamente a coincidir com a cor, o fato de
certos indivíduos, que são bastante escuros e possuidores de traço ne-
groides, jamais terem sido admitidos em clubes exclusivos e, por outro
lado, terem alcançado posições de confiança e responsabilidade na
comunidade demonstra bastante claramente que, na Bahia, a cor está
subordinada a outros índices de identificação de classe. A competência
individual contrabalança a descendência racial na determinação final
de status. A cor é indubitavelmente um obstáculo. Mas tende sempre a
ser esquecida, se o indivíduo em questão possuir outros característicos,
que identificam as classes “superiores”, tais como competência profis­
sional, capacidade intelectual, educação, riqueza, boas maneiras e atra­
tivo pessoal, e especialmente para as mulheres, beleza. Tudo isto são
característicos que definem status numa sociedade mais baseada em
classe do que em distinção de casta (PIERSON, 1942b, p. 204).

Entre nós, a cor apresenta o mesmo característico das classes


sociais, no sentido de poder ser superada, constituindo, por­
tanto, um dos fatores a se levar em conta na determinação do
status social. As atitudes de consciência de cor do mulato, ape­
sar de integrado no grupo dominante, seriam a manifestação
do fenôm eno semelhante àquele que se verifica em indivíduos
que subiram de uma classe para outra.

e) A titu d es re v e lad a s n u m a a s s o c ia ç ã o d e h o m e n s de c o r p o r
u m d o s m e m b ro s d a d ireto ria

Para o estudo das atitudes raciais de pretos e mulatos,


através de uma instituição, tomamos a “Associação de Negros

123
Brasileiros”,39 organização que se desenvolveu em São Paulo,
entre 1931 e 1937.
Os dados foram obtidos por m eio de entrevistas, de alguns
documentos daquela instituição e de opiniões emitidas em “Os
descendentes de Palmares”, mensário da mesma instituição.
Do material colhido, depreendem os os motivos individuais
e coletivos e os objetivos da associação, assim com o os obs­
táculos surgidos no seio dos agremiados ou os provenientes do
exterior.
Quanto aos motivos que levaram um grupo de pretos cons­
cientes a desenvolver uma associação, salientam-se as razões
sociais, as de ordem econôm ica e as de natureza “sentimental”.
O prof. Donald Pierson, em seu trabalho N egrões in B razil,
encontrou na Bahia uma ordem social de livre com petição,
na qual os indivíduos com petem largamente por uma posição
baseada no mérito pessoas e favoráveis condições de família.
A com petência individual tende a preponderar sobre a origem
étnica com o um determinante de status social.

Entretanto, a parte mais escura da população, como quase sempre no­


tamos, tem lutado com as sérias desvantagens de terem seus pais, avós
e outros ascendentes próximos começado “de baixo”, como escravos da
classe branca dominante, e de exibirem sempre, em virtude da cor e de
outros característicos físicos, as marcar indeléveis da ascendência escrava,
símbolos indestmtíveis de baixo status. Não é surpreendente, portanto,
o fato de que os pretos relativamente puros estejam ainda concentrados
nos empregos de baixo status e de pequeno salário, e também sua di­
minuição gradual à medida que se sobe na escala ocupacional, até serem
raramente encontrados nos níveis mais altos (PIERSON, 1942b, p. 177).

39 Por razões óbvias, o nome da associação e, a seguir, o titulo do seu mensário são
fictícios.

124
I

Os dados que apresentamos parecem expressar os mesmos


fatos observados pelo prof. Donald Pierson, no que se refere
à concentração dos negros nas camadas inferiores da escala
ocupacional. Os dirigentes da “Associação de Negros Brasilei­
ros” estavam conscientes das suas condições desfavoráveis na
com petição com o branco, conform e o relato que obtivemos
de um deles, segundo os termos de um manifesto lançado aos
negros e o programa que se traçaram.

— Diz o manifesto em um dos tópicos: “Gozamos teoricamente de


todos os direitos, que juridicam ente nos garante a própria Consti­
tuição.” Mas..., por forças da sociedade, que estão inapelavelmente
acim a da lei ou contra ela, evitam-nos e até nos expulsam das suas
instituições burocráticas, de utilidade político-social, de ensino e de
form ação intelectual, moral e religiosa; abominam-nos nos orfana­
tos hospitais e demais casos de assistência social, e até nas casas de
expressões econôm icas em que, com eficiência de capacidade e com­
petência poderiam os ganhar o pão de brasileiros e humanos. Não há,
para nós, justiça social. Em situações de direitos, quando apelamos
para quem no-la garanta, já estamos antecipadamente derrotados na
demanda. Relegam-nos, pois, a nós, brasileiros, a uma posição hor­
rível de inferioridade de desprestigio perante o nacional branco e, o
que mais revolta, perante o estrangeiro. [...] Esbulhados de posses pes­
soais e coletiva, não há quem eficientemente advogue nossa causa,
enquanto muitos, de nós, na ignorância da situação, nos esquecemos
do futuro nosso.

Fundamentando as razões para promover a agremiação dos


negros, o entrevistado, que é uma pessoa de cor preta, fun­
cionário público e particularmente exerce uma profissão libe­
ral, refere-se a condições precárias em que vivemos:

125
— Procedendo a um inquérito, encontramos a maioria dos negros pas­
sando privações terríveis: grande número de desempregados, morando
mal acom odados em porões imundos, na promiscuidade que favorece
a destruição moral da fam ília. Pelas pesquisas realizadas por nós,
80% dos negros da Capital não exercem profissão definida. O negro
é meio carpinteiro, meio mecânico, meia-colherj° nunca chegando a
ser oficial completo, ajudante disto ou daquilo. Após a abolição, pre­
cisando de um meio de vida, intitularam-se “ganhadores”. Hoje, não
há grande diferença da natureza de serviços dos negros de 50 anos
atrás. Apenas os de hoje intitulam-se “biscateiros”. Entretanto, encon­
tramos negros profissionais competentes: mecânico, carpinteiro, eletri­
cista, datilografo, taquígrafo e liberais. Mas não bá serviço para eles.
As ocupações do negro são engraxate, ensacador, estafeta, faxineiro,
contínuo, motorista, motorneiro, guarda-noturno, guarda-civil, cozi­
nheiro, ferroviário, etc.

— Historicamente, a desorganização moral e econôm ica do negro se


explica pela abolição da escravatura, conferindo-lhe apenas a liber­
dade física, abandonando-o na rua, depois de destruída a cultura
africana pela escravidão. Vindo a libertação, quando tinham perdi­
do sua cultura, encontraram-se os negros desarmados para competir
com os brancos, resultando uma queda econôm ica e moral completa.
Em São Paulo, não há negros ricos, porque o imigrante tomou-lhes o
comércio e por terem sido destituídos de seus bens pelos paulistas. Estes,
quando bem economicamente, doaram terras aos negros e depois, em­
pobrecidos, as retomaram, enganando-os.

Em São Paulo, porém, talvez mais acentuadamente do que


na Bahia, a posição ocupacional inferior incluiría aspectos
da luta no nível de status social, isto é, com mais dificuldade 40
40 Servente de pedreiro.

126
venceríam os méritos pessoais, porque encontrariam maior re­
sistência com o negros. Baseamo-nos, para esta hipótese, no
depoimento do entrevistado:

— Na Bahia e no Rio de Janeiro não nos fo i possível fun dar a Associ­


ação de Negros, porque os negros não sentiam, necessidade como aqui.

— Concluímos, por meio de inquéritos, que entre nós vários estabeleci­


mentos comerciais não aceitavam negros para seus serviços, fosse qual
fosse a capacidade oferecida. As mulheres é que minoravam a situ­
ação, trabalhando como empregadas domésticas e levando as sobras
de comida da casa dos patrões. Em uma casa comercial que pedia
empregados, depois de um preto ter demonstrado capacidade para
correspondente, teve por resposta: “O sr. tem competência, mas é pena,
não aceitamos elementos de cor. ”

— Nos concursos oficiais, as vagas não eram preenchidas por pretos.

— Em outro caso, tratava-se de um engenheiro de cor, que se esgotou


lecionando, à espera de colocação que nunca conseguiu. Era rapaz
inteligente, medroso e tímido. Alimentando-se mal, enfraqueceu, mor­
rendo aos vinte e poucos anos, tuberculoso e indigente.

— Vêm-se advogados bebendo, completamente entregues ao álcool,


por não conseguirem trabalhar depois de form ados. É por esta razão
que o negro ingressa nas ocupações inferiores.

Os objetivos dos associados visavam, em primeiro plano, à


conquista de m elhores condições econôm icas, com o podemos
observar através do programa da associação:
a) Disseminação da Associação por todo o Brasil;

127
b) Que nesses núcleos se promovesse intensa difusão do
ensino primário;
c) Criação dás escolas profissionais mistas;
d) Distribuição de terras férteis e salubres aos negros;
e) Criação de cooperativas, a fim de que nas terras distribuí­
das pudessem os negros viver amparados econom icam ente,
recebendo instrumento de trabalho, roupas, víveres, que lhes
seriam debitados em conta-corrente, para pagar com as suas
colheitas entregues às cooperativas para venda;
f) Nesses núcleos coloniais, se difundiríam a instrução
primária, profissional, técnica e militar, para que pudesse ser o
negro um cidadão e um soldado ao mesmo tempo;
g) Nas capitais dos estados, se criariam Tiros de Guerra fili­
ados ao departamento da Associação;
h) Os negros diplomados nas escolas profissionais com o artí­
fices teriam preferência para ingressar nos Arsenais de Guerra e
Marinha, na construção de estradas de ferros e demais serviços
federais, e seriam infiltrados nas campanhas estrangeiras, es­
pecialm ente de metalúrgica, petróleo e estrada de ferro, como
elem entos de ação imediata e vigilância contra a sabotagem em
caso de guerra imperialista contra o País;
i) Fornecimento de sedes e campos esportivos;
j) Criação, nas grandes cidades, de institutos médicos, hospitais
e creches, que também serviríam para a internação das crianças
durante as horas de trabalho das mulheres negras operárias;
k) Obra de amparo do negro inválido em serviço ou pela
velhice;
l) Fornecimento de livros para a criação de bibliotecas nas
sedes da Associação;
m) Montagem de um prelo, em São Paulo, para a impressão
de livros e boletins;

128
n) Fornecim ento de transporte para as caravanas de propa­
ganda;
o) Ser a Associação considerada de utilidade pública nacio­
nal pelo governo da República.
Ainda que o programa da associação focalizasse os aspectos
econôm icos para a obtenção de m elhores condições materiais,
não podem os concluir que tal tivesse sido o único objetivo
dos agremiados. É que os dirigentes do grupo viam na as­
censão econôm ica o meio de alcançar recursos materiais para
conseguir a elevação dos níveis intelectual e moral e, assim
aparelhados, se empenharem na luta pela conquista de reivin­
dicações sociais. Procuravam conseguir m elhores condições
econôm icas e físicas, mas visavam também à elevação do nível
intelectual e moral do negro, cuidando da instrução, da edu­
cação e do desenvolvimento da consciência de cor. São ex­
pressões de nosso entrevistado:

— Empregados em trabalho de baixo salário, os negros se achavam


absorvidos pelos problemas de prover a subsistência. Não lhes ficavam
tempo e energia para adquirir elementos intelectuais a fim de com­
preender os determinantes sociais de sua miserável condição. Vimos
ser necessário, em primeiro lugar, abrir caminho no campo econômi­
co. Movemos campanha contra os estabelecimentos que não queriam
aceitar negros, pedindo apoio ao governo. Enviamos uma carta ao
interventorfederal em São Paulo:
“Conhecedores que somos do programa lançado pela revolução tri­
unfante de 30, venho em nome da Associação protestar contra o não
cumprimento do referido programa, na parte em que o mesmo se
refere aos brasileiros natos, os quais deveríam ser os únicos preferi­
dos, nos empregos públicos, uma vez provada sua capacidade física,
moral e intelectual; embora, porém, o programa não se refira aos

129
negros brasileiros especialmente, penso que, referindo-se a brasileiros
natos, esteja também incluída a gente brasileira que é, fo i e continua
sendo parte integrante da nacionalidade. Diante do que acabamos
de expor, ignoro, assim como todos os meus irmãos ignoram, o porque
de continuar sendo o negro preterido em seu próprio País, para o
qual nunca titubearia em derramar o seu sangue, e não titubearei
ainda quão necessário fo r a sua própria vida em todas as campanhas
que tenham por finalidade a,grandeza do Brasil que muito amamos.
Vou pois, ilustre patrício, entrar no assunto que nos trouxe a lhe es
crever a presente carta: a Guarda Civil de São Paulo está repleta de
estrangeiros, uns naturalizados, outros não; no Gabinete de Investi
gações, no Palácio da fustiça idem, e assim sucessivamente; entrando
na Guarda Civil, apesar de nossos pedidos, não temos conseguido
colocar um negro sequer como guarda-civil, por ser sempre a eterna
desculpa — “não há vagas”—, mas quase diariamente são admiti­
dos estrangeiros. ”

— E um erro pensar que os negros tencionam criar uma questão den­


tro do País. Queremos apenas encontrar maioresfacilidades em todas
as atividades. Que o negro seja integrado absoluta e completamentc
em toda a vida brasileira (econômica, política, social e religiosa). O
negro brasileiro deve cessar de ter vergonha de seu componente ra­
cial. Este problema somente se resolverá por esforço geral, uma edu­
cação nova, em que se cancele aquele sistema estulto de menosprezar
e negar o negro, em toda nossa evolução histórica ou de exaltá-lo
de form a contraproducente. Protestamos porque nos repelem, unica­
mente como negro.

— Além das condições históricas, que determinaram sua posição


econômica inferior, há um preconceito contra o negro que o tem preju­
dicado socialmenté.

130
— Elementos da Associação de Negros experimentaram comprar in­
gressos para o ringue de patinação de São Paulo. Sabíamos que não
nos venderíam, mas nos submetemos à experiência. “Não lhe pode­
remos vender ingressos”, disseram-nos na bilheteria. Comunicamos o
fato ao governo. A imprensa pediu a intervenção da polícia. Osjornais
do Rio protestaram dizendo não ser um caso de polícia. Afinal, o chefe
de Polícia deu um comunicado à imprensa, afirmando que os ne­
gros seriam garantidos, somente sendo proibida a entrada a elementos
que prejudicassem a ordem, sem distinção de cor. Em breve, o ringue
fechou as portas. Dificultam a vida ao negro para vê-lo exasperado,
infringir leis e depois dizer “é negro, é criminoso’’, eprendê-lo.

— A parte sentimental constitui a grande tragédia aberta ou silencio­


sa, determinada pelo preconceito de cor. O casamento é um problema.
Inúmeros negros intelectuais não se casam, porque, para se casar com
mulher branca, teriam que tirá-la de classe social inferior a sua. E nos
intercasamentos, embora os dois se amem, há interferências sociais
que prejudicam a harmonia do casal.

— Os negros não têm consciência das condições que lhes trazem di­
ficuldades. Diante das primeiras desilusões, ficam desorientados e
pensam: “Meu mal é ser negro. ” Se, porém, estivessem prevenidos, sa­
beríam desvencilhar-se de obstáculos.

— O abandono do negro sem cultura própria pela abolição, o auxilio


mesquinho do branco impediram que o negro se tornasse consciente de
sua miserável condição ligada a fatores sociais e não ao fator racial.
O negro conformou-se com as migalhas dadas pelos brancos. Ele acha
que tem outros direitos, mas considera caritativos aos brancos, que
lhe dão roupas usadas e sobras de alimentos. O negro apadrinhado
habituou-se a pedir ao branco e a se contentar com o que recebesse. O

131
negro deve sua inferiorizaçáo ü complacência do branco cm posição
superior, auxiliando-o com pequenos donativos.

— O trabalho que se move contra o negro é traiçoeiro e disfarçado.


Não é feito abertamente como nos Estados Unidos, onde o negro al­
cança melhores situações econômicas. No Brasil, o negro é levado com
sentimentalismo prejudicial, que consegue fa zer dele um podre diabo
digno de piedade, um vencido ou um bandido.

Focalizando os vários aspectos de desenvolvimento da insti­


tuição, poderem os evidenciar as atitudes dos pretos dentro do
grupo. O relato que se segue provém de nosso entrevistado:

— A arregimentação do negro fo i difícil. Ele não tinha interesse numa


sociedade que não tivesse o alvo recreativo de proporcionar bailes.
Além disso, o negro não confiava no próprio negro — quando um
branco tomava a palavra, era apoiado, mas, quando o negro falava ,
era rejeitado. Dentro da sociedade, o negro manifestava a mesma ati­
tude de menosprezo e falta de espírito de cooperação que se observa
diariamente em fa ce de negros intelectuais. O preto não procura os
consultórios de pretos por desprezo: “Ora, um negro advogado!”Deste
modo, os negros de profissões liberais têm da parte do negro falta de
confiança e o desprezo, e da parte dos brancos a exclamação de que se
trata de “um negro inteligente”, mas sem nenhum apoio.

— Os negros não aceitam a estratificação social entre eles, motivo de


grandes dificuldades contra as quais a Associação lutou.

— Concluindo pela falta de preparo para defender-se — pois o negro


fica humilhando-se com o pensamento “meu mal é ser negro " —, os
dirigentes da Associação começaram a desenvolver uma indisposição

132
do negro contra o branco. Focalizaram-se, então, as injustiças e, mais
do que isso, as perseguições sofridas pelo negro. Consequentemente, o
negro desenvolveu forte animosidade contra o branco, a ponto de não
tolerar a presença do branco dentro da agremiação. Indagava hostil­
mente: “Que é que branco vem fazer aqui?” Viram-se os dirigentes em
apuros para que não surgissem sérios conflitos. Nossa atitude também
estava refletindo-se fora. As patroas, antes de aceitar uma empregada
de cor, indagavam: “É da Associação de Negros?”; em caso de resposta
afirmativa, não a aceitavam. Tão revoltadas se tornaram as associa­
das que não eram desejadas para empregadas. A imprensa fechou-nos
as portas, dando a entender ao povo desprevenido que estávamos cri­
ando um caso no Brasil. A agitação provocada fo i como que o rastilho
para a explosão da bomba: houve um começo de arregimentação ne­
gra no Brasil, e os brancos, então, tremeram no pedestal de sua apre­
goada superioridade racial.

— A campanha exterior contra a Associação não cessava: polêmicas


foram travadas; artigos doutrinários, conferências públicas e pri­
vadas, entrevistas na imprensa, caricaturas nas revistas cariocas; en­
fim, manifestações que constituíram a ofensiva e contraofensiva ao
movimento. Entretanto, a onda de sócios crescia, propagando-se em
São Paulo e pelo Interior, agregando indivíduos que já estavam embe­
bidos de nosso ideal e sentimento.

— Mas, por outro lado, lavrava a discórdia entre os milhares de sócios


descontentes com o regime arbitrário, violento, que vinha caracteri­
zando a direção. A dissidência entre os líderes desenvolveu a descon­
fiança dos negros, enfraquecendo a união, ocasionando a retirada de
muitos sócios. A crise interna culminou com a mudança de diretoria,
sendo iniciada nova orientação aos trabalhos. Visando impor a As­
sociação aos brancos, organizamos um programa para desenvolver a

133
instrução e elevar o nível cultural e moral do negro. Procuramos /«•<•
parar o negro para bem apresentá-lo, a fi m de dissipar a impressão de
hostilidade para o branco. Foram organizados vários departamentos

— o Departamento Educativo procedia à alfabetização por meio de


cursos noturnos;

— o Departamento Recreativo desenvolvia a declamação, a dramatl


zação e os bailes;

— O Departamento de Publicidade, através do mensário “Os Desceu


dentes de Palmares”;

— O Departamento de Assistência Social, Médica e Dentária.

— Depois do desenvolvimento de algumas atividades dos diversos de


partamentos, convidamos associações de brancos e a imprensa paru
assistirem a um festival. A nossa festa muito agradou, e assim atin
gimos a finalidade de cativar novamente a simpatia dos brancos.
Organizamos bailes moralizados, não só para satisfazer aos negros
descontentes, como meio de conseguir fundos para as despesas da es
cola e da assistência social. Os bailes alcançavam uma renda de Cr$
5.000,00, enquanto com dificuldade conseguíamos arrecadar as meu
salidades de Cr$ 2,00.

— Passou a Associação a pleitear uma representação política. O re


querimento fo i debatido e negado. Apelamos para o Supremo Tri
bunal. Objetavam: “Para que um partido de negros, se somos todos
brasileiros?” Os outros nem sempre sentiram o que nós sentíamos e
se acanhariam em dizer na Câmara o pensamento do negro. Final­
mente, foi-nos concedido o reconhecimento como entidade política.

134
(
Através do partido político, ganhamos maior força de ação no País.
Pretendíamos colocar um representante político para todo o Brasil e,
se não tivéssemos votos suficientes, negociaríamos os votos com pessoa
de nossa confiança. Em seus primeiros passos, o partido apoiaria can­
didatos a deputados, senadores epresidentes da República em troca de
algumas vantagens, até que pudéssemos adquirir fundos para fazer
propaganda para o negro votar em seus candidatos negros.

— Conseguimos escolas públicas, e professoras negras foram removi­


das do Interior, para lecionar naquelas escolas. A Guarda Civil, pela
primeira vez, teve negros em seu quadro.

— Em 1937, como todas as organizações políticas do País, a Associ­


ação tevefechadas suas portas pela Carta Constitucional de novembro
do mesmo ano. Por outro lado, a sociedade não possuía recursos ma­
teriais para se manter até que se definisse sua situação.

— Em resumo, a Associação de Negro teve a seguinte evolução:

— Primeira etapa: consistiu nos trabalhos de arregimentação. Esse


trabalho fo i muito árduo, porque a libertação de 88 trouxera-lhe
fraqueza de caráter. Enquanto escravo, o negro tinha mais força de
caráter para trabalhar, a fim de comprar a sua liberdade. Os negros
foram criados por brancos e têm mentalidade de branco, por isso se
consideram inferiores. Com a decadência moral e social do elemento
negro, vários dos de sua raça envergonham-se de sua epiderme es­
cura ou de sua ascendência. Esses envergonhados constituem o maior
obstáculo, prejudicando a form ação de uma consciência racial em
oposição aos que constantemente negam os feitos do negro no Brasil.
Esses elementos têm verdadeiro pavor de enfrentar ambientes de ne­
gros, limitando-se a viver isolados e refratãrios a qualquer movimento

135
em defesa dos seus. Permanecem alheios. Há de se notar que alguns
desses negros têm valor intelectual.

— Oprimeiro presidente da Associação fo i um intelectual negro, que


tinha mentalidade de branco, fato que determinava um afastamento
entre ele e a massa. Era adepto do patrianovismo, discordando da
opinião dos outros. A animosidade da massa, crescendo, levou-o a
demitir-se.

— Diante das dificuldades para a solidariedade do grupo, os dirigentes


desenvolveram a associação dos negros contra os brancos.

Segunda etapa: nova diretoria e nova orientação. A luta passou a ser


de negros contra negros — obrigar o negro a se agremiar, a adquirir
nova mentalidade na instrução e combater o negro decaído ou oposi­
cionista. Organizaram-se os vários departamentos. Muitos negros de­
bandaram para outras organizações recreativas e não culturais. A
Associação continuou em seu propósito, procurando desenvolvera ins­
tituição familiar, o interesse pela economia, a elevação do negro para
conquistar a simpatia do branco. Alcançada a fase de intercâmbio
com associações de brancos, estava vencida a etapa.

Terceira etapa: pleiteamos o reconhecimento da Associação como enti­


dade política, a qual conseguimos depois de luta.

— Quando a sociedade fechou as portas pela transformação política


do País, em novembro de 193 7, possuíamos 120 delegações, sendo 33
em Minas Gerais, num total de 6.000 sócios. Um dos erros da primeira
diretoria fo i o de se insurgir contra os bailes; nós procuramos propor­
cionar bailes moralizados. Um outro erro fo i o de desenvolver a luta
contra o branco.

136
I
— Procuramos dar ao negro noções de família, interessando-o no
casamento dentro da lei, entusiasmando-o, oferecendo-lhe salões para
festejar o acontecimento. Também procuramos interessá-lo na compra
de terrenos.

Segundo os dados colhidos, a “A ssociação de Negros Bra­


sileiros” teve com o propósito reunir os negros, a fim de pre­
pará-los para lutar contra os obstáculos à ascensão social em
consequência da cor. Os meios de que se valeram consistiu
em: 1) desenvolver a consciência do grupo, ligada a atitudes
de antagonismo contra o branco; 2) desenvolver a consciên­
cia do grupo; pela divulgação da instrução, com bater o ne­
gro decaído e antagonista do próprio negro e evitar a atitude
de antagonismo contra o branco; 3) conseguir a aceitação do
grupo dominante pelos valores profissional e educacional e
pela força política.
O desenvolvimento de antagonismo do preto para o bran­
co resultou em acentuação da rejeição por parte do segundo.
Resultados satisfatórios, do ponto de vista dos agremiados se
verificaram quando procuraram eliminar as atitudes de antago­
nismo para o branco, substituindo-a pela atitude de simpatia.
Conseguiram então estabelecer intercâmbio social com associ­
ações de brancos, o apoio da imprensa e o reconhecim ento da
associação com o entidade política. Os resultados práticos se
fizeram sentir na colocação de pretos em empregos até então
para eles vedados e na remoção para a Capital de professoras
de escola do Interior para as escolas da associação.
0 Atitudes reveladas em “Os D escendentes de Palmares”,41
mensário da “Associação de Negros Brasileiros”
“Os Descendentes de Palmares” foi um pequeno jornal de 34
41 Por razões óbvias, o nome do mensário, assim como o da associação, é fictício.

137
cm. por 48 cm, contendo quatro páginas, semanalmente edi­
tado em São Paulo, pela “Associação de Negros Brasileiros”.
Nossas observações quanto às atitudes do negro por meio
daquele mensário referem-se aos dois últimos anos de publi­
cação, com eçando com a 50a edição, de 31 de dezem bro de
1935, e terminando com a 70a, editada em novem bro de 1937.
Os artigos de colaborados negros e mulatos contidos nos
19 exem plares sugeriram-nos sua distribuição em artigos que
se destinaram a: 1) promover a solidariedade dos negros, des­
pertando-lhe a consciência de grupo, a fim de reunidos se con­
stituírem em força para a luta competitiva com outros grupos;
2) enaltecer o negro, com o fim de eliminar seu sentimento
de inferioridade; 3) difundir a instrução e a educação moral,
para colocar o negro em melhores condições culturais na com ­
petição com grupos não negros.
1) A fim de promover a solidariedade entre os negros,
procurar desenvolver a consciência de grupo. Dos artigos que
denotam a finalidade de reunir os negros numa associação e
tentam promover laços de união, relembrando situações pas­
sadas e presentes eivadas de sofrimento, destacaremos os se­
guintes trechos:

É com prazer que experimentamos passar mais um marco da estrada


da vida, distanciando-nos dos tempos inquisitoriais e semibárbaros,
falhos de caridade cristã, carentes de fraternidade humana, que se
chamaram: escravidão. É lacrimejantes que sentimos a barbárie im-
perante daquelas épocas; é lacrimejantes que vemos, comovidos e
revoltados, as iniquidades praticadas contra homens, as atrocidades
cometidas contra mulheres, as infâmias de mil matizes promovidas
contra jovens, o desamparo em que ficavam as crianças. É com o
coração confrangido, pungente de dor e paixão, que comparamos a

138
í
progressão ciclista daquelas eras quando do escravo; a família jamais
lhe fora possível constituir pela dispersão de seus membros, arranca­
dos brutal ou astuciosamente de seu próprio habitat selvático. E eram
pais que balbuciavam, estalando fibras do coração vibrátil e amoroso,
o nome dos filhos, eram filhos que choravam o doce nome da mãe,
eram irmãs, irmãos entregues a senha “humanitária” de outros homens
sedentos de “civilização” — de progresso próprio haurido a custa
do suor, da dor e desgraça secular da raça negra. É sorrindo qual
felizardos que vemos passar Treze de Maio, levando-nos para longe
do inglorioso jornadeio. É sorrindo que vemos a majestade da obra
que aqui nesta terra imensa de Santa Cruz — mercê de Deus — re­
alizamos, nessa formidanda extensão de progresso sempre crescente,
cujo alicerce, demarcação, defesa e economia, patrimônio, tradição
é dos nossos, é obra inegável da raça mártir (“Os Descendentes de
Palmares”, maio de 1936).

Estamos novamente no dia do povo negro. Treze de maio de 36...


Justamente 48 anos de distância dos nossos antepassados tão desa­
fortunados. Na verdade, nós de hoje não somos menos, porque eles
tiveram a liberdade material, e nós, a despeito de sermos libertos, con­
tinuamos presos à escravidão pelo lado moral A raça negra no Brasil
é, incontestavelmente, vítima de impressionante injustiça. Injustiça
tanto mais grave, quanto mais dura, quanto mais corre o tempo. Se o
leitor se der ao trabalho de investigar o pensamento de cada homem
negro, letrado ou ignorante, há de ficar pasmado. Há uma perfeita
comunhão de idéias: todos, ou a maioria, pensam duma mesma forma
no tocante ao ideal. Todos sofrem do amesquinhamento e da diminui­
ção; sentem o preconceito e as preterições; sabem dos vexames e
do pouco caso. Sofrem pela marca indelével de sua epiderme, pelo
crime de terem nascidos escuros. De nada lhes serve o saber, de muito
menos lhe adiantam as qualidades boas e a competência. A tudo que

139
os faz superior se opõe um obstáculo: a cor. A instrução, na opinião
geral, é o primeiro dos grandes remédios; é preciso a todo custo fugir
do analfabetismo. A economia o segundo a enfileirar. A fórmula única
de salvação seria a união premente de todo elemento nacional. Todos
estão cientes que chegariam à vitória somente pela Unidade Espiritual,
pela reunião de qualidades morais e intelectuais. E se essa união, que
é a aspiração geral da raça negra, não se processar dentro em breve,
continuará a traição sistemática que ela vem sofrendo e relegada a
planos inferiores. Convém reagir contra a onda avassaladora do pes­
simismo e da desagregação. Convém criar e amparar uma disciplina.
Convém criar, manter, fortificar um Espírito-Uno (“Os Descendentes
de Palmares”, junho de 1936).

Não relembremos a época gigantesca do “tinir de ferros e estalar de


açoites” dos negreiros e das senzalas, pelo prisma horripilante dos
quadros que nos desenham à memória. Tenhamos apenas por históri­
co o martírio de nossa gente. Por razões do coração, tenhamos um
gesto de horror. Por lição da vida, que se precavenha [sic] o futuro na
dor do passado. Não tenhamos medo ao tinir de novos ferros, ao esta­
lar de outros açoites. Construamos o futuro. Mocidade, aprendamos e
edifiquemos para não ser os Pai-João do lirismo nem as Mães Negras
dos sacrifícios. Bebemos no passado a inexperiência do presente e
sustamos a nossa aljava de lutadores. Legiões inquietas e irrequietas,
a mocidade negra quer ver realizada a liberdade aurorai de 88... Não
mais se acena com a famosa igualdade que fez dormir a raça, pois ela
já compreendeu que há gradações e desigualdade (“Os Descendentes
de Palmares”, maio de 1937).

A linguagem rebuscada que se nota nos artigos do mensário


( “inglorioso jornadeio”, “formidanda extensão”, “sustamos nos­
sa aljava” e “a liberdade aurorai”, nos trechos reproduzidos até

140
aqui;“lides de Mercúrio", mais adiante) parece consequência do
mecanismo de com pensação de sentimento de inferioridade.
Tornando-os conscientes do sofrimento dos antepassados e
de quanto sofrem atualmente os descendentes, tentavam m o­
bilizar a energia para a coesão do grupo, ao mesmo tempo
em que faziam esforços para desenvolver objetivos comuns,
apresentando ideais com o os de reivindicações: “Aumenta sem ­
pre mais a com preensão das massas negras, a respeito de seu
movimento de reivindicação de direitos e aperfeiçoam ento nos
deveres (“Os D escendentes de Palmares”, dezembro de 1935).

Destituídos de todos os preconceitos de classes e categorias, vamos


unidos à conquista soberba de nossos superiores objetivos. É preciso
que se dê de fato a verdadeira carta de alforria ao homem negro, e que
ele venha pela imposição inteligente, em virtude da ação dos homens
que a orientam (“Os Descendentes de Palmares”, abril de 1936).

Que as durezas do passado sejam a melhor lição para o futuro... Es­


tamos integralmente sujeitos aos deveres de cidadão e logicamente
temos jus ao direito correlato ao dever — a integralização completa
da Raça Negra na Comunhão Brasileira, na sua elevação moral e
intelectual, artística, técnica, profissional e física, na sua defesa e pro­
teção social, jurídica e econômica (“Os Descendentes de Palmares”,
maio de 1936).

2) Percebendo o sentimento de inferioridade com o obstáculo


à realização do ideal de solidariedade e ascensão social do
grupo negro, procuravam eliminá-lo, enaltecendo-o:

À Associação de Negros, em todo caso, se deve um serviço entre ou­


tros; a mocidade negra, olhando sobre si mesma, começou a capacitar-

141
se de que andava inferior aos brancos no trajar. É um começo de coas
ciência. É a verificação de uma realidade nas aparências exteriores,
Raro era em São Paulo, por exemplo, a negrinha que ousasse usar
chapéu, de medo das chufas dos brancos e especialmente das bran
cas. Hoje são legiões as que usam essa indumentária, que nada é em
si mesma, porém define uma atitude social. Também os moços negros
tomaram brios e já se apresentam com mais alinho, com mais decên­
cia. Esse começo de consciência, como dissemos, quanto à situação
aparente tende naturalmente a atingir o aspecto cultural, o aspecto
moral. E para o que vai contribuindo a Associação (“Os Descendentes
de Palmares”, abril de 1936).

Antigamente, antes das grandes imigrações que vieram ARIANIZAR


[sic] o Brasil por iniciativa dos ilustres estadistas da estupidez, o
comércio do País estava nas mãos ou de portugueses nacionalizados
ou de seus filhos, e de negros livres, que livres vieram da África, ou
negros forros. Estes podiam ser de muitas raças africanas, mas cre­
mos com boas razões serem principalmente das raças maometanas ou
maometizadas [sic] na cultura... Na Bahia e outras províncias em que
predominaram os gestos e o orgulho nagô ou hauçá, o instinto mou-
risco ou semita do comércio predominou por muito tempo, e assim
vimos neste século as tendas comerciantes dessa gente africana pom-
peando orgulhosamente, às vezes com inscrições em língua iorubá
ou outras dos últimos falantes delas. Isso passou. E ainda há pouco,
e quiçá ainda agora, manifestam-se provocantemente, nas fachadas
dos estabelecimentos do comércio, os letreiros alemães, italianos e
outros, e ultimamente, clamantes na Noroeste, os dísticos japoneses...
E o negro cada dia mais proletarizado, perdendo pelo roubo e outros
processos mais ou menos lícitos... as suas posses, ficou quase total­
mente afastado das lides de Mercúrio, cedendo lugar a todo mundo,
escorraçado pelo preconceito também dos compradores, que, cremos,

142
achavam mal deixar os negociantes italianos, sírios e outros, para
ir dar lugar ao patrício de cor preta. E o negro ficou somente nos
misteres pesados de produtor ou assalariado, ganhando misérias... É
todavia com imenso gozo que começo a ver negros perdendo o medo
de voltar às gemas de cor, desde verdureiros, às vezes com grande
despeito dos outros, como temos observado. Os vendedores de jor­
nais, até bem pouco tempo, eram unicamente brancos. O mesmo
se dava com os engraxates e outros serviços menos pesados. Pouco
é isso, mas já é alguma coisa. Precisam os negros perder o amor às
profissões de dependência, em que ficam eternamente submetidos a
patrões que os desestimam e diminuem muitas vezes até no salário.
Não é que queiramos sejam todos os negros comerciantes. Deve o
negro ser tudo quanto são os outros... E também negociantes. E os
compradores negros não devem fugir de comprar dos negociantes.
Muito pelo contrário. Percam, pois, o temor, patrícios, sejam lojistas,
vendeiros, mascates, como são os outros... Façam concorrência aos
estrangeiros. Gritem, apregoem suas mercadorias com coragem. E te­
remos dado mais um passo à redenção da nossa Gente (“Os Descen­
dentes de Palmares”, agosto de 1936).

É do conhecimento geral a grande influência do elemento negro nas


coisas do Brasil Colonial... Por que então preterir o negro nas funções
que se coadunam com sua capacidade? Não se justifica o provérbio
de que o negro é elemento inferior... De primeira ordem quer a As­
sociação que todos o sejam, dada sua compreensão exata, como ci­
dadão brasileiro, igual perante a Lei; e cônscio do uso e gozo de seus
direitos, pode e deve ascender a todos os cargos eletivos do País. E
assim o negro moderno, da era nova, era de força e de inteligência,
não quer mais ficar na cozinha da Nação. Hoje ele tem um caminho a
seguir, e seguindo-o, vai ficar na sala de visitas (“Os Descendentes de
Palmares”, setembro de 1936).

143
Não há o que um faça que outro não possa fazer — o valor deste
“oráculo” renova-se literalmente na lentidão dos séculos... Tais con
ceitos de tamanha transcendência certificam e abominam profunda
mente os pontos básicos dos sustentadores da inexistência de pri­
vilégios entre as raças e o saber humanos que se diferenciam apenas
pela perfeição cultural ou influência do meio... O desenvolvimento
progressivo que vem operando no antigo e misterioso contingente
negro, mormente na sua rica e, privilegiada região sul — onde se as­
sinala a existência de numerosas cidades que surpreendem pelas suas
perfeitas organizações urbanísticas... Para a raça negra universal, mor­
mente a sua juventude, esses dados dispensam maiores comentários,
porque espelham radicalmente a importância que assume esse eco
reconfortante na terra mater. Sede de nossa origem, transmitido pelo
prestigioso órgão britânico, e por esse meio não ficaremos privados
de expor ao mundo que as nossas capacidades intelectual e produtiva
não são aquelas delimitadas pelo nosso silêncio e retraimento (“Os
Descendentes de Palmares”, dezembro de 1936).

Hoje, por intermédio de uma organização como a nossa, procuramos


todos os meios para que sejam ditas as verdades sobre a nossa gente.
Pois que se não estivermos alertas, só nos taxarão de ineptos, incom­
petentes e outras coisas mais, num sentido maldoso para nos ames-
quinhar perante os olhos do mundo civilizado. Tratando-se de fundar
escolas, alfabetizando e dando um sentido de vida mais ritmada, ofe­
recendo assistência social ao negro, cremos que esse seja o melhor
modo de se contribuir para a grandiosidade da nacionalidade e da
Nação Brasileira (“Os Descendentes de Palmares”, setembro de 1937).

Em alguns artigos (com o o de agosto de 1936), investem


com hostilidade aberta contra os imigrantes, por considerá-los
os usurpadores dos negócios que até então estavam em suas

144
mãos. Mas se queixam também dos compradores que, dando
preferências ao imigrante, deixaram-nos reduzidos à penúria.
3) Pela elevação dos níveis econôm ico, intelectual e moral,
viam os agremiados o meio para a ascensão social do negro:

O negro, muito mais que o branco, é pobre individualmente e paupér­


rimo coletivamente. As condições de vida para o negro são dificultosas
em extremo, pois agora vai ele saindo da condição servil e estimu-
lando-se pró-independência financeira. Não permitem ainda que cui­
demos com real vantagem do assunto, mas, entretanto, queremos crer
que não seja cedo para se ir despertando nos “egos” sociais o desejo
de promover, a par da independência moral-intelectual, a autonomia
econômica. Infelizmente, aqui no Brasil, nosso País, e muito especial­
mente em nosso amado São Paulo, o negro, não obstante várias tenta­
tivas, ainda não conseguiu atingir o estado social e político a que tem
direito, pela sua qualidade de precursor máximo e deste colosso que
se chama Brasil dos brasileiros, e por mais que o queira e o faça, dada
a falta de educação cívica e literária de que é possuído, dificilmente
chegará à meta que por direito e justiça lhe pertence. Nestas condições,
o negro brasileiro, dentro do seu torrão natal, está fadado a um papel
de inferioridade e sacrifício. Carregam-nos de trabalho e não nos dão
os meios compatíveis com as necessidades que nos rodeiam. Daí a
necessidade imperiosa de tornar-se uma realidade útil e de proporções
grandiosas a nossa união de vistas. Seríamos indolentes se a não con­
seguíssemos, frente à compreensão e o capricho da maioria dos nossos
patrícios brancos, porque só assim farão um exame de consciência...
Percebendo agora do quanto temos sido ludibriados devido a nossa
fidelidade, lealdade e bom humor, a par de nosso pouco ou quase ne­
nhum cultivo intelectual, urge que procedamos com cautela, mas com
convicção esclarecida... O que podíamos e não podemos tolerar e con­
sentir é que sejamos dia a dia diminuídos pelos nossos iguais em alma

145
e corpo e sangue, sob os epítetos mais vis, por nâo termos a epiderme
branca (“Os Descendentes de Palmares”, outubro de 1936).

A Associação tem de incluir, no cadastro de suas realizações de as­


sistência a defesa da raça mártir, o combate sistemático ao alcoolismo,
como medida salvadora e moralizadora. Campanha essa que deverá
também ser empreendida vigorosamente pelos chefes de família, edu­
cadores culturais e domésticos, sociedades, clubes e outros coopera-
dores (“Os Descendentes de Palmares”, janeiro de 1937).

Direito natural que assiste a todos os agrupamentos humanos, as para­


das da elegância, os “footings”, os passeios são complementos dos há­
bitos sociais dos civilizados... A gente negra, minoria já se vê, também
gosta de “footings”. Nada de estranhável, que lhe assiste logicamente
esse direito natural... E a mesma rua Direita recebe a avalanche de pas-
seantes que rodam incessantemente, cobrindo, na curteza da trajetória
dessa via, distância incalculáveis, Tudo muito bem. O que, porém,
não pode prevalecer, o que de nenhum modo pode continuar é o
círculo viciado daquela passeata; é a pouca vergonha que se nota; o
descaramento das ações praticadas que fazem corar um frade de pedra.
É preciso acabar com os ajuntamentos de dom-juans sem escrúpulos,
de rodinhas de incomportados. É necessário extinguir esses focos de
obscenidades que provocam as cenas mais escandalosas; esse misturar
de homens e mulheres sem a mínima sombra de pudor, sem nenhuma
compostura. É urgente terminar com esse relaxamento que depõe con­
tra os nossos foros de raça progressista. É imprescindível uma reforma
nos costumes, nos gestos, nas ações e sobretudo nas galanterias de
lupanar que ali campeiam livremente. É necessário cessar esse centro
desmoralizador da raça (nobre raça sobre a qual uma pequena mancha
se torna uma nódoa tremenda). Às sociedades de bailes cumpre esse
trabalho salutar. Só a roupa não resolve o caso. É preciso código de

146
f
civilidade. A quase totalidade dos referidos passeantes são bailarinos e,
por isso, aos diretores dessas agremiações cabe a tarefa moralizadora.
Pelo brio de uma plêiade que reconduz a raça ao seu verdadeiro lugar,
é urgência por freios às libertinagens, aos atrevimentos que fazem da
rua Direita dominical o espantalho das famílias. Escola e moralização,
respeito e sobriedade, mais elegância, disciplina, educação, antes que
outras medidas sejam tomadas. À ação, pois, sociedades dançantes:
disciplinar seus associados, ensiná-los a se portar como “gente” e, de­
pois, ao “footing” (“Os Descendentes de Palmares”, março de 1937).

Negro, não te envergonhes de ser negro: Alista-te nas nossas fileiras,


se é que queres elevar o nivel moral e intelectual do negro.
Negro! Não fraqueje, mire em o vosso símbolo, símbolo de nossa
gente e promete... Promete e avança, que a caminhada através desses
dias tenebrosos é espinhosa, para se alcançar o mais alto píncaro
desse imenso e estremecido Brasil.
O sr. ou a sra. não têm admiração pela música? Não têm vontade de
aprender? Ora, porque não procuram matricular-se no Curso Musical
da Associação Brasileira de Negros? O professor Pedro ensina pelos
métodos mais práticos e eficazes.

Experimente e verá.
É tão bonito e tão útil uma pessoa preparada. O sr. ou a sra. não
acham?
Por que então não se matriculam no curso de Formação Social da
Associação Brasileira de Negros? Para a alfabetização, a Associação
mantém dois cursos: diurno e noturno, para menores e adultos. Não es­
tudará quem não quiser. Para informações, na portaria da Associação.
MORAL!... MORAL!... Eis o que é necessário que repitamos a todo
o momento neste caminhar incessante do progresso. É preciso que
preguemos a todo instante e em todas as rodas. Moral... Moral...

147
Instrução é o que o negro precisa. O negro deve procurar instruir-se,
se é que quer libertar-se dos grilhões da ignorância e quebrar as alge­
mas vergonhas do preconceito que o aniquila.
Gostas de representar no palco? Tens dom para isso? Por que não
procura desenvolver-se, inscrevendo-se no Departamento Dramático
de Associação Brasileira de Negros? Para melhores informações, pro­
cure o diretor desse Departamento todas as quartas-feiras, à noite, na
sede da Associação.
NEGROS: precisamos de uma mocidade sadia, despida de vícios,
bastante obediente e liberta da ignorância. Urge, pois, que trabalhe­
mos incessantemente para combater grandes males que há séculos
vêm flagelando a nossa raça, No meio negro, é necessário que se
selecione e se expurgue a erva daninha, que a tenta corromper (“Os
Descendentes de Palmares”, dezembro de 1935).

O desenvolvimento da consciência de cor, para tornar re­


alidade prática o desejo de união, constituiu o primeiro ob ­
jetivo dos agremiados. Procuram os líderes demonstrar toda
a situação social de injustiças que vitimavam o negro e, por
outro lado, enaltecer-lhe qualidades, valores e sua grandiosa
contribuição no Brasil Colonial. Consideraram a urgência de
elevar o nível econôm ico, intelectual, moral e social do negro
por meio de processo educativo e pela força política, dado o
reconhecim ento da Associação pelo governo.
Entretanto, aquele programa de atividade da Associação de
Negros, cuja última finalidade estava na “integração completa
do negro em toda vida social do País”, encontrou dificuldade
para efetivação:

Desfalcado de valores afirmativamente negros, pelo branqueamento das


epidermes dos antigos valores negros abastados, fugidos à grei da gente

148
f
negra pela mestiçagem e pelo preconceito (pois geralmente o maior
inimigo do negro é o branco neto de pretos), o povo negro ficou sem
chefes naturais... (“Os Descendentes de Palmares”, dezembro de 1935).

Aqueles que dirigem a Associação têm observado que, apesar de


grandes esforços, a obra de consolidação da raça tem sido lenta.
Parece que há um germe desconhecido, que ataca as nossas insti­
tuições, enfraquecendo-as e não as deixando viçar em toda sua pu­
jança... (“Os Descendentes de Palmares”, junho de 1936).

Mas por que não se unem? Por que, sabendo-se vitimas de um mesmo
mal, não combatem, conjurando esforços? Por que, se todos padecem
da mesma crise? Por que, sendo muitos os sofredores, ainda não se
firmou em cada espírito, como se fora obsessão, a urgência de se
ir criando elos indestrutíveis à façanhuda ação dos desarticuladores?
Por que não sufocar a tola vaidade de personalismo? Por que não su­
plantar a flora má da incompreensão? Por que não superar a ambição
e a inteligência, se os louros da vitória far-se-ão de todos? Por que, se
é de interesse vital, essa família não se congrega sob uma só lei, para
desfazer injustiças? Por que ação dispersa, se, sendo ela conjunta, mais
facilmente alcançaria o alvo? Por que não estender mais a campanha
nacional? Por que essa desagregação no agir, se todos sabem que da
união surgiria a independência almejada? Por que a incompreensão
coletiva, se particularmente o ideal de um é o ideal de todos? Por que
cisão, se o programa é único? Por que desnorteios, prevenções, intran­
sigências? Todos estão cientes que chegariam à vitória somente pela
unidade espiritual, pela reunião de qualidades morais e intelectuais.
E se essa união, que é aspiração geral da raça negra, não se proces­
sar em breve, continuará a traição sistemática que ela vem sofrendo
e relegada sempre a planos inferiores. Convém reagir à onda avas­
saladora do pessimismo e da desagregação. Convém criar e amparar

149
uma disciplina. Convém criar, manter, fortificar um Espírito Uno (“Os
Descendentes de Palmares”, junho de 1936).

Não sabemos de mal maior que campeia entre nós que o da ignorân­
cia. Não sabemos se é uma das contas de fatalidade que muito pesa
no rosário pesadíssimo do infortúnio lendário, que a raça descen­
dente de Cam carrega através dos tempos. Ela, a ignorância, como
um estigma ferrenho e emento aniquila o espírito de compreensão
e tolerância que deverá ser o das massas negras no Brasil. Ela é res­
ponsável pela anarquia social de nosso meio e opera como gera­
dora de ódios inconcebíveis e de mesquinharias inimagináveis. Ela faz
periclitar ou, pelo menos, estacionário o surto de progresso de nossas
agremiações de maior vulto e destaque, provocando o personalismo
tolo, as ambições de grupo, as inverdades e outros vícios não menos
desagradáveis e degradantes. Ela é o germe da incompatibilidade que
de há muito atrapalha e muito impede a maior e melhor unificação
dessa família imensa de negros nacionais... A burrice, a negação de
toda capacidade, a deselegância de crítica, a baixeza de conceitos, a
descortesia, as injustiças, as mistificações, etc. Não acreditamos, hoje,
na vitória do negro enquanto houver arraiais de ignorância crassa.
Urge reagir e construir. Reagir contra a mentalidade tacanha que nos
prende; reagir contra a pequenez do gesto; reagir contra a presunção;
reagir contra a intolerância; reagir contra o desrespeito; reagir contra
os insinceros e os trânsfugas. Constmir sólidos “eus” morais; construir
escolas e mais escolas, cursos e mais cursos... É um dever de nossas
associações abrir escolas, difundir instrução, semear livros, criar uma
nova mentalidade que não se curve às instigações, que não tema os
arreganhos, porque só sabe a verdade e age pela verdade e pelo di­
reito. Uma mentalidade diferente da de nossos dias, eivada de ódios
e mesclada de despeitos. Não se pode conceber o progresso coletivo
sem o progresso individual. A liberdade que gozamos só poderá ser

150
liberdade real quando o negro viver livre de preconceitos de outro
negro. É preciso para isso extinguir-se a burrice (“Os Descendentes de
Palmares”, junho de 1936).

Visitando um domingo a sede da Associação, fiquei muito satisfeito


com tudo que observei na casa de meus irmãos negros. Com pesar,
vejo meus irmãos de cor que conseguiram seus diplomas de médico,
advogado, engenheiro, professor e dentista olhando com indiferença
para essa magnífica iniciativa de cultura, trabalho de educação dos
negros pequenos e humildes. Muitos dos nossos irmãos que têm seu
pergaminho pelas nossas escolas superiores dizem que sua posição
social não permite imiscuírem-se com seus irmãos humildes e boçais
(“Os Descendentes de Palmares”, julho de 1936).

Do meu cantinho, tenho observado que o negro não tem amor em


tudo que é seu. Quando se trata de uma associação que não é dele,
e o preto é chamado para prestar seu concurso, que seja grátis ou
remunerado, ele vai com o peito descoberto, com amor, constância
e lealdade, em tudo e por tudo. Tenho observado que, em certas
casas comerciais, os meus irmãos pretos e mulatos ocupam um lugar
humilde; fora em associações que não são dos nossos irmãos negros,
os mesmos ocupam lugar elevado. Sabem, meus irmãos negros, por
que ocupam esse lugar? É porque eles são pessoas de confiança
dos membros que compõem essas associações; esses irmãos negros,
na ausência da diretoria, são secretários, tesoureiros, procuradores
e zeladores e não querem outra vida. Há assim muitos dos meus
irmãos negros que são tudo nesta vida, porque estão cobertos desse
elogio: este preto, sim, é preto na cor, mas branco nas ações. Quan­
do uma associação não é de negro qualquer lugar lhe serve. Que
incoerência, meus irmãos negros! (“Os Descendentes de Palmares”,
janeiro de 1937).

151
A n álise d o m a te ria l re feren te à 4
“A s s o c ia ç ã o d e N e g ro s B ra sile iro s”

O material colhido no estudo da “Associação de Negros Bra­


sileiros”, por meio de entrevistas e pelas opiniões emitidas em
seu mensário, evidencia a natureza daquela associação de ho­
mens de cor com o organização gerada pelo preconceito de
cor entre negros. Considerando que “a causa de uma atitude
está sempre num valor e numa atitude preexistentes” e que
“esta afirmação equivale a dizer que o fenôm eno individual
tem ambas as causas, a individual e a social” (FARIS, 1937), as
atitudes dos pretos e mulatos referentes à cor reciprocam ente
fundamentam a hipótese positiva quanto à existência de dis­
criminação de cor do branco para o negro. O fato de o mulato
das classes sociais intermediárias não participar na associação,
assim com o a atitude do negro para ele e vice-versa — expres­
sa em afirmações com o “geralmente o maior inimigo do negro
é o branco neto de preto” ou “diante do desprezo, do desdém,
do pouco caso e do desprestígio de que somos vítimas, espe­
cialmente da parte dos brasileiros brancos mestiços, cumpre
aos negros agir com segurança e presteza” — demonstram, em
tese, a exclusão do mulato (das classes sociais intermediárias)
da coletividade de pretos. De m odo geral, os mulatos que per­
tenceram à associação eram pessoas da classe social “inferior”
e foram considerados pretos.
Citando alguns traços característicos da “história natural”
dos movimentos nacionalistas, apresentados pelo prof. Donald
Pierson na Escola Livre de Sociologia e Política de São Paulo,
na décima quinta aula sobre raça e cultura, fazemos um dos
pontos de referência para a análise do movimento promovido
pela “Associação de Negros Brasileiros”.

152
1) O isolamento prévio cede lugar ao contato cultural com
um grupo de estranhos. O ponto básico fundamental de um
movimento nacionalista é um opressor, real ou imaginário, e
um senso de opressão.
2) Muitos nativos, enquanto isso, receberam educação e treino
que os isolaram inconscientemente do resto do grupo. Partici­
pando agora, pelo menos em parte, de duas culturas, tornam-se
“híbridos culturais”, sentindo-se estranhos a ambas. Ocorrendo
ao mesmo tempo a miscigenação, surge um gaip o de mestiços
cuja marginalidade racial, acrescida à sua hibridação cultural, os
torna ainda maiores estranhos nas duas culturas.
3) Desenvolvem-se as cidades, onde os nativos e os mestiços
tendem a se localizar na medida em que são aceitos pelos
conquistadores, ligando-se às culturas invasoras; na medida,
porém, em que não são aceitos, mas repelidos pelos conquis­
tadores, voltam-se eles para sua própria cultura. Dizem even­
tualmente aos nativos de sua terra: “Vocês são m elhores do que
pensam; por que não procuram melhorar para que não nos
envergonhemos de vocês?”
4) Surgem, então, líderes autoconscientes, quase invariavel­
mente híbridos raciais e culturais, que se dedicam a despertar
na população nativa, com auxílio da imprensa nativa, da lín­
gua, da literatura e das artes de f o l k revividas, a consciência
de grupo essencial ao ulterior desenvolvimento do movimen­
to. “Estes hom ens marginais, que tinham deixado por algum
tempo seu próprio grupo e vivido ou tentado viver em outro,
voltaram agora definitivamente para seu grupo original, cheios
de sonhos e aspirações do que ele se pode tornar.”
5) A consciência de grupo espalha-se entre a população na­
tiva e cresce de intensidade com o desenvolvimento conse­
quente de novos desejos que se definem em termos formais.

153
6) Define-se finalmente um programa, que contém finalmente
uma exigência de autonomia política.
O negro transportado para o Brasil, a fim de suprir as neces­
sidades do trabalho escravo, era disperso pelas plantações de
cana-de-açúcar, sendo, portanto, colocado em condições que
favoreciam a perda mais rápida de sua organização social e
cultural. Por outro lado, através de contato primário com o
“senhor” ou na “casa-grande”, estava em situações propícias
para assimilar outra cultura.
A “Associação de Negros Brasileiros” apresenta-se com o ensaio
de um movimento coletivo, liderado por negros conscientes de
seu status ligado à barreira da cor. Depois de íntimo convívio com
o branco, do qual absorvera a cultura, o negro se sentia repelido
e afastado de algumas esferas sociais do branco, circunstância que
o tornava consciente da cor. Procurou, então, voltar-se para o ne­
gro, tentando reuni-lo com o fim de conseguir ascensão e acesso
em todas as esferas sociais, a par do status ocupacional das classes
sociais intermediárias que alguns desfrutavam. Os líderes negros
tiveram de lutar contra a falta de sentimento de solidariedade en­
tre eles, ao mesmo tempo em que prestigiavam o branco.
Dado o sentimento de rivalidade e antagonismo entre os ne­
gros, ainda que existindo o desejo de união, surgiam os obstá­
culos para a efetivação da agremiação. Tais dificuldades seriam
a expressão da intensidade com que o negro tinha incorporado
idéias, atitudes e sentimentos do branco e, até certo ponto,
a medida em que era aceitos pelo grupo dominante. Acha­
ram os líderes necessário conduzir o negro contra o branco,
demonstrando-lhe a condição de inferioridade social em que
viviam em consequência da opressão e discriminação do bran­
co. Elevou-se a animosidade do preto contra o branco, mas
também se desenvolveu a dos brancos contra o preto.

154
Esta experiência realizada pela “Associação de Negros Bra­
sileiros” parece denotar a acom odação social entre brancos e
pretos baseada no recalcamento de hostilidade entre eles, re-
calcamento revelado nas atitudes de submissão do preto, dado
seu temor às reações do grupo dominante.
Percebendo o aumento da reação do grupo dominante, os
líderes da associação imprimiram nova orientação para a con­
secução dos planos de luta contra as restrições feitas à cor.
Consideraram que a luta devia dirigir-se não diretamente contra
o branco, mas contra o negro antagonista do próprio negro.
Os dirigentes do movimento, considerando a ignorância e o
sentimento de inferioridade com o geradores de antagonismo
entre os negros, passaram a empenhar-se em enaltecer a raça,
em promover a educação e desenvolver a instrução. Com a
elevação do nível intelectual e moral, os líderes visavam desen­
volver o sentimento de solidariedade e impor-se ao branco,
para cuja finalidade se constituíram em entidade política. Lasti­
mavam, porém, que os negros médicos, advogados, engenhei­
ros, professores, etc., se mantivessem alheios ao movimento,
verificando-se um desfalque de elem entos valiosos para a atu­
ação do grupo, e também referiram-se com animosidade à falta
de cooperação do mulato.
As dificuldades encontradas pelos agrem iados para pro­
m over o programa de reivindicação de direitos sociais, elim i­
nando as restrições na base da cor, mais uma vez revelam o
grau em que o negro incorporou a cultura do grupo dom i­
nante, inclusive os pontos de vista referentes a si próprio.
Enquanto na classe social inferior o negro se ajusta por co n ­
formism o e convívio com o branco, o negro das classes sociais
intermediárias se ajusta isolando-se e procurando com pensar
a satisfação do desejo de correspondência e consideração

155
por m eio das relações sociais circunscritas às esferas cio sia
tus ocupacional.
A mestiçagem sempre operou em sentido favorável à as
similação do negro à cultura e ao estoque biológico do grupo
dominante, dadas as circunstâncias anteriores. Desde os tem­
pos coloniais se desenvolveu no Brasil uma atitude positiva
para o mestiço. Tendo imigrado poucas mulheres brancas, os
portugueses uniam-se às indígenas, ligações estas que posteri­
ormente passaram a ser legalizadas pela Igreja.
A m iscigenação, disse o prof. Pierson na segunda confe­
rência sobre “O Negro no Brasil” que proferiu na Escola Livre
de Sociologia e Política de São Paulo, principalmente quando
ligada a intercasamento, resulta em laços sentimentais entre
pais e filhos, laços que obstam o aparecimento de atitudes de
preconceito de raça e ao mesmo tempo colocam os mestiços
em posição favorável à ascensão social.
Gilberto Freyre, em S o b ra d o s e m u c a m b o s , apresenta a as­
censão social do mulato relacionada à disposição do “senhor”
para alforriá-lo e aos contatos primários com brancos por ser
preferivelmente escolhido para empregado doméstico, e a as­
censão social ligada ao prestígio do bacharel, em uma socie­
dade cuja aristocracia se transferiu para a toga.

A favor da transferência deles (mulatos cor de rosa) do número de


escravos para o dos livres ou de sua ascensão social de pretos para
brancos, houve sempre uma poderosa corrente de opinião, ou antes
de sentimento, isto desde o século XVIII. Em 1773 já um alvará
dei Rei de Portugal falava de pessoas “tão faltas de sentimentos de
Humanidade e de Religião” que guardavam nas suas casas, escra­
vos mais brancos do que ele com os nomes de pretos e de negros
(FREYRE, 1936, p. 327).

156
Em sua segunda conferência sobre “O Negro no Brasil”,
Donald Pierson considerou estar ocorrendo um aumento no
número de mestiços, através do decréscim o do elemento afri­
cano, e não do europeu, em vários pontos do Brasil.
O mulato das classes sociais intermediárias não participou
da “Associação de Negros Brasileiros”, fato que dá um indício
sobre sua posição social e racial. Ele não sentiu necessidade de
se agremiar, talvez por se incorporar, mais facilmente do que o
negro, ao grupo dominante.

R esumos e hipóteses para pesquisa posterior

Constituindo a situação racial nosso cam po de estudo, circuns­


crevemos a observação a um aspecto particular nas atitudes
raciais manifestadas por pretos e mulatos. Partindo do co ­
nhecimento do sentido manifesto das atitudes de tais indivíduos,
procuramos com por hipóteses sobre elas. Tivemos, portanto,
de abordar processos sociais e psicológicos para depreender o
significado das atitudes manifestadas. Se conseguíamos definir
os mecanismos psicológicos pelos quais os indivíduos se ajus­
tavam, éramos forçados a depreender em função de que con­
dições exteriores se estabeleciam. Parece-nos legítima a pos­
sibilidade de conhecerem -se até certo ponto as atitudes raciais
de um grupo étnico, através das reações de outro grupo com
o qual interaja. Fomos, pois, conduzidos a formular hipóteses
sobre as im posições sociais decorrentes da estrutura social, o
que equivale a dizer que também procuramos nas atitudes de
pretos e mulatos o reflexo da atitude dos brancos.
As relações raciais, segundo Park (1939, p. 3), “são as re­
lações que ordinariamente existem entre membros de grupos
étnicos e genéticos diferentes, os quais podem provocar con­

157
flito racial e consciência racial ou determinar o «tatus relativo
dos grupos raciais dos quais uma comunidade é com posta”.
Por m eio de entrévistas e de opiniões emitidas nos jornais de
uma associação de homens de cor, obtivemos elem entos para
conhecer as atitudes raciais de pretos e mulatos em São Paulo
e formular hipóteses quanto à concepção deles sobre si m es­
mos, a consciência de cor, seu status ocupacional e social, e
sua acom odação social.
Distribuímos os casos entrevistados em dois grupos. Os indi­
víduos não só procuram o convívio íntimo com o branco, situ­
ação única para lhes dar autoafirmação, com o se isolam do pre­
to. Lutam conscientemente para conseguir a aceitação do grupo
dominante. A luta é diretamente conduzida no sentido de elimi­
nar o sentimento de inferioridade proveniente da concepção de
si próprio, concepção esta que resulta da introjeção da atitude
do branco. Empenha-se, então, em conseguir status ocupacional
das classes sociais intermediárias, conquistando diploma de cur­
sos secundário e superior ou habilidades profissionais. Mas, ape­
sar do esforço para valorizar o capital humano pela instrução,
o preto continua sentindo-se rejeitado em certas esferas sociais,
rejeição que o traumatiza e desenvolve a consciência de cor.
As esferas sociais das quais se vê banido parece que se re­
ferem àquelas que exibiriam publicamente a intimidade entre o
branco e o preto. Segundo o depoimento dos entrevistados, há
restrições por parte do branco à presença do preto em festas
familiares ou para ser com panheiro do branco em certos ambi­
entes recreativos, cassinos, por exem plo, ou em festas de for­
maturas. A distinção social se faz sentir no casamento, o qual,
conform e as palavras dos entrevistados, se torna um problema,
visto por ser obstado o casamento de preto com pessoas bran­
cas das classes sociais intermediárias.

158
Quanto aos m u la to s d a cla sse s o c ia l in ferio r, sua consciên­
cia de cor parece mais pronunciada do que entre os pretos
da mesma classe social, por agirem sempre pensando na cor.
Procuram defender-se da ofensa de ser cham ado de “negro”,
defesa que pode influir na escolha do cônjuge. Este fato se
acha fundamentado por várias atitudes dos entrevistados: no
caso ne 14, a entrevistada afirma que se casará com “patrício”
(preto) para que não falem dela, ao passo que a irmã evita o
preto e deseja casar-se com branco; o caso ns 16 se refere a
uma parda que se casou com preto para jamais ser chamada
de “negra” pelo marido; o caso na 17 refere a situação de uma
moça parda, contando mais de 30 anos de idade, que se con­
serva solteira à espera de marido branco.
A sensibilidade do mulato ligada à cor refletiría, no nível
mental, o fato de socialmente ser aceito pelo preto e pelo bran­
co. Mas, se pelo temor de ser chamado de “negro”, procura um
preto para consorte, seria evidência de que o branco não só
pode aceitá-lo com o pode rejeitá-lo.
Difere a posição dos m u latos d a s classes s o c ia is in te r m ed iá r i­
as, em razão de sentirem acentuada a necessidade de defesa de
sua inclusão entre os pretos. Procuram casam ento com branco
ou descendentes de pretos com aparência de branco e fogem
de todas as situações que possam identificá-los com o preto.
Por sentimento de vergonha, evitam sempre a companhia de
preto. Adquirindo símbolos do grupo dominante, o mulato
consegue integrar-se naquele grupo, mas em sua personali­
dade permanecem, com o sequela, a hipersensibilidade ligada à
consciência de cor e ao sentimento de inferioridade.
Através dos entrevistados, observamos que o preto e o mu­
lato têm concepção desfavorável de si mesmos, com o reflexo
da concepção do branco para eles, dada a influência dos con ­

159
tatos primários, principalmente da infância. Consideram-se
inferiores, feios, e se sentem envergonhados por sua origem.
Quanto mais subimos nas classes sociais, tanto mais aumenta
a consciência de cor e tanto maior o esforço despendido para
com pensar o sentimento de inferioridade. Ao mesm o tempo
em que se empenham em desenvolver valores pessoais, para
eliminar a concepção desfavorável, procuram a autoafirmação
na conquista da aceitação incondicional por parte do branco.
Consequentemente, resulta uma luta por status social mais ár­
dua, dadas as barreiras das distâncias sociais na linha de cor.
Os casos apresentados demonstraram que obtêm ascensão so­
cial os indivíduos de cor dotados de inteligência e que desde a
infância tiveram estímulos sociais nos contatos primários com
brancos. Entretanto, a ascensão ocupacional não confere ao
preto o mesmo status social do branco, consideradas as res­
trições demarcadas na linha de cor, ao passo que ao mulato
garante sua inclusão no grupo dominante, embora em sua per­
sonalidade perm aneçam as consequências do conflito mental.
A “A s s o c ia ç ã o d e N egros B r a s ile ir o s ”, segundo nosso entre­
vistado, e as publicações do mensário daquela entidade, resul­
taram do esforço de pretos conscientes no sentido de reunir os
pretos e despertar a consciência de grupo, a fim de eliminar a
concepção de inferioridades ligadas às pessoas de cor e, deste
modo, vencer as barreiras para a ascensão social do negro. Para
desenvolver a consciência de grupo e o sentimento de soli­
dariedade, os líderes do movimento relembravam o passado
comum de sofrimento da época da escravidão e as “injustiças”
que, por preconceito, continuavam a atingi-los, restringindo-
lhes as possibilidades de vida melhor. Inicialmente, os líderes
tentaram congregar os negros pela m obilização de animosi­
dade contra o branco. Dada a reação do branco, acentuando as

160

atitudes de rejeição, os agremiados resolveram imprimir dife­


rente orientação ao movimento. Tentaram uni-los, enaltecendo-
os, valorizando-os pela instrução, a fim de que, eliminando a
concepção de “gente inferior”, caíssem as barreiras de distância
social para sua ascensão. A luta passou a ser do preto contra o
preto, ou melhor, do preto contra a concepção de inferioridade
ligada à cor. Conseguiram cativar novamente a simpatia do
grupo dominante, e mesmo algumas vantagens com o o ingresso
de pretos na Guarda Civil. Em todo movimento, encontraram
grande dificuldade por se sentirem desfalcados de elementos
de valor para o grupo — professores, médicos, advogados pre­
tos e mulatos — que se mantiveram alheios, isolados e afasta­
dos do movimento.
A “Associação de Negros Brasileiros” representou uma ten­
tativa de pretos conscientes para lutar contra as restrições do
branco, despertando a consciência de grupo, desenvolvendo
um programa definido de reivindicações referentes aos aspec­
tos econôm ico, social e político. As dificuldades para conseguir
reuni-los e a indiferença de preto e mulatos das classes sociais
intermediárias revelam a intensidade com que o preto incorpo­
rou os ideais e conceitos do branco.
O material colhido pelas entrevistas e o referente à “Associ­
ação de Negros Brasileiros” sugere as seguintes hipóteses:
1) Os indivíduos de cor têm concepção desfavorável de si
próprios, em consequência de intenso processo de identificação
através de contato primário com pessoas do grupo dominante,
principalmente na infância.
2) Os indivíduos da classe social inferior ajustam-se incons­
cientem ente àquela concepção, manifestando antipatia para o
preto e simpatia para o branco, de onde resulta uma ordem
social de relativo equilíbrio. Pelas m anifestações de atitudes de

161
simpatia do preto para o branco, diminui a oportunidade para
ativar a consciência de cor.
3) A ascensão social do preto dar-se-ia através da ascensão
ocupacional, sem entretanto eliminar de todo a distância social
na linha de cor. Nas classes sociais intermediárias, os indivíduos
manifestam consciência de cor, que se constitui em estimulo para
a luta por status. Dado o grau em que os pretos introjetaram os
pontos de vista do branco, também no que se refere a si próprios,
eles se ajustam por conformismo e isolamento, isto é, conformam-
se lastimosos com as restrições do grupo dominante e se isolam
do preto, nos mesmos aspectos sociais vedados pelos brancos.
4) Embora hipersensível, o mulato se integra no grupo domi­
nante, desde que apresente sím bolos de valor positivo.
5) “Quando algum equilíbrio relativamente estável foi al­
cançado, a intensidade da consciência racial, que inevitavel­
mente levanta uma luta por “status” e não desaparece intei­
ramente, estaria grandemente diminuída” (PARK, 1939, p. 4).
Ajustando-se pelo convívio íntimo com os brancos, na classe
social inferior, ou por conformismo o isolamento nas classes
sociais intermediárias os pretos cessam de lutar, resultando a
acom odação social de relativo equilíbrio. O preconceito racial,
mais uma vez citando Faris (1937, p. 355), tende a ser susten­
tado por argumentos, sendo reconhecido com o um sentimento
de antipatia ou uma tendência para afastar ou limitar os con­
tatos sociais. Os dados colhidos demonstram que há distância
social ou limitação social entre os pretos e brancos, situação
esta percebida quando se observam as classes intermediárias.
6) A ordem social parece ter equilíbrio na seguinte situação:
a) simpatia do preto para o branco;
b) repressão de revolta e do descontentamento por medo da
reação do branco;

162
c) derivação da luta contra o branco na eliminação da con­
cepção de inferioridade pela ascensão ocupacional;
d) tratando-se do mulato, além da ascensão ocupacional, o
casamento com branco para sua inclusão no grupo dominante.
7) Pela integração do mulato no grupo dominante das classes-
sociais intermediárias, sugerimos a hipótese de tratar-se de dis­
criminação baseada na cor, visto perder significação desde que
o indivíduo apresente características do grupo dominante e na
medida em que sua pele vai “branqueando”, não sendo, por­
tanto, levada em conta sua origem.

Referências

BINGHAN, Walter Van Dyke; MOORE, Bruce Victor. H ow to Inter-


view. New York: Harper & Bros., 1934.

FARIS, Ellsworth. The N ature o fH u m a n N ature, a n d oth er Essays


in S ocial Psycology. New York: McGraw-Hill, 1937.

FREYRE, Gilberto. S obrados e m u cam bos. São Paulo: Companhia


Editora Nacional, 1936.

NOGUEIRA, Oracy. Atitude desfavorável de alguns anunciantes


de São Paulo em relação aos empregados de cor. S ociologia, São
Paulo, v. 4, n. 4, p. 328-358, 1942.

PARK, Robert E. Human Nature, Attitudes, and the Mores. In:


YOUNG, K. (Ed.). S o cia l Attitudes. New York: Henry Holt & Co.,
1931, p. 17-45.

163
______ . The Nature of Race Relations. In THOMPSON, E. (Ed.).
R ace R elation s a n d the R ace P roblem . Durham: Duke University
Press, 1939, p. 3-45.

PIERSON, Donald. A teoria dos quatro tipos fundamentais de de­


sejos. B oletim d o Serviço S ocial d os M enores, vol. 2, n. 3, p. 15-20,
dez. 1942a.

______ . N egrões in B rasil: a study of race contact at Bahia. Chi­


cago: University of Chicago Press, 1942b.

STONEQUIST, Everett. The M argin al Man-, a study in personality


and culture conflict. New York: Charles Scribner’s Sons, 1937.

164
I

C A D E R N O DE I M A G E N S
PRIMEIROS TEMPOS
Enchente na rua em que residia a Família B icudo na V ila E conom izadora. N a
janela, a mãe e as irmãs d e Virgínia Bicudo. S ão Paulo, 2 7 d e janeiro d e 1 9 2 9 .

V irgínia B icudo (terceira d a esquerda para a d ire ita ] com colegas. São Paulo, 2 0
de janeiro de 1 9 3 0 .

169
Escola Normal do Braz
<f
GRUPO MODELO ANNEXO

Anno Classe
DO

CU R S Q P R E h m m A R -

1
<ít_

A lim m
Fonte: Divisão de Documentação e Pesquisa da História da Psicanálise/ SBPSP
.............

durante o anno de 19..

O alumno que der 25 faltas


injustificadas ou 60 justifica­
das será eliminado. -----------

<3==
TYP. S IQ U E IR A . — S. P A U L O ..

C a p a d o Boletim de V irgínia Leone B icudo na Escola N o rm a l d o Brás São


Paulo, 1 9 2 1 .

170
Foto de Virgínia Leone Bicudo em álbum d e formatura da Escola N orm al C aetano
de C am pos. São Paulo, 1 9 3 0 .

171
È
C/">

-s
■I
.8
I"

C arteira funcional da Diretoria d o S erviço d e Saúde Escolar o n d e


V irgínia foi visitadora . São Paulo, d é c a d a d e 1 9 4 0 .

V irgínia Leone B icudo com


apro xim a d a m e n te 2 5 anos. São
Paulo, d é c a d a d e 1 9 3 0 .

V irgínia Leone B icudo com a m ãe Joana


Leone. S ão Paulo, 1 9 3 4 .

172
ESCOLA DE SOCIOLOGIA E POLÍTICA
Fonte: CEDOC/ FESPSP

Primeira sede d a Escola Livre d e S o c io lo g ia e Política (ELSP) no e d ifíc io d a Fundação


Escola de C o m é rcio Alvares Penteado lo c a liz a d a no Largo S ão Francisco, 1 9 . N este
endereço V irgínia cursou a g ra d u a çã o , defendeu seu mestrado e lecionou.

......
Nascida l í .

O aiu n o ...S sV ^ » *****.i*..


X he-en *-'. ■ ..freq u en ta i

CUTSOS .. ..................................................................

Secretario

C arteira d e discente de V irgínia na ELSP. São


Paulo, 1 9 3 6 .

175
Fonte: CEDOC/ FESPSP
Formandos d o b a c h a re la d o em S o c io lo g ia e Política d a ELSP em 1 9 3 8 . Da esquerda
para a direita: J. C osta S obrinho; A nto n io Rubbo M üller; J. S iqueira C unha; V irgínia
Leone Bicudo; M assim o G uerrine; O la v o Baptista Filho e; M a rio G . Pereira; J. Lellis
C ardoso. S ão Paulo, 1 9 3 8 .

Registro d e em p re g a d o d e V irgínia Leone B icudo na Escola de


S oc io lo g ia e Política. S ão Paulo, 1 9 4 0 .

176
i

.ESCOLA LIVRE DE SOCIOLOGIA E POLÍTICA DE SÃO PAULO


(INSTITUIÇÃO COMPLEMENTAR DÁ UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO)

Sáo P a a l o , 21 de a g o s t o de 1942

I l m ã . S r t ? . V l r g i n i a necme Bicudo
E s c o l a l i v r e c.e S o c i o l o g i a 6 id O l l L " u ÍC £ L
I esta
Fonte: Divisão de Documentação e Pesquisa da História da Psicanálise/ SBPSP

.P re sa d a a lu n a :

levam os ao conhecim ento de V .3 . que o De-


p artam en to de S o c i o l o g i a e A n tr o p o l o g ia d e s t a E s c o l a , a c a b a
de a c e i t a r a sua c a n d i d a t u r a ao Gráo de F e s t r e em C i ê n c i a s
e que e s t a de acord o com o t i t u l o cie sua t e s e : "E stu d o da
c o n s c i ê n c i a de r a ç a e n t r e os p r e t o s e m e s t i ç o s de São P a u l o ” ,
a s e r le v a d a a e f e i t o sob a s u p e r v is ã o do d r . Donald P i e r s o n .

A t e n c i o s a s sau d açõ es

Dortalò P i ex-son
D i r e t o r do Dep. de S o c i o l o g i a e A n tr o p o lo g ia

Docum ento da ELSP assinado pelo prof. D onald Pierson co m u n ica n d o o a ce ite ^ 'r9 'n'a
Leone B icudo para o curso d e mestrado. São Paulo, 21 de agosto d e 1 9 4 2 .

177
ESC O LA LIVRE D E' SOCIOLOGIA E POLÍTICA DE SÃO PAULO
(INSTITUIÇÃO COMPLEMENTAR DA UNIVERSIDADE DE SAO PAULO)

/
18 de maio de 1944

Frezada Vlrginla Bicudo:

Alegr«,-n!e comunicar a noticia de que foi aprovado no


"exame compreensivo" para o grau de Nestre, sendo as seguintes
as notas:

Principios de Antropologia Social 6


Estudo da Sociedade 9
ã-etodos nas Ciências Sociais 9
Negro no_3rasll 9 el/4
Introdução a Antropologia Social 7
Haça e Cultura 9
Etnologla_3rasileira _ 9
Assimilação e Aculturação 6

A sua tése deve ser entregue, na forma definitiva, em


três v ias, até o dia 12. de setembro. Por conseguinte, deve
entregar-me logo o rascunho revisto afim de eu ler, uma vez
que é necessário haver tempo bastante para 1) incorporar minhas
sugestões, 2) eu entregar a tése aos oútro3 professores inter­
essados afim de ser lida por eles, 3) incorporar também as suas
sugestões, 4) preparar a cópia final até a data marcada.

Sobre 1) a forma da página de título para a cópia final,


2) o tamanho do papel a usar, rogo-lhe obter informações do
Secretario da Escola Livre sobre as exigências a esse respeito,
de modo que todas as téses tenham forma igual. A responsibili-
dade a este respeito cabe ao candidato.

Cordialmente,

Donald pierson
Diretor da Divisão de
Estudos Post-graduados
!
Docum ento, assinado p e lo diretor d a D ivisão d e Estudos Pós-Graduados d a ELSP, D onald
Pierson, com as notas das disciplinas cursadas p o r V irgínia Leone B icudo para o b te n ç ã o
d o grau d e mestre. S ão Paulo, 1 8 d e m a io d e 1 9 4 4 .

178
Fonte: Arquivo pessoal do
Fotos de reuniões e de escolares d a Frente N e g ra B rasileira. D écada de 1 9 3 0 .

A VOZ DA R A Ç A o.»™4. "GENTESEOIU, BIUilLHUA- »

Primeira p á g in a d o jornal Voz d a Raça, ó rg ã o


d a Frente N e g ra B rasileira. Ele foi u tilizad o
co m o fonte d e pesquisa p o r V irgínia B icudo.
S ão Paulo, julho de 1 9 3 7 .

179
Fonte: CEDOC/ FESPSP

D onald Pierson, orie n ta d o r de V irgínia Leone Bicudo, em seu


ga b in e te na ELSP. S ão Paulo, d é c a d a d e 1 9 4 0 .

Fonte: CEDOC/FESPSP

O ra c y N o g u e ira , segundo d a d ire ita p a ra esquerda, fo i d a


mesma turma d e V irgínia Leone B icudo na Pós-G raduação. Foto
d o s o ció lo g o em sua cerim ônia d e form atura d e m estrado. São
Paulo, 1 9 4 5 .

180
r
Fonte: CEDOC/FESPSP

C o la ç ã o de grau da turma de Bacharéis e Mestres em S o c io lo g ia e Política d o a n o de


1 9 4 7 . V irgínia Bicudo, docente d a ELSP, a p a re ce à esquerda na segunda fila . A cim a
d ela vê-se o professor O c tá v io d a Costa E duardo e a sua frente o professor H erbert
Baldus. Do lado d ireito o prim eiro da fila d e b eca é Florestan Fernandes e a sua direita
o diretor da ESP, C yro Berlinck. S ão Paulo, 1 9 4 7 .

181
VIRGÍNIA, PSICANALISTA
Forte: Divisão de Documentação e Pesquiso do História do Psicanálise/ SBPSP

Uma das prim eiras reuniões d a S ocie d a d e Brasileira d e Psicanálise. Identificam-se d e pé,
da esquerda para a d ire ita , A de lh e id Koch, segunda d a fila , V irgínia Bicudo de chapéu,
Durval M a rco n de s é o quarto, H erm inda M a rco n de s, sua mulher, é a quinta, Frank Philips
é o sexto e Flávio Rodrigues Dias é o sétimo.
S entado, no centro, A rn a ld o Rasçovsky, psicanalista argentino. C om ele, m édicos
d o Instituto d e Ffigiene M e n ta l e d a Psiquiatria d a Santa C a sa d e M ise ricó rd ia , não
identificados. S ão Paulo, d é c a d a d e 1 9 4 0 .

O psicanalista W ilfre d Bion (1 8 9 7 -1 9 7 9 ).

185
Fonte: livro Álbum de Família / Casa do Psicólogo, 1994.

A psicanalista M e la n ie Klein (1 8 8 2 -1 9 6 0 ).

186
K.-r;rJjCtC3 t5iC36 t w V irg in ia le o n e BICUDO §>

A ORIENTAÇÃO PSICOTERAPICAÍ
DE EDUCADORES E DO EDUCANDOl
Causas emocionais de fracasso dos educadores — Á psicoterapia ou a |
reeducação como meio de rea justamento da personalidade
contacto cio. sor humano com neoessaria a intervenção de uma ori­ mo casar-se, — expllcou-ihe — ha- (P
O a realidade qúe -o cerca (ob­
jeto* animados e Inanimados),
entação pslcoteraploa ou reeducatl-
va dos pais e do educando. A psl-
via ficado multo aflito, achando •
que vinha sendo tão feliz com sua
se estabelece por melo doâ afetos ou coterapia ou reeducação tem, por­ mulher Justamento por não 6e ter
emoçócs. A evolução dos afetos tanto, o objetivo de proceder ao casado com ela; assim, cia por me­
«través do crescimento flslco-pslco- do era sempre submissa; mas ca­
tratamento dos distúrbios emocio­ sando-se tudo iria mudar, a mulher
«ocial, da iníancia até a idade adul­ nais, por melo do estabelecimento de iria relaxar c acabariam separando-
ta, dá-so por etapas, cada uma daa uma relação entre o paciente (crian­ se". Por motivos emocionais pes­
quais apresenta características pró­ ça, adolescente, adulto), libertando- . soais, M. tinha unicamente consi­
prias. Do catado narclslco, isto 6, o de sentimentos e mecanismos in ­ derado os aspectos emocionais üa
de afetos voltados para si mesma, fantis, conduzindo-o do estado de ligação marital dc seus pacientes,
a criança evolui paulatlnamcutc pa-' descuidando-se de tratar dos moti­
imaturidade para a maturidade emo­ vos neuróticos determinantes da­
ra o catado de relaclonar-se emo- cional, da dcpendencla para a eman­
cionaim entc com oa objetos do quela forma de ligação. Para qu8
cipação, pcio robusteclmento do ego, sua orientação fosse cumprida, M.
mundo exterior. Por essa razão, os que não- s® torna capaz de encon­ deveria em primeiro lugar mostrar
primeiros anos de vida da criança trar melhores soluções para os esta­ que o pai mantinha uma situação
caracterizam-se por atitudes de falsa, baseada na Insegurança e no
dos de tensão c de conflito psíquico
«goisrao, vaidade, exibicionismo. In­ medo de perder sua mulher, razão
veja, ciúme, isto é, por eíotos que do que aquelas obtidas pelos sinto- por que precisava conscrva-la sub.
buscam unicamente o prazer pes­ missa, desprotegida e dependente,
soal. sem nenhuma consideração Os métodos de psicoterapia podem fazendo-se cego a todas as inconve­
pei* realidade exterior. ser classificados em dois grupos: a niências desse arranjo.
Impedida por motivos intrínsecos psicoterapia psicanaütlca, que tra­ Num outro caso, G .. ao tomar co­
• extrlnsecos de permanecer viven­ balha cora mateçiai do inconscien­ nhecimento dos problemas de um
do como se tosse o centro de gra- te. e os outros tipos de psicotera­ menino por meio de entrevistas com
vitação do universo,' a criança é pia, que lidam com material do a mãe, imediatamente percebe que
compelida a mudar os seus afetos consciente. A diferença entra os esta se havia apegado excesslvamcn-
primários, soclalizando-os. A socia­ dois tipos de psicoterapia fica no te ao filho desde a morte do m a­
lização da criança consiste, por­ fato de que, enquanto a psicanálise rido. Consequentemente, não dei- •
tanto, em ajudá-la a produzir m u­ procura remover os sintomas tiran­ xava o filho afastar-se dela u não
danças nos afetos, de modo a tor­ do do Inconsciente os elementos ser para ir à escola. O menino es­
nar-lhe mais desejável do que frus- - perturbadores, as pslcoterapias não tava com 12 anos, mas não podia
tradora a aceitação das técnicas de analiticas procuram remover os sin­ brincar com outros e dormia com
vida e dos padrões de comporta­ tomas utilizando-se excluslvamcnt» a mãe na cama de casai. Para G.
mento, que fazem possível a vida dc técnicas de apoio e, portanto, ape­ ficou evidente que a mão tinha de
em sociedade. O processo normal lando para a parte consciente da mudar suas atitudes em beneficio
do socialização da criança i, pois, personalidade. Todavia, um e ou­ da criança e orientou-a dizendo-lhe:
constituído peia educação. tro tipo dc psicoterapia trabalham “A sra. precisa dar mais liberdade
Motivos psíquicos intrínsecos en- na base da relação entre paciente e a seu filho! Deixá-lo que tenha re­
contram-se nos diferentes medos plscoterapepta, a qual se fundamen­ creação fora dc casa, permitir-lhe
específicos que normalmcnte sur­ ta na situação de transferencia e de que tenha amigo* e dar-lhe uma
gem, opondo-se a que a criança contra transícrencia. cama individual, pois ele està mui­
permaneça indefinidamente fixada to grande pára dormir com a sra.”
aos prazeres característicos de ca­ O fenomeno da transferencia é um — "Mas no quarto não há lugar .
da etapa do desenvolvimento, ao \&- fato que ocorre em todas as rela­ para outra cama", rcplica-lhe a mãe.
üo do surgimento de novas fontes ções humanas e, portanto, cm todas — "A sra. ajeita uma cama na sa­
de prazer, consequentes ao proprlo as situações de psicoterapia, porque la d» frente, uma cama de "ven­
crescim ento. Assim, durante os pri­ t determinado pela tendencla psiqui- to", que só serã armada ã noite.
meiros . 18 meses de idade, as expe­ ca do transferirem-ac para situa­ Para a saude do menino é multo
Fonte: Divisão de Documentação e Pesquiso da História da Psicanálise/ SBPSP.

riências da criança se fazem pri- ções posteriores as emoções que du­ mais higiênico ele dormir só". Após
mordiãlmente por meio do prazer rante as expcricnciaa in fantis não umas semanas G. entrevista nova-
oral: tendo a atitude de levar tudo encontraram as iras normais de des­ m eate a mãe do menino, pergun-
à boca, tudo controlar e Incorporar carga. À luz da transferencia expli­ tando-lhe se havia seguido sua
a si devorando, aos poucos vai sur­ cam-se, por exemplo, as reações do orientação. "Sim — respondeu-lhe
gindo o medo de que o oposto lhe adulto quê està sempre em defesa, a era. — deixo-o brincar com outros
ocorra, isto é, que o-mundo exterior assumindo uma atitude de agressão e noto que ele está mais alegre.
a trate com a mesma atitude "de- antecipada ou de retraimento, por Quanto a mudá-lo de cama eu en­
voradora” . Concomitantemente, sur­ imaginar quo os outros só desejam contrei uma solução melhor;, cu .0
gem novas fontes de prazer, com a trai-lo, humllbà-lo. desprezá-lo ou faço deitar-se antes de mim e quan­
valorização das suas funções fisio­ agredi-lo fisicamente. Nesses casos, do ele jã adormeceu entro devaga­
lógicas, a criança obtendo uma no­ o adulto encontra-se transferido-pa­ rinho na cama; pela m anbi levan­
va forma dc estabcloeer contacto, ra os contatos, humanos do presen- to-me antes que ele desperte." —
dominar e controlar o ambiente. , te, os mesmos sentimentos com que
Sor sua vez, o prazor proveniente "S ã o — responde G. — a sra. não
’ vive as suas cxperienclas infantis. entendeu que é preciso tlrà-lo da
da valorização de sua "obra”, pro- As simpatias ou antlpatias gratui­
duzlndo-a, expèilndo-a ou reten­ sua cama como medida de higiene."
tas são outro exemplo do fenôme­ —- "A sra. só exige sacrifícios de
do-a. encontra limitações com o no de transferencia dc afetos liga­
surgimento do medo de que as pes­ mim”, interrompe a mãe, e choran­
dos a situações infantis. do continua: “fiz tudo que a sra.
soas de seu ambiente (mãe) tenham
õ mesmo modo de sentir, e, por­ Na situação de psicoterapia, fa- mandou, tudo que afasta o meu ft-
talm cnte o paciente transferirá 11» de mim; só , tenho esse filho
tanto, desejem espollã-la, tirar-lhe para o psicotepeuta os mesmos a-
coisas de dentro de seu corpo e es­ no mundo, agora até separar de ca­
íetos infantis e os mesmos meca­ ma, isso é demais para' mira, não
vaziá-la. Enioclonalmente, & crian­ nismos psíquicos de defeso. Ao
ça sente desejável abandonar o mesmo tempo que deseja receber
prazer anal e substituí-lo pelo pra­ do pslcoterapeuta amor, conside­ De fato para o seu estado emo­
zer genital, o qual acompanhado de ração ou reconhecimento, o pacien­ cional a orientação de G. cr» ex­
sentimentos de ciumo e inveja tam­ te teme ser rejeitado ou de algum mo-, cessiva porque recebida com o sen­
bém passa a ser temido, alem do do punido. O conteúdo dos pensa­ tido de afastá-la do filho. Somen­
mentos ou fantasias que dão senti­ te depois de estar esclarecida so­
medo de ferimentos que geralmente do aos afetos in fantis variam de um
, aparece nessa epoca. Esser. são al­ individuo para outro, segundo « bre os motivos emocionais de 11-
guns ,exemplos de medos específicos historia de cacla ura e o condlclo- xar-Se ao filho e da Irrealidade de
par» diferentes comportamentos ins­ niujiento das cxperienclas pessoais. que perderin o afeto do filho se
tin tivos, c s quais surgcm_ pondo Hà ■portanto_ diferentes formas dc lhe desse maior liberdade * que rl»
término às respectivas fontes de defesa. Énquârito Uns se defendem póderla aceitar a orientação de O.
prazer, ao mesmo tempo que são adotando atitudes de amabiiidade A relação entre o paciente e o
sucessivamente substituídos por no­ excessiva outros otíotam’ atitudes de psicoterapcuta constitui o melo de
vas fontes dc prazer. Esse processo excessiva agressividade, e outros ain-
obter dados para a compreensáo da

C lip p in g d a coluna N osso M u n d o M e n ta l assinada p or V irgínia Leone


B icudo no jornal Folha d a M a n h ã . São Paulo, 1 9 5 5 .

187
F a te À c e rc p e s o d ifc s c a ®
C a p a d o livro N osso M u n d o V irgínia Leone B icudo, anos
M ental, d e V irgínia Bicudo, 1950.
p u b lic a d o em 1 9 5 6 .

Forte: Acervo pessoal de Roso Zingg

V irgínia Leone B icudo e o presid e n te ju sce lin o Kubitschek no d ia 7 d e setembro d e 1 9 5 8


em recepção na e m b a ixa d a d o Brasil em Londres.

188
Lygia A m aral e V irgínia Leone
Bicudo. São Paulo, 1 9 6 0 .
Fonte: Divisão de Documentação e Pesquisa da Historio da Psicanálise/ SBPSP

Festa d o Prêmio J oãoJulião d a C osta A guiar. Da esquerda para a direita: Bernardo Blay,
2.°; H erm inda M a rco n de s, esposa d e Durval, 4 ° ; V irgínia Leone Bicudo, 5 .° ; Lygia
A m aral, 6 .a; Durval M arco n de s, 7 o e; colegas psicanalistas. São Paulo, 2 7 d e junho
de 1 9 6 8 .

189
fc ó r x ^sa naÊc 5eF5?
i
Dicãc de D ocrerra ã =
V irgínia Leone B icudo e Durval M a rco n de s. A o la d o Bernardo Blay e senhora. D éca d a
de 1 9 7 0 .

Fonte: Acervo pessoal de Rosa Zingg

V irgínia em festa d e fam ília com as irmãs. Da esauerda para a d ire ita : V irgínia Leone
B icudo; H elena B icudo Soares de O liv e ira ; M a ria a e Louraes B icudo Z in g g ; Joana Leone
B icudo e; C arm em Leone B icudo De Prá.

190
Título A t i t u d e s K a c ia is i >k P r e t o s i ; M i n ,a t o s i i m SAo P ai

Autora VmtilNiA Liíonk B icudo

Organizador M arcos C hor M aio

Produção R od rig o E stramanho de A lmeida

Projeto gráfico de capa e miolo M oema C avalcanti

Editoração Eletrônica B árbara F onseca da R ocha

Digitalizações C ores S oluções G ráficas

Revisão de texto F rank R o y C intra F erreira

Revisão de provas R od rig o E stramanho de A lmeida

Secretaria Editorial R osa M aria A ndrade G rillo B eretta

S ilvia A parecida S antos T erra

P edro C atarino

Formato 16 x 23 cm

Mancha 11 x 1 7 ,5 c m .

Tipologia ITC Garamond e Futura


Papel P ólen S oft 8 0 g /m 2

C artão S upremo 2 5 0 g /m 2

Número de páginas 192

Tiragem 1 000
Impressão Prol Editora Gráfica Ltda.
vou u estudar ns reluçfies raciais no Hmsil. Monos
conhecida, entretanto, <í a expressiva presença das
correntes de pensamento da chamada Escola de
Chicago na produção intelectual dos alunos de
Pierson que integram essa geração pioneira das
ciências sociais brasileiras. Ao abordar as rela­
ções raciais pela perspectiva dos pretos e mulatos
e por uma ótica que conjuga a compreensão dos
aspectos subjetivos da cultura ao conhecimento de
suas condições sociais, o estudo de Virgínia Leo-
ne Bicudo expressa a criativa apropriação dessa
tradição de pensamento no Brasil.

M a r ia L a u r a V iv e ir o s d e C a s t r o C a v a l c a n t i

Professora do Programa de Pós-Graduação em


Sociologia e Antropologia do Instituto de Filoso­
fia e Ciências Sociais da Universidade Federal do
Rio de Janeiro.
Temos aqui um documento excepcional, que representa em termos simbólicos a inclusão
de uma mulher negra nas elites pensantes do País. No plano da história da antropologia,
é também um estudo que aponta, com clareza, para o cerne dos trabalhos que estabelece­
ram a agenda das pesquisas sobre relações raciais no Brasil nos anos seguintes.
M ariza C orrêa, antropóloga,
pesquisadora do Pagu/ Núcleo de Estudos de Gênero da Unicamp

A democracia racial brasileira foi um elo poderoso da cadeia de idealizações que sus­
tentou a ideia de Brasil até, mais ou menos, o final dos anos 40. Os movimentos negros
removeram esse elo. Alguns intelectuais contribuíram também, sobretudo aqueles com
formação sociológica, historiográfica, psicológica. Um desses, como legítima precur­
sora dos estudos científicos sobre o negro, foi Virgínia Leone Bicudo. Fez história.
J oel R ufino dos S antos, historiador e escritor

A feliz publicação da dissertação de mestrado de Virgínia Leone Bicudo nos oferece


uma valiosíssima perspectiva sobre a maneira como a “questão racial” no Brasil da
década de 40 foi percebida por uma aluna de Donald Pierson. Incita-nos a pensar so­
bre mudanças e continuidades, tanto nas “relações raciais” no Brasil, quanto no saber
sociológico produzido sobre o tema.
P eter F ry, antropólogo

A dissertação de Virgínia Bicudo, que agora ganha merecida edição em livro, é pioneira
da nascente psicologia social brasileira a desvendar o preconceito racial no País. A
abordagem teoricamente consistente que Virgínia e seu orientador, o sociólogo ameri­
cano Donald Pierson, deram ao texto transformou este estudo em referência essencial
para a história das ciências sociais e das relações raciais no Brasil.
A ntonio S érgio G uimarães, professor titular do Programa
de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade de São Paulo

Esta oportuna publicação é um estímulo à revisão da trajetória de Virgínia Bicudo, mar­


cada por inquieta busca de compreensão da condição humana. Socióloga e psicanalista,
estudou em profundidade a interação do homem com a cultura, as relações interpes­
soais e intrapsíquicas. Mulher incomum, ela foi dotada de rara capacidade de conversão
das experiências de vida em conhecimento e ação transformadora.
M aria  ngela M oretzsohn e M aria H elena T eperman
da Divisão de Documentação e Pesquisa da História
da Psicanálise da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo

ISBN 978-85-62116-03-2

9 788562 116032