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Ano 4, número 7, semestral, setembro 2014

Sistemas municipais de cultura: caminhos possíveis para o exercício


dos direitos culturais?

Sistemas municipales de cultura: ¿posibles caminos para el ejercicio


de los derechos culturales?

Municipal systems of culture: possible paths for the exercise of


cultural rights?

Fernanda Laís de Matos


Vânia Maria Andrade Brayner Rangela
Cristina Maria do Vale Marques1

Resumo:

Palavras chave: O presente artigo apresenta como tema a garantia dos direitos
culturais por meio da instituição de Sistemas Municipais de
Plenos exercícios dos Cultura (SMCs), no âmbito da proposta do Sistema Nacional de
direitos culturais Cultura (SNC). A pesquisa analítico-descritiva teve como base a
inauguração, pela Constituição Federal de 1988, de paradigmas,
Sistema Nacional de como o da inclusão do Município na organização governamental
Cultura
brasileira e o do reconhecimento da fundamentalidade dos direitos
Sistemas Municipais de culturais. Por meio da apresentação da proposta de estruturação,
Cultura institucionalização e implantação de SNC, partiu-se para a análise
da natureza das políticas públicas de cultura que darão base para
Autonomia federativa os sistemas municipais e do conceito de autonomia federativa.
Concluiu-se que, na autonomia municipal, podem ser encontradas
justificativas para diferentes níveis de desenvolvimento dos SMCs.

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Resumen:

En este artículo se presenta el tema de la garantía de los derechos Palabras clave:


culturales mediante la creación de Sistemas Municipales de Cultura
(SMCs), bajo la propuesta del Sistema Nacional de Cultura (SNC). La Pleno ejercicio de los
investigación analítica-descriptiva se basa en la inauguración, por la derechos culturales
Constitución Federal de 1988, de los paradigmas, como la inclusión del
municipio en la organización del gobierno brasileño y el reconocimiento Sistema Nacional de
Cultura
de la fundamentalidad de los derechos culturales. Con la presentación
de la propuesta de estructuración, institucionalización e implementación Sistemas Municipales de
de los sistemas SNC se empezó el análisis de la naturaleza de las Cultura
políticas públicas culturales que basarán los sistemas municipales y el
concepto de la autonomía federal. Autonomía federal

Abstract:

Keywords: The possibility of exercising cultural rights with the institutionalization of


the so-called Municipal Cultural Systems (MCSs), in the sphere of the
The exercise of cultural Brazilian National Cultural System (BNCS) is the theme of the present
rights article. The analytical and descriptive research started with the study
of two paradigms established by the Federal Constitution of 1988: the
The Brazilian National inclusion of the figure of the Municipality within the Brazilian governmental
Cultural System
organization and the recogniztion of the fundamentality of cultural
Municipal Cultural rights. Having presented the BNCS’s structuring, institutionalization
Systems and implementation proposal, the nature of the public policies which
will support the Municipal systems and the concept of federative
Federative autonomy autonomy were analysed. The main conclusion of this work is that
different arguments, within the different dimensions of the Municipality’s
autonomy, explain the various levels of development of the MCSs.

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mendado que o Estado brasileiro tomasse


Sistemas municipais de cultura: medidas para encorajar participação mais
caminhos possíveis para o exercício expressiva de cidadãos na vida cultural
dos direitos culturais? dos entes federados.

Essa preocupação também é en-


1. Introdução contrada no parecer à aprovação da Pro-
posta de Emenda Constitucional (PEC) nº
Patrice Meyer-Bisch (2011, p. 28- 34, de 04 de julho de 20124, da então rela-
30) apresenta três desafios filosóficos tora da Comissão de Constituição e Justi-
para os direitos culturais: o primeiro, de ça5, Marta Suplicy:
natureza antropológica (vinculação); o
segundo, de filosofia política (centralida- Tão importante quanto reconhecer os
de da cultura na política) e de filosofia do avanços dos últimos anos no âmbito
direito (subjetividade)2. O Sistema Na- da facilitação do acesso às fontes da
cional de Cultura (SNC), incorporado re- cultura é reconhecer que a atuação do
centemente à Constituição Federal, par- poder público tem sido limitada pela
te desse desafio, objeto da natureza de ausência de um sistema que articule
norma programática desse sistema, para as ações culturais dos três níveis de
desenvolver sistemas de cultura, em to- governo. Quando são analisadas as
dos os entes federados. Espera-se que, medidas implementadas – na forma
com a uniformização e a harmonização de planos, programas e projetos – nas
das estruturas institucionais, presentes três esferas de governo, percebe-se
na atual proposta do sistema (2011b, p. que iniciativas desarticuladas comu-
41), os Estados, o Distrito Federal e os mente resultam em perda de eficiência
Municípios avancem na promoção da ci- e desperdício de recursos (BRASIL,
dadania cultural, mas paira a dúvida se 2012, p. 2-3). [grifos nossos]
terão condições e meios de a garantir.
Se, como José Márcio Barros
Pouco antes da apresentação da (2009, p. 63) afirma, as políticas culturais
proposta do SNC, o Brasil chamou aten- precisam de territorialidade e setorialida-
ção do Conselho Econômico e Social das de – para atender à dimensão antropoló-
Nações Unidas (ECOSOC), no momento gia da cultura e aos modelos de organi-
em que o órgão solicitou dois relatórios a zação de circuitos produtivos culturais –,
respeito da implantação do Pacto Interna- parece que é no Município que elas mais
cional dos Direitos Econômicos Sociais poderão aproximar-se do cidadão. Nas
e Culturais3 no país (ONU, 2001; ONU, páginas seguintes, portanto, serão levan-
2003). Nas duas ocasiões, o conselho tadas questões atinentes ao desenvolvi-
emitiu preocupação em relação às desi- mento dos Sistemas Municipais de Cultu-
gualdades de acesso à cultura em Esta- ra (SMCs) e a promoção e a proteção dos
dos e Municípios. Por o sistema político no direitos culturais.
Brasil se organizar em função de pacto fe-
derativo, com três entes diferentes (União,
Estados e Distrito Federal e Municípios), 2. Direitos culturais, políticas públicas
chegou a afirmar que seria necessário de cultura e Sistemas Municipais de
listar as medidas adotadas por cada um Cultura
deles, mas que relatório semelhante seria
inviável (ONU, 2008, p. 9). No documento Em 1966, isto é, durante a Guer-
mais recente (ONU, 2009, p. 11), foi reco- ra Fria, a Assembleia-Geral das Nações

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Unidas adotou o Pacto Internacional de O Estado brasileiro, portanto,


Direitos Econômicos, Sociais e Cultu- deve pautar-se minimamente nesses
rais (PIDESC) como instrumento jurídi- documentos internacionais, na conse-
co, no âmbito da Carta Internacional de cução de ações para garantir o pleno
Direitos Humanos, para a promoção e exercício dos direitos culturais, uma
a proteção específica a esses direitos. vez que foram incorporados, na década
Já nesse documento, afirmava-se que o de 1990, ao chamado ordenamento ju-
Estado que aderisse à norma deveria to- rídico brasileiro.
mar medidas para o pleno exercício dos
direitos de: “a) participar da vida cultu- a. Novos paradigmas da Constitui-
ral; b) desfrutar o processo científico e ção da República Federativa do Brasil
suas aplicações; c) beneficiar-se da pro- (1988)
teção dos interesses morais e materiais
decorrentes de toda a produção cien- Decorrentes da abetura do pro-
tífica, literária ou artística de que seja cesso de redemocratização do Brasil,
autor” (art. 15, §§ 1º e 2º). O Brasil ade- a partir de 1985, e da realização da
riu ao PIDESC6 somente em 1992, num Constituinte de 1988; algumas trans-
contexto de retomada de compromissos formações da ordem jurídico-política
jurídico-políticos com a agenda interna- nacional parecem essenciais ao debate
cional de direitos humanos. do exercício dos direitos culturais nos
Municípios. A primeira e talvez mais ra-
O Comitê de Direitos Econômi- dical das inovações foi a inclusão do
cos, Sociais e Culturais (CDESC), cria- Município na lista dos entes federados
do como órgão do Sistema das Nações que conformam a federação brasileira.
Unidas, para monitorar o PIDESC, Essa mudança, por si, representa desa-
analisou a natureza das obrigações fio substancial de gestão pública, uma
decorrentes do art. 2º, § 1º do pacto. vez que os atuais de 5.570 Municípios
Adotou, em seguida, tipologia para as foram dotados de autonomia.
obrigações decorrentes do tratado. As
medidas a serem adotadas pelos Esta- Poder-se-ia deduzir que a atual
dos, para efetivar os direitos culturais, ordem jurídica do Brasil passou a re-
devem incluir: conhecer os poderes locais. Isso foi
materializado por meio da inclusão do
(a) respeitar os direitos econômi- Município entre os entes que têm com-
cos, sociais e culturais, por meio petências constitucionais. Pelo art. 23 da
não-intervenção no gozo dos direi- norma fundamental, o Município passou
tos culturais; a exercer competências comuns. Dalmo
(b) proteger os direitos econômi- Dallari (2006, p 67) lembra que há re-
cos, sociais e culturais, por meio ferência aos Estados somente quando
da prevenção de violação a esses se admite a legislação suplementar. Ele
direitos por terceiros; e lembra que tem sido consenso na dou-
(c) realizar (promover, facilitar e pro- trina que essa foi uma imperfeição da
ver) os direitos econômicos, sociais Constituição, já que o Município legisla-
e culturais, por meio medidas legis- rá sobre a matéria em relação à qual for
lativas, administrativas, orçamentá- exercer concretamente a competência,
rias, judiciais e outras adequadas à sobretudo porque, pelo art. 30, I, ao Mu-
plena fruição desses direitos (ONU– nicípio também foi conferida competên-
CESCR, 1991). [tradução livre; gri- cia para legislar sobre os assuntos de
fos nossos] interesse local.

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A segunda novidade refere-se à mais importantemente, o reconhecimen-


ampliação do reconhecimento históri- to da fundamentalidade implique a deter-
co dos direitos culturais. Em entrevista minação de garantias.
a Teixeira Coelho (2011, p. 19), Farida
Shaheed pondera que constituti desa- Cunha Filho (2011, p. 124), em
fio traçar linha divisória entre os direitos outra publicação, anota que “no Brasil é
culturais, por estarem intimamente inter- relativamente fácil reconhecer normati-
ligados aos demais direitos. Talvez, por vamante novos direitos; difícil mesmo é
esse motivo, seja curioso notar que os dar efetividade a eles”. Assim como no
direitos culturais não encontram tipolo- caso dos direitos, categorizar as garan-
gia ou rol expresso na Constituição Fe- tias seria mais importante para proteger
deral; pelo contrário, estão espalhados e promover os direitos culturais do que
ou sugeridos nela. José Afonso da Silva elaborar rol taxativo deles. Esse foi o
(2001, p. 51-52)7, Marilena Chauí (2006, caso de outras áreas dos serviços públi-
p. 70-71)8, Bernardo Machado (2007, cos: a chamada Carta Magna brasileira
6-12)9 e mais recentemente Eduardo também resultou na criação de sistemas
Pinto (2009, p. 99-103)10 propuseram de organização dos mais diferentes se-
enumeração dos direitos culturais, de- tores da sociedade nacional, os quais
correntes da Constituição Federal. são necessariamente apoiados no prin-
cípio da descentralização (CUNHA FI-
Francisco Humberto Cunha Fi- LHO, 2010, p. 13).
lho (2011) recomenda que, em vez de
os direitos culturais serem pensados A ideia do SNC, como se verá,
por meio de um rol, poderiam ser reco- provém desse impulso. Exemplos sig-
nhecidos em diferentes categorias. Eles nificativos, no que se refere à garantia
poderiam, em seguida, ser materializa- de direitos sociais, são o Sistema Úni-
dos e garantidos pelo Estado por meio co de Saúde (SUS), o Sistema Único de
de diferentes políticas culturais nestas Assistência Social (SUAS). O primeiro
categorias. Propõe, dessa forma, que modelo seria o mais significativo para o
o rol de direitos culturais exposto por SNC, especialmente no que diz respeito
José Afonso da Silva seja interpretado à descentralização de recursos, à demo-
por meio de categorias. cratização de políticas públicas e à mu-
nicipalização das ações11.
Esse jurista cearense já havia
anteriormente (CUNHA FILHO, 2004) Em busca de vincular as presen-
oferecido contribuição para o fortaleci- tes e futuras gestões ao compromisso
mento do debate a respeito dos direitos de promoção da cidadania cultural e de
culturais, ao pugnar pela interpretação conferir eficácia ao art. 215, CF, levou-
de que esses direitos são traduzidos -se conjunto de propostas legislativas ao
como direitos fundamentais nos arts. Congresso Nacional. Após anos de de-
215 e 216, da Constituição Federal. Os bate, algumas foram aprovadas, como
direitos culturais, com isso, traduziriam três emendas constitucionais – a EC nº
características de direitos fundamentais: 42, de 19 de dezembro de 2003 (que
seriam universais e absolutos, apresen- faculta aos Estados vincular receita tri-
tariam historicidade, seriam inalienáveis butária para o financiamento cultural); a
e indisponíveis, estariam constitucionali- EC nº 48, de 10 de agosto de 2005 (a
zados, vincular-se-iam aos três poderes qual prescreveu que a lei estabeleceria
e teriam aplicabilidade imediata (MEN- uma “política nacional cultural, de dura-
DES; COELHO; BRANCO, 2010). Talvez ção plurianual, visando ao desenvolvi-

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mento cultural do país e à integração das Municípios, estamos investindo na cria-


ações do Poder Público, de acordo com ção de um Sistema Nacional de Cultura”
prioridades”); e, mais recentemente, com (GIL, 2003b). Na apresentação da PEC
impacto mais expressivo para este traba- 416/2005, por isso, almejava-se a insti-
lho, a EC nº 71/2012 (que criou o SNC) – tuição de um sistema que incluía expres-
e diversas leis federais – a Lei nº 12.343, samente, além dos sistemas estaduais,
de 02 de dezembro de 2011 (que institui do Distrito Federal e municipais de cultu-
o PNC e o Sistema Nacional de Informa- ra, também instituições públicas e priva-
ções e Indicadores Culturais – SNIIC); a das e a articulação com outros sistemas
Lei 12.761, de 27 de dezembro de 2012 nacionais e políticas setoriais:
(que instituiu o Programa de Cultura do
Trabalhador e criou o Vale-Cultura) e da Art. o 216-A. O Sistema Nacional de
Lei nº 13.018, de 22 de julho de 2014 Cultura, organizado em regime de
(pela qual se instituiu a Política Nacional colaboração, de forma horizontal,
de Cultura Viva)12. aberta, descentralizada e participati-
va, compreende:
b. A proposta do SNC I - o Ministério da Cultura;
II - o Conselho Nacional da Cultura;
O documento “A imaginação a III - os sistemas de cultura dos Esta-
serviço do Brasil” (COLIGAÇÃO LULA dos, do Distrito Federal e dos Muni-
PRESIDENTE, 2002), programa de go- cípios, organizados de forma autôno-
verno do então candidato à presidência, ma e em regime de colaboração, nos
Luís Inácio Lula da Silva, é considera- termos da lei;
do o primeiro registro da proposta do IV - as instituições públicas e priva-
SNC. Discutido, elaborado e assinado das que planejam, promovem, fo-
por militantes do campo da cultura, o mentam, estimulam, financiam, de-
manifesto tinha como objetivo principal senvolvem e executam atividades
qualificar a gestão cultural por meio de culturais no território nacional, con-
seis propostas 13. O Sistema Nacional forme a lei;
de Políticas Culturais (SNPC) – deno- V - os subsistemas complementa-
minação inicialmente sugerida – foi in- res ao Sistema Nacional de Cultura
serido no terceiro objetivo, o da gestão como o Sistema de Museus, Sistema
democrática. de Bibliotecas, Sistema de Arquivos,
Sistema de Informações Culturais,
Duas características do chama- Sistema de Fomento e Incentivo à
do SNPC foram afirmadas naquele ma- Cultura, regulamentados em lei es-
nifesto: que o sistema seria maneira de pecífica.
garantir a efetivação de políticas públi- Parágrafo único. O Sistema Nacional
cas de cultura e que ele seria condição de Cultura estará articulado como os
necessária para a efetiva descentrali- demais sistemas nacionais ou políti-
zação da política nacional de cultura. A cas setoriais, em especial, da Edu-
primeira menção oficial ao SNC foi fei- cação, da Ciência e Tecnologia, do
ta em discurso do Ministro Gilberto Gil Turismo, do Esporte, da Saúde, da
ao Fórum dos Dirigentes Estaduais de Comunicação, dos Direitos Humanos
Cultura, como parte do desafio de arti- e do Meio Ambiente, conforme legis-
culação federativa para a cultura: “Para lação específica sobre a matéria.
responder ao desafio de transformar o
MinC num efetivo articulador da política Enquanto tramitava a PEC do
cultural, parceiro solidário dos Estados e SNC; a União, por meio do MinC, deu

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continuidade à estruturação de fato do O Sistema Nacional de Cultura, or-


SNC, por meio da assinatura inicialmen- ganizado em regime de colaboração,
te de Protocolos de Intenção de Adesão de forma descentralizada e participa-
ao SNC, posteriormente substitutídos tiva, institui um processo de gestão
por Acordos de Cooperação Federati- e promoção conjunta de políticas pú-
va – ACFs, cujo objeto é a o estabele- blicas de cultura, democráticas e per-
cimento de condições e a orientação à manentes, pactuadas entre os entes
instrumentação necessária para o de- da Federação e a sociedade, tendo
senvolvimento do SNC, com implanta- por objetivo promover o desenvolvi-
ção coordenada e conjunta de progra- mento humano, social e econômico
mas, projetos e ações, no âmbito de com pleno exercício dos direitos cul-
competência do Município, do Distrito turais. [grifos nossos]
Federal ou do Estado em questão (BRA-
SIL, 2013). Nesses instrumentos, refor- O art. 216-A, tema da EC nº
çou-se a ideia de fortalecimento de uma 71/2012, além de ter instituído o SNC,
rede de articulação: o SNC “é um siste- incluiu na Constrituição Federal a defi-
ma de articulação, gestão, informação e nição, o objetivo, os princípios, a estru-
promoção de políticas públicas de cul- tura e a forma de regulamentação dele.
tura com participação e controle social, Apresenta, por isso, conteúdo progra-
pactuado entre os entes federados”. A mático e está associado à elaboração
proposta levada ao Consellho Nacional de diretrizes, metas, programas pelo
de Política Cultural (CNPC), cuja ela- Estado, os quais devem ser cumpridos
boração fora mediada em oficinas, na I pelo Poder Público. Cunha Filho (2011,
Conferência Nacional de Cultura e em p. 123) alerta que o esse caráter pro-
outros espaços de debate, pelo MinC, gramático significa que os direitos cul-
sugeria que o SNC poderia ser definido turais podem ser realizados por meio de
pelas partes que o compõem, por como diferentes projetos políticos. Isso tam-
elas interagem e por quais propriedades bém significa que depende de atuação
lhe são peculiares: legislativa e política futura do poder pú-
blico, para que possa produzir os efeitos
concluiu-se que, em relação à sua essenciais planejados inicialmente pelo
composição, o SNC reúne a socie- constituinte (SILVA, 2001).
dade civil e os entes federativos da
República Brasileira – União, estado, Superados os esforços pela inclu-
municípios e Distrito Federal – com são do SNC e suas diretrizes gerais na
suas respectivas políticas e institui- Constituição Federal, restou determina-
ções culturais, incluindo os subsiste- do, no § 3º, que caberá à União regu-
mas setoriais já existentes e outros lamentar o sistema e pormenorizar as
que poderão vir a ser criados: de mu- regras que valerão a todos os integran-
seus, bibliotecas, arquivos, do patri- tes desse sistema. Como se trata de
mônio cultural, de informação e indi- matéria de cooperação federativa, a es-
cadores culturais, de financiamento pécie legislativa a ser editada deve ser
da cultura, etc. (BRASIL, 2011b, p. a da lei complementar. O Projeto de Lei
41) [grifos nossos] Complementar (PLC) foi elaborado pelo
MinC em 2012, com base no documen-
Quando da aprovação da referida to “Proposta de estruturação, institucio-
PEC, a redação final do caput do art. nalização e implementação do Sistema
216-A, CF passou a apresentar a se- Nacional de Cultura” (BRASIL, 2011b),
guinte redação: documento aprovado em 2007 pelo

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Conselho Nacional de Políticas Cultu- meiros – como no caso do SUS, prin-


rais (CNPC), resultado de discussões a cipal modelo inspirador – referem-se a
respeito do SNC com diferentes setores obrigações positivas do Estado, preve-
sociais e do trabalho de três Grupos de em comportamentos obrigatórios para
Trabalho, compostos por especialistas os entes federados e têm objeto defi-
convocados pela Secretaria de Articula- nido. Os outros propõem responsabili-
ção Institucional, órgão coordenador do dades diferentes para os variados ato-
SNC no MinC. res envolvidos. A síntese proposta pelo
jurista seria um equilíbrio entre os dois
Em 2013, o projeto foi devolvido modelos, dado que a cultura é campo
pela Casa Civil ao MinC. A reapresen- definido pela subjetividade, pela fluidez
tação dele foi objeto, no mesmo ano, e pela dinâmica dos processos que lhe
de uma das propostas mais votadas são inerentes; mas que necessita de
na III Conferência Nacional de Cultura um ponto estável, para desenvolver po-
(III CNC) 14. Em 2014, a nova minuta foi líticas públicas específicas.
reencaminhada à Casa Civil. Enquan-
to se aguarda a regulamentação do O núcleo estático do SNC, dessa
SNC, não há certeza se as diretrizes forma, seria a estrutura básica proposta
aprovadas pelo CNPC serão transfor- para os sistemas federal, estaduais, do
madas em lei. Distrito Federal e municipais de cultura,
compostos de nove elementos (art. 216-
A, § 2º, CF). Devem conformar os siste-
3. O lugar dos SMCs na proposta do mas de cultura no Brasil: órgão gestor,
SNC o chamado CPF da cultura (conselho
de políticas culturais, plano de cultura
Uma das preocupações com o e sistema de financiamento à cultura),
projeto do SNC é a que ele poderia tor- conferência de cultura, sistemas seto-
nar-se uma espécie de camisa de força riais, sistema de informações e indica-
para a cultura brasileira. Definir uma ma- dores culturais, programa de formação
cropolítica pela qual se garanta o pleno na área da cultura e comissões integes-
exercício dos direitos culturais, no espa- tores. Identificam-se, portanto, meca-
ço territorial de um país continental seria nismos de gestão de políticas públicas
temerário e não se diferenciaria da tradi- de cultura, instâncias de articulação e
ção centralizadora da história das políti- participação social, subsistemas e, dife-
cas culturais brasileiras. Poderia signifi- rentemente de outros sistemas, progra-
car, se os devidos cuidados não fossem ma de formação.
tomados, a elaboração de normas gerais
para os sistemas de cultura, cuja aplica- O entorno dinâmico desses sis-
ção resultaria na homogeneização da temas se constituiria da autonomia de
diversidade cultural ou mesmo na prima- cada ente para organizar a respectiva
zia de expressões culturais específicas, polítical cultural. Isso se realizaria pe-
em detrimento de outras. las interações entre os diferentes níveis
da federação e destes com os diversos
A forma, por isso, como Cunha setores da sociedade brasileira e pe-
Filho (2010, p. 136-137) traduziu o es- las possibilidades de descentralização
pírito do SNC parece não se eximir des- federativa. Os processos resultantes
sa preocupação: o SNC deve constituir das inter-relações entre o núcleo está-
sistema misto, com características de tico com o entorno dinâmico do sistema
sistemas estáticos e dinâmicos. Os pri- constituiriam a qualidade distintiva fun-

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damental dele em relação às experiên- cesso geral de implantação do SNC.


cias internacionais 15. (BRASIL, 2011a, p. 32).

Como a organização dos siste- Se a regulamentação do SNC


mas de cultura é de competência con- acompanhar esse entendimento, ao Mu-
corrente (arts. 24, IX e 216-A, § 3º, CF), nicípio caberá a estruturação e a implan-
à União cabe elaborar as normas gerais, tação de cinco componentes, referidos
e, a cada Município, instituir o respec- como obrigatórios: além do órgão gestor,
tivo sistema, por meio de leis próprias, duas instâncias de articulação, pactua-
respeitados os ditames constitucionais. ção e deliberação (conferência munici-
Ao serem retomados os esforços de ar- pal de cultura e conselho municipal de
ticulação, para assinatura de acordos política cultural) e dois instrumentos de
de cooperação com Estados e Municí- gestão (plano municipal de cultura e or-
pios, parece que o MinC evidenciou a çamento municipal da cultura)16. No que
necessidade de oferecer orientações se refere ao prazo, para a instituição
específicas a cada tipo de ente federa- dos SMCs, os Municípios que aderiram
do. Para atender à demanda recebida, ao ACFs, pactuaram que realizariam 02
guias de orientações ao Estados e ao anos da adesão oficial ao SNC.
Municípios foram redigidos pela equi-
pe do MinC. Na última atualização do
“Guia de orientações para os Municí- 4. Dimensões da autonomia municipal
pios: perguntas e respostas”, antes de no desenvolvimento dos SMCs
serem respondidas dúvidas frequentes
recebidas pelos gestores municipais, Ainda que os Municípios tenham
afirma-se que: inicialmente de estruturar cinco compo-
nentes, parece fundamental considerar
É importante que todos os compo- que serão necessários esforços de na-
nentes do Sistema Nacional de Cul- turezas diversas, para que consigam
tura estejam presentes nas esferas criar os respectivos SMCs e torná-los
federal, estadual, municipal e distri- efetivos. Dada, além disso, a discrepân-
tal (à exceção das Comissões Inter- cia entre os desafios enfrentados pelas
gestores, que fazem parte apenas gestões dos cerca de 5.570 Municípios
das instâncias federal e estadual). brasileiros, parece razoável afirmar que
No entanto, nem todos os municí- não apenas ações da Administração Pú-
pios têm condições materiais, téc- blica Municipal serão necessárias para
nicas e políticas de implantar todos promover e proteger os direitos cultu-
os componentes do SNC. Esse é o rais dos habitantes de cada localidade,
caso do Sistema de Informações e mas verdadeiro conjunto de políticas
Indicadores Culturais, dos Sistemas públicas de cultura.
Setoriais e do Programa de For-
mação na Área da Cultura, que os Numa discussão a respeito de
pequenos e médios municípios, em SMCs, parece relevante compreender
geral, não têm condições ou neces- as especificidades das políticas públi-
sidade de instituir imediamente nos cas de cultura e quais as discussões
seus Sistemas Municipais de Cultu- correntes a respeito da contribuição da
ra. Entretanto, podem e devem in- cultura para o desenvolvimento huma-
teragir com esses componentes nas no. Canclini (2001, p. 65) arrazoa que as
esferas estaduais e nacional, a fim políticas culturais – sem fazer distinção
de se manterem integrados ao pro- entre públicas ou privadas - resumem

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um conjunto de intervenções realizadas ca Federativa do Brasil compreende a


pelo Estado, por instituições civis ou por União, os Estados, o Distrito Federal e
grupos comunitários organizados, com a os Municípios, todos autônomos, nos
finalidade de “orientar o desenvolvimen- termos desta Constituição”. Além desse
to simbólico, satisfazer as necessidades caso, ele pode ser observado ainda nos
culturais da população e obter consenso arts. 29 e 34, VII, c.
para um tipo de ordem ou de transforma-
ção social”. Já Botelho (2006, p. 50-51) É curioso observar que a “autono-
explica que política pública para a cultu- mia dos entes federados e das institui-
ra não pode prescindir de ser formulada ções da sociedade civil” também cons-
com base em diagnóstico da realidade titui princípio do SNC, inscrito no art.
e em hierarquia de prioridades. Pare- 216-A, § 1º, VIII CF, pela EC nº 71/2014.
ce fundamental, portanto, que o gestor, Foi uma das poucas vezes que o prin-
dessa maneira compreenda ou se sensi- cípio federalista foi reiterado no texto
bilize dessa dimensão. constitucional. Interpretação de acordo
com a vontade presumida do legislador
Recorre-se ainda a Bucci (2006, indicaria a finalidade de garantir a parti-
p. 39), para quem política pública é, na cipação do Município no desenvolvimen-
realidade, um programa de ação gover- to do SNC. Com o intuito de investigar as
namental, resultado de variados pro- repercussões desse princípio para o de-
cessos juridicamente regulados, que senvolvimento dos SMCs, detalhar-se-á
usam todos os meios disponíveis para o o conceito de autonomia do Município,
Estado alcançar objetivos socialmente por meio de quatro dimensões (DALLA-
relevantes e politicamente determina- RI, 2010; MEIRELES, 2006): auto-orga-
dos. Ele não seria composto apenas de nização, autogoverno, autolegislação e
atos de gestão, mas de todas as etapas autoadministração.
do processo eleitoral, do processo de
planejamento, do processo de governo, a. Auto-organização
do processo orçamentário, do proces-
so legislativo, do processo administra- A primeira, da autoorganização,
tivo e do processo judicial. Rua (1999, presente no caput art. 29, CF, traduz-se
p. 231) acrescenta que a alocação de na autodeterminação do Município em
bens, recursos e valores públicos acon- estruturar o próprio funcionamento:
tece entre os diversos atores políticos
envolvidos e que o caráter público des- O Município reger-se-á por lei or-
sas políticas deriva principalmente da gânica, votada em dois turnos, com
autoridade soberana do poder público, o interstício mínimo de dez dias, e
a qual as torna imperativas. aprovada por dois terços dos mem-
bros da Câmara Municipal, que a
Ao se tratar, em decorrência dis- promulgará, atendidos os princí-
so, de direitos e políticas culturais e pios estabelecidos nesta Constitui-
SMCs, parece impossível deixar de pro- ção, na Constituição do respectivo
blematizar uma das principais caracte- Estado (...)
rísticas dos entes federados brasileiros:
a autonomia. Esse termo é encontrado A Lei Orgânica do Município
em poucos dispositivos constitucionais. (LOM) – equivalente a uma constituição
O primeiro e talvez o mais fundamental municipal, deve ser elaborada pela Câ-
deles é o caput do art. 18: “a organiza- mara Municipal, tem procedimento espe-
ção político-administrativa da Repúbli- cífico e qualificado para ser aprovada e

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Ano 4, número 7, semestral, setembro 2014

institui regras sobre atribuições dos po- locais que governarão o Município em
deres Legislativo e Executivo municipal, questão. No art. 29, CF, também estão
competências e procedimentos adminis- dispostas as regras para a escolha dos
trativos, entre outros temas relevantes. representantes do Poder Executivo (pre-
É na LOM que geralmente é prevista a feito e vice-prefeito) e do Poder Legisla-
competência, por exemplo, para criar tivo (vereadores) municipais. Decorrem
e extinguir os órgãos da Administração dessas escolhas funções específicas:
Pública Direta, como órgãos gestores as funções administrativa e de governo
de cultura. As atribuições, além disso, cabem àquele, já as funções legislativa,
desses órgãos, não poderão ir de en- deliberativa, fiscalizadora e julgadora, a
contro às determinações da LOM. Se, este último Poder.
por um lado, a Constituição Federal con-
feriu autonomia para os Municípios se De acordo com o art. 29, IV, a, b
organizarem, e agora poderão instituir e c, CF, a quantidade de vereadores a
os respectivos SMCs, por outro, a gran- serem eleitos é determinada de acordo
de quantidade de Municípios pequenos com um sistema de representação pro-
tornou-se dependente de recursos do porcional e partidária, com relação à
Fundo de Participação dos Municípios quantidade de habitantes: entre nove e
e seus administradores geralmente afir- vinte e um vereadores, nos Municípios
mam não disporem de condições para com até um milhão de habitantes; entre
compor secretaria exclusiva de ou orça- trinta e três e quarenta e um, nos Muni-
mento para a cultura. cípios com até cinco milhões de habitan-
tes; e entre quarenta e dois e o cinqüen-
Constitui a Meta 37 do Plano Na- ta e cinco, nos Municípios com mais de
cional de Cultura (PNC) “100% das Uni- cinco milhões de habitantes. Como é
dades da Federação (UFs) e 20% dos nesta dimensão que se espelha a capa-
municípios, sendo 100% das capitais e cidade de os representantes municipais
100% dos municípios com mais de 500 realizarem escolhas políticas, as deci-
mil habitantes, com secretarias exclu- sões resultantes dela terão impacto dire-
sivas de cultura instaladas” (BRASIL, to nos serviços e nas políticas públicas.
2012). Caso a transformação do respec- Conhecer as propostas dos parlamenta-
tivo órgão gestor numa secretaria ex- res para o setor cultural e acompanhar
clusiva de cultura (caso esta ainda não as atividades legislativas poderá auxiliar
exista) seja do interesse dos gestores a compreender as razões para que as
municipais, será necessário ter a LOM políticas culturais locais sejam perenes
como base e coordenar ações com a ou circunstanciais naquele espaço.
Câmara Municipal. Torna-se fundamen-
tal para o gestor municipal, portanto, ter c. Autolegislação
ciência de que as decisões políticas tra-
duzidas nesses e em outros dispositivos A terceira faceta da autonomia
terão implicação direta na forma como o municipal, a da autolegislação, repre-
SMC será estruturado. senta o poder normativo do Município,
em sentido estrito. Se o princípio da le-
b. Autogoverno galidade (art. 37, caput; e art. 5º, II, CF)
é um dos corolários do direito adminis-
A segunda dimensão da autono- trativo e tem impacto direto em todos os
mia municipal, a de autogoverno, refere- agentes públicos, essa dimensão torna-
-se à existência de mecanismos especí- -se estratégica, porque os limites da le-
ficos para a escolha dos representantes galidade naquele Município serão defi-

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55
pragMATIZES - Revista Latino Americana de Estudos em Cultura

nidos pela Câmara e, em alguns casos, Orçamentárias (LDO) e a Lei Orçamen-


pela Prefeitura e respectivos órgãos. tária Anual (LOA). As relações intergo-
Essa categoria apresenta implicação vernamentais propostas pelo SNC, a
para a cultura, na medida em que o Mu- descentralização de recursos e os tão
nicípio tem competência, por exemplo, aguardados repasses de recursos re-
de “promover a proteção do patrimônio caem nessa dimensão, uma vez que a
histórico-cultural local, observada a le- autonomia financeira as permeia.
gislação e a ação fiscalizadora federal e
estadual” (art. 30, IX, CF). Em outras palavras, se os SMCs
forem criados – ainda que de maneira
Com a EC nº 71/2012, foi acres- estratégica, participativa e transparen-
cida a competência de os Municípios te – sem inclusão de diretrizes para as
instituírem os respectivos sistemas de políticas públicas de cultura, nesses me-
cultura, em leis próprias. Dependerão canismos, os esforços envidados para a
do voto do Poder Legislativo Municipal estruturação dos cinco componentes bá-
não só a estrutura e os componentes do sicos dos SMCs terão grandes chances
respectivo SMC, mas também a valida- de serem esquecidos por nova gestão
ção dos planos municipais de cultura, municipal. As políticas públicas munici-
com validade de dez anos, e eventuais pais para a cultura, sobretudo, por meio
reformas na estrutura do SMC. A Pre- dos planos municipais de cultura, podem
feitura ou o órgão gestor de cultura, ser fortalecidas, se integradas ao plane-
por outro lado, serão responsáveis por jamento orçamentário e fiscal.
aprovar o regimento interno do conselho
municipal de política cultural, convocar
comissões organizadoras de conferên- 5. Em busca de conclusões
cias (inter)municipais de cultura, entre
outras normas. Ao parodiar Norberto BOBBIO
(1992), pode-se dizer que a realização
d. Autoadministração dos direitos culturais é desafio até mes-
mo à Constituição mais evoluída e põe
A autonomia administrativa con- em crise até mesmo o mais perfeito me-
cerne à organização dos serviços pú- canismo de garantia jurídica. A institucio-
blicos municipais. Ela tem que ver com nalilzação do SNC, por meio da referida
a vinculação ou a discricionariedade emenda constitucional e das adesões dos
(oportunidade e conveniência) do gestor entes federados, tem o condão de elevar
municipal. A decisão, por instância, de o nível de seguranca jurídica em relação
aderir ou não ao SNC, cabe estritamente às políticas culturais em todos os recan-
ao representante do Município, chefe do tos do país. A consolidação dele tem-se
Poder Executivo local. dado por meio de processo gradual de
reinvindicação da plena realização dos
Outro aspecto ligado a esta di- direitos culturais, da militância cultural,
mensão é a autonomia financeira e como acontece em outros sistemas de
refere-se ao modelo vigente de plane- descentralização de políticas sociais.
jamento orçamentário-financeiro (art.
165, CF), pelo qual se criaram instru- O SNC constitui projeto estrutu-
mentos específicos e exclusivos de rante para organizar as políticas públi-
planejamento orçamentário e fiscal, de cas de cultura no Brasil, cujos elementos
qualquer dos entes federados: o Pla- deverão em tese fornecer diagnóstico e
no Plurianual (PPA), a Lei de Diretrizes bases para que ele se fortaleça e se re-

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Ano 4, número 7, semestral, setembro 2014

troalimente. Nesse contexto, parece que BOBBIO, Norberto. A era dos direitos. Trad.
questões sobre qual é o papel do Estado Carlos Nelson Coutinho. Rio de Janeiro,
no setor cultural; qual é o papel do MinC, Campus: 1992.
no desenvolvimento do SNC e no apoio BOTELHO, Isaura. Para uma discussão so-
aos SMCs; e que cuidados devem ser bre política e gestão cultural. In: CALABRE,
tomados para que o núcleo estático não Lia (Org.). Oficinas do Sistema Nacional
prescinda do entorno dinâmico dos SMCs de Cultura. Brasília: Ministério da Cultura,
estarão sempre em debate. 2006. p. 45-60.

BRASIL. Constituição da República Federati-


O protagonismo e autonomia reco- va do Brasil de 1988. Disponível em: <http://
nhecidos e propalados desde 1988 apre- www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/
sentam duas faces: ao mesmo tempo em constituicao.htm>. Acesso em jun. 2012.
que garante o direito, aos governantes lo-
cais, de estabelecerem políticas públicas BRASIL. MINISTÉRIO DA CULTURA. Minuta
de cultura, pode por em risco a missão de Acordo de Cooperação Federativa que en-
tre si firmam a União, por intermédio do Mi-
constitucional do Estado Brasileiro de ga- nistério da Cultura – MINC e o Município de
rantir os direitos culturais. Outra questão / , com vistas ao desenvolvimento do Sistema
que merece atenção é sobre quais instru- Nacional de Cultura. Brasília, Secretaria de
mentos a sociedade civil tem para garan- Articulação Institucional, 2013.
tir o funcionamento dos Sistemas Munici-
pais de Cultura instituídos. ______. As metas do Plano Nacional de Cul-
tura. Brasília: Ministério da Cultura, 2012.
As dimensões da autonomia prin- ______. Guia de orientações para os municí-
cipal apresentadas podem evidenciar, pios: perguntas e respostas. Brasília, Ministé-
em conjunto ou isoladamente, entraves rio da Cultura, 2011a.
ou potencialidades ao desenvolvimento
dos SMCs. Se, além disso, os Municí- ______. Plano Nacional de Cultura: diretrizes
gerais. 2ª ed. Texto atualizado com a revisão
pios têm liberdade para se administra- do Conselho Nacional de Política Cultural
rem, seus gestores, muitas vezes, não (CNPC Brasília: Ministério da Cultura, 2008.
estão qualificados para a autogestão Disponível em: <http://www.cultura.gov.br/site/
política da cultura. Se, por fim, conse- wp-content/uploads/2008/10/pnc_2_compac-
guirem incluir na agenda governamental to.pdf>. Acesso em: ago. 2012.
o tema da política cultural e lhe derem
______. Proposta de estruturação, institu-
prioridade, mas não envolverem a socie- cionalização e implementação do Sistema
dade civil e promoverem o controle so- Nacional de Cultura. Brasília: MinC, 2011b.
cial, os SMCs dificilmente promoverão a Disponível em: <http://blogs.cultura.gov.br/
cidadania cultural pretendida. snc/files/2012/02/livro11-602-para-aprovacao.
pdf>. Acesso em: 02 abr 2012.

______. Resultado da Plenária Final da III


CNC - 01/12/2013. Disponível em: <http://
www.cultura.gov.br/3cnc>. Acesso em 20
Bibliografia mar. 2014.

BARROS, José Márcio Barros. Processos BRASIL. SENADO FEDERAL. Parecer da


(trans)formativos e a gestão da diversidade Comissão de Constituição, Justiça e Cidada-
cultural. In: CALABRE, Lia (org.). Políticas nia, sobre a Proposta de Emenda à Consti-
culturais: reflexões sobre gestão, processos tuição nº 34, de 2012 (PEC nº 416, de 2005,
participativos e desenvolvimento. São Paulo: na origem), primeiro signatário o Deputado
Itaú Cultural; Rio de Janeiro: Fundação Casa Paulo Pimenta, que acrescenta o art. 216-A à
de Rui Barbosa, 2009. Constituição Federal para instituir o Sistema

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pragMATIZES - Revista Latino Americana de Estudos em Cultura

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58
Ano 4, número 7, semestral, setembro 2014

Princípios culturais na Constituição Federal


de 1988 (Mestrado em Direito). Programa de 1 Contatos, respectivamente: felais@gmail.com; vania-
Pós-Graduação em Direito Constitucional. brayner2012@gmail.com; crisvale.marques@gmail.com
Universidade de Fortaleza. Fortaleza, 2009.
RUA, Maria das Graças. Análisede políticas 2 O primeiro desafio refere-se ao processo de realiza-
públicas: conceitos básicos. In: RUA, Ma- ção pessoal, por meio da vinculação entre as pessoas
por intermédio de obras, como o próprio corpo e a pró-
ria das Graças; CARVALHO, Maria Isabel
pria identidade, além de coisas, gestos, ambientes, ins-
Valladão de Carvalho (Orgs.). O estudo da tituições etc. O segundo demonstraria a necessidade
política: estudos selecionados. Paralelo 15, de renunciar à ilusão de que a igualdade se faz, apesar
1999. p. 231-261. das diferenças culturais; pelo contrário, os conceitos
de equidade e de universalidade devem ser pensados
SILVA, José Afonso da. Aplicabilidade das conjuntamente. O terceiro, relativo ao campo da filoso-
Normas Constitucionais. 5.ed. São Paulo: Ma- fia, referir-se-ia à vinculação dos direitos à subjetivida-
lheiros Editores, 2001. de das expressões culturais.

______. Ordenação constitucional da cultura. 3 Apesar de ter entrado em vigor, no plano internacio-
São Paulo: Malheiros, 2001. nal, em 1976; O PIDESC foi incorporado ao ordena-
mento jurídico brasileiro por meio do Decreto nº 591,
de 6 de julho de 1992.
ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS –
ONU. COMMITTEE ON ECONOMIC, SO- 4 Na origem (Câmara dos Deputados), a numeração da
CIAL AND CULTURAL RIGHTS – CESCR. proposta – PEC nº 416, de 16 de junho de 2005 – apre-
General Comment No. 3: The Nature of Sta- senta a referência pela qual ela é reconhecida no setor
tes Parties’ Obligations (Art. 2, Para. 1, of the cultural. Após validada como norma jurídica, recebeu a
Covenant). Adotado na 5a Sessão do Comi- numeração de Emenda Constitucional (EC) nº 71, de 29
tê de Direitos Econômicos, Sociais e Cultu- de novembro de 2012.
rais, em 14 de dezembro 1990 (Documen-
to E/1991/23). Disponível em: <http://www. 5 No dia seguinte à aprovação da referida PEC, a se-
unhcr.org/refworld/docid/4538838e10.html>. nadora seria nomeada Ministra de Estado da Cultura.
Acesso em 24 nov. 2012.
6 O PIDESC foi incorporado ao ordenamento jurídico
por meio do Decreto nº 591 - de 6 de julho de 1992.
ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS
– ONU. ECONOMIC AND SOCIAL COUN- 7 De acordo com José Afonso da Silva, os direitos
CIL – ECOSOC. Implementation of the In- culturais no Brasil, em decorrência dos art. 215 e 216,
ternational Covenant on Economic, So- CF, seriam: a liberdade de expressão da atividade inte-
cial and Cultural Rights: initial reports lectual, artística, científica; o direito de criação cultural;
submitted by States parties under articles o direito de acesso às fontes da cultural nacional; o di-
16 and 17 of the Covenant. Adendo. Brasil. reito de difusão das manifestações culturais; o direito
E/1990/5/Add.53. 20 nov. 2001. Disponí- de proteção às manifestações das culturais populares,
vel em: <http://daccess-dds-ny.un.org/doc/ indígenas e afro-brasileiras e de outros grupos partici-
pantes do processo civilizatório nacional; o direito-de-
UNDOC/GEN/G01/461/56/PDF/G0146156.
ver estatal de formação do patrimônio cultural brasileiro
pdf?OpenElement>. Aceso em 24 nov. 2012. e de proteção dos bens de cultura.

ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS – 8 Em decorrência da experiência da estudiosa à frente


ONU. HUMAN RIGHTS INSTRUMENTS. Core da Secretaria Municpal de Cultura de São Paulo, enten-
document forming part of the reports of states de os direitos culturais como o direito de produzir cultura,
parties Brazil. HRI/CORE/1/Add.53/Rev.1. 19 o direito de participar das decisões quanto ao fazer cul-
nov. 2003. Disponível em: <http://daccess-dds- tural; o direito de usufruir dos bens da cultura; o direito
-ny.un.org/doc/UNDOC/GEN/G03/452/62/ de estar informado sobre os serviços culturais e sobre
PDF/G0345262.pdf?OpenElement>. Acesso a possibilidade de deles participar ou usufruir; o direito
em 24 nov. 2012. à formação cultural e artística gratuita; o direito à expe-
rimentação e ao novo nas artes e nas humanidades; o
direito a espaços para reflexão, debate e crítica; o direito
SILVA, Adélia C. Zimbrão da. Sistemas Nacio- à informação e à comunicação.
nais na Área de Gestão Pública: a Construção
do Sistema Nacional de Cultura. In: II Con- 9 Bernardo Machado sugere que os direitos culturais
gresso CONSAD de Gestão Pública, 2009, sejam pensados com base em diferentes entendimentos
Brasília. II Congresso CONSAD de Gestão a respeito de o que é a pessoa humana: se entendida
Pública, 2009. com indivíduo, reconhecer-se-iam o direito autoral e o

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59
pragMATIZES - Revista Latino Americana de Estudos em Cultura

direito à livre participação na vida cultural; se entendida to do Ministério da Cultura (MinC) a esse processo; c)
como a reunião dos povos, haveria o direito à identidade oferecimento, por parte do MinC, de suporte técnico e
cultural e o direito-dever de cooperação cultural interna- financeiro aos Estados e Municípios; d) o repasse de
cional. Finalmente, nas palavras dele: “A partir das lutas recursos do Fundo Nacional de Cultura para os fundos
políticas e sociais que têm como marco o ano de 1968, estaduais, distrital e municipais, mediante o cumpri-
os direitos culturais evoluíram de tal forma que é possí- mento das exigências previstas no Projeto de Lei Com-
vel falar na emergência de um novo direito, ao qual de- plementar do Sistema Nacional de Cultura; e) criar,
nominamos direito à subjetividade ou à personalidade” garantir e implantar o sistema setorial das culturas Indí-
(MACHADO, 2007, p. 10). genas” (BRASIL, 2014).

10 Em dissertação de mestrado de 2009, Eduardo Pinto 15 Na maioria dos países ibero-americanos, os siste-
sugere elenco de direitos fundamentais culturais, com mas de cultura assemelham-se ao que se chama no
base no texto da Constituição Federal: direitos de identi- Brasil de Sistema MinC ou simplesmente a reunião
dade, direitos de acesso, direitos de participação ativa e dos órgãos da Administração Pública Federal Direta,
direitos de diversidade. Indireta e Fundacional. Para citar dois exemplos, (1)
na Colômbia, o Sistema Nacional de Cultura é “Con-
11 No primeiro pronunciamento à Comissão de Edu- junto de instancias y procesos de desarrollo institu-
cação e Cultura do Congresso Nacional, o então Mi- cional, planificación y información articulados entre
nistro Gil fez referência à falência desses sistemas no sí, que posibilitan el desarrollo cultural y el acceso de
Brasil, não sem reconhecer que a situação da cultura la comunidad a los bienes y servicios culturales se-
era ainda mais calamitosa (GIL, 2003a). Como lembra. gún los principios de descentralización, participación
ZIMBRÃO DA SILVA (2009), a despeito das críticas a y autonomía” (BRAVO, 2008, p. 133). (2) No México,
esses sitemas, nenhuma delas sugere a desmontagem em 1994 o Sistema de Información Cultural reúne “la
do SUS ou do SUAS. infraestructura cultural de México (teatros, museos,
casas de cultura, centros culturales, escuelas de arte
12 Outras propostas encontram-se em tramitação no y auditorios) los programas de estímulos a la creaci-
Poder Legislativo Federal, como o Projeto de Lei (PL) nº ón, las revistas culturales, los festivales, medios de
1.139/2007 (cujo objeto é a reforma da Lei Rouanet e a comunicación y grupos artísticos subsidiados” (JIMÉ-
instituição do Programa Nacional de Fomento e Incenti- NEZ, 2008, p. 219). A despeito de haver iniciativas de
vo à Cultura – Procultura), que tramita conjuntamente ao institucionalização da política, não parece haver siste-
PL nº 6.722/2010; a PEC 49/2007, apensada à PEC nº matização dos componentes: nos países ibero-ameri-
236/2008, (cujo objeto é a inclusão do direito à cultura no canos, a elaboração de planos para a cultura, no nível
rol dos direitos sociais do art. 6º, CF); o PL 1.786/2011, federal, aparece como tendência para orientação dos
apensado ao PL 1.176/2011 (cujo objeto é a instituição respectivos sistemas federais de cultura. No México,
da Política Nacional Griô ou de Programa de Proteção acordos de cooperação federativa também foram ado-
e Promoção dos Mestres e Mestras dos Saberes e Fa- tados, assim como sistema de indicadores culturais.
zeres das Culturas Populares); e mais recentemente, Já Portugal apresenta redes setoriais, a exemplo dos
a PEC nº 421/2014, que substituiu a PEC nº 150/2003 sistemas de biblioteca, de patrimônio e de museus
(cujos objeto se referem à vinculação da receita orça- no Brasil. Na Argentina, o Plan Federal de Cultura,
mentária da União, dos Estados, do Distrito Federal e do em 1990, já propugnava por organização federativa
Municípios ao desenvolvimento cultural); entre outras. que enfatizasse o papel das províncias, análogas aos
Estados no Brasil. O atual Plan Estratégico Nacional
13 (1) Cultura como política de Estado, (2) Economia de Cultura sublinha a construção de um Sistema Na-
da cultura, (3) Gestão democrática, (4) Direito à me- cional de Información Cultural. (ALBINO; BAYARDO,
mória, (5) Cultura e comunicação e (6) Transversalida- 2008, pp. 31, 133, 219).
des da política cultural.
16 É curioso notar que, entre as propostas aprovadas
14 Mais precisamente, foi a 3ª proposta mais vota- pela III CNC, encontra-se sugestão de “criar e imple-
da no Eixo I (Implementação do Sistema Nacional de mentar planos setoriais de cultura, nos estados, distri-
Cultura): “aprovar com urgência no Congresso Nacio- tos e municípios instituídos no âmbito dos Conselhos
nal Projeto de Lei Complementar (PLC) 383/2013 de Estaduais de seus respectivos conselhos de Políticas
regulamentação do SNC, na forma de um substitutivo, Culturais, a fim de fortalecer as especificidades locais”
com o texto do projeto encaminhado pelo MINC à Casa (BRASIL, 2014). Ainda que os sistemas setoriais não
Civil em 19/12/2012, resultado de um intenso e profun- sejam obrigatórios para os Municípios, passaram a re-
do trabalho técnico e político com a participação dos presentar demanda social.
três entes federados e da sociedade civil, e apoiar a
implantação e o pleno funcionamento dos seus compo-
nentes, em todos os níveis da Federação, consideran-
do as seguintes questões: a) comissões ou grupos de
trabalho formados por sociedade civil e poder público
para monitorar e auxiliar nessa implantação e difundir
suas informações; b) qualificação do acompanhamen-

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