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Herberto Helder

POEMAS
CANHOTOS

Porto
Editora
Fotografia de Alfredo Cunha, Fevereiro de 2015.
a amada nas altas montanhas
o amador ao rés das águas

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coisa amada nas montanhas
amador ao rés das águas
por mais que subam as águas
e arrebatem as montanhas
e as engulam inteiras
haverá coroas de pedra
sustentadas pela espuma
a coisa amada é coroa
pesando em minha cabeça
assim os ferros nas águas
como entram na carne branda
os espigões da memória
se a coisa amada me lembra
e tanto me dói na memória
e através da minha dor
se torna tão poderosa
coisa amada nas montanhas

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esfolo-te vivo, vadio, se me trazes outra vez
versos desses,
assim tão às ordens de um modelo civil:
adorar a ginástica dos exemplos, ser diligente,
montar o seu negócio das tendências,
das trocas baldrocas das dedicatórias sempre óbvias,
assim tão presto prestáveis,
fortes não da sua profundeza e verdade primeiras
mas daquilo que convém à digestão,
ao optimismo ou pessimismo do mundo,
regras da realidade,
?mas o que é a realidade? -
perguntava o mais extremo de todos,
...

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¿que interessa fazer a barba se é tudo para cremar,
desde as unhas dos pés aos espelhos soberanos -
Leonardo, Camões, Newton, Amadeus Mozart,
et coetera
que interessa?
uma mulher bem temperada -
disse o cozinheiro antropófago,
mãos de assasino sobre as teclas, e algo de muito
puro se criava
- ó mundo, deixa-te entender um pouco
desde nascer a morrer que não entendo nada,
só a música que me embebeda,
mas quero ir mais depressa,
nada de estelas de pedra aproveitadas
de um pequeno meteoro
[áspero como o teu nome,
forte como o teu emprego na morte,

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e súbito como esse mesmo nome:
ou então nome que nasce:
poalha cega que lentamente assenta no chão raso,
nome contrário

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em boa verdade houve tempo em que tive uma
ou duas artes poéticas,
agora não tenho nada:
sentome,
abro um caderno, pego numa esferográfica
e traço meia dúzia de linhas:
às vezes apenas duas ou três linhas;
outras, vinte ou trinta:
houve momentos em que fui apanhado neste jogo e cheguei
a encher umas quantas páginas do caderno
aconteceu também por vezes que o papel pareceu
estremecer,
mas o mundo, não: nunca senti que o mundo estremecesse
sob as minhas palavras escritas,
o que já senti, e é de facto um pouco estranho, foi isto:
enquanto escrevia, o mundo parecia deslocarse,
e quando eu chegava ao fim das linhas escritas,

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sabia que estava tudo feito,
sentia que deveria morrer
mas, como se vê,
nunca o mais simples atingiu em mim a
sua própria profundidade

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escrever poemas não é boa maneira de atordoar os
tempos do verbo,
não é o mesmo que meter a cabeça num buraco abissínio,
nem perder algures uma perna/ e lembrarme
depois de perder ainda a outra:
ninguém ganha assim uma barra de ouro,
ninguém glorifica o corpo queimandoo
com barras de ouro,
ninguém transforma assim uma chaga a beleza humana,
tórax e membros e a cabeça por entre a espuma:
e como só de pensálo
o corpo avança! escrever,
deixar de escrever,
escrever ou não escrever não é acabar assim tão depressa
quanto se pensava
um poema ou dois ou cem não é nunca até ao fim,
escrever poemas não é apenas vou ali e já volto

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à morte do costume:
colinas tão próximas como se guardassem
os nossos próprios olhos,
e logo depois levaas
o vento para adjectivos longínquos,
tudo tão prodigioso que se não entende nada:
uma rosa é uma rosa é uma rosa disse
ela em inglês
(há quantos anos li isso!)
(há quantos anos fiquei bêbedo desse talhão de roseiras!)
a rose is a rose is a rose et coetera
mudoume
a vida?
oh faminta ciência da paciência!
coisas bem menores mudaram para sempre a minha vida,
e então porque não a mudaria uma rosa
compactamente múltipla?
morrer por uma rosa é que fia mais fino:
que fabuloso fio em que roca e em que fuso,
que segredo do mundo

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fico tão feliz quando vejo como os golfinhos são inteligentes
tão subtis no súbito entendimento das intenções segundas
que temos em relação a eles
se lhes dessem a ler bons poemas maior proveito teriam
aqueles que os escrevem
do que têem com A ou B
eu cá por mim estou certo de que nenhum golfinho diria
a propósito da morte de Deus e da glória do poema onde
morte
as palavras turvas que me transmitiram algumas bocas
maometanas
uma dessas bocas foi a mesma que disse
viva o profeta!
quando decretaram a morte de Salman Rushdie
por causa dos Poemas Satânicos
parecia Lisboa nas trevas católicas
mas não ele felizmente não estava à mão de matar

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até aproveitou a confusão e mudou de mulher
e na Dinamarca para aquecer um pouco
a malta gozava fazendo caricaturas sacrílegas dos ayatolas
mais um pouco e salvava-se o mundo

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de tal maneira no tempo se é que se enganam de tal maneira
sempre se enganam em qualquer coisa enganam-se
no tempo que pouco têm para morrer —
de tal maneira se enganam nas palavras que se enganam
na cabeça que têm
que a têm pouca —
e por isso quando metem os dedos na matéria
vê-se que a matéria não estava madura ainda —
que pressa é essa? é a de já lhes fugir janeiro e estarem ainda
em setembro ou outubro —
de que lhes valem as flores da época se trocam
rosas por margaridas silvestres?
de tal maneira os aromas nas narinas dos búfalos
e as borboletas de prata pousam
apenas em nomes vagos não em corolas ferozes
nas primaveras com grandes espaços entre palavras —
mas que procuram eles? nomes?

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apenas nomes entre tantos desastres?
eu não sei, eu tremo de dor apenas
perante os nomes não vistos e aspirados tanto que apeteça
morrer por um nome ou dois ou três
juntos, exactos, repetidos,
como exactamente em pleno transe louco
entre as flores dos nomes como:
dicionário folha atrás de folha,
e mesmo assim é como uma espécie de medo,
com um tremor no fundo da nossa idade
que vamos ver onde estão as pessoas que fugiram
da nossa vida, e quando foi que lhes tocámos,
ou na camisa ou no cabelo ou ao acaso nos dedos,
e que nomes eram os nomes deles entre
todos os nomes da terra,
e quando foi: se foi na descoberta
ou nos fins dos meses ou

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a meio de uma tarefa leve como pentear-se,
ou ressuscitar em plena luz pela
primeira vez
ou pela última vez, logo antes de sair das trevas
para as grandes danças entre o ar e a água,
sai agora: e corta o cordão,
e entre sangue, olhos fechados, abre a boca toda,
e respira muito quase até cair bêbedo ou louco
pela voz: o nome e sobretudo nome a nome
cada coisa em torno até que o alcance
a ciência dos nomes todos,
coisa a coisa da terra afinal tão pequena
que mesmo ele a domina,
no domínio dos nomes,
e então suspende tudo com medo que ali acabe com um
só nome
o múltiplo mundo matricial,
o mundo das mães loucas

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(entra um jovem sobraçando um maço de poemas cortados
em diagonal pelo mito de Rimbaud)
poemas cortados em diagonal pelo mito de Rimbaud,
um jovem ávido cheio de cotovelos
no meio da multidão
- afastem-se afastem-se que eu quero entrar no filme,
eu quero que me descubram,
eu vim a correr de noite até aqui,
eu sou o astro de que grandeza primeira,
tragam depressa o rapaz das filmagens,
eu quero ser o actor do terramoto
- afaste-se, senhor, não é a sua vez
- não me afasto que a minha vez é sempre,
oh dêem qualquer coisa ao rapaz frenético:
um relâmpago fotográfico em cheio no rosto,
um calmante,
um sôco,

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um bombom recheado maria gloriazinha,
vai ser difícil vai ser difícil o rapaz não tem escrúpulos,
tem uma fome que vem das primeiras letras,
o rapaz é órfão de toda a gente,
ele quer á força entrar no filme:
logo a primeira imagem em plano glorioso,
mas calma aí, isso não é assim tão raro
¿mas não vêem vocês aí aquele rosto faminto
não vêem os olhos assassinos?
ele era capaz de matar para ter uma chamada ao palco,
ora ora o mundo está cheio disso:
rapazes que nunca foram amados quando crianças
com ranho no nariz e lágrimas nos olhos ardentes,
bom bom mas isto aqui não é propriamente,
eu sei eu sei contudo não custa nada,
bom para acabar com isto tudo para sempre
aprontem aí um Nobel para salvar uma vida,
¿um Nobel está bem mas enquanto espera
porque não se arranja vá lá um Cervantes
um Camões uma coisa dessas?
pôrra dêem-lhe tudo: um reinado, uma dinastia inteira
se é tão sôfrego assim,

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melhor à cautela é melhor dar-lhe o mundo inteiro
e sem repartir com ninguém,
sim sim deixem as pessoas descansar um pouco,
é preciso é que o rapaz desampare a loja,
foda-se esta gente esfaimada!
o rapaz até parece o jovem Staline nos tempos da Geórgia,
melhor ainda assim é literatura do que política,
fica-se um pouco mais descansado
que pôrra estas cascavéis no nosso colo materno
- sussurrou a Musa,
e houve então uma corrente de suspiros conformes,
enquanto o cão danado farejava à volta,
sem saber que a morte lhe estava no sangue:
ele é abjecto
ele é um dejecto,
pior que tudo ele é o objecto de si mesmo:
devora-se a si mesmo como um polvo louco,
vá lá, dêem-lhe os prémios todos,
que ele decerto ficará em paz:
sentem-no ao lado maior de Deus poderoso,
ele já abraçou a taça de ouro,
ele entrou na eternidade com os dois pés ao mesmo tempo,

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Deus pisca-lhe o olho e diz: olá colega!
e ele responde com a pergunta: estás a curtir uma boa?
e então batem nas costas um do outro
e riem, e os anjos murmuram entre si:
gloria in excelsis!
e referiam-se com certeza a si próprios e aos colegas nas alturas:
o jovem autor gangrenado,
os anjos absolutamente apanhados pela peste e a lepra,
como dependem coitados das medicinas do mundo!
paz aos seus espíritos danados
paz aos corpos devorados
paz ao seu corpo
que encontre depressa
que encontre depressa depressa
que encontre já ontem remédio nos suplementos das artes e letras
que encontre glória no suplemento vitamínico das artes e letras
depressa depressa o mais depressa possível
- ainsi soit-il, diz Nosso Senhor que anda a aprender
a língua na Alliance Française

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o António Ramos Rosa estava deitado na cama
contra a parede
e deu meia volta sobre si mesmo
e ficou de cara voltada contra a parede
e fechou os olhos
e fechou a boca
e ficou todo fechado
e então morreu todo
fundo e completo de uma só vez
e apenas ele no tempo e no espaço
e só agora passado ano e meio eu compreendo
como era preciso ser assim tão íntimo para sempre
tão compacto
mais que o mundo inteiro
- e ele sou eu

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os que dizem como deve ser:
e forçosamente não se aclara nada,
se é que alguma vez houve alguma coisa
ouvida ou entendida ou revelada
¡e o que eles devoraram de alfarroba,
E o desperdício de água clara!

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estes poemas que chegam
do meio da escuridão
de que ficamos incertos
se têm autor ou não
poemas às vezes perto
da nossa própria razão
que nos podem fazer ver
o dentro da nossa morte
as forças fora de nós
e a matéria da voz
fabricada no mais fundo
de outro silêncio do mundo
que serão eles senão
uma imensidão de voz
que vem na terra calada
do lado da solidão
estes poemas que avançam

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no meio da escuridão
até não serem mais nada
que lápis papel e mão
e esta tremenda atenção
este nada
uma cegueira que paga
a luz por detrás de outra mão
tudo o que acende e me apaga
alumiação de mais nada
que a mão parada
allumiação então
de que esta mão me conduz
por descaminhos de luz
ao centro da escuridão
que é fácil a rima em ão
difícil é ver se a luz
rima ou não rima com a mão

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[a amada nas altas montanhas] .................................... 7
[coisa amada nas montanhas] ...................................... 8
[esfolo-te vivo, vadio, se me trazes outra vez...] ............ 13
[?que interessa fazer a barba se é tudo para cremas,] ...... 16
[em boa verdade houve tempo em que tive uma... ] ..... 18
[escrever poemas não é boa maneira de atordoar... ] ..... 20
[fico tão feliz quando vejo como os golfinhos são... ]..... 22
[não posso que me amem sequer os poemas cegos]........ 24
[de tal maneira no tempo se é que se enganam... ]......... 27
(entra um jovem sobraçando um maço de poemas... ) .......... 30
[que terrível desatino] ................................................ 34
[perdoar sem piedade dizia ela] ............................... 38
[o António Ramos Rosa estava deitado na cama... ] ...... 39
[os que dizem como deve ser:] .................................... 40
[eles estão a morrer de todas as maneiras] ..................... 41
[estes poemas que chegam] ......................................... 42

BIBLIOGRAFIA DO AUTOR .............................................. 45

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