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Alienação Parental: A necessidade de

análise psicossocial nos casos de


dissolução conjugal

» Dayana Kelle Fernandes Duarte

Orientadora: Deborah Pereira Marques Clemente[1]

RESUMO: A alienação parental é tema abordado com frequência no âmbito de Direito


de Família e tem se apresentado como abusos e violações de direitos inerentes a
dignidade, mediante a nobreza de sua importância, procura-se neste artigo explicar e
evidenciar a necessidade de análise psicossocial nos casos de dissolução conjugal para a
garantia de sua efetividade. O tema envolve a análise protetiva do Direito de Família,
ressaltando sistematicamente a lei 12.318/2010 elevada ao texto constitucional e sob a
égide do princípio da dignidade da pessoa humana. O trabalho traz a revisão
bibliográfica de diversos autores importantes sobre a matéria. Neste contexto, os
objetivos são: acometer o exame histórico que envolve a evolução da entidade familiar
refletindo sobre a nova visão de família nos dias atuais, a importância afetiva deste
vínculo; abordar temas importantes como a síndrome de alienação parental, como evitar
e perceber rastros deste mal e quais as sequelas deixadas nas crianças, desenvolvendo
para isso uma reflexão na determinação judicial pela guarda; e levantar questionamentos
acerca da falta de conhecimento técnico do magistrado, bem como, da necessidade da
perícia nos casos de dissolução conjugal para a promoção da tutela devida. Logo,
percebem-se a pertinência e abrangência da legislação, trazendo a tona os avanços do
sistema e apresentando sugestões para promoção da forma eficaz na defesa dos
interesses da criança durante o processo de divórcio, detectando assim, que a tutela
jurídica é importante na garantia da dignidade afetiva da criança e do adolescente, no
entanto, não é por si só auto-executável tendo em vista que a lei promete proteger e
coibir a alienação parental, desde que, seja diagnosticada.

Palavras-chave: Afetividade. Dignidade. Guarda. Interdisciplinaridade.


Relações Familiares.
ABSTRACT: Parental alienation is a topic often discussed in the context of
Family Law and has been presented as abuses of rights inherent dignity, by the
nobility of its importance , this article seeks to explain and highlight the need
for psychosocial analysis in cases of marital dissolution in ensuring its
effectiveness . The theme involves the analysis of protective Family Law,
systematically highlighting the law 12.318/2010 elevated to constitutional text
and under the aegis of the principle of human dignity. The paper presents a
literature review of several important authors on the subject. In this context ,
the objectives are to tackle the historical examination that involves the
evolution of family entity reflecting on the new vision of family today, the
importance of this affective bond ; addressing important issues such as
parental alienation syndrome , and understand how to avoid tracks this evil
and what sequels in children , developing for it a reflection on court order for
custody , and raise questions about the lack of technical knowledge of the
magistrate , as well as the need for expertise in cases of marital dissolution for
promoting protection due . Therefore, realize the pertinence and
comprehensiveness of legislation, bringing out the progress of the system and
making suggestions for effectively promoting the interests of the child during
the divorce process , detecting so that legal protection is important in ensuring
affective dignity of children and adolescents , however , is not itself self-
executing in order that the law promises to protect and deter parental
alienation , since that is diagnosed .

Keywords: Affection. Dignity. Guard. Interdisciplinarity. Family Relations.

INTRODUÇÃO

No Brasil, diversos fatores sociais fazem com que o Estado, no


exercício de sua soberania crie mecanismos para a promoção da paz coletiva.
Não obstante, a vida privada da família brasileira também sofre esta
intervenção. O Direito de Família é um sistema de proteção familiar, que
forma um plano social de relevante importância.

A alienação parental se apresenta como forma severa de demonstrar


falta de afeto, segundo Madaleno (2012), a síndrome de alienação é uma
forma criminosa grave, sendo inclusive mais nefária que o abandono afetivo.
Deste modo, vale salientar que, diante de uma sociedade familiar que preza
pela afetividade, é justo preponderar que a alienação se torna mais
devastadora que o próprio abandono afetivo, o que merece uma análise
especial.

O ordenamento jurídico brasileiro traz hodiernamente o afeto como


premissa constitucional, no entanto, há uma necessidade de compreensão e
contextualização desta afetividade, no entendimento de Rios (2012), sem essa
análise palpável poderá o judiciário promover prejuízos concernentes a
garantias fundamentais.

O presente trabalho visa avaliar o instituto de proteção da lei


12.318/2010, conhecida como “Lei de Alienação Parental”. A lei traz conceito
e punições à prática de alienação, também atribui ao magistrado o papel de
observar indícios de alienação no procedimento de dissolução conjugal e neste
caso determinar o exame psicossocial.

Pretende-se advertir, acerca dos posicionamentos dos tribunais diante


do tema, o intuito é abordar causas determinantes no processo de alienação,
grau de extensão, bem como, a necessidade de cooperação das diversas áreas
de especialistas no sistema de proteção.

O artigo acomete diversos campos de conhecimento, e traz ao sistema


judiciário uma série de questões e diferentes posicionamentos, sobretudo a
necessidade de perícia psicossocial a todos os casos de dissolução conjugal,
afinal, qual seria em um processo o papel jurídico e psicológico? Já que no
entender de Oliveira & Barreto (2011) o tema se situa entre essas duas áreas
do saber.

Para a análise dos tópicos supracitados foram utilizadas pesquisas


bibliográficas de grandes autores, dentre eles faz jus ressaltar: Maria Berenice
Dias (2008), Michele da Silva Saad (2011), Fernandes Pereira Rosso, Paulo
Lôbo (2012), Priscila Maria Pereira Corrêa da Fonseca (2006), Tamara
Brockhausen (2012), dentre outros.
O tema será avaliado e distribuído nos tópicos que envolvem:
introdução, aspectos históricos, conceito de alienação parental, o exercício do
poder familiar, síndrome de alienação parental, o princípio da dignidade da
pessoa humana no direito de família, a visão psicológica do instituto da
alienação parental, tutela jurisdicional concernente a alienação parental e
considerações finais.

A matéria é relevante e segundo Souza & Campos (2011, p. 5) “o


tema é ainda relativamente pouco explorado no Brasil, e ainda bastante
desconhecido do público jurídico”, deste modo, pretende-se aproximar o leitor
da questão, inteirando sobre a importância da matéria, tem por objetivo
principal a tutela irrestrita dos direitos da criança e do adolescente que serão
acometidos a seguir

1. ASPECTOS HISTÓRICOS

A necessidade de agrupamento fez com que o homem em diversos


momentos da história formasse organizações sociais com a intenção de
reproduzir e defender seus interesses. O homem aproxima-se de seu
semelhante para satisfazer suas distintas necessidades. (BITTAR, 1989, apud
MENEZES, 2008).

Perpassados distintos períodos da história, o conceito de família vem


sofrendo diversas mudanças, o que antes era ligado à consangüinidade, haja
vista, em Roma a família era organizada mediante as ordens vindas do
patriarca, era ele que determinava a forma de se organizar (VIANA, 1998,
apud MENEZES, 2008), nos dias atuais o que há é uma conexão com a
afetividade.

As diversas transformações na sociedade, especialmente as


acontecidas a partir da metade do século XX vem trazendo mudanças
significativas, a entidade familiar apresenta no quadro brasileiro critérios
interpretativos, baseado, sobretudo nos aspectos subjetivos. Diante da nova
ótica conceitual de família, surge no ano de 1977 a lei de n° 6515, lei de
divórcio, permitindo a dissolução da entidade familiar já que agora não se
trata de um mero contrato, mas de um convívio harmônico entre pessoas.

A família é a forma primária de convivência, é na base familiar que se


ensaia a comunicação social, a Constituição Federal de 1988 traz a inovação
no direito familiar, a família no Brasil ganha preceito de igualdade,
solidariedade e de respeito à dignidade da pessoa humana, não só como
garantia, mas como fundamento da República veja:

Art. 227: É dever da família, da sociedade e do Estado


assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com
absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à
alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à
cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à
convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a
salvo de toda forma de negligência, discriminação,
exploração, violência, crueldade e opressão. (BRASIL,
1988, p.79).

Lobo, 2008 apud Mendes (2012, p.24) ratifica que o princípio do


melhor interesse do menor foi determinante na evolução social da família.
Fazendo uma análise dos artigos 226 e 227 da Constituição Federal de 1988,
ele compendia dizendo que:

O princípio do melhor interesse da criança trouxe-a ao


centro da tutela jurídica, prevalecendo sobre os interesses
dos pais em conflito. Na sistemática legal anterior, a
proteção da criança resumia-se a quem ficaria com sua
guarda, como aspecto secundário e derivado da
separação. A concepção da criança como pessoa em
formação e sua qualidade de sujeito de direitos
redirecionou a primazia para si, máxime por força do
princípio constitucional da prioridade absoluta (art. 227
da Constituição) de sua dignidade, de seu respeito, de sua
convivência familiar, que não podem ficar
comprometidos com a separação de seus pais. A cessação
da convivência entre os pais não faz cessar a convivência
familiar entre os filhos e seus pais, ainda que estes
passem a viver em residências distintas.

O novo diploma civil de 2002, adequando-se a nova previsão


constitucional, instituiu novas modalidades de família, considerando para
tanto além dos vínculos consangüíneos, o vinculo afetivo, este último com
caráter de supremacia, além disso, o Código civil traz a regulamentação de
guarda familiar, nestes termos:

Art. 1.583: A guarda será unilateral ou compartilhada.

[...]§ 1o Compreende-se por guarda unilateral a atribuída


a um só dos genitores ou a alguém que o substitua (art.
1.584, § 5o) e, por guarda compartilhada a
responsabilização conjunta e o exercício de direitos e
deveres do pai e da mãe que não vivam sob o mesmo
teto, concernentes ao poder familiar dos filhos comuns.
(BRASIL, 2002, p.298).

Esta nova relação tem trazido ao judiciário diversos conflitos, pois, na


disputa que envolve a guarda dos filhos decorrentes de um divórcio, em lugar
do afeto e companheirismo, o que se vê é a existência de conflitos promovidos
pelo casal em sentimentos não afetuosos, assim, muitas vezes, as crianças e
adolescentes são usados para atingir o outro companheiro.

Mediante o exposto, as relações de família passam a apresentar


inquietações emocionais, “[...] a ruptura da vida conjugal gera na mãe
sentimento de abandono, de rejeição, de traição, surgindo uma tendência
vingativa muito grande”. (DIAS, 2008, p.11).

O desencadear desta disputa, fez com que surgisse nos filhos um


distúrbio descoberto por Richard A. Gardner em meados do ano de 1980,
segundo o pesquisador a maior parte das crianças, vítimas da separação dos
pais, apresentam a Síndrome da Alienação Parental. (GARDNER apud
MARTINS, 2012).
A alienação parental se apresenta como afronta aos direitos garantidos
a estrutura familiar profícua, o Brasil preocupado em conservar o pilar
familiar criou a lei 12.318/10, conhecida como Lei da Alienação Parental.

Neste panorama, o desafio do direito é garantir a criança e o


adolescente que estão expostos a esta disputa de guarda uma vida emocional
saudável, mas para isso necessita da observância de preceitos
interdisciplinares, pois se trata de um direito fundamental que envolve
conhecimentos distintos.

2. CONCEITO DA ALIENAÇÃO PARENTAL

A alienação parental é no entender de Soares & Oliveira (2010, p.4)


[...] “o início propriamente dito, do processo de afastamento entre genitor não
guardião e o/a filho/a”. Os autores abordam o instituto atribuindo a
necessidade de pugna para melhor segurança dos filhos. A própria lei
12318/10 conhecida como Lei de Alienação Parental traz o conceito de
alienação, veja:

Art. 2°: Considera-se ato de alienação parental a


interferência na formação psicológica da criança ou do
adolescente promovida ou induzida por um dos
genitores, pelos avós ou pelos que tenham a criança ou
adolescente sob a sua autoridade, guarda ou vigilância
para que repudie genitor ou que cause prejuízo ao
estabelecimento ou à manutenção de vínculos com este.
(BRASIL, 2010, p. 1570).

Nestes termos a alienação parental é prática atentatória aos direitos


inerentes ao ser humano, trata-se de um tema que se situa principalmente entre
duas áreas do saber: a psicologia e o direito, sobretudo, a análise da alienação
parental perpassa por diversos ramos do conhecimento, nesta vertente,
necessário se faz salientar que os direitos à personalidade jurídica plena
nascem com a vida e são institutos protegidos constitucionalmente, é dever da
família e do Estado assegurá-los.
Pois bem, de acordo Brockhausen (2012), o Brasil é o único país no
mundo que criou uma lei específica de alienação parental, é nítida a
preocupação com as diversas situações de abuso do poder familiar.

A alienação parental como desconstituição moral da família, de acordo


Souza (2008, p. 7), se apresenta como a tirania do guardião, a autora relata
que “os filhos são cruelmente penalizados pela imaturidade dos pais quando
estes não sabem separar a morte conjugal da vida parental, atrelando o modo
de viver dos filhos ao tipo de relação que eles, pais, conseguirão estabelecer
entre si, pós-ruptura”, a autora aborda a grande problemática que norteia a
dissolução conjugal atribuindo ao alienador à qualidade de tirano.

É cediço que no panorama atual de família não dá para atribuir


somente a um genitor a responsabilidade na criação dos filhos, haja vista, a lei
determinar que seja de responsabilidade de ambos esta concepção. No
entendimento de MENDES:

A evolução gradativa, ao longo dos séculos, deu-se no


sentido datransformação de um poder sobre os outros em
autoridade natural comrelação aos filhos, como pessoas
dotadas de dignidade, no melhor interessedeles e da
convivência familiar. Essa é a sua atual natureza.
(LÔBO, 2008, apud MENDES, 2012, p. 21).

O que ocorre na prática é que adultos, guardiões, detentores da guarda,


querem exercer sozinhos o poder familiar, privando assim o filho da
convivência harmônica com o genitor não guardião pós-divórcio. Esta mácula
acaba por prejudicar os filhos, tendo em vista que além de ter limitada a
convivência ampla familiar, que é preceito constitucional, o menor geralmente
é submetido à prática de alienação, pois, segundo Richard Gardner, psiquiatra
forense, citado por Dias (2008), a implantação de falsas memórias faz com
que a criança despreze o não guardião dificultando e até mesmo impedindo o
convívio emocional.
É importante no episódio da separação conjugal, no entendimento de
Simão (2008, p.15) [...] “uma perfeita distinção entre a conjugalidade e a
parentalidade, a tendência é que haja uma harmonia nesse novo arranjo
familiar”.

Segundo a autora os genitores tendem a não fazerem esta distinção e


quando isso ocorre, um genitor promove o distanciamento do filho do outro
parente, o que dificulta a atuação do genitor expectador causando déficit na
criação dos descendentes, é importante destacar aqui que o exercício do poder
familiar independe da definição da guarda e é direito da criança e do
adolescente. O exercício do poder familiar faz parte dos direitos que envolvem
a dignidade da criança, sobre ele que passa a expor.

3.O EXERCÍCIO DO PODER FAMILIAR

O instituto do poder familiar é tema tratado com grande acuidade no


Direito Brasileiro, isso se da pelo fato de ser conectado aos direitos
fundamentais que são inerentes as crianças e adolescentes, tal tema “pode ser
definido como um conjunto de direitos e obrigações, quanto à pessoa e bens
do filho não emancipado, exercido, em igualdade de condições, por ambos os
pais, para que possam desempenhar os encargos que a norma jurídica lhes
impõe, tendo em vista o interesse e a proteção do filho” (DINIZ, 2002, p.
447).

Este poder é desvinculado da guarda, pois, é papel de ambos,


independente da guarda a garantia dos direitos e interesses do menor, deste
modo, havendo guarda unilateral, ainda assim, deverá o cônjuge não guardião
exercer a vigilância sobre a guarda do menor, é esse o entendimento legal
trazido pelo Código Civil de 2002 acerca do poder familiar, observe o art.
1.632: “A separação judicial, o divórcio e a dissolução da união estável não
alteram as relações entre pais e filhos senão quanto ao direito, que aos
primeiros cabe, de terem em sua companhia os segundos”. (BRASIL, 2002, p.
301).

O instituto legal e doutrinário supracitados aborda com clareza a


importância do poder familiar, sobretudo ao que se refere responsabilidade
conjunta, o poder familiar não se confunde com guarda, tendo em vista que a
garantia é o bem estar da criança. No entendimento de Souza (2008, p. 10):

O poder familiar no Brasil é compartilhado e precisa ser


melhor compreendido, deixando de ocupar o lugar frio
que lhe reserva um artigo de lei para passar a ser uma
questão de atitude daqueles que realmente se esmeram
pela felicidade dos filhos, mesmo que para isso tenham
que aturar um indigesto e indesejado ex-cônjuge.

A análise de poder familiar se torna indispensável no contexto da


alienação parental, tendo em vista que, é no contexto do divórcio que se
determina a guarda, e guarda por vezes se confunde com poder familiar. No
entanto, não há que se considerar em nenhuma hipótese esses fenômenos
jurídicos como sendo sinônimos, haja vista, poder familiar ser muito mais
amplo que guarda.

O poder familiar deve ser exercido de forma ampla e efetiva, trata-se


da obrigação recíproca dos genitores, sendo irrelevante quem detenha a
guarda, companhia de fato, assim, esse entendimento é ratificado por (Souza,
2008, p.10): “o genitor guardião não é melhor que o não- guardião. Apenas, e
de forma não definitiva, exerce a guarda de um filho que não pode ser partido
em dois, como na parábola de Salomão”.

A determinação da guarda não afasta qualquer relação afetiva, nem a


responsabilidade na formação do filho, deste modo, ainda que a dissolução
conjugal tenha sido marcada por frustrações significantes, resta aos genitores
desempenharem suas funções, seja voluntariamente ou por força de lei, “na
esperança ou na tentativa de prevenir a alienação parental [...] propunham a
adoção da guarda compartilhada”. (PAULO, 2007, p.21).

No conflito apresentado a respeito destes dois institutos, guarda e


poder familiar, tomando por base o soluto da entidade íntima faz jus delinear
os diversos transtornos causados a criança e adolescente na disputa pela
companhia com exclusividade, assim, alguns efeitos se manifestam
psicologicamente na saúde mental causando o episódio impugnável da
síndrome de alienação parental, que se manifestam nos moldes que passa a
patentear.

4. SÍNDROME DA ALIENAÇÃO PARENTAL

É corriqueiro nos diversos conflitos que envolvem o direito de família


deparar diante de um episódio de “síndrome de alienação parental” (SAP), que
também pode ser conhecida como “implantação de falsas memórias”, crianças
que disputadas no tribunal são vítimas de uma encenação provocada por um
dos genitores para que o convívio com o outro parente seja frustrado no
processo de divórcio. (DIAS, 2008).

A origem da patologia, assim tratada pelo norte americano Richard Alan


Gardner, psiquiatra forense, se dá pela exposição à Alienação Parental (AP), e
se apresenta no juízo de (DIAS, 2008), como sendo uma programação da
criança para que odeie o seu genitor sem qualquer justificativa.

Nestes termos, cumpre ressaltar que segundo a teoria de Gardner a AP


seria um termo genérico, sendo definida como a rejeição da criança a um dos
genitores pós-divórcio gerada por diversas causas: revolta na puberdade,
lavagem cerebral efetuada por uma pessoa ou cultos religiosos, abusos
sexuais, físicos, psicológicos, recusa comum pré-existente. Já a SAP é a
recusa sem justificativa, ao definir os temas (GARDNER apud
BROCKHAUSEN, 2012), relata que se houver por parte do genitor repudiado
qualquer motivo que justifique tal recusa, não será caracterizada a Síndrome.
Deste modo, a síndrome infantil é causada pelas disputas judiciais
entre os pais, geralmente as crianças são programadas pelos alienadores, para
que recusem o outro responsável, ainda que, este não tenha justificado tal
recusa.

Na análise de Fonseca (2006, p. 163), “a criança que padece do mal se


nega terminantemente e obstinadamente a manter qualquer tipo de contato
com um dos genitores, independentemente de qualquer razão ou motivo
plausível”, segundo a autora a recusa é injustificada e traz gravíssimas
consequências.

Seguindo o entendimento da autora supracitada, a síndrome de


alienação parental não se confunde, portanto, com a alienação parental,
enquanto a alienação é o afastamento do filho de um dos genitores pelo outro,
a síndrome é a sequela emocional e psicológica deixada na criança alienada.

Nestes moldes, entende-se por alienação exposição e síndrome a


consequência, no entender de Dias (2008), a síndrome de alienação parental é
um jogo de manipulações, onde todas as armas são utilizadas na disputa pelo
filho.

Há, segundo a autora, denúncias de abuso sexual por parte do genitor


para afastar o filho do progenitor alienado, e neste sentido:

[...] a falsa denúncia de abuso sexual não pode merecer o


beneplácito da justiça, que, em nome da proteção
integral, de forma muitas vezes precipitada ou sem
atentar ao que realmente possa ter acontecido, vem
rompendo vinculo de convivência tão indispensável ao
desenvolvimento saudável e integral de crianças em
desenvolvimento. (DIAS, 2008, p.13).

Deste modo, flagrada a síndrome de alienação parental, faz necessária a


responsabilidade do alienante, podendo ensejar a perda da guarda se provada à
veracidade dos fatos. A falta de punição geraria segundo Dias (2008), um
comprometimento do sadio desenvolvimento do filho, colocando em risco seu
desenvolvimento emocional.

Ainda ao que se refere à síndrome (Duarte, 2009, p 3-4), conceitua:

A Síndrome da Alienação Parental esconde verdadeiras


tragédias familiares onde o

amor e o ódio se misturam a um só tempo. O alienador


parental é um psicopata sem limites e, o que é pior,
socialmente aceito e sem a menor possibilidade de cura
clínica. Talvez seja esta a razão de também ser conhecida
a SAP como Síndrome de

Medéia em alusão à peça escrita por Eurípedes,


dramaturgo grego, no ano de 431 antes de Cristo: "Jasão
corre para a casa de Medéia a procura de seus filhos, pois
ele agora teme pela segurança deles, porém chega tarde
demais. Ao chegar em sua antiga casa, Jasão encontra
seus filhos mortos, pelas mãos de sua própria mãe, e
Medéia já fugindo pelo ar, em um carro guiado por
serpentes aladas que foi dado a ela por seu avô o deus
Hélios. Não poderia ter havido vingança maior do que
tirar do homem sua descendência.

Fato é que, a síndrome é uma violação ilimitada de direitos, que se


justificam pela vingança, o autor supracitado faz analogia a Medeia atribuindo
o seu sentimento ao do alienante, para ele, o desejo de vingança é maior que a
necessidade de proteção ao filho.

Diante do exposto, faz jus ainda ressaltar que no entendimento de


Fonseca (2006), a conduta ainda que alienante, desde que não tenha sido
instalada a síndrome é reversível e permite que terapia e auxílio do poder
judiciário restabeleçam relações frustradas, daí ressalta-se a importância do
diagnóstico antecipado.

A exposição à alienação é segundo a autora um mal sanável, no seu


entender o juiz poderá mediante percepção conduzir a análise psicossocial que
pode restabelecer as relações, no entanto, ao que se refere síndrome é mais
complexo, pois requer tratamento especial e mais moroso.

O tema alienação parental esta vinculado diretamente ao princípio da


dignidade da pessoa humana, tendo em vista que, a lei protege a exposição da
criança e do adolescente a qualquer situação que possa causar dano físico ou
psicológico, diante de tal premissa é justo tecer considerações acerca deste
principio.

5. PRINCÍPIO DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA NO DIREITO


DE FAMÍLIA

A dignidade da pessoa humana é sem dúvida norma norteadora de


todos os ramos do direito, “o primeiro fundamento de todo o sistema
constitucional posto e o último arcabouço da guarida dos direitos individuais”
(NUNES, 2002 apud KIKUNAGA, 2012, p.33). Assim não há que se falar em
direito sem se falar em dignidade.

Na busca pela preservação dos preceitos constitucionais, que


envolvem além da proteção da família, o direito à dignidade da pessoa
humana, o judiciário vem se manifestando a respeito dos conflitos que
envolvem direito de família.

Mediante posicionamento de Barros citado por Simão (2008, p. 15),


“a dignidade humana é a versão axiológica da natureza humana”. Nestes
termos ele enaltece a importância do princípio na interpretação dos aspectos
morais da existência, para o autor não há que se falar em natureza humana
sem estudar os valores fundamentais que conduzem os homens.

A alienação parental é ato atentatório a este princípio e se apresenta


como forma de abuso de poder parental, nos termos do Estatuto da Criança e
do Adolescente, mais precisamente em seu artigo 129, há previsão da perda da
guarda e da suspensão ou destituição do poder familiar em caso de violação
dos direitos assegurados, além da tutela específica é pressuposto do Estado
democrático de direito proteger os interesses da criança, cabendo aos
operadores do direito fazer valê-los. (BRASIL, 2011, p.927).

Neste sentido o art. 1589 Código Civil de 2002: “o pai ou a mãe em


cuja guarda não estejam os filhos, poderá visitá-los e tê-los em sua
companhia, segundo o que acordar com o outro cônjuge, ou for fixado pelo
juiz, bem como fiscalizar sua manutenção e educação” (BRASIL, 2002, p.
299). A lei se preocupou na axiologia do sistema de proteção e a intenção é
proteger a dignidade da criança independente de qualquer outra medida. Ao
analisar decisões judiciais percebe-se com veemência a presença de alienação
em diversos casos de dissolução conjugal, o direito brasileiro tem apresentado
um avanço significante na resolução destes casos, porém, os meios jurídicos
não são suficientes para solução do feito.

A lei estabelece a possibilidade de encaminhar ao tratamento


psicológico e/ ou psiquiátrico em caso de alienação, isso quando percebida a
exposição por parte do magistrado, tratam-se de medidas judiciais cabíveis
trazidas no art. 213 da lei 8069/90 e 461 do CPC. Ocorre que nem sempre há
possibilidade de vislumbrar uma situação de alienação e mesmo diante de uma
proteção legal extensa, as doutrinas e jurisprudências têm abordado a
necessidade de uma providência mais eficaz para coibir e reprimir a alienação
parental. (BRASIL, 2011, p.441).

Nesse passo, analisa-se a indispensabilidade do estudo psicossocial


como meio eficaz para combater o enigma avaliado, bem como a severidade
na aplicação da sanção, com o intuito de evitar reincidência. Para Dias (2008,
p.13):
Flagrada a presença da síndrome de alienação parental, é
indispensável à responsabilização do genitor que age
desta forma por ser sabedor da dificuldade de aferir a
veracidade dos fatos e usa o filho com finalidade
vingativa. Mister que sinta que há risco, por exemplo de
perda da guarda, caso reste evidenciada a falsidade da
denuncia levada a efeito. Sem haver punição a posturas
que comprometem o sadio desenvolvimento do filho e
colocam em risco seu equilíbrio emocional, certamente
continuará aumentando esta onda de denuncias levadas a
efeito de forma irresponsável.

Salienta-se na citação a necessidade de repressão aos atos que atentem


contra a saúde física e mental da criança alienada, a conservação de sua
dignidade e a punição como forma eficaz de sanar qualquer intervenção
atentatória ao direito analisado. A configuração da alienação parental, só
poderá ser diagnosticada mediante laudo psicossocial, isso de acordo ao art. 5°
da supracitada lei “havendo indício da prática de ato de alienação parental, em
ação autônoma ou incidental, o juiz, se necessário, determinará perícia
psicológica ou biopsicossocial” (BRASIL, 2010, p.1570). Na análise deste
artigo o juiz encontra-se vinculado a obrigatoriedade de perícia.

Assim, mediante tais informações, não poderá o juiz determinar uma


guarda sem o cuidado de investigar o histórico do relacionamento do casal, a
forma como se deu a separação e principalmente a personalidade dos
envolvidos.

Ao tratar do tema Dias, 2008 apud Duarte (2009, p. 2) prepondera que


o alienador é patologicamente considerado um psicopata, munido de todas as
características de manipulação:
[...] em geral os psicopatas afirmam, com palavras bem
colocadas, se importarem muito com sua família, mas
suas atitudes contradizem totalmente com o que afirmam.
Não hesitam em usar seus familiares (filhos) e amigos
para se livrarem de situações desfavoráveis ou tirarem
vantagens. Quando afirmam que amam ou demonstram
ciúmes, na verdade têm apenas um senso de posse como
quem se apossa de objeto qualquer. Tratam pessoas como
“coisas” que, quando não servem mais, são literalmente
descartadas. (DUARTE, 2009, p. 2.)

Considerando o alienador mediante tal comportamento é justo


salientar que não poderá o juiz identificar em uma audiência indícios de
alienação parental, visto que o alienante pode se apresentar nos padrões de
normalidade. Sendo assim, merece ser levantada a hipótese de avaliação em
todos os casos de divórcio e não somente nos casos percebidos ou
manifestados em juízo.

No entendimento de Perez citado por Oliveira & Barreto (2010, p. 8)


“o exame técnico irá subsidiar a decisão judicial, podendo indicar, inclusive,
as melhores alternativas de intervenção no caso concreto, quando necessária”.
Mais uma vez destacada a necessidade multidisciplinar na busca da tutela de
dignidade à criança trazida pela lei de alienação, e neste entendimento é que
se justifica apresentar uma análise psicológica deste tema, perpassando por
teóricos importantes que serão apresentados no tópico a seguir.

6. A ALIENAÇÃO PARENTAL NA VISÃO DA PSICOLOGIA

Os problemas psicológicos causados pela alienação parental é objeto


de estudo interdisciplinar, segundo a psicologia os transtornos psiquiátricos
acompanham os filhos por toda a vida, estudiosos apontam consequências
como: depressão, ansiedade, transtorno de identidade, dificuldade em se
relacionar, envolvimento com álcool e drogas dentre outros. (PAULO, 2007).
Segundo Paulo (2007, p. 10) “devido ao conflito de lealdade, o filho
se sente pressionado a escolher um dos pais”. Nesta escolha desencadeia a
própria alienação, pois, na teoria psicanalista de Lacan (1988) citado por
Paulo (2007, p. 10) “é justamente essa escolha forçada que implica em
alienação”.

Mediante possíveis consequências é que se faz necessária a presença


de profissionais da área de saúde mental na avaliação fundamentada da guarda
judicial, pois, a ausência ou até mesmo a ineficiência de tais profissionais
pode causar grande risco.

No entender de Paulo (2007, p. 10) “é primordial que psicólogos


psiquiatras e assistentes sociais conheçam os critérios de identificação da
Alienação Parental”. Desse modo, não basta à habilitação profissional é
necessário, além disso, conhecimentos aprofundados sobre a matéria.

Diante dos ensinamentos do psiquiatra Gardner (2010) citado por


Paulo (2007, p. 11) existe “[...] três estágios de desenvolvimento da alienação,
de acordo com o êxito que os esforços do alienador tiveram sobre o filho,
sugerindo a forma de tratamento adequado para cada um deles”. Compreende
neste questionamento, mais uma vez, a necessidade de conhecimento
específico dos profissionais da psicologia no diagnóstico e tratamento da
alienação.

O ora mencionado psiquiatra Gardner (2010) classifica os três estágios


como leve, médio e grave, e explica que no grau de alienação leve “os laços
do filho com ambos os genitores são ainda fortes e sadios e seu
comportamento durante a visita é bom”. (GARDNER apud PAULO, 2007, p.
12). Assim, apesar da exposição aos atos de alienação a criança ainda se
encontra saudável.
O grau médio de alienação se apresenta quando o alienador promove
estratégias para afastar o outro responsável da criança, desempenha uma
missão árdua de devassidão do outro influenciando assim na aceitação do
filho, que apresenta comportamento de pugna sem justificativa. (PAULO,
2007). Nesse momento, segundo Gardner (2010) citado por Paulo (2007, p.
13) “os laços com ambos os conjugues ainda permanecem fortes, embora já
patológicos”, fala-se deste modo em síndrome de alienação diagnosticada.

Quando há a energização dos sintomas até aqui mencionados, e


quando a criança se manifesta com episódios de pânico, criando fantasmas e
falsas idéias que lhe causa terror e impossibilite o contato com o genitor não
guardião, o quadro segundo Gardner apud Paulo 2007, é de alienação no grau
grave, prepondera que “o laço com o alienador permanece forte, embora
patológico, mas o que havia com o alienado parece desfeito, em meio à
patologia e a paranóia”. (GARDNER, apud PAULO, 2007, p.13).

Diante dos fatos apresentados a autor aborda tratamento dos diversos


graus de alienação, apresentando para tanto soluções eficazes no âmbito da
terapia psicológica, ao passo que orienta o judiciário na observância da
patologia, sobretudo do alienador, que, por vezes se manifesta em tratamento
o que na verdade não passa de um argumento para sabotar a tentativa de
reabilitação impedindo a eficácia do procedimento. (GARDNER apud
PAULO, 2007). Mediante a visão psicológica do instituto da alienação, passa
a analisar a aplicabilidade das normas até aqui apresentada nos tribunais.

7. TUTELA JURISDICIONAL CONCERNENTE A ALIENAÇÃO


PARENTAL

A alienação parental é um tema que se apresenta na jurisprudência


hodierna, haja vista, versar de uma questão recente e de difícil análise tratando
de uma proteção que vai além do direito, abarcando direitos indisponíveis e
por vezes “invisíveis”. Os tribunais têm manifestado sobre tal tema e em um
agravo de instrumento do Rio Grande do Sul, foi negado o provimento do
pedido de destituição e suspensão do poder familiar do agravado, por se tratar
de alienação parental, o voto foi proferido pela Dias (2006) mediante
fundamento a seguir:

[...] Muitas vezes a ruptura da vida conjugal gera


sentimento de abandono, de troca, de traição, surgindo
uma tendência vingativa muito grande. Ao ver o interesse
do genitor em preservar a convivência com o filho,
independente do fim da relação conjugal, o guardião quer
se vingar, afastando os filhos do outro. Quando não
consegue elaborar adequadamente o luto da separação,
desencadeia um processo de destruição, de
desmoralização, de descrédito do ex-parceiro.

Tal é o que moderna doutrina designa como “síndrome


de alienação parental”: processo para programar uma
criança para que odeio o genitor, sem qualquer
justificativa. Trata-se de verdadeira campanha de
desmoralização. O filho é utilizado como instrumento da
agressividade direcionado ao genitor. Assim, são geradas
uma série de situações que leva o filho a rejeitar o pai.
Este processo recebe também o nome de “implantação de
falsas memórias”. A criança é levada a repetir o que lhe é
dito de forma repetida. O distanciamento gera
contradição de sentimentos e a destruição do vínculo
entre ambos. Restando órfão do genitor alienado, acaba o
filho identificando-se com o genitor patológico, passando
a aceitar como verdadeiro tudo que lhe é informado.

O próprio genitor alienador acaba não conseguindo


distinguir a diferença entre verdade e mentira e a sua
verdade passa a ser verdade para o filho que vive com
falsas personagens de uma falsa existência. Monitora o
tempo do filho com o outro genitor e também os
sentimentos para com ele.

O filho acaba passando por uma crise de lealdade e


experimenta intenso sofrimento. Claro que esta é uma
forma de abuso, pondo em risco sua saúde emocional.
Até porque acaba gerando um sentimento de culpa
quando, na fase adulta constatar que foi cúmplice de uma
grande injustiça. (Agravo de instrumento n°70015224140
TJ-RS).

O diagnóstico que parte das decisões dos tribunais é fundada em


entendimento de outro indivíduo, os psicólogo, psiquiatras e assistentes
sociais, neste sentido, Dias citada por Lima et al. (2008), analisa a importância
dos pareceres interdisciplinares, para que no desejo de vingança o alienador
não programe o filho com o intuito de afastar o outro responsável.

Adverte os autores citados Lima et al. (2008) que a tarefa de lutar


contra a alienação não é fácil, pois, na maioria das vezes a criança realmente
perde o afeto com o genitor ausente devido o contato perdido provocado pelo
alienador.

Não há que se falar em combate da alienação parental sem que seja


observada a tutela do melhor interesse do menor atrelado à descoberta deste
interesse “oculto”, que será determinado mediante atendimento psicológico
individualizado, conforme prepondera Lima et al. (2008). É comum que um
juiz não possa identificar a alienação, a falta de conhecimento faz com que o
magistrado não se dê conta da circunstância, ocorrendo assim à alienação
parental, o papel do judiciário é garantir a efetividade das normas, mas,
quando se trata de alienação parental este diagnóstico não depende
exclusivamente da tutela legal, é de extrema importância o concurso de
assistentes sociais e principalmente de psicólogos.

O sucesso no combate a alienação parental esta atrelado ao estudo


psicossocial por profissionais qualificados, para que então a
discricionariedade dada ao juiz em exigi-lo? A análise deve ser obrigatória nas
dissoluções, tratar-se da medida preventiva mais eficaz.
O estudo social ganha repercussão na jurisprudência brasileira e no
julgado da Primeira Câmara Cível Agravo de Instrumento da Relatora
Figueiredo (2011):

ANTECIPAÇÃO DE TUTELA INDEFERIDA EM


AÇÃO REVISÓRIA DE VISITAÇÃO PATERNA.
ESTUDO SOCIAL QUE RECOMENDA A
MANUTENÇÃO DA PRESENÇA DO PAI. SÚMULA
59 DO TJRJ. Ao contrário de ter ojeriza à companhia do
pai, como afirma sua mãe, a agravante deseja sua
presença mais ostensiva, dedicada e comprometida.
Como posto pelo MP, aparenta

tratar-se de hipótese de alienação parental, na qual o


afastamento do pai, logo em sede de antecipação de
tutela, pode acarretar mais danos do que benefícios.
Além disso, a decisão atacada determinou a realização de
estudo e acompanhamento psicológico do caso,
reservando-se à eventual revisão do que foi determinado
em sede antecipatória de tutela. Ocorre, ainda, que a
decisão que concedeu liminarmente a tutela pleiteada não
é teratológica, contrária à prova dos autos ou à lei, de
modo que, nos termos do artigo 59 do TJRJ, merece
prosperar. Recurso a que se nega provimento. (Agravo de
Instrumento nº 0060322-35.2010.8.19.0000 TJRJ).

A decisão ora apresentada tem por fundamento a necessidade de


convívio da criança com o pai, tal tese se baseia em laudo social onde o filho
demonstra satisfação da companhia do genitor ao mesmo tempo em que
evidencia o medo de desapontar sua guardiã, é manifesto em perícia que a
criança se encontra saudável, mas necessita da companhia do pai com mais
frequência. Deste modo, salienta-se a seriedade da apreciação social nas
decisões judiciais.

Não menos frequente, há manifestas decisões que também se valem


do laudo psicológico para a determinação de guarda judicial, e é neste sentido
o julgado de agravo de instrumento, proferido pela Quarta Câmara Cível
proferida por Hartung (2010):
AGRAVO DE INSTRUMENTO - FAMÍLIA - GUARDA
PROVISÓRIA. - Recurso do genitor. Pretensão de
reforma da decisão concessiva da tutela de urgência, ao
argumento de ter sido desrespeitada a vontade do menor.
- Laudo psicológico que aponta a necessidade de
concessão de medida de urgência para que seja deferida a
guarda para a mãe, assegurado o direito de visitação do
agravante. - Indícios da instauração de um processo de
alienação parental, sendo o genitor incapaz de perceber
essa situação ou mesmo proteger seu filho de tal
sofrimento. Prevalência do melhor interesse da criança.
Medida provisional em que se admite concessão de
ofício. - Incidência do Enunciado nº 59, da Súmula desta
Corte Estadual. Manutenção da sentença Aplicação do
art. 557, caput do CPC. - NEGADO SEGUIMENTO AO
RECURSO. (Agravo de Instrumento de n°0013895-
77.2010.8.19.000 TJRJ)

Na análise deste julgado percebe-se a relevância do laudo psicológico


para a definição do princípio norteador do direito da criança e do adolescente,
a que se destacar o princípio do melhor interesse do menor, nesta análise o
relator prepondera tal interesse dando ao menor o direito de conviver com
seus progenitores.

A tutela que se espera fundamenta-se na idéia de justiça, que segundo


Rawls apud Barros seria a idealização de que:

Cada pessoa possui uma inviolabilidade fundada na


justiça que nem mesmo o bem-estar da sociedade como
um todo pode ignorar. Portanto, numa sociedade justa as
liberdades da cidadania igual são consideradas
invioláveis; os direitos assegurados pela justiça não estão
sujeitos à negociação política ou ao cálculo de interesses
sociais. (BARROS 2007, p. 25)

Pela totalidade, observa-se a preocupação em garantir a dignidade e o


melhor interesse da criança e do adolescente nas decisões judiciais, a
interdisciplinaridade justifica-se pela importância da reestruturação familiar
com o intuito de proteger os filhos.
CONSIDERAÇÕES FINAIS

A realidade social ora apresentada mostra situações de alienação


parental que merece ser estudada minuciosamente por si tratar do campo de
interesse interdisciplinar. Foram discutidas no decorrer do trabalho as
circunstâncias e as características da alienação, abordando com veemência a
necessidade de combate por se tratar de violação de interesses inerentes à
dignidade.

Os relatos de comportamento dos envolvidos, apresentados mediante


os conceitos psicológicos e da ação social foram de relevante importância,
pois, ratifica a necessidade da parceria entre o magistrado, em associação à
lei, doutrina, jurisprudência e os diversos ramos auxiliares das ciências para
oferecer a tutela devida pregada pela lei 12.318/2010.

Mediante o estudo realizado, evidenciou-se o interesse da norma em


prevenir e restabelecer laços afetivos no seio da família, o litígio conjugal não
deve ser vinculado à hostilidade emocional do qual a criança se submete no
episódio de alienação. Embora a matéria apresentada tenha demonstrado
avanços, comprovados mediantes citação de julgados, há ainda, a dificuldade
na apuração da alienação parental, a proposta permeia na necessidade de
capacitação das unidades judiciárias para que sejam adotadas as equipes
multidisciplinares na apuração dos casos.

A visão interdisciplinar analisada a todo o momento no decorrer do


trabalho é o argumento mais forte e eficaz na prevenção e combate às práticas
de alienação, pois, como já exposto, a ciência jurídica tem se mostrado
insuficiente nas decisões sobre a matéria necessitando de conhecimentos
específicos de outras ciências, deste modo, a força simbólica da lei só será
efetiva e justa se houver a proposta de perícia técnica especializada,
obrigatória e não facultada pela norma, o que traria à inviolabilidade dos
direitos até aqui apresentados.

Assim, o que se espera é a aplicabilidade dos direitos propostos pela


lei, independente dos esforços que deverão ser desempenhados, a promoção
da justiça como meio de combater a violência e pilar da democracia da qual se
funda o ordenamento jurídico brasileiro.

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VADE MECUM, 5ª edição – São Paulo: Saraiva 2011.

Notas:

[1] Mestre em Desenvolvimento Social – UNIMONTES, Profª. Faculdade


Guanambi – FG/CESG.