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MACIEL, Alanne Barbosa.

Agricultura familiar no contexto da agroenergia do dendê


no Nordeste Paraense. 2016.. Dissertação de Mestrado em Desenvolvimento Rural e
Gestão de Empreendimentos Agroalimentares. Orientador: Prof. Dr. Farid Eid.
Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Pará; IFPA, 2016.

INTRODUÇÃO
Portanto, a dissertação sobre AGRICULTURA FAMILIAR NO CONTEXTO DA AGROENERGIA
DO DENDÊ NO NORDESTE PARAENSE1 analisa a produção do dendê incentivada pelos
governos federal e estadual no Pará, como política pública de promessa de
desenvolvimento econômico, social e ambiental com objetivo de criar instrumento de
(in)formação de agricultores em busca de melhoria de qualidade de vida. Tal política
pública tem encontrado aderência não apenas dos agricultores familiares, devido
às “promessas” de ganhos econômicos significativos do governo e das empresas
beneficiadoras do biodiesel e do óleo de palma de dendê (Elaeis guineensis).
A necessidade de compreender o processo de implantação da dendeicultura no
Nordeste Paraense, como forma alternativa de fonte energética, inclusão social e
de suposta melhoria na qualidade de vida dos agricultores familiares visa entender
os processos de agregação de uma maior renda a estes. A pesquisa partiu da
experiência realizada junto aos Colegiados de Desenvolvimento Territorial no
Estado do Pará, quando se teve a oportunidade de observar e discutir a política
territorial pensada para os territórios no estado, especificamente no Território da
Cidadania Nordeste Paraense – TENEPA (p.19) onde movimentos sociais e
representantes da sociedade civil organizada encontram-se com os representantes dos
entes governamentais das três esferas, para discutir seus interesses e visões de
desenvolvimento voltados para as suas comunidades (p. 20).

A implantação do cultivo do dendê no Nordeste Paraense tem sido foco de crítica


dos movimentos sociais e ambientalistas, por se tratar de uma cultura exógena
que vem alterando as práticas locais da agricultura familiar, substituindo-as por
pacotes tecnológicos, exigidos pelas empresas fomentadoras de
agrocombustíveis, com uso intensivo de agrotóxicos. Esta prática está sendo
condenada, no mundo todo, por causar diversos danos socioambientais.
Contrapondo-se, desta forma, a concepção de Eid e Pimentel (2008), quando
afirmam que o desenvolvimento consiste na transformação da economia de
subsistência em uma economia moderna, eficiente, ao envolver modificações do
modo de vida das pessoas, instituições e estruturas produtivas, com melhoria da
qualidade de vida do conjunto da população.
Observou-se, no processo de pesquisa que a introdução deste cultivo tem causado
problemas para os agricultores familiares de diversas ordens, a exemplo das
dificuldades em lidar com essa nova cultura pela falta de conhecimentos técnicos e
prática no manejo da produção, o que acabou por gerar um sobretrabalho e, em
consequência, alguns perderam o tempo necessário para se dedicarem às culturas
agroalimentares tradicionais da região, principalmente por conta da falta de
assistência técnica. (p. 20).

[...]o objetivo geral foi analisar a dinâmica do processo de introdução da agricultura


empresarial (agronegócio) voltada para a dendeicultura em área tradicional de agricultura
familiar no Território da Cidadania Nordeste Paraense e a percepção destas comunidades
tradicionais sobre os impactos dessa atividade em suas condições de vida, a fim de
contribuir com processos de (in)formação sobre os efeitos destas políticas na vida dos
agricultores envolvidos na dendeicultura. (p. 20).
CAPÍTULO I
AGRICULTURA FAMILIAR E DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL
NA AMAZÔNIA BRASILEIRA

No Brasil, assim como em todo o mundo, a agricultura encontra-se dividida entre dois
polos distintos em seus modos de produzir: um representado pela agricultura familiar,
também denominada agricultura familiar camponesa por autores como Ploeg (2009) e
Sabourin (2009), onde as famílias de agricultores praticam seus policultivos em pequenas
extensões de terras, com o emprego de técnicas tradicionais e integradas ao meio
ambiente voltados principalmente para a produção de alimentos; e outro concebido pelo
agronegócio, desenvolvido pelas grandes empresas capitalistas, a qual utiliza grandes
extensões de terra e tecnologia de ponta com o emprego de sementes modificadas
geneticamente e a utilização massiva de agrotóxicos, bem como, o incentivo ao
monocultivo. (p. 23).

Nos últimos anos, os mencionados polos ou modelos de cultivos, quais sejam, o


agronegócio e a agricultura familiar, têm se integrado a partir de um discurso revestido
pela preocupação com o melhoramento das condições de vida dos pequenos agricultores
e suas famílias, através do que se denominou políticas públicas de inclusão social com
agregação de renda, a partir da produção de gêneros que, além de servir à alimentação da
própria família e da população local, resultam na produção de commodities agrícolas (p.
23).

1.1 A importância da agricultura familiar no Brasil

Sabourin (2009) a fim de esclarecer a dicotomia mencionada anteriormente, afirma que no


Brasil, a partir de 1995, a visão dualista sobre a agricultura ficou manifesta na medida em
que foi criado, o Ministério do Desenvolvimento Agrário – MDA, que passaria a cuidar das
políticas de apoio à agricultura familiar, enquanto o Ministério da Agricultura, Pecuária e
Abastecimento – MAPA, seria o responsável por fomentar a agricultura que denominou
patronal, identificada nesta dissertação como agronegócio. (p. 23).

A caracterização da agricultura familiar, como demonstrado na lei, é ampla; Wanderley


(2011, p.83) aponta que seus sujeitos identificam-se “por sua capacidade de resistência e
adaptação” ao processo de modernização de suas práticas de cultivo tradicionais, as quais
são capazes de levar suas unidades produtivas a novos níveis tecnológicos, que culminem
com o aumento da oferta de produtos, uma maior rentabilidade dos recursos produtivos
aplicados nas propriedades e na valorização do trabalho familiar. (p. 26).

Caporal e Petersen (2012, p. 64) defendem, nesse contexto, que o Estado, entendido como
ente público que detém a governança da sociedade, tem procurado possibilitar a
convivência equilibrada entre os dois modelos contrastantes de desenvolvimento rural: o
agronegócio e a agricultura familiar. E, ainda, de acordo com os autores, essa “retórica da
coexistência exerce grande influência no atual quadro político já que oculta das
organizações da agricultura familiar a sua crescente subordinação ao agronegócio além de
legitimar as políticas públicas perante a sociedade”. E, não apenas isso, confirmam ainda a
preponderância do papel dos grupos do agronegócio na construção das políticas de
desenvolvimento. (p. 26).

O agronegócio, da maneira como foi apresentado anteriormente, tem expandido suas


fronteiras agrícolas, principalmente na Amazônia, além dos processos de integração da
agricultura familiar; constituindo-se, assim, um contrassenso, pois se tratam de modelos
de cultivo da terra opostos: de um lado, o agronegócio desterritorializa a produção; do
outro, a agricultura familiar é levada à reduzir sua produção de alimentos, a fim de ocupar
esses espaços para atender demandas do agronegócio (CAMACHO e CUBAS, 2011).
Portanto, enquanto o primeiro visa os ganhos econômicos cada vez maiores como sua
principal finalidade, o segundo preocupa-se com a manutenção da biodiversidade, pois
reconhece a necessidade de preservação dos recursos naturais que garantirá a
sobrevivência de sua própria família, bem como, de sua comunidade. (p. 26).

1.2 Agricultura familiar e economia solidária: resistência, autonomia e mercado

O movimento de economia solidária (ECOSOL) no Brasil surge como resultado do aumento


do subemprego e do desemprego, da precarização do trabalho ocorrido, principalmente, a
partir da década de 80 do século passado, como forma desses trabalhadores, expropriados
dos meios de produção, conseguirem se manter no mercado de trabalho através de
iniciativas autogestionárias e coletivas, garantindo assim, acesso a direitos sociais e
trabalhistas e aos direitos humanos, de uma forma geral, garantidos tanto pela
Constituição Federal, como pelos tratados internacionais(p. 29).