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CENTRO INTEGRADO DE TECNOLOGIA E PESQUISA

FACULDADE NOSSA SENHORA DE LOURDES

GEYSIANE KARLA CRUZ DOS SANTOS

UMA ANÁLISE DO SUAS NA PERSPECTIVA DA


DESCENTRALIZAÇÃO DA GESTÃO E DO CONTROLE SOCIAL

JOÃO PESSOA – PB
2018
GEYSIANE KARLA CRUZ DOS SANTOS

UMA ANÁLISE DO SUAS NA PERSPECTIVA DA


DESCENTRALIZAÇÃO DA GESTÃO E DO CONTROLE SOCIAL

Artigo apresentado ao Centro Integrado de Tecnologia


e Pesquisa e à Faculdade Nossa Senhora de Lourdes,
como um dos requisitos para obtenção do título de
Especialista em Serviço Social e Políticas de Proteção
Social, sob a orientação do Professor Carlos Lopes de
Mendonça Netto.

JOÃO PESSOA - PB
2018
SUMÁRIO

RESUMO
ABSTRATC
INTRODUÇÃO ............................................................................................................ 5
FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA .................................................................................. 6
CONSIDERAÇÕES FINAIS ...................................................................................... 14
REFERÊNCIAS ......................................................................................................... 16
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UMA ANÁLISE DO SUAS NA PERSPECTIVA DA


DESCENTRALIZAÇÃO DA GESTÃO E DO CONTROLE SOCIAL

Geysiane Karla Santos1

RESUMO

A implementação do SUAS é um marco primordial na normatização da Política de


Assistência Social e determinante para o seu reconhecimento como política pública
de proteção social. Resultado de um profundo processo de construção sócio histórica,
o SUAS tem a finalidade de constituir um padrão de gestão descentralizada que
ultrapasse a trajetória de centralização, fragmentação e descontinuidade que
historicamente marcaram a Política de Assistência Social brasileira. Mais de uma
década após sua implementação, é possível avaliar e analisar os processos
necessários para efetivação de políticas públicas através do modelo de um sistema
que embora único, permita a gestão de diversos entes federativos. O presente artigo
pretende analisar o SUAS através da descentralização da gestão e do controle social.

Palavras-chave: SUAS, Políticas Públicas, Proteção Social.

ABSTRACT

The implementation of the SUAS is a key milestone in the normatization of the Social
Assistance Policy and determining its recognition as a public policy of social protection.
As a result of a deep socio-historical construction process, SUAS aims to constitute a
decentralized management standard that goes beyond the centralization,
fragmentation and discontinuity trajectory that historically has marked the Brazilian
Social Assistance Policy. More than a decade after its implementation, it is possible to
evaluate and analyze the processes required to implement public policies through the
model of a system that, although unique, allows the management of several federative
entities. The present article intends to analyze SUAS through the decentralization of
management and social control.

Keywords: SUAS, Public Policies, Social Protection.

1 Pós-graduanda em Serviço Social e Políticas de Proteção Social


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INTRODUÇÃO

A Constituição de 1988 conhecida como Constituição Cidadã, trouxe relevantes


contribuições para a efetivação das políticas públicas, outorgando autonomia político
e administrativa aos órgãos municipais, que por sua vez passaram a ser organismos
federativos com independência para elaborar e efetivar políticas. No entanto, ter vários
organismos independentes em uma unidade federativa trouxe consigo o desafio da
gestão pública integrada.
Descentralizar é uma forma de transformar a democracia, portanto mais que
um processo meramente administrativo, a descentralização é um processo
amplamente político que traz a concepção de restituir o país através do aumento do
poder político e tributário das unidades federativas, solidificando os processos
democráticos através do empoderamento dos municípios e das comunidades locais
nos processos decisivos das políticas públicas.
Foram necessárias análises de métodos que fossem suficientes para coordenar
as ações advindas dessa política descentralizada, desse modo pensou-se na criação
de um sistema nacional de política seguindo o modelo utilizado pelo SUS – Sistema
Único de Saúde, modelo que reúne Município, Estado e União para financiar e gerir o
sistema, de modo a evitar que fossem acrescentados ao longo do tempo novas
políticas de implementação. Desse modo, surge o SUAS em 2005, como o Sistema
Único de Assistência Social.
O Sistema Único de Assistência Social é estruturado a partir da política nacional
e tem nas bases da sua formulação a missão de assegurar que os direitos sociais
previstos pela Constituição sejam sólidos e eficazes. O SUAS resulta de quase dois
séculos de discussões e instrumentaliza princípios presentes na Carta Magna de
1988, que integram de modo definitivo a Assistência Social, como base estrutural, em
conjunto com saúde e previdência social, da seguridade social. O SUAS sustenta a
perspectiva de que a Assistência Social é um direito que deve ser implementado por
meio de políticas públicas e não ação voluntária e assistencialista do Estado para com
os pobres. Não poderia ser diferente, levando em consideração os índices de pobreza
no Brasil e a herança histórica de praticar ações voluntárias como política.
Desta forma, o presente artigo pretende contribuir para o debate sobre a
descentralização das políticas públicas no país e a sua relação com o combate à
exclusão social e à pobreza, através do Sistema Único de Assistência Social.
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FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

POLÍTICA DE ASSISTÊNCIA SOCIAL NOS DIAS ATUAIS

Estabelecer um sistema de gestão é uma reivindicação assentida desde a


aprovação da LOAS2, cinco anos após ser reconhecido como parte da Seguridade
Social brasileira, na Constituição Federal. É fundamental salientar, ainda, os
instrumentos de gestão do SUAS, que reproduzem avanços em termos de
organização e planejamento técnico e financeiro nos três setores gerenciamento:
Plano de Assistência Social; orçamento; monitoramento, avaliação e gestão da
informação; e relatório anual de gestão (NOB-SUAS, 2013). Para Boschetti, Teixeira
e Salvador (2013, p. 2), mesmo após 20 anos da aprovação da LOAS, a efetivação
do SUAS revela um conjunto de inovações e progressos importantes:

Do ponto de vista da concepção de assistência social, é inegável que a


institucionalidade do SUAS tenta retirar a assistência social do arcabouço da
filantropia e cria diretrizes, critérios e forte arcabouço legal, antes inexistente
e de difícil estruturação em uma nação federada, com fortes disparidades
nacionais e locais. A definição conceitual de assistência como política de
proteção social presente na PNAS e no SUAS amplia suas feições e funções
ali determinadas, rompendo com a histórica nomenclatura até então
existente.

No entanto, mesmo com toda essa nova estrutura regulamentar que


compreende uma diversidade de importantes avanços, ainda é capaz de incorporar e
delinear ideias conservadoras, não fosse o bastante, a nova estrutura está distante
das discussões que englobam os princípios mais estruturais da pobreza e da
desigualdade social que alicerçam a contraditória sociedade brasileira, Conforme
corrobora Behring (2010a, p. 168):

A análise situacional da PNAS parte da população em geral e não da


determinação funda-mental da inserção no mundo do trabalho, que implica
em condições determinadas de vida e de configuração de necessidades,
numa lógica na qual o acesso aos bens e serviços socialmente produzidos
no mercado depende da venda da força de trabalho por parte da maioria. [...]
O corte da análise situacional é o da renda relacionada ao território, não do
trabalho, com o que se deixa de pensar a proteção social como um sistema
amplo, relacionado às demais políticas de seguridade, em especial a
previdência social.

2 Lei Orgânica da Assistência Social assegurada pela a Lei Nº 8.742/93.


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De acordo com Boschetti (2005) a ideia de Assistência Social a ser corporizada


nos modelos de proteção social básica e proteção social especial (de média e de alta
complexidades) demanda que se encaixem estas formas de proteção no grupamento
de proteções pressupostos pela Seguridade Social. Sendo essa uma questão
substancial e obrigatória para que não se corra o risco de instrumentalizar a Política
de Assistência Social de modo que não possa ser articulada com as múltiplas políticas
que integram e constituem a seguridade social. Não fosse elaborada com essas
ressalvas poderia ser constituída de modo que se pensasse que sozinha ela teria a
capacidade de lidar com os diversos episódios que a questão social impõem às formas
de intervenção estatal. A respeito disso, Boschetti (2005, p. 13) discorre que, na
implementação da proteção social básica, “é um desafio do SUAS buscar articulação
com a proteção social garantida pela saúde, previdência e demais políticas públicas,
de modo a estabelecer programas gerais e preventivos”.
Esse breve esclarecimento a respeito do que se tem avançado e onde
encontram-se os limites da Política de Assistência Social nos permite ter a
possibilidade de compreender que tais movimentos acontecem no núcleo de
atividades mais complexas, nas quais as regras, os fundamentos e os princípios estão
de alguma forma enraizados nos processos das mudanças que tem vigorado,
integrando assim todo o mecanismo que regula as políticas públicas sociais que tem
a finalidade de dinamizar a configuração e o espaço que a Assistência Social ocupa
enquanto endossador da garantia da proteção social brasileira. Em outras palavras, o
direcionamento da política referida é constantemente objeto de disputa por projetos
contraditórios, demonstrando que ainda que se tente modificar os processos da
Assistência Social, o contexto no qual se insere apresenta resistência sempre voltada
à uma política que tem foco no assistencialismo filantrópico.
O desenvolvimento da Assistência social experimenta sua implementação
focada nos processos de seletividade com base nas desigualdades sociais. A partir
do governo Lula houve um extenso investimento nas políticas de combate à pobreza,
incorporando tendências mundiais que visam combate à fome e diminuição da
pobreza.
Tirar as famílias da linha da miséria, combater a pobreza e a fome foram as
principais plataformas de campanhas eleitorais do Lula, bem como dos seus governos
e posterior governo da Dilma. É um projeto político contínuo que beneficia o capital
pela política dos resultados positivos de receitas e despesas do governo, entre outros.
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Diante do exposto é possível observar que os últimos anos houve uma


espetacularização da pobreza, sendo esta um frequente objeto de intervenção, haja
vista que os programas de enfrentamento à mesma são utilizados como capital
político. Os governos petistas, no entanto, embora tenham ampliado, não deram
continuidade à linha do Fernando Henrique Cardoso. “A manutenção da política de
estabilidade econômica, que prima pelo ajuste fiscal e estabilidade monetária, é
combinada com novas formas de intervenção na questão social, do que são
elucidativos os programas assistenciais de alívio da pobreza” (ALVES, 2013).
Manter uma política comprometida com o capital financeiro permite que seja
solidificada em paralelo uma Política de Assistência Social embasada principalmente
na transferência de renda como meio de diminuir as consequências mais danosas que
advém do capitalismo moderno. Os discursos do combate à pobreza são, portanto
essenciais para que seja instituído um pensamento consensual a respeito do projeto
em execução:

O lugar cada vez mais privilegiado que a pobreza assume no debate sobre
política social faz com que as formas assumidas para o enfrentamento da
questão social impeçam a generalização dos direitos sociais. O problema não
está só na prioridade da pobreza enquanto categoria de análise para pensar
as políticas sociais, mas na forma e no tratamento dado aos ‘pobres’, que são
renomeados por suas fragilidades, descontextualizados, deshistoricizados,
aparecendo no discurso tecnocrático reconstituído por um novo tipo de
vigilância moral (MAURIEL, 2012, p. 181).

Essa perspectiva da pobreza traz implicaturas que não podem deixar de ser
observadas pela Política de Assistência social, uma vez que passa a ser dever dela
atender de modo prioritário o combate à pobreza. De acordo com Mauriel (2012, p.
189), a Política da Assistência Social legitimou-se em um momento que as questões
sociais estavam centralizadas no enfrentamento à pobreza, e por esse motivo torna
complexo “o processo de desconstrução simbólica e ideológica da Seguridade
enquanto base para pensar e construir as políticas sociais, dificultando justamente o
caráter intersetorial que tal política deveria ter com as demais políticas públicas”.
Ainda sob essa perspectiva é fundamental a análise de Mota (2008), quando
destaca que as novas diretrizes da Política de Assistência Social estão pautadas não
no direito ao trabalho e a autonomia, mas no sentido de integrar o indivíduo que vive
na linha de pobreza, transferindo renda aos que não estão inseridos no mercado de
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trabalho e mantendo-os como indivíduos ativos no processo de consumo,


teoricamente sendo sujeitos ativos no processo de reprodução da força de trabalho.
Desse modo, pode-se afirmar que esse processo de diminuição da pobreza e
das desigualdades sociais, embora tenha levado à consideráveis avanços, tem se
homologado através de um processo contraditório ao da Constituição Federal de
1988, que preconizava a possível criação de um sistema de seguridade social
universal. O que se tem experimentado no Brasil, na contramão disso é “uma unidade
contraditória no que diz respeito à seguridade social brasileira”. Presencia-se um
processo de privatização da saúde e previdência social e a construção da lógica do
“cidadão-consumidor”, assim como a “centralidade da Assistência Social” (MOTA,
2008, p. 133). Além disso, temos o conhecimento de que centralizar a Política de
Assistência Social em detrimento das demais que estão incluídas na seguridade
social, aliada à ampliação dos seus recursos não se revertem em investimento nas
redes públicas de serviços socioassistenciais públicos de qualidade. Os programas
assistidos por esta política tem sido concretizados através de uma duplicidade de
serviços que ganham variadas vertentes baseadas em programas onde o SUAS atua
basicamente como gestor de diversos serviços socioassistenciais e de outro lado atua
com a transferência de benefícios diretos ao cidadão, principalmente através do
Programa Bolsa Família (PBF).
A partir do momento em que a assistência social se amplifica a partir da
expansão do PBF, enfraquece o próprio SUAS, uma vez que ele preconiza uma série
de restrições à consolidação do SUAS:

Não há recursos suficientes para aplicação na rede de serviços, construindo


equipamentos públicos, estruturados e de qualidade, referenciados nos
planos municipais e nos territórios, assegurando condições de trabalho
aos/às trabalhadores/as da Assistência Social, sigilo no atendimento,
autonomia profissional nos procedimentos técnicos, indo além do plantão e,
de preferência, com salários dignos (BEHRING, 2011, p. 90)

Esse modelo de política de proteção social baseado em políticas de


compensação seletiva de transferência de renda é o modelo padrão através dos quais
os governos estaduais enfrentam a questão social de acordo com as necessidades
de acúmulo de capital. Em outras palavras, deixa-se de investir em políticas que
garantam a autonomia do indivíduo para priorizar-se programas assistenciais.
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DESCENTRALIZAÇÃO DA GESTÃO DE POLÍTICAS PÚBLICAS

A finalidade da descentralização é romper com os padrões da centralização


das ações, gestão e planejamento, que foram consolidados ao longo da história
sobrepondo as ações de órgãos exteriores. Quando a CF propõe descentralizar
através do resgate da Política Nacional de Assistência Social, ela o idealiza através
de diversos âmbitos: na gestão à partir da corresponsabilidade e cofinanciamento das
três esferas governo e da hierarquização das responsabilidades com o comando
único. Também se propõe que essa descentralização aconteça nos processos de
execução, na medida em que se definem os territórios e se estabelecem as parcerias
entre Estado e sociedade civil. Por fim, ela é pensada no compartilhamento do poder
através do controle social, solidificado através dos conselhos, conferências e fundos.

A política de assistência social tem sua expressão em cada nível da


Federação na condição de comando único, na efetiva implantação e
funcionamento de um Conselho de composição paritária entre sociedade civil
e governo, do Fundo, que centraliza os recursos na área, controlado pelo
órgão gestor e fiscalizado pelo conselho, do Plano de Assistência Social que
expressa a Política e suas inter-relações com as demais políticas setoriais e
ainda com a rede socioassistencial. Portanto, Conselho, Plano e Fundo são
os elementos fundamentais de gestão da Política Pública de Assistência
Social (BRASIL, 2004, p. 37).

Sabemos que houve um esforço considerável, que envolveu diferentes


protagonistas, ferramentas e acordos nas mais variadas esferas do governo, no
entanto ainda existem falhas. No âmbito administrativo, os acordos entre os setores
do governo têm conseguido ser realizada, ao menos no no campo quantitativo.

Dentro da estrutura necessária ao município, na efetivação de gestão


descentralizada e participativa, os gestores municipais são partes
fundamentais na implantação e desenvolvimento da mesma, cabendo a eles
dominar as funções gerenciais do planejamento, organização, execução e
controle, necessárias ao alcance da efetividade, eficiência e eficácia (PERES;
ALVES, 2009, p. 86).

No que diz respeito ao cofinanciamento estadual, 65% dos municípios recebem


recursos, destes 44,55 fundo a fundo, 11,4% mediante convênios e 9,1% nas duas
modalidades. No entanto, 35% do municípios relataram o não recebimento. Sob este
aspecto, já percebe-se uma falha substancial no processo da cogestão.
Sobre o suporte à gestão, 60% do municípios receberam no mínimo uma vista
do órgão gestor da política no Estado, mas 40% relatam não ter recebido visita em
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nenhum período. Com relação a qualquer tipo de orientação oferecida pelo Estado
apenas 5% dos técnicos ou gestores municipais da assistência não participaram de
nenhum tipo de atividade.
Quanto ao cofinanciamento municipal verifica-se 64% dos municípios alocam a
totalidade dos recursos destinados para o financiamento de serviços
socioassistenciais no fundo municipal. Os demais municípios 22,8% alocam
parcialmente e 13% não alocam. Comprometendo assim a transparência e
corresponsabilidade na implementação das ações.
No que diz respeito a gestão Financeira, 96,9% do Municípios tem consolidado
o Fundo Municipal de Assistência Social, 2,9% estão em processo de implantação e
apenas 0,2% não dispõem. Mas se analisada a responsabilidade na ordenação de
despesas verifica-se que apesar de 64, 3% dos municípios o responsável é o
secretário municipal, ainda 28,5% doa municípios o controle dos recurso está nas
mãos do prefeito. O que demonstra ainda uma centralização e subordinação dos
recursos às determinações do governo, em que pese a perspectiva do controle social.

Significa acesso aos processos que informam as decisões no âmbito da


sociedade política. Permite participação da sociedade civil organizada na
formulação e na revisão das regras que conduzem as negociações e a
arbitragem sobre os interesses em jogo, além do acompanhamento da
implementação daquelas decisões, segundo critérios pactuados
(RAICHELIS, 2005, p. 42-43).

A descentralização representa uma conquista considerável, ainda que não


tenha sido implantada na totalidade à qual se propõe. Ela também busca dissolver a
cultura enraizada ao longo da história de que os processos precisavam ser
centralizados. Embora, tenha havido um significativo esforço, envolvendo diferentes
atores, instrumentos e acordos nos diversos setores do governo, ainda existem
significativas falhas.
Esse fato ocorre principalmente porque, como comprovou-se no início dessa
análise o processo de descentralização pressupõe condições necessárias, de
cofinanciamento, de capacidade instalada ( espaço físico, recursos humanos e
matérias) articulação da rede socioassistencial. Não basta o entendimento do gestor
e do conselho, pois o processo apresenta inúmeras dificuldades, sobretudo porque
demanda o empenho de diferentes agentes.
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CONTROLE SOCIAL

Analisar este indicador tem importância fundamental no processo de


compreensão de como o SUAS foi consolidado, uma vez que ele está ligado
diretamente a uma característica da base desse processo: a expansão das possíveis
deliberações no planejamento e condução da política.

Elucidamos que os conselhos de assistência social estão inseridos no


reordenamento Institucional da gestão democrática, são parte integrante do
sistema de assistência social, com caráter permanente e deliberativo, em
todos os níveis da federação. Por meio deles, das conferências e dos fóruns
de Assistência Social cumprir-se-á a diretriz constitucional da participação da
sociedade na formulação e controle das políticas desta área (idem, 2010,
p.113).

Sob este aspecto, o poder de decisão deixa de ser apenas do gestor,


viabilizando conciliar a execução da política aos interesses da população, do ponto de
vista da efetivação dos seus direitos garantidos.

Essa ampliação institucional, de um lado, representa um avanço para o


fortalecimento da esfera pública e do controle democrático. Por outro, torna-
se o maior desafio para o fortalecimento das políticas sociais públicas,
particularmente a política de assistência social frente à cultura privatista do
Estado Brasileiro e da exclusão da sociedade civil nos processos de decisão
no Brasil desde os anos de 1930 até 1988 (NEVES; SANTOS, 2012, p. 423).

Dados trazidos no SUAS 103 informam que no que diz respeito ao controle
social do Programa Bolsa Família, em 80,06% dos municípios é feito pelo próprio
Conselho Municipal de Assistência Social ou comissão permanente do CMAS, 0,8%
Conselho de outra instância, 18,02% comitê exclusivo do Programa Bolsa Família.

Significa acesso aos processos que informam as decisões no âmbito da


sociedade política. Permite participação da sociedade civil organizada na
formulação e na revisão das regras que conduzem as negociações e a
arbitragem sobre os interesses em jogo, além do acompanhamento da
implementação daquelas decisões, segundo critérios pactuados
(RAICHELIS, 2006, p. 42-43).

O controle social surge como um outro desafio, ainda que a implementação dos
conselhos tenha apontado como a possibilidade de propor uma nova lógica na

3 http://www.mds.gov.br/webarquivos/arquivo/assistencia_social/Suas10Anos_2015.pdf
13

condição das políticas sociais, ela traduziu-se em novas práticas, apoiadas em lógicas
antigas. A participação é tida no sentido restrito.

Os mais bem preparados também são cidadãos que participam, mas


justamente por terem mais recursos de ação e de organização podem ter
maior peso nas decisões ou condicioná-las unilateralmente. E se algo assim
prevalece, não há nenhuma garantia de que a dinâmica participativa
produzirá decisões coletivas que venham a ter efeitos efetivamente
democráticos (NEVES, 2008, p.157).

Outro ponto que precisa ser observado é a fragilidade das representações,


muitas visando acatar exigências burocráticas, em prejuízo do caráter representativo,
logo “[...] os processos participativos são quase sempre longos e vivem ameaçados
pela inconstância e irregularidade [...] fazendo par com o risco de ilegitimidade das
decisões (NOGUEIRA, 2006, p.156).
A implementação de uma nova cultura política, sobretudo no que refere-se às
possibilidades de ampliação e participação no processo de democratização, parece
pouco expressiva, exemplo disso é o pouco interesse da maioria da população na
participação política efetiva. Constituindo só mais um espaço de democracia
representativa, em detrimento da democracia participativa. Percebe-se então a
existência de um “[...] hibridismo entre o clientelismo e os processos burocráticos, no
contexto brasileiro, uma vez que os dois modelos se fundem e dão continuidade às
práticas clientelistas em nossa sociedade” (NEVES, 2008, p. 55).
As contribuições da autora reforçam os resultados da pesquisa no que refere-
se a consolidação dos conselhos evidenciando a ausência de efetivo controle social.
Neste sentido significa a necessidade de conceber a participação numa perspectiva
ampliada, pautada de conteúdo político, capaz de efetivamente transformar as
relações entre público e privado, bem tratar de forma crítica o processo de
implementação do SUAS, apontando os desafio e fragilidades, bem como
reconhecendo as potencialidades.
A participação dos conselheiros muitas vezes se dá por indicações, os
processos decisórios mais servem para legitimar as ações governamentais do que
propriamente deliberar, uma vez que verifica-se ainda uma falta de conhecimento por
parte dos conselhos dos instrumentos de gestão.
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CONSIDERAÇÕES FINAIS

Mesmo após 18 anos da sua implementação, o Sistema Único de Assistência


Social/SUAS, requer um extenso debate nas esferas que homologam participação de
atores sociais. Isso porque para configurar-se como modelo descentralizado,
participativo e controle social com programas e projetos organicamente articulado as
demais políticas públicas é preciso discuti-lo a partir do envolvimento de todas as
representações das diferentes políticas públicas para que se tenham estratégias que
realmente trabalhem em favor da democracia, do poder de deliberação e a ruptura
com práticas fragmentadas e sobrepostas que subjugam a função do indivíduo na
sociedade.
Dessa maneira, a criação de uma rede de assistência social, prevista na
Política Nacional de Assistência Social/2004, abarca questões representativas que se
não forem solucionadas resultarão em dificuldades e erros que já ocorreram até
mesmo na implementação da LOAS, dentre os quais pode-se citar a falta de
protagonismo nos processos efetivos das políticas públicas, passando a ser órgão
receptor e não regulador, fiscalizador e autônomo.
Os princípios sob os quais estão fundamentados o alicerce do SUAS não
permitem que o mesmo esteja envolvo em jogos de interesses políticos que visam
angariar votos a favor de partido A ou B, ganhando caráter de sistema que visa
favorecer sob a perspectiva eleitoral. Inclusive deve-se ainda estar atento quanto à
proposta de um Sistema Único de Assistência Social semelhante ao Sistema Único
de Saúde/SUS, pois há questões históricas, de infraestrutura, orçamento, equipe
interdisciplinar qualificada, parcerias e características peculiares na construção da
política de saúde, que para ser semelhante vai sem dúvidas, alterar o que está posto.
Idealizar a rede básica e especial de proteção social preconizada na Política de
Assistência social de modo a atender a realidade dos municípios brasileiros nos
possibilita compreender que os serviços e os programas sociais precisam ser
reorganizados e em alguns casos até mesmo realocados por falta de estrutura e
espaço físico, levando municípios maiores a ter maior concentração de demanda e
sobrecarregando o sistema, como ocorre hoje com o SUS.
A complexidade das instituições ora parceiras na operacionalização da
assistência social, apreendida como sociedade civil precisa ser repensada
institucionalmente. Assim como, a estrutura mínima, a qualificação e o conjunto de
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instituições com características laico-religiosas e terceiro setor que atualmente


processam a assistência social, representando a contradição entre direito e
solidariedade.
Assim sendo, as condições objetivas para a eficácia do SUAS precisam ser
repensadas, pois a reestruturação requerida exigirá muito mais do que “as
prestadoras complementares de serviços socioassistenciais tornarem-se co-gestoras
e corresponsáveis na luta por garantia dos direitos sociais, através dos conselhos de
assistência social” (BRASIL. Política Nacional de Assistência Social, 2004).
Deve-se atentar ainda que, o SUS é formado por rede, em que determinados
espaços são demarcados como público e com características como tal, como: postos,
centros de saúde e policlínicas, denominados de atenção básica. Enquanto atenção
secundária e terciária que exige média e alta complexidade, os serviços produzidos
são privados, porém públicos.
Em síntese, o processo de reorganização do SUAS, mesmo sendo tardio não
pode ser viabilizado com procedimentos apresados e interpretação de que, o sucesso
da política de assistência social está condicionado ao sucesso do sistema, como já
começaram a alardear alguns atores localizados nos espaços de poder político.
Construir unidade significa conhecer, enxergar, entender as diversidades pois é delas,
e nelas, que se constroem os propósitos de uma política de proteção social.
16

REFERÊNCIAS

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