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Vivência de Corpo e Alma
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Capa e Ilustração/Edição Fotográfica/diagramação e Layout: Renata Silva e Vivian Souza Entrevista com os prficionais responsáveis pela intervenção: Vivian Souza Entrevista com os pacientes da casa de Saúde Anchieta: Carolina Robortella Pesquisa: Renata Silva

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“...Como repetir, dia seguinte após dia seguinte, a fábula inconclusa, suportar a semelhança das coisas ásperas de amanhã com as coisas ásperas de hoje?...” Carlos Drummond de Andrade

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Agradecimentos
Fazer um trabalho como este requer tempo, disciplina e paciência, mas não apenas vindas de nós, autoras deste livro. Sem as pessoas à nossa volta, com certeza não teríamos chegado ao fim desta etapa. Elas nos deram a força que precisávamos, na hora certa, mesmo com todas as dificuldades do dia-a-dia. Primeiramente, agradecemos aos nossos entrevistados, e também às pessoas que nos ajudaram de todas as formas, para tornar nosso trabalho possível. À nossa orientadora, Helena Gomes, somos eternamente gratas. Sabemos que não é fácil orientar vários grupos ao mesmo tempo, como aconteceu com você. Mas mesmo com esta dificuldade, demonstrou atenção e paciência nas horas mais precisas, nos mostrou o caminho no momento mais difícil, e, o mais importante, soube respeitar nossas idéias, e, por outro lado, quando era preciso nos deu a “bronca” necessária nos momentos de confusão. Agradecemos também à professora Karina Batista, que além de amiga nos deu uma grande ajuda com a diagramação deste livro. Este trabalho significa o fim de uma importante fase de nossas vidas: o final da faculdade. Sabemos que, de agora em diante, como jornalistas formadas, os obstáculos só irão aumentar de tamanho. Não sabemos o futuro que nos espera, mas temos em mente que não chegaríamos até aqui sem a
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confiança e a paciência deles: nossos pais e parentes. À Osvaldo, Suzana, Mariana, Oswaldo e Jenny, família da Carolina; Gercio, Albertina, Cristina, Alynne e Isabella, família da Renata; Carlos, Tânia, Manuela e Vitor, família da Vivian, e a todos os nossos demais familiares, agradecemos todo o esforço feito para que nós chegássemos até aqui. Difícil descrever o quanto vocês nos ajudaram, e o tamanho da gratidão que sentimos... São imensuráveis. Não poderíamos deixar de agradecer aos nossos amigos e namorados, que nos entenderam nos momentos de preocupação, e nas horas de estresse, muitas vezes nos dando palavras de apoio e tranqüilidade em momentos extremamente importantes. Agradecemos também a todos os professores do curso de Jornalismo da Unimonte, e aos nossos colegas de sala, que passaram por este momento conosco nos apoiando com a troca de experiências. E por fim, porém mais importante, a Deus, que nos possibilitou a vida, nos privilegiando com as nossas familias, e essas pessoas à nossa volta, fazendo com que nossa existência fizesse sentido.

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Sumário
Prólogo ..................................................................... 11 Capítulo 1 - O início da nossa história ......................... 19 Capítulo 2 - A influência da arte .................................. 35 Capítulo 3 - Os NAPS ................................................. 51 Capítulo 4 - Os Pacientes ........................................... 67 Capítulo 5 - Luta antimanicomial ............................... 101 Capítulo 6 - A fábula ................................................ 105 Cronograma ............................................................ 109 Arquivo Fotográfico .................................................. 113 Bibliografia ............................................................. 122

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Prólogo

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Os problemas psiquiátricos não fazem parte apenas da recente história da humanidade. Há milênios, o ser humano trava um intenso e cruciante combate com forças mentais até agora pouco conhecidas e, invariavelmente, perde a batalha em meio a conflitos reais ou imaginários. Quando revisamos relatos de épocas remotas e seguimos rumo aos dias atuais, percebemos claramente que a “loucura” sempre esteve, está e provavelmente continuará presente na humanidade. Fato relevante é notar que não há uma relação direta com o fator sócio-financeiro daqueles que desse fel sentem o gosto e os efeitos. Pobres, ricos, negros, brancos, todas as raças, das mais desenvolvidas até aquelas recém-descobertas em meio a florestas ainda virgens, todas as comunidades em todos os tempos têm suas histórias reais sobre esse mal que afeta não apenas quem o sente no corpo e na alma, mas também a todos em seu meio. O assunto é fértil e propicia as mais acaloradas divergências de opiniões, justamente por se tratar de algo que ainda não podemos dominar com a exatidão da matemática, com a comprovação da física e, portanto, sobra espaço para pesquisa e estudos, opiniões e observações sempre valiosas. Várias são as correntes que “entendem” o assunto a seu modo. Alguns pela formação acadêmica e pelos anos no tratamento a pacientes portadores de problemas psiquiátricos. Outros pelas crenças religiosas. Mas, na realidade, o caminho para o entendimento total e domínio do assunto parece ser sinuoso e de difícil acesso. A mente humana, até agora, é algo indecifrável. Passamos do amor ao ódio, do desejo a repulsa, da compreensão ao aniquilamento animalesco de nossos semelhantes de maneira incompreensível. Inconcebível se levarmos em conta que somos seres dotados de capacidade de discernimento e inteligência superior a todas as outras criaturas que conhecemos em nosso planeta. Neste livro, o leitor encontrará um apanhado de fatos diante de um mundo vasto e desconhecido, caminhos trilhados por tantos seres humanos forjados na dor e no sofrimento, no esquecimento e abandono, nas

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internações intermináveis, nos atos desumanos sofridos e praticados, enfim, na vida vazia e intrínseca de alguém cuja mente obscurece o corpo e a alma que anima uma matéria incompreensível. São depoimentos de expacientes da Casa de Saúde Anchieta, propriedade privada que começou a funcionar em 1951. Os internos estereotipados como “loucos” eram torturados, marginalizados e esquecidos desde aquela época. A sociedade os excluía de seu meio. Era cômodo fazer de conta que essas pessoas que sofriam de algum distúrbio mental simplesmente não existiam. Parecia simples, fácil, deixar de lado tantas almas inquietas, subjugadas em um mundo cujo corpo material, bem maior do ser humano, não fizesse a menor diferença no mundo em que nós, “seres perfeitos”, vivemos no esplendor mental. A história da Casa de Saúde Anchieta começou a ser notória em 1989, quando aconteceu sua intervenção pela Prefeitura de Santos. A princípio, a realidade de maus-tratos, conhecida apenas na região, não demorou a ser fato discutido em nível nacional, chegando ao ápice de divulgação quando se tornou assunto de interesse mundial. Conhecido como “Casa dos Horrores”, o local exibia um quadro de superlotação, medicação sem controle, falta de atendimento clínico adequado aos pacientes, aplicação de eletrochoques como meio de tratamento e até o relacionamento pernicioso entre aqueles que deveriam aplicar a terapia e os pacientes da instituição. Casos de abuso de poder por parte dos médicos que deveriam tratar dos pacientes são inúmeros, assim como brigas, descaso dos familiares e até mortes ocorridas no Anchieta. Tudo isto você irá encontrar no decorrer deste livro. O processo de intervenção se iniciou com uma avaliação clínica dos doentes que se encontravam em total estado de abandono. Muitos apresentavam ferimentos infeccionados e casos de desidratação, entre outros problemas. Além disto, as instalações da instituição eram degradantes e assustadoras. Havia cadeados nas portas que davam acesso aos pátios de circulação interna, enfermarias trancadas, dias pré-determinados e horários rígidos para as visitas, falta de chuveiros com água quente e até prisões

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de pacientes no chamado “chiqueirinho” (área de confinamento dos considerados perigosos). Tendo em vista este modo desumano de tratamento, foi acionado, então, um grupo de profissionais de saúde a fim de melhorar as condições de vida daquelas pessoas. Médicos, enfermeiros e pessoas da área da saúde, com poder de fazer muito pela saúde mental, se uniram com o ideal de acabar com aquela situação. A partir da intervenção do Anchieta, foram criados por estes profissionais os Núcleos de Apoio Psicossocial (NAPS), com uma nova forma de tratar os doentes mentais, pioneira no país, que seria depois “copiada” por várias outras cidades. Os pacientes passaram a ser tratados, então, de uma forma completamente diferente, sendo respeitados como pessoas, com acesso aos direitos mínimos que todo cidadão tem, como um local limpo para dormir, roupas limpas e diversas, banhos diários em chuveiros quentes, comida de qualidade. Além disso, começaram a ter acesso à arte, música, passeios pela cidade, participação de eventos. Enfim, os pacientes são tratados como “gente”. Este acontecimento gerou mudanças na cidade, no país e no mundo, servindo de exemplo para muitos outros hospitais. Um fato mostrou que a sociedade está mudando, buscando dizer o que pensa e fazer o mundo melhor, prezando, sempre, a dignidade humana. Uma das autoras do livro, a Carolina, quando tinha 8 anos de idade, acompanhou de perto o momento da intervenção. Ela viveu aquele acontecimento por ser filha de um dos profissionais chamados para fazer a intervenção, a psiquiatra Suzana Robortella, que será apresentada em um dos nossos capítulos. Vários profissionais, que atuaram na intervenção, também foram entrevistados para este livro. Não podemos deixar de relatar o quanto nos apavorou os momentos em que nos víamos em situações parecidas com as vividas por pacientes que recebem tratamento psiquiátrico. Foi então que nos lembramos de um ditado popular que nos tranqüilizou: “de médico e louco, todo mundo tem um pouco”. Todas as experiências vivenciadas por nós enquanto produzíamos este livro serviram para nos deixar seguras na hora de escrever sobre um

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tema que não é apenas complexo, mas também fascinante. Um momento difícil foi quando fomos entrevistar os ex-pacientes do Anchieta. Logo nos veio à cabeça: como será entrevistar doentes mentais? Durante os quatro anos de faculdade, aprendemos que, ao escrever sobre algo, temos que responder às perguntas do “lead”, o primeiro parágrafo da matéria jornalística: que, quem, quando, onde, como e por que. Mas... e quando não temos nenhum destes fatores? O que acontece quando nossos entrevistados provavelmente não sabem falar o que passaram no Anchieta, seja porque não se lembram ou porque sua “doença” não traz à tona o que realmente aconteceu? O que pensar no instante em que o seu entrevistado responde “4 mil anos” à pergunta: “há quanto tempo você esteve em tratamento?” Pessoas perdidas, que não sabem dizer o que pensam, não conseguem descrever o que ocorreu com elas nos momentos tão pavorosos de suas vidas. O que se esconde por trás daquelas vozes dopadas por remédios, das cicatrizes de maus-tratos, das tentativas de suicídio e seus cortes grotescos em rostos, pulsos, no corpo e na alma? Para estes pacientes, todo o sofrimento, a falta de humanidade com que eram tratados no passado, acaba fazendo com que eles mesmos se achem um fardo para a mesma sociedade que os exilou. Perdem a vontade de conseguir voltar a conviver normalmente nas ruas, em meio à coletividade, tentando levar uma vida normal. Tudo isto se agrava com a falta de incentivo e auxílio por parte da família e até mesmo de alguns profissionais da área de saúde. Mesmo assim, os pacientes nos deram um pouco de seu tempo e pensamentos. Nos deram a chance de poder contar, mesmo que apenas em fragmentos, como foi para eles aquele momento tão intenso no Anchieta. Sabemos que não é nada fácil lembrar momentos ruins da vida e muito mais difícil contar para alguém que mal conhecemos um momento tão íntimo, tão sofrido, que, com certeza, não será esquecido. Um dia aqui, outro ali, marcamos hora, conversamos com jeito, explicamos para os pacientes que faríamos um livro sobre a intervenção no Anchieta. Acabamos conseguindo que estes pacientes compartilhassem

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conosco o que foi vivido entre aquelas paredes, hoje envelhecidas pelo tempo e pelo esquecimento, mas não pelas almas que por ali vagaram em dor, angústia, revolta e, com certeza, muito sofrimento em comum.

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CAPÍTULO 1 O início da nossa história

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“Olho a baía de Botafogo, cheio de tristeza. Não acho tão bela como sempre achei. Ao longe, os Órgãos não se vêem; estão mergulhados em névoa. As montanhas de Niterói estão sem o cobalto de sempre; (...) o casario está mergulhado, confuso, não se desenha bem no horizonte. Tudo é triste. O céu muito baixo, cheio de fuligem, fumaça. O pão de Açúcar está emoldurado de nuvens brancas, parecem abaixar do cume. Vê-se o chalé do caminho aéreo. A Urca, também chanfrada, é de uma estupidez diante daquele cenário! A Urca não Muda.” (Lima Barreto) De dezembro de 1919 a janeiro de 1920, o jornalista e escritor Afonso Henriques de Lima Barreto foi internado no hospício Dom Pedro II, primeiro manicômio da América Latina, situado no Rio de Janeiro. Durante essa internação, escreveu sobre toda sua experiência, que deu origem às obras O cemitério dos vivos e Diário íntimo. Ele morreu em 1922, de um colapso cardíaco, aos 41 anos. Pessoas com mentes brilhantes e talentosas, muitas vezes são vistas como perturbadas e incompreendidas desde os tempos mais remotos. Assim como no caso do escritor Lima Barreto, muitos intelectuais famosos e outros talentos anônimos sofriam e sofrem até os dias de hoje com o preconceito da sociedade que não tem entendimento da visão diferenciada da mente de cada ser. Uns nascem com vocação para desenho, outros para exercer a medicina. Bem, não importa qual a ocupação do indivíduo. A verdade é que sempre quando alguém se sobressai com idéias que fogem do comum, do habitual, causam um impacto que leva a um distanciamento por parte dos que se consideram “normais”. Não raro, familiares, amigos e até vizinhos buscam internar pessoas com problemas relacionados ao uso de drogas, sejam elas legais (caso das bebidas alcoólicas) ou ilegais (maconha, cocaína e tantas outras). O caminho encontrado, em geral, ainda é o que termina nas

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casas de saúde. O desconhecimento sobre o assunto, aliado ao sofrimento por que passam e vêem passar alguém tão próximo, levam a pessoa comum a imaginar a internação em tais instituições como a solução ideal para recuperar a sanidade mental daqueles a quem quer ajudar. Por muito, muito tempo, não apenas pensamos assim, como agimos exatamente dessa maneira. Grande engano. Sabemos hoje, felizmente, que há outras alternativas que possibilitam a readaptação, quando não a recuperação total do indivíduo e sua reinserção na sociedade, sem que haja a necessidade de se trilhar os caminhos de antigamente. Grupos de auto-ajuda constituem hoje importante papel na recuperação do indivíduo, auxiliando-o a entender e a buscar a lucidez, o equilíbrio emocional, o autocontrole e, principalmente, como se manter afastado da causa principal de seus males. Os métodos utilizados por tais grupos são tão simples e práticos que, a princípio, é difícil crer em sua eficácia. Entretanto, nem todos obtêm os resultados desejados, já que vários são os fatores que impedem tais conquistas. Podemos, sem constrangimento, citar algumas situações que dificultam ou até impedem a recuperação de pessoas, tais como a recusa absoluta em aceitar e admitir sua doença, a idéia fixa de que é capaz de se controlar diante daquilo que lhe causa os problemas que enfrenta, velhos hábitos e o afastamento precoce das reuniões em grupo. Isto torna o indivíduo, efetivamente, o ser estigmatizado que, com alguma razão, chamamos de “louco”. Por definição, a perda do controle emocional, ainda que temporária, transforma o indivíduo em “louco” aos olhos da sociedade, pois, nesse lapso de tempo, ele pode agir de forma tresloucada, tomando atitudes e reagindo de forma desequilibrada mentalmente. Este comportamento pode lhe causar sérias conseqüências e complicações, colocando em risco não apenas sua segurança e integridade física, mas de todos que atravessam

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seu tortuoso caminho. Há uma variedade substancial de causas para que um indivíduo chegue às raias da “loucura”. A ciência evolui e pesquisa a mente humana a cada novo amanhecer. Portanto, não devemos desanimar diante do quadro desolador da figura de um ser humano tomado pela “loucura”. Antes, devemos crer na determinação dos pesquisadores e cientistas que certamente encontrarão alguma luz capaz de iluminar os obscuros caminhos da mente humana. O tema é simplesmente fascinante e, ao mesmo tempo misterioso, pois podemos conduzi-lo de várias maneiras. Para alguns, a “loucura” é um castigo de Deus. Para outros, é uma provação a ser suportada. Não faltam aqueles que, incrédulos, só vêem os fatos segundo sua própria conveniência. Há, ainda, a ciência que busca, pesquisa, experimenta e desenvolve novos modelos e métodos para encontrar a cura do mal. Nosso desejo é tentar compreender uma determinada época que se tornou um marco na reforma psiquiátrica do país. Por isso, vamos ao tema principal deste estudo: Casa de Saúde Anchieta, de propriedade particular, situada no litoral sul de São Paulo, na cidade de Santos. Fundada em 1951, era o único hospital psiquiátrico da região e abrigava toda a classe excluída e marginalizada pela sociedade da época. O tratamento neste local era, no mínimo, espantoso, além de ser comum encontrar pacientes sendo maltratados ou até mesmo à mercê da própria sorte, sem receber os tratamentos adequados. Em 1989, a situação chegou ao extremo, com três mortes que ocorreram dentro do hospital. No dia 3 de maio, aconteceu a intervenção do Anchieta pela Prefeitura de Santos, sob o comando da prefeita Telma de Souza, do Partido dos Trabalhadores (PT). O processo da intervenção teve início com uma avaliação clínica de todos os pacientes. Muitos estavam com ferimentos infeccionados e também tinham outros problemas de saúde, conseqüência do modo como eram mal cuidados. Fora isso, problemas nas instalações tornavam o local ainda mais perturbador. Era possível se deparar com cadeados nas

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portas de acesso aos pátios. Normalmente, as enfermarias ficavam trancadas. Existia até uma área de isolamento dos internos tidos como perigosos, locais que pareciam prisões e que eram chamados de “chiqueirinho”. Os pacientes eram obrigados a tomar banhos gelados, pois faltavam chuveiros com água quente. A instituição era chamada pela população de “Casa dos Horrores” por vários motivos, como o caos da superlotação, o atendimento clínico precário, a utilização de eletrochoques como forma de tratamento, a falta de controle nas medicações, entre outros graves problemas. Casos de abuso de poder por parte dos médicos, que deveriam tratar desses pacientes, são inúmeros, além de brigas e descaso por parte dos familiares. Era uma verdadeira desorganização. Com todos os problemas que começaram a fugir do controle e se tornaram inaceitáveis, a administração municipal decidiu intervir com o objetivo de resgatar a dignidade dos internos. Neste momento, os pacientes passaram a receber cuidados com o objetivo de reintegrálos à sociedade. A partir daí, foi formada uma comissão que contava com técnicos da Secretaria Municipal de Saúde comandada pelo psiquiatra Roberto Tykanori Kinoshita, representantes da OAB, entidades da sociedade civil, a Comissão de Direitos Humanos e vários veículos de comunicação da cidade. A realidade cruel do Anchieta se tornou de conhecimento geral. Segundo trecho do livro Anchieta 15 anos, de Paulo Matos: “Eram cinqüenta pessoas que tiveram a oportunidade de conferir, naquela hora, o absurdo da situação que descrevemos, daqueles seres. (...) A imprensa descreve o quadro encontrado: homens e mulheres caminhando em círculos ou deitados pelo chão. (...) A maioria não presta atenção e nem tem condições de manter os olhos abertos, por culpa dos medicamentos fortíssimos e eletrochoques”.

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A INSPIRAÇÃO PARA O ANCHIETA
O Programa de Saúde Mental de Santos foi baseado na experiência da reforma psiquiátrica da cidade italiana de Trieste, coordenada pelo psiquiatra Franco Basaglia (1924-1980). O médico teve importante peso nas modificações ocorridas na política de saúde mental da Itália. Basaglia mantinha um movimento que era conhecido como Psiquiatria Democrática, que se preocupava com a humanização do tratamento prestado aos doentes mentais, eliminando todas as formas de confinamento e os métodos abusivos de clinicar. Estudando os conceitos do filósofo francês Michel Foucalt (1926-1984), Basaglia concordava com a idéia de que o manicômio era obsoleto, fruto do iluminismo e do capitalismo. O Serviço Psiquiátrico de Trieste foi reconhecido pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como a principal referência mundial para a reformulação da assistência em saúde mental. E por fim, em 1978, foi aprovada na Itália a lei 180 de Reforma Psiquiátrica, que também é conhecida como lei Basaglia. Alguns profissionais brasileiros trouxeram as experiências de Trieste e observaram ser plausível o tratamento dos “loucos” sem a exclusão social.

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“Por isso o sistema foi À mais completa falência Somando dez em fracasso Zero em eficiência Permitindo que nascesse Uma nova consciência” Manuel Monteiro Literatura de Cordel

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O INTERVENTOR
“É preciso levar a sério o que pequenas desavenças significam para o paciente. Mas o ideal é que a internação passe a ser um sofá amigo e não uma cama de hospital”
Roberto Tykanori Kinoshita, psiquiatra Trabalhou na Casa de Saúde Anchieta em 1989 Entrevista realizada em 19/9/2005

Convidado por David Capistrano, Secretário de Saúde de Santos na época, Roberto Tykanori, com apenas 30 anos de idade, assumiu a defesa da humanização do sistema de saúde mental da cidade. Baseado nas novas técnicas terapêuticas desenvolvidas no Centro Psiquiátrico Regional de Trieste, na Itália, onde passou um ano, Tykanori, deu início ao trabalho conhecido como “A Intervenção do Anchieta”. O psiquiatra foi para Itália quando estava no quinto ano da faculdade de medicina, no início dos anos 80. Em Trieste, ingressou na condição de voluntário da Saúde Mental, acompanhando de perto a reforma psiquiátrica articulada pelo médico Franco Basaglia e aprendendo como lidar com o problema que já havia se instalado por anos no Anchieta. “Tinha gente machucada, com diarréia, infecções, pessoas sem braços de tanto ficarem amarradas”, lembra Tykanori ao se referir ao Anchieta. Ele precisou começar do zero: reorientar profissionais, treiná-los, criar condições para o trabalho. “Nada se resolve na porrada”, explica Tykanori.

ARQUIVO DESORGANIZADO
Quando Tykanori chegou ao Anchieta havia muitos pacientes em condições de receber alta, mas isto não ocorria por que não existia o interesse de reavaliação dos quadros clínicos de nenhum paciente por partes dos profissionais que já trabalhavam no local.

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O arquivo do hospital estava entulhado de envelopes empoeirados com as fichas dos pacientes. A maioria dessas fichas não esclarecia quase nada da história dos internos. “Algumas pessoas foram internadas várias vezes por motivos diferentes, e, no histórico, só constava o motivo da primeira internação”. O paciente entrava no Anchieta e era rotulado com algum tipo de distúrbio psicológico. Sempre que voltava ao hospital, continuava sendo tratado com base no mesmo diagnóstico que havia causado a primeira entrada. Tykanori procurou mudar essa situação. “Uma das nossas maiores preocupações foi a de reconstruir a identidade, a história pessoal dos pacientes”.

A DOENÇA DA INTERNAÇÃO
Muitos dos pacientes haviam perdido totalmente os laços com a sociedade ou não eram mais aceitos por suas famílias. “Essas pessoas se tornaram parte do processo de cronificação da doença mental incentivado pela estrutura convencional de tratamento”, relata Tykanori. As assistentes sociais concentraram seu trabalho na tentativa de colocação profissional desses pacientes. O processo foi lento e complicado, principalmente devido à resistência inicial da sociedade em aceitar alguém que, durante algum tempo, foi rotulado como doente mental. “Os trabalhos interno e externo foram complementares e indissociáveis”, explica Tykanori.

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“A exclusão social, A falta de meio antigo A imposição das regras Por quem não parece amigo Eom vez de curar aumentam As dimensões do castigo” Manuel Monteiro Literatura de Cordel

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EM SITUAÇÕES DIFÍCEIS, A MELHOR ATITUDE: ESCUTAR E APRENDER
“Ninguém bate sem motivo, nem mesmo o louco. Se você apanhar, pode ter certeza que lá no fundo você deu oportunidade para que o motivo, mesmo que banal e sem sentido para muitos. Para o louco houve um bom motivo!”
Fátima Michellet, Assistente Social Trabalhou na Casa de Saúde Anchieta de 1989 a 1990 Entrevista realizada em 22/8/2005

O COMEÇO
A experiência da intervenção foi inovadora para muita gente. Uma incrível lição de doação, competência e, acima de tudo, a descoberta de como trabalhar com pessoas que estão em posição menos privilegiada. Com Fátima, não foi diferente. Na época, havia se formado há somente três anos e tudo era muito novo e desafiador. “Nós fazíamos de tudo”, declara Fátima. Os profissionais mais experientes cuidavam dos mais novos e ajudavam muito para que aprendessem cada vez mais. “A gente podia dizer: eu não sei!”. Quando ela não sabia como fazer alguma coisa, Tikanori dizia: - Não sabe isso, mas sabe outra coisa, então vamos lá! Isto era muito interessante. O assistente social precisa ter bastante noção de cidadania, liberdade, respeito e direito. E isto, com certeza, quem não tinha aprendeu. Fátima já havia trabalhado na área da saúde, mas nunca tinha visto nada parecido com o novo desafio que aceitou. Ela diz que o começo foi muito difícil. Com somente 23 anos, muitas vezes sentiu uma certa invasão corporal com o assédio dos pacientes, que não estavam acostumados com pessoas de fora. Eles a puxavam pelos braços. “Eles pegavam na gente o tempo todo, uns suplicavam pelas famí-

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lias, outros imploravam atenção ou reclamavam. Sempre estavam pedindo algo. Isso é enlouquecedor!”. Fátima confessa que, muitas vezes, sentiu até medo dos gritos e atitudes de alguns pacientes que poderiam agredi-la. “Certa vez, sai correndo em direção à porta e bati desesperadamente. Ela só abria por fora e eu gritava para que Jesus (o apelido do guarda responsável pela porta) abrisse logo aquela porta para que eu saísse e não voltasse nunca mais. Foi aí que Tikanori me chamou pra conversar e tomar um café. Ele me acalmou e fez com que eu ficasse”.

VOLTANDO PARA CASA
Pelo fato de haver muitas pessoas internadas no Anchieta por um longo período sem contato com as famílias, foi instaurada uma comissão de alta. Este era o serviço de reintegração do paciente com a família e a sociedade. Essa comissão de alta iniciou então alguns testes que funcionavam da seguinte maneira: o paciente passava o final de semana em casa e, na segunda-feira, todos se reuniam, família, paciente e profissionais, para uma avaliação. Parece uma coisa muito fácil, porém contratempos existem para que sejam criadas novas maneiras de agir. Sobre o caso de Ercílio, um dos pacientes, vale a pena deixar a própria descrição de Fátima: “Muitas famílias não iam até o Anchieta e a gente não tinha o telefone e endereço de muitas. Então, tínhamos que ir até a casa do paciente que, muitas vezes, nem lembrava onde era. Num certo dia, uma colega foi com o Ercílio procurar a família, que morava em São Vicente. Entraram na perua a assistente social, o motorista e aquele homem de cabelos compridos e chinelão no pé, o Ercílio. Quando a perua do Anchieta parou em frente à casa dele, foi apedrejada pela população. O motorista voltou correndo e eles retornaram para o hospital.

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As pessoas tinham pavor do Ercílio, porque se lembravam dele em crise indo para o Anchieta. Nesta época, o Renato (Di Renzo) começou a trabalhar teatro com o Ercílio que, por sua vez, começou a se sentir com o poder, se sentia artista. Um belo dia, o Renato nos convidou para ir à casa do Ercílio novamente. Domingão, entramos na perua, só que desta vez com um frango assado e um refrigerante. A partir desse almoço, a relação de Ercílio com sua família começou a mudar. Hoje em dia, ele mora com ela no mesmo lugar em São Vicente e trabalha no Lixo Limpo (um programa de reciclagem do lixo) para sustentar a casa. Hoje ele é o cidadão Ercílio”. O processo de reintegração familiar, formulado pela comissão de alta, iniciou um novo seguimento na parte da reintegração social, pois eram cometidas atitudes nada convencionais para que o paciente pudesse voltar ao lar. Certa vez, Fátima chegou a simular com um juiz uma ordem judicial. Ela atendia uma família que tinha uma casa velha e em péssimas condições de moradia. Até pés de feijão brotavam dentro da casa. Um dos filhos dessa família denunciou o pai dele, que foi chamado para uma audiência no Fórum. No dia da audiência, Fátima foi ao Fórum e conversou com o juiz. Pediu para que ele retirasse o processo e simulasse uma ordem para que a família permanecesse unida e não perdesse a casa. O juiz “deferiu” a seguinte sentença: o pai deveria organizar a casa dentro de um prazo e deixar que as pessoas o ajudassem nesta organização.

A DOENÇA ALÉM DA LOUCURA
Havia no Anchieta um paciente bastante polêmico. Vamos chamá-lo de João. Ele veio da Bahia e não tinha parentes na região. Começou a fazer uso de bebidas alcoólicas e foi internado no Anchieta. Lá se deu inicio a melhora de João. Psicologicamente, ele estava cada vez melhor, porém,

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fisicamente, estava definhando. “Um dia, João veio até mim e disse que iria embora para a Bahia, que havia contraído HIV e que queria morrer na terra dele”, conta Fátima. Fátima insistiu para que João ficasse e se tratasse, mas foi em vão. Ele queria somente morrer junto à sua família. João, mesmo doente, estava feliz em poder rever seus familiares e levou para eles vários presentes, roupas e sapatos. Por falta conhecimento sobre a doença, seus parentes queimaram tudo o João havia levado. “Uma cena triste que presenciei foi João voltando da Bahia completamente detonado”, desabafa Fátima. Foi dado início a uma grande batalha. Agora teriam que tratar de João. “Ninguém queria interná-lo porque ele era portador de HIV e era louco”, afirma Fátima. Com a ajuda de muita gente, Fátima conseguiu tratamento para João, que viveu ainda alguns anos, unindo os dois programas, o de AIDS e o de saúde mental.

A INTERVENÇÃO COMO ESCOLA
Atualmente, Fátima, aos 46 anos, diz que aprendeu muito mais do que uma profissão, que aprendeu a viver. Aprendeu a se relacionar melhor com as pessoas e que tem uma ótima experiência de vida para passar para seus alunos na Universidade Católica de Santos, onde leciona. “Procuro contar a historia do Anchieta para os meus alunos logo no primeiro ano em que estão na faculdade. Foi um momento muito intenso e não pode ser esquecido”.

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CAPÍTULO 2 A influência da arte

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Existem diversos tipos de tratamento para pessoas que sofrem de transtornos mentais, mas muitos desses meios são grotescos e desumanos. Não levam em consideração que se trata de indivíduos que merecem receber toda a assistência necessária, com o máximo de respeito e dignidade. Foi pensando em tudo isso que, em 1946, a psiquiatra Nise da Silveira começou a usar a terapia ocupacional como um novo método de tratamento para os doentes mentais. Empregando apenas atividades como pintura, modelagem e xilogravura, fazia com que os pacientes consolidassem seus sofrimentos, angústias e medos. A técnica resultava em uma suavização dos problemas dos que estavam em tratamento. Os médicos conseguiam melhores resultados, fazendo com que a terapêutica com remédios ganhasse uma grande força. Todos os tipos de arte (não apenas as pinturas, mas tudo que envolva a criatividade e a sensibilidade do indivíduo) são de notável importância no tratamento dos que sofrem de algum desvio mental. Nós mesmos podemos notar o quanto é relaxante ouvir uma boa música, escrever um poema, assistir a um bom programa de TV, apreciar, ou até mesmo arriscar fazer um quadro ou uma escultura. Isso nos dá a impressão de estarmos sendo úteis, importantes, nos permitindo expressar nossos desejos inconscientes e libertar nossas mentes, que normalmente estão presas às coisas do cotidiano. O novo procedimento, a Terapia Ocupacional, só foi reconhecido de fato, como tratamento médico, na década de 60. O fundamental para Nise era desvendar qual seria a importância das imagens para os pacientes. E foi exatamente esse fato que a levou a se dedicar e se aprofundar nos desenhos e símbolos feitos por cada indivíduo. A psiquiatra não se conformava com os métodos de tratamento usuais daquela época e resolveu ajudar da sua maneira, mostrando a importância da humanização, afeto e reconhecimento de capacidade de cada paciente. Os trabalhos perpetuados pelos pacientes foram tantos e tão bem recebidos pelo meio artístico que acabaram dando origem ao Museu de Imagens do Inconsciente, inaugurado em 1952, no Rio de Janeiro. Todas as obras foram reconhecidas e participaram de várias exposições

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pelo Brasil e no exterior. Vale ressaltar que o aspecto mais importante era, sem dúvidas, o lado científico do acervo, já que todas as obras expressavam somente imagens do inconsciente de pacientes que, em sua maioria, sofriam de esquizofrenia. O museu tem hoje mais de 350 mil obras e constitui um dos maiores acervos do gênero no mundo. Nise morreu em 1999, mas deixou sua luta e seu intenso trabalho de dedicação aos doentes mentais, o que hoje serve de inspiração para todos aqueles que se interessam por causas humanitárias, justas e nobres. Seu trabalho fica na história da reforma psiquiátrica do País e será sempre uma referência na saúde mental.

JÁ NO ANCHIETA...
A Associação Projeto TamTam, desenvolvida por Renato Di Renzo, teve início no Hospital Anchieta, no ano de 1989, época da intervenção. O trabalho, realizado com base no conceito artístico do ser humano, visava gerar a felicidade e a alegria mental, contribuindo assim para o aumento da qualidade de vida e de saúde mental de toda uma população. Começou com aulas de teatro para os internos do hospital e logo se estendeu para a pintura, música e dança. Quando chegou ao Anchieta, Renato se espantou com a quantidade de pacientes isolados do mundo e resolveu se dedicar a mudar essa situação. A partir daí, a rotina do hospital começou a mudar. O início do trabalho consistia em ganhar a confiança dos pacientes para que eles mesmos pudessem identificar suas próprias vontades e desejos. Começaram a produzir o jornal TamTam Urgente, que tinha oito páginas sobre o hospital. Era uma produção dos ex-internos. Na área da pintura, faziam painéis e coloriam as paredes das alas, o que possibilitava uma real reabilitação e relação entre os internos. Criaram uma grife, a TamTam Line, pintando a mão camisetas que eram cobiçadas por toda população da cidade. Houve também a TV TamTam,

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uma produção de vídeos com o cotidiano do Anchieta, que chegou até a ser premiada em um concurso de vídeos de Santo André. Apenas o primeiro contou com a colaboração de uma produtora. As outras gravações já foram feitas exclusivamente pelos internos e ex-internos. Então, surgiu o principal, a Rádio TamTam, que a princípio funcionava apenas dentro do Anchieta. Mas cresceu tanto que acabou se expandindo e, no dia 5 de novembro de 1990, deixou de ser interna e passou a ser transmitida pela AM. E aqui reproduzimos uma abertura do programa da Rádio TamTam, publicada no encarte da edição nº 257 do jornal D.O. Urgente de 3 de maio de 1990: “A Rádio vem aí! E agora, no ar... Rádio TamTam! A ousadia era tanta que se já não bastasse a TV TamTam e surge então... TamTamratam, Rádio TamTam. A pioneira a transmitir nas ondas malucas de um hospital psiquiátrico, para o mundo dos sãos e também para quem não é. A programação, como não poderia deixar de ser, será bem variada, isso para não fugir à regra. Os equipamentos já estão encaixotados em algum “canto” do hospital. Os locutores afinando suas gargantas. Logo surgirão aulas de dicção, português, mixagem, aulas para disque jóqueis etc etc. Não se surpreendam se um dia, ao ligarem a rádio de seus carros, tiverem o grande prazer de viajar ao lado da agradável companhia de um paciente do Anchieta”. A Rádio era feita de forma simples e bem coloquial, produzida com a intenção de levar a sociedade para dentro da realidade do Anchieta. E nada melhor do que um veículo de comunicação para expressar a nova realidade que começava a fazer parte do dia-a-dia das pessoas. Foi assim, seguindo o exemplo dos projetos realizados por Renato, que

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começaram a surgir em várias partes do Brasil e até mesmo fora do País organizações como Rádio e TV Pinel (Rio de Janeiro), Grupo Biruta (São Vicente), Projeto e Rádio Lokomotiva (Natal) e Rádio La Colifata (Buenos Aires), entre outros. Sem sede fixa desde 1997, a principal ação da ONG TamTam vem acontecendo no Espaço Cultural Café Teatro Rolidei, um multiplicador e mantenedor das atuais ações da ONG. Desta forma, mantém acesa a discussão sobre a exclusão/inclusão social e seus estigmas e rótulos, sob a ótica da arte e de sua ação junto à sociedade contemporânea. Não como terapia, mas sim como qualidade de vida e opção ética e estética na construção de uma nova ordem e na desconstrução dos saberes absolutos e indissolúveis.

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“Quem ‘sabe criar’ e quer é estimulado a isso mas cria com liberdade sem limite ou compromisso porque as regras embaçam da arte o brilho e viço” Manuel Monteiro Literatura de Cordel

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A NOVELA DA RAZÃO
“Quando você está com dor de barriga e vai ao médico, ele não manda tirar a barriga. Ele manda tirar a dor. Com a loucura, é a mesma coisa. Você não tira a loucura e sim a dor. Se arrancarmos a loucura, perderemos sonhos, utopias, a vontade de viver!”

Renato Di Renzo, Arte-Educador e pós-graduado em Pedagogia Trabalhou na Casa de Saúde Anchieta de 1989 a 1990 Entrevista realizada em 17/8/2005

O DESTINO
Convidado pela psiquiatra Suzana Robortella para trabalhar no Anchieta, Renato ficou empolgado com a idéia. Nascido na cidade de Santos, ele teve uma experiência um tanto peculiar com o hospital. Quando criança, Renato morava na rua ao lado do Anchieta e costumava ficar do lado de fora dos enormes muros do hospital ouvindo os gritos dos pacientes. Seus amigos já previam o destino da criança que mais tarde se tornaria um dos grandes contribuintes para a melhoria da saúde mental do País. Em tom de brincadeira, a garotada sempre dizia para Renato: - Você ainda vai acabar parando no Anchieta!

A ARTE COMO VEÍCULO DO DESEJO À VIDA
O modelo de reforma psiquiátrica era muito preso à cidade de Trieste, na Itália, onde este trabalho foi iniciado. No Brasil, ainda faltava alguma coisa. O arranque deveria ser dado, mas precisava ser de forma inovadora. Era preciso criar uma nova cultura. Para Renato Di Renzo, fundador do projeto Tam-Tam, o próprio projeto não passava de uma loucura dentro da loucura. “Tirar pessoas que estão há 18 anos internadas, ou até mais, e recolocá-las na sociedade, é coisa

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de doido! Estávamos quebrando uma cultura já fixada”, lembra. A diferença do que foi feito em Santos para o que era feito no restante do mundo foi uma só: o meio com que a arte foi usada. “Oficinas terapêuticas existem em todos os lugares. Na Inglaterra, por exemplo, há oficinas e comunidades terapêuticas. Trazer artistas para desenvolver um trabalho todo mundo faz. Desde que eu era moleque e ia lá, no Juquery, porque estudava em São Paulo, já existia gente ensinando os doidos a pintar. O grande boom é que encontramos uma nova maneira. Fizemos diferente: colocamos a arte no processo de vida dessas pessoas. Somente aprender a pintar é insignificante. É preciso tirar disso um novo significado para a vida da pessoa”. O movimento artístico não consiste em transformar um paciente em artista para que ele deixe de ser louco e sim para que ele comece a se inovar, com vontade de fazer algo. O importante é recuperar o desejo dessas pessoas. Todo o resto vem junto. “Quando se recupera o desejo, também se recupera o desejo de uma melhor comida, melhor moradia, melhor família”.

A PRIMEIRA CENA
Um dos pacientes perguntou para Renato o que ele tinha ido fazer lá. Renato respondeu: - Teatro! “Ele ficou me olhando com uma cara de quem não tinha entendido. Foi aí que olhei no pátio e vi que tinha uma TV. Então, eu disse: ‘vim fazer novela!’”. A idéia de novela foi entendida imediatamente. Esse mesmo paciente disse que tinha vontade de fazer o papel do Papa. Outro paciente queria ser um pirata. Pronto! Já estava montada a peça. O pirata ia para o Vaticano roubar todo o dinheiro do Papa e fugir de barco. Enquanto uns pacientes montavam um roteiro improvisado, outros as-

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sistiam, surpresos. “Perguntei aos outros se eles haviam gostado do que eu tinha ido fazer lá. Entusiasmados, me responderam que sim”, lembra Renato.

O ENCONTRO
Renato disse aos pacientes que poderiam fazer novela juntos e lhes propôs um encontro. Marcaram, então, um dia, hora e local para que esse encontro acontecesse. Todos que gostariam de participar da cena deveriam estar no pátio perto de um dos muros. “Foi a coisa mais engraçada do mundo. Quando cheguei lá, os enfermeiros estavam todos intrigados porque tinham vários pacientes encostados no muro desde cedo”. Quando o artista disse aos enfermeiros que os pacientes estavam lá porque ele havia marcado um encontro com eles, os enfermeiros gargalharam. Não acreditavam que loucos pudessem respeitar horários e compromissos sem que lhes fosse imposto. “Quando os vi encostados no muro, tive a certeza de que ia dar certo!”, conta Renato. Os acordos eram respeitados porque os pacientes eram, antes de tudo, consultados sobre eles. Estavam começando a se sentir importantes, a perceber que não eram bichos e sim seres humanos. Ainda havia no Anchieta o problema da restrição em juntar homens e mulheres. Os técnicos do local queriam evitar a mistura por receio de envolvimentos emocionais e sexuais. “Eu ia na ala feminina e combinava com as meninas de ir para a ala masculina para desenvolver um trabalho. Quem não tivesse a fim de trabalhar não precisava ir”, conta Renato. Desta maneira, conseguiu, para a surpresa de muitos, integrar os pacientes homens e as pacientes mulheres sem que ocorresse qualquer tipo de problema.

CONTRATO VERBAL
Renato ressalta que o importante para que tudo corresse bem era sempre fazer as coisas marcadas e bem combinadas com os pacientes.

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Certa vez, Renato chamou alguns pacientes e avisou: - Preciso sair para buscar umas coisas. Vou trabalhar. Quem quer trabalhar comigo? Quatro pacientes decidiram acompanhá-lo. No caminho, pacientes perguntou: - Será que a gente pode dar uma paradinha na praia pra fumar um baseado? E Renato respondeu: - Foi isso que nós combinamos? Assim, o paciente não insistiu. “Procuro trabalhar assim. É muito importante manter uma linha de respeito, chamar o paciente pelo nome, ouvir o que ele diz. A gente pode fazer tudo, brincar de tudo, desde que sejamos convidados a entrar no metro quadrado de cada um”, explica Renato. um dos

INFORMATIVO TAMTAM
O Jornal TamTam começou pela necessidade que havia de comunicação entre os pacientes, médicos e técnicos. A comunicação interna em geral precisava de alguma coisa nova que, além de informar, trouxesse inspiração para os pacientes. A elaboração das pautas e dos textos do jornal era feita por Renato, juntamente com os internos. As matérias falavam sobre os acontecimentos do hospital. “Teve um dia em que um açougue doou vários quilos de filé mingnon para o hospital e tivemos um almoço maravilhoso. No dia seguinte, o Ministério da Justiça mandou retirar a carne que havia sobrado. Foi assim que saiu a matéria: O boi deu bode”. Também era publicada no jornal uma agenda sobre os eventos do local. Quando o NAPS 1 (Núcleo de Apoio Psicossocial) foi inaugurado, o pessoal do TamTam pintou todas as paredes do local. Foi quando saiu a edição número zero do jornal, com as ilustrações que enfeitavam, além das paredes do NAPS, as páginas do informativo. Com o passar das edições, o jornal foi ficando cada vez melhor. “Inventamos colagens e várias outras formas de aprimoramento”.

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A GRANDE FESTA
Antes da intervenção, ninguém se lembrava da rua São Paulo, onde se localizava o Anchieta. Muitos nem sabiam que ela existia. Ninguém poderia imaginar que, com a intervenção, se tornaria um local onde as pessoas tinham vontade de passar, de ver e conhecer. Renato se empolga ao relembrar a festa feita em comemoração a um ano de intervenção. “Nós abrimos as portas do hospital. Algumas pessoas que faziam parte do TamTam e eu pintamos o prédio inteiro com várias cores, colocamos plantas na rua, trouxemos a banda do colégio Ateneu Santista, que veio desfilando pelo Canal 2 até entrar na rua São Paulo. Dentro do hospital, a festa teve bolos, preparados com ingredientes cedidos por uma fábrica de farinha. Fizemos churrasco e uma série de coisas. Convidamos todos os parentes dos pacientes internados. Aqueles que já estavam com a família também foram chamados. Foi uma bela festa, com queima de fogos e tudo! O mais interessante é que nenhum paciente aproveitou para fugir”. A festa foi um grande marco na história da saúde mental santista. Havia cartazes nas ruas. A mobilização dos vizinhos foi enorme. Eles ajudaram a pintar o prédio durante a noite, colocavam seus carros em frente ao local com os faróis acessos para iluminar o local, levavam cafezinhos e sucos para quem estava trabalhando na reforma, inclusive para os pacientes, que colaboravam para que tudo ficasse muito bom. “Imagina um bando de loucos, que tomam remédios para dormir, acordados durante a madrugada pintando a fachada do prédio!”.

LOUCURA À SOLTA
Para Renato Di Renzo, o primeiro recurso usado para a desinstitucionalização do hospital foi o de “imitar” a Itália. Mas o que deu certo mesmo foi criar um novo caos dentro do caos já existente. Foi quebrar a barreira do “não”, parar com o “não pode isso” ou “não pode

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aquilo”. Hoje, a loucura está solta em todos os lugares. Existem muitos tipos de depressões e, com isso, a indústria farmacêutica também cresceu bastante. O motivo é que agora existe remédio específico para cada tipo de loucura. “Muitos têm síndrome do pânico. A gente vê a garotada tomando medicamento como se fosse chiclete”, afirma Renato. “Você pode ter uma depressão chamada doença do afeto, que é uma falta de equilíbrio para distribuir seu afeto”. Então, para o artista, a loucura está em tudo e em todos. Qualquer motivo simples pode desencadear uma síndrome. O próprio sistema educacional é uma grande loucura. “A escola que nós temos hoje é uma escola que castra as pessoas. Você pega uma criança na melhor fase no sentido de evolução, quando ela tem toda energia do mundo, tudo funciona, não tem dor na cervical, não tem dor no braço, não tem nada, está tudo fresquinho, e põe trancada numa sala de aula, por cinco ou seis horas, às vezes em período integral. Quando a criança chega em casa fica mais umas oito horas em frente a uma televisão ou um computador. Colocam na escola um monte de psicólogos. Qualquer coisa que a criança faça é desvio de comportamento e, na verdade, nada mais é do que uma manifestação de criança. Isto é castrar, é amordaçar a loucura”.

A LOUCURA COMO FUGA
Renato explica que afetos e carinhos são bons para o indivíduo em qualquer situação. Ser lembrado, independente da maneira que for, é o mais importante. Tanto faz para uma criança ser colocada de castigo ou ser elogiada. A professora se lembrou dela: ou porque é boa ou má. Isto também acontece com as crianças de rua. “As pessoas têm medo do moleque de rua, mas ele sabe que, de alguma maneira, desperta a atenção de muitos, seja por medo, desconfiança ou até mesmo dó. Ele é lembrado”. Também é costumeiro ouvir a frase: - Coitadinho do louco...

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Mas, se pensarmos de outra maneira, poderemos entender um pouco do motivo pelo qual um indivíduo enlouquece. “Eu não tenho coisa alguma, mas passo a ter a partir do momento em que enlouqueço, começo a ter assistência, a colocar medo, a ter poder, a ser classificado. Como louco, todos têm uma classificação na sociedade. Agora sou o louco esquizofrênico no quarto número quatro. Sou uma porcentagem! A pessoa consegue uma requalificação através da dor”. A padronização das pessoas é feita porque é muito mais fácil para classificálas. “Ninguém vai para um baile para dançar com o mais feio. A gente aprendeu que existe um padrão e temos que seguir. Hoje, o homem tem que tirar os cabelos do peito. Teve uma época que pêlo no peito era sinal de virilidade. As mulheres adoravam”.

CAFÉ TEATRO ROLIDEI
Atualmente, a ONG TamTam não tem sede própria. Seu único mantenedor é o Café Rolidei. Trata-se de um espaço de cultura, onde cerca de 500 pessoas, por final de semana, se reúnem para dançar e assistir a peças elaboradas pelo grupo teatral Orgone. O Café fica dentro do Teatro Municipal de Santos, em um cantinho bem escondido. “Vários empresários olharam esse lugar e disseram que era um lixo, que nada poderia ser feito. Então eu disse: ‘me dá que eu quero!’”. Renato esclarece que a primeira tentativa desse tipo de bar foi feita na época em que o ex-prefeito de Santos, David Capistrano ainda era vivo. Mas o bar que se chamava ZAZARAZÁ não durou muito, apenas quatro meses. O lugar era muito sofisticado e faltava uma pitadinha de loucura. Agora o Rolidei é conhecido por muitos em Santos e até mesmo nas cidades vizinhas, o que traz ótimas perspectivas para a ONG TamTam, já que os lucros do local são revertidos para a entidade. É interessante ressaltar que os atores são os garçons, faxineiros, divulgadores. Eles fazem todos os tipos de serviços voluntariamente e são dirigidos por Renato.

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COMO RENATO DI RENZO ESTÁ HOJE?
“O Renato continua do mesmo jeito que era naquela época do Anchieta, só que com menos cabelos. Continuo trabalhando muito”. É assim que Renato descreve sua vida atual. Além da ONG TamTam, ele dirige a escola de teatro da Secult. Aos 52 anos, ele diz: “poucas pessoas da minha idade podem dizer que fizeram coisas que as deixasse bem. Eu posso”.

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CAPÍTULO 3 Os NAPS

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Era necessário dar continuidade aos cuidados dos doentes mentais, ao mesmo tempo em que se buscava encontrar algum meio de melhorar e modificar o modelo até então existente. Foi assim que teve início a criação de uma nova proposta: os Centros de Apoio Psicossocial (CAPS), que cuidam da assistência aos pacientes, e os Núcleos de Apoio Psicossocial (NAPS), que, além dos pacientes, cuidam também de suas famílias e de toda a sociedade. Existe ainda o Selab, um Serviço de Abrigo, para os pacientes com casos crônicos . Estes pacientes são muito mais graves do que os dos NAPS. O principal objetivo era inovar no tratamento, que não seria mais de internação e exclusão, mas sim de uma readaptação com a sociedade, pois havia ficado evidente a ineficiência do antigo modo de tratamento. Os CAPS e NAPS são baseados no trabalho em equipes formadas por profissionais de diversas áreas dentro da saúde, assim como psiquiatras, psicólogos, assistentes sociais, enfermeiros, musicoterapeutas, auxiliares de Enfermagem, visitadores domiciliares e monitores de oficinas. As responsabilidades são distribuídas igualmente e cada um exerce um papel importante no desenvolvimento individual dos pacientes. A organização deste novo meio de tratamento também contou com a comunidade e, principalmente, com a família dos que necessitam desses serviços. Hoje é possível encontrar unidades dos CAPS e NAPS beneficiando vários estados e municípios do Brasil, como São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Ceará, Bahia, Paraná, Paraíba, Goiás e Pernambuco.

NA CIDADE DE SANTOS
O primeiro NAPS a ser inaugurado foi o da Zona Noroeste em 1989. O tratamento era destinado aos internos da Casa de Saúde Anchieta. No início do programa, coube aos assistentes sociais uma pesquisa intensa e aprofundada tanto sobre a situação dos pacientes quanto de seus familiares. Este núcleo também contava com acompanhamento psiquiátrico com o propósito de ir liberando gradualmente os doentes, para que estes continuassem o tratamento

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fora do estado de internação. Outro benefício oferecido pelo NAPS era a preocupação em proporcionar procedimentos terapêuticos apropriados para conter as crises sofridas pelos pacientes, oferecendo abrigos temporários aos que não fossem capazes de ficar em suas casas. Depois da unidade da Zona Noroeste, foram organizados mais quatro núcleos que ficam nos bairros Encruzilhada, Boqueirão, Vila Mathias e Campo Grande. Eles oferecem os mesmos recursos. As unidades oferecem diversas atividades artísticas que visam possibilitar e incentivar o lado criativo e produtor. Há a possibilidade do paciente passar o dia todo no núcleo e retornar para casa apenas para dormir, ou o inverso também. Não podemos deixar de mencionar que essas pessoas têm necessidades especiais e diferenciadas, o que torna o trabalho mais intenso e personalizado. Vale deixar registrado a Lei 10.216, sancionada em 6 de abril de 2001, pelo deputado Paulo Delgado (PT), cuja maior importância é a descrição dos direitos concebidos às pessoas que sofrem de transtornos mentais. “- Proíbe a internação em instituições com características asilares (hospícios e manicômios, por exemplo). - Determina a necessidade de autorização médica para internação. - Exige a notificação compulsória do Ministério Público, no prazo de 72 horas, em caso de internamento contra a vontade expressa do paciente. - Diagnóstico e terapia passam a depender de autorização do paciente ou de seu responsável legal”.

E O ANCHIETA?
Aos poucos, os pacientes da Casa de Saúde Anchieta foram sendo encaminhados para os NAPS e Selab. O prédio onde funcionava o hospital ainda existe. Hoje, inúmeras famílias moram no local, que foi transformado em cortiço.

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“Quem quiser que seu doente volte logo ao gozo da razão pode aplicar-lhe na veia amor e compreensão que a resposta será breve recuperação” Manuel Monteiro Literatura de Cordel

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UM NOVO CONCEITO EM PISIQUIATRIA
“É possível ficar louco, o que não dá é para ficar na solidão!”
Suzana Robortella, Médica Psiquiatra Trabalhou na Casa de Saúde Anchieta em 1989 Trabalhou no NAPS de 1989 a 1992 Entrevista realizada em 7/9/2005

MEMÓRIAS
Os maus-tratos que os pacientes do Anchieta sofriam não marcaram somente a vida deles. Também deixaram muitas “marcas” em quem passou pelo local para intervir na selvageria indiscriminada. Este é o caso de Suzana, hoje com 29 anos de psiquiatria, que lembra fatos mais do que emocionantes do ano de 1989, quando trabalhou na desativação do Anchieta e na criação do primeiro Núcleo de Apoio Psicossocial (NAPS). O primeiro contato de Suzana com o hospital psiquiátrico havia sido anos antes da intervenção, como estagiária, quando estava no quarto ano da faculdade de medicina. É interessante ressaltar que maus-tratos não prejudicam somente quem os recebe, como também quem assiste a eles. Um grande exemplo disso é que Suzana apagou da mente a fase em que foi estagiária, guardando somente uma lembrança: mulheres colocadas contra uma parede, todas nuas, com os cabelos raspados, enquanto uma funcionária do local dava banho nelas com uma mangueira de água fria. “A imagem era semelhante à imagem de um campo de concentração”, explica.

O CONVITE
Suzana não trabalhava no Anchieta no início da intervenção, mas se lembra com exatidão da data em que voltou a pisar no local. Um mês após

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o começo da desmontagem do hospital, no dia 21 de junho de 1989, Suzana deu o primeiro passo para uma nova experiência profissional, que também trouxe mudanças em sua vida pessoal. Antes, ela trabalhava na psiquiatria do Hospital Guilherme Álvaro, existente até os dias atuais. Como não havia certeza se o proprietário do Anchieta conseguiria reverter a intervenção municipal na justiça, Suzana não sabia se seria de fato contratada pela Prefeitura. Corria o risco de ficar sem emprego. Porém, ao receber a proposta para trabalhar na intervenção, Suzana se viu com uma grande oportunidade nas mãos.

DESAFIANDO A FORMAÇÃO ACADÊMICA
Na época com 13 anos de profissão, ela estava acostumada ao conceito aprendido na faculdade: as pessoas com problemas mentais tinham que ficar trancafiadas e, muitas vezes, amarradas. Como viveu o período da ditadura, a idéia de abrir as portas dos hospitais, criar uma comunidade terapêutica e disponibilizar novos serviços era uma coisa totalmente diferente da que estava acostumada. Suzana chegou no Anchieta no dia de uma festa junina. Foi quando conheceu o psiquiatra italiano Franco Rotelli, que vinha sempre dar palestras e contar suas experiências na cidade de Trieste, na Itália. “Tudo era muito interessante. Poder sair às ruas e fazer passeata no dia da luta antimanicomial, ver um novo movimento libertário e, acima de tudo, estar junto com os pacientes”, diz Suzana.

PACIENTE TAMBÉM ENSINA
A convivência com os pacientes foi um grande marco na vida de Suzana. Foi a partir daí que seus conceitos começaram a mudar. “Eles me perguntavam: ‘doutora, já tomou sua medicação hoje?’. Me confundiam com eles. Esta proximidade me ensinou muito do que eu sei. Talvez mais do

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que a faculdade tenha me ensinado. Foi esse aprendizado que eu tive com os pacientes no dia-a-dia. Aprendendo a respeitar, ouvir, entender os motivos deles”. Às vezes, Suzana achava que era necessária a mudança de medicação, mas, se o próprio paciente não concordava, então ela voltava atrás ou esperava um tempo para que ele entendesse e se acostumasse com a mudança. Esta aproximação era muito importante para o relacionamento médicopaciente. Fazia com que eles confiassem uns nos outros. O tratamento poderia, assim, seguir com mais tranqüilidade. Melhores resultados eram obtidos. “Ao invés do doutor que é o dono da verdade, que sabe o que é melhor para o outro, eu consegui encontrar o lugar de quem está junto, porque é o que realmente funciona”. Suzana diz que aprendeu muito e que todos os profissionais envolvidos com a intervenção tiveram ganhos na vida pessoal. As relações se estreitaram, muitas pessoas se conheceram, houve casamentos e nasceram crianças, estas chamadas de “filhos da intervenção”. Para a médica, a explicação deste acontecimento é que todo esse processo foi muito enriquecedor. As pessoas estavam mais abertas e sinceras, o que fez com que ocorressem muitas possibilidades afetivas.

AS DIFICULDADES
O fato de existir uma batalha jurídica era um dos maiores obstáculos ao sucesso da nova proposta terapêutica. Por três vezes, a justiça decretou o final da intervenção. “A gente tinha que sair do hospital, voltavam os antigos administradores, voltava tudo ao que era. Havia nisso um sofrimento muito grande, por parte dos pacientes e da gente, porque não conseguíamos colocar o trabalho para funcionar”, conta a psiquiatra. A notificação da terceira decisão judicial que ordenava a saída dos interventores, por algum motivo, não chegou às mãos do responsável. Houve uma comoção geral por parte da comunidade, pacientes e profissio-

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nais em geral. Como o comunicado oficial não foi feito, ninguém saiu do hospital. “A gente achava que não deveria sair para não colocar em risco a vida dos pacientes, o projeto que estava se desenvolvendo, porque a gente acreditava muito que valia a pena”. As pessoas iam se revezando, passavam a noite junto aos pacientes, tudo para não correr o risco de não poder continuar o trabalho. “A gente ficava lá, mas também havia voluntários, gente de todos os lugares, sindicatos, igrejas, estudantes e vizinhos, ao invés das pessoas quererem sair de lá, todo mundo ia entrando!”. Suzana conta que o papel da imprensa no caso foi muito importante. As emissoras de TV exibiam em sua programação o drama do Anchieta, os jornais publicavam todo o processo da intervenção, fazendo com que houvesse uma comoção geral e apoio em nível nacional, o que dificultava o decreto do final da intervenção. “Acho que o apoio da imprensa foi determinante para que as coisas pudessem continuar”. Enquanto essa notificação não era feita oficialmente, foi tramitando outro processo paralelo em instância superior da Justiça, que deferiu a intervenção de uma vez por todas.

ZONA NOROESTE
O Núcleo de Apoio Psicossocial 1 (NAPS 1) foi montado em cima de um posto de saúde na Zona Noroeste. O preconceito por parte as pessoas que trabalhavam nesse posto de saúde era muito grande. “Me lembro de uma faxineira que não queria limpar os colchões, para que os nossos pacientes dormissem. Ela dizia que limpar colchão de louco a faria pegar a loucura”, diz Suzana. Fazer com que a comunidade da Zona Noroeste aceitasse seus doentes de volta não foi uma tarefa fácil. “Ninguém mais os conhecia”. Suzana fez jus à expressão “dar um jeitinho brasileiro”. O marido dela possuía um Fusca. Então, ele guiava o seu veículo para alguma praça ou rua e exibia o vídeo que tinha sido feito na intervenção. “Ele parava em

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frente às igrejas, praças, qualquer lugar que tivesse gente. As pessoas assistiam e a gente promovia um debate sobre o assunto. Era incrível a reação e a tristeza das pessoas”, relembra Suzana. Durante bastante tempo, também foram realizadas no NAPS reuniões, festas e bailes. Os moradores da área sempre estiveram presentes. “A Zona Noroeste era muito carente de atividades de lazer e a gente proporcionava isso para a comunidade”, explica. Como a comunidade ia ao NAPS para ter esse momento de lazer, segundo Suzana, era inevitável o contato com os loucos. Aos poucos, as pessoas foram aceitando os novos vizinhos. Mesmo com todas as dificuldades, as coisas estavam acontecendo bem. A Prefeitura estava ao lado dos interventores, o que fez com que os pacientes pudessem freqüentar as escolas públicas, trabalhar e se integrar à sociedade novamente. “A gente teve que tecer de novo o tecido da vida social das pessoas. Estava tudo esgarçado”.

RELATOS DE AJUDA
Suzana diz que os pacientes a ajudavam bastante no tratamento de outros pacientes. A própria médica nos conta como: “A primeira experiência marcante que eu tive no NAPS foi com uma jovem paciente. Ela estava grávida e não podia tomar medicação. E, para piorar, tinha um problema cardíaco. Essa paciente estava muito acelerada, andava pelo corredor de um lado para o outro. No corredor tinha umas pinturas que alguns pacientes fizeram com o Renato Di Renzo, criador do projeto TamTam. Na primeira fase do TamTam, os desenhos eram todos escuros. Havia várias cores, vermelho, azul preto, mas todas muito fortes. A paciente grávida cismou que o desenho da parede era um demônio e isso fazia com que ela ficasse mais agitada. Ela

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esmurrava o demônio, ficava muito brava. A gente tinha que ficar andando com ela para frente e para trás, sem saber o que fazer. Ela descia as escadas, ia para o posto de saúde, e lá estavam pessoas da comunidade, mulheres grávidas, mães com bebês, pessoas que estavam fazendo algum tratamento. Tínhamos medo de que ela fizesse alguma coisa com essas pessoas. Eu não tinha uma equipe de profissionais grande, ninguém queria trabalhar lá. Eu cheguei a ser uma médica para 300 pacientes. Não tinha muita gente para ajudar nesses casos. Um outro paciente do NAPS ficou muito preocupado e deu uma sugestão: - Vamos pegar um lençol e cobrir o desenho. O paciente mesmo foi e cobriu a parede. Conversou com a paciente grávida, dizendo que o demônio tinha ido embora. A partir daí, ela começou a se aquietar. Outro acontecimento em que precisei da ajuda de paciente foi durante um plantão. Eram umas oito horas, o pessoal da noite não tinha chegado e o do dia tinha ido embora. Eu estava sozinha com os pacientes. Já estava chegando a hora de servir o jantar. Enquanto eu estava resolvendo o jantar, tinha uma paciente em crise e chegou uma outra no posto de saúde quebrando tudo. Ela entrou no consultório dentário e começou a quebrar todos os vidrinhos, os ferrinhos, as cadeiras. Eu, lá de cima, ouvia a quebradeira lá embaixo. Tinha que resolver as coisas e estava com a paciente em crise junto de mim. Me lembro que ela dizia: - Estou mal, estou em crise. E eu disse para ela: - Olha, tem alguém lá em baixo quebrando tudo, e essa pessoa está pior do que você. Então, você não quer descer comigo pra

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ver o que está acontecendo? Descemos, a paciente e eu. E combinei com ela: - Como você está melhor do que ela, vai lá e a segura, pois amanhã a gente vai ter que dizer para a diretora por que o consultório está quebrado. Vou levar uma bronca. A gente não pode deixar ela continuar quebrando tudo! E nós fizemos isso. Foi uma doida em crise que me ajudou a tirar outra doida em crise do consultório dentário”. Este relato mostra como é possível o médico fazer parcerias com os doentes. “Quando a gente pede ajuda e eles percebem que a gente está do lado deles e que eles são úteis, são muito leais e fiéis. Eles ajudam para valer”. Suzana diz que muitos de seus pacientes viraram seus amigos.

COMO ESTÁ SUZANA HOJE?
Aos 52 anos, Suzana fica bastante feliz em falar das suas lembranças da intervenção. Atualmente, coordena o Centro de Apoio Psicossocial (CAPS) de Diadema, em São Paulo.

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“Hoje os especialistas Já têm plena conciência Que os distúrbios mentais Poderão ser consequência Do estresse progressivo Do pavor da violência” Manuel Monteiro Literatura de Cordel

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RESGATANDO DIREITOS PARA A LIBERDADE RACIONAL
“É necessário transformar as relações que existem entre as pessoas com a experiência do sofrimento psíquico e suas redes sociais, para que não pareça que só o louco é o problema, quando a sociedade também está neste contexto!”
Maria Fernanda de Silvio Nicácio, Terapeuta Ocupacional Trabalhou na Casa de Saúde Anchieta em 1989 Trabalhou no NAPS I de 1989 a 1996 Entrevista realizada em 15/8/2005

VINDO PARA SANTOS
Na época da intervenção, Fernanda fazia parte da Plenária dos Trabalhadores de Saúde Mental de São Paulo. E foi pela Plenária que ela acabou indo trabalhar no Anchieta. “Quando foi decretada a intervenção, eu comecei a vir para Santos. Na época, eu vinha uma ou duas vezes por semana”, conta a terapeuta. Em 1989, Fernanda também era professora do curso de Terapia Ocupacional da Universidade de São Paulo (USP), onde leciona até hoje.

POSSIBILIDADES DE INOVAÇÕES
Surgiu em Fernanda a idéia de agrupar suas atividades. Então ela articulou na universidade um trabalho chamado de extensão ao serviço à comunidade. Os alunos vinham uma vez por semana estagiar no Anchieta. Porém, este projeto não durou muito. “Era um tempo pequeno semanal e também foi um tempo pequeno em termos de duração, porque logo fui fazer um trabalho muito maior no NAPS (Núcleo de Apoio Psicossocial)”, explica Fernanda. Entretanto, por causa de um convênio mantido entre a USP e a Prefei

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tura de Santos, os alunos continuaram a estagiar na cidade até 1996. Em setembro de 1989, quando foi criado o primeiro NAPS, Fernanda se envolveu totalmente nesse novo trabalho. “O NAPS é um lugar muito intenso. Procurávamos manter todas as relações bastante abertas, interagindo com os pacientes”, conta Fernanda. Ela conta que exisita a preocupação de fazer com que não fosse criado um manicômio de portas abertas, já que a internação hospitalar para os pacientes em estado mais graves ainda era mantida. ”Os NAPS deveriam representar a base do novo sistema de Saúde Mental”, justifica Fernanda.

RELACIONANDO A VONTADE
Desenvolver relações era um dos maiores objetivos da terapeuta. “A idéia de transformar as relações das pessoas no geral, para que elas tenham participação igual a do resto da sociedade, fazia com que se iniciasse um processo de verificação dos meios de desejo”, conta Fernanda. Um bom argumento para o resgate das relações é construir junto com os familiares a capacitação pessoal do paciente. Mas o que fazer? Pensar em projetos terapêuticos a partir da necessidade de cada um. Para Fernanda, é assim que se deve tratar o louco. “É claro que estes projetos são bastante complexos, mas a questão fundamental é tentar pensar em emancipações”, explica. “O direito de ser acima de tudo cidadão, de fazer parte da sociedade e mais ainda o direito de ter direitos é o que deve ser resgatado”.

O RESGATE
Para Fernanda, o primeiro passo é pensar a partir da reconstrução da história do indivíduo, do seu jeito de estar no mundo. “Encontrar aquilo que o indivíduo tem, mas não sabe”, argumenta a terapeuta. O paciente precisa produzir e sentir que tem valor social. Aí são várias as possibilidades. “Para algumas pessoas é a arte, o trabalho ou a recons

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trução de suas relações. E também voltamos na questão do direito, por que na discussão com o louco existe uma série de questões em que ele não tem direito”, explica Fernanda.

TRABALHAR COM AMOR
Fernanda Nicácio se envolveu totalmente no processo de intervenção da Casa de Saúde Anchieta até chegar à supervisão do NAPS. Hoje, aos 46 anos, ela foi bastante receptiva quando convidada a relembrar de todo processo de reestruturação da saúde mental santista. A paixão com que fala de seu trabalho é surpreendente. “Foi para isso que me formei!”, comenta, entusiasmada. Sua tese de mestrado foi baseada na experiência da intervenção do Hospital Anchieta. Experiência que ela descreve em sua tese como: “Uma experiência na qual mergulhamos, tecida por muitas mãos, paixões e loucuras...”.

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Capítulo 4 Os Pacientes

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Arte: Rodrigo Stipp; Foto: Vivian Souza

Frigidez do Ser Em meio a tanta gente, Me sinto tão sozinha. A caminhar nesse beco, estreito e escuro. Sinto o gosto gelado em mim, nesse beco, Beco gelado e seco. Com jeito manso e largo de ser Indo fundo em mim. Gosto de ser paciente. Pois a calma é dos pacientes. Pois a paciência traz a paz. Paz tranqüila do ser. Paz que me traz a calma e a paciência, De viver todo dia, os momentos futuros. Rita Moreira de Oliveira Paciente psiquiátrica

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UMA SENHORA MUITO VAIDOSA...
Júlia (nome fictício), 76 anos, paciente do Anchieta de 1970 a 1989 Atual paciente do Serviço Lar Abrigo (Selab), em Santos-SP Entrevista realizada em 23/8/2005

Júlia chegou até nós com a maior timidez, mas disposta a nos dar atenção. “Vocês vão me entrevistar mesmo?”. Super preocupada com o visual, pediu para esperarmos enquanto ela passava um batom nos lábios. Júlia, com 76 anos, é a mais vaidosa dos pacientes, segundo os funcionários do Selab. Sempre com uma bolsa a tiracolo, roupas arrumadas, cabelo penteado, mesmo sabendo que não vai sair daquele local tão cedo, Júlia faz questão de estar bela. No decorrer da nossa entrevista, percebe-se que tudo isso faz muito bem. Ela cuida de si, mesmo longe de sua família e amigos. Júlia sabe muito bem se virar sozinha, mas não foi sempre assim. Aos 47 anos, foi internada na Casa de Saúde Anchieta, com o diagnóstico de depressão. “Meu ex-marido me colocou lá porque eu estava doente, depressiva”. Ela não culpa o marido. Não guarda rancor, não reclama. É um exemplo de força de vontade. Pelo pouco tempo que passamos com Júlia, já nos sentimos bem. É uma pessoa com um astral incrivelmente positivo, que gosta de conversar, de falar sobre sua vida. Apenas uma coisa a incomoda muito: a dificuldade que tem de falar, pois, para quem a ouve, é preciso fazer uma força para entendê-la e estar sempre olhando para os seus lábios, a fim de realmente identificar o que diz. Algumas vezes, em nossa entrevista, Júlia repetiu três ou quatro vezes a mesma coisa para que a entendêssemos. A impressão que tivemos ao entrevistá-la é que a única coisa que a impede de sair daquele local e viver normalmente é o seu modo de falar, pois ela é totalmente “sã” do que diz, lembra-se de tudo o que aconteceu com ela, dentro do Anchieta e fora dele também. E fala muito bem das pessoas que tratavam dela após a

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intervenção. O que ela não lembra com gosto é do modo como era tratada no Anchieta antes do fechamento da Casa dos Horrores... A chegada “Foi na Copa de 70, no mês de julho”, disse Júlia sobre a primeira vez em que esteve no Anchieta. “Eu tomava remédio três vezes por dia. Falavam que era pra eu ficar boa”. Segundo o livro Manicômios, Prisões e Conventos, de Erving Goffman, o processo de chegada do paciente ao manicômio (chamado pelo autor de processo de admissão) é dividido em várias fases. Desde este momento, já se percebe que a pessoa começa a perder as suas características individuais devido aos maus tratos: “O internado descobre que perdeu alguns dos seus papéis em virtude da barreira que o separa do mundo externo. Geralmente, o processo de admissão também leva a outros processos de perda e mortificação. Muito frequentemente verificamos que a equipe dirigente emprega o que denominamos processos de admissão: obter uma história de vida, tirar fotografia, pesar, tirar impressões digitais, atribuir números, procurar e enumerar bens pessoais para que sejam guardados, despir, dar banho, desinfetar, cortar os cabelos, distribuir roupas da instituição, dar instruções quanto a regras, designar um local para o internado”. Segundo o autor, os processos de admissão podem ser chamados de “arrumação” ou “programação”, pois, ao ser “enquadrado”, o novato admite ser conformado e codificado em um objeto que pode ser colocado conforme as regras do local, modelado suavemente pelas operações de rotina. “Muitos desses processos dependem de alguns atributos – por exemplo, peso ou impressões digitais - que o indivíduo possui apenas porque é membro da mais ampla e abstrata das categorias sociais, a de

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ser humano. A ação realizada com base em tais atributos necessariamente ignora a maioria de suas anteriores de autoidentificação”. Ainda segundo o autor, “os processos de admissão e os testes de obediência podem ser desenvolvidos numa forma de iniciação que tem sido denominada ‘as boas-vindas’ - onde a equipe dirigente ou os internados, ou os dois grupos, procuram dar ao novato uma noção clara de sua situação. Como parte desse rito de passagem ele pode ser chamado por um termo como ‘peixe’ ou ‘calouro’, que lhe diz que é apenas um internado, e, mais ainda, que tem uma posição baixa mesmo nesse grupo baixo. O processo de admissão pode ser caracterizado como uma despedida e um começo, e o ponto médio do processo pode ser marcado pela nudez. Segundo Goffman, outro momento que marca muito esta desfiguração das características do paciente é a perda da identidade, pois em alguns manicômios, os pacientes não são chamados pelo nome”.

NÃO DOÍA...
Além dos remédios, que na sua maioria serviam para dopar o paciente para que este ficasse mais fácil de ser manipulado, Júlia passou por um momento vivido pela maioria dos pacientes entrevistados por nós: o eletrochoque. “Eles colocavam borracha na minha boca, na hora do eletrochoque. Não doía, mas não me falavam pra que servia aquilo”. O tema eletrochoque gera muitas discussões entre pessoas da área de saúde. Alguns especialistas defendem este tipo de tratamento, mas as pessoas envolvidas na intervenção do Hospital Anchieta são contra, em sua maioria. Segundo o interventor Roberto Tykanori, o eletrochoque para alguns serve como forma de punição. Neste caso, uma mesma sessão de eletrochoques é dada várias vezes ao paciente para que ele fique “abobalhado” e sem vontade de contradizer o que os outros mandam. “Tira-se o poder de expressão daquela pessoa”, explica Tykanori.

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Ainda segundo Tykanori, outros dizem que uma sessão de eletrochoque apenas é capaz de melhorar o paciente em alguns aspectos. Desde quando dar choque em alguém vai ajudar essa pessoa a se sentir cuidada? Pelo que vimos em nossas entrevistas, este tipo de tratamento não fez bem a ninguém...

MORANDO NO ANCHIETA
“Eu não queria fazer nada no Anchieta, só chorar”. Júlia virou a mão, olhando tristemente para nós, e mostrou sua cicatriz no pulso. “Cortei o pulso”. Ela nos contou que, antes da intervenção, ficava trancada em um quarto, como se fosse uma prisão, com mais duas moças. “Eu ficava o dia inteiro naquele quarto. Só saía para o banho de sol, que não durava muito, e depois voltava. A gente acordava cedo para tomar banho, às 5h da manhã. Mas o banho não era frio, não. Era quente”. Então perguntamos o que é inesquecível para ela sobre o Anchieta. Esperávamos uma resposta emocionada, algo de ruim que alguém tivesse feito com ela, os eletrochoques, os maus-tratos. “Não me esqueço de quando me mandavam arrumar as camas, todo dia, em troca de cigarro e cerveja”. A troca de favores, como arrumar a cama e varrer, por coisas que o paciente gosta é uma prática comum em alguns manicômios. Como diz Goffman: “haja muito ou pouco trabalho, o indivíduo que no mundo externo estava orientado para o trabalho, tende a tornar-se desmoralizado pelo sistema de trabalho do manicômio. Um exemplo dessa desmoralização é a prática, em hospitais estaduais para doentes mentais, de ‘tapear’ ou ‘usar o trabalho de outro’ em troca de uma moeda de dez ou cinco centavos que pode ser gasta na cantina. As pessoas fazem isso, embora no mundo externo considerem tais ações como abaixo de seu amorpróprio” (1992:22). Como pode alguém que sofreu tanto não ter guardado rancor de tudo aquilo e ter como inesquecível a cerveja e o cigarro? Júlia nos impressionou

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muito pelo desprendimento com o que sofreu naquele local. Ela contou ainda que passava a semana toda com a mesma roupa, porque, segundo ela, todos os pacientes trocavam de roupa apenas nos finais de semana. E ela não gostava disso. E quem gosta? A última coisa que ela se lembra é da comida do Anchieta. “Era horrível! Aqui é bem melhor!”, desabafa, aliviada.

FAMÍLIA
Júlia tem um filho e três netos. Mas sua historia não é tão boa quanto parece. Faz quatro anos que não os vê... Através de pesquisas feitas com os profissionais que cuidam dela hoje, soubemos que, realmente, não é nada boa a relação dela com sua família. Elizete da Silva, a coordenadora do Selab, nos contou que tentou uma aproximação dos netos com Júlia... Isto aconteceu há quatro anos. Um de seus netos a encontrou, porém, nunca mais voltou, nem a procurou. “A impressão que dá é que ele se assustou com a situação dela hoje”, conta a coordenadora do local. “Mas vamos continuar tentando”. Júlia segue a vida, de cabeça erguida, sempre vendo o lado bom dos acontecimentos. “Hoje estou bem melhor”, resumiu. Aproveitamos a descontração do momento e perguntamos sobre namorados... Já que é tão vaidosa, não é possível que alguém não tenha se interessado por ela. Júlia ri, fica encabulada, e faz questão de deixar claro: “Não tenho namorado...”. E, olhando discretamente para nós, completou: “Só com meu marido”. Nem precisávamos perguntar ao que ela se referia...

DEPOIS DO ANCHIETA
“Quem me ensinou a pintar foi a Dirce e a Antonieta. Eu gosto muito de pintar”. Júlia se lembrou dos momentos de arte que os pacientes tinham, coordenados pelo artista Renato Di Renzo. No local onde ela se trata hoje, encontramos um desenho seu. Seus trabalhos mostram, na maioria, casas

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e árvores. O que será que ela quer dizer com eles? Será que sente falta de casa? Será que desenhou o local que está hoje? Será que ela gostaria de estar morando no campo? Esta é uma pergunta que todos que a tratam costumam fazer. Na época da intervenção do Anchieta, Júlia pintava, enquanto outros pacientes faziam esculturas, quadros. O que mais ajudou no tratamento daquelas pessoas foi a Rádio TamTam e o Jornal Tam- Tam Urgente, que, assim como aquele momento histórico na cidade de Santos, foram exemplos para muitos outros hospícios do Brasil. Pipocou, em cada hospital, uma nova rádio, um novo jeito de fazer música. Estas rádios eram totalmente feitas pelos pacientes, os “loucutores”, que escolhiam as músicas e os temas a serem abordados nos programas. Para o coordenador destes trabalhos, Renato Di Renzo, os trabalhos de arte fazem com que os pacientes voltem a sonhar e usar a imaginação, e, segundo ele, sonhar é extremamente importante para a recuperação deles. Nossa entrevistada não foge à regra do que Renato diz sobre sonhos. Com certeza, Júlia ainda sonha em voltar a ver sua família e ter uma vida normal novamente. Trinta e cinco anos em ambientes psiquiátricos a fizeram sofrer muito. No entanto, não foram o suficiente para que ela desistisse de seus ideais. Eis uma pessoa de quem Júlia e todos os pacientes entrevistados não esqueceram: David Capistrano. Hoje falecido, na época era secretário de Saúde da cidade, e, juntamente com Roberto Tykanori, chegou à conclusão de que aquele modo desumano de tratar as pessoas precisava acabar. Júlia lembra-se dele com carinho.

O MUNDO HOJE
Atualmente, Júlia vive no Selab, juntamente com outros pacientes, alguns deles vindos do Anchieta como ela, e outros mais novos, cada um com um diagnóstico diferente. Ali ficam doentes mais graves, enquanto nos NAPS ficam pacientes menos graves.

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Júlia dorme em um dos quartos do local, que abrigam de dois a três pacientes. Divide o quarto com duas pacientes, cada uma com uma cama e um armário para colocar seus pertences. No momento da entrevista, aconteciam em Brasília várias denúncias de corrupção, envolvendo os partidos do governo e outros também. Como percebemos que nossa entrevistada era muito inteligente, aproveitamos para perguntar: o que a senhora acha do que está acontecendo agora com o Brasil? Ela respondeu na mesma hora: “uma roubalheira, né?”. E começou a rir... Júlia ainda quis falar mais: “acho que o Lula não tem nada a ver com o que está acontecendo. Ele não tem culpa. Quem tem culpa é quem está acusando ele!”. Pois é, nossa primeira entrevistada nos mostrou que, mesmo tendo passado por momentos tão difíceis, não se deixou abalar. E segue com seus sonhos de um dia reencontrar sua família...

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Arte: Rodrigo Stipp ;Foto: Vivian Souza

Sempre Inda choram dentro de mim, choro longo tão triste, nunca tem fim. Qualquer dia pego elas: angústia e dor, enterro bem fundo em cima boto flor. Íris Erica Koehler Bigarella Paciente psiquiátrica

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DE OUTRO MUNDO...
Vanda (nome fictício), 38 anos, paciente do Anchieta de 1987 a 1993 Atual paciente do Serviço Lar Abrigo (Selab), em Santos-SP Entrevista realizada em 23/8/2005

Fomos um dia antes das entrevistas ao Selab para ver quais seriam os nossos entrevistados para este trabalho. Afinal, já sabíamos que não seria de uma hora para outra que conseguiríamos arrancar dos pacientes um momento tão difícil quanto o tempo que eles passaram no Anchieta. Chegando lá, fomos recebidas por um dos funcionários do local, o Ciro, que já sabia quais eram as nossas intenções, já que passamos a semana anterior inteira ligando para marcar o melhor dia para as entrevistas. Logo fomos apresentadas a cada um dos pacientes que haviam passado pelo Anchieta por algum motivo. Conversamos com cada um, explicamos nosso objetivo, e fomos muito bem recebidas por eles, mesmo sabendo que, em sua maioria, são pessoas com patologias muito graves. Ao final da visita, recebemos um cumprimento... “Oi! Tudo bem?”, ouvimos de algum lugar. Viramos para trás e cumprimentamos aquela moça aparentemente nova, que sorria ao falar conosco. Ela nos fez refletir sobre a carência de atenção que aquelas pessoas sofrem. Então, fomos embora, já preparadas para a maratona de entrevistas do dia seguinte. Chegada a hora das entrevistas, na manhã seguinte, Ciro nos lembrou de que havia mais uma paciente do Anchieta que ele não nos apresentara no dia anterior. E, para surpresa nossa, fomos apresentadas a Vanda, aquela moça sorridente! Vanda trajava um vestido florido, com a saia na altura do joelho. De cabelos bem curtos, tipo “Joãozinho”, magra e não muito alta, conversou conosco logo após a entrevista com Julia. Vanda não conteve sua vontade de nos contar o que passou no Anchieta, mas, diferentemente da impressão que nos deu no dia anterior, ela mantinha uma expressão fechada... Sentou-se na cadeira que havíamos colocado à nossa frente, para os

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entrevistados, e esperou pelas perguntas. Começamos pela mais simples, para ver o rumo que nossa conversa tomaria, para sentir se Vanda estava mesmo disposta a falar conosco... - Quantos anos você tem? - 48 - respondeu ela. Então, já fomos direto ao assunto: - Você se lembra da época do Anchieta? - Lembro mais ou menos. Eu não tinha muita visita lá. Vanda nos deu esta resposta com um jeito tristonho. Com isso, já desconfiávamos de fatos que, ao final da entrevista, seriam confirmados. Vanda era uma pessoa muito sozinha quando paciente da Casa dos Horrores. Tanto que o primeiro fato que se lembrou foi das poucas visitas que recebia... - Quem ia te visitar lá? - Minha vó. E, em outros dias, era a assistente social que ia visitar... Vanda nos contou o nome da assistente social – Cecília – e olhou de um lado para outro como se procurasse alguém, ou como se quisesse ver o que acontecia ao seu redor. Mas somente o que enxergava eram pacientes andando para diversos lados, dentro do pátio grande e fechado em que estávamos, e um enfermeiro sentado em uma mesa, olhando para os pacientes, preparando o remédio que deveriam tomar naquele momento.

CHOQUES DE LEMBRANÇA
Não é à toa que nossa entrevistada exibia um ar melancólico. Perguntamos a ela sobre o aspecto físico do Anchieta... - Era bonito lá dentro? Vanda nos olhou com aquele jeito desconfiado, mexendo em seu vestido florido: - Era... Ela pára, pensa mais um pouco... - Era nada! Davam choque na gente!

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A partir daí, Vanda nos contaria toda a sua impressão sobre as seções de eletrochoque a que era submetida. Não foi nada fácil para ela. - Grudou na minha fronte e eu gritei: AI! Assim como nossa primeira entrevistada, Vanda se recorda muito bem, com detalhes, do que viveu no Anchieta. Foi direta ao dizer que colocavam um protetor para que ela não se machucasse... que hipocrisia! “Doía. É que grudava na fronte. Colocavam pano, borracha, alguma coisa para não mordermos a língua”. E continuou: “eles davam muito choque em mim. Eles fingiam que iam dar choque. E eu me escondia, mas eles viam onde eu estava. Eles queriam que eu tomasse, mas eu não tomava, não. Eu me escondia”. Descobrimos que Vanda já havia passado por vários hospitais psiquiátricos do Estado e que, em todos eles, era submetida a eletrochoques. Além de se esconder, empurrava algumas enfermeiras que iam buscá-la, dava pontapés, coisas deste tipo. Com isso, ela conseguia fugir deste “tratamento”, mas nem todos os pacientes eram ágeis como ela. Acabavam tomando várias sessões de eletrochoques. É impressionante como as pessoas que tratam o paciente ficam na memória dele. Mesmo 16 anos depois de tudo acontecer no Anchieta, Vanda se lembra do nome dos médicos e, principalmente, dos que a tratavam mal, do que eles faziam para que ela ficasse “abobalhada”. É possível perceber que ela é paciente psiquiátrica pelo fato de apresentar um jeito meio “perdido”. Os olhos da paciente vagam pelos lugares, sem rumo, parecendo que não sabem para onde vão. Mas, mesmo assim, no caso de Vanda, seu olhar triste vai sendo explicado a cada palavra, principalmente no caso do eletrochoque e das visitas que não recebia.

MORANDO NO ANCHIETA
Vanda nos contou que, na época do Anchieta, tomava remédio três vezes ao dia, um pela manhã, outro à tarde e outro à noite. “Quando a gente tomava remédio, ia pro pátio. E ia pra lá também depois de tomar

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banho”. Segundo ela, os pacientes tomavam banho todos os dias e após a sessão de eletrochoques também. O pátio era o lugar onde a maioria das coisas acontecia. “A gente passava o dia todo lá”. Não tinha televisão, jogos, nenhuma forma de ocupação para aquelas pessoas. Elas só passaram a se ocupar após a intervenção, pintando, fazendo programas de rádio, entre outras atividades já citadas neste livro. Vanda ficava em um quarto. “Eu dormia em uma cama, que eu mesma arrumava”. Ao contrário de Júlia, Vanda não ganhava cigarro e cerveja para arrumar outras camas. Ela se lembrou da dificuldade que tinha para dormir. “Eu demorava pra dormir, não tinha sono. Até aqui eu não tenho sono. Não consigo dormir...”. Por que será que Vanda tem insônia até hoje? Mesmo não sendo maltratada como era nos hospitais por onde passou, algo lhe persegue: a solidão. Ao perguntarmos a ela sobre filhos, sua resposta foi curta e simples. “Não. Eu não sou mais virgem, mas não tenho filhos”. - Nunca casou também? - Nunca. E foi tudo o que disse sobre família. Sempre que entrávamos neste assunto, Vanda dava um jeito de desconversar. Sabendo disso, o que passou por nossos pensamentos é que a explicação para toda essa tristeza é a falta de alguém que a ame. Ela não quis falar de mãe, pai e irmãos, enfim, não quis entrar no assunto. Segundo Erving Goffman, há uma explicação para que Vanda não esteja ligada à sua família. Conforme explica o autor, o novato chega ao hospital psiquiátrico com uma idéia de si mesmo que se tornou possível por algumas disposições sociais estáveis no mundo onde ele vivia até chegar ali. Ao entrar, logo deixa de ter o apoio que tinha no “mundo exterior”. Como sempre aconteceu nos manicômios de todo o mundo, de acordo com o livro, começa, então, uma série de rebaixamentos, degradações e humilhações interiores do paciente. Sua individualidade, naquele momento, é morta. Ele perde todas as suas carac-

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terísticas individuais. “O paciente, então, começa a passar por algumas mudanças radicais em sua carreira moral, uma carreira composta pelas progressivas mudanças que ocorrem nas crenças que tem a seu respeito e a respeito dos outros que são significativos para ele” (1992:24). Em vista disto, percebemos que Vanda “esqueceu” o que viveu antes, os maus-tratos ao longo da sua passagem pelos vários hospitais. É como se, para ela, nunca tivesse existido uma família.

OUTROS MUNDOS
Como já mencionamos, Vanda passou por “outros mundos” que não o do Anchieta apenas. O primeiro, pelo que ela nos contou, foi o Hospital Municipal de Pirituba, em São Paulo. Reparamos umas cicatrizes em seu rosto, pareciam arranhões, na região das têmporas. “Pode ser do grampo que me arranharam, quando eu tava no Hospital Pirituba”. As marcas no rosto de Vanda têm um sentido muito mais profundo do que apenas cicatrizes. Segundo Goffman, elas são ruins para o paciente pelo fato de marcarem fisicamente e interiormente. “Além da deformação pessoal que decorre do fato de a pessoa perder sua identidade, existe também a desfiguração pessoal que decorre de mutilações diretas e permanentes do corpo – por exemplo, marcas ou perda de membros” (1992:29). O autor explica que é comum o fato de estas marcas gerarem a perda de um sentido de segurança pessoal. “Pancadas, terapia de choque, ou, em hospitais para doentes mentais, cirurgia – qualquer que seja o objetivo da equipe diretora ao dar tais serviços para os internados – podem levar estes últimos a sentirem que estão num ambiente que não garante sua integridade física”(1992:29).

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CROCHÊ
- Você já foi pro Juquery? - Já... - E como era lá? Era pior ou melhor do que o Anchieta? Vanda nos passou a impressão de não ter achado o Juquery tão ruim quanto o Anchieta. “Me lembro de uma moça que ficava fazendo crochê, junto com as filhas dela. Lá era um pouco melhor que o Anchieta”. - Por quais outros hospitais você passou? - Vila Mariana, Sanatório Vera Cruz, que foi o primeiro hospital que eu entrei, e o de Botucatu. Como podemos ver, Vanda conhece “outros mundos” muito bem, mas, mesmo assim, tem o Anchieta como o pior deles...

MAIS LEMBRANÇAS
A cada minuto a mais que conversávamos com Vanda, mais víamos a sua necessidade por carinho e mais aprendíamos com ela sobre aquele momento tão ruim de sua vida. Como quem tem pena de si, sempre que falava dos maus-tratos que sofria, contava com o máximo de detalhes para que sentíssemos pena dela. Não de propósito, claro, mas indiretamente era o que ela fazia. Perguntamos o que, na visão dela, é melhor: as pessoas que tratam dela hoje ou quem tratava dela na Casa dos Horrores. Lógico que já sabíamos a resposta, mas queríamos ouvir as palavras que Vanda daria, do jeito dela. E então, começou a contar de um caso em que ela se machucou... - Bati a cara na porta e eu sentei e fiquei com os olhos fechados. E todas as moças falando, nossa, coitada, a menina tá com os olhos inchados, fechados e... Credo, tá horrível isso! Elas falavam... Vanda falava assim mesmo. Sem pausas. Sem esquecer de um detalhe daquele momento. E continuou nos contando, dessa vez, lembrando de uma pessoa que cuidava dela:

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- E, depois, na hora de chamar a gente pra dormir, a tia Angela chamava nós pra dormir e ela falava.... Que foi isso no seu olho, hein, menina? E eu falei é que eu amanheci com os olhos pretinhos... E ela falou que eu não ia subir a escada com esse olho inchado, não, vai dormir aqui. E depois eu dormi lá... Sem perder o ritmo da fala, Vanda quis nos contar ainda sobre o remédio usado para “sarar os olhos pretinhos”: “... e eu levantei e pingaram remédio, colírio, pra ver se sarava, mas não adiantou nada”. Ela não se esqueceu da febre e nem de como foi tratada neste momento: - E eu acordei quase de manhã e a tia Angela pôs a mão aqui em mim. E falou que eu tava com febre. E ela pôs o termômetro e depois eu não fiquei mais com febre.

AS PIORES LEMBRANÇAS
- Qual é a coisa mais triste que a senhora lembra de lá? Vanda olhou para nós, pensou, fez como se quisesse falar algo... - A Ana já bateu... Ah, não vou falar, não... Mesmo assim, nós insistimos... - Conta pra nós... - ...É que ela já bateu na enfermeira que queria dar remédio pra ela. Ana (nome fictício) também foi paciente da Casa de Saúde Anchieta e hoje está no Selab. Foi apresentada para nós no dia em que fomos conhecer a todos, mas, segundo o funcionário Ciro, ela não teria condições de conversar conosco, por ser uma paciente extremamente grave. Ele nos contou que ela passou por muitas seções de eletrochoque. É uma daquelas pessoas que não suportaram o tratamento levado no Anchieta. Nem todos se lembram nitidamente do que passaram, como Júlia e Vanda. Mais uma vez, Vanda nos mostrou que queria muito contar o que passou e como era maltratada. Começou a falar de um médico que não gostava, o que ele fazia para ela e como ela reagia a isso: - Quando o Dr. Márcio (nome fictício) queria ser o meu médico, ele me

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chamava pra conversar com ele, e eu não queria. Eu ficava sentada no chão, embirrada de não querer conversar com ele. E uma moça veio por trás de mim e me deu gravatada. A relação paciente-profissional é bastante complicada. Nos manicômios, existe uma divisão básica entre um grande número dos internados, os pacientes, e uma pequena equipe de profissionais. Segundo Goffman: “geralmente, os internados vivem na instituição e têm contato restrito com o mundo existente fora de suas paredes; a equipe profissional muitas vezes trabalha num sistema de oito horas por dia e está integrada no mundo externo. Cada grupo tende a conceber o outro através de estereótipos limitados e se opondo a ele – os profissionais muitas vezes vêem os internados como amargos, reservados e não merecedores de confiança; os internados muitas vezes vêem os que os tratam como arbitrários e mesquinhos. Os participantes da equipe de profissionais tendem a sentir-se superiores e corretos; os internados tendem, pelo menos sob alguns aspectos, a sentir-se inferiores, fracos, censuráveis e culpados”.

REBELDIA
Vanda fez questão de dizer o que ela fez para essa moça que a pegou. Não teve medo de mostrar como era rebelde... - E eu fiz força, dei pontapé, e virei assim, dei pontapé na “operação” dela, e falei bem feito pra você! Ela perguntou por que eu tinha dado pontapé e eu respondi que era porque ela me pegou de trás, de gravatada, pra me levar pra conversar com o médico. E nem o doutor eu obedeci ele. Fiquei sentada lá no chão um pouquinho e saí de perto pra não conversar com ele.

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Segundo os funcionários do Selab, os pacientes como Vanda tendem a ficar violentos no caso de serem provocados, ou seja, quando alguém faz com que eles fiquem assim. Vanda sabia que, se fosse “conversar” com o médico, ele faria algo de ruim a ela, pois já havia feito antes. E, com isso, ela usou a violência para se defender. Aproveitando que Vanda estava se abrindo conosco, sem medo, fizemos uma pergunta mais forte. - A senhora sabe de alguém que morreu dentro do Anchieta? Ela não pensou muito para responder. - Lá eu nunca vi ninguém morrer, não. Só uma moça, que comeu sabão em pó e levaram ela deitada, segurando nas mãos e nos pés dela, pro pátio, até que ela morreu mesmo.

DEPOIS DO ANCHIETA
Mas não é apenas das coisas ruins que Vanda se lembra. Ela viveu o período da intervenção, aquele momento histórico da cidade que trouxe nova vida a todas as pessoas internadas no Anchieta. E sabe muito bem o que significou aquele momento... Perguntamos a ela o que é melhor: a época do Anchieta ou os dias de hoje. Nossa entrevistada não hesitou ao dizer que hoje é muito melhor. - Por quê? - Por que não tem mais choque... É melhor morar aqui porque nós temos tudo de comer e temos tudo de tomar, do que andar na rua feito maloqueira. E, às vezes, eu ficava na rua pedindo cigarro e ninguém queria morar comigo... - Depois que o Anchieta fechou, você tomou choque? - Não, nunca. Fui pro Manequinho. O “Manequinho” a que Vanda se referia era a República Manequinho, uma casa para onde eram levados alguns pacientes que não tinham família, logo após a intervenção. A casa levou este nome graças ao seu primeiro morador, o Manequinho, um paciente com Síndrome de Down.

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ANIMAIS
Vanda é mais uma prova do que um manicômio, como o Anchieta, é capaz de fazer a uma pessoa. Totalmente perdida em sua vida, sem sonhos, sem lembranças, sem amor, sem família. Pacientes psiquiátricos que foram tratados como animais, sem vontades e sem esperanças. E do tanto que são maltratados, acabam por achar que são realmente animais. E se esquecem de si...

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Arte: Rodrigo Stipp; Foto: Vivian Souza

Olhar nos Olhos Às vezes me vejo Olhando em meus olhos Procurando por mim mesmo Passo por vários lugares Sem que ninguém me veja. Três sombras em minha frente Todas elas eram minhas Nenhuma delas era eu Juventino José Galhardo Jr. Paciente psiquiátrico

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MARCAS ETERNAS
Marco (nome fictício), 49 anos, paciente do Anchieta de 1989 a 1990 Atual paciente do Serviço Lar Abrigo (Selab), em Santos-SP Entrevista realizada em 23/8/2005

Chegamos perto do Marco para entrevistá-lo. Ele vestia uma bermuda azul e uma camiseta branca. Estava sozinho em um canto do pátio do Selab, sorridente, pensativo... Já havíamos conversado com ele antes, quando perguntamos se poderíamos entrevistá-lo para nosso trabalho. E neste segundo contato, assim que chegamos, ele falava conosco como se nos conhecesse há tempos... E falou: - Dona Regina... Queríamos “entrar no papo” dele, para que se sentisse vontade de conversar conosco... - Dona Regina?... E ele continuou: - Aí passou a dona Iraíde. Eu imaginava de um pavilhão, pavilhão mais alto, mais novo, do Anchieta, eu imaginava uma moça de motoca. Jaquetão de couro, calça de couro, e tudo. Aí tinha um maiorzinho... - Maiorzinho, quem? Um profissional? - Paciente. Mesmo estando no auge de suas alucinações, como foi dito a nós por um dos enfermeiros do Selab, sentimos que Marco estava realmente disposto a falar conosco. E conseguimos um “gancho” para começar nosso assunto: - Ah! Paciente! Você se lembra dos pacientes do Anchieta? Marco tinha a expressão calma, mas seus olhos estavam como os de Vanda, perdidos. Ele respondia as perguntas sempre repetindo as nossas palavras, como fez na resposta a esta questão que fizemos: - Lembro de paciente... - E você se lembra das pessoas que cuidavam de você?

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Sua resposta nos deixou mais calmas. Descobrimos que o que ele nos falava no início da entrevista não eram alucinações! Ele já estava tentando se lembrar do Anchieta, já que o havíamos avisado que iríamos conversar sobre isso. A resposta dele foi a seguinte: - Tá faltando uma lá que eu não sei o nome, além da Regina. Regina! Aquela a que ele se referiu no início... E então perguntamos a ele se lembrava de quando fechou o Anchieta. Mais uma vez com poucas palavras, ele respondeu: - Lembro. - Você se lembra de quem estava lá dentro? - Tinha o Carlos, tinha... Por nome não me lembro, lembro por fisionomia. Então vimos que estávamos realmente enganadas por acharmos que Marco é um paciente “totalmente fora de si”, que não fala “coisa com coisa”, como pensamos no início. Na maior parte das vezes, ele não respondia com muitas palavras ao que perguntávamos. Mas, de repente, ele falou o que mais nos marcou entre todos os pacientes que entrevistamos... - Então, eu tô com dificuldade pra falar com você sobre o Anchieta, porque aconteceram coisas ali que me marcou muito, meu corpo inteiro, minha alma, meu coração, me marcou muito... Me marcou muito... Silêncio. Fomos pegas de surpresa.

LEMBRANÇAS E MAIS LEMBRANÇAS...
Percebemos uma lágrima se insinuando em seus olhos, meio tímida. Ele nos olhava diretamente, sem vergonha ou timidez. Quem o olha pode pensar que Marco não “bate muito bem” da cabeça, pois ele fala pouco, observa muito e, como já mencionamos, seu olhar perdido dá realmente a impressão de que ele não está bem. Mas quem poderia imaginar que, além de se lembrar do que vivera, ele saberia falar destas coisas de um modo tão simples, mas bonito? Aquilo ficou em nossas mentes por muito tempo... Após aquela revelação interessante, tínhamos que dar continuidade à

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nossa entrevista. Ele voltou a ser repetitivo... - Era muito ruim pra você aquela época, né? - Foi muito ruim, foi muito ruim. - O senhor nem gosta de lembrar, né?... - Nem gosto de lembrar. Quando questionado sobre o tratamento no Anchieta, Marco nos surpreendeu mais uma vez... - No Anchieta? No Anchieta não! A minha vida não precisa de hospital. Eu não preciso de hospital, em toda minha vida eu nunca precisei de hospital. Ele tem a consciência de que um manicômio torna uma pessoa pior. Sabe que está assim só por ter entrado ali. Como havíamos feito com os outros entrevistados, perguntamos a ele sobre o banho e a comida. Achamos interessante falar sobre isso, por que estes dois serviços do hospital psiquiátrico mostram bem o modo como estas pessoas eram tratadas ou, pelo menos, como elas percebiam que eram tratadas. Observamos que, realmente, cada um dava o seu ponto de vista. Na maioria das vezes, os pacientes do Anchieta tomavam banho e comiam da mesma forma, mas, mesmo assim, ouvimos histórias diferentes de cada um. - Tomei banho de banheira uma vez. Uma vez só. O banho era bom. - Era você sozinho ou com várias pessoas? - Com várias, com várias. Era com chuveiro, chuveiro quente. Ao perguntarmos sobre a comida, foi interessante. Para falar a verdade, não conseguimos, ao final, entender muito bem como era a comida ali. Perguntamos sobre isto duas vezes e, nas duas, Marco respondeu lembrandose de outras coisas. Não sabemos se ele estava falando mesmo sobre a comida ou se estava tendo mais uma alucinação... - Comida era... Quando eu fugi daqui e eu passei por lá, eu percebi que a comida era melhor lá, a comida era um pouquinho melhor que aqui... Até aí entendemos. Mas depois disto, Marco começou a contar de uma

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vez que foi ao dentista, que fugiu... Foi aí que ficamos confusas... - ... Porque eu cheguei a bater a cabeça na perua, quando eu fui no dentista, uma “força maior” me fez incorporar na placa dentista. Eu passei. Quando eu fugi, eu passei lá, no dentista... Complicado de entender. Um pouco depois, perguntamos novamente sobre isso. - A comida lá no Anchieta, você lembra? - Lembro, lembro. Eu lembro até que alguém fez a mesa lá no pátio do colégio lá que eu jogava petequinha com a moça, com uma moça loirinha, eu jogava petequinha, né... Foi interessante. Não entendemos o que ele quis dizer sobre a comida, mas descobrimos uma coisa que ele gostava de fazer - jogar peteca! Marco nos lembrou um pouco Julia. Ele tem as marcas dos maustratos, ainda mais do que ela, mas ainda conseguiu manter o bom humor e as boas lembranças.

OS ELETROCHOQUES E OS REMÉDIOS...
Perguntamos a ele: “Você chegou a tomar eletrochoque?” - Cheguei. Tomei. - Era muito ruim? O que você lembra? Desta vez, nos lembramos de Vanda falando dos eletrochoques que tomava, de quando ela se escondia, do pavor que sentia... - Eu não lembro de nada, eu não lembro de nada. Eu me lembro quando eu tomei a primeira vez, eu me lembro que tinha uma senhora da cozinha que teve pena de mim e me protegeu. Me protegeu com as mãos pra não dar o choque elétrico. E, então, descreveu o que sentia quando passava por isto... - Mas apagava a mente da gente, apagava tudo, queimava a pele. Machucava muito. A última pergunta que fizemos a respeito do Anchieta foi sobre os remédios. “Ah, remédio eu sempre tomei, né!”, respondeu ele, sorrindo.

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COM O FECHAMENTO DA CASA DOS HORRORES...
Perguntamos a Marco se sua vida melhorou após o fechamento da Casa de Saúde Anchieta... - Melhorou bastante, melhorou bastante. - O que o senhor lembra que mudou? Marco olhou para nós, coçou a cabeça... - Eu lembro que mudou assim... Pausa... - Quando fechou o Anchieta? Tivemos que repetir a pergunta. - Isso. Depois que fechou o Anchieta você foi para onde, você lembra? - Não lembro não... Aproveitamos para ver se ele nos falava das festas que eram feitas após a intervenção. - Tinha festa lá no Anchieta, depois da intervenção? - Tinha festa. - Você gostava das festas? - Tinha música da Xuxa a noite inteirinha. Será que para ele as músicas da Xuxa a noite inteira era bom? Perguntamos sobre as pessoas que tocavam violão e sanfona, pois sabíamos que isto acontecia. - Lembrei! Lembrei! Era no pavilhão de cá, era um tal de seu José que tocava, parece... A última coisa que lhe perguntamos foi como ele é tratado no Selab, hoje. Marco nos deu a entender que as pessoas falam muito dele, e que é muito difícil estar ali por isso... - Acho que é pela minha força de vontade. Acho que é pela minha força de vontade, o que fala no meu ouvido, entra por um lado e sai pelo outro. Perguntamos a ele se as pessoas falam muito dele no Selab. - Não falam muito, mas eu acho que eu consigo as coisas pra mim, o meu valor, corretamente, só que dá mais um tempinho e já destrambelha

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tudo já. Já sai tudo fora do normal... Sentimos que foi um desabafo de Marco. Percebemos que ele tem ainda sonhos e vontades. Mas vive as angústias que todos nós vivemos, as frustrações, as coisas que não dão certo. Percebemos que ele está querendo melhorar e ir atrás de seus desejos. E isto é muito bom.

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Arte: Rodrigo Stipp; Foto: Vivian Souza

Tempo Tempo, tempo, tempo passa O cérebro passa As plantas morrem Os pássaros passam O dia passa O cérebro passa A vida passa E eu passo, passo e passo Mas não adianta nada Eu fico... José Hélio Mazorra Neto Paciente psiquiátrico

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DEZENOVE ANOS
Rosa (nome fictício), 37 anos, paciente do Anchieta de 1989 a 1992 Atual paciente do Serviço Lar Abrigo (Selab), em Santos-SP Entrevista realizada em 23/8/2005

Quando fomos apresentadas a Rosa, logo fomos avisadas de que ela seria a pessoa mais difícil de se conversar. E logo percebemos isto... Os outros três pacientes entrevistados dormem, hoje, em quartos da casa onde funciona o Selab, com outros pacientes, mas sem a vigilância dos enfermeiros. Eles têm até alguma liberdade para ficarem em seu canto, em sua cama, fazendo suas atividades. Mas Rosa, não... Ela dorme na enfermaria do local, vigiada 24 horas por dia, pelos enfermeiros e outros técnicos. Não tem apenas o olhar parado, conforme reparamos nos outros. Rosa é uma paciente com todos os sintomas da época em que ficou no Anchieta. Segundo as pessoas que cuidam dela, sua doença chama-se Esquizofrenia. Rosa despertou nossa curiosidade sobre o que ela contaria da época do Anchieta, mesmo não se lembrando bem das coisas. Queríamos saber como é conversar com uma pessoa como ela. E mais: queríamos mostrar em nosso livro o que um manicômio é capaz de fazer com seus pacientes... Um dos funcionários do local nos disse que ela já havia passado também pelo Juquery. Aproveitamos para começar a conversa neste ponto. - Você veio do Juquery, né? - Eu vim - respondeu ela. - Durante quanto tempo você ficou lá? - 4 mil anos... Já começou deste momento nosso cuidado para conversarmos com a paciente. Vimos que, realmente, não seria fácil fazer com que ela nos contasse sobre tudo o que passou na Casa dos Horrores. Com certeza, não foram coisas boas... - Você se lembra como foi quando você entrou no Juquery?

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Nenhuma resposta. Rosa olhava para todos os lados do pátio, com os olhos totalmente perdidos. Então tentamos outra pergunta. - O primeiro hospital que você entrou foi o Juquery, não foi? - Foi. Ufa! Ao menos, uma resposta. Perguntamos se ela se lembrava de quem a colocou no Anchieta. “Foi um rapaz chamado Neto”, respondeu. - Você lembra o que você sentiu neste dia? - Não. Sempre rápida em suas respostas, Rosa, pela primeira vez, falou algo sem perguntarmos. - Eu saí do Juquery doida... Pois é. Sabíamos que, infelizmente, não íamos conseguir pegar muitas informações com ela.

MORANDO NO ANCHIETA
No decorrer da nossa conversa, percebemos mais uma característica de Rosa. Ela respondia ao que perguntávamos como uma jovem, uma adolescente. Queríamos saber a idade dela... - Eu tenho 19 anos. Aí então, entendemos. Ela realmente fala como uma adolescente de 19 anos. A esquizofrenia pode fazer com que as pessoas pensem que são outra pessoa, ou os faz pensar que são bem mais novos do que agora. Continuamos conversando com ela... - Então, quando estava no Anchieta, você era bem novinha... Você não se lembra mais. - É (risos). Eu me lembro sim. Eu me lembro, mas não posso falar que isso é feio. Insistimos... - Com a gente não tem problema, você pode falar. O que você lembra de lá?

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- Eu não tenho lembrança disso mais. Como é que eu vou falar? Rosa disse esta última frase com o tom exato de uma garota com a idade que ela disse ter, meiga, um pouco ingênua, com jeito de menina. Perguntamos a ela quando a levaram para o Anchieta e fomos surpreendidas. Ela ficou chateada. - Quando mandaram a senhora para o Anchieta? - Não sou senhora ainda!!! Sou menina-moça! Ficamos um pouco sem jeito, mas continuamos... - Você se lembra como foi, quando você foi para o Anchieta? - Eu não posso falar. Posso falar os anos que estou aqui, 4 mil anos. Mais uma vez, ela teimou em dizer os 4 mil anos. O que será, na cabeça dela, que isto significa? Queríamos saber o que ela achava do Anchieta. Então a questionamos se ela gostava de lá. - Eu não gostava, mas eu ia, ficava lá internada. - O que você fazia lá? - Eu tomava remédio, não sarei, sarei aqui. Ela sabe que o Anchieta não curou ninguém... Então perguntamos sobre as pessoas que trabalhavam na Casa dos Horrores... - Eu não me lembro de nome, lembro de moços e moças, umas mulheres e homens. Eles davam remédio pra mim e pra todo mundo que tava lá. - O que acontecia quando a senhora tomava remédio. Dormia? - Eu tava cansada e sem dormir.

QUANTO AOS CHOQUES...
- Você chegou a levar choque? - Eu cheguei a levar choque. Tomei. Rosa não percebeu, ao longo dos anos de internação, que o choque era dado como punição. Na opinião dela, servia para melhorar sua situação. Perguntamos sobre a dor... - Doía nada. Ele punha no meu corpo pra eu sarar. - Era na cabeça? Como era?

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- Na boca, na boca. Rosa não nos deu as informações exatamente como queríamos. Mas forneceu algo muito maior. Muito mais do que colher dados exatos sobre o momento, muito mais do que ver exatamente como era antes e depois do Anchieta, ela nos mostrou que, apenas por estarmos falando com ela, naquele momento, por ela nos ter dado atenção e tentado se lembrar do que viveu, já era uma vitória para nós. Rosa é o exemplo do que um manicômio é capaz de fazer com uma pessoa. Se era isto o que queríamos, no início de nossa pesquisa sobre este trabalho, foi isto o que tivemos. Não se pode esperar de uma pessoa como ela respostas diretas e fáceis. E nem explicações sobre o que ela fala. O objetivo de fazer estas entrevistas com os pacientes é exatamente lidar com o conceito de “mundo real” e “mundo imaginário”. É estar junto com eles neste pensamento, tentar entender e ver que o mundo não é só o que passamos no dia-adia... Existem pessoas, como eles, que vêem a vida de uma forma totalmente diferente. Para terminar a parte do “antes” da intervenção no Anchieta, como de praxe, perguntamos sobre banho e comida. - Durante o dia, o que você fazia, além de tomar remédio? - Eu não lembro mais... - Como você tomava banho? Você lembra? - Tinha dois banheiros, um de um lado, outro de outro. Para Rosa, a comida do Anchieta era melhor do que a do Selab, hoje. Ela fala bem do refeitório do Anchieta, de como era a comida no geral. - E, na hora da refeição, o que vocês comiam, como era? Era tipo um refeitório grande? - Era. Tinha mesmo um lugar grande de comer na cozinha, com cadeira, mesa. Era bonzinho... Questionamos o gosto da comida no Anchieta. - Era boa, era feijão, arroz, pão e doce. Era gostoso. - O que você come aqui? - Nossa... feijão sem sal, arroz sem sal, carne sem tempero, tudo ruim a

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comida daqui. Lá a comida era boa, tinha sabor, aqui não tem sabor.

DEPOIS DA INTERVENÇÃO
Rosa não se lembra do dia da intervenção. Quando falamos sobre isso, percebemos que ela não entedia. - Você se lembra quando eles fecharam o Anchieta e você teve que sair de lá? Você se lembra como foi? Você se lembra daquele dia? - Não, não me lembro. Outra pergunta que fizemos a todos foi sobre as festas. Perguntamos a ela se haviam festas, depois da intervenção, mas ela não se lembrou. - E você chegou a participar de alguma festa hoje em dia? - Aqui dentro teve festa. É boa! - O que a senhora faz nessas festas? - Por que senhora? Eu chamo você! Ops! Esquecemos que estávamos falando com uma moça de 19 anos... Rosa foi a paciente mais grave que entrevistamos, mas foi a que mais nos ajudou a entender o mundo do doente mental. Estávamos frente a frente com o resultado de maus-tratos manicomiais, e crônicos, pois segundo a coordenadora do local, Elizete da Silva, provavelmente e infelizmente, Rosa nunca mais voltará “ao normal”.

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Capítulo 5 Luta Antimanicomial

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Familiares dos portadores de sofrimentos mentais, cansados e revoltados com o modo de tratamento fornecido a essas pessoas que precisam de cuidados especiais, começaram a se reunir e estudar as possibilidades de estarem contribuindo de alguma maneira para a melhorar a situação. Formaram um movimento contra os manicômios. Desde o início, contaram com o importante apoio, desempenho e participação de profissionais da área da saúde mental. Mas as obras do movimento só começaram a ser notórias com a 1ª Conferência Nacional de Saúde Mental e com o 2º Congresso Nacional dos Trabalhadores de Saúde Mental em Bauru, no dia 18 de maio de 1987. A data ficou, desde então, registrada como o dia da luta antimanicomial. A proposta desses encontros era trazer de volta a cidadania dos pacientes que haviam perdido grande parte de suas vidas trancados e excluídos da sociedade. O movimento contou com diversas iniciativas políticas, sociais, culturais, administrativas e jurídicas que procuravam modificar aquela situação, garantindo assim um tratamento digno e decente. Hoje existem grupos antimanicomiais em diversos estados do País. Eles organizam encontros, palestras e caminhadas, entre outros eventos, em prol da luta contra os antigos regimes de tratamento. Persistência e determinação traduzem exatamente este trabalho humanitário.

CENÁRIO ATUAL
A saúde pública, mesmo que precariamente, tem compreendido a importância de atendimentos diferenciados para cada caso de distúrbio mental. Entende-se hoje que os problemas de alcoolismo e drogas, causadores de transtornos psiquiátricos graves, também necessitam de tratamento adequado, tanto para os que utilizam desses males, quanto para seus familiares, que precisam aprender a lidar da melhor forma possível com o problema. A modificação no modelo hospitalar com uma forte base comunitária é a

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proposta principal para uma organização extra-hospitalar. O maior desafio é conseguir fortalecer políticas de saúde, estabilizando e aumentando as redes comunitárias de tratamento, implantando meios de geração de empregos aos portadores de distúrbios mentais e, por último, mas com maior importância, um aumento de recursos no orçamento do SUS destinado à saúde mental do País.

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Capítulo 6 A Fábula

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O livro A Instituição Negada, do psiquiatra Franco Basaglia, cita uma história que consegue mostrar bem o que acontece com o paciente de manicômios quando ele é totalmente dominado pela instituição psiquiátrica. Como aconteceu com todos os nossos entrevistados... “Uma fábula oriental conta a história de um homem em cuja boca, enquanto ele dormia, entrou uma serpente. A serpente chegou ao seu estômago, onde se alojou e de onde passou a impor ao homem a sua vontade, privando-o assim da liberdade. O homem estava à mercê da serpente: já não se pertencia. Até que uma manhã o homem sente que a serpente havia partido e que era livre de novo. Então se dá conta de que não sabe o que fazer da sua liberdade: ‘No longo período de domínio absoluto da serpente, ele se habituara de tal maneira a submeter à vontade dela a sua vontade, aos desejos dela os seus desejos, e aos impulsos dela os seus impulsos, que havia perdido a capacidade de desejar, de tender para qualquer coisa e de agir autonomamente’. ‘Em vez de liberdade ele encontrara o vazio’, porque ‘junto com a serpente saíra a sua nova ‘essência’, adquirida no cativeiro’, e não lhe restava mais do que reconquistar pouco a pouco o antigo conteúdo humano de sua vida.” O homem da fábula foi dominado e destruído pela serpente, assim como os pacientes de manicômios são destruídos pelo modo como são tratados, chegando muitas vezes a perder toda a memória do que aconteceu antes de pisarem pela primeira vez em um hospital psiquiátrico. Estas pessoas acabam virando escravas deste novo sistema. Júlia, Vanda, Marco e Rosa são apenas alguns exemplos do que pacientes psiquiátricos vivem. Certamente existem pessoas, em todo o mundo, com muito mais histórias de vivências pessoais para contar, outras pessoas que tenham sofrido tanto quanto eles, ou até mais do que eles. Muitos livros já foram escritos em todo o mundo sobre este assunto. E muitos

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ainda serão escritos. Mas nenhum será capaz de fazer o leitor sentir realmente o que aquelas pessoas viveram, sabendo do tamanho sofrimento que elas passaram. Elas, e somente elas, sabem realmente o quanto se sofre nas garras de um manicômio como era a Casa dos Horrores. Ainda hoje existem pacientes psiquiátricos sofrendo tanto quanto nossos entrevistados, em todo o mundo. Ainda há muito que se fazer para que estas pessoas nunca mais sofram estes maus-tratos. Ainda existem pessoas achando que, para tratar um doente mental, é preciso trancafiá-lo como um animal, ou até, em muitos casos, pior do que animais. Mesmo com o avanço das tecnologias e das novas ciências, o ser humano muitas vezes teima em continuar com seus velhos pensamentos. E não são apenas os hospitais psiquiátricos que têm cenas desumanas em seus corredores e salas. Não é preciso ir muito longe... Em cada esquina, a cada dia, temos provas de que as figuras estão trocadas. Em manicômios como o Anchieta, os profissionais na verdade é que são os loucos, por se acharem os donos da verdade, defendendo que doentes mentais não são dignos de respeito. Mas, no nosso dia-a-dia, se repararmos bem, veremos que isto também acontece bem ao nosso lado. Políticos roubam nosso dinheiro pelas costas e ainda se classificam de inteligentes e dignos de respeito. O cidadão trabalha o mês inteiro e, muitas vezes, gasta todo o seu salário para pagar as taxas impostas por estes políticos, que, claro, não precisam pagá-las, pois eles são muito importantes para isso. Percebe a troca de lugares? Pois é, vivemos em um grande manicômio...

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Cronograma:
Em respeito ao nosso leitor, aqui está um cronograma dos fatos ocorridos em 1989 na intervenção da Casa de Saúde Anchieta. 21 de abril – David Capistrano denuncia irregularidades e estabelece prazo de uma semana para que sejam sanadas. Prefeitura ameaça intervenção. 3 de maio – Prefeitura vistoria hospital. Persistem as irregularidades. A prefeita Telma de Souza decreta a intervenção, pelo prazo de 120 dias, prorrogáveis. 4 de maio – Sehig implanta medidas de emergência e começa avaliação do hospital e dos doentes. 10 de maio- 1ª Vara de Fazendas Públicas do Fórum de Santos concede liminar aos proprietários, suspendendo a intervenção. 11 de maio – Prefeitura entra com recurso junto ao Tribunal de Justiça do Estado, pedindo a cassação de liminar. 16 de maio – Suds/52 ameaça descredenciar o Anchieta. 17 de maio – Prefeitura retoma intervenção, depois de o Tribunal de Justiça de São Paulo cassar a liminar obtida pelos proprietários no dia 10. 19 de maio – Prefeitura promove debate sobre Saúde Mental, na Faculdade de Serviço Social, com exibição de vídeos sobre a situação encontrada no Anchieta. 20 de maio – Volta a assistência odontológica no Anchieta, há muito

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suspensa pela instituição. 25 de maio – Estagiárias de Psicologia começam a atuar no hospital. 27 de maio – Limitado atendimento a alcoólatras. 2 de junho – David Capistrano denuncia movimento para sabotar a política de tratamento implantada pela Prefeitura. Funcionários do hospital abandonam o trabalho, dizendo-se ameaçados pela falta de maior controle dos internos. A situação é contornada com reforço da equipe médica. 7 de junho – Prefeita assina decreto declarando o Anchieta de utilidade pública, para fins de desapropriação. 8 de junho – Funcionários recebem aumento salarial de 100%. 17 de junho – Franco Rotelli, diretor do Centro Psiquiátrico Regional de Trieste, Itália, visita o Anchieta. 23 de junho – Juiz Ricardo de Almeida Dias, da 1ª Vara de Fazendas Públicas, ameaça suspender a intervenção. 26 de junho – Comunidade, funcionários, pacientes e familiares fazem ato público defronte do hospital, defendendo intervenção. 28 de junho – Telma de Souza inaugura no Anchieta o Ambulatório de Apoio Psicossocial, para os pacientes com alta. 3 de julho – Despacho do Tribunal de Justiça de São Paulo suspende os efeitos da sentença de Juiz de Santos. Continua a intervenção. 13 de julho – Marcos Pacheco de Toledo Ferraz, diretor da Divisão

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Nacional de Saúde Mental do Ministério da Saúde, visita o Anchieta e aprova intervenção. À noite, faz palestra sobre Implantação Política de Saúde Mental. 1º de agosto – É divulgado despacho do presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo. Nereu César de Moraes, considerando “um retrocesso inadmissível ao retorno da Casa de Saúde Anchieta a administração particular”.

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Arquivo Fotográfico

FOTOS RETIRADAS DA HEMEROTECA MUNICIPAL DE SANTOS “ROLDÃO MENDES ROSA” ESPAÇO LYGIA FEDERICH
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Prefeita Telma confere o estado do Anchieta

A inação fazia parte do dia-a-dia do hospital

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Médicos cuidaram dos pacientes com maiores problemas

O descaso com os pacientes era evidente e preocupante

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O famoso “chiqueirinho”: exclusão e sofrimento

A triste situação das fichas médicas e documentos do Hospital

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O interventor Roberto Tykanori

Psiquiatra Suzana Robortella

O artista Renato Di Renzo

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Jô Soares recebe Renato com o pessoal do projeto TamTam

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Os “loucutores” agitam as ondas do rádio com o TamTam

Oficina de arte dentro do Anchieta

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A arte cada vez mais presente

Com paredes pintadas pacientes em nova fase

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Bibliografia
D. O. Urgente, 03.05.1990 – Encarte da edição nº 257 do jornal - 1 ano depois D.O. Urgente, 06.05.1989 – “Não há recusa de doentes”. D.O. Urgente, 11.05.1989 – Anchieta: Liminar susta intervenção D.O. Urgente, 12.05.1989 – Voltam os problemas – José Roberto Fidalgo D.O. Urgente, 18.05.1989 – Volta a Intervenção - José Roberto Fidalgo D.O. Urgente, 16.06.1989 – Em Santos, a nova psiquiatria – José Roberto Fidalgo D.O. Urgente Especial, 14.08.1989 – As varias etapas da intervenção Jornal Candura – espaço coberto para um novo pensamento, 06.2005 Documento da Prefeitura Municipal de Santos – Saúde Mental, 1993. Jornal do Brasil, suplemento cidade, 24.07.1991 – Os 150 anos da loucura Jornal Folha de São Paulo, 18.05.1991 – Pais desmonta “indústria” psiquiátrica Jornal O Globo, 29.10.1989 – “Psiquiatria Democrática” avança no Brasil – Mauri Alexandrino www.paulodelgado.com.br www.saudemental.med.br/CAPS1.htm www.orgone.com.br http://noticias.uol.com.br/saude/ultnet/2005/03/24/ult11u2412.jhtm Centenário de Nise da Silveira: Psiquiatra revolucionou tratamento de doentes mentais – Juliana Lopes – 24/03/2005 – 14h32 Revista Viver Psicologia – Matéria Especial “Para Onde Vão os loucos” Revista Isto É, 30.05.1990- Contra o Apartheid mental MATOS, Paulo. Anchieta 15 anos. Cegraf: Gráfica e Editora Ltda – ME. Santos / SP, 2004.

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GOFFMAN, Erving. Manicômios, Prisões e Conventos. São Paulo: Perspectiva S.A., 1992. ASSIS, Machado de. O Alienista. BASAGLIA, Franco. A Instituição Negada. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1985. Manuel Monteiro, Novos Tempos para o Doente Mental - Literatura de Cordel, distribuição: Prefeitura de Campina Grande-PB, maio 2004

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