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4ª Quinzena

Tema da Coletânea para leitura: “ECOLOGIA” ALIADA ÀS QUESTÕES DE


“GLOBALIZAÇÃO” E “POLÍTICA INTERNACIONAL”.

Nesta quinzena, você lerá diversos textos sobre agroecologia, tema

amplamente debatido na atualidade que se enquadra nas discussões sobre

questões a respeito de ecologia, globalização e política nacional e internacional.

Ao lê-los, procure refletir acerca do posicionamento do autor, bem como construir

seu próprio ponto de vista.

Boa leitura!
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TEXTO

UM BENEFÍCIO AO MESMO TEMPO COLETIVO E INDIVIDUAL


POR QUE CONSUMIR ORGÂNICOS?

EDIÇÃO - 128 | FRANÇA por Claire Lecoeuvre, Março 2, 2018

A associação francesa Gerações Futuras divulgou no dia 20 de fevereiro um relatório sobre a


presença de pesticidas nos produtos agrícolas: 73% das frutas e 41% dos legumes analisados nos
últimos cinco anos estavam contaminados. Motivo para reforçar o interesse na agroecologia. Mas o
que dizem os estudos sobre os benefícios desta para o meio ambiente?

A agricultura orgânica remete às práticas que procuram favorecer a preservação dos ecossistemas
e a equidade na classe dos agricultores. É sobretudo a ausência de pesticidas sintéticos que reduz
consideravelmente seu impacto no ambiente e na saúde. Fabricadas em laboratório, as moléculas
que compõem os produtos fitossanitários acompanharam o aumento da produção agrícola em todo o
planeta. Mas, após algumas décadas, aprofundou-se a consciência dos efeitos do emprego intensivo
dos produtos químicos cada vez mais numerosos.
Exemplo: depois de vinte anos, registrou-se uma poluição generalizada das águas superficiais
e subterrâneas por nitratos e substâncias fitossanitárias. Segundo os últimos dados das agências
responsáveis pelo controle das águas, em 2014 87% dos rios vistoriados continham pelo menos um
pesticida. As duas substâncias mais frequentemente encontradas são o Ampa, um metabólito do
glifosato, e o próprio glifosato, o famoso herbicida classificado como provável cancerígeno pela
Organização Mundial da Saúde. De 1994 a 2013, 39% das interrupções de captações de água potável
se deveram à poluição por nitratos e pesticidas. Essa poluição e seu tratamento custariam entre 640
milhões e 1,140 bilhão de euros por ano. “Sabemos que mais vale prevenir que remediar”, diz Patricia
Blanc, diretora-geral da agência de controle de águas Seine-Normandie. “Há vinte anos, nossas agências
começaram a financiar projetos de mudança das práticas agrícolas, pois temos um verdadeiro problema
de poluição das águas.”
A agricultura convencional também produz efeitos sobre a biodiversidade. “Todas as atividades
caminham no mesmo sentido: a diminuição do número de espécies de insetos”, resume Axel
Decourtye, diretor científico do Instituto Nacional de Pesquisa Agronômica (Inra, na sigla em francês).
Em outubro de 2017, um novo estudo revelou uma perda de 76% a 82% da biomassa dos insetos em
vinte anos, em diversas regiões da Alemanha. Quanto aos pássaros, a quantidade de espécies no
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ambiente agrícola caiu pela metade de 1989 a 2013. Não é fácil, é claro, determinar as causas exatas da
diminuição da biodiversidade. A difusão de doenças, o desaparecimento de habitats e o emprego de
produtos fitossanitários são os principais motivos aventados. Todavia, segundo um artigo solidamente
fundamentado, os pesticidas desempenham um papel decisivo no declínio dos insetos polinizadores.
Em se tratando de hábitats, os agricultores orgânicos favorecem as pradarias com a rotação
de culturas, a plantação de cercas-vivas e ainda as associações de plantas. “A diversificação é um
elemento-chave da agroecologia”, confirma Natacha Sautereau, engenheira agrônoma e economista

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do Instituto Técnico de Agricultura Orgânica (Itab, na sigla em francês). Essas práticas aumentam o
número de plantas, aracnídeos, minhocas, coleópteros, pássaros e até mamíferos. O aumento dos
recursos alimentares disponíveis favorece também algumas espécies ditas auxiliares – morcegos, ouriços,
répteis, certos insetos e ácaros –, que minimizam a pressão dos depredadores.
 Identificar os efeitos dos pesticidas
Os solos são, com frequência, os grandes esquecidos quando observamos o impacto das atividades
humanas. No entanto, o emprego excessivo de pesticidas, de nitrogênio e de fósforo não os poupa.
Muito adubo os acidifica e provoca fenômenos de proliferação de algas, como as “marés verdes”
da Bretanha. Os pesticidas sintéticos contaminam os solos e destroem a vida microbiana que ali se
encontra. Já a agricultura orgânica favorece a cobertura dos solos, evitando a erosão. De maneira geral,
os solos das fazendas agroecológicas têm quantidades maiores de matéria orgânica, estimadas em
37,4 toneladas de carbono orgânico por hectare, contra 26,7 na agricultura convencional. As grandes
culturas orgânicas integram 64% de pradarias, contra 16% na agricultura convencional, mas também
mais leguminosas nas rotações e uma melhor cobertura dos solos no inverno. O conjunto dessas práticas
favorece o sequestro do carbono, o que pode contribuir para a contenção do aquecimento climático.
Avaliar sistemas agrícolas implica levar em conta seus efeitos sociais. Por exemplo, a diversificação
dos produtos e dos métodos de venda na agricultura orgânica, com mais circuitos curtos, exige mais
assalariados. Um relatório sobre os elementos secundários da agricultura orgânica revela que, em
dois terços das plantações, ela gera muito mais empregos. Além disso, em diversas atividades que
apresentam dificuldades financeiras aos agricultores, a passagem para a agricultura orgânica se torna
uma alternativa viável, explicando por que, de 2005 a 2016, a superfície agrícola orgânica passou de
2% para 5,7% do total. Observamos isso na produção de leite, frutas e legumes. “De início, são as
vicissitudes econômicas que provocam a mudança”, explica Marc Benoît, economista e diretor adjunto
do Comitê Interno de Agricultura Orgânica do Inra. “Está em jogo aí a famosa compressão dos preços:
o dos gêneros diminui, enquanto aumenta o da energia, dos adubos e dos fitossanitários. No caso do
leite, os criadores percebem que o sistema orgânico é melhor, mais rentável.”
Estranhamente, esses elementos são raramente destacados. Fala-se mais nos que estão ligados à
saúde. A agricultura orgânica produz efeitos nessa área? Para verificar, é necessário levar em conta as
exposições diretas e indiretas aos produtos fitossanitários. Diferentemente dos agricultores e ribeirinhos,
os consumidores não ficam em contato direto com esses produtos. No entanto, o efeito global do
sistema de agricultura orgânica vai além do indivíduo, sendo interessante considerar o benefício para
o conjunto da população. Notemos, num primeiro momento, que certos produtos da agricultura
orgânica contêm, paradoxalmente, traços de pesticidas sintéticos: segundo um relatório de 2016, 45%
dos produtos convencionais contêm pesticidas, mas também 12% dos provenientes da agricultura
orgânica. Isso se deve, sobretudo, à contaminação pelas glebas vizinhas e durante o beneficiamento.
A exposição direta a diversos produtos fitossanitários causa inúmeros problemas de saúde (câncer,
malformações etc.). Em 2013, num relatório produzido por diversos especialistas do Instituto Nacional
de Saúde e Pesquisa Médica (Inserm, na sigla em francês), passou-se em revista a literatura científica
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referente aos efeitos dos pesticidas na saúde. “Observamos, em primeiro lugar, que os agricultores são
menos sujeitos que o resto da população aos cânceres digestivos, do cólon e do reto, bem como aos
ligados ao tabagismo, como o do pâncreas, da bexiga e das vias superiores. Isso depende, contudo,
da idade e do tipo de trabalhador”, afirma Pierre Lebailly, professor da Universidade Caen-Normandia
e pesquisador do Centro François Baclesse.
Em contrapartida, foram detectadas ligações entre o emprego de agentes sintéticos e o aumento
do risco de desenvolver mal de Parkinson, linfomas não Hodgkin (LNH, cânceres do sistema linfático),

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mielomas múltiplos (cânceres do sangue) ou mal de Alzheimer. As pessoas que aplicam os pesticidas
e os empregados que os produzem teriam de 12% a 28% de riscos suplementares de ter câncer de
próstata, sem que seja possível associá-lo mais precisamente a determinada substância. No caso de
mulheres expostas durante a gravidez, os estudos mostram a possibilidade de associação na presença,
em crianças, de malformações congênitas ou leucemia. Entre as substâncias pesquisadas, o lindano,
o DDT e a malationa são frequentemente associados ao desenvolvimento de linfomas não Hodgkin.
Ao término de uma longa batalha, o mal de Parkinson e os linfomas não Hodgkin passaram a ser
reconhecidos também como doenças profissionais.
Em seguida, outros estudos trouxeram novos elementos probatórios. O grupo Agrican, que
atua desde 2006, tem por objetivo avaliar a incidência de câncer entre os agricultores num período
de pelo menos dez anos. “Por enquanto, observamos um excesso de 5% a 30%, com relação ao
resto da população, de linfomas não Hodgkin, de câncer de próstata e de câncer de pele, como
o melanoma”, revela Pierre Lebailly. Vários estudos apontam para o inseticida clorpirifós, que, em
caso de exposição durante o período pré-natal, pode acarretar problemas de desenvolvimento
cerebral. “O que é certo hoje é que o DDT e o clorpirifós são perigosos para o desenvolvimento do
cérebro. Entretanto, mais de uma centena de pesticidas poderiam afetar esse órgão. Precisamos de
mais provas para afirmá-lo. Existem já várias pesquisas, mas registramos com frequência exposições
mistas que complicam o isolamento de um pesticida”, insiste Philippe Grandjean, epidemiologista
da Universidade do Sul da Dinamarca. Nathalie Jas, historiadora do Inra, sustenta que a realidade
dos problemas de saúde ligados aos produtos fitossanitários está mascarada pela penúria de dados
e por causa da má visibilidade das afecções e da dificuldade de associá-las a exposições a doses
fracas. Ela nota também, na França, um desinteresse de mais de trinta anos por esses problemas,
considerados “o preço a pagar pelos progressos técnicos da agricultura”.
Desde os anos 1980, estudos vêm avaliando a qualidade dos alimentos produzidos pela agricultura
orgânica. “Eles mostram que os orgânicos contêm uma quantidade maior de carotenoides, ácidos graxos
e vitamina E”, diz Denis Lairon, diretor emérito de pesquisas do Inserm, especializado em nutrição. Em
outubro de 2017, um deles sintetizou o conjunto dos progressos obtidos nessa área. “Nos resultados
mais seguros, notamos uma diferença com relação aos polifenóis, existentes em maior quantidade nas
frutas e nos legumes orgânicos, que além disso revelaram uma presença menor de cádmio [um metal
tóxico]. Entretanto, os resultados não apresentam uma diferença muito grande”, contemporiza Axel
Mie, um dos autores do artigo e pesquisador do Instituto Karolinska, na Suécia.

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Menos risco de obesidade
Um ambicioso estudo epidemiológico foi publicado na França em 2011 pelo grupo NutriNet-
Santé. Segundo os primeiros resultados, comer alimentos orgânicos reduziria em 23% o risco de
excesso de peso e em 30% o de obesidade. “Notamos uma obesidade menor quando conseguimos
separar os fatores ligados ao modo de vida. Chegamos mesmo a notar certa diferença entre pessoas
que consomem uma alimentação equilibrada”, declara Emmanuelle Kesse-Guyot, epidemiologista do
Inra encarregada desse estudo. Duas hipóteses são aventadas para explicar o fenômeno. Por um lado,
a quantidade maior de ácidos graxos do tipo ômega 3 e de antioxidantes nos produtos orgânicos
amenizaria a síndrome metabólica. Por outro, as pessoas consideradas adeptas de uma alimentação
equilibrada consomem mais frutas e legumes; todavia, quando estes não são da agricultura orgânica,
contêm numerosos produtos fitossanitários. Ora, muitos estudos constataram um vínculo entre a
exposição aos pesticidas e um aumento de obesidade e diabetes de tipo 2.
Os problemas de saúde ligados aos produtos fitofarmacêuticos já têm uma longa história. “As
primeiras substâncias químicas utilizadas na agricultura que suscitaram uma barulhenta controvérsia
foram os arsenicais, lá pelo fim do século XX”, relata Nathalie Jas. O arsênico só foi suprimido
definitivamente em 2001, após inúmeras restrições de uso. Do mesmo modo, com o tempo, várias
substâncias foram eliminadas. Entre as mais conhecidas, temos a família dos organoclorados e alguns
organofosforados. Para muita gente, essas supressões provam o bom funcionamento do sistema de
regulação dos produtos sintéticos. Acontece, no entanto, que isso às vezes vem tarde demais e os
produtos continuam produzindo efeitos bem depois de sua interdição: por exemplo, a clordecona
nas Antilhas e a atrazina, proibida pela União Europeia em 2003, mas que ainda é encontrada na
maior parte dos rios.
Longe de ensejar a descoberta de outras soluções além dos pesticidas, cada proibição abre
caminho para o surgimento de novas substâncias apresentadas como menos perigosas. A toxicidade
pode mudar, mas nem por isso é menor. “Proibiram-se as que se mantinham por muito tempo nos
tecidos animais; as novas, porém, têm afinidade com a água e se acumulam ainda mais nos solos”,
explica Axel Decourtye.
Sob pressão dos interesses financeiros, a máquina administrativa e sanitária que gerencia os riscos
associados aos pesticidas parece um pouco enferrujada, ainda que o acúmulo de dados científicos
devesse conduzir a uma adoção bem mais rápida de modos de produção mais sustentáveis.

*Claire Lecoeuvre é jornalista.

FONTE: <https://diplomatique.org.br/por-que-consumir-organicos/>. Acesso em: 06 maio 2018.


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TEXTO

NEM TODO ORGÂNICO É AGROECOLÓGICO

É comum as pessoas associarem os produtos sem veneno/orgânicos ao cultivo agroecológico, pois


são mais saudáveis, mas isto nem sempre é uma realidade. De fato, alimentos orgânicos são aqueles
produzidos sem introdução de adubos sintéticos e agrotóxicos. O site do Ministério da Agricultura informa
que para ser considerado orgânico, tem de ser produzido em um ambiente de produção orgânica, onde se
utiliza como base do processo produtivo os princípios agroecológicos, que contemplam o uso responsável
do solo, da água, do ar e dos demais recursos naturais, respeitando as relações sociais e culturais.
Contudo, a agricultura orgânica pode estar, em alguns casos, aliada a um contexto socialmente
injusto. É possível, sim, produzir alimentos orgânicos com um selo de certificação comprado, ou fazendo
uso de trabalho escravo, assim como destruir a biodiversidade da propriedade, ou ainda poluir o meio
ambiente. Isso, no entanto, não está alinhado com a ética agroecológica, elemento norteador de todos
os princípios da agroecologia.

Espaço Agroecológico das Graças

O próprio selo de orgânico levanta uma polêmica ética, por causa da burocracia exigida. Já o
empresário da agricultura convencional não precisa comprovar com o mesmo rigor que seu produto
não está contaminado. Hoje, existem três formas de obter o selo do Sistema Brasileiro de Avaliação
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da Conformidade Orgânica (Sisorg), fornecido pelo Ministério da Agricultura, que garante a qualidade
do produto orgânico nacional.
A primeira delas seria feita através de uma das oito certificadoras credenciadas junto ao Ministério
da Agricultura. A outra opção seria através da certificação participativa, cedida pela sociedade civil
organizada (instituições, ONGs, agricultores e até mesmo consumidores). Uma outra possibilidade são as
Organizações de Controle Social (OCS), nas quais produtores cadastrados no Ministério da Agricultura
monitoram a qualidade da sua própria plantação.

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Atualmente, os lucros do grande mercado dos orgânicos se concentram nas mãos dessas oito
empresas certificadoras. Porque o selo, de acordo com o professor Jorge Tavares, pode vir a custar
cerca de R$ 70 mil por mês. O valor é inviável aos pequenos produtores e, além de elevar o preço
do produto no supermercado, promove a ideia de que comer bem custa caro. Este selo era exigido
dos produtores até 2003. Neste mesmo ano, a lei nº 10.831 ampliou as possibilidades de certificação,
permitindo a comercialização direta entre produtores e consumidores finais, o que só é possível por
meio das feiras de orgânicos.
Na prática, isso significa que, ao comprar um produto orgânico nos grandes supermercados, o
consumidor vai adquirir um produto mais caro, que pode não estar fresco e que pode ter sido cultivado
em um sistema político e ecologicamente incorreto. No entanto, se a compra é feita na feira de orgânicos,
o consumidor está subsidiando a agricultura familiar. O diferencial, além do manejo ecológico da terra,
também está no uso da mão de obra, pois sua característica principal é a produção de alimentos que
garantam a sobrevivência de uma família, daí ser chamada de agricultura familiar ou de subsistência.
A preocupação ecológica passa a ser, também, uma questão de sobrevivência para este minifúndio,
que precisa produzir permanentemente. É na variedade do policultivo que está a fonte de renda das
famílias. Esse estilo de agricultura é marginalizada pelos empresários do agronegócio e, ao mesmo tempo,
valorizada pelos movimentos sociais ligados à terra, pois nela se refletem os princípios da agroecologia.

FONTE: <http://www.unicap.br/webjornalismo/terraemtransicao/site/index.php/nem-todo-organico-e-agroecologico/>. Acesso


em: 06 maio 2018.

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TEXTO

IMPACTO DO AQUECIMENTO GLOBAL NA ALIMENTAÇÃO


PODE RESULTAR EM 500 MIL MORTES EM 2050

Ter, 08 de Março de 2016 14:00 equipe eCycle

As alterações climáticas podem causar a morte de mais de 500 mil pessoas no mundo em 2050, isso
devido às mudanças na alimentação e no peso das populações, principalmente por causa da redução
da produtividade agrícola, segundo estudo publicado em 3 de março.
De acordo com a revista The Lancet, a pesquisa é pioneira em avaliar o impacto do aquecimento
do planeta no regime alimentar e no peso das pessoas, e também por estimar as mortes geradas em
2050 em 155 países.
Segundo comunicado de Marco Spingmann, da Universidade de Oxford, no Reino Unido, que
dirigiu o estudo, “várias pesquisas foram centradas na segurança alimentar, mas poucas tiveram como
foco os efeitos mais amplos da produção agrícola em matéria de saúde”.
O aquecimento global pode trazer diversas consequências para o clima na Terra, como secas
prolongadas ou chuvas torrenciais, o que costuma ser bem problemático para as produções agrícolas
(veja mais sobre aquecimento global aqui).
Segundo cientistas responsáveis pelo estudo, se não forem tomadas providências que reduzam
as emissões de gases do efeito estufa, as alterações climáticas podem reduzir em cerca de um terço a
melhoria prevista da quantidade de alimentos disponíveis de hoje a 2050.
De forma individual, isso traria uma diminuição média de 3,2% na quantidade de alimentos
disponíveis, de 4% do consumo de frutas e verduras e de 0,7% de carne vermelha com relação a 2010,
estimam os especialistas. Essas alterações poderiam causar 529 mil mortos suplementares em 2050.
No entanto, se as alterações climáticas forem freadas, 1,9 milhão de mortes podem ser evitadas
devido ao aumento de alimentos disponíveis para consumo.
“Nosso estudo mostra que inclusive reduções modestas da quantidade de comida disponível
por pessoa poderiam conduzir a mudanças no conteúdo energético e na composição dos regimes
alimentares, e mostra também que estas mudanças terão consequências importantes para a saúde”,
ressaltou Springmann.
As regiões do Pacífico ocidental (264.000 mortos) e do Sudeste da Ásia (164.000 mortos) seriam as
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mais atingidas; cerca de 75% das mortes ocorreriam na China (248.000) e na Índia (136.000).

FONTES: Lancet e agências internacionais

FONTE: <https://www.ecycle.com.br/component/content/article/38-no-mundo/4292-impacto-do-aquecimento-global-na-
alimentacao-pode-resultar-em-500-mil-mortes-em-2050.html>. Acesso em: 06 maio 2018.

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TEXTO

QUAL O TAMANHO DO MERCADO DE ORGÂNICOS NO BRASIL?

Pesquisas mostram que 82% das famílias americanas consumiram orgânicos no último ano, já no
Brasil, o número cai para 15%; leia o artigo exclusivo do diretor da Organis

POR MING LIU*

Ming Liu, diretor do Conselho Brasileiro da Produção


Orgânica e Sustentável (Foto: Divulgação)

Não temos dúvida de que o mercado de produtos orgânicos e sustentáveis vem crescendo
conseguindo vencer a forte crise que passamos neste momento e, a cada dia, mais empreendedores
investem no segmento, se capacitando, certificando e procurando saber como participar do mercado
que mais cresce no mundo. 
O mais recente episódio aconteceu há pouco menos de um mês, quando o gigante do
mercado virtual, Amazon, comprou a maior rede de varejo de produtos orgânicos e natural, a
Whole Foods Market. O que temos de aprender com isso? Tem muito mercado para explorar.
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Acompanhamos a realização da principal feira do setor e a única na América Latina, a Bio Brasil Fair
│Biofach America Latina, em junho 2017 no Pavilhão da Bienal de SP, que reuniu quase 420 expositores,
mais de 25.000 visitantes, expositores de outros sete países, com crescimento na ordem de 35%
comparando-se com a edição do ano passado.
Vivemos hoje tempos de transformação e sabemos que os Estados Unidos, o maior mercado de
orgânicos do mundo, têm atingido faturamento significativo, e no ano passado, segundo a Organic Trade
Association, o valor de faturamento atingiu a marca de US$ 50 Bilhões de dólares. Neste processo, os

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consumidores seguem a tendência de melhorar seus hábitos e buscam produtos menos industrializados,
mais saudáveis, com menos aditivos e conservantes e com rastreabilidade.
É possível prever um crescimento maior e a mudança dos hábitos, pois os indicadores apontam
que, no mercado americano: 82% das famílias americanas consumiram orgânicos no último ano, 14% de
todas as frutas e vegetais consumidos no mercado já são orgânicos, 5% de todos os produtos lácteos
são orgânicos e 75% de todos os produtos encontrados hoje no mercado já têm sua versão orgânica.
No lado da produção, está comprovado que o retorno de produtores orgânicos é 33% acima dos
produtores convencionais e a contribuição adicional, na renda anual de quem atua na cadeira, atinge
em média US$2.000 a mais de quem atua na cadeia apenas com produtos convencionais. 
Multinacionais de alimentos e agronegócios no mundo estão fazendo pesquisas e estudando
o segmento e, nos mercados no exterior, poucas têm criado marcas próprias e a grande maioria
busca comprar marcas existentes para não ficar fora deste mercado. Aqui no Brasil, não é diferente e
observamos que ainda estamos na fase inicial deste movimento.  Sabemos que, com a globalização,
a tendência é que o movimento chegará com força.
Cabe saber quem serão os pioneiros neste processo aqui no Brasil. O que podemos dizer destes
números? Como podemos nos preparar para atender a forte demanda do consumidor com produtos
mais saudáveis, mais confiáveis, mais seguros e com rastreabilidade? 
O Conselho Brasileiro da Produção Orgânica e Sustentável (ORGANIS) realizou, no período de
março a abril, a primeira pesquisa nacional para conhecer o perfil do consumidor brasileiro de orgânicos,
o que realmente conhecem e entendem sobre esses produtos. O resultado foi surpreendente e nos
dá a indicação de que estamos ainda no início de um processo de consolidação e o crescimento se
fortalecerá nos próximos anos. 
O principal apontamento foi que 15% consumiram produtos orgânicos, sendo o maior
índice para a região sul (34%) em contraste com os moradores da região sudeste, que obtiveram
o menor índice com pouco mais de 10% dos domicílios. Outros indicativos interessantes: seis
em cada 10 famílias consumiram verduras e uma em cada quatro consumiu frutas e cereais.
Outro número muito surpreendente é que 84% dos consumidores não conseguiram lembrar da marca
do produto que consumiu.
A pesquisa apontou um preocupante desconhecimento por parte do consumidor sobre o produto
e sua verificação. A grande maioria ainda associa o produto orgânico apenas com a questão de produto
sem agrotóxicos ou químicos, ainda não conhece a regulamentação e, em muitos casos, confia na
palavra de quem comercializa ou quem apresenta o produto.
Isso tem um lado positivo, pois demonstra que a indicação pessoal é muito forte e representativa,
mas preocupante, pois não reconhecer um produto orgânico, propicia oportunidades para fraudes e
oportunistas. Pouco mais de 45% lembram ter visto o selo oficial do MAPA e apenas 8% afirmaram que
utilizaram o selo como verificador de conformidade e credibilidade.
Estas informações indicam que as empresas têm um vasto mercado e oportunidades para trabalhar
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os brandings dos produtos, num mercado em pleno crescimento.


Quais os motivos para 85% da população não consumir orgânicos? 41% apontam o preço como
fator determinante, os demais alegaram desconhecimento, falta de interesse e falta de local para compra. 
Este resultado demonstra que falta ainda uma campanha nacional ou um projeto de educação
para esclarecer o consumidor, melhor distribuição e oferta de produtos. O varejo tenta ser este veículo
com o consumidor final, na medida em que lojas menores fazem um atendimento mais personalizado,
potencializando o processo de educação e fidelização com os consumidores.

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Temos um mercado para pensar como inserir a produção local, extrativista e familiar dentro de
um modelo sustentável, em que o consumidor possa reconhecer seus valores, com a oportunidade
de trabalhar a construção de valor na cadeia e o processo de industrialização dentro das condições e
regulações de certificação. Segundo o MAPA, o país conta com cerca de 16.000 produtores orgânicos
cadastrados, número crescente a cada ano. 
Para chegar um dia aos números dos Estados Unidos, precisamos conscientizar e educar o
consumidor, valorizar o trabalho local e garantir a segurança dos produtos. O tamanho do potencial do
mercado de orgânicos no Brasil é de 207 milhões de habitantes, afinal não dependemos de importação
de insumos e tecnologia, pois temos tudo aqui no nosso quintal.

• Ming Liu é diretor do Conselho Brasileiro da Produção Orgânica e Sustentável (Organis) Contato: mingliu@
organis.com.br

FONTE: <https://revistagloborural.globo.com/Noticias/Agricultura/noticia/2017/07/qual-o-tamanho-do-mercado-de-organicos-
no-brasil.html>. Acesso em: 06 maio 2018.

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TEXTO

DEIXE DE COMPRAR COMIDA ORGÂNICA SE QUISER


SALVAR O PLANETA

Consumir ‘orgânico’ não faz de você amigo do meio ambiente: é uma ameaça para as florestas tropicais

KRISTIN SULENG
19 DEZ 2016 - 15:50 BRST

Não poucos rótulos de produtos orgânicos (aqueles cujos produtores garantem não ter sido
tratados com nenhum tipo de pesticida que não seja natural, que foram cultivados respeitando os
ciclos próprios da natureza e não foram modificados geneticamente) prometem não apenas um sabor
autêntico, mas que ao escolhê-los você contribuirá para preservar a natureza. Na Espanha, 36% das
pessoas que consomem produtos orgânicos o fazem movidos por motivos ambientais, segundo uma
pesquisa de 2014 do Ministério da Agricultura. Se você é dos que acreditam que ao comprar estes
alimentos contribui para salvar o planeta, poderia estar incorrendo em um erro: um artigo recente
publicado na New Scientist afirma que é um tipo de agricultura menos eficiente, com a qual não se
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reduzem as emissões de CO2 e que, além disso seus produtos não são necessariamente mais saudáveis.
“Está na moda aderir ao orgânico pelo atrativo da palavra, mas ninguém tem ideia de como é
produzido”, sentencia o engenheiro agrônomo Marco Antonio Oltra, professor associado de Fisiologia
Vegetal na Universidade de Alicante. Para este especialista, uma produção totalmente orgânica não
abasteceria toda a população: “Somos 7 bilhões de pessoas diante de 1% de produção orgânica. Mudar
para uma agricultura orgânica faria com que metade da população mundial deixasse de comer. Só se

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cultiva assim em regiões onde faltam meios para a agricultura técnica, como na Índia ou em alguns
países africanos. Mas não são levados pelo respeito ao meio ambiente, embora o consumidor ignore
isto. Muitos consumidores associam o orgânico ao bom”, opina o especialista.
Embora você não perceba, a agricultura orgânica demanda a utilização de mais terras por causa
de seu baixo rendimento em relação à convencional, o que leva à degradação de ecossistemas
como as florestas nas zonas tropicais. Uma pesquisa publicada na Nature em 2012, baseada em uma
meta-análise (um procedimento estatístico avançado) de todos os dados publicados, concluía que a
produção orgânica produz entre 5% e 34% menos que a convencional. “Para satisfazer as necessidades
da crescente população [em 2050 terá aumentado em 1 bilhão de habitantes, segundo a FAO], haverá
a necessidade de mais superfície para o cultivo, e isso significa que, se forem respeitadas as normas
da agricultura orgânica, seria preciso desmatar florestas. No entanto, com a agricultura convencional,
tecnologicamente muito avançada, seria possível cultivar em regiões de estepe e até em desertos”,
afirma Emilio Montesinos, microbiologista, catedrático em Patologia Vegetal e diretor do Instituto de
Tecnologia Agroalimentar – CIDSAV da Universidade de Girona.
Maior rastro ecológico
Quando se fala dos gases do efeito estufa, certamente que a primeira coisa que vem à mente é
a imagem de uma metrópole superpovoada ou a das fumegantes chaminés de uma indústria. Mas a
produção agrícola joga também seu papel nessas emissões nocivas para o planeta. “Na verdade, a
orgânica implica, em média, uma maior emissão de dióxido de carbono do que a convencional. É preciso
levar em conta os trabalhos do campo, a mão de obra, a menor eficiência dos produtos fitossanitários
para o controle de pragas e doenças ou da fertilização”, explica Montesinos.
“Em um programa de produção orgânica de maçãs, por exemplo, o controle de uma doença
muito frequente denominada sarna-da-maçã requer aplicações semanais ou mais frequentes, durante
três meses, de produtos pouco eficazes como o bicarbonato de potássio, o enxofre e o caulim. No
final desses cuidados, isto pode significar mais de doze tratamentos.” Segundo o microbiologista, uma
horta familiar, onde os trabalhos são feitos manualmente, não deixaria um rastro de CO2 maior, “mas
em uma exploração de um hectare a presença do maquinário agrícola é mais frequente e, portanto,
aumentam as emissões. Na agricultura convencional seriam usados fungicidas de sínteses muito mais
eficazes e menos tratamentos, entre dois e cinco”.
Outro aspecto importante se refere ao custo energético dos produtos fitossanitários. O especialista
exemplifica: “Em alguns cultivos orgânicos se requer menos energia, mas às vezes se utilizam
compostos derivados, autorizados, de cobre, com um tremendo impacto ambiental. Embora sejam
considerados naturais, não procedem em primeiro plano de extrações diretas de mineração, mas da
reciclagem de cabos elétricos, entre outros. Essa reciclagem tem um considerável consumo energético
e emissão de CO2.”
Com o objetivo de reduzir as emissões de gases do efeito estufa, a tecnologia agrícola mais
promissora até o momento corresponde à modificação genética, já que os cultivos modificados (OGM,
na sigla em inglês) se destinam a capturar energia solar e, assim, reduzir o uso de fertilizantes. Na
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verdade, um estudo de 2014 fixava em 36,9% a diminuição do uso de pesticidas graças à modificação
genética. “Tanto os cultivos transgênicos como os convencionais realizam a fotossíntese e fixam CO2
mediante a captura de energia solar. Os plantios comerciais atuais ainda não incorporam uma menor
necessidade de fertilizantes porque, embora existam variedades OGM melhoradas, não estão no
mercado. No futuro estas plantas poderão reduzir as emissões de CO2, e até mesmo ser usadas como
escoadouro”, afirma Montesinos.

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Rotulagem e consciência
A agricultura orgânica é vinculada constantemente à recuperação dos sabores de antes, o que o
consumidor relaciona com um alimento mais saudável, diz Oltra: “É uma ideia errada: se um tomate
comprado em uma grande superfície não tem gosto de tomate não é pelo tipo de agricultura de que
provém, mas porque, ante uma demanda de produtos visualmente perfeitos (escolhemos o tomate
por sua cor e não pelo seu sabor), os produtores convencionais priorizam o atrativo do alimento,
sacrificando seu sabor”.
Para o bioquímico e divulgador José Miguel Mulet, autor de Los productos naturales, vaya
timo (Laetoli) e Comer Sin Miedo (Destino), “o rótulo orgânico só diz que os que se utilizou é natural,
mas não que seja melhor nem pior. Tampouco informa se foi aplicada alguma das numerosas exceções
que o regulamento prevê. Só faz referência ao fato de ter sido produzido de acordo com as normas,
mas nada sobre o impacto ecológico, como o rastro de carbono [o CO2 é emitido em todas as fases
de criação de um produto]”, afirma.
Apesar de o certificado do rastro de carbono não ser obrigatório, há países europeus em que é
comum que os produtos orgânicos tenham esse dado assinalado em seu rótulo. Para Oltra, este indicador
não ajuda a se ter uma ideia real sobre se estamos diante de um produto nocivo para a natureza ou
não. “A certificação é muito importante, mas só quando o usuário final pode entendê-la. Há outros
conceitos, como o rastro hídrico (quantificar a água que se utilizou), que são mais compreensíveis. Mas,
sobretudo, é necessário fazer uma comparação: quando se lê que um produto utilizou 18 litros para
um quilo e outro, 32, fica mais claro. Com o rótulo, seria premiada a eficácia de um consumo verde, e
não só no uso da água, também em fertilizantes e tratamentos fitossanitários”, observa.
Tudo vale a pena pela saúde?
Outro motivo pelo qual as pessoas escolhem produtos orgânicos é porque se preocupam com
a  saúde. Mulet considera que comer orgânicos não é mais saudável: “A qualidade nutricional é
semelhante tanto no convencional como no orgânico, outra questão é a segurança alimentar, onde fica
claro que os maiores alertas se deram no orgânico, a começar pela crise de 2011, que causou 47 vítimas”.
“Quando não há problema de pragas e de nutrição nas plantas, a agricultura orgânica não demanda
ações importantes para seu controle, como o uso de pesticidas autorizados. No entanto, na prática, as
pragas, doenças e ervas daninhas comprometem em perdas ao redor de 33% da produção potencial na
agricultura convencional. É de se supor que na orgânica sejam ainda maiores por causa da menor eficácia
dos sistemas de controle. Isto se traduz em que seus produtos apresentem maior deterioração e não
se conservem tão bem como os convencionais, o que ocasiona deteriorações fúngicas. Alguns desses
fungos produzem micotoxinas, hoje um dos problemas toxicológicos alimentares mais preocupantes”,
conclui Emilio Montesinos.

FONTE: <https://brasil.elpais.com/brasil/2016/12/15/ciencia/1481801597_706486.html>. Acesso em: 27 maio 2018.


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TEXTO

FONTE: <https://4.bp.blogspot.com/-Ai_QlW_yG3c/VqiRiqNux8I/AAAAAAAAHrI/1NCpv21vHhs/s400/Charge%2BAgrot%25C
3%25B3xico%2B%2BFabiano%2BCartunista%2Bwww.fabianocartunista.com.jpg>. Acesso em: 06 maio 2018.

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