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Michelli de Godoy Del'Mônico – Letras diurno – 1° semestre

Candido, Antonio: “Formação da Literatura Brasileira”. (Momentos decisivos) – São Paulo:


Martins;- (pp. 9 à 19) - 1ª volume (1750-1836); 2ª edição revista - “Prefácio das 1ª e 2ª edições”;

Prefácio da 1° edição

Segundo o autor, cada literatura necessita de um tratamento especifico, em virtude de seus


problemas ou da relação que mantém com as outras. A brasileira é recente. Surgiu da portuguesa e
dependeu de outras influências para se constituir. Sua formação tem caracteres exclusivos e não
pode ser estudada como as demais, especialmente em uma perspectiva histórica. Candido procurou
definir o valor e a função das obras ao mesmo tempo.
A maior dificuldade está em equilibrar os dois aspectos, sem valorizar indevidamente
autores sem eficácia estética, nem menosprezar os que desempenharam papel apreciável, mesmo
esteticamente secundários. O crítico não deve subestimar a literatura brasileira nem superestimá-la.
Há literaturas que um homem não precisa sair para receber cultura; Outras, que só podem
ocupar uma parte da sua vida de leitor. Assim, pode-se imaginar pessoas de nacionalidades
diferentes que só conheçam os autores da sua terra e encontrem neles o suficiente para elaborar a
visão das coisas, experimentando as emoções literárias.
A literatura do Brasil é galho secundário da portuguesa. Aqueles que nutrem apenas dela são
facilmente reconhecidos pelo gosto provinciano e falta do senso de proporções. Esse livro é fiel ao
espírito crítico, procurando despertar o interesse nas obras como algo indispensável para formar a
visão de mundo.
Comparado às grandes, o conjunto das produções literárias nacionais que exprime a
população é pobre e fraco. Cabe aos brasileiros a leitura das obras para evitar o esquecimento e
descaso. Já que os autores acrescentaram para posteridade os sentimentos que os descendentes
experimentavam e as observações que faziam.
Este livro foi preparado e redigido entre 1945 e 1951. Retomado em 1955 para uma revisão
terminada um ano depois, quanto ao primeiro volume, e em 1957, quanto ao segundo.
O intuito desse trabalho foi a interpretação, visando o juízo crítico, fundado sobretudo no
gosto. O leitor encontrará as referências nas notas ou na bibliografia, distribuída segundo os
capítulos, ao fim de cada volume.
Sempre que possível, no caso de citações sucessivas da mesma obra, as indicações da página
são dadas no próprio texto ou reunidas em uma única nota, para facilitar a leitura.
As citações de autor estrangeiro são apresentadas em português, quando se trata de prosa.
No caso dos versos, adotou-se deixar na língua original, os castelhanos, italianos e franceses,
acessíveis ao leitor médio; nos latinos e ingleses dar o original e, em nota, a tradução.
Como os dados biográficos são utilizados na medida em que são necessários à interpretação,
o autor juntou às indicações bibliográficas, um rápido traçado da vida dos autores.
Candido ressalta a ideia de que em um livro de matéria tão ampla e diversa, quanto à
originalidade, acaba-se chegando a conclusões parecidas de seus antecessores imediatos; Salvo a
personalidade por um pequeno timbre na maneira especifica de apresentá-las.
Dois foram os principais livros que influenciaram sobremaneira o autor: “História da
Literatura Brasileira”, de Sílvio Romero e a “Pequena História”, de Ronald de Carvalho.
Este livro foi feito por etapas, haja vista a exclusão do teatro. O autor informa que nunca
praticou o tipo de crítica teatral e se torna, cada dia mais, especialidade em conhecimentos práticos
que não possuí. Outra falha ressaltada, é a exclusão do Machado de Assis romântico no estudo da
ficção. Deixada de lado porque se tornou patente aos estudiosos.

Prefácio da 2° edição
Essa nova edição sai revisada, com vários erros corrigidos e melhoria de redação em alguns
trechos. Este livro foi recebido com louvores e censuras.
De acordo com o autor, o livro é sobretudo um estudo de obras; a sua validade deve ser
encarada em função do que traz ou deixa de trazer a este respeito. E não apenas a '”introdução”
como fizeram os críticos.
Candido deixa claro que jamais afirmou a inexistência de literatura no Brasil. Cita o início
dela a partir do séc. XVI; ralas e esparsas manifestações, mas que estabelecem posições para o
futuro. Elas aumentam no séc. XVII, quando surgem escritores baianos de porte; e na primeira
metade do XVIII as Academias dão à vida literária uma primeira densidade.
O pressuposto geral do livro em relação ao problema de divisão de períodos é que a
literatura brasileira não nasceu. Ela foi se configurando no decorrer do século XVIII. Isso é
verificado pelas obras dos autores, postas em primeiro plano, desde aquela época até o último
quartel do séc. XIX.
O segundo pressuposto é relativo aos períodos do Arcadismo e Romantismo, pois se a
atitude estética os separa, a vocação histórica os aproxima, constituindo ambos um grande
movimento.
Entretanto, esse tipo de visão requer um método histórico e estético, mostrando por
exemplo, como determinados elementos da formação nacional levam o escritor a escolher e tratar
de maneira determinada alguns temas literários. Este pode ser considerado o terceiro pressuposto
relativo à atitude metodológica no sentido mais amplo. Não há qualquer pretensão de originalidade.
É uma posição crítica bastante comum. Segundo a tese universitária do autor, ele procurou mostrar
a inviabilidade da crítica determinista em geral. A obra é uma entidade autônoma no que tem de
especificamente seu. Esta precedência do estético, mesmo em estudos literários de orientação ou
natureza histórica, leva a jamais considerar a obra como produto.
Isso permitiu chegar ao quarto pressuposto fundamental do livro, referente ao papel
representado pelos dois períodos em foco.
Um dos aspectos centrais é o movimento arcádico, que ao invés de ser uma forma de
alienação, foi admiravelmente ajustada à constituição da literatura brasileira. O argumento
romântico é que os árcades fizeram literatura de empréstimo, submetendo-se a critérios estranhos à
nossa realidade. No entanto, é necessário atentar-se a duas coisas: este modo de ver foi tomado
pelos românticos aos autores estrangeiros que estudaram a literatura do Brasil. E que eles o
completavam por outro, a saber, que os árcades foram seus antepassados espirituais, e que fizeram a
literatura nacional.
O Arcadismo foi importante poque plantou de vez a literatura do Ocidente no país, graças
aos padrões universais, e que permitiram articular a atividade literária com o sistema expressivo da
civilização. Os árcades contribuíram ativamente para essa definição. Quando quiseram exprimir as
particularidades do Brasil, conseguiram elevá-las à categoria depurada dos melhores modelos. Seria
injusto inverter o raciocínio corrente e mostrar que os românticos é que poderiam ser considerados
alienadores. Os velhos temas, são os problemas fundamentais do homem, que eles preferem
considerar privilégio das velhas literaturas.
Quem escreve, contribui e se inscreve num processo histórico de elaboração nacional. Os
árcades tinham a noção mais ou menos definida de que ilustravam o país produzindo literatura; e
levaram à Europa sua mensagem. A literatura brasileira é marcada por este compromisso com a vida
nacional no seu conjunto, circunstancia que inexiste nas obras dos países de velha cultura.
As considerações históricas, longe de desvirtuarem a interpretação dos autores e dos
movimentos, podem levar a um juízo estético mais justo. Estas coisas, afirmadas através do livro,
talvez ajudassem a compreender melhor seus intuitos se tivessem sido todas sistematizadas na
introdução. Foi um erro segundo o autor, pensar que o leitor os encontraria em seu lugar. Assim,
procurou remediar isso nessa nova edição.