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ISSN 1982 - 0283

EDUCAÇÃO E
INVESTIGAÇÃO
CIENTÍFICA
Ano XX Boletim 14 - Outubro 2010
Sumário

Educação e investigação científica

Apresentação da série ................................................................................................. 3


Rosa Helena Mendonça

Proposta da série (incluindo os temas abordados nos 5 programas) .......................... 5


Roseli de Deus Lopes
Educação e investigação científica

APRESENTAÇÃO DA SÉRIE


O que é educação baseada em investigação cendo no Brasil e no exterior nesse campo?
científica? Qual o significado dessa aborda- Que projetos têm sido desenvolvidos pelos
gem na mudança de paradigma com relação alunos e alunas das escolas que abrem es-
à Educação em Ciências? Quais os desafios paço para essas experiências? Como esses
para a concretização dessa proposta, com projetos podem contribuir para o desenvol-
relação à parceria universidade e escola e à vimento social e econômico do país?
formação de professores?
Nos programas televisivos, entrevistas e re-
Essas são algumas das questões que serão portagens em escolas e universidades tra-
abordadas na série Educação e investigação zem um painel dessas temáticas, de modo
científica, que a TV Escola apresenta por a que possam inspirar outras realizações.
meio do programa Salto para o Futuro. Com Os textos desta publicação, da mesma for- 3
a consultoria de Roseli de Deus (Escola Poli- ma, buscam contribuir para a formação de
técnica da USP), os programas apresentarão professores e professoras, tendo em vista
reflexões e experiências sobre essas e outras a efetivação da transformação dos conte-
questões. údos de Ciências em sintonia com a imple-
mentação de uma cultura científica que
Qual a importância das Feiras e das Mostras possa, efetivamente, ter uma repercussão
de Ciências como estratégia para uma apren- na vida dos alunos e, consequentemente,
dizagem significativa? O que está aconte- na sociedade.

Rosa Helena Mendonça1

1 Supervisora pedagógica do programa Salto para o Futuro/TV ESCOLA (MEC).


Educação e Investigação Científica

A série Educação e Investigação Científica, que serão abordados nos cinco programas:
que será apresentada de 4 a 8 de outubro PGM 1: Educação em Ciências baseada em in-
de 2010 no programa Salto para o Futuro/ vestigação; PGM 2: Interação escola, universi-
TV Escola (MEC), aborda o significado da pe- dades e centros de pesquisa; PGM 3: Mostras
dagogia de projetos e do método científico e Feiras como estratégia pedagógica; PGM 4:
em trabalhos investigativos, ressaltando a Outros olhares sobre Educação e investigação
importância das Mostras e Feiras de Ciên- científica e PGM 5: Educação e investigação
cias e Engenharia nessa abordagem. A série científica em debate.
também destaca a pertinência de outros
A publicação eletrônica sugere, ainda, um 4
projetos, atividades e competições cientí-
link para o texto complementar “Educação
ficas, como acampamentos, trabalhos de
em Ciência – Experiências inovadoras”, apre-
campo, oficinas e atividades experimentais
sentado na 4ª Conferência Nacional de CT&I
em Museus de Ciências e Clubes de Ciências,
2010, disponível em http://cncti4.cgee.org.
Olimpíadas, entre outros, como propulsores
br/, do professor Ernst W. Hamburguer, da
de uma aprendizagem significativa. A apro-
USP. Neste texto, o autor defende a adoção
ximação entre a universidade e a escola,
do Ensino de Ciências Baseado em Investiga-
nesse sentido, assume um papel primordial
ção (ECBI) desde as séries iniciais, comenta
para ambas as instituições, no sentido de
sobre o Programa ABC na Educação Cientí-
desenvolver uma atitude investigativa desde
fica – Mão na Massa, da Academia Brasi-
a iniciação científica, envolvendo alunos e
leira de Ciências, por meio da apresentação
professores.
de alguns exemplos de atividades aplicadas
Apresentamos, a seguir, o texto da propos- a séries iniciais da Educação Básica. Outros
ta da série, elaborado pela consultora Roseli sítios e leituras complementares são reco-
de Deus Lopes. Nesta publicação eletrônica, mendados pela consultora ao final desta
teremos uma proposta ampliada, com subsí- proposta.
dios para as discussões em torno dos temas
PropOSTA DA SÉRIE

Roseli de Deus Lopes1

1. Introdução lógico para a população, em especial, para


os jovens, para que se possa viver e “nave-
A questão da Educação de Qualidade para
gar” no mundo contemporâneo.
todos, em todos os níveis, já era apontada
como fundamental no Manifesto dos Pio- É mais do que evidente a importância de
neiros da Educação Nova (AZEVEDO, 1932). se desenvolver ações voltadas a melhorar a
Uma educação de qualidade, significativa, Educação Básica e despertar vocações para
que prepara para a vida. De lá para cá, o as Ciências e Engenharia, não só para redu-
que mudou foi a democratização do acesso zir a evasão no Ensino Superior, mas prin-
à Educação Básica, mas os demais desafios cipalmente para atrair os melhores e mais
persistem, com o agravante de que preparar vocacionados estudantes para as diferentes
para a vida de hoje é tarefa bem mais com- carreiras. 5
plexa do que era em 1932.

Na Engenharia, por exemplo, muitos estu-


Atualmente, ainda não vencido o analfabe- dantes ingressam e, quando não desistem,
tismo literal, soma-se a ele o analfabetismo permanecem nos cursos sem saber porque
funcional e o analfabetismo científico. Se- continuam, sem ter ou querer desenvolver
gundo dados do IBOPE, em 2005, das pesso- qualquer vocação para exercer Engenharia.
as com mais de 15 anos no Brasil, 6% eram
Alguns, ao serem questionados por que es-
analfabetos absolutos e 68% não sabiam ler
colheram o curso, respondem que depois de
nem escrever direito, sendo, portanto, con-
concluir Engenharia irão procurar um bom
siderados analfabetos funcionais. O anal-
emprego, eventualmente, na área financeira
fabetismo científico é um problema maior
ou comercial. Outro ponto que merece des-
ainda no mundo todo, trazendo à tona uma
taque é que os meios e as mídias eletrônicas
preocupação geral de como proporcionar o
interativas evoluíram muito mais rapida-
mínimo de conhecimento científico/tecno-
mente do que a capacidade de se desenvol-

1 Professora no Departamento de Engenharia de Sistemas Eletrônicos da Escola Politécnica da Universidade


de São Paulo (USP). Mestre e doutora em Engenharia Elétrica pela Escola Politécnica da USP. Diretora (2008 a 2010)
da Estação Ciência da USP. Coordenadora geral da FEBRACE (Feira Brasileira de Ciências e Engenharia) desde 2003.
Consultora da série.
ver aplicações (“fins”) que tomem vantagem te (o número de patentes e registros ainda
deste avanço. Enquanto na década de 70 é inexpressivo). Além de ações específicas
ainda se utilizava, por exemplo, como ferra- para estimular o desenvolvimento científico
menta de projeto em Engenharia, uma régua e tecnológico, é fundamental criar uma cul-
de cálculo, vinte e cinco anos depois já era tura de inovação e empreendedorismo no
possível, nos países mais desenvolvidos, re- nosso país, e isso se inicia com o estímulo
alizar prototipação digital em ambientes de à criatividade das nossas crianças e jovens
realidade virtual na indústria. No entanto, na Educação Básica, oferecendo a todos eles
mesmo nas melhores escolas de Engenharia, oportunidades de escolher, de observar, de
salvo raras exceções, ainda hoje os proces- criar hipóteses, de estabelecer e pôr em prá-
sos de ensino e aprendizagem não foram be- tica suas estratégias de aprender a pensar,
neficiados pelo avanço dos meios e mídias de planejar e de avaliar, e também oferecen-
eletrônicos interativos. do espaços para compartilharem suas expe-
riências e descobertas, para que se valori-
As imensas transformações que vivencia-
zem e sejam valorizados.
mos nos dias de hoje em todas as áreas
devem-se, principalmente, aos avanços pro- Cada vez mais, para que um país possa se de-
porcionados pelas tecnologias eletrônico- senvolver e proporcionar qualidade de vida 6
computacionais. Para que possamos formar aos seus habitantes, é preciso que tenha ca-
alunos que sejam protagonistas, neste pro- pacidade de gerar inovação, gerar novas tec-
cesso intenso, acelerado e altamente com- nologias e agregar valor a seus produtos e
petitivo, é fundamental sensibilizá-los para processos. Para isso, é preciso provocar des-
que desenvolvam habilidades, competências de cedo a criatividade dos indivíduos, dan-
e estratégias de pesquisa e desenvolvimen- do-lhes oportunidades de escolher e desen-
to colaborativas, multidisciplinares e criati- volver temas que lhes interessem, de buscar
vas, explorando o acervo de conhecimentos
caminhos e de reforçar suas autoestimas e,
e tecnologias abertas e livres para acelerar
assim, poderem se preparar para serem em-
processos de estudos de caso e desenvolvi-
preendedores e geradores de inovação.
mento de protótipos e produtos inovadores.

O Brasil tem mostrado bons resultados em 2. A Educação Básica e a


termos de publicações científicas (como proficiência em Ciências
resultado do investimento de agências de
fomento nacionais e estaduais na pesquisa Um dos desafios do milênio propostos pela

básica), entretanto, o desempenho no de- ONU para 2015 é o de garantir o acesso à

senvolvimento tecnológico é ainda incipien- Educação Básica de qualidade para todos.


Quanto a garantir o acesso, o Brasil avan- Educação Básica (SAEB), no caso dos IDEBs
çou significativamente: em 1990, 80%, e dos estados e nacional. Tanto a Prova Bra-
hoje 97,6% das crianças de 7-14 anos fre- sil como o SAEB avaliam a proficiência em
quentam a Educação Básica. Enquanto isso, Língua Portuguesa e Matemática, mas ainda
na América Latina, ainda há 4,3 milhões não avaliam a proficiência em Ciências.
e, no mundo, da ordem de 100 milhões de
crianças fora da escola. A taxa de escola- Na tabela 1 são apresentados os valores do
rização bruta (relação entre o número de IDEB de 2005 e 2007, bem como as metas es-
matrículas e a população na faixa etária tabelecidas pelo MEC para 2007 e para 2021.
correspondente) no Ensino Secundário (En- Pode-se observar as grandes diferenças nos
sino Fundamental mais Ensino Médio) no valores dos índices das escolas públicas mu-
Brasil, segundo a UNESCO (2009), em 2007 nicipais e estaduais em relação às federais e
era de 90%, entretanto a porcentagem de privadas. Pode-se observar, também, a estag-
reprovações foi da ordem de 21%, sendo a nação ou a mínima alteração em dois anos,
principal razão apontada para o insucesso apesar dos inúmeros investimentos munici-
a desmotivação dos alunos. pais, estaduais e federais. Pode-se observar,
ainda, que as metas para 2021 são pouco ou-
Quanto a garantir qualidade, o problema é sadas (não alcançando nem em 2021 os va- 7
muito mais complexo, a começar pela pró- lores atuais das escolas federais e privadas).
pria avaliação da qualidade.
Para avaliar a situação da Educação Básica
A fim de apoiar a avaliação da qualidade, no do Brasil no cenário internacional, pode-se
Brasil, foi criado o Índice de Desenvolvimen- utilizar os resultados do PISA. No ano de
to da Educação Básica (IDEB), que é calcu- 2006, uma amostra dos alunos de 15 anos de
lado a partir de dois componentes: taxa de idade de 57 países foi avaliada. No Brasil, a
rendimento escolar (aprovação) e médias de amostra foi de 9,3 mil alunos, representando
desempenho nos exames padronizados apli- 1,9 milhões de matrículas nas redes públicas
cados pelo Instituto Nacional de Estudos e e privadas do país. Os resultados do Brasil,
Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP) de acordo com a tabela 2, são um pouco pio-
do Ministério da Educação (MEC). Os índices res do que a média dos resultados para os
de aprovação são obtidos a partir do Censo países participantes da América Latina, mas
Escolar, realizado anualmente pelo INEP/ muito piores do que os resultados dos paí-
MEC.  As médias de desempenho utilizadas ses da América da Norte, Europa e Ásia. Em
são as da Prova Brasil (para IDEBs de escolas Ciências, por exemplo, o Brasil ficou em 52o
e municípios) e do Sistema de Avaliação da lugar dentre 57 países participantes.
Tabela 1 – IDEB 2005, 2007 e projeções para 2021

Fonte: Saeb e Censo Escolar, http://ideb.inep.gov.br/Site/ (acesso em abril de 2010).

Para avaliar a situação da Educação Básica de acordo com a tabela 2, são um pouco pio-
do Brasil no cenário internacional, pode-se res do que a média dos resultados para os
utilizar os resultados do PISA. No ano de países participantes da América Latina, mas
2006, uma amostra dos alunos de 15 anos de muito piores do que os resultados dos paí-
idade de 57 países foi avaliada. No Brasil, a ses da América da Norte, Europa e Ásia. Em
amostra foi de 9,3 mil alunos, representando Ciências, por exemplo, o Brasil ficou em 52o
1,9 milhões de matrículas nas redes públicas lugar dentre 57 países participantes.
e privadas do país. Os resultados do Brasil, 8

Tabela 2 – Proficiência dos países e regiões selecionados, PISA 2006

Fonte: Microdados do PISA 2006.

Cabe destacar, especificamente, que a ava- esses são apresentados ou relacionados a


liação em Ciências do PISA não é uma ava- contextos. Na seleção dos contextos, o ob-
liação de contextos. O PISA avalia as com- jetivo da avaliação é avaliar competências
petências, conhecimentos e atitudes como científicas, entendimentos e atitudes que os
alunos tenham adquirido no final dos anos as diferenças linguísticas e culturais dos pa-
de escolaridade obrigatória. Os contextos íses participantes.
utilizados são escolhidos em função da rele- A tabela 3 apresenta a escala de proficiência
vância para os interesses e vidas dos alunos. em Ciências utilizada no PISA 2006, que foi a
Os itens são desenvolvidos tendo em mente mesma para o PISA 2009.

Tabela 3 - Escala de proficiência em Ciências do PISA

O gráfico 1 apresenta a porcentagem de es- (Organisation for Economic Co-operation and


tudantes por nível de proficiência em Ciên- Development), de alguns países e conjuntos
cias no PISA (Programme for International de países. Os estudantes brasileiros apresen-
Student Assessment) 2006, avaliação da OCDE taram um desempenho semelhante à média
dos países da América Latina que participam sentados de países como os EUA e Coreia do
da avaliação, pior do que o do Chile e muito Sul. A maioria dos alunos do Brasil estão no
pior do que todos os outros resultados apre- nível 1 ou abaixo dele.

Gráfico 1 – Porcentagem de estudantes por nível de proficiência na escala de Ciências do PISA


2006

Fonte: Gerado a partir de Microdados do PISA 2006.

Fonte: Gerado a partir de Microdados do PISA 2006.

Na tabela 4 são apresentados os resultados tíficas, explicação científica de fenômenos e 10


para as diferentes competências avaliadas uso de evidências científicas.
em Ciências: identificação de questões cien-

Tabela 4 – Médias em competências para países e áreas selecionadas, PISA 2006

Fonte: Microdados do PISA 2006.


Na tabela 5, são apresentados os resultados ciais. Pode-se notar que, no caso do Brasil,
para a avaliação de conhecimentos em Ci- o conhecimento de sistemas vivos foi um
ências: sobre Ciências, de sistemas físicos, pouco superior aos demais conhecimentos
de sistemas vivos e de Terra e sistemas espa- em Ciências.

Tabela 5 - Médias em conhecimentos para países e áreas selecionadas, PISA 2006.

11
Fonte: Microdados do PISA 2006.

Outro aspecto a se considerar é a acelera- tização infomidiática. Entretanto, pesquisas


da evolução dos meios e mídias eletrônico- apontam que a maioria das escolas ainda
computacionais, que trazem não apenas não está preparada para o uso pedagógico
oportunidades de acesso a informações e dos meios e mídias eletrônico-computacio-
possibilidades de comunicação, mas tam- nais (LOPES et al., 2010).
bém de representação e simulação de mo-
delos. Toda esta evolução tem alterado pro- Cabe destacar que, neste sentido, o PISA
cessos em todas as áreas de conhecimento 2009 passou a avaliar também conhecimen-
e atividade humana. Desta forma, é impres- tos de sistemas tecnológicos na avaliação de
cindível desenvolver, ainda na Educação Bá- conhecimentos de ciências, e incluiu a ava-
sica, competências infomidiáticas básicas. liação de leitura e compreensão de textos
Estudos como o da Comunidade Europeia eletrônicos na avaliação de leitura.
(CELOT & TORNERO et al., 2009) vêm sen-
do realizados a fim de definir indicadores e Um estudo da União Europeia [EUR-Lex,
critérios para avaliação dos níveis de alfabe- 2010] sobre aprendizagem ao longo da vida
identifica e define oito competências essen- para desenvolver e atualizar as suas compe-
ciais para a realização pessoal, cidadania tências essenciais ao longo da vida.
ativa, inclusão social e empregabilidade na
sociedade do conhecimento: 1) comuni- 2.2. Educação Superior
cação na língua materna, 2) comunicação
em línguas estrangeiras, 3) competência Em relação à Educação Superior, apesar dos

matemática e competências básicas em ci- avanços recentes, pode-se observar na tabela

ências e tecnologia, 4) competência digital, 6 que a taxa de 30% do Brasil é ainda muito

5) aprender a aprender, 6) competências baixa quando comparada aos demais países.

sociais e cívicas, 7) sentido de iniciativa e A Coreia do Sul, que em 2007 já atingia a taxa

empreendedorismo, 8) sensibilidade e ex- de 95%, é um país que tem um quarto da po-

pressões culturais. O estudo conclui que a pulação brasileira numa área, aproximada-

Educação Básica deve propiciar o desenvol- mente, equivalente à do estado de Pernambu-

vimento destas competências essenciais em co, e que se desenvolveu de forma vertiginosa

um nível que possibilite a todos os jovens – nos últimos 30 anos graças aos massivos in-

incluindo os menos favorecidos – continua- vestimentos em Educação, saindo de uma si-

rem a aprender e trabalhar ao longo da vida tuação precária e sendo hoje considerado um

e que a Educação/Formação de adultos deve dos países mais desenvolvidos e mais avança- 12
dar oportunidades reais a todos os adultos dos tecnologicamente no mundo.

Tabela 6 - Taxa de Escolarização Bruta na Educação Superior para países selecionados

Fonte: UNESCO, Global Education Digest 2009.


Nota 1: Razão entre o total de matrículas na Educação Superior e a população na faixa etária correspondente.
Nota 2: Estimativa da UIS.
Além de o número de graduados em nos- vimento tem sido mais expressivo, como a
so país ser relativamente muito baixo, ou- Coreia do Sul, a porcentagem de diploma-
tro aspecto desfavorável a ser observado é dos em cursos em Ciência e Tecnologia, em
a distribuição dos diplomados por área do especial em Engenharias, é muito maior do
conhecimento. Como pode ser observado que no Brasil.
na tabela 7, nos países em que o desenvol-

Tabela 7 – Porcentagem de diplomados no Ensino Superior por Área, 2007

13

Fonte: UNESCO, Global Education Digest 2009.

3. Educação em Ciências ou nem isso (27,9% estão abaixo do nível 1).

Baseada em Investigação Considerando a péssima situação da profi-


ciência em Ciências dos alunos brasileiros,
Como observado nos resultados do PISA pode-se concluir que uma das causas seja a
2006, a maioria dos estudantes brasileiros se ênfase em apresentar conteúdos (aulas ex-
encontra no nível 1 ou abaixo, o que indica positivas sem atividades experimentais) que
que a maioria dos estudantes (33,1% estão é normalmente dada pelas escolas. Ter in-
no nível 1) tem conhecimento científico li- formações sobre ciências está muito longe
mitado, que só pode ser aplicado para algu- de ter conhecimentos e competências cien-
mas situações familiares, e pode apresentar tíficas, que é o que o PISA procura avaliar.
explicações científicas que são óbvias e que Considerando também a necessidade de de-
seguem explicitamente evidências dadas, senvolvimento de competências essenciais,
como competência matemática e compe- Com o avanço das Tecnologias da Infor-
tências básicas em ciência e tecnologia e mação, a aquisição de conhecimentos não
competência de aprender a aprender, torna- é mais o foco de quem vai à escola. Cada
se vital desenvolver práticas inovadoras em vez fica mais evidente que o fundamental
Educação em Ciências. é aprender a aprender e aprender sempre.
Assim, é fundamental que os estudantes
A estratégia de Ensino de Ciências Baseado descubram desde cedo suas habilidades e
em Investigação (ECBI) é apresentada em talentos e percebam que podem desenvol-
Hamburger (2010), bem como sua aplicação ver outros. O caminho mais fértil para tal é
é realizada em projetos como o Programa desenvolver atividades de aprendizagem ba-
ABC na Educação Científica – Mão na Mas- seadas em projetos que exercitem a criati-
sa. Esta estratégia é baseada na experimen- vidade, utilizando metodologia científica e/
tação e o professor conduz atividades que ou de engenharia. Para valorizar e multipli-
permitem aos estudantes realizarem experi- car os resultados da aprendizagem baseada
mentos em que observam, fazem anotações em projetos é importante abrir espaços do
individuais e coletivas, formulam hipóte- tipo feiras de projetos, pois estas criam inú-
ses, desenvolvem estratégias para validar/ meras possibilidades de expressão e valori-
refutar as hipóteses formuladas, observam, zação, além da geração de oportunidades 14
analisam, tiram suas conclusões, discutem pelo intercâmbio com outros estudantes,
os resultados e chegam a conclusões coleti- educadores, academia e com a sociedade
vas, seguindo um processo de redescoberta em geral.
e aprendizado.
O mais importante para um aprendiz não
Cavallo et al. (2004) descreve o projeto “A são os resultados (um protótipo, produto ou
Cidade que a Gente Quer”, em que é utili- validação ou não de uma hipótese), mas sim
zada uma abordagem semelhante à do Mão os processos (as diversas etapas de investi-
na Massa, acrescida do desenvolvimento de gação, reflexão, construção, observação e
competência digital (ampliação de lingua- registro necessárias), aprender o fazer cien-
gens) e desenvolvimento de competências tífico, aprender o fazer em engenharia, enfim
em ciência e tecnologia. Os estudantes, me- aprender fazendo. O principal papel que cabe
diados pelo professor, são levados a identifi- ao professor é o de estimular o registro ade-
car e caracterizar problemas e a desenvolver quado, a reflexão, a análise crítica e o pro-
alternativas de solução, por meio da con- cesso de descoberta (ou redescoberta), sem
fecção de simulações em computador e/ou riscos físicos ou emocionais para os envol-
construção de protótipos funcionais. vidos.
4. Interação escola, ação das instituições. Sempre partindo de

universidades e centros de um tema do cotidiano, o curso se desenrola

pesquisa de forma lúdica, integrando conhecimento


e diversão. Desses cursos são selecionados
Diversas Universidades, Instituições e Cen- alunos e professores — levando em conta
tros de Pesquisa, Museus e Centros de Ciên- o desempenho nas atividades e a condição
cias têm projetos ativos de educação cientí- econômica do candidato — para estagiarem
fica para professores, estudantes e público nos laboratórios das universidades. Sob a
em geral. orientação de estudantes de pós-graduação,
os selecionados são familiarizados ao traba-
Neste sentido, merece destaque a Rede lho científico e ajudam seus monitores no
Nacional de Educação e Ciência: Novos Ta- desenvolvimento de pesquisas. Além disso, o
lentos da Rede Pública (http://www.novos- universitário acompanha o desempenho es-
talentosredepublica.com.br/). Este programa colar do estagiário, auxiliando-o em outras
foi idealizado e iniciado pelo Prof. Leopoldo disciplinas que apresentar dificuldade. Nes-
de Meis do Instituto de Bioquímica Médica sa relação, ainda é possibilitado ao pós-gra-
da Universidade Federal do Rio de Janeiro duando um maior contato com a realidade
(UFRJ), em 1985, e hoje corresponde a uma social brasileira. Os professores selecionados 15
rede de 19 Universidades brasileiras, apoia- também desenvolvem trabalhos de pesquisa
das pela FINEP e pela CAPES, que desenvol- e, no final do estágio, devem elaborar arti-
vem um programa que visa à melhoria das gos científicos para serem publicados em re-
condições de ensino de ciências para jovens vistas especializadas em educação e ciência.
de todo o país. Por meio de metodologias Além dos cursos e dos estágios, várias outras
que facilitam o aprendizado e desmistificam atividades são desenvolvidas pelo programa,
a Ciência, inúmeras atividades são desenvol- de acordo com a realidade de cada univer-
vidas pelo programa, mas duas ações cons- sidade. Há a produção de material didático
tituem a sua espinha dorsal: cursos experi- diferenciado, peças de teatro, clube de ciên-
mentais de curta duração e estágios. Todas cias, olimpíadas do conhecimento, projetos
as universidades participantes oferecem, no itinerantes e outros. Todas as atividades são
período de férias, cursos destinados a alu- gratuitas e os cursos experimentais de curta
nos do Ensino Médio e professores do Ensino duração e os estágios ainda oferecem ajuda
Básico da rede pública. Nessa atividade são de custo para os participantes.
elaboradas experiências em diversas áreas
das Ciências Naturais e da Saúde, em geral As agências de fomento nacionais, como a
monitoradas por estudantes de pós-gradu- CAPES e o CNPq, e estaduais (FAPs) possuem
diversos programas voltados a apoiar a tério da Educação Básica. Com o objetivo
interação escola, universidade e centros de integrar universidade e escola pública,
de pesquisa. ensino básico e superior, a CAPES/DEB
criou o Programa Novos Talentos - Pro-
A Coordenação de Aperfeiçoamento de
grama de Apoio a Projetos Extracurricu-
Pessoal de Nível Superior (CAPES), agên-
lares: Investindo em Novos Talentos da
cia de fomento brasileira, desempenha
Rede de Educação Pública para Inclusão
papel fundamental na expansão e con-
Social e Desenvolvimento da Cultura
solidação da pós-graduação stricto sen-
Científica (CAPES/DEB, 2010), que visa
su (mestrado e doutorado) em todos os
à inclusão social e desenvolvimento da
estados da Federação. A CAPES, por meio
cultura científica por meio de atividades
de sua recém-criada Diretoria de Edu-
extracurriculares (como cursos, oficinas
cação Básica Presencial (DEB), também
ou atividades equivalentes, no perío-
desenvolve diversos programas e ações
do de férias das escolas públicas ou em
(figura 1) voltados para: fomentar a arti-
horário que não interfira na frequência
culação e o regime de colaboração entre
escolar) para alunos e professores das es-
os sistemas de ensino da educação bási-
colas da rede pública de educação básica,
ca e de educação superior, inclusive da 16
atividades estas que ocorrem nas depen-
pós-graduação, para a implementação
dências de universidades, laboratórios e
da política nacional de formação de pro-
centros avançados de estudos e pesqui-
fessores; subsidiar a formulação de polí-
sas, museus e outras instituições, inclu-
ticas de formação inicial e continuada de
sive empresas públicas e privadas, visan-
profissionais do magistério da educação
do ao aprimoramento e à atualização de
básica; apoiar a formação docente do
professores e alunos da educação básica.
magistério da educação básica, mediante
As atividades vão de “Escola aberta de ini-
concessão de bolsas e auxílios para o de-
ciação à ciência” a “Cursos de férias de
senvolvimento de conteúdos curriculares
física, química e astronomia”, passando
e de material didático; e apoiar a forma-
por “A biologia como foco para alfabeti-
ção docente mediante programas de estí-
zação científica”.
mulo para ingresso na carreira do magis-
Figura 1 - Visão geral dos programas e ações da Diretoria de Educação Básica Presencial da CAPES (TEATINI, 2010).

O Conselho Nacional de Pesquisa e Desenvol- como a FEBRACE - Feira Brasileira de Ciên-


vimento (CNPq) possui um Programa de Bol- cias e Engenharia (www.febrace.org.br), a 17
sas de Iniciação Científica Júnior – ICJ (CNPq, MOSTRATEC – Mostra Internacional de Ci-
2010), que tem a finalidade de “despertar ência e Tecnologia (www.mostratec.com.br)
vocação científica e incentivar talentos po- e a INTEL ISEF – International Science and
tenciais entre estudantes do ensino funda-
Engineering Fair (www.societyforscience.org/
mental, médio e profissional, mediante sua
isef/) são ações contínuas de estímulo à cul-
participação em atividades de pesquisa cien-
tura investigativa, científica, de inovação e
tífica ou tecnológica, orientadas por pesqui-
empreendedorismo, com foco em estudan-
sador qualificado, em instituições de ensino
tes e professores do Ensino Fundamental,
superior ou institutos/centros de pesquisas”
Ensino Médio e Ensino Técnico, que todo
por meio de parcerias do CNPq diretamente
ano realizam mostras de projetos científi-
com estas instituições ou por meio das Fun-
cos/tecnológicos investigativos e inovadores
dações de Apoio à Pesquisa Estaduais (FAPs).
realizados por estudantes pré-universitários
de todo o pais. A mostra anual dos melhores
5. Mostras e Feiras como
talentos, na forma de uma grande feira de
estratégia pedagógica
projetos, é uma importante oportunidade

Mostras e Feiras de Ciências e Engenha- para estudantes e professores de todo o país

ria, com ênfase em projetos investigativos, compartilharem experiências e mostrarem


seus talentos para um grande público, con- • Criar oportunidades para jovens pré-
tando, inclusive, com uma grande visibilida- universitários brasileiros e seus profes-
de na mídia nacional, o que é fundamental sores orientadores entrarem em conta-
para estimular outros estudantes e profes- to com diferentes culturas e estarem
sores a se engajarem no estudo e na prática próximos de reconhecidos cientistas.
das Ciências e Engenharia.
Os estudantes, estimulados pelo desafio de
Os principais objetivos deste tipo de mostra preparar seus projetos para submissão ao
ou feira são: processo de seleção das feiras, aprendem a
preparar um plano de pesquisa e a executar
• Estimular novas vocações em Ciências
e registrar todas as etapas de um projeto, de
e Engenharia por meio da indução da
acordo com o método científico ou de en-
realização de projetos investigativos,
genharia. Para aqueles que participam como
em Ciências (Exatas e da Terra, Bioló-
finalistas na mostra anual, abrem-se várias
gicas, da Saúde, Agrárias, Sociais e Hu-
oportunidades de contato com autoridades,
manas) e Engenharia e suas Aplicações,
professores universitários, pesquisadores,
por estudantes da Educação Básica (En-
especialistas de empresas, representantes de
sino Fundamental, Médio e Técnico); 18
sociedades científicas e visitantes em geral.
Ao interagir com os avaliadores e com o pú-
• Estimular e valorizar a realização, nas
blico visitante, os estudantes finalistas mos-
escolas da Educação Básica, de ativi-
tram conhecimentos sobre e em Ciências e/
dades baseadas em realização de pro-
ou Engenharia e competências em observar,
jetos que estimulem a criatividade, o
identificar e caracterizar problemas, criar
raciocínio crítico, a reflexão e o apro-
hipóteses, planejar, elaborar e colocar es-
fundamento;
tratégias em prática, criar soluções, avaliar
• Aproximar as escolas públicas e pri- criticamente, tomar decisões, expressar suas
vadas das Universidades e Centros de ideias de múltiplas formas (oral e escrita –
pesquisa, criando oportunidades de diário de bordo, relatório, pôster, maquete,
interação espontânea entre os estu- protótipos, etc.). Esta interação é uma opor-
dantes e professores das escolas com tunidade ímpar de crescimento, troca de ex-
a comunidade universitária (estudan- periências e estabelecimento de parcerias.
tes, professores, funcionários), para
uma melhor compreensão dos papéis Mostras e Feiras de Ciências de caráter inves-
das universidades em relação a Ensi- tigativo, quando realizadas por universida-
no, Pesquisa, Cultura e Extensão; des e instituições de expressão científica em
suas regiões, exercem um papel importan- e provocar os professores universitários (não
te ao estimular novas práticas nas escolas, somente da USP, mas de outras Universida-
melhorando a aprendizagem em Ciências. des, que participam como voluntários no
Depoimentos de estudantes e professores processo de avaliação de projetos) a repensa-
de todo o país mostram diversos casos de rem suas práticas educacionais, ao constata-
sucesso. Há diversos exemplos de localida- rem o elevado potencial criativo e realizador
des em que, num ano, apenas uma ou um dos estudantes da Educação Básica, futuros
pequeno número de submissões foram re- estudantes de nossas universidades.
alizadas, e que no ano seguinte houve uma
“explosão” no número de submissões. A Professores e estudantes são incentivados
transformação vem ocorrendo não somente a organizar feiras em suas escolas a fim de
em quantidade, mas também em qualidade. criar oportunidades em suas comunidades
(pesquisar e desenvolver soluções para pro-
Muitas escolas estão usando as normas e blemas locais, gerar conhecimento a partir
orientações da FEBRACE para estimular seus de experiências locais e gerar oportunidades
professores e estudantes a trabalhar com o para seus jovens talentos e para seus pro-
método científico ou de engenharia em pro- fessores).
jetos de pesquisa e na resolução de proble- 19
mas como uma estratégia de aprendizado. A A FEBRACE e a MOSTRATEC selecionam todos
mostra anual de projetos da FEBRACE é se- os anos estudantes para participarem como
diada no campus de São Paulo da USP, uma finalistas em outras competições, mostras
das mais importantes Universidades brasilei- e eventos científicos internacionais, mere-
ras, e recentemente classificada entre as 150 cendo destacar a participação na Intel Inter-
mais importantes do mundo, o que garan- national Science and Engineering Fair (ISEF),
tiu a rápida consolidação da marca FEBRACE que acontece anualmente nos EUA e reúne
como uma ação de qualidade e credibilidade em torno de 1.500 estudantes de 60 países.
científica nacional e internacional. Este selo É fundamental a participação de finalistas
de qualidade e credibilidade permite aos es- brasileiros em Feiras Internacionais como a
tudantes e professores finalistas consegui- Intel ISEF, pois esta experiência proporciona
rem captar recursos para possibilitar sua um processo de realimentação positiva. Os
participação na feira. Outra razão importan- estudantes que se destacam são valoriza-
te para sediar a mostra no campus de uma dos, ganham visibilidade nacional, estimu-
Universidade Pública como a USP é a de ma- lando os demais a se empenharem. Os que
ximizar a interação com a academia (profes- participam da etapa internacional, além do
sores, pesquisadores, funcionários e alunos) intercâmbio cultural entre professores e es-
tudantes de diferentes países, têm a oportu- É preciso persuadir jovens estudantes a
nidade de serem avaliados e de realizarem acreditarem que pesquisas e desenvolvi-
intercâmbio com renomados pesquisadores mentos importantes podem ser feitos por
de universidades e empresas do mundo. Esta qualquer um deles, e que para isso basta
ampla rede de relacionamentos dá visibili- querer aprender e trabalhar com empenho.
dade nacional e internacional a estudantes Há muito mais problemas à espera de solu-
e professores protagonistas, articula novas ções do que problemas já resolvidos, assim,
oportunidades e divulga exemplos concre- basta incentivar os estudantes para que bus-
tos de como é possível e importante des- quem identificar bons problemas para resol-
pertar e incentivar novos talentos para as ver com as competências e habilidades que
Ciências e a Engenharia. Cabe destacar que, têm (e se não têm, podem desenvolver).
em 2010, a delegação brasileira foi a tercei-
ra mais premiada na Intel ISEF, só ficando O início da mudança de cultura pode ser
atrás dos EUA e da China em número total comprovado pelos resultados observados
de premiações, o que comprova que nossos durante as avaliações das feiras no Brasil e
estudantes têm o mesmo potencial criativo o destaque na feira internacional, Intel ISEF.
e realizador dos melhores estudantes dos Além disso, cabe exemplificar algumas situ-
outros países, só é preciso intensificar e am- ações interessantes como a de um aluno, 20

pliar as ações para que mais estudantes bra- que não encontrando apoio em sua escola,
sileiros tenham a oportunidade de exercitar foi buscar ajuda num importante instituto
e desenvolver seus potenciais. de pesquisas para que lhe abrisse as por-
tas para realizar sua pesquisa, que resultou
A aplicação da Pedagogia de Projetos, esti- num importante segundo lugar na Intel
mulando os estudantes a realizarem pro- ISEF em sua categoria. Seu sucesso motivou
jetos investigativos utilizando materiais este instituto a abrir as portas para outros
de baixo custo e/ou reciclados, leva a uma estudantes pré-universitários realizarem
aprendizagem significativa, amplia horizon- projetos de iniciação científica júnior em
tes e permite despertar vocações. A estraté- suas instalações, sob a supervisão de seus
gia de feiras também se mostra adequada, pesquisadores. Outro exemplo é o de uma
não somente como forma de valorizar os es- professora que, depois de ter orientado um
tudantes pelo trabalho realizado, mas prin- projeto que foi finalista da FEBRACE e, em
cipalmente para criar um espaço de troca seguida, finalista da Intel ISEF, ao retornar
entre estudantes, entre professores, entre vem orientando outros estudantes, inclusi-
estudantes e professores e entre estudantes ve de outros estados, via Internet. Outro ain-
e avaliadores. da é o de dois professores que, ao voltarem
com sua estudante que foi finalista na Intel gia: qualquer que seja o tema e área
ISEF, iniciaram um movimento de sensibili- principal, ao ter que desenvolver um
zação e de atividades de formação continua- projeto real (que busca explicar um fe-
da com professores, que resultou na criação nômeno real ou resolver um problema
e consolidação de uma feira regional envol- real), o estudante necessitará fazer
vendo diversas escolas do município e seu uso de suas competências e aprimo-
entorno, com participação de um significa- rar/desenvolver outras relacionadas a
tivo número de projetos de outros estados. Matemática, Ciências e tecnologia;

Considerando novamente as oito competên- 4) competência digital: na busca de in-


cias essenciais, identificadas no estudo da formações para realizar um projeto
União Europeia (EUR-Lex, 2010), as Mostras de seu interesse, o estudante é moti-
e Feiras de projetos investigativos desenvol- vado a se desenvolver e utilizar novos
vidos por estudantes podem ser vistas como recursos para acesso à informação,
estratégias pedagógicas que contribuem representação, simulação e autoria in-
para o desenvolvimento das oito competên- dividual e coletiva;
cias essenciais:
5) aprender a aprender: ao realizar um 21
1) comunicação na língua materna: de- projeto real, o estudante desenvolve
senvolvem competências para comu- estratégias, se coloca desafios e se
nicação tanto para leitura em busca torna mais autônomo para aprender a
de informações relevantes para seu aprender;
projeto, como de forma escrita em
seus registros (diário de bordo, rela- 6) competências sociais e cívicas: ao bus-
tório) e de forma oral para apresentar car problemas para resolver, a maioria
seu projeto em feiras e mostras; dos estudantes se interessa em tratar
de temas de relevância social e, neste
2) comunicação em línguas estrangei- exercício, eles percebem que são capa-
ras: tanto de leitura como de escrita zes de identificar problemas e desen-
e oral, quando buscam ou conseguem volver soluções;
participar de feiras e mostras interna-
cionais; 7) sentido de iniciativa e empreendedo-
rismo: quando o estudante se coloca
3) competência matemática e competên- um desafio e percebe que pode en-
cias básicas em ciências e tecnolo- frentá-lo, mas que precisa se dedicar,
persistir, ter responsabilidade, buscar sua criatividade, buscar caminhos, reforçar
alternativas, está desenvolvendo esta sua autoestima e se preparar para gerar ino-
competência de iniciativa e atitude vação. Inovar passa por provocar desde cedo
empreendedora; a criatividade dos indivíduos (ou pelo menos
não tolher ou inibir), dando-lhes oportuni-
8) sensibilidade e expressões culturais: a dade de escolher e desenvolver temas de seu
participação na feira propicia um mo- interesse. Cabe ao educador estimular a re-
mento de forte interação social e cul- flexão, a análise crítica e o processo de des-
tural, em que os estudantes aprendem coberta (ou redescoberta), sem riscos físicos
a respeitar e valorizar a diversidade. ou emocionais para os envolvidos. A Nova
Escola deve formar indivíduos criativos, fle-
xíveis, com espírito crítico, que saibam viver
6. Principais desafios e
e conviver em sociedade, que saibam apren-
considerações finais
der a aprender sempre, que sejam capazes

A Educação Básica deve propiciar uma Edu- de reconhecer problemas e buscar e criar

cação em Ciências e para Ciências e Enge- soluções, que saibam colaborar e que sejam

nharia capaz desenvolver as competências cidadãos de fato.


22
essenciais em todos os estudantes para
A Educação Superior precisa melhorar sua
prepará-los para a vida e, também, capaz de
eficiência. É preciso atrair os mais vocacio-
despertar vocações para as Ciências e En-
nados para as diferentes carreiras e dar a
genharia e criar situações que possibilitem
eles a melhor formação, à luz dos avanços
uma escolha mais consciente por parte dos
do Novo Milênio. Neste sentido, é preciso
estudantes pré-universitários, bem como
desenvolver as competências (habilidades,
sensibilizá-los para o exercício da criativida-
atitudes e conhecimentos) específicas de
de como caminho para a inovação e o de-
cada carreira, combinadas ao desenvolvi-
senvolvimento econômico e social. O mais
mento e aprimoramento das competências
importante para um aprendiz na Educação
infomidiáticas necessárias para qualquer ci-
Básica não são os resultados (um protóti-
dadão. É necessário buscar desenvolver nas
po, produto ou validação ou não de uma hi-
Universidades maior sinergia entre as ações
pótese), mas sim os processos (as diversas
de Ensino, Pesquisa e Extensão. Por meio
etapas de investigação, reflexão, construção
das atividades de extensão, é preciso chegar
e observação necessárias), voltados para
à Educação Básica para gerar oportunidades
aprender o fazer científico, o fazer em enge-
para formação contínua dos professores e
nharia, o aprender fazendo. Estes são os pri-
para que os jovens descubram e se apaixo-
meiros passos para um indivíduo exercitar
nem pelas Ciências e Engenharia, ou seja, luções adequadas à nossa realidade cultural,
é preciso despertar e provocar as vocações social e econômica.
(inclusive com oportunidades de iniciação
científica/tecnológica júnior). Também é im- É fundamental dominar o processo de cria-
portante gerar mais oportunidades para que ção sob pena, em não o fazendo, de sofrer
estudantes de graduação se envolvam em novos processos de colonização. Por exem-
atividades de iniciação científica e tecnoló- plo, ao consumir um jogo eletrônico estran-
gica, contribuindo ao mesmo tempo para geiro, está se consumindo não somente um
as atividades de pesquisa e melhorando a produto eletrônico, mas recebendo toda a
formação destes estudantes (aprendizagem carga cultural e de valores de quem o de-
mais significativa, associada à pesquisa e à senvolveu.
inovação).
É importante introduzir ferramentas com-
É preciso cultivar em todos os níveis da Edu- putacionais em todos os níveis da Educação,
cação, desde a Educação Infantil, a curiosi- não porque os indivíduos precisam saber
dade, o querer saber como e por que as coi- usar estas ferramentas (“consumir”), uma
sas são como são, por que algo funciona, o vez que em todas as áreas profissionais elas
querer e poder explicar, recriar e reinventar, se encontram presentes, mas sim para des- 23

para depois poder criar e inventar, ou seja, mistificá-las (abrindo as “caixas pretas”) e
o caminho fértil é o da iniciação científica possibilitar novas experiências sensoriais e
desde as séries iniciais. É preciso desenvol- novos tipos de autoria com elas (não ape-
ver e aplicar estratégias educacionais para nas produção de textos e imagens, mas tam-
desmistificar as tecnologias, para formar bém representação, simulação de modelos
indivíduos criativos e curiosos, capazes de e construção de novos sistemas eletrônico-
abrir as “caixas pretas” para observá-las, computacionais). Deve-se introduzir recur-
entendê-las, reinventá-las, para depois po- sos de acesso à Internet para comunicação
derem inventar e inovar nas mais diversas com a Teia Mundial, não como algo que
áreas de aplicação. simplesmente permite acessar informações
prontas, mas sim que possibilita ampliar
É premente que se crie um Movimento Tec- horizontes para estudantes que aprendem a
nofágico (LOPES, 2007), em que nosso país fazer boas perguntas e também para autoria
passe de mero consumidor, a produtor de colaborativa (produtor / colaborador).
tecnologias. Precisamos “deglutir” e “dige-
rir” as soluções tecnológicas existentes e ad- É preciso mobilizar para transformar as
quirir autonomia para criação de novas so- feiras e mostras públicas dos alunos, apre-
sentando seus projetos investigativos, na CATTS, R.; LAU, J. Towards information lite-
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em set. 2010. bre o Programa ABC na Educação Científica


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tífica: um salto para a Ciência. Salto para o tivos) e organização de feiras de ciências de
Futuro/ TV Escola (MEC). Publicação ele- diferentes níveis de abrangência. Todos os
trônica (boletim) n. 10, junho 2005, dispo- temas são abordados por meio da apresen-
nível em www.tvbrasil.org.br/fotos/salto/ tação e discussão de exemplos práticos.
series/150744IniciacaoCient.pdf, acesso em
set. 2010. MANCUSO, Ronaldo; LEITE FILHO, Ivo. Feiras

Neste texto, os autores abordam: Ciência de Ciências no Brasil: uma trajetória de quatro

na Escola – Estudantes cientistas, Laborató- décadas. In: Programa Nacional de Apoio a

rio de Ciências – Experimentoteca e Mão na Feiras de Ciências da Educação Básica – FENA-

Massa, Feiras de Ciências – A produção esco- CEB, MEC/SEB, Brasília, 2006, 84p., disponível

lar veiculada e o desejo de conhecer o aluno, em http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/

Material didático de Ciências – O material di- EnsMed/fenaceb.pdf, acesso em set. 2010.

dático para o Ensino de Ciências. Divulgação Neste texto, os autores fazem uma síntese
Científica – O papel da escola na divulgação do histórico das feiras de ciências nacionais
científica. e regionais, bem como discutem aspectos
relacionados à conceituação e aos objetivos
26
NEVES, Mozart. Educação de Qualidade e sua de feiras e mostras de ciências; aos tipos de
Relação com C&T e Inovação. 4ª Conferência trabalhos apresentados em feiras; às compe-
Nacional de CT&I 2010, disponível em http:// tências, habilidades e atitudes desenvolvidas
cncti4.cgee.org.br/, acesso em set. 2010. pelos participantes e estratégias e dificulda-

Neste texto, o autor apresenta um breve des observadas na avaliação de projetos.

cenário da Ciência, Tecnologia e Inovação


(C&T&I) no Brasil e discute a questão da qua- SÍTIOS RECOMENDADOS:
lidade da Educação Básica como primeiro de-
www.febrace.org.br - FEBRACE – Feira Brasi-
grau para uma política de C&T&I no país.
leira de Ciências e Engenharia.

PEREIRA, Antonio Batista; OAIGEN, Edson Neste sítio estão disponíveis: textos com

Roberto; HENNIG, Georg J. Feiras de Ciências. dicas para estudantes e professores, textos

Canoas: Editora da ULBRA, 2000. 285p. com informações sobre regras de seguran-

Neste livro, os autores apresentam tópicos ça, método científico/engenharia, vídeos

relacionados à iniciação científica, métodos com depoimentos sobre Educação e Investi-

científicos, projetos investigativos, avaliação gação Científica de estudantes e professores

de competências desenvolvidas (na inicia- da Educação Básica e da Educação Superior,


bem como outras informações relevantes Também está disponível uma relação de fei-
sobre como desenvolver projetos investiga- ras que acontecem em todo o país (afiliadas
tivos e participar de feiras como a FEBRACE. à FEBRACE).

27
Presidência da República

Ministério da Educação

Secretaria de Educação a Distância

Direção de Produção de Conteúdos e Formação em Educação a Distância

TV ESCOLA/ SALTO PARA O FUTURO

Coordenação-geral da TV Escola

Coordenação Pedagógica

Supervisão Pedagógica
Rosa Helena Mendonça

Acompanhamento Pedagógico
Simone São Tiago

Coordenação de Utilização e Avaliação 28


Mônica Mufarrej
Fernanda Braga

Copidesque e Revisão
Magda Frediani Martins

Diagramação e Editoração
Equipe do Núcleo de Produção Gráfica de Mídia Impressa – TV Brasil
Gerência de Criação e Produção de Arte

Consultora especialmente convidada


Roseli de Deus Lopes

E-mail: salto@mec.gov.br
Home page: www.tvbrasil.org.br/salto
Rua da Relação, 18, 4o andar – Centro.
CEP: 20231-110 – Rio de Janeiro (RJ)
Outubro 2010