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A (PRO)VOCAÇÃO DA SANTIDADE E

DA FELICIDADE

1. Dia de Todos os Santos. Deus é a Santidade. Três


vezes Santo. Santo, Santo, Santo. Santo, na língua
hebraica, diz-se qadôsh, cujo significado mais consistente
é separado. Separado de quê ou de quem, podemos
perguntar. Da sua criação? Parece que não, pois o Deus
da Bíblia olha para ela e por ela com beleza e bondade.
De nós? Obviamente não, pois o Deus da Bíblia bem vê e
vê bem os seus filhos queridos, ouve a nossa voz,
conhece as nossas alegrias e tristezas, desce ao nosso
nível e debruça-se sobre nós com carinho. Separado de
quê ou de quem, então? Separado de si mesmo, eis a
surpreendente identidade de Deus! Separado de si
mesmo, isto é, não agarrado ao seu mundo divino e
dourado para o defender ciosamente (Filipenses 2,6). Ao
contrário, o nosso Deus é um Deus que sai de si por
amor, para, por amor, vir ao nosso encontro. É esta
realidade que se vê bem em toda a Escritura, Antigo e
Novo Testamento. Paulo, na Carta aos Filipenses e na 2
Carta aos Coríntios, resume bem esta realidade ao falar
de Jesus Cristo que «se esvaziou (ekénôsen) a si mesmo,
recebendo a forma de escravo» (Filipenses 2,7), e
«sendo rico se fez pobre por causa de nós, para nos
enriquecer com a sua pobreza» (2 Coríntios 8,9).

2. Sim. Se agora pararmos um pouco a contemplar a vida


dos Santos canonizados e de tantos outros irmãos
nossos, de extrema dedicação, simplicidade e alegria,
não oficialmente canonizados, mas também Santos, pois
arriscam e dão diariamente a sua vida pelos outros,
compreenderemos logo que também eles, todos eles, se
desfizeram ou separaram dos seus projetos, gostos,
família, amigos, coisas, e se entregaram de alma e
coração aos seus irmãos. Veja-se, por exemplo, e porque
ainda temos presente o seu modo de proceder, a Beata
Madre Teresa de Calcutá. Que dedicação, que amor, que
paixão! Veja-se também, porque parece que todos o
conhecemos e amamos, S. Francisco de Assis. Entenda-
se, porém, sempre que somos Santos por graça, porque
o Deus Santo, Ele é a Santidade, se faz próximo de nós,
santificando-nos! É assim que nos tornamos, por graça,
«concidadãos dos santos e membros da família de Deus»
(Efésios 2,19). Nova cidadania. Nova familiaridade.
Dêmos, pois, neste Dia Santo, graças ao Deus Santo, que
nos santifica!

3. Só um Deus assim pode e sabe felicitar os pobres.


Com um tom carregado de felicidade, não restritivo, mas
alargado a toda a humanidade, as «Felicitações» do Rei
novo atingem todas as pessoas, chegando às franjas da
sociedade, às periferias existenciais, onde estão os
pobres de verdade. É o grande Evangelho das «Bem-
Aventuranças» ou «Felicitações» (Mateus 5,1-12), que
abre o SERMÃO da MONTANHA, dito nas alturas da
MONTANHA, que hoje temos a graça de escutar mais
uma vez. No meio destas «Felicitações» – é por nove
vezes que soa o termo «FELIZES» –, note-se a
centralidade da MISERICÓRDIA (5.ª felicitação) (5,7).
Atente-se ainda na diferente formulação desta felicitação.
Salta à vista que todas as outras se abrem a uma
recompensa imediata ou futura. A MISERICÓRDIA,
porém, roda sobre si mesma, retornando, por obra de
Deus (passivo divino ou teológico) sobre os
MISERICORDIOSOS. Aos misericordiosos será feita
misericórdia. Belíssimo círculo bem no centro das Bem-
Aventuranças. Notem-se igualmente as inclusões
assentes na repetição da locução «reino dos céus» (1.ª e
8.ª) (5,3 e 10) e do termo «justiça» (4.ª e 8.ª) (5,6 e
10). Estas inclusões convidam-nos também ao
reconhecimento de duas tábuas de felicitações, a
primeira à volta da pobreza evangélica (5,3-6), e a
segunda à volta da bondade do coração (5,7-10).

«5,1Vendo as multidões, subiu à montanha.


Tendo-se sentado, vieram ter com ele os seus discípulos.
2
Abrindo então a sua boca, ensinava-os dizendo:
3
FELIZES (makárioi / ’ashrê) os pobres de espírito
(ptôchoì tô pneúmati),

porque deles é o reino dos céus;


4
FELIZES os aflitos,

porque serão consolados;


5
FELIZES os mansos,

porque herdarão a terra;


6
FELIZES os que têm fome e sede de justiça,

porque serão saciados;


7
FELIZES os misericordiosos (eleêmones),

porque lhes será feita misericórdia


(eleêthêsontai);

8
FELIZES os puros de coração,

porque verão a Deus;


9
FELIZES os fazedores de paz,

porque serão chamados filhos de Deus;


10
FELIZES os perseguidos por causa da justiça,

porque deles é o reino dos céus.


11
FELIZES sois vós, quando vos ultrajarem e
perseguirem,

e, mentindo, disserem contra vós toda a espécie de mal

por causa de mim (éneken emoû)» (Mateus 5,1-11).


4. Não nos esqueçamos que continuamos na Montanha,
nas alturas, pois há certas maneiras de viver e de sentir
que só podem ter o seu habitatnas alturas. O Papa João
Paulo II escreveu na Carta Apostólica Novo Millennio
Ineunte (2001), n.º 31, que perguntar a um catecúmeno
se ele quer receber o batismo é o mesmo que perguntar-
lhe se ele quer ser santo, e fazer-lhe esta última
pergunta é colocá-lo no caminho do Sermão da
Montanha. E logo a seguir, na mesma Carta e no mesmo
número, João Paulo II define a santidade como a
«”medida alta” da vida cristã ordinária». É, portanto,
imperioso que o cristão aprenda a ganhar altura, não
para se separar dos caminhos lamacentos do quotidiano,
mas para os encher de um amor maior.

5. Os «pobres de espírito», aqui referidos, não são


pobres de Espírito Santo nem de inteligência, mas
pessoas humildes, no sentido em que uma pessoa
humilde é «baixa de rûah» (shephal rûah) (Provérbios
16,19; 29,23), isto é, sem espaço físico, económico,
social ou psicológico. Não precisam de se afirmar. São
claramente os últimos da sociedade, mas que, na sua
humildade e pobreza, desafiam a sociedade, pois
os ptochoísão pobres ao lado de gente rica, acomodada,
que estendem a mão para nós, apontando o dedo ao
nosso egoísmo, afirmação, instalação e comodidade.
Situação que, seguramente, não nos deixa de boa
consciência, encarregando-se a Constituição
Dogmática Lumen Gentium, n.º 9, de nos lembrar que
«Aprouve a Deus salvar e santificar os homens, não
individualmente, excluída qualquer ligação entre eles,
mas constituindo-os em povo». O povo de Deus, a Igreja
de Deus, não são alguns tranquilamente instalados, num
círculo restrito, mas uma imensa comunhão de irmãos
sem paredes nem barreiras de qualquer espécie.

6. É quanto assinala a majestosa multidão dos 144.000


da bela página do Apocalipse 7,2-4.9-14. 144.000,
número perfeito e incontável (12 vezes 12 vezes 1000),
que traduz todos os redimidos, de todas as raças,
nações, povos e línguas, inumerável família dos filhos de
Deus, todos com vestes brancas, porque lavadas no
sangue do Cordeiro, e que jubilosamente aclamam o
Deus Santo. «Somos filhos de Deus e seremos
semelhantes a Ele», grande teologia da divinização por
graça aportada pela página sempre nova da Primeira
Carta de S. João 3,1-3.

7. Note-se ainda que, na mentalidade e na língua


hebraica, «felizes» ou «bem-aventurados» diz-se ’ashrê,
derivação do verbo ’ashar, que significa «pôr-se a
caminho». Extraordinária maneira de designar os «bem-
aventurados» como pioneiros, aqueles que abrem
caminhos novos e bons e de vida nova e boa para o
mundo. E é verdade, por paradoxal que pareça. Foram e
continuam a ser os Santos e os Pobres os que
verdadeiramente abrem caminhos novos neste mundo
enlatado, saciado, enjoado, dormente e anestesiado em
que vivemos.

8. Sim, disse-o no Sínodo, para mim e para todos: por


que será que os Santos se esforçaram tanto, e com tanta
alegria, por serem pobres e humildes, e nós nos
esforçamos tanto, e com tristeza quanto baste (Mateus
19,22; Marcos 10,22; Lucas 18,23), por sermos ricos e
importantes?

9. «Esta é a geração dos que pruram o Senhor».


Cantemos e aclamemos, por isso, com o Salmo 24, o
Senhor do Universo e Rei da Glória, que vem e entra no
seu Templo e na nossa frágil humanidade, que Ele
glorifica. Nos dois primeiros andamentos deste Salmo
(vv. 1-2 e 3-6), justamente a parte Hoje cantada,
destaca-se o nosso canto de amor ao Deus criador e
providente (vv. 1-2), que constitui como que a abertura
do inteiro Salmo, e as condições morais para viver na
presença deste Deus (vv. 3-6), formuladas numa espécie
de «liturgia de entrada» ou «das portas». Os fiéis, em
procissão, à chegada ao Templo de Jerusalém, fazem a
pregunta ritual: «Quem pode subir ao monte do Senhor,/
quem pode entrar no seu lugar santo?» (v. 3), ao que os
sacerdotes respondem, apontando aquí três condições
essenciais: «Mãos inocentes e coração puro», em que as
mãos traduzem a ação, e o coração a intenção, isto é, o
inteiro viver do homem, a sua opção fundamental, de
onde decorre também o não ir atrás dos ídolos e não
praticar fraudes (vv. 4-5). O terceiro andamento mostra
as portas do Templo e as da nossa vida, personificadas,
que são convidadas a abrir-se e a levantar-se, para que
possa entrar em nossa Casa o Rei, Senhor dos Exércitos,
um título que a Bíblia registra por 279 vezes. Gerhard
Ebeling (1912-2001) comenta assim este Salmo arcaico:
«São três os pressupostos fundamentais do texto. O
primeiro é que Deus criou o mundo, e é o seu Senhor. O
segundo é que devemos comparecer junto de Deus e ser
interrogados sobre o que fizemos. O terceiro é que Deus
vem para o que é seu, e deseja ter livre acesso. Estas
são três formas elementares da experiência de Deus e da
relação com Deus: nós vivemos por obra de Deus, diante
de Deus, e podemos viver com Deus». E o poeta francês
Paul Claudel (1868-1955), recolhendo o último tema, o
da vida com Deus, exclamava: «Aqui, Deus! Aqui, o
nosso Deus, o Senhor dos Exércitos, que está
empenhado, através dos séculos, em transferir-nos para
a sua eternidade».

«O Senhor disse: “Eu bem VI a opressão do meu povo


que está no Egito,

e OUVI o seu grito diante dos seus opressores;

CONHEÇO, na verdade, os seus sofrimentos.

DESCI a fim de o libertar da mão dos egípcios

e de o fazer subir desta terra para uma terra boa e


espaçosa,

para uma terra que mana leite e mel”» (Êxodo 3,7-8).


Neste quadro sublime, Deus, o Deus bíblico,

Revela a Moisés e a nós a sua identidade.

É um Deus bem atento, próximo e interventor.

É um Deus que, por amor, SAI de SI,

E não fica encerrado dentro das paredes douradas da sua


eternidade.

Um Deus que SAI de SI é um Deus SANTO.

Atravessamos nestes dias uma mancha de tempo,

Que costumamos dedicar a todos os SANTOS,

Conhecidos e anónimos,

E aos Fiéis Defuntos.

Tempo de lembrar os SANTOS e a Santidade,

Que é a «medida alta da vida cristã ordinária»,

Como escreveu bem S. João Paulo II.

E o SANTO é aquele que SAI de SI,

É aquele que ouve com os ouvidos de Deus,

Vê com os olhos de Deus,

Fala com a língua de Deus,

Acaricia com as mãos de Deus,


Ama com o coração de Deus.

Senhor, ensina-nos a SAIR de NÓS,

Dos nossos interesses egoístas e egocêntricos,

E a sairmos ao encontro dos nossos irmãos pequeninos e


necessitados.

Senhor, ensina-nos a ser SANTOS.

António Couto