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QUANDO JESUS ENTRA NA NOSSA VIDA

Junho 30, 2018

1. O Evangelho deste Domingo XIII do Tempo Comum


(Marcos 5,21-43) oferece-nos dois milagres de Jesus,
relatados de forma entrelaçada, um dentro do outro: o
relato da cura de uma mulher que há doze anos sofria de
uma hemorragia (Marcos 5,25-34), dentro do relato da
chamada «ressurreição» da filha, de doze anos de idade, de
Jairo, um dos chefes da sinagoga (Marcos 5,22-24.35-43).

2. Aí está Jesus outra vez (pálin), e pela última vez, junto


do mar e no meio da multidão, retomando e culminando as
situações já anotadas em Marcos 3,7-10 e 4,1. Na multidão
anónima, além de Jesus, em quem estão postos todos os
olhares, também o do leitor, emerge agora também um dos
chefes da sinagoga, de nome Jairo, que rasga a multidão e
vem religiosamente prostrar-se aos pés de Jesus e
implorar-lhe muito (pollá) que vá impor as mãos à sua
filhinha (tygátrion: diminuitivo de tygátêr), que está a
morrer. E o narrador diz-nos que Jesus foi com ele(met’
autoû), sempre rodeado pela multidão.

3. Primeira grande verificação: Jesus é aquele que vai


sempre connosco. Sobretudo com os que sofrem.
Acompanhando-nos, partilha o nosso caminho e as nossas
dores. Vai, portanto, Jesus com Jairo e a multidão que os
cerca, a caminho da casa de Jairo, quando o narrador nos
surpreende e fixa a objetiva nos movimentos e
pensamentos de uma mulher anónima que sofria de uma
hemorragia havia doze anos, situação física, social e
religiosamente dolorosa, que a tornava impura e distante
de Deus e das pessoas. Ei-la que, com toda a ousadia e fé e
confiança, consegue chegar junto de Jesus e tocar-lhe por
detrás, na fímbria do manto, de modo a que nem Jesus se
apercebesse. Fá-lo e fica curada.
4. A história do contacto desta mulher anónima com Jesus
podia terminar aqui. A mulher conseguiu os seus objetivos.
Aparentemente, ninguém notou nada. É Jesus quem faz a
história avançar, trazendo esta mulher do escuro para a luz.
Não quer que a situação desta mulher dolorosa fique
apenas no domínio físico e, por assim dizer, impessoal.
Olha à sua volta e pergunta: «Quem me tocou as vestes?»
(Marcos 5,30). E indo além do descuidado, superficial e
insensível dizer dos seus discípulos, que se limitam à mais
óbvia das reações: «Então tu vês a multidão que te aperta
e dizes: “Quem me tocou?”» (Marcos 5,31). Mas Jesus,
senhor de toda a situação, «olhava à volta para ver aquela
(tên) que lhe tinha tocado» (Marcos 5,32). É assim que a
mulher sai do seu esconderijo, e confessa a Jesus toda a
verdade (Marcos 5,33). E ouve de Jesus uma palavra única,
única vez dita no Evangelho no feminino!, carregada de
imensa ternura, proximidade e familiaridade: «Minha filha
(tygátêr), a tua fé te salvou!» (Marcos 5,34). Quanto
caminho andado! Quanto amor condensado! Esta pobre
mulher sofredora e humilhada é agraciada por Jesus e
passa a fazer parte da sua família: «Minha filha!».

5. Mas estava uma menina de doze anos, moribunda, à


espera da morte… ou de Jesus. O seu pai, Jairo, luta pela
vida da sua filhinha, e veio buscar Jesus para ir a sua casa
impor as suas mãos de bênção, portanto, de bem e de cura,
sobre a sua filhinha. Todavia, enquanto caminham, chegam
os seus criados, que trazem a triste notícia de que a morte
chegou a casa da menina antes de Jesus. Aquele pai fica
certamente destroçado, como o estavam também os
demais familiares e os vizinhos, que, em tais circunstâncias,
apenas sabiam chorar e entoar lamentações, como era
habitual fazer entre os judeus. E Jesus, que até aqui se
tinha limitado a acompanhar Jairo, sem nada dizer, diz
agora para Jairo a primeira palavra audível: «Não tenhas
medo; tem apenas fé!» (Marcos 5,36).
6. Jesus nunca chega atrasado. Ele é o Senhor que pelo
caminho se demora connosco. À chegada à casa de Jairo,
vê prantos e lamentações. Os orientais são excessivos na
expressão dos seus sentimentos, quer de alegria, quer de
dor. Contra aqueles gritos desarticulados, uma vez mais
Jesus diz uma palavra carregada de sentido: «A menina não
morreu, mas dorme» (Marcos 5,39). Esta maneira de falar
da morte como de um sono é linguagem habitual na Igreja
primitiva (1 Tessalonicenses 4,13-15; 1 Coríntios 11,30;
15,6 e 20; Mateus 27,52) e na tradição da Igreja ainda hoje.
Notemos que a nossa palavra «cemitério» deriva do
grego koimêtêrion, que significa literalmente «dormitório».

7. Jesus entra depois naquela casa e pega terna e


soberanamente na mão da menina. Note-se o número pleno
de sete pessoas presentes: Jesus, Pedro, Tiago e João, o
pai e a mãe da menina, e a menina. A plenitude rasga a
nossa planitude! Pegando ternamente na mão da menina,
Jesus diz, em aramaico, língua materna de Jesus e da
menina: «Talitha, qûm!» [= menina, filha, irmã, levanta-te!]
(Marcos 5,41). Não passa despercebido que a palavra de
Jesus interpela a própria morte, e trata aquela menina
ternamente por irmã, irmãzinha, sua irmã querida. Na
verdade, o aramaico Talitha é o feminino de Talyaʼ. E o
aramaico Talyaʼ é a mais bela, plena e significativa palavra
para dizer Jesus, pois significa ao mesmo tempo «filho»,
«cordeiro», «servo», «pão». Como se vê, Talyaʼ diz o Jesus
todo, sendo Ele a vida verdadeira, ressuscitada, levantada,
que liberta e alimenta, ressuscita e levanta.

8. E a sua voz é mais fina do que o silêncio (1 Reis 19,12),


mais afiada e eficaz do que a lâmina do bisturi (Hebreus
4,12), mais íntima e apelativa do que a chama que, da
sarça, chama Moisés (Êxodo 3,4) ou queima o coração dos
dois de Emaús (Lucas 24,32) ou do que as línguas de fogo
daquele ardente Pentecostes (Atos dos Apóstolos 2,3). É
uma voz nova que quebra as nossas crostas, e, desde
dentro, queima, purifica, limpa, corta, opera, atravessa o
coração. Palavra nova, absolutamente nova, que se capta
só em alta fidelidade, hi-fi, alta sintonia, alta frequência,
que acorda até os que dormem nos sepulcros o sono da
morte, e deles os retira (João 5,25 e 28).

9. Desta «ressuscitação» da menina, Jesus manda não dizer


nada a ninguém (Marcos 5,43). Mas também se vê bem que
esta «ressuscitação» da menina, da irmãzinha, aponta para
a verdadeira e plena «ressurreição» de Jesus. E esta, a
ressurreição de Jesus, não é para ser calada. É para ser
anunciada aos quatro ventos, a todas as nações, a todos os
corações.

10. Como se vê, trata-se de duas cenas únicas e belíssimas,


cheias, plenas de humanidade e divindade. Passa, Senhor
Jesus, à nossa porta, entra em nossa casa, veste o nosso
dorido coração de festa. Faz-nos sentir que somos teus
filhos e irmãos queridos. E que as nossas lágrimas de dor
podem sempre transformar-se em lágrimas de amor!
Porque o teu olhar carinhoso nos descobre sempre e nos faz
sair dos nossos esconderijos, e a tua Palavra rasga inclusive
o véu da morte!

11. É-nos hoje dada a graça de ler e de ouvir um pequeno


extrato compósito do Livro da Sabedoria (1,13-15; 2,23-
24). A Sabedoria exorciza e otimiza o mundo com a luz
intensíssima da misericórdia de Deus. Este mundo
exorcizado e otimizado por obra da misericórdia de Deus
não pode conter em si nem a origem do pecado nem a
morte. Por isso, é ao demónio, e não à mulher (cf. Ben-Sirá
25,24), nem sequer à cobra, que o autor do Livro da
Sabedoria atribui a entrada do pecado no mundo
(Sabedoria 2,24). Se afirma que nenhuma criatura é
portadora de veneno, é para ilibar também a cobra
(Sabedoria 1,14). Tudo vem de Deus. Tudo caminha para
Deus.
12 A lição continuada da Segunda Carta aos Coríntios (8,7-
15) abre-nos hoje uma janela para a teia de caridade tecida
com delicadeza nas primeiras comunidades cristãs. À
imagem e transparência de Jesus Cristo que, «sendo rico se
fez pobre, para nos enriquecer com a sua pobreza» (2
Coríntios 8,9), S. Paulo, que é, no dizer de Bento XVI, «o
maior missionário de todos os tempos», e, de acordo com o
Beato Paulo VI, «modelo de cada evangelizador», regeu a
sua missão pela bússola: «Nós só nos devíamos lembrar
dos pobres» (Gálatas 2,10). Por isso, porque a atenção
para com os pobres constitui o critério de validação da
missão, S. Paulo empenhou-se naquela famosa Coleta
(logeía), empenhando nela todas as Igrejas da Ásia Menor,
da Macedónia e da Acaia. Esta Coleta intereclesial constitui,
de facto, um verdadeiro «fenómeno único» (hápax
phainómenon» no mundo antigo, e são-lhe atribuídos
sobretudo os nomes de koinônía [=
comunhão], diakonía [= serviço] e sobretudo cháris [=
graça], «a graça (cháris) servida por nós», como refere
exemplarmente S. Paulo (2 Coríntios 8,19). Aí está uma
imensa provocação para as Igrejas de hoje.

13. O Salmo 30 é uma bela e sentida Ação de Graças a um


Deus que liberta o orante da tristeza, da doença, do luto e
da morte, e o faz exultar de alegria, saúde, vida, dança e
música de festa. O Deus aqui louvado é um Deus que muda
as nossas situações difíceis e, por vezes, sem saída, em
amplas avenidas floridas. É por isso que, como diz o próprio
título «Cântico para a Dedicação do Templo», este Salmo
anda ligado à Festa da Hanûkkah ou da Dedicação do
Templo, quando Judas Macabeu entrou no Templo de
Jerusalém em 164 e o fez purificar depois de um período de
ocupação e paganização pelos selêucidas.

António Couto