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GEOMETRIA DIFERENCIAL

UMA INTRODUÇÃO FUNDAMENTAL

(Versão provisória da 3a Edição)

Armando Machado

UNIVERSIDADE DE LISBOA
Faculdade de Ciências
Departamento de Matemática
2009
ii

Classificação A.M.S. (1991): 53-01, 57-01


ISBN: 972-8394-08-X
ÍNDICE

Introdução v
Capítulo I. Revisão de Álgebra Linear e Cálculo Diferencial
§1. Algumas propriedades dos espaços vectoriais de dimensão finita 1
§2. Espaços euclidianos e hermitianos 9
§3. Os produtos internos de Hilbert-Schmidt 24
§4. Orientação de espaços vectoriais reais 31
§5. Cálculo Diferencial em espaços vectoriais de dimensão finita 42
§6. Aplicações de classe G 5 52
§7. Derivadas parciais 62
§8. Teoremas da função implícita e da função inversa 66
§9. Integral de funções vectoriais de variável real 72
§10. Diferenciabilidade do integral paramétrico 74
Exercícios 77
Capítulo II. Vectores Tangentes e Variedades
§1. Vectores tangentes a um conjunto num ponto 89
§2. Funções diferenciáveis em conjuntos não abertos 92
§3. Partições da unidade 102
§4. Variedades sem bordo 111
§5. Alguns exemplos importantes de variedade 136
§6. Variedades com bordo 143
§7. Teorema de Sard 163
Exercícios 176
Capítulo III. Fibrados Vectoriais e o Ambiente Euclidiano
§1. Fibrados vectoriais 193
§2. Orientação de fibrados vectoriais reais 204
§3. Derivação covariante e segunda forma fundamental 210
§4. Aplicação ao estudo elementar das curvas 227
§5. Hipersuperfícies. Aplicação linear de Weingarten 241
§6. Tensor de curvatura 252
§7. Invariância por isometria. Teorema Egrégio 261
§8. Morfismos entre fibrados vectoriais 267
§9. Estruturas quase complexas e aplicações holomorfas 295
Exercícios 316
Capítulo IV. Equações Diferenciais Ordinárias em Variedades
§1. Solução geral e fluxo de um campo vectorial 355
§2. Continuidade da solução geral 360
§3. Propriedades da solução geral quando o domínio é aberto 364
§4. Equações diferenciais dependentes do tempo 368
iv Índice

§5. Equações diferenciais lineares 371


§6. Diferenciabilidade da solução geral 376
§7. Equações diferenciais em variedades 379
§8. Equações diferenciais totais. Teorema de Frobenius 383
§9. Versão geométrica local do teorema de Frobenius 393
Exercícios 399
Capítulo V. Aplicações Geométricas das Equações Diferenciais
§1. Transporte paralelo 413
§2. Consequências da nulidade do tensor de curvatura 416
§3. Geodésicas e aplicação exponencial 419
Exercícios 428
Capítulo VI. Estruturas Diferenciáveis e Variedades Abstractas
§1. Estruturas diferenciáveis e aplicações suaves 443
§2. Variedades abstractas 457
§3. A colagem de variedades: O teorema de Whitney 469
§4. Variedades quociente 481
§5. Subvariedades imersas e teorema de Frobenius global 489
§6. Espaço vectorial tangente 512
Exercícios 539
Índice de Símbolos 553
Índice Remissivo 559
Bibliografia 565
INTRODUÇÃO

Este texto teve a sua origem num curso de Geometria Diferencial dado pelo
autor aos estudantes do terceiro ano das licenciaturas em Matemática e Ensino
da Matemática da Faculdade de Ciências de Lisboa e desenvolve duas versões
anteriores, a primeira publicada em 1985 na colecção Textos e Notas do CMAF
e a segunda [14] editada conjuntamente em 1991 pela Editora Cosmos e pela
Fundação da Universidade de Lisboa. Em quase todos os pontos o texto vai
bastante mais longe do que tem sido possível estudar no curso e vários capítulos
não foram sequer aflorados neste.
De um modo geral procurou-se realizar um texto ao mesmo tempo intro-
dutório e fundamental que, mantendo-se a um nível tanto quanto possível ele-
mentar, constituísse uma exposição coerente e razoavelmente completa dos
conceitos e técnicas mais frequentemente utilizados no estudo da geometria das
variedades diferenciáveis. O carácter introdutório do texto não nos inibiu de
apresentar demonstrações detalhadas de todos os resultados expostos, mesmo
quando estas são tecnicamente mais sofisticadas. Procurou-se assim garantir que
o conteúdo fosse tão auto-suficiente quanto possível de modo a que o trabalho
pudesse também servir como texto de referência. Essa mesma preocupação
levou-nos a incluir o tratamento de vários pontos que saiem do âmbito de
Geometria Diferencial, entre os quais se incluem revisões de certos pontos de
Álgebra Linear e das noções básicas do Cálculo Diferencial, em ambos os casos
no quadro dos espaços vectoriais de dimensão finita e privilegiando os
enunciados que não dependem da fixação de uma base, e o exame sistemático
dos resultados sobre equações diferenciais ordinárias, que tivémos necessidade
de utilizar, incluindo os resultados globais que envolvem a dependência das
condições iniciais e de eventuais parâmetros. Pressupomos, de qualquer modo,
que o leitor, para além de uma certa destreza matemática, possui conhecimentos
básicos de Cálculo Diferencial e Integral, Álgebra Linear e Topologia Geral.
Ao longo da maior parte do trabalho as variedades são estudadas sob o ponto
de vista concreto, isto é, uma variedade será um subconjunto de um espaço
vectorial ambiente, de dimensão finita, e o espaço vectorial tangente em cada
ponto aparece então como subespaço vectorial desse espaço vectorial ambiente.
Este ponto de vista, seguido também, por exemplo, nos livros de Milnor [19] e
de Guillemin e Pollack [10], permite trabalhar desde o início num quadro
geométrico intuitivo em que se podem estudar rapidamente resultados
interessantes e não triviais. A introdução precoce das variedades abstractas pode
ter, na nossa opinião, um carácter desmotivador, ao atrasar o aparecimento dos
resultados geométricos importantes, por implicar a construção prévia de um
imponente edifício abstracto, constituído na maioria por definições e resultados
triviais, embora essenciais. Se é de aceitação pacífica a importância pedagógica
vi Introdução

de estudar os rudimentos da teoria das variedades concretas antes da introdução


das variedades abstractas, já não há unanimidade quanto ao momento em que
esta última deve ser feita. Neste texto as variedades abstractas são estudadas
apenas no último capítulo e organizamos o seu estudo de forma a tirar o maior
partido possível dos resultados já estudados nos capítulos anteriores, incluindo
aqueles com carácter global. Esse objectivo, assim como o desejo de diminuir o
formalismo inicial, levou-nos a optar por definir a noção de variedade abstracta à
custa duma classe de equivalência de cartas globais (com contradomínios, em
geral, não abertos) em vez duma classe de equivalência de atlas constituídos por
cartas locais, como é mais habitual. Esta opção teve naturalmente um preço a
pagar, para podermos dispor da possibilidade de colar estruturas de variedade
em subconjuntos abertos, e, em particular, de fazer a ponte com as variedades
definidas por cartas locais, tivémos que estabelecer um resultado não elementar,
que se pode considerar essencialmente o teorema do mergulho de Whitney,
olhado pelo avesso.
Uma diferença, em relação ao conteúdo usual de livros com o âmbito deste,
está na definição e utilização sistemática do conceito de fibrado vectorial,
conceito que só costuma ser introduzido a um nível mais avançado. Natural-
mente, em consonância com a opção de trabalhar no quadro das variedades
concretas, também estudamos os fibrados vectoriais enquanto subfibrados vecto-
riais de um fibrado vectorial constante. Este estudo parece-nos ser justificado
pela simplicidade e naturalidade do métodos utilizados e pela riqueza das suas
aplicações. Para além, evidentemente, do fibrado vectorial tangente a uma varie-
dade, teremos ocasião de utilizar, por exemplo, o fibrado osculador de uma
curva, que ajuda a compreender o significado da torção, ou o fibrado vectorial
normal de uma variedade, importante para a construção de vizinhaças tubulares,
assim como os fibrados vectoriais obtidos como imagens recíprocas.
Passamos agora a apresentar algumas observações mais concretas sobre o
conteúdo de cada capítulo.
O primeiro capítulo tem como objectivo a revisão de algumas propriedades
básicas dos espaços vectoriais de dimensão finita, reais e complexos, e dos
conceitos e resultados do Cálculo Diferencial que são usualmente estudados num
curso de Análise Real. No que diz respeito à Álgebra Linear, o objectivo
principal é o de fixar notações e relembrar enunciados que serão utilizados mais
tarde; supomos naturalmente que o leitor está habituado a trabalhar com espaços
vectoriais, aplicações lineares, matrizes, etc… Para além disso, serão referidos
com um pouco mais de detalhe alguns pontos que o leitor porventura ainda não
encontrou, como as relações entre espaços vectoriais reais e complexos, através
da noção de estrutura complexa dum espaço vectorial real, os produtos internos
de Hilbert-Schmidt nos espaços de aplicações lineares, a orientação de espaços
vectoriais reais ou a possibilidade de representar uma aplicação linear por uma
matriz de aplicações lineares, quando se está em presença de decomposições em
soma directa do domínio e do codomínio. A exposição dos assuntos de Álgebra
Linear acabou por resultar um pouco longa pelo que será porventura mais útil ao
leitor saltá-la numa primeira leitura e voltar atrás quando tiver necessidade. No
que diz respeito ao Cálculo Diferencial, a palavra revisão é aqui utilizada no
Introdução vii

sentido generalizado na medida em que pretendemos trabalhar, no quadro dos


espaços vectoriais de dimensão finita, com enunciados que não dependam da
fixação de um sistema de coordenadas (é o que se faz usualmente no quadro
mais geral do Cálculo Diferencial em espaços normados de dimensão infinita —
ver, por exemplo, os livros de Dieudonné [6] e Lang [13] ou o nosso trabalho
[15]). Muitas demonstrações mais simples são omitidas, esperando-se que o
leitor, que esteja habituado a trabalhar apenas no quadro dos espaços cartesianos
‘8 , adapte facilmente as que conhece nesse contexto. A opção aqui tomada é
essencial para se poder trabalhar naturalmente com os espaços de aplicações
lineares e permite olhar de um modo unificado o que se passa no estudo das
variedades, onde as derivadas das aplicações lineares estão definidas em espaços
vectoriais tangentes que não possuem bases naturalmente fixadas. Supomos de
qualquer modo, aqui como no resto do curso, que o leitor possui os
conhecimentos elementares de Topologia Geral e de espaços vectoriais
normados e que conhece, em particular, as propriedades especiais dos espaços
vectoriais normados de dimensão finita (cf., por exemplo, [15]). Apesar de,
como referimos, a revisão do Cálculo Diferencial se enquadrar no que é
usualmente estudado no quadro da Análise Real, não deixamos de referir o
conceito de diferenciabilidade no sentido complexo, no caso em que os espaços
vectoriais em questão são complexos. Essa referência limita-se no entanto às
generalizações triviais do que se passa no caso real e não abordamos as
propriedades especiais que se estudam no quadro da Análise Complexa.
No segundo capítulo inicia-se o estudo das variedades num espaço vectorial
ambiente de dimensão finita. Começa-se por introduzir as noções de cone
tangente e cone tangente alargado de um subconjunto arbitrário em cada um dos
seus pontos, a segunda das quais na base da definição de espaço vectorial
tangente que utilizamos. Estas noções, embora muito antigas (foram introduzidas
no livro de Bouligand [3]) não são utilizadas normalmente em textos da natureza
deste, mas parecem-nos úteis, tanto pelo seu evidente conteúdo geométrico como
por nos permitirem trabalhar por vezes com conjuntos que não sabemos a priori
serem variedades. Estudamos em seguida a generalização da noção de aplicação
de classe G 5 ao caso em que o domínio não é obrigatoriamente um conjunto
aberto, a partir da existência de prolongamentos locais de classe G 5 ß assim
como as derivadas de tais aplicações, que vão ser aplicações lineares definidas
nos espaços vectoriais tangentes. São estudados os teoremas de partição da
unidade, que se aplicam em muitas situações para passar de resultados de
natureza local para outros com carácter global e que são utilizados na prova de
que toda a aplicação de classe G 5 admite um prolongamento de classe G 5 a um
aberto contendo o domínio, e não só prolongamentos locais de classe G 5 . Estes
teoremas são também utilizados para estabelecer resultados de aproximação de
funções contínuas por funções de classe G _ . Definem-se então as variedades
sem bordo, como sendo os subconjuntos que são localmente difeomorfos a
abertos de espaços vectoriais de dimensão finita, e estudam-se, no quadro destas,
algumas consequências importantes do teorema da função inversa, como os
resultados que caracterizam localmente as imersões e as submersões, os que
viii Introdução

permitem construir as variedades como imagens recíprocas, mediante condições


de transversalidade convenientes, e, em particular, os que estudam a intersecção
de duas subvariedades. Para além dos resultados que permitem construir
variedades como imagens recíprocas, é estabelecido também um resultado que
permite identificar variedades associadas a imagens directas de aplicações
suaves, resultado que é aplicado, em particular, na construção das variedades de
Grassmann, encaradas como conjuntos de projecções ortogonais sobre subespa-
ços vectoriais. Generalizam-se em seguida as definições e alguns dos resultados
estudados, de modo a englobar mais geralmente o caso das variedades com
bordo e, eventualmente, com cantos. O capítulo termina com a demonstração do
teorema de Sard, numa versão que não utiliza o conceito de medida, resultado
que é essencial em várias aplicações geométricas e que é, em particular, utilizado
na demonstração do teorema de Whitney, abordada no último capítulo.
O capítulo III constitui a parte central do curso. São introduzidos os fibrados
vectoriais, como famílias de subespaços vectoriais de um certo espaço vectorial
(as fibras) indexadas por um subconjunto de outro espaço vectorial (a base),
famílias para as quais se deve verificar uma condição de suavidade conveniente.
Essa condição de suavidade é apresentada através da exigência de existência de
campos de referenciais locais e prova-se que, no caso em que o espaço vectorial
ambiente das fibras está munido de um produto interno, ela é equivalente à
suavidade da aplicação que a cada ponto da base associa a projecção ortogonal
sobre a respectiva fibra. A derivada desta última aplicação permite-nos definir a
segunda forma fundamental de um fibrado vectorial, que vai ser uma aplicação
bilinear, definida no produto cartesiano do espaço vectorial tangente à base pela
fibra e com valores no complementar ortogonal desta. Esta segunda forma
fundamental, que caracteriza o modo como as fibras variam de ponto para ponto,
é utilizada, por um lado, no estudo da geometria do espaço total do fibrado
vectorial, aplicado, por exemplo, na construção de vizinhanças tubulares, e, por
outro lado, na abordagem da teoria clássica das curvas e das hipersuperfícies
num espaço euclidiano, abordagem que inclui o exame da curvatura e da torção
das primeiras e, no contexto das segundas, o estudo da aplicação linear de
Weingarten (operador de forma, na terminologia de O'Neill [22]), tal como o das
curvaturas e direcções principais e o dos pontos focais. É também no quadro
mais geral dos fibrados vectoriais que é estudada a questão da orientabilidade
das variedades. Em relação estreita com o estudo da segunda forma fundamental,
aparece-nos a noção de derivada covariante de uma secção de um fibrado vec-
torial com as fibras contidas num espaço euclidiano, derivada essa que é introdu-
zida como uma modificação conveniente da derivada usual, de modo a obter
valores na fibra correspondente. As secções paralelas, isto é, aquelas cuja deri-
vada covariante é identicamente nula, são apresentadas como a generalização
natural das secções constantes. É definido o tensor de curvatura de Riemann,
cuja não nulidade é uma obstrução à existência de secções paralelas de um
fibrado vectorial, e é estabelecida a fórmula de Gauss, que relaciona este tensor
de curvatura com a segunda forma fundamental. Prova-se a propriedade
fundamental de invariância por isometria do tensor de curvatura do fibrado
tangente duma variedade, resultado que é aplicado na demonstração do Teorema
Introdução ix

Egrégio de Gauss. São abordados os morfismos entre fibrados vectoriais e as


respectivas derivadas covariantes e, como aplicação, é feito um estudo elementar
das estruturas quase complexas numa variedade e das variedades holomorfas.
O capítulo IV, na sua maior parte de natureza mais analítica do que
geométrica, justifica-se pela importância das suas aplicações à Geometria.
Trata-se de estabelecer os resultados fundamentais sobre as soluções de uma
equação diferencial ordinária com condições iniciais dadas. Inspirando-nos nos
métodos utilizados no livro de Pontriaguine [23], obtemos resultados globais
sobre o modo como as soluções dependem da variável independente, das
condições iniciais e de eventuais parâmetros. As equações diferenciais
paramétricas são aplicadas, em particular, para demonstrar, pelo método
utilizado no livro de Dieudonné [6], o teorema de Frobenius sobre as soluções de
equações diferenciais totais, equações diferenciais em que a variável
independente real é substituída por uma variável multidimensional. Este último
teorema é utilizado para obter a chamada versão geométrica do teorema de
Frobenius, sobre as variedades integrais de um subfibrado vectorial do fibrado
tangente, neste capítulo apenas no seu aspecto local.
No quinto capítulo examinamos algumas aplicações geométricas das equa-
ções diferenciais ordinárias, estudadas no capítulo precedente. O transporte para-
lelo, no quadro dos fibrados vectoriais cuja base é um intervalo de ‘, aparece
como um corolário da teoria das equações diferenciais lineares, sendo aplicado
para mostrar que, quando a base dum fibrado vectorial é uma variedade conexa,
não pode existir mais que uma secção paralela com um valor dado numa das
fibras. A existência local de uma tal secção, no caso em que o tensor de curva-
tura é identicamente nulo, aparece como uma consequência do teorema de Fro-
benius. As geodésicas duma variedade contida num espaço euclidiano são apres-
entadas do ponto de vista das trajectórias de velocidade paralela, o que conduz
ao seu estudo no quadro duma equação diferencial sobre o espaço total do fibra-
do vectorial tangente à variedade. Os resultados estudados sobre a dependência
das soluções das equações diferenciais em relação aos valores iniciais são então
aplicados ao estudo das propriedades da aplicação exponencial.
No último capítulo abordamos finalmente o estudo das variedades abstractas,
procurando, sempre que possível, tirar partido do que foi estudado nos capítulos
anteriores. Começamos por examinar uma noção um pouco mais geral que a de
variedade abstracta, a de estrutura diferenciável, definida como uma classe de
equivalência de cartas globais cujos contradomínios são subconjuntos arbitrários
de espaços vectoriais de dimensão finita. Esta noção é uma versão simplificada
da que foi introduzida por Aronszajn [1], sob o nome de “espaço subcartesiano”,
e desenvolvida posteriormente por Marshall [17]; ela abarca ao mesmo tempo as
variedades, eventualmente com bordo, e os subconjuntos arbitrários de espaços
vectoriais de dimensão finita. As noções e resultados básicos, envolvendo as
aplicações suaves e os difeomorfismos, são estudados no quadro geral das
estruturas diferenciáveis e as variedades são definidas em seguida como
estruturas diferenciáveis localmente difeomorfas a abertos de ‘8 , ou de sectores
de ‘8 , ou, equivalentemente, como estruturas diferenciáveis cujas cartas têm
como contradomínio variedades concretas. Seguindo a via de Guillemin e
x Introdução

Pollack [10], o teorema de Sard é utilizado para demonstrar a versão do teorema


de Whitney que garante que, para uma variedade de dimensão 8, existe sempre
uma carta global para um subconjunto de um espaço vectorial de dimensão
#8  ". Seguidamente, utilizando uma ideia atribuida a Spanier e baseando-nos
num lema topológico que encontrámos no livro de Greub Halperin e Vanstone
[9], demonstramos o teorema de existência e unicidade da colagem de estruturas
de variedade dadas sobre os subconjuntos de uma cobertura aberta e verificando
uma condição natural de compatibilidade, teorema esse que pode ser consi-
derado como o teorema do mergulho de Whitney examinado de outro ponto de
vista. O resultado que acabamos de referir é utilizado para referir o modo de
fazer a ponte com a definição mais usual de variedade, através de atlas consti-
tuídos por cartas locais. Ele é também utilizado, mais adiante, no estudo das
variedades quociente e no exame da versão global da forma geométrica do
teorema de Frobenius.
Uma noção que costuma ser introduzida desde cedo na teoria das variedades
abstractas, e à qual nós damos uma importância claramente inferior no nosso
texto é a de espaço vectorial tangente a uma variedade abstracta num dos seus
pontos e o correspondente conceito global de fibrado tangente. Do nosso ponto
de vista, a importância que esta noção apresenta nas exposições usuais está
ligada principalmente à necessidade de trabalhar globalmente numa estrutura que
foi definida por cartas locais. A partir do momento em que se optou por definir
as estruturas diferenciáveis através de cartas globais, todas os contextos em que
os vectores tangentes às variedades abstractas são utilizados podem ser
adaptados de modo a utilizar os vectores tangentes ao contradomínio de uma
carta global. É este o ponto de vista que seguimos quando definimos as imersões
e as submersões entre variedades abstractas sem passar pela derivada como
aplicação linear entre os espaços vectoriais tangentes abstractos, e, em particular,
quando tratamos o problema das variedades quociente e quando nos limitamos a
examinar a versão geométrica global do teorema de Frobenius no contexto dos
subfibrados vectoriais do fibrado vectorial tangente de uma variedade concreta.
Neste último caso, apesar de as folhas associadas serem variedades abstractas, os
respectivos espaços tangentes são definidos como subespaços vectoriais do
espaço vectorial tangente à variedade concreta (caso particular da situação mais
geral em que definimos os espaços tangentes a uma aplicação suave, cujo
domínio é uma variedade abstracta e cujo codomínio é uma variedade concreta,
como subespaços vectoriais dos espaços vectoriais tangentes a esta última). Para
além das adaptações que acabamos de referir, o tratamento que apresentamos das
subvariedades imersas e do teorema de Frobenius inspirou-se fortemente no que
se encontra no livro de Warner [26].
Apesar de não atribuirmos aos vectores tangentes a uma variedade abstracta
o mesmo relevo que estes têm usualmente, não deixamos de nos referir a eles, na
última secção do livro, uma vez que é importante que o leitor esteja alertado para
o papel que desempenham na literatura. Há vários métodos diferentes para
definir os espaços vectoriais tangentes no quadro das variedades abstractas, cada
um com as suas vantagens e desvantagens: Para alguns autores os vectores
tangentes num ponto aparecem como classes de equivalência de caminhos
Introdução xi

passando por esse ponto, para outros como operadores diferenciais, para outros
ainda como classes de equivalência de pares constituídos por uma carta para um
aberto de ‘8 e um vector de ‘8 Þ Cada um desses métodos tem as suas vantagens
e desvantagens, entre estas últimas o facto de aparecerem amiúde isomorfismos
canónicos, nem sempre triviais, onde esperaríamos ter igualdades. À partida, em
vez de tomarmos partido por um desses métodos, preferimos definir quando é
que um espaço vectorial pode ser considerado como espaço tangente, deixando
assim um grau de liberdade ao utilizador que poderá, em cada caso, fazer a
escolha que se revele mais cómoda e, nalgumas situações, subordinar a escolha
de um espaço vectorial tangente a outras feitas anteriormente, de modo a
conseguir que certos isomorfismos sejam efectivamente igualdades. Examina-
mos em seguida, uma das concretizações da noção de espaço vectorial tangente
mais utilizada, aquela para a qual os vectores tangentes são definidos como
operadores diferenciais.
No fim de cada capítulo é apresentada uma lista de exercícios, nalguns casos
destinados a testar a compreensão do texto, noutros apresentando resultados que
complementam os estudados antes.
Na bibliografia, apresentada no fim do volume, encontram-se, além dos
trabalhos citados no texto, outros livros em que o leitor interessado poderá apro-
fundar, ou estudar doutro ponto de vista, os assuntos que foram aqui abordados.
De entre eles recomendamos especialmente os dois volumes do livro de Spivak
[25], o livro de Gray [8], este último com ênfase no estudo, com a ajuda do
computador, das curvas e superfícies em ‘$ e repleto de figuras elucidativas,
assim como os livros de Manfredo do Carmo [4,5].
Gostaríamos de terminar com uma palavra de agradecimento a todos aqueles
que contribuíram para melhorar a versão final do texto. A estudante Élia Ferreira
coligiu pacientemente dezenas de erros de dactilografia que figuravam numa
versão preliminar posta à disposição dos alunos. Os colegas Cecília Ferreira e
Luís Trabucho leram cuidadosamente partes do manuscrito e, para além da loca-
lização de outros erros de dactilografia, contribuíram com as suas observações
para a melhoria de vários pontos da exposição. Apraz-nos também registar o
empenho generoso e competente que este último tem dedicado à edição da
colecção em que este trabalho se insere, contribuíndo assim, de modo decisivo,
para a qualidade desta.
CAPÍTULO I
Revisão de Álgebra Linear e
Cálculo Diferencial

§1. Algumas propriedades dos espaços vectoriais


de dimensão finita.

I.1.1 No que se segue todos os espaços vectoriais serão reais ou complexos e,


quando não nos referirmos ao corpo dos escalares, estará subentendido que
este é o corpo ‘ dos números reais. É claro que todo o espaço vectorial
complexo é, de modo trivial, também um espaço vectorial real (se está
definido o produto de um complexo por um vector, está também definido, em
particular, o produto de um número real por um vector). Se um espaço
vectorial complexo I admite uma base, finita ou infinita, ÐB4 Ñ4−N , é imediato
constatar-se que I , enquanto espaço vectorial real, admite uma base formada
pelos vectores B4 e 3B4 ; em particular, se I , enquanto espaço vectorial
complexo, tiver dimensão finita 8, então I , enquanto espaço vectorial real,
tem dimensão #8. Quando estivermos numa situação em que o corpo dos
escalares pode ser indistintamente ‘ ou ‚, usaremos frequentemente o
símbolo Š para designar esse corpo dos escalares.
I.1.2 O que dissémos atrás pode ser precisado: Se I é um espaço vectorial
complexo e ÐB4 Ñ4−N é uma família de vectores de I , então ela é linearmente
independente (respectivamente é geradora) se, e só se, a família formada
pelos vectores B4 e 3B4 é linearmente independente (respectivamente gera-
dora) para a estrutura de espaço vectorial real de I .
I.1.3 Se I e J são espaços vectoriais, reais ou complexos, vamos notar PÐIà J Ñ
o espaço vectorial, real ou complexo respectivamente, cujos elementos são as
aplicações lineares 0À I Ä J . No caso em que I e J têm dimensões finitas
7 e 8, PÐIà J Ñ tem dimensão finita 78. Mais precisamente, se B" ß á ß B7 é
uma base de I e C" ß á ß C8 é uma base de J , PÐIà J Ñ vai admitir uma base
formada pelas aplicações lineares 05ß4 , com " Ÿ 4 Ÿ 7 e " Ÿ 5 Ÿ 8, onde
05ß4 está definida pela condição de aplicar B4 em C5 e os restantes vectores da
base de I em ! (lembrar que uma aplicação linear fica univocamente
determinada se dermos de modo arbitrário as imagens dos vectores de uma
base). De facto, se 0 − PÐIà J Ñ, tem-se 0 œ ! +5ß4 05ß4 , onde as componen-

tes +5ß4 estão definidas pela condição de se ter 0ÐB4 Ñ œ ! +5ß4 C5 (ambos os
5ß4

5
2 Cap. I. Álgebra Linear e Cálculo Diferencial

membros são aplicações lineares que dão o mesmo resultado quando


aplicados a cada um dos vectores da base), por outras palavras, cada +5ß4 é o
elemento da linha 5 e da coluna 4 da matriz de 0 nas bases consideradas.
Note-se que, no caso em que I é um espaço vectorial real e J é um espaço
vectorial complexo, PÐIà J Ñ designa naturalmente o espaço das aplicações
lineares de I para J , quando se considera J como espaço vectorial real, mas
PÐIà J Ñ tem uma estrutura natural de espaço vectorial complexo, subespaço
do espaço vectorial complexo de todas as aplicações de I para J . As
observações anteriores sobre bases e dimensões estendem-se a este caso; em
particular, no caso em que I tem dimensão 7 e J , enquanto espaço
vectorial complexo, tem dimensão 8, PÐIà J Ñ, enquanto espaço vectorial
complexo, tem dimensão 78.
No caso em que I e J são espaços vectoriais complexos, eles podem ser
também considerados como espaços vectoriais reais mas o significado a dar a
PÐIà J Ñ não é o mesmo nos dois casos. Por esse motivo, e para evitar
confusões, usa-se por vezes as notações P‚ ÐIà J Ñ e P‘ ÐIà J Ñ para os
espaços de aplicações lineares, relativamente às estruturas complexas e reais,
respectivamente (costumamos referir os elementos destes espaços como apli-
cações lineares complexas e aplicações lineares reais, respectivamente).
Repare-se que P‚ ÐIà J Ñ é um subespaço vectorial complexo de P‘ ÐIà J Ñ.
I.1.4 Mais geralmente, dados espaços vectoriais, reais ou complexos, I" ß á ß I:
e J , notamos PÐI" ß á ß I: à J Ñ o espaço vectorial, real ou complexo
respectivamente, cujos elementos são as aplicações multilineares
0À I" ‚ â ‚ I: Ä J , isto é, as aplicações que, quando se fixam :  " das
variáveis, são lineares como função da restante. No caso particular em que os
espaços I" ß á ß I: são todos iguais a um mesmo espaço I , usamos também
a notação P: ÐIà J Ñ, em vez de PÐI" ß á ß I: à J Ñ. É por vezes cómodo
admitir o caso particular em que : œ !, caso em que consideramos
P! ÐIà J Ñ œ PÐ à J Ñ como sinónimo de J .1 Como anteriormente, no caso em
que os espaços vectoriais I4 são reais e J é um espaço vectorial complexo,
PÐI" ß á ß I: à J Ñ tem uma estrutura de espaço vectorial complexo e, quando
todos os espaços vectoriais são complexos e queremos distinguir a situação
em que os consideramos como tal daquela em que olhamos para eles como
espaços vectoriais reais, usamos o índice ‚ ou ‘ para indicar o contexto em
que nos colocamos, obtendo-se assim um subespaço vectorial complexo
P‚ ÐI" ß á ß I: à J Ñ de P‘ ÐI" ß á ß I: à J Ñ.
I.1.5 Notemos Š um dos corpos ‘ ou ‚ e seja J um espaço vectorial sobre Š.
Tem então lugar um isomorfismo

1Trata-se de uma convenção que poderia ser facilmente prevista por quem possua um
razoável treino lógico: I ! é um conjunto com um único elemento ‡ (a única aplicação
cujo domínio é o conjunto vazio) e todas as aplicações de I ! em J são multilineares,
pelo que tudo o que temos que fazer é identificar cada uma dessas aplicações de I ! em J
com a imagem de ‡ por essa aplicação.
§1. Algumas propriedades dos espaços vectoriais… 3

EÀ PЊà J Ñ Ä J ,
definido por EÐ0Ñ œ 0Ð"Ñ; o isomorfismo inverso associa a cada C − J a
aplicação linear de Š em J definida por + È + C . Mais geralmente, para
cada :   !, vai ter lugar um isomorfismo
EÀ P: Њà J Ñ Ä J ,
definido por
EÐ0Ñ œ 0Ð"ß á ß "Ñ,
e o isomorfismo inverso E" À J Ä P: Њà J Ñ associa a cada C − J a aplica-
ção multilinear de Š: em J definida por
E" ÐCÑÐ+" ß á ß +: Ñ œ +" â+: C.

É claro que, no caso em que : œ !, o isomorfismo E não é mais do que a


aplicação identidade.
I.1.6 Sejam I , I w e J espaços vectoriais, reais ou complexos e 0À I ‚ I w Ä J
uma aplicação bilinear. Para cada B − I , tem então lugar uma aplicação
linear s0ÐBÑÀ I w Ä J , definida por s0ÐBÑÐBw Ñ œ 0ÐBß Bw Ñ. A aplicação
s0À I Ä PÐI w à J Ñ, assim definida, é linear e podemos então considerar uma
aplicação linear
E" À PÐIß I w à J Ñ Ä PÐIà PÐI w à J ÑÑ,

definida por E" Ð0Ñ œ s0, aplicação linear essa que se constata imediatamente
ser mesmo um isomorfismo.
Mais geralmente, dados os espaços vectoriais, reais ou complexos,
I" ß á ß I: e J , vai ter lugar, para cada ! Ÿ 4 Ÿ : , um isomorfismo
E4 À PÐI" ß á ß I: à J Ñ Ä PÐI" ß á ß I4 à PÐI4" ß á ß I: à J ÑÑ,

definido por
E4 Ð0ÑÐB" ß á ß B4 ÑÐB4" ß á ß B: Ñ œ 0ÐB" ß á ß B4 ß B4" ß á ß B: ÑÞ

I.1.7 Usando os isomorfismos E4 , atrás definidos, verifica-se imediatamente que,


se os espaços vectoriais I" ß á ß I: têm dimensões finitas 7" ß á ß 7: e se o
espaço vectorial J tem dimensão finita 8, então PÐI" ß á ß I: à J Ñ tem
dimensão finita 7" ‚ â ‚ 7: ‚ 8.
I.1.8 Se I é um espaço vectorial de dimensão finita, então existe em I pelo
menos uma norma e duas normas quaisquer são equivalentes, em particular
definem a mesma topologia e têm os mesmos conjuntos limitados. Quando
considerarmos I como espaço topológico estará subentendido que estamos a
considerar a topologia associada a qualquer das suas normas. Um conjunto
4 Cap. I. Álgebra Linear e Cálculo Diferencial

E § I é compacto se, e só se, é fechado e limitado. O espaço I , com


qualquer das suas normas, é completo e, em consequência, qualquer
subespaço vectorial de I é fechado.
I.1.9 Se I e J são espaços vectoriais de dimensão finita, reais ou complexos,
toda a aplicação linear 0À I Ä J é contínua; por outras palavras, se conside-
rarmos normas em I e J , existe Q   ! tal que, para cada B − I ,
m0ÐBÑm Ÿ Q mBm. Ao menor dos números Q   ! nestas condições dá-se o
nome de norma de 0, notada m0m. Fica assim definida uma norma no espaço
vectorial PÐIà J Ñ.
I.1.10 Mais geralmente, se I" ß á ß I: e J são espaços vectoriais de dimensão
finita, reais ou complexos, toda a aplicação multilinear
0À I" ‚ â ‚ I: Ä J é contínua, ou seja, se considerarmos normas nestes
espaços vectoriais, existe Q   ! tal que, quaisquer que sejam
B" − I" ß á ß B: − I: , se tenha
m0ÐB" ß á ß B: Ñm Ÿ Q mB" mâmB: m.

Ao menor dos números Q   ! nestas condições dá-se o nome de norma de


0, notada m0m. Fica assim definida uma norma no espaço vectorial
PÐI" ß á ß I: à J Ñ.
I.1.11 Se J" ß á ß J: são espaços vectoriais, reais ou complexos, de dimensões
finitas 7" ß á ß 7: , então o produto cartesiano J" ‚ â ‚ J: tem dimensão
finita 7"  â  7: e, se considerarmos uma norma em cada um daqueles
espaços, uma das normas possíveis no produto cartesiano é a norma do
máximo, definida por
mÐB" ß á ß B: Ñm œ max mB4 m.
"Ÿ4Ÿ:

I.1.12 Suponhamos que, para cada " Ÿ 4 Ÿ :, -4 À I4w Ä I4 é uma aplicação


linear e que .À J Ä J w é uma aplicação linear. Tem então lugar uma aplica-
ção linear
PÐ-" ß á ß -: à .ÑÀ PÐI" ß á ß I: à J Ñ Ä PÐI"w ß á ß I:w à J w Ñ

definida por
PÐ-" ß á ß -: à .ÑÐ0Ñ œ . ‰ 0 ‰ Ð-" ‚ â ‚ -: Ñ

ou seja,
PÐ-" ß á ß -: à .ÑÐ0ÑÐB" ß á ß B: Ñ œ .Ð0Ð-" ÐB" Ñß á ß -: ÐB: ÑÑÑ.

No caso particular em que todos os -4 À I4w Ä I4 são iguais a uma certa apli-
cação linear -À I w Ä I , usamos também a notação
§1. Algumas propriedades dos espaços vectoriais… 5

P: Ð-à .ÑÀ P: ÐIà J Ñ Ä P: ÐI w à J w Ñ


em vez de PÐ-" ß á ß -: à .Ñ.
Repare-se que, quando -" ß á ß -: e . são isomorfismos, PÐ-" ß á ß -: à .Ñ é
também isomorfismo, tendo PÐ-"" ß á ß -:" à ." Ñ como isomorfismo
inverso.

De certo modo em sentido inverso ao que percorremos atrás, vamos agora


examinar o mínimo que é necessário acrescentar a um espaço vectorial
real para determinarmos um espaço vectorial complexo.

I.1.13 Se I é um espaço vectorial real, chamaremos estrutura complexa de I a


uma aplicação linear N À I Ä I tal que N ‰ N œ M.I .
Se I é um espaço vectorial complexo, tem lugar uma estrutura complexa
N À I Ä I , definida por N Ð?Ñ œ 3?, a que daremos o nome de estrutura com-
plexa associada ao espaço vectorial complexo.
I.1.14 Sejam I um espaço vectorial real e N À I Ä I uma estrutura complexa de
I . Existe então sobre I uma, e uma só, estrutura de espaço vectorial
complexo, estendendo a estrutura de espaço vectorial real e cuja estrutura
complexa associada seja N .
Dem: A unicidade é clara, uma vez que, se ? − I e - − ‚, com - œ +  ,3,
+ß , − ‘, não pode deixar de ser -? œ +?  ,N Ð?Ñ. Para provarmos a
existência, definamos a multiplicação de um escalar complexo por um vector
de I pela fórmula anterior e comecemos por reparar que, no caso em que o
complexo é real a multiplicação coincide com a multiplicação dada e que, no
caso em que o complexo é 3 œ !  " 3, vem efectivamente 3? œ N Ð?Ñ.
Resta-nos mostrar que I fica efectivamente um espaço vectorial complexo, a
única propriedade não trivial a demonstrar sendo a identidade -Ð- w ?Ñ œ
Ð-- w Ñ?. Ora, sendo - œ +  ,3 e - w œ +w  , w 3, com +ß ,ß +w ß , w − ‘, vem
-Ð- w ?Ñ œ -Ð+w ?  , w N Ð?ÑÑ œ +Ð+w ?  , w N Ð?ÑÑ  ,N Ð+ w ?  , wN Ð?ÑÑ œ
œ ++w ?  +, w N Ð?Ñ  ,+w N Ð?Ñ  ,, w N ÐN Ð?ÑÑ œ
œ Ð++w  ,, w Ñ?  Ð+, w  ,+w ÑN Ð?Ñ œ Ð-- w Ñ?,
uma vez que -- w œ Ð++w  ,, w Ñ  Ð+, w  ,+w Ñ3. …
I.1.15 Em particular, se I é um espaço vectorial real de dimensão finita 8, a
existência de uma estrutura complexa N À I Ä I implica que 8 é par. Com
efeito, se : é a dimensão de I , enquanto espaço vectorial complexo, então
tem-se 8 œ #:. Repare-se que, reciprocamente, se I é um espaço vectorial
real com dimensão par 8 œ #:, então I admite uma estrutura complexa;
basta, com efeito, notar ?" ß á ß ?: ß @" ß á ß @: uma base de I e definir
N À I Ä I como sendo a aplicação linear que verifica N Ð?4 Ñ œ @4 e
N Ð@4 Ñ œ ?4 .
6 Cap. I. Álgebra Linear e Cálculo Diferencial

I.1.16 Se I é um espaço vectorial complexo, com estrutura complexa N ,


podemos considerar um novo espaço vectorial complexo, com o mesmo
espaço vectorial real associado, a saber o definido pela estrutura complexa
N . A este novo espaço vectorial complexo, que será notado I , dá-se o
nome de espaço vectorial conjugado do primeiro. Dados ? − I e - − ‚, o
produto de - por ?, para a estrutura de espaço vectorial complexo conjugado
vai coincidir com o produto -?, relativamente à estrutura original, do
complexo conjugado - por ?.
I.1.17 Sejam I e J espaços vectoriais complexos, com estruturas complexas N e
N w . Se -À I Ä J é uma aplicação linear real, então - é uma aplicação linear
complexa se, e só se, se tem N w ‰ - œ - ‰ N .
Dem: Se - é uma aplicação linear complexa, então
N w Ð-Ð?ÑÑ œ 3-Ð?Ñ œ -Ð3?Ñ œ -ÐN Ð?ÑÑ,
o que mostra que N w ‰ - œ - ‰ N . Reciprocamente, se N w ‰ - œ - ‰ N ,
tem-se, para cada ? − I e - − ‚, com - œ +  ,3, +ß , − ‘,
-Ð-?Ñ œ -Ð+?  ,N Ð?ÑÑ œ +-Ð?Ñ  , -ÐN Ð?ÑÑ œ +-Ð?Ñ  ,N w Ð-Ð?ÑÑ œ - -Ð?Ñ,

o que mostra que - é uma aplicação linear complexa. …


I.1.18 Se I e J são espaços vectoriais complexos, uma aplicação antilinear
-À I Ä J é uma aplicação linear real que verifica a condição -Ð-?Ñ œ
- -Ð?Ñ, para cada - − ‚ e ? − I . Por outras palavras, uma aplicação linear
real -À I Ä J é antilinear se, e só se, é uma aplicação linear complexa de I
para J (ou, equivalentemente, de I para J ), o que acontece se, e só se,
N w ‰ - œ - ‰ N .

Examinemos agora o modo como as noções usuais de traço e de


determinante de uma matriz quadrada podem ser apresentadas no quadro
das aplicações lineares de um espaço vectorial de dimensão finita para si
mesmo.

I.1.19 Lembremos as seguintes propriedades bem conhecidas do traço e do


determinante das matrizes quadradas:
a) Se E e F são matrizes dos tipos 7 ‚ 8 e 8 ‚ 7, respectivamente, então
TrÐE ‚ FÑ œ TrÐF ‚ EÑ

iguais a ! +3ß4 ‚ ,4ß3 ).


(sendo +3ß4 e ,4ß3 os elementos das matrizes E e F , ambos os membros são
"Ÿ3Ÿ7
"Ÿ4Ÿ8

b) Se E e F são matrizes quadradas, então


detÐE ‚ FÑ œ detÐEÑ ‚ detÐFÑ.
§1. Algumas propriedades dos espaços vectoriais… 7

I.1.20 Sejam I um espaço vectorial de dimensão 8, real ou complexo, e


-À I Ä I uma aplicação linear. Ficam então bem definidos dois escalares

base B" ß á ß B7 de I , com -ÐB4 Ñ œ ! +3ß4 B3 , se ter TrÐ-Ñ œ TrÐÐ+3ß4 ÑÑ e


TrÐ-Ñ e detÐ-Ñ, o traço e o determinante de -, pela condição de, para cada

3
detÐ-Ñ œ detÐÐ+3ß4 ÑÑ. Por outras palavras, o traço e o determinante de - são
os da sua matriz numa base arbitrária de I .2

-ÐC4 Ñ œ ! ,3ß4 C3 , tem-se detÐÐ+3ß4 ÑÑ œ detÐÐ,3ß4 ÑÑ e TrÐÐ+3ß4 ÑÑ œ TrÐÐ,3ß4 ÑÑ.


Dem: Tudo o que temos que ver é que, se C" ß á ß C8 é outra base de I , com

Ora, sendo B4 œ ! -5ß4 C5 e notando E, F e G as matrizes de elementos +3ß4 ,


3

5
,3ß4 e -5ß4 , respectivamente, a última das quais é invertível, em particular tem
determinante não nulo, podemos escrever

-ÐB4 Ñ œ " -5ß4 -ÐC5 Ñ œ " -5ß4 ,3ß5 C3

-ÐB4 Ñ œ " +5ß4 B5 œ " +5ß4 -3ß5 C3 ,


5 5ß3

5 5ß3

donde F ‚ G œ G ‚ E, o que implica que


detÐFÑ ‚ detÐGÑ œ detÐGÑ ‚ detÐEÑ,
portanto detÐEÑ œ detÐFÑ, e que F œ G ‚ E ‚ G " , portanto
TrÐFÑ œ TrÐG ‚ ÐE ‚ G " ÑÑ œ TrÐÐE ‚ G " Ñ ‚ GÑ œ TrÐEÑ. …

I.1.21 Sejam I e J espaços vectoriais de dimensões 7 e 8 sobre Š. Tem-se


então:
a) A aplicação TrÀ PÐIà IÑ Ä Š é linear.
b) Se -À I Ä J e .À J Ä I são aplicações lineares, então TrÐ. ‰ -Ñ œ
TrÐ- ‰ .Ñ.
Dem: Trata-se de uma consequência directa das correspondentes proprie-
dades do traço das matrizes. …
I.1.22 Seja I um espaço vectorial de dimensão 8 sobre Š. Tem-se então:
a) A aplicação detÀ PÐIà IÑ Ä Š é homogénea de grau 8, isto é, para cada
- − PÐIà IÑ e + − Š, tem-se detÐ+-Ñ œ +8 detÐ-Ñ.
b) Para a aplicação identidade M.I À I Ä I , tem-se detÐM.I Ñ œ ".
c) Se -ß . − PÐIà IÑ, então detÐ. ‰ -Ñ œ detÐ.Ñ ‚ detÐ-Ñ.
d) Uma aplicação linear - − PÐIà IÑ é um isomorfismo se, e só se,
detÐ-Ñ Á ! e, nesse caso, detÐ-" Ñ œ "ÎdetÐ-Ñ.
e) Se 0À I Ä J é um isomorfismo e - − PÐIà IÑ, tem-se, para o
correspondente 0 ‰ - ‰ 0" − PÐJ à J Ñ, detÐ0 ‰ - ‰ 0" Ñ œ detÐ-Ñ.

2Repare-se que, se I e J são espaços vectoriais distintos, com a mesma dimensão, não
definimos nem o traço nem o determinante de uma aplicação linear -À I Ä J .
8 Cap. I. Álgebra Linear e Cálculo Diferencial

Dem: As propriedades a), b) e c) são consequências directas das correspon-


dentes propriedades do determinante das matrizes, tal como o é d), se lem-
brarmos que uma aplicação linear é um isomorfismo se, e só se, a sua matriz
é invertível e que, de - ‰ -" œ M.I resulta que detÐ-ÑdetÐ-" Ñ œ ". A alí-
nea e) resulta de que, fixada uma base B" ß á ß B8 em I , a matriz de - nessa
base coincide com a matriz de 0 ‰ - ‰ 0" na base 0ÐB" Ñß á ß 0ÐB8 Ñ de J . …

Se I é um espaço vectorial complexo de dimensão 8 e -À I Ä I é uma


aplicação linear, sabemos que podemos também olhar para I como um
espaço vectorial real de dimensão #8, mas, em geral, o traço e o
determinante de - não serão os mesmos dos dois pontos de vista (no
primeiro caso eles são números complexos e, no segundo, são números
reais). O resultado seguinte explica a relação entre as duas situações.

I.1.23 Sejam I um espaço vectorial complexo de dimensão 8 e -À I Ä I uma


aplicação linear e usemos as notações Tr‚ Ð-Ñ, det‚ Ð-Ñ e Tr‘ Ð-Ñ, det‘ Ð-Ñ
para indicar se estamos a considerar o traço e o determinante no quadro dos
espaços vectoriais complexos ou no dos espaços vectoriais reais. Tem-se
então:
Tr‘ Ð-Ñ œ #dÐTr‚ Ð-ÑÑ, det‘ Ð-Ñ œ ldet‚ Ð-Ñl# .

Dem: Seja B" ß á ß B8 uma base de I , enquanto espaço vectorial complexo e

-ÐB5 Ñ œ ! -4ß5 B4 . Podemos escrever -4ß5 œ +4ß5  3,4ß5 , com +4ß5 ß ,4ß5 − ‘, e
seja G , com elementos -4ß5 , a matriz de - nesta base, portanto a definida por

4
então, considerando a base B" ß á ß B8 ß 3B" ß á ß 3B8 de I , enquanto espaço
vectorial real, podemos escrever, lembrando que -Ð3B5 Ñ œ 3-ÐB5 Ñ,
Ú
Ý -ÐB5 Ñ œ ! +4ß5 B4  ! ,4ß5 3B4
Û
Ý -Ð3B5 Ñ œ ! ,4ß5 B5  ! +4ß5 3B4
4 4

Ü 4 4

de onde deduzimos que


Tr‘ Ð-Ñ œ " +5ß5  " +5ß5 œ #" dÐ-5ß5 Ñ œ #dÐTr‚ Ð-ÑÑ
5 5 5

e que a matriz G w , de tipo #8 ‚ #8, da aplicação linear - na base real consi-


derada pode ser apresentada por blocos do tipo 8 ‚ 8 na forma

Gw œ ”
E •
E F
.
F

Para calcular o determinante de G w utilizamos um artifício que encontrámos


em [21]. Para isso reparamos que, sendo \ a matriz de tipo #8 ‚ #8 com
divisão em blocos do tipo 8 ‚ 8
§1. Algumas propriedades dos espaços vectoriais… 9

\œ”
M8 •
M8 3M8
,
3M8

onde M8 nota a matriz identidade do tipo 8 ‚ 8, cuja matriz conjugada é

\œ” 8
M8 •
M 3M8
,
3M8

tem-se

\ ‚ Gw ‚ \ œ # ‚ ”
E  3F •
E  3F !
.
!

Substituindo E por M8 e F por ! (ou seja, considerando o caso - œ M.I ),


vem também
\ ‚ M#8 ‚ \ œ # ‚ M#8 ,
e daqui deduzimos que

detÐ\Ñ ‚ detÐG w Ñ ‚ detÐ\Ñ œ ##8 detŠ” ‹


E  3F •
E  3F !
!
detÐ\Ñ ‚ detÐM#8 Ñ ‚ detÐ\Ñ œ ##8 detÐM#8 Ñ,

ou seja, detÐ\Ñ ‚ detÐ\Ñ œ ##8 , donde

detÐG w Ñ œ detŠ” ‹ œ detŠ” •‹ œ


E  3F •
E  3F ! G !
! ! G
œ detÐGÑ ‚ detÐGÑ œ ldetÐGÑl# ,

ou seja, detÐ-‘ Ñ œ ldetÐ-‚ Ñl# . …

§2. Espaços euclidianos e hermitianos.

I.2.1 No que segue continuaremos a utilizar Š para designar um dos corpos ‘ ou


‚. No sentido de evitar duplicação de enunciados, tratando simultaneamente
os casos real e complexo, será cómodo estender trivialmente a ‘ algumas
noções que a priori só faziam sentido em ‚. Assim:
a) Quando - − ‚, nota-se - o complexo conjugado do complexo - . No
quadro dos números reais vamos considerar que, para cada - − ‘, - é
sinónimo de - , o que é compatível com o facto de, quando identificamos ‘ a
uma parte de ‚, ‘ ser precisamente o conjunto dos complexos que
coincidem com os respectivos conjugados.
b) Quando I é um espaço vectorial complexo, definimos em I.1.16 o espaço
vectorial conjugado I . Quando I é um espaço vectorial real, consideramos
10 Cap. I. Álgebra Linear e Cálculo Diferencial

que I é sinónimo de I .
c) Quando I e J são espaços vectoriais complexos, chamámos aplicações
antilineares às aplicações lineares reais -À I Ä J que verificam a condição
-Ð-?Ñ œ - -Ð?Ñ, para cada - − ‚ e ? − I . Em consonância com o que se
disse em a), quando I e J são espaços vectoriais reais, vamos considerar
que as aplicações antilineares -À I Ä J são simplesmente as aplicações
lineares.
d) Quando I e J são espaços vectoriais complexos, diremos que uma aplica-
ção 0À I ‚ I Ä J é sesquilinear se ela é linear na primeira variável e
antilinear na segunda. Quando I e J são espaços vectoriais reais,
consideramos que uma aplicação sesquilinear 0À I ‚ I Ä J é precisamente
a mesma coisa que uma aplicação bilinear. É claro que uma aplicação
sesquilinear I ‚ I Ä J é precisamente a mesma coisa que uma aplicação
bilinear I ‚ I Ä J .
I.2.2 Seja I um espaço vectorial sobre Š, onde Š é ‘ ou ‚. Relembremos que
um produto interno sobre I é uma aplicação sesquilinear I ‚ I Ä Š,
notada usualmente ÐBß CÑ È ØBß CÙ, verificando as seguintes condições:

a) Quaisquer que sejam Bß C − I , ØBß CÙ œ ØCß BÙ;3


b) Para cada B − I , ØBß BÙ   !;
c) Se ØBß BÙ œ !, então B œ !.4
(a propriedade b) poderá parecer um pouco estranha quando Š œ ‚, mas ela
faz sentido na medida em que, por a), tem-se ØBß BÙ œ ØBß BÙ, e portanto
ØBß BÙ − ‘). Relembremos ainda que, se I está munido de um produto
interno, podemos considerar sobre I uma norma associada, definida por
mBm œ ÈØBß BÙ,

tendo então lugar a desigualdade de Schwarz, que nos afirma que, quaisquer
que sejam Bß C − I ,
lØBß CÙl Ÿ mBmmCm,
com lØBß CÙl œ mBmmCm se, e só se, B e C são linearmente dependentes.
Aos espaços vectoriais de dimensão finita, munidos de um produto interno,
dá-se o nome de espaços euclidianos ou espaços hermitianos, conforme
Š œ ‘ ou Š œ ‚.
I.2.3 O exemplo mais simples de espaço vectorial sobre Š com produto interno é
o espaço cartesiano Š8 , com o produto interno canónico, definido por
ØÐ+" ß á ß +8 Ñß Ð," ß á ß ,8 ÑÙ œ +" ,"  â  +8,8 .

3No caso em que Š œ ‘, esta propriedade diz-nos que a aplicação bilinear é simétrica.
4É claro que a recíproca é também verdadeira. Mais geralmente, a bilinearidade real do
produto interno implica que se tem ØBß CÙ œ !, sempre que B œ ! ou C œ !.
§2. Espaços euclidianos e hermitianos 11

É este o produto interno que consideraremos sempre em Š8 , salvo aviso em


contrário. Repare-se que a norma associada a este produto interno está
definida por
mÐ+" ß á ß +8 Ñm œ Èl+" l#  â  l+8 l# .

I.2.4 Se I é um espaço vectorial de dimensão 8 sobre Š, então existe sempre


um produto interno sobre I . Mais precisamente, dada uma base A" ß á ß A8
de I pode definir-se um produto interno associado a esta base pondo, para
B œ +" A "  â  + 8 A 8 e C œ , " A "  â  , 8 A 8 ,
ØBß CÙ œ +" ,"  â  +8 ,8 .
O produto interno canónico sobre Š8 não é mais do que o associado à base
canónica de Š8 .
I.2.5 Seja I um espaço vectorial complexo de dimensão finita, munido de um
produto interno Ø ß Ù‚ . Sabemos que I pode ser também olhado como espaço
vectorial real mas é evidente que, nesse contexto, Ø ß Ù‚ não vai ser um
produto interno (trata-se de uma aplicação com valores em ‚ e não em ‘).
No entanto é fácil constatar-se que se pode definir em I , considerado como
espaço vectorial real, um produto interno, que notaremos Ø ß Ù‘ , pondo
ØBß CÙ‘ œ dÐØBß CÙ‚ Ñ 5
(reparar que um número complexo e o seu conjugado têm a mesma parte
real). Dizemos que Ø ß Ù‘ é o produto interno real associado ao produto
interno complexo Ø ß Ù‚ . Repare-se que as normas associadas ao produto
interno complexo e ao produto interno real associado coincidem.
I.2.6 Seja I um espaço vectorial complexo, munido de um produto interno
complexo Ø ß Ù‚ e do produto interno real associado Ø ß Ù‘ . Se N é a estrutura
complexa associada de I , então, quaisquer que sejam ?ß @ − I , tem-se
ØN Ð?Ñß N Ð@ÑÙ‚ œ Ø3?ß 3@Ù‚ œ 3 ‚ 3 ‚ Ø?ß @Ù‚ œ Ø?ß @ Ù‚ ,
em particular também ØN Ð?Ñß N Ð@ÑÙ‘ œ Ø?ß @Ù‘ .
I.2.7 Seja, reciprocamente, I um espaço vectorial real, munido de um produto
interno Ø ß Ù‘ . Diz-se que uma estrutura complexa N À I Ä I é compatível
com o produto interno se se tem ØN Ð?Ñß N Ð@ÑÙ‘ œ Ø?ß @Ù‘ , quaisquer que
sejam ?ß @ − ‘ (diz-se então também que o produto interno real é um
produto interno hermitiano do espaço vectorial complexo definido por N ).
Quando isso acontecer, existe um, e um só, produto interno complexo Ø ß Ù‚
do espaço vectorial complexo definido por N , cujo produto interno real
associado seja Ø ß Ù‘ , nomeadamente o definido por

5Notamos, para cada complexo D , dÐDÑ e eÐDÑ a parte real e o coeficiente da parte
imaginária de D .
12 Cap. I. Álgebra Linear e Cálculo Diferencial

Ø?ß @Ù‚ œ Ø?ß @Ù‘  Ø?ß N Ð@ÑÙ‘ 3.

Dem: Comecemos por mostrar a unicidade. Para isso, reparamos que, se


Ø ß Ù‚ é um produto interno complexo de I cujo produto interno real
associado seja Ø ß Ù‘ , então, sendo Ø?ß @Ù‚ œ +  ,3, com +ß , − ‘, vem
+ œ Ø?ß @Ù‘ e
Ø?ß N Ð@ÑÙ‚ œ Ø?ß 3@Ù‚ œ 3Ø?ß @Ù‚ œ ,  +3,
e portanto , œ Ø?ß N Ð@ÑÙ‘ , donde Ø?ß @Ù‚ œ Ø?ß @Ù‘  Ø?ß N Ð@ÑÙ‘ 3. Defina-
mos agora Ø?ß @Ù‚ pela fórmula anterior. Para terminar a demonstração basta
verificarmos que obtemos assim um produto interno complexo em I , visto
que é então imediato que o produto interno real associado é Ø ß Ù‘ . É imediato
que a aplicação Ð?ß @Ñ È Ø?ß @Ù‚ é bilinear real e, uma vez que se tem
ØN Ð?Ñß @Ù‘ œ ØN ÐN Ð?ÑÑß N Ð@ÑÙ‘ œ Ø?ß N Ð@ÑÙ‘ ,
podemos escrever
ØN Ð?Ñß @Ù‚ œ ØN Ð?Ñß @Ù‘  ØN Ð?Ñß N Ð@ÑÙ‘ 3 œ
œ Ø?ß N Ð@ÑÙ‘  Ø?ß @Ù‘ 3 œ 3 Ø?ß @Ù‚

e
Ø?ß N Ð@ÑÙ‚ œ Ø?ß N Ð@ÑÙ‘  Ø?ß N ÐN Ð@ÑÑÙ‘ 3 œ
œ Ø?ß N Ð@ÑÙ‘  Ø?ß @Ù‘ 3 œ 3 Ø?ß @Ù‚ ,

o que mostra que ela é linear complexa na primeira variável e antilinear na


segunda, e portanto temos uma aplicação sesquilinear. A igualdade
ØN Ð?Ñß @Ù‘ œ Ø?ß N Ð@ÑÙ‘ implica também que se tem Ø@ß ?Ù‚ œ Ø?ß @Ù‚ , em
particular Ø?ß ?Ù‚ é real, e portanto igual a Ø?ß ?Ù‘ , o que implica, em
particular, que temos um produto interno complexo. …
I.2.8 Seja I um espaço vectorial real munido de um produto interno Ø ß Ù‘ e de
uma estrutura complexa compatível N À I Ä I . Para cada ? − I , tem-se
então Ø?ß N Ð?ÑÙ‘ œ !.
Dem: Tem-se
Ø?ß N Ð?ÑÙ‘ œ ØN Ð?Ñß N ÐN Ð?ÑÑÙ‘ œ ØN Ð?Ñß ?Ù‘ œ Ø?ß N Ð?ÑÙ‘ . …

I.2.9 Se I é um espaço vectorial de dimensão finita sobre Š, munido de um


produto interno, tem lugar um isomorfismo )À I Ä PÐIà ŠÑ, definido por
)ÐCÑÐBÑ œ ØBß CÙ.

Dem: É imediato que, para cada C − I , tem lugar uma aplicação linear de I
em Š, definida por B È ØBß CÙ, o que mostra que se pode definir uma
aplicação )À I Ä PÐIà ŠÑ pela igualdade do enunciado. É trivial constatar
que a aplicação ) é antilinear, isto é, é uma aplicação linear I Ä PÐIà ŠÑ,
§2. Espaços euclidianos e hermitianos 13

pelo que, uma vez que I e PÐIà ŠÑ têm a mesma dimensão, para vermos
que ela é um isomorfismo basta vermos que o seu núcleo é Ö!×. Ora, se
)ÐCÑ œ !, tem-se, em particular, ! œ )ÐCÑÐCÑ œ ØCß CÙ, donde C œ !. …
I.2.10 Seja I é um espaço vectorial de dimensão finita sobre Š, munido de um
produto interno. Diz-se que dois vectores Bß C − I são ortogonais se se tem
ØBß CÙ œ !. Se J § I é um subespaço vectorial, chama-se complementar
ortogonal de J o conjunto J ¼ dos vectores B − I tais que ØBß CÙ œ !, para
todo o C − J .
I.2.11 Seja I um espaço hermitiano, com o produto interno complexo Ø ß Ù‚ e
seja Ø ß Ù‘ o produto interno real associado.
Se Bß C − I são vectores ortogonais, relativamente ao produto interno com-
plexo, então B e C são também ortogonais, relativamente ao produto interno
real, mas a recíproca já não é válida: Por exemplo, se B Á !, tem-se
Ø3Bß BÙ‚ œ 3ØBß BÙ‚ Á ! e Ø3Bß BÙ‘ œ !.
No entanto, no caso em que J § I é um subespaço vectorial complexo, o
complementar ortogonal J ¼ , relativamente a Ø ß Ù‚ , coincide com o comple-
mentar ortogonal relativamente a Ø ß Ù‘ .
Dem: É claro que, se B pertence ao complementar ortogonal de J ,
relativamente a Ø ß Ù‚ , então B também pertence ao complementar ortogonal
de J , relativamente a Ø ß Ù‘ . Suponhamos, reciprocamente, que B pertence ao
complementar ortogonal de J , relativamente a Ø ß Ù‘ . Para cada C − J , vem
também 3C − J , pelo que podemos escrever
dÐØBß CÙ‚ Ñ œ ØBß CÙ‘ œ !,
eÐØBß CÙ‚ Ñ œ dÐ3ØBß CÙ‚ Ñ œ dÐØBß 3CÙ‚ Ñ œ ØBß 3CÙ‘ œ !,

donde ØBß CÙ‚ œ !. …


I.2.12 Sejam I um espaço vectorial de dimensão 8 sobre Š, munido de um
produto interno e J § I um subespaço vectorial de dimensão 7. Tem-se
então:
a) J ¼ é um subespaço vectorial de dimensão 8  7;
b) ÐJ ¼ Ѽ œ J ;
c) Tem lugar a soma directa I œ J Š J ¼ ;
d) Ö!×¼ œ I e I ¼ œ Ö!×.
Dem: Comecemos por reparar que tem lugar uma aplicação linear sobrejec-
tiva de PÐIà ŠÑ sobre PÐJ à ŠÑ, que a cada aplicação linear 0À I Ä Š
associa a restrição 0ÎJ À J Ä Š (para ver que toda a aplicação linear de J em
Š pode ser prolongada numa aplicação linear de I em Š, basta considerar
uma base de J , prolongá-la numa base de I e atender a que uma aplicação
linear fica definida se dermos, de modo arbitrário, as imagens dos elementos
duma base). Por composição desta aplicação linear com o isomorfismo
)À I Ä PÐIà ŠÑ, somos conduzidos a uma aplicação linear sobrejectiva
s)À I Ä PÐJ à ŠÑ, definida ainda por s)ÐCÑÐBÑ œ ØBß CÙ. Por definição, J ¼ é o
núcleo da aplicação linear s) pelo que, uma vez que I e PÐJ à ŠÑ têm
14 Cap. I. Álgebra Linear e Cálculo Diferencial

dimensões 8 e 7, respectivamente, concluímos que J ¼ é um subespaço


vectorial de dimensão 8  7 (de I ou de I , é o mesmo). Aplicando de novo
a mesma conclusão, vemos que ÐJ ¼ Ѽ é um subespaço vectorial de
dimensão 8  Ð8  7Ñ œ 7; uma vez que se tem evidentemente
J § ÐJ ¼ Ѽ , podemos concluir que ÐJ ¼ Ѽ œ J . Se B − J  J ¼ , tem-se
ØBß BÙ œ !, donde B œ !. Concluímos daqui que J e J ¼ formam soma
directa pelo que, uma vez que a soma das suas dimensões é igual à dimensão
8 de I , tem-se I œ J Š J ¼ . É imediato que Ö!×¼ œ I e o facto de se ter
I ¼ œ Ö!× é, por exemplo, uma consequência daquele facto e do que vimos
em b). …
I.2.13 Nas condições anteriores nota-se 1J a aplicação linear de I sobre J
associada à soma directa referida. Tem-se portanto que, para cada B − I ,
pode-se escrever, de maneira única B œ Bw  Bww , com Bw − J e Bww − J ¼ , e
então 1J ÐBÑ œ Bw , por outras palavras, 1J ÐBÑ é o único vector de J tal que
B  1J ÐBÑ − J ¼ . Diz-se que 1J é a projecção ortogonal de I sobre J .
Repare-se que, tendo em conta a alínea b) do resultado precedente, a
projecção ortogonal 1J ¼ ÐBÑ de B sobre J ¼ é igual a Bww , isto é, a B  1J ÐBÑ.
É claro que se tem B − J se, e só se, 1J ÐBÑ œ B, assim como B − J ¼ se, e
só se, 1J ÐBÑ œ !.
Tendo em conta I.2.11, vemos que, se I é um espaço hermitiano e J § I é
um subespaço vectorial complexo, então a projecção ortogonal 1J não
depende de se considerar o produto interno complexo ou o produto interno
real associado.
I.2.14 Seja I um espaço vectorial de dimensão 8 sobre Š, munido de um
produto interno. Diz-se que um sistema de 7 vectores A" ß á ß A7 é
ortogonal se se tem ØA4 ß A5 Ù œ !, para cada 4 Á 5 . Um sistema ortogonal de
vectores não nulos é sempre linearmente independente e, no caso em que
7 œ 8, é uma base de I (uma base ortogonal de I ), tendo-se, para cada
B − I,

Bœ"
8
ØBß A4 Ù
A4 .
4œ"
ØA4 ß A4 Ù

Dem: Suponhamos que A" ß á ß A7 é um sistema ortogonal de vectores não


nulos e que se tinha ! +4 A4 œ !. Para cada 5 , podíamos então escrever

! œ  " +4 A4 ß A5 ¡ œ " +4 ØA4 ß A5 Ù œ +5 ØA5 ß A5 Ù,


4 4

donde +5 œ !, o que mostra que o sistema é linearmente independente. No

B − I , podemos escrever B œ ! +4 A4 . Tem-se então, para cada 5 ,


caso em que 7 œ 8, temos portanto uma base de I pelo que, para cada
§2. Espaços euclidianos e hermitianos 15

ØBß A5 Ù œ " +4 ØA4 ß A5 Ù œ +5 ØA5 ß A5 Ù,


4

ØBßA5 Ù
donde +5 œ ØA5 ßA5 Ù . …

I.2.15 Nas condições anteriores, um sistema de 7 vectores A" ß á ß A7 ./ I


diz-se ortonormado se for ortogonal e constituído por vectores de norma ",
por outras palavras, se se tiver ØA4 ß A5 Ù œ $4ß5 , quaisquer que sejam 4ß 5 ,
onde $4ß5 é o símbolo de Kronecker6. A um sistema ortonormado de vectores
que constitua uma base também se dá o nome de base ortonormada de I .
Repare-se que, a partir de um sistema ortogonal de vectores não nulos
C" ß á ß C7 , pode sempre obter-se um sistema ortonormado A" ß á ß A7 ,
C
pondo simplesmente A4 œ mC44 m .
Quando A" ß á ß A8 é uma base ortonormada, a fórmula obtida atrás diz-nos
que, para cada B − I , tem-se

B œ " ØBß A4 Ù A4 .
8

4œ"

Uma das vantagens das bases ortonormadas é a de elas permitirem uma


caracterização simples do produto interno de dois vectores a partir das
suas componentes.

I.2.16 Seja A" ß á ß A8 uma base ortonormada de I . Dados Bß C − I , com


B œ +" A"  â  +8 A8 e C œ ," A"  â  ,8 A8 , tem-se
ØBß CÙ œ +" ,"  â  +8 ,8 .

Dem: Vem
ØBß CÙ œ  " +4 A4 ß " ,5 A5 ¡ œ " Ø+4 A4 ß ,5 A5 Ù œ

œ " +4 ,5 ØA4 ß A5 Ù œ " +4 ,4 .


4 5 4ß5

…
4ß5 4

I.2.17 Em particular, vemos que, se I é um espaço vectorial com uma base


A" ß á ß A8 , então o produto interno construído a partir dela em I.2.4 vai ser o
único para o qual aquela base é ortonormada.
I.2.18 (Existência de bases ortonormadas) Seja I um espaço vectorial de
dimensão 8 sobre Š, munido de um produto interno. Cada sistema

6Recordemos que o símbolo de Kronecker $4ß5 é, por definição, igual a ", se 4 œ 5 , e igual
a !, se 4 Á 5 .
16 Cap. I. Álgebra Linear e Cálculo Diferencial

ortonormado de vectores de I pode então ser prolongado numa base


ortonormada de I , em particular, existe uma base ortonormada de I .
Dem: Façamos a demonstração da existência de uma base ortonormada para
I por indução na dimensão 8 de I . Se 8 œ !, o resultado é trivial, visto que
a família vazia de vectores é uma base ortonormada. Suponhamos o resultado
verdadeiro para os espaços vectoriais de dimensão 8 e vejamos o que
acontece no caso em que I tem dimensão 8  ". Seja B um vector não nulo
de I e seja J œ ŠB o subespaço vectorial, de dimensão ", gerado por B. O
B
vector A" œ mBm é um vector de norma " de J , e portanto uma base
ortonormada deste subespaço. Pela hipótese de indução podemos considerar
uma base ortonormada A# ß á ß A8" do complementar ortogonal J ¼ , que é
um espaço vectorial de dimensão 8, e é então imediato que A" ß A# ß á ß A8"
é um sistema ortonormado de 8  " vectores de I e portanto uma base
ortonormada deste espaço. Mais geralmente, se C" ß á ß C7 for um sistema
ortonormado de vectores de I , podemos considerar o subespaço vectorial J
de dimensão 7 gerado por este sistema e é imediato que, juntando a estes
vectores os 8  7 vectores duma base ortonormada do complementar
ortogonal J ¼ , obtemos um sistema ortonormado de I com 8 vectores, logo
uma base ortonormada deste espaço. …
I.2.19 Seja I um espaço hermitiano, com o produto interno complexo Ø ß Ù‚ e
seja A" ß á ß A7 um sistema ortogonal de vectores de I (respectivamente um
sistema ortonormado). Então o sistema de vectores A" ß á ß A7 ß 3A" ß á ß 3A7
é ortogonal (respectivamente ortonormado), relativamente ao produto interno
real associado Ø ß Ù‘ . Relembremos que, quando o primeiro sistema é uma
base de I , enquanto espaço vectorial complexo, o segundo é uma base de I ,
enquanto espaço vectorial real.
Dem: Para cada 4 Á 5 , tem-se
! œ ØA4 ß A5 Ù‚ œ ØA4 ß A5 Ù‘  ØA4 ß 3A5 Ù‘ 3,

donde ØA4 ß A5 Ù‘ œ ! e ØA4 ß 3A5 Ù‘ œ !; daqui deduzimos, lembrando I.2.6,


que se tem também Ø3A4 ß 3A5 Ù‘ œ ØA4 ß A5 Ù‘ œ !. Por outro lado, para cada
4, tem-se
ØA4 ß A4 Ù‘  ØA4 ß 3A4 Ù‘ 3 œ ØA4 ß A4 Ù‚ − ‘,

donde ØA4 ß 3A4 Ù‘ œ !, o que acaba de provar que temos um sistema


ortogonal de vectores de I , relativamente ao produto interno real associado.
No caso em que o sistema de partida é mesmo ortonormado, esta mesma
fórmula mostra que, por ser ØA4 ß A4 Ù‚ œ ", é também ØA4 ß A4 Ù‘ œ " e daqui
deduzimos que se tem também Ø3A4 ß 3A4 Ù‘ œ ØA4 ß A4 Ù‘ œ ". …

O resultado que se segue estabelece um processo muito útil de


caracterizar a projecção ortogonal sobre um subespaço J , quando se
dispõe de uma base ortonormada para esse subespaço, ou, mais
geralmente, de uma base ortogonal. É claro que, tendo em conta o que
§2. Espaços euclidianos e hermitianos 17

vimos em I.2.13, o resultado em questão poderá ser também utilizado


quando possuirmos uma base ortogonal para J ¼ , em vez de uma base
ortogonal para J .

I.2.20 Sejam I um espaço vectorial de dimensão finita, munido de produto


interno, e J § I um subespaço vectorial, munido de uma base ortogonal
A" ß á ß A7 . Para cada B − I , tem-se então

1J ÐBÑ œ "
7
ØBß A4 Ù
A4
4œ"
ØA4 ß A4 Ù

em particular, no caso em que a base é mesmo ortonormada,

1J ÐBÑ œ " ØBß A4 ÙA4 .


7

4œ"

Dem: Uma vez que C œ ! ØA4 ßA44 Ù A4 pertence evidentemente a J , tudo o que
ØBßA Ù

temos que mostrar é que B  C pertence a J ¼ . Ora, para cada 5 , tem-se

 B  Cß A5 ¡ œ ØBß A5 Ù  "
7
ØBß A4 Ù
ØA4 ß A5 Ù œ
4œ"
ØA4 ß A4 Ù
ØBß A5 Ù
œ ØBß A5 Ù  ØA5 ß A5 Ù œ !
ØA5 ß A5 Ù
e daqui segue-se que, para cada D − J , com D œ !,5 A5 ,

 B  Cß D ¡ œ " ,5  B  Cß A5 ¡ œ !,
7

5œ"

o que termina a demonstração. …


I.2.21 Sejam I e J espaços vectoriais de dimensão finita, munidos de produtos
internos, e -À I Ä J uma aplicação linear. Tem então lugar uma aplicação
linear -‡ À J Ä I , dita adjunta de -, tal que, para cada C − J , -‡ ÐCÑ é o
único elemento de I que verifica a condição
ØBß -‡ ÐCÑÙ œ Ø-ÐBÑß CÙ,
para todo o B − I .
Dem: Para cada C − J , tem lugar uma aplicação linear 0C À I Ä Š, definida
por 0C ÐBÑ œ Ø-ÐBÑß CÙ, pelo que a existência e unicidade de um elemento
-‡ ÐCÑ − I, verificando a igualdade do enunciado, fica garantida por I.2.9,
tendo-se nas notações desse resultado, -‡ ÐCÑ œ )" Ð0C Ñ. O facto de -‡ ser
uma aplicação linear é uma consequência de que a aplicação de J em
PÐIà ŠÑ, que a C associa 0C , é antilinear, tal como )" . …
18 Cap. I. Álgebra Linear e Cálculo Diferencial

I.2.22 Sejam I e J espaços hermitianos, com produtos internos notados Ø ß Ù‚ , e


-À I Ä J uma aplicação linear. Tem-se então que a aplicação linear adjunta
-‡ À J Ä I de - coincide com a adjunta de - relativamente aos produtos
internos reais associados Ø ß Ù‘ .
Dem: Basta atender a que a igualdade ØBß -‡ ÐCÑÙ‚ œ Ø-ÐBÑß CÙ‚ implica tri-
vialmente a igualdade ØBß -‡ ÐCÑÙ‘ œ Ø-ÐBÑß CÙ‘ . …
I.2.23 Nas condições de I.2.21, tem lugar uma aplicação antilinear de PÐIà J Ñ
em PÐJ à IÑ, que a cada - associa -‡ .
Dem: Dados -ß . − PÐIà J Ñ, tem-se
ØBß -‡ ÐCÑ  .‡ ÐCÑÙ œ ØBß -‡ ÐCÑÙ  ØBß .‡ ÐCÑÙ œ
œ Ø-ÐBÑß CÙ  Ø.ÐBÑß CÙ œ Ø-ÐBÑ  .ÐBÑß CÙ œ ØÐ-  .ÑÐBÑß CÙ,
o que implica que Ð-  .ч ÐCÑ œ -‡ ÐCÑ  .‡ ÐCÑ. Do mesmo modo, se
- − PÐIà J Ñ e + − Š,
ØBß +-‡ ÐCÑÙ œ +ØBß -‡ ÐCÑÙ œ +Ø-ÐBÑß CÙ œ Ø+ -ÐBÑß CÙ œ ØÐ+ -ÑÐBÑß CÙ ,
o que implica que +-‡ ÐCÑ œ Ð+-ч ÐCÑ. …
I.2.24 Sejam I , J e K espaços vectoriais de dimensão finita, munidos de
produto interno, e -À I Ä J e .À J Ä K duas aplicações lineares. Tem-se
então:
a) Ð-‡ ч œ -;
b) Ð. ‰ -ч œ -‡ ‰ .‡ ;
c) ÐM.I ч œ M.I .

Dem: Quaisquer que sejam B − I e C − J , vem


ØCß -ÐBÑÙ œ Ø-ÐBÑß CÙ œ ØBß -‡ ÐCÑÙ œ Ø-‡ ÐCÑß BÙ,
o que mostra que Ð-‡ ч ÐBÑ œ -ÐBÑ. Quaisquer que sejam B − I e D − K ,
tem-se
ØBß -‡ Ð.‡ ÐDÑÑÙ œ Ø-ÐBÑß .‡ ÐDÑÙ œ Ø.Ð-ÐBÑÑß DÙ,
pelo que Ð. ‰ -ч ÐDÑ œ -‡ ‰ .‡ ÐDÑ. A afirmação feita em c) é trivial. …
I.2.25 Se I é um espaço vectorial de dimensão finita, munido de produto
interno, diz-se que uma aplicação linear -À I Ä I é autoadjunta, se se tem
-‡ œ -, isto é, se se tem
ØBß -ÐCÑÙ œ Ø-ÐBÑß CÙ,
quaisquer que sejam Bß C − I (no caso em que Š œ ‘, também se dá o nome
de simétricas às aplicações lineares autoadjuntas). O subconjunto de
PÐIà IÑ, cujos elementos são as aplicações lineares autoadjuntas é um
§2. Espaços euclidianos e hermitianos 19

subespaço vectorial real7 que notaremos P++ ÐIà IÑ.


Analogamente, chamamos antiautoadjuntas às aplicações lineares -À I Ä I
tais que -‡ œ -, isto é, tais que ØBß -ÐCÑÙ œ Ø-ÐBÑß CÙ, quaisquer que
sejam Bß C − I , e notamos P++ ÐIà IÑ o subespaço vectorial real de
PÐIà IÑ constituído pelas aplicações lineares antiautoadjuntas.
I.2.26 Sejam I um espaço vectorial de dimensão finita, munido de produto
interno e J § I um subespaço vectorial. Sendo +J À J Ä I a inclusão e
1J À I Ä J a projecção ortogonal de I sobre J , tem-se +J‡ œ 1J , e portanto
também 1J‡ œ +J . Em consequência, quando se encara 1J como aplicação
linear I Ä I , 1J é uma aplicação linear autoadjunta.
Dem: Para provar que 1J À I Ä J é a adjunta de +J À J Ä I , o que temos
que mostrar é que, quaisquer que sejam B − J e C − I , tem-se Ø+J ÐBÑß CÙ œ
ØBß 1J ÐCÑÙ, isto é, ØBß CÙ œ ØBß 1J ÐCÑÙ, igualdade que é equivalente a
ØBß C  1J ÐCÑÙ œ !. Ora, isto acontece efectivamente, uma vez que se tem
B − J e, por definição de projecção ortogonal, C  1J ÐCÑ − J ¼ . O facto de
se ter também 1J‡ œ +J é agora uma consequência da alínea a) de I.2.24 e o
facto de 1J , como aplicação linear I Ä I , ser autoadjunta resulta da alínea
b) do mesmo resultado, uma vez que se pode considerar que temos a
composta +J ‰ 1J , e portanto
Ð+J ‰ 1J ч œ 1J‡ ‰ +J‡ œ +J ‰ 1J . …

Repare-se que o resultado anterior sublinha o cuidado necessário, ao


referir a adjunta de uma aplicação linear, de ter bem presente qual o
espaço de chegada que se está a considerar: Para a mesma aplicação linear
1J , de domínio I , a sua adjunta é +J , quando o espaço de chegada consi-
derado é J , e é a própria aplicação linear 1J , quando o espaço de chegada
considerado é I .
A noção de aplicação linear adjunta é talvez mais claramente entendida se
examinarmos o que acontece à respectiva matriz, desde que, e isso é
fundamental, esta seja tomada relativamente a bases ortonormadas dos
espaços euclidianos em questão:

I.2.27 Sejam I e J espaços vectoriais de dimensão finita, munidos de produto


interno, A" ß á ß A7 uma base ortonormada de I e D" ß á ß D8 uma base
ortonormada de J . Se - − PÐIà J Ñ, tem-se então que a matriz da aplicação
linear -‡ − PÐJ à IÑ naquelas bases é a matriz transconjugada da matriz de -
nas mesmas bases. Em particular, no caso em que Š œ ‘, uma aplicação
linear - − PÐIà IÑ é simétrica se, e só se, a sua matriz numa base
ortonormada é simétrica.
Dem: A matriz da aplicação linear - é a matriz cujo elemento +5ß4 , da linha 5

7Repare-se que, quando I é um espaço vectorial hermitiano, apenas podemos garantir


que P++ ÐIà IÑ é um subespaço vectorial real. A razão está no facto de a aplicação
- È -‡ ser antilinear, e não linear complexa.
20 Cap. I. Álgebra Linear e Cálculo Diferencial

e coluna 4, está definido por

-ÐA4 Ñ œ " +5ß4 D5 ,


8

5œ"

tendo-se portanto, uma vez que a base D" ß á ß D8 é ortonormada,


+5ß4 œ Ø-ÐA4 Ñß D5 Ù.

Do mesmo modo se vê que o elemento da linha 4 e coluna 5 da matriz de -‡


é
,4ß5 œ Ø-‡ ÐD5 Ñß A4 Ù œ ØD5 ß -ÐA4 ÑÙ œ Ø-ÐA4 Ñß D5 Ù œ +5ß4 ,

donde o resultado. …
I.2.28 (Corolário) Sejam I um espaço vectorial de dimensão 8, munido de
produto interno, e -À I Ä I uma aplicação linear com adjunta -‡ À I Ä I .
Tem-se então
TrÐ-‡ Ñ œ TrÐ-Ñ, detÐ-‡ Ñ œ detÐ-Ñ.

Dem: Fixando uma base ortonormada B" ß á ß B8 de I , sabemos que a matriz


de -‡ naquela base é a transposta da conjugada da matriz de - na mesma
base, pelo que basta repararmos que uma matriz e a sua transposta têm o
mesmo traço e o mesmo determinante e que o traço e o determinante da
matriz cujos elementos são os conjugados dos duma matriz dada são respec-
tivamente iguais aos conjugados do traço e do determinante desta. …
I.2.29 Sejam I e J espaços vectoriais de dimensão finita, munidos de produto
interno. Diz-se que uma aplicação linear -À I Ä J é ortogonal se se tem
Ø-ÐBÑß -ÐCÑÙ œ ØBß CÙ,
quaisquer que sejam Bß C − I . Uma tal aplicação linear verifica então
trivialmente a condição m-ÐBÑm œ mBm, qualquer que seja B − I , em
particular é sempre uma aplicação linear injectiva. Dá-se o nome de
isometria linear a um isomorfismo ortogonal, isto é, a uma aplicação linear
ortogonal -À I Ä J , que seja um isomorfismo de I sobre J . No caso em
que Š œ ‚ é mais comum chamar aplicações lineares unitárias às aplicações
lineares ortogonais.
I.2.30 Sejam I e J espaços vectoriais de dimensão finita, munidos de produto
interno, A" ß á ß A7 uma base ortonormada de I e -À I Ä J uma aplicação
linear. São então equivalentes as condições seguintes:
a) - é uma aplicação linear ortogonal;
b) m-ÐBÑm œ mBm, qualquer que seja B − I ;
c) -‡ ‰ - œ M.I ;
d) -ÐA" Ñß á ß -ÐA7 Ñ é um sistema ortonormado de vectores de J .
Além disso, no caso em que Š œ ‚, a aplicação linear complexa -À I Ä J é
§2. Espaços euclidianos e hermitianos 21

ortogonal, relativamente aos produtos internos complexos, se, e só se, é


ortogonal relativamente aos produtos internos reais associados.
Dem: Vamos começar por verificar que cada uma das condições c) e d) é
equivalente à condição a). É trivial que a condição a) implica a condição d) e
o facto de ela implicar c) vem de que podemos então escrever, quaisquer que
sejam Bß C − I ,
ØBß -‡ ‰ -ÐCÑÙ œ Ø-ÐBÑß -ÐCÑÙ œ ØBß CÙ,
o que implica que -‡ ‰ -ÐCÑ œ C . Supondo que se verifica c), tem-se, do
mesmo modo,
Ø-ÐBÑß -ÐCÑÙ œ ØBß -‡ Ð-ÐCÑÑÙ œ ØBß CÙ,

para Bß C − I , B œ ! +4 A4 e C œ ! ,5 A5 , portanto
o que não é mais do que a condição a). Supondo que se verifica d), tem-se,

4 5

Ø-ÐBÑß -ÐCÑÙ œ  " +4 -ÐA4 Ñ ß " ,5 -ÐA5 Ñ¡ œ

œ " +4 ,5 Ø-ÐA4 Ñß -ÐA5 ÑÙ œ " +4 ,5 ØA4 ß A5 Ù œ


4 5

œ  " +4 A4 ß " ,5 A5 ¡ œ ØBß CÙ,


4ß5 4ß5

4 5

o que mostra que - é uma aplicação linear ortogonal. Reparemos agora que,
no caso em que Š œ ‚, a caracterização em c) implica, tendo em conta
I.2.22, que - é ortogonal, relativamente aos produtos internos complexos, se,
e só se, é ortogonal relativamente aos produtos internos reais associados. Por
esse motivo, para demonstrar a equivalência entre a) e b), que nos falta,
podemos examinar apenas o que se passa no caso em que Š œ ‘. Ora, a
condição a) implica evidentemente b) e, supondo que se verifica b), partimos
da identidade
ØB  Cß B  CÙ œ ØBß BÙ  ØBß CÙ  ØCß BÙ  ØCß CÙ œ
œ ØBß BÙ  #ØBß CÙ  ØCß CÙ,
que implica que
"
ØBß CÙ œ ÐmB  Cm#  mBm#  mCm# Ñ,
#
para deduzir que
"
Ø-ÐBÑß -ÐCÑÙ œ Ðm-ÐBÑ  -ÐCÑm#  m-ÐBÑm#  m-ÐCÑm# Ñ œ
#
"
œ Ðm-ÐB  CÑm#  m-ÐBÑm#  m-ÐCÑm# Ñ œ
#
22 Cap. I. Álgebra Linear e Cálculo Diferencial

"
????? œ ÐmB  Cm#  mBm#  mCm# Ñ œ ØBß CÙ,
#
o que prova a). …
I.2.31 Por exemplo, se I é um espaço euclidiano e N À I Ä I é uma estrutura
complexa, então N é uma estrutura complexa compatível se, e só se, é uma
aplicação linear ortogonal (e portanto uma isometria linear), o que é
equivalente a N ser antiautoadjunta.
Dem: O facto de N ser compatível se, e só se, é uma aplicação linear ortogo-
nal é simplesmente a definição. Por outro lado, a identidade N ‰ N œ M.I
garante que N é um isomorfismo, com N " œ N , e, pelo resultado prece-
dente, N é uma aplicação linear ortogonal se, e só se, N ‡ œ N " , ou seja, se, e
só se, N ‡ œ N . …

Vimos em I.1.15 que todo o espaço vectorial real de dimensão par admite
uma estrutura complexa. Como exemplo de aplicação do que estabele-
cemos atrás, vemos agora que, quando o espaço é euclidiano, podemos
afirmar um pouco mais.

I.2.32 Seja I um espaço euclidiano de dimensão par 8 œ #: . Existe então sobre


I uma estrutura complexa compatível N . Mais precisamente, dada uma base
ortonormada de I , que notamos ?" ß á ß ?: ß @" ß á ß @: , podemos tomar para
N a aplicação linear definida por N Ð?4 Ñ œ @4 e N Ð@4 Ñ œ ?4 (N aplica aquela
base ortonormada numa base ortonormada).

A noção de aplicação linear ortogonal admite uma generalização em que,


em vez das normas serem conservadas, elas vêm multiplicadas por uma
certa constante.

I.2.33 Sejam I e J espaços vectoriais, reais ou complexos, de dimensão finita,


munidos de produto interno, A" ß á ß A7 uma base ortonormada de I e
-À I Ä J uma aplicação linear. Se -   !, são então equivalentes as condi-
ções seguintes:
a) Ø-ÐBÑß -ÐCÑÙ œ - # ØBß CÙ, quaisquer que sejam Bß C − I ;
b) m-ÐBÑm œ -mBm, qualquer que seja B − I ;
c) -‡ ‰ - œ - # M.I ;
d) -ÐA" Ñß á ß -ÐA7 Ñ é um sistema ortogonal de vectores de J de norma - .
Se - œ !, elas são equivalentes a - œ ! e se -  !, elas são ainda
equivalentes ao facto de "- - ser uma aplicação linear ortogonal e implicam,
em particular, que - é uma aplicação linear injectiva.
Dizemos que - é uma aplicação linear conforme, com coeficiente de confor-
malidade - , se se verificam as condições anteriores. Dizemos simplesmente
que - é uma aplicação linear conforme se - é conforme para algum
§2. Espaços euclidianos e hermitianos 23

coeficiente de conformalidade -   !.
Dem: É fácil de ver que, se - œ !, cada uma das condições a) a d) é equiva-
lente a - œ ! (reparar que a) pode-se escrever, de modo equivalente, na
forma ØBß -‡ ‰ -ÐCÑÙ œ ! e implica trivialmente b)). Se -  !, as condições
a) a d) são respectivamente equivalentes a
aw ) Ø "- -ÐBÑß "- -ÐCÑÙ œ ØBß CÙ
bw ) m "- -ÐBÑm œ mBm
cw ) ( "- -ч ‰ Ð "- -Ñ œ M.I
dw ) "- -ÐA" Ñß á ß "- -ÐA7 Ñ é um sistema ortonormado de vectores de J ,
a primeira das quais corresponde a afirmar que "- - é uma aplicação linear
ortogonal e cada uma das outras reduz-se à condição correspondente em
I.2.30, para a aplicação linear "- -. …
I.2.34 (Notas) a) Uma aplicação linear ortogonal -À I Ä J é precisamente a
mesma coisa que uma aplicação linear conforme com coeficiente de
conformalidade ".
b) No caso em que I e J são espaços vectoriais complexos, a condição c)
mostra que a aplicação linear complexa -À I Ä J é conforme, com
coeficiente de conformalidade - se, e só se, o é quando se olha para I e J
como espaços vectoriais reais, com os produtos internos reais associados.
c) No caso em que I tem dimensão ", a condição d) mostra que toda a
aplicação linear -À I Ä J é conforme.

O resultado que se segue dá-nos uma caracterização, muitas vezes útil,


das aplicações lineares que são projecções ortogonais sobre subespaços.

I.2.35 Sejam I um espaço vectorial de dimensão finita, munido de produto


interno, e -À I Ä I uma aplicação linear. Tem-se então que - é a projecção
ortogonal sobre algum subespaço J de I se, e só se, -‡ œ - e - ‰ - œ - e,
nesse caso, um tal J é único e igual a -ÐIÑ.
Dem: Comecemos por supor que - é a projecção ortogonal de I sobre o
subespaço J § I . Já vimos em I.2.26 que - é autoadjunta e, uma vez que,
para cada ? − I , -Ð?Ñ − J e que, para cada ? − J , -Ð?Ñ œ ?, vemos que
-ÐIÑ œ J e que, para cada ? − I , -Ð-Ð?ÑÑ œ -Ð?Ñ, isto é, - ‰ - œ -.
Suponhamos, reciprocamente, que - − PÐIà IÑ é tal que -‡ œ - e
- ‰ - œ -. Seja J œ -ÐIÑ e tomemos ? − I arbitrário. Tem-se -Ð?Ñ − J e,
para cada @ − J , podemos escrever @ œ -ÐAÑ, para algum A − I , pelo que
Ø?  -Ð?Ñß @Ù œ Ø?ß -ÐAÑÙ  Ø-Ð?Ñß -ÐAÑÙ œ
œ Ø?ß -ÐAÑÙ  Ø?ß -Ð-ÐAÑÑÙ œ Ø?ß -ÐAÑÙ  Ø?ß -ÐAÑÙ œ !,
o que mostra que ?  -Ð?Ñ − J ¼ , e portanto -Ð?Ñ é a projecção ortogonal de
? sobre J . …
24 Cap. I. Álgebra Linear e Cálculo Diferencial

§3. Os produtos internos de Hilbert-Schmidt.

I.3.1 Suponhamos que, para cada " Ÿ 4 Ÿ :, I4 é um espaço vectorial de


dimensão 84 , munido de produto interno. No produto cartesiano
I" ‚ â ‚ I: , que é um espaço vectorial de dimensão 8"  â  8: , tem
então lugar um produto interno definido por
ØÐB" ß á ß B: Ñß ÐC" ß á ß C: ÑÙ œ ØB" ß C" Ù  â  ØB: ß C: Ù.

Por exemplo, se cada I4 fosse igual a ‘ ou ‚, com o produto interno usual


(Ø+ß ,Ù œ +, ), obtínhamos o produto cartesiano Š: , com o produto interno
usual.

Repare-se que a norma sobre I" ‚ â ‚ I: , associada a este produto


interno, não é, em geral, a norma do máximo, definida em I.1.11.

I.3.2 Sejam I e J espaços vectoriais, reais ou complexos, de dimensões 7 e 8,


respectivamente, munidos de produto interno. Existe então sobre o espaço
vectorial PÐIà J Ñ, de dimensão 8 ‚ 7, um, e um só, produto interno, tal
que, qualquer que seja a base ortonormada A" ß á ß A7 de I , se tenha, para
-ß . − PÐIà J Ñ,

Ø-ß .Ù œ " Ø-ÐA4 Ñß .ÐA4 ÑÙ.


7

4œ"

Além disso, considerando também o produto interno correspondente sobre


PÐJ à IÑ, tem-se. para -ß . − PÐIà J Ñ,

Ø - ‡ ß . ‡ Ù œ Ø - ß .Ù .
Alternativamente, fixadas bases ortonormadas A" ß á ß A7 de I e D" ß á ß D8

-ÐA4 Ñ œ ! +5ß4 D5 e .ÐA4 Ñ œ ! ,5ß4 D5 , tem-se


de J , onde - e . têm matrizes de elementos +5ß4 e ,5ß4 , definidas portanto por

5 5

Ø-ß .Ù œ " +5ß4 ,5ß4 .8


5ß4

Dem: Fixemos uma base ortonormada A" ß á ß A7 de I e definamos, para


-ß . − PÐIà J Ñ,

8Por outras palavras, identificando as aplicações lineares, com as respectivas matrizes e


estas com elementos de Š78 , de uma das maneiras naturais, ao produto interno de
PÐIà J Ñ fica a corresponder o produto interno canónico de Š78 (cf. I.2.3).
§3. Os produtos internos de Hilbert-Schmidt 25

Ø-ß .Ù œ " Ø-ÐA4 Ñß .ÐA4 ÑÙ.


7

4œ"

Se nos lembrarmos que uma aplicação linear, que se anula nos elementos de
uma certa base, é nula, constatamos facilmente que fica assim definido um
produto interno no espaço vectorial PÐIà J Ñ. Para justificar a primeira
afirmação do enunciado, tudo o que teríamos que ver é que este produto
interno não depende da base ortonormada que fixámos em I . Para
verificarmos isso vamos utilizar um processo que nos permite, ao mesmo
tempo, demonstrar a segunda afirmação do enunciado, assim como a fórmula
que envolve as matrizes de - e . em bases ortonormadas arbitrárias.
Consideremos então uma base ortonormada D" ß á ß D8 de J , assim como o
produto interno em PÐJ à IÑ definido a partir desta base ortonormada. Se
verificarmos que se tem Ø-‡ ß .‡ Ù œ Ø-ß .Ù, a independência da escolha das
bases ortonormadas ficará demonstrada (o primeiro membro da igualdade
não depende da base fixada em I e o segundo não depende da base fixada
em J , pelo que nenhum deles pode depender de nenhuma das escolhas). Ora,
considerando as matrizes de - e . nas duas bases ortonormadas
consideradas, vem

Ø-ß .Ù œ " Ø-ÐA4 Ñß .ÐA4 ÑÙ œ


4

œ "   " +5ß4 D5 ß " ,5w ß4 D5w ¡ œ


4 5 5w

œ " +5ß4 ,5w ß4 ØD5 ß D5w Ù œ " +5ß4 ,5ß4


4ß5ß5 w 4ß5

e, do mesmo modo, tendo em conta I.2.27,

Ø-‡ ß .‡ Ù œ " +5ß4 ,5ß4 œ Ø-ß .Ù. …


5ß4

I.3.3 Ao produto interno sobre PÐIà J Ñ que definimos atrás costuma-se dar o
nome de produto interno de Hilbert-Schmidt. Repare-se que a norma de
PÐIà J Ñ associada a este produto interno não é, em geral, a mesma que a
definida em I.1.9, a partir das normas de I e J associadas aos respectivos
produtos internos.

Reparemos que, se fixarmos uma base ortonormada A" ß á ß A7 de I


ficamos com um isomorfismo de PÐIà J Ñ sobre J ‚ â ‚ J (7
factores), que a cada - associa Ð-ÐA" Ñß á ß -ÐA7 ÑÑ, isomorfismo que vai
ser uma isometria linear, quando se considera em PÐIà J Ñ o produto
interno de Hilbert-Schmidt e em J ‚ â ‚ J o produto interno referido
em I.3.1.
26 Cap. I. Álgebra Linear e Cálculo Diferencial

I.3.4 Sejam I , J e K três espaços euclidianos ou hermitianos, - − PÐIà J Ñ,


. − PÐJ à KÑ e 0 − PÐIà KÑ. Tem-se então
Ø-ß .‡ ‰ 0Ù œ Ø. ‰ -ß 0Ù œ Ø.ß 0 ‰ -‡ Ù.

Dem: Fixemos uma base ortonormada A" ß á ß A7 de I . Tem-se então

Ø. ‰ -ß 0Ù œ " Ø.Ð-ÐA4 ÑÑß 0ÐA4 ÑÙ œ


4

œ " Ø-ÐA4 Ñß .‡ Ð0ÐA4 ÑÑÙ œ Ø-ß .‡ ‰ 0Ù.


4

o que demonstra a primeira igualdade. Quanto à segunda, ela vai ser uma
consequência da primeira e da última conclusão de I.3.2, visto que podemos
escrever
Ø. ‰ -ß 0Ù œ ØÐ. ‰ -ч ß 0‡ Ù œ Ø-‡ ‰ .‡ ß 0‡ Ù œ
œ Ø.‡ ß -‡ ‡ ‰ 0‡ Ù œ Ø.‡ ß Ð0 ‰ -‡ ч Ù œ Ø.ß 0 ‰ -‡ ÙÞ …

I.3.5 (O caso em que I é real e J é complexo) a) Sejam I um espaço


vectorial real de dimensão 7, munido de um produto interno real Ø ß Ù‘ e J
um espaço vectorial complexo de dimensão finita, munido de um produto
interno complexo Ø ß Ù‚ e notemos também Ø ß Ù‘ o produto interno real
associado de J . Tem-se então que o produto interno de Hilbert-Schmidt de
PÐIà J Ñ, enquanto espaço vectorial real, associado aos produtos internos
Ø ß Ù‘ , é o associado a um produto interno de PÐIà J Ñ, enquanto espaço
vectorial complexo, nomeadamente o definido por

Ø-ß .Ù‚ œ " Ø-ÐA4 Ñß .ÐA4 ÑÙ‚ ,


7

4œ"

onde A" ß á ß A7 é uma base ortonormada arbitrária de I .


b) Sejam I e J espaços vectoriais complexos, munidos de produtos
internos, que notaremos Ø ß Ù‚ , e consideremos o produto interno complexo
sobre P‘ ÐIà J Ñ referido em a), correspondente a considerar I como espaço
vectorial real com o produto interno real associado Ø ß Ù‘ . Tem-se então que o
produto interno complexo induzido por este em P‚ ÐIà J Ñ § P‘ ÐIà J Ñ é o
dobro do produto interno de Hilbert-Schmidt complexo de P‚ ÐIà J Ñ.
c) No quadro descrito em a), valem as adaptações naturais de I.3.4, nomeada-
mente:
c1) Se I é um espaço euclidiano, J e K são espaços hermitianos,
- − PÐIà J Ñ, . − P‚ ÐJ à KÑ e 0 − PÐIà KÑ, então
Ø- ß . ‡ ‰ 0 Ù ‚ œ Ø . ‰ - ß 0 Ù ‚ .

c2) Se I , J são espaços euclidianos, K é um espaço hermitiano,


- − PÐIà J Ñ, . − PÐJ à KÑ e 0 − PÐIà KÑ, então
§3. Os produtos internos de Hilbert-Schmidt 27

Ø. ‰ - ß 0 Ù ‚ œ Ø .ß 0 ‰ - ‡ Ù ‚ .

Dem: a) É fácil constatar, tal como na definição do produto interno de


Hilbert-Schmidt no caso em que temos o mesmo corpo de escalares, que,
fixada a base ortonormada A" ß á ß A7 de I , a expressão do enunciado
define efectivamente um produto interno complexo sobre PÐIà J Ñ, cujo
produto interno real associado está definido por

Ø-ß .Ù‘ œ " Ø-ÐA4 Ñß .ÐA4 ÑÙ‘ ,


7

4œ"

sendo portanto o de Hilbert-Schmidt. Basta então repararmos que o facto de


este produto interno complexo não depender da base ortonormada escolhida
resulta de que isso acontece com o produto interno real associado.
b) Basta atender a que, sendo A" ß á ß A7 uma base ortonormada complexa
de I , relativamente ao produto interno Ø ß Ù‚ , podemos considerar a base
ortonormada real A" ß á ß A7 ß 3A" ß á ß 3A7 de I , relativamente ao produto
interno real associado, tendo-se portanto, para -ß . − P‚ ÐIà J Ñ,

Ø-ß .Ù‚ œ " Ø-ÐA4 Ñß .ÐA4 ÑÙ‚  " Ø-Ð3A4 Ñß .Ð3A4 ÑÙ‚ œ
7 7

4œ" 4œ"

œ " Ø-ÐA4 Ñß .ÐA4 ÑÙ‚  " Ø3-ÐA4 Ñß 3.ÐA4 ÑÙ‚ œ


7 7

4œ" 4œ"

œ # ‚ " Ø-ÐA4 Ñß .ÐA4 ÑÙ‚ .


7

4œ"

c) Trata-se de uma consequência das fórmulas em I.3.4, se repararmos que,


pela relação entre um produto interno complexo e o produto interno real
associado, estabelecida em I.2.7, podemos escrever, no primeiro caso,
Ø-ß .‡ ‰ 0Ù‚ œ Ø-ß .‡ ‰ 0Ù‘  3Ø-ß 3Ð.‡ ‰ 0ÑÙ‘ œ
œ Ø-ß .‡ ‰ 0Ù‘  3Ø-ß .‡ ‰ Ð30ÑÙ‘ œ
œ Ø. ‰ -ß 0Ù‘  3Ø. ‰ -ß 0Ù‘ œ Ø. ‰ -ß 0Ù‚
e, no segundo caso,
Ø. ‰ -ß 0Ù‚ œ Ø. ‰ -ß 0Ù‘  3Ø. ‰ -ß 30Ù‘ œ
œ Ø.ß 0 ‰ -‡ Ù‘  3Ø.ß 30 ‰ -‡ Ù‘ œ Ø.ß 0 ‰ -‡ Ù‚ . …

Estudámos atrás a caracterização da adjunta de uma aplicação linear e do


produto interno de duas aplicações lineares em termos das respectivas
matrizes em bases ortonormadas. Por vezes interessa examinar uma
situação análoga, em que as matrizes relativas a bases são substituídas por
matrizes associadas a somas directas. Começamos, para isso, por
examinar o que são essas matrizes.
28 Cap. I. Álgebra Linear e Cálculo Diferencial

I.3.6 Sejam I e J espaços vectoriais e fixemos subespaços vectoriais


I" ß á ß I7 , de I , e J" ß á ß J8 , de J , tais que tenham lugar as decomposi-
ções em soma directa I œ I" Š â Š I7 e J œ J" Š â Š J8 . Se
-À I Ä J é uma aplicação linear, vamos chamar matriz de -, relativamente
às somas directas consideradas, à família de aplicações lineares Ð-3ß4 Ñ "Ÿ3Ÿ8 ,
"Ÿ4Ÿ7

com -3ß4 À I4 Ä J3 definida por -3ß4 œ 13w ‰ -ÎI4 , onde 13w À J Ä J3 são as
projecções associadas à segunda soma directa. A matriz é frequentemente
notada

Ô -"ß" â -"ß7 ×
Ö -#ß" â -#ß7 Ù
-"ß#
Ö Ù
-#ß#

Õ -8ß" â -8ß7 Ø
ã ã ä ã
-8ß#

ou ainda, se quisermos tornar visualmente mais claro quais as somas directas


consideradas,
I" I# â I7
J" Ô -"ß" -"ß# â -"ß7 ×
J# Ö -#ß" -#ß# â -#ß7 Ù
Ö Ù.
J8 Õ -8ß" -8ß# â -8ß7 Ø
ã ã ã ä ã

I.3.7 Nas condições anteriores, dada uma matriz arbitrária de aplicações lineares
-3ß4 À I4 Ä J3 , com " Ÿ 3 Ÿ 8 e " Ÿ 4 Ÿ 7, vai existir uma, e uma só,

por - œ ! -3ß4 ‰ 14 , onde 14 À I Ä I4 são as projecções associadas à pri-


aplicação linear -À I Ä J cuja matriz seja aquela, nomeadamente a definida
"Ÿ3Ÿ8
"Ÿ4Ÿ7

meira soma directa. O espaço vectorial PÐIà J Ñ fica assim isomorfo ao


produto cartesiano dos espaços vectoriais PÐI4 à J3 Ñ, com " Ÿ 4 Ÿ 7 e
" Ÿ 3 Ÿ 8, pelo isomorfismo que a cada - associa a respectiva matriz de
aplicações lineares.
Dem: Se -À I Ä J é uma aplicação linear tal que 13w ‰ -ÎI4 œ -3ß4 , tem-se,
para cada B − I
-ÐBÑ œ " 13w Ð-ÐBÑÑ œ " 13w Ð-Ð14 ÐBÑÑÑ œ " -3ß4 Ð14 ÐBÑÑ,
"Ÿ3Ÿ8 "Ÿ3Ÿ8 "Ÿ3Ÿ8
"Ÿ4Ÿ7 "Ÿ4Ÿ7

donde - œ ! -3ß4 ‰ 14 . Reciprocamente, definindo - − PÐIà J Ñ por esta

igualdade, tem-se, para cada B − I4 , -ÐBÑ œ ! -3ß4 ÐBÑ, com -3ß4 ÐBÑ − J3 ,
"Ÿ3Ÿ8
"Ÿ4Ÿ7

"Ÿ3Ÿ8
para cada 3, pelo que -3ß4 ÐBÑ œ 13w Ð-ÐBÑÑ. …
I.3.8 (Functorialidade) Consideremos espaços vectoriais Iß J ß K e subespaços
vectoriais I" ß á ß I7 , de I , J" ß á ß J8 , de J , e K" ß á ß K: , de K , tais que
§3. Os produtos internos de Hilbert-Schmidt 29

tenham lugar as somas directas


I œ I" Š â Š I7 , J œ J" Š â Š J8 , K œ K" Š â Š K: .

Tem-se então:
a) A matriz da aplicação linear M.I À I Ä I é

Ô M.I" ! ×
Ö ! ! Ù
! â
Ö Ù.
M.I# â

Õ ! â M.I8 Ø
ã ã ä ã
!

b) Se -À I Ä J e .À J Ä K têm matrizes

Ô -"ß" â -"ß7 × Ô ."ß" â ."ß8 ×


Ö -#ß" â -#ß7 Ù Ö. â .#ß8 Ù
-"ß# ."ß#
Ö Ù e Ö #ß" Ù,
-#ß# .#ß#

Õ -8ß" â -8ß7 Ø Õ .:ß" â .:ß8 Ø


ã ã ä ã ã ã ä ã
-8ß# .:ß#

respectivamente, então . ‰ -À I Ä K tem matriz

Ô 3"ß" â 3"ß7 ×
Ö 3#ß" â 3#ß7 Ù
3"ß#
Ö Ù,
3#ß#

Õ 3:ß" â 3:ß7 Ø
ã ã ä ã
3:ß#

onde 33ß5 œ ! .3ß4 ‰ -4ß5 .9


"Ÿ4Ÿ8
Dem: A demonstração de a) é trivial e, quanto a b), atendemos a que, para
cada B − I5 , tem-se
. ‰ -ÐBÑ œ .ˆ" 14w Ð-ÐBÑщ œ " .Ð-4ß5 ÐBÑÑ œ

œ" " 13ww Ð.Ð-4ß5 ÐBÑÑÑ œ " " .3ß4 ‰ -4ß5 ÐBÑ,
"Ÿ4Ÿ8 "Ÿ4Ÿ8

"Ÿ3Ÿ: "Ÿ4Ÿ8 "Ÿ3Ÿ: "Ÿ4Ÿ8

com .3ß4 ‰ -4ß5 ÐBÑ − K3 , para cada 3, donde 33ß5 ÐBÑ œ ! .3ß4 ‰ -4ß5 ÐBÑ. …
"Ÿ4Ÿ8

I.3.9 No quadro de um espaço vectorial I , munido de produto interno, sabemos


que as bases ortonormadas jogam um papel especialmente relevante. Do
mesmo modo, nesse quadro, de entre as decomposições em soma directa
I œ I" Š â Š I7 vão ser especialmente importantes aquelas em soma
directa ortogonal, isto é, aquelas em que, para cada 3 Á 4, B − I3 e Bw − I4 ,
tem-se ØBß Bw Ù œ !. Repare-se que, como se verifica facilmente, dizer que a
decomposição em soma directa I œ I" Š â Š I7 é ortogonal equivale a

9Reparar na analogia com a matriz identidade e com a fórmula usual para o produto de
matrizes.
30 Cap. I. Álgebra Linear e Cálculo Diferencial

dizer que as projecções 13 À I Ä I3 associadas à soma directa coincidem com


as projecções ortogonais de I sobre as parcelas I3 .
I.3.10 Sejam I e J espaços vectoriais de dimensão finita, munidos de produto
interno e de decomposições em soma directa ortogonal I œ I" Š â Š I7 e
J œ J" Š â Š J8 . Sejam -ß . − PÐIà J Ñ, com matrizes

Ô -"ß" â -"ß7 × Ô ."ß" â ."ß7 ×


Ö -#ß" â -#ß7 Ù Ö .#ß" â .#ß7 Ù
-"ß# ."ß#
Ö Ùß Ö Ù.
-#ß# .#ß#

Õ -8ß" â -8ß7 Ø Õ .8ß" â .8ß7 Ø


ã ã ä ã ã ã ä ã
-8ß# .8ß#

Tem-se então:
a) A aplicação linear -‡ À J Ä I tem matriz

Ô Ð-"ß" Ñ â Ð-8ß" ч ×

Ð-#ß" ч
Ö Ð-"ß# ч â Ð-8ß# ч Ù
Ö Ù,
Ð-#ß# ч

Õ Ð-"ß7 ч ‡Ø
ã ã ä ã
Ð-#ß7 ч â Ð-8ß7 Ñ

por outras palavras, tem-se Ð-‡ Ñ4ß3 œ Ð-3ß4 ч .


b) Tem-se, para os produtos internos de Hilbert-Schmidt,
Ø-ß .Ù œ " Ø-3ß4 ß .3ß4 Ù.
"Ÿ3Ÿ8
"Ÿ4Ÿ7

Dem: Sejam 14 À I Ä I4 e 13w À J Ä J3 as projecções ortogonais e


+4 À I4 Ä I e +3w À J3 Ä J as inclusões. Tem-se então

Ð-‡ Ñ4ß3 œ 14 ‰ -ÎJ

3
œ 14 ‰ -‡ ‰ +3w œ +4‡ ‰ -‡ ‰ 13w œ Ð13w ‰ - ‰ +4 ч œ Ð-3ß4 ч ,

tem-se ØCß C w Ù œ ! Ø13w ÐCÑß 13w ÐCÑÙ, uma vez que C œ ! 13w ÐCÑ, C w œ !
o que prova a). Quanto a b), comecemos por notar que, se Cß C w − J , então

"Ÿ3Ÿ8 3 3w

13ww ÐC w Ñ e, para 3 Á 3w , Ø13w ÐCÑß 13w w ÐC w ÑÙ œ !. Daqui resulta, tendo em conta a


definição dos produtos internos de Hilbert-Schmidt, que, para !ß " −
PÐIà J Ñ, tem-se
Ø!ß " Ù œ " Ø13w ‰ !ß 13w ‰ " Ù.
3

Uma vez que, fixada uma base ortonormada em cada I4 , a união dessas
bases vai ser uma base ortonormada de I , concluímos que
Ø-ß .Ù œ " Ø-ÎI4 ß .ÎI4 Ù œ " " Ø13w ‰ -ÎI4 ß 13w ‰ .ÎI4 Ù œ

œ " Ø-3ß4 ß .3ß4 Ù.


"Ÿ4Ÿ7 "Ÿ4Ÿ7 "Ÿ3Ÿ8

…
"Ÿ3Ÿ8
"Ÿ4Ÿ7
§3. Os produtos internos de Hilbert-Schmidt 31

Por vezes ser-nos-á útil sabermos calcular determinantes e traços de apli-


cações lineares em termos das suas matrizes relativas a uma
decomposição em soma directa. Para simplificar examinamos apenas o
que se passa quando com as somas directas de duas parcelas. Os
resultados gerais podem facilmente ser deduzidos destes por indução no
número de parcelas.

I.3.11 Sejam I um espaço vectorial de dimensão 8 e I" ß I# dois subespaços


vectoriais tais que tenha lugar a soma directa I œ I" Š I# . Seja -À I Ä I
uma aplicação linear com matriz

”- -#ß# •
-"ß" -"ß#
,
#ß"

relativa à decomposição considerada. Tem-se então:


a) TrÐ-Ñ œ TrÐ-"ß" Ñ  TrÐ-#ß# Ñ.
b) Se -#ß" œ ! ou -"ß# œ !, então detÐ-Ñ œ detÐ-"ß" Ñ ‚ detÐ-#ß# Ñ.
Dem: Sendo : e ; as dimensões de I" e I# , respectivamente, fixemos uma
base de I cujos primeiros : elementos estejam em I" e os últimos ;
elementos em I# . A matriz E de - nesta base pode ser dividida em blocos,

Eœ”
E#ß# •
E"ß" E"ß#
,
E#ß"

onde E3ß4 é a matriz da aplicação linear -3ß4 nas bases consideradas. O


resultado é então uma consequência de que, para uma matriz E assim
dividida, tem-se trivialmente TrÐEÑ œ TrÐE"ß" Ñ  TrÐE#ß# Ñ e de que é bem
conhecido que, com a hipótese de se ter E#ß" œ ! ou E"ß# œ !, tem-se
também detÐEÑ œ detÐE"ß" Ñ ‚ detÐE#ß# Ñ (O leitor que não conhecesse esse
resultado prová-lo-ia facilmente reparando que, na soma correspondente ao
determinante de E, só podem ser não nulas as parcelas correspondentes a
permutações 5 que apliquem cada um dos dois subconjuntos Ö"ß á ß :× e
Ö:  "ß á ß 8× em si mesmo). …

§4. Orientação de espaços vectoriais reais.

I.4.1 Seja I um espaço vectorial real de dimensão 8 e sejam ?" ß á ß ?8 e


@" ß á ß @8 duas bases de I . Podemos então considerar a matriz de mudança
da primeira base para a segunda, que é a matriz com 8 linhas e 8 colunas,
cujo elemento +4ß5 , da linha 4 e coluna 5 , está definido por

@5 œ " +4ß5 ?4 .
8

4œ"
32 Cap. I. Álgebra Linear e Cálculo Diferencial

Trata-se de uma matriz invertível, cuja matriz inversa é a matriz da mudança


da segunda base para a primeira. Diz-se que as duas bases têm a mesma
orientação se a matriz de mudança da primeira base para a segunda tem
determinante positivo; caso contrário, isto é, se esse determinante é negativo,
diz-se que as duas bases têm orientações opostas.10
A razão por que esta noção só é apresentada no quadro dos espaços vectoriais
reais está em que, no caso de termos um espaço vectorial complexo, a matriz
de mudança de base terá elementos complexos pelo que o seu determinante
será em geral um número complexo, não fazendo portanto sentido pedir que
ele seja positivo ou negativo. Não esquecer, no entanto, que um espaço
vectorial complexo I de dimensão 8 pode ser olhado como espaço vectorial
real, de dimensão #8, e, desse ponto de vista, já faz sentido falar de duas
bases reais de I terem ou não a mesma orientação.
I.4.2 A relação “têm a mesma orientação” é uma relação de equivalência no con-
junto H8 ÐIÑ das bases de I . Além disso, se as bases ?" ß á ß ?8 e @" ß á ß @8
têm orientações opostas e as bases @" ß á ß @8 e A" ß á ß A8 têm orientações
opostas, então as bases ?" ß á ß ?8 e A" ß á ß A8 têm a mesma orientação.
Dem: A reflexividade vem de que o determinante da matriz identidade é
igual a ". A simetria é uma consequência do facto de o determinante da
matriz inversa ser o inverso do determinante da matriz de partida, tendo, em
particular, o mesmo sinal que este. Quanto à transitividade e à última
afirmação do enunciado, basta atendermos a que a matriz de mudança da
base ?" ß á ß ?8 para a base A" ß á ß A8 é o produto da matriz de mudança da
base ?" ß á ß ?8 para a base @" ß á ß @8 pela matriz de mudança da base
@" ß á ß @8 para a base A" ß á ß A8 , tendo portanto determinante igual ao
produto dos determinantes daquelas. …
I.4.3 A propriedade suplementar referida no enunciado precedente implica que o
conjunto H8 ÐIÑ das base de I tem, no máximo, duas classes de equivalência
para a relação de equivalência em questão, visto que, se duas bases não
forem equivalentes, qualquer base que não seja equivalente a uma delas é
equivalente à outra.
De facto, se I Á Ö!×, H8 ÐIÑ tem mesmo duas classes de equivalência: Para
o ver, basta reparar que, se multiplicarmos um dos vectores de uma base por
", obtemos uma base não equivalente (se multiplicarmos uma coluna duma
matriz por ", o seu determinante vem multiplicado por "). Diga-se a
propósito que, se trocarmos a ordem de dois vectores de uma base, obtemos
também uma base não equivalente (se trocarmos duas colunas de uma matriz,
obtemos uma nova matriz, cujo determinante é simétrico do da primeira).
Já se I œ Ö!×, I tem uma única base, a família vazia de vectores, e portanto
H8 ÐIÑ tem uma única classe de equivalência.

10Repare-se que a ordenação dos elementos da base é aqui essencial.


§4. Orientação de espaços vectoriais reais 33

Repare-se que, embora tenhamos definido quando é que duas bases têm a
mesma orientação, não dissemos o que se deve entender por orientação de
uma base. É verdade que, no espaço vectorial dos vectores livres da nossa
Geometria euclidiana, estamos habituados a falar de bases directas e de
bases retrógradas, mas essa classificação é algo que ultrapassa a simples
estrutura de espaço vectorial e tem muito a ver com uma escolha arbitrária
de uma base como modelo.
Outra observação é a de que a ideia intuitiva que temos de duas bases
terem ou não a mesma orientação não corresponde directamente à defi-
nição que apresentámos acima11. Intuitivamente, duas bases ?" ß á ß ?8 e
@" ß á ß @8 têm a mesma orientação se pudermos deformar continuamente
a primeira na segunda, isto é, se existir uma aplicação contínua do
intervalo Ò!ß "Ó no conjunto H8 ÐIÑ das bases de I (uma parte do espaço
vectorial I 8 de dimensão 8# ), que em ! tome como valor a primeira base
e em " a segunda. É fácil provar que duas bases que tenham a mesma
orientação, neste sentido intuitivo, têm também a mesma orientação, no
sentido da definição que apresentámos: à deformação da primeira base na
segunda vai corresponder uma deformação da matriz identidade na matriz
de mudança de base, feita ao longo do conjunto das matrizes invertíveis, e
a função determinante, sendo contínua e nunca se anulando ao longo
dessa deformação, vai ter que ter sempre o mesmo sinal. A implicação
recíproca é também verdadeira, mas a respectiva demonstração é menos
elementar e não será aqui abordada (o leitor interessado poderá examinar
o exercício I.18 para o caso particular de duas bases ortonormadas e o
exercício III.6 para o caso geral). No caso particular do espaço vectorial
dos vectores livres do nosso espaço da Geometria euclidiana, esta
implicação recíproca pode ser demonstrada de modo simples se
admitirmos uma propriedade, que já todos “verificámos experi-
mentalmente” e que refere que, se não for possível deformar continua-
mente uma base ?" ß ?# ß ?$ numa base @" ß @# ß @$ , então é possível deformar
continuamente a primeira base na base @" ß @# ß @$ . Em qualquer caso, no
que se vai seguir utilizaremos a definição apresentada atrás e não o
conceito intuitivo de duas bases terem a mesma orientação.

I.4.4 Se I é um espaço vectorial real de dimensão 8, chama-se orientação de I


a uma aplicação ! do conjunto H8 ÐIÑ das bases de I no conjunto Ö"ß "×,
tal que, quaisquer que sejam as bases ?" ß á ß ?8 e @" ß á ß @8 de I , se tenha
!Ð?" ß á ß ?8 Ñ œ !Ð@" ß á ß @8 Ñ se, e só se, as duas bases têm a mesma
orientação. Por outras palavras a aplicação ! deve ser constante sobre cada
classe de equivalência e tomar valores distintos em classes de equivalência
distintas.
Chama-se espaço vectorial orientado a um espaço vectorial no qual se fixou
uma orientação. Às bases ?" ß á ß ?8 , para as quais se tem !Ð?" ß á ß ?8 Ñ œ "
dá-se o nome de bases directas e àquelas para as quais !Ð?" ß á ß ?8 Ñ œ ",
o de bases retrógradas.

11Uma criança consegue aprender qual é a sua mão direita antes de saber calcular o
determinante de uma matriz.
34 Cap. I. Álgebra Linear e Cálculo Diferencial

Dito de outro modo, um espaço vectorial orientado é um espaço vectorial em


que se dá uma regra que permita dizer quando é que uma base é directa ou
retrógrada, mas isto de modo compatível com a definição I.4.1.
I.4.5 Sejam I um espaço vectorial real de dimensão 8 e ?" ß á ß ?8 uma base
fixada de I . Para cada & − Ö"ß "×, existe então uma, e uma só, orientação !
de I , tal que !Ð?" ß á ß ?8 Ñ œ & . Por outras palavras, uma orientação fica
bem definida, se tomarmos uma base arbitrária e decretarmos se ela deve ser
directa ou retrógrada. Em particular cada espaço vectorial real I de
dimensão finita tem duas, e só duas orientações; se uma delas é !, a outra é
!.
Dem: Basta definir, para cada base @" ß á ß @8 de I , !Ð@" ß á ß @8 Ñ œ &, se as
duas bases tiverem a mesma orientação, e !Ð@" ß á ß @8 Ñ œ &, caso
contrário. O facto de a aplicação ! assim definida ser uma orientação é uma
consequência simples de I.4.2. …
I.4.6 Repare-se que, na discussão anterior, admitimos também o caso em que o
espaço vectorial I é Ö!×. Nesse caso, I admite uma única base, a saber, a
família vazia de vectores, mas, mesmo assim, I admite ainda duas orienta-
ções, a saber, aquela para a qual a base em questão é directa (dizemos que
esta é a orientação positiva de I ) e aquela para a qual ela é retrógrada (dize-
mos que esta é a orientação negativa de I ).
No caso em que I Á Ö!×, H8 ÐIÑ tem, como referimos, duas classes de
equivalência e dar uma orientação equivale a escolher uma dessas classes de
equivalência (aquela cujos elementos são as bases aplicadas em ").12
I.4.7 Se I é um espaço vectorial real de dimensão ", uma base de I é
simplesmente um vector não nulo e duas bases B e C têm a mesma orientação
se, e só se, se tem C œ +B, com +  ! (os dois vectores têm o mesmo
sentido). O conjunto das bases de I é simplesmente I Ï Ö!× e às duas
classes de equivalência dá-se o nome de semi-rectas abertas de I .
Quando I está orientado, chamamos vectores positivos (respectivamente
negativos) àqueles que constituem bases directas (respectivamente
retrógradas). As semi-rectas abertas de I são assim o conjunto I dos
vectores positivos e o conjunto I dos vectores negativos. Em particular,
constatamos que as semi-rectas abertas são conjuntos abertos convexos, uma
vez que, fixada uma base directa B, I e I são as imagens dos conjuntos
abertos convexos Ó!ß _Ò e Ó_ß !Ò de ‘ pelo isomorfismo > È >B.
Orientar um espaço vectorial real de dimensão " equivale assim a escolher

12Alguns autores definem orientação de um espaço vectorial como sendo uma classe de
equivalência, para a relação de equivalência definida em I.4.1. O que acabamos de dizer
mostra que, para um espaço vectorial distinto de Ö!×, esta definição é equivalente à que
apresentámos. No entanto, a definição apresentada por esses autores faz com que, ao
contrário do que acontece com a que estamos a utilizar, o espaço vectorial Ö!× tenha
apenas uma orientação, o que é uma flagrante injustiça.
§4. Orientação de espaços vectoriais reais 35

uma das duas semi-rectas abertas, aquela que vai ser constituída pelos vec-
tores positivos para a orientação.

A geometria do complementar de Ö!× num espaço vectorial real de


dimensão " generaliza-se naturalmente quando estamos em presença de
um espaço vectorial real I de dimensão 8 e de um subespaço vectorial de
dimensão 8  "Þ

I.4.8 Sejam I um espaço vectorial real de dimensão 8 e J § I um hiperplano,


isto é, um subespaço vectorial de dimensão 8  ". Podemos então considerar
o espaço vectorial quociente I J , que tem dimensão ", e a aplicação linear
I
sobrejectiva I Ä J , que a cada B associa a sua classe de equivalência ÒBÓJ ,
cujo kernel é precisamente o subespaço vectorial J . O complementar I Ï J ,
que é a imagem recíproca de I J Ï Ö!×, fica assim união de dois subconjuntos
abertos convexos, a que damos o nome de semi-espaços abertos de I asso-
ciados a J , nomeadamente o constituído pelos vectores B − I tais que ÒBÓJ
pertence a uma das semi-rectas e aquele cujos elementos são os vectores B
tais que ÒBÓJ pertence à outra semi-recta.
Nas condições anteriores, chamamos orientação transversa de J em I , a
uma orientação do espaço vectorial I J de dimensão ". Dada uma orientação
transversa, notamos I e I os dois semi-espaços abertos determinados por
J , respectivamente o constituído pelos vectores B tais que ÒBÓJ é positivo e o
constituído pelos vectores B tais que ÒBÓJ é negativo.
É claro que, no caso em que I tem dimensão ", Ö!× é um hiperplano de I e
os semi-espaços abertos de I são precisamente as semi-rectas abertas de I
I
(a aplicação linear canónica I Ä Ö!× é um isomorfismo).

I.4.9 O espaço vectorial ‘8 é um espaço vectorial de dimensão 8, com uma base


privilegiada, a saber, a base canónica /" ß á ß /8 , onde /4 é o vector que tem
uma coordenada " na posição 4 e todas as outras coordenadas !. Chama-se
orientação canónica de ‘8 a orientação para a qual essa base é directa,
sendo esta a orientação que se considera em ‘8 , sempre que não se faça
aviso em contrário. No caso particular em que 8 œ " a orientação canónica
de ‘ é aquela para o qual os vectores positivos são os números positivos e os
vectores negativos são os números negativos.
I.4.10 Sejam I e J espaços vectoriais reais de dimensão 8, munidos de
orientações, e 0À I Ä J um isomorfismo. Tem-se então que, ou 0 aplica
bases directas de I em bases directas de J e bases retrógradas de I em
bases retrógradas de J , caso em que dizemos que 0 conserva as orientações,
ou 0 aplica bases directas de I em bases retrógradas de J e bases retrógradas
de I em bases directas de J , caso em que dizemos que 0 inverte as
orientações.
Dem: Tudo o que é preciso verificar é que, se ?" ß á ß ?8 e @" ß á ß @8 são
duas bases de I , elas têm a mesma orientação se, e só se, as bases
36 Cap. I. Álgebra Linear e Cálculo Diferencial

0Ð?" Ñß á ß 0Ð?8 Ñ e 0Ð@" Ñß á ß 0Ð@8 Ñ de J têm a mesma orientação. Ora, isso é


uma consequência de que, se se tiver @4 œ ! +5ß4 ?5 , tem-se também

0(@4 ) œ " +5ß4 0(?5 ). …

I.4.11 Sejam I e J espaços vectoriais reais, de dimensão 8, e 0À I Ä J um


isomorfismo. Dada uma orientação de I , existe então uma, e uma só, orien-
tação de J tal que 0 conserve as orientações (dizemos que esta última é
obtida a partir da primeira por transporte por meio do isomorfismo 0).
Dem: Toma-se uma orientação qualquer em J e, se essa não servir, serve a
outra. …
I.4.12 Como exemplo da situação anterior, temos aquele em que I é um espaço
vectorial real de dimensão " e consideramos o hiperplano Ö!× § I e o
I I
quociente Ö!× . A aplicação canónica I Ä Ö!× , que vai ser assim um isomor-
I
fismo e dada uma orientação em I fica determinada uma orientação de Ö!× ,
isto é uma orientação transversa de Ö!× em I , pela condição deste isomor-
fismo conservar as orientações. Constatamos que os semi-espaços abertos de
I associados ao hiperplano Ö!× são, neste caso, simplesmente as semi-rectas
abertas e que as notações I e I não dependem dos dois contextos.

No caso em que temos um isomorfismo 0À I Ä I , de um espaço


vectorial I de dimensão finita sobre si mesmo, o facto de 0 conservar ou
inverter as orientações não depende da orientação que se considera em I ,
desde que se considere a mesma no domínio e no codomínio. De facto,
tem lugar a seguinte relação com o determinante:

I.4.13 Sejam I um espaço vectorial real de dimensão finita, sobre o qual


consideramos uma das suas orientações, e 0À I Ä I um isomorfismo.

Dem: Basta lembrar que, se B" ß á ß B8 é uma base de I e 0ÐB4 Ñ œ !+5ß4 B5 ,


Tem-se então que 0 conserva as orientações se, e só se, detÐ0Ñ  !.

então detÐ0Ñ é o determinante da matriz dos +5ß4 , que não é mais do que a
matriz de mudança da base B" ß á ß B8 para a base 0ÐB" Ñß á ß 0ÐB8 Ñ. …
I.4.14 (Corolário) Sejam I um espaço vectorial complexo de dimensão 8 e
0À I Ä I um isomorfismo complexo. Considerando então I como espaço
vectorial real de dimensão #8, tem-se então que 0 conserva as orientações.
Dem: Basta atender a que, por I.1.23, det‘ Ð0Ñ œ ldet‚ Ð0Ñl# , em particular
det‘ Ð0Ñ  !. …

Apesar de, como já referimos, só fazer sentido falar de orientações para


espaços vectoriais reais, uma das consequências do corolário anterior é a
possibilidade de definir uma orientação canónica de qualquer espaço
vectorial complexo, quando considerado como espaço vectorial real.
§4. Orientação de espaços vectoriais reais 37

I.4.15 Seja I um espaço vectorial complexo de dimensão 8. Existe então sobre


I, enquanto espaço vectorial real, uma, e uma só, orientação, a que daremos
o nome de orientação canónica, tal que, qualquer que seja a base complexa
B" ß á ß B8 de I , a base real B" ß 3B" ß B# ß 3B# ß á ß B8 ß 3B8 seja directa.13
Dem: Tudo o que temos que verificar é que, se fixarmos uma base complexa
B" ß á ß B8 de I e considerarmos a orientação para a qual a base real
B" ß 3B" ß á ß B8 ß 3B8 é directa, então, dada outra base complexa C" ß á ß C8 , a
base real C" ß 3C" ß á ß C8 ß 3C8 é também directa. Ora, isso é uma consequência
de o isomorfismo complexo 0À I Ä I , definido por 0ÐB4 Ñ œ C4 , que, pelo
corolário precedente, conserva as orientações, aplicar a primeira base na
segunda. …
I.4.16 Se I e J são espaços vectoriais complexos de dimensão 8 e 0À I Ä J é
um isomorfismo complexo, então, considerando I e J como espaços
vectoriais reais, com as orientações canónicas, 0 conserva as orientações.
Dem: Basta atender a que, se B" ß á ß B8 é uma base complexa de I , então
0ÐB" Ñß á ß 0ÐB8 Ñ é uma base complexa de J e 0 aplica a base directa
B" ß 3B" ß á ß B8 ß 3B8 de I na base directa 0ÐB" Ñß 30ÐB" Ñß á ß 0ÐB8 Ñß 30ÐB8 Ñ de
J. …
I.4.17 Seja I um espaço vectorial real de dimensão 7  8, tal que tenha lugar
uma soma directa I œ J Š K , com J e K subespaços vectoriais de
dimensões 7 e 8 respectivamente. Tem-se então:
a) Se ?" ß á ß ?7 e ?w" ß á ß ?w7 são duas bases de J com a mesma orientação
(resp. com orientações opostas) e se @" ß á ß @8 é uma base de K , então as
bases de I ?" ß á ß ?7 ß @" ß á ß @8 e ?w" ß á ß ?w7 ß @" ß á ß @8 têm a mesma
orientação (resp. têm orientações opostas);
b) Se ?" ß á ß ?7 é uma base de J e se @" ß á ß @8 e @"w ß á ß @8w são bases de K
com a mesma orientação (resp. com orientações opostas), então as bases de
I ?" ß á ß ?7 ß @" ß á ß @8 e ?" ß á ß ?7 ß @"w ß á ß @8w têm a mesma orientação
(resp. têm orientações opostas).
Dem: a) Se E é a matriz de mudança da base ?" ß á ß ?7 para a base
?w" ß á ß ?w7 e se notarmos M a matriz identidade de tipo 8 ‚ 8, a matriz de
mudança da base ?" ß á ß ?7 ß @" ß á ß @8 para a base ?w" ß á ß ?w7 ß @" ß á ß @8 é
uma matriz da forma

”! M•
E !
,

tendo portanto determinante igual ao da matriz E.


b) Se F é a matriz de mudança da base @" ß á ß @8 para a base @"w ß á ß @8w e se
notarmos M a matriz identidade de tipo 7 ‚ 7, a matriz de mudança da base
?" ß á ß ?7 ß @" ß á ß @8 para a base ?" ß á ß ?7 ß @"w ß á ß @8w é uma matriz da

13Alguns autores usam uma convenção diferente, considerando como directa a base
B" ß á ß B8 ß 3B" ß á ß 3B8 . A convenção aqui seguida tem a vantagem de funcionar melhor
em relação com a definição em I.4.18.
38 Cap. I. Álgebra Linear e Cálculo Diferencial

forma

”! F•
M !
,

tendo portanto determinante igual ao da matriz F . …


I.4.18 Nas condições anteriores, dadas orientações !J de J e !K de K existe
uma única orientação !I de I , a que chamamos a orientação associada à
soma directa, tal que, quaisquer que sejam as bases ?" ß á ß ?7 de J e
@" ß á ß @8 de K , se tem, para a correspondente base ?" ß á ß ?7 ß @" ß á ß @8 de
I,
!I Ð?" ß á ß ?7 ß @" ß á ß @8 Ñ œ !J Ð?" ß á ß ?7 Ñ ‚ !K Ð@" ß á ß @8Ñ.
Além disso, se trocarmos uma das duas orientações !J e !K e conservarmos
a outra, a orientação !I vem trocada.
Dem: Consideremos uma base ?" ß á ß ?7 de J e uma base @" ß á ß @8 de K e
a orientação !I de I , para a qual
!I Ð?" ß á ß ?7 ß @" ß á ß @8 Ñ œ !J Ð?" ß á ß ?7 Ñ ‚ !K Ð@" ß á ß @8Ñ.
Usando o resultado precedente, vemos sucessivamente que, qualquer que seja
a base ?w" ß á ß ?w7 de J ,
!I Ð?w" ß á ß ?w7 ß @" ß á ß @8 Ñ œ !J Ð?w" ß á ß ?w7 Ñ ‚ !K Ð@" ß á ß @8Ñ
e que, quaisquer que sejam as bases ?w" ß á ß ?w7 de J e @"w ß á ß @8w de K ,
!I Ð?w" ß á ß ?w7 ß @"w ß á ß @8w Ñ œ !J Ð?w" ß á ß ?w7 Ñ ‚ !K Ð@"w ß á ß @8w Ñ
pelo que a orientação !I verifica a condição do enunciado. A afirmação
sobre o que sucede quando se troca uma das orientações é uma consequência
imediata da definição. …
I.4.19 (Nota) Nas condições dos resultados anteriores, se tem lugar a soma
directa I œ J Š K , é claro que tem também lugar a soma directa
I œ K Š J . Dadas as bases ?" ß á ß ?7 de J e @" ß á ß @8 de K , podemos
considerar as bases ?" ß á ß ?7 ß @" ß á ß @8 e @" ß á ß @8 ß ?" ß á ß ?7 de I e
pode-se passar da primeira destas bases para a segunda fazendo
sucessivamente 7 ‚ 8 trocas de posição entre pares de elementos; podemos
portanto concluir que estas duas bases têm a mesma orientação, no caso em
que 7 ‚ 8 é par e têm orientações opostas, no caso em que 7 ‚ 8 é ímpar.
Concluímos daqui que, dadas orientações !J / !K de J e de K, as
orientações de I determinadas pelas somas directas I œ J Š K e
I œ K Š J coincidem se, e só se, 7 ‚ 8 é par.

Como aplicação directa da noção de orientação determinada por uma


soma directa temos a orientação produto de um produto cartesiano de
espaços vectoriais orientados.
§4. Orientação de espaços vectoriais reais 39

I.4.20 Sejam I e J espaços vectoriais reais, com dimensões 7 e 8, munidos de


orientações !I e !J . Tem-se então que
I ‚ J œ ÐI ‚ Ö!×Ñ Š ÐÖ!× ‚ J Ñ,
em que podemos considerar em I ‚ Ö!× e em Ö!× ‚ J as orientações !wI e
!wJ para as quais os isomorfismos canónicos I Ä I ‚ Ö!×, B È ÐBß !Ñ, e
J Ä Ö!× ‚ J , C È Ð!ß CÑ, conservam as orientações. Define-se então a
orientação produto !I‚J œ !I ‚ !J de I ‚ J como sendo a associada
àquela soma directa e às orientações !wI e !wJ . Concretizando a definição
precedente, vemos que, se ?" ß á ß ?7 é uma base de I e @" ß á ß @8 é uma
base de J , tem-se uma base correspondente
Ð?" ß !Ñß á ß Ð?7 ß !Ñß Ð!ß @" Ñß á ß Ð!ß @8Ñ
de I ‚ J , para a qual
!I‚J ÐÐ?" ß !Ñß á ß Ð?7 ß !Ñß Ð!ß @" Ñß á ß Ð!ß @8 ÑÑ œ
œ !I Ð?" ß á ß ?7 Ñ ‚ !J Ð@" ß á ß @8 Ñ.

Outra aplicação da noção de orientação associada a uma soma directa é a


possibilidade de definir uma orientação induzida num hiperplano dum
espaço vectorial orientado, quando é dada uma orientação transversa
desse hiperplano.

I.4.21 Sejam I um espaço vectorial real de dimensão 8, munido de uma


orientação !I , e J § I um hiperplano. Para cada vector B − I Ï J tem
então lugar a soma directa I œ БBÑ Š J e definimos a orientação !J de J
associada a B e à orientação de I como sendo aquela para a qual a
orientação dada !I é a associada àquela soma directa, à orientação !J e à
orientação de ‘B para a qual B é uma base directa. Por outras palavras, para
cada base ?" ß á ß ?8" de J , Bß ?" ß á ß ?8" é uma base de I para a qual se
tem
!J Ð?" ß á ß ?8" Ñ œ !I ÐBß ?" ß á ß ?8" Ñ.
A propriedade fundamental desta noção é a de que, dado outro vector
C − I Ï J , a orientação de J determinada pelo vector C coincide com a
determinada pelo vector B se, e só se, B e C pertencem ao mesmo semi-es-
paço aberto de I determinado por J .
Dem: Fixemos uma base ?" ß á ß ?8" de J . Dados dois vectores
Bß C − I Ï J , podemos escrever

C œ + B  " +4 ? 4 ,
8"

4œ"

com + Á !, vindo então ÒCÓJ œ + ÒBÓJ e a matriz de mudança da base


40 Cap. I. Álgebra Linear e Cálculo Diferencial

Bß ?" ß á ß ?8" para a base Cß ?" ß á ß ?8" é

Ô + !×
Ö +" !Ù
! ! â
Ö Ù
Ö +# !Ù
" ! â
Ö Ù
! " â

Õ +8" "Ø
ã ã ã ä ã
! ! â

e tem portanto determinante igual a +. Vemos assim que se tem


!I ÐBß ?" ß á ß ?8" Ñ œ !I ÐCß ?" ß á ß ?8" Ñ se, e só se, +  !, se, e só se, B e
C pertencem ao mesmo semi-espaço aberto. …
I.4.22 Se I é um espaço vectorial real de dimensão 8, munido de uma
orientação !I , e J § I é um hiperplano, munido de uma orientação
transversa, define-se a orientação !J de J induzida pela de I e pela
orientação transversa como sendo a associada a qualquer vector B no
semi-espaço positivo, no sentido que acabamos de referir.
É claro que a orientação induzida vem trocada, se trocarmos a orientação
transversa, mantendo a orientação de I , ou se trocarmos a orientação de I ,
mantendo a orientação transversa.

Terminamos esta secção com algumas observações sobre propriedades


envolvendo as orientações nas dimensões mais baixas, nos casos em que
se está também em presença de um produto interno.

I.4.23 Seja I um espaço euclidiano orientado de dimensão ".


a) Existe um, e um só, vector positivo B tal que mBm œ ", o vector unitário
positivo de I.
b) B e B são os únicos vectores de I de norma ", o segundo não sendo
mais do que o vector unitário positivo para a orientação oposta de I .
C
Dem: Partindo de um vector não nulo arbitrário C , o vector B œ mCm verifica
mBm œ ". Se Bw é um vector arbitrário, tem-se Bw œ +B, com + − ‘, e então
mBw m œ l+lmBm œ l+l, pelo que mBw m œ " se, e só se, + œ " ou + œ ", o que
mostra que B e B são os únicos vectores de norma " de I , sendo claro que,
destes, um, e um só, é positivo. …
I.4.24 Seja I um espaço euclidiano orientado de dimensão #.
a) Existe uma, e uma só, estrutura complexa N À I Ä I compatível com o
produto interno e cuja orientação associada (cf. I.4.15) seja a dada. Para cada
? Á ! em I , N Ð?Ñ é o único vector de I tal que mN Ð?Ñm œ m?m,
ØN Ð?Ñß ?Ù œ ! e ?ß N Ð?Ñ é uma base directa de I .14
b) N e N são as únicas estruturas complexas de I compatíveis com o
produto interno, a segunda não sendo mais do que aquela cuja orientação
associada é a oposta.

14Intuitivamente, N é a rotação de um quarto de volta no sentido directo.


§4. Orientação de espaços vectoriais reais 41

Dem: Comecemos por reparar que, se ? − I é não nulo, então o espaço dos
vectores ortogonais a ? tem dimensão ", e portanto possui dois, e só dois,
vectores @ de norma m?m, um simétrico do outro, e que destes há um, e um
só, para o qual a base ?ß @ é directa.
Fixemos então um vector ?! − I com m?! m œ " e seja @! − I o vector para
o qual ?! ß @! é uma base ortonormada directa. Seja N À I Ä I a aplicação
linear definida pela condição de se ter N Ð?! Ñ œ @! e N Ð@! Ñ œ ?! , aplicação
linear que é um isomorfismo ortogonal, por aplicar a base ortonormada ?! ß @!
na base ortonormada @! ß ?! , e que verifica N ‰ N œ M.I , sendo portanto
uma estrutura complexa de I compatível com o produto interno. Se ? − I é
um vector não nulo arbitrário, podemos escrever ? œ +?!  ,@! e então
N Ð?Ñ œ +N Ð?! Ñ  ,N Ð@! Ñ œ ,?!  +@! ,
o que mostra que mN Ð?Ñm œ +#  , # œ m?m e que Ø?ß N Ð?ÑÙ œ !, pelo que
?ß N Ð?Ñ é uma base de I , esta base sendo directa uma vez que

detŒ”
+ •
+ ,
œ + #  , #  !.
,

Esta estrutura complexa compatível N de I verifica assim a condição enun-


ciada em a). É claro que N é outra estrutura complexa compatível, para a
qual, para cada ? − I com m?m œ ", ?ß N Ð?Ñ é uma base ortonormada
retrógrada de I , pelo que N não verifica a condição de a), mas verifica-a
relativamente à orientação oposta de I . Para terminar a demonstração res-
ta-nos mostrar que, se N w é uma estrutura complexa compatível arbitrária de
I , então N w œ N ou N w œ N . Ora, vem ØN w Ð?! Ñß N w Ð?! ÑÙ œ Ø?! ß ?! Ù œ ",
donde mN w Ð?! Ñm œ ", e Ø?! ß N w Ð?! ÑÙ œ ! (cf. I.2.8), pelo que, como referimos
no início, tem-se N w Ð?! Ñ œ @! ou N w Ð?! Ñ œ @! , no primeiro caso tendo-se
também N w Ð@! Ñ œ N w ÐN w Ð?! ÑÑ œ ?! , donde N w œ N , e no segundo caso
tendo-se também N w Ð@! Ñ œ N w ÐN w Ð?! ÑÑ œ ?! , donde N w œ N . …
I.4.25 Sejam I e J espaços euclidianos orientados de dimensão # e sejam N e
N w as correspondentes estruturas complexas de I e J (cf. a alínea a) de
I.4.24). Seja -À I Ä J uma aplicação linear real. Tem-se então que - é uma
aplicação linear conforme (cf. I.2.33) se, e só se, - é linear complexa ou
antilinear. Mais precisamente, no caso em que - Á ! é conforme, - é um
isomorfismo, sendo linear complexa se conservar as orientações e antilinear
se inverter as orientações.
Dem: Suponhamos que - é linear complexa. Uma vez que I e J são
espaços vectoriais complexos de dimensão ", considerando em I e J os
produtos internos complexos cujas partes reais são os produtos internos
dados (cf. I.2.7), podemos ter em conta as alíneas b) e c) de I.2.34 para
garantir que - é uma aplicação linear conforme. Além disso, se - Á 0, - é
um isomorfismo complexo e portanto, tendo em conta I.4.16, - conserva as
orientações.
Suponhamos agora que - é antilinear. Trocando a orientação de I e
42 Cap. I. Álgebra Linear e Cálculo Diferencial

substituindo N por N , caímos no caso anterior, o que nos permite deduzir


que - é conforme e que, no caso em que - Á !, - é um isomorfismo que
conserva as orientações, isto é, que inverte as orientações quando se consi-
dera a orientação original.
Uma vez que ! é simultaneamente linear complexa e antilinear, resta-nos
mostrar que, se - Á ! é conforme, então - é linear complexa ou antilinear.
Seja ? − I com m?m œ ". Tendo em conta I.4.24, ?ß N Ð?Ñ é uma base
ortonormada directa de I e portanto, por I.2.33, os vectores -Ð?Ñ e -ÐN Ð?ÑÑ
são ortogonais e com um mesma norma -  !, em particular constituem uma
base de J e portanto - é um isomorfismo. Se - conserva as orientações, esta
base é directa e portanto, mais uma vez por I.4.24, -ÐN Ð?ÑÑ œ N w Ð-Ð?ÑÑ;
neste caso tem-se também
- ‰ N ÐN Ð?ÑÑ œ -Ð?Ñ œ N w ÐN w Ð-Ð?ÑÑÑ œ N w Ð-ÐN Ð?ÑÑÑ,
pelo que - ‰ N œ N w ‰ - (temos duas aplicações lineares a coincidir na base
?ß N Ð?Ñ de I ) e - é uma aplicação linear complexa. Se - inverte as orienta-
ções então, trocando a orientação de I e subsituindo N por N , caímos no
caso anterior e deduzimos que, relativamente a N , - é linear complexa,
sendo assim antilinear para a estrutura complexa original. …

§5. Cálculo Diferencial em espaços vectoriais de dimensão finita.

O leitor estudou decerto já os fundamentos do Cálculo Diferencial no


quadro das aplicações definidas em abertos de ‘7 e com valores em ‘8 .
Nas aplicações à Geometria será muitas vezes útil trabalhar com uma
ligeira generalização, em que os espaços cartesianos ‘7 e ‘8 são
substituídos por espaços vectoriais reais I e J com dimensões 7 e 8. É
claro que um espaço vectorial real I de dimensão 7 é sempre isomorfo a
‘7 , mas há muitos isomorfismos possíveis, um associado a cada base que
se escolha em I , e os conceitos expressos directamente em termos de
espaços vectoriais ajudam a sublinhar o seu aspecto invariante, isto é, a
sua independência relativamente à escolha das bases. Na exposição que
apresentamos em seguida tentaremos colocar o Cálculo Diferencial no
quadro invariante referido. Algumas demonstrações mais simples serão
omitidas, mas o leitor poderá facilmente construí-las, eventualmente por
adaptação das que conhece no quadro dos espaços cartesianos.
Uma segunda observação é a de que, apesar de ser o quadro dos espaços
vectoriais reais aquele que será mais importante no seguimento, há situa-
ções em que não envolve esforço suplementar considerar simultaneamente
o caso em que o corpo dos escalares envolvido é ‚.

I.5.1 Sejam I e J espaços vectoriais, reais ou complexos, de dimensão finita,


Y § I um aberto e 0 À Y Ä J uma aplicação. Diz-se que 0 é diferenciável
§5. Cálculo Diferencial em espaços vectoriais… 43

no ponto B! − Y se existe uma aplicação linear 0À I Ä J tal que, definindo


!À Y Ä J pela igualdade
0 ÐBÑ œ 0 ÐB! Ñ  0ÐB  B! Ñ  !ÐBÑ,
a aplicação ! verifique a seguinte propriedade: Para cada $  !, existe &  !
tal que, sempre que mB  B! m Ÿ &, tem-se B − Y e
m!ÐBÑm Ÿ $ mB  B! m
(é fácil de ver que esta condição, que, salvo no caso trivial em que I tem
dimensão !, pode ser expressa, de modo equivalente, por
m!ÐBÑm
lim œ !,
BÄB! mB  B! m
não depende das normas que se consideram sobre I e J ). Não pode haver
mais do que uma aplicação linear 0À I Ä J nas condições anteriores, como
se pode concluir, por exemplo, a partir do resultado I.5.3 adiante, e a essa
aplicação linear dá-se o nome de derivada ou diferencial de 0 no ponto B! ,
sendo notada H0 ÐB! Ñ ou H0B! . Para cada ? − I é costume referirmo-nos
então ao valor H0B! Ð?Ñ − J como sendo a derivada de 0 no ponto B! na
direcção de ?. Se 0 é diferenciável no ponto B! , então 0 é contínua em B! .
I.5.2 Repare-se que, no caso em que I e J são espaços vectoriais complexos, a
definição anterior pode ser entendida em dois sentidos, conforme se exija que
0 œ H0B! seja uma aplicação linear real ou uma aplicação linear complexa.
Temos assim uma noção de diferenciabilidade no sentido real e uma de
diferenciabilidade no sentido complexo. No que se segue, quando falarmos
simplesmente de diferenciabilidade estará subentendido que é o sentido real
que está em jogo, mesmo no caso em que I e J são espaços vectoriais
complexos. Quando quisermos significar a diferenciabilidade no sentido
complexo, falaremos de aplicação ‚-diferenciável.
É claro que toda a aplicação ‚-diferenciável em B! é, em particular,
diferenciável nesse ponto. Além disso, como se constata sem dificuldade,
uma aplicação 0 diferenciável em B! é ‚-diferenciável nesse ponto se, e só
se, o seu diferencial H0B! é uma aplicação ‚-linear.
A observação anterior permite generalizar trivialmente muitas propriedades
da diferenciabilidade à ‚-diferenciabilidade. Para aligeirar o texto,
abster-nos-emos de enunciar explicitamente a maioria das generalizações
desse tipo.
I.5.3 Nas condições de I.5.1, se 0À I Ä J é uma aplicação linear verificando as
condições referidas, tem-se, para cada ? − I ,
0 ÐB!  >?Ñ  0 ÐB! Ñ
H0B! Ð?Ñ œ 0Ð?Ñ œ lim ,
>Ä! >
onde > − ‘, no caso da diferenciabilidade, e > − ‚, no caso da ‚-diferen-
44 Cap. I. Álgebra Linear e Cálculo Diferencial

ciabilidade.
Dem: Atender a que, afastando já o caso trivial em que ? œ !, deduz-se de
0 ÐB!  >?Ñ œ 0 ÐB! Ñ  0Ð>?Ñ  !ÐB!  >?Ñ
que
0 ÐB!  >?Ñ  0 ÐB! Ñ !ÐB!  >?Ñ
œ 0Ð?Ñ  ,
> >
onde
!ÐB!  >?Ñ m!ÐB!  >?Ñm
m m œ m?m Ä !,
> m>?m
quando > Ä !. …
I.5.4 A diferenciabilidade de uma aplicação num ponto é uma noção local. Mais
precisamente, suponhamos que Y § I é um aberto, que 0 À Y Ä J é uma
aplicação, que Z § Y é outro aberto e que B! − Z . Tem-se então que 0 é
diferenciável em B! se, e só se, a restrição 0ÎZ À Z Ä J é diferenciável em B!
e, nesse caso, as aplicações lineares H0 ÐB! Ñ e H0ÎZ ÐB! Ñ coincidem.
I.5.5 Se Y § I é um aberto e se 0 À Y Ä J é uma aplicação constante, então 0 é
diferenciável em todos os pontos B − Y e com H0B œ !.
Se 0À I Ä J é uma aplicação linear, então 0 é diferenciável em todos os
pontos B − I e tem-se H0B œ 0.
I.5.6 Se Y § I é um aberto e B! − Y , então a derivação em B! de aplicações
com valores num espaço vectorial J de dimensão finita é um operador
linear, no sentido que, se 0 À Y Ä J e 1À Y Ä J são diferenciáveis em B! e
se + − ‘, então 0  1À Y Ä J e +0 À Y Ä J são ainda diferenciáveis em B!
e tem-se
HÐ0  1ÑB! œ H0B!  H1B! , HÐ+0 ÑB! œ +H0B! .

No caso em que J é mesmo um espaço vectorial complexo, esta última


conclusão é válida, mais geralmente, para cada + − ‚.
É claro que a propriedade de diferenciabilidade da soma de duas aplicações
diferenciáveis estende-se trivialmente, por indução, à soma de um número
finito de aplicações diferenciáveis.
I.5.7 Sejam Y § I um aberto e 0 À Y Ä J uma aplicação diferenciável no ponto
B! − Y . Se -À J Ä K é uma aplicação linear, então - ‰ 0 À Y Ä K é
diferenciável em B! e
HÐ- ‰ 0 ÑB! œ - ‰ H0B! ,

isto é,
HÐ- ‰ 0 ÑB! Ð?Ñ œ -ÐH0B! Ð?ÑÑ.
§5. Cálculo Diferencial em espaços vectoriais… 45

I.5.8 Sejam Y § I um aberto e, para cada " Ÿ 4 Ÿ : , 04 À Y Ä J4 uma


aplicação. Notemos 0 À Y Ä J" ‚ â ‚ J: a aplicação cujas componentes
são os 04 , isto é, a definida por
0 ÐBÑ œ Ð0" ÐBÑß á ß 0: ÐBÑÑ.

Tem-se então que 0 é diferenciável em B! − Y se, e só se, cada 04 é


diferenciável em B! e, nesse caso,
H0 ÐB! ÑÐ?Ñ œ ÐH0" ÐB! ÑÐ?Ñß ß á ß H0: ÐB! ÑÐ?ÑÑ.

Dem: Apesar de estarmos a omitir a muitas demonstrações e de a deste


resultado poder ser feita de forma tão simples como as dos anteriores, é ins-
trutivo reparar que este enunciado é uma consequência dos dois anteriores.
Considerando, com efeito, as projecções e as injecções canónicas,
14 À J" ‚ â ‚ J: Ä J4 e +4 À J4 Ä J" ‚ â ‚ J: , aplicações lineares defi-
nidas respectivamente por
14 ÐB" ß á ß B: Ñ œ B4 , +4 ÐBÑ œ Ð!ß á ß Bß á ß ! Ñ

(B na posição 4), tem-se 04 œ 14 ‰ 0 e 0 œ ! +4 ‰ 04 . …

I.5.9 Sejam Y § I um aberto, 0 À Y Ä J uma aplicação e J w § J um


subespaço vectorial tal que 0 ÐY Ñ § J w . Tem-se então que 0 é diferenciável
em B! − Y , como aplicação de Y em J , se, e só se, isso acontece a 0 , como
aplicação de Y em J w e, nesse caso, H0B! é o mesmo dos dois pontos de
vista.
Dem: É fácil constatar-se que a única coisa não trivial a demonstrar é que, se
0 é diferenciável em B! , como aplicação de Y em J , então a respectiva
derivada H0B! À I Ä J é uma aplicação linear que toma valores no
subespaço J w . Ora, isso resulta, por exemplo, da fórmula para H0B! Ð?Ñ em
I.5.3, se nos lembrarmos de que J w é fechado em J . …
I.5.10 (Teorema da derivada da função composta) Sejam os espaços
vectoriais de dimensão finita I , J e K , os abertos Y § I e Z § J e as
aplicações 0 À Y Ä Z , diferenciável em B! , e 1À Z Ä K , diferenciável em
0 ÐB! Ñ (ao dizermos que 0 À Y Ä Z é diferenciável em B! estamos a significar
que o é como aplicação de Y em J ). Tem-se então que 1 ‰ 0 À Y Ä K é
diferenciável em B! e
HÐ1 ‰ 0 ÑB! œ H10 ÐB! Ñ ‰ H0B! ,

isto é,
HÐ1 ‰ 0 ÑB! Ð?Ñ œ H10 ÐB! Ñ ÐH0B! Ð?ÑÑ.

Repare-se que o resultado referido em I.5.7 é um caso particular deste.


Dem: Apesar de a demonstração deste resultado não apresentar novidades
em relação à do que lhe corresponde no quadro dos espaços cartesianos ‘8 , o
46 Cap. I. Álgebra Linear e Cálculo Diferencial

facto de ela ser um pouco mais delicada que as dos resultados anteriores
leva-nos a apresentá-la aqui. Para uma melhor sistematização, dividimo-la
em várias alíneas:
a) Tendo em conta a definição, tudo o que temos que mostrar é que,
definindo uma aplicação #À Y Ä K por
1Ð0 ÐBÑÑ œ 1Ð0 ÐB! ÑÑ  H10 ÐB! Ñ ÐH0B! ÐB  B! ÑÑ  #ÐBÑ,

a aplicação # verifica a condição na definição de diferenciabilidade, isto é,


para cada $  !, existe &  ! tal que, sempre que mB  B! m Ÿ &, se tenha
B − Y e m# ÐBÑm Ÿ $ mB  B! m. Seja então dado $  !.
b) Fixemos Q  ! tal que, para cada ? − I e cada @ − J , se tenha
mH0B! Ð?Ñm Ÿ Q m?m, mH10 ÐB! Ñ Ð@Ñm Ÿ Q m@m

(lembrar que toda a aplicação linear é contínua).


c) Tendo em conta a diferenciabilidade de 0 em B! , considerando a aplicação
!À Y Ä J definida por
0 ÐBÑ œ 0 ÐB! Ñ  H0B! ÐB  B! Ñ  !ÐBÑ,

podemos fixar &w  ! tal que, sempre que mB  B! m Ÿ &w , se tenha B − Y e


$
m!ÐBÑm Ÿ mB  B! m, m!ÐBÑm Ÿ mB  B! m.
#Q
A segunda desigualdade implica, em particular, que, sempre que
mB  B! m Ÿ &w , tem-se
m0 ÐBÑ  0 ÐB! Ñm Ÿ mH0B! ÐB  B! Ñm  m!ÐBÑm Ÿ ÐQ  "ÑmB  B! m.

d) Tendo em conta a diferenciabilidade de 1 em 0 ÐB! Ñ, considerando a


aplicação "À Z Ä K definida por
1ÐCÑ œ 1Ð0 ÐB! ÑÑ  H10 ÐB! Ñ ÐC  0 ÐB! ÑÑ  "ÐCÑ,

podemos considerar &ww  ! tal que, sempre que mC  0 ÐB! Ñm Ÿ &ww , tem-se
C−Z e
$
m" ÐCÑm Ÿ mC  0 ÐB! Ñm.
#ÐQ  "Ñ

e) Tendo em conta a continuidade de 0 em B! , consideremos enfim


!  & Ÿ &w tal que, sempre que mB  B! m Ÿ &, se tenha
m0 ÐBÑ  0 ÐB! Ñm Ÿ &ww . Sempre que mB  B! m Ÿ &, podemos escrever
1Ð0 ÐBÑÑ œ 1Ð0 ÐB! ÑÑ  H10 ÐB! Ñ Ð0 ÐBÑ  0 ÐB! ÑÑ  "Ð0 ÐBÑÑ œ
œ 1Ð0 ÐB! ÑÑ  H10 ÐB! Ñ ÐH0B! ÐB  B! Ñ  !ÐBÑÑ  "Ð0 ÐBÑÑ œ
œ 1Ð0 ÐB! ÑÑ  H10 ÐB! Ñ ÐH0B! ÐB  B! ÑÑ  H10 ÐB! Ñ Ð!ÐBÑÑ  " Ð0 ÐBÑÑ,

ou seja, # ÐBÑ œ H10 ÐB! Ñ Ð!ÐBÑÑ  " Ð0 ÐBÑÑ, e portanto


§5. Cálculo Diferencial em espaços vectoriais… 47

m# ÐBÑm Ÿ mH10 ÐB! Ñ Ð!ÐBÑÑm  m" Ð0 ÐBÑÑm Ÿ


$
Ÿ Q m!ÐBÑm  m0 ÐBÑ  0 ÐB! Ñm Ÿ
#ÐQ  "Ñ
$ $
Ÿ mB  B! m  mB  B! m œ $ mB  B! m,
# #
como queríamos. …
I.5.11 Sejam J ß Kß L espaços vectoriais de dimensão finita e " À J ‚ K Ä L
uma aplicação bilinear. Tem-se então que " é diferenciável em cada ÐB! ß C! Ñ
e
H"ÐB! ßC! Ñ Ð?ß @Ñ œ " Ð?ß C! Ñ  " ÐB! ß @Ñ.

Dem: Dado ÐB! ß C! Ñ − J ‚ K, podemos escrever, para cada ÐBß CÑ,


" ÐBß CÑ œ " ÐB! ß C! Ñ  " ÐB  B! ß C! Ñ  " ÐB! ß C  C! Ñ  "ÐB  B! ß C  C!Ñ,
onde, para um certo Q  !,
m" ÐB  B! ß C  C! Ñm Ÿ Q mB  B! mmC  C! m,
e portanto, considerando por exemplo em J ‚ K a norma do máximo,
m" ÐB  B! ß C  C! Ñm Ÿ Q mÐB  B! ß C  C! Ñm# .
$
Dado $  !, vemos que, para & œ Q, tem-se, para mÐB  B! ß C  C! Ñm Ÿ &,
m" ÐB  B! ß C  C! Ñm Ÿ $ mÐB  B! ß C  C! Ñm,
que implica que " é diferenciável em ÐB! ß C! Ñ e que a aplicação linear
H"ÐB! ßC! Ñ À J ‚ K Ä L está definida por
H"ÐB! ßC! Ñ Ð?ß @Ñ œ " Ð?ß C! Ñ  " ÐB! ß @Ñ. …

A fórmula para a derivada de uma aplicação bilinear obtida atrás permite,


em conjunto com o teorema de derivação da função composta, enunciar
uma regra de derivação, de utilização muito frequente na prática, que
generaliza a regra usual de derivação de um produto de funções reais.

I.5.12 (Regra de Leibnitz) Sejam J ß Kß L espaços vectoriais de dimensão finita


e "À J ‚ K Ä L uma aplicação bilinear. Sejam I um espaço vectorial de
dimensão finita, Y § I um aberto e 0 À Y Ä J e 1À Y Ä K duas aplicações
diferenciáveis em B! − Y . É então também diferenciável em B! a aplicação
2À Y Ä L definida por
2ÐBÑ œ " Ð0 ÐBÑß 1ÐBÑÑ
e tem-se
48 Cap. I. Álgebra Linear e Cálculo Diferencial

H2B! Ð?Ñ œ " ÐH0B! Ð?Ñß 1ÐB! ÑÑ  " Ð0 ÐB! Ñß H1B! Ð?ÑÑ.

Dem: Tem-se 2 œ " ‰ :, onde :À Y Ä J ‚ K está definida por :ÐBÑ œ


Ð0 ÐBÑß 1ÐBÑÑ, pelo que, tendo em conta o resultado precedente e a regra de
derivação da função composta,
H2B! Ð?Ñ œ H":ÐB! Ñ ÐH:B! Ð?ÑÑ œ H"Ð0 ÐB! Ñß1ÐB! ÑÑ ÐH0B! Ð?Ñß H1B! Ð?ÑÑ œ
œ " ÐH0B! Ð?Ñß 1ÐB! ÑÑ  " Ð0 ÐB! Ñß H1B! Ð?ÑÑ. …

I.5.13 A regra de Leibnitz usual, para a derivação do produto de duas funções


reais, não é mais do que o caso particular do resultado precedente em que
J œ K œ L œ ‘ e em que " ÐCß DÑ œ C ‚ D . Esse caso particular conduz a
uma mnemónica útil para a fórmula geral e que consiste em utilizar a notação
multiplicativa para a aplicação bilinear " , escrevendo, para C − J e D − K ,
C ‚ D para significar " ÐCß DÑ − L . Nesse quadro, a aplicação 2 pode ser
notada como 0 ‚ 1 e a regra de Leibnitz escreve-se na forma familiar
HÐ0 ‚ 1ÑB! Ð?Ñ œ H0B! Ð?Ñ ‚ 1ÐB! Ñ  0 ÐB! Ñ ‚ H1B! Ð?Ñ.

É claro que, em cada caso concreto, a fórmula anterior será apenas um passo
intermédio, muitas vezes não explicitado, e que o símbolo ‚ deverá ser
substituído no fim pelo significado que tem nesse caso.
Para além da multiplicação de números reais (ou complexos) apresentamos
agora exemplos de outras aplicações bilineares relativamente às quais é
comum aplicar a regra de Leibnitz:
a) J é um espaço vectorial sobre Š (igual a ‘ ou ‚) e " À Š ‚ J Ä J é a
multiplicação de um escalar por um vector.
b) J é um espaço vectorial real, munido de um produto interno, e
" À J ‚ J Ä ‘ é o produto interno de vectores.
c) " À ‘$ ‚ ‘$ Ä ‘$ é o produto externo usual de dois vectores de ‘$ .
d) J e K são espaços vectoriais de dimensão finita e " À PÐJ à KÑ ‚ J Ä K é
a aplicação de avaliação, definida por " Ð-ß CÑ œ -ÐCÑ.
e) Sendo `8 o espaço vectorial das matrizes (reais ou complexas) com 8
linhas e 8 colunas, " À `8 ‚ `8 Ä `8 é a multiplicação de matrizes.
Será talvez um exercício útil explicitar, em cada um destes exemplos, qual o
modo como se enuncia a correspondente regra de Leibnitz.

Com frequência teremos ocasião de estudar a diferenciabilidade de


aplicações com valores num espaço de aplicações lineares PÐJ à KÑ. O
resultado que apresentamos em seguida poderá ser útil nessa situação, por
permitir reduzir esse estudo ao da diferenciabilidade de aplicações com
valores em K . Note-se que, ao contrário dos resultados que temos vindo a
estudar e que podem facilmente ser generalizados ao quadro dos espaços
vectoriais normados de dimensão infinita, este utiliza de modo essencial o
facto de J ser de dimensão finita.
§5. Cálculo Diferencial em espaços vectoriais… 49

I.5.14 Sejam I , J e K espaços vectoriais de dimensão finita, Y § I um aberto


e 0 À Y Ä PÐJ à KÑ uma aplicação. Para cada vector @ − J , notemos
0Ð@Ñ À Y Ä K a aplicação definida por 0Ð@Ñ ÐBÑ œ 0 ÐBÑÐ@Ñ. Tem-se então que 0
é diferenciável no ponto B! − Y se, e só se, para cada @, 0Ð@Ñ é diferenciável
em B! e, quando isso acontecer, tem-se, para cada ? − I ,
H0B! Ð?ÑÐ@Ñ œ H0Ð@Ñ B! Ð?Ñ. 15

Mais precisamente, dada uma base @" ß á ß @8 de J , para garantir que 0 é


diferenciável em B! , basta verificar que 0Ð@Ñ é diferenciável em B! quando @ é
um dos 8 vectores daquela base.
Dem: Comecemos por supor que 0 é diferenciável em B! . Para cada @ − J ,
podemos considerar uma aplicação linear 1Ð@Ñ À PÐJ à KÑ Ä K , definida por
. È .Ð@Ñ. Uma vez que 0Ð@Ñ œ 1Ð@Ñ ‰ 0 , concluímos que 0Ð@Ñ é diferenciável
em B! e que
H0Ð@Ñ B! Ð?Ñ œ 1Ð@Ñ ÐH0B! Ð?ÑÑ œ H0B! Ð?ÑÐ@Ñ.

Suponhamos, reciprocamente, que cada 0Ð@Ñ é diferenciável em B! . Conside-


remos uma base @" ß á ß @8 de J . Tem então lugar um isomorfismo
FÀ PÐJ à KÑ Ä K ‚ â ‚ K , FÐ.Ñ œ Ð.Ð@" Ñß á ß .Ð@8 ÑÑ

(lembrar que uma aplicação linear de J para K fica determinada quando se


dão arbitrariamente as imagens dos vectores de uma base de J ) e, portanto,
utilizando I.5.7 com a aplicação linear F" , para verificar que 0 é diferen-
ciável em B! , basta verificar que F ‰ 0 À Y Ä K ‚ â ‚ K é diferenciável em
B! . Ora, isso é uma consequência de se ter
F ‰ 0 ÐBÑ œ Ð0Ð@" Ñ ÐBÑß á ß 0Ð@8 Ñ ÐBÑÑ. …

I.5.15 Suponhamos que J é um espaço vectorial real (respectivamente com-


plexo) de dimensão finita, que N § ‘ (respectivamente N § ‚) é um aberto
e que 0 À N Ä J é uma aplicação. Tem-se então que 0 é diferenciável (resp. é
‚-diferenciável) no ponto >! − N se, e só se, existe o limite
0 Ð>!  =Ñ  0 Ð>! Ñ 0 Ð>Ñ  0 Ð>! Ñ
lim œ lim .
=Ä! = >Ä>! >  >!
.0
Esse limite é designado por 0 w Ð>! Ñ, ou .> Ð>! Ñ, e verificam-se as seguintes

15A fórmula anterior tem por vezes algo de chocante para quem a examina pela primeira
vez: Para se calcular H0B! Ð?ÑÐ@Ñ, calcula-se primeiro 0 ÐBÑÐ@Ñ e depois deriva-se o resul-
tado em B! na direcção de ?. Poderia parecer mais natural considerar que o resultado
deveria ser H0B! Ð@ÑÐ?Ñ mas, se repararmos bem é aquele, e não este, que faz sentido: Se
0 é uma aplicação definida num aberto de I e com valores em PÐJ à KÑ, faz sentido deri-
vá-la num ponto na direcção de um vector de I e o resultado é então um elemento de
PÐJ à KÑ, que aplicado a um vector de J dá um vector de K .
50 Cap. I. Álgebra Linear e Cálculo Diferencial

relações entre H0>! − PБà J Ñ (respectivamente − PЂà J Ñ) e 0 w Ð>! Ñ − J :


a) 0 w Ð>! Ñ œ H0>! Ð"Ñ œ EÐH0>! Ñ;
b) H0>! Ð=Ñ œ =0 w Ð>! Ñ.

Repare-se que, no caso em que N § ‘ é um intervalo, não obrigatoriamente


aberto mas de interior não vazio, é usual tomar-se a existência do limite
anterior como definição da diferenciabilidade de 0 no ponto >! .
Dem: O facto de a diferenciabilidade de 0 em >! implicar a existência do
limite e o facto de este ser igual a H0>! Ð"Ñ não é mais do que um caso
particular de I.5.3. Reciprocamente, supondo que existe o limite, que
notamos 0 w Ð>! Ñ, podemos considerar a aplicação linear 0À ‘ Ä J definida
por 0Ð=Ñ œ =0 w Ð>! Ñ e então, pondo
0 Ð>Ñ œ 0 Ð>! Ñ  0Ð>  >! Ñ  !Ð>Ñ œ 0 Ð>! Ñ  Ð>  >!Ñ0 wÐ>!Ñ  !Ð>Ñ,
tem-se que
m!Ð>Ñm !Ð>Ñ 0 Ð>Ñ  0 Ð>! Ñ
œm mœm  0 w Ð>! Ñm,
l>  >! l >  >! >  >!
vai ter limite ! quando > Ä >! . …
I.5.16 No contexto anterior podemos examinar algumas formulações alternativas
do teorema da derivação da função composta quando alguns dos espaços
envolvidos são abertos de ‘ ou de ‚, formulações que se reduzem
trivialmente à formulação geral através das igualdades em a) e b) de I.5.15.
Temos assim:
a) Sejam N um aberto de ‘, J e K espaços vectoriais de dimensão finita,
Z § J um aberto e 0 À N Ä Z e 1À Z Ä K duas aplicações diferenciáveis
nos pontos >! − N e 0 Ð>! Ñ − Z , respectivamente. Tem-se então que
1 ‰ 0 À N Ä K é diferenciável em >! e
Ð1 ‰ 0 Ñw Ð>! Ñ œ H10 Ð>! Ñ Ð0 w Ð>! ÑÑ.

b) Sejam N w um aberto de ‘, I e K espaços vectoriais de dimensão finita,


Y § I um aberto e 0 À Y Ä N w e 1À N w Ä K duas aplicações diferenciáveis
nos pontos B! − Y e 0 ÐB! Ñ − N w , respectivamente. Tem-se então que
1 ‰ 0 À Y Ä K é diferenciável em B! e
HÐ1 ‰ 0 ÑB! Ð?Ñ œ H0B! Ð?Ñ † 1w Ð0 ÐB! ÑÑ.

c) Sejam N § ‘ e N w § ‘ dois abertos, K um espaço vectorial de dimensão


finita e 0 À N Ä N w e 1À N w Ä K duas aplicações diferenciáveis nos pontos
>! − Y e 0 Ð>! Ñ − N w , respectivamente. Tem-se então que 1 ‰ 0 À N Ä K é
diferenciável em >! e
Ð1 ‰ 0 Ñw Ð>! Ñ œ 0 w Ð>! Ñ † 1w Ð0 Ð>! ÑÑ.
§5. Cálculo Diferencial em espaços vectoriais… 51

São também válidos os resultados análogos no quadro dos abertos de ‚ e da


‚-diferenciabilidade.

A fórmula da média, que apresentamos em seguida em várias versões,


permite majorar a variação de uma aplicação a partir de majorações
envolvendo as respectivas derivadas. Ela é um instrumento de utilização
frequente nas aplicações do Cálculo Diferencial

I.5.17 (Fórmula da média) Sejam N § ‘ um intervalo aberto, J um espaço


vectorial de dimensão finita, munido de uma norma e 0 À N Ä J uma aplica-
ção diferenciável em todos os pontos. Sejam +ß , − N e Q   ! tais que, para
cada > no intervalo de extremidades + e , , m0 w Ð>Ñm Ÿ Q . Tem-se então
m0 Ð,Ñ  0 Ð+Ñm Ÿ Q l,  +l.

Dem: Pode-se já supor que +  ,, uma vez que o caso + œ , é trivial e que
aquele em que +  , se reduz ao primeiro por troca do papel das variáveis.
Fixemos $  ! arbitrário. Consideremos o conjunto G dos > − Ò+ß ,Ó tais que
m0 Ð>Ñ  0 Ð+Ñm Ÿ ÐQ  $ ÑÐ>  +Ñ.
Trata-se de um subconjunto fechado de Ò+ß ,Ó, que é não vazio, por conter +,
pelo que podemos considerar o máximo - do conjunto G , que verifica
portanto a desigualdade
m0 Ð-Ñ  0 Ð+Ñm Ÿ ÐQ  $ ÑÐ-  +Ñ.
Se se tivesse -  , , então o facto de se ter
0 Ð>Ñ  0 Ð-Ñ
lim m m œ m0 w Ð-Ñm Ÿ Q  Q  $
>Ä- >-
implicava a possibilidade de escolher >, com -  >  , tal que
0 Ð>Ñ  0 Ð-Ñ
m m  Q  $,
>-
de onde deduzíamos que
m0 Ð>Ñ  0 Ð+Ñm Ÿ m0 Ð>Ñ  0 Ð-Ñm  m0 Ð-Ñ  0 Ð+Ñm Ÿ
Ÿ ÐQ  $ ÑÐ>  -Ñ  ÐQ  $ ÑÐ-  +Ñ œ ÐQ  $ ÑÐ>  +Ñ,

ou seja, > − G , o que contrariava a hipótese de - ser o máximo de G . Tem-se


assim - œ , , ou seja, m0 Ð,Ñ  0 Ð+Ñm Ÿ ÐQ  $ ÑÐ,  +Ñ. Por fim, uma vez
que $  ! é arbitrário, a desigualdade anterior implica que se tem mesmo
m0 Ð,Ñ  0 Ð+Ñm Ÿ Q l,  +l. …
I.5.18 (Segunda versão da fórmula da média) Sejam I e J espaços vectoriais
de dimensão finita, munidos de normas, Y § I um aberto e 0 À Y Ä J uma
aplicação diferenciável em todos os pontos. Sejam Bß C − Y e Q   ! tais
52 Cap. I. Álgebra Linear e Cálculo Diferencial

que, para cada D no segmento de extremidades B e C , D − Y e mH0D m Ÿ Q .


Tem-se então
m0 ÐCÑ  0 ÐBÑm Ÿ Q mC  Bm.

Dem: Basta aplicar a propriedade anterior à aplicação 1À N Ä J definida por


1Ð>Ñ œ 0 ÐB  >ÐC  BÑÑ, num certo intervalo aberto N , contendo Ò!ß "Ó, que
verifica 1Ð!Ñ œ 0 ÐBÑ, 1Ð"Ñ œ 0 ÐCÑ e
1w Ð>Ñ œ H0B>ÐCBÑ ÐC  BÑ. …

I.5.19 (Corolário) Sejam Y § I um aberto conexo e 0 À Y Ä J uma aplicação


diferenciável em todos os pontos, tal que H0B œ !, para cada B − Y . Tem-se
então que 0 é uma aplicação constante.
Dem: Se o aberto Y fosse mesmo convexo, tínhamos uma consequência
directa do resultado precedente, visto que se pode tomar aí Q œ !. No caso
em que Y é apenas conexo, fixado B! − Y , o facto de cada ponto de Y
admitir uma vizinhança aberta e convexa contida em Y (por exemplo uma
bola) implica, tendo em conta o caso particular atrás referido, que o conjunto
dos pontos B − Y tais que 0 ÐBÑ œ 0 ÐB! Ñ é simultaneamente aberto e fechado
em Y , logo igual a Y . …
I.5.20 (Terceira versão da fórmula da média) Sejam I e J espaços vectoriais
de dimensão finita, munidos de normas, Y § I um aberto e 0 À Y Ä J uma
aplicação diferenciável em todos os pontos. Sejam Bß C − Y , 0À I Ä J uma
aplicação linear e $   ! tais que, para cada D no segmento de extremidades B
e C , se tenha D − Y e mH0D  0m Ÿ $ . Tem-se então
m0 ÐCÑ  0 ÐBÑ  0ÐC  BÑm Ÿ $ mC  Bm.

Dem: Basta aplicar o resultado anterior à aplicação 1À Y Ä J definida por


1ÐBÑ œ 0 ÐBÑ  0ÐBÑ. …

§6. Aplicações de classe G 5 .

I.6.1 Sejam I e J espaços vectoriais de dimensão finita e Y § I um aberto.


Define-se recursivamente quando é que uma aplicação 0 À Y Ä J é de classe
G 5 , do seguinte modo:
a) 0 diz-se de classe G ! se for contínua.
b) 0 diz-se de classe G 5" se for diferenciável em todos os pontos e se for de
classe G 5 a aplicação H0 À Y Ä PÐIà J Ñ, que a B associa H0B . Verifica-se
imediatamente por indução que, se 0 À Y Ä J é de classe G 5 , então 0 é
também de classe G 4 , para cada ! Ÿ 4 Ÿ 5 . A aplicação 0 À Y Ä J diz-se de
classe G _ se for de classe G 5 , para cada 5 . Às aplicações de classe G _
daremos também o nome de aplicações suaves (trata-se de uma tentativa de
§6. Aplicações de classe G 5 53

tradução do inglês smooth).


Repare-se que, mesmo no caso em que algum dos espaços vectoriais I e J é
um espaço vectorial complexo, é a sua estrutura de espaço vectorial real que
está exclusivamente em jogo nesta definição, assim como na quase totalidade
desta secção. Apenas no fim da secção abordaremos o análogo das aplicações
de classe G 5 no quadro dos espaços vectoriais complexos e da ‚-diferencia-
bilidade.

No caso em que I é o espaço cartesiano ‘7 , a definição de aplicação de


classe G 5 costuma ser dada em termos das derivadas parciais e não da
aplicação H0 À Y Ä PБ7 à J Ñ. Veremos adiante a equivalência das duas
definições (cf. I.7.6).

I.6.2 Sejam Y § I e 0 À Y Ä J uma aplicação de classe G 5 . Define-se


recursivamente a derivada de ordem 5 de 0 como sendo a aplicação
H5 0 À Y Ä P5 ÐIà J Ñ verificando as seguintes propriedades:
a) H! 0 À Y Ä P! ÐIà J Ñ œ J coincide com a aplicação 0 .
b) Supondo que 0 é de classe G 5" , podemos considerar a aplicação de
classe G 5 H0 À Y Ä PÐIà J Ñ e já sabemos recursivamente o que é a
derivada de ordem 5 H5 ÐH0 ÑÀ Y Ä P5 ÐIà PÐIà J ÑÑ, definindo-se então a
aplicação H5" 0 À Y Ä P5" ÐIà J Ñ como sendo a composição de H5 ÐH0 Ñ
com o isomorfismo
E" 5
5 À P ÐIà PÐIà J ÑÑ Ä P
5"
ÐIà J Ñ
referido em I.1.6. Por outras palavras, tem-se
H5" 0B Ð?" ß á ß ?5" Ñ œ H5 ÐH0 ÑB Ð?" ß á ß ?5 ÑÐ?5" Ñ.
Em particular, a aplicação H" 0 À Y Ä PÐIà J Ñ não é mais do que H0 .
I.6.3 No sentido de compreender melhor a definição precedente, examinemos o
caso particular, que se encontra com muita frequência, da derivada de
segunda ordem. Se 0 À Y Ä J é uma aplicação de classe G # , a derivada de
segunda ordem H# 0 À Y Ä P# ÐIà J Ñ associa a cada B − Y uma aplicação
bilinear H# 0B À I ‚ I Ä J definida pela igualdade
H# 0B Ð?ß @Ñ œ HÐH0 ÑB Ð?ÑÐ@Ñ.
Repare-se no significado do segundo membro da igualdade anterior: Uma
vez que H0 À Y Ä PÐIà J Ñ é uma aplicação de classe G " , em particular
diferenciável em cada ponto, faz sentido considerar a sua derivada no ponto
B e na direcção de ?, HÐH0 ÑB Ð?Ñ, a qual é um elemento do espaço de
chegada PÐIà J Ñ, ou seja, uma aplicação linear I Ä J , e portanto o valor
HÐH0 ÑB Ð?ÑÐ@Ñ desta aplicação linear em @ é um elemento de J .
Apesar da interpretação do segundo membro da igualdade anterior que
acabamos de referir, o cálculo da derivada de segunda ordem H# 0B Ð?ß @Ñ é
54 Cap. I. Álgebra Linear e Cálculo Diferencial

feito usualmente de um modo ligeiramente diferente, de modo a evitar ter que


derivar uma aplicação com valores num espaço de aplicações lineares
PÐIà J Ñ: O que se faz é utilizar I.5.14 para calcular HÐH0 ÑB Ð?ÑÐ@Ñ. Assim,
para determinar H# 0B Ð?ß @Ñ, seguir-se-á em geral o seguinte caminho:
1) Considerando @ fixado, considera-se a aplicação de Y para J , que a B
associa H0B Ð@Ñ.
2) Deriva-se a aplicação assim obtida no ponto B, na direcção de ?.
I.6.4 (Exemplos) a) Se 0 À Y Ä J é uma aplicação constante, então H0B œ !,
para cada B − Y , de onde resulta imediatamente que 0 é de classe G _ e com
H5 0 œ !, para cada 5   ".
b) Se 0À I Ä J é linear, sabemos que 0 é diferenciável em todos os pontos e
com H0B œ 0, para cada B − I , o que mostra que H0 é uma aplicação
constante. Concluímos daqui que 0 é uma aplicação de classe G _ e que
H5 0 œ 0, para cada 5   #.
c) Se " À J ‚ K Ä L é bilinear, já verificámos que " é diferenciável em
todos os pontos e com H"ÐBßCÑ Ð?ß @Ñ œ " Ð?ß CÑ  " ÐBß @Ñ, o que implica, em
particular, que H" À J ‚ K Ä PÐJ ‚ Kà LÑ é uma aplicação linear.
Concluímos daqui que " é uma aplicação de classe G _ e que H5 " œ !, para
cada 5   $.
I.6.5 Sejam os espaços vectoriais de dimensão finita I , J e K , Y § I um
aberto, 0 ß 1À Y Ä J duas aplicações de classe G 5 , - − ‘ e .À J Ä K uma
aplicação linear. São então de classe G 5 as aplicações 0  1À Y Ä J ,
-0 À Y Ä J e . ‰ 0 À Y Ä K e tem-se
H5 Ð0  1ÑB Ð?" ß á ß ?5 Ñ œ H5 0B Ð?" ß á ß ?5 Ñ  H 5 1B Ð?" ß á ß ?5 Ñ,
H5 Ð-0 ÑB Ð?" ß á ß ?5 Ñ œ -H5 0B Ð?" ß á ß ?5 Ñ
H5 Ð. ‰ 0 ÑB Ð?" ß á ß ?5 Ñ œ .ÐH5 0B Ð?" ß á ß ?5 ÑÑ.

A segunda conclusão é válida, mais geralmente, para cada - − ‚, no caso em


que J é um espaço vectorial complexo, e a primeira estende-se naturalmente,
por indução, à soma de um número finito de aplicações de classe G 5 .
Dem: A demonstração faz-se facilmente por indução em 5 . Repare-se, em
relação com a propriedade de composição com uma aplicação linear ., que a
igualdade HÐ. ‰ 0 ÑB Ð?Ñ œ .ÐH0B Ð?ÑÑ pode ser reescrita na forma
HÐ. ‰ 0 ÑB œ PÐM.I à .ÑÐH0B Ñ,
onde PÐM.I à .ÑÀ PÐIà J Ñ Ä PÐIà KÑ está definido em I.1.12. …
I.6.6 Se I e J são espaços vectoriais de dimensão finita, diz-se que uma
aplicação -À I Ä J é afim se existe uma aplicação linear -À I Ä J e um
elemento C − J tais que -ÐBÑ œ -ÐBÑ  C , para cada B − I . A aplicação
linear - e o elemento C − J estão univocamente determinados por - (reparar
que C œ -Ð!Ñ); diz-se que - é a aplicação linear associada à aplicação afim.
§6. Aplicações de classe G 5 55

É claro que toda a aplicação linear é uma aplicação afim, tendo ela mesmo
como aplicação linear associada.
I.6.7 Sejam I , J e K espaços vectoriais de dimensão finita, -À I Ä J uma
aplicação afim, de aplicação linear associada -, e Y § I e Z § J dois
conjuntos abertos tais que -ÐY Ñ § Z . Se 0 À Z Ä K é uma aplicação de
classe G 5 , tem-se então que 0 ‰ -ÎY À Y Ä K é também de classe G 5 e

H5 Ð0 ‰ -ÑB Ð?" ß á ß ?5 Ñ œ H5 0-ÐBÑ Ð-Ð?" Ñß á ß -Ð?5 ÑÑ.

Dem: Como anteriormente, a demonstração faz-se facilmente por indução


em 5 , reparando que a igualdade HÐ0 ‰ -ÎY ÑB Ð?Ñ œ H0-ÐBÑ Ð-Ð?ÑÑ se pode
escrever na forma
HÐ0 ‰ -ÎY ÑB œ PÐ-à M.K ÑÐH0-ÐBÑ Ñ,

onde PÐ-à M.K ÑÀ PÐJ à KÑ Ä PÐIà KÑ é uma aplicação linear. …


I.6.8 (A noção de aplicação de classe G é local) Sejam I e J espaços
5

vectoriais de dimensão finita, Y § I um conjunto aberto e 0 À Y Ä J uma


aplicação. Tem-se então:
a) Se 0 é de classe G 5 e se Z § Y é outro aberto, a restrição 0ÎZ À Z Ä J é
também de classe G 5 e, para cada 5 , H5 Ð0ÎZ Ñ œ ÐH5 0 ÑÎZ .
b) Se ÐY4 Ñ4−N é uma família de abertos de I , de união Y , tal que cada
restrição 0ÎY4 À Y4 Ä J seja de classe G 5 (ou, o que é equivalente, se, para
cada B − Y , existe um aberto Z , com B − Z § Y , tal que 0ÎZ seja de classe
G 5 ), então 0 é de classe G 5 .
I.6.9 Sejam os espaços vectoriais de dimensão finita I e, para cada " Ÿ 4 Ÿ :,
J4 , seja Y § I um aberto e seja, para cada " Ÿ 4 Ÿ :, 04 À Y Ä J4 uma
aplicação. Seja 0 À Y Ä J" ‚ â ‚ J: a aplicação cujas componentes são os
04 , isto é, a definida por
0 ÐBÑ œ Ð0" ÐBÑß á ß 0: ÐBÑÑ.

Tem-se então que 0 é de classe G 5 se, e só se, cada 04 é de classe G 5 e, nesse


caso,
H5 0B Ð?" ß á ß ?5 Ñ œ ÐH5 0" B Ð?" ß á ß ?5 Ñß á ß H 5 0: B Ð?" ß á ß ?5 ÑÑ.

Dem: Pode-se apresentar uma justificação decalcada pela de I.5.8. …


I.6.10 Sejam I e J espaços vectoriais de dimensão finita, Y § I um conjunto
aberto e 0 À Y Ä J uma aplicação de classe G 5 . Para cada ! Ÿ 4 Ÿ 5 tem-se
então que H4 0 À Y Ä P4 ÐIà J Ñ é uma aplicação de classe G 54 e
H54 ÐH4 0 ÑB Ð?" ß á ß ?54 ÑÐ?54" ß á ß ?5 Ñ œ H5 0B Ð?" ß á ß ?5 Ñ.

Dem: Repare-se que o caso em que 4 œ ! é trivial e aquele em que 4 œ " não
56 Cap. I. Álgebra Linear e Cálculo Diferencial

é mais do que a definição. Façamos então a demonstração por indução em 5 ,


o caso 5 œ ! sendo trivial. Suponhamos então o resultado válido para um
certo 5 e que 0 À Y Ä J é de classe G 5" e seja ! Ÿ 4 Ÿ 5 . Uma vez que
H0 À Y Ä PÐIà J Ñ é de classe G 5 , a hipótese de indução garante que
H4 ÐH0 ÑÀ Y Ä P4 ÐIà PÐIà J ÑÑ é de classe G 54 e com
H54 ÐH4 ÐH0 ÑÑB Ð?" ß á ß ?54 ÑÐ?54" ß á ß ?5 Ñ œ H 5 ÐH0 ÑB Ð?" ß á ß ?5 Ñ.

Reparemos agora que a igualdade de definição


H4" 0B Ð@" ß á ß @4" Ñ œ H4 ÐH0 ÑB Ð@" ß á ß @4 ÑÐ@4" Ñ

diz-nos que se tem, nas notações de I.1.6, H4" 0B œ E"


4 ÐH ÐH0 ÑB Ñ, onde
4

E4 À P ÐIà PÐIà J ÑÑ Ä P ÐIà J Ñ é uma aplicação linear, pelo que


" 4 4"

podemos concluir que H4" 0 À Y Ä P4" ÐIà J Ñ é de classe G 54 , ou seja,


G Ð5"ÑÐ4"Ñ , e que
HÐ5"ÑÐ4"Ñ ÐH4" 0 ÑB Ð?" ß á ß ?54 ÑÐ?54" ß á ß ?5" Ñ œ
œ E"
4 ÐH
54
ÐH4 ÐH0 ÑÑB Ð?" ß á ß ?54 Ñ ÑÐ?54" ß á ß ?5" Ñ œ
œ H54 ÐH4 ÐH0 ÑÑB Ð?" ß á ß ?54 ÑÐ?54" ß á ß ?5 ÑÐ?5" Ñ œ
œ H5 ÐH0 ÑB Ð?" ß á ß ?5 ÑÐ?5" Ñ œ
œ H5" 0B Ð?" ß á ß ?5" Ñ,

o que termina a prova por indução. …


I.6.11 Sejam I e J espaços vectoriais de dimensão finita, Y § I um aberto e
0 À Y Ä J uma aplicação de classe G 5 , tal que a aplicação derivada
H5 0 À Y Ä P5 ÐIà J Ñ seja de classe G 4 . Tem-se então que 0 é de classe
G 54 .
Dem: Tal como anteriormente, fazemos a demonstração por indução em 5 , o
caso 5 œ ! sendo trivial e o caso 5 œ " não sendo mais do que a definição.
Suponhamos o resultado válido para um certo 5 e que 0 À Y Ä J é de classe
G 5" e com H5" 0 À Y Ä P5" ÐIà J Ñ de classe G 4 . Tem-se então que
H0 À Y Ä PÐIà J Ñ é de classe G 5 e, reparando que a igualdade
H5 ÐH0 ÑB Ð?" ß á ß ?5 ÑÐ?5" Ñ œ H5" 0B Ð?" ß á ß ?5" Ñ
pode ser reescrita na forma H5 ÐH0 ÑB œ E5 ÐH5" 0B Ñ, concluímos que
H5 ÐH0 ÑÀ Y Ä P5 ÐIà PÐIà J ÑÑ é de classe G 4 . Pela hipótese de indução
podemos assim garantir que H0 À Y Ä PÐIà J Ñ é de classe G 54 e portanto
0 é de classe G 5"4 . …
I.6.12 Sejam I , J e K espaços vectoriais de dimensão finita, Y § I e Z § J
dois abertos e 0 À Y Ä Z e 1À Z Ä K duas aplicações de classe G 5 . Tem-se
então que 1 ‰ 0 À Y Ä K é também de classe G 5 .
Dem: Tal como nos casos anteriores, a demonstração faz-se por indução em
5 . No caso 5 œ ! temos simplesmente a asserção de a composta de duas
§6. Aplicações de classe G 5 57

aplicações contínuas ser ainda contínua. Suponhamos que o resultado é


válido para um certo 5 e que 0 e 1 são de classe G 5" . Sabemos que 1 ‰ 0 é
então diferenciável em todos os pontos e que, para cada B − Y ,
HÐ1 ‰ 0 ÑB œ H10 ÐBÑ ‰ H0B .

Uma vez que H1À Z Ä PÐJ à KÑ é de classe G 5 e que 0 À Y Ä Z é de classe


G 5 , concluímos, pela hipótese de indução, que tem lugar uma aplicação de
classe G 5 de Y em PÐJ à KÑ, que a cada B associa H10 ÐBÑ . Temos também
uma aplicação de classe G 5 H0 À Y Ä PÐIà J Ñ, pelo que obtemos uma
aplicação de classe G 5 de Y em PÐJ à KÑ ‚ PÐIà J Ñ, que a cada B − Y
associa o par ÐH10 ÐBÑ ß H0B Ñ, aplicação essa que, composta com a aplicação
de composição, que é uma aplicação bilinear, logo de classe G _ , de
PÐJ à KÑ ‚ PÐIà J Ñ em PÐIà KÑ, vai dar, mais uma vez pela hipótese de
indução, uma aplicação de classe G 5 de Y em PÐIà KÑ, a qual, como referi-
mos, não é mais do que HÐ1 ‰ 0 Ñ. Concluímos portanto que 1 ‰ 0 é de classe
G 5" . …
I.6.13 Sejam I e J espaços vectoriais de dimensão finita e J w § J um
subespaço vectorial. Sejam Y § I um conjunto aberto e 0 À Y Ä J uma
aplicação tal que 0 ÐY Ñ § J w . Tem-se então que 0 é de classe G 5 , como
aplicação de Y em J , se, e só se, 0 é de classe G 5 , como aplicação de Y em
J w , e, nesse caso, H5 0 é o mesmo dos dois pontos de vista.
I.6.14 Sejam I , J e K espaços vectoriais de dimensão finita, Y § I um aberto
e 0 À Y Ä PÐJ à KÑ uma aplicação. Para cada vector @ − J , notemos
0Ð@Ñ À Y Ä K a aplicação definida por 0Ð@Ñ ÐBÑ œ 0 ÐBÑÐ@Ñ. Tem-se então que 0
é de classe G 5 se, e só se, para cada @, 0Ð@Ñ é de classe G 5 e, quando isso
acontecer, tem-se, para ?" ß á ß ?5 − I ,
H5 0B! Ð?" ß á ß ?5 ÑÐ@Ñ œ H5 0Ð@Ñ B! Ð?" ß á ß ?5 Ñ.

Mais precisamente, dada uma base @" ß á ß @8 de J , para garantir que 0 é de


classe G 5 , basta verificar que 0Ð@Ñ é de classe G 5 quando @ é um dos 8
vectores daquela base.
Dem: Basta adaptar trivialmente a demonstração apresentada para I.5.14. …
I.6.15 Sejam N § ‘ um aberto, J um espaço vectorial de dimensão finita e
0 À N Ä J uma aplicação de classe G 5 . Define-se então uma aplicação
0 Ð5Ñ À N Ä J como sendo a composta da aplicação H5 0 À N Ä P5 Бà J Ñ com
o isomorfismo canónico EÀ P5 Бà J Ñ Ä J (cf. I.1.5). Por outras palavras,
0 Ð5Ñ Ð>Ñ œ H5 0> Ð"ß á ß "Ñ.

É claro que 0 Ð"Ñ é o que atrás se chamou 0 w e, em vez da notação 0 Ð#Ñ ,


ww
também é costume escrever 0 . Uma notação alternativa bem conhecida para
5
0 Ð5Ñ Ð>Ñ é ..>05 Ð>Ñ.
58 Cap. I. Álgebra Linear e Cálculo Diferencial

Vamos agora estabelecer uma propriedade muito importante da derivada


de segunda ordem de uma aplicação de classe G # , nomeadamente que ela
é sempre, em cada ponto, uma aplicação bilinear simétrica. Começamos,
para isso, por demonstrar um lema.

I.6.16 (Lema) Sejam I e J espaços vectoriais de dimensão finita, Y § I um


aberto, 0 À Y Ä J uma aplicação de classe G # e B! − Y . Para cada $  !,
existe então &  ! tal que, sempre que ?ß @ − I verificam m?m Ÿ & e
m@m Ÿ &, tem-se
m0 ÐB!  ?  @Ñ  0 ÐB!  ?Ñ  0 ÐB!  @Ñ  0 ÐB! Ñ  H# 0B! Ð?ß @Ñm Ÿ $m?mm@m.

Dem: Seja <  ! tal que a bola fechada de centro B! e raio < esteja contida
em Y e que, para cada B nessa bola fechada, mHÐH0 ÑB  HÐH0 ÑB! m Ÿ $ e
tomemos & œ #< . Seja ? − I tal que m?m Ÿ & e consideremos a aplicação 1Ð?Ñ ,
com valores em J , definida por
1Ð?Ñ ÐCÑ œ 0 ÐB!  ?  CÑ  0 ÐB!  CÑ

no aberto de I , contendo a bola fechada de centro ! e raio &, cujos elementos


são os C tais que B!  C − Y e B!  ?  C − Y . Tem-se
H1Ð?Ñ C Ð@Ñ œ H0B! ?C Ð@Ñ  H0B! C Ð@Ñ

ou seja, H1Ð?Ñ C œ H0B! ?C  H0B! C , e portanto, tendo em conta a terceira


versão da fórmula da média em I.5.20, com 0 œ HÐH0 ÑB! À I Ä PÐIà J Ñ,
podemos concluir que, para cada C na bola fechada de centro ! e raio &,
mH1Ð?Ñ C  HÐH0 ÑB! Ð?Ñm œ mH0B! ?C  H0B! C  HÐH0 ÑB! Ð?Ñm Ÿ $m?m.

Podemos agora aplicar segunda vez a mesma versão da fórmula da média,


com 0 œ HÐH0 ÑB! Ð?ÑÀ I Ä J , para garantir que, para cada @ − I com
m@m Ÿ &,
m0 ÐB!  ?  @Ñ  0 ÐB!  ?Ñ  0 ÐB!  @Ñ  0 ÐB! Ñ  H # 0B! Ð?ß @Ñm œ
œ m1Ð?Ñ Ð@Ñ  1Ð?Ñ Ð!Ñ  HÐH0 ÑB! Ð?ÑÐ@Ñm Ÿ $ m?mm@m. …

I.6.17 (Simetria da derivada de segunda ordem) Sejam I e J espaços


vectoriais de dimensão finita, Y § I um aberto e 0 À Y Ä J uma aplicação
de classe G # . Para cada B − Y , tem-se então que a derivada de segunda
ordem
H # 0B À I ‚ I Ä J
é uma aplicação bilinear simétrica, isto é, tem-se H# 0B Ð?ß @Ñ œ H# 0B Ð@ß ?Ñ,
quaisquer que sejam ?ß @ − I .
Dem: Seja $  ! arbitrário. Tendo em conta o lema anterior, podemos
considerar &  ! tal que, sempre que m?m Ÿ & e m@m Ÿ &, tem-se
§6. Aplicações de classe G 5 59

m0 ÐB  ?  @Ñ  0 ÐB  ?Ñ  0 ÐB  @Ñ  0 ÐBÑ  H# 0B Ð?ß @Ñm Ÿ $m?mm@m,

assim como, evidentemente, a desigualdade que se obtém desta por troca dos
papéis de ? e @. Uma vez que a soma das quatro primeiras parcelas dentro da
norma no primeiro membro fica invariante por troca dos papéis de ? e @,
concluímos que, sempre que m?m Ÿ & e m@m Ÿ &, tem-se
mH# 0B Ð@ß ?Ñ  H# 0B Ð?ß @Ñm Ÿ #$ m?mm@m.
Deduzimos agora que, se ? e @ são vectores não nulos arbitrários de I ,
podemos escrever
m?m &? m@m &@
?œ , @œ ,
& m?m & m@m
&? &@
com m?m e m@m vectores de norma &, pelo que podemos escrever

mH# 0B Ð@ß ?Ñ  H# 0B Ð?ß @Ñm œ


m?m m@m # &@ &? &? & @
œ mH 0B Ð ß Ñ  H # 0B Ð ß Ñm Ÿ
& & m@m m?m m?m m@m
m?m m@m
Ÿ ‚ # $ &# œ #$ m?mm@m,
& &
o que, tendo em conta a arbitrariedade de $  !, implica que
mH# 0B Ð@ß ?Ñ  H# 0B Ð?ß @Ñm œ !,
isto é, H# 0B Ð?ß @Ñ œ H# 0B Ð@ß ?Ñ, o que termina a demonstração, uma vez que
esta igualdade é trivialmente também verificada quando um dos vectores ? e
@ é !. …
I.6.18 (Corolário) Sejam Y § I um aberto e 0 À Y Ä J uma aplicação de
classe G 5 . Então, para cada B − Y , a aplicação multilinear
H5 0B À I ‚ â ‚ I Ä J é simétrica.
Dem: A demonstração faz-se por indução em 5 , a partir do caso 5 œ #, que
já foi demonstrado. Na passagem de 5 para 5  ", para vermos que
H5" 0B − P5" ÐIà J Ñ é simétrica, basta vermos que H5" 0B Ð?" ß á ß ?5" Ñ
não muda quando se troca ?4 com ?4" . No caso em que 4 Ÿ 5  ", isso é
uma consequência da hipótese de indução e do facto de se ter
H5" 0B Ð?" ß á ß ?5" Ñ œ H5 ÐH0 ÑB Ð?" ß á ß ?5 ÑÐ?5" Ñ.
No caso em que 4 œ 5 , isso é uma consequência da igualdade
H5" 0B Ð?" ß á ß ?5" Ñ œ H5" ÐH# 0 ÑB Ð?" ß á ß ?5" ÑÐ?5 ß ?5" Ñ,

desde que se repare que a aplicação de classe G 5" H# 0 À Y Ä P# ÐIà J Ñ


toma valores no subespaço vectorial P#=37 ÐIà J Ñ de P# ÐIà J Ñ, formado pelas
60 Cap. I. Álgebra Linear e Cálculo Diferencial

aplicações bilineares simétricas, o que implica que H5" ÐH# 0 ÑB aplica I 5"
em P#=37 ÐIà J Ñ. …

Como referimos no início desta secção, até agora apenas a


diferenciabilidade no sentido real interveio no que estivémos a estudar.
Vamos agora abordar rapidamente a adaptação do que temos estado a
fazer para o quadro da ‚-diferenciabilidade.

I.6.19 Sejam I e J espaços vectoriais complexos de dimensão finita, Y § I


um aberto e 0 À Y Ä J uma aplicação. Diz-se que 0 é uma aplicação
holomorfa se 0 é uma aplicação suave (isto é, de classe G _ , relativamente às
estruturas de espaço vectorial real de I e de J ) e, para cada B − Y , 0 é
‚-diferenciável em B (isto é, cada H0B À I Ä J é uma aplicação linear
complexa).
I.6.20 No sentido de aligeirar o texto, abstemo-nos de enunciar explicitamente os
resultados sobre aplicações holomorfas que resultam trivialmente dos corres-
pondentes resultados sobre aplicações suaves e da constatação que as
derivadas envolvidas são efectivamente aplicações lineares complexas. Por
exemplo, as constantes são holomorfas, tal como o são as aplicações lineares
complexas e as aplicações bilineares complexas, a composta de aplicações
holomorfas é holomorfa, etc…

A definição de aplicação holomorfa levanta talvez duas questões: Uma


sobre se não estaremos a “pedir demais”, outra sobre se não estaremos a
“pedir de menos”.
A primeira questão tem a ver com a razão por que nos limitamos a estudar
as aplicações de classe G _ que são ‚-diferenciáveis em cada ponto e não
estudamos, mais geralmente, as aplicações de classe G 5 que são ‚-dife-
renciáveis em cada ponto. A explicação está em que não se ganhava nada
com a generalização, na medida em se pode provar que toda a aplicação
que seja ‚-diferenciável em todos os pontos é automaticamente de classe
G _ (propriedade que evidentemente não é válida no quadro da
diferenciabilidade no sentido real). A propriedade que acabamos de referir
é extremamente forte e está infelizmente fora de questão podermos
abordar a sua justificação neste curso (o seu local natural é num curso
sobre funções de várias variáveis complexas).
A segunda questão tem a ver com a razão por que pedimos simplesmente
que a aplicação seja de classe G _ e ‚-diferenciável em todos os pontos e
não exigimos também que a aplicação H0 À Y Ä P‚ ÐIà J Ñ seja ainda
‚-diferenciável em todos os pontos. Esta segunda questão tem felizmente,
e como veremos a seguir, uma resposta muito mais simples que a
primeira.

I.6.21 Sejam I e J espaços vectoriais complexos de dimensão finita, Y § I


um aberto e 0 À Y Ä J uma aplicação holomorfa. Tem-se então que a
§6. Aplicações de classe G 5 61

aplicação H0 À Y Ä P‚ ÐIà J Ñ é também holomorfa e, para cada B − Y , a


derivada H# 0B À I ‚ I Ä J é bilinear complexa.
Dem: Como vamos ver, o resultado vai ser uma consequência simples do
facto de a derivada de segunda ordem em cada ponto ser uma aplicação
bilinear simétrica. Uma vez que H0 À Y Ä PÐIà J Ñ é de classe G _ , por isso
acontecer a 0 , e toma valores em P‚ ÐIà J Ñ, para vermos que esta aplicação é
holomorfa tudo o que temos que verificar é que, para cada B − Y ,
HÐH0 ÑB À I Ä P‚ ÐIà J Ñ é mesmo uma aplicação linear complexa. Tendo
em conta a igualdade de definição
H# 0B Ð?ß @Ñ œ HÐH0 ÑB Ð?ÑÐ@Ñ,
vemos que a aplicação bilinear H# 0B À I ‚ I Ä J é ‚-linear na segunda
variável e que o que queremos provar é que ela é também ‚-linear na
primeira variável. Ora, isso resulta do facto de esta aplicação bilinear ser
simétrica, visto que podemos escrever, para cada + − ‚,
H# 0B Ð+?ß @Ñ œ H# 0B Ð@ß +?Ñ œ + H # 0B Ð@ß ?Ñ œ + H # 0BÐ?ß @Ñ. …

I.6.22 Nas condições anteriores, para cada 5 , tem-se, mais geralmente, que as
derivadas H5 0B À I 5 Ä J são multilineares complexas e a aplicação
H5 0 À Y Ä P5‚ ÐIà J Ñ é holomorfa.
Dem: Demonstramos, por indução em 5   " que cada H5 0 À Y Ä P5‚ ÐIà J Ñ
é holomorfa e cada H5" 0B À I 5" Ä J é multilinear complexa, o caso 5 œ "
sendo o resultado precedente. Supondo o resultado verdadeiro para um certo
5 , podemos utilizá-lo com a aplicação holomorfa H0 À Y Ä P‚ ÐIà J Ñ para
garantir que
H5+1 ÐH0 ÑB À I 5" Ä P‚ ÐIà J Ñ
é multilinear complexa e a igualdade de definição
H5# 0B Ð?" ß á ß ?5# Ñ œ H5" ÐH0 ÑB Ð?" ß á ß ?5" ÑÐ?5# Ñ

mostra então que H5# 0B À I 5# Ä J é multilinear complexa. Este último


facto implica que a aplicação suave H5" 0 À Y Ä P5"
‚ ÐIà J Ñ é holomorfa,
5"
isto é, que cada HÐH 0 ÑB À I Ä P‚ ÐIà J Ñ é linear complexa, se
5"

tivermos em conta a igualdade


HÐH5" 0 ÑB Ð?" ÑÐ?# ß á ß ?5# Ñ œ H5# 0B Ð?" ß ?# ß á ß ?5# ÑÞ …
62 Cap. I. Álgebra Linear e Cálculo Diferencial

§7. Derivadas parciais.

I.7.1 Sejam os espaços vectoriais de dimensão finita I" ß á ß I: e J , o conjunto


aberto Y § I" ‚ â ‚ I: e a aplicação 0 À Y Ä J . Se ÐB" ! ß á ß B: ! Ñ − Y , e
se " Ÿ 4 Ÿ :, diz-se que 0 é 4-parcialmente diferenciável naquele ponto se
for diferenciável em B4 ! , como função da 4-ésima variável, isto é, se, sendo
Y4 o aberto de I4 , que contém B4 ! ,
Y4 œ ÖB4 − I4 ± ÐB" ! ß á ß B4" ! ß B4 ß B4" ! ß á ß B: ! Ñ − Y ×,

a aplicação 04 À Y4 Ä J , definida por


04 ÐB4 Ñ œ 0 ÐB" ! ß á ß B4" ! ß B4 ß B4" ! ß á ß B: ! Ñ,

é diferenciável em B4 ! . Nesse caso, define-se a 4-ésima derivada parcial de 0


naquele ponto como sendo o elemento
H4 0 ÐB" ! ß á ß B: ! Ñ œ H04 ÐB4 ! Ñ − PÐI4 à J Ñ,

que se nota também H4 0ÐB" ! ßáßB: ! Ñ .


I.7.2 Nas condições anteriores, e no caso em que um dos espaços vectoriais I4 é
‘, usa-se a notação
`0
ÐB" ! ß á ß B: ! Ñ
`B4

para o elemento
H4 0 ÐB" ! ß á ß B: ! ÑÐ"Ñ œ EÐH4 0 ÐB" ! ß á ß B: ! ÑÑ − J

(comparar com I.5.15).


I.7.3 Se Y é um aberto de I" ‚ â ‚ I: e se 0 À Y Ä J é diferenciável no
ponto ÐB" ! ß á ß B: ! Ñ − Y , então, para cada " Ÿ 4 Ÿ :, 0 é também
4-parcialmente diferenciável nesse ponto, tendo-se as seguintes relações entre
a derivada de 0 e as respectivas derivadas parciais:
H4 0ÐB" ! ßáßB: ! Ñ Ð?Ñ œ H0ÐB" ! ßáßB: ! Ñ Ð!ß á ß !ß ?ß !ß á ß !Ñ

(? na posição 4),

H0ÐB" ! ßáßB: ! Ñ Ð?" ß á ß ?: Ñ œ " H4 0ÐB" ! ßáßB: ! Ñ Ð?4 Ñ.


:

4œ"

Dem: A primeira igualdade é uma consequência simples do teorema da


§7. Derivadas parciais 63

derivação da função composta e a segunda resulta da primeira, tendo em


conta a linearidade da derivada e o facto de Ð?" ß á ß ?: Ñ ser soma de :
parcelas, cada uma com uma das coordenadas, 4, igual a ?4 e as restantes
coordenadas nulas. …
I.7.4 (Teorema Fundamental) Sejam Y um aberto de I" ‚ â ‚ I: e
0 À Y Ä J uma aplicação que, para cada " Ÿ 4 Ÿ :, seja 4-parcialmente
diferenciável em todos os pontos e com H4 0 À Y Ä PÐI4 à J Ñ contínua.
Tem-se então que 0 é diferenciável em todos os pontos.
Dem: Para ver que 0 é diferenciável no ponto ÐB" ! ß á ß B: ! Ñ, basta ver que
isso acontece à sua restrição a um aberto mais pequeno que contenha esse
ponto, pelo que se pode já supor que Y é da forma Y" ‚ â ‚ Y: , com cada
Y4 aberto convexo de I4 , contendo B4 ! . Nesse caso, escrevemos

0 ÐB" ß á ß B: Ñ œ 0 ÐB" ! ß á ß B: ! Ñ  " 14 ÐB" ß á ß B: Ñ,


:

4œ"

onde
14 ÐB" ß á ß B: Ñ œ 0 ÐB" ! ß á ß B4" ! ß B4 ß B4" ß á ß B: Ñ 
 0 ÐB" ! ß á ß B4" ! ß B4 ! ß B4" ß á ß B: Ñ,

e, para provarmos a diferenciabilidade de 0 em ÐB" ! ß á ß B: ! Ñ, ficamos


reduzidos a provar a diferenciabilidade de cada 14 nesse ponto. Para isso,
escrevemos
14 ÐB" ß á ß B: Ñ œ 14 ÐB" ! ß á ß B: ! Ñ  H4 0ÐB" ! ßáßB: ! Ñ ÐB4  B4 ! Ñ 
 !ÐB" ß á ß B: Ñ

e ficamos reduzidos a provar que a aplicação ! verifica a condição na


definição de diferenciabilidade, o que é uma consequência simples da conti-
nuidade de H4 0 e da terceira versão da fórmula da média (cf. I.5.20). …
I.7.5 Sejam Y um aberto de I" ‚ â ‚ I: e 0 À Y Ä J uma aplicação. Tem-se
então que 0 é de classe G 5" se, e só se, para cada " Ÿ 4 Ÿ :, 0 é
4-parcialmente diferenciável em todos os pontos e H4 0 À Y Ä PÐI4 à J Ñ é
uma aplicação de classe G 5 .
Dem: A base da demonstração é o resultado anterior. Consideram-se, além
disso, as injecções canónicas +4 À I4 Ä I" ‚ â ‚ I: e as projecções
canónicas 14 À I" ‚ â ‚ I: Ä I4 , às quais ficam associadas aplicações
lineares
PÐ+4 à M.J ÑÀ PÐI" ‚ â ‚ I: à J Ñ Ä PÐI4 à J Ñ,
PÐ14 à M.J ÑÀ PÐI4 à J Ñ Ä PÐI" ‚ â ‚ I: à J Ñ,

bastando então reparar que as fórmulas de I.7.3 podem ser traduzidas na


64 Cap. I. Álgebra Linear e Cálculo Diferencial

forma
H4 0 œ PÐ+4 à M.J Ñ ‰ H0 ,

H0 œ " PÐ14 à M.J Ñ ‰ H4 0 .


:
…
4œ"

I.7.6 (Corolário) Sejam J um espaço vectorial de dimensão finita, Y § ‘7 um


aberto e 0 À Y Ä J uma aplicação. tem-se então que 0 é de classe G 5" se, e
só se, 0 é 4-parcialmente diferenciável em todos os pontos e cada aplicação
`0
`B4 À Y Ä J é de classe G .
5

Dem: Basta atender a que, tendo em conta I.6.14, é equivalente dizer que
`0
H4 0 À Y Ä PБà J Ñ é de classe G 5 e dizer que `B 4
À Y Ä J é de classe G 5 . …

I.7.7 (Corolário) Seja 0À I" ‚ â ‚ I: Ä J uma aplicação multilinear. Tem-se


então que 0 é de classe G _ e

H0ÐB" ßáßB: Ñ Ð?" ß á ß ?: Ñ œ " 0ÐB" ß á ß B4" ß ?4 ß B4" ß á ß B: Ñ.16


:

4œ"

Dem: A demonstração faz-se por indução em :, reparando que o facto de 0


ser multilinear vai implicar que 0 é parcialmente diferenciável em cada ponto
relativamente a cada variável, com
H4 0ÐB" ßáßB: Ñ Ð?4 Ñ œ 0ÐB" ß á ß B4" ß ?4 ß B4" ß á ß B: Ñ,

o facto de cada H4 0À I" ‚ â ‚ I: Ä PÐI4 à J Ñ ser de classe G _ sendo


então uma consequência da hipótese de indução e do facto de a composta de
aplicações de classe G _ ser de classe G _ . …
I.7.8 (Regra de Leibnitz generalizada) Seja 0À J" ‚ â ‚ J: Ä K uma
aplicação multilinear. Sejam Y § I um aberto e, para cada " Ÿ 4 Ÿ :,
04 À Y Ä J4 uma aplicação diferenciável no ponto B! − Y (resp. uma
aplicação de classe G 5 ). Tem-se então que a aplicação 2À Y Ä K , definida
por
2ÐBÑ œ 0Ð0" ÐBÑß á ß 0: ÐBÑÑ,

é também diferenciável em B! e com

16Repare-se que a conclusão de I.5.11, em conjunto com a alínea c) de I.6.4 é


essencialmente o caso particular : œ # deste resultado, o que poderia levar a crer que a
sua apresentação naquele momento poderia ter sido uma perda de tempo. Tal não é o caso
visto que na demonstração adiante vamos utilizar o facto de a composta de aplicações de
classe G 5 ser ainda de classe G 5 , resultado que utiliza a versão : œ # na sua demons-
tração.
§7. Derivadas parciais 65

H2B! Ð?Ñ œ " 0Ð0" ÐB! Ñß á ß 04" ÐB! Ñß H04 B! Ð?Ñß 04" ÐB! Ñß á ß 0: ÐB!ÑÑ
:

4œ"

(resp. é uma aplicação de classe G 5 ).


Dem: Basta atender à regra de derivação da função composta e ao facto de 2
ser a composta de 0 com a aplicação de Y em J" ‚ â ‚ J: , que a B associa
Ð0" ÐBÑß á ß 0: ÐBÑÑ. …

Como aplicação da suavidade das aplicações multilineares e do valor da


sua derivada em cada ponto, podemos estudar a suavidade da função
determinante.

I.7.9 Seja I um espaço vectorial de dimensão finita sobre Š, igual a ‘ ou ‚. A


aplicação detÀ PÐIà IÑ Ä Š é então suave, sendo mesmo holomorfa no caso
em que Š œ ‚. Além disso, a sua derivada em M.I − PÐIà IÑ é dada por
H detM.I Ð!Ñ œ TrÐ!Ñ.

Dem: Fixemos uma base ?" ß á ß ?8 em I e consideremos o correspondente


isomorfismo FÀ PÐIà IÑ Ä I 8 definido por FÐ0Ñ œ Ð0Ð?" Ñß á ß 0Ð?8 ÑÑ. A
aplicação det ‰ F" À I 8 Ä Š vai ser multilinear, como consequência do
facto bem conhecido de o determinante de uma matriz do tipo 8 ‚ 8 ser
linear em cada coluna separadamente. Podemos concluir daqui que
det ‰ F" À I 8 Ä Š é suave e com

HÐdet ‰ F" ÑÐB" ßáßB8 Ñ Ð@" ß á ß @8 Ñ œ " det ‰ F" ÐB" ß á ß @4 ß á ß B8 Ñ


8

4œ"

pelo que, compondo com o isomorfismo F, vemos que detÀ PÐIà IÑ Ä Š é


suave e com
H det0 Ð!Ñ œ HÐdet ‰ F" ÑÐ0Ð?" Ñßáß0Ð?8 ÑÑ Ð!Ð?" Ñß á ß !Ð?8 ÑÑ œ

œ " det ‰ F" Ð0Ð?" Ñß á ß !Ð?4 Ñß á ß 0Ð?8 ÑÑ,


8

4œ"

holomorfa, no caso em que Š œ ‚. Escrevendo agora !Ð?4 Ñ œ ! +5ß4 ?5 , o


fórmula que nos mostra, em particular, que detÀ PÐIà IÑ Ä Š é mesmo

facto de se ter det ‰ F" Ð?" ß á ß ?4" ß ?4 ß ?4" ß á ß ?8 Ñ œ detÐM.I Ñ œ " e,


para cada 5 Á 4, det ‰ F" Ð?" ß á ß ?4" ß ?5 ß ?4" ß á ß ?8 Ñ œ ! (determinante
de uma matriz com duas colunas iguais) implica que se tem
det ‰ F" Ð?" ß á ß !Ð?4 Ñß á ß ?8 Ñ œ
66 Cap. I. Álgebra Linear e Cálculo Diferencial

œ " +5ß4 det ‰ F" Ð?" ß á ß ?4" ß ?5 ß ?4" ß á ß ?8 Ñ œ


8

5œ"
œ +4ß4 det ‰ F" Ð?" ß á ß ?4" ß ?4 ß ?4" ß á ß ?8 Ñ œ +4ß4

pelo que obtemos, em particular,

H detM.I Ð!Ñ œ " det ‰ F" Ð?" ß á ß !Ð?4 Ñß á ß ?8 Ñ œ " +4ß4 œ TrÐ!Ñ,
8 8

4œ" 4œ"

como queríamos. …

§8. Teoremas da função implícita e da função inversa.

I.8.1 Sejam I e J espaços vectoriais reais (respectivamente complexos) de


dimensão finita e notemos P3=9 ÐIà J Ñ o subconjunto de PÐIà J Ñ formado
pelos isomorfismos de I sobre J . Tem-se então que P3=9 ÐIà J Ñ é um
subconjunto aberto, eventualmente vazio, de PÐIà J Ñ e a aplicação
FÀ P3=9 ÐIà J Ñ Ä PÐJ à IÑ , FÐ0Ñ œ 0" ,
é de classe G _ (respectivamente é holomorfa) e verifica
HF0 Ð(Ñ œ 0" ‰ ( ‰ 0" .

Dem: Vamos dividir a demonstração em várias alíneas:


a) Vamos começar por provar que, se 0 − PÐIà IÑ verifica m0  M.I m Ÿ "# ,
então 0 é invertível e m0" m Ÿ #. Ora, de se ter
"
m0ÐBÑ  Bm œ mÐ0  M.I ÑÐBÑm Ÿ mBm,
#
deduzimos que
"
mBm Ÿ mB  0ÐBÑm  m0ÐBÑm Ÿ mBm  m0ÐBÑm,
#
donde
"
m0ÐBÑm   mBm.
#
Resulta daqui que, se 0ÐBÑ œ !, então B œ !, o que mostra que 0 é injectiva,
logo um isomorfismo de I sobre I e, fazendo agora B œ 0" ÐCÑ, obtemos
mCm   "# m0" ÐCÑm, ou seja, m0" ÐCÑm Ÿ #mCm, o que mostra que m0" m Ÿ #.
b) O que vimos em a) mostra que M. é interior a P3=9 ÐIà IÑ em PÐIà IÑ.
Reparemos agora que, para cada 0 − P3=9 ÐIà J Ñ, tem lugar um isomorfismo
§8. Teoremas da função implícita e da função inversa 67

de PÐIà IÑ sobre PÐIà J Ñ, que a cada - associa 0 ‰ -, o isomorfismo


inverso aplicando . em 0" ‰ .. Uma vez que este isomorfismo, em
particular homeomorfismo, aplica P3=9 ÐIà IÑ sobre P3=9 ÐIà J Ñ e M.I em 0,
concluímos que 0 é interior a P3=9 ÐIà J Ñ em PÐIà J Ñ, o que mostra que
P3=9 ÐIà J Ñ é aberto em PÐIà J Ñ.
c) Vamos verificar que, no caso particular em que I œ J , F é diferenciável
em M.I , em particular contínua nesse ponto, e que
HFM.I Ð(Ñ œ (.

Para isso, escrevemos


FÐ0Ñ œ FÐM.I Ñ  Ð0  M.I Ñ  !Ð0Ñ
e tentamos mostrar que a aplicação ! verifica a condição na definição de
diferenciabilidade. Ora, podemos escrever
!Ð0Ñ œ 0"  M.I  0  M.I œ 0" ‰ Ð0  M.I Ñ ‰ Ð0  M.I Ñ

pelo que, dado $  !, vem, sempre que m0  M.I m Ÿ minÐ #$ ß "# Ñ, tendo em
conta a conclusão de a),
m!Ð0Ñm Ÿ m0" mm0  M.I mm0  M.I m Ÿ
$
Ÿ # m0  M.I m œ $ m0  M.I m,
#
como queríamos.
d) Seja agora 0 − P3=9 ÐIà J Ñ arbitrário. Notemos GÀ PÐIà J Ñ Ä PÐIà IÑ e
sÀ PÐIà IÑ Ä PÐJ à IÑ as aplicações lineares definidas por
G
sÐ.Ñ œ . ‰ 0" ,
GÐ-Ñ œ 0" ‰ - , G
a primeira das quais aplica P3=9 ÐIà J Ñ sobre P3=9 ÐIà IÑ e 0 em M.I .
Notando agora F! a aplicação F no caso particular em que I œ J , o facto
de se ter, para cada - − P3=9 ÐIà J Ñ,
-" œ Ð0" ‰ -Ñ" ‰ 0" ,

permite-nos escrever F œ G s ‰ F! ‰ G/P3=9 ÐIàJ Ñ pelo que o facto de F! ser


diferenciável em M.I , e com derivada aplicando ( em (, implica, pelo
teorema da derivação da função composta, que a aplicação F é diferenciável
em 0, e com
sÐGÐ(ÑÑ œ 0" ‰ ( ‰ 0" .
H F 0 Ð( Ñ œ G

e) Acabamos de ver que F é diferenciável, em particular contínua, em todos


os pontos do aberto P3=9 ÐIà J Ñ de PÐIà J Ñ e com
HF0 Ð(Ñ œ FÐ0Ñ ‰ ( ‰ FÐ0Ñ.
68 Cap. I. Álgebra Linear e Cálculo Diferencial

Se repararmos que tem lugar uma aplicação bilinear, em particular de classe


G _ , de PÐJ à IÑ ‚ PÐJ à IÑ em PÐPÐIà J Ñà PÐJ à IÑÑ, que a cada Ð!ß "Ñ
associa a aplicação linear ( È ! ‰ ( ‰ " , concluímos por indução, utilizando
I.6.12, que F é de classe G 5 , para todo o 5 , isto é, de classe G _ . Além disso,
no caso em que os espaços vectoriais são complexos, a fórmula obtida para
HF0 mostra que se trata de uma aplicação linear complexa, pelo que F é uma
aplicação holomorfa. …
I.8.2 (Um lema, caso particular do teorema das funções implícitas) Sejam I
e J espaços vectoriais reais (respectivamente complexos) de dimensão finita,
H § I ‚ J um conjunto aberto, 0 À H Ä J uma aplicação de classe G 5" ,
onde ! Ÿ 5 Ÿ _, (respectivamente uma aplicação holomorfa) e B! − I tal
que ÐB! ß !Ñ − H, que 0 ÐB! ß !Ñ œ ! e que H# 0ÐB! ß!Ñ œ M.J . Existem então um
aberto Y de I , com B! − Y , e um aberto Z de J , com ! − Z , tais que
Y ‚ Z § H e que se verifiquem as condições seguintes:
a) Para cada B − Y , existe um, e um só, C − Z tal que 0 ÐBß CÑ œ !;
b) A aplicação 1À Y Ä Z , definida por 0 ÐBß 1ÐBÑÑ œ !, é de classe G 5"
(respectivamente é holomorfa).
Dem: Tendo em conta a continuidade de H# 0 À H Ä PÐJ à J Ñ e o facto de
P3=9 ÐJ à J Ñ ser aberto em PÐJ à J Ñ, podemos fixar V w  ! tal que,
considerando as bolas abertas de centros B! e ! e raio V w , se tenha
FVw ÐB! Ñ ‚ FVw Ð!Ñ § H e, para cada B − FVw ÐB! Ñ e C − FVw Ð!Ñ,
H# 0ÐBßCÑ − PÐJ à J Ñ seja um isomorfismo, verificando
"
(1) mH# 0ÐBßCÑ  M.J m Ÿ .
#
Fixemos !  V  V w . A continuidade de 0 implica a existência de
!  < Ÿ V tal que, para cada B − F< ÐB! Ñ,
V
(2) m0 ÐBß !Ñm œ m0 ÐBß !Ñ  0 ÐB! ß !Ñm  .
#
Para cada B − F< ÐB! Ñ, seja 2ÐBÑ À FVw Ð!Ñ Ä J a aplicação de classe G 5"
definida por
(3) 2ÐBÑ ÐCÑ œ C  0 ÐBß CÑ.
ÐBÑ "
Tem-se mH2C m œ mM.J  H# 0ÐBßCÑ m Ÿ # pelo que, pela fórmula da média,
vem, para Cß C w − FVw Ð!Ñ,
"
(4) m2ÐBÑ ÐCÑ  2ÐBÑ ÐC w Ñm Ÿ mC  C w m.
#
Em particular, para cada C na bola fechada de centro ! e raio V , F V Ð!Ñ,
" V
(5) m2ÐBÑ ÐCÑm œ m2ÐBÑ ÐCÑ  2ÐBÑ Ð!Ñ  0 ÐBß !Ñm  mCm  Ÿ V,
# #
§8. Teoremas da função implícita e da função inversa 69

o que mostra que 2ÐBÑ aplica F V Ð!Ñ em FV Ð!Ñ. O teorema do ponto fixo para
aplicações contractivas implica agora que, para cada B − Y œ F< ÐB! Ñ, existe
um, e um só, C − Z œ FV Ð!Ñ, tal que 2ÐBÑ ÐCÑ œ C , isto é, tal que
0 ÐBß CÑ œ !. Notando C œ 1ÐBÑ, resta-nos ver que a aplicação 1À Y Ä Z é de
classe G 5" . Seja Q  mH" 0ÐB! ß!Ñ m. Suponhamos que V w foi escolhido
suficientemente pequeno para que, para cada B − FVw ÐB! Ñ e C − FVw Ð!Ñ, se
tenha mH" 0ÐBßCÑ m Ÿ Q ; pela fórmula da média, deduzimos então que, se
Bß Bw − Y e C − Z , tem-se
(6) m0 ÐBß CÑ  0 ÐBw ß CÑm Ÿ Q mB  Bw m.
Usando (4), obtemos agora, para Bß Bw − Y ,
w
m1ÐBÑ  1ÐBw Ñm œ m2 ÐBÑ Ð1ÐBÑÑ  2 ÐB Ñ Ð1ÐBw ÑÑm Ÿ
w w w
Ÿ m2ÐBÑ Ð1ÐBÑÑ  2 ÐB Ñ Ð1ÐBÑÑm  m2 ÐB Ñ Ð1ÐBÑÑ  2 ÐB Ñ Ð1ÐBw ÑÑm Ÿ
"
Ÿ m0 ÐBw ß 1ÐBÑÑ  0 ÐBß 1ÐBÑÑm  m1ÐBÑ  1ÐBw Ñm Ÿ
#
w " w
Ÿ Q mB  B m  m1ÐBÑ  1ÐB Ñm,
#
de onde se deduz que "# m1ÐBÑ  1ÐBw Ñm Ÿ Q mB  Bw m, ou seja,
(7) m1ÐBÑ  1ÐBw Ñm Ÿ #Q mB  Bw m.
Esta última fórmula implica, em particular, a continuidade da aplicação 1.
Vamos agora ver que, para cada B" − Y , 1 é diferenciável em B" , e com
(8) H1B" œ ÐH# 0ÐB" ß1ÐB" ÑÑ Ñ" ‰ H" 0ÐB" ß1ÐB" ÑÑ .

Para isso, ponhamos


(9) 1ÐBÑ œ 1ÐB" Ñ  ÐH# 0ÐB" ß1ÐB" ÑÑ Ñ" ‰ H" 0ÐB" ß1ÐB" ÑÑ ÐB  B" Ñ  !ÐBÑ

e provemos que a aplicação ! verifica as condições da definição de


diferenciabilidade. Seja $  ! arbitrário. Seja Q w œ mÐH# 0ÐB" ß1ÐB" ÑÑ Ñ" m. Pela
diferenciabilidade da aplicação 0 no ponto ÐB" ß 1ÐB" ÑÑ, existe &  ! tal que,
sempre que mÐBß CÑ  ÐB" ß 1ÐB" ÑÑm Ÿ &, se tenha
m0 ÐBß CÑ  H" 0ÐB" ß1ÐB" ÑÑ ÐB  B" Ñ  H# 0ÐB" ß1ÐB" ÑÑ ÐC  1ÐB" ÑÑm Ÿ
(10) $
Ÿ w mÐBß CÑ  ÐB" ß 1ÐB" ÑÑm.
Q Ð"  #Q Ñ
&
Se B − Y verifica a condição mB  B" m Ÿ minÐ&ß #Q Ñ, tem-se, por (7),
mÐBß 1ÐBÑÑ  ÐB" ß 1ÐB" ÑÑm Ÿ & e, pondo C œ 1ÐBÑ em (10), vem
70 Cap. I. Álgebra Linear e Cálculo Diferencial

mH" 0ÐB" ß1ÐB" ÑÑ ÐB  B" Ñ  H# 0ÐB" ß1ÐB" ÑÑ Ð1ÐBÑ  1ÐB" ÑÑm Ÿ


$
Ÿ w mÐBß 1ÐBÑÑ  ÐB" ß 1ÐB" ÑÑm Ÿ
(11) Q Ð"  #Q Ñ
$
Ÿ w mB  B" m,
Q
donde
m!ÐBÑm œ mÐH# 0ÐB" ß1ÐB" ÑÑ Ñ" ˆH# 0ÐB" ß1ÐB" ÑÑ Ð1ÐBÑ  1ÐB" ÑÑ 
 H" 0ÐB" ß1ÐB" ÑÑ ÐB  B" щm Ÿ $ mB  B" m,
(12)

o que mostra a diferenciabilidade pretendida.


A igualdade H1B œ ÐH# 0ÐBß1ÐBÑÑ Ñ" ‰ H" 0ÐBß1ÐBÑÑ mostra-nos agora, tendo
em conta I.8.1 e o facto de a composição ser uma aplicação bilinear de
PÐJ à J Ñ ‚ PÐIà J Ñ em PÐIà J Ñ, que H1À Y Ä PÐIà J Ñ é uma aplicação
contínua. O mesmo raciocínio vai-nos mostrar, por indução, que H1 é de
classe G 3 , para cada 3 Ÿ 5 , o que prova que 1 é de classe G 5" . No caso em
que os espaços vectoriais são complexos e 0 é holomorfa, esta mesma
igualdade mostra que 1 é holomorfa. …
I.8.3 (Teorema das funções implícitas) Sejam I , J e K espaços vectoriais
reais (respectivamente complexos) de dimensão finita, H § I ‚ J um
conjunto aberto, 0 À H Ä K uma aplicação de classe G 5" , onde
! Ÿ 5 Ÿ _, (respectivamente uma aplicação holomorfa) e ÐB! ß C! Ñ − H e
D! − K, tais que 0 ÐB! ß C! Ñ œ D! e que H# 0ÐB! ßC! Ñ − PÐJ à KÑ seja um iso-
morfismo. Existem então conjuntos abertos Y , de I , e Z , de J , com
B! − Y , C! − Z e Y ‚ Z § H, verificando as condições seguintes:
a) Para cada B − Y , existe um, e um só, C − Z tal que 0 ÐBß CÑ œ D! ;
b) A aplicação 1À Y Ä Z , definida por 0 ÐBß 1ÐBÑÑ œ D! , é de classe G 5"
(respectivamente é holomorfa).
Dem: Seja 0À K Ä J a aplicação linear inversa do isomorfismo H# 0ÐB! ßC! Ñ .
Seja Hs o aberto de I ‚ J formado pelos ÐBß CÑ tais que ÐBß C!  CÑ − H e
seja s0 À H
s Ä J a aplicação de classe G 5" (respectivamente holomorfa)
definida por
s0 ÐBß CÑ œ 0Ð0 ÐBß C!  CÑ  D! Ñ,

a qual verifica s0 ÐB! ß !Ñ œ ! e H#s0 ÐB! ß!Ñ œ 0 ‰ H# 0ÐB! ßC! Ñ œ M.J . Aplicando o
lema anterior a s0 , concluímos a existência de um aberto Y de I , com
B! − Y , e de um aberto Z s de J , com ! − Z s , com a correspondente aplicação
de classe G 5"
(respectivamente holomorfa) s1À Y Ä Z s e, sendo
s
Z œ C!  Z , Y e Z vão verificar as condições do enunciado, com 1À Y Ä Z
definido por 1ÐBÑ œ C!  s1ÐBÑ. …
§8. Teoremas da função implícita e da função inversa 71

I.8.4 Sejam I e J espaços vectoriais de dimensão finita, Y § I e Z § J


conjuntos abertos e 0 À Y Ä Z uma bijecção. Diz-se que 0 é um difeomor-
fismo de classe G 5 se tanto 0 como 0 " são aplicações de classe G 5 . No caso
em que 5 œ _, dizemos simplesmente que 0 é um difeomorfismo. No caso
em que I e J são espaços vectoriais complexos, diz-se que 0 À Y Ä Z é um
difeomorfismo holomorfo se for uma bijecção e 0 À Y Ä Z e 0 " À Z Ä Y
forem aplicações holomorfas.
I.8.5 Sejam I e J espaços vectoriais de dimensão finita, Y § I e Z § J
conjuntos abertos e 0 À Y Ä Z um difeomorfismo de classe G 5 , com 5   ".
Para cada B − Y , H0B À I Ä J é um isomorfismo com inverso HÐ0 " Ñ0 ÐBÑ .
Em particular, no caso em que I e J são espaços vectoriais complexos, se
0 À Y Ä Z é um difeomorfismo e é aplicação holomorfa, então 0 À Y Ä Z é
mesmo um difeomorfismo holomorfo.
Dem: Por derivação das identidades 0 " ‰ 0 œ M.Y e 0 ‰ 0 " œ M.Z , em B
e em 0 ÐBÑ, respectivamente, obtemos HÐ0 " Ñ0 ÐBÑ ‰ H0B œ M.I e
H0B ‰ HÐ0 " Ñ0 ÐBÑ œ M.J , o que implica que H0B é um isomorfismo, com
inverso HÐ0 " Ñ0 ÐBÑ . No caso em que, além disso, I e J são espaços
vectoriais complexos e o difeomorfismo 0 é uma aplicação holomorfa, o
facto de cada H0B ser uma aplicação linear complexa implica que cada
HÐ0 " Ñ0 ÐBÑ é uma aplicação linear complexa, e portanto que a aplicação de
classe G _ 0 " À Z Ä Y é também holomorfa. …

O teorema da função inversa, que demonstramos em seguida, é um


recíproco local da primeira parte do resultado precedente.

I.8.6 (Teorema da função inversa) Sejam I e J espaços vectoriais reais (res-


pectivamente complexos) de dimensão finita, Y § I um aberto, 0 À Y Ä J
uma aplicação de classe G 5" , onde ! Ÿ 5 Ÿ _, (respectivamente uma
aplicação holomorfa) e B! − Y tal que H0B! À I Ä J seja um isomorfismo.
Existe então um aberto Y w de I , com B! − Y w § Y , tal que a restrição 0ÎY w
seja um difeomorfismo de classe G 5" (respectivamente um difeomorfismo
holomorfo) de Y w sobre um aberto Z de J .
Dem: Seja 1À J ‚ Y Ä J a aplicação de classe G 5" definida por
1ÐCß BÑ œ 0 ÐBÑ  C . Tem-se 1Ð0 ÐB! Ñß B! Ñ œ ! e H# 1Ð0 ÐB! ÑßB! Ñ œ H0B! pelo
que, pelo teorema das funções implícitas, concluímos a existência de um
aberto Y ww de I , com B! − Y ww § Y , e de um aberto Z de J , com
0 ÐB! Ñ − Z , tais que, para cada C − Z , existe um, e um só, B − Y ww tal que
1ÐCß BÑ œ !, isto é, tal que 0 ÐBÑ œ C , e que, notando B œ 2ÐCÑ, a aplicação
2À Z Ä Y ww é de classe G 5" . Sendo Y w o conjunto dos B − Y ww tais que
0 ÐBÑ − Z , Y w vai ser um aberto de I , contendo B! e contido em Y , e a
restrição de 0 a Y w vai ser uma bijecção de Y w sobre Z , que é de classe G 5" ,
assim como a sua inversa, que não é mais do que a aplicação 2 . …
72 Cap. I. Álgebra Linear e Cálculo Diferencial

§9. Integral de funções vectoriais de variável real.

Ao contrário do Cálculo Diferencial, que temos estado a rever, que será


constantemente utilizado ao longo deste livro, as propriedades
elementares do Cálculo Integral, para funções contínuas de variável real e
com valores num espaço vectorial de dimensão finita, que vamos abordar
nesta e na próxima secção vão ser utilizadas com muito menor frequência.
Elas serão utilizadas apenas no estudo das equações diferenciais ordiná-
rias e na construção da reparametrização por comprimento de arco de um
caminho. A maior parte das demonstrações será omitida, por se tratar de
aplicações directas das propriedades da convergência de sucessões
generalizadas ou de adaptações triviais de demonstrações já conhecidas
no quadro das funções reais de variável real.

I.9.1 Sejam + e , dois números reais, com + Ÿ , . Chama-se partição do


intervalo Ò+ß ,Ó a um subconjunto finito T de Ò+ß ,Ó, que contenha + e , . Um
tal subconjunto pode sempre escrever-se, de uma única maneira, na forma
T œ Ö+! ß +" ß á ß +R ×, com + œ +!  +"  â  +R œ , , tendo-se evidente-
mente R œ !, se + œ , , e R   ", se +  , , caso em que se dá o nome de
diâmetro da partição ao maior dos números +4  +4" . A partição T w é mais
fina que a partição T se se tem T w ¨ T ; o conjunto das partições de Ò+ß ,Ó,
com esta relação, fica a ser um sistema parcialmente ordenado filtrante, por-
tanto um bom candidato para conjunto de índices de uma sucessão genera-
lizada.
I.9.2 Sejam J um espaço vectorial de dimensão finita e 0 À Ò+ß ,Ó Ä J uma
aplicação contínua. Para cada partição T œ Ö+! ß +" ß á ß +R × de Ò+ß ,Ó, com
+ œ +!  +"  â  +R œ , , defina-se um elemento WT Ð0 Ñ − J , por

WT Ð0 Ñ œ " Ð+4  +4" Ñ0 Ð+4 Ñ.


R

4œ"

A família dos WT Ð0 Ñ é então uma sucessão generalizada de elementos de J ,


que se verifica facilmente ser de Cauchy, pelo que converge, e ao seu limite
dá-se o nome de integral da aplicação 0 no intervalo Ò+ß ,Ó, notado
' , 0 Ð>Ñ .>.
+

I.9.3 Sejam J e K espaços vectoriais de dimensão finita e -À J Ä K uma


aplicação linear. Se 0 À Ò+ß ,Ó Ä J é uma aplicação contínua, tem-se

( -Ð0 Ð>ÑÑ .> œ -ˆ( 0 Ð>Ñ .>‰.


, ,

+ +
§9. Integral de funções vectoriais de variável real 73

I.9.4 Sejam J um espaço vectorial de dimensão finita, 0 ß 1À Ò+ß ,Ó Ä J duas


aplicações contínuas, - − ‘ e B − J . Tem-se então

( 0 Ð>Ñ  1Ð>Ñ .> œ ( 0 Ð>Ñ .>  ( 1Ð>Ñ .>,


, , ,

+ + +

( -0 Ð>Ñ .> œ - ( 0 Ð>Ñ .>,


, ,

+ +

( B .> œ Ð,  +ÑB,
,

a primeira igualdade podendo ser trivialmente generalizada, por indução, a


uma soma com um número finito de parcelas e a segunda igualdade sendo
válida, mais geralmente, para - − ‚, no caso em que J é um espaço vectorial
complexo.
I.9.5 Para cada " Ÿ 4 Ÿ :, seja J4 um espaço vectorial de dimensão finita e seja
04 À Ò+ß ,Ó Ä J4 uma aplicação contínua. Sendo 0 À Ò+ß ,Ó Ä J" ‚ â ‚ J: a
aplicação contínua definida por
0 Ð>Ñ œ Ð0" Ð>Ñß á ß 0: Ð>ÑÑ,

tem-se

( 0 Ð>Ñ .> œ ˆ( 0" Ð>Ñ .>ß á ß ( 0: Ð>Ñ .>‰.


, , ,

+ + +

(comparar com o que se disse na demonstração de I.5.8).


I.9.6 Seja J um espaço vectorial de dimensão finita, sobre o qual se considera
uma norma. Se 0 À Ò+ß ,Ó Ä J é uma aplicação contínua, tem-se

¼( 0 Ð>Ñ .>¼ Ÿ ( m0 Ð>Ñm .>.


, ,

+ +

I.9.7 Se 0 ß 1À Ò+ß ,Ó Ä ‘ são aplicações contínuas tais que 0 Ð>Ñ Ÿ 1Ð>Ñ, para cada
>, então

( 0 Ð>Ñ .> Ÿ ( 1Ð>Ñ .>.


, ,

+ +

I.9.8 Sejam 0 À Ò+ß ,Ó Ä J uma aplicação contínua e - − Ò+ß ,Ó. Tem-se então

( 0 Ð>Ñ .> œ ( 0 Ð>Ñ .>  ( 0 Ð>Ñ .>.


, - ,

+ + -
74 Cap. I. Álgebra Linear e Cálculo Diferencial

Em particular, tem-se

(
+
0 Ð>Ñ .> œ !.
+

I.9.9 Sejam N § ‘ um intervalo, J um espaço vectorial de dimensão finita e


0 À N Ä J uma aplicação contínua. Já se sabe o que é '+ 0 Ð>Ñ .> no caso em
,

que + Ÿ , são dois elementos de N , e generaliza-se esta definição pondo, no


caso em que +  , ,

( 0 Ð>Ñ .> œ (
, +
0 Ð>Ñ .>.
+ ,

Verifica-se então, após uma discussão fácil, que são válidas, quaisquer que
sejam +ß ,ß - − N , as igualdades

( 0 Ð>Ñ .> œ (
, +
0 Ð>Ñ .>,
+ ,

( 0 Ð>Ñ .> œ ( 0 Ð>Ñ .>  ( 0 Ð>Ñ .>.


, - ,

+ + -

I.9.10 Sejam N § ‘ um intervalo aberto, J um espaço vectorial de dimensão


finita e 0 À N Ä J uma aplicação contínua. Seja + − N fixado e seja
s0 À N Ä J a aplicação integral indefinido, definida por

s0 Ð>Ñ œ ( 0 Ð=Ñ .=.


>

+
w
Tem-se então que 0 é diferenciável em todos os pontos e s0 Ð>Ñ œ 0 Ð>Ñ.
I.9.11 (Fórmula de Barrow) Sejam N § ‘ um intervalo aberto, J um espaço
vectorial de dimensão finita, 0 À N Ä J uma aplicação contínua e s0 À N Ä J
w
uma aplicação diferenciável em todos os pontos e com s0 Ð>Ñ œ 0 Ð>Ñ, para
cada > − N . Tem-se então, para cada +ß , − N ,

( 0 Ð>Ñ .> œ s0 Ð,Ñ  s0 Ð+Ñ.


,

§10. Diferenciabilidade do integral paramétrico.

I.10.1 Sejam N § ‘ um intervalo, I e J espaços vectoriais de dimensão finita,


E § I um conjunto arbitrário e 0 À N ‚ E Ä J uma aplicação contínua. Se
+ß , − N , tem então lugar uma aplicação contínua 1À E Ä J (o integral para-
§10. Diferenciabilidade do integral paramétrico 75

métrico), definida por

1ÐBÑ œ ( 0 Ð>ß BÑ .>.


,

Dem: Suponhamos já que + Ÿ , e provemos a continuidade de 1 em B! − E.


Seja $  ! arbitrário e fixemos $ w  ! tal que Ð,  +Ñ$ w  $ . Pela
continuidade uniforme (no sentido forte) de 0 no compacto Ò+ß ,Ó ‚ ÖB! ×,
existe &  ! tal que, sempre que > − Ò+ß ,Ó e B − E verifica mB  B! m  &,
tem-se m0 Ð>ß BÑ  0 Ð>ß B! Ñm Ÿ $ w . Sempre que B − E verifica mB  B! m  &
tem-se então

m1ÐBÑ  1ÐB! Ñm Ÿ ( m0 Ð>ß BÑ  0 Ð>ß B! Ñm.> Ÿ $ w Ð,  +Ñ  $.


,
…
+

I.10.2 Mais geralmente, nas condições anteriores, tem lugar, para cada + − N ,
uma aplicação contínua 2À N ‚ E Ä J (misto de integral paramétrico e de
integral indefinido), definida por

2Ð>ß BÑ œ ( 0 Ð=ß BÑ .=.


>

Dem: Para provar a continuidade em Ð>! ß B! Ñ escrevemos


2Ð>ß BÑ  2Ð>! ß B! Ñ œ 2Ð>ß BÑ  2Ð>!ß BÑ  2Ð>!ß BÑ  2Ð> !ß B !Ñ
e reparamos que m2Ð>! ß BÑ  2Ð>! ß B! Ñm pode ser controlado pelo resultado
precedente, com , œ >! , e que podemos escolher Q  ! e &w  ! tais que,
sempre que l=  >! l  &w e lB  B! l  &w se tenha m0 Ð=ß BÑm Ÿ Q , o que
implica que, se l>  >! l  &w e lB  B! l  &w ,

m2Ð>ß BÑ  2Ð>! ß BÑm œ m( 0 Ð=ß BÑ .=m Ÿ Q l>  >!l.


>
…
>!

I.10.3 Sejam os espaços vectoriais de dimensão finita I e J , Y § I um


conjunto aberto, N § ‘ um intervaloß H um aberto de ‘ ‚ I , contendo
N ‚ Y e 0 À H Ä J uma aplicação de classe G " . Para cada + − N e , − N ,
tem então lugar uma aplicação de classe G " 1À Y Ä J , definida por

1ÐBÑ œ ( 0 Ð>ß BÑ .>,


,

tendo-se, para cada B − Y e ? − I ,

H1B Ð?Ñ œ ( H# 0Ð>ßBÑ Ð?Ñ .> œ ( H0Ð>ßBÑ Ð!ß ?Ñ .>.


, ,

+ +

Dem: Podemos já supor que se tem + Ÿ , . Dado B! − Y , a continuidade


76 Cap. I. Álgebra Linear e Cálculo Diferencial

uniforme, no sentido forte, de H# 0 sobre o compacto Ò+ß ,Ó ‚ ÖB! × implica


que, dado $  !, existe &  ! tal que, sempre que > − Ò+ß ,Ó e mB  B! m Ÿ &,
se tenha
mH# 0Ð>ßBÑ  H# 0Ð>ßB! Ñ m Ÿ $.

A fórmula da média permite-nos deduzir que

m1ÐBÑ  1ÐB! Ñ  ( H# 0Ð>ßB! Ñ ÐB  B! Ñ .>m œ


,

œ m( 0 Ð>ß BÑ  0 Ð>ß B! Ñ  H# 0Ð>ßB! Ñ ÐB  B! Ñ .>m Ÿ


,

+
Ÿ $ Ð,  +ÑmB  B! m,

o que mostra que 1 é diferenciável em B! e com a derivada dada na fórmula


do enunciado. Tendo em conta a propriedade I.9.3, relativa à aplicação linear
de PÐIà J Ñ em J , que a ! associa !Ð?Ñ, vemos que se pode escrever
também

H1B œ ( H# 0Ð>ßBÑ .>,


,

pelo que o facto de H1À Y Ä PÐIà J Ñ ser contínua é uma consequência de


I.10.1. …
I.10.4 Com as hipóteses anteriores, se a aplicação 0 for de classe G 5 , então a
aplicação 1 é também de classe G 5 e

H5 1B Ð?" ß á ß ?5 Ñ œ ( H5 0Ð>ßBÑ ÐÐ!ß ?" Ñß á ß Ð!ß ?5 ÑÑ .>.


,

Dem: Os casos 5 œ ! e 5 œ " são já conhecidos e o caso geral obtém-se


então por indução, reparando que, se 0 é de classe G 5" , H0 é de classe G 5
e portanto, a fórmula

H1B Ð?5" Ñ œ ( H0Ð>ßBÑ Ð!ß ?5" Ñ .>


,

implica, tendo em conta I.6.14, que H1À Y Ä PÐIà J Ñ é de classe G 5 , ou


seja, 1 é de classe G 5" , e que
H5" 1B Ð?" ß á ß ?5" Ñ œ H5 ÐH1ÑB Ð?" ß á ß ?5 ÑÐ?5" Ñ œ
œ H5 ÐH1Ð?5" ÑÑB Ð?" ß á ß ?5 Ñ œ

œ ( H5 ÐH0 Ð!ß ?5" ÑÑÐ>ßBÑ ÐÐ!ß ?" Ñß á ß Ð!ß ?5 ÑÑ .> œ


,

œ ( H5" 0Ð>ßBÑ ÐÐ!ß ?" Ñß á ß Ð!ß ?5" ÑÑ .>.


,
…
+
§10. Diferenciabilidade do integral paramétrico 77

I.10.5 Mais geralmente, se o intervalo N é aberto e 0 À N ‚ Y Ä J é de classe


G 5 , tem lugar uma aplicação de classe G 5 2À N ‚ Y Ä J , definida por

2Ð>ß BÑ œ ( 0 Ð=ß BÑ .=.


>

Tem-se além disso, no caso em que 5   ",

H2Ð>ßBÑ Ð-ß ?Ñ œ -0 Ð>ß BÑ  ( H# 0Ð=ßBÑ Ð?Ñ .=.


>

Dem: A demonstração faz-se por indução em 5 , determinando-se as deriva-


das parciais relativamente às duas variáveis e aplicando I.7.4 e os resultados
já demonstrados nesta secção. …

EXERCÍCIOS

Ex I.1 Sejam I e J espaços euclidianos ou hermitianos, -À I Ä J uma


aplicação linear e -‡ À J Ä I a respectiva adjunta.
a) Mostrar que o núcleo kerÐ-Ñ de - é o complementar ortogonal da imagem
-‡ ÐJ Ñ de -‡ , e que a imagem -ÐIÑ de - é o complementar ortogonal do
núcleo kerÐ-‡ Ñ de -‡ .
b) Deduzir de a) que -‡ é sobrejectiva se, e só se, - é injectiva e que -‡ é
injectiva se, e só se, - é sobrejectiva.
Ex I.2 Sejam I e J espaços euclidianos ou hermitianos e -À I Ä J um
isomorfismo. Mostrar que a aplicação linear adjunta -‡ À J Ä I é também
um isomorfismo e que Ð-‡ Ñ" œ Ð-" ч .
Ex I.3 Sejam I e J espaços vectoriais complexos, com estruturas complexas N
e N w , respectivamente.
a) Mostrar que a estrutura complexa s N de P‘ ÐIà J Ñ, associada à estrutura de
espaço vectorial complexo que se considera usualmente neste espaço (cf.
I.1.3), está definida por s
N Ð- Ñ œ N w ‰ - .
b) Mostrar que se pode definir outra estrutura complexa Ñ em P‘ ÐIà J Ñ por
N˜ Ð-Ñ œ - ‰ N e que esta estrutura é, em geral, distinta da anterior. O que será
o produto de um complexo - por - − P‘ ÐIà J Ñ na estrutura de espaço
vectorial complexo associada a Ñ ?
c) Mostrar que P‘ ÐIà J Ñ é soma directa dos subespaços vectoriais comple-
xos (para qualquer das duas estruturas complexas s N e N˜ ) P‚ ÐIà J Ñ e
P‚ ÐIà J Ñ e que as projecções 1" e 1# associadas à soma directa
P‘ ÐIà J Ñ œ P‚ ÐIà J Ñ Š P‚ ÐIà J Ñ
estão definidas por
78 Cap. I. Álgebra Linear e Cálculo Diferencial

-  Nw ‰ - ‰ N -  Nw ‰ - ‰ N
1" Ð-Ñ œ , 1# Ð - Ñ œ .
# #
N e N˜ em P‚ ÐIà J Ñ
Mostrar ainda que as estruturas complexas induzidas por s
coincidem e as induzidas em P‚ ÐIà J Ñ são simétricas uma da outra.
d) Nas condições de c), e supondo que I e J estão munidos de produtos
internos complexos e que consideramos em P‘ ÐIà J Ñ o produto interno
complexo referido na alínea a) de I.3.5, mostrar que as parcelas directas de
P‘ ÐIà J Ñ referidas em c) são mutuamente ortogonais, em particular cada
uma é o complementar ortogonal da outra e 1" e 1# são as projecções ortogo-
nais sobre cada uma das parcelas.
Ex I.4 Mostrar que, se I é um espaço vectorial complexo, com estrutura
complexa N , munido de um produto interno real Ø ß Ù‘ , não obrigatoriamente
hermitiano, então I admite um produto interno real hermitiano Ø ß Ùw‘ , defi-
nido por
Ø?ß @Ù‘  ØN Ð?Ñß N Ð@ÑÙ‘
Ø?ß @Ùw‘ œ
#
(a divisão por # não é essencial; que interesse poderá ter?).
Ex I.5 Sejam I e J espaços vectoriais complexos, com estruturas complexas N
e N w , respectivamente, e K um espaço vectorial sobre Š (igual a ‘ ou ‚).
Diz-se que uma aplicação bilinear real 0À I ‚ J Ä K é circular (respectiva-
mente anticircular) se se tem 0ÐN Ð?Ñß @Ñ œ 0Ð?ß N w Ð@ÑÑ (respectivamente
0ÐN Ð?Ñß @Ñ œ 0Ð?ß N w Ð@ÑÑ), quaisquer que sejam ? − I e @ − J .
a) Mostrar que 0 é circular (respectivamente anticircular) se, e só se, quais-
quer que sejam ? − I e @ − J , se tem 0ÐN Ð?Ñß N w Ð@ÑÑ œ 0Ð?ß @Ñ (respecti-
vamente 0ÐN Ð?Ñß N w Ð@ÑÑ œ 0Ð?ß @Ñ). Mostrar ainda que os produtos internos
reais hermíticos são anticirculares e que, no caso em que Š œ ‚, as aplica-
ções bilineares complexas são circulares e as aplicações sesquilineares são
anticirculares.
b) Notemos P‘ ÐIß J à KÑ e P‘ ÐIß J à KÑ os subespaços vectoriais (sobre
Š) de P‘ ÐIß J à KÑ constituídos, respectivamente, pelas aplicações bilineares
circulares e pelas anticirculares. Mostrar que tem lugar a soma directa
P‘ ÐIß J à KÑ œ P‘ ÐIß J à KÑ Š P‘ ÐIß J à KÑ
e que as projecções 1" e 1# associadas a esta soma directa estão definidas
respectivamente por
0  0 ‰ ÐN ‚ N w Ñ 0  0 ‰ ÐN ‚ N w Ñ
1" Ð0Ñ œ , 1# Ð 0 Ñ œ .
# #
c) No caso em que Š œ ‚, Mostrar que tem lugar a soma directa de subes-
paços vectoriais complexos
Exercícios 79

P‘ ÐIß J à KÑ œ P‚ ÐIß J à KÑ Š P‚ ÐIß J à KÑ Š P‚ ÐIß J à KÑ Š P‚ÐIß J à KÑ,

determinando as projecções associadas a esta soma directa, e mostrar que se


tem
P‘ ÐIß J à KÑ œ P‚ ÐIß J à KÑ Š P‚ ÐIß J à KÑ,
P‘ ÐIß J à KÑ œ P‚ ÐIß J à KÑ Š P‚ ÐIß J à KÑ.

Ex I.6 Sejam I um espaço euclidiano ou hermitiano e -À I Ä I um isomor-


fismo ortogonal. Mostrar que ldetÐ-Ñl œ ". Sugestão: Partir da identidade
-‡ ‰ - œ M.I e ter em conta I.2.28.
Ex I.7 Sejam I e J espaços vectoriais reais ou complexos com dimensões 7 e
8, respectivamente, munidos de produtos internos.
a) Mostrar que, se -À I Ä J é uma aplicação linear injectiva, então
-‡ ‰ -À I Ä I é uma aplicação linear injectiva, e portanto um isomorfismo.
b) Mostrar que, se -À I Ä J é uma aplicação linear injectiva então a
projecção ortogonal 1-ÐIÑ , de J sobre -ÐIÑ, é dada por

1-ÐIÑ œ - ‰ Ð-‡ ‰ -Ñ" ‰ -‡ .

Sugestão: Verificar que o segundo membro é uma aplicação linear J Ä J


autoadjunta, idempotente e com imagem -ÐIÑ.
c) Se -À I Ä J é uma aplicação linear ortogonal, mostrar que a projecção
ortogonal de J sobre -ÐIÑ é - ‰ -‡ .
Ex I.8 Sejam I e J espaços vectoriais, reais ou complexos, de dimensão finita,
munidos de produtos internos, e -À I Ä J uma aplicação linear. Mostrar
que são equivalentes as propriedades seguintes:
a) - é uma aplicação linear conforme;
b) mBm œ mCm Ê m-ÐBÑm œ m-ÐCÑm;
c) ØBß CÙ œ ! Ê Ø-ÐBÑß -ÐCÑÙ œ !.
Mostrar ainda que, no caso em que os espaços vectoriais são reais, se - Á ! é
conforme então - não só conserva a prependicularidade de vectores como
conserva mesmo o ângulo de pares de vectores não nulos (lembrar que o
ângulo dos vectores não nulos B e C é o valor ! − Ò!ß 1Ó definido pela
ØBßCÙ
igualdade cosÐ!Ñ œ mBmmCm ).
Sugestão: Pode afastar-se o caso trivial em que I œ Ö!×. Supondo b), tomar
para - o valor m-ÐBÑm, sempre que mBm œ ". Supondo c), considerar uma
base ortonormada B" ß á ß B8 de I e, para 4 Á 5 , utilizar o facto de B4  B5 e
B4  B5 serem ortogonais para deduzir que -ÐB4 Ñ e -ÐB5 Ñ têm a mesma
norma.
Ex I.9 Sejam I e J espaços vectoriais reais ou complexos com dimensões 7 e
8, respectivamente, munidos de produtos internos. Diremos que uma
80 Cap. I. Álgebra Linear e Cálculo Diferencial

aplicação linear -À I Ä J é coortogonal se se tem - ‰ -‡ œ M.J (comparar


com I.2.30).
a) Mostrar que uma aplicação linear coortogonal é sempre sobrejectiva.
b) Mostrar que, se 7 œ 8, uma aplicação linear é coortogonal se, e só se, é
ortogonal.
c) Mostrar que -À I Ä J é coortogonal se, e só se, a restrição de - a
kerÐ-Ѽ é um isomorfismo ortogonal de kerÐ-Ѽ sobre J .
d) Mostrar que, se -À I Ä J é uma aplicação linear coortogonal, então a
projecção ortogonal de I sobre kerÐ-Ñ é M.I  -‡ ‰ -.
Sugestão: Lembrar que, se -À I Ä J é uma aplicação linear, então
-‡ ÐJ Ñ œ kerÐ-Ѽ e kerÐ-‡ Ñ œ -ÐIѼ .
Ex I.10 Seja I um espaço vectorial de dimensão 8 sobre Š, munido de produto
interno.
a) Mostrar que o espaço vectorial PÐIà IÑ é soma directa dos subespaços
vectoriais reais P++ ÐIà IÑ e P++ ÐIà IÑ (cf. I.2.25) e verificar que as
projecções 1 e 1 associadas a esta soma directa estão definidas por
-  -‡ -  -‡
1 Ð-Ñ œ , 1 Ð-Ñ œ .
# #
b) Consideremos em PÐIà IÑ o produto interno de Hilbert-Schmidt, se
Š œ ‘, e o produto interno real associado ao produto interno de
Hilbert-Schmidt, se Š œ ‚. Mostrar que os subespaços P++ ÐIà IÑ e
P++ ÐIà IÑ são mutuamente ortogonais e que, consequentemente, cada um é
o complementar ortogonal do outro e 1 e 1 são as projecções ortogonais
sobre cada um deles.
c) Mostrar que, se Š œ ‘, P++ ÐIà IÑ tem dimensão 8Ð8"Ñ # e que
8Ð8"Ñ
P++ ÐIà IÑ tem dimensão # . Sugestão: Fixar uma base para I e racio-
cinar em termos das matrizes nesta base.
d) No caso em que Š œ ‚, mostrar que tem lugar um isomorfismo real de
P++ ÐIà IÑ sobre P++ ÐIà IÑ, que a cada - associa 3-, e deduzir daí que a
dimensão real de cada um daqueles subespaços é 8# .
e) Obter de modo alternativo a conclusão sobre a dimensão real dos subes-
paços P++ ÐIà IÑ e P++ ÐIà IÑ pelo exame do que se passa com as matrizes
dos respectivos elementos numa base ortonormada complexa de I .
f) Suponhamos que Š œ ‚ e que consideramos em PÐIà IÑ o produto
interno de Hilbert-Schmidt complexo. Mostrar que, se -ß . estão ambos em
P++ ÐIà IÑ ou ambos em P++ ÐIà IÑ, então Ø-ß .Ù é um número real e que,
se - − P++ ÐIà IÑ e . − P++ ÐIà IÑ, então Ø-ß .Ù é imaginário puro17.
Ex I.11 Sejam I e J espaços euclidianos ou hermitianos, com dimensões 7 e 8,
respectivamente, e notemos mm a norma de PÐIà J Ñ definida em I.1.8, a
partir das normas de I e J associadas aos respectivos produtos internos, e

17Esta última afirmação resulta também do que já foi feito na alínea b).
Exercícios 81

Mostrar que se tem, para cada - − PÐIà J Ñ, m-m Ÿ m-mLW Ÿ È7 m-m.


mmLW a norma de PÐIà J Ñ associada ao produto interno de Hilbert-Schmidt.

Ex I.12 Generalizar os produtos internos de Hilbert-Schmidt dos espaços de


aplicações lineares aos espaços de aplicações multilineares do seguinte
modo: Sejam I" ß á ß I: ß J espaços vectoriais de dimensão finita sobre Š
(igual a ‘ ou ‚), munidos de produto interno. Mostrar que existe um, e um
só, produto interno sobre PÐI" ß á ß I: à J Ñ tal que, quaisquer que sejam as
bases ortonormadas A5ß" ß á ß A5ß85 dos I5 (" Ÿ 5 Ÿ :), se tenha

Ø-ß .Ù œ " Ø-ÐA"ß4" ß á ß A:ß4: Ñß .ÐA"ß4" ß á ß A:ß4: ÑÙ


"Ÿ4" Ÿ8"
â
"Ÿ4: Ÿ8:

(o produto interno de Hilbert-Schmidt). Reparar que a alínea a) de I.3.5 se


generaliza naturalmente a este quadro e adaptar o enunciado da alínea b) do
mesmo resultado. Sugestão: Fazer a demonstração por indução em :, repa-
rando que tem lugar um isomorfismo natural
PÐI" à PÐI# ß á ß I: à J ÑÑ Ä PÐI" ß I# ß á ß I: à J Ñ,

que pode ser usado para transportar um produto interno no primeiro espaço.
Ex I.13 Sejam I e J espaços vectoriais de dimensões 7 e 8 sobre Š, munidos
de produto interno, e -ß .À I Ä J duas aplicações lineares. Mostrar que o
produto interno de Hilbert-Schmidt Ø-ß .Ù é dado por Ø-ß .Ù œ TrÐ.‡ ‰ -Ñ.
Ex I.14 (Isomorfismos ortogonais na dimensão 1) Seja I um espaço
euclidiano ou hermitiano de dimensão ". Mostrar que, para cada + − Š, com
l+l œ ", tem lugar um isomorfismo ortogonal 0+ À I Ä I definido por
0+ ÐBÑ œ +B e que todo o isomorfismo ortogonal 0À I Ä I é da forma 0+ ,
para um único + naquelas condições (em particular, no caso em que Š œ ‘,
existem dois, e só dois isomorfismos ortogonais I Ä I , nomeadamente M.I
e M.I , o primeiro conservando e o segundo invertendo as orientações).
Ex I.15 (Isomorfismos ortogonais na dimensão #) Seja I um espaço
euclidiano de dimensão #. Seja N uma das duas estruturas complexas de I
compatíveis com o produto interno (cf. I.4.24). Consideremos, como
auxiliares, em I a estrutura de espaço vectorial complexo de dimensão "
definida por N e o produto interno complexo cujo produto interno real
associado é o dado.
a) Seja 0À I Ä I um isomorfismo ortogonal que conserve (respectivamente
inverta) as orientações. Mostrar que 0 é uma aplicação linear complexa
(respectivamente é antilinear) e lembrar que, no primeiro caso, 0 é também
um isomorfismo ortogonal relativamente ao produto interno complexo
correspondente.
b) Para cada > − ‘, seja 3> À I Ä I o isomorfismo ortogonal, conservando as
orientações, definido por
82 Cap. I. Álgebra Linear e Cálculo Diferencial

3> ÐBÑ œ /3> B œ cosÐ>Ñ B  sinÐ>Ñ N ÐBÑ


(nas notações do exercício precedente, trata-se do isomorfismo ortogonal
complexo 0+ , onde + é o complexo /3> œ cosÐ>Ñ  3 sinÐ>Ñ, de módulo 1).
Mostrar que, se 0À I Ä I é um isomorfismo ortogonal (real), que conseva as
orientações, então 0 é da forma 0> , para algum > − ‘ (0 é a rotação de ângulo
> para a orientação determinada por N ). Concluir que o conjunto
S ÐIÑ œ WSÐIÑ dos isomorfismos ortogonais 0À I Ä I que conservam as
orientações é um grupo isomorfo ao grupo multiplicativo dos complexos de
módulo ", em particular é comutativo.
c) Para cada subespaço vectorial J § I , de dimensão ", mostrar que existe
uma única aplicação linear 0J À I Ä I tal que 0ÐBÑ œ B, para cada B − J , e
0ÐBÑ œ B, para cada B − J ¼ (a simetria relativamente a J ) e que 0 é um
isomorfismo ortogonal invertendo as orientações. Mostrar que, se 0À I Ä I
é um isomorfismo ortogonal que inverte as orientações, então 0 é da forma
0J , para algum subespaço vectorial J § I , de dimensão ", em particular
0 ‰ 0 œ M.I . Sugestão: Mostrar que, para cada B − I , 0Ð0ÐBÑÑ œ B,
escrevendo 0ÐBÑ œ -B, com - − ‚ e l-l œ ", e aplicando a conclusão de a).
Partindo de B − I Ï Ö!× arbitrário, considerar os subespaços ortogonais
gerados por B e por N ÐBÑ, se 0ÐBÑ œ „B e, caso contrário, os gerados por
B  0ÐBÑ e por B  0ÐBÑ.
Ex I.16 (Subespaços vectoriais invariantes por uma aplicação linear) Se I é
um espaço vectorial, real ou complexo, e 0À I Ä I é uma aplicação linear,
diz-se que um subespaço vectorial J § I é 0-invariante se se tem
0ÐJ Ñ § J .
a) Mostrar que um vector não nulo B − I é um vector próprio de 0 se, e só
se, o subespaço vectorial gerado por B é 0-invariante e que, em consequência,
0 admite um valor próprio se, e só se, I admite um subespaço vectorial
invariante de dimensão ".
b) Lembrar que, como consequência do teorema fundamental da Álgebra,
toda a matriz do tipo 8 ‚ 8 (8   "Ñ com entradas reais ou complexas admite
pelo menos um valor próprio complexo. Deduzir que, se I é um espaço
vectorial complexo, com dimensão 8   ", e 0À I Ä I é uma aplicação linear
complexa, então existe um subespaço vectorial 0-invariante J § I com
dimensão ".
c) Seja I um espaço vectorial real de dimensão 8   " e seja 0À I Ä I uma
aplicação linear real. Mostrar que I admite um subespaço vectorial 0-inva-
riante com dimensão 8  " ou 8  # e deduzir, por indução, que 0 admite um
subespaço 0-invariante de dimensão " ou #. Sugestão: Reparar que
P‘ ÐIà ‚Ñ é um espaço vectorial complexo de dimensão 8 e que tem lugar
uma aplicação linear complexa P‘ ÐIà ‚Ñ Ä P‘ ÐIà ‚Ñ, . È . ‰ 0 . Sendo
.! Á ! em P‘ ÐIà ‚Ñ um vector próprio desta aplicação linear, verificar que
J œ kerÐ.! Ñ verifica a propriedade pedida.
d) Sejam I um espaço euclidiano ou hermitiano e 0À I Ä I uma aplicação
Exercícios 83

linear ortogonal ou autoadjunta ou antiautoadjunta. Mostrar que, se J § I é


0-invariante, então J ¼ é também 0-invariante.
Ex I.17 (Y ÐIÑ é conexo) Seja I um espaço vectorial complexo de dimensão 8,
munido de um produto interno e seja Y ÐIÑ o conjunto dos isomorfismos
ortogonais18 0À I Ä I.
a) Utilizar as alíneas b) e d) do exercício precedente para mostrar que, se
0 − Y ÐIÑ, I é soma directa ortogonal de subespaços vectoriais 0-invariantes
de dimensão ", e portanto existe uma base ortonormada B" ß á ß B8 de I e
+" ß á ß +8 − ‚, com l+4 l œ " tais que 0ÐB4 Ñ œ +4 B4 .
b) Notemos W " § ‚ o conjunto dos complexos de módulo ", que sabemos
ser conexo. Mostrar que, para cada base ortonormada B" ß á ß B8 de I , tem
lugar uma aplicação contínua (aliás, mesmo suave) GÀ ÐW " Ñ8 Ä Y ÐIÑ,
definida pela condição de GÐ+" ß á ß +8 Ñ ser o isomorfismo ortogonal que
aplica B4 em +4 B4 , e que Y ÐIÑ é a união das imagens destas aplicações.
c) Concluir de b) que Y ÐIÑ é conexo. Utilizar a mesma alínea para mostrar
que, para cada 0 − Y ÐIÑ, existe uma aplicação contínua (aliás, mesmo
suave) <À ‘ Ä Y ÐIÑ tal que <Ð!Ñ œ M.I e <Ð"Ñ œ 0. Concluir, a partir
daqui, que, dados 0ß ( − Y ÐIÑ, existe uma aplicação contínua (aliás, mesmo
suave) <À ‘ Ä Y ÐIÑ tal que <Ð!Ñ œ 0 e <Ð"Ñ œ ( (Y ÐIÑ é conexo por
arcos). Sugestão: Começar por considerar <! com <! Ð!Ñ œ M.I e
<! Ð"Ñ œ 0" ‰ (.
d) Sendo Z8 ÐIÑ § I 8 o conjunto das bases ortonormadas de I , concluir de
c) que Z8 ÐIÑ é conexo, aliás é mesmo conexo por arcos.
Ex I.18 (WSÐIÑ é conexo) Seja I um espaço vectorial real de dimensão 8,
munido de um produto interno e seja SÐIÑ o conjunto dos isomorfismos
ortogonais 0À I Ä I , S ÐIÑ œ WSÐIÑ o conjunto dos isomorfismos orto-
gonais que conservam as orientações e S ÐIÑ o conjunto dos isomorfismos
ortogonais que invertem as orientações.
a) Reparar que, tendo em conta o exercício I.6, S ÐIÑ é o conjunto dos
isomorfismos ortogonais 0À I Ä I com detÐ0Ñ œ " e S ÐIÑ é o conjunto
dos isomorfismos ortogonais 0À I Ä I com detÐ0Ñ œ " e concluir, tendo
em conta a continuidade da aplicação detÀ PÐIà IÑ Ä ‘, que S ÐIÑ e
S ÐIÑ são abertos em SÐIÑ.
b) Seja 0 − SÐIÑ que não admita nenhum valor próprio. Mostrar que I é
soma directa ortogonal de subespaços vectoriais 0-invariantes de dimensão #
(em particular 8 é par) e que 0 − S ÐIÑ. Sugestão: Raciocinar por indução,
tendo em conta as alíneas c) e d) do exercício I.16, a alínea c) do exercício
I.15 e I.3.11.
c) Seja 0 − S ÐIÑ. Mostrar que I é soma directa ortogonal de subespaços
vectoriais 0-invariantes I œ I Š I Š I! tais que 0ÎI œ M.I , 0ÎI œ
M.I e 0ÎI! À I! Ä I! não admite valor próprio e que então I tem

18Também chamados unitários.


84 Cap. I. Álgebra Linear e Cálculo Diferencial

dimensão par.
d) Nas condições de c), mostrar que I w œ I Š I! é soma directa ortogonal
de uma família de subespaços vectoriais 0-invariantes J4 com dimensão #
tais que cada 0ÎJ4 conserve as orientações e concluir que I w admite uma
estrutura complexa N , compatível com o produto interno, relativamente à
qual 0ÎI w é ‚-linear (e portanto 0ÎI w − Y ÐI w Ñ). Sugestão: Fixar em cada J4
uma das duas estruturas complexas compatíveis e tomar para N a soma
directa destas estruturas complexas.
e) Utilizar a alínea c) do exercício precedente para concluir que, para cada
0 − WSÐIÑ œ S ÐIÑ, existe uma aplicação contínua (aliás, mesmo suave)
<À ‘ Ä S ÐIÑ tal que <Ð!Ñ œ M.I e <Ð"Ñ œ 0. Concluir daqui que, dados
0ß ( − S ÐIÑ (respectivamente 0ß ( − S ÐIÑ), existe uma aplicação
contínua (aliás, mesmo suave) <À ‘ Ä S ÐIÑ (respectivamente
<À ‘ Ä S ÐIÑ) tal que <Ð!Ñ œ 0 e <Ð"Ñ œ (. Concluir que S ÐIÑ e
S ÐIÑ são conexos por arcos, em particular conexos e que, portanto, salvo
no caso trivial em que I œ Ö!×, S ÐIÑ e S ÐIÑ são as componentes
conexas de I .
f) Fixada uma orientação em I , mostrar que o conjunto Z8 ÐIÑ das bases
ortonormadas de I é a união dos subconjuntos Z8 ÐIÑ e Z8 ÐIÑ, constituí-
dos respectivamente pelas bases ortonormadas directas e pelas bases ortonor-
madas retrógradas, que são abertos em Z8 ÐIÑ e ambos conexos por arcos, em
particular conexos. Deduzir que, salvo no caso trivial em que I œ Ö!×,
Z8 ÐIÑ e Z8 ÐIÑ são as componentes conexas de Z8 ÐIÑ.
Ex I.19 Se I é um espaço vectorial complexo de dimensão 8, que relação
existirá entre a orientação associada de I e a associada ao espaço vectorial
conjugado I ?
Ex I.20 Seja 0À I ‚ I Ä J uma aplicação bilinear. Seja 0 À I Ä J a aplicação
definida por 0 ÐBÑ œ 0ÐBß BÑ. Mostrar que 0 é diferenciável em todos os
pontos e que
H0B ÐAÑ œ 0ÐBß AÑ  0ÐAß BÑ.

Ex I.21 Sejam N § ‘ um intervalo aberto, I um espaço vectorial de dimensão


finita e FÀ N Ä PÐIà IÑ e 0 À N Ä I duas aplicações diferenciáveis em
>! − N . Mostrar que é diferenciável em >! a aplicação 1À N Ä I definida por
1Ð>Ñ œ FÐ>ÑÐ0 Ð>ÑÑ e calcular 1w Ð>! Ñ.
Ex I.22 Seja I um espaço vectorial real de dimensão finita, munido de um
produto interno. Mostrar que é de classe G _ a aplicação 2À I Ï Ö!× Ä ‘
definida por 2ÐBÑ œ mBm (a norma associada ao produto interno) e calcular
H2B ÐAÑ.
Ex I.23 Sejam I e J espaços vectoriais de dimensão finita. Diz-se que uma
aplicação 0 À I Ä J é positivamente 8-homogénea (onde 8   ! é um
inteiro) se, para cada B − I e >  !, tem-se
Exercícios 85

0 Ð>BÑ œ >8 0 ÐBÑ.

a) Mostrar que, se 8   " e se 0 À I Ä J é uma aplicação de classe G "


positivamente 8-homogénea, então a aplicação H0 À I Ä PÐIà J Ñ é positi-
vamente Ð8  "Ñ-homogénea.
b) Mostrar que, se 8   " e se 0 À I Ä J é uma aplicação de classe G "
positivamente 8-homogénea, então
H0B ÐBÑ œ 80 ÐBÑ.

c) Mostrar que, se 0 À I Ä J é de classe G ! e positivamente !-homogénea,


então 0 é constante.
d) Mostrar que, se 0 À I Ä J é de classe G " e positivamente "-homogénea,
então 0 é uma aplicação linear.
Ex I.24 Sejam N § ‘ um aberto, J um espaço vectorial de dimensão finita e
0 À N Ä J uma aplicação de classe G 5 .
a) Mostrar que, para cada ! Ÿ 4 Ÿ 5 , a aplicação 0 Ð4Ñ À N Ä J é de classe
Ð54Ñ
G 54 e 0 Ð4Ñ œ 0 Ð5Ñ .
b) Mostrar que, se a aplicação 0 Ð5Ñ é de classe G 4 , então 0 é de classe G 54 .
Ex I.25 Sejam I e J espaços vectoriais de dimensão finita, Y § I um aberto e
0 À Y Ä J uma aplicação de classe G 5" . Dados A# ß á ß A5" − I , mostrar
que a aplicação 1À Y Ä J , definida por
1ÐBÑ œ H5 0B ÐA# ß á ß A5" Ñ,
é de classe G " e que se tem
H1B ÐA" Ñ œ H5" 0B ÐA" ß A# ß á ß ß A5" Ñ.

Nota: Este resultado constitui normalmente um dos processos mais simples


de calcular derivadas de ordem superior.
Ex I.26 Sejam I , J e K espaços vectoriais de dimensão finita e 0À I ‚ J Ä K
uma aplicação bilinear. Calcular H# 0ÐBßCÑ .
Ex I.27 Seja 0À I ‚ J ‚ K Ä L uma aplicação trilinear. Calcular H$ 0ÐBßCßDÑ .
Ex I.28 Sejam I e J espaços vectoriais de dimensão finita.
Mostrar que, se 0 À I Ä J é uma aplicação de classe G # positivamente
#-homogénea, então existe uma aplicação bilinear 0À I ‚ I Ä J tal que se
tenha 0 ÐBÑ œ 0ÐBß BÑ (comparar com as alíneas c) e d) do exercício I.23).
Sugestão: Utilizar as alíneas a), b) e d) do exercício I.23 e definir 0ÐBß CÑ œ
"
# H0B ÐCÑ.

Ex I.29 Sejam I e J espaços vectoriais de dimensão finita e 0 À I Ä J uma


aplicação de classe G " . Mostrar que é de classe G " a aplicação 1À I Ä J
definida por
86 Cap. I. Álgebra Linear e Cálculo Diferencial

1ÐBÑ œ (
"
0 Ð>BÑ .>
!

e obter uma fórmula para H1B ÐAÑ.


Ex I.30 Supondo conhecida uma versão de I.8.1 que garantisse a diferenciabili-
dade da aplicação F mas nada dissesse sobre a respectiva derivada, obter esta
última por derivação de ambos os membros da identidade FÐ0Ñ ‰ 0 œ M.I .
Obter também uma fórmula para H# F0 Ð(ß (w Ñ.
Ex I.31 Seja I um espaço euclidiano e seja 0 À I Ä I a aplicação definida por
0 ÐBÑ œ ØBß BÙB. Determinar H# 0B ÐBß BÑ. Atenção: Este exercício, com o seu
aspecto inocente, pode conter uma casca de banana. Determinar, mais geral-
mente, H# 0B Ð?ß @Ñ, substituir no resultado ? e @ por B e, no caso do resultado
obtido não coincidir com a primeira resposta, tentar descobrir qual o erro que
foi feito.
Ex I.32 Sejam I , J e K espaços vectoriais de dimensão finita, H § I ‚ J um
aberto e 0 À H Ä K uma aplicação de classe G 5" , onde 5   !. Sejam Y um
aberto de I , D! − K e 1À Y Ä J uma aplicação contínua tal que, para cada
B − Y , ÐBß 1ÐBÑÑ − H, 0 ÐBß 1ÐBÑÑ œ D! e H# 0B ÐBß 1ÐBÑÑ − PÐJ à KÑ seja um
isomorfismo. Mostrar que 1 é então uma aplicação de classe G 5" .
Ex I.33 Nas hipóteses do exercício anterior, utilizar a identidade 0 ÐBß 1ÐBÑÑ œ D!
para obter directamente a seguinte fórmula para a derivada de 1:
H1B œ ÐH# 0ÐBß1ÐBÑÑ Ñ" ‰ H" 0ÐBß1ÐBÑÑ .

Ex I.34 Sejam os espaços vectoriais de dimensão finita I , J e K, os abertos


Y § I e Z § J e as aplicações de classe G # 0 À Y Ä Z e 1À Z Ä K .
Mostrar que
H# Ð1 ‰ 0 ÑB Ð?ß @Ñ œ H# 10 ÐBÑ ÐH0B Ð?Ñß H0B Ð@ÑÑ  H10 ÐBÑÐH #0BÐ?ß @ÑÑ.

No caso em que 0 e 1 são de classe G $ , obter uma fórmula análoga para


H$ Ð1 ‰ 0 ÑB Ð?ß @ß AÑ.
Ex I.35 Sejam I e J espaços vectoriais de dimensão finita, Y § I um aberto e
0 À Y Ä J uma aplicação de classe G # . Mostrar que, quaisquer que sejam
B − Y e ?ß @ − I ,
0 ÐB  >?  >@Ñ  0 ÐB  >?Ñ  0 ÐB  >@Ñ  0 ÐBÑ
H# 0B Ð?ß @Ñ œ lim .
>Ä! >#

Ex I.36 Sejam I um espaço vectorial de dimensão finita e GÀ P# ÐIà IÑ ‚ I Ä


I a aplicação definida por GÐ0ß BÑ œ 0ÐBß BÑ. Mostrar que G é de classe G _
e calcular HGÐ0ßBÑ Ð(ß ?Ñ.
Exercícios 87

Ex I.37 Se I é um espaço vectorial de dimensão finita, diz-se que uma aplicação


bilinear 0À I ‚ I Ä ‘ é definida positiva se, para cada B Á ! em I ,
0ÐBß BÑ  !. Mostrar que o subconjunto P# ÐIà ‘Ñ de P# ÐIà ‘Ñ, constituído
pelas aplicações bilineares definidas positivas, é aberto em P# ÐIà ‘Ñ.
Sugestão: Fixando uma norma em I e considerando o subconjunto
compacto de I , W œ ÖB − I ± mBm œ "×, tomar, para cada 0 − P# ÐIà ‘Ñ, o
mínimo estritamente positivo de 0ÐBß BÑ para B − W .
Ex I.38 Sejam I um espaço vectorial de dimensão finita, Y § I um aberto e
0 À Y Ä ‘ uma aplicação de classe G # . Seja B! − Y tal que H0B! œ ! e que
H# 0B! − P# ÐIà ‘Ñ seja definida positiva. Mostrar que 0 admite no ponto B!
um mínimo local estrito, isto é, que existe um aberto Y w , com B! − Y w § Y ,
tal que, para cada B − Y w Ï ÖB! ×, se tenha 0 ÐBÑ  0 ÐB! Ñ. Sugestão: Fixar
uma norma em I e considerar <  ! tal que, sempre que mB  B! m  <, se
tenha B − Y e H# 0B definida positiva; mostrar que, dado B − Y , para o qual
!  mB  B! m  <, a aplicação 1À Ò!ß "Ó Ä ‘, 1Ð>Ñ œ 0 ÐB!  >ÐB  B! ÑÑ,
verifica 1Ð!Ñ œ 0 ÐB! Ñ, 1Ð"Ñ œ 0 ÐBÑ, 1w Ð!Ñ œ ! e 1ww Ð>Ñ  !, para cada >.
Ex I.39 Seja Š um dos corpos ‘ ou ‚, notemos `8 ÐŠÑ o espaço vectorial de
dimensão 8# , constituído pelas matrizes de elementos de Š com 8 linhas e 8
colunas, e seja KPÐ8ß ŠÑ o subconjunto de `8 ÐŠÑ constituído pelas
matrizes invertíveis. Notemos M a matriz identidade de `8 ЊÑ.
a) Mostrar que KPÐ8ß ŠÑ é aberto em `8 ÐŠÑ e que tem lugar uma aplicação
de classe G _ , GÀ KPÐ8ß ŠÑ Ä `8 ЊÑ, definida por GÐ\Ñ œ \ " . Mostrar
ainda que
HG\ ÐEÑ œ \ " ‚ E ‚ \ " ,
em particular, na matriz identidade M , HGM ÐEÑ œ E. Reparar que, no caso
em que Š œ ‚, a aplicação G é mesmo holomorfa. Sugestão: Trata-se de
uma consequência imediata de I.8.1, considerando o isomorfismo canónico
de `8 ÐŠÑ sobre PЊ8 à Š8 Ñ. Alternativamente, considerar a caracterização
das matrizes invertíveis a partir do determinante, assim como a fórmula
explícita de cada elemento da matriz inversa como quociente de dois
determinantes, usando a identidade GÐ\Ñ ‚ \ œ M para calcular a derivada.
b) Mostrar que tem lugar a seguinte fórmula, para a derivada de segunda
ordem de G na matriz identidade:
H# GM ÐEß FÑ œ F ‚ E  E ‚ F .

Ex I.40 Nas condições do exercício anterior, notemos, para cada \ − `8 ЊÑ,


detÐ\Ñ o determinante da matriz \ e TrÐ\Ñ o seu traço (soma dos elementos
diagonal principal). Mostrar que a aplicação detÀ `8 ÐŠÑ Ä Š é de classe
G _ , sendo mesmo holomorfa no caso em que Š œ ‚. Mostrar que, na matriz
identidade M , a sua derivada é dada por
H detM ÐEÑ œ TrÐEÑ.
88 Cap. I. Álgebra Linear e Cálculo Diferencial

Sugestão: Considerar a fórmula explícita para o determinante como soma de


8x parcelas. Alternativamente, reduzir este resultado, por isomorfismo, ao
correspondente resultado sobre PÐIà IÑ.
Ex I.41 Seja I um espaço vectorial de dimensão 8 sobre o corpo Š, igual a ‘ ou
‚, e lembremos que, como se viu em I.7.9, a aplicação determinante
detÀ PÐIà IÑ Ä Š é suave e verifica H detM.I Ð!Ñ œ TrÐ!Ñ.
a) Mostrar que, sendo P3=9 ÐIà IÑ o aberto de PÐIà IÑ cujos elementos são
os isomorfismos, tem-se, mais geralmente, para cada 0 − P3=9 ÐIà IÑ,
H det0 Ð!Ñ œ TrÐ! ‰ 0" Ñ detÐ0Ñ.

Sugestão: Fixado 0, atender a que, para cada ( − PÐIà IÑ, se tem detÐ(Ñ œ
detÐ( ‰ 0" ÑdetÐ0Ñ, derivando em seguida ambos os membros desta
identidade como funções de (, no elemento 0.
b) Deduzir a seguinte fórmula para a derivada de segunda ordem de det na
aplicação linear identidade:
H# detM.I Ð!ß " Ñ œ TrÐ" Ñ TrÐ!Ñ  TrÐ" ‰ !Ñ.

Ex I.42 Sejam I e J espaços vectoriais de dimensão finita, Y um aberto de I e


B! − Y e suponhamos que Y é convexo ou, mais geralmente, estrelado rela-
tivamente a B! . Seja 0 À Y Ä J uma aplicação de classe G _ .
a) Verificar que existe uma aplicação de classe G _ , - œ Ð-B ÑB−Y , de Y em
PÐIà J Ñ tal que, para cada B − Y ,
0 ÐBÑ œ 0 ÐB! Ñ  -B ÐB  B! Ñ
e que se tem então necessariamente -B! œ H0B! .
Sugestão: Definir -B œ '! H0B! >ÐBB! Ñ .>, reparando que, para cada B − Y ,
"

tem-se, para :Ð>Ñ œ 0 ÐB!  >ÐB  B! ÑÑ,

0 ÐBÑ  0 ÐB! Ñ œ :Ð"Ñ  :Ð!Ñ œ (


"
:w Ð>Ñ .>.
!

b) Deduzir de a) que existe uma aplicação de classe G _ , . œ Ð.B ÑB−Y , de Y


em PÐIß Ià J Ñ, com cada .B simétrica, tal que, para cada B − Y ,
0 ÐBÑ œ 0 ÐB! Ñ  H0B! ÐB  B! Ñ  .B ÐB  B! ß B  B! Ñ

e que se tem então necessariamente .B! œ "# H# 0B! .


Sugestão: Partindo de .wB não necessariamente simétrica, tomar
" w
.B Ð?ß @Ñ œ Ð. Ð?ß @Ñ  .wB Ð@ß ?ÑÑ.
# B
CAPÍTULO II
Vectores Tangentes e Variedades

§1. Espaço vectorial tangente a um conjunto num ponto.

II.1.1 Sejam I um espaço vectorial real de dimensão finita, E § I um


subconjunto arbitrário e B! − E. Utilizando a definição de Bouligand ([3]),
vamos chamar cone tangente (ou contingente) de E em B! ao conjunto
tB! ÐEÑ dos vectores A − I para os quais existe uma sucessão de elementos
B8 − E, com B8 Ä B! , e uma sucessão de números reais >8  ! tais que
>8 ÐB8  B! Ñ Ä A e cone tangente alargado (ou paratingente) de E em B! ao
conjunto t B! ÐEÑ dos vectores A − I para os quais existem sucessões de
elementos B8 e C8 de E, ambas convergentes para B! , e uma sucessão de
números reais >8  !, tais que >8 ÐB8  C8 Ñ Ä A.
Repare-se que se tem sempre tB! ÐEÑ § tB! ÐEÑ, uma vez que se pode tomar
para ÐC8 Ñ a sucessão com todos os termos iguais a B! .
Vamos notar XB! ÐEÑ o subespaço vectorial de I gerado por tB! ÐEÑ,
subespaço a que daremos o nome de espaço vectorial tangente a E no ponto
B! . Aos elementos de XB! ÐEÑ daremos o nome de vectores tangentes a E no
ponto B! .
II.1.2 (As noções são locais) Suponhamos que E e F são subconjuntos do
espaço vectorial I , de dimensão finita, que B! − E  F e que os conjuntos
E e F coincidem na vizinhança de B! , no sentido que existe uma vizinhança
Z de B! em I tal que E  Z œ F  Z ; verifica-se então trivialmente que
tB! ÐEÑ œ tB! ÐFÑ, t
B! ÐEÑ œ tB! ÐFÑ, e portanto também XB! ÐEÑ œ XB! ÐFÑ.

Como consequência do que acabamos de dizer, vemos que, se B! − E § I e


se Ew § E é uma vizinhança de B! em E, então E e Ew coincidem na
vizinhança de B! (tem-se Ew œ E  Z , para uma certa vizinhança Z de B!
em I ) e portanto tB! ÐEw Ñ œ tB! ÐEÑ, t
B! ÐE Ñ œ tB! ÐEÑ e XB! ÐE Ñ œ XB! ÐEÑ.
w  w

II.1.3 Sejam I um espaço vectorial de dimensão finita e B! − E § F § I .


Verifica-se então trivialmente que tB! ÐEÑ § tB! ÐFÑ e tB! ÐEÑ § t
B! ÐFÑ, e
portanto também XB! ÐEÑ § XB! ÐFÑ.
II.1.4 As noções anteriores também não dependem do espaço vectorial ambiente,
no sentido seguinte: Suponhamos que I é um espaço vectorial de dimensão
finita, que B! − E § I e que I w é um subespaço vectorial de I tal que
E § I w . Tem-se então que os conjuntos tB! ÐEÑ, t
B! ÐEÑ e XB! ÐEÑ são os
mesmos, quer se considere E como parte de I ou como parte de I w . Para
90 Cap. II. Vectores Tangentes e Variedades

justificar esta afirmação basta relembrarmos a definição, tendo presente o


facto de todo o subespaço vectorial de I ser um subconjunto fechado de I .
II.1.5 Podemos apresentar as seguintes caracterizações equivalentes de tB! ÐEÑ e
t
B! ÐEÑ, que, nalguns casos, é importante utilizar:
Seja I um espaço vectorial de dimensão finita, sobre o qual se considera
uma das suas normas, e seja B! − E § I . Para cada A − I , tem-se então:
a) A − tB! ÐEÑ se, e só se, quaisquer que sejam $  ! e &  !, existe B − E e
>  ! com mB  B! m  $ e m>ÐB  B! Ñ  Am  &.
b) A − t B! ÐEÑ se, e só se, quaisquer que sejam $  ! e &  !, existe Bß C − E
e >  ! com mB  B! m  $ , mC  B! m  $ e m>ÐB  CÑ  Am  &.
Dem: Uma vez que as demonstrações são muito semelhantes, apresentamos
apenas a de b). Supondo que A − t B! ÐEÑ, podemos considerar as sucessões
de elementos B8 ß C8 − E e >8  !, nas condições da definição, e então, dados
$  ! e &  !, basta tomar B œ B8 , C œ C8 e > œ >8 , para 8 suficientemente
grande, para se verificar a condição do enunciado. Suponhamos, reciproca-
mente, verificada a condição do enunciado. Para cada 8 escolhamos
B8 ß C8 − E e >8  ! tais que mB8  B! m  8" , mC8  B! m  8" e
m>8 ÐB8  C8 Ñ  Am  8" ; obtemos assim sucessões que vão verificar
B8 Ä B! , C8 Ä B! e >8 ÐB8  C8 Ñ Ä A, o que mostra que A − t B! ÐEÑ. …
II.1.6 Se I é um espaço vectorial, diz-se que um conjunto F § I é um cone se
! − F e, quaisquer que sejam B − F e >  !, tem-se >B − F . Dizemos que
ele é um cone simétrico se, além disso, se tem B − F sempre que B − F .
Para um cone simétrico tem-se assim >B − F , sempre que B − F e > − ‘.
II.1.7 Sejam I um espaço vectorial de dimensão finita e B! − E § I . Tem-se
então que tB! ÐEÑ é um cone fechado e t B! ÐEÑ é um cone simétrico fechado.
Dem: Vejamos que tB! ÐEÑ é um cone fechado. Para vermos que ! − tB! ÐEÑ,
basta tomarmos para B8 a sucessão com todos os termos iguais a B! e para >8
uma sucessão arbitrária de números reais estritamente positivos. Supondo
que A − tB! ÐEÑ e que >  !, podemos escolher B8 − E e >8  ! tais que
B8 Ä B! e >8 ÐB8  B! Ñ Ä A e tem-se então Ð> >8 ÑÐB8  B! Ñ Ä >A, com >
>8  !, o que mostra que >A − tB! ÐEÑ. Acabamos de mostrar que tB! ÐEÑ é um
cone e vamos agora ver que temos um conjunto fechado, para o que será
cómodo utilizar a caracterização de tB! ÐEÑ apresentada em II.1.5. Notando,
para cada $  !, G$ o conjunto dos elementos da forma >ÐB  B! Ñ, com
>  !, B − E e mB  B! m  $ , a caracterização referida vai-nos garantir que
A − tB! ÐEÑ se, e só se, para cada $  !, A é aderente ao conjunto G$ . Por
outras palavras, tB! ÐEÑ é a intersecção dos conjuntos fechados aderência dos
G$ , com $  !, e é portanto um conjunto fechado. A prova de que t B! ÐEÑ é
também um cone fechado é análoga e o facto de este último ser simétrico
resulta de que, se B8 Ä B! , C8 Ä B! e >8 ÐB8  C8 Ñ Ä A, então
>8 ÐC8  B8 Ñ Ä A. …
§1. Vectores tangentes a um conjunto num ponto 91

Os dois resultados que apresentamos a seguir exibem casos particulares


em que é especialmente simples a determinação do cone tangente ou do
cone tangente alargado.

II.1.8 Sejam I um espaço vectorial de dimensão finita e F § I um cone


fechado. Tem-se então t! ÐFÑ œ F e, mais geralmente, para cada B! − I ,
tB! ÐB!  FÑ œ F .19
Dem: Dado A − F , podemos considerar a sucessão B8 œ B!  8" A de
elementos de B!  F , convergente para B! , e a sucessão de reais >8 œ 8  !,
tendo-se >8 ÐB8  B! Ñ œ A Ä A, o que mostra que A − tB! ÐB!  FÑ.
Suponhamos, reciprocamente, que A − tB! ÐB!  FÑ; existe então uma
sucessão de elementos B8 − B!  F , convergente para B! , e uma sucessão de
reais >8  !, tais que >8 ÐB8  B! Ñ Ä A, pelo que, uma vez que se tem
B8  B! − F , donde também >8 ÐB8  B! Ñ − F , o facto de F ser fechado
garante que A − F . …
II.1.9 Sejam I um espaço vectorial de dimensão finita, E § I um conjunto e
B! − E que seja aderente ao interior de E. Tem-se então t B! ÐEÑ œ I , e
portanto também XB! ÐEÑ œ I .
Dem: Vamos aplicar a caracterização do cone tangente alargado em II.1.5
para o que, dado A − I , consideramos $  ! e &  ! arbitrários.
Escolhamos então C − intÐEÑ tal que mC  B! m  $# e !  $ w Ÿ $# tal que a
bola aberta de centro C e raio $ w esteja contida em E. Escolhamos >  ! tal
que "> mAm  $ w e seja B œ C  "> A. Tem-se assim também B − E,
"
mB  B! m Ÿ mC  B! m  m Am  $
>
e m>ÐB  CÑ  Am œ !  &, o que mostra que A − t
B! ÐEÑ. …
II.1.10 (Corolário) Sejam I um espaço vectorial de dimensão finita, E § I e
B! − intÐEÑ. Tem-se então tB! ÐEÑ œ t
B! ÐEÑ œ XB! ÐEÑ œ I .
Dem: Uma vez que E coincide com I na vizinhança de B! , ficamos
reduzidos a mostrar que se tem tB! ÐIÑ œ I e isso é uma consequência de se
ter I œ B!  I , com I cone fechado. …
II.1.11 (Corolário) Consideremos o espaço vectorial ‘ e +  , dois números
reais. Tem-se então:
a) Se E é um dos conjuntos Ò+ß ,Ò, Ò+ß ,Ó ou Ò+ß _Ò, tem-se t+ ÐEÑ œ Ò!ß _Ò
e t
+ ÐEÑ œ X+ ÐEÑ œ ‘.
b) Se E é um dos conjuntos Ó+ß ,Ó, Ò+ß ,Ó ou Ó_ß ,Ó, tem-se t, ÐEÑ œ Ó_ß !Ó
e t
, ÐEÑ œ X, ÐEÑ œ ‘.
Dem: O facto de se ter t+ ÐÒ+ß _ÒÑ œ Ò!ß _Ò vem de que se pode escrever

19Este resultado, juntamente com o precedente, mostra que os conjuntos que podem ser
da forma tB! ÐEÑ são precisamente os cones fechados.
92 Cap. II. Vectores Tangentes e Variedades

Ò+ß _Ò œ +  Ò!ß _Ò, onde Ò!ß _Ò é um cone fechado em ‘, e o facto de
se ter t+ ÐÒ+ß _ÒÑ œ X+ ÐÒ+ß _ÒÑ œ ‘ resulta de + ser aderente ao interior
Ó+ß _Ò de Ò+ß _Ò. Para as restantes conclusões de a), basta atender a que
Ò+ß ,Ò e Ò+ß ,Ó coincidem com Ò+ß _Ò na vizinhança de +, porque todos têm a
mesma intersecção com o aberto Ó_ß ,Ò de ‘, que contém +. As conclusões
de b) são análogas, a partir do facto de se poder escrever Ó_ß ,Ó œ
,  Ó_ß !Ó, onde Ó_ß !Ó é um cone fechado em ‘ e de , ser aderente ao
interior de Ó_ß ,Ó. …
II.1.12 Sejam I um espaço vectorial de dimensão finita e B! − E § I . Tem-se
então
tB! ÐEÑ œ Ö!× Í t
B! ÐEÑ œ Ö!× Í B! é um ponto isolado de E.

Dem: Se B! é um ponto isolado de E, então, quaisquer que seja as sucessões


B8 e C8 de elementos de E, com B8 Ä B! e C8 Ä B! , tem-se B8 œ B! œ C8 a
partir de certa ordem, de onde se deduz trivialmente que ! é o único vector
no cone tangente alargado de E em B! . Suponhamos agora que B! é um ele-
mento não isolado de E. Podemos então considerar uma sucessão de elemen-
tos B8 − E, distintos de B! , convergente para B! . Sendo W § I o conjunto
dos vectores de norma ", que é fechado e limitado, portanto compacto,
"
podemos considerar a sucessão dos elementos mB8 B !m
ÐB8  B! Ñ − W . A
compacidade de W implica que, se necessário substituindo a sucessão B8 por
"
uma subsucessão, pode-se já supor que mB8 B !m
ÐB8  B! Ñ Ä A − W , tendo-se
então que A é um elemento não nulo de tB! ÐEÑ. …

§2. Funções diferenciáveis em conjuntos não abertos.

Vamos começar por estender a noção de aplicação de classe G 5 , que até


agora se aplica apenas a aplicações definidas em abertos de espaços
vectoriais de dimensão finita, ao quadro das aplicações cujo domínio é um
subconjunto não obrigatoriamente aberto.

II.2.1 Sejam I e J espaços vectoriais de dimensão finita, E § I um conjunto


arbitrário e 0 À E Ä J uma aplicação. Um prolongamento de 0 a um aberto
Y de I , com E § Y , é uma aplicação 0 À Y Ä J tal que 0 seja a restrição de
0 . Um prolongamento local de 0 no ponto B! − E é uma aplicação
0 À Y Ä J , com Y aberto de I contendo B! , tal que 0 e 0 tenham a mesma
restrição a E  Y . É claro que um prolongamento de 0 a um aberto Y
contendo E é, em particular, um prolongamento local de 0 em todos os
pontos de E.
Diz-se que 0 é de classe G 5 (onde ! Ÿ 5 Ÿ _) se, para cada B! − Eß existe
§2. Funções diferenciáveis em conjuntos não abertos 93

um prolongamento local de classe G 5 de 0 no ponto B! . Como


anteriormente, às aplicações de classe G _ também se dá o nome de
aplicações suaves.20

É claro que, em geral, poder-se-ão considerar muitos prolongamentos


locais de classe G 5 e não haverá nenhum que seja melhor que os outros.
Um primeiro cuidado a ter com a definição anterior é evidentemente o
seguinte:

II.2.2 No caso em que E é um aberto de I , uma aplicação 0 À E Ä J é de classe


G 5 , no sentido da definição anterior, se, e só se, é de classe G 5 , no sentido já
conhecido.
Dem: Se 0 é de classe G 5 , no sentido já conhecido, então o próprio 0 é um
prolongamento local de 0 em todos os pontos de E, pelo que 0 é de classe
G 5 , no sentido da definição anterior. Suponhamos, reciprocamente, que 0 é
de classe G 5 , no sentido da definição anterior. Para cada B − E, podemos
então considerar um aberto YB de I , com B − YB , e uma aplicação de classe
G 5 0ÐBÑ À YB Ä J tal que 0 e 0ÐBÑ tenham a mesma restrição a E  YB . Em
particular a restrição de 0 a cada E  YB é de classe G 5 , no sentido já
conhecido. Uma vez que o aberto E é a união dos abertos E  YB , com
B − E, podemos ter em conta I.6.8 para concluir que 0 À E Ä J é de classe
G 5 , no sentido já conhecido. …
II.2.3 (Notas) a) Na maioria das situações concretas, para mostrar que uma dada
aplicação 0 À E Ä J é de classe G 5 , será extremamente simples explicitar um
prolongamento de classe G 5 de 0 a um aberto contendo o domínio, não
sendo assim necessário procurar prolongamentos locais nos diferentes
pontos. De facto, usando o teorema da partição da unidade, que será estudado
mais adiante, pode-se provar que toda a aplicação de classe G 5 admite um
prolongamento de classe G 5 a um aberto contendo o domínio.
b) Se 0 À E Ä J é de classe G 5 , então é de classe G 4 , para cada ! Ÿ 4 Ÿ 5 .
c) É evidente que toda a aplicação de classe G ! , 0 À E Ä J , é contínua mas,
no caso em que o conjunto E não é aberto, uma aplicação contínua
0 À E Ä J pode perfeitamente não ser de classe G ! (no entanto, quem
conheça o teorema de extensão de Tietze-Urysohn21 verificará sem
dificuldade que, no caso em que o conjunto E é localmente fechado22, é

20Poderíamos evidentemente ter definido a noção de aplicação diferenciável num ponto


B! − E de maneira análoga. A razão por que nos limitamos a definir a classe G 5 é sim-
plesmente para tentar aligeirar o texto.
21Ver, por exemplo, o exercício II.21, no fim do capítulo.
22Um conjunto E § I diz-se localmente fechado se, para cada B − E, existe um aberto
!
Y de I , com B! − Y , tal que E  Y seja fechado em Y , condição que se pode verificar
ser equivalente à existência de um aberto Z de I com E § Z e E fechado em Z .
Pode-se mostrar facilmente que E § I é localmente fechado se, e só se, E § I é
localmente compacto, para a topologia induzida (ver a prova de II.6.22 adiante).
94 Cap. II. Vectores Tangentes e Variedades

ainda verdade que uma aplicação 0 À E Ä J é de classe G ! se, e só se, é


contínua).
d) É evidente que toda a aplicação de classe G _ é também de classe G 5 , para
todo o 5 finito. No entanto, no caso em que o domínio E não é aberto, nada
nos garante que uma aplicação que seja de classe G 5 , para todo o 5 finito,
tenha que ser de classe G _ .
e) Seria perfeitamente possível definir, na mesma linha que anteriormente, a
noção de aplicação holomorfa tendo como domínio uma parte arbitrária de
um espaço vectorial complexo de dimensão finita. Não exploraremos, no
entanto, aqui essa via, uma vez que o estudo das aplicações holomorfas fora
do quadro dos domínios abertos será adiante abordado de um ponto de vista
diferente (cf. a secção III.9).
II.2.4 (Lema) Sejam I e J espaços vectoriais de dimensão finita, E § I um
subconjunto arbitrário, 0 À E Ä J uma aplicação de classe G " e B! − E.
Consideremos sucessões de números reais >8  ! e de elementos B8 ß C8 − E
tais que B8 Ä B! , C8 Ä B! e >8 ÐB8  C8 Ñ Ä A − I . Tem-se então
>8 Ð0 ÐB8 Ñ  0 ÐC8 ÑÑ Ä H0 B! ÐAÑ,

onde 0 À Y Ä J é um prolongamento local arbitrário de classe G " de 0 em


B! .
Dem: Seja $  ! arbitrário. Seja &  ! tal que, sempre que B − I verifica
mB  B! m  &, tem-se B − Y e mH0 B  H0 B! m Ÿ $ . Pela terceira versão da
fórmula da média (cf. I.5.20), e uma vez que a bola aberta de centro B! e raio
& é um conjunto convexo, concluímos que, se mB  B! m  & e mC  B! m  &,
tem-se
m0 ÐBÑ  0 ÐCÑ  H0 B! ÐB  CÑm Ÿ $ mB  Cm.

Escolhendo 8! tal que, sempre que 8   8! , mB8  B! m  & e mC8  B! m  &,


tem-se, para esses valores de 8, B8 ß C8 − E  Y , portanto 0 ÐB8 Ñ œ 0 ÐB8 Ñ e
0 ÐC8 Ñ œ 0 ÐC8 Ñ, donde
m0 ÐB8 Ñ  0 ÐC8 Ñ  H0 B! ÐB8  C8 Ñm Ÿ $ mB8  C8 m,

e portanto também, tendo em conta o facto de a aplicação H0 B! ser linear,

m>8 Ð0 ÐB8 Ñ  0 ÐC8 ÑÑ  H0 B! Ð>8 ÐB8  C8 ÑÑm Ÿ $m>8ÐB8  C8Ñm.

Para 8   8! tem-se então


m>8 Ð0 ÐB8 Ñ  0 ÐC8 ÑÑ  H0 B! ÐAÑm œ
œ m>8 Ð0 ÐB8 Ñ  0 ÐC8 ÑÑ  H0 B! Ð>8 ÐB8  C8 ÑÑ  H0 B! Ð>8ÐB8  C8ÑÑ  H0 B! ÐAÑm Ÿ
Ÿ m>8 Ð0 ÐB8 Ñ  0 ÐC8 ÑÑ  H0 B! Ð>8 ÐB8  C8 ÑÑm  mH0 B! Ð>8 ÐB8  C8 ÑÑ  H0 B! ÐAÑm Ÿ
Ÿ $ m>8 ÐB8  C8 Ñm  mH0 B! Ð>8 ÐB8  C8 ÑÑ  H0 B! ÐAÑm.

O facto de se ter >8 ÐB8  C8 Ñ Ä A, e portanto m>8 ÐB8  C8 Ñm Ä mAm e


§2. Funções diferenciáveis em conjuntos não abertos 95

H0 B! Ð>8 ÐB8  C8 ÑÑ Ä H0 B! ÐAÑ, implica a existência de 8"   8! tal que,


sempre que 8   8" ,
m>8 ÐB8  C8 Ñm Ÿ mAm  ",
mH0 B! Ð>8 ÐB8  C8 ÑÑ  H0 B! ÐAÑm Ÿ $ ,

pelo que concluímos que, para 8   8" ,


m>8 Ð0 ÐB8 Ñ  0 ÐC8 ÑÑ  H0 B! ÐAÑm Ÿ $ ÐmAm  #Ñ.

Tendo em conta a arbitrariedade de $, ficou assim provado que se tem efecti-


vamente >8 Ð0 ÐB8 Ñ  0 ÐC8 ÑÑ Ä H0 B! ÐAÑ. …
II.2.5 Sejam I e J espaços vectoriais de dimensão finita, E § I um conjunto
arbitrário e 0 À E Ä J uma aplicação de classe G " . Para cada B! − E, fica
então bem definida uma aplicação linear H0B! À XB! ÐEÑ Ä J , o diferencial ou
aplicação linear derivada de 0 no ponto B! , pela condição de se ter
H0B! ÐAÑ œ H0 B! ÐAÑ, onde 0 À Y Ä J é um prolongamento local de classe
G " arbitrário de 0 em B! .
É claro que, no caso em que E é um aberto de I , tem-se XB! ÐEÑ œ I e a
definição de H0B! que estamos de apresentar é equivalente à já conhecida.
Dem: Tudo o que é necessário mostrar é que, se 0 À Y Ä J e s0 À Z Ä J são
dois prolongamentos locais de classe G " de 0 em B! , então as aplicações
lineares H0 B! À I Ä J e H0 s B À I Ä J coincidem no subespaço vectorial
!
XB! ÐEÑ de I . Uma vez que o conjunto dos vectores de I onde duas aplica-
ções lineares coincidem é sempre um subespaço vectorial e que XB! ÐEÑ é o
subespaço vectorial gerado por t B! ÐEÑ, basta-nos provar que, para cada
s
A − tB! ÐEÑ, tem-se H0 B! ÐAÑ œ H0 B! ÐAÑ. Ora isso resulta do lema II.2.4,

uma vez que existem sucessões de números reais >8  ! e de elementos


B8 ß C8 − E tais que B8 Ä B! , C8 Ä B! e >8 ÐB8  C8 Ñ Ä A e então a
sucessão >8 Ð0 ÐB8 Ñ  0 ÐC8 ÑÑ converge tanto para H0 B! ÐAÑ como para
H0s B ÐAÑ. …
!

II.2.6 Sejam I e J espaços vectoriais de dimensão finita, E § I e F § J


conjuntos arbitrários, 0 À E Ä F uma aplicação de classe G " (isto é, uma
aplicação de classe G " de E em J , tal que 0 ÐEÑ § F ) e B! − E. Tem-se
então que a aplicação linear H0B! À XB! ÐEÑ Ä J aplica XB! ÐEÑ em X0 ÐB! Ñ ÐFÑ,

tB! ÐEÑ em t0 ÐB! Ñ ÐFÑ e t
B! ÐEÑ em t0 ÐB! Ñ ÐFÑ.
Dem: Seja 0 À Y Ä J um prolongamento local de classe G " de 0 em B! .
Suponhamos que A − t B! ÐEÑ. Podemos então escolher sucessões de números
reais >8  ! e de elementos B8 ß C8 − E tais que B8 Ä B! , C8 Ä B! e
>8 ÐB8  C8 Ñ Ä A − I e tem-se então, pelo lema II.2.4,
>8 Ð0 ÐB8 Ñ  0 ÐC8 ÑÑ Ä H0 B! ÐAÑ œ H0B! ÐAÑ.

Uma vez que 0 ÐB8 Ñß 0 ÐC8 Ñ − F e, pela continuidade de 0 , 0 ÐB8 Ñ Ä 0 ÐB! Ñ e


96 Cap. II. Vectores Tangentes e Variedades

0 ÐC8 Ñ Ä 0 ÐB! Ñ, concluímos que H0B! ÐAÑ − t0 ÐB! Ñ ÐFÑ. No caso em que se
tem mesmo A − tB! ÐEÑ, sabemos que se pode tomar atrás para ÐC8 Ñ a
sucessão com todos os termos iguais a B! , pelo que podemos concluir que se
tem mesmo H0B! ÐAÑ − t0 ÐB! Ñ ÐFÑ. Uma vez que o conjunto dos vectores de
XB! ÐEÑ, cuja imagem pela aplicação linear H0B! À XB! ÐEÑ Ä J está no
subespaço vectorial X0 ÐB! Ñ ÐFÑ de J , é um subespaço vectorial de XB! ÐEÑ,
que, pelo que vimos, contém t B! ÐEÑ, podemos agora concluir que ele é
precisamente o subespaço vectorial gerado XB! ÐEÑ, o que mostra que a
aplicação linear H0B! À XB! ÐEÑ Ä J aplica efectivamente XB! ÐEÑ em
X0 ÐB! Ñ ÐFÑ. …

Como primeira aplicação dos resultados precedentes, podemos obter


facilmente uma condição necessária para uma aplicação de classe G " ,
com valores reais e definida num subconjunto de um espaço vectorial de
dimensão finita, atingir um máximo ou um mínimo num ponto do seu
domínio.
O leitor relacionará facilmente o resultado que vamos enunciar com o
caso, que decerto já encontrou, em que o domínio é um aberto de ‘8 , no
qual a condição em questão é o anulamento das derivadas parciais.

II.2.7 Sejam I um espaço vectorial de dimensão finita, E § I um subconjunto


e 0 À E Ä ‘ uma aplicação de classe G " atingindo um máximo (respectiva-
mente um mínimo) num ponto B! − E. Tem-se então:
a) Para cada ? − tB! ÐEÑ, H0B! Ð?Ñ Ÿ ! (respectivamente H0B! Ð?Ñ   !).
b) No caso particular em que tB! ÐEÑ œ XB! ÐEÑ,23 tem-se H0B! Ð?Ñ œ !, para
cada ? − XB! ÐEÑ.
Dem: Examinemos apenas o caso em que 0 atinge um máximo em B! , uma
vez que o caso do mínimo é análogo. Como 0 atinge um máximo em B! , 0
aplica E em Ó_ß 0 ÐB! ÑÓ e portanto, pelo resultado precedente, para cada
? − tB! ÐEÑ,
H0B! Ð?Ñ − t0 ÐB! Ñ ÐÓ_ß 0 ÐB! ÑÓÑ œ Ó_ß !Ó,

o que prova a). Quanto a b), se ? − XB! ÐEÑ œ tB! ÐEÑ, tem-se também
? − XB! ÐEÑ œ tB! ÐEÑ pelo que, aplicando a conclusão de a) a ? e a ?,
concluímos que H0B! Ð?Ñ Ÿ ! e
H0B! Ð?Ñ œ H0B! Ð?Ñ Ÿ !,

e portanto H0B! Ð?Ñ œ !. …


II.2.8 (Nota) Pareceria possível proceder do mesmo modo que para a derivada
de primeira ordem, para definir, para cada aplicação 0 À E Ä F de classe G # ,
uma derivada de segunda ordem H# 0B! , que seria uma aplicação bilinear de

23É o que acontece no quadro das variedades sem bordo, estudadas adiante (cf. II.4.10).
§2. Funções diferenciáveis em conjuntos não abertos 97

XB! ÐEÑ ‚ XB! ÐEÑ em J (ou, melhor ainda, em X0 ÐB! Ñ ÐFÑ). Tudo o que
haveria a fazer seria tomar um prolongamento local de classe G # , 0 À Y Ä J ,
de 0 em B! e definir H# 0B! como a restrição da aplicação bilinear
H# 0 B! À I ‚ I Ä J . Esta definição não é, no entanto, legítima, visto que, em
geral, o resultado depende do prolongamento 0 (ver, por exemplo, o
exercício II.14 no final do capítulo).

A maioria das propriedades das aplicações de classe G 5 em conjuntos


abertos estende-se trivialmente ao caso em que o domínio é um conjunto
arbitrário. Apresentamos em seguida um exemplo do tipo de demonstra-
ção trivial que se pode fazer para obter um resultado para domínios arbi-
trários a partir do correspondente resultado para domínios abertos.

II.2.9 Sejam os espaços vectoriais de dimensão finita Iß J" ß á ß J8 , o conjunto


E § I e, para cada " Ÿ 4 Ÿ 8, 04 À E Ä J4 uma aplicação e consideremos a
correspondente aplicação
0 À E Ä J" ‚ â ‚ J8 , 0 ÐBÑ œ Ð0" ÐBÑß á ß 08 ÐBÑÑ.

Tem-se então que 0 é de classe G 5 se, e só se, cada 04 é de classe G 5 e então,


no caso em que 5   ", tem-se, para cada B! − E e ? − XB! ÐEÑ,
H0B! Ð?Ñ œ ÐH0" B! Ð?Ñß á ß H08 B! Ð?ÑÑ.

Dem: Suponhamos que 0 é de classe G 5 . Se B! − E, podemos considerar um


prolongamento local de classe G 5 0 À Y Ä J" ‚ â ‚ J8 de 0 em B! e então
as aplicações 0 4 À Y Ä J4 definidas por 0 ÐBÑ œ Ð0 " ÐBÑß á ß 0 8 ÐBÑÑ vão ser
prolongamentos locais de classe G 5 dos 04 , o que mostra que estas aplicações
são de classe G 5 . Suponhamos, reciprocamente, que cada 04 é de classe G 5 e
seja, mais uma vez, B! − E arbitrário. Para cada " Ÿ 4 Ÿ 8, podemos
considerar um prolongamento local de classe G 5 0 4 À Y4 Ä J4 de 04 em B! .
8
Tem-se então que Y œ  Y4 é um aberto de I contendo B! e a aplicação de
4œ"
classe G 5 0 À Y Ä J" ‚ â ‚ J8 definida por 0 ÐBÑ œ Ð0 " ÐBÑß á ß 0 8 ÐBÑÑ é
um prolongamento local de classe G 5 de 0 . Ficou assim provado que 0 é de
classe G 5 e podemos agora escrever, para cada B! − E e ? − XB! ÐEÑ,
H0B! Ð?Ñ œ H0 B! Ð?Ñ œ
œ ÐH0 " B! Ð?Ñß á ß H0 8 B! Ð?ÑÑ œ ÐH0" B! Ð?Ñß á ß H08 B! Ð?ÑÑ. …

Daqui para a frente aplicaremos frequentemente generalizações do tipo da


anterior sem as enunciarmos explicitamente. Pela especial importância
que ele vai ter, vamos, no entanto, observar detalhadamente o que se
passa com o teorema da derivada da função composta.
98 Cap. II. Vectores Tangentes e Variedades

II.2.10 Sejam I , J e K espaços vectoriais de dimensão finita, E § I e F § J


dois subconjuntos e 0 À E Ä F e 1À F Ä K duas aplicações de classe G 5 .
Tem-se então que 1 ‰ 0 À E Ä K é também de classe G 5 e, no caso em que
5   ",
HÐ1 ‰ 0 ÑB! œ H10 ÐB! Ñ ‰ H0B! .

Dem: Seja B! − E arbitrário. Sejam 1À Z Ä K um prolongamento local de


classe G 5 de 1 em 0 ÐB! Ñ e 0 À Y Ä J um prolongamento local de classe G 5
de 0 em B! . Tendo em conta a continuidade de 0 , vemos que, se necessário
"
substituindo o aberto Y pelo aberto 0 ÐZ Ñ, que ainda contém B! , e 0 pela
sua restrição, pode-se já supor que 0 ÐY Ñ § Z . Concluímos daqui que
1 ‰ 0 À Y Ä K é um prolongamento local de classe G 5 de 1 ‰ 0 À E Ä K em
B! . Ficou assim provado que 1 ‰ 0 é de classe G 5 . Se 5   ", tem-se
HÐ1 ‰ 0 ÑB! œ H10 ÐB! Ñ ‰ H0 B! pelo que, para cada A − XB! ÐEÑ,

HÐ1 ‰ 0 ÑB! ÐAÑ œ HÐ1 ‰ 0 ÑB! ÐAÑ œ H10 ÐB! Ñ ÐH0 B! ÐAÑÑ œ
œ H10 ÐB! Ñ ÐH0B! ÐAÑÑ œ H10 ÐB! Ñ ÐH0B! ÐAÑÑ,

o que mostra que HÐ1 ‰ 0 ÑB! œ H10 ÐB! Ñ ‰ H0B! . …


II.2.11 (A noção de aplicação de classe G é local) Sejam I e J espaços
5

vectoriais de dimensão finita, E § I um subconjunto e 0 À E Ä J uma


aplicação. Tem-se então:
a) Se 0 é de classe G 5 e se F § E é outro conjunto, a restrição 0ÎF À F Ä J
é também de classe G 5 e, para cada B! − F , HÐ0ÎF ÑB! é a restrição de H0B! a
XB! ÐFÑ.
b) Se ÐE4 Ñ4−N é uma família de abertos de E, de união E, tal que cada
restrição 0ÎE4 À E4 Ä J seja de classe G 5 (ou, o que é equivalente, se, para
cada B − E, existe um aberto Z de E, com B − Z , tal que 0ÎZ seja de classe
G 5 ), então 0 é de classe G 5 .
Dem: A alínea a) resulta simplesmente de que, se B! − F e 0 À Y Ä J é um
prolongamento local de classe G 5 de 0 em B! , então 0 é também um prolon-
gamento local de 0ÎF em B! . Provemos então b). Seja B! − E arbitrário.
Podemos escolher 4 tal que B! − E4 e então o facto de 0ÎE4 À E4 Ä J ser de
classe G 5 garante a existência de um prolongamento local 0 À Y Ä J de
classe G 5 de 0ÎE4 em B! . Apesar de 0 não ter que ser um prolongamento
local de 0 em B! , uma vez que nada sabemos sobre os valores de 0 nos
pontos de E  Y que não estejam em E4 , o facto de E4 ser aberto em E
garante a existência de um aberto Y4 de I tal que E4 œ E  Y4 , tendo-se
evidentemente B! − Y4 , e então 0 ÎY4 Y À Y4  Y Ä J já é um prolongamento
local de 0 em B! . Ficou assim provado que 0 À E Ä J é de classe G 5 . …
§2. Funções diferenciáveis em conjuntos não abertos 99

Outro resultado que será utilizado com frequência, e que já encontrámos


no caso dos domínios abertos, tem a ver com o estudo de aplicações com
valores num espaço de aplicações lineares.

II.2.12 Sejam I , J e K espaços vectoriais de dimensão finita, E § I um


subconjunto e 0 À E Ä PÐJ à KÑ uma aplicação. Tem-se então que 0 é de
classe G 5 se, e só se, para cada @ − J , for de classe G 5 a aplicação
0Ð@Ñ À E Ä K , definida por 0Ð@Ñ ÐBÑ œ 0 ÐBÑÐ@Ñ, e então, quando 5   ", tem-se,
para cada B − E e ? − XB ÐEÑ,
H0Ð@Ñ B Ð?Ñ œ H0B Ð?ÑÐ@Ñ.

Mais precisamente, dada uma base @" ß á ß @8 de J , para garantir que 0 é de


classe G 5 , basta verificar que 0Ð@Ñ é de classe G 5 quando @ é um dos 8
vectores daquela base.
Dem: A razão por que referimos esta generalização de I.6.14 está no facto de
a sua justificação se fazer de modo mais natural por repetição do caminho
seguido na demonstração daquele resultado e não por aplicação deste a
prolongamentos locais convenientes. …
II.2.13 Sejam I e J espaços vectoriais de dimensão finita, E § I e F § J dois
subconjuntos e 0 À E Ä F uma bijecção. Tal como no caso dos conjuntos
abertos, diz-se que 0 é um difeomorfismo de classe G 5 se ambas as apli-
cações 0 À E Ä F e 0 " À F Ä E forem de classe G 5 . Como antes, chamamos
simplesmente difeomorfismos aos difeomorfismos de classe G _ , isto é, às
bijecções que são suaves, assim como as respectivas inversas. Diz-se que E e
F são difeomorfos se existe um difeomorfismo 0 À E Ä F .
Repare-se que dizer que a bijecção 0 é um difeomorfismo de classe G 5 quer
dizer que tanto 0 como 0 " admitem prolongamentos locais de classe G 5 ,
mas isso não implica de modo nenhum que 0 admita prolongamentos locais
que sejam difeomorfismos de classe G 5 entre abertos de I e de J .24
II.2.14 Dados E § I , F § J e um difeomorfismo de classe G " , 0 À E Ä F ,
tem-se que, para cada B! − E, H0B! é um isomorfismo de XB! ÐEÑ sobre

X0 ÐB! Ñ ÐFÑ, que aplica tB! ÐEÑ sobre t0 ÐB! Ñ ÐFÑ e t B! ÐEÑ sobre t0 ÐB! Ñ ÐFÑ, o
isomorfismo inverso sendo igual a HÐ0 " Ñ0 ÐB! Ñ .
Dem: Já sabemos que H0B! é uma aplicação linear de XB! ÐEÑ em X0 ÐB! Ñ ÐFÑ,

que aplica tB! ÐEÑ em t0 ÐB! Ñ ÐFÑ e t B! ÐEÑ em t0 ÐB! Ñ ÐFÑ. Do mesmo modo,
HÐ0 " Ñ0 ÐB! Ñ é uma aplicação linear de X0 ÐB! Ñ ÐFÑ em XB! ÐEÑ, que aplica
t0 ÐB! Ñ ÐFÑ em tB! ÐEÑ e t
0 ÐB! Ñ ÐFÑ em tB! ÐEÑ. Uma vez que 0
 "
‰ 0 œ M.E e que
0 ‰ 0 œ M.F , concluímos do teorema da derivação da função composta
"

que HÐ0 " Ñ0 ÐB! Ñ ‰ H0B! œ HÐ0 " ‰ 0 ÑB! é a identidade de XB! ÐEÑ e que
H0B! ‰ HÐ0 " Ñ0 ÐB! Ñ œ HÐ0 ‰ 0 " Ñ0 ÐB! Ñ é a identidade de X0 ÐB! Ñ ÐFÑ, o que

24Estes últimos não existem certamente se I e J tiverem dimensões diferentes.


100 Cap. II. Vectores Tangentes e Variedades

mostra que H0B! é um isomorfismo de XB! ÐEÑ sobre X0 ÐB! Ñ ÐFÑ, tendo
HÐ0 " Ñ0 ÐB! Ñ como isomorfismo inverso. Por fim, o facto de H0B! aplicar

tB! ÐEÑ sobre t0 ÐB! Ñ ÐFÑ e t
B! ÐEÑ sobre t0 ÐB! Ñ ÐFÑ vem de que, para cada

A − t0 ÐB! Ñ ÐFÑ (respectivamente A − t0 ÐB! Ñ ÐFÑ), tem-se Aw œ H0B! ÐAÑ, onde
w w

A œ HÐ0 " Ñ0 ÐB! Ñ ÐAw Ñ − tB! ÐEÑ

(respectivamente A − t
B! ÐEÑ). …
II.2.15 É o resultado anterior que nos permite, em muitos casos, determinar
explicitamente, sem recorrer à definição, os cones tangentes, os cones
tangentes alargados e os espaços vectoriais tangentes. Bastará, para isso,
arranjar um difeomorfismo de classe G " entre o conjunto em questão e um
outro conjunto, relativamente ao qual aqueles conjuntos sejam conhecidos.
A título de exemplo, suponhamos que I e J são espaços vectoriais de
dimensão finita, que E § I e que 0 À E Ä J é uma aplicação de classe G " .
Consideremos o respectivo gráfico, que é o subconjunto F de I ‚ J ,
F œ ÖÐBß CÑ − I ‚ J ± B − E e C œ 0 ÐBÑ×.
Podemos então considerar um difeomorfismo de classe G " 1À E Ä F , defi-
nido por 1ÐBÑ œ ÐBß 0 ÐBÑÑ (reparar que a bijecção inversa de 1 é mesmo de
classe G _ , por estar definida por ÐBß CÑ È B). Concluímos assim que, para
cada B! − E, a aplicação linear
H1B! À XB! ÐEÑ Ä XÐB! ß0 ÐB! ÑÑ ÐFÑ,

que está definida por A È ÐAß H0B! ÐAÑÑ, é um isomorfismo que aplica

tB! ÐEÑ sobre tÐB! ß0 ÐB! ÑÑ ÐFÑ e t B! ÐEÑ sobre tÐB! ß0 ÐB! ÑÑ ÐFÑ (em particular,
XÐB! ß0 ÐB! ÑÑ ÐFÑ é o gráfico da aplicação linear H0B! ). Vemos portanto que, no
caso em que XB! ÐEÑ, tB! ÐEÑ e t B! ÐEÑ são conhecidos (por exemplo, se E for
um aberto de I ), ficamos a conhecer XÐB! ß0 ÐB! ÑÑ ÐFÑ, tÐB! ß0 ÐB! ÑÑ ÐFÑ e
t
ÐB! ß0 ÐB! ÑÑ ÐFÑ.

II.2.16 Para cada " Ÿ 4 Ÿ 8, seja I4 um espaço vectorial de dimensão finita e


seja B4 ! − E4 § I4 . Considerando então o subconjunto E" ‚ â ‚ E8 do
espaço vectorial de dimensão finita I" ‚ â ‚ I8 , tem-se
tÐB" ! ßáßB8 ! Ñ ÐE" ‚ â ‚ E8 Ñ § tB" ! ÐE" Ñ ‚ â ‚ tB8 ! ÐE8 Ñ,25
t  
ÐB" ! ßáßB8 ! Ñ ÐE" ‚ â ‚ E8 Ñ § tB" ! ÐE" Ñ ‚ â ‚ tB8 ! ÐE8 Ñ,
XÐB" ! ßáßB8 ! Ñ ÐE" ‚ â ‚ E8 Ñ œ XB" ! ÐE" Ñ ‚ â ‚ XB8 ! ÐE8 ÑÑ.

Dem: Uma vez que cada projecção canónica 14 À I" ‚ â ‚ I8 Ä I4 é uma

25O exercício II.8, no fim do capítulo, mostra que nesta e na próxima inclusão a igualdade
dos dois membros pode não ser verificada.
§2. Funções diferenciáveis em conjuntos não abertos 101

aplicação linear, logo de classe G _ e com H14 ÐB" ! ßáßB8 ! Ñ œ 14 , a qual aplica
E" ‚ â ‚ E8 em E4 , concluímos que 14 aplica
XÐB" ! ßáßB8 ! Ñ ÐE" ‚ â ‚ E8 Ñ em XB4 ! ÐE4 Ñ,
tÐB" ! ßáßB8 ! Ñ ÐE" ‚ â ‚ E8 Ñ em tB4 ! ÐE4 Ñ,
t 
ÐB" ! ßáßB8 ! Ñ ÐE" ‚ â ‚ E8 Ñ em tB4 ! ÐE4 Ñ,

o que mostra que


XÐB" ! ßáßB8 ! Ñ ÐE" ‚ â ‚ E8 Ñ § XB" ! ÐE" Ñ ‚ â ‚ XB8 ! ÐE8 Ñ,
tÐB" ! ßáßB8 ! Ñ ÐE" ‚ â ‚ E8 Ñ § tB" ! ÐE" Ñ ‚ â ‚ tB8 ! ÐE8 Ñ,
t  
ÐB" ! ßáßB8 ! Ñ ÐE" ‚ â ‚ E8 Ñ § tB" ! ÐE" Ñ ‚ â ‚ tB8 ! ÐE8 Ñ.

Consideremos, por outro lado, para cada " Ÿ 4 Ÿ 8, a aplicação de classe


G _ 04 À E4 Ä E" ‚ â ‚ E8 definida por
04 ÐBÑ œ ÐB" ! ß á ß B4" ! ß Bß B4" ! ß á ß B8 ! Ñ,

para a qual se tem H04 B4 ÐAÑ œ Ð!ß á ß !ß Aß !ß á ß !Ñ (com A na posição 4).


!
Se, para cada " Ÿ 4 Ÿ 8, A4 − XB4 ! ÐE4 Ñ, podemos portanto concluir que
Ð!ß á ß !ß A4 ß !ß á ß !Ñ − XÐB" ! ßáßB8 ! Ñ ÐE" ‚ â ‚ E8 Ñ, pelo que, por este ser
um subespaço vectorial, também

ÐA" ß á ß A8 Ñ œ " Ð!ß á ß !ß A4 ß !ß á ß !Ñ − XÐB" ! ßáßB8 ! Ñ ÐE" ‚ â ‚ E8Ñ,


8

4œ"

o que termina a demonstração. …


II.2.17 (Nota) Sejam I e J espaços vectoriais, E § I um conjunto e 0 À E Ä J
uma aplicação.
a) Suponhamos que I w § I é um subespaço vectorial contendo E. Se
repararmos na definição de aplicação de classe G 5 , apresentada em II.2.1,
vemos que não é a priori evidente que dizer que 0 é de classe G 5 , quando se
considera E como parte de I , seja equivalente a dizer que 0 é de classe G 5 ,
quando se considera E como parte de I w . Com efeito, um prolongamento
local de 0 num ponto está, no primeiro caso, definido num aberto de I e, no
segundo caso, num aberto de I w .
No entanto, como vamos ver, as duas afirmações são de facto equivalentes e,
no caso em que 5   ", a derivada H0B! À XB! ÐEÑ Ä J é a mesma dos dois
pontos de vista. Para verificarmos isso, o mais fácil é talvez aplicar o teorema
da derivação da função composta, reparando que a identidade de E é um
difeomorfismo de classe G _ de E, como parte de I w , sobre E, como parte de
I , cuja derivada em cada B! − E é a identidade de XB! ÐEÑ; para
confirmarmos que assim é, basta considerar, como prolongamentos da
aplicação e da sua inversa, respectivamente, a inclusão +À I w Ä I e a
projecção ortogonal 1À I Ä I w , relativamente a um produto interno de I .
102 Cap. II. Vectores Tangentes e Variedades

b) Suponhamos, analogamente, que J w § J é um subespaço vectorial tal que


0 ÐEÑ § J w . Mais uma vez, e embora isso não seja a priori evidente, vai ser
equivalente dizer que 0 é de classe G 5 , quando considerada com valores em
J ou que o é, quando considerada com valores em J w , o valor H0B! , no caso
em que 5   ", sendo o mesmo dos dois pontos de vista. Para verificarmos
isso, aplicamos mais uma vez o teorema da derivação da função composta,
reparando que a identidade de J w é um difeomorfismo de classe G _ de J w ,
considerado como parte de J w , sobre J w , considerado como parte de J ,
difeomorfismo cuja derivada em cada ponto é a identidade de J (mesma
justificação que anteriormente).

§3. Partições da unidade.

O conteúdo desta secção é de carácter técnico e pode ser dispensado numa


primeira leitura. Os resultados obtidos são, no entanto, de utilização
frequente em Matemática e teremos ocasião de os aplicar mais adiante.

II.3.1 (Lema) Para cada inteiro 8   0, tem-se


lim >8 /> œ !.
>Ä_

Dem: O resultado é trivial para 8 œ !. O caso geral resulta por indução em


8, com o auxílio de regra de Cauchy para determinar o limite quando
8
> Ä _ de >/> . …
II.3.2 (Lema) Existe uma aplicação de classe G _ , :À ‘ Ä Ò!ß "Ò, definida por

:Ð>Ñ œ œ
! , se > Ÿ !
.
/"Î> , se >  !

Dem: Seja, mais geralmente, para cada inteiro 8   !, :8s À ‘ Ä ‘ a aplicação


definida por

:8s Ð>Ñ œ œ
! , se > Ÿ !
" ,
>8 /"Î> , se >  !

aplicação que é contínua, pelo lema precedente. A aplicação : do enunciado


não é mais do que a aplicação :s! . Para cada > Á !, a aplicação :8 é derivável
em > e com
:8w Ð>Ñ œ 8 :8" Ð>Ñ  :8# Ð>Ñ
e, tendo em conta a continuidade de :8 e do segundo membro da igualdade
anterior, concluímos que a igualdade anterior é ainda válida para > œ !. É
§3. Partições da unidade 103

agora imediato concluir, por indução em 5 , que todas as funções :8 são de


classe G 5 , para todo o 5 , e portanto de classe G _ . …
II.3.3 Suponhamos que E é um espaço topológico, que J é um espaço vectorial
de dimensão finita e que, para cada 4 − N , 04 À E Ä J é uma aplicação.
Diz-se que a família de aplicações Ð04 Ñ4−N é localmente finita se, para cada
B! − E, existe um aberto Z de E, com B! − Z , e uma parte finita N w de N ,
tais que, para cada B − Z e 4 − N Ï N w , se tenha 04 ÐBÑ œ ! (Por outras
palavras, com um número finito de excepções possíveis, as aplicações 04 são
identicamente nulas no aberto Z ).
No caso em que temos uma família localmente finita de aplicações
04 À E Ä J , podemos definir a soma ! 04 como sendo a aplicação de E em

J , que a cada B − E associa a soma ! 04 ÐBÑ (para cada B esta soma tem
4−N

4−N
apenas um número finito de parcelas não nulas).
Se tivermos uma família localmente finita de aplicações contínuas
04 À E Ä J , a sua soma ! 04 é ainda uma aplicação contínua de E em J .
4−N
Com efeito, para vermos que uma aplicação definida em E é contínua, basta
vermos que, para cada ponto B! − E, existe um aberto Z de E, com B! − Z ,
onde a restrição da aplicação é contínua, e, por definição, podemos escolher
esse aberto de modo que a restrição seja uma soma finita de aplicações
contínuas.
Com a mesma justificação, no caso em que E é uma parte arbitrária dum
espaço vectorial I de dimensão finita e temos uma família localmente finita
de aplicações de classe G 5 , 04 À E Ä J , a sua soma ! 04 é ainda uma aplica-
4−N
ção de classe G 5 de E em J .
II.3.4 (Primeira versão do teorema da partição da unidade) Sejam I um
espaço vectorial de dimensão finita e ÐY4 Ñ4−N uma família de conjuntos
abertos de I e notemos Y a união dos abertos Y4 . Existe então uma família
contável26 de aplicações suaves, 0# À Y Ä Ò!ß "Ó, onde # − >, verificando as
condições seguintes:
a) A família Ð0# Ñ#−> é localmente finita;
b) Para cada # − >, existe um índice 4 e um conjunto compacto G# § Y4 tais
que se tenha 0# ÐBÑ œ !, para cada B − Y Ï G# , por outras palavras, a
aplicação 0# tem suporte compacto contido em Y4 .
c) Para cada B − Y , tem-se ! 0# ÐBÑ œ ".27
# −>
Dem: Fixemos em I um produto interno e consideremos sobre I a norma

26Ao dizermos que a família é contável estamos a significar que o conjunto > dos índices
é finito ou numerável.
27É esta igualdade que está na origem do nome partição da unidade.
104 Cap. II. Vectores Tangentes e Variedades

associada, reparando que se pode então considerar uma aplicação suave


2À I Ä ‘, definida por 2ÐBÑ œ mBm# œ ØBß BÙ.
Para cada natural 8   ", notemos
"
Z8 œ ÖB − I ± mBm  8 • .ÐBß I Ï Y Ñ  ×,
8
"
O8 œ ÖB − I ± mBm Ÿ 8 • .ÐBß I Ï Y Ñ   ×,
8
onde omitimos as segundas condições no caso particular em que Y œ I
(para evitar falar da distância de B ao conjunto vazio; alternativamente
podemos considerar essa distância, por definição, igual a _ÑÞ Reparemos
que os conjuntos O8 são fechados e limitados em I , portanto compactos, e
estão contidos em Y , que os conjuntos Z8 são abertos em I , que se tem
Z8 § O8 § Z8" § O8"
e que a união dos compactos O8 é igual a Y (se B − Y , podemos escolher 8
tal que mBm Ÿ 8 e que, no caso em que Y Á I , 8" seja menor ou igual à
distância .ÐBß I Ï Y )  !). Ponhamos, por comodidade, Z" œ Z! œ g e
O" œ O! œ g, o que é compatível com as inclusões atrás referidas.
Para cada 8   " consideremos o compacto O8 Ï Z8" . Para cada
C − O8 Ï Z8" , tem-se C Â O8# pelo que, escolhendo 4 tal que C − Y4 ,
podemos fixar um raio <8ßC  ! tal que a bola fechada F <8ßC ÐCÑ esteja contida
no aberto Y4 Ï O8# . Uma vez que as correspondentes bolas abertas F<8ßC ÐCÑ
constituem uma cobertura aberta do compacto O8 Ï Z8" , podemos escolher
uma parte finita M8 de O8 Ï Z8" tal que a união dos F<8ßC ÐCÑ, com C − M8 ,
ainda contenha O8 Ï Z8" .
Para cada 8   " e C − M8 , seja s0 8ßC À I Ä Ò!ß "Ò a aplicação suave definida
por
s0 8ßC ÐBÑ œ :Ð<8ßC
#
 mB  Cm# Ñ,

onde :À ‘ Ä [0,"[ é a aplicação suave do lema II.3.2, aplicação para a qual


se tem assim
s0 8ßC ÐBÑ  ! Í B − F<8ßC ÐCÑ,

em particular a aplicação s0 8ßC é nula fora do compacto F <8ßC ÐCÑ contido num
dos Y4 .
Vamos agora verificar que a família das restrições das aplicações s0 8ßC a Y é
localmente finita (isto apesar de a família das aplicações s0 8ßC não ter que ser
localmente finita). Consideremos para isso D − Y arbitrário. Existe 8! tal que
D − O8! e então Z8! " é um aberto de Y , contendo D tal que, para cada
8   8!  $ e C − M8 (portanto salvo para um número finito de pares Ð8ß CÑ),
s0 8ßC ÐBÑ œ ! para todo o B − Z8! " , visto que, se s0 8ßC ÐBÑ  !, tinha-se
§3. Partições da unidade 105

B − F<8ßC ÐCÑ § Y4 Ï O8# § Y4 Ï O8! " § Y4 Ï Z8! " .

A família contável das aplicações suaves s0 8ßC ÎY À Y Ä Ò!ß "Ò verifica assim as

que, para cada B − Y , tem-se ! s0 8ßC ÐBÑ  !, uma vez que, escolhendo o
condições a) e b) do enunciado. Quanto a c), tudo o que podemos dizer é

menor dos 8 tais que B − O8 , tem-se B − O8 Ï Z8" , e portanto


B − F<8ßC ÐCÑ, para algum C − M8 , o que implica s0 8ßC ÐBÑ  !.
O facto de termos uma família localmente finita de funções suaves,
permite-nos definir uma função suave s0 À Y Ä Ó!ß _Ò por
s0 ÐBÑ œ " s0 8ßC ÐBÑ
8 "
C−M8

e, a partir dela, uma família contável de funções suaves 08ßC À Y Ä Ò!ß "Ó,
onde 8   " e C − M8 , definidas por
s0 8ßC ÐBÑ
08ßC ÐBÑ œ ,
s0 ÐBÑ

as quais vão verificar as condições a), b) e c) do enunciado. …


II.3.5 (Nota) No caso em que o espaço vectorial I é um espaço vectorial
complexo não é verdade que as aplicações suaves 08ßC , construídas na
demonstração precedente, sejam holomorfas, mesmo que se tenha tido o
cuidado de utilizar um produto interno complexo (hermítico) em I . A razão
por que as coisas não funcionam está em que a função 2ÐBÑ œ mBm# œ ØBß BÙ
não é holomorfa, por o produto interno não ser uma aplicação bilinear
complexa, uma vez que é antilinear, e não linear, na segunda variável. Aliás,
para quem conheça os rudimentos da teoria das aplicações holomorfas, é
óbvia a impossibilidade de existência de partições da unidade holomorfas,
tendo em conta o facto de toda a aplicação holomorfa, de domínio conexo,
que seja nula numa parte aberta não vazia do seu domínio, ter que ser
identicamente nula.
II.3.6 Nas aplicações será muitas vezes mais útil a versão do teorema da partição
da unidade, que enunciamos em seguida, em que se perde a garantia da
existência de suporte compacto mas, em compensação, se consegue que a
partição da unidade tenha o mesmo conjunto de índices que a família de
abertos.
II.3.7 (Segunda versão do teorema da partição da unidade) Sejam I um
espaço vectorial de dimensão finita e ÐY4 Ñ4−N uma família de abertos de I , e
notemos Y a união dos conjuntos Y4 . Existe então uma família Ð14 Ñ4−N de
funções suaves 14 À Y Ä Ò!ß "Ó tal que:
a) A família Ð14 Ñ4−N é localmente finita.
b) Para cada 4 − N , existe um subconjunto G4 de Y4 , fechado em Y , tal que
106 Cap. II. Vectores Tangentes e Variedades

14 ÐBÑ œ !, para cada B − Y Ï G4 (por outras palavras, 14 tem suporte contido

c) Para cada B − Y , ! 14 ÐBÑ œ ".


em Y4 ).

4−N
Dem: Seja Ð0# Ñ#−> uma família nas condições de II.3.4 e notemos agora G s#
os correspondentes subconjuntos compactos de abertos Y4 fora dos quais os
0# se anulam. Para cada # − >, escolhamos um índice 4Ð# Ñ − N tal que
Gs # § Y4Ð#Ñ . Para cada 4 − N , seja >4 o conjunto dos # − > tais que 4 œ 4Ð# Ñ.
Os conjuntos >4 são evidentemente disjuntos dois a dois e de união > (alguns
deles podem ser vazios). Para cada 4 − N , a família Ð0# Ñ#−>4 é trivialmente
também localmente finita pelo que podemos definir uma aplicação suave
14 À Y Ä Ò!ß "Ó por

14 ÐBÑ œ " 0# ÐBÑ.


# −>4

Para cada B − Y , existe uma vizinhança Z de B em Y e um conjunto finito


>w § > de modo que, para cada # − > Ï >w , a restrição de 0# a Z seja
identicamente nula; se N w § N é o conjunto finito formado pelos 4Ð# Ñ, com
# − >w , tem-se então que, para cada 4 − N Ï N w , a restrição de 14 a Z é

finita. É trivial que, para cada B − Y , ! 14 ÐBÑ œ ". Resta-nos portanto


identicamente nula, o que mostra que a família das aplicações 14 é localmente

4−N
demonstrar a propriedade b) do enunciado. Seja, para cada 4 − N , [4 o
conjunto dos B − Y tais que 14 ÐBÑ  ! e notemos G4 a aderência de [4 em
Y ; tudo o que temos que verificar é que se tem G4 § Y4 . Seja portanto
B − G4 arbitrário. Sejam Z uma vizinhança aberta de B em Y e >w § > uma
parte finita, de modo que, para cada # − > Ï >w , a restrição de 0# a Z seja
nula. Seja Z w uma vizinhança arbitrária de B em Y . O facto de B pertencer à
aderência de [4 implica a existência de C − Z  Z w  [4 ; tem-se então
14 ÐCÑ  ! pelo que existe # − >4 tal que 0# ÐCÑ  !, o que implica que
C−G s # e # − >w ; isto mostra que B é aderente à união finita dos G
s # , com
# − >  >4 , união essa que é fechada, por ser uma união finita de
w

compactos; concluímos assim que B pertence àquela união, pelo que B − Y4 ,


o que termina a demonstração. …
II.3.8 (Notas) Nas condições anteriores costuma dizer-se que a família Ð14 Ñ4−N é
uma partição da unidade de Y subordinada à cobertura aberta ÐY4 Ñ4−N de Y .
Mais uma vez, e tal como já referimos atrás, não há esperança de se poder
obter uma versão holomorfa do resultado precedente, no caso em que I é um
espaço vectorial complexo.
É natural perguntarmo-nos se não seria possível melhorar o resultado
anterior, de modo a exigir na condição b) que o conjunto G4 seja compacto
ou, pelo menos, que seja fechado em I (e não somente em Y ). Para vermos
que isso não é possível, basta repararmos que, no caso em que consideramos
§3. Partições da unidade 107

uma família constituída por um único aberto Y , diferente de I e do conjunto


vazio, a correspondente aplicação 1À Y Ä Ò!ß "Ó não pode deixar de ser a
função identicamente igual a ", a qual só é nula fora de Y (isto é, sobre o
conjunto vazio…); o conjunto Y é evidentemente fechado em Y mas não o é
em I e muito menos é compacto. No corolário que se segue veremos como é
possível exigir que G4 seja fechado em I , à custa de obter uma conclusão
mais fraca em c).

conjunto fechado e ÐY4 Ñ4−N uma família de abertos de I , tal que E § - Y4 .


II.3.9 (Corolário) Sejam I um espaço vectorial de dimensão finita, E § I um

4−N
Existe então uma família Ð14 Ñ4−N , de funções suaves 14 À I Ä Ò!ß "Ó tal que:
a) A famíliaÐ14 Ñ4−N é localmente finita.
b) Para cada 4 − N , existe um subconjunto G4 de Y4 , fechado em I , tal que
14 ÐBÑ œ !, para cada B − I Ï G4 .
c) Para cada B − E, ! 14 ÐBÑ œ " e, para cada B − I , ! 14 ÐBÑ Ÿ ".
4−N 4−N
Dem: Basta aplicar a segunda versão do teorema da partição da unidade à
cobertura aberta de I formada pelos conjuntos abertos Y4 e I Ï E,
ignorando em seguida a função correspondente a este último aberto. …
II.3.10 (Prolongamentos globais de aplicações de classe G 5 ) Sejam I e J
espaços vectoriais de dimensão finita, E § I um conjunto arbitrário e
0 À E Ä J uma aplicação de classe G 5 . Existe então um aberto Y de I , com
E § Y , e um prolongamento de classe G 5 0 À Y Ä J de 0 .
Dem: Para cada B − E, seja 0 ÐBÑ À YB Ä J um prolongamento local de classe
G 5 de 0 no ponto B. Seja Y a união dos abertos YB de I , com B − E, que é
um aberto de I , contendo E. Pela segunda versão do teorema da partição da
unidade, podemos considerar uma família localmente finita de funções
suaves 1ÐBÑ À Y Ä Ò!ß "Ó tal que cada 1ÐBÑ seja nula fora de um certo

! 1ÐBÑ ÐCÑ œ ". Para cada B − E, podemos considerar uma aplicação


subconjunto GB de YB , fechado em Y , e que, para cada C − Y , se tenha

B−E
s0 ÐBÑ À Y Ä J , de classe G 5 , definida por

s0 ÐBÑ ÐCÑ œ œ
! , se C Â YB
.
1ÐBÑ ÐCÑ0 ÐBÑ ÐCÑ , se C − YB

O facto de esta aplicação ser efectivamente de classe G 5 é uma consequência


de termos uma noção local, visto que ela vai ter restrição de classe G 5 a cada
um dos dois abertos YB e Y Ï GB , de união Y , a segunda por ser
identicamente nula. Uma vez que a família das aplicações de classe G 5
s0 ÐBÑ À Y Ä J , com B − E, é localmente finita, por a família das funções 1ÐBÑ
o ser, podemos considerar uma aplicação 0 À Y Ä J , de classe G 5 , definida
por
108 Cap. II. Vectores Tangentes e Variedades

0 ÐCÑ œ " s0 ÐBÑ ÐCÑ.


B−E

Se C − E, tem-se s0 ÐBÑ ÐCÑ œ 1ÐBÑ ÐCÑ0 ÐCÑ, quer C pertença ou não a YB , no


segundo caso porque ambos os membros são nulos e no primeiro caso
porque, sendo C − YB  E, tem-se 0 ÐBÑ ÐCÑ œ 0 ÐCÑ. Podemos assim concluir
que, se C − E, tem-se
0 ÐCÑ œ " s0 ÐBÑ ÐCÑ œ " 1ÐBÑ ÐCÑ0 ÐCÑ œ ˆ" 1ÐBÑ ÐCщ0 ÐCÑ œ 0 ÐCÑ,
B−E B−E B−E

o que mostra que 0 é efectivamente um prolongamento de 0 . …


II.3.11 (Teorema da partição da unidade para conjuntos arbitrários) Sejam
I um espaço vectorial de dimensão finita, E § I um conjunto arbitrário e
ÐE4 Ñ4−N uma família de abertos de E de união E. Existe então uma família
localmente finita de funções suaves 14 À E Ä Ò!ß "Ó, onde 4 − N , tal que cada

B − E, ! 14 ÐBÑ œ "Þ
14 é nula fora de uma certa parte G4 de E4 , fechada em E, e que, para cada

4−N
Como anteriormente, dizemos que a família das aplicações 14 é uma partição
da unidade de E subordinada à cobertura aberta de E constituída pelos
conjuntos E4 .
Dem: Para cada 4 − N , seja Y4 um aberto de I tal que E4 œ E  Y4 . Sendo
Y a união dos Y4 , que é um aberto contendo E, podemos, por II.3.7,
considerar uma família localmente finita de funções suaves s14 À Y Ä Ò!ß "Ó tal
s 4 de Y4 , fechada em Y , e que,
!
que cada s14 seja nula fora de uma certa parte G
para cada B − Y , s14 ÐBÑ œ ". Basta-nos agora tomar para 14 À E Ä Ò!ß "Ó as
4−N
s 4  E.
restrições das aplicações s14 e para G4 as intersecções G …
II.3.12 Sejam I e J espaços vectoriais de dimensão finita, E § I um
subconjunto, F um conjunto fechado em E e 0 À F Ä J uma aplicação de
classe G 5 . Existe então uma aplicação de classe G 5 , 0 À E Ä J , prolongando
a aplicação 0 .
Dem: Tendo em conta II.3.10, vai existir um aberto Y de I , com F § Y , e
um prolongamento s0 À Y Ä J , de classe G 5 , de 0 . Vem que Y  E e E Ï F
são dois abertos em E, de união E, pelo que a versão precedente do teorema
da partição da unidade garante a existência de aplicações suaves
:ß <À E Ä Ò!ß "Ó tais que : se anula fora de uma certa parte G de Y  E,
fechada em E, < se anula fora de uma certa parte G w de E Ï F , fechada em
E, e, para cada B − E, :ÐBÑ  <ÐBÑ œ ". Em particular, para cada B − F ,
tem-se <ÐBÑ œ !, donde :ÐBÑ œ ". Seja agora 0 À E Ä J a aplicação de
classe G 5 definida por
§3. Partições da unidade 109

0 ÐBÑ œ œ
! , se B Â Y
s ÐBÑ Þ
:ÐBÑ0 , se B − Y

O facto de 0 ser de classe G 5 é uma consequência de termos uma noção


local, visto que isso vai acontecer às suas restrições aos abertos Y  E e
E Ï G de E, com união E (a segunda restrição é identicamente nula). Por
fim, para cada B − F , o facto de ser :ÐBÑ œ " implica que
0 ÐBÑ œ s0 ÐBÑ œ 0 ÐBÑ, pelo que temos um prolongamento de 0 . …
II.3.13 (Nota) Sabemos, por definição, que uma aplicação de classe G 5 , definida
num conjunto não obrigatoriamente aberto, pode ser prolongada numa
aplicação de classe G 5 definida nalgum aberto contendo o seu domínio, mas,
em geral, não temos nenhuma informação sobre o aberto que podemos
escolher nessas condições. A vantagem do resultado precedente é a possibili-
dade de garantirmos a existência de um prolongamento de classe G 5 a um
conjunto dado a priori. Por exemplo, quando E é fechado em I , o resultado
precedente garante que toda a aplicação de classe G 5 de domínio E é
restrição de uma aplicação de classe G 5 cujo domínio é o espaço todo I .

Vamos agora referir mais um exemplo de aplicação dos teorema de


partição da unidade, a possibilidade de aproximar aplicações contínuas
por aplicações suaves.

II.3.14 (Aproximação de aplicações contínuas por aplicações suaves) Sejam


I e J espaços vectoriais de dimensão finita, o segundo dos quais munido de
uma norma, E § I um conjunto e 0 À E Ä J uma aplicação contínua. Para
cada aplicação contínua $À E Ä Ó!ß _Ò, existe então um aberto Y de I ,
com E § Y , e uma aplicação suave 1À Y Ä J tal que, para cada B − E,
m1ÐBÑ  0 ÐBÑm  $ ÐBÑ. 28
Além disso, se G é um subconjunto convexo de J tal que 0 ÐEÑ § G ,
pode-se exigir que se tenha também 1ÐY Ñ § G .29
Dem:30 Para cada C − E, consideremos o aberto EC de E, com C − EC ,
EC œ ÖB − E ± m0 ÐBÑ  0 ÐCÑm  $ ÐBÑ×,

e seja YC um aberto de I tal que EC œ E  YC . Seja Y o aberto de I ,


contendo E, união dos YC , com C − E. Pelo teorema da partição da unidade,

28Repare-se que podemos, em particular, tomar como função $ uma função de valor cons-
tante maior que !, caso em que o resultado garante a existência de uma aproximação
uniforme da aplicação contínua 0 por uma aplicação suave 1.
29No caso em que E é fechado em I , pode-se tomar Y œ I (cf. o exercício II.20, no fim
do capítulo), desde que se afaste o caso trivial em que G œ g (e portanto E œ gÑ.
30Esta demonstração baseia-se na demonstração de um resultado análogo em [16].
110 Cap. II. Vectores Tangentes e Variedades

na versão em II.3.7, podemos considerar uma família localmente finita de

identicamente nula fora de YC e que, para cada B − Y , ! :C ÐBÑ œ ". Seja


aplicações suaves :C À Y Ä Ò!ß "Ó, onde C − E, tais que cada :C é

C
1À Y Ä J a aplicação suave definida por
1ÐBÑ œ " :C ÐBÑ 0 ÐCÑ
C−E

(soma duma família localmente finita de aplicações suaves) e reparemos,


desde já, que, se G § J é um subconjunto convexo de J contendo 0 ÐEÑ,
tem-se ainda 1ÐBÑ − G , para cada B − Y (1ÐBÑ é uma combinação convexa
de elementos de G ). Para cada B − E, podemos considerar o subconjunto
finito MB de E formado pelos C tais que :C ÐBÑ  ! e podemos então escrever

m1ÐBÑ  0 ÐBÑm œ ½Š" :C ÐBÑ 0 ÐCÑ‹  Š" :C ÐBÑ 0 ÐBÑ‹½ œ


C−E C−E

œ ½" :C ÐBÑ Ð0 ÐCÑ  0 ÐBÑѽ Ÿ

Ÿ " :C ÐBÑm0 ÐCÑ  0 ÐBÑm  " :C ÐBÑ $ ÐBÑ œ $ ÐBÑ,


C−MB

C−MB C−MB

visto que, para cada C − MB , o facto de ser :C ÐBÑ  ! implica que


B − E  YC œ EC , e portanto m0 ÐBÑ  0 ÐCÑm  $ ÐBÑ. …

No resultado precedente o papel do aberto Y , contendo E, só é importante


no caso em que quisermos tirar partido da afirmação suplementar de que a
aproximação suave toma valores num conjunto convexo G que contenha a
imagem da aplicação 0 ; caso contrário, poderíamos ter afirmado apenas a
existência de uma aplicação suave E Ä J a aproximar 0 e, se necessitás-
semos de uma aplicação suave definida num aberto contendo E, prolongá-
vamos a aplicação suave de domínio E (cf. II.3.10).
O resultado que enunciamos em seguida diz-nos que, quando a aplicação
contínua 0 que pretendemos aproximar já é suave num certo subconjunto
fechado do domínio, podemos construir uma aproximação suave cuja res-
trição ao subconjunto referido seja a aplicação de partida. Uma vez que
agora já não é possível garantir que a aproximação tome valores em
qualquer convexo que contenha o contradomínio de 0 , é desnecessário
referir qualquer aberto a conter o domínio de 0 . Para uma generalização
desse resultado, em que a aplicação 0 toma valores numa certa subvarie-
dade sem bordo de J e exigimos que o prolongamento tome valores nessa
subvariedade, ver o exercício III.24, no fim do capítulo III.

II.3.15 (Aproximação sem mudar o que já está bem) Sejam I e J espaços


vectoriais de dimensão finita, o segundo dos quais munido de uma norma,
E § I um conjunto e 0 À E Ä J uma aplicação contínua. Seja F § E, F
fechado em E, tal que 0ÎF À F Ä J seja suave. Para cada aplicação contínua
§3. Partições da unidade 111

$À E Ä Ó!ß _Ò, existe então uma aplicação suave 2À E Ä J tal que


2ÎF œ 0ÎF e que, para cada B − E,
m2ÐBÑ  0 ÐBÑm  $ ÐBÑ.

Dem: Pelo resultado precedente, podemos considerar uma aplicação suave


1À E Ä J tal que, para cada B − E, m1ÐBÑ  0 ÐBÑm  $ ÐBÑ (restringir a E a
aplicação de domínio Y nesse resultado). Tendo em conta II.3.12, podemos
considerar uma aplicação suave 0 À E Ä J tal que 0 ÎF œ 0ÎF . Seja Y o
aberto de E, com F § Y ,
Y œ ÖB − E ± m0 ÐBÑ  0 ÐBÑm  $ ÐBÑ×.
Pelo teorema da partição da unidade II.3.11, aplicado aos abertos Y e E Ï F
de E, com união E, podemos considerar duas aplicações suaves
:ß <À E Ä Ò!ß "Ó tais que : seja nula fora de Y , < seja nula em F e, para
cada B − E, :ÐBÑ  <ÐBÑ œ ", em particular, para cada B − F , :ÐBÑ œ ".
Seja agora 2À E Ä J a aplicação suave definida por
2ÐBÑ œ :ÐBÑ0 ÐBÑ  <ÐBÑ1ÐBÑ.

Para cada B − F , tem-se 2ÐBÑ œ 0 ÐBÑ œ 0 ÐBÑ e, reparando que, sempre que
:ÐBÑ Á !, tem-se B − Y , e portanto m0 ÐBÑ  0 ÐBÑm  $ ÐBÑ, vemos que, para
cada B − E,
m2ÐBÑ  0 ÐBÑm œ m:ÐBÑ0 ÐBÑ  <ÐBÑ1ÐBÑ  :ÐBÑ0 ÐBÑ  <ÐBÑ0 ÐBÑm œ
œ m:ÐBÑÐ0 ÐBÑ  0 ÐBÑÑ  <ÐBÑÐ1ÐBÑ  0 ÐBÑÑm Ÿ
Ÿ :ÐBÑm0 ÐBÑ  0 ÐBÑm  <ÐBÑm1ÐBÑ  0 ÐBÑm 
 :ÐBÑ$ ÐBÑ  <ÐBÑ$ ÐBÑ œ $ ÐBÑ,

como queríamos. …

§4. Variedades sem bordo.

II.4.1 No que se vai seguir, e no sentido de simplificar os enunciados, vamos


muitas vezes limitar o estudo ao caso das aplicações de classe G _ e dos
difeomorfismos de classe G _ . O leitor que o desejar verificará muito
facilmente como obter enunciados análogos, exigindo apenas que as
aplicações sejam de classe G 5 , para 5 suficientemente grande.
II.4.2 Sejam I e J espaços vectoriais reais de dimensão finita, B! − E § I e
C! − F § J . Diz-se que o par ÐEß B! Ñ é localmente difeomorfo ao par
ÐFß C! Ñ se existe um aberto Y de E, com B! − Y , um aberto Z de F , com
C! − Z , e um difeomorfismo 0 À Y Ä Z , verificando 0 ÐB! Ñ œ C! . Diz-se
então que 0 é um difeomorfismo local de ÐEß B! Ñ sobre ÐFß C! Ñ.
112 Cap. II. Vectores Tangentes e Variedades

Um caso particular é aquele em que se pode escolher Y œ E e Z œ F ; nesse


caso também se diz que ÐEß B! Ñ e ÐFß C! Ñ são difeomorfos e que 0 é um
difeomorfismo de ÐEß B! Ñ sobre ÐFß C! Ñ.
II.4.3 A relação “…é localmente difeomorfo a…” é uma relação de equivalência.
Dem: A única parte não completamente trivial é a transitividade. Sejam por-
tanto B! − E § I , C! − F § J e D! − G § K , tais que ÐEß B! Ñ seja
localmente difeomorfo a ÐFß C! Ñ e ÐFß C! Ñ seja localmente difeomorfo a
ÐGß D! Ñ. Podemos então considerar um difeomorfismo local 0 À Y w Ä Z w , de
ÐEß B! Ñ sobre ÐFß C! Ñ, e um difeomorfismo local 1À Z ww Ä [ ww , de ÐFß C! Ñ
sobre ÐGß D! Ñ. Se os abertos Z w e Z ww de F coincidissem, tínhamos o
problema resolvido, visto que, como é evidente, 1 ‰ 0 À Y w Ä [ ww seria um
difeomorfismo local de ÐEß B! Ñ sobre ÐGß D! Ñ. No caso geral, reparamos que,
uma vez que 0 e 1 são, em particular, homeomorfismos, podemos concluir
que Y œ 0 " ÐZ w  Z ww Ñ e [ œ 1ÐZ w  Z ww Ñ são abertos em Y w e [ ww , e
portanto também em E e G , respectivamente, com B! − Y e D! − [ , sendo
então imediato que
1ÎZ w Z ww ‰ 0ÎY À Y Ä [

é um difeomorfismo local de ÐEß B! Ñ sobre ÐGß D! Ñ. …


II.4.4 Sejam I um espaço vectorial de dimensão finita, B! − I e E e F dois
subconjuntos de I , contendo B! , e coincidindo na vizinhança de B! . Tem-se
então que ÐEß B! Ñ e ÐFß B! Ñ são localmente difeomorfos; mais precisamente,
sendo Z vizinhança de B! em I , com E  Z œ F  Z , Y œ intÐZ Ñ e
Y w œ E  Y œ F  Y , a aplicação identidade de Y w é um difeomorfismo
local entre aqueles dois pares.
Como caso particular do que acabamos de dizer, se B! − E § I e se Ew é
uma vizinhança de B! em E, então E e Ew coincidem na vizinhança de B!
(tem-se Ew œ E  Z , para uma certa vizinhança Z de B! em I ) e portanto
ÐEß B! Ñ e ÐEw ß B! Ñ são localmente difeomorfos.
II.4.5 Sejam I e J espaços vectoriais de dimensão finita, B! − E § I ,
C! − F § J e 0 À Y Ä Z um difeomorfismo local de ÐEß B! Ñ sobre ÐFß C! Ñ.
Tem-se então que H0B! é um isomorfismo de XB! ÐEÑ sobre XC! ÐFÑ, que
aplica tB! ÐEÑ sobre tC! ÐFÑ e t
B! ÐEÑ sobre tC! ÐFÑ.

Dem: É uma consequência imediata de II.2.14 e II.1.2. …


II.4.6 Sejam I um espaço vectorial de dimensão finita e B! − Q § I . Diz-se
que o par ÐQ ß B! Ñ é uma variedade sem bordo31 com dimensão 8 se
existirem um espaço vectorial J , de dimensão 8, e C! − J tais que ÐQ ß B! Ñ
seja localmente difeomorfo a ÐJ ß C! Ñ. Diz-se então também que o conjunto
Q é no ponto B! uma variedade sem bordo com dimensão 8. A um

31Por vezes utiliza-se o termo variedade em vez de variedade sem bordo. A razão por que
utilizamos este último é a de que encontraremos mais adiante uma noção mais geral,
relativamente à qual empregaremos o termo variedade.
§4. Variedades sem bordo 113

difeomorfismo local de ÐQ ß B! Ñ sobre ÐJ ß C! Ñ costuma-se dar o nome de


carta local de Q no ponto B! .

Figura 1

Dizemos que o conjunto Q é uma variedade sem bordo se, para cada
B − Q , ÐQ ß BÑ é uma variedade sem bordo (com uma dimensão que pode
eventualmente variar de ponto para ponto32). No caso em que, para cada
B − Q , o par ÐQ ß BÑ é uma variedade sem bordo, com a mesma dimensão 8,
dizemos também que Q é uma variedade sem bordo com dimensão 8.
II.4.7 Intuitivamente, uma variedade sem bordo com dimensão 8 é portanto um
conjunto que, localmente, é parecido com um espaço vectorial de dimensão
8. Uma variedade sem bordo com dimensão " é o que estamos habituados a
chamar de curva e as variedades sem bordo com dimensão # correspondem à
noção usual de superfície.
No nosso caso estamos a atribuir à noção intuitiva de parecido o significado
difeomorfo. Se por parecido entendêssemos homeomorfo, obteríamos uma
noção mais fraca, a de variedade topológica. Por exemplo, pode-se verificar
que a união dos quatro lados dum quadrado é uma variedade topológica sem
bordo, embora não seja uma variedade sem bordo, no sentido que utilizamos
neste curso.
II.4.8 (Exemplos) a) Como primeiro exemplo, trivial, de variedade sem bordo
com dimensão 8, temos o de um aberto Y de um espaço vectorial I de
dimensão 8: Para cada B − Y , ÐY ß BÑ é, com efeito, localmente difeomorfo a
ÐIß BÑ (cf. II.4.4).
b) Um segundo exemplo trivial de variedade é o das variedades de dimensão
!: Se B! − Q § I , o par ÐQ ß B! Ñ é uma variedade sem bordo com dimensão
! se, e só se, B! é um ponto isolado de Q , isto é, se, e só se, o conjunto
unitário ÖB! × é aberto em Q . Para o constatarmos, basta reparar que um
espaço vectorial de dimensão ! é constituído pelo único vector ! e que uma
bijecção entre conjuntos unitários é sempre um difeomorfismo, uma vez que
as aplicações constantes são suaves.
c) Como primeiro exemplo não trivial de variedade sem bordo, podemos
considerar o duma hipersuperfície esférica. Consideremos em ‘8 , com

32Ver no entanto o que dizemos adiante em II.4.11.


114 Cap. II. Vectores Tangentes e Variedades

8   ", o produto interno canónico e a norma associada e seja W § ‘8 a


hipersuperfície esférica de centro ! e raio ",
W œ ÖB − ‘8 ± mBm œ "× œ
œ ÖÐB" ß á ß B8 Ñ − ‘8 ± B#"  â  B#8 œ "×.

Consideremos um elemento arbitrário B! œ ÐB! " ß á ß B! 8 Ñ − W . O facto de se


ter B! #"  â  B! #8 œ " implica que podemos fixar 5 tal que B! 5 Á !.
Suponhamos, para começar, que B! 5  !. Podemos então considerar o aberto
Y de W formado pelos ÐB" ß á ß B8 Ñ − W tais que B5  ! e o aberto Z de
‘8" constituído pelos Ð>" ß á ß >8" Ñ tais que >#"  â  >#8"  " e vai ter
lugar um difeomorfismo 0 À Z Ä Y definido por

0 Ð>" ß á ß >8" Ñ œ Ð>" ß á ß >5" ß É"  >#"  â  >#8" ß >5 ß á ß >8" Ñ,

difeomorfismo cujo inverso é a aplicação 1À Y Ä Z , definida por


1ÐB" ß á ß B8 Ñ œ ÐB" ß á ß B5" ß B5" ß á ß B8 Ñ.
Uma vez que 0 aplica o ponto ÐB! " ß á ß B! 5" ß B! 5" ß á ß B! 8 Ñ em
ÐB! " ß á ß B! 5 ß á ß B! 8 Ñ, concluímos que W é no ponto B! uma variedade sem
bordo de dimensão 8  ". A mesma conclusão se tira no caso em que
B! 5  !, tomando para Y o aberto formado pelos ÐB" ß á ß B8 Ñ − W tais que
B5  ! e pondo o sinal  atrás do sinal da raiz na definição do difeomor-
fismo 0 . Concluímos assim que W é uma variedade sem bordo, com
dimensão 8  ". É claro que, no caso em que 8 œ ", W é o conjunto discreto
com dois elementos Ö"ß "×, portanto uma variedade de dimensão !.
O exemplo anterior será reexaminado adiante, em II.4.33, de forma mais sim-
ples e mais geral.
II.4.9 (Notas) a) Se J é um espaço vectorial real de dimensão 8 e se C! − J , o
par ÐJ ß C! Ñ é localmente difeomorfo ao par ÐJ ß !Ñ; para o verificarmos basta
notar que a translação 7C! À J Ä J , que a cada C associa C  C! , é um
difeomorfismo (com a translação 7C! como difeomorfismo inverso), que
aplica C! em !. Uma vez que a relação localmente difeomorfo é de equiva-
lência, concluímos que, se um par ÐQ ß B! Ñ é uma variedade sem bordo com
dimensão 8, então ele é mesmo localmente difeomorfo a um par do tipo
ÐJ ß !Ñ, com J espaço vectorial real de dimensão 8.
b) Se J é um espaço vectorial real de dimensão 8, então existe um
isomorfismo -À ‘8 Ä J . Basta, com efeito, fixar uma base C" ß á ß C8 de J e
definir - por
-Ð+" ß á ß +8 Ñ œ +" C"  â  +8 C8 .
Uma vez que este isomorfismo é evidentemente também um difeomorfismo,
que aplica ! em !, concluímos que ÐJ ß !Ñ e Б8 ß !Ñ são localmente
difeomorfos pelo que, como anteriormente, vemos que, se ÐQ ß B! Ñ é uma
§4. Variedades sem bordo 115

variedade sem bordo com dimensão 8, então ÐQ ß B! Ñ é mesmo localmente


difeomorfo ao par Б8 ß !Ñ.
II.4.10 Se ÐQ ß B! Ñ é uma variedade sem bordo com dimensão 8, então
tB! ÐQ Ñ œ t
B! ÐQ Ñ œ XB! ÐQ Ñ é um espaço vectorial de dimensão 8. Em
particular, a dimensão de uma variedade sem bordo num dos seus pontos é
um número bem definido.
II.4.11 Suponhamos que ÐQ ß B! Ñ é uma variedade sem bordo com dimensão 8.
Existe então um aberto Y de Q , com B! − Y , tal que, para cada B − Y ,
ÐQ ß BÑ é também uma variedade sem bordo com dimensão 8. Em
consequência, se Q é uma variedade sem bordo conexa, então Q tem a
mesma dimensão em todos os pontos.
Dem: Sejam J um espaço vectorial real de dimensão 8 e C! − J tais que
exista um difeomorfismo local 0 À Y Ä Z de ÐQ ß B! Ñ sobre ÐJ ß C! Ñ. É então
imediato que, para cada B − Y , 0 é também um difeomorfismo local de
ÐQ ß BÑ sobre ÐJ ß 0 ÐBÑÑ, o que mostra que ÐQ ß BÑ é também uma variedade
sem bordo com dimensão 8. No caso em que Q é uma variedade sem bordo
conexa, o que acabamos de ver mostra que, para cada inteiro 8, o conjunto
Q8 dos pontos de Q onde a dimensão é 8 é um aberto de Q pelo que, uma
vez que Q é a união destes abertos, que são disjuntos dois a dois,
concluímos que não pode haver mais que um deles que seja não vazio, ou
seja, a dimensão de Q em todos os pontos é a mesma. …
II.4.12 Sejam B! − Q § I e C! − Q s §I s , tais que ÐQ ß B! Ñ e ÐQ s ß C! Ñ sejam
variedades sem bordo, com dimensões 7 e 8 respectivamente. Tem-se então
que o subconjunto Q ‚ Q s de I ‚ I s é, no ponto ÐB! ß C! Ñ, uma variedade
sem bordo com dimensão 7  8.
Dem: Podemos considerar espaços vectoriais J e J s , com dimensões 7 e 8,
respectivamente, e difeomorfismos locais 0 À Y Ä Z , de ÐQ ß B! Ñ sobre
ÐJ ß !Ñ, e s0 À Y
s ÄZ
s , de ÐQ s ß C! Ñ sobre ÐJ s ß !Ñ. J ‚ J s é então um espaço
vectorial de dimensão 7  8 e tem lugar um difeomorfismo local
0 ‚ s0 À Y ‚ Y s ÄZ ‚Z s , de ÐQ ‚ Q s ß ÐB! ß C! ÑÑ sobre ÐJ ‚ Js ß Ð!ß !ÑÑ. …
II.4.13 Suponhamos, mais geralmente, que, para cada " Ÿ 4 Ÿ R ,
B4 ! − Q4 § I4 são tais que ÐQ4 ß B4 ! Ñ é uma variedade sem bordo com
dimensão 84 . Tem-se então que ÐQ" ‚ â ‚ QR ß ÐB" ! ß á ß BR ! ÑÑ é uma
variedade sem bordo com dimensão 8"  â  8R .
Dem: Trata-se de uma generalização imediata da demonstração precedente,
em que apenas as notações são um pouco mais pesadas. …
II.4.14 Sejam Q § I uma variedade conexa, J um espaço vectorial de
dimensão finita e 0 À Q Ä J uma aplicação de classe G " tal que, para cada
B − Q , H0B œ ! − PÐXB ÐQ Ñà J Ñ. Tem-se então que 0 é uma aplicação
constante.
Dem: Comecemos por mostrar que, se B! − Q , então existe um aberto Y de
Q tal que a restrição de 0 a Y seja constante. Consideremos então um aberto
116 Cap. II. Vectores Tangentes e Variedades

Z de ‘8 , com ! − Z , um aberto Y de Q , com B! − Y , e um difeomorfismo


:À Z Ä Y , com :Ð!Ñ œ B! . Se necessário substituindo Z por um aberto
mais pequeno, por exemplo uma bola aberta de centro !, podemos já supor
que Z é conexo. Pelo teorema de derivação da função composta, a aplicação
de classe G " 0 ‰ :À Z Ä J tem derivada nula em todos os pontos, pelo que,
tendo em conta I.5.19, 0 ‰ : é constante, o que implica que a restrição de 0 a
Y œ :ÐZ Ñ também é constante. A partir de agora a demonstração é
puramente topológica: O que acabamos de mostrar implica que, para cada
, − J , o conjunto ÖB − Q ± 0 ÐBÑ œ ,× é aberto em Q ; uma vez que este
conjunto é evidentemente também fechado, o facto de a variedade Q ser
conexa implica que este conjunto ou é igual a g ou igual a Q e daqui
podemos concluir que a aplicação 0 não pode tomar mais que um valor. …

Os resultados precedentes podem ser considerados como a parte trivial da


teoria das variedades sem bordo. Os resultados que se vão seguir vão ser
mais interessantes e de demonstração menos trivial e têm em comum o
facto de utilizarem de modo essencial o teorema da função inversa,
estudado no capítulo I.

II.4.15 Sejam I um espaço vectorial real de dimensão 8 e B! − Q § I . Tem-se


então que ÐQ ß B! Ñ é uma variedade sem bordo de dimensão 8 se, e só se,
B! − intÐQ Ñ. Em particular, um conjunto Q § I é uma variedade sem
bordo com dimensão igual à de I se, e só se, Q for um aberto de I .
Dem: Se B! − intÐQ Ñ, vimos em II.4.4 que ÐQ ß B! Ñ é localmente difeomorfo
a ÐIß B! Ñ, pelo que é uma variedade sem bordo com dimensão 8.
Suponhamos, reciprocamente, que Q é uma variedade sem bordo, com
dimensão 8, no ponto B! . Podemos então considerar um espaço vectorial real
J , de dimensão 8, e um difeomorfismo local 0 À Y Ä Z de ÐJ ß !Ñ sobre
ÐQ ß B! Ñ. Tem-se então que H0! À J Ä XB! ÐQ Ñ é um isomorfismo, o que
implica que XB! ÐQ Ñ é um subespaço vectorial de dimensão 8 do espaço
vectorial I de dimensão 8, portanto XB! ÐQ Ñ œ I . Concluímos assim que
H0! é um isomorfismo de J sobre I , pelo que, aplicando o teorema da fun-
ção inversa, podemos garantir a existência de um aberto Y w de J , com
! − Y w § Y , tal que a restrição de 0 seja um difeomorfismo de Y w sobre um
aberto Z w de I . Uma vez que B! œ 0 Ð!Ñ − Z w e que Z w § Z § Q , deduzi-
mos finalmente que B! é um ponto interior a Q . …
II.4.16 (Teorema da função inversa para variedades) Sejam B! − Q § I e
C! − Q s §I s tais que ÐQ ß B! Ñ e ÐQs ß C! Ñ sejam variedades sem bordo e seja
s
0 À Q Ä Q uma aplicação suave, tal que 0 ÐB! Ñ œ C! e que
H0B! À XB! ÐQ Ñ Ä XC! ÐQ s Ñ seja um isomorfismo. Existe então um aberto Y de
Q , com B! − Y , e um aberto Y s de Qs , com C! − Y s , tais que a restrição de 0
s
seja um difeomorfismo de Y sobre Y . Em particular, para cada B − Y ,
H0B À XB ÐQ Ñ Ä X0 ÐBÑ ÐQ s Ñ também é um isomorfismo.
§4. Variedades sem bordo 117

Dem: Sejam J e J s espaços vectoriais de dimensão finita, <À Z sw ÄY s w um


difeomorfismo local de ÐJ s ß !Ñ sobre ÐQ
s ß C! Ñ e :À Z w Ä Y w um difeomor-
fismo local de ÐJ ß !Ñ sobre ÐQ ß B! Ñ. Tendo em conta a continuidade de 0 ,
vemos que, se necessário substituindo : por uma restrição, podemos já supor
s w . Podemos então considerar a composta
que se tem 0 ÐY w Ñ § Y
w
s ,
<" ‰ 0ÎY w ‰ :À Z w Ä Z

que é uma aplicação suave para a qual


s
HÐ<" ‰ 0ÎY w ‰ :Ñ! œ ÐH<! Ñ" ‰ H0B! ‰ H:! À J Ä J

é um isomorfismo. Estamos portanto em condições de aplicar a versão do


teorema da função inversa no quadro dos abertos para concluir a existência
de um aberto Z de J , com ! − Z § Z w , tal que a restrição de <" ‰ 0ÎY w ‰ :
seja um difeomorfismo de Z sobre um aberto Z s de Js , o qual verifica eviden-
w
temente ! − Zs §Z s . Podemos agora considerar o aberto Y œ :ÐZ Ñ de Q ,
s œ <ÐZ
que contém B! , e o aberto Y s Ñ de Q s , que contém C! , tendo-se então
que a restrição de 0 vai ser um difeomorfismo de Y sobre Y s , por ser a
s
composta do difeomorfismo de Z sobre Z , restrição de < ‰ 0ÎY w ‰ :, com
"

os difeomorfismos Zs ÄY s e Y Ä Z , restrições de < e de :" , respectiva-


mente. A última afirmação do enunciado resulta de que a derivada de um
difeomorfismo é um isomorfismo. …

A demonstração que acabamos de apresentar pode parecer, à primeira vis-


ta, um pouco confusa, mas a ideia que está por detrás dela é muito
simples: Para estudarmos, no quadro das variedades, uma propriedade de
tipo local que é já conhecida no quadro dos abertos de espaços vectoriais
de dimensão finita, usamos cartas, que olhamos intuitivamente como
fotografias, e aplicamos o resultado já conhecido, ao nível das fotografias,
usando de novo as cartas para obter o resultado pretendido, ao nível das
variedades. No nosso caso, os difeomorfismos locais : e < permitem
olhar intuitivamente para os abertos Z w , de J , e Zs w , de J
s , como fotogra-
s w , de Q
fias dos abertos Y w , de Q , e Y s ; deste ponto de vista, a aplicação
<" ‰ 0ÎY w ‰ : pode ser olhada como uma fotografia da aplicação 0ÎY w , ou,
se quisermos, como uma fotografia local da aplicação 0 .
Teremos ocasião de encontrar mais adiante outros exemplos de generali-
zações deste tipo e omitiremos as respectivas demonstrações quando
forem do tipo da que acabamos de apresentar. Espera-se naturalmente que
o leitor procure fazer sozinho essas demonstrações, pelo menos até se
sentir convencido de que elas são completamente evidentes.
Vamos estudar agora duas generalizações do teorema da função inversa,
em que, em vez de exigirmos que a derivada da aplicação seja um isomor-
fismo, exigimos, num caso, que ela seja uma aplicação linear injectiva e,
no outro caso, uma aplicação linear sobrejectiva. Em ambos os casos
começamos por examinar as versões ao nível dos abertos de espaços
vectoriais de dimensão finita e enunciamos em seguida as generalizações
118 Cap. II. Vectores Tangentes e Variedades

às variedades sem bordo, que são consequências simples daquelas


versões. Estes dois teoremas vão ter consequências importantes para a
teoria das variedades.

II.4.17 (Teorema da derivada injectiva) Sejam J e J s espaços vectoriais reais


(respectivamente complexos), com dimensões 7 e 8, Z w § J um aberto e
0À Z w Ä Js uma aplicação suave (respectivamente holomorfa). Seja B! − Z w
tal que H0B! À J Ä Js seja uma aplicação linear injectiva. Existe então um
espaço vectorial real (respectivamente complexo) K, de dimensão 8  7,
um aberto Z de J , com B! − Z § Z w , um aberto [ de K , com ! − [ , um
aberto Zs de J s , com 0 ÐB! Ñ − Zs , e um difeomorfismo (respectivamente
difeomorfismo holomorfo) 1À Z ‚ [ Ä Z s tal que, para cada B − Z , se
s.
tenha 0 ÐBÑ œ 1ÐBß !Ñ, em particular, 0 ÐZ Ñ § Z
BÈÐBß!Ñ
Z qqqqqp Z ‚ [
M. Æ Æ1
Z qqqqqp s
Z
0ÎZ

Dem: O facto de H0B! ser uma aplicação linear injectiva implica que
H0B! ÐJ Ñ é um subespaço vectorial de dimensão 7 de J s pelo que podemos
considerar um subespaço vectorial K de J s , com dimensão 8  7, tal que
tenha lugar a soma directa J s œ H0B! ÐJ Ñ Š K (por exemplo, o ortogonal de
H0B! ÐJ Ñ, relativamente a um produto interno que se considere em sJ ). Seja
1w À Z w ‚ K Ä Js a aplicação suave definida por

1w ÐBß DÑ œ 0 ÐBÑ  D .
s está
Tem-se 1w ÐB! ß !Ñ œ 0 ÐB! Ñ e a aplicação linear H1wÐB! ß!Ñ À J ‚ K Ä J
definida por
H1wÐB! ß!Ñ Ð?ß AÑ œ H0B! Ð?Ñ  A.

O facto de ter lugar a soma directa atrás referida e de a aplicação linear H0B!
ser injectiva implica trivialmente que a aplicação linear H1wÐB! ß!Ñ é também
injectiva pelo que, uma vez que J ‚ K e J s têm a mesma dimensão 8, esta
última aplicação linear vai ser um isomorfismo. Estamos assim em condições
de aplicar o teorema da função inversa para garantir a existência de um
aberto de J ‚ K , contendo ÐB! ß !Ñ e contido em Z w ‚ K , que podemos já
supor ser da forma Z ‚ [ , com B! − Z aberto de I e ! − [ aberto de K ,
tais que a restrição 1 de 1w a Z ‚ [ seja um difeomorfismo de Z ‚ [ sobre
um aberto Z s de J s , sendo imediato, pela definição de 1w , que se tem
1ÐBß !Ñ œ 0 ÐBÑ. …
§4. Variedades sem bordo 119

As conclusões do resultado precedente podem ser enunciadas de modo


equivalente dizendo-se que 0 aplica Z em Z s e que a composta de
s " s
0ÎZ À Z Ä Z com o difeomorfismo 1 À Z Ä Z ‚ [ é a aplicação de Z
em Z ‚ [ definida por B È ÐBß !Ñ.
De maneira menos precisa, mas mais incisiva: Toda a aplicação suave de
derivada injectiva é, localmente e a menos de difeomorfismo, uma
aplicação do tipo B È ÐBß !Ñ.

II.4.18 Em geral, se I e I s são espaços vectoriais de dimensão finita, Q § I e


Qs §I s são subconjuntos arbitrários e 0 À Q Ä Q s é uma aplicação, diremos
que 0 é uma imersão no ponto B! se 0 for suave e a aplicação linear
s Ñ for injectiva e que 0 é uma imersão se for uma
H0B! À XB! ÐQ Ñ Ä X0 ÐB! Ñ ÐQ
imersão em todos os pontos de Q .
Repare-se que, nesta definição, o papel de Q s é ilusório: Uma aplicação
s
0 À Q Ä Q é uma imersão em B! − Q se, e só se, o for enquanto aplicação
Q ÄI s.
II.4.19 (Teorema da imersão em variedades sem bordo) Sejam ÐQ ß B! Ñ e
ÐQs ß C! Ñ duas variedades sem bordo, com dimensões 7 e 8 respectivamente,
e seja 0 À Q Ä Q s uma imersão em B! tal que 0 ÐB! Ñ œ C! . Existe então:
a) Um aberto Y de Q , com B! − Y , e um aberto Y s de Q s , com C! − Y s , tais
que 0 ÐY Ñ § Y s;
b) Espaços vectoriais J e K , com dimensões 7 e 8  7, respectivamente, e
abertos Z de J , com ! − Z , e [ de K , com ! − [ ;
c) Difeomorfismos :À Z Ä Y , com :Ð!Ñ œ B! , e <À Z ‚ [ Ä Y s , com
<Ð!ß !Ñ œ C! ;
De modo que a composta <" ‰ 0ÎY ‰ :À Z Ä Z ‚ [ esteja definida por
Bw È ÐBw ß !Ñ.
Bw ÈÐBw ß!Ñ
Z qqqqqp Z ‚ [
:Æ Æ<
Y qqqqqp s
Y
0ÎY

Dem: Usando difeomorfismos locais, reduzimos facilmente este resultado à


versão já estabelecida do teorema da derivada injectiva. …
II.4.20 (Teorema da derivada sobrejectiva) Sejam J e J s espaços vectoriais
reais (respectivamente complexos) de dimensões 7 e 8, Z w § J um aberto,
0À Z w Ä Js uma aplicação suave (respectivamente holomorfa) e B! − Z w tal
que a aplicação linear H0B! À J Ä J s seja sobrejectiva. Existe então um
espaço vectorial real (respectivamente complexo) K, de dimensão 7  8,
um aberto Z de J , com B! − Z § Z w , um aberto Zs de Js , com 0 ÐB! Ñ − Z
s,
um aberto [ de K, com ! − [ , e um difeomorfismo (respectivamente
120 Cap. II. Vectores Tangentes e Variedades

difeomorfismo holomorfo) 1À Zs ‚ [ Ä Z , verificando as condições


s ‚ [ , 0 Ð1ÐCß DÑÑ œ C , em
1Ð0 ÐB! Ñß !Ñ œ B! e, para cada ÐCß DÑ − Z
s
particular, 0 ÐZ Ñ œ Z .
ÐCßDÑÈC
s ‚ [ qqqqqp
Z s
Z
1Æ Æ M.
Z qqqqqp s
Z
0ÎZ

Dem: Seja K § J o subespaço vectorial núcleo de H0B! :


K œ kerÐH0B! Ñ œ Ö? − J ± H0B! Ð?Ñ œ !×.

O facto de a aplicação linear H0B! ser sobrejectiva implica que a dimensão


de K é 7  8. Consideremos uma aplicação linear 1À J Ä K , tal que
1Ð?Ñ œ ?, para cada ? − K (por exemplo, a projecção ortogonal sobre K,
relativamente a um produto interno que se fixe em J ). Seja agora
s0 À Z w Ä J
s ‚ K a aplicação suave definida por
s0 ÐBÑ œ Ð0 ÐBÑß 1ÐB  B! ÑÑ.

Tem-se s0 ÐB! Ñ œ Ð0 ÐB! Ñß !Ñ e a aplicação linear H0


sB ÀJ Ä J
!
s ‚ K está
definida por
s B Ð?Ñ œ ÐH0B! Ð?Ñß 1Ð?ÑÑ.
H0 !

Se fosse H0 s B Ð?Ñ œ !, olhando para a primeira componente da fórmula


!
anterior, concluíamos que H0B! Ð?Ñ œ !, ou seja, ? − K , e portanto, olhando
para a segunda componente, ? œ 1Ð?Ñ œ !. Verificámos portanto que a
aplicação linear H0 sB ÀJ Ä J s ‚ K é injectiva, pelo que o facto de J e
!
s ‚ K terem a mesma dimensão 7 implica que é mesmo um isomorfismo.
J
Estamos portanto em condições de aplicar o teorema da função inversa para
garantir a existência de um aberto Z de J , com B! − Z § Z w , tal que a
restrição de s0 a Z seja um difeomorfismo de Z sobre um aberto de J s ‚ K,
que, se necessário substituindo Z por um aberto mais pequeno, pode-se já
supor ser da forma Z s ‚ [ , com Z s aberto de J s , contendo 0 ÐB! Ñ, e [ aberto
s
de K , contendo !. Seja 1À Z ‚ [ Ä Z o difeomorfismo inverso desta
restrição de s0 . É claro que 1Ð0 ÐB! Ñß !Ñ œ B! . Por fim, dado ÐCß DÑ − Z s ‚ [,
tem-se evidentemente s0 Ð1ÐCß DÑÑ œ ÐCß DÑ pelo que, tendo em conta a
definição de s0 , C œ 0 Ð1ÐCß DÑÑ. …

Como anteriormente, podemos dizer, de modo menos preciso, mas mais


incisivo, que toda a aplicação suave com derivada sobrejectiva é,
localmente e a menos de difeomorfismo, uma aplicação do tipo
ÐCß DÑ È C.
§4. Variedades sem bordo 121

II.4.21 Em geral, se I e I s são espaços vectoriais de dimensão finita, Q § I e


s s
Q § I são subconjuntos arbitrários e 0 À Q Ä Q s é uma aplicação, diremos
que 0 é uma submersão no ponto B! − Q se 0 for suave e a aplicação linear
s Ñ for sobrejectiva e que 0 é uma submersão se for
H0B! À XB! ÐQ Ñ Ä X0 ÐB! Ñ ÐQ
uma submersão em todos os pontos de Q .
Repare-se que, ao contrário do que acontecia com as imersões, o papel de Q s
nesta definição já é essencial.
II.4.22 (Teorema da submersão em variedades sem bordo) Sejam ÐQ ß B! Ñ e
ÐQs ß C! Ñ variedades sem bordo, com dimensões 7 e 8, respectivamente, e
0À Q Ä Q s uma submersão no ponto B! tal que 0 ÐB! Ñ œ C! . Existe então:
a) Um aberto Y de Q , com B! − Y , e um aberto Y s de Q s , tais que
s
0 ÐY Ñ œ Y ;
b) Espaços vectoriais de dimensões 8 e 7  8, respectivamente, J s eK e
s s s
abertos Z de J , com ! − Z , e [ de K , com ! − [ ;
c) Difeomorfismos :À Z s ‚ [ Ä Y , com :Ð!ß !Ñ œ B! , e <À Z s ÄY s , com
<Ð!Ñ œ C! ;
De modo que a composta <" ‰ 0ÎY ‰ :À Z s ‚[ ÄZ s esteja definida por
ÐC ß DÑ È C .
w w

ÐCw ßDÑÈCw
s ‚ [ qqqqqp
Z s
Z
:Æ Æ<
Y qqqqqp s
Y
0ÎY

Além disso, nas condições anteriores, 0 é ainda uma submersão em cada


ponto B − Y .
Dem: Usando difeomorfismos locais, reduzimos facilmente este resultado,
sem a última afirmação, à versão já estabelecida do teorema da derivada
sobrejectiva. A última afirmação resulta de que, para cada ÐC w ß DÑ − s
Z ‚[ e
w s
Ð@ ß AÑ − J ‚ K , sai, por derivação da igualdade <ÐC Ñ œ 0 Ð:ÐC ß DÑÑ,
w w

H<Cw Ð@w Ñ œ H0:ÐCw ßDÑ ÐH:ÐCw ßDÑ Ð@w ß AÑÑ,

pelo que o facto de H<Cw ser um isomorfismo implica trivialmente que a


aplicação linear H0:ÐCw ßDÑ é sobrejectiva. …

Vamos estudar agora alguns resultados importantes que são consequência


do teorema da imersão.

II.4.23 Sejam ÐQ ß B! Ñ uma variedade sem bordo, F uma parte arbitrária dum
espaço vectorial I s de dimensão finita e 0 À Q Ä F uma imersão no ponto
B! . Existe então um aberto Y de Q , com B! − Y , tal que a restrição 0ÎY seja
122 Cap. II. Vectores Tangentes e Variedades

um difeomorfismo de Y sobre 0 ÐY Ñ (ao contrário do que se passa no


teorema da função inversa, não afirmamos que 0 ÐY Ñ seja aberto em Q s ). Em
particular, para cada B − Y , 0 é ainda uma imersão no ponto B.
Dem: Comecemos por reparar que o papel de F é ilusório, visto que se pode
também olhar para 0 como aplicação suave de Q no espaço ambiente I s de
F , o que não altera em nada o facto de H0B! ser uma aplicação linear
injectiva (agora de XB! ÐQ Ñ em I s ). Sendo C! œ 0 ÐB! Ñ, podemos aplicar o
teorema da imersão para variedades sem bordo (cf. II.4.19) e garantir a
existência de abertos Y de Q , com B! − Y , e Y s de Is , com C! − Y
s , de es-
paços vectoriais de dimensão finita J e K , de abertos Z de J , com ! − Z , e
[ de K, com ! − [ , e de difeomorfismos :À Z Ä Y e <À Z ‚ [ Ä Y s,
com :Ð!Ñ œ B! e <Ð!ß !Ñ œ C! , de modo que se tenha 0 ÐY Ñ § Y s e que a
composta
<" ‰ 0ÎY ‰ :À Z Ä Z ‚ [

esteja definida por Bw È ÐBw ß !Ñ. Esta composta é um difeomorfismo de Z


sobre a sua imagem, igual a Z ‚ Ö!×, a aplicação inversa sendo a restrição
da projecção ÐBw ß DÑ È Bw . Concluímos agora que
0 ÐY Ñ œ 0 Ð:ÐZ ÑÑ œ <Ð<" ‰ 0ÎY ‰ :ÐZ ÑÑ œ <ÐZ ‚ Ö!×Ñ,

pelo que a aplicação 0ÎY À Y Ä 0 ÐY Ñ vai ser a composta dos difeomorfismos


:" À Y Ä Z , <" ‰ 0ÎY ‰ :À Z Ä Z ‚ Ö!× e <ÎZ ‚Ö!× À Z ‚ Ö!× Ä 0 ÐY Ñ,
sendo portanto um difeomorfismo de Y sobre 0 ÐY Ñ. Em particular, para cada
B − Y , H0B é um isomorfismo de XB ÐQ Ñ sobre X0 ÐBÑ Ð0 ÐY ÑÑ, e portanto uma
aplicação linear injectiva. …
II.4.24 O resultado precedente poderia levar-nos a acreditar que uma imersão
fosse obrigatoriamente um difeomorfismo sobre a sua imagem. Tal não é o
caso, como decorre das duas observações seguintes:
a) Uma imersão, embora seja sempre localmente injectiva, pode não ser uma
aplicação injectiva. Para nos convencermos disso, basta pensar, por exemplo,
na aplicação 0 À ‘ Ä ‘# definida por 0 Ð>Ñ œ ÐcosÐ>Ñß sinÐ>ÑÑ, que é uma
imersão periódica, com período #1.
b) Uma imersão, mesmo que seja injectiva, pode não ser um difeomorfismo
sobre a sua imagem. Um exemplo clássico desta situação é o da aplicação do
intervalo Ó!ß #1Ò para ‘# , que a > associa ÐsinÐ>Ñß sinÐ#>ÑÑ, que é uma imersão
suave e injectiva, cuja imagem é a figura oito (este exemplo será examinado
com mais cuidado na alínea d) de VI.5.13). Esta imersão injectiva não é um
difeomorfismo sobre a sua imagem, nem sequer um homeomorfismo, como
se reconhece, por exemplo, se repararmos que a imagem é compacta, sem
que o domínio o seja. Veremos adiante, em II.4.26, que uma imersão
injectiva que seja um homeomorfismo é automaticamente também um
§4. Variedades sem bordo 123

difeomorfismo.

0.5

0.5

Figura 2

II.4.25 Sejam Q § I variedade sem bordo e 0 À Q Ä I s uma imersão. Sejam K


um espaço vectorial de dimensão finita, G § K um subconjunto arbitrário e
1À G Ä Q uma aplicação contínua, tal que a composta 0 ‰ 1À G Ä I s seja de
classe G . Tem-se então que a aplicação 1À G Ä Q é de classe G .
: :

Dem: Seja D! − G arbitrário. Por II.4.23, podemos considerar um aberto Y


de Q , com 1ÐD! Ñ − Y , tal que a restrição 0ÎY seja um difeomorfismo de Y
sobre 0 ÐY Ñ. Pela continuidade de 1, podemos considerar um aberto [ de G ,
com D! − [ , tal que 1Ð[ Ñ § Y . Tem-se então que a restrição de 1 a [ é de
classe G : , por ser a composta da restrição da aplicação de classe G : 0 ‰ 1 a
[ , com o difeomorfismo de 0 ÐY Ñ sobre Y , inverso da restrição de 0 a Y . O
facto de a noção de aplicação G : ser local implica finalmente que 1À G Ä Q
é uma aplicação de classe G : . …
II.4.26 (Corolário) Sejam Q § I variedade sem bordo e 0 À Q Ä I s uma
imersão que seja um homeomorfismo de Q sobre 0 ÐQ Ñ. Tem-se então que
0 é um difeomorfismo de Q sobre 0 ÐQ Ñ, em particular, 0 ÐQ Ñ é também
uma variedade sem bordo.
Dem: Tendo em conta o resultado precedente, a aplicação contínua de 0 ÐQ Ñ
sobre Q , inversa de 0 , é também suave, por isso acontecer à sua composta
s.
com 0 , igual à inclusão de 0 ÐQ Ñ em I …
II.4.27 (Fotografia duma subvariedade) Seja ÐQ s ß B! Ñ uma variedade sem bor-
do, com dimensão 8, e seja Q § Q s tal que B! − Q e que ÐQ ß B! Ñ seja uma
variedade sem bordo, com dimensão 7. Existem então espaços vectoriais J
e K, com dimensões 7 e 8  7, respectivamente, conjuntos abertos Y s de
s s
Q , com B! − Y , Z de J , com ! − Z , e [ de K , com ! − [ , e um
difeomorfismo <À Z ‚ [ Ä Y s , tal que <Ð!ß !Ñ œ B! e que
124 Cap. II. Vectores Tangentes e Variedades

s  Q Ñ œ ÖÐCß DÑ − Z ‚ [ ± D œ !×.
<" ÐY

Dem: Aplicando o teorema da imersão em variedades sem bordo à inclusão


+À Q Ä Q s , podemos considerar espaços vectoriais J e K , com dimensões
7 e 8  7, abertos Y s w de Q s e Y w de Q , com B! − Y w § Ys w , abertos Z w de
J , com ! − Z w , e [ w de K , com ! − [ w , e difeomorfismos :À Z w Ä Y w e
<w À Z w ‚ [ w Ä Ys w, tais que :Ð!Ñ œ B! , <w Ð!ß !Ñ œ B! , e
"
< ‰ :À Z Ä Z ‚ [ esteja definida por C È ÐCß !Ñ. A ideia é mostrar
w w w w

agora que <w verifica quase a propriedade do enunciado (as plicas são por
causa do quase) e verificar em seguida que com uma restrição conveniente
de <w temos o problema resolvido. Em primeiro lugar, se ÐCß DÑ − Z w ‚ [ w é
tal que D œ !, vem <w ÐCß DÑ œ <w Ð<w " ‰ :ÐCÑÑ œ :ÐCÑ − Y w § Q pelo que
tudo o que seria necessário mostrar era que, se ÐCß DÑ − Z w ‚ [ w é tal que
<w ÐCß DÑ − Q , então D œ !. Isto, infelizmente, pode ser falso, pelo que vamos
tentar reduzir os abertos de modo a deitar fora os pontos pirata (cf. figura 3).

Figura 3

O facto de Y w ser aberto em Q implica a existência de um aberto Y˜ de Q s,


w ˜
tal que Y œ Q  Y . A continuidade de < no ponto Ð!ß !Ñ implica a
w

existência de abertos Z de J , com ! − Z § Z w , e [ de K , com


! − [ § [ w , tais que <w ÐZ ‚ [ Ñ § Y˜ . Seja Y s œ <w ÐZ ‚ [ Ñ, que é um
aberto de Q s contendo B! e contido em Y˜  Y s w e seja <À Z ‚ [ Ä Ys o
difeomorfismo restrição de < . É claro que, por < ser restrição de <w , se
w

ÐCß DÑ − Z ‚ [ é tal que D œ !, então <ÐCß DÑ − Q . Reciprocamente, se


ÐCß DÑ − Z ‚ [ é tal que <ÐCß DÑ − Q , vem <ÐCß DÑ − Q  Y˜ œ Y w , donde
a existência de Cw − Z w tal que <ÐCß DÑ œ :ÐC w Ñ; podemos então escrever
<w ÐCß DÑ œ <ÐCß DÑ œ :ÐC w Ñ œ <w ÐC w ß !Ñ,
pelo que a injectividade de <w implica que ÐCß DÑ œ ÐC w ß !Ñ, em particular
D œ !, o que termina a demonstração. …

Intuitivamente, e por definição, uma variedade sem bordo é uma coisa


torta que admite localmente fotografias direitas (abertos de espaços
§4. Variedades sem bordo 125

vectoriais). O ponto fundamental na proposição anterior é que, quando


temos uma variedade sem bordo contida noutra, podemos tomar uma
fotografia direita da variedade grande de modo que a parte da variedade
pequena que está nessa fotografia é ainda direita. A fotografia não serve
só para estudar a variedade pequena; ela descreve também o modo como
esta está metida na variedade maior.
Passamos agora a estabelecer algumas consequências importantes do
teorema da submersão.

II.4.28 Sejam ÐQ ß B! Ñ e ÐQs ß C! Ñ duas variedades sem bordo e 0 À Q Ä Q s uma


aplicação suave, tal que 0 ÐB! Ñ œ C! . São então equivalentes as duas proprie-
dades seguintes:
a) A aplicação 0 é uma submersão em B! ;
b) Existe um aberto Y s de Q s , com C! − Y s , e uma aplicação suave
s
1À Y Ä Q , tal que 1ÐC! Ñ œ B! e que, para cada C − Y s , 0 Ð1ÐCÑÑ œ C .33
Além disso, quando estas propriedades se verificarem, para cada vizinhança
E de B! em Q , 0 ÐEÑ é uma vizinhança de C! em Q s.
Dem: Supondo verificada a condição b), obtemos por derivação de ambos os
membros da identidade 0 Ð1ÐCÑÑ œ C ,
H0B! ‰ H1C! œ M.XC s Ñ,
ÐQ
!

o que implica trivialmente que a aplicação linear H0B! é sobrejectiva.


Suponhamos, reciprocamente, que H0B! é uma aplicação linear sobrejectiva.
Pelo teorema da submersão para variedades sem bordo, vão existir abertos Y
de Q , com B! − Y e Y s de Qs , com C! − Y
s , espaços vectoriais de dimensão
s s s
finita J e K , abertos Z de J , com ! − Z s , e [ de K , com ! − [ , e
difeomorfismos :À Z s ‚ [ Ä Y e <À Z s ÄY s , verificando as condições
:Ð!ß !Ñ œ B! e <Ð!Ñ œ C! , de modo que 0 ÐY Ñ œ Y s e que a composição
s s
< ‰ 0ÎY ‰ :À Z ‚ [ Ä Z esteja definida por ÐC ß DÑ È C w . Podemos então
" w

s Ä Q , definida por
considerar a aplicação suave 1À Y
1ÐCÑ œ :Ð<" ÐCÑß !Ñ,
a qual verifica 1ÐC! Ñ œ B! e
0 Ð1ÐCÑÑ œ <Ð<" Ð0 Ð:Ð<" ÐCÑß !ÑÑÑÑ œ <Ð<" ÐCÑÑ œ C .
Para provarmos a última afirmação do enunciado basta vermos que 0 ÐQ Ñ é
uma vizinhança de C! em Q s , visto que, se E for uma vizinhança de B! em
Q , podemos aplicar a referida conclusão à restrição de 0 a E, que ainda
verifica evidentemente a propriedade a) do enunciado. Ora o facto de 0 ÐQ Ñ

33Costuma-se traduzir esta última condição dizendo que 1 é uma secção suave de 0 sobre
s.
o aberto Y
126 Cap. II. Vectores Tangentes e Variedades

ser uma vizinhança de C! em Q s é uma consequência de C! pertencer ao


s
aberto Y œ 0 ÐY Ñ, que está contido em 0 ÐQ Ñ. …
II.4.29 A última afirmação do resultado precedente pode ser reenunciada
dizendo que 0 é uma aplicação aberta no ponto B! .
Em geral, diz-se que uma aplicação 0 À Q Ä Q s , entre dois espaços
topológicos, é aberta no ponto B! − Q se, para cada vizinhança E de B! ,
0 ÐEÑ é uma vizinhança de 0 ÐB! Ñ, ou, o que é equivalente, se, para cada
aberto Y de Q , com B! − Y , 0 ÐY Ñ é uma vizinhança de 0 ÐB! Ñ. Em
particular, as aplicações abertas 0 À Q Ä Q s , isto é, as aplicações 0 com a
s
propriedade de 0 ÐY Ñ ser aberto em Q , para cada aberto Y de Q , são
precisamente as aplicações que são abertas em todos os pontos de Q .
II.4.30 (Corolário) Se Q e Qs são variedades sem bordo e se 0 À Q Ä Q
s é uma
submersão, então 0 é uma aplicação aberta.
II.4.31 Sejam Q § I e Q s §I s variedades sem bordo e 0 À Q Ä Q s uma
submersão sobrejectiva. Se L é um espaço vectorial de dimensão finita,
G § L um subconjunto e 2À Q s Ä G é uma aplicação tal que a composta
2 ‰ 0 À Q Ä G seja de classe G : , então 2À Qs Ä G é de classe G : .
Dem: Seja C! − Q s arbitrário. O facto de 0 ser sobrejectiva implica a
existência de B! − Q , tal que 0 ÐB! Ñ œ C! . Deduzimos então, de II.4.28, a
existência de um aberto Y s de Q s , com C! − Y
s , e de uma aplicação suave
s
1À Y Ä Q , tal que 1ÐC! Ñ œ B! e que, para cada C − Y s , 0 Ð1ÐCÑÑ œ C .
s
Concluímos daqui que a restrição de 2 a Y é G , por ser a composta das
:

aplicações G : 2 ‰ 0 À Q Ä G e 1À Y s Ä Q . O facto de a noção de aplicação


s Ä G é de classe G : . …
de classe G : ser local garante finalmente que 2À Q
II.4.32 (Construção de variedades como imagens recíprocas) Sejam ÐQ ß B! Ñ
e ÐQs ß C! Ñ variedades sem bordo, com dimensões 7 e 8, respectivamente, e
0À Q Ä Q s uma submersão no ponto B! tal que 0 ÐB! Ñ œ C! . Seja
w
s
C! − Q § Q s , tal que ÐQs w ß C! Ñ seja uma variedade sem bordo, com
dimensão 8w . Sendo então
s w Ñ œ ÖB − Q ± 0 ÐBÑ − Q
Q w œ 0 " ÐQ s w ×,

tem-se que ÐQ w ß B! Ñ é uma variedade sem bordo, com dimensão


7  Ð8  8w Ñ e XB! ÐQ w Ñ é o conjunto dos ? − XB! ÐQ Ñ tais que
H0B! Ð?Ñ − XC! ÐQ s w Ñ.
Dem: Tendo em conta o teorema da submersão em variedades sem bordo,
podemos considerar abertos Y de Q , com B! − Y , e Y s de Qs , com C! − Y s,
espaços vectoriais de dimensões 8 e 7  8, J s e K , abertos Z s de Js , com
!−Z s , e [ de K , com ! − [ , e difeomorfismos :À Z s ‚[ ÄY e
s ÄY
<À Z s , verificando :Ð!ß !Ñ œ B! e <Ð!Ñ œ C! , de modo que 0 ÐY Ñ œ Y s e
s s
que a aplicação composta < ‰ 0ÎY ‰ :À Z ‚ [ Ä Z esteja definida por
"
§4. Variedades sem bordo 127

ÐC w ß DÑ È C w .
ÐCw ßDÑÈCw
s ‚ [ qqqqqp
Z s
Z

: ºl ºl <
l l

Æ Æ
Y qqqqqp s
Y
0ÎY

s ‚ [ , tendo-se, por
Para cada B − Y , vem B œ :ÐC w ß DÑ, com ÐC w ß DÑ − Z
w
s
definição, B − Q se, e só se, 0 ÐBÑ − Q , ou, por outras palavras se, e só se,
w

sw  Y
Cw œ <" Ð0 Ð:ÐC w ß DÑÑÑ − <" ÐQ s Ñ.
O facto de < ser um difeomorfismo e de Q sw  Y s w,
s ser um aberto de Q
w
s Y
contendo C! , implica que <" ÐQ s Ñ é no ponto ! uma variedade sem
bordo com dimensão 8 . O que vimos atrás mostra-nos que
w

w
s Y
:" ÐQ w  Y Ñ œ <" ÐQ sÑ ‚ [,

pelo que :" ÐQ w  Y Ñ é no ponto Ð!ß !Ñ uma variedade sem bordo com
dimensão 8w  Ð7  8Ñ. O facto de : ser um difeomorfismo implica agora
que Q w  Y , e portanto também Q w , é no ponto B! uma variedade sem bordo
com dimensão 8w  Ð7  8Ñ œ 7  Ð8  8w Ñ. Provemos por fim a afirmação
relativa aos vectores tangentes. O facto de se ter Q w § Q implica
trivialmente que XB! ÐQ w Ñ § XB! ÐQ Ñ. Dado ? − XB! ÐQ Ñ, o facto de H:Ð!ß!Ñ
ser um isomorfismo de J s ‚ K sobre XB! ÐQ Ñ, que aplica o espaço vectorial
" s w s
XÐ!ß!Ñ Ð< ÐQ  Y Ñ ‚ [ Ñ sobre XB! ÐQ w Ñ, implica que se pode escrever
? œ H:Ð!ß!Ñ Ð@ß AÑ, com Ð@ß AÑ − J s ‚ K , e que se tem então ? − XB! ÐQ w Ñ se,
e só se
sw  Y
Ð@ß AÑ − XÐ!ß!Ñ Ð<" ÐQ sw  Y
s Ñ ‚ [ Ñ œ X! Ð<" ÐQ s ÑÑ ‚ K ,

isto é, se, e só se, @ − X! Ð<" ÐQ sw  Y


s ÑÑ, o que é ainda equivalente, tendo
em conta o facto de < ser um difeomorfismo, à condição de se ter
H<! Ð@Ñ − XC! ÐQ s w Ñ. Mas, o facto de <" ‰ 0ÎY ‰ : ser a aplicação definida
por ÐC w ß DÑ È C w implica que
@ œ HÐ<" ‰ 0ÎY ‰ :ÑÐ!ß!Ñ Ð@ß AÑ œ
œ ÐH<! Ñ" ÐH0B! ÐH:Ð!ß!Ñ Ð@ß AÑÑÑ œ
œ ÐH<! Ñ" ÐH0B! Ð?ÑÑ

pelo que o que dissemos atrás mostra que se tem ? − XB! ÐQ w Ñ se, e só se,
s w Ñ.
H0B! Ð?Ñ − XC! ÐQ …
128 Cap. II. Vectores Tangentes e Variedades

Veremos adiante que, no quadro da proposição precedente, a hipótese de


0 ser uma submersão em B! pode, em certos casos, ser substituída por
uma hipótese mais fraca (a condição de transversalidade).
Uma maneira mais simples de nos lembrarmos da fórmula para a
dimensão da imagem recíproca é utilizar o conceito de codimensão.
Chama-se codimensão de uma subvariedade a diferença entre a dimensão
da variedade ambiente e a da variedade em questão. Vemos portanto que,
nas condições da proposição anterior, a codimensão de Q w na variedade
Q é igual à codimensão de Q s w na variedade Q s.
Reparemos também que, no quadro da proposição precedente, é simples
recordar a caracterização dos vectores tangentes a Q w em B! : O facto de
se ter Q w § Q implica trivialmente que todo o vector tangente a Q w em
B! é também tangente a Q em B! e o facto de a restrição de 0 aplicar Q w
em Q s w implica que H0B! aplica XB! ÐQ w Ñ em XC! ÐQ
s w Ñ. Tudo o que temos
que lembrar é que o teorema afirma que estas condições necessárias para
um vector pertencer a XB! ÐQ Ñ são também suficientes.
Como exemplo de aplicação do resultado precedente, apresentamos a
seguir uma prova simples de que as hipersuperfícies esféricas são varie-
dades, assim como uma caracterização dos respectivos espaços vectoriais
tangentes.

II.4.33 Sejam I um espaço euclidiano de dimensão 8   ", B! − I e <  ! e


consideremos a hipersuperfície esférica W< ÐB! Ñ § I , de centro B! e raio <,
W< ÐB! Ñ œ ÖB − I ± mB  B! m œ <×.
Tem-se então que W< ÐB! Ñ é uma variedade sem bordo com dimensão 8  " e,
para cada B − W< ÐB! Ñ,
XB ÐW< ÐB! ÑÑ œ Ö? − I ± ØB  B! ß ?Ù œ !×.34

Dem: Seja 0 À I Ä ‘ a aplicação suave definida por 0 ÐBÑ œ


ØB  B! ß B  B! Ù, para a qual se tem H0B Ð?Ñ œ #ØB  B! ß ?Ù. Vemos
portanto que, para cada B Á B! , H0B À I Ä ‘ é uma aplicação linear
sobrejectiva (H0B ÐB  B! Ñ œ mB  B! m# Á ! e uma aplicação linear com
valores em ‘, que não seja identicamente nula é sobrejectiva), em particular,
isso acontece para cada B − W< ÐB! Ñ. Uma vez que I e ‘, sendo espaços
vectoriais, são trivialmente variedades sem bordo com dimensões 8 e ",
respectivamente, e que o conjunto unitário Ö<# × é evidentemente uma
variedade de dimensão !, o resultado precedente garante-nos que W< ÐB! Ñ é
em todos os pontos uma variedade sem bordo com dimensão 8  " e que,
para cada B − W< ÐB! Ñ, XB ÐW< ÐB! ÑÑ é o conjunto dos vectores ? − I tais que
ØB  B! ß ?Ù œ !. …
II.4.34 Um caso particular de II.4.32, que se encontra frequentemente na prática
é aquele em que Q s w é o conjunto unitário ÖC! ×,
s œ ‘8 , C! œ Ð," ß á ß ,8 Ñ e Q

34Os vectores tangentes são portanto, neste caso, aqueles que são perpendiculares ao raio.
§4. Variedades sem bordo 129

portanto uma variedade sem bordo com dimensão !. Nesse caso, a aplicação
suave 0 À Q Ä ‘8 vai ter 8 componentes, que são as aplicações suaves
0" ß á ß 08 À Q Ä ‘ definidas por
0 ÐBÑ œ Ð0" ÐBÑß á ß 08 ÐBÑÑ,
e o conjunto Q w vai ser o conjunto dos pontos B − Q tais que se tenha
0" ÐBÑ œ ," , 0# ÐBÑ œ ,# ß á ß 08 ÐBÑ œ ,8 , ou seja, vai ser o conjunto das
soluções de um sistema de equações. Concluímos portanto que, se ÐQ ß B! Ñ é
uma variedade sem bordo com dimensão 7, o conjunto das soluções de um
sistema de 8 equações (verificadas pelo elemento B! ) vai ser em B! uma
variedade sem bordo com dimensão 7  8,35 isto se se verificar a hipótese
fundamental de a derivada H0B! ser uma aplicação linear sobrejectiva de
XB! ÐQ Ñ sobre ‘8 .36
Esta hipótese fundamental pode ser enunciada, de modo equivalente, em
termos das derivadas em B! das aplicações componentes 04 À Q Ä ‘,
4 œ "ß á ß 8, com a exigência de que as aplicações lineares
H0" ÐB! Ñß H0# ÐB! Ñß á ß H08 ÐB! ÑÀ XB! ÐQ Ñ Ä ‘

sejam elementos linearmente independentes de PÐXB! ÐQ Ñà ‘Ñ, o que traduz,


ao menos intuitivamente, a ideia que as diferentes equações devem ser inde-
pendentes junto de B! . O facto de estes dois enunciados da hipótese
fundamental serem realmente equivalentes é uma consequência imediata do
lema de Álgebra Linear que enunciamos em seguida.
II.4.35 (Lema de Álgebra Linear) Sejam I um espaço vectorial real de
dimensão 7, -À I Ä ‘8 uma aplicação linear e -" ß á ß -8 À I Ä ‘ as
aplicações lineares componentes, definidas por
-Ð?Ñ œ Ð-" Ð?Ñß á ß ß -8 Ð?ÑÑ.
Tem-se então que - é uma aplicação linear sobrejectiva se, e só se, as
aplicações lineares -" ß á ß -8 forem elementos linearmente independentes de
PÐIà ‘Ñ.
Dem: Consideremos em ‘8 o produto interno usual. As aplicações lineares
-" ß á ß -8 são linearmente dependentes se, e só se, existirem números reais
+" ß á ß +8 , não todos nulos, tais que, para cada ? − I ,
+" -" Ð?Ñ  â  +8 -8 Ð?Ñ œ !,
isto é, tal que Ð+" ß á ß +8 Ñ seja um vector de ‘8 ortogonal ao subespaço
vectorial -ÐIÑ de ‘8 . Por outras palavras, aquelas aplicações lineares são
linearmente dependentes se, e só se, o complementar ortogonal do subespaço

35Portanto a codimensão é igual ao número de equações.


36É evidente que teria que haver alguma hipótese restritiva,
sem o que nada nos impedia
de escrever duas vezes a mesma equação, o que não alterava em nada o conjunto das
soluções.
130 Cap. II. Vectores Tangentes e Variedades

vectorial -ÐIÑ de ‘8 for não nulo, o que é equivalente a dizer que


-ÐIÑ Á ‘8 . …

Vamos agora estabelecer uma generalização do resultado sobre a cons-


trução de variedades como imagens recíprocas, onde a hipótese de a
derivada de 0 em B! ser sobrejectiva é substituída por uma hipótese em
geral mais fraca. Começamos para isso por estabelecer um lema.

II.4.36 (Lema) Seja ÐQ s ß C! Ñ uma variedade sem bordo com dimensão 8 e seja
w
C! − Qs §Q s tal que ÐQ s w ß C! Ñ seja uma variedade sem bordo com dimensão
8w . Existe então um aberto Y s de Q s , com C! − Y s Ä ‘88w ,
s , e 1À Y
submersão no ponto B! tal que 1ÐC! Ñ œ !, de modo que se tenha
sw  Y
Q s œ ÖC − Y
s ± 1ÐCÑ œ !×.

Por outras palavras, toda a subvariedade pode ser definida localmente por um
sistema de equações, verificando a hipótese de independência referida em
II.4.34.
Dem: Este lema vai ser uma consequência do resultado sobre fotografia
duma subvariedade referido em II.4.27. Esse resultado permite-nos
considerar espaços vectoriais J e K , com dimensões 8w e 8  8w , conjuntos
abertos Ys de Q s , com C! − Y
s , Z de J , com ! − Z , e [ de K , com ! − [ ,
e um difeomorfismo <À Z ‚ [ Ä Y s tal que <Ð!ß !Ñ œ C! e que
" s w s Ñ seja o conjunto dos ÐC ß DÑ − Z ‚ [ tais que D œ !. Podemos
w
< ÐQ  Y
então considerar a aplicação suave s1À Y s Ä K , composta do difeomorfismo
" s
< À Y Ä Z ‚ [ com a segunda projecção 1# À Z ‚ [ Ä [ § K . Tem-se
s1ÐC! Ñ œ !, a aplicação linear H1 sC! é sobrejectiva, como composta da
aplicação linear sobrejectiva 1# À J ‚ K Ä K com o isomorfismo
s Ñ Ä J ‚ K,
HÐ<" ÑC! À XC! ÐQ

e Qsw  Ys vai ser o conjunto dos C − Ys tais que s1ÐCÑ œ !. Por fim, para
88w
substituir K por ‘ , basta tomar para 1 a composta de s1 com um
w
isomorfismo .À K Ä ‘88 . …
II.4.37 (Versão mais geral do resultado sobre construção de variedades
como imagens recíprocas) Sejam ÐQ ß B! Ñ e ÐQ s ß C! Ñ variedades sem bordo,
com dimensões 7 e 8, respectivamente e 0 À Q Ä Q s uma aplicação suave
w w
s §Q
tal que 0 ÐB! Ñ œ C! . Seja C! − Q s tal que ÐQs ß C! Ñ seja uma variedade
sem bordo, com dimensão 8w e suponhamos verificada a seguinte condição
de transversalidade:
w
s Ñ œ XC! ÐQ
H0B! ÐXB! ÐQ ÑÑ  XC! ÐQ sÑ

(trata-se da simples soma de subespaços vectoriais, não obrigatoriamente


§4. Variedades sem bordo 131

uma soma directa).37 Sendo então


w w
s Ñ œ ÖB − Q ± 0 ÐBÑ − Q
Q w œ 0 " ÐQ s ×,

tem-se que ÐQ w ß B! Ñ é uma variedade sem bordo, com dimensão


7  Ð8  8w Ñ e
s w Ñ×.
XB! ÐQ w Ñ œ Ö? − XB! ÐQ Ñ ± H0B! Ð?Ñ − XC! ÐQ

Dem: Pelo lema anterior, podemos considerar um aberto Y s de Q


s , com
C! − Ys , e uma aplicação suave 1À Y s Ä ‘88w , tal que 1ÐC! Ñ œ ! e que
s Ñ Ä ‘88w seja sobrejectiva, de modo que, para cada C − Y
H1C! À XC! ÐQ s , se
w
tenha C − Q s se, e só se, 1ÐCÑ œ !, resultando então de II.4.32 que

s w Ñ œ Ö@ − XC! ÐQ
XC! ÐQ s Ñ ± H1C! Ð@Ñ œ !×.

Pela continuidade de 0 , podemos considerar um aberto Y de Q , com


s . Seja s0 œ 1 ‰ 0ÎY , que é uma aplicação suave de
B! − Y , tal que 0 ÐY Ñ § Y
w
Y em ‘88 , verificando s0 ÐB! Ñ œ !, e reparemos que, para cada B − Y ,
tem-se B − Q w se, e só se, s0 ÐBÑ œ !, por outras palavras,
"
Q w  Y œ s0 ÐÖ!×Ñ œ ÖB − Y ± s0 ÐBÑ œ !×.
Vamos agora verificar que a condição de transversalidade implica que a apli-
cação linear H0 s B À XB! ÐQ Ñ Ä ‘88w é sobrejectiva. Ora, dado A − ‘88w
!

arbitrário, podemos escolher @w − XC! ÐQ s Ñ tal que H1C! Ð@w Ñ œ A e a condição


de transversalidade implica a existência de ? − XB! ÐQ Ñ e de @ww − XC! ÐQ s wÑ
tais que @w œ H0B! Ð?Ñ  @ww ; tem-se então H1C! Ð@ww Ñ œ !, pelo que
s B Ð?Ñ.
A œ H1C! Ð@w Ñ œ H1C! ‰ H0B! Ð?Ñ  H1C! Ð@ww Ñ œ H0 !

Podemos agora aplicar II.4.32 para garantir que Q w  Y , e portanto Q w , é,


no ponto B! , uma variedade sem bordo, com dimensão 7  Ð8  8w Ñ, e que
XB! ÐQ w Ñ é o conjunto dos ? − XB! ÐQ Ñ tais que
s B Ð?Ñ œ !,
H1C! ÐH0B! Ð?ÑÑ œ H0 !

w
s Ñ.
isto é, tais que se tenha H0B! Ð?Ñ − XC! ÐQ …
s ß C! Ñ uma variedade sem bordo, com dimensão 8 e
II.4.38 (Corolário) Sejam ÐQ
Q e Q dois subconjuntos de Q
w s , contendo C! , e tais que ÐQ ß C! Ñ e ÐQ w ß C! Ñ
sejam variedades sem bordo, com dimensões 7 e 7w , respectivamente.

37É claro que esta condição se encontra automaticamente verificada no caso em que a
s Ñ é sobrejectiva, as duas condições sendo equi-
aplicação linear H0B! À XB! ÐQ Ñ Ä XC! ÐQ
w
s
valentes no caso em que Q é o conjunto unitário ÖC! ×.
132 Cap. II. Vectores Tangentes e Variedades

Supondo verificada a condição de transversalidade


XC! ÐMÑ  XC! ÐM w Ñ œ XC! ÐM
s Ñ,

tem-se então que a intersecção Q  Q w é, no ponto C! , uma variedade sem


bordo, com dimensão 7  7w  8, e
XC! ÐQ  Q w Ñ œ XC! ÐQ Ñ  XC! ÐQ w Ñ.
s , repa-
Dem: Basta aplicarmos o resultado precedente à inclusão +À Q w Ä Q
rando que Q  Q w é a imagem recíproca de Q por meio desta inclusão. …

Examinamos agora outro resultado que se revela frequentemente útil para


provar que certos conjuntos são variedades sem bordo

II.4.39 (Segundo teorema da submersão) Sejam I e J espaços vectoriais de


dimensão finita, B! − Q § I , tal que ÐQ ß B! Ñ seja uma variedade sem
bordo, C! − E § J e 0 À Q Ä E uma submersão no ponto B! tal que
0 ÐB! Ñ œ C! . Tem-se então que ÐEß C! Ñ é uma variedade sem bordo.
Dem: Vamos dividir a demonstração em várias alíneas:
a) Fixemos produtos internos em I e J e seja K œ XC! ÐEѼ . Vamos provar
nesta alínea a existência de um aberto Y de Q , com B! − Y , e de um aberto
Z de K, com ! − Z , tais que, para cada ÐBß DÑ − Y ‚ Z se tenha
0 ÐBÑ  D − E Í D œ !.
Suponhamos, com efeito, que isso não acontecia. Considerando para Y e Z
bolas abertas de Q e K com centros B! e ! e raio 8" , concluíamos a
existência de sucessões de elementos B8 − Q , com B8 Ä B! , e D8 − K , com
D8 Ä !, tais que D8 Á ! e 0 ÐB8 Ñ  D8 − E. Uma vez que o conjunto dos
vectores de K com norma " é fechado e limitado, e portanto compacto,
podíamos já supor, se necessário tomando subsucessões, que existia D − K ,
com mDm œ ", tal que mDD88 m Ä D . Podíamos então considerar as sucessões de
elementos 0 ÐB8 Ñ  D8 e 0 ÐB8 Ñ de E, ambas convergentes para 0 ÐB! Ñ œ C! , e
de reais estritamente positivos mD"8 m , para as quais se tinha
"
ÐÐ0 ÐB8 Ñ  D8 Ñ  0 ÐB8 ÑÑ Ä D ,
mD8 m
o que implicava que D − t C! ÐEÑ § XC! ÐEÑ, uma contradição, tendo em conta
o facto de se ter XC! ÐEÑ  K œ Ö!×.
b) Seja 1À Y ‚ Z Ä J a aplicação suave definida por
1ÐBß DÑ œ 0 ÐBÑ  D.
Vamos verificar que a derivada H1ÐB! ß!Ñ À XB! ÐQ Ñ ‚ K Ä J é sobrejectiva.
Com efeito, dado - − J , podemos escrever - œ +  , , com + − XC! ÐEÑ e
§4. Variedades sem bordo 133

, − K e existe então ? − XB! ÐQ Ñ tal que H0B! Ð?Ñ œ +, vindo então


H1ÐB! ß!Ñ Ð?ß ,Ñ œ H0B! Ð?Ñ  , œ - .

c) Tendo em conta II.4.28, podemos concluir que existe um aberto [ de J ,


com C! − [ e uma aplicação suave 2À [ Ä Y ‚ Z tal que 2ÐC! Ñ œ ÐB! ß !Ñ
e que, para cada C − [ , 1Ð2ÐCÑÑ œ C . Por outras palavras, sendo
2" À [ Ä Y e 2# À [ Ä Z as aplicações suaves componentes de 2 , definidas
por 2ÐCÑ œ Ð2" ÐCÑß 2# ÐCÑÑ, tem-se 2" ÐC! Ñ œ B! , 2# ÐC! Ñ œ ! e, para cada
C − [ , 0 Ð2" ÐCÑÑ  2# ÐCÑ œ C .
d) Vamos mostrar que a derivada H2#C! À J Ä K é sobrejectiva.
Ora, por derivação da identidade 0 Ð2" ÐCÑÑ  2# ÐCÑ œ C , obtemos, para cada
A − J,
A œ H0B! ÐH2" C! ÐAÑÑ  H2# C! ÐAÑ,

com H0B! ÐH2" C! ÐAÑÑ − XC! ÐEÑ e H2# C! ÐAÑ − K œ XC! ÐEѼ , o que mostra
que H2#C! ÐAÑ é a projecção ortogonal de A sobre K, em particular, se
A − K, A œ H2#C! ÐAÑ.
e) Para cada C − [ , o facto de se ter C œ 0 Ð2" ÐCÑÑ  2# ÐCÑ, com 2" ÐCÑ − Y
e 2# ÐCÑ − Z , implica, pelo que vimos em a), que C − E se, e só se,
2# ÐCÑ œ !. O teorema de construção de variedades como imagens recíprocas
garante agora que [  E, e portanto E, é no ponto C! uma variedade sem
bordo. …

Apresentamos em seguida um primeiro exemplo de aplicação do resultado


precedente. Outros exemplos aparecerão na próxima secção.

II.4.40 (Teorema da aplicação idempotente) Sejam Q § I uma variedade


sem bordo e 0 À Q Ä Q uma aplicação suave idempotente, isto é, tal que
0 ‰ 0 œ 0 . Tem-se então que
0 ÐQ Ñ œ ÖB − Q ± 0 ÐBÑ œ B×
é uma variedade sem bordo e, para cada B − 0 ÐQ Ñ,
XB Ð0 ÐQ ÑÑ œ H0B ÐXB ÐQ ÑÑ œ Ö? − XB ÐQ Ñ ± H0B Ð?Ñ œ ?×.

Dem: Comecemos por notar que ÖB − Q ± 0 ÐBÑ œ B× está evidentemente


contido em 0 ÐQ Ñ e que a inclusão oposta resulta de que, se C − 0 ÐQ Ñ,
tem-se C œ 0 ÐBÑ, para um certo B − Q , donde 0 ÐCÑ œ 0 Ð0 ÐBÑÑ œ 0 ÐBÑ œ C .
Por derivação da identidade 0 ‰ 0 œ 0 , deduzimos que, para cada
B − 0 ÐQ Ñ, H0B ‰ H0B œ H0B e portanto, como anteriormente,
H0B ÐXB ÐQ ÑÑ œ Ö? − XB ÐQ Ñ ± H0B Ð?Ñ œ ?×.
O facto de, para cada B − 0 ÐQ Ñ se ter 0 ÐBÑ œ B implica, por derivação, que,
para cada ? − XB Ð0 ÐQ ÑÑ § XB ÐQ Ñ, tem-se H0B Ð?Ñ œ ?, em particular ?
134 Cap. II. Vectores Tangentes e Variedades

pertence à imagem de H0B À XB ÐQ Ñ Ä XB Ð0 ÐQ ÑÑ. Podemos agora aplicar o


segundo teorema da submersão para garantir que 0 ÐQ Ñ é uma variedade em
B e que XB Ð0 ÐQ ÑÑ œ H0B ÐXB ÐQ ÑÑ. …

Vamos terminar esta secção com o estudo de outra consequência do


teorema da função inversa, do mesmo tipo que os teoremas da imersão e
da submersão. Este resultado, embora importante, não será utilizado no
resto deste trabalho.

II.4.41 (Teorema da característica constante) Seja B! − Q § I tal que


ÐQ ß B! Ñ seja uma variedade sem bordo, com dimensão 7. Sejam I s um
s
espaço vectorial de dimensão 8 e 0 À Q Ä I uma aplicação suave tal que
todos os subespaços vectoriais H0B ÐXB ÐQ ÑÑ de I s tenham a mesma
w 38
dimensão 8 . Existe então um aberto Y de Q , com B! − Y , tal que 0 ÐY Ñ
seja uma variedade sem bordo com dimensão 8w .
Dem: Compondo 0 com um difeomorfismo local conveniente, ficamos redu-
zidos a provar o resultado no caso em que Q é um aberto dum espaço
vectorial J de dimensão 7, B! œ ! e, para cada B − Q , H0B ÐJ Ñ é um
s.
subespaço vectorial de dimensão 8w de I
Seja K § J o subespaço vectorial de dimensão 7  8w
K œ Ö? − J ± H0! Ð?Ñ œ !×
e seja 1À J Ä K uma aplicação linear tal que, para cada ? − K , 1Ð?Ñ œ ?
(por exemplo, a projecção ortogonal de J sobre K, relativamente a um
produto interno que se considere em J ). Do mesmo modo, seja
1 s Ä H0! ÐJ Ñ uma aplicação linear tal que, para cada @ − H0! ÐJ Ñ,
sÀ I
sÐ@Ñ œ @. Sendo então
1
s±1
L œ Ö@ − I sÐ@Ñ œ !×,
s , vai ter lugar a soma
que é um subespaço vectorial de dimensão 8  8w de I
directa
s œ H0! ÐJ Ñ Š L ,
I

em que a projecção associada de I s sobre H0! ÐJ Ñ é precisamente 1 s


(@ œ 1 sÐ@ÑÑ, onde se tem 1
sÐ@Ñ  Ð@  1 sÐ@ÑÑ œ !). Consideremos agora
sÐ@  1
a aplicação suave :À Q Ä H0! ÐJ Ñ ‚ K definida por
sÐ0 ÐBÑÑß 1ÐBÑÑ.
:ÐBÑ œ Ð1
Vem :Ð!Ñ œ ÐC! ß !Ñ, com C! œ 1sÐ0 Ð!ÑÑ, e a derivada H:! À J Ä
H0! ÐJ Ñ ‚ G está definida por

38Por outras palavras, H0B tem característica constante 8w .


§4. Variedades sem bordo 135

sÐH0! Ð?ÑÑß 1Ð?ÑÑ œ ÐH0! Ð?Ñß 1Ð?ÑÑ.


H:! Ð?Ñ œ Ð1

Se ? − J é tal que H:! Ð?Ñ œ !, tem-se, olhando a primeira componente,


H0! Ð?Ñ œ !, logo ? − K, e então, olhando a segunda componente,
! œ 1Ð?Ñ œ ?. Ficou portanto provado que H:! é uma aplicação linear
injectiva, logo um isomorfismo, visto que J e H0! ÐJ Ñ ‚ K têm a mesma
dimensão 7. Podemos agora aplicar o teorema da função inversa para
garantir a existência de um aberto Y de Q , com ! − Y , tal que a restrição :
de : seja um difeomorfismo de Y sobre um aberto de H0! ÐJ Ñ ‚ K , que
podemos já supor da forma Z ‚ [ , com Z e [ bolas abertas de centros C!
e !, respectivamente.
Se ÐCß DÑ − Z ‚ [ , tem-se ÐCß DÑ œ :ÐBÑ, com B œ :" ÐCß DÑ, e portanto
Cœ1 sÐ0 ÐBÑÑ. Podemos portanto escrever, tendo em conta a soma directa
Is œ H0! ÐJ Ñ Š L ,

0 ‰ :" ÐCß DÑ œ 0 ÐBÑ œ C  2ÐCß DÑ,


com 2À Z ‚ [ Ä L aplicação suave. Para cada ÐCß DÑ − Z ‚ [ , o facto de
HÐ:" ÑÐCßDÑ À H0! ÐJ Ñ ‚ K Ä J ser um isomorfismo implica, pela hipótese
da característica constante, que
HÐ0 ‰ :" ÑÐCßDÑ ÐH0! ÐJ Ñ ‚ KÑ œ H0:" ÐCßDÑ ÐJ Ñ

s . O facto de se ter
é um subespaço vectorial de dimensão 8w de I
HÐ0 ‰ :" ÑÐCßDÑ Ð@ß AÑ œ @  H2ÐCßDÑ Ð@ß AÑ

implica que este subespaço contém, em particular, os vectores da forma


@  H2ÐCßDÑ Ð@ß !Ñ, com @ − H0! ÐJ Ñ, sendo portanto igual ao conjunto destes
vectores, por este constituir também um subespaço vectorial de dimensão 8w
(tem lugar a aplicação linear injectiva, que a @ associa @  H2ÐCßDÑ Ð@ß !Ñ, por
ter lugar a soma directa I s œ H0! ÐJ Ñ Š L ). Resulta daqui que, para cada
A − K,
H2ÐCßDÑ Ð!ß AÑ œ HÐ0 ‰ :" ÑÐCßDÑ Ð!ß AÑ,

que está naquele subespaço, tem que ser da forma @  H2ÐCßDÑ Ð@ß !Ñ, pelo
que, mais uma vez por ter lugar a soma directa referida, tem que ser @ œ !, e
portanto
H2ÐCßDÑ Ð!ß AÑ œ H2ÐCßDÑ Ð@ß !Ñ œ H2ÐCßDÑ Ð!ß !Ñ œ !.

Em consequência, para cada C − Z , a aplicação da bola aberta [ em L , que


a D associa 2ÐCß DÑ, tem derivada identicamente nula, pelo que ela é
constante. Podemos portanto escrever
0 ‰ :" ÐCß DÑ œ C  2ÐCß DÑ œ C  2ÐCß !Ñ œ 0 ‰ :" ÐCß !Ñ,
136 Cap. II. Vectores Tangentes e Variedades

pelo que
0 ÐY Ñ œ 0 ‰ :" ÐZ ‚ [ Ñ œ 0 ‰ :" ÐZ ‚ Ö!×Ñ.
O facto de a restrição de 0 ‰ :" a Z ‚ Ö!×, que está definida por
ÐCß !Ñ È C  2ÐCß !Ñ, ser um difeomorfismo sobre a sua imagem (que é
bijectiva resulta da soma directa referida e, pela mesma razão, a inversa está
definida por Cw È Ð1 sÐC w Ñß !Ñ) implica agora que 0 ÐY Ñ, tal como Z ‚ Ö!×, é
uma variedade sem bordo, com dimensão 8w . …

§5. Alguns exemplos importantes de variedade

Vamos estudar nesta secção alguns exemplos de variedade sem bordo que
aparecem com frequência nas aplicações. O primeiro exemplo é algo
trivial, na medida em que se está em presença de um aberto de um espaço
vectorial de dimensão finita, e é aqui apresentado apenas como referência.

II.5.1 Sejam I e J espaços vectoriais, reais ou complexos, de dimensão 8.


Tem-se então que o conjunto P3=9 ÐIà J Ñ dos isomorfismos 0À I Ä J é um
aberto de PÐIà J Ñ e, consequentemente, uma variedade sem bordo, com
dimensão 8# no caso real e dimensão #8# no caso complexo.
Dem: O facto de termos um aberto de PÐIà J Ñ já foi estabelecido em I.8.1,
pelo que basta repararmos que PÐIà J Ñ é um espaço vectorial, real ou
complexo, de dimensão 8# , sendo, no segundo caso, um espaço vectorial real
de dimensão #8# . …
II.5.2 O caso particular do resultado anterior em que I œ J é especialmente
importante, usando-se a notação KPÐIÑ para designar o aberto P3=9 ÐIà IÑ
de PÐIà IÑ e escrevendo, com maior precisão, KP‘ ÐIÑ ou KP‚ ÐIÑ quando
for importante tornar claro qual o corpo dos escalares que está em jogo. A
razão da importância especial deste caso está em que KPÐIÑ, além de ser
uma variedade, tem uma estrutura de grupo, definida pela operação de
composição, em que o elemento neutro é M.I e o elemento inverso de um
isomorfismo 0À I Ä I é o isomorfismo inverso 0" . A KPÐIÑ dá-se
também o nome de grupo linear geral.
II.5.3 Em geral, chama-se grupo de Lie a uma variedade sem bordo K , munida
de uma estrutura de grupo, relativamente à qual são suaves a aplicação
K ‚ K Ä K, Ð1ß 2Ñ È 1 † 2 e a aplicação K Ä K , 1 È 1" .
II.5.4 A variedade KPÐIÑ, com a sua estrutura de grupo, é um grupo de Lie.
Dem: A suavidade da operação de composição KPÐIÑ ‚ KPÐIÑ Ä KPÐIÑ
é uma consequência de se tratar da restrição de uma aplicação bilinear
§5. Alguns exemplos importantes de variedade 137

PÐIà IÑ ‚ PÐIà IÑ Ä PÐIà IÑ. A suavidade da aplicação, 0 È 0" ,


KPÐIÑ Ä KPÐIÑ, foi estabelecida em I.8.1. …
II.5.5 No caso em que o corpo dos escalares é ‘, KPÐIÑ é união de dois
subconjuntos abertos disjuntos, KP ÐIÑ e KP ÐIÑ, constituídos respectiva-
mente pelos isomorfismos 0À I Ä I que verificam detÐ0Ñ  ! (ou seja, que
conservam as orientações) e por aqueles que verificam detÐ0Ñ  ! (ou seja,
que invertem as orientações). Aqueles subconjuntos são, em particular,
variedades sem bordo, com a mesma dimensão que KPÐIÑ, e o primeiro é
também um subgrupo e portanto, trivialmente, um grupo de Lie.
II.5.6 Sejam I e J espaços vectoriais, reais ou complexos, com dimensões 7 e
8, respectivamente, munidos de produto interno. O subconjunto SÐIà J Ñ de
PÐIà J Ñ, constituído pelas aplicações lineares ortogonais, é então uma
variedade compacta sem bordo com dimensão 78  7Ð7"Ñ # , no caso real, e
#78  7# , no caso complexo. Além disso, o espaço vectorial tangente em
- − SÐIà J Ñ é
X- ÐSÐIà J ÑÑ œ Ö! − PÐIà J Ñ ± !‡ ‰ -  -‡ ‰ ! œ !×Þ
No caso complexo é mais frequente utilizar a notação Y ÐIà J Ñ em vez de
SÐIà J Ñ, mas continuaremos a usar esta última quando for cómodo tratar
simultaneamente os casos real e complexo.
Dem: Para cada - − PÐIà J Ñ, tem-se Ð-‡ ‰ -ч œ -‡ ‰ -‡ ‡ œ -‡ ‰ -, pelo
que, sendo P++ ÐIà IÑ o subespaço vectorial real de PÐIà IÑ constituído
pelas aplicações lineares autoadjuntas, podemos considerar uma aplicação
suave FÀ PÐIà J Ñ Ä P++ ÐIà IÑ definida por FÐ-Ñ œ -‡ ‰ -. Uma vez que,
tendo em conta I.2.30, SÐIà J Ñ é o conjunto dos - − PÐIà J Ñ tais que
FÐ-Ñ œ M.I , vemos que SÐIà J Ñ é fechado em PÐIà J Ñ e o facto de
SÐIà J Ñ ser efectivamente uma variedade resultará do teorema de constru-
ção de subvariedades como imagens recíprocas se mostrarmos que, para cada
- − SÐIà J Ñ, a derivada HF- À PÐIà J Ñ Ä P++ ÐIà IÑ, que está definida por
HF- Ð!Ñ œ !‡ ‰ -  -‡ ‰ !, é uma aplicação linear sobrejectiva. Ora, dado
" − P++ ÐIà IÑ, podemos considerar o elemento ! œ "# - ‰ " − PÐIà J Ñ,
para o qual se tem
" "
H F - Ð!Ñ œ Ð - ‰ " Ñ ‡ ‰ -  - ‡ ‰ Ð - ‰ " Ñ œ
# #
" ‡ ‡ " ‡
œ " ‰ - ‰ -  - ‰ - ‰ " œ ",
# #
o que prova a sobrejectividade. O mesmo teorema garante-nos que
X- ÐSÐIà J ÑÑ é o espaço referido no enunciado e que a dimensão de SÐIà J Ñ
é a diferença entre a dimensão de PÐIà J Ñ (igual a 78, no caso real, e #78,
no caso complexo) e a dimensão de P++ ÐIà IÑ. Para provar que a dimensão
de SÐIà J Ñ é a referida no enunciado, resta-nos mostrar que a dimensão de
P++ ÐIà IÑ é 7Ð7"Ñ
# , no caso real, e 7# , no caso complexo. Fixemos, para
138 Cap. II. Vectores Tangentes e Variedades

isso, uma base ortonormada em I e consideremos o isomorfismo de PÐIà IÑ


sobre o espaço vectorial `7 ÐŠÑ das matrizes com 7 linhas e 7 colunas e
coeficientes em Š, que a cada aplicação linear associa a respectiva matriz na
base considerada. Tendo em conta I.2.27, a imagem de P++ ÐIà IÑ por este
isomorfismo é o espaço das matrizes que coincidem com as respectivas
transconjugadas pelo que ficamos reduzidos a determinar a dimensão do
espaço de tais matrizes. No caso real uma tal matriz fica determinada se
dermos, de modo arbitrário, os seus elementos +4ß5 com 4 Ÿ 5 pelo que, M o
conjunto destes pares Ð4ß 5Ñ, que tem 7Ð7"Ñ
# elementos, o espaço daquelas
matrizes é isomorfo a ‘ e tem assim dimensão 7Ð7"Ñ
M
# . No caso complexo
uma tal matriz fica determinada se dermos, de modo arbitrário em ‚, os seus
elementos +4ß5 com 4  5 e, de modo arbitrário em ‘, os seus elementos +4ß4 ,
pelo que, notando M w o conjunto dos pares Ð4ß 5Ñ com 4  5 , que tem 7Ð7"Ñ
#
elementos, e M! o conjunto dos pares Ð4ß 4Ñ, que tem 7 elementos, o espaço
w
daquelas matrizes é isomorfo a ‚M ‚ ‘M! e tem portanto dimensão real #
7Ð7"Ñ
#  7 œ 7# . Por fim, para mostrar que SÐIà J Ñ é um subconjunto
compacto de PÐIà J Ñ, basta escolher uma das normas deste espaço e mostrar
que SÐIà J Ñ é então um conjunto limitado. Ora, considerando a norma usual
das aplicações lineares entre espaços vectoriais normados, para cada
- − SÐIà J Ñ, tem-se, para todo o B − I Ï Ö!×, m-mBmÐBÑm
œ " donde, afastando
já o caso trivial em que I œ Ö!×, m-m œ ". …
II.5.7 Como caso particular, vemos que, se I é um espaço vectorial, real ou
complexo, de dimensão 8, munido de produto interno, então o subconjunto
SÐIÑ de PÐIà IÑ, cujos elementos são os isomorfismos ortogonais
0À I Ä I é uma variedade compacta sem bordo com dimensão 8Ð8"Ñ # , no
caso real, e 8# , no caso complexo, o espaço tangente em M.I sendo
XM.I ÐSÐIÑÑ œ P++ ÐIà IÑ.

É claro que um isomorfismo 0À I Ä I é ortogonal se, e só se, 0" œ 0‡ , em


particular, para um tal isomorfismo, tem-se, não só 0‡ ‰ 0 œ M.I , como
0 ‰ 0‡ œ M.I .
Como anteriormente, no caso complexo é mais frequente utilizar a notação
Y ÐIÑ, em vez de SÐIÑ. A SÐIÑ e Y ÐIÑ dá-se respectivamente os nomes de
grupo ortogonal e grupo unitário de I , designações que estão de acordo
com o facto de se tratar de subgrupos de KPÐIÑ. É claro que SÐIÑ e Y ÐIÑ
são ainda grupos de Lie, uma vez que as respectivas operações de
multiplicação e de inversão são suaves, por serem restrições das correspon-
dentes operações em KPÐIÑ.
II.5.8 Tal como acontecia com KPÐIÑ, no caso em que o corpo dos escalares é
‘, SÐIÑ vai ser a união de dois subconjuntos disjuntos, abertos em SÐIÑ,
S ÐIÑ e S ÐIÑ, constituídos respectivamente pelos isomorfismos
ortogonais 0À I Ä I que verificam detÐ0Ñ  ! (ou seja, que conservam as
§5. Alguns exemplos importantes de variedade 139

orientações) e por aqueles que verificam detÐ0Ñ  ! (ou seja, que invertem as
orientações). Aqueles subconjuntos são, em particular, variedades sem bordo,
com a mesma dimensão que SÐIÑ, e o primeiro é também um subgrupo e
portanto, trivialmente, um grupo de Lie. Uma vez que cada um dos conjuntos
S ÐIÑ e S ÐIÑ é o complementar do outro, estes conjuntos são também
fechados em SÐIÑ, e portanto compactos.
O grupo S ÐIÑ é também notado WSÐIÑ e conhecido como o grupo
ortogonal especial.39
II.5.9 Seja I um espaço vectorial, real ou complexo, de dimensão 8   ".
Tem-se então que o subconjunto WPÐIÑ de PÐIà IÑ, cujos elementos são as
aplicações lineares 0 com detÐ0Ñ œ ", é uma variedade sem bordo com
dimensão 8#  ", no caso real, e dimensão #8#  #, no caso complexo.
Tem-se além disso, para o espaço vectorial tangente em M.I − WPÐIÑ,
XM. ÐWPÐIÑÑ œ Ö! − PÐIà IÑ ± TrÐ!Ñ œ !×.
WPÐIÑ é um subgrupo de KPÐIÑ e portanto. também um grupo de Lie.
Dem: O facto de WPÐIÑ ser um subgrupo de KPÐIÑ é uma consequência
das propriedades do determinante em I.1Þ22. Tendo em conta I.7.9,
detÀ PÐIà IÑ Ä Š é uma aplicação suave e a sua derivada em M.I é a
aplicação linear complexa ! È TrÐ!Ñ, a qual é sobrejectiva, uma vez que
cada + − Š é igual a TrÐ 8+ M.I Ñ. O teorema de construção de subvariedades
como imagens recíprocas garante agora que WPÐIÑ é uma variedade em
M.I , com a dimensão e o espaço tangente indicados no enunciado. Para
vermos que WPÐIÑ é ainda uma variedade com a mesma dimensão em cada
0 − WPÐIÑ, basta repararmos que tem lugar um difeomorfismo
P0 À WPÐIÑ Ä WPÐIÑ, definido por P0 Ð(Ñ œ 0 ‰ ( (com P0" como
difeomorfismo inverso), o qual aplica M.I em 0. …

Os próximos exemplos de variedade sem bordo serão construídos com o


auxílio do segundo teorema da submersão.

II.5.10 Seja I um espaço vectorial real de dimensão par 8 œ #: e seja


Y w ÐIÑ § PÐIà IÑ o conjunto das estruturas complexas N À I Ä I . Então
Y w ÐIÑ é uma variedade sem bordo com dimensão #:# e, para cada
N − Y w ÐIÑ, XN ÐY w ÐIÑÑ é o conjunto das aplicações lineares ! − PÐIà IÑ
tais que ! ‰ N œ N ‰ ! (ou seja, o conjunto das aplicações antilineares para
a estrutura de espaço vectorial complexo definida por N ).
Dem: Seja N! − Y w ÐIÑ fixado. Uma vez que, N ‰ N œ M.I , para cada
N − Y w ÐIÑ, concluímos, por derivação, que, para cada ! − XN! ÐY w ÐIÑÑ,

39A palavra “especial” e o símbolo “W ” são normalmente associados à condição de o


determinante ser " (cf. II.5.9). O seu uso aqui respeita esse hábito, uma vez que, como se
viu no exercício I.6, para um isomorfismo ortogonal 0 , a condição detÐ0Ñ  ! é
equivalente à condição detÐ0Ñ œ ".
140 Cap. II. Vectores Tangentes e Variedades

! ‰ N!  N! ‰ ! œ !. Reparemos agora que, para cada 0 no aberto


KPÐIÑ œ P3=9 ÐIà IÑ de PÐIà IÑ, tem-se ainda 0 ‰ N! ‰ 0" − Y w ÐIÑ, pelo
que podemos considerar a aplicação suave FÀ KPÐIÑ Ä Y w ÐIÑ definida por
FÐ0Ñ œ 0 ‰ N! ‰ 0" , cuja derivada em M.I é
HFM.I À PÐIà IÑ Ä XN! ÐY w ÐIÑÑ, HFM.I Ð" Ñ œ " ‰ N!  N! ‰ "

(cf. I.8.1). Dado ! − PÐIà IÑ tal que ! ‰ N! œ N! ‰ !, em particular dado


! − XN! ÐY w ÐIÑÑ, podemos considerar " − PÐIà IÑ definido por
" "
"œ N! ‰ ! œ  ! ‰ N ! ,
# #
para o qual se tem
" " " "
HFM.I Ð" Ñ œ  ! ‰ N! ‰ N!  N! ‰ N! ‰ ! œ !  ! œ !,
# # # #
o que mostra que HFM.I À PÐIà IÑ Ä XN! ÐY w ÐIÑÑ é uma aplicação linear
sobrejectiva. Ficou assim provado que XN! ÐY w ÐIÑÑ é o conjunto dos
! − PÐIà IÑ tais que ! ‰ N! œ N! ‰ ! e, tendo em conta II.4.39, que
Y w ÐIÑ é uma variedade em N! . Quanto à dimensão da variedade, basta
repararmos que, como vimos, o espaço vectorial tangente é o conjunto das
aplicações antilineares, ou seja, o espaço das aplicações lineares complexas
I Ä I , o qual é um espaço vectorial complexo de dimensão :# , e portanto
um espaço vectorial real de dimensão #:# . …
II.5.11 Seja I um espaço euclidiano de dimensão par 8 œ #: e seja
Y ÐIÑ § PÐIà IÑ o conjunto das estruturas complexas compatíveis
N À I Ä I (cf. I.2.7). Então Y ÐIÑ é uma variedade compacta sem bordo com
dimensão :#  : e, para cada N − Y ÐIÑ, XN ÐY ÐIÑÑ é o conjunto das
aplicações lineares ! − PÐIà IÑ tais que !‡ œ ! e ! ‰ N œ N ‰ ! (ou
seja, o conjunto das aplicações antiautoadjuntas que são antilineares para a
estrutura de espaço vectorial complexo definida por N ).
Dem: Comecemos por reparar que, tendo em conta I.2.31, tem-se
Y ÐIÑ œ Y w ÐIÑ  SÐIÑ œ Y w ÐIÑ  P++ ÐIà IÑ.
Uma vez que Y w ÐIÑ é fechado em PÐIà IÑ e SÐIÑ é compacto, a primeira
igualdade implica já que Y ÐIÑ é compacto. Seja N! − Y ÐIÑ fixado. Para
cada ! − XN! ÐY ÐIÑÑ, tem-se ! − XN! ÐY w ÐIÑÑ e ! − P++ ÐIà IÑ, ou seja,
! ‰ N! œ N! ‰ ! e !‡ œ !. Reparemos agora que, para cada 0 no grupo
ortogonal SÐIÑ § PÐIà IÑ, tem-se ainda 0 ‰ N! ‰ 0‡ − Y ÐIÑ, uma vez que
Ð0 ‰ N! ‰ 0‡ Ñ ‰ Ð0 ‰ N! ‰ 0‡ Ñ œ 0 ‰ N! ‰ N! ‰ 0‡ œ 0 ‰ 0‡ œ M.I ,
Ð0 ‰ N! ‰ 0‡ ч œ 0 ‰ N!‡ ‰ 0‡ œ 0 ‰ N! ‰ 0.

Podemos assim considerar uma aplicação suave FÀ SÐIÑ Ä Y ÐIÑ definida


por FÐ0Ñ œ 0 ‰ N! ‰ 0‡ . Lembrando que XM.I ÐSÐIÑÑ œ P++ ÐIà IÑ, vemos
§5. Alguns exemplos importantes de variedade 141

que a derivada de F em M.I é a aplicação linear


P++ ÐIà IÑ Ä XN! ÐY ÐIÑÑ, HFM.I Ð" Ñ œ " ‰ N!  N! ‰ " ‡ .

Dado ! − PÐIà IÑ tal que !‡ œ ! e ! ‰ N! œ N! ‰ !, em particular


dado ! − XN! ÐY ÐIÑÑ, podemos considerar " − PÐIà IÑ definido por
" "
"œ N! ‰ ! œ  ! ‰ N ! ,
# #
para o qual se tem
" ‡ "
"‡ œ ! ‰ N!‡ œ ! ‰ N! œ " ,
# #
isto é, " − P++ ÐIà IÑ, vindo então
" "
HFM.I Ð" Ñ œ  ! ‰ N! ‰ N!  N! ‰ N! ‰ ! œ !,
# #
o que mostra que HFM.I À P++ ÐIà IÑ Ä XN! ÐY ÐIÑÑ é uma aplicação linear
sobrejectiva. Ficou assim provado que XN! ÐY ÐIÑÑ é o conjunto dos
! − PÐIà IÑ tais que !‡ œ ! e ! ‰ N! œ N! ‰ ! e, tendo em conta o
segundo teorema da submersão, que Y ÐIÑ é uma variedade em N! .
Examinemos enfim a dimensão de Y ÐIÑ, igual à dimensão do espaço
vectorial tangente XN! ÐY ÐIÑÑ. Para isso, começamos por lembrar que, tendo
em conta a dimensão de SÐIÑ, P++ ÐIà IÑ œ XM.I ÐSÐIÑÑ tem dimensão
#:Ð#:"Ñ
# œ :Ð#:  "Ñ e reparamos em seguida que P++ ÐIà IÑ é soma
directa de XN! ÐY ÐIÑÑ com o espaço vectorial dos ! − P++ ÐIà IÑ que
verificam ! ‰ N! œ N! ‰ !, uma vez que a intersecção dos dois é
evidentemente Ö!× e que cada # − P++ ÐIà IÑ se pode escrever na forma
#  N! ‰ # ‰ N! #  N! ‰ # ‰ N !
#œ  ,
# #
com a primeira parcela no primeiro espaço e a segunda parcela no segundo.
Este segundo espaço não é mais do que o espaço das aplicações lineares
complexas antiautoadjuntas I Ä I (relativamente à estrutura de espaço
vectorial complexo definida por N! e ao produto interno complexo associado
ao produto interno real) e, mais uma vez, tendo em conta a dimensão de
SÐIÑ, ele tem dimensão real :# . Podemos assim concluir que
:Ð#:  "Ñ  :# œ :#  : é a dimensão de XN! ÐY ÐIÑÑ. …
II.5.12 Seja I um espaço vectorial, real ou complexo, de dimensão 8. Vamos
notar †ÐIÑ o conjunto dos subespaços vectoriais de I e, para cada
! Ÿ 5 Ÿ 8, †5 ÐIÑ o subconjunto daqueles cuja dimensão é 5 .
No caso em que I está munido de um produto interno, notamos,
analogamente, KÐIÑ o subconjunto de PÐIà IÑ cujos elementos são as
projecções ortogonais sobre subespaços vectoriais de I e, para cada
! Ÿ 5 Ÿ 8, K5 ÐIÑ o subconjunto de KÐIÑ cujos elementos são as
142 Cap. II. Vectores Tangentes e Variedades

projecções ortogonais sobre subespaços vectoriais de dimensão 5 .


Relembremos que, como foi observado em I.2.35, existe uma bijecção
natural de †ÐIÑ sobre KÐIÑ, aplicando †5 ÐIÑ sobre K5 ÐIÑ, que associa a
cada subespaço vectorial J § I a projecção ortogonal 1J de I sobre J e
que se tem
KÐIÑ œ Ö- − P++ ÐIà IÑ ± - ‰ - œ -×. 40

II.5.13 Seja I um espaço vectorial, real ou complexo, de dimensão 8, munido de


produto interno. Tem-se então que KÐIÑ é uma variedade compacta sem
bordo, tendo os K5 ÐIÑ como subvariedades simultaneamente abertas e
fechadas (as variedades de Grassmann), e, para cada -! œ 1J − K5 ÐIÑ, a
dimensão de KÐIÑ em -! é 5Ð8  5Ñ ou #5Ð8  5Ñ, conforme Š é ‘ ou ‚, e
o espaço vectorial tangente X-! ÐKÐIÑÑ admite as seguintes caracterizações:
X-! ÐKÐIÑÑ œ Ö! − P++ ÐIà IÑ ± ! ‰ -!  -! ‰ ! œ !×
œ Ö! − P++ ÐIà IÑ ± !ÐJ Ñ § J ¼ • !ÐJ ¼ Ñ § J ×.

Em termos de matrizes de aplicações lineares relativas à decomposição em


soma directa ortogonal I œ J Š J ¼ (cf. I.3.6), X-! ÐKÐIÑÑ é o conjunto dos
! − PÐIà IÑ cuja matriz é do tipo

”! ! •
! !‡#ß"
,
#ß"

com !#ß" − PÐJ à J ¼ Ñ arbitrária.


Dem: Seja -! œ 1J − K5 ÐIÑ fixado. O facto de se ter KÐIÑ § P++ ÐIà IÑ
implica que X-! ÐKÐIÑÑ § P++ ÐIà IÑ e, por derivação da identidade
- ‰ - œ -, vemos que, para cada ! − X-! ÐKÐIÑÑ, tem-se ! ‰ -!  -! ‰ ! œ
!. Reparamos agora que, se 0À I Ä I é um isomorfismo ortogonal, então,
para cada B œ Bw  Bww − I , com Bw − J e Bww − J ¼ , tem-se 0ÐBÑ œ 0ÐBw Ñ 
0ÐBww Ñ, com 0ÐBw Ñ − 0ÐJ Ñ e 0ÐBww Ñ − 0ÐJ Ѽ , pelo que 0Ð-! ÐBÑÑ œ 0ÐBw Ñ é a
projecção ortogonal de 0ÐBÑ sobre o subespaço vectorial 0ÐJ Ñ de dimensão 5
de I , por outras palavras, a projecção ortogonal de I sobre 0ÐJ Ñ é a
aplicação linear 0 ‰ -! ‰ 0" œ 0 ‰ -! ‰ 0‡ . Podemos assim considerar a apli-
cação suave FÀ SÐIÑ Ä K5 ÐIÑ § KÐIÑ definida por FÐ0Ñ œ 0 ‰ -! ‰ 0‡ ,
que aplica M.I em -! e cuja derivada em M.I é a aplicação linear
P++ ÐIà IÑ Ä X-! ÐKÐIÑÑ, HFM.I Ð" Ñ œ " ‰ -!  -! ‰ " ‡ .

Dado ! − P++ ÐIà IÑ tal que ! ‰ -!  -! ‰ ! œ !, em particular, dado


! − X-! ÐKÐIÑÑ, tem-se
! ‰ -!  -! ‰ ! ‰ -! œ ! ‰ -! ‰ -!  -! ‰ ! ‰ -! œ ! ‰ -! ,

40Por esse motivo, é útil pensar em KÐIÑ como sendo “moralmente” o conjunto dos
subespaços vectoriais de I .
§5. Alguns exemplos importantes de variedade 143

donde -! ‰ ! ‰ -! œ ! e vemos então que, sendo " œ ! ‰ -!  -! ‰ !,


tem-se " ‡ œ -! ‰ !  ! ‰ -! œ " , isto é, " − P++ ÐIà IÑ, e
HFM.I Ð" Ñ œ Ð! ‰ -!  -! ‰ !Ñ ‰ -!  -! ‰ Ð! ‰ -!  -! ‰ !Ñ
œ ! ‰ -!  -! ‰ ! œ !,

o que mostra que HFM.I À XM.I ÐSÐIÑÑ Ä X-! ÐKÐIÑÑ é uma aplicação linear
sobrejectiva. Ficou assim provado que X-! ÐKÐIÑÑ é o conjunto dos
! − P++ ÐIà IÑ tais que ! ‰ -!  -! ‰ ! œ ! e, tendo em conta o segundo
teorema da submersão, que KÐIÑ é uma variedade em -! . Por II.4.28,
podemos garantir que FÐSÐIÑÑ é uma vizinhança de -! em KÐIÑ e portanto,
por FÐSÐIÑÑ estar contido em K5 ÐIÑ, K5 ÐIÑ é também uma vizinhança de
-! em KÐIÑ, o que mostra que cada K5 ÐIÑ é aberto em KÐIÑ. Vemos agora
que, se J w é um subespaço arbitrário de dimensão 5 , então, considerando
bases ortonormadas arbitrárias para J e para J w e prolongando-as em bases
ortonormadas de I , podemos considerar o isomorfismo ortogonal 0 − SÐIÑ
definido pela condição de aplicar a primeira base ortonormada de I na
segunda, isomorfismo esse que vai aplicar J sobre J w ; fica assim provado
que se tem mesmo FÐSÐIÑÑ œ K5 ÐIÑ pelo que, por SÐIÑ ser compacto,
K5 ÐIÑ é também compacto, em particular fechado em KÐIÑ. O facto de
KÐIÑ ser a união finita dos compactos K5 ÐIÑ implica que KÐIÑ é também
uma variedade compacta. Vejamos agora que X-! ÐKÐIÑÑ também admite as
caracterizações alternativas no enunciado. Se ! − PÐIà IÑ verifica
! ‰ -!  -! ‰ ! œ ! então, se B − J , tem-se -! ÐBÑ œ B, donde
!ÐBÑ œ !Ð-! ÐBÑÑ  -! Ð!ÐBÑÑ œ !ÐBÑ  -! Ð!ÐBÑÑ,
portanto -! Ð!ÐBÑÑ œ !, ou seja, !ÐBÑ − J ¼ , e, se B − J ¼ , tem-se -! ÐBÑ œ !,
donde
!ÐBÑ œ !Ð-! ÐBÑÑ  -! Ð!ÐBÑÑ œ -! Ð!ÐBÑÑ,
portanto !ÐBÑ − J . Reciprocamente, se !ÐJ Ñ § J ¼ e !ÐJ ¼ Ñ § J , então,
para cada B − J , !Ð-! ÐBÑÑ  -! Ð!ÐBÑÑ œ !ÐBÑ  ! œ !ÐBÑ e, para cada
B − J ¼ , !Ð-! ÐBÑÑ  -! Ð!ÐBÑÑ œ !Ð!Ñ  !ÐBÑ œ !ÐBÑ e portanto, uma vez
que I œ J Š J ¼ , !Ð-! ÐBÑÑ  -! Ð!ÐBÑÑ œ !ÐBÑ, para todo o B − I . A
caracterização de X-! ÐKÐIÑÑ como o conjunto dos ! − P++ ÐIà IÑ tais que
!ÐJ Ñ § J ¼ e !ÐJ ¼ Ñ § J é trivialmente equivalente à caracterização
matricial referida no enunciado e esta última mostra que X-! ÐKÐIÑÑ é
isomorfo a PÐJ à J ¼ Ñ e tem portanto a dimensão no enunciado. 

§6. Variedades com bordo.

II.6.1 Dissemos atrás que uma variedade sem bordo, com dimensão 8, pode ser
olhada intuitivamente como um conjunto que é localmente parecido com um
144 Cap. II. Vectores Tangentes e Variedades

espaço vectorial de dimensão 8 e sugerimos graficamente meia superfície


esférica como exemplo da variedade sem bordo, com dimensão #. Se olhar-
mos com atenção para esse exemplo, veremos que, para que ele funcione
devidamente, temos que supor que consideramos a meia superfície esférica
aberta,41 isto é, sem incluir os pontos do bordo (o local onde a faca cortou a
laranja). Se considerarmos a meia superfície esférica fechada já vai haver
pontos que não vão ter vizinhanças abertas difeomorfas a abertos dum plano,
a saber, os pontos do bordo. Estes vão ter, no entanto, vizinhanças abertas
difeomorfas a abertos de um semi-plano. Na mesma ordem de ideias, se
considerarmos um igloo de esquimó (ou, equivalentemente, meia casca de
laranja com uma dentada de um rato42), vão existir dois pontos que não têm
vizinhanças abertas difeomorfas a abertos dum plano nem dum semi-plano,
mas têm vizinhanças abertas difeomorfas a um aberto dum quadrante.
Torna-se assim natural generalizar a noção de variedade sem bordo, de modo
a abarcar exemplos como os precedentes. Essa generalização obtém-se
permitindo que os modelos, para além de espaços vectoriais de dimensão
finita, possam ser, mais geralmente, abertos de certos subconjuntos destes
espaços, a que daremos o nome de sectores.

Figura 4

II.6.2 Sejam J um espaço vectorial real de dimensão 8 e ! Ÿ : Ÿ 8. Diz-se que


um subconjunto E de J é um sector de índice : se existir uma base
A" ß á ß A8 de J tal que E seja o conjunto dos vectores cujas últimas :
componentes nessa base sejam maiores ou iguais a !:

41O termo aberto não tem aqui um significado topológico. A superfície em questão não é
evidentemente um conjunto aberto no espaço vectorial ambiente.
42Supomos naturalmente que o rato tem uma dentadura de classe G _ .
§6. Variedades com bordo 145

E œ ÖB œ +" A"  â  +8 A8 − J ± a +4   !×.


48:

Em particular, J é o único sector de índice ! de J .


Repare-se que, para um dado sector E, poderá haver, em geral, várias bases
adaptadas, isto é, várias bases verificando a condição da definição.

Uma questão que se põe naturalmente é a de saber se um mesmo conjunto


E § J poderá ser, ao mesmo tempo, um sector com dois índices
distintos, isto é, se poderíamos encontrar duas bases adaptadas em que o
valor de : não fosse o mesmo. A resposta, que é negativa, é uma
consequência da seguinte caracterização intrínseca do índice dum sector:

II.6.3 Se J é um espaço vectorial real de dimensão 8 e se E § J é um sector de


índice :, então J é o subespaço vectorial gerado por E e K œ E  ÐEÑ é
um subespaço vectorial de J , com dimensão 8  :.
Dem: Seja A" ß á ß A8 uma base de J tal que E seja o conjunto dos vectores
de J cujas últimas : componentes sejam maiores ou iguais a !. Então
A4 − E e E é o conjunto dos vectores cujas últimas : componentes são
menores ou iguais a !, pelo que K œ E  ÐEÑ sendo o conjunto dos
vectores cujas últimas : componentes são nulas, é o subespaço vectorial
gerado por A" ß á ß A8: . …
II.6.4 Em particular, se J é um espaço vectorial de dimensão 8 e E § J é um
sector de índice ", K œ E  ÐEÑ é um hiperplano de J e os semi-espaços
abertos associados (cf. I.4.8) são J Ï E e E Ï K . Define-se então a
orientação transversa de K associada ao sector E como sendo aquela cujo
semi-espaço aberto positivo é J Ï E.
Dem: Seja A" ß á ß A8 uma base de J tal que E seja o conjunto dos vectores
de J cuja última componente seja maior ou igual a !. Tem-se então que
K œ E  ÐEÑ é o subespaço vectorial constituído pelos vectores com
última coordenada igual a !, ou seja, o gerado por A" ß á ß A8" , e daqui
J
concluímos a existência de um isomorfismo de ‘ sobre K , que a > associa
J
Ò>A8 ÓK . Resulta daqui que as semi-rectas abertas de K são as constituídas
respectivamente pelos Ò>A8 ÓK com >  ! e por aqueles com >  ! pelo que
tido o que nos resta é reparar que, se A œ >" A"  â  >8 A8 − J , tem-se
ÒAÓK œ Ò>8 A8 ÓK . …
II.6.5 (Exemplos) a) Num plano, isto é, num espaço vectorial de dimensão #, um
sector de índice " é um semiplano e um sector de índice # é um ângulo.
b) Num espaço vectorial de dimensão $, um sector de índice " é um
semiespaço (parte do espaço que está dum dos lados dum plano), um sector
de índice # é um diedro (parte do espaço limitada por dois semiplanos) e um
sector de índice $ é um triedro (parte do espaço limitada por três ângulos
146 Cap. II. Vectores Tangentes e Variedades

planos).

A# A#
A" A"

Figura 5

II.6.6 Sejam J e J s dois espaços vectoriais de dimensão 8 e E § J e E s§J s


dois sectores de índice :. Existe então um isomorfismo 0À J Ä J s , tal que
0ÐEÑ œ E s.
Dem: Sejam A" ß á ß A8 uma base de J e A s , tais que
s8 uma base de J
s" ß á ß A
E seja o conjunto dos vectores de J cujas últimas : coordenadas sejam
maiores ou iguais a ! e que E s seja o conjunto dos vectores de J s cujas
últimas : coordenadas sejam maiores ou iguais a !. Sendo 0À J Ä J s o
isomorfismo que aplica cada A4 em A s
s4 , é imediato que se tem 0ÐEÑ œ E. …
II.6.7 Sejam J e J s dois espaços vectoriais de dimensão 8 e 0À J Ä J s um
s
isomorfismo. Se E § J é um sector de índice :, tem-se então que E œ 0ÐEÑ
s.
é um sector de índice : de J
Dem: Seja A" ß á ß A8 uma base de J tal que E seja o conjunto dos vectores
de J cujas últimas coordenadas são maiores ou iguais a !. Sendo
As4 œ 0ÐA4 Ñ, tem-se então que A s tal que 0ÐEÑ é o
s8 é uma base de J
s" ß á ß A
conjunto dos vectores que nesta base têm as últimas : coordenadas maiores
ou iguais a !. …
II.6.8 Sejam J e J s espaços vectoriais com dimensões 8 e 8 s, respectivamente, e
E§J e E s§J s sectores de índices : e s:, respectivamente. Tem-se então
que E ‚ E s é um sector de índice :  s: do espaço vectorial J ‚ J s , com
dimensão 8  8 s.
Mais geralmente, suponhamos que, para cada " Ÿ 4 Ÿ R , J4 é um espaço
vectorial de dimensão 84 e E4 § J4 é um sector de índice :4 . Tem-se então
que E" ‚ â ‚ ER é um sector de índice :"  â  :R do espaço vectorial
J" ‚ â ‚ JR , com dimensão 8"  â  8R .
Dem: Vamos demonstrar apenas a primeira afirmação, visto que a segunda é
de demonstração análoga, embora com notação mais pesada (ou, alternati-
vamente, pode ser demonstrada por indução a partir da primeira). Seja
A" ß á ß A8 uma base de J , tal que E seja o conjunto dos vectores cujas
últimas : coordenadas sejam maiores ou iguais a !, e seja A s8s uma
s" ß á ß A
s s
base de J , tal que E seja constituído pelos vectores cujas últimas s:
coordenadas sejam maiores ou iguais a !. Tem-se então que J ‚ J s admite
§6. Variedades com bordo 147

uma base constituída pelos vectores


ÐA" ß !Ñß á ß ÐA8 ß !Ñß Ð!ß A
s" Ñß á ß Ð!ß A
s8sÑ
s verificam
e, se B − J e C − J
B œ +" A "  â  + 8 A 8 ,
C œ ," A s8s ,
s"  â  ,8s A
tem-se
ÐBß CÑ œ +" ÐA" ß !Ñ  â  +8 ÐA8 ß !Ñ  ," Ð!ß A s8s Ñ,
s" Ñ  â  ,8s Ð!ß A
o que mostra que, depois de reordenarmos convenientemente os elementos da
s, E ‚ E
base obtida para J ‚ J s é constituído pelos pares ÐBß CÑ cujas últimas
:  s: componentes são maiores ou iguais a !. …
II.6.9 Os resultados II.6.6 e II.6.7 mostram que, a menos de isomorfismo, existe
apenas um sector de índice : num espaço vectorial de dimensão 8. Um
exemplo de um tal sector é o conjunto ‘8: § ‘8 ,
‘8: œ ‘8: ‚ ‘: œ ÖÐB" ß á ß B8 Ñ − ‘8 ± a B4   !×,
48:

a que damos o nome de sector canónico de índice : de ‘8 .


Repare-se que notamos ‘ o intervalo Ò!ß _Ò, que é portanto o sector
canónico de índice " de ‘.
II.6.10 Sejam J um espaço vectorial de dimensão 8 e E § J um sector de
índice :. Tem-se então t! ÐEÑ œ E e t! ÐEÑ œ X! ÐEÑ œ J .
Dem: Podemos considerar um isomorfismo 0À ‘8 Ä J tal que 0Б8: Ñ œ E e
então, uma vez que a restrição de 0 é um difeomorfismo de ‘8: sobre E,
concluímos que uma restrição de 0 vai ser um isomorfismo de X! Б8: Ñ sobre
X! ÐEÑ que aplica t! Б8: Ñ sobre t! ÐEÑ e t 
! Б: Ñ sobre t! ÐEÑ. O resultado
8

ficará assim demonstrado se verificarmos as igualdades t! Б8: Ñ œ ‘:8 e


t
! Б: Ñ œ X! Б: Ñ œ ‘ . Ora, a primeira igualdade resulta de ‘: ser um cone
8 8 8 8

fechado e a segunda é uma consequência de ! ser aderente ao interior de ‘8: ,


igual a ‘8: ‚ Ó!ß _Ò: . …
II.6.11 Sejam I um espaço vectorial de dimensão finita e B! − Q § I . Diz-se
que o par ÐQ ß B! Ñ é uma variedade com dimensão 8 e índice : se existir um
espaço vectorial J de dimensão 8 e um sector E § J de índice :, tal que
ÐQ ß B! Ñ seja localmente difeomorfo a ÐEß !Ñ. Diz-se então também que Q é,
no ponto B! , uma variedade com dimensão 8 e índice :. Dizemos que o
conjunto Q é uma variedade43 se, para cada B − Q , o par ÐQ ß BÑ é uma

43Os autores que dão o nome de variedade ao que nós chamámos de variedade sem bordo
usam o termo variedade com bordo para designar o que aqui estamos a chamar de
variedade.
148 Cap. II. Vectores Tangentes e Variedades

variedade com dimensão 8B e índice :B (a dimensão e o índice podem, em


geral, variar de ponto para ponto — ver no entanto o que dizemos adiante em
II.6.17). No caso em que a variedade Q tem a mesma dimensão 8 em todos
os pontos, também dizemos que Q é uma variedade de dimensão 8.
II.6.12 (Notas) a) Tendo em conta o que dissemos na nota a) em II.4.9, vemos
que um par ÐQ ß B! Ñ é uma variedade sem bordo com dimensão 8, no sentido
da definição II.4.6, se, e só se, ele é uma variedade com dimensão 8 e índice
!, no sentido da definição que acabamos de apresentar. Note-se também que,
ao contrário do que sucedia no quadro das variedades sem bordo, o facto de,
no caso em que E é um sector de índice : , um par do tipo ÐEß C! Ñ não ser, em
geral, localmente difeomorfo ao par ÐEß !Ñ não nos permite definir as
variedades de dimensão 8 e índice : como sendo os pares localmente
difeomorfos a algum ÐEß C! Ñ, com E sector de índice : num espaço vectorial
de dimensão 8.
b) Como dissemos em II.6.6 e II.6.9, se E é um sector de índice : dum
espaço vectorial J de dimensão 8, então existe um isomorfismo 0À ‘8 Ä J ,
que aplica o sector canónico de índice : ‘8: sobre E. Em particular, e uma
vez que um isomorfismo é evidentemente um difeomorfismo, vemos que
ÐEß !Ñ é localmente difeomorfo (aliás, mesmo difeomorfo) a Б8: ß !Ñ.
Concluímos daqui que, se ÐQ ß B! Ñ é uma variedade com dimensão 8 e índice
:, então ÐQ ß B! Ñ é localmente difeomorfo a Б8: ß !Ñ.
II.6.13 Sejam B! − Q § I tais que ÐQ ß B! Ñ seja uma variedade com dimensão
8 e índice :. Tem-se então que t B! ÐQ Ñ œ XB! ÐQ Ñ é um espaço vectorial de
dimensão 8 e tB! ÐQ Ñ é um sector de índice : de XB! ÐQ Ñ. Em particular, a
dimensão e o índice de uma variedade ÐQ ß B! Ñ são números bem definidos.
Dem: Tendo em conta II.4.5 e II.6.10, vai existir um espaço vectorial J , de
dimensão 8, um sector E § J de índice : e um isomorfismo 0 de
J œ X! ÐEÑ sobre XB! ÐQ Ñ, que aplica E œ t! ÐEÑ sobre tB! ÐQ Ñ e J œ t ! ÐEÑ
sobre t
B! ÐQ Ñ . O resultado é agora uma consequência de II.6.3 . …

II.6.14 Sejam B! − Q § I e C! − Q s §Is , tais que ÐQ ß B! Ñ seja uma variedade


s
com dimensão 8 e índice : e ÐQ ß C! Ñ seja uma variedade com dimensão 8 se
índice s:. Tem-se então que Q ‚ Q s é, no ponto ÐB! ß C! Ñ, uma variedade com
dimensão 8  8 s e índice :  s: e
XÐB! ßC! Ñ ÐQ ‚ Qs Ñ œ XB! ÐQ Ñ ‚ XC! ÐQ s Ñ,
s Ñ œ tB! ÐQ Ñ ‚ tC! ÐQ
tÐB! ßC! Ñ ÐQ ‚ Q s Ñ.

Dem: Sejam J e J s espaços vectoriais de dimensões 8 e 8


s, E § J e E s§J s
sectores de índices : e s: , :À Y Ä Z um difeomorfismo local de ÐEß !Ñ sobre
s ÄZ
ÐQ ß B! Ñ e <À Y s um difeomorfismo local de ÐEß s !Ñ sobre ÐQ s ß C! Ñ .
s s
Tem-se então que a aplicação : ‚ <À Y ‚ Y Ä Z ‚ Z , definida por
§6. Variedades com bordo 149

: ‚ <ÐBß CÑ œ Ð:ÐBÑß <ÐCÑÑ,


s Ð!ß !ÑÑ sobre ÐQ ‚ Q
é um difeomorfismo local de ÐE ‚ Eß s ß ÐB! ß C! ÑÑ, para
o qual se tem
HÐ: ‚ <ÑÐ!ß!Ñ œ H:! ‚ H<! .

Tendo em conta o facto de E ‚ Es ser um sector de índice :  s: do espaço


s de dimensão 8  8
vectorial J ‚ J s, concluímos que ÐQ ‚ Q s ß ÐB! ß C! ÑÑ é
uma variedade de dimensão 8  8
s e índice :  s: . Por outro lado,
s œ
s Ñ œ HÐ: ‚ <ÑÐ!ß!Ñ ÐtÐ!ß!Ñ ÐE ‚ EÑÑ
tÐB! ßC! Ñ ÐQ ‚ Q
œ HÐ: ‚ <ÑÐ!ß!Ñ ÐE ‚ EÑ s œ
s œ
œ ÐH:! ‚ H<! ÑÐt! ÐEÑ ‚ t! ÐEÑÑ
s œ
œ H:! Ðt! ÐEÑÑ ‚ H<! Ðt! ÐEÑÑ

œ t! ÐQ Ñ ‚ t! ÐQ
e a igualdade envolvendo os espaços vectoriais tangentes é válida mesmo
para conjuntos arbitrários. …
II.6.15 Mais geralmente, seja, para cada " Ÿ 4 Ÿ R , B4 ! − Q4 § I4 , tal que
ÐQ4 ß B4 ! Ñ seja uma variedade com dimensão 84 e índice :4 . Tem-se então que
Q" ‚ â ‚ QR é, no ponto ÐB" ! ß á ß BR ! Ñ uma variedade com dimensão
8"  â  8R e índice :"  â  :R e
XÐB" ! ßáßBR ! Ñ ÐQ" ‚ â ‚ QR Ñ œ XB" ! ÐQ" Ñ ‚ â ‚ XBR ! ÐQR Ñ,
tÐB" ! ßáßBR ! Ñ ÐQ" ‚ â ‚ QR Ñ œ tB" ! ÐQ" Ñ ‚ â ‚ tBR ! ÐQR Ñ.

Dem: Trata-se de uma demonstração análoga à do resultado precedente, que


é um caso particular deste, em que a única dificuldade são as notações mais
pesadas. Alternativamente, podemos fazer uma demonstração por indução, a
partir do resultado anterior. …
II.6.16 Seja ‘8: œ ‘8: ‚ ‘: o sector canónico de índice : de ‘8 . Tem-se
então que ‘8: é uma variedade de dimensão 8 em todos os pontos, o seu
índice num ponto Ð+" ß á ß +8 Ñ sendo igual ao número de índices 4 tais que
4  8  : e +4 œ ! .
Dem: É claro que ‘8: é, no ponto !, uma variedade com dimensão 8 e índice
:, visto que ‘8: é um sector de índice : de ‘8 . A questão é verificar o que
sucede nos restantes pontos. Para isso, começamos por reparar que, por
II.4.15, ‘ é uma variedade com dimensão " e índice ! em todos os pontos e
‘ œ Ò!ß _Ò é uma variedade com dimensão " e índice ! em todos os
pontos distintos de ! (trata-se de pontos interiores). Por outro lado, ‘ é um
sector de índice " de ‘, sendo portanto, no ponto !, uma variedade com
dimensão " e índice ". Podemos agora aplicar o resultado precedente para
150 Cap. II. Vectores Tangentes e Variedades

garantir que ‘8: œ ‘8: ‚ ‘: é uma variedade, tendo em cada ponto
Ð+" ß á ß +8 Ñ dimensão 8 (igual à soma das dimensões dos factores nos pontos
+4 ) e índice igual à soma dos índices de ‘ nos pontos +4 com 4 Ÿ 8  : com
os índices de ‘ nos pontos +4 com 4  8  :, isto é, igual ao número de
índices 4  8  : tais que +4 œ !. …
II.6.17 Sejam I um espaço vectorial de dimensão finita e B! − Q § I tais que
ÐQ ß B! Ñ seja uma variedade com dimensão 8 e índice :. Tem-se então:
a) Existe um aberto Y de Q , com B! − Y , tal que, para cada B − Y , ÐQ ß BÑ
seja uma variedade com dimensão 8 e índice menor ou igual a :.
b) Qualquer que seja a vizinhança Z de B! em Q e qualquer que seja
! Ÿ 4 Ÿ :, existe B − Z tal que ÐQ ß BÑ seja uma variedade com dimensão 8
e índice 4.
Em particular, se Q é uma variedade conexa, então Q tem a mesma
dimensão em todos os pontos.
Dem: Seja :À Y Ä Y w um difeomorfismo local de ÐQ ß B! Ñ sobre Б8: ß !Ñ. É
então imediato que, para cada B − Y , : é um difeomorfismo local de ÐQ ß BÑ
sobre Б8: ß :ÐBÑÑ, que, pelo resultado anterior, é uma variedade com dimen-
são 8 e índice menor ou igual a :, o que nos permite concluir que ÐQ ß BÑ é
uma variedade com dimensão 8 e índice menor ou igual a :. Para demonstrar
b), e uma vez que, para cada vizinhança Z de B! , intÐZ Ñ é também, no ponto
B! , uma variedade com dimensão 8 e índice :, basta-nos provar que,
qualquer que seja ! Ÿ 4 Ÿ :, existe B − Q tal que ÐQ ß BÑ seja uma
variedade com dimensão 8 e índice 4. Ora, considerando, como acima, um
difeomorfismo local :À Y Ä Y w de ÐQ ß B! Ñ sobre Б8: ß !Ñ, esta conclusão é
uma consequência de que, pelo resultado anterior, vão existir pontos na
vizinhança aberta Y w de ! em ‘8: onde ‘8: é uma variedade com qualquer
índice 4 entre ! e : (tomar as últimas :  4 coordenadas estritamente posi-
tivas e suficientemente pequenas e todas as restantes iguais a !). A última
conclusão do enunciado resulta de que, tendo em conta a), para cada inteiro 8
o conjunto dos pontos de Q onde a dimensão é 8 é aberto em Q pelo que,
uma vez que Q é a união destes abertos que são disjuntos dois a dois, apenas
um deles pode ser não vazio. …
II.6.18 Tendo em conta a alínea b) do resultado anterior, vemos que as únicas
variedades em que o índice é o mesmo em todos os pontos são aquelas em
que esse índice é !, isto é, as variedades sem bordo. Costuma-se também dar
o nome de variedades sem cantos àquelas em que o índice em cada ponto é
sempre ! ou ". Nesta ordem de ideias, chamam-se cantos duma variedade os
pontos desta em que o índice é maior ou igual a #.
II.6.19 Sejam I um espaço vectorial de dimensão finita e Q § I um conjunto.
Para cada :   !, vamos notar `: ÐQ Ñ o conjunto dos pontos B − Q tais que
ÐQ ß BÑ seja uma variedade com índice : , conjunto a que daremos o nome de
bordo de índice : de Q .
§6. Variedades com bordo 151

É claro que, no caso em que Q é uma variedade de dimensão 8, tem-se


`: ÐQ Ñ œ g, para cada :  8, e Q é a união disjunta dos `: ÐQ Ñ.
II.6.20 Sejam I um espaço vectorial de dimensão finita e Q § I um conjunto.
Se B! − `: ÐQ Ñ é tal que a variedade ÐQ ß B! Ñ tenha dimensão 8, então
Ð`: ÐQ Ñß B! Ñ é uma variedade de dimensão 8  : e índice ! e
tB! Ð`: ÐQ ÑÑ œ t
B! Ð`: ÐQ ÑÑ œ XB! Ð`: ÐQ ÑÑ œ tB! ÐQ Ñ  ÐtB! ÐQ ÑÑ.

Em particular, cada `: ÐQ Ñ é uma variedade sem bordo.


Dem: Seja B! − `: ÐQ Ñ, onde Q tenha dimensão 8. Seja :À Y Ä Z um
difeomorfismo local de ÐQ ß B! Ñ sobre Б8: ß !Ñ. Para cada B − Y , : é também
um difeomorfismo local de ÐQ ß BÑ sobre Б8: ß :ÐBÑÑ, pelo que : aplica
Y  `: ÐQ Ñ sobre Z  `: Б8: Ñ e obtemos, por restrição de :, um difeomor-
fismo local de Ð`: ÐQ Ñß B! Ñ sobre Ð`: Б8: Ñß !Ñ. Mas, por II.6.16, tem-se
`: Б8: Ñ œ ‘8: ‚ Ö!×: , que é um subespaço vectorial de ‘8 , com dimensão
8  :, o que nos permite concluir que Ð`: ÐQ Ñß B! Ñ é uma variedade de
dimensão 8  : e índice !, em particular tB! Ð`: ÐQ ÑÑ œ t B! Ð`: ÐQ ÑÑ œ
XB! Ð`: ÐQ ÑÑ é um espaço vectorial de dimensão 8  : . Por outro lado, uma
vez que `: ÐQ Ñ § Q , temos trivialmente tB! Ð`: ÐQ ÑÑ § tB! ÐQ Ñ, donde, uma
vez que tB! Ð`: ÐQ ÑÑ é um subespaço vectorial de XB! ÐQ Ñ, também
tB! Ð`: ÐQ ÑÑ § tB! ÐQ Ñ  ÐtB! ÐQ ÑÑ.

Uma vez que, tendo em conta II.6.13 e II.6.3, o segundo membro é também
um subespaço vectorial de dimensão 8  :, concluímos finalmente a igual-
dade de ambos os membros da inclusão anterior. …
II.6.21 (Algumas propriedades topológicas das variedades) Sejam I um
espaço vectorial de dimensão finita e Q § I uma variedade. Tem-se então:
a) Q é um espaço topológico localmente compacto, isto é, cada ponto
B − Q admite um sistema fundamental de vizinhanças compactas.
b) Q é um espaço topológico localmente conexo, isto é, cada ponto B − Q
admite um sistema fundamental de vizinhanças conexas.44 Em particular as
componentes conexas de Q são conjuntos abertos em Q , e portanto também
variedades, com a mesma dimensão e índice que Q em cada ponto.
Dem: Se atendermos a que um difeomorfismo é também um homeo-
morfismo, para provar a) e b), basta-nos provar que ! admite em ‘8: um
sistema fundamental de vizinhanças compactas e conexas. Ora, isso acontece
ao sistema fundamental de vizinhanças constituído pelos conjuntos
Ò<ß <Ó8: ‚ Ò!ß <Ó: , com <  !. …
II.6.22 (As variedades são localmente fechadas) Sejam I um espaço vectorial
de dimensão finita e Q § I uma variedade. Existe então um aberto Y de I ,
com Q § Y , tal que Q seja fechado em Y .

44Aliás, é mesmo um espaço localmente conexo por arcos.


152 Cap. II. Vectores Tangentes e Variedades

Dem: De facto, o que vamos demonstrar é que todo o subconjunto


localmente compacto Q de I verifica a propriedade do enunciado. Para cada
B − Q , seja ZB uma vizinhança compacta de B em Q . Vem que intQ ÐZB Ñ é
um aberto de Q , contendo B, pelo que existe um aberto YB de I , com
B − YB , tal que intQ ÐZB Ñ œ Q  YB . Seja Y a união dos abertos YB , que é
um aberto de I , contendo Q . Vamos ver que Q é fechado em Y , para o que
tomamos um ponto arbitrário C − Y , que seja aderente a Q . Seja B − Q tal
que C − YB . Se [ é uma vizinhança arbitrária de C , vem que [  YB é
também uma vizinhança de C , pelo que, por C ser aderente a Q , tem-se
[  YB  Q Á g, donde também [  ZB Á g; ficou portanto provado que
C é aderente a ZB , pelo que, por ZB ser compacto, logo fechado em I ,
segue-se que C − ZB , em particular C − Q . …

É bem conhecido o resultado de Topologia que nos diz que todo o espaço
topológico conexo, que seja localmente conexo por arcos, isto é, em que
cada ponto admita um sistema fundamental de vizinhanças conexas por
arcos, é também um espaço topológico conexo por arcos. Uma vez que o
raciocínio da demonstração de II.6.21 mostra também que toda a varie-
dade é localmente conexa por arcos, podemos concluir que toda a
variedade conexa é também conexa por arcos. De facto, torna-se muitas
vezes útil dispôr de um resultado mais forte em que se garante que dois
pontos podem ser unidos não só por um arco contínuo, mas também por
um arco suave. A demonstração, que apresentamos em seguida, é um
pouco mais delicada, na medida que temos que ser cuidadosos com o
modo como unimos dois arcos, para evitar o perigo dos cantos, que não
existia ao nível das aplicações contínuas.

II.6.23 Seja Q uma variedade conexa. Dados Bß C − Q , existe uma aplicação


suave 0 À Ò!ß "Ó Ä Q , tal que 0 Ð!Ñ œ B e 0 Ð"Ñ œ C . Mais precisamente, existe
mesmo uma aplicação suave 1À ‘ Ä Q e &  !, tal que 1Ð>Ñ œ B, para cada
> Ÿ &, e 1Ð>Ñ œ C , para cada >   "  &.
Dem: Basta evidentemente mostrar a existência de 1 nas condições do enun-
ciado, visto que se pode então tomar para 0 a restrição de 1. Considere-se em
Q a relação µ , definida pela condição de se ter B µ C se, e só se, existe
uma aplicação suave 1À ‘ Ä Q e &  !, tal que 1Ð>Ñ œ B, para cada > Ÿ &, e
1Ð>Ñ œ C , para cada >   "  &. A primeira propriedade fundamental a
verificar é que µ é uma relação de equivalência. O facto de se ter B µ B é
claro, se tomarmos para 1 a aplicação constante de valor B, e, supondo que
B µ C , com a correspondente aplicação suave 1À ‘ Ä Q , o facto de se ter
C µ B resulta de que se pode considerar a aplicação suave 2À ‘ Ä Q ,
definida por 2Ð>Ñ œ 1Ð"  >Ñ. Quanto à transitividade, se B µ C e C µ D ,
podemos considerar as aplicações suaves 1ß s1À ‘ Ä Q tais que, para um
certo &  ! se tenha 1Ð>Ñ œ B, para > Ÿ &, 1Ð>Ñ œ C , para >   "  &, s1Ð>Ñ œ C ,
para > Ÿ &, e s1Ð>Ñ œ D , para >   "  &; e podemos então considerar a
aplicação 2À ‘ Ä Q , definida por
§6. Variedades com bordo 153

2Ð>Ñ œ 
"
1Ð#>Ñ , se > Ÿ #
" ;
s1Ð#>  "Ñ , se >  #

trata-se de uma aplicação suave por isso acontecer à respectiva restrição a


cada um dos abertos Ó_ß "# Ò, Ó "# ß _Ò e Ó "# & ß "# & Ò, com união ‘, a última
por ser constantemente igual a C; uma vez que 2Ð>Ñ œ B, se > Ÿ #& , e
2Ð>Ñ œ D , se >   "  #& , concluímos que B µ D , como queríamos. Se
verificarmos que cada uma das classes de equivalência, para esta relação, é
um conjunto aberto, teremos o problema resolvido, visto que, Q sendo uma
união disjunta destes conjuntos abertos, o facto de Q ser conexo implica que
apenas um deles pode ser não vazio, por outras palavras, tem-se B µ C ,
quaisquer que sejam B e C. Seja portanto B! pertencente a uma das classes de
equivalência. Seja :À Y Ä Z um difeomorfismo local de ÐQ ß B! Ñ sobre
Б8: ß !Ñ. Se necessário substituindo : por uma restrição, podemos já supor
que Z é convexo (por exemplo, que Z é da forma Ó<ß <Ò8: ‚ Ò!ß <Ò: ).
Aplicando o teorema da partição da unidade à cobertura aberta de ‘
constituída pelos intervalos Ó_ß #$ Ò e Ó "$ ß _Ò, podemos considerar uma
aplicação suave !À ‘ Ä Ò!ß "Ó, tal que !Ð>Ñ œ !, para cada > Ÿ "$ , e !Ð>Ñ œ ",
para cada >   #$ (a função da partição da unidade correspondente ao segundo
aberto). Podemos agora, para cada B − Y , considerar a aplicação suave
1À ‘ Ä Q , definida por
1Ð>Ñ œ :" Ð!Ð>Ñ:ÐBÑÑ,

para a qual se tem 1Ð>Ñ œ B! , se > Ÿ "$ , e 1Ð>Ñ œ B, se >   #$ , o que mostra
que B µ B! . Ficou portanto provado que Y está contido na classe de
equivalência em questão, o que mostra que esta é aberta. …
II.6.24 (Corolário) Sejam Q § I uma variedade conexa, J um espaço
vectorial de dimensão finita e 0 À Q Ä J uma aplicação de classe G " tal que,
para cada B − Q , H0B œ ! − PÐXB ÐQ Ñà J Ñ. Tem-se então que 0 é uma apli-
cação constante.
Dem:45 Dados Bß C − Q , consideremos uma aplicação suave 1À ‘ Ä Q , tal
que 1Ð!Ñ œ B e 1Ð"Ñ œ C . Podemos então considerar a aplicação 2À ‘ Ä J ,
de classe G " , definida por 2Ð>Ñ œ 0 Ð1Ð>ÑÑ, para a qual se tem 2 w Ð>Ñ œ
H01Ð>Ñ Ð1w Ð>ÑÑ œ !, pelo que 2 é constante, em particular
0 ÐBÑ œ 2Ð!Ñ œ 2Ð"Ñ œ 0 ÐCÑ. …

Embora o teorema da função inversa seja falso no quadro das variedades


com bordo, algumas das aplicações deste teorema, que foram estudadas na

45Este enunciado pode ser também demonstrado facilmente sem recorrer ao resultado
precedente, mas parece-nos instrutivo apresentar esta demonstração.
154 Cap. II. Vectores Tangentes e Variedades

secção precedente no quadro das variedades sem bordo, são generali-


záveis para as variedades com bordo. O que se passa é que é por vezes
possível tirar conclusões sobre as variedades com bordo, aplicando o teo-
rema da função inversa a variedades sem bordo convenientes. É isso que
vamos fazer nos próximos resultados.

II.6.25 Sejam ÐQ ß B! Ñ uma variedade com dimensão 8 e índice :, F uma parte


dum espaço vectorial I s de dimensão finita, e 0 À Q Ä F uma imersão no
ponto B! . Existe então um aberto Y de Q , com B! − Y , tal que a restrição
0ÎY seja um difeomorfismo de Y sobre 0 ÐY Ñ. Em particular 0 é uma imersão
em todos os pontos de Y (generalização de II.4.23).
Dem: Compondo 0 com um difeomorfismo local de um par ÐEß !Ñ sobre
ÐQ ß B! Ñ, onde E é um sector, ficamos reduzidos a provar o resultado no caso
particular em que Q é um aberto de um sector E de índice : de um espaço
vectorial J de dimensão 8. Uma vez que Q é um aberto de E, vai existir um
aberto Z de J , tal que Q œ E  Z . O facto de E ser fechado em J implica
que Q é fechado em Z pelo que, tendo em conta II.3.12, podemos
considerar uma aplicação suave s0 À Z Ä I s prolongando 0 . A aplicação
s
linear H0! vai ser uma restrição de H0 ! , pelo que, uma vez que ambas têm o
mesmo domínio J , elas vão coincidir. Concluímos assim que H0 s ! é uma
s
aplicação linear injectiva pelo que, uma vez que o domínio de 0 é um aberto
de J , em particular uma variedade sem bordo, podemos aplicar a versão
particular já demonstrada em II.4.23 para garantir a existência de um aberto
Z w de J , com ! − Z w § Z , tal que a restrição s0 ÎZ w seja um difeomorfismo de
Z w sobre s0 ÐZ w Ñ. O conjunto Y œ E  Z w é então um aberto de E, com
! − Y § Q , tal que a restrição de s0 a Y , igual à restrição a Y de 0 , é um
difeomorfismo de Y sobre o conjunto s0 ÐY Ñ œ 0 ÐY Ñ de F . O facto de, para
cada B − Y , a aplicação linear H0B À XB ÐQ Ñ Ä X0 ÐBÑ ÐQ s Ñ ser ainda injectiva
resulta de que se trata de um isomorfismo de XB ÐY Ñ œ XB ÐQ Ñ sobre
X0 ÐBÑ Ð0 ÐY ÑÑÞ …

II.6.26 Sejam Q § I uma variedade, eventualmente com bordo, e 0 À Q Ä I s


uma imersão. Sejam K um espaço vectorial de dimensão finita, G § K um
subconjunto arbitrário e 1À G Ä Q uma aplicação contínua tal que
s seja G : . Tem-se então que a aplicação 1À G Ä Q é G : .
0 ‰ 1À G Ä I
Dem: Repetir a demonstração apresentada no quadro das variedades sem
bordo. …
II.6.27 (Corolário) Sejam Q § I uma variedade, eventualmente com bordo, e
0À Q Ä I s uma imersão, que seja um homeomorfismo de Q sobre 0 ÐQ Ñ.
Tem-se então que 0 é um difeomorfismo de Q sobre 0 ÐQ Ñ, em particular
0 ÐQ Ñ é também uma variedade.
Dem: Repetir a demonstração apresentada no quadro das variedades sem
bordo. …
§6. Variedades com bordo 155

II.6.28 (Fotografia de uma subvariedade) Seja ÐQ s ß B! Ñ uma variedade sem


s
bordo, com dimensão 8, e seja Q § Q , tal que B! − Q e que ÐQ ß B! Ñ seja
uma variedade, com dimensão 7 e índice :. Existem então espaços
vectoriais J e K , com dimensões 7 e 8  7, um sector E de índice : de J ,
conjuntos abertos Y s de Q
s , com B! − Y
s , Z de J , com ! − Z , e [ de K ,
com ! − [ , e um difeomorfismo <À Z ‚ [ Ä Y s , tal que <Ð!ß !Ñ œ B! e
que
s Ñ œ ÖÐCß DÑ − Z ‚ [ ± C − E e D œ !×.
<" ÐQ  Y

Dem:46 Para uma melhor sistematização, vamos dividir a demonstração em


várias alíneas.
a) Usando um difeomorfismo local de ÐQ s ß B! Ñ sobre ÐJs ß !Ñ, em que J s é um
espaço vectorial de dimensão 8, verificamos facilmente que basta demonstrar
o resultado no caso particular em que B! œ ! e Q s é um aberto dum espaço
s
vectorial J de dimensão 8. É esse caso particular que vamos demonstrar em
seguida.
b) Sejam J um espaço vectorial de dimensão 7, E § J um sector de índice
ww
: e :À Z˜ Ä Y w um difeomorfismo local de ÐEß !Ñ sobre ÐQ ß !Ñ.
ww ww
c) Uma vez que Z˜ é aberto em E, podemos escrever Z˜ œ E  Z ww , com
ww
Z ww aberto em J . O facto de E ser fechado em J implica que Z˜ é fechado
em Z ww pelo que, por II.3.12, podemos garantir a existência de uma aplicação
suave :À Z ww Ä J s , prolongando :.
d) H:! é um isomorfismo de J œ X! ÐEÑ sobre X! ÐQ Ñ, sendo portanto uma
aplicação linear injectiva de J em J s . Uma vez que H:! é um
prolongamento de H:! , com o mesmo domínio J , segue-se que
H:! œ H:! e portanto H:! é uma aplicação linear injectiva de J em J s.
e) Pelo teorema da derivada injectiva, podemos considerar um espaço
vectorial K de dimensão 8  7, um aberto Z w de J , com ! − Z w § Z ww , um
aberto [ w de K , com ! − [ w , um aberto Y s w de Js , com ! − Y s w , e um difeo-
morfismo <w À Z w ‚ [ w Ä Y s w , tal que, para cada C − Z w , <w ÐCß !Ñ œ :ÐCÑ, em
particular, < Ð!ß !Ñ œ !.
w
ww
f) Uma vez que E  Z w é um aberto de E contido em E  Z ww œ Z˜ e que
ww
:À Z˜ Ä Y w é um homeomorfismo, concluímos que o conjunto
:ÐE  Z w Ñ œ :ÐE  Z w Ñ é um aberto de Y w , portanto também de Q ,
w
contendo ! œ :Ð!Ñ, pelo que vai existir um aberto Y˜ de Q s , com ! − Y˜ w , tal
que
w
:ÐE  Z w Ñ œ Q  Y˜ .

46Repararque este resultado é uma generalização de II.4.27, mas a sua demonstração,


embora seguindo as mesmas ideias que a daquele resultado, é tecnicamente um pouco
mais complicada.
156 Cap. II. Vectores Tangentes e Variedades

g) Pela continuidade de <w em Ð!ß !Ñ, existe um aberto Z de J , com


! − Z § Z w , e um aberto [ de K , com ! − [ § [ w , de modo que, sendo
s œ <w ÐZ ‚ [ Ñ, que é um aberto de J
Y s , contendo ! œ <w Ð!ß !Ñ, se tenha
w
s ˜ s s
Y § Y , em particular, Y § Q . Vamos ver que a restrição <À Z ‚ [ Ä Y s
de < verifica as condições do enunciado.
w

h) Se ÐCß DÑ − Z ‚ [ verifica C − E e D œ !, vem


s,
<ÐCß DÑ œ <w ÐCß !Ñ œ :ÐCÑ œ :ÐCÑ − Q  Y
s Ñ.
e portanto ÐCß DÑ − <" ÐQ  Y
s Ñ. Tem-se
i) Suponhamos agora que ÐCß DÑ − Z ‚ [ pertence a <" ÐQ  Y
portanto
w
s § Q  Y˜ œ :ÐE  Z w Ñ,
<ÐCß DÑ − Q  Y
pelo que existe Cw − E  Z w tal que
<w ÐCß DÑ œ <ÐCß DÑ œ :ÐC w Ñ œ <w ÐC w ß !Ñ,
o que, tendo em conta o facto de <w ser injectiva, implica que C œ C w e D œ !,
em particular, C − E. …
II.6.29 (Construção de variedades como imagens recíprocas) Sejam ÐQ ß B! Ñ
e ÐQs ß C! Ñ variedades sem bordo, com dimensões 7 e 8, respectivamente, e
0À Q Ä Q s uma submersão no ponto B! , tal que 0 ÐB! Ñ œ C! . Seja
w
C! − Q s §Q s w ß C! Ñ seja uma variedade com dimensão 8w e
s , tal que ÐQ
índice :. Sendo então
s w Ñ œ ÖB − Q ± 0 ÐBÑ − Q
Q w œ 0 " ÐQ s w ×,

tem-se que ÐQ w ß B! Ñ é uma variedade com dimensão 7  Ð8  8w Ñ e índice :


e

XB! ÐQ w Ñ œ Ö? − XB! ÐQ Ñ ± H0B! Ð?Ñ − XC! ÐQ s w Ñ×,


s w Ñ×.
tB! ÐQ w Ñ œ Ö? − XB! ÐQ Ñ ± H0B! Ð?Ñ − tC! ÐQ

Dem: Basta repetir a demonstração de II.4.32, resultado do qual este é uma


generalização, reparando que a afirmação sobre o cone tangente se demonstra
do mesmo modo que aquela sobre os espaços vectoriais tangentes. …
II.6.30 (Exemplo) Sejam I um espaço euclidiano de dimensão 8   ", B! − I ,
<  ! e F < ÐB! Ñ § I a bola fechada de centro B! e raio < de I ,
F < ÐB! Ñ œ ÖB − I ± mB  B! m Ÿ <× œ ÖB − I ± <#  ØB  B! ß B  B! Ù   !×.
Consideremos a aplicação suave 0 À I Ä ‘, definida por
0 ÐBÑ œ <#  ØB  B! ß B  B! Ù,
§6. Variedades com bordo 157

e reparemos que H0B Ð?Ñ œ #ØB  B! ß ?Ù, pelo que a aplicação linear
H0B À I Ä ‘ é sobrejectiva, excepto para B œ B! . Uma vez que I e ‘ são
variedades sem bordo com dimensões 8 e ", respectivamente, e que se tem
F < ÐB! Ñ œ 0 " Б Ñ, onde ‘ œ Ò!ß _Ò é uma variedade com dimensão ",
tendo índice " no ponto ! e índice ! nos restantes pontos, concluímos que
F < ÐB! Ñ é uma variedade, com a possível excepção do ponto B! , tendo
dimensão 8 em todos os pontos, índice ! nos pontos da bola aberta
F< ÐB! Ñ œ ÖB − I ± mB  B! m  <× e índice " nos pontos da esfera W< ÐB! Ñ œ
ÖB − I ± mB  B! m œ <×. O resultado precedente não nos permite tirar direc-
tamente nenhuma conclusão sobre o que se passa no ponto B! − F < ÐB! Ñ, mas
vemos que, de facto, ele não é uma excepção, visto que, sendo um ponto
interior a F < ÐB! Ñ, este conjunto é naquele ponto uma variedade de dimensão
8 e índice ! (aliás, este mesmo raciocínio serviria também para mostrar que
F < ÐB! Ñ é uma variedade de dimensão 8 e índice ! em qualquer ponto da bola
aberta F< ÐB! Ñ).
Em conclusão F < ÐB! Ñ é uma variedade sem cantos com dimensão 8, tendo-se
`! ÐF < ÐB! ÑÑ œ F< ÐB! Ñ e `" ÐF < ÐB! ÑÑ œ W< ÐB! Ñ. É claro que, para cada
B − F < ÐB! Ñ, XB ÐF < ÐB! ÑÑ œ I (sendo um espaço vectorial de dimensão 8 não
pode ser outra coisa…) e, quanto ao cone tangente, tem-se tB ÐF < ÐB! ÑÑ œ I ,
para cada B − F< ÐB! Ñ (pontos onde o índice é !), e, aplicando mais uma vez
o resultado precedente, vemos que, para cada B − W< ÐB! Ñ,
tB ÐF < ÐB! ÑÑ œ Ö? − I ± H0B Ð?Ñ   !× œ Ö? − I ± ØB  B! ß ?Ù Ÿ !×
(o conjunto dos vectores que fazem um ângulo recto ou obtuso com o raio
B  B! ).
II.6.31 Um caso particular de II.6.29, que se encontra frequentemente na prática,
é aquele em que Q s œ ‘8 ‚ ‘: , C! œ Ð!ß !Ñ e Q s w œ Ö!×8 ‚ ‘: , que é, no
ponto Ð!ß !Ñ, uma variedade com dimensão : e índice :. Sendo ÐQ ß B! Ñ uma
variedade sem bordo com dimensão 7 e 0 À Q Ä ‘8 ‚ ‘: uma aplicação
suave, podemos escrever
0 ÐBÑ œ Ð1" ÐBÑß á ß 18 ÐBÑß 2" ÐBÑß á ß 2: ÐBÑÑ

e a condição de H0B! À XB! ÐQ Ñ Ä ‘8 ‚ ‘: ser uma aplicação linear sobrejec-


tiva é equivalente, tal como vimos no lema de Álgebra Linear II.4.35, ao
facto de as derivadas H13 B! e H24 B! , das aplicações suaves componentes
13 ß 24 À Q Ä ‘, serem linearmente independentes em PÐXB! ÐQ Ñà ‘Ñ. Se essa
condição se verificar e se se tiver 0 ÐB! Ñ œ Ð!ß !Ñ, ou seja 13 ÐB! Ñ œ ! œ
24 ÐB! Ñ, podemos concluir que
Q w œ ÖB − Q ± a 13 ÐBÑ œ !, a 24 ÐBÑ   !×
3 4

é no ponto B! uma variedade com dimensão 7  8 e índice : e que


158 Cap. II. Vectores Tangentes e Variedades

XB! ÐQ w Ñ œ Ö? − XB! ÐQ Ñ ± a H13 B! Ð?Ñ œ !×,


3
tB! ÐQ w Ñ œ Ö? − XB! ÐQ Ñ ± a H13 B! Ð?Ñ œ !, a H24 B! Ð?Ñ   !×.
3 4

Repare-se que Q w pode ser olhado como o conjunto dos elementos de Q que
verificam um sistema de 8 equações e : inequações e que o número de
equações é igual à codimensão de Q w em B! e o número de inequações é
igual ao respectivo índice.
II.6.32 Vamos olhar de novo, com um pouco mais de atenção, para a situação
que acabamos de descrever.
Suponhamos que temos uma variedade sem bordo Q , com dimensão 7, e
8  : aplicações suaves 1" ß á ß 18 ß 2" ß á ß 2: À Q Ä ‘ e que consideramos o
subconjunto Q w de Q , definido por 8 equações e : inequações,
Q w œ ÖB − Q ± a 13 ÐBÑ œ !, a 24 ÐBÑ   !×.
3 4

As considerações anteriores apenas nos permitem estudar o que se passa com


Q w nos seus elementos B! , para os quais se tenha 24 ÐB! Ñ œ !, para cada 4,
isto é, para os quais todas as inequações sejam realizadas como igualdades,
supondo evidentemente que nesses elementos B! se verifica a hipótese
fundamental de serem linearmente independentes as aplicações lineares
H13 B! e H24 B! .
Poderíamos assim ficar com a impressão que os métodos ao nosso dispôr não
nos permitiam estudar o que se passa com Q w nos pontos B! para os quais,
para alguns valores de 4, 24 ÐB! Ñ  !. Há, no entanto, uma maneira muito
simples de tornear esta dificuldade: Suponhamos, com efeito, que N é o
conjunto dos índices 4 − Ö"ß á ß :× tais que 24 ÐB! Ñ  !. Podemos então
considerar um novo conjunto Q ww definido por todas as equações mas apenas
pelas inequações correspondentes aos restantes índices 4,
Q ww œ ÖB − Q ± a 13 ÐBÑ œ !, a 24 ÐBÑ   !×,
3 4ÂN

conjunto que já pode ser estudado no ponto B! pelos métodos anteriores.


Uma vez que Q w e Q ww coincidem na vizinhança de B! , visto que ambos têm
a mesma intersecção com o aberto de Q
Y œ ÖB − Q ± a 24 ÐBÑ  !×
4−N

(e portanto com um aberto do espaço vectorial ambiente que intersectado


com Q seja igual a Y ), as conclusões sobre o estudo de Q ww em B!
estendem-se imediatamente ao de Q w nesse ponto.

Tal como acontecia na secção precedente, no quadro das variedades sem


bordo, também aqui se pode enunciar uma versão mais forte de II.6.29,
s Ñ ser
em que a hipótese de a aplicação linear H0B! À XB! ÐQ Ñ Ä XC! ÐQ
§6. Variedades com bordo 159

sobrejectiva é substituída por uma hipótese, em geral mais fraca, a condi-


ção de transversalidade. Começamos por estabelecer um lema, que vai
jogar o papel paralelo ao de II.4.36.

s ß C! Ñ uma variedade sem bordo com dimensão 8 e seja


II.6.33 (Lema) Seja ÐQ
w
s s
C! − Q § Q tal que ÐQ s w ß C! Ñ seja uma variedade com dimensão 8w e índice
:. Existe então um aberto Y s de Q s , com C! − Ys , e uma submersão
s Ä ‘88w ‚ ‘: , tal que 1ÐC! Ñ œ Ð!ß !Ñ e se tenha
1À Y
sw  Y
Q s ± 1ÐCÑ − Ö!×88w ‚ ‘: ×.
s œ ÖC − Y

Por outras palavras, toda a variedade pode ser definida localmente por um
sistema de equações e de inequações, verificando a hipótese de independên-
cia referida em II.6.32.
Dem: Este lema vai ser uma consequência do resultado sobre fotografia de
uma subvariedade referido em II.6.31. Esse resultado permite-nos considerar
espaços vectoriais J e K , com dimensões 8w e 8  8w , um sector E de índice
: de J , conjuntos abertos Ys de Q
s , com C! − Y
s , Z de J , com ! − Z , e [
de K, com ! − [ , e um difeomorfismo <À Z ‚ [ Ä Y s , tal que
<Ð!ß !Ñ œ C! e que
w
s Y
<" ÐQ s Ñ œ ÖÐC w ß DÑ − Z ‚ [ ± C w − E, D œ !×.
w
Considerando um isomorfismo de ‘8 sobre J , que aplique o sector canónico
w w
‘8: sobre E, e um isomorfismo de ‘88 sobre K, vemos que, se necessário
compondo < com a restrição do produto cartesiano destes isomorfismos,
pode-se já supor que J œ ‘8 , E œ ‘8: œ ‘8 : ‚ ‘: e K œ ‘88 . Toma-
w w w w

mos agora para 1À Ys Ä ‘88w ‚ ‘: a composta de <" À Ys Ä ‘8w ‚ ‘88w


w w w
com a aplicação linear sobrejectiva de ‘8 ‚ ‘88 sobre ‘88 ‚ ‘: , defi-
nida por
Ð+" ß á ß +8w ß ," ß á ß ,88w Ñ È Ð," ß á ß ,88w ß +8w :" ß á ß +8w Ñ. …

II.6.34 (Segunda versão da construção de variedades como imagens recípro-


s ß C! Ñ variedades sem bordo, com dimensões 7 e 8,
cas) Sejam ÐQ ß B! Ñ e ÐQ
respectivamente, e 0 À Q Ä Q s uma aplicação suave tal que 0 ÐB! Ñ œ C! . Seja
w w
C! − Q s §Q s tal que ÐQs ß C! Ñ seja uma variedade com dimensão 8w e índice
:, e suponhamos verificada a seguinte condição de transversalidade47:
s w ÑÑ œ XC! ÐQ
H0B! ÐXB! ÐQ ÑÑ  XC! Ð`: ÐQ s Ñ.

47É claro que esta condição se encontra automaticamente verificada no caso em que a
s w ß C! Ñ não
s Ñ é sobrejectiva. No caso em que ÐQ
aplicação linear H0B! À XB! ÐQ Ñ Ä XC! ÐQ
tem bordo, reencontramos a condição em II.4.37.
160 Cap. II. Vectores Tangentes e Variedades

Sendo então
w w
s Ñ œ ÖB − Q ± 0 ÐBÑ − Q
Q w œ 0 " ÐQ s ×,

tem-se que ÐQ w ß B! Ñ é uma variedade com dimensão 7  Ð8  8w Ñ e índice :


e

XB! ÐQ w Ñ œ Ö? − XB! ÐQ Ñ ± H0B! Ð?Ñ − XC! ÐQ s w Ñ×,


s w Ñ×.
tB! ÐQ w Ñ œ Ö? − XB! ÐQ Ñ ± H0B! Ð?Ñ − tC! ÐQ

Dem: Tendo em conta o lema precedente, podemos considerar um aberto Y s


de Q s , com C! − Y s , e uma submersão 1À Y s Ä ‘88w ‚ ‘: , com
1ÐC! Ñ œ Ð!ß !Ñ, de modo que, para cada C − Y s w se, e só se,
s , se tenha C − Q
1ÐCÑ − Ö!×88 ‚ ‘: . Resulta então de II.6.29 que se tem
w

XC! ÐQs w Ñ œ Ö@ − XC! ÐQs Ñ ± H1C! Ð@Ñ − Ö!×88w ‚ ‘: ×,


s w Ñ œ Ö@ − XC! ÐQ
tC! ÐQ s Ñ ± H1C! Ð@Ñ − Ö!×88w ‚ ‘: ×,

e portanto, tendo em conta II.6.20,


s w ÑÑ œ tC! ÐQ
XC! Ð`: ÐQ s w Ñ  ÐtC! ÐQ
s w ÑÑ œ Ö@ − XC! ÐQ
s Ñ ± H1C! Ð@Ñ œ !×.

Pela continuidade de 0 , podemos considerar um aberto Y de Q , com


s . Seja s0 œ 1 ‰ 0ÎY , que é uma aplicação suave de
B! − Y , tal que 0 ÐY Ñ § Y
88w
Y em ‘ ‚ ‘ , verificando s0 ÐB! Ñ œ Ð!ß !Ñ, e reparemos que, para cada
:

B − Y , tem-se B − Q w se, e só se, s0 ÐBÑ − Ö!×88 ‚ ‘: , por outras palavras,


w

" w w
Q w  Y œ s0 ÐÖ!×88 ‚ ‘: Ñ œ ÖB − Y ± s0 ÐBÑ − Ö!×88 ‚ ‘: ×.

Vamos agora verificar que a condição de transversalidade implica que a


aplicação linear H0 s B À XB! ÐQ Ñ Ä ‘88w ‚ ‘: é sobrejectiva. Ora, dado
!
w
A − ‘88 ‚ ‘: arbitrário, podemos escolher @w − XC! ÐQ s Ñ tal que
H1C! Ð@ Ñ œ A e a condição de transversalidade implica a existência de
w

? − XB! ÐQ Ñ e de @ww − XC! Ð`: ÐQ s w ÑÑ tais que @w œ H0B! Ð?Ñ  @ww , tendo-se
então H1C! Ð@ww Ñ œ !, pelo que
s B Ð?Ñ.
A œ H1C! Ð@w Ñ œ H1C! ‰ H0B! Ð?Ñ  H1C! Ð@ww Ñ œ H0 !

Podemos agora aplicar II.6.29, para garantir que Q w  Y , e portanto Q w , é,


no ponto B! , uma variedade com dimensão 7  Ð8  8w Ñ e índice : , que
XB! ÐQ w Ñ é o conjunto dos ? − XB! ÐQ Ñ tais que
s B Ð?Ñ − Ö!×88w ‚ ‘: ,
H1C! ÐH0B! Ð?ÑÑ œ H0 !

s w Ñ, e que tB! ÐQ w Ñ é o conjunto dos


isto é, tais que H0B! Ð?Ñ − XC! ÐQ
? − XB! ÐQ Ñ tais que
§6. Variedades com bordo 161

w
s B Ð?Ñ − Ö!×88 ‚ ‘: ,
H1C! ÐH0B! Ð?ÑÑ œ H0 !

w
s Ñ.
isto é, tais que H0B! Ð?Ñ − tC! ÐQ …
II.6.35 (Versão mais geral da construção de variedades como imagens recí-
procas) Sejam ÐQ ß B! Ñ uma variedade de dimensão 7 e índice :, ÐQ s ß C! Ñ
uma variedade sem bordo com dimensão 8 e 0 À Q Ä Q s uma aplicação
w
s s
suave tal que 0 ÐB! Ñ œ C! . Seja C! − Q § Q tal que ÐQs w ß C! Ñ seja uma
variedade com dimensão 8w e índice :w e suponhamos que
s w ÑÑ œ XC! ÐQ
H0B! ÐXB! Ð`: ÐQ ÑÑÑ  XC! Ð`:w ÐQ sÑ

(condição de transversalidade48). Sendo então


w w
s Ñ œ ÖB − Q ± 0 ÐBÑ − Q
Q w œ 0 " ÐQ s ×,

ÐQ w ß B! Ñ é uma variedade de dimensão 7  Ð8  8w Ñ e índice :  :w e

XB! ÐQ w Ñ œ Ò? − XB! ÐQ Ñ ± H0B! Ð?Ñ − XC! ÐQ s w Ñ×,


s w Ñ×Þ
tB! ÐQ w Ñ œ Ò? − tB! ÐQ Ñ ± H0B! Ð?Ñ − tC! ÐQ

Dem: Para uma melhor sistematização, dividimos a demonstração em várias


alíneas:
a) Seja I o espaço vectorial ambiente da variedade ÐQ ß B! Ñ e notemos 5 a
respectiva dimensão. Tendo em conta o lema II.6.33, podemos considerar um
aberto Y de I , com B! − Y , e uma submersão 1À Y Ä ‘57 ‚ ‘: , tal que
1ÐB! Ñ œ Ð!ß !Ñ e se tenha
(*) Q  Y œ ÖB − Y ± 1ÐBÑ − Ö!×57 ‚ ‘: ×.

Tendo em conta II.6.29, tem-se


XB! ÐQ Ñ œ Ö? − I ± H1B! Ð?Ñ − Ö!×57 ‚ ‘: ×,
tB! ÐQ Ñ œ Ö? − I ± H1B! Ð?Ñ − Ö!×57 ‚ ‘: ×,

e portanto também
XB! Ð`: ÐQ ÑÑ œ tB! ÐQ Ñ  ÐtB! ÐQ ÑÑ œ
œ Ö? − I ± H1B! Ð?Ñ œ !×.

b) Mostremos agora que, se necessário substituindo Y por um aberto mais


pequeno e 1 pela sua restrição, pode-se já supor que existe uma aplicação

48A novidade em relação à versão precedente está em que permitimos que a variedade
ÐQ ß B! Ñ tenha bordo. No entanto, a variedade de chegada ÐQ s ß C! Ñ continua a não ter
bordo. No caso em que a variedade de partida ÐQ ß B! Ñ também não tem bordo,
reencontramos a condição de transversalidade na versão precedente.
162 Cap. II. Vectores Tangentes e Variedades

suave s0 À Y Ä Q s , constituindo um prolongamento da restrição de 0 a


Q  Y.
Para isso, basta considerar um difeomorfismo local <À Y s ÄZ s de ÐQs ß C! Ñ
s
sobre Б ß !Ñ, reduzir Y de modo que 0 ÐQ  Y Ñ § Y , reparar que, por (*),
8

Q  Y é fechado em Y pelo que, por II.3.12, < ‰ 0ÎQ Y admite um


prolongamento suave a Y , prolongamento que, se necessário reduzindo de
s , bastando por fim tomar para s0
novo Y , se pode já supor tomar valores em Z
a composição deste prolongamento com <" .
c) Seja 2À Y Ä Q s ‚ Б57 ‚ ‘: Ñ a aplicação suave definida por
s ÐBÑß 1ÐBÑÑ.
2ÐBÑ œ Ð0
Tem-se 2ÐB! Ñ œ ÐC! ß !Ñ e vamos mostrar que 2 verifica, no ponto B! , a
condição de transversalidade descrita no resultado precedente, relativamente
ao conjunto Q s w ‚ ÐÖ!×57 ‚ ‘: Ñ, que é, no ponto ÐC! ß !Ñ, uma variedade
com dimensão 8w  : e índice :  :w (reparar que Y é, em B! , uma variedade
sem bordo com dimensão 5 e que Q s ‚ Б57 ‚ ‘: Ñ é, em ÐC! ß !Ñ, uma
variedade sem bordo com dimensão 8  Ð5  7Ñ  :).
s Ñ ‚ Б57 ‚ ‘: ) arbitrário. O facto de H1B! ser
Seja então Ð@ß AÑ − XC! ÐQ
uma aplicação linear sobrejectiva implica a existência de ? − I tal que
H1B! Ð?Ñ œ A. Tem-se então @  H0 s B Ð?Ñ − XC! ÐQs Ñ, pelo que, pela
!
condição de transversalidade do enunciado, vai existir ?w − XB! Ð`: ÐQ ÑÑ e
w w w
s ÑÑ œ tC! ÐQ
@w − XC! Ð`:w ÐQ s Ñ  Ð>C! ÐQ
s ÑÑ

tais que
s B Ð?Ñ.
H0B! Ð?w Ñ  @w œ @  H0 !

O que vimos em a) mostra-nos que H1B! Ð?w Ñ œ ! pelo que, sendo


?ww œ ?  ?w , tem-se ainda H1B! Ð?ww Ñ œ A e, pela última fórmula destacada,
@ œ H0s B Ð?ww Ñ  @w . Podemos assim escrever
!

s B Ð?ww Ñß H1B! Ð?ww ÑÑ  Ð@w ß !Ñ œ H2B! Ð?ww Ñ  Ð@w ß !Ñ,


Ð@ß AÑ œ ÐH0 !

onde Ð@w ß !Ñ pertence a


w w
s ‚ ÐÖ!×57 ‚ ‘: ÑÑ  ÐtÐC! ß!Ñ ÐQ
tÐC! ß!Ñ ÐQ s ‚ ÐÖ!×57 ‚ ‘: ÑÑÑ

portanto
s w ‚ ÐÖ!×57 ‚ ‘: ÑÑÑ,
Ð@w ß !Ñ − XÐC! ß!Ñ Ð`::w ÐQ

o que prova a condição de transversalidade pretendida.


d) Para cada B − Y , tem-se B − Q w se, e só se, B − Q e 0 ÐBÑ − Qs w ou seja
w
se, e só se, 1ÐBÑ − Ö!×57 ‚ ‘: e s0 ÐBÑ − Q s , portanto se, e só se,
§6. Variedades com bordo 163

2ÐBÑ − Qs w ‚ ÐÖ!×57 ‚ ‘: Ñ. Aplicando o resultado precedente, concluí-


mos agora que Q w  Y , e portanto Q w , é, no ponto B! , uma variedade com
dimensão
5  Ð8  Ð5  7Ñ  :  Ð8w  :ÑÑ œ 7  Ð8  8w Ñ
e índice :  :w e que um vector ? − I está em XB! ÐQ w Ñ se, e só se,
s w ‚ ÐÖ!×57 ‚ ‘: ÑÑ ou seja, se, e só se, se verifica
H2B! Ð?Ñ − XÐC! ß!Ñ ÐQ
H1B! Ð?Ñ − Ö!×57 ‚ ‘: e H0 s w Ñ, o que é ainda equivalente,
s B Ð?Ñ − XC! ÐQ
!
tendo em conta o que vimos em a), às condições ? − XB! ÐQ Ñ e
H0B! Ð?Ñ − XC! ÐQ w Ñ. Do mesmo modo se verifica que um vector ? − I está
s w Ñ.
em tB! ÐQ w Ñ se, e só se, ? − tB! ÐQ Ñ e H0B! Ð?Ñ − tC! ÐQ …
II.6.36 (Corolário) Sejam ÐQ s ß C! Ñ uma variedade sem bordo, com dimensão 8,
e Q e Q dois subconjuntos de Q
w s , contendo C! , tais que ÐQ ß C! Ñ seja uma
variedade com dimensão 7 e índice : e ÐQ w ß C! Ñ seja uma variedade com
dimensão 7w e índice :w . Se se verifica a condição de transversalidade
XC! Ð`p ÐMÑÑ  XC! Ð`pw ÐM w ÑÑ œ XC! ÐM
s Ñ,

Q  Q w é uma variedade em C! com dimensão 7  7w  8 e índice :  :w e


XC! ÐQ  Q w Ñ œ XC! ÐQ Ñ  XC! ÐQ w Ñß
tC! ÐQ  Q w Ñ œ tC! ÐQ Ñ  tC! ÐQ w Ñ.

Dem: Tal como em II.4.38, o caso particular em que ÐQ ß C! Ñ e ÐQ w ß C! Ñ não


s.
têm bordo, basta aplicar o resultado precedente à inclusão +À Q w Ä Q …

§7. Teorema de Sard.

II.7.1 Sejam Q § I e Q s §I s duas variedades sem bordo e 0 À Q Ä Q s uma


aplicação suave. Diz-se que B − Q é um ponto regular de 0 se 0 for uma
submersão no ponto B; caso contrário, diz-se que B é um ponto crítico de 0 .
Diz-se que um ponto C − Q s é um valor regular de 0 se, todos os
B − 0 " ÐÖC×Ñ são pontos regulares; caso contrário, isto é, se existe um ponto
crítico B − 0 " ÐÖC×Ñ, diz-se que C é um valor crítico de 0 .

A importância dos valores regulares é que eles são os pontos C − Q s para


os quais se pode garantir que a imagem recíproca 0 " ÐÖC×Ñ é uma subva-
riedade, eventualmente vazia, de Q . O teorema de Sard, que estudamos
em seguida, vai garantir a existência de muitos valores regulares, provan-
do, mais precisamente, que o conjunto dos valores críticos é pequeno em
Qs , num sentido conveniente. Repare-se que, no caso em que, para cada
B − Q , Q tem em B uma dimensão menor que a de Q s em 0 ÐBÑ, todos os
164 Cap. II. Vectores Tangentes e Variedades

pontos de Q são críticos, pelo que os valores regulares de 0 são


simplesmente aqueles que não pertencem a 0 ÐQ Ñ.
A primeira coisa que temos que fazer é explicar o que entendemos por
“conjunto pequeno” numa variedade. No teorema de Sard, propriamente
dito, isso significa que se trata de um conjunto de medida nula. No
entanto, para evitar utilizar argumentos de Teoria da Medida, preferimos
examinar uma versão mais fraca deste teorema49, mas que é suficiente
para a maioria das suas aplicações, em que a noção de conjunto pequeno é
meramente topológica. Os conjuntos pequenos vão ser os conjuntos
magros que definimos em seguida.

II.7.2 Seja Q um espaço topológico localmente compacto e separado (por


exemplo uma variedade, eventualmente com bordo). Diz-se que um conjunto

subconjuntos fechados de Q com interior vazio tal que E § - G4 .


E § Q é magro se existir uma família finita ou numerável ÐG4 Ñ4−N de

4−N

Nos dois resultados seguintes, cujas demonstrações são triviais, isolamos


algumas propriedades elementares dos conjuntos magros.

II.7.3 Seja Q um espaço topológico localmente compacto e separado. Tem-se


então:
a) Todo o conjunto fechado de interior vazio é magro, em particular g é um
conjunto magro.
b) Se E § Q é magro e F § E, então F é magro.

- E4 é um conjunto magro.
c) Se ÐE4 Ñ4−N é uma família finita ou numerável de conjuntos magros, então

4−N

II.7.4 Sejam Q e Q s espaços topológicos localmente compactos e separados e


s
0 À Q Ä Q um homeomorfismo. Se E § Q , então E é magro em Q se, e
só se, 0 ÐEÑ é magro em Qs.

O que referimos nos dois resultados precedentes mostra que certas


construções que se esperava que conduzissem de conjuntos pequenos a
conjuntos pequenos fazem-no de facto. Para a noção ser verdadeiramente
útil precisamos, no entanto, de algo que garanta que não há demasiados
conjuntos pequenos e é isso que faz o teorema de Baire que examinamos
em seguida.
Repare-se que a definição de conjunto magro e as respectivas proprie-

49Em rigor, não deveríamos dar o nome de “teorema de Sard” à versão que estudaremos,
na medida em que se trata de um resultado estabelecido anteriormente por Brown (ver,
por exemplo, [19] para uma discussão mais detalhada desta questão). Preferimos utilizar o
nome “teorema de Sard” por ser essa a designação pela qual é reconhecido pela comu-
nidade matemática actual um resultado deste tipo.
§7. Teorema de Sard 165

dades elementares podiam ter sido dadas no quadro dos espaços topoló-
gicos arbitrários e que só no teorema de Baire vamos utilizar o facto de
estarmos a trabalhar com espaços localmente compactos e separados.50

II.7.5 (Teorema de Baire) Seja Q um espaço topológico localmente compacto


e separado. Se E § Q é magro então intÐEÑ œ g.

fechados de interior vazio, então - G8 tem interior vazio. Suponhamos que


Dem: Basta mostrarmos que, se ÐG8 Ñ8− é uma família de conjuntos

isso não acontecia, ou seja, que existia B − Q interior a - G8 . Seja então


8 "

O! § - G8 uma vizinhança compacta de B. Vamos construir recursi-


8 "

8 "
vamente compactos O8 , 8   ", de interior não vazio, verificando O8 §
O8"  ÐQ Ï G8 Ñ. Para isso, atendemos a que intÐO8" Ñ é um aberto não
vazio, e portanto não contido em G8 , e daqui deduzimos que o aberto
intÐO8" Ñ  ÐQ Ï G8 Ñ é não vazio, pelo que nos basta tomar para O8 uma
vizinhança compacta de um dos pontos deste aberto que esteja contida nele.
Vemos agora que
, O8 § O!  Ð, Q Ï G8 Ñ œ O!  ÐQ Ï . G8 Ñ œ g,
8 " 8 " 8 "

o que é absurdo, uma vez que se trata da intersecção de uma sucessão decres-
cente de compactos não vazios (os O! Ï O8 são abertos do compacto O! ,
com união O! , pelo que teria de haver uma união finita, igual a um dos
O! Ï O8 , que fosse igual a O! , o que implicava que O8 œ g). …

Repare-se que, apesar de os conjuntos magros terem interior vazio, nem


todos os conjuntos de interior vazio têm que ser magros; por exemplo, em
‘, o conjunto dos racionais, sendo união numerável de conjuntos
unitários, é magro mas o conjunto dos irracionais, apesar de ter interior
vazio, não é magro (senão ‘ seria magro). Há, no entanto, uma classe
importante de conjuntos para os quais ser magro equivale a ter interior
vazio:

II.7.6 Se Q é um espaço topológico localmente compacto e separado, um


conjunto E § Q diz-se 5-compacto se for união de uma família contável de
subconjuntos compactos de Q . Se E § Q é 5 -compacto, então E é um
conjunto magro se, e só se, tem interior vazio.
Dem: Pelo teorema de Baire, já sabemos que, se E é magro, então

50De facto o teorema de Baire também é verificado num enquadramento diferente, muito
importante, por exemplo para as aplicações à Análise Funcional, a saber o dos espaços
métricos completos, mas trata-se de um resultado que não teremos ocasião de aplicar no
nosso estudo.
166 Cap. II. Vectores Tangentes e Variedades

intÐEÑ œ g. Reciprocamente, se E tem interior vazio e é 5 -compacto, então


E é uma união de uma família contável de conjuntos compactos G4 , os quais
vão, em particular, ser conjuntos fechados de interior vazio, o que mostra que
E é magro. …

Para podermos estabelecer mais uma propriedade importante dos conjun-


tos magros, temos necessidade de rever uma noção topológica que utiliza-
remos em várias outras situações.

II.7.7 (Generalidades sobre espaços de base contável) Se E é um espaço


topológico, uma base de abertos de E é um conjunto h de partes abertas de
E, com a propriedade de todo o aberto Y de E ser a união de uma família de
abertos pertencentes a h 51 ou, o que é equivalente, com a propriedade de,
para cada aberto Y de E e cada B − Y , existir Z − h tal que B − Z § Y . O
espaço topológico E diz-se de base contável se admitir uma base de abertos
h finita ou numerável. Como propriedades elementares destas noções, temos:
a) Sejam E um espaço topológico e F § E um subespaço topológico. Se h é
uma base de abertos de E, então a classe dos conjuntos Y  F , com Y − h ,
é uma base de abertos de F . Em particular, se E é de base contável, então F
é também de base contável.
b) Seja h uma base de abertos de E e escolhamos, para cada conjunto não
vazio Y − h , um elemento BYs . O conjunto G , dos elementos BYs assim esco-
lhidos, é então uma parte densa de E. Em particular, todo o espaço topoló-
gico de base contável é separável, isto é, tem uma parte densa finita ou
numerável.
c) Se E é um espaço métrico, então E é de base contável se, e só se, é
separável. Com efeito, dado um subconjunto denso G , finito ou numerável, o
conjunto das bolas abertas de E com centro num ponto de G e raio racional
constitui uma base contável de abertos de E.
d) Se I é um espaço vectorial de dimensão finita 8, então I é de base
contável. Com efeito, I é isomorfo, e portanto homeomorfo, ao espaço
métrico ‘8 , que admite uma parte densa finita ou numerável, constituída
pelos pontos com coordenadas racionais.

As observações anteriores vão permitir tirar algumas conclusões impor-


tantes sobre as variedades.

II.7.8 Sejam I um espaço vectorial de dimensão finita e Q § I uma variedade.


Tem-se então:
a) Q é um espaço topológico de base contável.
b) O conjunto das componentes conexas de Q é finito ou numerável.
c) Se Q tem dimensão !, então as componentes conexas de Q são os

51Olhamos para o conjunto vazio como sendo a união da família vazia de subconjuntos.
§7. Teorema de Sard 167

subconjuntos unitários e portanto Q é finito ou numerável.


Dem: A alínea a) resulta de Q ser um subespaço topológico de um espaço
vectorial de dimensão finita, o qual é de base contável. Quanto a b), sendo h
uma base finita ou numerável de abertos de Q , o facto de as componentes
conexas de Q serem abertos de Q (cf. II.6.21) disjuntos dois a dois e não
vazios implica a existência de uma aplicação injectiva do conjunto das
componentes conexas em h , que a cada componente conexa associa um
aberto não vazio escolhido em h que esteja contido nela. No caso em que Q
tem dimensão !, a topologia de Q é a topologia discreta, o que implica que
as suas componentes conexas são os conjuntos unitários, uma vez que só
estes podem ser conexos não vazios (qualquer subconjunto de Q é simulta-
neamente aberto e fechado em Q ). …
II.7.9 (Lema) Seja Q um espaço topológico localmente compacto, separado e

compactos de Q , ÐO8 Ñ8 " tal que O8 § intÐO8" Ñ e que Q œ - O8 . Em


de base contável, por exemplo uma variedade. Existe então uma sucessão de

8 "
particular Q é 5-compacto.
Dem: Seja h uma base contável de abertos de Q e notemos ÐY8 Ñ8 " uma
sucessão cujo conjunto de termos seja o dos abertos pertencentes a h cuja

por juntar o conjunto vazio g a h ). Tem-se ainda Q œ - Y8 , visto que, para


aderência seja compacta (no caso trivial Q œ g pode ser necessário começar

8 "
cada B − Q , vai existir uma vizinhança compacta Z de B e podemos então
escolher Y − h com B − Y § intÐZ Ñ, donde adÐY Ñ § Z , e portanto adÐY Ñ é
compacto. Construamos agora recursivamente uma sucessão estritamente
crescente Ð58 Ñ8 " de números naturais, do seguinte modo: 5" œ "; supondo
construído 58 , e notando O8 o compacto de Q

O8 œ . adÐY3 Ñ,
58

3œ"

o facto de a família de todos os Y3 ser uma cobertura aberta do compacto O8


permite-nos escolher 58"  58 tal que

O8 § . Y 3 .
58"

3œ"

É agora imediato que os compactos O8 , definidos pela fórmula acima, veri-


ficam as condições pedidas. …
II.7.10 Seja Q um espaço topológico localmente compacto, separado e de base
contável, por exemplo uma variedade. Seja Y § Q um aberto. Se E § Y ,
então E é magro relativamente a Y se, e só se, é magro relativamente a Q .
Dem: Se E é magro em Q , então E está contido numa união contável de
conjuntos G4 , fechados em Q e de interior vazio, e então E também está
contido na união dos conjuntos G4  Y , fechados em Y e de interior vazio, o
168 Cap. II. Vectores Tangentes e Variedades

que mostra que E é magro em Y . Suponhamos, reciprocamente, que E é


magro em Y . O conjunto E está assim contido numa família contável de
conjuntos G4 fechados em Y e de interior vazio. Uma vez que Y também é
localmente compacto, separado e de base contável, o lema anterior garante
que Y é união de uma família de compactos ÐO8 Ñ8 " e então os G4  O8
constituem uma família contável de conjuntos de interior vazio, cuja união
contém E, conjuntos esses que são fechados nos O8 , logo compactos e
portanto fechados em Q , o que mostra que E é magro em Q . …

O lema seguinte é o único resultado com algum sabor de Teoria da


Medida de que vamos necessitar.

4 − N , +4 Ÿ ,4 em ‘ e suponhamos que se tem Ò+ß ,Ó § - Ò+4 ß ,4 Ó. Tem-se


II.7.11 (Lema) Sejam + Ÿ , em ‘, N um conjunto finito de índices, e, para cada

então ,  + Ÿ ! Ð,4  +4 Ñ.
4−N

4−N
Dem: Vamos fazer a demonstração por indução no número de índices em N .
No caso em que N œ Ö4× tem um único elemento, o facto de se ter
+ß , − Ò+4 ß ,4 Ó implica que +4 Ÿ + e , Ÿ ,4 , donde ,  + Ÿ ,4  +4 e temos o
resultado. Suponhamos o resultado válido quando N tem 8 elementos e
vejamos o que sucede quando N tem 8  " elementos. Seja 4! − N tal que
+ − Ò+4! ß ,4! Ó, portanto +4! Ÿ + Ÿ ,4! . Podemos já supor que se tem ,  ,4! ,
sem o que Ò+ß ,Ó estava contido em Ò+4! ß ,4! Ó e tínhamos uma consequência

Ó,4! ß ,Ó § - Ò+4 ß ,4 Ó, donde Ò,4! ß ,Ó § - Ò+4 ß ,4 Ó, uma vez que o conjunto do


trivial do caso já estudado em que N tem um único elemento. Tem-se então

4Á4! 4Á4!

,  ,4! Ÿ ! ,4  +4 , e portanto
segundo membro é fechado. Pela hipótese de indução, concluímos que

4Á4!

,  + œ ,4!  +  ,  ,4! Ÿ ,4!  +4!  " ,4  +4 œ " ,4  +4 . …


4Á4! 4−N

No teorema de Sard, o conjunto que queremos garantir ser magro é a


imagem de outro conjunto por uma aplicação contínua. Na sua demons-
tração utilizaremos mais que uma vez o lema seguinte:

II.7.12 (Lema) Sejam Q e Q s dois espaços topológicos localmente compactos,


separados e de base contável, por exemplo duas variedades, e 0 À Q Ä Q s
uma aplicação contínua. Seja E § Q um conjunto tal que, para cada B − E,
exista um aberto Z de Q , com B − Z , tal que 0 ÐE  Z Ñ seja magro. Tem-se
então que 0 ÐEÑ é magro.
Dem: Seja h uma base contável de abertos de Q . A hipótese do enunciado e
§7. Teorema de Sard 169

o facto de toda o subconjunto de um conjunto magro ser ainda magro


permite-nos garantir que, para cada B − E, existe Y − h tal que B − Y e que
0 ÐE  Y Ñ seja magro. Sendo h w § h o conjunto contável constituído pelos
abertos Y − h com esta propriedade, vemos que 0 ÐEÑ vai ser a união
contável dos conjuntos magros 0 ÐE  Y Ñ, com Y − h w , sendo assim também
magro. …

Vamos agora provar um lema que tem já o espírito do teorema de Sard


mas em que o conjunto que se garante ser “pequeno” é apenas uma parte
do conjunto dos valores críticos, parte essa que faz intervir derivadas de
ordem superior.

II.7.13 (Lema) Sejam Y § ‘7 um aberto e 0 À Y Ä ‘ uma aplicação suave e


notemos, para cada :   ", G: Ð0 Ñ o subconjunto fechado de Y constituído
pelos pontos B tais que, para todo o " Ÿ 4 Ÿ :, a derivada de ordem 4,
H4 0B − P4 Б7 à ‘Ñ é nula. Tem-se então que o subconjunto 0 ÐG7 Ð0 ÑÑ de ‘
é magro.
Dem: Fixemos em ‘7 a norma do máximo e recordemos que, dado um
ponto B œ ÐB" ß á ß B7 Ñ − ‘7 e <  !, a bola fechada F < ÐBÑ é o produto de
intervalos
F < ÐBÑ œ ÒB"  <ß B"  <Ó ‚ ÒB#  <ß B#  <Ó ‚ â ‚ ÒB7  <ß B7  <Ó.
Vamos dividir a demonstração em duas partes:
a) Comecemos por mostrar que, dados B − Y e <  ! tais que F < ÐBÑ § Y ,
existe, para cada :   ", uma constante -:   ! tal que, quaisquer que sejam
C − F < ÐBÑ  G: Ð0 Ñ e D − F < ÐBÑ, se tenha
(1) l0 ÐDÑ  0 ÐCÑl Ÿ -: mD  Cm:" .

Isto pode ser visto facilmente a partir da Fórmula de Taylor mas, para não
ultrapassarmos a “revisão do Cálculo Diferencial” que apresentámos no iní-
cio, podemos apresentar um argumento directo alternativo, por indução em : ,
para o que convém generalizar o que se pretende provar, permitindo que o
espaço de chegada seja um espaço vectorial normado J , de dimensão finita,
substituindo em (1) o valor absoluto em ‘ pela norma em J e reparando que
a definição de G: Ð0 Ñ se estende trivialmente a este quadro mais geral. No
caso em que : œ ", a fórmula (1) resulta de aplicarmos duas vezes a segunda
versão da fórmula da média, desde que se tome para -" o máximo sobre o
compacto F < ÐBÑ da aplicação contínua que a A associa mHÐH0 ÑA m. Com
efeito, uma primeira aplicação garante que, para cada A no segmento de
extremidades C e D ,
mH0A m œ mH0A  H0C m Ÿ -" mA  Cm Ÿ -" mD  Cm

e uma segunda aplicação garante então que m0 ÐDÑ  0 ÐCÑm Ÿ -" mD  Cm# .
170 Cap. II. Vectores Tangentes e Variedades

Por fim, supondo o resultado verdadeiro para um certo :   ", vemos que,
sendo -:" a constante -: , correspondente à aplicação suave
H0 À Y Ä PБ7 à J Ñ, tem-se, para cada
C − F < ÐBÑ  G:" Ð0 Ñ § F < ÐBÑ  G: ÐH0 Ñ

e D − F < ÐBÑ e cada A no segmento de extremidades C e D ,


mH0A m œ mH0A  H0C m Ÿ -:" mA  Cm:" Ÿ -:" mD  Cm:" ,

donde m0 ÐDÑ  0 ÐCÑm Ÿ -:" mD  Cm:# .


b) Passemos agora à demonstração da afirmação no enunciado. Seja
B − G7 Ð0 Ñ arbitrário e fixemos <  ! tal que F < ÐBÑ § Y . Tendo em conta o
lema II.7.12, o resultado estará demonstrado se verificarmos que o
subconjunto compacto 0 ÐG7 Ð0 Ñ  F < ÐBÑÑ de ‘ tem interior vazio, e
portanto é magro, visto que ele contém 0 ÐG7 Ð0 Ñ  F< ÐBÑÑ. Suponhamos que
isso não acontecia e tentemos chegar a um absurdo. Sejam então + − ‘ e
$  ! tais que Ò+  $ ß +  $ Ó § 0 ÐG7 Ð0 Ñ  F < ÐBÑÑ. Pelo que vimos atrás,
podemos considerar uma constante -7   ! tal que, sempre que
C − G7 Ð0 Ñ  F < ÐBÑ e D − F < ÐBÑ,
l0 ÐDÑ  0 ÐCÑl Ÿ -7 mD  Cm7" .
Seja R   " um inteiro a concretizar posteriormente e reparemos que o com-
pacto F < ÐBÑ se pode escrever como união dos R 7 conjuntos F <ÎR ÐB! Ñ, com
B! da forma
Ð#5"  "Ñ< Ð#5#  "Ñ< Ð#57  "Ñ<
ÐB"  <  ß B#  <  ß á ß B7  <  Ñ,
R R R
com " Ÿ 54 Ÿ R (olhar para cada uma destas bolas na forma de um produto
de intervalos). Se ! for um índice tal que em F <ÎR ÐB! Ñ exista um ponto C!
em G7 Ð0 Ñ, tem-se então, para cada D − F <ÎR ÐB! Ñ,
#< 7"
l0 ÐDÑ  0 ÐC! Ñl Ÿ -7 mD  C! m7" Ÿ -7 Ð Ñ ,
R
o que mostra que
#< 7" #<
0 ÐF <ÎR ÐB! ÑÑ § Ò0 ÐC! Ñ  -7 Ð Ñ ß 0 ÐC! Ñ  -7 Ð Ñ7" Ó.
R R
Concluímos daqui que
Ò+  $ ß +  $ Ó § 0 ÐG7 Ð0 Ñ  F < ÐBÑÑ §
§ . Ò0 ÐC! Ñ  -7 Ð Ñ7" ß 0 ÐC! Ñ  -7 Ð Ñ7" Ó,
#< #<
!
R R

com a união estendida aos índices ! para os quais existe C! nas condições
§7. Teorema de Sard 171

referidas, de onde deduzimos, pelo lema II.7.11, que

#$ Ÿ " #-7 Ð
#< 7" #< #7# -7 <7"
Ñ Ÿ #R 7 -7 Ð Ñ7" œ .
!
R R R

Fomos assim conduzidos a um absurdo, uma vez que a expressão da direita


converge para !, quando R Ä _, e podemos portanto escolher R tal que
essa expressão seja menor que #$. …
II.7.14 (Teorema de Sard) Sejam Q § I e Q s §I s duas variedades sem bordo
s
e 0 À Q Ä Q uma aplicação suave. Sendo GÐ0 Ñ § Q , o conjunto dos
pontos críticos de 0 , o conjunto 0 ÐGÐ0 ÑÑ § Q s , dos valores críticos de 0 , é
magro.
Dem:52 Para maior clareza, vamos dividir a demonstração em várias alíneas:
a) Reparemos que nos basta demonstrar o resultado no caso particular em
que Q tem a mesma dimensão 7 em todos os pontos e Q s tem a mesma
dimensão 8 em todos os pontos, hipótese que faremos de aqui em diante.
Com efeito, no caso geral, podemos considerar a família finita ou numerável
das componentes conexas Q4 de Q e a família finita ou numerável das
componentes conexas Q s 5 de Qs (cf. II.7.8), que são abertos em Q e Q s,
respectivamente, e já são variedades sem bordo com essa propriedade, e
então a imagem de cada Q4 vai estar contida nalgum Q s 5 e o conjunto dos
s
valores críticos de 0 À Q Ä Q vai ser a união contável dos conjuntos dos
valores críticos dos 0ÎQ4 À Q4 Ä Qs e portanto, lembrando II.7.10, vai ser um
conjunto magro.
b) Notemos agora que o resultado é trivialmente verdadeiro no caso em que
8 œ !. Com efeito, tem-se então que todos os pontos de Q são trivialmente
regulares, pelo que GÐ0 Ñ œ g e 0 ÐGÐ0 ÑÑ œ g. Nas alíneas seguintes vamos
supor sempre que 8  !.
c) Vamos demonstrar o resultado por indução em 7. Comecemos por supor
que 7 œ !. Neste caso Q é finito ou numerável (cf. a alínea c) de II.7.8).
Resulta daqui que 0 ÐQ Ñ œ 0 ÐGÐ0 ÑÑ é um conjunto finito ou numerável,
portanto uma união finita ou numerável de conjuntos unitários, que são
compactos de interior vazio, pelo que 0 ÐGÐ0 ÑÑ é magro.
d) Seja 7   " tal que o resultado seja válido sempre que a variedade Q
tenha dimensão 7  ". Para terminar a demonstração, temos que ver que o
resultado é ainda válido quando Q tem dimensão 7.
e) Vamos examinar agora o caso particular em que Q é um aberto Y de ‘7
e em que Q s é ‘8 . Consideramos portanto um aberto Y de ‘7 e uma
aplicação suave 0 À Y Ä ‘8 , com as componentes 04 À Y Ä ‘, " Ÿ 4 Ÿ 8, e
notamos GÐ0 Ñ § Y o conjunto dos pontos críticos de 0 . Para cada inteiro

52A demonstração que apresentamos é baseada na que se encontra no livro de Milnor


[19], com as adaptações decorrentes de utilizarmos conjuntos magros em vez de
conjuntos de medida nula.
172 Cap. II. Vectores Tangentes e Variedades

:   ", notamos G: Ð0 Ñ o subconjunto de GÐ0 Ñ formado pelos pontos B − Y


tais que H4 0B œ !, para cada " Ÿ 4 Ÿ :. Os conjuntos G: Ð0 Ñ verificam
G: Ð0 Ñ ¨ G:" Ð0 Ñ e GÐ0 Ñ ¨ G" Ð0 Ñ. Tem-se que GÐ0 Ñ é a união de
GÐ0 Ñ Ï G" Ð0 Ñ com os conjuntos G: Ð0 Ñ Ï G:" Ð0 Ñ, com 1 Ÿ : Ÿ 7  ", e
com G7 Ð0 Ñ. Tem-se então que 0 ÐGÐ0 ÑÑ vai ser a união de 0 ÐGÐ0 Ñ Ï G" Ð0 ÑÑ
com os 0 ÐG: Ð0 Ñ Ï G:" Ð0 ÑÑ e com 0 ÐG7 Ð0 ÑÑ, pelo que, para ver que o
conjunto 0 ÐGÐ0 ÑÑ é magro, basta verificarmos que são magros os conjuntos
0 ÐGÐ0 Ñ Ï G" Ð0 ÑÑ, 0 ÐG: Ð0 Ñ Ï G:" Ð0 ÑÑ e 0 ÐG7 Ð0 ÑÑ. É isso que vamos fazer
nas três próximas alíneas.
f) Vamos verificar que 0 ÐGÐ0 Ñ Ï G" Ð0 ÑÑ é um conjunto magro, para o que
podemos já supor que 8   #, sem o que se tinha trivialmente GÐ0 Ñ œ G" Ð0 Ñ.
Seja B! − GÐ0 Ñ Ï G" Ð0 Ñ arbitrário. Existe então A − ‘7 tal que
H0B! ÐAÑ Á !, e portanto, para alguma componente 4, H04 B! ÐAÑ Á !. Por
continuidade, podemos escolher um aberto Z de Y , com B! − Z , tal que,
para cada B − Z , H04 B ÐAÑ Á !, em particular H04 B À ‘7 Ä ‘ seja
sobrejectiva. Tendo em conta o lema II.7.12, o objectivo desta alínea estará
alcançado se mostrarmos que o conjunto 0 ÐZ  ÐGÐ0 Ñ Ï G" Ð0 ÑÑÑ é magro.
Suponhamos que isso não acontecia e tentemos chegar a um absurdo.
Reparemos que G" Ð0 Ñ é fechado em Y e que, tendo em conta II.4.22, o
mesmo acontece a GÐ0 Ñ. Z Ï G" Ð0 Ñ é assim um aberto de ‘7 , em particular
é localmente compacto, separado e de base contável, pelo que, por II.7.9, é
união de uma sucessão de compactos O3 , 3   ", o que implica que o conjunto
0 ÐZ  ÐGÐ0 Ñ Ï G" Ð0 ÑÑÑ é união dos compactos 0 ÐO3  GÐ0 ÑÑ, tendo
portanto, por II.7.6, interior não vazio. Sejam C! œ Ð," ß á ß ,8 Ñ − ‘8 e <  !
tais que
F< ÐC! Ñ œ Ó,"  <ß ,"  <Ò ‚ â ‚ Ó,8  <ß ,8  <Ò § 0 ÐZ  ÐGÐ0 Ñ Ï G" Ð0 ÑÑÑ
(como antes, consideramos em ‘8 a norma do máximo). Seja Q § Z ,
Q œ ÖB − Z ± 04 ÐBÑ œ ,4 ×,

que vai ser assim uma variedade de dimensão 7  ". Para cada
C œ ÐC" ß á ß C4" ß ,4 ß C4" ß á ß C8 Ñ −
− Ó,"  <ß ,"  <Ò ‚ â ‚ Ö,4 × ‚ â ‚ Ó,8  <ß ,8  <Ò,

podemos considerar um ponto crítico B − Z de 0 tal que 0 ÐBÑ œ C , vindo,


em particular, B − Q e o facto de a aplicação linear H0B À ‘7 Ä ‘8 não ser
sobrejectiva e a sua imagem conter o vector H0B ÐAÑ, não pertencente ao
subespaço ‘4" ‚ Ö!× ‚ ‘84 de ‘8 , com dimensão 8  ", implica que esta
imagem não contém
‘4" ‚ Ö!× ‚ ‘84 œ XC Б4" ‚ Ö,4 × ‚ ‘84 Ñ

e portanto que C é também um valor crítico da restrição


§7. Teorema de Sard 173

0ÎQ À Q Ä ‘4" ‚ Ö,4 × ‚ ‘84 .

Concluímos assim que o conjunto dos valores críticos desta restrição tem
interior não vazio, e portanto não é magro em ‘4" ‚ Ö,4 × ‚ ‘84 , o que é
um absurdo, tendo em conta a hipótese de indução.
g) Vamos agora verificar que 0 ÐG: Ð0 Ñ Ï G:" Ð0 ÑÑ é magro. Seja
B! − G: Ð0 Ñ Ï G:" Ð0 Ñ arbitrário. Tem-se portanto H: 0B! œ ! e H:" 0B! Á !,
pelo que existem A" ß á ß A:" em ‘7 tais que H:" 0B! ÐA" ß á ß A:" Ñ Á ! e
podemos escolher uma componente 4 tal que H:" 04 B! ÐA" ß á ß A:" Ñ Á !.
Por continuidade, podemos escolher um aberto Z de Y , com B! − Z , tal que,
para cada B − Z , H:" 04 B ÐA" ß á ß A:" Ñ Á !. Tendo em conta o lema
II.7.12, o objectivo desta alínea estará alcançado se mostrarmos que o
conjunto 0 ÐZ  ÐG: Ð0 Ñ Ï G:" Ð0 ÑÑÑ é magro. Seja 1À Z Ä ‘ a aplicação
suave definida por
1ÐBÑ œ H: 04 B ÐA# ß á ß A:" Ñ.

Uma vez que, para cada B − Z , H1B ÐA" Ñ Á !, e portanto H1B À ‘7 Ä ‘ é


sobrejectiva, vemos que o conjunto Q œ ÖB − Z ± 1ÐBÑ œ !× é uma varie-
dade de dimensão 7  ". Se C − 0 ÐZ  ÐG: Ð0 Ñ Ï G:" Ð0 ÑÑÑ, podemos
considerar B − Z  ÐG: Ð0 Ñ Ï G:" Ð0 ÑÑ tal que 0 ÐBÑ œ C e o facto de ser
B − G: Ð0 Ñ implica que 1ÐBÑ œ !, e portanto que B − Q ; para além disso, o
facto de se ter H0B œ ! implica que B é um ponto crítico de 0 , e portanto
também da restrição 0ÎQ À Q Ä ‘8 . Vemos assim que o conjunto
0 ÐZ  ÐG: Ð0 Ñ Ï G:" Ð0 ÑÑÑ está contido no conjunto dos valores críticos de
0ÎQ À Q Ä ‘8 que, pela hipótese de indução, é magro, o que mostra que
0 ÐZ  ÐG: Ð0 Ñ Ï G:" Ð0 ÑÑÑ é também magro, como queríamos.
h) Vamos agora verificar que 0 ÐG7 Ð0 ÑÑ é magro. Suponhamos então que
isso não acontecia. Como em f), o aberto Y de ‘7 , sendo localmente
compacto, separado e de base contável, é união de uma sucessão de
compactos O3 , 3   ", pelo que 0 ÐG7 Ð0 ÑÑ ia ser a união dos compactos
0 ÐG7 Ð0 Ñ  O3 Ñ e portanto, por II.7.6, teria interior não vazio, ou seja, existia
C! œ Ð," ß á ß ,8 Ñ − ‘8 e <  ! tais que
F< ÐC! Ñ œ Ó,"  <ß ,"  <Ò ‚ â ‚ Ó,8  <ß ,8  <Ò § 0 ÐG7 Ð0 ÑÑ.
Uma vez que se tem trivialmente G7 Ð0 Ñ § G7 Ð0" Ñ, podíamos então concluir
que Ó,"  <ß ,"  <Ò § 0" ÐG7 Ð0" ÑÑ, pelo que 0" ÐG7 Ð0" ÑÑ não tinha interior
vazio em ‘, em particular não era magro, o que era absurdo, tendo em conta
o lema II.7.13.
i) Tal como observámos em e), o que vimos nas três últimas alíneas mostra
que o teorema de Sard, com Q de dimensão 7, está demonstrado no caso
particular em que Q é um aberto de ‘7 e Q s é ‘8 . Passemos, por fim, à
demonstração no caso geral. Seja B! − GÐ0 Ñ arbitrário. Sejam Z s um aberto
de Qs , com 0 ÐB! Ñ − Z
s,Ys um aberto de ‘8 e <À Z s ÄY s um difeomorfismo.
174 Cap. II. Vectores Tangentes e Variedades

Sejam Z um aberto de Q , com B! − Z , Y um aberto de ‘7 e :À Y Ä Z um


difeomorfismo; se necessário reduzindo estes abertos, podemos já supor que
s . O facto de a derivada de um difeomorfismo ser um isomorfismo
0 ÐZ Ñ § Z
implica, tendo em conta o teorema de derivação da função composta, que
Bw − Y é um ponto crítico de < ‰ 0ÎZ ‰ :À Y Ä Y s § ‘8 se, e só se, :ÐBw Ñ é
um ponto crítico de 0 , pelo que 0 ÐGÐ0 Ñ  Z Ñ é a imagem por <" do con-
junto dos valores críticos de < ‰ 0ÎZ ‰ :, conjunto esse que é magro em ‘8 ,
e portanto em Y s , pelo caso particular já estudado. Concluímos assim que
0 ÐGÐ0 Ñ  Z Ñ é magro em Z s , e portanto em Q s , o que, tendo em conta o
lema II.7.12, implica que 0 ÐGÐ0 ÑÑ é magro em Q s. …

Uma vez que a definição de ponto crítico ou de valor crítico apenas faz
intervir a derivada de primeira ordem da função 0 , poderíamos ser
levados a pensar na possibilidade de o teorema de Sard ser verdadeiro
apenas com a exigência de 0 ser de classe G " . Se examinarmos a
demonstração precedente e os lemas nela utilizados, verificamos que
tivemos necessidade de trabalhar com derivadas de ordem superior e, de
facto, um exemplo clássico de Whitney (cf. [27]) mostra que a classe G "
não é em geral suficiente. Com uma demonstração mais cuidadosa,
pode-se verificar que, quando Q e Q s têm dimensões 7 e 8, o teorema é
válido para as aplicações de classe G : , onde o inteiro : depende apenas
de 7 e 8 (cf. [6], problema 2 de XVI.23). Por exemplo, quando 7 Ÿ 8,
pode-se mostrar que a classe G " é suficiente. De facto, examinando as
demonstrações que fizemos, constatamos que é suficiente exigir que a
aplicação 0 À Q Ä Q s seja de classe G 7" , onde 7 é a dimensão de Q ,
mas pode-se mostrar que, em geral, não é necessário exigir tanto.
O teorema de Sard e as definições de ponto crítico, ponto regular, valor
crítico e valor regular foram apresentados apenas no quadro das varieda-
des sem bordo. No entanto, eles são trivialmente generalizáveis à situação
em que a variedade domínio pode ter bordo:

II.7.15 Sejam Q § I e Q s §I s variedades, a segunda das quais sem bordo, e


0À Q Ä Q s uma aplicação suave. Generalizando o que foi feito no caso em
que Q também não tem bordo, dizemos que um ponto B − Q é um ponto
regular de 0 se, sendo 4   ! tal que B − `4 ÐQ Ñ, B é um ponto regular da
restrição 0Î`4 ÐQ Ñ À `4 ÐQ Ñ Ä Qs e, caso contrário, dizemos que B é um ponto
crítico de 0 . Como antes, chamam-se valores críticos de 0 aos elementos de
Qs que são imagem de algum ponto crítico e valores regulares de 0 aos
restantes elementos de Q s.
II.7.16 (Teorema de Sard para variedades com bordo) Sejam Q § I e
Qs §I s duas variedades a segunda das quais sem bordo, e seja 0 À Q Ä Q s
uma aplicação suave. Tem-se então que o conjunto 0 ÐGÐ0 ÑÑ § Q s , dos valo-
res críticos de 0 , é magro.
Dem: Por definição, o conjunto dos valores críticos de 0 é a união dos con-
§7. Teorema de Sard 175

juntos dos valores críticos das restrições de 0 às diferentes variedades sem


bordo `4 ÐQ Ñ, conjuntos esses que, pela versão do teorema de Sard já
demonstrada, são magros. …
II.7.17 (Corolário) Sejam Q § I e Q s §I s duas variedades, a segunda das
quais sem bordo, e seja 0 À Q Ä Q s uma aplicação suave. Se, para cada
B − Q , a dimensão de Q em B é menor que a dimensão de Q s em 0 ÐBÑ,
s
então 0 ÐQ Ñ é um conjunto magro em Q .
Dem: Basta atender a que 0 ÐQ Ñ é trivialmente o conjunto dos valores críti-
cos de 0 . …
II.7.18 (Corolário) Sejam Q § I uma variedade com dimensão menor ou igual
a : em cada ponto, I s um espaço vectorial de dimensão finita e 0 À Q Ä I s
uma aplicação suave. Tem-se então que 0 ÐQ Ñ não contém nenhuma
subvariedade, não vazia, de dimensão maior que :, de Is.
Dem: Suponhamos que 0 ÐQ Ñ continha uma tal subvariedade. Considerando
um ponto do bordo de índice ! desta, concluímos a existência de um espaço
vectorial J , de dimensão maior que :, de um aberto não vazio Y de J e de
um difeomorfismo :À Y Ä Z , com Z § 0 ÐQ Ñ. Sejam Z s um aberto de Is,
s
contendo Z , e <À Z Ä J um prolongamento suave de : À Z Ä Y . "

Considerando o aberto não vazio Q w de Q , constituído pelos B − Q tais que


s , que é, em particular, uma variedade com dimensão menor ou
0 ÐBÑ − Z
igual a : em cada ponto, obtemos uma aplicação suave < ‰ 0ÎQ w À Q w Ä J
cuja imagem contém Y , o que é absurdo, pelo teorema de Baire (II.7.5), já
que, pelo corolário precedente, essa imagem é magra. …

Com o fim de apresentar outra aplicação importante do teorema de Sard,


definimos em seguida as noções de subconjunto homogéneo de um espaço
vectorial de dimensão finita e de aplicação suave homogénea.

II.7.19 Sejam I um espaço vectorial real de dimensão finita e E § I um


subconjunto. Dizemos que E é um conjunto homogéneo se, quaisquer que
sejam B! ß B" − E, existe um difeomorfismo :À E Ä E tal que :ÐB! Ñ œ B" .53
II.7.20 Se Q § I é uma variedade homogénea, então Q não tem bordo e tem a
mesma dimensão em todos os pontos.
Dem: Quaisquer que sejam B! e B" em Q , a existência de um difeomorfismo
:À Q Ä Q tal que :ÐB! Ñ œ B" implica que ÐQ ß B! Ñ e ÐQ ß B" Ñ são
localmente difeomorfos e portanto que Q tem a mesma dimensão e o mesmo
índice em todos os pontos. Basta agora repararmos que, tendo em conta

53Intuitivamente, todos os pontos de E estão situados do mesmo modo dentro de E, ou


são indistinguíveis dentro de E. Note-se que, como aplicação das equações diferenciais,
pode-se provar que toda a variedade conexa sem bordo é homogénea (cf. o exercício
IV.17 adiante).
176 Cap. II. Vectores Tangentes e Variedades

II.6.17, o facto de Q ter o mesmo índice em todos os pontos implica que


esse índice comum é !. …
II.7.21 Sejam I e J espaços vectoriais de dimensão finita, E § I e F § J dois
subconjuntos e 0 À E Ä F uma aplicação suave. Diz-se que 0 é uma
aplicação homogénea se, quasiquer que sejam B! ß B" − E, existem dois
difeomorfismos :À E Ä E e <À F Ä F com :ÐB! Ñ œ B" e 0 ‰ : œ < ‰ 0 .
Repare-se que se tem então, em particular, <Ð0 ÐB! ÑÑ œ 0 ÐB" Ñ.
Podemos assim garantir que, se 0 À E Ä F é uma aplicação suave
homogénea, então E é um conjunto homogéneo e, no caso em que 0 é
sobrejectiva, F também é um conjunto homogéneo.
II.7.22 (Corolário do teorema de Sard) Sejam Q § I e Q s §I s duas varie-
dades e 0 À Q Ä Q s uma aplicação suave homogénea e sobrejectiva. Tem-se
então que 0 é uma submersão.
Dem: Podemos já afastar o caso trivial em que Q œ g. Pelo teorema de Sard
s e
o conjunto dos valores críticos de 0 , sendo magro, não pode ser todo o Q
existe assim pelo menos um valor regular. Uma vez que 0 é sobrejectiva,
concluímos assim, em particular, a existência de B! − Q onde 0 seja uma
submersão. Dado B − Q arbitrário, existem então difeomorfismos
:À Q Ä Q e < À Q s ÄQ s tais que :ÐB! Ñ œ B e 0 ‰ : œ < ‰ 0 , ou seja
0 œ < ‰ 0 ‰ :" , e derivando ambos os membros em B, obtemos
H0B œ H<0 ÐB! Ñ ‰ H0B! ‰ HÐ:" ÑB ,

pelo que H0B , sendo a composta de dois isomorfismos com uma aplicação
linear sobrejectiva, é uma aplicação linear sobrejectiva. …

EXERCÍCIOS

Ex II.1 Mostrar que, nas definições do cone tangente e do cone tangente


alargado de um conjunto num dos seus pontos, pode-se exigir que a sucessão
de números reais estritamente positivos >8 convirja para _.
Ex II.2 Encontrar uma definição e enunciar um resultado que implique simulta-
neamente II.1.2 e II.1.3.
Ex II.3 a) Dar um exemplo de um subconjunto E § ‘# e de um ponto B! − E
tais que o cone tangente alargado tB! ÐEÑ contenha estritamente tB! ÐEÑ.
b) Dar um exemplo de um subconjunto E § ‘# e de um ponto B! − E tais
que o cone tangente alargado tB! ÐEÑ não seja um subespaço vectorial.

Ex II.4 Seja I um espaço vectorial de dimensão finita. Mostrar que se F e G são


duas partes de I e B! − F  G , então
Exercícios 177

tB! ÐF  GÑ œ tB! ÐFÑ  tB! ÐGÑ,


t  
B! ÐF  GÑ ¨ tB! ÐFÑ  tB! ÐGÑ,
XB! ÐF  GÑ ¨ XB! ÐFÑ  XB! ÐGÑ.

Dar um exemplo em que se tenha tB! ÐF  GÑ Á tB! ÐFÑ  tB! ÐGÑ e


 

XB! ÐF  GÑ Á XB! ÐFÑ  XB! ÐGÑ.


Ex II.5 a) (Continuidade do cone tangente alargado) Sejam B! − E § I , ÐB8 Ñ
uma sucessão de elementos de E, com B8 Ä B! e, para cada 8, A8 − t B8 ÐEÑ.
Supondo que A8 Ä A − I , mostrar que A − t B! ÐEÑ. Sugestão: Atender à
caracterização alternativa do cone tangente alargado.
b) Mostrar, com um contraexemplo, que a propriedade de continuidade refe-
rida em a) não é verificada pelos cones tangentes tB ÐEÑ.
Ex II.6 Recorrendo apenas à intuição, determinar quais os cones tangentes e
cones tangentes alargados dos seguintes conjuntos nos pontos indicados:54
a) E œ ÖÐBß CÑ − ‘# ± " Ÿ B Ÿ #, " Ÿ C Ÿ #×, nos pontos B! œ Ð"ß "Ñ, C! œ
Ð"ß #Ñ e D! œ Ð $# ß $# Ñ.
b) E œ ÖÐBß CÑ − ‘# ± B   !, C œ B# ×, nos pontos B! œ Ð!ß !Ñ e C! œ Ð"ß "Ñ.
c) E œ ÖÐBß CÑ − ‘# ± B  !, C œ sinÐ B" Ñ×  ÐÖ!× ‚ ‘Ñ, nos pontos B! œ
Ð!ß !Ñ e C! œ Ð!ß "Ñ.
d) E œ ÖÐBß Cß DÑ − ‘$ ± B#  C #  D # œ ", D   !×, no ponto B! œ Ð"ß !ß !Ñ.
Ex II.7 Sejam I um espaço vectorial de dimensão finita e B! − E § I . Mostrar
que, para cada $  !, existe &  ! tal que, qualquer que seja B − E, com
!  mB  B! m  &, existe A − tB! ÐEÑ Ï Ö!× tal que
A B  B!
m  m$
mAm mB  B! m
e, quaisquer que sejam Bß C − E, com B Á C , mB  B! m  & e mC  B! m  &,
existe A − t
B! ÐEÑ Ï Ö!× tal que
A BC
m  m  $.
mAm mB  Cm
Reparar que este resultado generaliza a parte não trivial de II.1.12.
Ex II.8 Seja E § ‘ o conjunto constituído pelo ! e pelos números da forma
"Î#8 , com 8 − .
a) Verificar que
tÐ!ß!Ñ ÐE ‚ EÑ Á t! ÐEÑ ‚ t! ÐEÑ.

Sugestão: Verificar que os logaritmos na base # dos declives das secantes


oblíquas de Ð!ß !Ñ para os pontos de E ‚ E são todos números inteiros.

54Em cada caso será útil desenhar uma figura.


178 Cap. II. Vectores Tangentes e Variedades

b) Com um pouco mais de trabalho verificar que


t  
Ð!ß!Ñ ÐE ‚ EÑ Á t! ÐEÑ ‚ t! ÐEÑ.

Sugestão: O conjunto dos logaritmos na base # dos valores absolutos dos


declives das secantes oblíquas entre pontos de E ‚ E tem os inteiros como
únicos pontos de acumulação possíveis, sendo portanto fechado.
Ex II.9 Seja E § ‘# o conjunto
E œ ÖÐBß CÑ − ‘# ± C Á !×  ÖÐ!ß !Ñ×

e seja 0 À E Ä ‘ a aplicação definida por 0 ÐBß CÑ œ B sinÐ "C Ñ, se C Á !, e


0 Ð!ß !Ñ œ !. Mostrar que 0 é contínua mas não é de classe G ! .
Ex II.10 Demonstrar rigorosamente o que foi feito intuitivamente na alínea b) do
exercício II.6. Sugestão: Construir um difeomorfismo entre E e ‘ œ
Ò!ß _Ò.
Ex II.11 Seja W § ‘$ a superfície esférica
W œ ÖÐBß Cß DÑ ± B#  C #  D # œ #&×.

determinar os vectores tangentes a W nos pontos Ð#È#ß #È#ß $Ñ e Ð$ß %ß !Ñ,


Utilizar difeomorfismos do tipo dos utilizados no exemplo c) em II.4.8 para

justificando o resultado.
Ex II.12 Seja I um espaço vectorial de dimensão finita, munido de um produto
interno, e seja W § I a hipersuperfície esférica
W œ ÖB − I ± ØBß BÙ œ "×.
Mostrar que, se B! − W e se ? − XB! ÐWÑ, então ? é prependicular a B! , isto é,
Ø?ß B! Ù œ !. Sugestão: Considerar dois prolongamentos suaves da aplicação
identicamente igual a " sobre W e derivá-los na direcção de ?.
Ex II.13 Mostrar que, se I Á Ö!× é um espaço vectorial de dimensão finita e se
E § I é um subconjunto compacto e não vazio, então existe pelo menos um
ponto B! − E tal que tB! ÐEÑ Á I . Sugestão: Considerar em I um produto
interno e tomar um ponto B! − E de norma máxima.
Ex II.14 Seja E § ‘# , E œ ÖÐBß CÑ ± C œ B# ×, e seja 0 À E Ä ‘ a aplicação
suave definida por 0 ÐBß CÑ œ C . Mostrar que se podem escolher dois
prolongamentos suaves 0 e s0 de 0 a ‘# tais que as derivadas de segunda
ordem
H# 0 Ð!ß!Ñ ß H#s0 Ð!ß!Ñ À ‘# ‚ ‘# Ä ‘

não tenham a mesma restrição a XÐ!ß!Ñ ÐEÑ ‚ XÐ!ß!Ñ ÐEÑ.


Exercícios 179

Ex II.15 Sejam I um espaço vectorial de dimensão finita e E § I um conjunto


arbitrário. Se ÐY4 Ñ4−N é uma família de abertos de E de união E, mostrar que
existe uma outra família ÐZ4 Ñ4−N de abertos de E, ainda de união E, que seja
localmente finita (isto é, tal que cada ponto de B admita uma vizinhança em
E, que intersecta Z4 apenas para um número finito de índices 4) e que
verifique adE ÐZ4 Ñ § Y4 .55 Sugestão: Considerar uma partição da unidade de
E subordinada à cobertura aberta constituída pelos Y4 .
Ex II.16 Nas condições do enunciado do primeiro teorema da partição da
unidade II.3.4, verificar que a união dos compactos G# tem que ser o aberto
Y e portanto que, salvo na caso trivial em que Y œ g, o conjunto contável >
dos índice tem que ser infinito.
Ex II.17 A demonstração do corolário II.3.9 permite que se reforce um pouco
mais a conclusão da alínea c) do respectivo enunciado. Qual o reforço que
poderia ser feito?
Ex II.18 Nas hipóteses de II.3.9, mostrar que, se o conjunto E for compacto,
pode-se exigir que os conjuntos G4 , aparecendo em b), sejam também
compactos. Sugestão: Diminuir convenientemente os conjuntos Y4 .
Ex II.19 Seja E uma parte dum espaço vectorial I de dimensão finita e sejam F
e G dois subconjuntos disjuntos fechados em E. Mostrar que existe uma
aplicação suave 0 À E Ä Ò!ß "Ó, tal que 0 ÐBÑ œ !, para cada B − F , e
0 ÐBÑ œ ", para cada B − G . Sugestão: Considerar uma partição da unidade
para uma cobertura aberta conveniente de E.
Ex II.20 (Refinamento de II.3.14) Sejam I e J espaços vectoriais de dimensão
finita, o segundo dos quais munido duma norma, E § I um conjunto (por
exemplo, E œ I …), F § E um subconjunto fechado em E, G § J um
conjunto convexo não vazio e 0 À F Ä J uma aplicação contínua tal que
0 ÐFÑ § G . Mostrar que, para cada aplicação contínua $ À F Ä Ó!ß _Ò,
existe uma aplicação suave s1À E Ä J tal que s1ÐEÑ § G e que, para cada
B − F , m1ÐBÑ
s  0 ÐBÑm  $ ÐBÑ.
Sugestão: Já conhecemos a existência de uma aplicação suave 1À Y Ä J ,
com F § Y aberto em I , 1ÐY Ñ § G e m1ÐBÑ  0 ÐBÑm  $ ÐBÑ, para cada
B − F . Escolher C! − G e definir

s1ÐBÑ œ œ
:ÐBÑ1ÐBÑ  <ÐBÑC! , se B − Y  E
,
C! , se B − E Ï Y

onde :ß <À E Ä Ò!ß "Ó são as funções duma partição da unidade associada aos
abertos Y  E e E Ï F de E.

55Esta propriedade exprime o facto de E ser um espaço topológico paracompacto.


Pode-se provar, mais geralmente, que todo o espaço topológico metrizável é paracom-
pacto, mas trata-se de um resultado de difícil demonstração.
180 Cap. II. Vectores Tangentes e Variedades

Ex II.21 (Uma versão do teorema de extensão de Tietze-Urysohn) Sejam I e


J espaços vectoriais de dimensão finita, E § I um conjunto (por exemplo,
E œ I …), F § E um subconjunto fechado em E e 0 À F Ä J uma
aplicação contínua. Mostrar que existe uma aplicação contínua 0 À E Ä J tal
que 0 ÎF œ 0 .
Sugestão: Começar por utilizar a conclusão do exercício precedente para
encontrar uma aplicação suave 1À E Ä J tal que, para cada B − F ,
m0 ÐBÑ  1ÐBÑm  ". Utilizando de novo a mesma conclusão, construir
recursivamente aplicações suaves 14 À E Ä J , onde 4   ", começando por
escolher 1" tal que m1" ÐBÑm  ", para cada B − E, e
"
m0 ÐBÑ  1ÐBÑ  1" ÐBÑm  ,
#
para cada B − F , e supondo já escolhidos 1" ß á ß 14 , escolher 14" de modo
que m14" ÐBÑm  #"4 , para cada B − E, e
"
m0 ÐBÑ  1ÐBÑ  1" ÐBÑ  â  14 ÐBÑ  14" ÐBÑm  ,
#4"
para cada B − F . Verificar que se pode então definir uma aplicação contínua
0 À E Ä J por

0 ÐBÑ œ 1ÐBÑ  " 14 ÐBÑ


_

4œ"

e que se tem 0 ÎF œ 0 .
Ex II.22 Seja F § ‘$ o conjunto
F œ ÖÐBß Cß DÑ ± B#  C #  D # œ ", B#  #C # œ "×.
Mostrar que F é uma variedade sem bordo com dimensão " em todos os
pontos, com a excepção de Ð"ß !ß !Ñ e Ð"ß !ß !Ñ, e que nestes pontos F não é
uma variedade.
Ex II.23 Sejam Q § I e Q s §I s duas variedades sem bordo e 0 À Q Ä Q s uma
aplicação suave, injectiva e tal que, para cada B − Q , H0B seja um
s Ñ. Mostrar que então 0 ÐQ Ñ é aberto
isomorfismo de XB ÐQ Ñ sobre X0 ÐBÑ ÐQ
s
em Q e que 0 é um difeomorfismo de Q sobre 0 ÐQ Ñ.
Ex II.24 Sejam Q § I e Q s §I s duas variedades sem bordo e 0 À Q Ä Q s uma
aplicação suave. Seja O § Q um conjunto compacto tal que a restrição
0ÎO À O Ä Q s seja uma aplicação injectiva e que, para cada B − O , H0B seja
um isomorfismo de XB ÐQ Ñ sobre X0 ÐBÑ ÐQ s Ñ. Mostrar que existe então um
aberto Y de Q , com O § Y , tal que 0ÎY seja um difeomorfismo de Y sobre
Exercícios 181

um aberto Z de Q s .56
Sugestão: Demonstrar e utilizar o seguinte resultado de natureza puramente
topológica: Sejam Q e Q s espaços topológicos, o segundo dos quais de
Hausdorff. Seja 0 À Q Ä Q s uma aplicação contínua em todos os pontos de
um certo conjunto compacto O § Q tal que a restrição 0ÎO seja injectiva e
que, para cada B − O , exista um aberto YB de Q , com B − YB , tal que a
restrição 0ÎYB seja injectiva. Existe então um aberto Y de Q , com O § Y ,
tal que a restrição 0ÎY é injectiva. Para demonstrar este resultado utilizar duas
vezes a propriedade das coberturas abertas dum compacto, demonstrando,
como passo intermédio, que, para cada B! − O , existem abertos ZB! e [B! de
Q , com B! − ZB! e O § [B! , tais que, se B − ZB! , C − [B! e 0 ÐBÑ œ 0 ÐCÑ,
então B œ C .
Ex II.25 Seja I um espaço vectorial real, de dimensão 8   ", munido de
produto interno. Lembrar que uma aplicação linear 0À I Ä I se diz
autoadjunta se, quaisquer que sejam Bß C − I , se tem Ø0ÐBÑß CÙ œ ØBß 0ÐCÑÙ.
Mostrar que toda a aplicação linear autoadjunta 0À I Ä I admite um vector
próprio não nulo B! , isto é, um vector para o qual 0ÐB! Ñ œ +B! , para um
certo + − ‘. Sugestão: Lembrar que W œ ÖB − I ± mBm œ "× é uma
variedade sem bordo com dimensão 8  " e que, para cada B! − W , XB! ÐWÑ é
o conjunto dos vectores ? − I tais que ØB! ß ?Ù œ !. Tomar para B! um ponto
onde seja máxima a aplicação suave 0 À W Ä ‘, definida por
0 ÐBÑ œ Ø0ÐBÑß BÙ.
Ex II.26 Sejam B! − Q § I , C! − Q w § I w e D! − Q s §Is tais que ÐQ ß B! Ñ,
s ß D! Ñ sejam variedades sem bordo, com dimensões 7, 7w e 8,
ÐQ w ß C! Ñ e ÐQ
respectivamente. Sejam 0 À Q Ä Q s e 1À Q w Ä Qs duas aplicações suaves,
tais que 0 ÐB! Ñ œ D! œ 1ÐC! Ñ e que seja verificada a seguinte condição de
transversalidade:
s Ñ.
H0B! ÐXB! ÐQ ÑÑ  H1C! ÐXC! ÐQ w ÑÑ œ XD! ÐQ

Mostrar que, sendo E § Q ‚ Q w o produto fibrado


E œ ÖÐBß CÑ − Q ‚ Q w ± 0 ÐBÑ œ 1ÐCÑ×,
o conjunto E é, no ponto ÐB! ß C! Ñ, uma variedade sem bordo, com dimensão
7  7w  8, e caracterizar o espaço vectorial tangente XÐB! ßC! Ñ ÐEÑ.
Ex II.27 Mostrar que, para cada inteiro 8 − ™, fica bem definida uma aplicação
08 À ‘# Ï Ö!× Ä ‘# Ï Ö!×, pela condição de se ter, para <  ! e > − ‘,
08 Ð< cosÐ>Ñß < sinÐ>ÑÑ œ Ð< cosÐ8>Ñß < sinÐ8>ÑÑ,
e utilizar II.4.31 para mostrar que a aplicação 08 é suave.

56Reparar que o teorema da função inversa não é mais do que o caso particular deste
resultado, em que o compacto O é um conjunto unitário.
182 Cap. II. Vectores Tangentes e Variedades

Ex II.28 (Um resultado de Álgebra Linear) Sejam I um espaço vectorial de


dimensão 8 e 0" ß á ß 07 À I Ä ‘ 7 aplicações lineares.
a) Mostrar que, se a dimensão do subespaço vectorial de PÐIà ‘Ñ gerado
pelos 04 for :, então
I w œ Ö? − I ± a 04 Ð?Ñ œ !×
4

é um subespaço vectorial de I com dimensão 8  :. Sugestão: Reduzir o


resultado ao caso em que os 04 são linearmente independentes e, nesse caso,
utilizar o lema II.4.35.
b) Mostrar que, se 0À I Ä ‘ é uma aplicação linear, então 0 anula-se sobre o
subespaço vectorial I w , referido em a), se, e só se, existem +" ß á ß +7 − ‘,
tais que 0 œ +" 0"  â  +7 07 .
Ex II.29 Sejam I um espaço vectorial de dimensão 8, Y § I um aberto e
0" ß á ß 07 À Y Ä ‘ aplicações suaves. Seja
Q œ ÖB − I ± 0" ÐBÑ œ !ß á ß 07 ÐBÑ œ !×
e suponhamos que, para um certo B! − Q , as aplicações lineares
H04 B! − PÐIà ‘Ñ são linearmente independentes. Mostrar que, se 0 À Y Ä ‘
é uma aplicação suave, tal que 0ÎQ admita no ponto B! − Q um máximo
relativo ou um mínimo relativo, então existem +" ß á ß +7 − ‘ tais que
H0B! œ +" H0" B!  â  +7 H07 B! .

(Este resultado é a base do conhecido método dos multiplicadores de


Lagrange, para a determinação de extremos condicionados).
Sugestão: Utilizar II.4.34 e a alínea b) de II.2.7.
Ex II.30 Seja Š um dos corpos ‘ ou ‚ e notemos `8 ÐŠÑ o espaço vectorial de
dimensão 8# , cujos elementos são as matrizes quadradas de elementos de Š,
com 8 linhas e 8 colunas. Para cada matriz \ − `8 ЊÑ, seja detÐ\Ñ − Š o
respectivo determinante, e notemos WPÐ8ß ŠÑ o subconjunto de `8 ЊÑ,
WPÐ8ß ŠÑ œ Ö\ − `8 ÐŠÑ ± detÐ\Ñ œ "×,
conjunto a que se costuma dar o nome de grupo linear especial.
a) Mostrar que WPÐ8ß ŠÑ é um grupo, relativamente à operação de
multiplicação de matrizes, tendo a matriz identidade M como elemento neutro.
b) Mostrar que WPÐ8ß ŠÑ é, no elemento M , uma variedade sem bordo com
dimensão 8#  ", no caso Š œ ‘, e dimensão #8#  #, no caso Š œ ‚, e
que o espaço vectorial XM ÐWPÐ8ß ŠÑÑ é o conjunto das matrizes E tais que
trÐEÑ œ ! (notamos trÐEÑ o traço da matriz E, isto é, a soma dos elementos
da sua diagonal principal). Sugestão: A aplicação detÀ `8 ÐŠÑ Ä Š é suave
e tem-se H detM ÐEÑ œ trÐEÑ.
c) Mostrar que, para cada \ − WPÐ8ß ŠÑ, tem lugar um difeomorfismo de
WPÐ8ß ŠÑ sobre WPÐ8ß ŠÑ, que a cada ] associa \ ‚ ] e deduzir daqui que
Exercícios 183

WPÐ8ß ŠÑ é uma variedade sem bordo com a mesma dimensão em todos os


pontos, caracterizando cada espaço vectorial tangente X\ ÐWPÐ8ß ŠÑÑ.
Ex II.31 Para cada matriz \ − `8 БÑ, notamos \ ‡ a respectiva matriz
transposta e lembremos que uma matriz \ é dita simétrica (resp. antissi-
métrica) se se tem \ ‡ œ \ (resp. \ ‡ œ \ ). Lembremos também que uma
matriz \ − `8 Ð‘Ñ é dita ortogonal se for invertível e com \ " œ \ ‡ .
Notemos SÐ8Ñ o conjunto das matrizes ortogonais, conjunto a que se costu-
ma dar o nome de grupo ortogonal.
a) Mostrar que SÐ8Ñ é um grupo, relativamente à operação de multiplicação
de matrizes, tendo a matriz identidade M como elemento neutro.
b) Mostrar que SÐ8Ñ é, na matriz identidade M , uma variedade sem bordo,
com dimensão 8Ð8"Ñ
# e que XM ÐSÐ8ÑÑ é o espaço vectorial constituído pelas
matrizes antissimétricas. Sugestão: Aplicar II.4.32 a 0 À `8 Ð‘Ñ Ä `8 БÑ,
definida por 0 Ð\Ñ œ \ ‡ ‚ \ , reparando que esta aplicação toma valores no
subespaço vectorial de `8 Ð‘Ñ constituído pelas matrizes simétricas.
c) Utilizar o mesmo raciocínio que na alínea c) do exercício precedente para
mostrar que SÐ8Ñ é uma variedade sem bordo com dimensão 8Ð8"Ñ # em todos
os seus elementos e determinar o espaço vectorial tangente em cada um
deles.
Ex II.32 Mais geralmente, para cada \ − `8 ЂÑ, notamos \ ‡ a respectiva
matriz transconjugada e dizemos que uma matriz \ é unitária se for
invertível e com \ " œ \ ‡ . Notemos Y Ð8Ñ o conjunto das matrizes com-
plexas unitárias, com 8 linhas e 8 colunas, conjunto a que se costuma dar o
nome de grupo unitário.
a) Mostrar que Y Ð8Ñ é um grupo, relativamente à operação de multiplicação
de matrizes, tendo a matriz identidade M como elemento neutro.
b) Mostrar que Y Ð8Ñ é, na matriz identidade M , uma variedade sem bordo,
com dimensão 8# e que XM ÐY Ð8ÑÑ é o espaço vectorial constituído pelas
matrizes complexas \ tais que \ ‡ œ \ . Sugestão: A mesma que para o
exercício precedente.
c) Mostrar que Y Ð8Ñ é uma variedade sem bordo com dimensão 8# em todos
os seus elementos e determinar o espaço vectorial tangente em cada um
deles.
Ex II.33 Seja K uma variedade, munida de uma estrutura de grupo, tal que a
aplicação .À K ‚ K Ä K , definida por .ÐBß CÑ œ B † C , seja suave.
a) Mostrar que, para cada B − K , têm lugar difeomorfismos PB ß VB À K Ä K ,
definidos por PB ÐCÑ œ B † C e VB ÐCÑ œ C † B (a translação à esquerda e a
translação à direita).
b) Deduzir de a) que K é variedade sem bordo e com a mesma dimensão em
todos os pontos.
c) Mostrar que, se ÐBß CÑ − K ‚ K , tem-se
H.ÐBßCÑ Ð?ß @Ñ œ HÐPB ÑC Ð@Ñ  HÐVC ÑB Ð?Ñ
184 Cap. II. Vectores Tangentes e Variedades

e que, em particular, notando / o elemento neutro de K ,


H.Ð/ß/Ñ Ð?ß @Ñ œ ?  @.

d) Mostrar que tem lugar uma bijecção . sÀ K ‚ K Ä K ‚ K , definida por


sÐBß CÑ œ ÐBß .ÐBß CÑÑ, e utilizar o exercício II.23 para mostrar que .
. s é um
difeomorfismo. Deduzir daqui que é suave a aplicação :À K Ä K , definida
por :ÐBÑ œ B" (o inverso no grupo) e que se tem H:/ Ð?Ñ œ ?. Concluir,
em particular, que K é um grupo de Lie.
Ex II.34 Seja I um espaço vectorial, real ou complexo, de dimensão 8, munido
de produto interno. Se 5 Ÿ 8, mostrar que o subconjunto Z5 ÐIÑ de I 5 ,
constituído pelos sistemas ortonormados ÐB" ß á ß B5 Ñ, é uma variedade com-
pacta sem bordo, com dimensão 58  5Ð5"Ñ # , no caso real, e #58  5 # , no
caso complexo (aos Z5 ÐIÑ costuma-se dar o nome de variedades de Stiefel).
Mostrar ainda que, para cada ÐB" ß á ß B5 Ñ − Z5 ÐIÑ, o espaço tangente
XÐB" ßáßB5 Ñ ÐZ5 ÐIÑÑ é o conjunto dos Ð?" ß á ß ?5 Ñ − I 5 tais que, quaisquer que
sejam 3ß 4 entre " e 5 ,
Ø?3 ß B4 Ù  ØB3 ß ?4 Ù œ !.

Sugestão: Utilizar II.5.6 e um isomorfismo conveniente de PЊ5 à IÑ sobre


I5.
Ex II.35 Seja I um espaço vectorial, real ou complexo, de dimensão 8, munido
de um produto interno, e consideremos a respectiva variedade de Grassmann
KÐIÑ, com as subvariedades abertas K5 ÐIÑ (cf. II.5.13). Mostrar que as
variedades K5 ÐIÑ são conexas. Sugestão: Lembrar que, como foi visto nos
exercícios I.17 e I.18, os grupos de Lie Y ÐIÑ e WSÐIÑ são conexos.
Ex II.36 Seja I um espaço vectorial, real ou complexo, de dimensão 8 e seja
Kw ÐIÑ o conjunto das aplicações lineares - − PÐIà IÑ tais que - ‰ - œ - .
Mostrar que existe uma bijecção natural entre Kw ÐIÑ e o conjunto dos pares
ÐJ ß KÑ de subespaços vectoriais de I tais que I œ J Š K , associando a
cada - o par Ð-ÐIÑß kerÐ-ÑÑ, e adaptar o que foi feito em II.5.13 para mostrar
que Kw ÐIÑ é uma variedade sem bordo e com
X- ÐKw ÐIÑÑ œ Ö! − PÐIà IÑ ± ! ‰ -  - ‰ ! œ !×.
Se - corresponde ao par ÐJ ß KÑ, com J de dimensão 5 , apresentar uma
caracterização matricial de X- ÐKw ÐIÑÑ realtiva à soma directa referida e
deduzir que Kw ÐIÑ tem em - dimensão #5Ð8  5Ñ, no caso real, e
%5Ð8  5Ñ, no caso complexo. Verificar ainda que, como no caso referido,
Kw ÐIÑ é união disjunta de subvariedades abertas K5w ÐIÑ, onde ! Ÿ 5 Ÿ 8.
Ex II.37 Seja I um espaço vectorial, real ou complexo, de dimensão 8, munido
de um produto interno.
a) Para cada - − Kw ÐIÑ, isto é, para cada - − PÐIà IÑ tal que - ‰ - œ -,
mostrar que a aplicação linear -  -‡  M.I À I Ä I é um isomorfismo.
Exercícios 185

Sugestão: Se B − I é tal que -ÐBÑ  -‡ ÐBÑ œ B, mostrar que -Ð-‡ ÐBÑÑ œ !


e -‡ Ð-ÐBÑÑ œ ! e, considerando os produtos internos por B, deduzir que
-‡ ÐBÑ œ ! e -ÐBÑ œ !, donde B œ !.
b) Nas condições de a), reparar que a imagem de -‡  M.I está contida em
kerÐ-‡ Ñ œ -ÐIѼ (cf. o exercício I.1) e deduzir da identidade
B œ -ÐÐ-  -‡  M.I Ñ" ÐBÑÑ  Ð-‡  M.I ÑÐÐ-  -‡  M.I Ñ" ÐBÑÑ
que a projecção ortogonal :Ð-Ñ de I sobre -ÐIÑ é dada por
:Ð-Ñ œ - ‰ Ð-  -‡  M.I Ñ" .

c) Concluir que é suave a aplicação :À Kw ÐIÑ Ä KÐIÑ, que a cada - associa


a projecção ortogonal de I sobre -ÐIÑ,57 e determinar, para cada
- − Kw ÐIÑ, a aplicação linear derivada H:- À X- ÐK w ÐIÑÑ Ä X:Ð-Ñ ÐKÐIÑÑ.
d) No caso particular em que - œ 1J − KÐIÑ § K w ÐIÑ, reparar que
:Ð-Ñ œ - e mostrar que, considerando as matrizes relativas à soma directa
ortogonal I œ J Š J ¼ , H:- associa a cada ! − X- ÐK w ÐIÑÑ com matriz
”! • , a aplicação linear com matriz ”
! •
! !"ß# ! !‡#ß"
.
#ß" ! !#ß"
Ex II.38 Sejam I e I w espaços vectoriais, reais ou complexos, de dimensão 8,
munidos de produtos internos, e seja 0À I Ä I w um isomorfismo, não
necessariamente ortogonal. Mostrar que tem lugar um difeomorfismo
associado
0‡ À KÐIÑ Ä KÐI w Ñ,
que associa a cada 1J , projecção ortogonal de I sobre o subespaço vectorial
J , a projecção ortogonal 10ÐJ Ñ de I w sobre 0ÐJ Ñ. Sugestão: Basta mostrar
que 0‡ é uma aplicação suave. Para isso utilizar o exercício anterior,
reparando que 0 ‰ 1J ‰ 0" pertence a Kw ÐI w Ñ e tem imagem 0ÐJ Ñ.
Ex II.39 Seja I um espaço vectorial, real ou complexo, de dimensão finita e seja
8   ". Seja
e8 ÐIÑ œ Ö0 − PÐIà IÑ ± 08 œ M.I × § KPÐIÑ
o conjunto das raízes de índice 8 da identidade no grupo de Lie KPÐIÑ.
a) Mostrar que e8 ÐIÑ é uma variedade sem bordo e que, para cada
0 − e8 ÐIÑ,
X0 Ðe8 ÐIÑÑ œ Ö! − PÐIà IÑ ± ! ‰ 08"  0 ‰ ! ‰ 0 8#  â  0 8# ‰ ! ‰ 0  0 8" ‰ ! œ !×.

Verificar ainda que X0 Ðe8 ÐIÑÑ pode ser caracterizado alternativamente


como o conjunto das aplicações lineares que se pode escrever na forma

57“Moralmente”, : associa J a cada par ÐJ ß KÑ.


186 Cap. II. Vectores Tangentes e Variedades

" ‰ 0  0 ‰ " , com " − PÐIà IÑ.58


Sugestão: Para cada 0 − e8 ÐIÑ fixado, considerar uma aplicação suave
:À KPÐIÑ Ä e8 ÐIÑ, definida por :Ð(Ñ œ ( ‰ 0 ‰ (" , que aplica M.I em 0,
e aplicar o segundo teorema da submersão, reparando que, se ! − PÐIà IÑ
verifica
! ‰ 08"  0 ‰ ! ‰ 08#  â  08# ‰ ! ‰ 0  08" ‰ ! œ !,
então tem-se ! œ " ‰ 0  0 ‰ " , com " − PÐIà IÑ definido por
"
" œ  Ð! ‰ 08"  # 0 ‰ ! ‰ 08#  â  Ð8  "Ñ 08# ‰ ! ‰ 0  8 08" ‰ !Ñ.
8
b) Lembrar que dois elementos 0ß 0w − KPÐIÑ (como, mais geralmente, dois
elementos de um grupo arbitrário) se dizem conjugados se existe ( − KPÐIÑ
tal que 0w œ ( ‰ 0 ‰ (" e que se está em presença de uma relação de
equivalência em KPÐIÑ a cujas classes de equivalência se dá o nome de
classes de conjugação. Verificar que o raciocíno feito na alínea precedente
mostra, mais geralmente, que e8 ÐIÑ é uma união de classes de conjugação
de KPÐIÑ e que cada uma destas é aberta em e8 ÐIÑ. Concluir, em
particular, que M.I é um ponto isolado de e8 ÐIÑ.
c) Verificar que existe um difeomorfismo da variedade Kw ÐIÑ, referida no
exercício precedente, sobre e# ÐIÑ, que a cada - − K w ÐIÑ associa #-  M.I .
Ex II.40 Seja I um espaço vectorial, real ou complexo, de dimensão finita,
munido de produto interno, e seja 8   ". Sendo SÐIÑ o grupo ortogonal,
seja
s8 ÐIÑ œ Ö0 − SÐIÑ ± 08 œ M.I × § SÐIÑ
e
o conjunto das raízes de índice 8 da identidade no grupo de Lie SÐIÑ.
a) Mostrar que e s8 ÐIÑ é uma variedade sem bordo e que, para cada
s
0 − e8 ÐIÑ,
s8 ÐIÑÑ œ Ö! − X0 ÐSÐIÑÑ ± ! ‰ 08"  0 ‰ ! ‰ 0 8#  â  0 8# ‰ ! ‰ 0  0 8" ‰ ! œ !×.
X0 Ðe

Verificar ainda que X0 Ðe s8 ÐIÑÑ pode ser caracterizado alternativamente


como o conjunto das aplicações lineares que se podem escrever na forma
" ‰ 0  0 ‰ " , com " − P++ ÐIà IÑ.
Sugestão: Análoga à do exercício precedente, mas utilizando o grupo
ortogonal SÐIÑ no lugar de KPÐIÑ e lembrando a caracterização do espaço
tangente ao grupo ortogonal.
b) Verificar que o raciocíno feito na alínea precedente mostra, mais geral-
mente, que e s8 ÐIÑ é uma união de classes de conjugação de SÐIÑ e que
cada uma destas é aberta em e s8 ÐIÑ. Concluir, em particular, que M.I é um

58Esteexercício e o próximo, assim como as sugestões para as respectivas resoluções, são


devidos a Cecília Ferreira.
Exercícios 187

ponto isolado de e s8 ÐIÑ.


c) Verificar que existe um difeomorfismo da variedade de Grassmann KÐIÑ,
referida em II.5.13, sobre e s# ÐIÑ, que a cada - − KÐIÑ associa #-  M.I .
Interpretar esse difeomorfismo, mostrando que e s# ÐIÑ é o conjunto das
simetrias relativas a subespaços vectoriais de I .
Ex II.41 Seja I um espaço vectorial de dimensão 8   " e seja E § I . Mostrar
que E é um sector de índice " se, e só se, existe uma aplicação linear
-À I Ä ‘, com - Á !, tal que
E œ ÖB − I ± -ÐBÑ   !×.

Ex II.42 Sejam I um espaço vectorial de dimensão finita e Q § I uma

a) Mostrar que, para cada :   !, - `4 ÐQ Ñ é fechado em Q .


variedade.

4 :
b) Mostrar que, se B − `: ÐQ Ñ, então, para cada ! Ÿ 4 Ÿ :, B é aderente a
`4 ÐQ Ñ.
Ex II.43 Sejam +  , dois números reais. Mostrar que o intervalo Ò+ß ,Ó é uma
variedade de dimensão ", com `" ÐÒ+ß ,ÓÑ œ Ö+ß ,×.
Ex II.44 Mostrar que os seguintes conjuntos não são variedades no ponto
Ð!ß !Ñ − ‘# :
a) E œ ÖÐBß CÑ − ‘# ± B   !, C   !, BC œ !×.
b) F œ ÖÐBß CÑ − ‘# ± B   ! ” C   !×.
c) G œ ÖÐBß CÑ − ‘# ± B   !, ! Ÿ C Ÿ B# ×.
Ex II.45 Considerar a pirâmide quadrangular E de ‘$ , constituída pelos pontos
que se podem escrever na forma Ð>Bß >Cß >Ñ, com B − Ò!ß "Ó, C − Ò!ß "Ó e
> − Ò!ß "Ó. Mostrar que E não é uma variedade no ponto Ð!ß !ß !Ñ.
Sugestão: Mostrar que o cone tangente tÐ!ß!ß!Ñ ÐEÑ não é um sector de ‘$ .
Ex II.46 Considerar o cone E de ‘$ , constituído pelos pontos que se podem
escrever na forma Ð>Bß >Cß >Ñ, com > − Ò!ß "Ó e B#  C # Ÿ ". Mostrar que E
não é uma variedade no ponto Ð!ß !ß !Ñ.
Ex II.47 Sejam I um espaço vectorial de dimensão finita, B! − Q § I , tal que
ÐQ ß B! Ñ seja uma variedade com dimensão 8 e índice :, e 0 À Q Ä ‘ uma
aplicação suave. Mostrar que os conjuntos
K0 œ ÖÐBß CÑ − Q ‚ ‘ ± C œ 0 ÐBÑ×,
K0 œ ÖÐBß CÑ − Q ‚ ‘ ± C   0 ÐBÑ×,
K0 œ ÖÐBß CÑ − Q ‚ ‘ ± C Ÿ 0 ÐBÑ×,

são variedades no ponto ÐB! ß 0 ÐB! ÑÑ e determinar quais as dimensões e


índices nesse ponto.
188 Cap. II. Vectores Tangentes e Variedades

Ex II.48 Seja W § ‘$ a meia superfície esférica


W œ ÖÐBß Cß DÑ − ‘$ ± B#  C #  D # œ ", D   !×.
Mostrar que W é uma variedade de dimensão # e determinar, para cada um
dos pontos Ð!ß !ß "Ñ e Ð!ß "ß !Ñ, o índice e o cone tangente.
Ex II.49 Seja Q § ‘$ o igloo de esquimó,
"
Q œ ÖÐBß Cß DÑ − ‘$ ± B#  C #  D # œ ", D   !, B Ÿ ×.
#
Mostrar que Q é uma variedade de dimensão # e determinar os subconjuntos
`! ÐQ Ñ, `" ÐQ Ñ e `# ÐQ Ñ. Determinar qual o cone tangente de Q no ponto
È$
Ð "# ß # ß !Ñ.

Ex II.50 Sejam I um espaço vectorial de dimensão 8 e B! − Q § I tais que


ÐQ ß B! Ñ seja uma variedade com dimensão 8 e índice ". Seja ? − I tal que
? − tB! ÐQ Ñ, mas ? Â tB! ÐQ Ñ.59
Mostrar que existe &  ! e um aberto Y de `" ÐQ Ñ, com B! − Y , tal que:
1) Para cada B − Y e > − Ó!ß &Ò, B  >? − `! ÐQ Ñ e B  >? Â Q ;
2) Tem lugar um difeomorfismo de Y ‚ Ó&ß &Ò sobre um aberto Y s de I ,
com B! − Y s , que a cada ÐBß >Ñ associa B  >?.60
Sugestão: Utilizar II.6.33 para garantir a existência de um aberto Y s w de I ,
com B! − Y s w , e de uma submersão :À Y s w Ä ‘ tal que :ÐB! Ñ œ ! e que
w w
Q Y s seja o conjunto dos B − Y s tais que :ÐBÑ   !. Verificar que se pode
escolher Y e & de modo que, para cada B − Y e > − Ó&ß &Ò, se tenha
B  >? − Y s w e, notando 0 ÐBß >Ñ œ :ÐB  >?Ñ,
`0
ÐBß >Ñ œ H:B>? Ð?Ñ  !.
`>

Ex II.51 a) Seja B! − Q § ‘8 tal que ÐQ ß B! Ñ seja uma variedade sem bordo


com dimensão 8  ". Mostrar que existe " Ÿ 4 Ÿ 8 tal que o vector /4 da
base canónica de ‘8 não pertença a XB! ÐQ Ñ e que, para cada 4 nessas condi-
ções, existe &  ! verificando a condição seguinte: Sendo
s œ $ ÓB! 5  &ß B! 5  &Ò § ‘8 ,
Y

Y œ $ ÓB! 5  &ß B! 5  &Ò § ‘8" ,


5

5Á4

existe uma aplicação suave 0 À Y Ä ÓB! 4  &ß B! 4  &Ò tal que, para cada

59Intuitivamente, um vector que aponta “estritamente para dentro” de Q .


60Estas s
conclusões costumam ser expressas intuitivamente pela afirmação de que Q  Y
s que está de um dos lados de `" ÐQ Ñ.
é constituído pela parte de Y
Exercícios 189

B−Y s , tem-se B − Q se, e só se, B4 œ 0 ÐB" ß á ß B4" ß B4" ß á ß B8 Ñ.61


Sugestão: Aplicar o teorema da função inversa à restrição a Q da projecção
‘8 Ä ‘8" que “esquece” a coordenada 4.
b) Seja B! − Q § ‘8 tal que ÐQ ß B! Ñ seja uma variedade com dimensão 8 e
índice ". Mostrar que existe " Ÿ 4 Ÿ 8 tal que o vector /4 da base canónica
de ‘8 não pertença a XB! Ð`" ÐQ ÑÑ e que, para cada 4 nessas condições, existe
&  ! tal que, sendo
s œ $ ÓB! 5  &ß B! 5  &Ò § ‘8 ,
Y

Y œ $ ÓB! 5  &ß B! 5  &Ò § ‘8" ,


5

5Á4

existe uma aplicação suave 0 À Y Ä ÓB! 4  &ß B! 4  &Ò para a qual se verifica
uma das duas condições seguintes:62
1) Se B − Ys , tem-se B − Q se, e só se, B4   0 ÐB" ß á ß B4" ß B4" ß á ß B8 Ñ;
2) Se B − Ys , tem-se B − Q se, e só se, B4 Ÿ 0 ÐB" ß á ß B4" ß B4" ß á ß B8 Ñ.
Sugestão: Aplicar a conclusão de a) à variedade `" ÐQ Ñ, no ponto B! , e ter
em conta a conclusão do exercício II.50.
Ex II.52 Sejam I um espaço vectorial de dimensão finita, +  , dois números
reais e 0 À Ò+ß ,Ó Ä I uma aplicação suave, tal que 0 w Ð>Ñ Á !, para cada
> − Ò+ß ,Ó (um caminho regular). Mostrar que, se 0 é injectiva, então 0 é um
difeomorfismo de Ò+ß ,Ó sobre a sua imagem, em particular 0 ÐÒ+ß ,ÓÑ é uma
variedade de dimensão ", com bordo Ö0 Ð+Ñß 0 Ð,Ñ×. Determinar quais o cone
tangente e o espaço vectorial tangente em cada elemento de 0 ÐÒ+ß ,ÓÑ.
Ex II.53 Generalizar o que foi feito no exercício II.26, permitindo que as
variedades ÐQ ß B! Ñ e ÐQ w ß C! Ñ tenham bordo, à custa de reforçar convenien-
temente a condição de transversalidade.
Ex II.54 Sejam I um espaço vectorial de dimensão 8 e Q § I uma variedade
sem cantos, de dimensão igual à do espaço ambiente (portanto `4 ÐQ Ñ œ g,
para cada 4   #). Mostrar que existe um aberto Y de I , com Q § Y , e uma
aplicação suave 0 À Y Ä ‘ tal que, para cada B − `" ÐQ Ñ, H0B À I Ä ‘ seja
uma aplicação linear sobrejectiva e que se tenha
Q œ ÖB − Y ± 0 ÐBÑ   !×,
`" ÐQ Ñ œ ÖB − Y ± 0 ÐBÑ œ !×

(a variedade é definível globalmente por uma inequação). Mostrar ainda que,


no caso em que Q é fechado em I , pode-se tomar Y œ I . Sugestão: A

61Localmente, pelo menos no caso em que 4 œ 8, podemos dizer que Q é o gráfico da


aplicação 0 .
62Pelo menos no caso em que 4 œ 8, podemos dizer que, localmente, Q é a parte de
cima ou a parte de baixo do gráfico de 0 .
190 Cap. II. Vectores Tangentes e Variedades

versão local deste resultado é uma consequência do lema em II.6.33. Para


passar para a versão global, utilizar uma partição da unidade, começando por
substituir provisoriamente o intervalo Ò!ß _Ò e o conjunto Ö!× por Ò"ß _Ò
e Ö"×, respectivamente.
Ex II.55 Seja Q um espaço topológico localmente compacto, separado e de base
contável. Mostrar que a classe dos subconjuntos 5-compactos de Q é
fechada para as intersecções finitas e para as uniões finitas ou numeráveis e
contém tanto os subconjuntos abertos como os subconjuntos fechados de Q .
Mostrar ainda que, se Q s é outro espaço topológico localmente compacto,
separado e de base contável e 0 À Q Ä Q s é uma aplicação contínua, então a
imagem directa de um subconjunto 5 -compacto de Q é um subconjunto
5 -compacto de Q s e a imagem recíproca de um subconjunto 5 -compacto de
s
Q é um subconjunto 5 -compacto de Q .
Ex II.56 Sejam I um espaço vectorial de dimensão 8, Y um aberto de I e
O § Y um conjunto compacto. Mostrar que existe uma variedade compacta,
sem cantos, de dimensão 8, Q § Y , tal que O § `! ÐQ Ñ. Sugestão: Pelo
teorema da partição da unidade, e depois de substituir eventualmente Y por
um aberto mais pequeno que seja limitado, considerar uma função suave
0 À I Ä Ò!ß "Ó, nula fora duma certa parte compacta de Y e tal que 0 ÐBÑ œ ",
para cada B − O . Construir a variedade Q a partir dum valor regular de 0 no
intervalo Ó!ß "Ò.
Ex II.57 Sejam I um espaço vectorial de dimensão 8 e Q § I uma variedade
de dimensão menor ou igual a 7 em cada um dos seus pontos.
a) Mostrar que, se 8   #7  ", então, para cada $  !, existe A − I , com
mAm  $, tal que Q  ÐA  Q Ñ œ g. Constatar que a condição 8   #7  "
não é desnecessária, examinando o que se passa com a circunferência de
centro ! e raio " em ‘# . Sugestão: Aplicar o teorema de Sard, ou
directamente o seu corolário II.7.17, à aplicação 0 À Q ‚ Q Ä I , definida
por 0 ÐBß CÑ œ C  B.
b) Mostrar que, se 8   #7  #, então existe A − I tal que, para cada
> − ‘ Ï Ö!× e B − Q , B  >A Â Q . Sugestão: Considerar a aplicação
1À Q ‚ Q ‚ ‘ Ä I , definida por 1ÐBß Cß =Ñ œ =ÐC  BÑ.
Ex II.58 Sejam I um espaço vectorial de dimensão finita e Q § I uma
variedade. Mostrar que o bordo total
`ÐQ Ñ œ . `5 ÐQ Ñ
5 "

é um subconjunto magro de Q .
Ex II.59 Sejam Q § I e Q s §I s duas variedades, ambas eventualmente com
bordo e 0 À Q Ä Q s uma aplicação suave. Generalizando as definições em
II.7.1 e II.7.15, chamemos pontos regulares de 0 aos pontos B − Q tais
que, sendo B − `5 ÐQ Ñ, a aplicação linear
Exercícios 191


HÐ0Î`5 ÐQ Ñ ÑÀ XB Ð`5 ÐQ ÑÑ Ä X0 ÐBÑ ÐQ

seja sobrejectiva, chamemos pontos críticos de Q aos restantes pontos de


Q , chamemos valores críticos de 0 àqueles que são imagem de algum ponto
crítico de 0 e valores regulares de 0 aos elementos de Q s que não são
valores críticos. Verificar que, se B − Q é um ponto regular de Q , então
0 ÐBÑ − `! ÐQs Ñ e que, ainda neste caso, o conjunto dos valores críticos de 0 é
um subconjunto magro de Q s.
Ex II.60 Lembrar a noção de grupo de Lie referida em II.5.3 e as respectivas
propriedades, estudadas no exercício II.33.
Mostrar que, se K § I e K s§I s são grupos de Lie e 0 À K Ä Ks é um
morfismo de grupos suave e sobrejectivo então 0 é uma submersão.
Sugestão: Utilizar o corolário do teorema de Sard em II.7.22, depois de
mostrar que 0 é uma aplicação suave homogénea.
Ex II.61 Sejam K um grupo de Lie, com elemento neutro /, e Q uma variedade.
Chama-se acção suave (à esquerda) de K em Q a uma aplicação suave
K ‚ Q Ä Q , que notaremos Ð1ß BÑ È 1B, verificando as propriedades
/B œ B e Ð1 † 2ÑB œ 1Ð2BÑÑ, para B − Q e 1ß 2 − K . Uma tal acção diz-se
transitiva se, quaisquer que sejam Bß C − Q , existe 1 − K tal que C œ 1B.
a) Mostrar que, dada uma acção suave, tem lugar, para cada 1 − K , um
difeomorfismo P s1 À Q Ä Q , definido por P s1 ÐBÑ œ 1B, cujo inverso é P
s1" e
deduzir que, no caso em que a acção suave é transitiva, Q é uma variedade
homogénea, em particular não tem bordo e tem a mesma dimensão em todos
os pontos.
b) Mostar que, se I é um espaço euclidiano ou hermitiano de dimensão 8,
então, para cada ! Ÿ 5 Ÿ 8, tem lugar uma acção suave transitiva do grupo
de Lie SÐIÑ na variedade de Grassmann K5 ÐIÑ definida, por Ð0ß -Ñ È
0 ‰ - ‰ 0‡ , ou, equivalentemente, por Ð0ß 1J Ñ È 10ÐJ Ñ .
c) Mostrar que, dada uma acção suave transitiva, tem lugar, para cada
B − Q , uma aplicação suave sobrejectiva V s B À K Ä Q , definida por
Vs B Ð1Ñ œ 1B. Verificar que esta aplicação é homogénea e deduzir, pelo
corolário do teorema de Sard em II.7.22, que a aplicação é uma submersão.
Ex II.62 Seja I um espaço vectorial, real ou complexo, de dimensão 8, munido
de um produto interno. Seja ! Ÿ 5 Ÿ 8 e consideremos a variedade de Stiefel
Z5 ÐIÑ § I 5 , dos sistemas ortonormados de 5 vectores de I (cf. o exercício
II.34), e a variedade de Grassmann K5 ÐIÑ § PÐIà IÑ, das projecções
ortogonais sobre subespaços vectoriais de dimensão 5 de I (cf. II.5.13).
a) Mostrar que tem lugar uma aplicação suave FÀ Z5 ÐIÑ Ä K5 ÐIÑ, que a
cada ÐB" ß á ß B5 Ñ associa a projecção ortogonal 1J , onde J é o subespaço
vectorial gerado por por B" ß á ß B5 e que esta aplicação é sobrejectiva.
b) Verificar que a aplicação suave F é homogénea e aplicar o corolário do
teorema de Sard em II.7.22 para concluir que FÀ Z5 ÐIÑ Ä K5 ÐIÑ é uma
192 Cap. II. Vectores Tangentes e Variedades

submersão. Sugestão: Cada isomorfismo ortogonal 0À I Ä I determina um


difeomorfismo natural Z5 ÐIÑ Ä Z5 ÐIÑ e um difeomorfismo natural
K5 ÐIÑ Ä K5 ÐIÑ, que a cada 1J associa 10ÐJ Ñ œ 0 ‰ 1J ‰ 0" .
Ex II.63 Sejam Q § I , Q s §I s e Q˜ § I˜ três variedades sem bordo,
0À Q ‚ Q s Ä Q˜ uma aplicação suave e D! − Q˜ um valor regular de 0 .
Verificar que existe um conjunto magro E § Q tal que, para cada
B − Q Ï E, D! é um valor regular da aplicação 0ÐBÑ À Qs Ä Q˜ , definida por
0ÐBÑ ÐCÑ œ 0 ÐBß CÑ. Sugestão: Reparar que o conjunto
s ± 0 ÐBß CÑ œ D! ×
G œ ÖÐBß CÑ − Q ‚ Q
é uma variedade sem bordo, determinar o respectivo espaço vectorial
tangente em cada ponto, e aplicar o teorema de Sard à restrição da primeira
projecção Q ‚ Qs Ä Q a G.
CAPÍTULO III
Fibrados Vectoriais e o Ambiente Euclidiano

§1. Fibrados vectoriais.

III.1.1 Sejam K um espaço vectorial real de dimensão finita e E § K um


subconjunto arbitrário. Se I é um espaço vectorial, real ou complexo, de
dimensão finita, vamos chamar família de subespaços vectoriais de I de
base E a uma família I œ ÐIB ÑB−E em que, para cada B − E, IB é um
subespaço vectorial de I . Dizemos então que E é a base de I e que IB é a
fibra de I no ponto B − E. Dizemos também que K é o espaço ambiente da
base e que I é o espaço ambiente das fibras.

Uma família de subespaços vectoriais de I de base E é uma aplicação


cujo domínio é E e que toma valores no conjunto dos subespaços
vectoriais de I . Os fibrados vectoriais, que definiremos em seguida, vão
ser intuitivamente as famílias de subespaços vectoriais que, enquanto apli-
cações de domínio E, são suaves. O facto de o conjunto dos subespaços
vectoriais de I não ser uma parte de um espaço vectorial faz com que
esta definição não possa ser formalizada, dentro do contexto em que nos
colocamos. Somos portanto obrigados a encontrar uma definição ad hoc,
que corresponda à ideia intuitiva atrás referida. Será cómodo começar por
apresentar algumas definições que correspondem, neste contexto, à
composição e à restrição de aplicações.

III.1.2 Sejam Es§K s e E § K dois subconjuntos de espaços vectoriais de


s Ä E uma aplicação. Se I œ ÐIB ÑB−E é uma família
dimensão finita e 0 À E
de subespaços vectoriais de I de base E, define-se a sua imagem recíproca
s
por meio de 0 como sendo a família de subespaços vectoriais de I de base E
0 ‡ I œ ÐI0 ÐCÑ ÑC−Es

(olhando para I como aplicação de domínio E, 0 ‡ I vai ser portanto a


composta de I com 0 ). Um caso particular importante é aquele em que
Es § E § K e em que tomamos para 0 À E s Ä E a inclusão, definida por
s. Dizemos então que a imagem recíproca 0 ‡ I é a
0 ÐBÑ œ B, para cada B − E
s e notamo-la I s . Tem-se portanto
restrição de I a E ÎE

I ÎEs œ ÐIB ÑB−Es


194 Cap. III. Fibrados Vectoriais e o Ambiente Euclidiano

(olhando para I como aplicação de domínio E, temos simplesmente a restri-


s de E).
ção desta aplicação ao subconjunto E
III.1.3 Sejam K um espaço vectorial real de dimensão finita, E § K um
subconjunto, I um espaço vectorial e I œ ÐIB ÑB−E uma família de subes-
s é outro espaço vectorial e 0À I Ä I
paços vectoriais de I de base E. Se I sé
uma aplicação linear, define-se a imagem directa de I por meio de 0 como
s de base E
sendo a família de subespaços vectoriais de I
0‡ I œ Ð0ÐIB ÑÑB−E .

III.1.4 Sejam E § K e I œ ÐIB ÑB−E uma família de subespaços vectoriais de I


de base E. Chama-se secção de I a uma família [ œ Ð[B ÑB−E tal que, para
cada B − E, [B − IB (uma secção é portanto uma escolha de um elemento
em cada uma das fibras). Uma secção é uma aplicação de E em I , verifi-
cando uma condição restritiva, e dizemos que a secção é suave se isso lhe
acontecer enquanto aplicação de E em I .
III.1.5 Sejam E § K, I œ ÐIB ÑB−E uma família de subespaços vectoriais de I
de base E e [ œ Ð[B ÑB−E uma secção de I . Dados E s§K s e a aplicação
s
0 À E Ä E, define-se a imagem recíproca da secção [ por meio de 0 como
sendo a secção 0 ‡ [ œ Ð[0 ÐCÑ ÑC−Es de 0 ‡ I . É claro que 0 ‡ [ não é mais do
que a composta de [ com 0 pelo que, se a aplicação 0 À E s Ä E é suave e se
[ é uma secção suave de I , então 0 [ é uma secção suave de 0 ‡ I .

Como caso particular importante, temos mais uma vez aquele em que E s§E
e tomamos para 0 À Es Ä E a inclusão. A secção imagem recíproca 0 [ não ‡

é então mais do que a restrição de [ a E s, restrição essa que se nota natural-


mente [ÎEs .

III.1.6 Sejam E § K, I œ ÐIB ÑB−E uma família de subespaços vectoriais de I


de base E e [ œ Ð[B ÑB−E uma secção de I . Dados outro espaço vectorial
Is e uma aplicação linear 0À I Ä Is , define-se a imagem directa da secção
[ por meio de 0 como sendo a secção 0‡ [ œ Ð0Ð[B ÑÑB−E de 0‡ I . É claro
que 0‡ [ não é mais do que a composta de 0 com [ pelo que, se [ é uma
secção suave de I , também 0‡ [ é uma secção suave de 0‡ I .
III.1.7 Sejam E § K e I œ ÐIB ÑB−E uma família de subespaços vectoriais de I ,
de base E. Chama-se campo de referenciais de I a um sistema de secções
suaves [" ß á ß [8 de I , tal que, para cada B − E, [" B ß á ß [8 B seja uma
base da fibra IB . Diz-se que I é um fibrado vectorial trivial se admitir um
campo de referenciais. Diz-se que I é um fibrado vectorial se I é local-
mente um fibrado vectorial trivial, no sentido que, para cada B − E, exista
um aberto Y de E, com B − Y , tal que I ÎY seja um fibrado vectorial trivial.
III.1.8 Sejam E § K, I um espaço vectorial de dimensão finita e J § I um
subespaço vectorial. Tem então lugar um fibrado vectorial trivial, que
§1. Fibrados vectoriais 195

notaremos JE , cuja fibra em cada B − E é igual a J . Dizemos que JE é o


fibrado vectorial constante de fibra J .
Dem: Se A" ß á ß A8 é uma base de J , é claro que as secções suaves cons-
tantes de valores A" ß á ß A8 constituem um campo de referenciais de JE . …
III.1.9 Seja Q § K uma variedade. Tem então lugar um fibrado vectorial
X ÐQ Ñ, de base Q , com as fibras contidas em K , cuja fibra em cada B − Q é
o espaço vectorial tangente XB ÐQ Ñ. Dizemos que X ÐQ Ñ é o fibrado vectorial
tangente da variedade Q . Mais precisamente, se Y é um aberto de Q
difeomorfo a um aberto dum sector dum espaço vectorial de dimensão finita,
então X ÐQ ÑÎY é um fibrado vectorial trivial.
Dem: Sabemos, por definição, que, para cada B − Q , existe um aberto Y de
Q , com B − Y , um aberto Z dum sector E dum espaço vectorial J de
dimensão finita e um difeomorfismo :À Z Ä Y . O resultado ficará portanto
demonstrado se virmos que, para cada Y nestas condições, X ÐQ ÑÎY é um
fibrado vectorial trivial. Fixemos uma base A" ß á ß A8 de J . Para cada
B − Y , H::" ÐBÑ é um isomorfismo de
X:" ÐBÑ ÐZ Ñ œ X:" ÐBÑ ÐEÑ œ J

sobre XB ÐY Ñ œ XB ÐQ Ñ pelo que, sendo, para cada " Ÿ 4 Ÿ 8,


[4 B œ H::" ÐBÑ ÐA4 Ñ,

[" B ß á ß [8 B vai ser uma base de XB ÐQ Ñ. Se provarmos que cada


[4 œ Ð[4 B ÑB−Y é uma secção suave de X ÐQ ÑÎY , obtivemos portanto um
campo de referenciais de X ÐQ ÑÎY e o resultado ficará demonstrado. Ora,
sendo Zs um aberto de J , contendo Z , e : s Ä K uma aplicação suave
sÀ Z
prolongando :, sabemos que vai ter lugar uma aplicação suave
H:sÀ Zs Ä PÐJ à KÑ, aplicação essa que, restringida a Z e composta à direita
com o difeomorfismo :" À Y Ä Z e à esquerda com a aplicação linear de
PÐJ à KÑ em K , que a - associa -ÐA4 Ñ, vai dar precisamente a aplicação
[4 À Y Ä K, o que nos permite concluir que cada [4 é efectivamente uma
aplicação suave. …
III.1.10 Em geral, quando a variedade Q não admitir uma carta global, isto é,
quando não for difeomorfa a um aberto dum sector, o fibrado vectorial
X ÐQ Ñ poderá não ser trivial. O exemplo que apresentamos em seguida
mostra um caso em que uma variedade, que não admite uma carta global,
verifica mesmo assim a propriedade de o seu fibrado vectorial tangente ser
trivial.
Seja W § ‘# a circunferência de centro Ð!ß !Ñ e raio ",
W œ ÖÐBß CÑ − ‘# ± B#  C # œ "×.
Para cada ÐBß CÑ − W , sabemos que XÐBßCÑ ÐWÑ é o subespaço vectorial de
dimensão " de ‘# constituído pelos vectores ortogonais a ÐBß CÑ. Uma vez
196 Cap. III. Fibrados Vectoriais e o Ambiente Euclidiano

que ÐCß BÑ é não nulo e ortogonal a ÐBß CÑ, concluímos que tem lugar o
campo de referenciais de X ÐWÑ constituído pela secção suave [ , definida
por [ÐBßCÑ œ ÐCß BÑ.
Não se deve pensar que este resultado seja generalizável para qualquer
dimensão. Por exemplo, pode-se provar, embora com instrumentos de que
não dispômos neste curso, que, sendo W w § ‘$ a superfície esférica de centro
Ð!ß !ß !Ñ e raio ",
W w œ ÖÐBß Cß DÑ − ‘$ ± B#  C #  D # œ "×,
X ÐW w Ñ não é um fibrado vectorial trivial, não existindo sequer uma secção
suave de X ÐW w Ñ que nunca se anule.63
III.1.11 Sejam E s§K s e E § K dois subconjuntos de espaços vectoriais reais de
dimensão finita e 0 À E s Ä E uma aplicação suave. Seja I œ ÐIB ÑB−E uma
família de subespaços vectoriais de I de base E, e consideremos a imagem
recíproca 0 ‡ I . Tem-se então:
a) Se I é um fibrado vectorial trivial, o mesmo acontece a 0 ‡ I ;
b) Se I é um fibrado vectorial, o mesmo acontece a 0 ‡ I .
Dem: Se I é um fibrado vectorial trivial, podemos considerar um campo de
referenciais [" ß á ß [8 de I e então é imediato que se obtém um campo de
referenciais 0 ‡ [" ß á ß 0 ‡ [8 para 0 ‡ I . Suponhamos agora que I é
simplesmente um fibrado vectorial. Dado C − E s arbitrário, vai existir um
aberto Y de E, com 0 ÐCÑ − Y , tal que I ÎY seja um fibrado vectorial trivial.
Pela continuidade de 0 , podemos considerar um aberto Z de E s, com C − Z ,
tal que 0 ÐZ Ñ § Y . Tem-se então que Ð0 IÑÎZ œ Ð0ÎZ Ñ I ÎY é um fibrado
‡ ‡

vectorial trivial, o que mostra que 0 ‡ I é um fibrado vectorial. …


III.1.12 Sejam 0À I Ä I s uma aplicação linear, E § K um subconjunto dum
espaço vectorial real de dimensão finita e I œ ÐIB ÑB−E uma família de
subespaços vectoriais de I de base E, e consideremos a imagem directa
0‡ I œ Ð0ÐIB ÑÑB−E . Suponhamos que, para cada B − E, a restrição
0ÎIB À IB Ä I s é injectiva (o que acontece, em particular se a aplicação linear
0À I Ä I s for injectiva). Tem-se então:
a) Se I é um fibrado vectorial trivial, o mesmo acontece a 0‡ I ;
b) Se I é um fibrado vectorial, o mesmo acontece a 0‡ I .
Dem: A conclusão de b) é uma consequência imediata da de a) e esta resulta
de que, se [" ß á ß [8 é um campo de referenciais de I , então 0‡ [" ß
á ß 0‡ [8 é um campo de referenciais de 0‡ I . …
III.1.13 Sejam E § K e I œ ÐIB ÑB−E um fibrado vectorial trivial, com IB § I ,
onde I é um espaço vectorial sobre Š. Seja [" ß á ß [8 um campo de
referenciais de I . Seja [ uma secção de I e sejam 0" ß á ß 08 À E Ä Š as

63Éeste facto que está na origem da impossibilidade, que se pode intuir experimental-
mente, de pentear uma bola cabeluda, sem permitir a formação de remoínhos.
§1. Fibrados vectoriais 197

aplicações definidas por


[B œ 0" ÐBÑ[" B  â  08 ÐBÑ[8 B .
Tem-se então que [ é uma secção suave se, e só se, cada aplicação
04 À E Ä Š é suave.
Dem: É imediato que, se cada 04 À E Ä Š é uma aplicação suave, então [ é
uma aplicação suave de E em I , portanto uma secção suave de I .
Suponhamos, reciprocamente, que [ é uma secção suave de I . Seja B! − E
arbitrário. Podemos então considerar vectores A8" ß á ß A7 − I tais que se
obtenha uma base [" B! ß á ß [8 B! ß A8" ß á ß A7 de I . Seja . œ Ð.B ÑB−E a
aplicação suave de E em PЊ7 à IÑ definida por
.B Ð+" ß á ß +7 Ñ œ +" [" B  â  +8 [8 B  +8" A8"  â  +7 A7
(cf. II.2.12). Uma vez que .B! aplica a base canónica de Š7 numa base de I ,
concluímos que .B! é um isomorfismo de Š7 sobre I . Tendo em conta I.8.1,
podemos garantir a existência de um aberto Y de E, com B! − Y , tal que,
para cada B − Y , .B seja um isomorfismo de Š7 sobre I e que seja suave a
aplicação de Y em PÐIà Š7 Ñ, que a B associa ." B . Uma vez que, para cada
B − Y,
[B œ .B Ð0" ÐBÑß á ß 08 ÐBÑß !ß á ß !Ñ,
e portanto Ð0" ÐBÑß á ß 08 ÐBÑß !ß á ß !Ñ œ ."
B Ð[B Ñ, concluímos que é suave a
restrição de cada 04 a Y . O facto de a noção de aplicação suave ser local
permite-nos concluir finalmente que cada 04 é uma aplicação suave de E em
Š. …
III.1.14 É evidente que, se I œ ÐIB ÑB−E é um fibrado vectorial trivial, então
todas as fibras IB são espaços vectoriais com a mesma dimensão. Resulta
daqui que, se I œ ÐIB ÑB−E é um fibrado vectorial, então, para cada B! − E,
existe um aberto Y de E, com B! − Y , tal que cada IB , com B − Y , tem a
mesma dimensão que IB! . Podemos assim concluir que, se a base E for
conexa, todas as fibras IB dum fibrado vectorial I œ ÐIB ÑB−E têm a mesma
dimensão (fixado B! , o conjunto dos B tais que a dimensão de IB é a mesma
que a de IB! vai ser simultaneamente aberto e fechado em E).
Em geral, dizemos que um fibrado vectorial I œ ÐIB ÑB−E tem dimensão 8
se todas as fibras IB tiverem dimensão 8.

Ao revermos o estudo dos espaços euclidianos e hermitianos, verificámos


que um tal espaço admite sempre uma base ortonormada. Em particular,
para cada sistema linearmente independente B" ß á ß B7 de vectores de um
tal espaço I , sabemos que vai existir uma base ortonormada para o
subespaço vectorial de I gerado por aquele sistema de vectores. No que
se vai seguir teremos necessidade de estabelecer a possibilidade de
escolher os elementos dessa base ortonormada como funções suaves dos
198 Cap. III. Fibrados Vectoriais e o Ambiente Euclidiano

vectores B" ß á ß B7 . Isso vai ser conseguido a partir do conhecido método


de ortogonalização de Gram-Schmidt.

III.1.15 Se I é um espaço vectorial, real ou complexo, de dimensão finita. Para


cada 7   1, vamos notar H7 ÐIÑ o subconjunto de I 7 constituído pelos
sistemas linearmente independentes ÐB" ß á ß B7 Ñ e, supondo fixado um
produto interno em I , definimos uma aplicação 07 À H7 ÐIÑ Ä I pela
condição de 07 ÐB" ß á ß B7 Ñ ser a projecção ortogonal de B7 sobre o
complementar ortogonal do subespaço vectorial gerado por B" ß á ß B7" .
III.1.16 Seja I é um espaço vectorial, real ou complexo, de dimensão finita,
munido de um produto interno. Para cada 7   " tem-se então:
a) H7 ÐIÑ é aberto em I 7 ;
b) A aplicação 07 À H7 ÐIÑ Ä I é suave.
c) Para cada ÐB" ß á ß B7 Ñ − H7 ÐIÑ, os vectores
0" ÐB" Ñß 0# ÐB" ß B# Ñß á ß 07 ÐB" ß á ß B7 Ñ
constituem uma base ortogonal do subespaço vectorial de I gerado por
B" ß á ß B7 (diz-se que estes vectores são os construídos a partir de
B" ß á ß B7 pelo método de ortogonalização de Gram-Schmidt).
Dem: A demonstração é por indução completa em 7. O caso 7 œ " resulta
simplesmente de que H" ÐIÑ œ I Ï Ö!× e de que 0" ÐB" Ñ é a projecção
ortogonal de B" sobre Ö!×¼ œ I , portanto 0" ÐB" Ñ œ B" . Seja então 7  " e
suponhamos o resultado verdadeiro quando o número de vectores é menor
que 7. Tendo em conta a hipótese de indução, podemos considerar o aberto
Hw 7 ÐIÑ de I 7 , contendo H7 ÐIÑß constituído pelos ÐB" ß á ß B7 Ñ tais que
ÐB" ß á ß B7" Ñ − H7" ÐIÑ e prolongar, com a mesma definição, a aplicação
07 À H7 ÐIÑ Ä I a Hw 7 ÐIÑ. Pela hipótese de indução, para cada
ÐB" ß á ß B7 Ñ − Hw 7 ÐIÑ, 0" ÐB" Ñß 0# ÐB" ß B# Ñß á ß 07" ÐB" ß á ß B7" Ñ é uma
base ortogonal do subespaço vectorial gerado por B" ß á ß B7" , pelo que,
tendo em conta I.2.20,

07 ÐB" ß á ß B7 Ñ œ B7  "
7"
ØB7 ß 04 ÐB" ß á ß B4 ÑÙ
04 ÐB" ß á ß B4 Ñ.
4œ"
Ø04 ÐB" ß á ß B4 Ñß 04 ÐB" ß á ß B4 ÑÙ

Esta fórmula mostra, mais uma vez pela hipótese de indução, que
07 À Hw 7 ÐIÑ Ä I é suave e o facto de se ter ÐB" ß á ß B7 Ñ − H7 ÐIÑ se, e só
se, ÐB" ß á ß B7 Ñ − Hw 7 ÐIÑ e 07 ÐB" ß á ß B7 Ñ Á ! vai implicar que H7 ÐIÑ é
aberto em I 7 . Para cada ÐB" ß á ß B7 Ñ − H7 ÐIÑ, a mesma fórmula mostra
que 07 ÐB" ß á ß B7 Ñ, que, por construção, é ortogonal ao subespaço gerado
por B" ß á ß B7" , e portanto, em particular, ortogonal a cada 04 ÐB" ß á ß B4 Ñ
com 4  7, pertence ao subespaço vectorial gerado por B" ß á ß B7 , o que
implica que 0" ÐB" Ñß 0# ÐB" ß B# Ñß á ß 07 ÐB" ß á ß B7 Ñ é efectivamente uma base
ortogonal desse subespaço. …
§1. Fibrados vectoriais 199

Repare-se que, no caso em que o corpo Š dos escalares é ‚, não


afirmamos, de modo nenhum, que as aplicações 07 sejam holomorfas,
uma vez que o produto interno é antilinear, e não linear complexo, na
segunda variável.
Por vezes é mais conveniente trabalharmos com bases ortonormadas, e
não apenas ortogonais, mas estas são obtidas de modo trivial a partir do
resultado precedente.

III.1.17 (Corolário) Seja I é um espaço vectorial, real ou complexo, de dimen-


são finita, munido de um produto interno. Para cada 7   " tem então lugar
uma aplicação suave 17 À H7 ÐIÑ Ä I definida por
07 ÐB" ß á ß B7 Ñ
17 ÐB" ß á ß B7 Ñ œ ,
m07 ÐB" ß á ß B7 Ñm
e, para cada ÐB" ß á ß B7 Ñ − H7 ÐIÑ,
1" ÐB" Ñß 1# ÐB" ß B# Ñß á ß 17 ÐB" ß á ß B7 Ñ
é uma base ortonormada do subespaço vectorial gerado por B" ß á ß B7 (que
se diz ser a obtida a partir destes vectores pelo método de ortonormalização
de Gram-Schmidt).

Vamos agora utilizar os resultados precedentes para apresentar uma


caracterização alternativa dos fibrados vectoriais, no caso em que o
espaço vectorial I , ambiente das fibras, está munido de um produto
interno. Essa caracterização vai ser fundamental para o estudo da
Geometria Diferencial dos fibrados vectoriais e das variedades, com
espaço ambiente euclidiano ou hermitiano.

III.1.18 Sejam E § K, I um espaço euclidiano ou hermitiano e I œ ÐIB ÑB−E


uma família de subespaços vectoriais de I de base E. Notemos, para cada
B − E, 1B À I Ä IB e 1B¼ À I Ä IB¼ as projecções ortogonais sobre a fibra e
sobre o respectivo complementar ortogonal. Tem-se então:
a) Se I é um fibrado vectorial trivial, então I admite um campo de
referenciais ortonormado, isto é, um campo de referenciais [" ß á ß [8 tal
que, para cada B − E, [" B ß á ß [8 B seja uma base ortonormada de IB ;
b) I é um fibrado vectorial se, e só se, a aplicação 1 œ Ð1B ÑB−E , de E em
PÐIà IÑ, é suave;
c) Se I é um fibrado vectorial, então, dados B! − E, uma base A" ß á ß A8 de
IB! e uma base A8" ß á ß A7 de IB¼! , existe um aberto Y de E, com B! − Y ,
tal que, para cada B − Y , 1B ÐA" Ñß á ß 1B ÐA8 Ñ seja uma base da fibra IB e
1B¼ ÐA8" Ñß á ß 1B¼ ÐA7 Ñ seja uma base de IB¼ .
Dem: Comecemos por supor que I é um fibrado vectorial trivial. Podemos
então considerar um campo de referenciais [" ß á ß [8 de I , isto é, uma
família de aplicações suaves de E em I tal que, para cada B − E,
200 Cap. III. Fibrados Vectoriais e o Ambiente Euclidiano

[" B ß á ß [8 B seja uma base de IB . Tendo em conta III.1.17 podemos então


considerar as aplicações suaves ^" ß á ß ^8 À E Ä I , definidas por
^4 B œ 14 Ð[" B ß á ß [4 B Ñ,

as quais vão constituir um campo de referenciais ortonormado de I .


Suponhamos agora que I é um fibrado vectorial, não forçosamente trivial.
Seja B! − E arbitrário. Podemos então considerar um aberto Y de E, com
B! − Y , tal que I ÎY seja um fibrado vectorial trivial, existindo portanto
aplicações suaves [" ß á ß [8 , de Y em I , tais que, para cada B − Y ,
[" B ß á ß [8 B seja uma base ortonormada de IB . Para cada B − Y e A − I ,
tem-se então
1B ÐAÑ œ ØAß [" B Ù[" B  â  ØAß [8 B Ù[8 B ,
de onde se deduz, tendo em conta II.2.12, que é suave a aplicação de Y em
PÐIà IÑ, que a B associa 1B . Uma vez que a noção de aplicação suave é
local, concluímos portanto que é suave a aplicação de E em PÐIà IÑ, que a
B associa 1B .
Suponhamos agora que é suave a aplicação de E em PÐIà IÑ, que a B
associa 1B . É claro que é então também suave a aplicação de E em PÐIà IÑ,
que a B associa 1B¼ œ M.I  1B . Seja B! − E arbitrário e consideremos uma
base A" ß á ß A8 de IB! e uma base A8" ß á ß A7 de IB¼! . Podemos então
considerar uma aplicação suave de FÀ E Ä I 7 , definida por
FÐBÑ œ Ð1B ÐA" Ñß á ß 1B ÐA8 Ñß 1B¼ ÐA8" Ñß á ß 1B¼ ÐA7 ÑÑ.
Uma vez que a imagem de B! por esta aplicação é a base A" ß á ß A7 de I ,
concluímos de III.1.16 que existe um aberto Y de E, com B! − Y , tal que,
para cada B − Y , FÐBÑ seja uma base de I . Uma vez que as primeiras 8
componentes de FÐBÑ pertencem a IB e que as últimas 7  8 componentes
de FÐBÑ pertencem a IB¼ , concluímos que, para cada B − Y ,
1B ÐA" Ñß á ß 1B ÐA8 Ñ é uma base de IB e 1B¼ ÐA8" Ñß á ß 1B¼ ÐA7 Ñ é uma base
de IB¼ .64 Obtivemos assim um campo de referenciais [" ß á ß [8 de I ÎY ,
definido por [4 B œ 1B ÐA4 Ñ, pelo que ficou provado que I ÎY é um fibrado
vectorial trivial e portanto I é um fibrado vectorial. …

No caso em que I é um espaço euclidiano ou hermitiano, podemos agora


reexaminar a interpretação intuitiva dos fibrados vectoriais I œ ÐIB ÑB−E
como aplicações suaves de E no conjunto †ÐIÑ dos subespaços
vectoriais de I . Podemos considerar que uma tal aplicação é suave
quando o for a sua composição com a bijecção deste conjunto sobre o
subonjunto KÐIÑ § PÐIà IÑ, que a cada subespaço J associa a
projecção ortogonal 1J (cf. II.5.12 e II.5.13).

64Trata-sede um exercício simples de Álgebra Linear, que pode ser resolvido, por
exemplo, pelo exame das dimensões dos espaços em questão.
§1. Fibrados vectoriais 201

III.1.19 (Corolário) Sejam E § K e I œ ÐIB ÑB−E um fibrado vectorial, com as


fibras IB contidas no espaço euclidiano ou hermitiano I . Tem então lugar
um novo fibrado vectorial I ¼ œ ÐIB¼ ÑB−E .
Dem: Uma vez que é suave a aplicação de E em PÐIà IÑ, que a cada B
associa a projecção ortogonal 1B , de I sobre IB , vem também suave a
aplicação de E em PÐIà IÑ, que a cada B associa a projecção ortogonal 1B¼ ,
de I sobre IB¼ , que é igual a M.I  1B . 
III.1.20 (Corolário) Sejam E § K e I œ ÐIB ÑB−E um fibrado vectorial, com
IB § I . Dados B! − E e A − IB! , existe então uma secção suave
[ œ Ð[B ÑB−E de I , tal que [B! œ A.
Dem: Fixando um produto interno em I , sabemos que tem lugar uma
aplicação suave de E em PÐIà IÑ, que a cada B associa a projecção
ortogonal 1B , de I sobre IB , bastando então definir [B œ 1B ÐAÑ. 
III.1.21 (Aplicação às variedades de Grassmann) Sejam I e I s dois espaços
vectoriais de dimensão finita, reais ou complexos, munidos de produto
interno e seja 0À I Ä Is uma aplicação linear injectiva, não necessariamente
ortogonal. Considerando as variedades de Grassmann KÐIÑ § PÐIà IÑ e
KÐIÑs § PÐIà s IÑ
s (cf. II.5.12 e II.5.13), tem então lugar uma aplicação suave
s
0‡ À KÐIÑ Ä KÐIÑ
que associa a cada projecção ortogonal 1J a projecção ortogonal 10ÐJ Ñ. Esta
aplicação é mesmo um difeomorfismo de KÐIÑ sobre um subconjunto de
KÐIÑs .65
Dem: Consideremos a família de subespaços vectoriais de I de base KÐIÑ
cuja fibra em cada - œ 1J − KÐIÑ é o subespaço vectorial J de I . Esta
família é um fibrado vectorial (o fibrado vectorial tautológico) uma vez que
é suave a aplicação que a cada - œ 1J associa a projecção ortogonal 1J
sobre a fibra. Tendo em conta III.1.12, podemos considerar o fibrado
vectorial de base KÐIÑ e fibras contidas em I s que a cada - œ 1J associa o
subespaço vectorial 0ÐJ Ñ de I s e, aplicando mais uma vez a alínea b) de
III.1.18, concluímos que é suave a aplicação 0‡ À KÐIÑ Ä PÐIà s IÑs que a
s
cada - œ 1J associa 10ÐJ Ñ . A aplicação suave 0‡ À KÐIÑ Ä KÐIÑ é uma
bijecção de KÐIÑ sobre um subconjunto K! ÐIÑ s , a saber, o constituído pelas
s
projecções ortogonais 1Js , com J subespaço vectorial de 0ÐIÑ.
s Ä KÐIÑ é também
Resta-nos mostrar que a aplicação inversa 0‡" À K! ÐIÑ
suave. Seguimos para isso um caminho análogo ao anterior, começando por
considerar uma aplicação linear (À I s Ä I cuja restrição a 0ÐIÑ seja 0"
(podemos, por exemplo, tomar para ( a composta de 0" com a projecção
ortogonal de I s sobre 0ÐIÑ). Consideramos então a família de subespaços

65Reparar que este resultado generaliza a conclusão do exercício II.38 e tem uma
demonstração mais simples que o argumento utilizado para a respectiva resolução.
202 Cap. III. Fibrados Vectoriais e o Ambiente Euclidiano

vectoriais de I s de base K! ÐIÑ


s que a cada - s œ 1 s associa o subespaço
J
s
vectorial J , família que vai ser mais uma vez um fibrado vectorial por ser
suave a aplicação que a cada - œ 1Js associa a projecção ortogonal 1Js sobre
a fibra, e deduzimos daqui, mais uma vez por III.1.12, que tem lugar um
fibrado vectorial de base K! ÐIÑ s cuja fibra em cada 1 s é o subespaço
J
s " s
vectorial (ÐJ Ñ œ 0 ÐJ Ñ de I . Aplicando de novo III.1.18, concluímos que
é suave a aplicação de K! ÐIÑ s em KÐIÑ que a cada 1 s associa 1 " s ,
J 0 ÐJ Ñ
aplicação essa que não é mais do que 0‡" . …
III.1.22 (Corolário) Seja I um espaço vectorial, real ou complexo, de dimensão
finita, munido de dois produtos internos e notemos 1J e 1 sJ as projecções
ortogonais de I sobre J relativas ao primeiro e ao segundo produto internos
e KÐIÑ e KÐIÑ s as variedades de Grassmann correspondentes. Tem então
lugar um difeomorfismo AÀ KÐIÑ Ä KÐIÑs , que a cada 1J associa 1
sJ .
Dem: Trata-se do caso particular do resultado precedente em que se toma
para 0À I Ä I a aplicação identidade, com o primeiro produto interno no
domínio e o segundo no espaço de chegada. …
s ) Nas condições de III.1.21, para
III.1.23 (A derivada de 0‡ À KÐIÑ Ä KÐIÑ
cada 1J − KÐIÑ a derivada
s
HÐ0‡ Ñ1J À X1J ÐKÐIÑÑ Ä X10ÐJ Ñ ÐKÐIÑÑ

está definida pela seguinte condição: Para cada ! − X1J ÐKÐIÑÑ e ? − J ,


HÐ0‡ Ñ1J Ð!ÑÐ0Ð?ÑÑ œ 10ÐJ Ѽ Ð0Ð!Ð?ÑÑ. 66

Dem: Para cada 1J − KÐIÑ e ? − I , tem-se 0Ð1J Ð?ÑÑ − 0ÐJ Ñ donde


0‡ Ð1J Ñ ‰ 0 ‰ 1J Ð?Ñ œ 10ÐJ Ñ ‰ 0 ‰ 1J Ð?Ñ œ 0 ‰ 1J Ð?Ñ.

Derivando a primeira e a terceira expressões como funções de 1J na direcção


de ! − X1J ÐKÐIÑÑ, obtemos
HÐ0‡ Ñ1J Ð!Ñ ‰ 0 ‰ 1J Ð?Ñ  10ÐJ Ñ ‰ 0 ‰ !Ð?Ñ œ 0 ‰ !Ð?Ñ.

No caso particular em que ? − J , tem-se 1J Ð?Ñ œ ? pelo que a igualdade


anterior dá
HÐ0‡ Ñ1J Ð!ÑÐ0Ð?ÑÑ œ 0Ð!Ð?ÑÑ  10ÐJ Ñ Ð0Ð!Ð?ÑÑ œ 10ÐJ Ѽ Ð0Ð!Ð?ÑÑ. …

Até agora, no estudo dos fibrados vectoriais, o espaço vectorial I


ambiente das fibras, foi considerado como podendo ser indiferentemente
um espaço vectorial real ou complexo. No caso em que este é um espaço

66Lembrar que um vector tangente a KÐIÑs em 10ÐJ Ñ fica determinado pela sua restrição a
0ÐJ Ñ (cf. a caracterização matricial em II.5.13).
§1. Fibrados vectoriais 203

vectorial complexo, podemos encará-lo também como espaço vectorial


real, mas as noções de campo de referenciais, de fibrado vectorial trivial e
de fibrado vectorial vão depender naturalmente do contexto em que nos
colocamos. Quando houver dúvida sobre o contexto que estamos a consi-
derar usaremos as palavras “real” e “complexo” para o clarificar. O
resultado que apresentamos em seguida explica a relação entre os dois
contextos.

III.1.24 Sejam E § K, I um espaço vectorial complexo e I œ ÐIB ÑB−E uma


família de subespaços vectoriais complexos de I . Tem-se então:
a) Se I é um fibrado vectorial complexo (respectivamente um fibrado vecto-
rial trivial complexo), então I é também um fibrado vectorial real
(respectivamente um fibrado vectorial trivial real).
b) Se I é um fibrado vectorial real, então I é também um fibrado vectorial
complexo.
Dem: Tendo em conta a definição de fibrado vectorial, vemos que, para
provar a), basta mostrar que, se I é um fibrado vectorial complexo trivial,
então I é também um fibrado vectorial real trivial, e isso resulta de que, se
as famílias Ð[" B ÑB−E ß á ß Ð[8 B ÑB−E constituem um campo de referenciais
complexo de I , então estas famílias, conjuntamente com as famílias
Ð3 [" B ÑB−E ß á ß Ð3 [8 B ÑB−E constituem um campo de referenciais real. A
conclusão de b) é uma consequência da alínea b) de III.1.18, uma vez que,
fixando um produto interno complexo em I , a projecção ortogonal 1B de I
sobre IB , relativa ao produto interno complexo, é a mesma que a relativa ao
produto interno real associado. …
III.1.25 Há ainda outra noção que faz sentido apresentar no caso em que a base
E é um aberto num espaço vectorial complexo K . Se I é um espaço
vectorial complexo, diz-se que uma família de subespaços vectoriais
complexos de I , I œ ÐIB ÑB−E , é um fibrado vectorial holomorfo trivial se
ela admite um campo de referenciais holomorfo, isto é, um campo de
referenciais complexo [" ß á ß [8 constituído por aplicação holomorfas
E Ä I ; diz-se que I é um fibrado vectorial holomorfo se, para cada B − E,
existe um aberto Y de E, com B − Y , tal que I ÎY seja um fibrado vectorial
holomorfo trivial. Note-se que, salvo em casos particulares triviais, já não é
verdade que, para um fibrado vectorial holomorfo I œ ÐIB ÑB−E , com as
fibras contidas num espaço hermitiano I , venha holomorfa a aplicação de E
em P‚ ÐIà IÑ, que a cada B associa a projecção ortogonal 1B , de I sobre IB
(A razão está em que, como observámos atrás, o método de ortonormalização
de Gram-Schmidt não é uma operação holomorfa.).

No resultado que apresentamos em seguida, o espaço ambiente das fibras


será explicitamente considerado como real, uma vez que, na definição de
variedade que temos estado a estudar, uma eventual estrutura complexa
no espaço ambiente é irrelevante.
204 Cap. III. Fibrados Vectoriais e o Ambiente Euclidiano

III.1.26 Sejam E § K, I um espaço vectorial real de dimensão finita e


I œ ÐIB ÑB−E um fibrado vectorial, com IB § I . Vamos chamar espaço
total de I o subconjunto I˜ de K ‚ I :
I˜ œ ÖÐBß AÑ − K ‚ I ± B − E, A − IB ×,
conjunto que será também notado simplesmente I , quando daí não vier
perigo de confusão.
III.1.27 Sejam B! − Q § K, tais que ÐQ ß B! Ñ seja uma variedade, com
dimensão 7 e índice :, I um espaço vectorial real de dimensão finita e
I œ ÐIB ÑB−Q um fibrado vectorial, com IB § I , e seja 8 a dimensão de
IB! . Tem-se então que, para cada A! − IB! , o espaço total I § Q ‚ I é,
no ponto ÐB! ß A! Ñ, uma variedade de dimensão 7  8 e índice :.
Dem: Seja Y um aberto de Q , com B! − Y , tal que I ÎY seja um fibrado
vectorial trivial. Seja [" ß á ß [8 um campo de referenciais ortonormado de
I ÎY (cf. III.1.18). Tem-se então que Y s œ I  ÐY ‚ IÑ é um aberto de I ,
s
contendo ÐB! ß A! Ñ, pelo que o resultado ficará demonstrado se virmos que Y
é, no ponto ÐB! ß A! Ñ, uma variedade com dimensão 7  8 e índice :. Ora,
vai ter lugar uma bijecção suave de Y ‚ ‘8 sobre Y s , definida por
ÐBß Ð+" ß á ß +8 ÑÑ È ÐBß +" [" B  â  +8 [8 B Ñ,
pelo que, uma vez que Y ‚ ‘8 é, em cada ÐB! ß Ð+" ß á ß +8 ÑÑ, uma variedade
com dimensão 7  8 e índice :, ficamos reduzidos a provar que a inversa da
bijecção referida é também suave. Basta-nos assim provar que são suaves as
aplicações s0 4 À Y
s Ä ‘, 4 œ "ß á ß 8, definidas pela condição de se ter, para
cada ÐBß AÑ − Y , s
A œ 0" ÐBß AÑ[" B  â  08 ÐBß AÑ[8 B
e isso resulta de se ter 04 ÐBß AÑ œ ØAß [4 B Ù. …

§2. Orientação de fibrados vectoriais reais.

III.2.1 Sejam E § K, I um espaço vectorial real de dimensão finita e


I œ ÐIB ÑB−E uma família de subespaços vectoriais de I de base E. Vamos
chamar orientação de I a uma família ! œ Ð!B ÑB−E , em que cada !B é uma
orientação da fibra IB .
Se Es§K s Ä E é uma aplicação, define-se a orientação imagem
s e se 0 À E
recíproca da família imagem recíproca 0 ‡ I œ ÐI0 ÐCÑ ÑC−Es como sendo a
orientação
0 ‡ ! œ Ð!0 ÐCÑ ÑC−Es .
§2. Orientação de fibrados vectoriais reais 205

No caso particular em que E s § E e 0À E s Ä E é a inclusão, a orientação


imagem recíproca 0 ‡ ! de 0 ‡ I œ I ÎEs é também notada !ÎEs e chamada de
s.
restrição da orientação ! a E
III.2.2 Sejam E § K, I um espaço vectorial real de dimensão finita e
I œ ÐIB ÑB−E uma família de subespaços vectoriais de I de base E. Vamos
dizer que uma orientação ! œ Ð!B ÑB−E de I é suave se, para cada B! − E,
existe um aberto Y de E, com B! − Y , e um campo de referenciais
[" ß á ß [7 de I ÎY , que seja directo ou seja retrógrado (no sentido que,
para cada B − Y , a base [" B ß á ß [7 B de IB seja directa ou, para cada
B − Y , esta base seja retrógrada). É claro que I é então automaticamente um
fibrado vectorial.
III.2.3 Sejam E s§K s, E § K e 0 À E s Ä E uma aplicação suave. Se
I œ ÐIB ÑB−E é um fibrado vectorial, munido de uma orientação suave
! œ Ð!B ÑB−E , é então também suave a orientação imagem recíproca
0 ‡ ! œ Ð!0 ÐCÑ ÑC−Es de 0 ‡ I .
Dem: Seja C! − E s arbitrário. Sejam Y um aberto de E, com 0 ÐC! Ñ − Y , tal
que exista um campo de referenciais [" ß á ß [7 de I ÎY , que seja directo
ou retrógrado. Pela continudade de 0 , podemos considerar um aberto Z de
Es, com C! − Z , tal que 0 ÐZ Ñ § Y . Temos então secções suaves de Ð0 ‡ IÑÎZ ,
Ð0ÎZ ч [" ß á ß Ð0ÎZ ч [7 , as quais constituem um campo de referenciais,
que é directo ou retrógrado. …
III.2.4 (Exemplo) Sejam E § K, I um espaço vectorial de dimensão finita e
J § I um subespaço vectorial, sobre o qual se fixou uma orientação !.
Sobre o fibrado vectorial constante JE fica então definida uma orientação
constante !, que associa a cada B − E a orientação ! da fibra J em B. É
evidente que esta orientação constante é uma orientação suave.
III.2.5 (Teorema fundamental) Sejam E § K e I œ ÐIB ÑB−E um fibrado
vectorial, com IB § I , munido de uma orientação suave ! œ Ð!B ÑB−E . Se
[" ß á ß [7 é um campo de referenciais de I , então, para cada B! − E,
existe um aberto Y de E, com B! − Y , tal que, para cada B − Y , a base
[" B ß á ß [7 B de IB é directa, ou, para cada B − Y , aquela base é
retrógrada; em consequência, no caso em que a base E é conexa, o campo de
referenciais é directo ou retrógrado.
Dem: Seja B! − E arbitrário. Por definição, sabemos que existe um aberto Z
de E, com B! − Z , tal que I ÎZ admita um campo de referenciais
^" ß á ß ^7 , que seja directo ou retrógrado. Tendo em conta III.1.13,
podemos considerar aplicações suaves 04ß5 À Z Ä ‘, onde " Ÿ 4ß 5 Ÿ 7,
definidas pela condição de se ter

[5 B œ " 04ß5 ÐBÑ ^4 B .


7

4œ"
206 Cap. III. Fibrados Vectoriais e o Ambiente Euclidiano

Para cada B − Z , a matriz de elementos 04ß5 ÐBÑ é uma matriz de mudança de


base, portanto uma matriz invertível, pelo que, considerando a aplicação
suave que a cada B − Z associa o determinante daquela matriz, vai existir
um aberto Y de E, com B! − Y § Z , tal que, para cada B − Y , aquele
determinante no ponto B tem o mesmo sinal que no ponto B! . Concluímos
portanto que ou, para cada B − Y , a base [" B ß á ß [7 B é directa, ou, para
cada B − Y , ela é retrógrada. No caso em que a base E é conexa, o que
acabamos de provar mostra-nos que E é a união de dois abertos disjuntos, a
saber, o conjunto dos pontos de B onde [" B ß á ß [7 B é uma base directa e o
conjunto dos pontos B onde aquela base é retrógrada, pelo que um destes
abertos tem que ser igual a E, o que quer precisamente dizer que o campo de
referenciais [" ß á ß [7 é directo ou retrógrado. …
III.2.6 Sejam E § K, I um espaço vectorial de dimensão finita e I œ ÐIB ÑB−E
um fibrado vectorial, com IB § I . Dadas duas orientações suaves ! e !w de
I , são então abertos em E o conjunto dos pontos B tais que !B œ !wB e o
conjunto dos pontos B tais que !B œ !wB ; em particular, no caso em que a
base E é conexa, ou ! œ !w ou ! œ !w .
Dem: Seja B! − E tal que !B! œ !wB! (resp. !B! œ !wB! ). Seja Z um aberto
de E, com B! − Z , tal que exista um campo de referenciais [" ß á ß [7 de
I ÎZ , que seja directo ou retrógrado, relativamente à orientação !w . Pelo
resultado precedente, podemos considerar um aberto Y de E, com
B! − Y § Z , tal que ou, para cada B − Y , [" B ß á ß [7 B é directa,
relativamente à orientação !, ou, para cada B − Y , [" B ß á ß [7 B é
retrógrada, relativamente a !. Resulta daqui que se tem !B œ !wB (resp.
!B œ !wB ), para cada B − Y , o que mostra que os conjuntos em questão são
abertos. O conjunto E é portanto união destes dois abertos disjuntos pelo
que, no caso em que E é conexo, um destes abertos é igual a E. …
III.2.7 Diz-se que um fibrado vectorial I œ ÐIB ÑB−E é orientável se admitir pelo
menos uma orientação suave.
III.2.8 Se Q § I é uma variedade, chama-se orientação de Q a uma orientação
do fibrado vectorial tangente X ÐQ Ñ e diz-se que Q é orientável se isso
acontecer ao fibrado vectorial X ÐQ Ñ.
III.2.9 Se I œ ÐIB ÑB−E é um fibrado vectorial orientável, com a base E conexa
e não vazia, então I admite duas, e só duas, orientações suaves; se uma delas
for !, a outra é !.
Dem: Se ! é uma orientação suave de I , é imediato que ! é também uma
orientação suave, que não coincide com a primeira por E não ser vazio;
resulta então de III.2.6 que, para cada orientação suave " de I tem-se " œ !
ou " œ ! (fixado B! − E, tem-se "B! œ !B! ou "B! œ !B! , sendo então,
no primeiro caso, " œ ! e, no segundo, " œ !). …
III.2.10 Se I œ ÐIB ÑB−E é um fibrado vectorial trivial, então I é orientável.
Dem: Se [" ß á ß [7 é um campo de referenciais de I , podemos, para cada
§2. Orientação de fibrados vectoriais reais 207

B − E, considerar a orientação !B de IB , relativamente à qual a base


[" B ß á ß [7 B é directa, tendo-se então que [" ß á ß [7 é um campo de
referenciais directo. …
III.2.11 Sejam E § K, I um espaço euclidiano e I œ ÐIB ÑB−E um fibrado
vectorial orientável de dimensão ", com IB § I . Fixemos uma das
orientações suaves de I e seja, para cada B − E, [B − IB o vector unitário
positivo, isto é, o único vector deste espaço vectorial de dimensão ", que tem
norma " e constitui uma base directa de IB (cf. I.4.23). Tem-se então que
[ œ Ð[B ÑB−E é um campo de referenciais de I , o qual vai ser portanto um
fibrado vectorial trivial.
Dem: Seja B! − E arbitrário. Seja Y um aberto de E, com B! − Y , tal que
exista um campo de referenciais directo ^ œ Ð^B ÑB−E , de I ÎY (se ele fosse
retrógrado podíamos multiplicá-lo por "). É então imediato que, para cada
B − Y,

ÈØ^B ß ^B Ù
^B ^B
^Bw œ œ
m^B m

é um vector de norma " deste espaço, constituindo uma base directa, ou seja,
^Bw œ [B . Deduzimos assim que a restrição de [ a Y é uma secção suave
de I ÎY , pelo que o facto de a noção de aplicação suave ser local implica que
[ é uma secção suave de I . …
III.2.12 (Nota) O resultado precedente é um fenómeno exclusivo dos fibrados
vectoriais de dimensão ". Por exemplo, se W § ‘$ é a superfície esférica,
veremos em III.2.16 que o fibrado vectorial tangente X ÐWÑ é orientável e,
como já referimos, pode-se provar, embora com técnicas que não
examinaremos neste texto, que este fibrado vectorial não é trivial.
¨
III.2.13 (Exemplo: O fibrado vectorial de Mobius) Seja W § ‘# a circunferên-
cia de centro Ð!ß !Ñ e raio ":
W œ ÖÐBß CÑ − ‘# ± B#  C # œ "×.
Sabemos que W é uma variedade sem bordo, com dimensão " e podemos
considerar a aplicação suave 0 À ‘ Ä W , definida por
0 Ð>Ñ œ ÐcosÐ>Ñß sinÐ>ÑÑ,
a qual se verifica imediatamente ser uma submersão sobrejectiva. Conside-
remos agora a família I œ ÐIÐBßCÑ ÑÐBßCÑ−W de subespaços vectoriais de ‘# ,
que a cada ÐBß CÑ − W , com ÐBß CÑ œ 0 Ð>Ñ, associa o subespaço vectorial
gerado pelo vector não nulo
> >
ÐcosÐ Ñß sinÐ ÑÑ − ‘#
# #
(cf. a figura 6).
208 Cap. III. Fibrados Vectoriais e o Ambiente Euclidiano

Figura 6
O facto de IÐBßCÑ estar bem definido vem de que, se =ß > − ‘ verificam
0 Ð=Ñ œ 0 Ð>Ñ, então =  > é múltiplo de #1, pelo que #=  #> é múltiplo de 1, o
que implica que ÐcosÐ=Î#Ñß sinÐ=Î#ÑÑ e ÐcosÐ>Î#Ñß sinÐ>Î#ÑÑ são iguais ou
simétricos, em qualquer caso geram o mesmo subespaço vectorial de ‘# .
Vamos agora verificar que I é um fibrado vectorial de dimensão " não
orientável, e portanto não trivial.
Para vermos que I é um fibrado vectorial, basta, tendo em conta a carac-
terização destes dada na alínea b) de III.1.18 e a propriedade das submersões
sobrejectivas referida em II.4.31, verificar que 0 ‡ I é um fibrado vectorial.
Ora 0 ‡ I é mesmo um fibrado vectorial trivial, por admitir o campo de
referenciais constituído por uma única secção suave, aquela que a cada >
associa ÐcosÐ>Î#Ñß sinÐ>Î#ÑÑ.
Para vermos que I é não orientável, vamos supor que I admitia uma
orientação suave ! e chegar a um absurdo. Então 0 ‡ ! era uma orientação
suave de 0 ‡ I , pelo que, uma vez que ‘ é conexo, o campo de referenciais de
0 ‡ I , constituído pela secção suave, que a > associa ÐcosÐ>Î#Ñß sinÐ>Î#ÑÑ,
seria directo ou retrógrado. Mas isso é impossível, visto que 0 Ð!Ñ œ 0 Ð#1Ñ e
que os vectores ÐcosÐ>Î#Ñß sinÐ>Î#ÑÑ, para > œ ! e > œ #1, são simétricos,
constituindo assim bases com orientações opostas.
III.2.14 Sejam I e K espaços vectoriais reais de dimensão finita, E § K , e
Is œ ÐIs B ÑB−E e I˜ œ ÐI˜ B ÑB−E dois fibrados vectoriais, com I s B ,I˜ B § I ,
munidos de orientações Ð! sB ÑB−E e Ð!˜B ÑB−E . Suponhamos que, para cada
B − E, I s B  I˜ B œ Ö!× e seja, para cada B − E, IB œ I s B Š I˜ B e !B a
orientação de IB associada à soma directa (cf. I.4.18). Tem-se então:
a) I œ ÐIB ÑB−E é também um fibrado vectorial.
b) Se duas das orientações Ð! sB ÑB−E , Ð!˜B ÑB−E e Ð!B ÑB−E forem suaves, a
terceira também é suave.
Dem: Seja B! − E arbitrário. Sejam Z w e Z ww abertos de E, contendo B! , tais
§2. Orientação de fibrados vectoriais reais 209

que os fibrados vectoriais IsÎZ w e I˜ ÎZ ww sejam triviais. Sendo Z œ Z w  Z ww ,


que é ainda um aberto de E, contendo B! , podemos considerar campos de
referenciais [" ß á ß [7 de IsÎZ e [7" ß á ß [8 de I˜ ÎZ e tem-se então que
[" ß á ß [7 ß [7" ß á ß [8 é um campo de referenciais de ÐIB ÑB−Z . Ficou
assim provado que I ÎZ é um fibrado vectorial trivial, e portanto que I é um
fibrado vectorial. Reparemos, além disso, que, por definição da orientação
associada à soma directa, tem-se, para cada B − Z ,
!B Ð[" B ß á ß [7 B ß [7" B ß á ß [8 B Ñ œ
œ! sB Ð[" B ß á ß [7 B Ñ!˜B Ð[7" B ß á ß [8 B Ñ.
Suponhamos que as orientações Ð! sB ÑB−E e Ð!˜B ÑB−E são suaves. Tendo em
conta III.2.5 , podemos considerar abertos Y w e Y ww de E, contendo B! e
contidos em Z , tais que ! sB ([" B ß á ß [7 B Ñ seja constante em Y w e que
!˜B Ð[7" B ß á ß [8 B Ñ seja constante em Y ww , de onde deduzimos que
!B Ð[" B ß á ß [7 B ß [7" B ß á ß [8 B Ñ é constante no aberto Y w  Y ww de E,
que contém B! , e portanto que Ð!B ÑB−E é suave.
Analogamente, supondo que as orientações Ð!B ÑB−E e Ð! sB ÑB−E são suaves,
podemos considerar abertos Y w e Y ww de E, contendo B! e contidos em Z , tais
que !B Ð[" B ß á ß [7 B ß [7" B ß á ß [8 B Ñ seja constante em Y w e que
sB Ð[" B ß á ß [7 B Ñ seja constante em Y ww , de onde deduzimos que
!
!˜B Ð[7" B ß á ß [8 B Ñ é constante no aberto Y w  Y ww de E, que contém B! , e
portanto que Ð!˜B ÑB−E é suave.
Do mesmo modo se verifica que, se as orientações Ð!B ÑB−E e Ð!˜B ÑB−E são
suaves, a orientação Ð! sB ÑB−E é também suave. …
III.2.15 (Corolário) Sejam E § K, I um espaço vectorial de dimensão finita e
I œ ÐIB ÑB−E e I s œ ÐIs B ÑB−E dois fibrados vectoriais, com IB § I e
s
I B § I , tais que, para cada B − E, tenha lugar a soma directa
I œ IB Š I s B . Tem-se então que I é orientável se, e só se, I
s é orientável.
Em particular, no caso em que I é um espaço euclidiano, um fibrado
vectorial I œ ÐIB ÑB−E , com IB § I , é orientável se, e só se, o fibrado
vectorial I ¼ œ ÐIB¼ ÑB−E é orientável.
III.2.16 (Orientação canónica das esferas) Sejam I um espaço euclidiano
orientado de dimensão 8   " e seja W § I a hipersuperfície esférica de
centro ! e raio ":
W œ ÖB − I ± mBm œ "×.
Sabemos que, para cada B − W , XB ÐWÑ é o conjunto dos vectores de I
ortogonais a B, ou, o que é o mesmo, ortogonais ao subespaço vectorial
gerado por B. Vemos assim que X ÐWѼ é um fibrado vectorial trivial de
dimensão ", por admitir o campo de referenciais formado pela secção que a
cada B − W associa o gerador B de XB ÐWѼ . Em particular X ÐWѼ é orientável
e podemos considerar a orientação suave de X ÐWѼ definida pela condição
de B ser uma base directa de XB ÐWѼ . Tendo em conta III.2.14, ficamos com
210 Cap. III. Fibrados Vectoriais e o Ambiente Euclidiano

uma orientação suave associada de W , a que daremos o nome de orientação


canónica, definida a partir das somas directas I œ XB ÐWѼ Š XB ÐWÑ, isto é,
pela condição de uma base ?" ß á ß ?8" de XB ÐWÑ ser directa se, e só se, a
base Bß ?" ß á ß ?8" de I for directa.

§3. Derivação covariante e segunda forma fundamental.

III.3.1 Sejam E § K, I um espaço euclidiano ou hermitiano e I œ ÐIB ÑB−E um


fibrado vectorial, com IB § I .
Dada uma secção suave [ œ Ð[B ÑB−E de I , [ é, em particular, uma
aplicação suave de E em I , pelo que podemos, para cada B! − E e
? − XB! ÐEÑ, considerar a derivada H[B! Ð?Ñ, que será um elemento de I
mas, em geral, não terá que pertencer à fibra IB! . Nas aplicações geométricas
é importante ter algo que tenha a ver com a derivada referida mas que esteja
ligado ao fibrado vectorial, no sentido que deve ser um elemento da fibra IB!
no ponto em que se deriva. É assim natural apresentar a seguinte definição:
Se [ œ Ð[B ÑB−E é uma secção suave de I , define-se, para cada B! − E, a
derivada covariante de [ , no ponto B! como sendo a aplicação linear
f[B! À XB! ÐEÑ Ä IB! definida por
f[B! Ð?Ñ œ 1B! ÐH[B! Ð?ÑÑ,

onde 1B! é a projecção ortogonal de I sobre IB! .67


III.3.2 (Exemplo) Sejam E § K, I um espaço euclidiano ou hermitiano e
J § I um subespaço vectorial e consideremos o fibrado vectorial constante
JE , de fibra J . Dada uma secção suave [ œ Ð[B ÑB−E de JE , tem-se que,
para cada B! − E e ? − XB! ÐEÑ, a derivada usual H[B! Ð?Ñ é um elemento de
J (derivada duma aplicação suave de E em J ). Concluímos portanto que,
neste caso, a derivada covariante f[B! coincide com a derivada usual
H[B! , não dependendo, em particular, do produto interno que se considera
em I .
III.3.3 (Exemplo) Seja W § ‘# a circunferência de centro Ð!ß !Ñ e raio ":
W œ ÖÐBß CÑ − ‘# ± B#  C # œ "×.
Uma vez que XÐBßCÑ ÐWÑ é constituído pelos vectores ortogonais a ÐBß CÑ,
podemos considerar uma secção suave [ do fibrado vectorial tangente
X ÐWÑ, definida por [ÐBßCÑ œ ÐCß BÑ. Considerando o ponto Ð"ß !Ñ − W e o
vector tangente Ð!ß "Ñ − XÐ"ß!Ñ ÐWÑ, vemos que H[Ð"ß!Ñ Ð!ß "Ñ œ Ð"ß !Ñ, que

67Repare-se que não definimos a derivada covariante duma secção senão quando o espaço
vectorial ambiente das fibras está munido de um produto interno. Essa derivada
covariante dependerá, em geral, do produto interno fixado.
§3. Derivação covariante e segunda forma fundamental 211

não pertence à fibra XÐ"ß!Ñ ÐWÑ. Uma vez que Ð"ß !Ñ é ortogonal a XÐ"ß!Ñ ÐWÑ,
tem-se, para a derivada covariante, f[Ð"ß!Ñ Ð!ß "Ñ œ Ð!ß !Ñ.

Os dois resultados que se seguem mostram que a derivação covariante


verifica certas propriedades análogas às da derivação usual.

III.3.4 Sejam E § K, I um espaço euclidiano ou hermitiano e I œ ÐIB ÑB−E um


fibrado vectorial, com IB § I . Tem-se então, para cada B! − E e
? − XB! ÐEÑ:
a) Se [ e ^ são secções suaves de I e se - − Š,
fÐ[  ^ÑB! Ð?Ñ œ f[B! Ð?Ñ  f^B! Ð?Ñ,
fÐ-[ ÑB! Ð?Ñ œ -f[B! Ð?Ñ.

b) (Regra de Leibnitz) Se [ é uma secção suave de I e se 0 À E Ä Š é


uma aplicação suave,
fÐ0 [ ÑB! Ð?Ñ œ H0B! Ð?Ñ[B!  0 ÐB! Ñf[B! Ð?Ñ.68

c) (Regra de Leibnitz) Se [ e ^ são secções suaves de I , tem lugar uma


aplicação suave Ø[ ß ^ÙÀ E Ä Š, definida por B È Ø[B ß ^B Ù, e
HØ[ ß ^ÙB! Ð?Ñ œ Øf[B! Ð?Ñß ^B! Ù  Ø[B! ß f^B! Ð?ÑÙ.

Dem: As propriedades bem conhecidas da derivação usual permitem-nos


escrever
HÐ[  ^ÑB! Ð?Ñ œ H[B! Ð?Ñ  H^B! Ð?Ñ,
HÐ-[ ÑB! Ð?Ñ œ -H[B! Ð?Ñ,
HÐ0 [ ÑB! Ð?Ñ œ H0B! Ð?Ñ[B!  0 ÐB! ÑH[B! Ð?Ñ.

Aplicando 1B! a ambos os membros de cada uma destas igualdades, obtemos


as fórmulas das alíneas a) e b). Do mesmo modo, sabemos que
HØ[ ß ^ÙB! Ð?Ñ œ ØH[B! Ð?Ñß ^B! Ù  Ø[B! ß H^B! Ð?ÑÙ

e a fórmula na alínea c) vai ser uma consequência de que, uma vez que, por
definição de projecção ortogonal, H[B! Ð?Ñ  f[B! Ð?Ñ é ortogonal a IB! ,
podemos escrever
ØH[B! Ð?Ñ  f[B! Ð?Ñß ^B! Ù œ !,

ou seja,

68Também podemos olhar para 0 como uma secção suave do fibrado vectorial constante
ŠE e, desse ponto de vista, a derivada covariante f0B! Ð?Ñ concide com a derivada usual
H0B! Ð?Ñ, pelo que a fórmula anterior pode ser reescrita, com um aspecto mais
homogéneo, fÐ0 [ ÑB! Ð?Ñ œ f0B! Ð?Ñ[B!  0B! f[B! Ð?Ñ.
212 Cap. III. Fibrados Vectoriais e o Ambiente Euclidiano

Øf[B! Ð?Ñß ^B! Ù œ ØH[B! Ð?Ñß ^B! Ù,

e, analogamente,
Ø[B! ß f^B! Ð?ÑÙ œ Ø[B! ß H^B! Ð?ÑÙ. …

III.3.5 Sejam E § K, I um espaço euclidiano ou hermitiano e I œ ÐIB ÑB−E um


s§K
fibrado vectorial, com IB § I . Sejam E s e 0À Es Ä E uma aplicação
suave. Para cada secção suave [ œ Ð[B ÑB−E de I , tem-se, para a corres-
pondente secção 0 ‡ [ de 0 ‡ I ,
fÐ0 ‡ [ ÑC! Ð@Ñ œ f[0 ÐC! Ñ ÐH0C! Ð@ÑÑ,

quaisquer que sejam C! − E s .69


s e @ − XC! ÐEÑ
Dem: Pelo teorema da derivação da função composta, podemos escrever
HÐ0 ‡ [ ÑC! Ð@Ñ œ H[0 ÐC! Ñ ÐH0C! Ð@ÑÑ e, aplicando a ambos os membros desta
igualdade a projecção ortogonal 10 ÐC! Ñ de I sobre I0 ÐC! Ñ (que é a fibra de
0 ‡ I no ponto C! ), obtemos a igualdade do enunciado. …
III.3.6 Seja Q § K uma variedade. Chama-se campo vectorial sobre Q a uma
secção \ œ Ð\B ÑB−Q do fibrado vectorial tangente X ÐQ Ñ. Se I é um
espaço euclidiano ou hermitiano, se I œ ÐIB ÑB−Q é um fibrado vectorial,
com IB § I , se [ œ Ð[B ÑB−Q é uma secção suave de I e se
\ œ Ð\B ÑB−Q é um campo vectorial sobre Q , obtemos uma nova secção
f[ Ð\Ñ de I , definida por
f[ Ð\ÑB œ f[B Ð\B Ñ.
É usual notar também a secção f[ Ð\Ñ por f\ Ð[ Ñ.
III.3.7 Nas condições anteriores, se [ é uma secção suave de I e se \ é um
campo vectorial suave sobre Q , então a secção f\ [ œ f[ Ð\Ñ de I é
também suave.
Dem: Uma vez que [ é uma aplicação suave de Q em I , podemos
considerar um aberto Y de K , com Q § Y , e um prolongamento suave
[s À Y Ä I de [ . Temos então uma aplicação suave H[ s À Y Ä PÐKà IÑ, o
que nos garante que é suave a aplicação de Q em I , que a B associa
H[B Ð\B Ñ œ H[ s B Ð\B Ñ. Como se viu na alínea b) de III.1.18, é suave a
aplicação de Q em PÐIà IÑ, que a B associa a projecção ortogonal 1B de I
sobre IB . Uma vez que f[B Ð\B Ñ œ 1B ÐH[B Ð\B ÑÑ, concluímos finalmente
ser suave a aplicação de Q em I , que a B associa Ðf\ [ ÑB œ f[B Ð\B Ñ. …

69Lembrando que 0 ‡ [ é a composição de [ , que é uma aplicação de E em I , com


s Ä E, salta à vista a semelhança entre a fórmula precedente e a do teorema da
0À E
derivação da função composta.
§3. Derivação covariante e segunda forma fundamental 213

Se [ œ Ð[B ÑB−E é uma secção suave dum fibrado vectorial


I œ ÐIB ÑB−E , então a derivada covariante f[B! Ð?Ñ, tal como a derivada
usual H[B! Ð?Ñ, depende não só do valor da secção [ no ponto B! como
dos valores desta nos outros pontos de E. Veremos no entanto que a sua
diferença H[B! Ð?Ñ  f[B! Ð?Ñ só depende de [ através do valor [B! ,
sendo algo que está relacionado com a forma do fibrado vectorial I , mais
precisamente com o modo como as fibras variam de ponto para ponto.
Uma maneira de estudar essa variação é estudar a derivada da aplicação
1, que a cada B − E, associa a projecção ortogonal 1B , de I sobre IB .

III.3.8 Sejam E § K, I um espaço euclidiano ou hermitiano e I œ ÐIB ÑB−E um


fibrado vectorial, com IB § I , e consideremos a aplicação suave
1 œ Ð1B ÑB−E , de E em PÐIà IÑ, que a cada B − E associa a projecção
ortogonal 1B , de I sobre IB . Para cada B! − E e ? − XB! ÐEÑ, tem-se então
que a aplicação linear H1B! Ð?Ñ − PÐIà IÑ é autoadjunta e aplica IB! em IB¼!
e IB¼! em IB! .
Dem: Tendo em conta I.2.26, a aplicação 1, de E em PÐIà IÑ, toma valores
no subespaço vectorial P++ ÐIà IÑ, constituído pelas aplicações lineares auto-
adjuntas. Concluímos daqui que a aplicação linear derivada H1B! aplica
XB! ÐEÑ em P++ ÐIà IÑ, o que mostra que H1B! Ð?Ñ é autoadjunta. Por outro
lado, dado A − I , tem-se, para cada B − E,
1B Ð1B ÐAÑÑ œ 1B ÐAÑ.
Derivemos ambos os membros desta identidade, como funções de B, no
ponto B! , na direcção de ?: Obtemos
H1B! Ð?ÑÐ1B! ÐAÑÑ  1B! ÐH1B! Ð?ÑÐAÑÑ œ H 1B! Ð?ÑÐAÑ.

No caso em que A − IB! , vem 1B! ÐAÑ œ A e a igualdade anterior dá-nos


H1B! Ð?ÑÐAÑ  1B! ÐH1B! Ð?ÑÐAÑÑ œ H1B! Ð?ÑÐAÑ,

ou seja, 1B! ÐH1B! Ð?ÑÐAÑÑ œ !, o que mostra que H1B! Ð?ÑÐAÑ pertence a
IB¼! . Do mesmo modo, no caso em que A − IB¼! , tem-se 1B! ÐAÑ œ !, pelo
que a igualdade em questão dá-nos
1B! ÐH1B! Ð?ÑÐAÑÑ œ H1B! Ð?ÑÐAÑ,

portanto H1B! Ð?ÑÐAÑ − IB! . …


III.3.9 (Nota) Em rigor, a demonstração anterior era dispensável: Se a aplicação
suave B È 1B toma valores na variedade de Grassmann KÐIÑ, referida em
II.5.13, a sua derivada em B! na direcção de ? terá que ser tangente a KÐIÑ
em 1B! pelo que bastaria lembrar a caracterização dos espaços tangentes à
variedade de Grassmann então apresentada. A caracterização matricial desses
espaços tangentes nesse resultado também serviria como demonstração
alternativa para o corolário seguinte.
214 Cap. III. Fibrados Vectoriais e o Ambiente Euclidiano

III.3.10 (Corolário) Nas condições anteriores, a restrição da aplicação linear


H1B! Ð?Ñ a IB! , considerada como aplicação linear de IB! em IB¼! , tem como
aplicação linear adjunta a restrição de H1B! Ð?Ñ a IB¼! , considerada como
aplicação linear de IB¼! em IB! . Em particular, o conhecimento da aplicação
linear H1B! Ð?ÑÀ I Ä I fica determinado pelo conhecimento da respectiva
restrição a IB! .
Dem: O facto de H1B! Ð?ÑÀ I Ä I ser autoadjunta diz-nos que, quaisquer
que sejam Aß Aw − I , tem-se
ØH1B! Ð?ÑÐAÑß Aw Ù œ ØAß H1B! Ð?ÑÐAw ÑÙ.

Em particular, esta igualdade verifica-se quaisquer que sejam A − IB! e


Aw − IB¼! pelo que, uma vez que se tem então H1B! Ð?ÑÐAÑ − IB¼! e
H1B! Ð?ÑÐAw Ñ − IB! , fica provada a primeira asserção do enunciado. A
segunda asserção é agora uma consequência de que, se conhecermos a
restrição de H1B! Ð?Ñ a IB! , ficamos a conhecer a sua restrição a IB¼! , como
adjunta da primeira, e portanto ficamos a conhecer H1B! Ð?Ñ, uma vez que I
é soma directa de IB! e IB¼! . …
III.3.11 Sejam E § K, I um espaço euclidiano ou hermitiano e I œ ÐIB ÑB−E
um fibrado vectorial, com IB § I . Para cada B! − E, define-se então a
segunda forma fundamental de I no ponto B! como sendo a aplicação
bilinear
2B! À XB! ÐEÑ ‚ IB! Ä IB¼!

definida por
2B! Ð?ß AÑ œ H1B! Ð?ÑÐAÑ.

Repare-se que, no caso em que Š œ ‚, esta aplicação é uma aplicação


bilinear real com a propriedade suplementar de ser linear complexa na
segunda variável.
III.3.12 Sejam E § K, I um espaço euclidiano ou hermitiano e I œ ÐIB ÑB−E
um fibrado vectorial, com IB § I . Tem-se então:
a) Se I é um fibrado vectorial constante, isto é, se existe J § I tal que
IB œ J , para cada B − E, então, para cada B − E, a segunda forma
fundamental 2B é nula.
b) Reciprocamente, no caso em que a base E é uma variedade conexa, se,
para cada B − E, 2B œ !, então I é um fibrado vectorial constante.70
Dem: No caso em que I é um fibrado vectorial constante, a aplicação
1 œ Ð1B ÑB−E , de E em PÐIà IÑ é constante pelo que, para cada B − E e
? − XB ÐEÑ, H1B Ð?Ñ œ !, em particular, para cada A − IB , 2B Ð?ß AÑ œ
H1B Ð?ÑÐAÑ œ !. Suponhamos, reciprocamente, que E é uma variedade

70Esteresultado justifica assim a interpretação intuitiva da segunda forma fundamental


como algo que descreve o modo como as fibras variam de ponto para ponto.
§3. Derivação covariante e segunda forma fundamental 215

conexa e que, para cada B − E, 2B œ !. Concluímos assim que, para cada


B − E e ? − XB ÐEÑ, a aplicação linear H1B Ð?ÑÀ I Ä I tem restrição nula a
IB , de onde se deduz, tendo em conta III.3.10, que ela tem também restrição
nula a IB¼ , o que implica que H1B Ð?Ñ œ !. Vemos agora que a aplicação
suave 1À E Ä PÐIà IÑ, tendo derivada nula em todos os pontos, tem que ser
constante, o que implica que I é um fibrado vectorial constante. …
III.3.13 Sejam E § K, I um espaço euclidiano ou hermitiano e I œ ÐIB ÑB−E
um fibrado vectorial, com IB § I . Sejam E s§K s Ä E uma
s e 0À E
s
aplicação suave. Para cada C − E, as segundas formas fundamentais
s ‚ I0 ÐCÑ Ä I ¼ ,
s C À XC ÐEÑ
2 0 ÐCÑ
20 ÐCÑ À X0 ÐCÑ ÐEÑ ‚ I0 ÐCÑ Ä I0¼ÐCÑ ,

de 0 ‡ I , no ponto C, e de I , no ponto 0 ÐCÑ, verificam


s C Ð@ß AÑ œ 20 ÐCÑ ÐH0C Ð@Ñß AÑ.
2

Dem: Uma vez que a projecção ortogonal 1 sC , de I sobre Ð0 ‡ IÑC œ I0 ÐCÑ , é


igual a 10 ÐCÑ , o resultado é uma consequência da definição e do teorema de
derivação da função composta. …
III.3.14 Sejam E § K, I um espaço euclidiano ou hermitiano e I œ ÐIB ÑB−E
um fibrado vectorial, com IB § I . Sejam [ œ Ð[B ÑB−E uma secção suave
de I , B! − E e ? − XB! ÐEÑ. Tem-se então
f[B! Ð?Ñ œ H[B! Ð?Ñ  2B! Ð?ß [B! Ñ,

onde 2B! À XB! ÐEÑ ‚ IB! Ä IB¼! é a segunda forma fundamental de I no


ponto B! .71
Dem: O facto de [ ser uma secção de I implica que, para cada B − E,
[B œ 1B Ð[B Ñ. Derivando ambos os membros desta identidade no ponto B! e
na direcção de ?, obtemos
H[B! Ð?Ñ œ H1B! Ð?ÑÐ[B! Ñ  1B! ÐH[B! Ð?ÑÑ œ 2B! Ð?ß [B! Ñ  f[B! Ð?Ñ. …

III.3.15 (Corolário) Nas condições anteriores, se B! − E é tal que [B! œ !,


vem, para cada ? − XB! ÐEÑ, f[B! Ð?Ñ œ H[B! Ð?Ñ, em particular a derivada
covariante f[B! Ð?Ñ não depende do produto interno que se considera em I
e a derivada usual H[B! Ð?Ñ pertence à fibra IB! .

Vamos agora estudar uma caracterização alternativa da segunda forma


fundamental dum fibrado vectorial, apresentada no quadro da geometria
do espaço total do fibrado vectorial.

71Fica assim justificada a afirmação, feita anteriormente, de que a diferença


H[B! Ð?Ñ  f[B! Ð?Ñ só depende da secção [ através do seu valor no ponto B! .
216 Cap. III. Fibrados Vectoriais e o Ambiente Euclidiano

III.3.16 (Revisão sobre subespaços afins) a) Lembremos que, se I é um


espaço vectorial, real ou complexo, chama-se subespaço afim de I a um
subconjunto J § I , tal que existe um subespaço vectorial J! § I e um
vector B − I , tais que J œ B  J! .
b) Um subespaço vectorial J! nas condições da definição é único, visto que
se verifica imediatamente que ele tem que ser igual ao conjunto J  J das
diferenças C  D , com Cß D − J ; diz-se que ele é o subespaço vectorial
associado ao subespaço afim J e à sua dimensão dá-se também o nome de
dimensão do subespaço afim.
c) Já um elemento B nas condições da definição não será em geral único: Se
J é um subespaço afim de subespaço vectorial associado J! , verifica-se ime-
diatamente que a igualdade J œ B  J! é equivalente a B − J .
d) É claro que todo o subespaço vectorial J § I é também um subespaço
afim de I , tendo o próprio J como subespaço vectorial associado. O que
dissemos atrás mostra aliás que um subespaço afim J é subespaço vectorial
se, e só se, ! − J .
III.3.17 Sejam I um espaço vectorial de dimensão finita e J § I um subespaço
afim, com subespaço vectorial associado J! . Para cada B − J tem-se então
tB ÐJ Ñ œ t
B ÐJ Ñ œ XB ÐJ Ñ œ J! .
Dem: Sabemos que J œ B  J! pelo que tem lugar um difeomorfismo
:À J! Ä J , definido por :ÐCÑ œ B  C (com inverso D È D  B), que aplica
! em B e verifica H:! Ð?Ñ œ ?, para cada ? − X! ÐJ! Ñ. Basta agora
repararmos que H:! é um isomorfismo de X! ÐJ! Ñ œ J! sobre XB ÐJ Ñ, que
aplica t! ÐJ! Ñ œ J! sobre tB ÐJ Ñ e t
! ÐJ! Ñ œ J! sobre tB ÐJ Ñ.

…
III.3.18 Se I é um espaço euclidiano ou hermitiano e se J § I é um subespaço
afim de subespaço vectorial associado J! , então existe em J um, e um só,
vector ortogonal a J! .
Dem: Comecemos por provar a unicidade. Se B e C fossem dois vectores de
J , que estivessem em J!¼ , B  C seria um vector ao mesmo tempo em J! e
em J!¼ , pelo que B  C œ ! e B œ C . Quanto à existência, comecemos por
tomar B − J arbitrário. Uma vez que tem lugar a soma directa
I œ J! Š J!¼ , existem C − J! e D − J!¼ , tais que B œ C  D . Tem-se então
que D œ B  C é um elemento de J , que está em J!¼ . …
III.3.19 Sejam E § K, I um espaço vectorial de dimensão finita e
I œ ÐIB ÑB−E um fibrado vectorial, com IB § I , e consideremos o
respectivo espaço total
I œ ÖÐBß AÑ − K ‚ I ± B − E, A − IB ×.
Tem-se então:
a) I é fechado em E ‚ I ;
b) Para cada ÐB! ß A! Ñ − I , XÐB! ßA! Ñ ÐIÑ é um subespaço vectorial de
XB! ÐEÑ ‚ I e, para cada ? − XB! ÐEÑ, o conjunto dos vectores D − I tais que
Ð?ß DÑ − XÐB! ßA! Ñ ÐIÑ é um subespaço afim, cujo subespaço vectorial associado
§3. Derivação covariante e segunda forma fundamental 217

é IB! ;
c) No caso em que I é um espaço euclidiano ou hermitiano, para cada
B! − E, A! − IB! e ? − XB! ÐEÑ, o valor da segunda forma fundamental
2B! Ð?ß A! Ñ é o único vector de IB¼! tal que
Ð?ß 2B! Ð?ß A! ÑÑ − XÐB! ßA! Ñ ÐIÑ.

Dem: Fixemos em I um produto interno e notemos, para cada B − E,


1B À I Ä IB a projecção ortogonal. Sabemos que tem lugar uma aplicação
suave, em particular contínua, 1 œ Ð1B ÑB−E , de E em PÐIà IÑ. Uma vez que
se tem
I œ ÖÐBß AÑ − E ‚ I ± 1B ÐAÑ œ A× œ
œ ÖÐBß AÑ − E ‚ I ± 1B ÐAÑ  A œ !×,
concluímos que I é fechado em E ‚ I . O facto de se ter I § E ‚ I
implica evidentemente que
XÐB! ßA! Ñ ÐIÑ § XÐB! ßA! Ñ ÐE ‚ IÑ œ XB! ÐEÑ ‚ I .

Uma vez que, para cada ÐBß AÑ − I , 1B ÐAÑ œ A, concluímos, por derivação
de ambos os membros desta igualdade no ponto ÐB! ß A! Ñ − I , na direcção de
um vector arbitrário Ð?ß DÑ − XÐB! ßA! Ñ ÐIÑ,
H1B! Ð?ÑÐA! Ñ  1B! ÐDÑ œ D ,

portanto
D  2B! Ð?ß A! Ñ œ 1B! ÐDÑ − IB! ,

ou seja, D − 2B! Ð?ß A! Ñ  IB! . Por outro lado, podemos considerar uma
aplicação suave de E ‚ I em I , que a ÐBß AÑ associa ÐBß 1B ÐAÑÑ pelo que,
derivando esta aplicação em ÐB! ß A! Ñ − I na direcção de um vector
Ð?ß D w Ñ − XB! ÐEÑ ‚ I arbitrário, concluímos que
Ð?ß H1B! Ð?ÑÐA! Ñ  1B! ÐD w ÑÑ − XÐB! ßA! Ñ ÐIÑ.

Em particular, se ? − XB! ÐEÑ e D w − IB! , sai


Ð?ß 2B! Ð?ß A! Ñ  D w Ñ œ Ð?ß H 1B! Ð?ÑÐA! Ñ  1B! ÐD w ÑÑ − XÐB! ßA! ÑÐIÑ.

Ficou assim provado que, para cada ? − XB! ÐEÑ e A! − IB! , o conjunto dos
D − I tais que Ð?ß DÑ − XÐB! ßA! Ñ ÐIÑ é igual a 2B! Ð?ß A! Ñ  IB! , sendo
portanto um subespaço afim de I , cujo subespaço vectorial associado é IB! ,
subespaço afim esse que contém 2B! Ð?ß A! Ñ. Já sabemos que
2B! Ð?ß A! Ñ − IB¼! e o facto de este ser o único elemento do referido espaço
afim que pertence a IB¼! é uma consequência de III.3.18. …
III.3.20 (Corolário) Sejam E § K, I um espaço vectorial de dimensão finita e
I œ ÐIB ÑB−E um fibrado vectorial, com IB § I , e consideremos o respec-
218 Cap. III. Fibrados Vectoriais e o Ambiente Euclidiano

tivo espaço total


I œ ÖÐBß AÑ − K ‚ I ± B − E, A − IB ×.
Tem-se então:
a) Para cada B − E, XÐBß!Ñ ÐIÑ œ XB ÐEÑ ‚ IB ;
b) Para cada B! − E, a condição de se ter 2B! œ ! não depende do produto
interno que se escolha em I e é equivalente à condição de se ter, para cada
A − IB! , XÐB! ßAÑ ÐIÑ œ XB! ÐEÑ ‚ IB! (podemos então dizer que B! é um
ponto de estacionaridade do fibrado vectorial I ). Quando ela se verificar,
tem-se, para cada secção suave [ œ Ð[B ÑB−E de I , f[B! œ H[B! , em
particular, a derivada covariante em B! não depende do produto interno que
se considera em I e a derivada usual nesse ponto toma valores na fibra IB! .
c) Em geral, fixado um produto interno em I , para A − IB! , o espaço
vectorial tangente XÐB! ßAÑ ÐIÑ pode decompor-se numa soma directa
XÐB! ßAÑ ÐIÑ œ [B! ßA Š ÐÖ!× ‚ IB Ñ,

onde [B! ßA (a que se costuma dar o nome de subespaço horizontal associado


ao produto interno) é a imagem da aplicação linear injectiva de XB! ÐQ Ñ em
XÐB! ßAÑ ÐIÑ que a ? associa Ð?ß 2B! Ð?ß AÑÑ.
Dem: Pelo resultado precedente, fixado um produto interno em I , XÐB! ßAÑ ÐIÑ
é o conjunto dos pares Ð?ß DÑ, tais que ? − XB! ÐEÑ e D − 2B! Ð?ß AÑ  IB!
(subespaço afim de espaço vectorial associado IB! , contendo o elemento
2B! Ð?ß AÑ), em particular os elementos de XÐB! ßAÑ ÐIÑ são exactamente os que
se podem escrever como soma de um elemento da forma Ð?ß 2B! Ð?ß AÑÑ com
um elemento de Ö!× ‚ IB! . Tem-se assim XÐB! ßAÑ ÐIÑ œ [B! ßA  ÐÖ!× ‚ IB Ñ
e esta soma é directa, uma vez que os dois subespaços têm evientemente
Ð!ß !Ñ como único elemento comum. Se A œ !, vem 2B! Ð?ß !Ñ œ !, pelo que
XÐB! ß!Ñ ÐIÑ œ XB! ÐEÑ ‚ IB! . No caso em que 2B! œ !, tem-se, pela mesma
razão, para cada A − IB! , XÐB! ßAÑ ÐIÑ œ XB! ÐEÑ ‚ IB! . Reciprocamente, se
esta igualdade é verificada, para cada A − IB! , concluímos, de se ter
Ð?ß 2B! Ð?ß AÑÑ − XÐB! ßAÑ ÐIÑ, que 2B! Ð?ß AÑ pertence ao mesmo tempo a IB! e
a IB¼! , pelo que 2B! Ð?ß AÑ œ !, ou seja, 2B! œ !. A condição 2B! œ !, sendo
equivalente à de se ter XÐB! ßAÑ ÐIÑ œ XB! ÐEÑ ‚ IB! , para cada A − IB! , não
vai depender do produto interno que se considera em I . O facto de, para um
ponto B! de estacionaridade, se ter f[B! œ H[B! resulta da fórmula
f[B! Ð?Ñ œ H[B! Ð?Ñ  2B! Ð?ß [B! Ñ. …
III.3.21 (Corolário) Sejam E § K, I um espaço euclidiano ou hermitiano,
I w § I um subespaço vectorial e I œ ÐIB ÑB−E um fibrado vectorial, com
IB § I w . Para cada B − E, a segunda forma fundamental 2B não depende de
se considerar I ou I w como espaço ambiente das fibras sendo, em particular,
uma aplicação bilinear de XB ÐEÑ ‚ IB em I w .
Dem: Notando 2B a segunda forma fundamental quando se considera I w
como espaço ambiente das fibras, para cada A − IB e ? − XB ÐEÑ, 2B Ð?ß AÑ
§3. Derivação covariante e segunda forma fundamental 219

vai ser um vector de I w , em particular de I , ortogonal a IB e tal que


Ð?ß 2B Ð?ß AÑÑ − XÐBßAÑ ÐIÑ pelo que, tendo em conta III.3.18, 2B Ð?ß AÑ
coincide com o valor da segunda forma fundamental, quando se considera I
como espaço ambiente das fibras (temos dois vectores ortogonais a IB ,
pertencentes a um mesmo subespaço afim de I de subespaço vectorial
associado IB ). …

O corolário seguinte é utilizado com muita frequência para deterninar o


valor das segundas formas fundamentais.

III.3.22 (Corolário) Sejam E § K, I um espaço euclidiano ou hermitiano e


I œ ÐIB ÑB−E um fibrado vectorial, com IB § I . Dados B − E, A − IB e
Ð?ß DÑ − XÐBßAÑ ÐIÑ, tem-se então que o valor da segunda forma fundamental
2B Ð?ß AÑ é a projecção ortogonal de D sobre IB¼ .
Dem: Uma vez que Ð?ß 2B Ð?ß AÑÑ − XÐBßAÑ ÐIÑ, concluímos que se tem
D  2B Ð?ß AÑ − IB , bastando agora lembrar que 2B Ð?ß AÑ − IB¼ . …
III.3.23 (Propriedade de simetria do fibrado vectorial tangente) Sejam K um
espaço vectorial de dimensão finita e Q § K uma variedade e consideremos
o fibrado vectorial tangente X ÐQ Ñ, assim como o respectivo espaço total,
notado também X ÐQ Ñ, que é uma parte de Q ‚ K § K ‚ K . Tem-se então:
a) Dados B! − Q , ?ß @ − XB! ÐQ Ñ e D − K, tem-se Ð?ß DÑ − XÐB! ß@Ñ ÐX ÐQ ÑÑ se,
e só se, Ð@ß DÑ − XÐB! ß?Ñ ÐX ÐQ ÑÑ;
b) Fixado um produto interno em K, para cada B! − Q a segunda forma
fundamental 2B! À XB! ÐQ Ñ ‚ XB! ÐQ Ñ Ä XB! ÐQ Ѽ é uma aplicação bilinear
simétrica.
Dem: Dados B! − Q e ?ß @ − XB! ÐQ Ñ, sabemos que tanto o conjunto dos
D − K, tais que Ð?ß DÑ − XÐB! ß@Ñ ÐX ÐQ ÑÑ, como o conjunto dos D − K , tais que
Ð@ß DÑ − XÐB! ß?Ñ ÐX ÐQ ÑÑ, são subespaços afins de K , tendo XB! ÐQ Ñ como
subespaço vectorial associado. Para demonstrar a asserção de a), basta assim
mostrar que estes dois subespaços afins têm um elemento comum. Conside-
remos então um sector E dum espaço vectorial J , de dimensão finita, um
aberto Y de E, com ! − Y , um aberto Z de Q , com B! − Z , e um
difeomorfismo 0 À Y Ä Z , tal que 0 Ð!Ñ œ B! . Sejam Y s um aberto de J ,
s
contendo Y , e 0 À Y s Ä K um prolongamento suave de 0 . Uma vez que H0! é
um isomorfismo de J œ X! ÐEÑ sobre XB! ÐQ Ñ, podemos considerar
?w ß @w − J , tais que H0! Ð?w Ñ œ ? e H0! Ð@w Ñ œ @. Considerando a aplicação
suave de Y em X ÐQ Ñ, definida por
s C Ð@w ÑÑ,
C È Ð0 ÐCÑß H0C Ð@w ÑÑ œ Ð0 ÐCÑß H0

obtemos, por derivação no ponto !, na direcção de ?w ,

Ð?ß H#s0 ! Ð?w ß @w ÑÑ œ ÐH0! Ð?w Ñß H#s0 ! Ð?w ß @w ÑÑ − XÐB! ß@ÑÐX ÐQ ÑÑ.
220 Cap. III. Fibrados Vectoriais e o Ambiente Euclidiano

Por simetria dos papéis de ? e @, também Ð@ß H#s0 ! Ð@w ß ?w ÑÑ pertence a


XÐB! ß?Ñ ÐX ÐQ ÑÑ, o que, tendo em conta a simetria da derivada de segunda
ordem H#s0 ! , implica que o vector H#s0 ! Ð?w ß @w Ñ œ H#s0 ! Ð@w ß ?w Ñ pertence à
intersecção dos referidos subespaços afins. A demonstração de a) está assim
terminada. Quanto a b), sabemos que 2B! Ð?ß @Ñ e 2B! Ð@ß ?Ñ são elementos do
referido espaço afim, ambos pertencentes ao complementar ortogonal do
subespaço vectorial associado XB! ÐQ Ñ pelo que, tendo em conta III.3.18,
concluímos que eles são iguais. …
III.3.24 Sejam K um espaço vectorial de dimensão finita, Q § K uma
variedade e \ß ] dois campos vectoriais suaves sobre Q , isto é, duas
secções suaves do fibrado vectorial tangente X ÐQ Ñ. Em particular \ e ] são
aplicações suaves de Q em K , pelo que faz sentido considerar as aplicações
de Q em K, que a B − Q associam respectivamente H]B Ð\B Ñ e H\B Ð]B Ñ,
aplicações essas que não serão, em geral, campos vectoriais sobre Q
(comparar com o que se disse em III.3.1). Tem no entanto lugar um campo
vectorial suave sobre Q , Ò\ß ] Ó, chamado parêntesis de Lie dos campos
vectoriais \ e ] , definido por
Ò\ß ] ÓB œ H]B Ð\B Ñ  H\B Ð]B Ñ.
Além disso, se considerarmos um produto interno em K, tem-se a seguinte
caracterização alternativa do parêntesis de Lie:
Ò\ß ] ÓB œ f]B Ð\B Ñ  f\B Ð]B Ñ.

Dem: Fixemos um produto interno em K. Sabemos que se tem então


f]B Ð\B Ñ œ H]B Ð\B Ñ  2B Ð\B ß ]B Ñ,
f\B Ð]B Ñ œ H\B Ð]B Ñ  2B Ð]B ß \B Ñ,

pelo que, subtraindo membro a membro as igualdades precedentes e tendo


em conta a simetria da aplicação bilinear 2B , obtemos
Ò\ß ] ÓB œ H]B Ð\B Ñ  H\B Ð]B Ñ œ f]B Ð\B Ñ  f\B Ð]B Ñ.
Ficou assim provado que Ò\ß ] Ó, sendo a diferença de dois campos vectoriais
suaves, é também um campo vectorial suave. …
III.3.25 Sejam Q § K uma variedade, J um espaço vectorial de dimensão finita
e 0 À Q Ä J uma aplicação suave. Para cada campo vectorial \ œ Ð\B ÑB−Q
sobre Q , tem lugar uma nova aplicação H0 Ð\Ñ, de Q em J , definida por
H0 Ð\ÑB œ H0B Ð\B Ñ,
aplicação essa que notaremos também H\ 0 . Reparar que estas observações
se podem enquadrar no que foi dito em III.3.6, na medida em que uma
aplicação 0 À Q Ä J não é mais do que uma secção do fibrado vectorial
constante JQ , a derivada usual não sendo mais que a derivada covariante,
relativa ao fibrado vectorial constante. É claro que, como caso particular do
§3. Derivação covariante e segunda forma fundamental 221

que se viu em III.3.7, no caso em que não só a aplicação 0 À Q Ä J é suave


como o mesmo acontece ao campo vectorial \ , podemos garantir que a
aplicação H\ 0 À Q Ä J é também suave.
Uma notação alternativa usada frequentemente em vez de H\ 0 é \ † 0 .
Preferimos a primeira por tornar mais claro o parentesco com a derivação
covariante de secções.
III.3.26 Sejam Q § K uma variedade, J um espaço vectorial de dimensão finita
e 0 À Q Ä J uma aplicação suave. Dados os campos vectoriais suaves
\ œ Ð\B ÑB−Q e ] œ Ð]B ÑB−Q sobre Q , com o respectivo parêntesis de Lie
Ò\ß ] Ó, tem-se então
HÒ\ß] Ó 0 œ H\ H] 0  H] H\ 0 .72

Dem: Sejam Y s um aberto de K , contendo Q , e s0 À Y


s Ä J um prolonga-
mento suave de 0 . Tem-se, para cada B − Q ,
s B Ð]B Ñ,
ÐH] 0 ÑB œ H0B Ð]B Ñ œ H0
pelo que

ÐH\ H] 0 ÑB œ H#s0 B Ð\B ß ]B Ñ  H0


s B ÐH]B Ð\B ÑÑ.

Analogamente se tem

ÐH] H\ 0 ÑB œ H#s0 B Ð]B ß \B Ñ  H0


s B ÐH\B Ð]B ÑÑ,

pelo que, subtraindo membro a membros as duas igualdades e tendo em


conta a simetria da aplicação bilinear H#s0 B À K ‚ K Ä J e o facto de se ter
H]B Ð\B Ñ  H\B Ð]B Ñ œ Ò\ß ] ÓB − XB ÐQ Ñ, obtemos
s B ÐH]B Ð\B Ñ  H\B Ð]B ÑÑ œ
ÐH\ H] 0 ÑB  ÐH] H\ 0 ÑB œ H0
œ H0B ÐÒ\ß ] ÓB Ñ œ ÐHÒ\ß] Ó 0 ÑB . …

III.3.27 Chama-se álgebra de Lie a um espaço vectorial I , em que está definida


uma aplicação bilinear de I ‚ I em I , notada Ð?ß @Ñ È Ò?ß @Ó, verificando
as propriedades seguintes:
a) Ò?ß @Ó œ Ò@ß ?Ó; em particular, Ò?ß ?Ó œ !;
b) ÒÒ?ß @Óß AÓ  ÒÒ@ß AÓß ?Ó  ÒÒAß ?Óß @Ó œ !.
À igualdade em b) costuma-se dar o nome de identidade de Jacobi.
III.3.28 Seja Q § K uma variedade e seja k ÐQ Ñ o espaço vectorial dos campos
vectoriais suaves sobre Q . Tem-se então que k ÐQ Ñ, com o parêntesis de
Lie definido em III.3.24, é uma álgebra de Lie.

72Repare-seque a fórmula com que definimos o parêntesis de Lie Ò\ß ] Ó pode ser obtida
como o caso particular da fórmula precedente, em que se toma para 0 a inclusão de Q
em K.
222 Cap. III. Fibrados Vectoriais e o Ambiente Euclidiano

Dem: É trivial que, dados os campo= vectorais suaves \ß ] sobre Q , tem-se


Ò] ß \Ó œ Ò\ß ] Ó. Sejam agora \ß ] ß ^ três campos vectoriais sobre Q .
Podemos então escrever
ÒÒ\ß ] Óß ^Ó œ HÒ\ß] Ó ^  H^ Ò\ß ] Ó œ
œ H\ H] ^  H] H\ ^  H^ ÐH\ ]  H] \Ñ œ
œ H\ H ] ^  H ] H \ ^  H ^ H \ ]  H ^ H ] \ ,

e, por permutação circular dos papéis de \ , ] e ^ ,


ÒÒ] ß ^Óß \Ó œ H] H^ \  H^ H] \  H\ H] ^  H\ H^ ] ,
ÒÒ^ß \Óß ] Ó œ H^ H\ ]  H\ H^ ]  H] H^ \  H] H\ ^ .

Somando as três igualdades anteriores, obtemos finalmente


ÒÒ\ß ] Óß ^Ó  ÒÒ] ß ^Óß \Ó  ÒÒ^ß \Óß ] Ó œ !. …

Vamos terminar esta secção com uma aplicação da geometria do espaço


total dos fibrados vectoriais ao estudo do comportamento do espaço
ambiente “próximo” duma subvariedade sem bordo.

III.3.29 (Vizinhanças tubulares) Sejam I um espaço euclidiano e Q § I uma


variedade sem bordo e consideremos o fibrado vectorial normal
X ÐQ Ѽ œ ÐXB ÐQ Ѽ ÑB−Q . Existe então uma aplicação suave :À Q Ä Ó!ß "Ò
tal que:
a) Notando H o aberto do espaço total de X ÐQ Ѽ , contendo Q ‚ Ö!×,
H œ ÖÐBß AÑ − X ÐQ Ѽ ± mAm  :ÐBÑ×,

tem lugar um difeomorfismo 0 de H sobre um aberto Y de I , contendo Q ,


definido por 0 ÐBß AÑ œ B  A, difeomorfismo que verifica 0 ÐBß !Ñ œ B;
b) Para cada ÐBß AÑ − H, B é o único ponto de Q a distância mínima do
ponto B  A − Y .
Nas condições anteriores, diz-se que Y é a vizinhança tubular de Q definida
pela função suave :.
Dem: Vamos dividir a demonstração em várias partes:
") Vamos começar por mostrar que, para cada + − Q , existe !  <+  "
verificando as seguintes propriedades:
!) Sendo H+ o aberto do espaço total X ÐQ Ѽ , contendo Ð+ß !Ñ,
H+ œ ÖÐBß AÑ − X ÐQ Ѽ ± mB  +m  <+ • mAm  <+ ×,
tem lugar um difeomorfismo 0Ð+Ñ de H+ sobre um aberto Y+ de I , com
+ − Y+ , definido por 0Ð+Ñ ÐBß AÑ œ B  A;
") Para cada ÐBß AÑ − H+ , B é o único ponto de Q a distância mínima
do ponto B  A − Y+ .
§3. Derivação covariante e segunda forma fundamental 223

Subdem: Consideremos a aplicação suave 0 À X ÐQ Ѽ Ä I definida por


0 ÐBß AÑ œ B  A. Sabemos que X ÐQ Ѽ é uma variedade sem bordo e que
XÐ+ß!Ñ ÐX ÐQ Ѽ Ñ œ X+ ÐQ Ñ ‚ X+ ÐQ Ѽ (cf. III.1.27 e III.3.20) pelo que a apli-
cação linear derivada
H0 Ð+ß!Ñ À X+ ÐQ Ñ ‚ X+ ÐQ Ѽ Ä I ,

que está definida por Ð?ß @Ñ È ?  @, é um isomorfismo. Podemos assim


aplicar o teorema da função inversa para garantir a existência de um aberto
s+ de X ÐQ Ѽ , contendo Ð+ß !Ñ tal que a restrição de 0 seja um
H
difeomorfismo de H s+ sobre um aberto Y s + de I . Seja G+ uma vizinhança
compacta de + em Q e fixemos !  V+  % tal que, sempre que
ÐBß AÑ − X ÐQ Ѽ verifica mB  +m  V+ e mAm  V+ se tenha B − G+ e
ÐBß AÑ − Hs+ . Vamos verificar que <+ œ " V+ verifica as condições pedidas.
%
A propriedade !) resulta de que H+ é um aberto de X ÐQ Ѽ contido em H s+ e
contendo Ð+ß !Ñ e portanto a restrição 0Ð+Ñ de 0 é um difeomorfismo de H+
sobre um aberto Y+ de I , que contém + œ 0 Ð+ß !Ñ.
Provemos então a propriedade " ), fixando ÐBß AÑ − H+ e notando C œ B  A.
Comecemos por mostrar a existência de um ponto B s − Q a distância mínima
de C . Consideremos o conjunto G s + œ ÖBw − Q ± mBw  +m Ÿ $<+ × que
contém B, é fechado em Q e contido em G+ , logo fechado em G+ e portanto
é compacto. A função contínua Q Ä ‘, Bw È mC  Bw m restrita ao compacto
s + atinge o seu mínimo num certo B
G s−G s + , tendo-se, é claro,

s Ÿ mC  Bm œ mAm  <+ .
mC  Bm
O que se passa é que Bs não é só um minimizante para a restrição da função a
s + , é mesmo um minimizante da função em todo o Q , podendo mesmo
G
dizer-se que, se Bw − Q verificasse mC  Bw m Ÿ mC  Bm
s vinha mC  Bw m  <+
portanto
mBw  +m Ÿ mBw  Cm  mC  Bm  mB  +m  $<+ ,

donde Bw − G s + o que mostra não só que B


s é um minimizante da distância a C
em todo o Q como que qualquer um desses minimizantes tem que estar em
s + . Para terminarmos a prova de a) vamos considerar que B
G s é um
minimizante qualquer em Q da distância a C , lembrar que tem que ser
B
s−G s + e mostrar que é necessariamente B
s œ B. Ora, uma vez que a função
suave :À Q Ä ‘ definida por :ÐBw Ñ œ mC  Bw m# também atinge um mínimo
em B s, a sua derivada nesse ponto tem que ser !, portanto, para cada
? − XBs ÐQ Ñ
s ?Ù,
! œ H:Bs Ð?Ñ œ # ØC  Bß
o que implica que C  B
s − XBs ÐQ Ѽ . Uma vez que
224 Cap. III. Fibrados Vectoriais e o Ambiente Euclidiano

s Ÿ mC  Bm œ mAm  <+ ,
mC  Bm

vemos agora que ÐBß AÑ e ÐBß s são dois elementos de X ÐQ Ѽ em H


s C  BÑ s+
com 0 ÐBß AÑ œ C œ 0 ÐBß s pelo que, por a restrição de 0 ser injectiva
s C  BÑ
sai, em particular, B œ B
s, como queríamos.
2) Notemos H s o aberto de X ÐQ Ѽ , contendo Q ‚ Ö!×, união dos H+ , com
s
+ − Q , e Y o aberto de I , contendo Q , união dos Y+ , com + − Q . Tem
então lugar uma aplicação sobrejectiva
s0 À H
sÄY
s, s0 ÐBß AÑ œ B  A,

que é suave por ter restrições suaves 0Ð+Ñ aos abertos H+ de união H sÞ Além
disso, para cada ÐBß AÑ − Hs, B é o único ponto de Q a distância mínima de
s0 ÐBß AÑ e A œ s0 ÐBß AÑ  B, o que mostra que a aplicação s0 é injectiva, e
portanto uma bijecção de H s sobre Ys , sendo mesmo um difeomorfismo de H s
sobre Ys uma vez que a inversa é suave, por ter restrições suaves, iguais a
"
0Ð+Ñ s.
aos abertos Y+ de união Y
3) Vamos provar a existência de uma aplicação suave :À Q Ä Ó!ß "Ò tal que
o aberto H œ ÖÐBß AÑ − X ÐQ Ѽ ± mAm  :ÐBÑ× de X ÐQ Ѽ , contendo
Q ‚ Ö!×, esteja contido no aberto H s referido em 2). Será então trivial que se
verificam as condições a) e b) no enunciado.
Subdem: Para cada + − Q seja Z+ œ ÖB − Q ± mB  +m  <+ ×, que é um
aberto de Q , contendo +. Consideremos uma partição da unidade associada à
cobertura aberta de Q pelos conjuntos Z+ , portanto uma família localmente

cada B − Q , ! :+ ÐBÑ œ " (cf. II.3.11). Vamos ver que a aplicação suave
finita de aplicação suaves :+ À Q Ä Ò!ß "Ó com :+ nula fora de Z+ e, para

+−Q
:À Q Ä ‘ definida por
:ÐBÑ œ " :+ ÐBÑ <+
+−Q

toma valores em Ó!ß "Ò e verifica as condições pretendidas.


Sejam B − Q e A − XB ÐEѼ com mAm  :ÐBÑ. Apenas para um número
finito de índices + (pelo menos um) tem-se :+ ÐBÑ Á ! e podemos chamar +!
a um desses índices para os quais <+ seja mínimo e +" a um daqueles para os
quais <+ seja máximo. Tem-se então
:ÐBÑ œ " :+ ÐBÑ <+   " :+ ÐBÑ <+! œ <+!  !

:ÐBÑ œ " :+ ÐBÑ <+ Ÿ " :+ ÐBÑ <+" œ <+"  "


+−Q +−Q

+−Q +−Q

s.
e, tem-se B − Z+" e mAm  :ÐBÑ Ÿ <+" , portanto ÐBß AÑ − H+" § H …
§3. Derivação covariante e segunda forma fundamental 225

III.3.30 (Corolário) Sejam I um espaço euclidiano, Q § I uma variedade sem


bordo e Y ¨ Q uma vizinhança tubular de Q , definida por uma aplicação
suave :À Q Ä Ó!ß "Ò. Tem-se então:
a) Tem lugar uma submersão 3À Y Ä Q , definida pela condição de 3ÐCÑ ser
o único ponto de Q à distância mínima de C, a qual é uma retracção, no
sentido que 3ÐBÑ œ B, para cada B − Q .
b) Q é um retracto por deformação forte de Y , isto é, existe uma aplicação
suave LÀ Ò!ß "Ó ‚ Y Ä Y tal que LÐ"ß BÑ œ B, LÐ!ß BÑ − Q e, para cada
> − Ò!ß "Ó e B − Q , LÐ>ß BÑ œ B.
Dem: Nas notações do enunciado precedente, consideremos as aplicações
suaves 3À Y Ä Q e 2À Y Ä I , definidas por 0 " ÐCÑ œ Ð3ÐCÑß 2ÐCÑÑ, a pri-
meira das quais, pela alínea b) desse resultado, tem a interpretação na alínea
a) do enunciado. Definindo LÐ>ß CÑ œ 3ÐCÑ  >2ÐCÑ e reparando que, para
cada B − Q , 0 " ÐBÑ œ ÐBß !Ñ, ou seja, 3ÐBÑ œ B e 2ÐBÑ œ !, fica justificada
a alínea b) do enunciado, assim como o facto de 3 ser uma retracção.
Resta-nos mostrar que a aplicação suave 3 é mesmo uma submersão. Uma
vez que 3 é a composta do difeomorfismo 0 " À Y Ä H com a restrição da
primeira projecção X ÐQ Ѽ Ä Q , ficamos reduzidos a mostrar que esta
restrição é uma submersão, isto é, que, para cada ÐBß AÑ − X ÐQ Ѽ , a
restrição da primeira projecção XÐBßAÑ ÐX ÐQ Ѽ Ñ Ä XB ÐQ Ñ é uma aplicação
linear sobrejectiva e isso resulta de, para cada ? − XB ÐQ Ñ, existir D − I tal
que Ð?ß DÑ − XÐBßAÑ ÐX ÐQ Ѽ Ñ. …
III.3.31 (Corolário) Sejam I um espaço vectorial de dimensão finita e Q § I
uma variedade sem bordo. Sejam I s um espaço vectorial de dimensão finita,
s
E§I s Ä Q uma aplicação suave. Existe
s um subconjunto arbitrário e 1À E
então um aberto Y s de I s§Y
s , com E s e uma aplicação suave s1À Y
s Ä Q tal
que s1ÎEs œ 1. 73
Dem: Tendo em conta II.3.10, sabemos que existe um aberto Y de I s , com
Es § Y , e uma aplicação suave 1À Y Ä I tal que 1 s œ 1; o problema é que
ÎE
nada nos diz que 1 tome valores em Q . Consideremos, no entanto, uma
vizinhança tubular Y ¨ Q de Q , com a correspondente retracção suave
s o
3À Y Ä Q , nas condições da alínea a) do resultado precedente. Sendo Y
s s
aberto de I , contendo E, constituído pelos B − Y tais que 1ÐBÑ − Y ,
podemos considerar a aplicação suave s1À Y s Ä Q definida por s1ÐBÑ œ
s
3Ð1ÐBÑÑ, a qual tem restrição a E igual a 1. …

73Ao contrário do que sucede com o problema do prolongamento de aplicações suaves


com valores em I , em que sabemos que, quando Q s é fechado em Is , podemos obter um
prolongamento a I s , no caso presente, em que pretendemos prolongamentos com valores
na subvariedade Q , isso, em geral, não é possível. Pensar, por exemplo, no caso em que
pretendemos estender a ‘ a aplicação identidade de Ö"ß "×, de forma a tomar valores
em Ö"ß "×.
226 Cap. III. Fibrados Vectoriais e o Ambiente Euclidiano

Repare-se que, como é evidente, se uma aplicação suave :À Q Ä Ó!ß "Ò


define uma vizinhança tubular Y da variedade sem bordo Q § I ,
qualquer aplicação suave <À Q Ä Ó!ß "Ò tal que <ÐBÑ Ÿ :ÐBÑ, para cada
B − Q , define também uma vizinhança tubular Z § Y de Q . Um caso
particular importante é aquele em que a variedade Q é compacta e não
vazia, caso em que, sendo <  ! o mínimo de : em Q , pode-se
considerar a vizinhança tubular definida pela função constante de valor <.
Nesse caso, o corolário seguinte aponta para uma caracterização
importante da vinhança tubular.

III.3.32 (Corolário) Sejam I um espaço euclidiano e Q § I uma variedade


sem bordo, compacta e não vazia. Existe então !  <  " tal que a função
<À Q Ä Ó!ß "Ò de valor constante < define uma vizinhança tubular Y< e,
qualquer que seja < nessas condições, Y< é o conjunto dos C − I tais que
.ÐCß Q Ñ  <.
Dem: Como já referimos, sendo :À Q Ä Ó!ß "Ò uma aplicação suave que
defina uma vizinhança tubuluar de Q , podemos tomar para < o mínimo de :
e então a função de valor constante < também define uma vizinhança tubular
Y< , que vai ser constituída pelos pontos da forma C œ B  A, com B − Q ,
A − XB ÐQ Ѽ e mAm  <. Para cada C − Y< , tem-se, na decomposição
precedente, mC  Bm œ mAm  <, o que mostra que .ÐCß Q Ñ  <. Recipro-
camente, suponhamos que C − I é tal que .ÐCß Q Ñ  <. O facto de Q ser
compacta implica que a função suave 1À Q Ä Ò!ß _Ò, 1ÐBÑ œ mC  Bm#
atinge o seu mínimo num ponto B! − Q , tendo-se 1ÐB! Ñ œ .ÐCß Q Ñ#  <# .
Tem-se então #ØC  B! ß ?Ù œ H1B! Ð?Ñ œ !, para todo o ? − XB! ÐQ Ñ, ou seja,
A! œ C  B! − XB! ÐQ Ѽ e vem mA! m  < e C œ B!  A! , o que mostra que
C − Y< . …

Na figura 7 estão representadas vizinhanças tubulares de duas subvarie-


dades sem bordo do plano, uma compacta (uma circunferência) e outra
não compacta (uma semicircunferência).

Figura 7
Em ambos os casos as vizinhanças estão associadas a uma função
§3. Derivação covariante e segunda forma fundamental 227

constante < e, apesar disso, no caso não compacto, a vizinhança tubular


está contida estritamente no conjunto dos pontos a distância menor que < .

§4. Aplicação ao estudo elementar das curvas.

III.4.1 Seja I um espaço vectorial real de dimensão finita. Vamos chamar


curvas de I às variedades Q § I com dimensão ".
III.4.2 Sejam I um espaço euclidiano e Q § I uma curva. Dado B − Q , o
espaço vectorial tangente XB ÐQ Ñ tem dimensão ", pelo que possui dois, e só
dois, vectores de norma ", um simétrico do outro; escolhamos um deles e
notêmo-lo t>B (lembrar que escolher um daqueles dois vectores de norma "
equivale a escolher uma orientação de XB ÐQ Ñ, aquela para a qual ele
constitui uma base directa — dizemos que aquele vector é a tangente unitária
positiva, relativamente à orientação em questão). Uma vez que uma aplicação
bilinear fica determinada se conhecermos as imagens dos pares constituídos
por elementos duma base, vemos que a segunda forma fundamental
2B À XB ÐQ Ñ ‚ XB ÐQ Ñ Ä XB ÐQ Ѽ fica conhecida se conhecermos o vector

5t B œ 2B Ð>tB ß t>B Ñ − XB ÐQ Ѽ .

Dizemos que 5t B é o vector curvatura da curva Q no ponto B (repare-se que


ele não depende da escolha que fizemos do vector de norma " de XB ÐQ Ñ).
III.4.3 Sejam I um espaço euclidiano e Q § I uma curva, suavemente orien-
tada. Tem então lugar um campo vectorial suave t> œ Ð>tB ÑB−Q , que a cada
B − Q associa a tangente unitária positiva, isto é, o único vector de XB ÐQ Ñ,
que tem norma " e constitui uma base directa daquele espaço. Para cada
B − Q , o vector curvatura 5t B é então dado por

5t B œ H>tB Ð>tB Ñ.

Dem: O facto de ter lugar um campo vectorial suave t>, definido no


enunciado, é uma consequência de III.2.11. Reparemos agora que, uma vez
que, para cada B − Q , Ø>tB ß t>B Ù œ ", obtemos, por derivação de ambos os
membros em B e na direcção de t>B ,
#ØH>tB Ð>tB Ñß t>B Ù œ ØH>tB Ð>tB Ñß t>B Ù  Ø>tB ß H>tB Ð>tB ÑÙ œ !,

donde ØH>tB Ð>tB Ñß t>B Ù œ !, portanto H>tB Ð>tB Ñ − XB ÐQ Ѽ . Deduzimos agora que
tem lugar uma aplicação suave de Q no espaço total X ÐQ Ñ do fibrado
vectorial tangente, que a B associa ÐBß t>B Ñ. Derivando em B na direcção de t>B ,
228 Cap. III. Fibrados Vectoriais e o Ambiente Euclidiano

obtemos
Ð>tB ß H>tB Ð>tB ÑÑ − XÐBß>tB Ñ ÐX ÐQ ÑÑ,

o que, pela caracterização da segunda forma fundamental dada em III.3.19 c),


implica que H>tB Ð>tB Ñ œ 2B Ð>tB ß t>B Ñ œ 5t B . …

Repare-se que esta fórmula para o cálculo do vector de curvatura


pressupõe que a variedade Q , de dimensão ", esteja suavemente
orientada pelo que ela apenas parece poder ser aplicada às curvas
orientáveis. A fórmula pode no entanto ser sempre aplicada pelas razões
seguintes:
a) Pode-se provar, embora a demonstração não seja elementar, que toda a
variedade de dimensão " é orientável;
b) Mesmo desconhecendo o resultado referido, toda a variedade é local-
mente orientável, no sentido que cada ponto B pertence a um aberto que é
orientável (basta considerar um aberto onde a restrição do fibrado
tangente seja trivial) e, no caso duma curva, é evidente que o vector de
curvatura em B coincide com o vector de curvatura daquele aberto no
mesmo ponto.
Existe um método alternativo de determinação do vector curvatura que,
apesar de ter um aspecto mais complexo que o do que decorre da propo-
sição precedente conduz frequentemente na prática a cálculos mais
simples.

III.4.4 Sejam I um espaço euclidianoß Q § I uma variedade de dimensão " e


\ œ Ð\B ÑB−Q uma secção suave de X ÐQ Ñ tal que, para cada B − Q ,
\B Á !. Notando 1B¼ a projecção ortogonal de I sobre o complementar
ortogonal de XB ÐQ Ñ, tem-se então
"
5t B œ 1¼ ÐH\B Ð\B ÑÑ.74
m\B m# B

Dem: Tal como atrás, podemos considerar uma aplicação suave de Q para o
espaço total do fibrado vectorial tangente X ÐQ Ñ, que a cada B associa
ÐBß \B Ñ pelo que, por derivação, vemos que Ð\B ß H\B Ð\B ÑÑ −
XÐBß\B Ñ ÐX ÐQ Ñ. Tendo em conta III.3.22, concluímos que

2B Ð\B ß \B Ñ œ 1B¼ ÐH\B Ð\B ÑÑ,


bastando agora reparar que se pode escolher para tangente unitária positiva

74É claro que um caso particular deste resultado é aquele em que se toma para \B um
vector tangente unitário, caso em que caímos na situação estudada em III.4.3, com o
bónus de não termos que calcular a projecção ortogonal. A razão por que pode ser útil
este resultado está em que é frequentemente possível obter secções não unitárias de
X ÐQ Ñ com expressões mais simples que as correspondentes secções unitárias, que se
obtêm daquelas dividindo pelas respectivas normas.
§4. Aplicação ao estudo elementar das curvas 229

t>B œ \B Îm\B m, pelo que


"
5t B œ 2B Ð>tB ß t>B Ñ œ 2B Ð\B ß \B Ñ. …
m\B m#

III.4.5 Sejam I um espaço euclidiano e Q § I uma variedade de dimensão ".


É então suave a aplicação 5t , de Q em I , que a cada B − Q associa o vector
curvatura 5t B .
Dem: Seja B! − Q arbitrário. Seja Y um aberto de Q , com B! − Y , tal que
X ÐQ ÑÎY seja um fibrado vectorial trivial, em particular orientável.
Escolhendo uma das orientações suaves de X ÐQ ÑÎY , sabemos que tem lugar
uma aplicação suave de Y em I , que a cada B associa o vector t>B − XB ÐQ Ñ,
que tem norma " e constitui uma base directa deste espaço. O facto de, para
cada B − Y , se ter 5t B œ H>tB Ð>tB Ñ implica agora que a restrição da aplicação 5t
a Y é suave (se quisermos ser mais precisos, começamos por considerar um
prolongamento suave da aplicação Ð>tB ÑB−Y a um aberto de I ) pelo que o
facto de a noção de aplicação suave ser local implica que 5t é uma aplicação
suave. …

Tanto a definição, em conjunto com as observações que a precederam,


como o resultado anterior, mostram que o vector curvatura está intima-
mente relacionado com o modo como a curva curva, isto é com o modo
como varia o respectivo espaço vectorial tangente. Somos por isso
levados a pensar que as únicas curvas com vector curvatura identicamente
nulo são aquelas que estão contidas numa recta afim. Vamos ver que é
isso que acontece com as curvas conexas, para o que começamos por
estabelecer um lema, que teremos ocasião de utilizar pelo menos duas
vezes.

III.4.6 (Lema) Sejam K e I espaços vectoriais de dimensão finita, J! § I um


subespaço vectorial, Q § K uma variedade e 0 À Q Ä I uma aplicação
suave. Tem-se então:
a) Se 0 ÐQ Ñ está contido nalgum subespaço afim de I , com subespaço
vectorial associado J! , então, para cada B − Q , H0B ÐXB ÐQ ÑÑ § J! .
b) Reciprocamente, se a variedade Q é conexa e se, para cada B − Q ,
H0B ÐXB ÐQ ÑÑ § J! , então 0 ÐQ Ñ está contido nalgum subespaço afim de I ,
com subespaço vectorial associado J! .
Dem: Se J é um subespaço afim, de subespaço vectorial associado J! , tal
que 0 ÐQ Ñ § J , tem-se, tendo em conta III.3.17,
H0B ÐXB ÐQ ÑÑ § X0 ÐBÑ ÐJ Ñ œ J! ,

para cada B − Q . Suponhamos, reciprocamente, que Q é uma variedade


conexa, tal que, para cada B − Q , H0B ÐXB ÐQ ÑÑ § J! . Seja 1! À I Ä J! a
projecção ortogonal, relativamente a um certo produto interno de I .
230 Cap. III. Fibrados Vectoriais e o Ambiente Euclidiano

Podemos então considerar a aplicação suave 1À Q Ä I , definida por


1ÐBÑ œ 0 ÐBÑ  1! Ð0 ÐBÑÑ. Para cada B − Q , tem-se H1B œ !, visto que, para
cada ? − XB ÐQ Ñ, vem H0B Ð?Ñ − J! , donde
H1B Ð?Ñ œ H0B Ð?Ñ  1! ÐH0B Ð?ÑÑ œ !.
Concluímos assim que 1 é uma aplicação de valor constante C! , o que mostra
que, para cada B − Q ,
0 ÐBÑ œ C!  1! Ð0 ÐBÑÑ − C!  J! ,
e portanto 0 ÐQ Ñ está contido no subespaço afim C!  J! , de subespaço vec-
torial associado J! . …

Nas aplicações do lema anterior é frequente a situação particular em que


K œ I e 0 À Q Ä I é a inclusão. Nesse caso as propriedades que se
relacionam são o facto de Q estar contido num subespaço afim de
subespaço vectorial associado J! e o facto de se ter XB ÐQ Ñ § J! , para
cada B − Q .

III.4.7 Sejam I um espaço euclidiano e Q § I uma curva e notemos, para cada


B − Q , 5t B o vector de curvatura de Q em B. Tem-se então:
a) Se Q está contido numa recta afim (subespaço afim de I de dimensão "),
então, para cada B − Q , 5t B œ !.
b) Reciprocamente, se a curva Q é conexa e se, para cada B − Q , 5t B œ !,
então Q está contido numa recta afim.
Dem: Suponhamos que J é um subespaço afim de dimensão " de I , de
subespaço vectorial associado J! , tal que Q § J . Tem-se então, para cada
B − Q , XB ÐQ Ñ § J! , donde XB ÐQ Ñ œ J! , pelo que X ÐQ Ñ é um fibrado
vectorial constante. Concluímos daqui que, para cada B − Q , 2B œ !, em
particular, 5t B œ 2B Ð>tB ß t>B Ñ œ !. Suponhamos, reciprocamente, que Q é uma
curva conexa, tal que, para cada B − Q , 5t B œ !. Tem-se assim
2B Ð>tB ß t>B Ñ œ ! pelo que, uma vez que t>B é uma base de XB ÐQ Ñ, 2B œ !. Mais
uma vez por III.3.12, podemos concluir que X ÐQ Ñ é um fibrado vectorial
constante, cuja fibra vai ser um espaço vectorial J! de dimensão ", e o
resultado precedente vai-nos garantir então que Q está contido nalgum
subespaço afim de subespaço vectorial associado J! . …
III.4.8 Sejam I um espaço euclidiano e Q § I uma curva e notemos, para cada
B − Q , 5t B o vector curvatura de Q . Chama-se curvatura de Q no ponto B à
norma

5B œ m5t B m
do vector curvatura. Se a curvatura de Q num ponto B é não nula, chama-se
plano osculador de Q no ponto B ao subespaço vectorial de I gerado pelos
§4. Aplicação ao estudo elementar das curvas 231

vectores t>B e 5t B (estes vectores são linearmente independentes, por serem


ortogonais e não nulos), subespaço que não depende, evidentemente, da
escolha do vector tangente unitário t>B . Ainda neste caso, define-se a normal
principal da curva Q no ponto B como sendo o vector de norma "

5t B 5t B
8tB œ œ .
m5t B m 5B

É claro que t>B ß 8tB é então uma base ortonormada do plano osculador.
III.4.9 Sejam I um espaço euclidiano e Q § I uma curva, com curvatura não
nula em cada B − Q , e notemos, para cada B − Q , JB o plano osculador a
Q no ponto B. Tem-se então:
a) É suave a aplicação 8t, de Q em I , que a cada B − Q associa a normal
principal 8tB ;
b) A família J œ ÐJB ÑB−Q é um fibrado vectorial, a que daremos o nome de
fibrado vectorial osculador de Q .
Dem: Uma vez que sabemos que é suave a aplicação que a cada B associa o
vector curvatura 5t B , a suavidade da aplicação 8t é uma consequência imediata
do facto de se ter 8tB œ 5t B Îm5t B m. Dado B! − Q arbitrário, podemos escolher
um aberto Y de Q , com B! − Y , tal que X ÐQ ÑÎY seja um fibrado vectorial
trivial, em particular orientável. Sabemos que tem então lugar uma aplicação
suave de Y em I , que a cada B − Y associa o vector unitário t>B de XB ÐQ Ñ,
que constitui um base directa deste espaço, bastando agora reparar que as
aplicações que a cada B − Y associam t>B e 5t B , respectivamente, vão
constituir um campo de referenciais para J ÎY . …
III.4.10 Sejam I um espaço euclidiano e Q § I uma curva, com curvatura não
nula em cada ponto, e sejam J œ ÐJB ÑB−Q o respectivo fibrado osculador e,
s B À XB ÐQ Ñ ‚ JB Ä JB¼ , a segunda forma fundamental de
para cada B − Q , 2
J no ponto B. Dados B − Q e uma orientação de XB ÐQ Ñ, define-se o vector
torção de Q no ponto B (relativamente à orientação escolhida), como sendo
o vector
s B Ð>tB ß 8tB Ñ,
t7 B œ 2

onde t>B é a tangente unitária positiva e 8tB a normal principal. É claro que, se
trocarmos a orientação escolhida em XB ÐQ Ñ, o vector torção correspondente
vem multiplicado por ".75

75Em rigor, para definirmos o vector torção num ponto B! de Q não é necessário exigir
que a curvatura seja não nula em todos os pontos, bastando que ela seja não nula em B! .
Com efeito, deduz-se então, por continuidade, que ela é ainda não nula em todos os
pontos dum certo aberto Y de Q , contendo B! , e pode-se substituir nas considerações
precedentes a curva Q pela curva Y .
232 Cap. III. Fibrados Vectoriais e o Ambiente Euclidiano

III.4.11 Nas condições anteriores, o vector torção t7 B pertence a JB¼ , sendo


portanto ortogonal a t>B e a 8tB . A
7B œ mt7 B m
dá-se o nome de torção da curva \ no ponto B (esta já não depende da
orientação que se escolheu para XB ÐQ Ñ). No caso em que a torção de Q no
ponto B não é nula, define-se a binormal principal de Q no ponto B,
relativamente à orientação escolhida em XB ÐQ Ñ, como sendo o vector

t, B œ t7 B œ t7 B
mt7 B m 7B
(mais uma vez, este vector vem multiplicado por ", se trocarmos a
orientação escolhida de XB ÐQ Ñ). Repare-se que, nas condições anteriores,
t>B ß 8tB ß t, B é um sistema ortonormado de vectores de I .

Tal como acontecia com o vector curvatura, o vector torção vai


determinar completamente a segunda forma fundamental 2 s do fibrado
osculador. No entanto esse facto é agora menos evidente, na medida em
que, embora t>B seja uma base de XB ÐQ Ñ, 8tB não é uma base do plano
osculador JB . Para determinar a segunda forma fundamental teríamos a
priori de conhecer também o valor 2 s B Ð>tB ß t>B Ñ. O resultado que se segue
mostra que esse valor é sempre nulo, o que justifica a nossa afirmação
inicial. Demonstramos ao mesmo tempo uma fórmula alternativa para a
torção, no mesmo espírito que o da fórmula para a curvatura apresentada
em III.4.3.

III.4.12 Sejam I um espaço euclidiano e Q § I uma curva com curvatura não


nula em cada ponto e notemos 2 s a segunda forma fundamental do fibrado
osculador J œ ÐJB ÑB−Q . Seja B! − Q , escolhamos uma orientação de
XB! ÐQ Ñ e consideremos os correspondentes tangente unitária positiva t>B! e
vector torção t7 B! . Tem-se então

2s B! Ð>tB! ß t>B! Ñ œ !,
t7 B! œ 2 s B! Ð>tB! ß 8tB! Ñ œ 5B!t>B!  H8tB! Ð>tB! Ñ.

Dem: Eventualmente substituindo Q por um aberto Y § Q , com B! − Y ,


tal que X ÐQ ÑÎY seja trivial, podemos já supor que X ÐQ Ñ é trivial, em
particular orientável, escolher uma orientação suave de X ÐQ Ñ que em B!
tome o valor dado e considerar as correspondentes tangentes unitárias
positivas t>B .
Derivando ambos os membros da identidade Ø8tB ß 8tB Ù œ " no ponto B e na
direcção de t>B , obtemos
#ØH8tB Ð>tB Ñß 8tB Ù œ ØH8tB Ð>tB Ñß 8tB Ù  Ø8tB ß H8tB Ð>tB ÑÙ œ !,
§4. Aplicação ao estudo elementar das curvas 233

portanto
ØH8tB Ð>tB Ñß 8tB Ù œ !.

Do mesmo modo, derivando ambos os membros da identidade Ø8tB ß t>B Ù œ !


no ponto B e na direcção de t>B e tendo em conta que

H>tB Ð>tB Ñ œ 5t B œ 5B 8tB ,


obtemos
ØH8tB Ð>tB Ñß t>B Ù  Ø8tB ß 5B 8tB Ù œ !,
portanto
ØH8tB Ð>tB Ñß t>B Ù œ 5B .

Uma vez que, para cada B − Q , t>B − JB , portanto ÐBß t>B Ñ − J , obtemos, por
derivação em B na direcção de t>B ,

Ð>tB ß 5t B Ñ œ Ð>tB ß H>tB Ð>tB ÑÑ − XÐBß>tB Ñ ÐJ Ñ,

pelo que, tendo em conta III.3.22, e o facto de se ter 5t B − JB , concluímos


s B Ð>tB ß t>B Ñ œ !. Analogamente, uma vez que, para cada B − Q , 8tB − JB ,
que 2
portanto ÐBß 8tB Ñ − J , obtemos, por derivação em B na direcção de t>B ,
Ð>tB ß H8tB Ð>tB ÑÑ − XÐBß8tB Ñ ÐJ Ñ.

Mais uma vez pelo mesmo resultado, concluímos que t7 B œ 2 s B Ð>tB ß 8tB Ñ é a
projecção ortogonal de H8tB Ð>tB Ñ sobre JB¼ , pelo que, uma vez que t>B ß 8tB é
uma base ortonormada de JB ,
t7 B œ H8tB Ð>tB Ñ  ØH8tB Ð>tB Ñß t>B Ù>tB  ØH8tB Ð>tB Ñß 8tB Ù8tB œ
œ H8tB Ð>tB Ñ  5Bt>B . …

Tal como acontecia com o vector curvatura, o vector torção pode


frequentemente ser determinado com cálculos menos pesados, a partir do
resultado que apresentamos a seguir:

III.4.13 Sejam I um espaço euclidiano, Q § I uma curva com curvatura não


nula em cada ponto e ] œ Ð]B ÑB−Q uma secção suave do fibrado osculador
ÐJB ÑB−Q tal que, para cada B − Q , ]B Â XB ÐQ Ñ. Seja B! − Q , escolhamos
uma orientação de XB! ÐQ Ñ e consideremos os correspondentes tangente

unitária positiva t>B! , normal principal 8tB! e vector torção t7 B! . Notando 1 B! a
projecção ortogonal de I sobre o complementar ortogonal do plano oscu-
lador JB! , tem-se então
234 Cap. III. Fibrados Vectoriais e o Ambiente Euclidiano

"
t7 B! œ s¼ ÐH]B! Ð>tB! ÑÑ.
1
Ø]B! ß 8tB! Ù B!

Dem: Podemos considerar uma aplicação suave de Q para o espaço total J


do fibrado osculador, que a B associa ÐBß ]B Ñ pelo que, por derivação em B!
na direcção de t>B! , concluímos que Ð>tB! ß H]B! Ð>tB! ÑÑ − XÐB! ß]B! Ñ ÐJ Ñ. Tendo em
conta III.3.22, tem-se, para a segunda forma fundamental 2 s do fibrado
osculador,
s B! Ð>tB! ß ]B! Ñ œ 1
2 s¼ t
B! ÐH]B! Ð>B! ÑÑ.

Reparemos agora que, uma vez que ]B! − JB! e t>B! e 8tB! constituem uma
base ortonormada deste espaço, tem-se
]B! œ Ø]B! ß t>B! Ù t>B!  Ø]B! ß 8tB! Ù 8tB!

pelo que, tendo em conta III.4.12,


s B! Ð>tB! ß ]B! Ñ œ Ø]B! ß t>B! Ù 2
2 s B! Ð>tB! ß t>B! Ñ  Ø]B! ß 8tB! Ù 2
s B! Ð>tB! ß 8tB! Ñ œ Ø]B! ß 8tB! Ù t7 B!

o que implica o resultado. …

Como complemento do resultado precedente, mostramos em seguida


como na prática se pode determinar uma secção Ð]B ÑB−Q do fibrado oscu-
lador, nas condições da hipótese.

III.4.14 Sejam I um espaço euclidianoß Q § I uma variedade de dimensão " e


\ œ Ð\B ÑB−Q uma secção suave de X ÐQ Ñ tal que, para cada B − Q ,
\B Á !. Sendo, para cada B − Q , ]B œ H\B Ð\B Ñ, tem-se que Q tem
curvatura não nula em B se, e só se, ]B Â XB ÐQ Ñ e, nesse caso, ]B pertence
ao plano osculador JB .
Dem: Lembrando que
"
5t B œ 1¼ ÐH\B Ð\B ÑÑ,
m\B m# B

vemos que 5t B œ ! se, e só se, H\B Ð\B Ñ − XB ÐQ Ñ. Podemos também


escrever
H\B Ð\B Ñ œ 1B ÐH\B Ð\B ÑÑ  1B¼ ÐH\B Ð\B ÑÑ œ
œ 1B ÐH\B Ð\B ÑÑ  m\B m# 5t B ,

com 1B ÐH\B Ð\B ÑÑ − XB ÐQ Ñ § JB e m\B m# 5t B − JB , o que mostra que


H\B Ð\B Ñ − JB . …

Do mesmo modo que vimos atrás que a não nulidade do vector curvatura
estava ligada ao facto de uma curva não ser rectilínea, vamos agora ver
§4. Aplicação ao estudo elementar das curvas 235

que a nulidade do vector torção em todos os pontos corresponde ao facto


de uma curva ser plana.

III.4.15 Sejam I um espaço euclidiano e Q § I uma curva com curvatura não


nula em cada ponto. Tem-se então:
a) Se Q está contido num plano afim de I (isto é, num subespaço afim de
dimensão # de I ) então, para cada B − Q , t7 B œ !.
b) Se a curva Q é conexa e se, para cada B − Q , t7 B œ !, então Q está
contido num plano afim de I .
Dem: Fixemos uma orientação em cada XB ÐQ Ñ. Seja K um subespaço afim
de dimensão # de I , com subespaço vectorial associado K! , tal que Q § K .
Para cada B − Q , tem-se então XB ÐQ Ñ § K! , em particular t>B − K! .
Raciocinando em abertos onde o fibrado vectorial tangente seja trivial, em
particular orientável, e escolhendo as tangentes unitárias t>B associadas a uma
das orientações suaves, concluímos que 5t B œ H>tB Ð>tB Ñ − K! . Resulta daqui
que, para cada B − Q , o plano osculador JB , sendo gerado por t>B e 5t B , vai
estar contido em K! , e ser portanto igual a K! . Conclui-se então que o
fibrado osculador J œ ÐJB ÑB−Q é constante, o que implica que, para cada
B − Q , a sua segunda forma fundamental 2 s B é nula, em particular
t7 B œ 2s B Ð>tB ß 8tB Ñ œ !.
Suponhamos, reciprocamente, que a curva Q é conexa e que, para cada
B − Q , t7 B œ !, portanto que, sendo 2 s B À XB ÐQ Ñ ‚ JB Ä JB¼ a segunda
forma fundamental do fibrado osculador, tem-se 2 s B Ð>tB ß 8tB Ñ œ !. Pelo
resultado precedente, tem-se também 2 s B Ð>tB ß t>B Ñ œ ! pelo que, uma vez que
t>B ß 8tB é uma base de JB e t>B é uma base de XB ÐQ Ñ, 2 s B œ !. Podemos agora
aplicar III.3.12 para garantir que o fibrado osculador J œ ÐJB ÑB−Q é um
fibrado vectorial constante, de fibra K! , subespaço vectorial de dimensão #
de I . Em particular tem-se, para cada B − Q , t>B − K! , donde XB ÐQ Ñ § K!
o que, tendo em conta III.4.6, implica que Q está contido nalgum subespaço
afim, de subespaço vectorial associado K! . …
III.4.16 Sejam I um espaço vectorial de dimensão finita e Q § I uma curva.
Vamos chamar parametrização de Q a um difeomorfismo 0 À N Ä Q , em
que N é um intervalo de ‘ (que vai ser automaticamente uma variedade de
dimensão ", e portanto não se reduz a um único elemento).
Note-se que nem todas as curvas admitem uma parametrização; por exemplo
uma circunferência não admite, como se reconhece se repararmos que não
existe nenhuma variedade sem bordo, de dimensão ", compacta e não vazia
em ‘ (num elemento de módulo máximo de uma tal variedade o cone
tangente não seria ‘). No entanto, tendo em conta a definição de variedade,
constatamos imediatamente que, se Q é uma curva e B! − Q , existe um
aberto Y de Q (que é, em particular, uma curva), com B! − Y , e que admite
uma parametrização, cujo domínio pode ser tomado da forma Ó&ß &Ò ou
Ò!ß &Ò, conforme B! esteja em `! ÐQ Ñ ou em `" ÐQ Ñ.
236 Cap. III. Fibrados Vectoriais e o Ambiente Euclidiano

III.4.17 Sejam I um espaço vectorial de dimensão finita e Q § I uma curva,


admitindo uma parametrização 0 À N Ä Q . Tem então lugar uma aplicação
suave 0 w À N Ä I , que a cada > − N associa o vector 0 w Ð>Ñ œ H0> Ð"Ñ, e fica
definida uma orientação suave de Q , a que daremos o nome de orientação
associada à parametrização, definida pela condição de, para cada > − N , o
vector 0 w Ð>Ñ ser uma base directa de X0 Ð>Ñ ÐQ Ñ.
Dem: O facto de 0 ser um difeomorfismo de N sobre Q implica que, para
cada > − N , H0> é um isomorfismo de X> ÐN Ñ œ ‘ sobre X0 Ð>Ñ ÐQ Ñ, pelo que
0 w Ð>Ñ œ H0> Ð"Ñ é uma base de X0 Ð>Ñ ÐQ Ñ e fica bem definida uma orientação
deste espaço vectorial, pela condição de esta base ser directa. Considerando
um prolongamento de 0 a um aberto de ‘, contendo N , constatamos que é
suave a aplicação de N em I , que a > associa 0 w Ð>Ñ, pelo que, por composição
com o difeomorfismo 0 " , obtemos uma aplicação suave de Q em I , que a
B associa 0 w Ð0 " ÐBÑÑ, a qual vai constituir um campo de referenciais directo
de X ÐQ Ñ. Ficou assim provada a suavidade da orientação de Q . …
III.4.18 Sejam I um espaço vectorial de dimensão finita, N § ‘ um intervalo
com mais que um elemento e 0 À N Ä I uma aplicação suave tal que, para
um certo >! − N , 0 w Ð>! Ñ Á !. Tem-se então que a aplicação linear
H0>! À ‘ Ä I é injectiva, por aplicar " em 0 w Ð>! Ñ, e, tendo em conta uma das
consequências do teorema da imersão (cf. II.6.25), podemos concluir a
existência de um aberto N w de N , com >! − N w , aberto esse que se pode já
supor ser um intervalo, tal que a restrição de 0 a N w seja um difeomorfismo
de N w sobre 0 ÐN w Ñ. Conclui-se então que 0 ÐN w Ñ é uma curva, admitindo a
restrição de 0 como parametrização.
III.4.19 Sejam I um espaço euclidiano e Q § I uma curva, admitindo uma
parametrização 0 À N Ä Q , e consideremos sobre Q a orientação associada.
Tem-se então que, para cada > − N , a tangente unitária positiva em X0 Ð>Ñ ÐQ Ñ
é dada por
w
t>0 Ð>Ñ œ 0 Ð>Ñ
m0 w Ð>Ñm
"
e o vector curvatura em 0 Ð>Ñ é igual ao produto de m0 w Ð>Ñm # pela projecção

ortogonal de 0 ww Ð>Ñ sobre o complementar ortogonal de X0 Ð>Ñ ÐQ Ñ, sendo


portanto dado por
"
5t 0 Ð>Ñ œ Ð0 ww Ð>Ñ  Ø0 ww Ð>Ñß t>0 Ð>Ñ Ù>t0 Ð>Ñ Ñ œ
m0 w Ð>Ñm#
"
œ Ðm0 w Ð>Ñm# 0 ww Ð>Ñ  Ø0 ww Ð>Ñß 0 w Ð>ÑÙ0 w Ð>ÑÑ.
m0 Ð>Ñm%
w

Dem: É claro que 0 w Ð>ÑÎm0 w Ð>Ñm é um vector de norma " de X0 Ð>Ñ ÐQ Ñ,


constituindo uma base directa deste espaço, pelo que ele é precisamente a
tangente unitária positiva em 0 Ð>Ñ. Uma vez que, para cada > − N ,
§4. Aplicação ao estudo elementar das curvas 237

0 w Ð>Ñ − X0 Ð>Ñ ÐQ Ñ, portanto Ð0 Ð>Ñß 0 w Ð>ÑÑ pertence ao espaço total X ÐQ Ñ do


fibrado tangente, obtemos, por derivação, que
Ð0 w Ð>Ñß 0 ww Ð>ÑÑ − XÐ0 Ð>Ñß0 w Ð>ÑÑ ÐX ÐQ ÑÑ,

pelo que, tendo em conta III.3.22, 20 Ð>Ñ Ð0 w Ð>Ñß 0 w Ð>ÑÑ vai ser a projecção
ortogonal de 0 ww Ð>Ñ sobre X0 Ð>Ñ ÐQ Ѽ . O resultado é agora uma consequência
de se ter 0 w Ð>Ñ œ m0 w Ð>Ñm>t0 Ð>Ñ , portanto

20 Ð>Ñ Ð0 w Ð>Ñß 0 w Ð>ÑÑ œ m0 w Ð>Ñm# 20 Ð>Ñ Ð>t0 Ð>Ñ ß t>0 Ð>Ñ Ñ œ m0 w Ð>Ñm# 5t0 Ð>Ñ ,

e de t>0 Ð>Ñ œ 0 w Ð>ÑÎm0 w Ð>Ñm ser uma base ortonormada de X0 Ð>Ñ ÐQ Ñ. …


III.4.20 (Corolário) Sejam I um espaço euclidiano e Q § I uma curva, admi-
tindo uma parametrização 0 À N Ä Q . Tem-se então:
a) Q tem curvatura nula no ponto 0 Ð>Ñ se, e só se, os vectores 0 w Ð>Ñ e 0 ww Ð>Ñ
são linearmente dependentes.
b) Se a curvatura de Q em 0 Ð>Ñ é não nula, então o plano osculador nesse
ponto é o gerado por 0 w Ð>Ñ e 0 ww Ð>Ñ.
Dem: A curvatura é nula se, e só se, a projecção ortogonal de 0 ww Ð>Ñ sobre
X0 Ð>Ñ ÐQ Ѽ é nula, ou seja, se, e só se, 0 ww Ð>Ñ − X0 Ð>Ñ ÐQ Ñ. Supondo que a
curvatura em 0 Ð>Ñ é não nula, concluímos do resultado precedente que tanto
t>0 Ð>Ñ como 5t 0 Ð>Ñ pertencem ao plano gerado por 0 w Ð>Ñ e 0 ww Ð>Ñ, pelo que o
plano osculador, gerado por aqueles dois vectores, vai estar contido no plano
gerado por 0 w Ð>Ñ e 0 ww Ð>Ñ, e portanto ser igual a este último. …
III.4.21 (Corolário) Sejam I um espaço euclidiano, Q § I uma curva e
B! − Q tal que 5t B! Á !. Existe então um aberto Y de Q , com B! − Y , tal
que, para cada B − Y Ï ÖB! ×,

ØB  B! ß 5t B! Ù  !

(a curva curva na direcção do vector curvatura, na vizinhança de B! ).


Dem: Se necessário substituindo Q por um aberto de Q , contendo B! , o que
não altera evidentemente o vector curvatura em B! , podemos já supor que a
curva admite uma parametrização 0 À N Ä Q (cf. III.4.16). Seja >! − N o
definido pela condição 0 Ð>! Ñ œ B! . Seja :À N Ä ‘ a aplicação suave
definida por

:Ð>Ñ œ Ø0 Ð>Ñ  B! ß 5t B! Ù.

Tem-se :Ð>! Ñ œ ! e :w Ð>Ñ œ Ø0 w Ð>Ñß 5t B! Ù, e portanto, em particular, :w Ð>! Ñ œ


Ø0 w Ð>! Ñß 5t B! Ù œ !, visto que 0 w Ð>! Ñ − XB! ÐQ Ñ e 5t B! é ortogonal a este
subespaço vectorial. Continuando a derivar, temos :ww Ð>Ñ œ Ø0 ww Ð>Ñß 5t B! Ù, em
particular, :ww Ð>! Ñ œ Ø0 ww Ð>! Ñß 5t B! Ù. Mas, tendo em conta III.4.19, tem-se
238 Cap. III. Fibrados Vectoriais e o Ambiente Euclidiano

0 ww Ð>! Ñ œ m0 w Ð>! Ñm# 5t B!  Ø0 ww Ð>! Ñß t>0 Ð>! Ñ Ù>t0 Ð>! Ñ ,

donde, tendo mais uma vez em conta o facto de t>0 Ð>! Ñ ser ortogonal a 5t B! ,

:ww Ð>! Ñ œ m0 w Ð>! Ñm# Ø5t B! ß 5t B! Ù  !,

o que mostra que : tem um mínimo relativo estrito em >! . Por outras
palavras, existe um aberto N w de N , com >! − N w , tal que, para cada
> − N w Ï Ö>! ×, :Ð>Ñ  !, e basta agora tomar para Y o aberto 0 ÐN w Ñ de Q . …
III.4.22 Sejam I um espaço euclidiano e Q § I uma curva, com curvatura não
nula em cada ponto, admitindo uma parametrização 0 À N Ä Q , e conside-
s a segunda
remos sobre Q a orientação associada. Tem-se então, notando 2
forma fundamental do fibrado osculador J œ ÐJB ÑB−Q ,
s 0 Ð>Ñ Ð0 w Ð>Ñß 0 ww Ð>ÑÑ œ m0 w Ð>Ñm$ 50 Ð>Ñ t7 0 Ð>Ñ .
2

Deduzimos daqui que o vector torção t7 0 Ð>Ñ em 0 Ð>Ñ é igual ao produto de


"
50 Ð>Ñ m0 w Ð>Ñm$

pela projecção ortogonal de 0 www Ð>Ñ sobre o complementar ortogonal do plano


osculador J0 Ð>Ñ , sendo assim dado por
"
t7 0 Ð>Ñ œ Ð0 www Ð>Ñ  Ø0 www Ð>Ñß t>0 Ð>Ñ Ù>t0 Ð>Ñ  Ø0 www Ð>Ñß 8t0 Ð>Ñ Ù8t0 Ð>Ñ Ñ.
50 Ð>Ñ m0 w Ð>Ñm$

Dem: Tendo em conta III.4.19, tem-se 0 w Ð>Ñ œ m0 w Ð>Ñm>t0 Ð>Ñ e

0 ww Ð>Ñ œ m0 w Ð>Ñm# 5t 0 Ð>Ñ  Ø0 ww Ð>Ñß t>0 Ð>Ñ Ù>t0 Ð>Ñ ,

pelo que, uma vez que 5t 0 Ð>Ñ œ 50 Ð>Ñ 8t0 Ð>Ñ e que, por III.4.10 e III.4.12,
s 0 Ð>Ñ Ð>t0 Ð>Ñ ß t>0 Ð>Ñ Ñ œ !,
2
s 0 Ð>Ñ Ð>t0 Ð>Ñ ß 8t0 Ð>Ñ Ñ œ t7 0 Ð>Ñ ,
2

obtemos
s 0 Ð>Ñ Ð0 w Ð>Ñß 0 ww Ð>ÑÑ œ m0 w Ð>Ñm 2
2 s 0 Ð>Ñ Ð>t0 Ð>Ñ ß 0 ww Ð>ÑÑ œ
œ m0 w Ð>Ñm$ 2 s 0 Ð>Ñ Ð>t0 Ð>Ñ ß 5t 0 Ð>Ñ Ñ œ m0 w Ð>Ñm$ 50 Ð>Ñ t7 0 Ð>Ñ ,

o que estabelece a primeira relação do enunciado. Atendendo agora a que,


para cada > − N , 0 ww Ð>Ñ − J0 Ð>Ñ , e portanto Ð0 Ð>Ñß 0 ww Ð>ÑÑ − J , obtemos, por
derivação, Ð0 w Ð>Ñß 0 www Ð>ÑÑ − XÐ0 Ð>Ñß0 ww Ð>ÑÑ ÐJ Ñ, donde, atendendo a III.3.22,
s 0 Ð>Ñ Ð0 w Ð>Ñß 0 ww Ð>ÑÑ é a projecção ortogonal de 0 www Ð>Ñ sobre o complementar
2
ortogonal da J0 Ð>Ñ , o que prova a segunda afirmação do enunciado. A última
§4. Aplicação ao estudo elementar das curvas 239

conclusão é agora uma consequência de t>0 Ð>Ñ ß 8t0 Ð>Ñ ser uma base ortonormada
de J0 Ð>Ñ . …
III.4.23 (Corolário) Sejam I um espaço euclidiano e Q § I uma curva, com
curvatura não nula em cada ponto, admitindo uma parametrização
0 À N Ä Q , e consideremos sobre Q a orientação associada. Tem-se então:
a) Q tem torção nula no ponto 0 Ð>Ñ se, e só se, os vectores
0 w Ð>Ñß 0 ww Ð>Ñß 0 www Ð>Ñ são linearmente dependentes.
b) Se a torção em 0 Ð>Ñ for não nula, então o subespaço vectorial de dimensão
$ de I , gerado pelos vectores t>0 Ð>Ñ ß 5t 0 Ð>Ñ ß t7 0 Ð>Ñ ,76 é também gerado pelos
vectores 0 w Ð>Ñß 0 ww Ð>Ñß 0 www Ð>Ñ.
Dem: A torção é nula se, e só se, a projecção ortogonal de 0 www Ð>Ñ sobre J0¼Ð>Ñ
é nula, isto é, se, e só se, 0 www Ð>Ñ − J0 Ð>Ñ . No caso em que a torção é não nula,
já sabemos que t>0 Ð>Ñ e 5t 0 Ð>Ñ pertencem ao subespaço vectorial gerado por
0 w Ð>Ñß 0 ww Ð>Ñ, e portanto também ao gerado por 0 w Ð>Ñß 0 ww Ð>Ñß 0 www Ð>Ñ e o
resultado precedente mostra-nos que t7 0 Ð>Ñ pertence a este mesmo subespaço
vectorial. …

A curvatura e a torção de uma curva em cada um dos seus pontos é


sempre, por definição, um número real maior ou igual a !. Vamos agora
referir dois contextos em que faz sentido falar de grandezas, iguais em
valor absoluto à curvatura e à torção, respectivamente, mas que podem ser
também negativas. Essas grandezas, que se definem de maneira trivial a
partir das outras já estudadas, têm um papel importante nalgumas situa-
ções, como, por exemplo, no estudo das hipersuperfícies que faremos na
próxima secção.

III.4.24 (A curvatura sinalizada) Sejam I um espaço euclidiano e Q § I


uma curva e seja B − Q , com o correspondente vector curvatura 5t B .
Suponhamos que se fixou, de alguma maneira, um vector de norma ", 8tB ,
tal que 5t B − ‘8tB (dizemos então que 8tB é a normal positiva de Q no
ponto B). Define-se então a curvatura sinalizada de Q no ponto B
(relativamente à escolha da normal positiva) como sendo o número real 5B ,
definido pela igualdade

5t B œ 5B 8tB ,
ou, o que é equivalente,

5B œ Ø5t B ß 8tB Ù.


É claro que se tem

76Trata-se de uma espécie de espaço osculador de ordem superior.


240 Cap. III. Fibrados Vectoriais e o Ambiente Euclidiano

5B œ m5t B m œ l5B l.
Como exemplos de escolha da normal positiva, que é usual fazer-se, temos:
a) A curvatura de Q no ponto B é não nula e toma-se para normal positiva a
normal principal 8tB , de Q em B. Nesse caso a curvatura sinalizada é
simplesmente a curvatura, sendo portanto estritamente positiva.
b) I é um espaço vectorial orientado de dimensão # e a variedade Q está
orientada. Nesse caso é usual tomar para normal positiva em B o único vector
8tB − I , que tem norma ", é ortogonal a t>B e faz com que t>B ß 8tB seja uma
base directa de I (reparar que o subespaço vectorial ortogonal a XB ÐQ Ñ tem
dimensão "). Neste caso a curvatura sinalizada será positiva quando Q
curvar no sentido directo e será negativa quando Q curvar no sentido
retrógrado.
III.4.25 (A torção sinalizada) Sejam I um espaço euclidiano e Q § I uma
curva orientada, com curvatura diferente de ! em cada ponto. Seja t7 B o
vector torção num certo ponto B − Q , e suponhamos que se fixou, de
alguma maneira, um vector t, B de norma ", tal que t7 B − ‘t, B (dizemos
então que t, B é a binormal positiva de Q no ponto B). Define-se então a
torção sinalizada de Q no ponto B (relativamente à escolha da binormal
positiva) como sendo o número real 7B definido por

t7 B œ 7B t, B ,
ou, o que é equivalente, por

7B œ Øt7 B ß t, B Ù.
É claro que se tem
7B œ mt7 B m œ l7B l.
Como exemplos de escolha da binormal positiva, que é costume fazer-se,
temos os seguintes:
a) A torção de Q no ponto B é não nula e toma-se para binormal positiva a
binormal principal. Nesse caso a torção sinalizada é simplesmente a torção, e
portanto é estritamente positiva.
b) I é um espaço vectorial orientado de dimensão $. Nesse caso é usual
tomar para binormal positiva no ponto B o único vector t, B − I , que tem
norma ", é ortogonal a t>B e a 8tB e faz com que t>B ß 8tB ß t, B seja uma base
directa.
§5. Hipersuperfícies. Aplicação linear de Weingarten 241

§5. Hipersuperfícies. Aplicação linear de Weingarten.

III.5.1 Seja I um espaço euclidiano de dimensão 8   ". Chamam-se hiper-


superfícies de I às variedades Q § I de dimensão 8  ". Se Q § I é
uma hipersuperfície, para cada B − Q , XB ÐQ Ѽ é um espaço vectorial de
dimensão " pelo que existem neste espaço dois, e só dois, vectores de norma
", vectores a que se dá o nome de normais unitárias a Q em B.
III.5.2 Sejam I um espaço euclidiano, Q § I uma hipersuperfície, B − Q e 8tB
uma das normais unitárias a Q no ponto B. A projecção ortogonal
1B À I Ä XB ÐQ Ñ está então definida por
1B ÐAÑ œ A  ØAß 8tB Ù8tB .

Dem: Basta atender a que a projecção ortogonal de A sobre XB ÐQ Ñ é igual à


diferença entre A e a projecção ortogonal de A sobre XB ÐQ Ѽ . …
III.5.3 Sejam I um espaço euclidiano, Q § I uma hipersuperfície, B − Q e 8tB
uma das normais unitárias no ponto B. Notando 1C À I Ä XC ÐQ Ñ as
projecções ortogonais, sabemos que, para cada ? − XB ÐQ Ñ, H1B Ð?ÑÀ I Ä I
é uma aplicação linear autoadjunta, que aplica XB ÐQ Ñ em XB ÐQ Ѽ e
XB ÐQ Ѽ em XB ÐQ Ñ; em particular, tem-se H1B Ð?ÑÐ8tB Ñ − XB ÐQ Ñ. Podemos
assim considerar uma aplicação linear
-B À XB ÐQ Ñ Ä XB ÐQ Ñ,
definida por
-B Ð?Ñ œ H1B Ð?ÑÐ8tB Ñ,
aplicação a que daremos o nome de aplicação linear de Weingarten da
hipersuperfície Q no ponto B, associada à escolha da normal unitária 8tB . É
claro que, se alterarmos a escolha da normal unitária, a aplicação linear de
Weingarten correspondente vem multiplicada por ".

Tal como acontecia com a curvatura e a torção, no caso das curvas, a não
nulidade da aplicação linear de Weingarten vai estar ligada ao facto de a
hipersuperfície não estar contida num hiperplano.

III.5.4 Sejam I um espaço euclidiano de dimensão 8   " e Q § I uma hiper-


superfície. Tem-se então:
a) Se a variedade Q está contida nalgum hiperplano afim de I (isto é,
nalgum subespaço afim de dimensão 8  "), a aplicação linear de
Weingarten -B À XB ÐQ Ñ Ä XB ÐQ Ñ é nula, para cada B − Q .
242 Cap. III. Fibrados Vectoriais e o Ambiente Euclidiano

b) Se a variedade Q é conexa e se, para cada B − Q , a aplicação linear de


Weingarten -B À XB ÐQ Ñ Ä XB ÐQ Ñ é nula, então Q está contido nalgum
hiperplano afim de I .
Dem: Suponhamos que J é um hiperplano afim de I , com subespaço
vectorial associado J! , tal que Q § J . Para cada B − Q , tem-se então
XB ÐQ Ñ § J! pelo que, uma vez que temos espaços vectoriais com a mesma
dimensão, XB ÐQ Ñ œ J! . Resulta daqui que a aplicação que a B − Q associa
a projecção ortogonal 1B , de I sobre XB ÐQ Ñ, é constante e portanto, para
cada B − Q e ? − XB ÐQ Ñ,
-B Ð?Ñ œ H1B Ð?ÑÐ8tB Ñ œ !,
ou seja, -B œ !. Suponhamos, reciprocamente, que a variedade Q é conexa e
que -B œ !, para cada B − Q . O facto de 8tB ser uma base de XB ÐQ Ѽ impli-
ca que, para cada B − Q e ? − XB ÐQ Ñ, a restrição de H1B Ð?ÑÀ I Ä I a
XB ÐQ Ѽ é nula pelo que, tendo em conta III.3.10, a sua restrição a XB ÐQ Ñ,
sendo adjunta daquela, é também nula; concluímos daqui que, para cada
B − Q e ? − XB ÐQ Ñ, H1B Ð?Ñ œ !. O facto de Q ser uma variedade conexa
implica agora que a aplicação que a B associa 1B é constante, ou seja, que
existe um hiperplano J! de I tal que, para cada B − Q , XB ÐQ Ñ œ J! . O
lema III.4.6 garante-nos, finalmente que a variedade Q está contida nalgum
subespaço afim J , de subespaço vectorial J! . …

Examinamos em seguida um resultado que relaciona a aplicação linear de


Weingarten com a segunda forma fundamental 2 do fibrado vectorial
s do fibrado vectorial normal.
tangente e a segunda forma fundamental 2

III.5.5 Sejam I um espaço euclidiano, Q § I uma hipersuperfície, B − Q ,


2B À XB ÐQ Ñ ‚ XB ÐQ Ñ Ä XB ÐQ Ѽ a segunda forma fundamental de Q no
ponto B e 2B¼ À XB ÐQ Ñ ‚ XB ÐQ Ѽ Ä XB ÐQ Ñ a segunda forma fundamental do
fibrado vectorial normal X ÐQ Ѽ nesse ponto. Se 8tB é uma das normais
unitárias em B e se -B À XB ÐQ Ñ Ä XB ÐQ Ñ é a correspondente aplicação linear
de Weingarten, tem-se então que
Ø- Ð?Ñß @Ù œ Ø8t ß 2 Ð?ß @ÑÙ, 2 Ð?ß @Ñ œ Ø- Ð?Ñß @ÙÄ
B B B B B 8 , B

em particular, a aplicação linear -B é autoadjunta, e


-B Ð?Ñ œ 2B¼ Ð?ß 8tB Ñ.

Dem: Uma vez que a aplicação linear H1B Ð?ÑÀ I Ä I é autoadjunta, para
cada ? − XB ÐQ Ñ, podemos escrever
Ø-B Ð?Ñß @Ù œ ØH1B Ð?ÑÐ8tB Ñß @Ù œ
œ Ø8tB ß H1B Ð?ÑÐ@ÑÙ œ Ø8tB ß 2B Ð?ß @ÑÙ,
2B Ð?ß @Ñ œ Ø2B Ð?ß @Ñß Ä
8 B ÙÄ
8 B œ Ø-B Ð?Ñß @ÙÄ8 B,
§5. Hipersuperfícies. Aplicação linear de Weingarten 243

e o facto de -B ser autoadjunta resulta agora de que, como se viu em III.3.23,


2B é uma aplicação bilinear simétrica. Quanto à segunda fórmula, sendo 1B¼ a
projecção ortogonal de I sobre XB ÐQ Ѽ , tem-se 1B¼ œ M.  1B , pelo que
-B Ð?Ñ œ H1B Ð?ÑÐ8tB Ñ œ H1B¼ Ð?ÑÐ8tB Ñ œ 2B¼ Ð?ß 8tB Ñ. …

III.5.6 Sejam I um espaço euclidiano e Q § I uma hipersuperfície, tal que


exista uma secção suave 8t œ Ð8tB ÑB−Q de X ÐQ Ѽ , com m8tB m œ ", para cada
B − Q ,77 e consideremos as correspondentes aplicações lineares de
Weingarten -B À XB ÐQ Ñ Ä XB ÐQ Ñ. Tem-se então
-B Ð?Ñ œ H8tB Ð?Ñ.

Dem: Uma vez que 1B ÐAÑ œ A  ØAß 8tB Ù8tB , obtemos


H1B Ð?ÑÐAÑ œ ØAß H8tB Ð?ÑÙ8tB  ØAß 8tB ÙH8tB Ð?Ñ,
donde, em particular,
-B Ð?Ñ œ H1B Ð?ÑÐ8tB Ñ œ Ø8tB ß H8tB Ð?ÑÙ8tB  Ø8tB ß 8tB ÙH8tB Ð?Ñ.
Mas, de se ter, para cada B, Ø8tB ß 8tB Ù œ ", obtemos #ØH8tB Ð?Ñß 8tB Ù œ 0, por
derivação, pelo que a fórmula anterior dá-nos
-B Ð?Ñ œ H8tB Ð?Ñ. …

Analogamente aos métodos descritos em III.4.4, para a determinação do


vector curvatura de uma curva, e em III.4.13, para a determinação do
respectivo vector torção, apresentamos em seguida um método alternativo
de determinação da aplicação linear de Weingarten e da segunda forma
fundamental, que conduz frequentemente a cálculos menos morosos.

III.5.7 Sejam I um espaço euclidiano e Q § I uma hipersuperfície e


suponhamos que Ð^B ÑB−Q é uma secção suave de X ÐQ Ѽ tal que ^B Á !,
para cada B − Q . Escolhamos, para cada B − Q , 8tB œ ^B Îm^B m como nor-
mal unitária e seja -B À XB ÐQ Ñ Ä XB ÐQ Ñ a correspondente aplicação linear
de Weingarten. Notando 1B a projecção ortogonal de I sobre XB ÐQ Ñ, tem-se
então
"
-B Ð?Ñ œ  1B ÐH^B Ð?ÑÑ.
m^B m
Além disso, a segunda forma fundamental 2B À XB ÐQ Ñ ‚ XB ÐQ Ñ Ä XB ÐQ Ѽ
está definida por

77Tendo em conta III.2.11 e III.2.14, a existência de uma tal secção suave 8


t é equivalente
ao facto de a variedade Q ser orientável. É claro que toda a variedade é localmente
orientável, pelo que esta caracterização pode ser sempre utilizada localmente.
244 Cap. III. Fibrados Vectoriais e o Ambiente Euclidiano

"
2B Ð?ß @Ñ œ  ØH^B Ð?Ñß @Ù^B .
m^B m#

Dem: Podemos considerar a aplicação suave de Q no espaço total X ÐQ Ѽ ,


que a B associa ÐBß ^B Ñ, e derivando-a em B na direcção de ?, concluímos
que Ð?ß H^B Ð?ÑÑ − XÐBß^B Ñ ÐX ÐQ Ѽ Ñ. Tendo em conta III.3.22, vemos que,
para a segunda forma fundamental 2B¼ do fibrado vectorial normal, tem-se
2B¼ Ð?ß ^B Ñ œ 1B ÐH^B Ð?ÑÑ
pelo que, para obtermos a fórmula para a aplicação linear de Weingarten,
basta repararmos que, por III.5.5,
"
-B Ð?Ñ œ 2B¼ Ð?ß 8tB Ñ œ  2 ¼ Ð?ß ^B Ñ.
m^B m B
Quanto à segunda forma fundamental, o facto de se ter 2B Ð?ß @Ñ − XB ÐQ Ѽ e
de 8tB ser uma base ortonormada deste espaço vectorial, permite-nos
escrever,
^B
2B Ð?ß @Ñ œ Ø2B Ð?ß @Ñß 8tB Ù8tB œ Ø-B Ð?Ñß @Ù œ
m^B m
"
œ Ø1B ÐH^B Ð?ÑÑß @Ù^B ,
m^B m#
e a fórmula do enunciado resulta de se ter
ØH^B Ð?Ñß @Ù  Ø1B ÐH^B Ð?ÑÑß @Ù œ ØH^B Ð?Ñ  1B ÐH^B Ð?ÑÑß @Ù œ !,
por ser H^B Ð?Ñ  1B ÐH^B Ð?ÑÑ − XB ÐQ Ѽ e @ − XB ÐQ Ñ. …

No caso em que o espaço ambiente I tem dimensão #, as hipersuperfícies


de I são simplesmente as curvas. O resultado seguinte mostra-nos o que
vai ser, neste caso particular, a aplicação linear de Weingarten.

III.5.8 Sejam I um espaço euclidiano de dimensão # e Q § I uma curva, que é


portanto uma hipersuperfície de I . Seja B − Q , escolhamos uma das
normais unitárias 8tB , e seja -B À XB ÐQ Ñ Ä XB ÐQ Ñ a correspondente
aplicação linear de Weingarten. Sejam 5t B o vector curvatura e 5B a
curvatura sinalizada, definida por 5t B œ 5B 8tB . Tem-se então, para cada
? − XB ÐQ Ñ,
-B Ð?Ñ œ 5B ?.

Dem: Sendo t>B um dos vectores unitários de XB ÐQ Ñ, que é portanto uma


base ortonormada deste espaço, podemos escrever
§5. Hipersuperfícies. Aplicação linear de Weingarten 245

-B Ð>tB Ñ œ Ø-B Ð>tB Ñß t>B Ù>tB œ Ø8tB ß 2B Ð>tB ß t>B ÑÙ>tB œ Ø8tB ß 5t B Ù>tB œ
œ Ø8tB ß 5B 8tB Ù>tB œ 5B Ø8tB ß 8tB Ù>tB œ 5Bt>B ,

de onde deduzimos que, para cada ? − XB ÐQ Ñ, tem-se ? œ +>tB , e portanto


-B Ð?Ñ œ +-B Ð>tB Ñ œ +5Bt>B œ 5B ?. …

III.5.9 Sejam I um espaço euclidiano de dimensão 8   " e Q § I uma


hipersuperfície. Sejam B − Q e 8tB uma das normais unitárias a Q no ponto
B. Para cada vector ? − XB ÐQ Ñ, com m?m œ ", define-se o vector curvatura
normal de Q , no ponto B e na direcção de ?, como sendo o vector
2B Ð?ß ?Ñ − XB ÐQ Ѽ ,
onde 2B À XB ÐQ Ñ ‚ XB ÐQ Ñ Ä XB ÐQ Ѽ é a segunda forma fundamental de
X ÐQ Ñ no ponto B. Uma vez que 2B Ð?ß ?Ñ − XB ÐQ Ѽ œ ‘8tB , podemos
considerar a componente do vector 2B Ð?ß ?Ñ em 8tB , que é igual a
Ø8tB ß 2B Ð?ß ?ÑÙ,
e dizemos que este número real é a curvatura normal sinalizada de Q , no
ponto B e na direcção de ?, relativamente à escolha da normal unitária
positiva 8tB . É claro que, se trocássemos a escolha da normal unitária positiva
8tB , a curvatura normal sinalizada viria multiplicada por ". Repare-se que,
tendo em conta III.5.5, a curvatura normal sinalizada de Q no ponto B, na
direcção de ?, é também dada por
Ø-B Ð?Ñß ?Ù,
onde -B À XB ÐQ Ñ Ä XB ÐQ Ñ é a aplicação linear de Weingarten.
III.5.10 É claro que, no caso particular em que o espaço euclidiano ambiente I
tem dimensão #, vão existir dois, e só dois vectores de norma " em XB ÐQ Ñ e
o vector curvatura normal na direcção de qualquer desses vectores é
precisamente o vector curvatura da curva Q nesse ponto. Do mesmo modo,
feita a escolha de uma normal unitária 8tB , a curvatura normal sinalizada
correspondente vai ser a curvatura sinalizada de Q , definida na secção
anterior.
III.5.11 (Interpretação geométrica das curvaturas normais) Sejam I um
espaço euclidiano de dimensão 8   # e Q § I uma hipersuperfície, que
vamos supor sem bordo. Sejam B! − Q e 8tB! uma das normais unitárias a
Q no ponto B! . Seja ainda ? − XB! ÐQ Ñ, com m?m œ ".
Consideremos o subespaço vectorial T! , de dimensão #, de I , gerado por
8tB! e ?, que é portanto um plano vectorial contendo o espaço vectorial
normal XB! ÐQ Ѽ , e seja T œ B!  T! o correspondente plano afim, passando
por B! , que é uma variedade sem bordo, de dimensão #, tendo em cada ponto
espaço vectorial tangente igual a T! .
246 Cap. III. Fibrados Vectoriais e o Ambiente Euclidiano

Consideremos a intersecção Q w œ Q  T da hipersuperfície Q com o plano


afim T . Tem-se então que Q w é uma variedade de dimensão " no ponto B! e
com XB! ÐQ w Ñ œ XB! ÐQ Ñ  T! e o vector curvatura normal, 2B! Ð?ß ?Ñ, de Q
em B! na direcção de ? é o vector curvatura de Q w em B! Þ78 Do mesmo
modo, podemos escolher 8tB! como normal unitária positiva de Q w em B! e
então a curvatura normal sinalizada de Q em B! na direcção de ? vai ser a
curvatura sinalizada de Q w em B! , relativamente a esta escolha.
Dem: Seja 1!¼ a projecção ortogonal de I sobre T!¼ e seja :À Q Ä T!¼ a
aplicação suave definida por :ÐBÑ œ 1!¼ ÐB  B! Ñ. Para cada @ − T!¼ , tem-se,
em particular, @ ortogonal a 8tB! , e portanto @ − XB! ÐQ Ñ, e vem então
H:B! Ð@Ñ œ 1!¼ Ð@Ñ œ @. Concluímos assim que H:B! À XB! ÐQ Ñ Ä T!¼ é uma
aplicação linear sobrejectiva pelo que, uma vez que Q w é o conjunto dos
B − Q tais que B  B! − T! , isto é, tais que :ÐBÑ œ !, deduzimos de II.4.32
que Q w é uma variedade de dimensão Ð8  "Ñ  Ð8  #Ñ œ " no ponto B! e
que XB! ÐQ w Ñ é o conjunto @ − XB! ÐQ Ñ tais que 1!¼ Ð@Ñ œ !, isto é, tais que
@ − T! .79 Em particular, ? − XB! ÐQ w Ñ, e portanto ? é um dos dois vectores
tangentes unitários de Q w em B! .
Notemos 2B! a segunda forma fundamental de Q em B! e 2Bw ! a de Q w nesse
ponto (ou, mais precisamente, a de um aberto conveniente de Q w , contendo
B! , que seja uma curva). Uma vez que o espaço total X ÐT Ñ está contido em
T ‚ T! , concluímos que
XÐB! ß?Ñ ÐX ÐT ÑÑ § XÐB! ß?Ñ ÐT ‚ T! Ñ œ T! ‚ T! ,

pelo que o facto de se ter


Ð?ß 2Bw ! Ð?ß ?ÑÑ − XÐB! ß?Ñ ÐX ÐQ w ÑÑ § XÐB! ß?Ñ ÐX ÐT ÑÑ

implica que 2Bw ! Ð?ß ?Ñ − T! . Uma vez que 2Bw ! Ð?ß ?Ñ é ortogonal a XB! ÐQ w Ñ,
em particular ortogonal a ?, concluímos que 2Bw ! Ð?ß ?Ñ − ‘8tB , por outras
palavras, 2Bw ! Ð?ß ?Ñ − XB! ÐQ Ѽ . Por outro lado o facto de se ter Q w § Q
implica que X ÐQ w Ñ § X ÐQ Ñ, pelo que se tem também Ð?ß 2Bw ! Ð?ß ?ÑÑ −
XÐB! ß?Ñ ÐX ÐQ ÑÑ e portanto a caracterização da segunda forma fundamental de
Q dada na alínea c) de III.3.19 garante que se tem 2B! Ð?ß ?Ñ œ 2Bw ! Ð?ß ?Ñ. …

Uma questão que se põe naturalmente é a de estudar o modo como as


curvaturas normais sinalizadas no ponto B! variam em função do vector
unitário ? em XB ÐQ Ñ. É isso que fazemos em seguida, começando por

78Em rigor estamos a fazer um pequeno abuso de linguagem: Apenos definimos vector
curvatura de uma curva e apenas podemos garantir que Q w é uma variedade de dimensão
" em B! , e portanto também num certo aberto Q s w de Q w , contendo B! . É ao vector
w
curvatura da curva Qs em B! que nos estamos a referir.
79Esta conclusão também podia ter sido obtida a partir do teorema de transversalidade
II.4.38.
§5. Hipersuperfícies. Aplicação linear de Weingarten 247

relembrar a noção de valor próprio de uma aplicação linear e algumas das


suas propriedades elementares.

III.5.12 Lembremos que, se J é um espaço vectorial e se -À J Ä J é uma


aplicação linear, diz-se que um escalar + é um valor próprio de - se existe
B − J Ï Ö!× tal que -ÐBÑ œ +B; o conjunto dos vectores B − J , que
verificam a igualdade anterior, é então um subespaço vectorial de J , cujos
elementos se chamam vectores próprios de -, relativamente ao valor próprio
+ .80
III.5.13 Sejam J um espaço euclidiano de dimensão 8   " e -À J Ä J uma
aplicação linear autoadjunta. Seja S § J a hipersuperfície esférica de centro
! e raio ",
W œ ÖB − J ± mBm œ "×,
e seja :À W Ä ‘ a aplicação suave definida por
:Ð?Ñ œ Ø-Ð?Ñß ?Ù.
Tem-se então que um vector ? − W é um vector próprio de - se, e só se,
H:? À X? ÐWÑ Ä ‘ é a aplicação linear nula e, nesse caso, o valor próprio
correspondente é :Ð?Ñ. Em particular, - admite pelo menos um valor próprio
+ − ‘, a saber o valor máximo (ou mínimo) da aplicação : sobre o conjunto
compacto W .
Dem: Como já vimos, W é uma variedade sem bordo, admitindo, em cada
? − W , o espaço vectorial tangente X? ÐWÑ constituído pelos vectores A − J
tais que Ø?ß AÙ œ !. Dados ? − W e A − X? ÐWÑ, tem-se
H:? ÐAÑ œ Ø-ÐAÑß ?Ù  Ø-Ð?Ñß AÙ œ #Ø-Ð?Ñß AÙ.
Concluímos daqui que H:? œ ! se, e só se, Ø-Ð?Ñß AÙ œ !, para cada A tal
que Ø?ß AÙ œ !, isto é, se, e só se, -Ð?Ñ é ortogonal ao complementar
ortogonal do subespaço vectorial gerado por ?, condição que é equivalente à
de se ter -Ð?Ñ − ‘?, isto é, à de ? ser um vector próprio de - . Sendo então +
o valor próprio correspondente, tem-se -Ð?Ñ œ +?, donde
:Ð?Ñ œ Ø+?ß ?Ù œ +Ø?ß ?Ù œ +,
o que conclui a demonstração da primeira afirmação do enunciado. Para ter-
minar basta agora reparar que, uma vez que W é compacta e não vazia, vai
existir ? − W onde : tome o valor máximo (respectivamente mínimo) e que,
para esse ?, tem-se então H:? œ !. …
III.5.14 (Corolário) Sejam J um espaço euclidiano de dimensão 8 e -À J Ä J
uma aplicação linear autoadjunta. Existe então uma base ortonormada

80Repare-se que ! é um vector próprio mas que, por definição, cada valor próprio admite
um vector próprio não nulo.
248 Cap. III. Fibrados Vectoriais e o Ambiente Euclidiano

A" ß á ß A8 de J formada por vectores próprios de -, tendo-se portanto


-ÐA4 Ñ œ +4 A4 , com +4 − ‘.
Dem: A demonstração faz-se por indução na dimensão 8 de J . Se 8 œ !, o
resultado é trivial, bastando tomar para base a família vazia de vectores.
Supondo que o resultado é válido quando J tem dimensão 8, vejamos o que
sucede no caso em que J tem dimensão 8  ". Pelo resultado precedente, J
admite um vector próprio A8" Á !, com valor próprio +8" , podendo já
supor-se que mA8" m œ ", se necessário substituindo A8" por
A8" ÎmA8" m. Seja J s o subespaço vectorial de J , com dimensão 8,
complementar ortogonal do subespaço vectorial ‘A8" , gerado por A8" .
Para cada B − J s , tem-se
Ø-ÐBÑß A8" Ù œ ØBß -ÐA8" ÑÙ œ +8" ØBß A8" Ù œ !,

o que mostra que -ÐBÑ − J s . A restrição de - a J


s é então uma aplicação
linear autoadjunta de Js em J s pelo que, pela hipótese de indução, podemos
considerar uma base ortonormada A" ß á ß A8 de J s , com -ÐA4 Ñ œ +4 A4 ,
sendo trivial que A" ß á ß A8" é uma base ortonormada de J , constituída por
vectores próprios de -. …
III.5.15 Nas condições do corolário anterior, é fácil constatar que B − J verifica
uma igualdade -ÐBÑ œ +B se, e só se, B é combinação linear de alguns dos
vectores A4 , com os correspondentes +4 todos iguais a +. Em particular, os
únicos valores próprios de - são os números reais +" ß á ß +8 .

Estamos agora em condições de aplicar as observações precedentes ao


estudo das curvaturas normais de uma hipersuperfície.

III.5.16 Sejam I um espaço euclidiano, Q § I uma hipersuperfície, B − Q ,


8tB uma das normais unitárias a Q no ponto B e -B À XB ÐQ Ñ Ä XB ÐQ Ñ a
correspondente aplicação linear de Weingarten, que sabemos ser autoadjunta.
Chamam-se curvaturas principais de Q no ponto B (associadas à escolha da
normal unitária 8tB ) aos valores próprios de -B ; aos vectores próprios corres-
pondentes, que tenham norma ", daremos o nome de vectores tangentes prin-
cipais, chamando-se direcções principais às respectivas direcções ou, o que é
equivalente, às rectas vectoriais geradas por aqueles vectores.
Se trocarmos a escolha da normal unitária 8tB , sabemos que a correspondente
aplicação linear de Weingarten vem multiplicada por ", de onde se deduz
trivialmente que as curvaturas principais vêm também multiplicadas por " e
que os vectores tangentes principais e as direcções principais não são altera-
das.
Se nos lembrarmos que a curvatura normal sinalizada de Q no ponto B, na
direcção do vector ? − XB ÐQ Ñ, com m?m œ ", é dada por Ø-B Ð?Ñß ?Ù,
concluímos, do que se viu em III.5.13, que, se a curvatura normal sinalizada
na direcção de ? for máxima ou mínima (relativamente aos diferentes
§5. Hipersuperfícies. Aplicação linear de Weingarten 249

vectores de norma " de XB ÐQ Ñ), então ? é um vector tangente principal e


que, em geral, se ? é um vector tangente principal, a curvatura principal
correspondente é igual à curvatura normal sinalizada na direcção de ?.
III.5.17 Sejam I um espaço euclidiano de dimensão 8  ", Q § I uma
hipersuperfície, B − Q e 8tB uma das normais unitárias a Q no ponto B.
Tendo em conta o que vimos em III.5.14, o espaço vectorial tangente XB ÐQ Ñ
admite uma base ortonormada A" ß á ß A8 , constituída por vectores tangentes
principais, com as correspondentes curvaturas principais 5" ß á ß 58 iguais às
curvaturas normais sinalizadas nas respectivas direcções.
Tendo em conta o que se disse em III.5.15, 5" ß á ß 58 são as únicas
curvaturas principais de Q no ponto B e, além disso, no caso em que aqueles
8 números reais são todos distintos (isto é quando Q admite em B 8
curvaturas principais distintas), os únicos vectores tangentes principais vão
ser os B4 e os B4 , havendo, em consequência, 8, e só 8, direcções
principais, as quais vão ser ortogonais duas a duas.
Dá-se o nome de pontos umbílicos de Q aos pontos B − Q que não
admitem mais do que uma curvatura principal ou, o que é equivalente,
àqueles onde todas as direcções são principais.
III.5.18 É claro que, no caso em que o espaço euclidiano ambiente I tem
dimensão #, a hipersuperfície Q § I vai ser uma curva e vai ter em cada
ponto B uma única curvatura principal, igual à curvatura sinalizada 5B , a
direcção principal correspondente sendo o próprio XB ÐQ Ñ (cf. III.5.8).
III.5.19 No caso em que o espaço euclidiano ambiente I tem dimensão $, uma
hipersuperfície Q § I é uma variedade de dimensão #, sendo portanto
aquilo a que se chama usualmente uma superfície. Neste caso, e dentro do
espírito do que dissemos em III.5.17, dado B − Q e escolhida uma normal
unitária 8tB , duas situações são possíveis:
a) B é um ponto umbílico de Q e portanto todas as direcções são principais e
com uma mesma curvatura principal, que vai ser portanto a curvatura normal
sinalizada associada a qualquer vector tangente unitário ? − XB ÐQ Ñ.
b) Q admite em B duas curvaturas principais distintas 5"  5# ; essas
curvaturas principais são então as curvaturas normais sinalizadas mínima e
máxima (é costume referi-las simplesmente como a curvatura mínima e a
curvatura máxima) e cada uma delas possui uma única direcção principal, ou
seja, dois, e só dois, vectores tangentes principais, um simétrico do outro.
Estas duas direcções são ortogonais entre si e todas as curvaturas normais
sinalizadas correspondentes a vectores tangente unitários ? com direcção
distinta destas vão estar estritamente entre 5" e 5# (se ela fosse igual a uma
destas duas, então teríamos também um vector tangente principal). É claro
que, se trocássemos a escolha da normal unitária 8tB , a nova curvatura máxi-
ma ia ser simétrica da antiga curvatura mínima e a nova curvatura mínima ia
ser simétrica da antiga curvatura máxima.
No caso de termos um ponto umbílico, também podemos falar de curvatura
máxima e curvatura mínima, considerando que ambas coincidem com a
250 Cap. III. Fibrados Vectoriais e o Ambiente Euclidiano

curvatura normal sinalizada constante.


É costume definir na teoria da superfícies duas grandezas associadas às
curvaturas principais: A primeira, a curvatura média é simplesmente a média
5" 5#
# entre a curvatura mínima e a curvatura máxima; a segunda a que se
costuma dar o nome de curvatura de Gauss é o produto 5" 5# das curvaturas
mínima e máxima. Esta última vai ter, apesar da aparente artificialidade da
sua definição, e como veremos nas próximas secções, um interesse
geométrico muito especial. Repare-se, desde já, que quando trocamos a
escolha da normal unitária 8tB , a curvatura média vem multiplicada por "
mas a curvatura de Gauss não é alterada.

Vamos terminar esta secção com o estudo da noção de ponto focal que,
como veremos, está intimamente ligada, no caso das hipersuperfícies, às
curvaturas principais.

III.5.20 Sejam I um espaço euclidiano de dimensão 8 e Q § I uma variedade


de dimensão 7. Podemos então considerar o fibrado vectorial normal
X ÐQ Ѽ , que é um fibrado vectorial de dimensão 8  7, pelo que o seu
espaço total,
X ÐQ Ѽ œ ÖÐBß AÑ − I ‚ I ± B − Q , A − XB ÐQ Ѽ ×,
é uma variedade de dimensão 7  Ð8  7Ñ œ 8 (cf. III.1.27). Consideremos
a aplicação suave :À X ÐQ Ѽ Ä I definida por :ÐBß AÑ œ B  A, para a
qual se tem evidentemente
H:ÐBßAÑ Ð?ß DÑ œ ?  D ,

para cada Ð?ß DÑ − XÐBßAÑ ÐX ÐQ Ѽ Ñ.


No caso em que A œ !, tem-se, por III.3.20,
XÐBß!Ñ ÐX ÐQ Ѽ Ñ œ XB ÐQ Ñ ‚ XB ÐQ Ѽ ,

pelo que o facto de ter lugar a soma directa I œ XB ÐQ Ñ Š XB ÐQ Ѽ implica


que a aplicação linear H:ÐBß!Ñ À XB ÐQ Ñ ‚ XB ÐQ Ѽ Ä I , que está definida
por Ð?ß DÑ È ?  D , vai ser um isomorfismo.
Vamos dizer que um vector A − XB ÐQ Ѽ é uma normal focalizante de Q no
ponto B se a aplicação linear
H:ÐBßAÑ À XÐBßAÑ ÐX ÐQ Ѽ Ñ Ä I

não for um isomorfismo e diremos então que B  A é um ponto focal de Q


no ponto B. O que dissemos atrás mostra-nos portanto que ! nunca é uma
normal focalizante.
III.5.21 (Nota) No caso em que a variedade Q não tem bordo, sabemos que a
variedade X ÐQ Ѽ também não tem bordo pelo que, tendo em conta o
§5. Hipersuperfícies. Aplicação linear de Weingarten 251

teorema da função inversa, dizer que A − XB ÐQ Ѽ é uma normal focalizante


em B equivale a dizer que não existe uma vizinhança aberta de ÐBß AÑ em
X ÐQ Ѽ onde a restrição de : seja um difeomorfismo sobre um aberto de I .
Intuitivamente, podemos pensar nos pontos focais de Q em B como sendo
aqueles em que existe a possibilidade de se concentrarem as normais em
pontos próximos de B.81
III.5.22 Sejam I um espaço euclidiano de dimensão 8  ", Q § I uma
hipersuperfície, B − Q e 8tB uma das normais unitárias a Q no ponto B.
Tem-se então que as normais focalizantes de Q no ponto B são os vectores
da forma +" 8tB , com o número real + igual a uma das curvaturas principais
não nulas de Q em B. Em particular, não pode haver mais que 8 normais
focalizantes de Q em B.
Dem: Seja A − XB ÐQ Ѽ , portanto A œ ,8tB , para um certo , − ‘. Dizer que
A é uma normal focalizante em B é dizer que a aplicação linear
H:ÐBßAÑ À XÐBßAÑ ÐX ÐQ Ѽ Ñ Ä I , definida por Ð?ß DÑ È ?  D , não é um iso-
morfismo pelo que, uma vez que se trata de uma aplicação linear entre dois
espaços vectoriais com a mesma dimensão 8  ", isso é ainda equivalente a
dizer que existe um elemento não nulo Ð?ß DÑ − XÐBßAÑ ÐX ÐQ Ѽ Ñ tal que
?  D œ !. Dito de outro modo, dizer que A é uma normal focalizante
equivale a dizer que existe ? − XB ÐQ Ñ, não nulo, tal que Ð?ß ?Ñ esteja em
XÐBßAÑ ÐX ÐQ Ѽ Ñ. Mas, se ? − XB ÐQ Ñ, vem também ? − XB ÐQ Ñ œ
¼
XB ÐQ Ѽ pelo que, tendo em conta a caracterização da segunda forma
fundamental apresentada na alínea c) de III.3.19, concluímos que o facto de
Ð?ß ?Ñ estar em XÐBßAÑ ÐX ÐQ Ѽ Ñ é equivalente ao facto de se ter
? œ 2B¼ Ð?ß AÑ, onde 2B¼ é a segunda forma fundamental do fibrado
vectorial X ÐQ Ѽ . Tendo em conta a caracterizção de -B em III.5.5, vemos
que dizer que A œ ,8tB é uma normal focalizante em B é equivalente a dizer
que existe ? Á ! em XB ÐQ Ñ tal que se tenha
? œ ,2B¼ Ð?ß 8tB Ñ œ , -B Ð?Ñ,
"
o que exprime precisamente o facto de se ter , Á ! e de , ser um valor
próprio da aplicação linear de Weingarten -B . …
III.5.23 Vejamos o que se passa no caso particular em que I tem dimensão # e
em que Q § I é uma curva, portanto também uma hipersuperfície. Sejam
B − Q , 8tB uma normal unitária a Q no ponto B, 5t B o vector curvatura e
5B a curvatura sinalizada, definida por 5t B œ 5B 8tB . Tem-se então que a
existência de um ponto focal de Q em B é equivalente à condição de se ter
5t B Á ! e, nesse caso, esse ponto focal é único, sendo igual a

81Se imaginarmos que em cada ponto B de \ existem lançadores de alfinetes apontando


em todas as direcções ortogonais a XB Ð\Ñ, podemos dizer que os pontos focais são
aqueles em que não é muito cómodo ficarmos colocados.
252 Cap. III. Fibrados Vectoriais e o Ambiente Euclidiano

" 5t B
B 8tB œ B  # .
5B 5B

A este ponto focal costuma-se dar o nome de centro de curvatura de Q no


ponto B e à sua distância a B, igual a "Î5B , dá-se o nome de raio de
curvatura de Q em B.
III.5.24 (Exemplo) Sejam I um espaço euclidiano de dimensão 8   # e seja
W< § I a hipersuperfície esférica de centro ! e raio <  !,
W< œ ÖB − I ± ØBß BÙ œ <# ×,
conjunto que, como sabemos, é uma variedade sem bordo de dimensão
8  ", tendo em cada ponto B o espaço vectorial tangente XB ÐW< Ñ constituído
pelos vectores ? − I tais que Ø?ß BÙ œ !. Para cada B − W< , escolhamos
8tB œ B< como normal unitária positiva. Tendo em conta III.5.6, vemos que a
aplicação linear de Weingarten -B À XB ÐW< Ñ Ä XB ÐW< Ñ está definida por
?
-B Ð?Ñ œ H8tB Ð?Ñ œ  .
<
Esta igualdade mostra-nos que cada ponto B − W< é um ponto umbílico,
tendo "Î< como única curvatura principal. A segunda forma fundamental
2B À XB ÐW< Ñ ‚ XB ÐW< Ñ Ä XB ÐW< Ѽ pode ser determinada agora por aplicação
de III.5.5:
"
2B Ð?ß AÑ œ Ø2B Ð?ß AÑß 8tB Ù8tB œ Ø-B ÐAÑß ?Ù8tB œ  ØAß ?ÙB.
<#

§6. Tensor de curvatura.

III.6.1 Sejam E § K, I um espaço euclidiano ou hermitiano e I œ ÐIB ÑB−E um


fibrado vectorial, com IB § I . Para cada B − E, notemos 1B À I Ä IB a
projecção ortogonal e 2B À XB ÐEÑ ‚ IB Ä IB¼ segunda forma fundamental de
I em B. Para cada B existe então uma aplicação trilinear
VB À XB ÐEÑ ‚ XB ÐEÑ ‚ IB Ä IB ,
a que daremos o nome de tensor de curvatura de I no ponto B, definida por
VB Ð?ß @ß AÑ œ H1B Ð@ÑÐ2B Ð?ß AÑÑ  H 1B Ð?ÑÐ2B Ð@ß AÑÑ.
No caso em que Š œ ‚, esta aplicação é mesmo linear complexa na terceira
variável.
Dem: Sabemos que a aplicação linear H1B Ð@ÑÀ I Ä I aplica IB¼ em IB , de
onde se deduz que H1B Ð@ÑÐ2B Ð?ß AÑÑ pertence a IB . Por simetria dos papéis
§6. Tensor de curvatura 253

de ? e @, vemos também que H1B Ð?ÑÐ2B Ð@ß AÑÑ − IB , o que mostra que
VB Ð?ß @ß AÑ − IB . É evidente que VB , como aplicação
XB ÐEÑ ‚ XB ÐEÑ ‚ IB Ä IB ,
é uma aplicação trilinear. …
III.6.2 Nas condições anteriores, o tensor de curvatura de I no ponto B é
antissimétrico nas duas primeiras variáveis, isto é, verifica a igualdade
VB Ð?ß @ß AÑ œ VB Ð@ß ?ß AÑ.
Em particular, tomando ? œ @,
VB Ð?ß ?ß AÑ œ !.
e portanto, no caso em que XB ÐEÑ tem dimensão ", o tensor de curvatura VB
é identicamente nulo.
Dem: A antissimetria de VB nas duas primeiras variáveis é uma
consequência imediata da definição, sendo também trivial que essa
antissimetria implica a fórmula VB Ð?ß ?ß AÑ œ !. Por fim, supondo que
XB ÐEÑ tem dimensão ", podemos considerar uma base ?! de XB ÐEÑ e então,
dados ?ß @ − XB ÐEÑ e A − IB , tem-se ? œ +?! e @ œ ,?! , portanto
VB Ð?ß @ß AÑ œ +,VB Ð?! ß ?! ß AÑ œ !. …

Para cada B − E, ?ß @ − XB ÐEÑ e A − IB , VB Ð?ß @ß AÑ é um elemento de


IB , que fica portanto determinado se conhecermos os produtos internos
ØVB Ð?ß @ß AÑß DÙ, para todo o D − IB . O resultado que apresentamos em
seguida estabelece uma fórmula importante para este produto interno.

III.6.3 (Fórmula de Gauss) Sejam E § K, I um espaço euclidiano ou hermi-


tiano e I œ ÐIB ÑB−E um fibrado vectorial, com IB § I , e notemos 2B as
segundas formas fundamentais e VB os tensores de curvatura. Dados B − E,
?ß @ − XB ÐEÑ e Aß D − IB , tem-se então
ØVB Ð?ß @ß AÑß DÙ œ Ø2B Ð?ß AÑß 2B Ð@ß DÑÙ  Ø2BÐ@ß AÑß 2BÐ?ß DÑÙ .

Dem: O facto de H1B Ð@ÑÀ I Ä I ser uma aplicação linear autoadjunta per-
mite-nos escrever
ØH1B Ð@ÑÐ2B Ð?ß AÑÑß DÙ œ Ø2B Ð?ß AÑß H 1BÐ@ÑÐDÑÙ œ
œ Ø2B Ð?ß AÑß 2B Ð@ß DÑÙ

e portanto também, por simetria dos papéis de ? e @,


ØH1B Ð?ÑÐ2B Ð@ß AÑÑß DÙ œ Ø2B Ð@ß AÑß 2B Ð?ß DÑÙ.
O resultado é assim uma consequência da definição do tensor de curvatura,
se subtrairmos as igualdades precedentes membro a membro. …
254 Cap. III. Fibrados Vectoriais e o Ambiente Euclidiano

III.6.4 (Corolário) Sejam E § K, I um espaço euclidiano ou hermitiano e


I œ ÐIB ÑB−E um fibrado vectorial, com IB § I . Seja I w § I um
subespaço vectorial contendo todas as fibras IB . Tem-se então que o tensor
de curvatura VB é o mesmo quer ser considere I ou I w como espaço
ambiente das fibras.
Dem: Para verificar que VB Ð?ß @ß AÑ é o mesmo nas duas situações, basta
verificar que isso acontece ao respectivo produto interno por um elemento
D − IB arbitrário e isso é uma consequência da fórmula de Gauss, tendo em
conta III.3.21. …
III.6.5 (Corolário) Nas condições precedentes, tem-se, no caso em que Š œ ‘,
ØVB Ð?ß @ß AÑß DÙ œ ØVB Ð?ß @ß DÑß AÙ,
em particular, tomando A œ D ,
ØVB Ð?ß @ß AÑß AÙ œ !.
Em consequência, no caso em que a fibra IB tem dimensão ", o tensor de
curvatura VB é identicamente nulo.
Dem: A primeira afirmação é uma consequência trivial da fórmula para
ØVB Ð?ß @ß AÑß DÙ obtida no resultado precedente e a segunda afirmação é
claramente uma consequência da primeira. Por fim, e tal como na
demonstração de III.6.2, no caso em que IB tem dimensão " podemos
considerar uma base A! de IB e, dados Aß D − IB , tem-se A œ +A! e
D œ ,A! , pelo que
ØVB Ð?ß @ß AÑß DÙ œ +,ØVB Ð?ß @ß A! Ñß A! Ù œ !
e o facto de D ser um vector arbitrário da fibra IB implica que
VB Ð?ß @ß AÑ œ !. …

Repare-se que, no caso em que Š œ ‚, a conclusão do corolário


precedente seria
ØVB Ð?ß @ß AÑß DÙ œ ØVB Ð?ß @ß DÑß AÙ
pelo que, fazendo A œ D , apenas concluiríamos que ØVB Ð?ß @ß AÑß AÙ é
imaginário puro.

III.6.6 Se o fibrado vectorial I œ ÐIB ÑB−E é constante, isto é, se todas as fibras


IB são iguais a um mesmo subespaço vectorial J de I , então o tensor de
curvatura VB é identicamente nulo.
Dem: Basta atender a que a aplicação que a B associa a projecção ortogonal
1B é constante, pelo que tem derivada nula. …
III.6.7 Seja I um espaço euclidiano de dimensão 8   # e consideremos a hiper-
superfície esférica de centro ! e raio <  !,
§6. Tensor de curvatura 255

W< œ ÖB − I ± ØBß BÙ œ <# ×.


Vimos no exemplo III.5.24 que a segunda forma fundamental
2B À XB ÐW< Ñ ‚ XB ÐW< Ñ Ä XB ÐW< Ѽ
está definida por
"
2B Ð?ß AÑ œ  ØAß ?ÙB,
<#
pelo que, aplicando a fórmula de Gauss, obtemos, para o tensor de curvatura
VB À XB ÐW< Ñ ‚ XB ÐW< Ñ ‚ XB ÐW< Ñ Ä XB ÐW< Ñ,

ØVB Ð?ß @ß AÑß DÙ œ Ø2B Ð?ß AÑß 2B Ð@ß DÑÙ  Ø2BÐ@ß AÑß 2BÐ?ß DÑÙ œ
"
œ # ÐØAß ?ÙØDß @Ù  ØAß @ÙØDß ?ÙÑ œ
<
œ   # ÐØAß ?Ù@  ØAß @Ù?Ñ ß D ¡,
"
<
o que, tendo em conta o facto de o primeiro factor deste último produto
interno estar em XB ÐW< Ñ, implica que
"
VB Ð?ß @ß AÑ œ ÐØAß ?Ù@  ØAß @Ù?Ñ.
<#
Constatamos, em particular, que, no caso em que 8   $, VB não é nulo, mais
precisamente, para cada A Á ! em XB ÐW< Ñ, existem ?ß @ tais que
VB Ð?ß @ß AÑ Á !, por exemplo ? œ A e @ não nulo e ortogonal a ? (o espaço
vectorial tangente tem dimensão 8  "   #).
III.6.8 Sejam E § K, E s§K s e 0À Es Ä E uma aplicação suave. Sejam I um
espaço euclidiano ou hermitiano e I œ ÐIB ÑB−E um fibrado vectorial, com
IB § I , e notemos V e V s os tensores de curvatura de I e do fibrado
vectorial imagem recíproca 0 ‡ I , respectivamente. Tem-se então, para cada
C−E s, ?ß @ − XC ÐEÑ
s e A − Ð0 ‡ IÑC œ I0 ÐCÑ ,

s C Ð?ß @ß AÑ œ V0 ÐCÑ ÐH0C Ð?Ñß H0C Ð@Ñß AÑ.


V

Dem: Trata-se de uma consequência imediata da definição, desde que se


utilize o teorema de derivação da função composta e a fórmula para a
s de0 ‡ I , obtida em III.3.13.
segunda forma fundamental 2 …

Lembremos que a derivada covariante de secções dum fibrado vectorial,


definida em III.3.1, vai jogar o mesmo papel que a derivada usual, no
quadro das funções com valores num espaço vectorial, isto é, das secções
dum fibrado vectorial constante. O resultado que se segue mostra que a
curvatura aparece como um factor correctivo para que o análogo da
256 Cap. III. Fibrados Vectoriais e o Ambiente Euclidiano

fórmula apresentada em III.3.26 seja válido no quadro da derivação


covariante. Vamos utilizar as notações introduzidas em III.3.6.

III.6.9 Sejam Q § K uma variedade82, I um espaço euclidiano ou hermitiano e


I œ ÐIB ÑB−Q um fibrado vectorial, e seja, para cada B − Q ,
VB À XB ÐQ Ñ ‚ XB ÐQ Ñ ‚ IB Ä IB
o respectivo tensor de curvatura. Se [ é uma secção de I e se \ e ] são
dois campos vectoriais sobre Q , notemos VÐ\ß ] ß [ Ñ a secção de I , que a
cada B − Q associa VB Ð\B ß ]B ß [B Ñ. Dados os campos vectoriais suaves \
e ] sobre Q e a secção suave [ de I , tem-se então
fÒ\ß] Ó [ œ f\ f] [  f] f\ [  VÐ\ß ] ß [ Ñ.

Dem: Seja [s um prolongamento suave de [ a um aberto de K contendo


Q . Uma vez que se tem
s B Ð]B ÑÑ,
Ðf] [ ÑB œ f[B Ð]B Ñ œ 1B ÐH[B Ð]B ÑÑ œ 1B ÐH[
obtemos, pela regra de Leibnitz,
HÐf] [ ÑB Ð\B Ñ œ H1B Ð\B ÑÐH[B Ð]B ÑÑ 
 1B ÐH# [s B Ð\B ß ]B ÑÑ  1B ÐH[
s B ÐH]B Ð\B ÑÑÑ

donde
Ðf\ f] [ ÑB œ 1B ÐHÐf] [ ÑB Ð\B ÑÑ œ
œ 1B ÐH1B Ð\B ÑÐH[B Ð]B ÑÑÑ 
œ  1B ÐH# [s B Ð\B ß ]B ÑÑ  1B ÐH[
s B ÐH]B Ð\B ÑÑÑ.

Do mesmo modo,
Ðf] f\ [ ÑB œ 1B ÐH1B Ð]B ÑÐH[B Ð\B ÑÑÑ 
œ  1B ÐH# [s B Ð]B ß \B ÑÑ  1B ÐH[
s B ÐH\B Ð]B ÑÑÑ.

s B e uma vez que


Tendo em conta a simetria da aplicação bilinear H# [
ÐfÒ\ß] Ó [ ÑB œ 1B ÐH[B ÐH]B Ð\B Ñ  H\B Ð]B ÑÑÑ œ
s B ÐH]B Ð\B ÑÑÑ  1B ÐH[
œ 1B ÐH[ s B ÐH\B Ð]B ÑÑÑ,

obtemos, a partir das três igualdades anteriores,


ÐfÒ\ß] Ó [ ÑB œ Ðf\ f] [ ÑB  Ðf] f\ [ ÑB 
œ  1B ÐH1B Ð]B ÑÐH[B Ð\B ÑÑÑ  1B ÐH1B Ð\B ÑÐH[B Ð]B ÑÑÑ.

82A razão por que exigimos aqui que a base seja uma variedade está em que só nesse
quadro definimos o parêntesis de Lie de dois campos vectoriais suaves.
§6. Tensor de curvatura 257

Tendo em conta a definição do tensor de curvatura, vemos que, para demons-


trar o nosso resultado, será suficiente verificarmos que se tem
1B ÐH1B Ð]B ÑÐH[B Ð\B ÑÑÑ œ H1B Ð]B ÑÐ2B Ð\B ß [B ÑÑ,
1B ÐH1B Ð\B ÑÐH[B Ð]B ÑÑÑ œ H1B Ð\B ÑÐ2B Ð]B ß [B ÑÑ,
bastando demonstrar a primeira fórmula, visto que a segunda se obtém a
partir desta por troca dos papéis dos campos vectoriais \ e ] . Ora, tendo em
conta a caracterização da derivada covariante dada em III.3.14, tem-se
H[B Ð\B Ñ œ f[B Ð\B Ñ  2B Ð\B ß [B Ñ,
com f[B Ð\B Ñ − IB e 2B Ð\B ß [B Ñ − IB¼ , pelo que, uma vez que H1B Ð]B Ñ
aplica IB em IB¼ e IB¼ em IB , sai
H1B Ð]B ÑÐH[B Ð\B ÑÑ œ H1B Ð]B ÑÐf[B Ð\B ÑÑ 
œ  H1B Ð]B ÑÐ2B Ð\B ß [B ÑÑ,
com H1B Ð]B ÑÐf[B Ð\B ÑÑ − IB¼ e H1B Ð]B ÑÐ2B Ð\B ß [B ÑÑ − IB , o que
implica que a segunda parcela do segundo membro é a projecção ortogonal
sobre IB do primeiro membro da igualdade. …

Sabemos que, numa variedade conexa, as funções que têm derivada nula
em todos os pontos são exactamente as funções constantes. Em geral,
quando a variedade domínio pode não ser conexa, as suas componentes
conexas são abertas, logo variedades pelo que as funções que têm
derivada nula são aquelas que são constantes sobre cada componente
conexa, ou, o que é equivalente, as que são localmente constantes. Se em
vez de funções tivermos secções dum fibrado vectorial, com as fibras
contidas num espaço euclidiano, não haverá muitas esperanças de ter
secções interessantes que sejam constantes, ou localmente constantes,
uma vez que as fibras variam de ponto para ponto. É natural tentar
portanto apresentar uma noção de secção que seja, tanto quanto possível,
localmente constante. São essas as secções paralelas que definimos em
seguida.

III.6.10 Sejam E § K, I um espaço euclidiano ou hermitiano e I œ ÐIB ÑB−E


um fibrado vectorial, com IB § I . Diz-se que uma secção suave
[ œ Ð[B ÑB−E de I é paralela se, quaisquer que sejam B − E e ? − XB ÐEÑ,
tem-se f[B Ð?Ñ œ !. É claro que as secções localmente constantes, por
exemplo a secção identicamente nula, são paralelas, por terem derivada
identicamente nula e, em consequência, também derivada covariante
identicamente nula.
III.6.11 (Exemplo) Consideremos em ‘# o produto interno usual e seja W § ‘#
a circunferência de centro 0 e raio ",
W œ ÖÐBß CÑ − ‘# ± B#  C # œ "×.
258 Cap. III. Fibrados Vectoriais e o Ambiente Euclidiano

Podemos então considerar uma secção suave [ do fibrado vectorial tangente


X ÐWÑ œ ÐXÐBßCÑ ÐWÑÑÐBßCÑ−W , definida por
[ÐBßCÑ œ ÐCß BÑ.

Não se trata, evidentemente, de uma secção constante, mas é, no entanto,


uma secção paralela. Com efeito, uma vez que [ÐBßCÑ gera o espaço vectorial
tangente XÐBßCÑ ÐWÑ, tudo o que temos que verificar é que se tem
f[ÐBßCÑ Ð[ÐBßCÑ Ñ œ ! e isso é uma consequência de se ter, para a derivada
usual, H[ÐBßCÑ Ð[ÐBßCÑ Ñ œ ÐBß CÑ, que é ortogonal ao espaço vectorial tan-
gente.

Poderíamos ser levados a pensar, por analogia com o que se passa com as
secções de derivada nula dos fibrados vectoriais constantes, que, fixado A
numa certa fibra IB dum fibrado vectorial I , existisse sempre uma
secção paralela de I que, no ponto B, tomasse o valor A, e que, no caso
em que a base Q fosse uma variedade conexa, tal secção seria única. A
afirmação de unicidade é verdadeira, embora só possa ser estabelecida
depois de se estudarem as equações diferenciais ordinárias sobre as
variedades. Já quanto à existência, e salvo certos casos particulares que
estudaremos mais tarde, ela não pode ser garantida. O tensor de curvatura
é como vamos ver, uma obstrução à existência de secções paralelas.

III.6.12 Sejam Q § K uma variedade, I um espaço euclidiano ou hermitiano e


I œ ÐIB ÑB−Q um fibrado vectorial com IB § I . Sejam B! − Q e A − IB! ,
tais que exista uma secção paralela [ œ Ð[B ÑB−Q de I , com [B! œ A.
Tem-se então que VB! Ð?ß @ß AÑ œ !, quaisquer que sejam ?ß @ − XB! ÐQ Ñ.83
Dem: Aplicando III.1.20 ao fibrado vectorial tangente X ÐQ Ñ, podemos con-
siderar secções suaves \ e ] de X ÐQ Ñ, tais que \B! œ ? e ]B! œ @. O facto
de [ ser uma secção paralela implica que se tem f\ f] [ œ !,
f] f\ [ œ ! e fÒ\ß] Ó [ œ !, pelo que a fórmula estabelecida em III.6.9
implica que VÐ\ß ] ß [ Ñ œ !, em particular, tomando o valor em B! ,
VB! Ð?ß @ß AÑ œ !. …

No caso em que o fibrado vectorial com que trabalhamos é o fibrado


tangente a uma variedade, o tensor de curvatura verifica ainda as
seguintes identidades.

III.6.13 Sejam I um espaço euclidiano e Q § I uma variedade. Tem-se então


que o tensor de curvatura VB do fibrado tangente X ÐQ Ñ (dizemos também
que VB é o tensor de curvatura de Q ) verifica

83Não espanta portanto que os exemplos que já obtivémos de secções paralelas, as


secções constentes de um fibrado vectorial constante e uma secção do fibrado tangente
duma circunferência, tenham aparecido em situações em que o tensor de curvatura é nulo.
§6. Tensor de curvatura 259

ØVB Ð?ß @ß AÑß DÙ œ ØVB ÐAß Dß ?Ñß @Ù,


quaisquer que sejam ?ß @ß Aß D − XB ÐQ Ñ, assim como a identidade de Jacobi
VB Ð?ß @ß AÑ  VB Ð@ß Aß ?Ñ  VB ÐAß ?ß @Ñ œ !,
quaisquer que sejam ?ß @ß A − XB ÐQ Ñ.
Dem: A primeira identidade é uma consequência imediata da fórmula de
Gauss para ØVB Ð?ß @ß AÑß DÙ (cf. III.6.3), se tivermos em conta a simetria da
segunda forma fundamental 2B . A mesma fórmula permite-nos escrever,
quaisquer que sejam os vectores ?ß @ß Aß D − XB ÐQ Ñ,
ØVB Ð?ß @ß AÑ  VB Ð@ß Aß ?Ñ  VB ÐAß ?ß @Ñß D Ù œ
œ Ø2B Ð?ß AÑß 2B Ð@ß DÑÙ  Ø2B Ð@ß AÑß 2BÐ?ß DÑÙ  Ø2BÐ@ß ?Ñß 2 BÐAß DÑÙ 
 Ø2B ÐAß ?Ñß 2B Ð@ß DÑÙ  Ø2B ÐAß @Ñß 2BÐ?ß DÑÙ  Ø2B Ð?ß @Ñß 2B ÐAß DÑÙ œ !,
onde tivemos mais uma vez em conta a simetria da aplicação bilinear 2B . A
arbitrariedade de D − XB ÐQ Ñ implica então a segunda identidade do enun-
ciado. …

No caso em que Q é uma curva, cada espaço vectorial tangente XB ÐQ Ñ


tem dimensão " pelo que, como vimos atrás, o tensor de curvatura VB do
fibrado tangente é identicamente nulo. O resultado que apresentamos em
seguida, e que é de importância central na teoria das superfícies, mostra
que, quando Q é uma superfície num espaço euclidiano de dimensão $, o
conhecimento do tensor de curvatura é equivalente ao conhecimento da
curvatura de Gauss, definida em III.5.19.

III.6.14 Sejam I um espaço euclidiano de dimensão 8 e Q § I uma variedade


de dimensão 8  ". Seja B − Q , para o qual se escolheu uma das normais
unitárias Ä
8 B e a correspondente aplicação linear de Weingarten -B À XB ÐQ Ñ
Ä XB ÐQ Ñ. Tem-se então, para ?ß @ß A − XB ÐQ Ñ,
VB Ð?ß @ß AÑ œ ØAß -B Ð?ÑÙ-B Ð@Ñ  ØAß -B Ð@ÑÙ-B Ð?Ñ.
No caso em que 8 œ $, sendo 5B a curvatura de Gauss de Q em B,
VB Ð?ß @ß AÑ œ 5B ÐØAß ?Ù@  ØAß @Ù?Ñ,
em particular, a curvatura de Gauss 5B é igual a ØVB Ð?ß @ß ?Ñß @Ù, qualquer
que seja a base ortonormada ?ß @ de XB ÐQ Ñ.
Dem: Qualquer quer seja D − XB ÐQ Ñ, podemos escrever, tendo em conta
III.6.3 e III.5.5,
ØVB Ð?ß @ß AÑß DÙ œ Ø2B Ð?ß AÑß 2BÐ@ß DÑÙ  Ø2BÐ@ß AÑß 2 BÐ?ß DÑÙ œ
œ Ø-B Ð?Ñß AÙØ-B Ð@Ñß DÙ  Ø-B Ð@Ñß AÙØ-BÐ?Ñß DÙ œ
œ ØØ-B Ð?Ñß AÙ-B Ð@Ñ  Ø-B Ð@Ñß AÙ-B Ð?Ñ ß DÙ,
260 Cap. III. Fibrados Vectoriais e o Ambiente Euclidiano

donde, tendo em conta a arbitrariedade de D − XB ÐQ Ñ,


VB Ð?ß @ß AÑ œ ØAß -B Ð?ÑÙ-B Ð@Ñ  ØAß -B Ð@ÑÙ-B Ð?Ñ
(cf. I.2.9).
Suponhamos agora que 8 œ $ e consideremos uma base ortonormada A" ß A#
de XB ÐQ Ñ, constituída por vectores tangentes principais, tendo-se portanto
-B ÐA" Ñ œ 5" A" e -B ÐA# Ñ œ 5# A# , onde 5" e 5# são as curvaturas principais
correspondentes. A curvatura de Gauss é assim definida por 5B œ 5" 5# .
Tem-se então
VB ÐA" ß A# ß AÑ œ ØAß -B ÐA" ÑÙ-B ÐA# Ñ  ØAß -BÐA#ÑÙ-BÐA"Ñ œ
œ 5" 5# ÐØAß A" ÙA#  ØAß A# ÙA" Ñ,

que não é mais do que a fórmula a demonstrar no caso particular em que


? œ A" e @ œ A# . Sendo agora ?ß @ arbitrários, vem
? œ +" A "  + # A # , @ œ , " A "  , # A # ,

portanto, lembrando as propriedades do tensor de curvatura em III.6.2,


VB Ð?ß @ß AÑ œ +" ," VB ÐA" ß A" ß AÑ  +" ,# VB ÐA" ß A# ß AÑ 
œ  +# ," VB ÐA# ß A" ß AÑ  +# ,# VB ÐA# ß A# ß AÑ œ
œ Ð+" ,#  +# ," ÑVB ÐA" ß A# ß AÑ œ
œ 5B Ð+" ,#  +# ," ÑÐØAß A" ÙA#  ØAß A# ÙA" Ñ.

Por outro lado, tem-se


ØAß ?Ù@  ØAß @Ù? œ +" ," ØAß A" ÙA"  +" ,# ØAß A"ÙA# 
œ  +# ," ØAß A# ÙA"  +# ,# ØAß A# ÙA# 
œ  ," +" ØAß A" ÙA"  ," +# ØAß A" ÙA# 
œ  ,# +" ØAß A# ÙA"  ,# +# ØAß A# ÙA# œ
œ Ð+" ,#  +# ," ÑÐØAß A" ÙA#  ØAß A# ÙA" Ñ,

o que, comparado com a conclusão anterior, dá


VB Ð?ß @ß AÑ œ 5B ÐØAß ?Ù@  ØAß @Ù?Ñ.
Em particular, se ?ß @ é uma base ortonormada de XB ÐQ Ñ, vemos que se tem
VB Ð?ß @ß ?Ñ œ 5B @, e portanto ØVB Ð?ß @ß ?Ñß @Ù œ 5B Þ …
§7. Invariância por isometria. Teorema Egrégio 261

§7. Invariância por isometria. Teorema Egrégio.

Quando temos duas variedades Q § I e Q s §I s , e um difeomorfismo


s
0 À Q Ä Q , pode-se, em geral, definir de modo natural uma correspon-
dência biunívoca associada entre estruturas geométricas dum certo tipo
sobre Q e estruturas geométricas do mesmo tipo sobre Q s . Entre as
estruturas geométricas mais simples a que se podem aplicar estas
observações estão os campos vectoriais. Antes de definirmos o método de
associar a um campo vectorial sobre Q um campo vectorial sobre Q s,
começamos por tratar uma situação mais geral em que não precisamos de
nos colocar no quadro dos difeomorfismos.

III.7.1 Sejam Q § I , Q s §I s duas variedades e 0 À Q Ä Q s uma aplicação


suave. Dados os campos vectoriais \ œ Ð\B ÑB−Q , sobre Q , e
\s œ Ð\s C Ñ s , sobre Qs , diz-se que \ e \
s são 0 -relacionados se se tem,
C−Q
s
para cada B − Q , \ 0 ÐBÑ œ H0B Ð\B Ñ.
III.7.2 (Functorialidade) Sejam Q § I , Q s §I s e Q˜ § I˜ três variedades e
0À Q Ä Q s Ä Q˜ duas aplicações suaves. Sejam \ œ Ð\B ÑB−Q ,
s e 1À Q
\s œ Ð\ s C Ñ s e \˜ œ Ð\˜ D ÑD−Q˜ campos vectoriais tais que \ e \ s sejam
C−Q
0 -relacionados e \ s e \˜ sejam 1-relacionados. Tem-se então que \ e \˜ são
Ð1 ‰ 0 Ñ-relacionados. Além disso, \ e \ são M.Q -relacionados.
Dem: Trata-se de uma consequência imediata de HÐM.Q ÑB ser a identidade
de XB ÐQ Ñ e de se ter HÐ1 ‰ 0 ÑB œ H10 ÐBÑ ‰ H0B . …

III.7.3 Sejam Q § I e Q s §I s duas variedades e 0 À Q Ä Q s um difeo-


morfismo. Se \ œ Ð\B ÑB−Q é um campo vectorial sobre Q , existe um, e um
só, campo vectorial \s œ Ð\ s C Ñ s sobre Q s , tal que \ e \
s sejam 0 -rela-
C−Q
cionados, tendo-se então que \ s e \ são 0 -relacionados. Além disso, se \
"

fosse suave, o mesmo ia acontecer a \s.


Dem: A unicidade de \ s resulta de que, a existir um campo vectorial nessas
condições, não poderia deixar de se ter
sC œ \
\ s 0 Ð0 " ÐCÑÑ œ H00 " ÐCÑ Ð\0 " ÐCÑ Ñ,

para cada C − Q s . Quanto à existência, podemos definir, para cada C − Q s,


\s C − XC ÐQ
s Ñ pela igualdade acima, tendo-se então que \s œ Ð\ s C Ñ s é um
C−Q
s
campo vectorial sobre Q e a igualdade
s 0 ÐBÑ œ H0B Ð\B Ñ,
\
262 Cap. III. Fibrados Vectoriais e o Ambiente Euclidiano

obtida por substituição naquela de C por 0 ÐBÑ, mostra que \ e \ s são


0 -relacionados. Supondo que \ é suave, podemos considerar um aberto Y
s , prolongando 0 ; tem-se
de I , contendo Q , e uma aplicação suave 0 À Y Ä I
s
então que H0 À Y Ä PÐIà IÑ é uma aplicação suave, pelo que a identidade
s C œ H0 0 " ÐCÑ Ð\0 " ÐCÑ Ñ
\

e a suavidade de 0 " mostram-nos que o campo vectorial \ s sobre Qs é


também suave. Para terminar, podemos considerar o campo vectorial ] sobre
Q tal que \s e ] sejam 0 " -relacionados, tendo-se então que \ e ] são
campos vectoriais M.Q -relacionados sobre Q , o que implica que se tem
\ œ ]. …
III.7.4 Nas condições precedentes diz-se que \ s é o campo vectorial sobre Q s
que corresponde ao campo vectorial \ sobre Q por meio do difeomorfismo
0À Q Ä Q s (ou que \s é obtido a partir de \ por transporte por meio de 0 ).

III.7.5 Sejam Q § I e Q s §I
s duas variedades e 0 À Q Ä Q s uma aplicação
suave. Sejam \ e ] dois campos vectoriais suaves sobre Q e \ se] s dois
campos vectoriais suaves sobre Q s tais que \ e \
s sejam 0 -relacionados e
que ] e ] s sejam 0 -relacionados. Tem-se então que os parêntesis de Lie
s ]
Ò\ß ] Ó e Ò\ß s Ó são também 0 -relacionados.
Dem: Sejam Y um aberto de I , com Q § Y , e 0 À Y Ä I um prolonga-
mento suave de 0 . Para cada B − Q , tem-se
s 0 ÐBÑ œ H0B Ð]B Ñ œ H0 B Ð]B Ñ,
]

pelo que, derivando ambos os membros no ponto B, na direcção de


\B − XB ÐQ Ñ, obtemos
s 0 ÐBÑ ÐH0B Ð\B ÑÑ œ H# 0 B Ð\B ß ]B Ñ  H0 B ÐH]B Ð\B ÑÑ,
H]

ou seja,
s 0 ÐBÑ Ð\
H] s 0 ÐBÑ Ñ œ H# 0 B Ð\B ß ]B Ñ  H0 B ÐH]B Ð\B ÑÑ.

Trocando os papéis de \ e ] , tem-se também


s 0 ÐBÑ Ð]
H\ s 0 ÐBÑ Ñ œ H# 0 B Ð]B ß \B Ñ  H0 B ÐH\B Ð]B ÑÑ,

pelo que, subtraindo membro a membro as duas igualdades anteriores e tendo


em conta a simetria de H# 0 B , obtemos
s ]
Ò\ß s Ó0 ÐBÑ œ H]
s 0 ÐBÑ Ð\
s 0 ÐBÑ Ñ  H\
s 0 ÐBÑ Ð]
s 0 ÐBÑ Ñ œ
œ H0 B ÐH]B Ð\B Ñ  H\B Ð]B ÑÑ œ
œ H0B ÐÒ\ß ] ÓB Ñ. …
§7. Invariância por isometria. Teorema Egrégio 263

III.7.6 (Corolário) Sejam Q § I e Q s §I s duas variedades e 0 À Q Ä Q s um


difeomorfismo. Dados os campos vectoriais suaves \ e ] , sobre Q , com os
correspondentes campos vectoriais \s e ]
s , sobre Qs , tem-se que o campo
s
vectorial sobre Q correspondente ao campo vectorial Ò\ß ] Ó, sobre Q , é
s ]
Ò\ß s Ó.

O corolário precedente pode ser enunciado sugestivamente, dizendo que o


parêntesis de Lie de campos vectoriais é uma operação invariante por
difeomorfismo. Repare-se que o parêntesis de Lie Ò\ß ] Ó é definido por
H] Ð\Ñ  H\Ð] Ñ, mas estas parcelas não podem ser olhadas como inva-
riantes por difeomorfismo, na medida em que os seus valores em cada
ponto nem sequer são vectores tangentes.
Vamos ter ocasião de verificar agora que certas construções geométricas
que já conhecemos no quadro das variedades contidas num espaço eucli-
diano, não sendo invariantes por difeomorfismos arbitrários, são-no por
certos difeomorfismos particulares, as isometrias.

III.7.7 Sejam I e Is espaços euclidianos, Q § I e Q s §I s duas variedades e


s
0 À Q Ä Q um difeomorfismo. Diz-se que 0 é uma isometria, ou um
difeomorfismo isométrico se, para cada B − Q , o isomorfismo
s Ñ é um isomorfismo ortogonal, isto é, verifica
H0B À XB ÐQ Ñ Ä X0 ÐBÑ ÐQ
ØH0B Ð?Ñß H0B Ð@ÑÙ œ Ø?ß @Ù,
quaisquer que sejam ?ß @ − XB ÐQ Ñ.

Intuitivamente, as isometrias podem ser olhadas como transformações que


não comportam deformações intrínsecas, transformações que podem
curvar a variedade dentro dos espaços ambientes, mas não esticam nem
comprimem. Esta imagem intuitiva fica mais clara se considerarmos o
conceito de comprimento de um caminho !À Ò+ß ,Ó Ä Q , que é, por
definição,

compÐ!Ñ œ ( m!w Ð>Ñm .>.


,

Pode verificar-se que o difeomorfismo 0 À Q Ä Qs é uma isometria se, e


só se, para cada caminho !À Ò+ß ,Ó Ä Q , se tem, para o correspondente
caminho 0 ‰ !À Ò+ß ,Ó Ä Qs,

compÐ0 ‰ !Ñ œ compÐ!Ñ
(a condição necessária é imediata e a condição suficiente não é difícil, no
caso das variedades sem bordo, se tivermos em conta I.2.30 e o facto de a
derivada do integral indefinido ser a função integranda; o caso geral pode
obter-se a partir daquele por um argumento de passagem ao limite no
bordo).
264 Cap. III. Fibrados Vectoriais e o Ambiente Euclidiano

III.7.8 (Versão do teorema fundamental da geometria de Riemann) Sejam I


eI s espaços euclidianos, Q § I e Q s §I s duas variedades e 0 À Q Ä Q s
um difeomorfismo isométrico. Sejam \ e ] campos vectoriais suaves sobre
Q e\ s e]s os campos vectoriais correspondentes sobre Q s . Tem-se então
s
que o campo vectorial sobre Q correspondente ao campo vectorial derivada
s .84
covariante f\ ] , sobre Q , é o campo vectorial f\s ]
Dem: Consideremos outro campo vectorial suave arbitrário ^ sobre Q , e
s o campo vectorial correspondente sobre Q
seja ^ s . Para cada B − Q , de H0B
ser uma isometria linear deduzimos que
s 0 ÐBÑ ß ]
Ø\ s 0 ÐBÑ Ù œ ØH0B Ð\B Ñß H0B Ð]B ÑÙ œ Ø\B ß ]B Ù,

pelo que, derivando ambos os membros em B, na direcção de ^B , obtemos,


s 0 ÐBÑ ,
tendo em conta a alínea c) de III.3.4 e o facto de se ter H0B Ð^B Ñ œ ^

Øf\s 0 ÐBÑ Ð^
s 0 ÐBÑ Ñß ]
s 0 ÐBÑ Ù  Ø\
s 0 ÐBÑ ß f]
s 0 ÐBÑ Ð^
s 0 ÐBÑ ÑÙ œ
œ Øf\B Ð^B Ñß ]B Ù  Ø\B ß f]B Ð^B ÑÙ.
Tendo em conta III.3.24, podemos escrever
f]B Ð^B Ñ œ f^B Ð]B Ñ  Ò] ß ^ÓB
e, do mesmo modo,
s 0 ÐBÑ Ð^
f] s 0 ÐBÑ Ñ œ f^
s 0 ÐBÑ Ð]
s 0 ÐBÑ Ñ  Ò]
s ß ^Ó
s 0 ÐBÑ

pelo que, substituindo estas duas igualdades na igualdade precedente e tendo


em conta que, por III.7.6, Ò] s ß ^Ó
s 0 ÐBÑ œ H0B ÐÒ] ß ^ÓB Ñ, donde também
s s s
Ø\ 0 ÐBÑ ß Ò] ß ^Ó0 ÐBÑ Ù œ Ø\B ß Ò] ß ^ÓB Ù, obtemos

Øf\s 0 ÐBÑ Ð^
s 0 ÐBÑ Ñß ]
s 0 ÐBÑ Ù  Ø\
s 0 ÐBÑ ß f^
s 0 ÐBÑ Ð]
s 0 ÐBÑ ÑÙ œ
œ Øf\B Ð^B Ñß ]B Ù  Ø\B ß f^B Ð]B ÑÙ.
Por permutação circular dos papéis de \ , ] e ^ , obtemos sucessivamente
Øf]s 0 ÐBÑ Ð\
s 0 ÐBÑ Ñß ^
s 0 ÐBÑ Ù  Ø]
s 0 ÐBÑ ß f\
s 0 ÐBÑ Ð^
s 0 ÐBÑ ÑÙ œ
œ Øf]B Ð\B Ñß ^B Ù  Ø]B ß f\B Ð^B ÑÙ,

Øf^s 0 ÐBÑ Ð]
s 0 ÐBÑ Ñß \
s 0 ÐBÑ Ù  Ø^
s 0 ÐBÑ ß f]
s 0 ÐBÑ Ð\
s 0 ÐBÑ ÑÙ œ
œ Øf^B Ð]B Ñß \B Ù  Ø^B ß f]B Ð\B ÑÙ.
Multipliquemos ambos os membros da antepenúltima desigualdade por " e

84Repare-se que este resultado não é a priori evidente, visto que a derivada covariante é
definida através da derivada usual e das projecções ortogonais do espaço ambiente sobre
os espaços tangentes, noções relativamente às quais não faz sentido falar de invariância
por difeomorfismo ou por isometria.
§7. Invariância por isometria. Teorema Egrégio 265

somemos membro a membro a igualdade assim obtida com cada uma das
duas últimas igualdades. Obtemos então
s 0 ÐBÑ Ð\
#Øf] s 0 ÐBÑ Ñß ^
s 0 ÐBÑ Ù œ #Øf]B Ð\B Ñß ^B Ù.

Tendo em conta, mais uma vez, o facto de H0B ser uma isometria linear, a
igualdade anterior implica que
s 0 ÐBÑ Ð\
Øf] s 0 ÐBÑ Ñß ^
s 0 ÐBÑ Ù œ ØH0B Ðf]B Ð\B ÑÑß ^
s 0 ÐBÑ Ù.

Ora, dado A s Ñ arbitrário, vem A


s − X0 ÐBÑ ÐQ s œ H0B ÐAÑ, para um certo
A − XB ÐQ Ñ e podemos considerar um campo vectorial ^ sobre Q , com
^B œ A, vindo portanto também, para o correspondente campo vectorial ^ s
s, ^
sobre Q s 0 ÐBÑ œ A
s . Concluímos assim que, para A
s − X0 ÐBÑ
s
ÐQ Ñ arbitrário,
s 0 ÐBÑ Ð\
Øf] s 0 ÐBÑ Ñß AÙ s,
s œ ØH0B Ðf]B Ð\B ÑÑß AÙ

o que implica finalmente que


s 0 ÐBÑ Ð\
f] s 0 ÐBÑ Ñ œ H0B Ðf]B Ð\B ÑÑ. …

A invariância por isometria da derivação covariante de campos vectoriais


vai arrastar a invariância por isometria do tensor de curvatura duma varie-
dade.

III.7.9 Sejam Q § I e Q s §I
s duas variedades e 0 À Q Ä Q
s um difeomor-
fismo isométrico. Sejam
VB À XB ÐQ Ñ ‚ XB ÐQ Ñ ‚ XB ÐQ Ñ Ä XB ÐQ Ñ
e
s 0 ÐBÑ À X0 ÐBÑ ÐQ
V s Ñ ‚ X0 ÐBÑ ÐQ
s Ñ ‚ X0 ÐBÑ ÐQ
s Ñ Ä X0 ÐBÑ ÐQ

s , no ponto 0 ÐBÑ. Tem-se


os tensores de curvatura de Q , no ponto B, e de Q
então, quaisquer que sejam ?ß @ß A − XB ÐQ Ñ,
s 0 ÐBÑ ÐH0B Ð?Ñß H0B Ð@Ñß H0B ÐAÑÑ.
H0B ÐVB Ð?ß @ß AÑÑ œ V

Dem: Consideremos campos vectoriais suaves \ß ] ß ^ , sobre Q , tais que


\B œ ?, ]B œ @ e ^B œ A, tendo-se então que os correspondentes campos
s ]
vectoriais \ß sß^ s , sobre Q s , vão verificar as igualdades \s 0 ÐBÑ œ H0B Ð?Ñ,
s s
] 0 ÐBÑ œ H0B Ð@Ñ e ^ 0 ÐBÑ œ H0B ÐAÑ. Tendo em conta o resultado precedente,
sabemos que ao campo vectorial f] ^ , sobre Q , corresponde o campo
s , sobre Q
vectorial f]s ^ s , e portanto que ao campo vectorial f\ f] ^ , sobre
Q , corresponde o campo vectorial f\s f]s ^ s , sobre Q
s . Do mesmo modo, aos
266 Cap. III. Fibrados Vectoriais e o Ambiente Euclidiano

campos vectoriais f] f\ ^ e fÒ\ß] Ó ^ , sobre Q , correspondem os campos


s ef ss ^
vectoriais f]s f\s ^ s s
Ò\ß] Ó , sobre Q , neste último caso tendo em conta o
facto de o campo vectorial Ò\ßs ]s Ó, sobre Q
s , ser o correspondente ao campo
vectorial Ò\ß ] Ó, sobre Q . Podemos agora utilizar a fórmula obtida em
III.6.9 para escrever
H0B ÐVB Ð?ß @ß AÑÑ œ
œ H0B ÐÐf\ f] ^ÑB Ñ  H0B ÐÐf] f\ ^ÑB Ñ  H0B ÐÐfÒ\ß] Ó ^ÑB Ñ œ
œ Ðf s fs ^Ñ s 0 ÐBÑ  Ðfs f s ^Ñ
s 0 ÐBÑ  Ðf s s ^Ñ
s 0 ÐBÑ œ
\ ] ] \ Ò\ß] Ó
s 0 ÐBÑ ÐH0B Ð?Ñß H0B Ð@Ñß H0B ÐAÑÑ.
œV …

III.7.10 (Teorema Egrégio de Gauss) Sejam I e I s espaços euclidianos de


s s
dimensão $, Q § I e Q § I duas variedades de dimensão # e 0 À Q Ä Q s
um difeomorfismo isométrico. Para cada B − Q , tem-se então que a
curvatura de Gauss de Q no ponto B é igual à curvatura de Gauss de Q s no
ponto 0 ÐBÑ.
Dem: A demonstração é muito simples, se usarmos a caracterização da
curvatura de Gauss apresentada em III.6.14: Escolhendo uma base
ortonormada ?ß @ de XB ÐQ Ñ, deduzimos de H0B ser uma isometria linear que
s Ñ pelo que, notando 5B
H0B Ð?Ñß H0B Ð@Ñ é uma base ortonormada de X0 ÐBÑ ÐQ
s
e 5 0 ÐBÑ as curvaturas de Gauss,
s s 0 ÐBÑ ÐH0B Ð?Ñß H0B Ð@Ñß H0B Ð?ÑÑß H0B Ð@ÑÙ œ
5 0 ÐBÑ œ ØV
œ ØH0B ÐVB Ð?ß @ß ?ÑÑß H0B Ð@ÑÙ œ ØVB Ð?ß @ß ?Ñß @Ù œ 5B . …

O próprio Gauss deu ao resultado precedente o nome de Teorema


Egrégio, adjectivo que significa o mesmo que notável. A razão disso está
em que a curvatura de Gauss foi definida como o produto das duas
curvaturas principais e estas não são de modo nenhum invariantes por
isometria. Aliás pode-se ver que as próprias direcções principais não são
em geral invariantes por isometria. Note-se também que a noção de
curvatura duma curva também não é invariante por isometria; por
exemplo, é imediato constatar-se que a aplicação de Ó!ß #1Ò em ‘# , que a >
associa ÐcosÐ>Ñß sinÐ>ÑÑ é uma isometria de Ó!ß #1Ò sobre a circunferência W
com o ponto Ð"ß !Ñ retirado e que, enquanto o intervalo Ó!ß #1Ò tem
curvatura nula em todos os pontos, W vai ter curvatura igual a " em cada
ponto. Note-se também que a demonstração que apresentámos para o
teorema de Gauss não tem nada a ver com a apresentada por aquele
matemático, visto que utiliza o tensor de curvatura que só apareceu mais
tarde com Riemann.
§8. Morfismos entre fibrados vectoriais 267

§8. Morfismos entre fibrados vectoriais.

III.8.1 Sejam K um espaço vectorial real de dimensão finita e E § K um


conjunto arbitrário. Sejam I e I w espaços vectoriais, reais ou complexos, de
dimensão finita e I œ ÐIB ÑB−E e I w œ ÐIBw ÑB−E dois fibrados vectoriais de
base E, com IB § I e IBw § I w . Vamos chamar morfismo linear de I para
I w a uma família Ð-B ÑB−E de aplicações lineares -B À IB Ä IBw e dizer que um
morfismo linear
- œ Ð-B ÑB−E À I Ä I w

é suave se existir uma aplicação suave - œ Ð-B ÑB−E À E Ä PÐIà I w Ñ tal que,
para cada B − E, a aplicação linear -B À IB Ä IBw seja uma restrição de
-B À I Ä I w (também se diz então que - é um prolongamento suave de -).
III.8.2 Sejam K e Kw espaços vectoriais de dimensão finita, Q § K e Q w § Kw
duas variedades e 0 À Q Ä Q w uma aplicação suave. Tem então lugar um
morfismo linear suave H0 œ ÐH0B ÑB−Q do fibrado vectorial tangente X ÐQ Ñ
para o fibrado vectorial imagem recíproca 0 ‡ X ÐQ w Ñ.
Dem: Repare-se que a razão por que se considera o fibrado vectorial imagem
recíproca 0 ‡ X ÐQ w Ñ é o facto de cada H0B ser uma aplicação linear de XB ÐQ Ñ
para X0 ÐBÑ ÐQ w Ñ. Tendo em conta II.3.10, podemos considerar um aberto Y de
K, com Q § Y , e uma aplicação suave 0 À Y Ä K w , prolongando 0 , e
obtemos então um prolongamento suave de H0 , associando, a cada B − Q , a
aplicação linear H0 B À K Ä K w . …

Repare-se na razão por que não se definiu mais simplesmente morfismo


linear suave como um morfismo linear para o qual seja suave a aplicação
B È -B : O que se passa é que, para cada B − E, -B pertence a um espaço
vectorial PB ÐIB à IBw Ñ que, em geral, depende de B, e não se dispõe de um
espaço vectorial do qual todos os PB ÐIB à IBw Ñ sejam subespaços vecto-
riais. Os resultados que se seguem mostram como se comporta a suavi-
dade, relativamente a certas operações naturais.

III.8.3 Nas condições anteriores, tem lugar um morfismo linear suave M.I œ
ÐM.IB ÑB−E e, dado um terceiro fibrado vectorial I ww œ ÐIBww ÑB−E , com
IBww § I ww e morfismos lineares
- œ Ð-B ÑB−E À I Ä I w , . œ Ð.B ÑB−E À I w Ä I ww ,
tem lugar um morfismo linear composto
. ‰ - œ Ð.B ‰ -B ÑB−E À I Ä I ww ,
268 Cap. III. Fibrados Vectoriais e o Ambiente Euclidiano

o qual é suave se - e . o forem.


Dem: A primeira afirmação resulta de que M.I admite um prolongamento
suave associando a cada B − E a aplicação linear M.I À I Ä I . A segunda
resulta de que, dados prolongamentos suaves de - e de ., constituídos por
aplicações lineares -B À I Ä I w e .B À I w Ä I ww , então a família das aplica-
ções lineares .B ‰ -B À I Ä I ww constitui um prolongamento suave do
morfismo linear . ‰ -. …
III.8.4 (Corolário) Sejam K um espaço vectorial real de dimensão finita e
E § K um conjunto arbitrário. Sejam I e I w espaços vectoriais, reais ou
complexos, de dimensão finita e I œ ÐIB ÑB−E e I w œ ÐIBw ÑB−E dois fibrados
vectoriais de base E, com IB § I e IBw § I w . Seja - œ Ð-B ÑB−E À I Ä I w
um morfismo linear. Tem-se então:
a) Se I s § I é um subespaço vectorial contendo todos os IB , então o
morfismo linear - é suave quando se considera I como espaço ambiente das
fibras se, e só se, o é quando se considera Is como tal.
w
s
b) Se I § I é um subespaço vectorial contendo todos os IBw , então o
w

morfismo linear - é suave quando se considera I w como espaço ambiente das


fibras se, e só se, o é quando se considera Is w como tal.
Dem: Uma vez que - pode ser trivialmente olhado como o composto de -
com M.I , para provarmos a) basta mostrarmos que M.I À I Ä I é um
morfismo linear suave, tanto quanto se considera I no domínio e I s na
s
chegada como ambientes como quando se considera I no domínio e I na
chegada como espaços ambientes; ora, no segundo caso, isso acontece por
podermos considerar, para cada B − E, a inclusão +À I s Ä I como prolonga-
mento de M.IB e, no primeiro caso, isso acontece por podermos considerar,
para cada B − E, a projecção ortogonal 1À I Ä I s , associada a um produto
interno que se fixe em I , como prolongamento de M.IB . A prova de b) é
análoga, a partir do facto de M.I w À I w Ä I w ser suave quando no domínio se
considera como espaço ambiente um dos espaços I w e I s w e na chegada o
outro. …
III.8.5 Sejam K e K s espaços vectoriais reais de dimensão finita, E § K e
Es§K s subconjuntos e 0 À E s Ä E uma aplicação suave. Sejam I e I w
espaços vectoriais, reais ou complexos, de dimensão finita e I œ ÐIB ÑB−E e
I w œ ÐIBw ÑB−E dois fibrados vectoriais de base E, com IB § I e IBw § I w .
Se - œ Ð-B ÑB−E À I Ä I w é um morfismo linear suave, então tem lugar um
morfismo linear suave imagem recíproca
0 ‡ - œ Ð-0 ÐCÑ ÑC−Es À 0 ‡ I Ä 0 ‡ I w .

Um caso particular importante é aquele em que Es § E § K e em que


s Ä E é a inclusão: Dizemos então que a imagem recíproca 0 ‡ - é a
0À E
s e notamo-la também - s .
restrição de - a E ÎE
§8. Morfismos entre fibrados vectoriais 269

Dem: Dado um prolongamento suave de -, constituído pelas aplicações


lineares -B À I Ä I w , obtemos um prolongamento suave de 0 ‡ -, associando
a cada C − E s, a aplicação linear -0 ÐCÑ À I Ä I w . …
III.8.6 Sejam E § K e I œ ÐIB ÑB−E e I w œ ÐIBw ÑB−E dois fibrados vectoriais de
base E, com IB § I e IBw § I w . Tem-se então:
a) Tem lugar um morfismo linear suave !À I Ä I w que associa a cada B − E
a aplicação linear !À IB Ä IBw .
b) Se -ß .À I Ä I w são dois morfismos lineares suaves, então
-  . œ Ð-B  .B ÑB−E À I Ä I w
é também um morfismo linear suave.
c) Se -À I Ä I w é um morfismo linear suave e 0 À E Ä Š é uma aplicação
suave, então
0 - œ Ð0 ÐBÑ-B ÑB−E À I Ä I w
é também um morfismo linear suave.
d) Se -À I Ä I w é um morfismo linear suave e [ œ Ð[B ÑB−E é uma secção
suave de I , então
-Ð[ Ñ œ Ð-Ð[B ÑÑB−E
é uma secção suave de I w .
Dem: Para provar a) basta tomar um prolongamento suave identicamente
nulo. Para provar b) e c) basta partir de prolongamentos suaves - e . de - e
de . e reparar que -  . e 0 - vão ter prolongamentos suaves associando, a
cada B − E, -B  .B e 0 ÐBÑ-B , respectivamente. Para provar d) basta reparar
que, se - é um prolongamento suave de -, tem-se ainda -B Ð[B Ñ œ -B Ð[B Ñ,
e portanto B È -B Ð[B Ñ é uma aplicação suave E Ä I w . …

Repare-se que, na definição de morfismo linear suave, exigiu-se a


existência de prolongamentos suaves mas que estes não serão em geral
únicos. Por vezes, como na demonstração que faremos adiante que a no-
ção de morfismo suave é local, é cómodo poder dispor de um prolonga-
mento suave canónico, como o que construímos a seguir, a partir de um
produto interno fixado no espaço ambiente das fibras.

III.8.7 Sejam K um espaço vectorial real de dimensão finita e E § K um


conjunto arbitrário. Sejam I e I w espaços vectoriais, reais ou complexos, de
dimensão finita, o primeiro dos quais munido de produto interno,
I œ ÐIB ÑB−E e I w œ ÐIBw ÑB−E dois fibrados vectoriais de base E, com
IB § I e IBw § I w e - œ Ð-B ÑB−E À I Ä I w um morfismo linear. Notemos,
para cada B − E, -B¼ œ -B ‰ 1B À I Ä IBw , onde 1B é a projecção ortogonal
de I sobre IB , que é um prolongamento da aplicação linear -B . Tem-se
então que o morfismo linear - é suave se, e só se -¼ œ Ð-B¼ ÑB−E é uma
270 Cap. III. Fibrados Vectoriais e o Ambiente Euclidiano

aplicação suave E Ä PÐIà I w Ñ (dizemos então que -¼ é o prolongamento


suave de - associado ao produto interno de I ).
Dem: Se -¼ œ Ð-B¼ ÑB−E é uma aplicação suave E Ä PÐIà I w Ñ, ela é, em
particular, um prolongamento suave de - pelo que - é um morfismo linear
suave. Suponhamos, reciprocamente, que - é um morfismo linear suave e
consideremos uma aplicação suave - œ Ð-B ÑB−E À E Ä PÐIà I w Ñ tal que,
para cada B − E, a aplicação linear -B À IB Ä IBw seja uma restrição de
-B À I Ä I w . Tem-se então também -B¼ œ -B ‰ 1B pelo que, uma vez que, por
I ser fibrado vectorial, é suave a aplicação E Ä PÐIà IÑ, B È 1B , concluí-
mos a suavidade da aplicação B È -B¼ . …
III.8.8 (A suavidade de morfismos é uma questão local) Sejam I œ ÐIB ÑB−E
e I w œ ÐIBw ÑB−E dois fibrados vectoriais de base E, com IB § I e IBw § I w
e - œ Ð-B ÑB−E À I Ä I w um morfismo linear. Se ÐE4 Ñ4−N é uma família de
abertos de E, de união E, tal que cada restrição -ÎE4 À I ÎE4 Ä I w ÎE4 seja
suave (ou, o que é equivalente, se, para cada B! − E, existe um aberto Z de
E, com B! − Z , tal que -ÎZ seja suave), então - é um morfismo linear suave.
Dem: Podemos fixar um produto interno em I e considerar os correspon-
dentes prolongamentos -B¼ œ -B ‰ 1B À I Ä IBw dos IB . Tem-se então que a
aplicação E Ä PÐIà I w Ñ, B È -B¼ , é suave, uma vez que tem restrições
suaves a cada E4 (cf. II.2.11). …
III.8.9 Uma outra questão que se revela não ser tão evidente como poderia pare-
cer mas que tem uma resposta positiva com a ajuda dos prolongamentos
associados a um produto interno é a seguinte:
Sejam E § Kß I e I w espaços vectoriais complexos de dimensão finita,
I œ ÐIB ÑB−E e I w œ ÐIBw ÑB−E dois fibrados vectoriais de base E, com
IB § I e IBw § I w e - œ Ð-B ÑB−E À I Ä I w um morfismo linear. É claro que
também podemos olhar para I e I w como fibrados vectoriais reais, isto é,
quando olhamos para I e I w como espaços vectoriais reais e - continua a ser
um morfismo linear no quadro real. É também evidente que, se - for um
morfismo linear suave no quadro complexo, então é também um morfismo
linear suave no quadro real mas a recíproca já seria menos evidente, visto
que, apesar de os -B À IB Ä IBw serem, por hipótese, aplicações lineares
complexas, nada nos garantia que os prolongamentos -B não fossem apenas
aplicações lineares reais. No entanto, a recíproca é efectivamente também
válida, uma vez que, apesar de um prolongamento arbitrário poder não ser
linear complexo, o prolongamento -B¼ associado a um produto interno
complexo que se considere em I já é uma aplicação linear complexa, por
isso acontecer à projecção ortogonal 1B .
III.8.10 Sejam I œ ÐIB ÑB−E e I w œ ÐIBw ÑB−E dois fibrados vectoriais de base E,
com IB § I e IBw § I w e - œ Ð-B ÑB−E À I Ä I w um morfismo linear.
Podemos então considerar uma aplicação associada entre os espaços totais
-˜À I Ä I w , -˜ÐBß AÑ œ ÐBß -B ÐAÑÑ,
§8. Morfismos entre fibrados vectoriais 271

e o morfismo linear - é suave se, e só se, -˜ é uma aplicação suave.


Dem: Se - é um morfismo linear suave, podemos considerar uma aplicação
suave - œ Ð-B ÑB−E de E em PÐIà I w Ñ tal que cada -B seja uma restrição de
-B e então o facto de se ter -˜ÐBß AÑ œ ÐBß -B ÐAÑÑ implica que -˜ é uma
aplicação suave. Suponhamos, reciprocamente, que -̃À I Ä I w é uma aplica-
ção suave. Fixemos um produto interno em I . O facto de I ser um fibrado
vectorial garante a suavidade da aplicação E Ä PÐIà IÑ, que a B associa a
projecção ortogonal 1B de I sobre IB , pelo que ficamos com uma aplicação
suave E ‚ I Ä I , ÐBß AÑ È ÐBß 1B ÐAÑÑ e portanto, por composição, com
uma aplicação suave
E ‚ I Ä I w , ÐBß AÑ È ÐBß -B Ð1B ÐAÑÑ œ ÐBß -B¼ ÐAÑÑ,
onde -B¼ é o prolongamento de -B associado ao produto interno de I . Em
particular, vemos que, para cada A − I , é suave a aplicação E Ä I w , B È
-B¼ ÐAÑ o que, tendo em conta II.2.12, implica que é suave a aplicação
E Ä PÐIà I w Ñ, B È -B¼ , e portanto que - é um morfismo linear suave. …
III.8.11 Sejam I œ ÐIB ÑB−E e I w œ ÐIBw ÑB−E dois fibrados vectoriais de base E,
com IB § I e IBw § I w e - œ Ð-B ÑB−E À I Ä I w um morfismo linear.
Suponhamos que I é um fibrado vectorial trivial, com um campo de
referenciais [" ß á ß [8 . Tem-se então que o morfismo linear - é suave se, e
só se, para cada " Ÿ 4 Ÿ 8, -Ð[4 Ñ œ Ð-B Ð[4 B ÑÑB−E é uma secção suave de
Iw.
Dem: Uma vez que cada [4 é uma secção suave de I , já sabemos que, se -
é um morfismo linear suave, então cada -Ð[4 Ñ é uma secção suave de I w .
Suponhamos, reciprocamente, que cada -Ð[4 Ñ é uma secção suave de I w .
Notando ainda I o espaço total de ÐIB ÑB−E , podemos considerar o fibrado
vectorial trivial de base I , que a cada ÐBß AÑ − I associa a fibra IB , o qual