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O interior da habitação popular: uma análise do arranjo do mobiliário pela ótica da Ergonomia janeiro/2013

O interior da habitação popular: uma análise do arranjo do mobiliário


pela ótica da Ergonomia
Jacqueline Emerich Souza jacque_emerich@yahoo.com.br
Instituto de Pós-Graduação de Goiânia - IPOG
Master em Arquitetura
Cuiabá/Junho/2012

Resumo

Este trabalho apresenta uma avaliação feita em unidades habitacionais de interesse social do
município de Embu das Artes/SP. O objetivo do estudo é avaliar a unidade internamente e o
mobiliário que a compõe, sendo esta análise feita a partir dos conceitos da Ergonomia.
Foram levantados conceitos teóricos sobre esta disciplina e sua relação com a disposição
dos móveis no ambiente construído da moradia. As plantas originais e o levantamento in loco
das casas conforme ocupadas pelos moradores foram submetidas a uma análise crítica
através de polígonos denominados “zonas de utilização”. O resultado mostra a inadequação
de alguns ambientes em função do tamanho dos móveis, que aponta para a necessidade das
famílias e a dificuldade de se adequarem em espaços tão diminutos.

Palavras-chave: Ergonomia; Mobiliário; Habitação de interesse social.

1. Introdução

Há muito se tem estudado a questão da habitação de interesse social no Brasil, desde suas
origens, formação, projeto e pós-ocupação. Paralelamente a esse fenômeno não faltam
pesquisas que se debrucem sobre o tema do mobiliário na casa popular e sua influência no que
tange à boa habitabilidade do espaço.

Percebido como elemento fundamental do cotidiano de qualquer família, o móvel tornou-se


ferramenta indispensável no estudo da espacialidade e dimensionamento dos projetos para
classe de baixa renda, isto porque as habitações para essa parcela da população possuem,
historicamente, metragem quadrada extremamente reduzida, levando arquitetos e
profissionais da área a espremerem muitas vezes o programa de necessidades da casa ou, por
vezes, “encolher” o mobiliário de forma a obter um espaço que comporte o mínimo para a boa
vivência da família.

Este artigo tem como proposta a análise de algumas unidades habitacionais assobradadas
localizadas no município de Embu das Artes/SP, no bairro Jardim Valo Verde, onde 44 casas
foram construídas ao longo de nove anos (desde 2003) com recursos do Programa de Subsídio
a Habitação de Interesse Social (PSH), e desta forma vêm transformando paulatinamente a
vida de dezenas de famílias que ali residem.
O interior da habitação popular: uma análise do arranjo do mobiliário pela ótica da Ergonomia janeiro/2013

O problema de pesquisa surgiu de estudos na área de mobiliário e ocupação dos espaços ainda
no período da graduação, quando fui bolsista do CNPq entre os anos 2006 e 2007, e tive a
oportunidade de participar do Grupo Multidisciplinar de Estudos da Habitação na
Universidade Federal de Mato Grosso, sob a liderança do Prof. Dr. Douglas Queiroz Brandão,
avaliando unidades de 90m² e sua capacidade de mobiliamento a partir de algumas variáveis.

O interesse cresceu quando passei a fazer parte da equipe técnica da Companhia Pública
Municipal Pró-Habitação (município de Embu das Artes), entrando, portanto, em contato
direto com a população, acompanhando não apenas as obras e fazendo projetos de arquitetura,
mas também vivenciando de perto o processo de pós-ocupação, que neste artigo tem como
foco o mobiliamento da unidade residencial.

É nesse período de entrega das unidades que o solo torna-se ainda mais fértil para a
aprendizagem, pois, estando o morador instalado, podem-se perceber detalhes que muitas
vezes nos fogem na elaboração do projeto. Foi nessa fase de pós-ocupação que detectei alguns
entraves no que diz respeito ao uso do espaço e a distribuição do mobiliário, causando muitas
vezes congestionamento nos ambientes e desconforto ao morador, daí o interesse em me
aprofundar no tema de modo a contribuir, ainda que de forma limitada, com os estudos já
existentes na área.

O objetivo do estudo é avaliar a unidade internamente e o mobiliário que a compõe, sendo


esta análise feita a partir dos conceitos da Ergonomia. O item “mobiliário” tem o objetivo de
analisar sua relação com o ambiente e o espaço do entorno que lhe foi destinado.

Esta pesquisa partiu da hipótese de que as unidades habitacionais avaliadas e seus


correspondentes mobiliários não dão condições satisfatórias de uso para seus moradores no
que diz respeito à ergonomia, ou seja, não atendem às necessidades de espacialidade,
habitabilidade e organização de seus moradores. Outra observação é que o mobiliário usado
como padrão para o estudo do layout das casas populares ainda em fase de projeto não
corresponde aos móveis vendidos atualmente para a classe “D” (faixa da população que
recebe de 1 a 3 salários mínimos), já que estes têm se apresentado cada vez maiores e mais
sofisticados. Desse modo, a pós-ocupação se torna cada vez mais distante do previsto em
projeto, pois o usuário da habitação social tem hoje condições de investir em móveis e
eletrodomésticos que atendem suas reais necessidades e os projetos de arquitetura em geral
não acompanham essa evolução.

Através da pesquisa bibliográfica foi possível identificar algumas medidas mínimas apontadas
pelo estudo da Ergonomia e sua relação com a ocupação dos espaços pelo mobiliário. Foi
feita uma avaliação do projeto original da Pró-Habitação, e também das unidades já ocupadas
pelos moradores. O levantamento das dimensões dos móveis utilizados nas residências bem
como a disposição dos mesmos nos ambientes contribuiu para avaliar o processo real de
ocupação da casa. Foi possível então avaliar se o espaço é adequado e atende minimamente as
necessidades de seus usuários.
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Desta forma, este trabalho contribui não apenas para arquitetos que trabalham diretamente
com habitação popular, mas também para aqueles que buscam se apropriar de maneira
satisfatoriamente do espaço construído, respeitando as necessidades básicas e o conforto do
ser humano, sem desperdício de área ou espaços ociosos, lançando mão de um item
importante: o mobiliário e sua relação com a casa.

2. Habitação e mobiliário: a importância dessa parceria

A busca pela racionalização da habitação no início do século XX fundamentou-se


principalmente nos conceitos elaborados por Le Corbusier, um dos ícones do Movimento
Moderno. Suas ideias tiveram boa repercussão especialmente pelo advento do pós-guerra na
Europa, onde era necessário encontrar soluções para a crise do déficit habitacional. Segundo
Szücs et al (2007), “pela primeira vez começou a se pensar na importância da funcionalidade
e na preocupação com a valorização dos equipamentos e mobiliário internos da casa,
associando funcionalidade e conforto”.

A busca incessante por redução de custos na produção habitacional brasileira, muitas vezes
condicionado ao maior lucro das construtoras ou ao ínfimo repasse ao setor habitacional dos
municípios vem resultando em casas cada vez menores, reduzindo assim o aspecto qualitativo
da moradia. Observa-se a diminuição das áreas internas, transformando os ambientes em
espaços cada vez mais exíguos.

Szücs et al (2007) ressalta a necessidade de se estabelecer o mínimo no momento das


decisões de projeto para habitação de interesse social. Tanto o sub como o super-
dimensionamento podem acarretar inconvenientes, podendo no primeiro caso ocorrer um
comprometimento de uso em outros ambientes da casa, e no segundo caso gerar espaços
ociosos, “sem condições de uso específico. Espaço desperdiçado é investimento mal feito e
esforço perdido” (SZÜCS et al, 2007).

Por isso, podemos afirmar que o dimensionamento do ambiente passa, por assim dizer, pelo
mobiliário, já que é a relação deste com o ambiente construído que regula o bom uso do
espaço. Não por coincidência, na publicação que relaciona as especificações mínimas do
recente programa do Governo Federal Minha Casa, Minha Vida, existe um anexo com os
móveis que devem conter cada um dos cômodos projetados, além de uma nota sobre o
tamanho dos cômodos, que chama a atenção logo no início do documento:

Estas especificações não estabelecem área mínima de cômodos, deixando aos


projetistas a competência de formatar os ambientes da habitação segundo o
mobiliário previsto (grifo do autor), evitando conflitos com legislações estaduais
ou municipais que versam sobre dimensões mínimas dos ambientes.

Nota-se aí a importância do móvel enquanto peça fundamental para a determinação das áreas
mínimas nas residências de baixo custo. No entanto, a área destinada ao mobiliário em cada
cômodo da casa deve contemplar não apenas o espaço que lhe é pertinente, mas também o
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lugar de aproximação e uso do mesmo, de forma que suas funções sejam plenamente
realizáveis.

A ciência que nos valerá de aporte para viabilizar e garantir a qualidade dos projetos de
arquitetura para a casa popular é a Ergonomia, pois esta estuda as interações entre os seres
humanos e os elementos construídos e/ou móveis, e que nem sempre é observada nos projetos
de interesse social. Valendo-se dos conceitos da Ergonomia, das variáveis coletadas na
literatura especializada e da pesquisa de campo, será avaliada a relação de conforto (ou não)
entre usuário, móvel e ambiente construído.

2.1 Ergonomia

Segundo a professora Vera Helena Moro Bins Ely, do Programa de Pós-Graduação em


Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Santa Catarina,

(...) a Ergonomia é uma disciplina científica que estuda as interações dos indivíduos
com outros elementos do sistema – máquinas, equipamentos, ambientes – fazendo
aplicações de teoria, princípios e métodos de projeto, com o objetivo de melhorar o
bem-estar humano e a eficácia das atividades desempenhadas. (BINS-ELY)

A definição descrita acima conceitua bem a função da Ergonomia: melhorar o bem-estar


humano. Quando relacionada à arquitetura, que está comprometida em desenvolver espaços
que se adaptem às necessidades do homem, o estudo da Ergonomia se faz elemento
indispensável a fim de que o produto arquitetônico final tenha qualidade não apenas estética,
mas também funcional, atendendo de maneira satisfatória às expectativas de espacialidade,
vivência, habitabilidade e organização de seus usuários.

(...) vemos negligenciadas as exigências espaciais para a plena realização das


tarefas. Dimensão e forma do espaço, dos equipamentos e mobiliários; fluxos de
circulação e leiaute do mobiliário; conforto ambiental (térmico, lumínico, acústico),
entre outros, devem responder as necessidades dos usuários para a execução das
atividades com o máximo de conforto e segurança. (BINS-ELY)

Segundo Círico (2001), “ao envolver-se a Arquitetura com as contribuições da Ergonomia,


atribuí-se ao projeto, relações antropométricas e aspectos ergonômicos que permitem alcançar
uma melhor satisfação das necessidades do usuário” (CÍRICO, 2001, p. 39)

Esta ciência possibilita a solução de diversos problemas relacionados à segurança, saúde,


conforto e adequação dos ambientes, produzindo assim uma maior eficiência no trabalho
realizado em determinado lugar.

Nesta pesquisa temos o foco na configuração espacial da residência e sua relação com o
mobiliário, e por isso os conceitos da Ergonomia foram utilizados a fim de identificarmos
ambientes inadequados que acabam por prejudicar o morador no dia-dia da rotina familiar,
gerando casas congestionadas e com zonas críticas de uso.
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Para avaliarmos ergonomicamente uma planta, precisamos inicialmente de um rigor


dimensional, e isso nos é dado através da pesquisa bibliográfica. Em seu livro Projetando
Espaços – Design de Interiores, Gurgel (2007) esboça alguns movimentos do corpo humano
de acordo com as atividades a serem realizadas. A autora estabelece medidas mínimas para
que as pessoas possam desempenhar suas tarefas sem comprometer o espaço ao seu redor.

Figura 1 - Movimento sem obstrução (GURGEL, 2007, p. 130)

Figura 2 - Movimentos: abaixar, sentar no chão, abrir gavetas (GURGEL, 2007, p. 131)

É fato que a Ergonomia relaciona-se também com as alturas necessárias para se desenvolver
certas tarefas, como lavar roupas e louças, alcançar um produto numa prateleira alta,
posicionar a televisão na altura da linha de visão, ter mesa e cadeira na altura adequada para
sentar-se. Enfim, uma infinidade de possibilidades que, porém, não foram pertinentes ao
desenvolvimento deste trabalho; visto que se pretendeu avaliar a Ergonomia apenas do ponto
de vista da planta baixa, desconsiderando assim a altura do mobiliário.

2.2 Mobiliário

O móvel, elemento fundamental da habitação, tornou-se ao longo dos anos peça-chave na


elaboração de projetos de arquitetura. Com áreas cada vez menores, as casas populares
exigem um melhor planejamento do espaço ocupado. E nesse sentido é o mobiliário, em
associação à escala humana, que dá o tom aos projetos de habitação de interesse social. É a
partir do layout pré-estabelecido por profissionais da área que se tem a dimensão mínima dos
ambientes que compõem a casa.
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Em artigo publicado na Revista Municipal de Engenharia de 1942, comentando sobre o


problema da habitação e o consequente abarrotamento das residências do século XX, Carmem
Portinho fala com propriedade do problema na relação casa/mobiliário, dentre outros
entraves:

O Homo sapiens do século XX vive, em sua maior parte, em habitações mal


projetadas técnica e economicamente, construídas em desacordo com a escala
humana, de nível sanitário inferior, sem ar, sem luz, sem vista e quase sempre
atulhadas de móveis incômodos, imensos e inúteis. (NOBRE, 1999, p. 44)

Por essa razão, o Modernismo buscou otimizar a moradia transformando-a na “máquina de


morar” (ideia formulada por Le Corbusier). Para os arquitetos dessa geração o móvel deveria
não só se adequar ao espaço da habitação mínima como também deveria ser capaz de afetar o
modo de morar do homem, maneira esta chamada “moderna”. Os pensadores deste
movimento, um tanto catequizadores devido ao caráter impositivo de seus ideais, acreditavam
que era necessário ensinar aos mais pobres o jeito certo de habitar, e dentre esses
ensinamentos estava a reeducação no que tange à organização dos espaços.

De acordo com Folz (2002), “o produto „móvel‟, não estando em concordância com o produto
„casa‟, leva a um comprometimento do desempenho da „moradia‟, criando uma habitação
deficiente”. (FOLZ, 2002, p. 2). Espaços mal planejados e mal mobiliados congestionam o
ambiente, criando situações desconfortáveis ao usuário. Ainda segundo a autora, o mobiliário
residencial é um agente ativo, definindo as relações do morador com sua habitação. Ao se
referir especificamente à habitação popular, Folz diz que “justamente pela exiguidade de
espaço, o projeto dos móveis e equipamentos assume importância vital para garantir boa
habitabilidade desse tipo de moradia”. (FOLZ, 2002, p. 48)

O problema do congestionamento da casa popular causado pelo mobiliário inadequado é


percebido desde a década de 70, como nos é relatado na dissertação de mestrado de Percival
Brosig, de 1983, intitulada O mobiliário na habitação popular. Referindo-se aos problemas
enfrentados pelos usuários das casas autoconstruídas e dos apartamentos da COHAB
(Companhia Metropolitana de Habitação de São Paulo), Brosig comenta:

Podemos notar ainda o entulhamento provocado pelo mobiliário nestes ambientes.


Oferecidos no mercado em conjuntos de sala (sofá, 2 poltronas, mesa de centro e de
canto) e dormitório (incluindo penteadeiras), esses conjuntos tornam-se inadequados
ao uso da habitação e contribuem para congestioná-la. (...) As portas dos armários
não têm espaço para abrir, as pessoas não sentam em poltronas de canto, nas
cozinhas as mesas com cadeira tomam todo o espaço de circulação. (BROSIG, 1983,
p. 35)

O autor encara o fato de que os problemas dos ambientes congestionados são fruto não só de
suas dimensões reduzidas, “mas também pelos mobiliários adquiridos formando conjuntos
estáticos e sem flexibilidade de uso”. (BROSIG, 1983, p. 176)

Brosig relata que na década de 70 a população de baixa renda já enfrentava o problema de


mobiliar a casa em acordo com suas necessidades. Apesar do baixo poder aquisitivo desta
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população, paradoxalmente este fator não a excluiu da participação no mercado de consumo,


propiciado pelas facilidades de pagamento e os financiamentos que criam um poder de
compra artificial. (BROSIG, 1983, p. 99)

De igual modo, vemos atualmente as facilidades de crediário oferecidas pelas grandes lojas do
setor, onde é possível mobiliar toda a casa em infindáveis parcelas. Talvez a mais marcante
diferença do mobiliário vendido hoje seja a individualização da peça, ou seja, é possível obter
peças de armário para cozinha conforme a necessidade do usuário, o jogo de sofá da sala de
estar não precisa mais ser “completo” (sofá 02 e 03 lugares, poltronas e mesas de centro
formando um conjunto único e estático) e mesmo para os dormitórios é possível comprar
apenas a cama, ou só o armário de roupas, ou apenas um criado mudo.

Uma observação interessante é o design dos equipamentos e do mobiliário. A realidade para


muitas famílias de baixa renda hoje já não é mais aquele aparelho de televisão robusto, que
precisava de uma estante mais robusta ainda para apará-lo. Graças aos financiamentos
facilitados pelo mercado é possível a uma família que pertença à classe “D”adquirir telas de
LCD ou plasma que eliminam automaticamente uma estante ou hack da sala de estar, já que
podem ser afixadas na parede, descartando assim um elemento que poderia ser um empecilho
no aproveitamento dos espaços.

De igual modo, os sofás em “L”, agora acessíveis às classes mais pobres, facilitam no
momento de estabelecer a melhor relação do móvel com sala, evitando entulhamentos
desnecessários. Esses desdobramentos do desenho industrial para equipamentos,
eletrodomésticos e móveis começam a dar uma nova sugestão de layout a arquitetos
preocupados em adequar o espaço das unidades ao modo de morar do homem do século XXI.

Dentre os diversos autores que discutem o dimensionamento do mobiliário e sua relação com
o ambiente onde estão inseridos, destacamos aqui os estudos de Pronk (2003), Pereira et al
(2002) e Gurgel (2002; 2007).

3. Método de análise das plantas

As unidades habitacionais escolhidas para o presente trabalho foram analisadas a partir do


layout definido pelos profissionais responsáveis pelo projeto. Não foi alterada a escala dos
móveis, tampouco o tipo de mobiliário utilizado para compor os ambientes. A tipologia em
questão apresenta três variações de composição interna no pavimento térreo (apesar de
possuírem sempre a mesma área construída) e layout idêntico no pavimento superior em todas
as variações. As unidades pesquisadas possuem área construída igual a 49m² e área útil de
40,72m².

Inicialmente, definimos em cada ambiente as medidas consideradas minimamente


confortáveis do ponto de vista da Ergonomia, com base na pesquisa bibliográfica. Foram
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aplicadas às plantas originais polígonos com as dimensões levantadas, que aqui denominamos
“zonas de utilização” (ver anexo).

Além da análise do projeto original, foi feito um levantamento in loco de quatro unidades e as
mesmas foram representadas conforme o arranjo espacial concebido pelo morador. Também
foram aplicados os polígonos de área de utilização e feita uma avaliação da pós-ocupação,
analisando o quanto do layout original foi respeitado, se o mobiliário considerado pelos
arquitetos é compatível com o mobiliário usado pelos moradores e, se não, quais os benefícios
ou prejuízos que isso acarretou aos usuários da residência. Finalmente, foi feita uma análise
crítica do projeto, apontando as zonas de conflito de uso entre os móveis/equipamentos e suas
respectivas áreas de utilização.

A análise das plantas não considerou conceitos do Desenho Universal, uma vez que se trata de
sobrados sem dormitório no pavimento inferior, excluindo-se assim a possibilidade de uma
moradia acessível. Abaixo, as plantas do projeto original e suas variações tipológicas.

Sala B Sala B
9 ,3 4 m² 1 2 ,1 9 m²

Banho 1 B
2 ,5 1 m²
Sala A
8 ,0 3 m² Sala A
Escada B 8 ,2 2 m² Escada B
1 ,6 7 m² 1 ,6 7 m²

Cozinha B
Escada A Escada A 8 ,2 5 m²
1 ,6 7 m² 1 ,6 7 m²
Cozinha B
8 ,1 1 m²

Banho 1 A
2 ,6 6 m2 Cozinha A
1 2 ,2 1 m²

Cozinha A
9 ,3 8 m²

Lavanderia Lavanderia
2 ,1 5 m²
2 ,1 5 m² Lavandeira e quint al
5 ,7 0 m² * Lavanderia e quint al
6 ,9 0 m² *
Quint al Quint al
4 ,2 0 m² 6 ,4 7 m²
* Tipologia com lavanderia * Tipologia com lavanderia
sem cobert ura sem cobert ura

Figura 4 - Planta baixa pav. térreo (tipologia 02)


Figura 3 – Planta baixa pav. térreo (tipologia 01)
Fonte: arquivos Pró-Habitação
Fonte: arquivos Pró-Habitação
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Figura 5 - Planta baixa pav. térreo (tipologia 03) Figura 6 - Planta baixa pav. superior
Fonte: arquivos Pró-Habitação Fonte: arquivos Pró-Habitação

3.1 Cozinha

Neste ambiente foram avaliados dois itens importantes: espaço destinado às refeições (mesa
com 4 lugares) e espaço da área de trabalho (pia, fogão e geladeira). Por nem sempre ter
espaço exclusivo de copa nesse tipo de residência, o ideal é que as cozinhas reservem o
mínimo de espaço necessário para que o morador possa comer confortavelmente à mesa.
Deve ser avaliado também se é possível preparar a refeição de maneira segura, sem que a
disposição dos móveis seja conflitante, ou mesmo atrapalhe a boa circulação no ambiente.

O espaço destinado à mesa deve respeitar um afastamento mínimo de 80 cm em relação às


paredes que a circundam, e a área de movimentação à mesa são de 60 cm ente um usuário e
outro, conforme exemplo detalhado por Gurgel:
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Figura 7 - Dimensão de mesa redonda e quadrada com 4 Figura 8 - Mesas retangular com 6 lugares
lugares e suas respectivas áreas de utilização (GURGEL, (GURGEL, 2007, p. 133)
2007, p. 133)

Conforme encontrado em pesquisa bibliográfica (Pronk, Gurgel, Pereira et al), o afastamento


entre a bancada da pia e outros elementos frontais (como parede ou mobiliário, seja armário
ou mesa de refeições) varia de 90 a 120 cm, por isso adotamos uma distância média de 105
cm como afastamento mínimo nesta área crítica da cozinha, que envolve atividades com certo
grau de periculosidade.

Figura 9 - Cozinha com distribuição do tipo Figura 10 - Cozinha com distribuição do tipo triangular
linear (PRONK, 2003, p. 12) (PRONK, 2003, p. 12)

Figura 11 - Dimensões mínimas de mobiliário para cozinha e


suas respectivas áreas de utilização (PEREIRA et al, 2002, p. 191)
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3.2 Lavanderia

Pereira et al (2002) comenta que estes espaços em geral inexistem nos projetos de habitação
popular. O autor aconselha que este ambiente da casa seja tratado com o mesmo grau de
importância que os outros cômodos. Para tanto, define uma área mínima de utilização em
frente aos equipamentos equivalente a 70 cm, conforme figura abaixo, que foi considerado
como parâmetro no presente trabalho. Em algumas variações das unidades estudadas neste
trabalho, a área de serviço está fora da projeção da casa, ficando assim descoberta e sujeita às
intempéries, confirmando o argumento de Pereira et al sobre o descuido por parte dos
projetistas com esse ambiente da casa.

Foi considerado como equipamento mínimo para a lavanderia o tanque, que em geral é
entregue para o morador já instalado, e a lavadora de roupas.

Figura 12 - Dimensões mínimas de mobiliário para lavanderia e suas respectivas


áreas de utilização (PEREIRA et al., 2002, p. 192)

3.3 Dormitório

Diversas situações podem ser consideradas quando o ambiente em questão é o dormitório,


como por exemplo, o espaço existente entre camas de solteiro, entre cama e armário (para
abrir portas, gavetas, etc.) e entre cama e parede (em geral em quartos de casal, onde é
necessário que ambos possam caminhar lateralmente à cama). Abaixo, a relação de alguns
estudos considerados na pesquisa como referência de medida para avaliar a configuração
espacial dos ambientes.
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Figura 13 - Áreas de circulação em torno da cama prevendo um criado


mudo; uma cadeira; ou o armário de roupas (PRONK, 2003, p. 19)

Figura 14 - Áreas de circulação em torno da cama prevendo uma cômoda;


uma escrivaninha; ou a circulação entre duas camas (PRONK, 2003, p. 19)

Em geral, os móveis considerados como fundamentais para dormitórios são as camas e os


armários para roupas. Quando é possível, há a inserção de outros móveis, como criado-mudo
e escrivaninha (geralmente no quarto dos filhos), sapateira e cesto para roupa suja – um item
que deveria acomodar-se no banheiro, mas que, em geral, também é um cômodo muito
pequeno.

Vale aqui uma informação relevante a respeito dos novos itens consumidos pela população de
baixa renda e que impactam de forma direta no mobiliário da casa: segundo previsões de
mercado publicadas no início de 2010, a classe “D” responderia por 33% do total de venda de
computadores no Brasil naquele ano. A importância dada a esse item não é uma resposta a um
problema arquitetônico, mas social – as chefes de família vêem o computador como um
instrumento capaz de manter seus filhos em casa, além de contribuir na formação escolar das
crianças. Por isso, é importante que seja considerado a mesa para computador, ou
escrivaninha, nos novos projetos de habitação de interesse social.

As dimensões adotadas no trabalho para avaliar os dormitórios foram 60 cm de afastamento


entre cama e parede; 80 cm entre camas de solteiro; 70 cm entre cama e armário e 70 cm
frontalmente à mesa de estudo.
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3.4 Sala

No contexto da habitação popular, a sala de estar não apresenta caráter prático, pois em geral
suas funções são transferidas para a cozinha. No entanto, ela não pode ser dispensada do
programa de necessidades da moradia. (PEREIRA et al., 2002).

Os itens mínimos que devem compor este ambiente são: estante para televisão (hack) e sofá
com número de lugares correspondente ao número de leitos nos dormitórios. Para além disso,
já é lucro conseguir encaixar uma mesa de canto ou de centro. Poltronas também incrementam
o espaço mas não são consideradas fundamentais.

Figura 15 - Disposição dos móveis da sala de estar e


áreas de circulação necessárias (GURGEL, 2007, p. 132)

Figura 16 – Distanciamento entre poltronas e mesas de Figura 17 - Dimensões mínimas de mobiliário para
centro (PRONK, 2003, p. 4) sala de estar/jantar e suas respectivas áreas de
utilização (PEREIRA et al, 2002, p. 190)

De acordo com os estudos de Pronk (2003), a distância entre o sofá e a televisão também deve
ser considerado a fim de que se obtenha maior conforto visual no momento de assistir TV. O
distanciamente deve ser proporcional ao tamanho do aparelho em polegadas, ou seja, quanto
maior a tela, maior a distância do assento em relação à televisão. Se formos rigorosos no
processo de avaliação, nenhuma sala estará realmente adequada, já que a realidade econômica
permite à população de baixa renda adquirir televisores cada vez maiores, chegando até a 52
polegadas, em salas cada vez menores (2,35m de largura).
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Figura 18 – Distância mínimas para televisões em


relação aos sofás (PRONK, 2003, p. 2)

A área de utilização considerada em frente aos sofás foi de 60 cm, precisando esse espaço
estar realmente livre de forma que a circulação não seja comprometida. Considerando a
estante para televisão, adotamos aqui o recomendado por Pereira et al (2002), que indica 70
cm como distância mínima de utilização em frente ao hack.

4. Apresentação e análise dos resultados

Apresentaremos a seguir uma análise crítica do arranjo espacial das unidades levantadas in
loco. As plantas com o método aplicado estão no anexo, assim como as plantas originais. Para
preservar a identidade dos moradores, as casa foram nomeadas em ordem numérica.

Casa 01 – Tipologia 3B

O conjunto de sofás escolhido pela família para mobiliar a sala precisa de um espaço muito
maior do que a área real disponível. Além de serem mais compridos e profundos do que o
móvel considerado no layout original, sua disposição na sala obstrui a passagem logo na
entrada da casa. O sofá de 03 lugares fica com um dos assentos comprometido pois está muito
próximo ao hack da televisão, impedindo assim que seja ocupado confortavelmente por
alguém.

Figura 19 – Sala de estar


Fonte: arquivo pessoal da autora
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A cozinha apresentou três pontos críticos. O primeiro está relacionado com o espaço para a
mesa de refeições, que perdeu dois dos quatro lados de assento, pois um dos lados maiores
está encostado na parede (para não atrapalhar a circulação interna) e outro lado está colado no
fogão. O posicionamento deste também compromete as atividades do preparo das refeições,
pois está posicionado lateralmente à pia e com uma espaçamento de 54 cm, considerado
muito estreito. A porta que dá para a área de serviço não abre 100% porque os armários da
cozinha são grandes e a geladeira precisa ficar recuada num canto do ambiente,
comprometendo assim a abertura integral da esquadria. Isso mostra um item importante a ser
considerando no layout das cozinhas: a área para armário. Este item do mobiliário é
fundamental, uma vez que as unidades habitacionais não possuem dispensa para guardar
alimentos ou utensílios domésticos.

Como a família em questão optou pelo escritório em vez da copa junto à sala, como sugerido
no layout original, a cozinha ficou abarrotada de móveis e talvez seja o cômodo mais
prejudicado no pavimento térreo. É relevante considerar que esta unidade habitacional tem
alguma diferença do projeto original. Sua cozinha é maior e o posicionamento da pia está
diferente. Ela faz parte de um grupo de casas construídas anteriormente às reclamações dos
moradores que reivindicaram a área de serviço coberta (e por isso a cozinha diminuiu, para
que a lavanderia se encaixasse embaixo da projeção do pavimento superior), e nessa unidade
em questão a área de serviço estava descoberta. Como parte das reformas internas promovidas
pelos usuários, o quintal foi coberto juntamente com a lavanderia, ampliando assim a área útil
da casa (apesar dos inconvenientes resultantes dessa decisão: a ventilação e a iluminação da
cozinha, assim como da própria lavanderia, ficaram prejudicadas).
O interior da habitação popular: uma análise do arranjo do mobiliário pela ótica da Ergonomia janeiro/2013

Figura 20 – Cozinha Figura 21 – Cozinha. Ao fundo, a porta de acesso à


Fonte: Fonte: arquivo pessoal da autora lavanderia
Fonte: arquivo pessoal da autora
No pavimento superior, os dormitórios também apresentaram alguns entraves. No quarto do
casal o armário está muito próximo à cama, prejudicando assim a abertura de portas e gavetas.
A cama está colada na parede da janela, prejudicando também a abertura desta. Nesse caso, o
morador precisa subir na cama para abrir e fechar a esquadria. No dormitório dos filhos, uma
boa solução adotada foi o beliche, que “verticaliza” o uso do espaço, ao passo que seria
impossível acomodar quatro pessoas com camas comuns em quartos tão diminutos. O armário
é compatível com o previsto em projeto, porém outros itens importantes para a organização da
família foram incluídos no layout, como sapateira e cesto de roupa suja, congestionando o
espaço.

Figura 22 – Dormitório do casal Figura 23 – Dormitório dos filhos


Fonte: arquivo pessoal da autora Fonte: arquivo pessoal da autora

Casa 02 – Tipologia 1B
O interior da habitação popular: uma análise do arranjo do mobiliário pela ótica da Ergonomia janeiro/2013

A casa 02 foi, dentre as quatro plantas analisadas, foi a que apresentou o layout mais
adequado, resultando em ambientes confortáveis e sem execesso de mobília e equipamentos.
Isso deve-se também, vale ressaltar, à composição familiar, que é pequena e se adequa bem
aos espaços disponíveis. O uso de copa dado ao ambiente que originalmente era um banheiro
(tipologia 1B) desafogou a cozinha, ficando esta livre para os afazeres domésticos e também
profissionais, já que a moradora é cozinheira e investiu num espaço em que pudesse realizar
seu trabalho de forma satisfatória (substituiu a pia original por uma bancada de granito em
“L”). A sala ficou livre com um sofá de canto, desobstruindo assim a circulação. O hack
posicionado em baixo do lance mais alto da escada possibilita que todos assistam à televisão
de forma adequada, sem atrapalhae na circulação entre sala e cozinha.

A lavanderia desta tipologia está fora da projeção do pavimento superior, portanto sujeita às
intempéries. Porém, como são comuns as reformas nas casas, a moradora fez uma laje de
cobertura para protejer sua área de serviço, como o quintal não foi coberto, não houve
prejuízo significativo quanto à iluminação da cozinha.

No dormitório do casal o problema se repete, como observado em todos as casas pesquisadas:


a cama fica com um dos lados encostado na parede, prejudicando assim um dos usuários, que
precisa descer da cama pela frente, não existindo a possibilidade de se colocar nenhuma mesa
de apoio ou criado mudo ao lado. No quarto dos filhos, a solução do treliche se mostrou a
melhor alternativa, pois economiza espaço e ainda permite a colocação de uma mesa para
computador, para recreação e estudo das crianças.
O interior da habitação popular: uma análise do arranjo do mobiliário pela ótica da Ergonomia janeiro/2013

Figura 24 – Sala de estar Figura 25 – Cozinha


Fonte: arquivo pessoal da autora Fonte: arquivo pessoal da autora

Figura 26 – Dormitório do casal Figura 27 – Dormitório dos filhos


Fonte: arquivo pessoal da autora Fonte: arquivo pessoal da autora

Casa 03 – Tipologia 1B

Os moradores da casa 03, de mesma configuração interna que a casa 02, optaram por
transformar o banheiro do pavimento térreo em escritório. A sala de estar foge à regra: não
possui televisão, por isso ficou com bastante área de circulação, chegando a gerar espaços
ociosos. Em contrapartida, a cozinha é bem apertada e não possui mesa de refeições, apenas
uma mesa de apoio sem cadeiras. O espaço considerado mínimo nesta pesquisa para o
trabalho seguro na cozinha entre bancada e armário foi preservado, porém a porta não abre
100% devido ao posicionamento do paneleiro. A lavanderia foi coberta pelo morador e parte
do quintal foi integrado à área útil da casa.

Nos dormitórios, devido ao número reduzido de pessoas, não foi observado


congestionamentos relevantes, uma vez que apenas um berço e armário de roupas pequeno
ocupa um dos quartos, e no quarto do casal, sem cama ainda, mas com o colchão no chão, é
possível perceber o conflito que será gerado entre o armário e a futura cama. A televisão fica
sobre um hack, que faz vezes de cômoda. A circulação fica comprometida entre o armário e o
hack, com apenas 50 cm de passagem.
O interior da habitação popular: uma análise do arranjo do mobiliário pela ótica da Ergonomia janeiro/2013

Figura 28 – Sala de estar Figura 29 – Cozinha

Figura 30 - Dormitório do casal Figura 31 – Quarto do bebê

Casa 04 – Tipologia 1A

A tipologia 1A possui originalmente em sua planta banheiro no pavimento térreo, porém os


moradores optaram por transformá-lo em lavanderia, podendo assim este espaço ficar maior e
abrigar mais equipamentos pertinentes a essa área, como lavadora e tanquinho de roupas.

A sala de estar e a cozinha possuem entraves no que tange à boa circulação. Os móveis, além
de robustos, como o sofá e a poltrona da sala, estão alocados em pontos de passagem,
comprometendo assim a movimentação livre no interior da casa. Na cozinha há uma mesa
pequena de refeições com os três lados comprometidos, pois um encosta na parede, outro na
geladeira, e o terceiro no armário, impossibilitando assim o seu uso pleno.

O armário de madeira para guardar louças está muito próximo à bancada da pia, deixando um
espaço entre eles de apenas 37 cm. Outro ponto ruim encontrado foi o estrangulamento entre
sala e cozinha, pois o sofá avança num trecho da escada e o armário da cozinha estreita a
passagem de um cômodo para o outro.
O interior da habitação popular: uma análise do arranjo do mobiliário pela ótica da Ergonomia janeiro/2013

O dormitório do casal apresenta o mesmo inconveniente relatado nos três casos acima: a
proximidade da casa de casal com uma das paredes. Nessa tipologia a janela do quarto fica
livre, permitindo assim seu acionamento sem conflito com os móveis do quarto. No
dormitório dos filhos, o problema foi resolvido com o beliche, como observado em todos os
casos.

Figura 32 – Sala de estar Figura 33 - Cozinha

Figura 34 – Dormitório do casal Figura 35 – Dormitório dos filhos

5. Conclusões

Os resultados obtidos com a análise das plantas originais e das plantas mobiliadas pelos
moradores permite-nos concluir que, inicialmente, existe um certo distanciamento entre o
projeto de arquitetura e a realidade das casas habitadas. Os itens considerados no layout ainda
em fase de projeto não correspondem integralmente às necessidades levantadas com a
pesquisa da pós-ocupação, como por exemplo o espaço para as refeições na cozinha, o espaço
para armário, espaço para criado mudo nas laterais da cama do quarto de casal, espaço para
escrivaninha no quarto das crianças, etc., além de outros itens que ajudam na organização do
espaço, como sapateiras, cômodas e cesto de roupa.
O interior da habitação popular: uma análise do arranjo do mobiliário pela ótica da Ergonomia janeiro/2013

Esse distanciamento se deve também ao padrão dos móveis utilizados pela classe “D” que
muitas vezes não corresponde ao mobiliário utilizado como ferramenta de organização
espacial por arquitetos e projetistas. Os sofás da “vida real” em geral são muito largos, os
armários para quarto possuem no mínimo 1,80 m de comprimento e as camas de solteiro ou
beliche são mais largos que o usual (90cm).

Por isso, falar em Ergonomia no contexto doméstico sem considerar o mobiliário da casa
popular é um equívoco, pois ele é, sem dúvida, a medida de referência do interior da casa da
família brasileira. Num contexto em que é necessário trabalhar sempre com o mínimo, faz-se
necessário o domínio sobre o que tem sido comercializado e consumido por esta parcela da
população para que se obtenha resultados satisfatórios.

E para não deixar escapar, aproveitando que é o assunto do momento, o programa do governo
federal Minha Casa, Minha Vida traz especificações mínimas de projeto para habitação de
interesse social, dentre elas o mobiliário que a casa deve conter. O problema é que o
referencial de área é sempre muito enxuto, ou seja, a área mínima exigida pela Caixa
Econômica Federal ainda é muito pequena para comportar todo o mobiliário exigido (36m²
para dois dormitórios – sem contar a área de serviço), isso sem falar nas áreas de circulação,
áreas de uso dos equipamentos e móveis, acionamento de portas e janelas e tudo o mais que
foi levantado aqui como parte fundamental do funcionamento integral da casa.

As tipologias estudadas neste trabalho possuem, como já informado, área útil de 40,72 m², e
ainda assim apresentam problemas ergonômicos e de arranjo espacial. Quanto mais problemas
não apresentarão os projetos que seguirem o mínimo exigido pelo governo federal? Será
possível enquadrar os parâmetros de mobiliamento mínimo, aliados ao conforto e à segurança,
em áreas tão diminutas?

6. Considerações finais

Espera-se com este trabalho ter contribuído, ainda que de forma singela, aos estudos na área
da habitação, fornecendo ferramentas que permitam aos arquitetos avaliarem os espaços e
analisá-los criticamente a fim de obterem um bom resultado, que é traduzido em qualidade
projetual e satisfação do morador.

Além dos conhecimentos técnicos, a análise crítica quanto à produção habitacional também se
faz necessária. É imperativo rever o modelo produzido hoje no Brasil, que está mais
comprometido com o lucro das construtoras do que com a qualidade habitacional das classes
menos privilegiadas. É preciso sempre trazer ao centro das discussões o interior da casa
popular, não só quantitativamente, mas também qualitativamente, observando o programa de
necessidades que de fato satisfaz a família e atende de maneira adequada os padrões de
habitabilidade. Esta pesquisa está longe de ser conclusiva, pretendendo-se apenas ser o
pontapé inicial para estudos mais profundos e relevantes na área em questão.
O interior da habitação popular: uma análise do arranjo do mobiliário pela ótica da Ergonomia janeiro/2013

7. Bibliografia

ABERGO - Associação Brasileira de Ergonomia. www.abergo.org.br. Disponivel em:


<http://www.abergo.org.br/internas.php?pg=o_que_e_ergonomia>. Acesso em: 04/ 01/ 2012.

BINS-ELY, V. H. M. Fundamentos da Ergonomia e da Psicologia Ambiental.


Florianópolis: Programa de Pós Graduação em Arquitetura e Urbanismo.

BROSIG, P. O mobiliário na habitação popular. Faculdade de Arquitetura e Urbanismo -


Universidade de São Paulo. São Paulo. 1983.

CÍRICO, L. A. Por dentro do espaço habitável: uma avaliação ergonômica de apartamentos


e seus reflexos nos usuários. Dissertação de Mestrado. Florianópolis: Programa de Pós-
Graduação em Engenharia de Produção, 2001.

FOLZ, R. R. Mobiliário na habitação popular. Escola de Engenharia de São Carlos da


Universidade de São Paulo. São Carlos, p. 199. 2002.

GURGEL, M. Projetando espaços: guia de arquitetura de interiores para áreas residenciais.


5ª. ed. São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2002.

GURGEL, M. Projetando Espaços: design de interiores. 4ª. ed. São Paulo: Editora Senac
São Paulo, 2007.

MINISTÉRIO das Cidades. www.cidades.gov.br. Disponivel em:


<http://www.cidades.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=1069:fundo-
de-arrendamento-residencial-far&catid=94&Itemid=126>. Acesso em: 02/ 05/ 2012.

NEUFERT, P. Arte de projetar em arquitetura. Tradução de Benelisa Franco. 17ª. ed.


Barcelona: Gustavo Gili, 2004.

NOBRE, A. L. Carmen Portinho: o moderno em construção. Rio de Janeiro: Relume


Dumará: Prefeitura, 1999.

PEREIRA, F. O. R. et al. Inserção urbana e avaliação pós-ocupação (APO) da habitação


de interesse social. São Paulo: FAUUSP, v. 1, 2002. 373 p.

PRONK, E. Dimensionamento em arquitetura. 7ª. ed. João Pessoa: Editora Universitária


UFPB, 2003. 56 p.
O interior da habitação popular: uma análise do arranjo do mobiliário pela ótica da Ergonomia janeiro/2013

SZÜCS, C. P. et al. Habitação Social: uma visão projetual. IV Colóquio de Pesquisas em


Habitação. Belo Horizonte: [s.n.]. 2007.
O interior da habitação popular: uma análise do arranjo do mobiliário pela ótica da Ergonomia janeiro/2013

ANEXO
PLANTAS COM O MÉTODO APLICADO
PROJETO ORIGINAL – TIPOLOGIA 1 – PAV. TÉRREO

60
70
60
60

Sala B
9 ,3 4 m² Banho 1 B
2 ,5 1 m²

Sala A
8 ,0 3 m²
70 Escada B
1 ,6 7 m² 80 80
60
60

80
Escada A
1 ,6 7 m²

80
Cozinha B
8 ,1 1 m²

Banho 1 A
2 ,6 6 m2 105
80

Cozinha A 105
9 ,3 8 m²

Lavanderia
70
70

2 ,1 5 m²

Lavandeira e quint al
Quint al 5 ,7 0 m² *
4 ,2 0 m²
O interior da habitação popular: uma análise do arranjo do mobiliário pela ótica da Ergonomia janeiro/2013

PROJETO ORIGINAL – TIPOLOGIA 2 – PAV. TÉRREO

60
70

80 80

60 Sala B
1 2 ,1 9 m²
60

Sala A
8 ,2 2 m²
Escada B
1 ,6 7 m²
70 105

60 Escada A
1 ,6 7 m²

Cozinha B
80 80 8 ,2 5 m²

105

Cozinha A
1 2 ,2 1 m²
70

70

Lavanderia e quint al
6 ,9 0 m² *
O interior da habitação popular: uma análise do arranjo do mobiliário pela ótica da Ergonomia janeiro/2013

PROJETO ORIGINAL – TIPOLOGIA 3 – PAV. TÉRREO


O interior da habitação popular: uma análise do arranjo do mobiliário pela ótica da Ergonomia janeiro/2013

60
70
155

80
60

40
60

40
80

80
70
105
60

105
51

70
80
51

80

70
105
O interior da habitação popular: uma análise do arranjo do mobiliário pela ótica da Ergonomia janeiro/2013

PROJETO ORIGINAL – PAV. SUPERIOR (IGUAL PARA TODAS AS TIPOLOGIAS)

70
60 60

Dormit ório 1 A
70

8 ,0 6 m²

70

60 60
70
O interior da habitação popular: uma análise do arranjo do mobiliário pela ótica da Ergonomia janeiro/2013

MOBILIÁRIO UTILIZADO NO LAYOUT DAS PLANTAS ORIGINAIS

186 116
Ø3 5 Ø3 5
120
72

2
56

1 3

53
1 2

70

70
101 80

50 74
50
65 60 103
50

3 4 5
56
40

4 5 6
63

52
68

2
2

1
3 1 3
O interior da habitação popular: uma análise do arranjo do mobiliário pela ótica da Ergonomia janeiro/2013

56 60

1 2
44

60
O interior da habitação popular: uma análise do arranjo do mobiliário pela ótica da Ergonomia janeiro/2013

CASA 01 – PAV. TÉRREO E SUPERIOR


O interior da habitação popular: uma análise do arranjo do mobiliário pela ótica da Ergonomia janeiro/2013

34

24
60
70
Escrit ório
2 ,5 1 m²
Sala B
9 ,3 3 m² Dormit ório 0 2
6 ,6 9 m²
70

60

70
80

Escada B
1 ,6 7 m²

Banho
2 ,5 1 m²
80 80
105

Dormit ório 0 1
Cozinha B
54

8 ,0 6 m²
8 ,0 9 m²
70

60
Lavandeira
70

3 ,4 9 m²

Lavandeira
3 ,2 2 m²
O interior da habitação popular: uma análise do arranjo do mobiliário pela ótica da Ergonomia janeiro/2013

MOBILIÁRIO UTILIZADO PELOS MORADORES – CASA 01

120
120 72
205 153

30
48
1

80
90
85

1 2 2

45
45
45
160 90
61 53
120
45
40
47

4 5

58

59
53
3

53
50
3 4 5
1 2

50
63
O interior da habitação popular: uma análise do arranjo do mobiliário pela ótica da Ergonomia janeiro/2013

90
200

47

85
140
2
205

3
47
1 158

220
195
47 50
31

4 5

30
1 2

CASA 02 – PAV. TÉRREO E SUPERIOR


O interior da habitação popular: uma análise do arranjo do mobiliário pela ótica da Ergonomia janeiro/2013

70
60

60 Sala B Dormit ório 0 2

70
9 ,3 2 m² 80 80 6 ,6 9 m²
Copa
2 ,7 7 m²
70

Banho B
2 ,5 1 m²
80

Escada B
1 ,6 7 m²

105 70
Cama de casal com um dos lados
encost ado na parede

Cozinha B
8 ,1 0 m²

Dormit ório 1 B
8 ,0 6 m²
70

Lavandeira e quint al
5 ,7 0 m² *
O interior da habitação popular: uma análise do arranjo do mobiliário pela ótica da Ergonomia janeiro/2013

MOBILIÁRIO UTILIZADO PELOS MORADORES – CASA 02

47 64 77
200 47

24

24
Ø8

70
3

67
8
2
75

71

247
164
125
200

101
70
71

166
125

106
1 3 4

68
50 62

65
75
2 1 135
1 2

50

62
O interior da habitação popular: uma análise do arranjo do mobiliário pela ótica da Ergonomia janeiro/2013

Dimensão dos móveis ut ilizados


no layout do Dormit ório 0 2
168
140 47

47
30

194
50
67

183
185

40
3
1 2 96

1 - Cama solt eiro


2 - Armário de roupas
3 - Mesa para comput ador
CASA 03 – PAV. TÉRREO E SUPERIOR
O interior da habitação popular: uma análise do arranjo do mobiliário pela ótica da Ergonomia janeiro/2013

Sala B
9 ,3 9 m²

60

Escrit ório 70
2 ,5 1 m²
70

60
Escada B
1 ,6 7 m²

Cozinha B
8 ,0 5 m²

105
50

70
Circulação est reit a
ent re os móveis

70
70

Lavandeira e quint al
5 ,7 0 m² *
O interior da habitação popular: uma análise do arranjo do mobiliário pela ótica da Ergonomia janeiro/2013

MOBILIÁRIO UTILIZADO PELOS MORADORES – CASA 03

62 50
70 66 105
90
3

33
2

45

53
50

67
45
52 50 1
100 150 63
153

50

52
35

120
1

65
55
60
40
2 3
4 5 6 7
O interior da habitação popular: uma análise do arranjo do mobiliário pela ótica da Ergonomia janeiro/2013

140 52
55

75 50

134
185

225

120
134
1 3
1 2
2

CASA 04 – PAV. TÉRREO E SUPERIOR


O interior da habitação popular: uma análise do arranjo do mobiliário pela ótica da Ergonomia janeiro/2013

57
70

60
60
60
Sala A
8 ,0 5 m²

70
Escada A 46
1 ,6 7 m² 45

Cozinha A
9 ,3 8 m²

80

105

70
Cort ina

70

37
O interior da habitação popular: uma análise do arranjo do mobiliário pela ótica da Ergonomia janeiro/2013

MOBILIÁRIO UTILIZADO PELOS MORADORES – CASA 04

55 71
50 55

53

58
82

111
154
80
120 3 4
2 113
2
43
82

57 55
1
225

70 175
1 56

46
3

29

57

60
42
5 6
1 2 3
O interior da habitação popular: uma análise do arranjo do mobiliário pela ótica da Ergonomia janeiro/2013

85 90 45
140 80

50

86
82
2 3

195
190

90
180

1 4

50
1

48
3

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