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“As nossas Ações são o nosso Futuro.

É
possível um mundo #FomeZero até 2030”
(Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura - FAO)

“Tio Desafio”
(Ana Maria Magalhães, Isabel Alçada Batista e Carla Nazareth
(audiolivro - http://furnas.citi.pt/zerodesperdicio/livro3/index.php?book=6)

“Coleção Zero Desperdício


Uma iniciativa que faz parte do movimento zero desperdício e que pretende sensibilizar as
crianças para o combate ao desperdício alimentar”

Narrador(a) –
Tio António (tio Desafio) que é fotógrafo-
Os 3 sobrinhos – Madalena, Joaquim e Luís

Quando o tio chega de viagem, a família Veiga organiza uma grande festa para o receber
porque são muito amigos e todos adoram divertir-se. O tio, na verdade, chama-se António,
mas os sobrinhos mais novos começaram a tratá-lo por Tio Desafio e a alcunha
assenta-lhe de maravilha pois aparece sempre com ideias extraordinárias e inventa jogos
que são autênticos desafios. O que não admira. Fotógrafo famoso, ganha a vida a correr
mundo e, como não tem medo de nada, faz reportagem em sítios tão distantes e exóticos
que as suas fotografias são cobiçadas pelas melhores revistas.
As viagens constantes aguçaram-lhe a imaginação.
Da última vez, visitou o Japão e por acaso foi parar a um festival de mágicos.
Claro que, na volta, trazia imensos truques na manga e transformou a festa num verdadeiro
delírio. Por isso, aguardavam-no em ânsias e perguntavam uns aos outros:
— Qual será a novidade que traz do deserto do Saara?
Pelas cabeças mais fervilhantes passavam imagens de areia, dunas, camelos, palmeiras e
oásis. Só que nada do que imaginavam seria possível de transportar ou reproduzir à hora
do lanche, na sala da casa dos avós.
Mal ouviram tocar a campainha, correram para a porta na maior algazarra.
— Tio Desafio! Tio Desafio!
Ele abraçou-os, ora um a um, ora aos grupos de três e quatro, na alegria do costume.
Só que, ao contrário do habitual, não se apressou a anunciar extravagâncias e disse que
estava cheio de fome.
— Venho de uma terra onde há pouca comida, não é ? Então tratem de me alimentar.
Fizeram-lhe a vontade, e a mesa, que estava coberta de petiscos, depressa se esvaziou
quase por completo. Sentados em volta, aperceberam-se de que passava a vista pelos
restos com ar meditativo e misterioso.
“É agora, é agora”, pensavam os mais novos.
Não se enganavam. Porque o tio, que ainda não perdera os gestos de mágico, apontou o
prato onde tinham ficado três sandes que ninguém quis e mais duas tacinhas com restos de
salada de fruta. E, finalmente, propôs-lhes um desafio.
— Olhem bem para o que sobrou do lanche. Está ali meio bolo de maçã que ninguém
vai deitar fora. Guardem-no e comem logo ou amanhã, não é ?
— É.
— Então esqueçam o bolo e fixem-se no que vai para o lixo.
— Para quê? — perguntou o Luís.
— Já explico. Primeiro entrego a cada um papel e caneta. Tomem!
Madalena, impaciente por natureza, começou a dar palpites:
— Quer um desenho? Um verso? Uma mensagem?
— Quero que te cales e ouças. Cada um de vocês vai escrever no seu papel
a lista de tudo o que desperdiçámos neste lanche. Dou-lhes dez minutos.
Rigoroso por natureza, Joaquim quis certificar-se de que entendera a proposta.
— Está-nos a pedir uma lista de alimentos?
— Sim, mas não só. Alguns desses alimentos resultam de vários produtos.
E todos envolveram vários tipos de trabalho. Olhem, pensem e escrevam tudo o que vos
ocorrer. Quem apresentar a lista mais completa, ganha um prémio.
— Que prémio?
— Não digo o que é, para não se desconcentrarem. Atenção, vou cronometrar.
Um, dois, três, comecem.
As três caras fecharam-se de tão concentradas, depois as três cabeças inclinaram-se
sobre o papel de caneta em punho. Quando terminou o prazo, reclamaram:
— Tio, afinal dez minutos não chega.
— Pois não!
— Nunca tinha pensado nisto, mas um simples pão tem muito que se lhe diga.
— E o fiambre? E a manteiga?
— Estás a esquecer a folha de alface e as frutas.
O tio mostrou-se satisfeito.
— Vejo que estão no bom caminho, dou-vos mais cinco minutos.
As canetas entraram em atividade frenética, de vez em quando um levantava a cabeça de
olhos arregalados e debruçava-se de novo a registar a descoberta. Terminado o prazo,
fez-se a leitura. Todos tinham registado pão e, ao lado, o nome dos produtos
necessários para o fazer: trigo, água e sal. Mas o Joaquim acrescentou farinha de trigo.
— Porque é preciso transformar o trigo em farinha. E guardá-la em armazéns até
ser utilizada.
— Exato, continuem.
Para o fiambre, Luís não se esqueceu de mencionar carne de porco e, mesmo sem ter
a certeza, acrescentou sal e outros temperos.
— Está certo, continuem.
A alface nas listas dos rapazes limitava-se a ser alface, só a Madalena se lembrou da água
necessária para a lavar antes de servir.
— Muito bom. E mais?
— As peras, morangos e laranjas que estão aos pedaços no fundo das tacinhas —
exclamou o Luís. — E também foi preciso água para lavar as frutas. Não sei se a avó
pôs açúcar, mas acho que não.
— E quanto ao tipo de trabalhos indispensáveis para termos estes restos de lanche em
cima da mesa?
Madalena e Luís desataram a falar ao mesmo tempo.
— Foi preciso cultivar o trigo.
— E ceifá-lo.
— E transportá-lo para a fábrica que produz farinha.
— Ou seja, estiveram envolvidas pessoas que trabalham na agricultura e na indústria
alimentar.
— Estás a esquecer-te dos motoristas que fizeram o transporte.
— E tu esqueceste os padeiros que fizeram os pães.
A conclusão óbvia espoletou uma gargalhada. Mas o tio abanou a cabeça.
— Não esqueceram só isso. Quem vendeu o pão, e quem o foi comprar?
No primeiro caso, trabalho profissional. No segundo, trabalho doméstico.
Os dois exigiram tempo e esforço.
— Ó tio, e quem faz as sandes não conta?
— Conta, claro.
— Eu ajudei – anunciou o Luís, triunfante — ; portanto, faço parte do grupo
que trabalhou.
— Uma parte do teu trabalho ficou ali e vai para o lixo.
— Acha que devíamos ter feito menos sandes?
— Numa festa torna-se difícil calcular quantidades e evitar desperdícios.
Mas no dia a dia, sim. Se quisermos, melhoramos bastante nesse campo.
— Para o fiambre é preciso menos trabalho, não é?
— Enganas-te – disse o tio —, ora pensa lá mais um bocadinho.
Contando pelos dedos, foi enumerando: criação de porcos, abate de porcos no matadouro,
transformação da carne em fiambre, embalagem, armazenamento, transporte, venda,
compra...
— Nunca me passou pela cabeça que não podíamos comer umas fatias de fiambre se não
houvesse uma verdadeira multidão a trabalhar!
Para a alface e a fruta, o percurso é semelhante. Semear ou plantar, regar, tratar; enfim,
trabalho de campo.
— Ou em estufas.
— Sim. E mais: a apanha, a pesagem, a embalagem, a distribuição, a venda e a compra.
— Mais a lavagem e o descasque em casa — lembrou o Joaquim. — Ajudei a preparar a
salada de frutas, parte do meu trabalho também vai para o lixo e podia não ir. Se as pessoas
só se servissem do que queriam comer, o que sobrasse ficava no frigorífico e servia de
sobremesa para o jantar. Para a próxima, faço um alerta.
— E uma linda figura — troçou a Madalena. — Quando disseres aos convidados
“não tenham mais olhos que barriga”, cobres-te de ridículo.
— Não posso dizer aos convidados, mas posso dizer entre nós, ou não posso?
— E começar por ti — aconselhou o tio. — Mas antes de encerrarmos o assunto, vejam lá se
esgotaram o tema ou se esqueceram alguma coisa.
Os primos entreolharam-se com uma expressão interrogativa estampada na face.
De súbito porém, Joaquim deu um salto na cadeira.
— Já sei! Esquecemos a energia, vários tipos de energia para o transporte, para os fornos,
para os frigoríficos, para iluminar fábricas, armazéns, lojas e supermercados.
— E as casas.
— Parabéns, meus queridos sobrinhos. Estou orgulhoso de vocês e acho que merecem uma
síntese que vai enriquecer as vossas descobertas. Querem?
— Sim.
— Então aí vai: os produtos que mais se desperdiçam nos países desenvolvidos são os
cereais, as frutas, o leite, os derivados de leite, os legumes e outros vegetais. Posso adiantar
que, por exemplo, em Portugal se perde um milhão de toneladas de alimentos por ano.
E que nos outros países da Europa e da América o panorama é idêntico.
No mundo perdem-se mais de mil milhões de toneladas de comida por ano. Já pensaram
que dava para alimentar três vezes as pessoas que têm fome?
- Sinceramente nunca pensei, mas acho incrível.
— Bom — disse o tio —, mas não está nas vossas mãos impedir que se percam alimentos
no campo, que muitos sejam mal fabricados ou mal embalados e apodreçam, que outros
vão para o lixo por ter passado o prazo de validade. Nem impedir que as pessoas comprem
mais do que precisam, sobretudo alimentos que se estragam, porque se o fizerem acabam a
meter no caixote imensas sobras. Mas nada nos impede de sermos mais cuidadosos.
— E fazer o quê?
— Como disse o Joaquim, não ter mais olhos que barriga. Devemos servir-nos apenas do
que queremos comer para não deixar nada no prato. E há outras estratégias.
Por exemplo, não comprar mais do que se vai gastar. Fazer uma arrumação inteligente,
escolhendo as caixas do tamanho certo para pôr no frigorífico.
— Qual é o tamanho certo?
— É conforme o número de pessoas da família. Um casal só com um filho não precisa de
congelar carne ou peixe que dava para sete ou oito pessoas numa caixa enorme.
Como não se pode descongelar e voltar a congelar, mais de metade...
-Vai para o lixo.
— E o lixo orgânico, meus queridos, acumulado nas lixeiras produz gás metano que
prejudica o ambiente. Em certos casos, esse gás torna-se mais poluidor do que o
fumo das fábricas.
— Ó tio, eu vou tentar não esquecer esta conversa e tornar-me mais cuidadoso.
— Eu também — disseram os outros dois.
O assunto impressionara-os tanto que o prémio passou a segundo plano, mas ainda assim
queimava-lhes a língua.
— Qual de nós ganhou? — perguntou o Luís a medo.
— Hum... o que me responder à pergunta seguinte: por que motivo regressei do deserto
tão sensibilizado por estas questões?
As três cabeças chegaram rapidamente à mesma conclusão, que exprimiram de maneira
diferente.
— Porque lá há falta de alimentos.
— E nós aqui desperdiçamos.
— Demais.
— Pois é. No deserto não se pode desperdiçar nem uma gota de água potável!
— Então quem ganhou?
— Ganharam todos. O prémio é para todos.
Eles olharam em volta, na ideia de que talvez estivesse por ali um pacote escondido.
Mas a surpresa era muito melhor do que qualquer prenda.
— A minha próxima viagem calha em tempo de férias. Se os vossos pais deixarem,
levo-os comigo.
— Aonde?
— À Lapónia. A terra do gelo e das renas, as simpáticas amigas dessa figura imaginária
que é o Pai Natal. Querem ir?
Em vez de responderem, atiraram-se-lhe ao pescoço.
— Ó tio, que desafio!
A viagem foi um sucesso. De volta a Portugal, o tio, imparável como sempre, fez-lhes
outro desafio.
— Desta vez ficamos por aqui, visitamos juntos a quinta pedagógica mais próxima e
depois serão vocês a escrever uma história empolgante sobre a melhor maneira de utilizar
os restos dos alimentos para os transformar em energia para o nosso planeta. Que tal?
— Talvez não seja fácil, mas se o tio nos ajudar conseguimos de certeza.