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Articular saúde mental e relações de gênero:

OPINIÃO OPINION
dar voz aos sujeitos silenciados

Articulate mental health and social gender relations:


giving voice to silenced subjects

Anna Maria Corbi Caldas dos Santos 1

Abstract The experience of the psychological suffering Resumo Analisa-se a experiência do sofrimento
based on testimonies of male and female users of a public psíquico a partir de relatos de homens e mulheres
health service in the municipality of Araraquara (SP). It usuários de serviço público de saúde do município
is considered the social construction of the psychological de Araraquara (SP). Considera-se a construção so-
suffering and, therefore, the arrangement of values and cial do sofrimento psíquico e, portanto, a confor-
norms of a certain society and historical period. Semi- mação dos valores e normas de determinada socie-
structured interviews were applied in male and female dade e época histórica. Utilizaram-se entrevistas
users of the Center of Psychosocial Attention (CAPS). semi-estruturadas com usuários do Centro de Aten-
These interviews were analyzed through the perspective ção Psicossocial (CAPS), homens e mulheres, anali-
of social gender relations and under the context of chang- sadas sob a ótica das relações sociais de gênero e do
es at the Brazilian psychiatric system started with the contexto das mudanças no sistema psiquiátrico bra-
Anti Asylum Fight. In conclusion, the challenge to be of sileiro a partir da luta antimanicomial. Conclui-se
the contemporary Brazilian society in the construction of que o desafio a ser enfrentado pela sociedade brasi-
public policies in the field of mental health must take into leira contemporânea na construção de políticas pú-
account questions raised by the perspective of social gen- blicas para saúde mental deve levar em conta ques-
der relations. Therefore, it means that by incorporating tões postas pela perspectiva das relações sociais de
the gender theme in mental health issues, we must ques- gênero. Portanto, significa, ao incorporar o tema
tion the biological and reductionist conception of women’s gênero no âmbito da saúde mental, questionar uma
mental health. The violence against women and the sex- concepção reducionista e biologizante da saúde men-
ual repression in our society have contributed a lot to the tal das mulheres. Verificou-se que o adoecimento
female psychiatric debility. Regarding men, it is neces- psíquico feminino mantém estreita correlação com
sary to face the question of their stigma. By falling sick, a violência contra as mulheres e a repressão sexual
they are excluded from public spaces and confront great ainda vigente na sociedade. No que tange à vivência
difficulties to reintroduce themselves into society and to do adoecimento psíquico masculino, requer enfren-
1
Núcleo de Estudos da rebuild their previous identity. tar a questão do estigma. Estes, ao adoecerem, são
Mulher e Relações Sociais Key words Psychological suffering, Social gender rela- excluídos do espaço público e enfrentam maiores
de Gênero (NEMGE). Av.
Prof. Luciano Gualberto
tions, Contemporary Brazilian society, Mental health, dificuldades de reinserção social e de reconstrução
travessa “J”/310 (Prédio da Anti asylum fight da identidade anterior.
Antiga Reitoria), Cidade Palavras-chave Sofrimento psíquico, Relações so-
Universitária. 05508-090
São Paulo SP.
ciais de gênero, Sociedade brasileira contemporâ-
annamariacorbi@hotmail.com nea, Saúde mental, Luta antimanicomial
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Introdução dução das subjetividades e, consequentemente, as


interpretações sobre o adoecimento psíquico.
A proposta deste texto é explorar, numa perspecti- A fim de aprofundar essa discussão, devem-se
va sociológica, a experiência do adoecer psíquico pensar masculinidades e feminilidades como metá-
de mulheres e homens a partir da abordagem de foras de poder e de capacidade de ação, as quais
gênero. Está baseado na análise de narrativas de seriam acessíveis a homens e mulheres. Portanto,
usuários de um Centro de Atenção Psicossocial no haveria várias masculinidades e feminilidades sus-
município de Araraquara, obtidas no âmbito de cetíveis à variabilidade individual das identidades
investigação específica, visando, por meio da escu- masculinas e femininas e passíveis de alterações num
ta das vivências concretas de vida e do processo de só indivíduo ao longo do ciclo de vida ou conforme
adoecimento, compreender como sujeitos perten- situações de interação. Dentre as várias masculini-
centes às camadas médias e populares identificam, dades existentes, existiriam as masculinidades su-
explicam e lidam com o sofrimento psíquico1. Mais bordinadas e a masculinidade hegemônica; esta se-
especificamente, buscou-se desvelar os modos pe- ria um consenso vivido e as outras existiriam como
los quais as prescrições de gênero e a transforma- efeitos perversos desta. Assim, conforme Cornwall
ções nos modos de significar e assistir os portado- e Lindisfarne, citados por Almeida, [...] a masculi-
res de sofrimento mental, advindas da luta anti- nidade hegemônica é um modelo cultural ideal que,
manicomial2, desempenham um papel crucial nes- não sendo atingível - na prática e de forma consisten-
sas vivências. te e inalterada - por nenhum homem, exerce sobre
Entre 2006 e 2008, foram realizadas entrevistas todos os homens e sobre todas as mulheres um efeito
semi-estruturadas com dezesseis informantes, ho- controlador [...]5.
mens e mulheres, usuários do referido serviço pú- Neste momento, é importante ressaltar que os
blico de saúde mental. De acordo com o Ministério transtornos mentais e o consequente sofrimento
da Saúde, o CAPS é um serviço comunitário que tem psíquico - traduzido na dificuldade em operar pla-
como papel cuidar de pessoas que sofrem com trans- nos, em definir o sentido da vida e no sentimento
tornos mentais, em especial os transtornos severos e de impotência e vazio - prejudicam o gozo das ca-
persistentes, no seu território de abrangência [...]3. pacidades mentais plenas, incapacitando homens
A experiência do sofrimento psíquico é cons- e mulheres a interagir na sociedade e, em casos
truída socialmente e traz em si a conformação dos extremos, levam esses indivíduos à perda de sua
valores e normas de uma determinada sociedade e condição de cidadãos; dessa forma [...] ser doente é
época histórica. Em outras palavras, aquilo que ser privado não só da responsabilidade, mas também
parece ser algo extremamente individual, ou seja, é ter a sua volição limitada ao grau extremo, per-
a vivência de um conjunto de mal-estares no âm- dendo quase totalmente o poder de fruição: tudo nele
bito subjetivo, e também a vivência de cada um e o que é dele é vigiado [...]6.
como mulher ou como homem, expressa regula- Conforme o Relatório Sobre a Saúde Mental
ridades que são moldadas por uma dada configu- no Mundo, 2001 - Organização Pan-Americana da
ração social. Saúde/Organização Mundial de Saúde/ONU -, as
É a partir dessa formulação inicial que propo- mulheres se encontram numa condição de maior
nho uma reflexão sobre a articulação entre os cam- risco de desenvolver transtornos mentais, mani-
pos da saúde mental e os estudos de gênero na festando sofrimento psíquico7.
sociedade brasileira contemporânea. Isso requer O relatório aponta que os múltiplos papéis de-
uma discussão que leve em consideração os fato- sempenhados pela mulher na sociedade contribu-
res sociais que engendram os transtornos mentais em para um aumento significativo da incidência
e, por sua vez, acarretam de maneira diferenciada de transtornos mentais e comportamentais, pois
sofrimento psíquico em mulheres e homens. as mulheres continuam com o fardo da responsa-
Abordar o tema da construção social e cultural bilidade que vem associado com os papéis de es-
do sofrimento psíquico exige a exploração dos diver- posas, mães, educadoras e cuidadoras, tornando-
sos significados atribuídos pelos sujeitos a esta expe- se ao mesmo tempo uma parte cada vez mais es-
riência de vida, situando essa discussão na perspec- sencial da mão-de-obra e, frequentemente, consti-
tiva da desigualdade nas relações sociais de gênero. tuindo-se na principal fonte de renda familiar. Além
O uso da categoria gênero4 explicita a assimetria das pressões impostas às mulheres devido à ex-
existente nas maneiras de conhecer e aprender o real pansão de seus papéis, muitas vezes em conflito,
e na forma como homens e mulheres se constroem, elas são vítimas de discriminação sexual, conco-
se representam e estabelecem suas relações no inte- mitante à pobreza, à fome, à desnutrição, ao ex-
rior da sociedade como um vetor que permeia a pro- cesso de trabalho e à violência doméstica e sexual.
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Ainda de acordo com este documento, não ao hospital psiquiátrico menos frequentemente.
surpreende o fato de que as mulheres tenham acu- Cabe ressaltar que as reflexões trazidas neste
sado maior probabilidade do que os homens de texto estão situadas tanto na discussão sobre gê-
receber prescrição de psicotrópicos. A violência nero e saúde mental quanto no contexto de trans-
contra a mulher8 torna-se, portanto, um significa- formações pelo qual vem passando o campo de
tivo problema social e de saúde pública, que atinge saúde mental desde a década de oitenta. Decorren-
mulheres de todas as idades, de todos os ambien- tes da reforma psiquiátrica, que defende práticas
tes culturais e de todas as classes sociais. inovadoras de assistência extra-hospitalar visan-
Com relação à depressão, nos levantamentos do à inclusão do sujeito doente mental no cenário
epidemiológicos psiquiátricos, uma maior taxa da sociedade, o cenário de oferta de serviços a estes
deste transtorno é encontrada em mulheres, osci- sujeitos tem passado por grandes modificações que,
lando entre 1,6 e 3,1 mulheres para cada homem, de modo reflexivo, têm contribuído para a cons-
de acordo com o país9. trução de um novo olhar sobre o sofrimento men-
A discussão sobre gênero e saúde mental no tal e sobre seus portadores.
Brasil, durante a década de oitenta, recebeu grande A criação dos CAPS em todo país reflete essa
interesse por parte das teóricas feministas, mas preocupação com a substituição do modelo de aten-
perdeu visibilidade na década seguinte. Talvez pelo dimento psiquiátrico centrado no hospício, pro-
fato de que o uso da categoria gênero na aborda- pondo-se a produzir discursos e práticas inseridos
gem dos fenômenos psíquicos implicasse o desafio num outro modo de fazer psiquiatria. Enquanto
de romper com a hegemonia do discurso biomé- prática inovadora, os CAPS são marcados pela sua
dico sobre a doença mental, que no mesmo perío- singularidade com relação a outras práticas insti-
do estava sendo objeto de discussão no âmbito da tucionais12.
reforma psiquiátrica. Um conjunto de iniciativas políticas, científi-
Um mapeamento realizado sobre o campo es- cas, sociais, administrativas e jurídicas tem lutado
tudos de gênero e saúde na produção científica por uma transformação da compreensão cultural
nacional aponta para pesquisas nos seguintes te- e da relação da sociedade com as pessoas que apre-
mas: reprodução e contracepção; violência de gê- sentam transtornos mentais severos, prezando pela
nero e suas variações, como violência doméstica, manutenção de seus laços com seu meio familiar e
familiar, conjugal e sexual; sexualidade e saúde, com comunitário13. O indivíduo acometido pelo sofri-
ênfase nas DST/AIDS; trabalho e saúde. Nota-se mento psíquico, outrora excluído do mundo dos
que estudos de gênero voltados para a saúde men- direitos e da cidadania, deve tornar-se um sujeito
tal têm sido até hoje muito pouco explorados10. do saber psiquiátrico, e reconhece-se a importân-
O panorama global da saúde mental aponta cia de garantir um tratamento efetivo e um cuida-
diferenças significativas com base nas relações so- do verdadeiro.
ciais de gênero. As mulheres acusam uma maior No campo técnico-assistencial, este movimen-
incidência nos casos de depressão nas estatísticas to significa o deslocamento do conceito de doença
mundiais, porém os homens lideram os casos de para a noção de “existência-sofrimento do sujeito”
suicídios. No contexto brasileiro, há uma maior em sua relação com o corpo social14. A criação de
prevalência de internações psiquiátricas entre ho- espaços de sociabilidade, de trocas e produção de
mens do que entre as mulheres. Esse fenômeno foi subjetividades, na medida em que se deixa de se
explicado por Berquó e Cunha através da hipótese ocupar com a doença, mas sim com os sujeitos,
segundo a qual [...] o homem é mais vulnerável a recoloca a contingência da identidade sexuada do
doenças mentais dado o contexto socioeconômico e sujeito, o gênero, na mediação das suas relações
das relações de gênero existentes. Sua frustração pela com o mundo.
baixa qualidade de vida leva-o à bebida, como forma O desafio de articular os campos da saúde
de fuga, o que potencializa os transtornos mentais, mental e os estudos de gênero pode ser iluminado
ao passo que a mulher se apega às relações afetivas, o através das reflexões desses próprios sujeitos que
que lhe traz efeito protetor [...]11. apontam e descrevem o hospital psiquiátrico como
Conforme o mesmo estudo de Berquó e Cu- um espaço em que se encerra a loucura, lugar de
nha, a relação social de gênero confere também sua tratamento, mas também de exclusão. Dessa for-
especificidade no “adoecer masculino”, pois esse re- ma, lugar a ser evitado.
cebe o “cuidado feminino”, “[...]... O homem é leva- Por outro lado, o CAPS é descrito como espaço
do ao hospital pela mulher que cuida dele – mãe, de tratamento e de sociabilidade, lugar em que se
irmã ou filha [...]”, sendo que as mulheres são aban- estabelecem relações sociais novas e alternativas de
donadas por seus parentes masculinos e chegam reinserção social. Sobretudo, para estes sujeitos, o
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CAPS se configura como a primeira alternativa de encarregam das tarefas domésticas. A tarefa do
participação na esfera pública. cuidado socialmente atribuído às mulheres faz com
É possível perceber nas falas dos usuários en- que estas, mesmo enfermas, sigam cuidando de
trevistados as transformações do sistema psiquiá- seus familiares.
trico brasileiro que decorreram da luta antimani- O que significaria, portanto, uma abordagem
comial. Assim, os que pertencem ao grupo etário de gênero em saúde mental? Os resultados demons-
mais jovem consideram a internação psiquiátrica tram que o adoecimento psíquico feminino man-
não como uma medida natural do tratamento, mas tém uma estreita correlação com o problema da
como algo a ser utilizado em última hipótese, em violência contra as mulheres. As entrevistas com as
casos em que a loucura não tem controle. pacientes que foram casadas mostraram que todas
Como demonstraram os resultados da pes- sofreram agressões físicas e psicológicas de seus ex-
quisa empírica, as subjetividades aqui tratadas es- cônjuges. Cabe indagar, se estas mulheres não ti-
tão sob o efeito de sucessivas clivagens: de gênero, vessem se submetido a tais agressões, elas teriam
de geração e de escolaridade. Dessa forma, as fe- desenvolvido estes transtornos mentais severos?
minilidades e as masculinidades estabelecem dife- Ou então, indaga-se se a inexistência de serviços
rentes formas de vivenciar o sofrimento psíquico. públicos dirigidos às mulheres vítimas de violência
Essas diferenças podem ser observadas desde o contribuiu significativamente para que estas não
surgimento da primeira crise psicótica até a rela- tivessem acesso ao devido tratamento e suporte
ção que esses usuários estabelecem com o CAPS. emocional e material e, portanto, se responsabili-
O adoecimento psíquico feminino assumiu cer- zaria o Estado pelo adoecimento psíquico destas?
tas regularidades. As mulheres adentraram com Ainda, outra questão é posta: as atuais políti-
maior facilidade no campo da afetividade; assim, cas públicas de saúde que lidam com a violência
se dispuseram a falar mais de sua vida afetiva, de contra as mulheres estariam, realmente, articula-
envolvimentos amorosos e sexuais. das com a política brasileira de saúde mental? As-
Mas, sobretudo na geração mais nova de mu- sim, de que maneira os CAPS enfrentam a questão
lheres pertencentes às camadas médias intelectua- da violência contra as mulheres?
lizadas, em suas narrativas, verifica-se a impor- Vale lembrar que o adoecimento psíquico fe-
tância atribuída à carreira profissional. O surgi- minino aponta também para a questão da repres-
mento do adoecimento psíquico não inviabiliza que são sexual, ou seja, da vigência de normas sociais
essas mulheres persigam seus objetivos nesse cam- que estabelecem uma dupla moral sexual, a qual
po da vida. Também, observou-se que estas mu- “freia” as sexualidades femininas. As entrevistas
lheres desempenham dentro da esfera privada ta- com as mulheres solteiras demonstraram que o
refas domésticas. exercício das sexualidades femininas parece não
As mudanças nos papéis de gênero são sempre encontrar em nossa sociedade contemporânea bra-
acompanhadas por suas permanências. Neste pro- sileira um espaço democrático.
cesso ambivalente de mudanças e permanências, Já o adoecimento psíquico masculino, de acor-
os papéis tradicionais de gênero tiveram um “efeito do com os sujeitos entrevistados, resultou numa
protetor”, uma vez que a condição de “filha” den- brusca ruptura em suas trajetórias de vida. Signifi-
tro do espaço doméstico é tolerada pelos pais e ca, portanto, a exclusão destes do espaço público.
pelo entorno social. Ser filha e estar doente dentro Dentro da esfera privada, se confinam e se estabele-
da esfera privada não resulta numa condição de ce uma rotina marcada pela ociosidade. Assim, o
total incapacidade. Dentro do convívio familiar, CAPS desempenha para esses pacientes a única li-
estas mulheres no papel social de filhas se encarre- gação destes com a sociedade em geral e, portanto,
gam da consecução de algumas tarefas domésti- se estabelece uma maior dependência com essa ins-
cas, sendo “tolerada” a incapacidade momentânea tituição. Estar doente para os homens resulta em
para os estudos ou atividade profissional. fracasso social; assim, torna-se uma condição não
O casamento e a maternidade antecedem o tolerada pela família e sociedade. Uma vez perdida
adoecimento psíquico entre as mulheres que per- a identidade de trabalhador ou de estudante devido
tencem à geração mais velha e às camadas popula- ao adoecimento psíquico, os homens enfrentam
res com baixa escolaridade. A violência de gênero maiores dificuldades de reinserção social e recons-
esteve presente nessas narrativas e ocupa um lugar trução da identidade anterior. Dessa forma, os re-
central. Entre essas mulheres, a vivência do adoeci- latos masculinos abordaram a questão do estigma
mento psíquico não as impede de desempenhar as que acompanha o adoecimento psíquico. Outro
prescrições tradicionais de gênero; desta forma, problema verificado nas entrevistas com homens é
desempenham os papéis de mãe e de esposa e se a privação do exercício de suas sexualidades e a in-
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capacidade de cumprir com o papel social de gêne- No entanto, desde o seu surgimento no século
ro tradicional de provedor e chefe de família. XIX, o campo de saúde mental no Brasil foi cons-
As mudanças no sistema psiquiátrico brasilei- truído pelo saber psiquiátrico caracterizado, em
ro, a partir do paradigma da desinstitucionaliza- linhas gerais, por um discurso biológico, a-histó-
ção, e a implantação do CAPS em todo o país pro- rico e por uma visão de ciência pautada na objeti-
põem uma reflexão acerca do cuidado aos pacien- vidade e neutralidade. Tradicionalmente, as tenta-
tes com transtornos mentais severos. A família tivas de incorporar o tema gênero no âmbito da
neste contexto assume um papel de fundamental saúde mental, realizadas pelo saber psiquiátrico,
relevância, uma vez que neste novo modelo de aten- associam as mulheres as suas funções reproduti-
dimento psiquiátrico procura-se manter os víncu- vas (gravidez, parto, puerpério, menopausa). As-
los do paciente com a sociedade em geral. sim, trata-se de uma concepção reducionista e bio-
Desta forma, cabe indagar a respeito de quais logizante da saúde mental das mulheres.
são as pessoas que se encarregam da questão do Ao situar no corpo da mulher, no seu funcio-
cuidado no âmbito extra-hospitalar. Através de namento hormonal, a explicação para o desenvol-
dados obtidos dos prontuários dos entrevistados vimento de transtornos mentais psíquicos, retira-
e também a partir de suas entrevistas, foi possível se a importância das relações sociais de gênero na
verificar, de um modo geral, que as pessoas res- vivência destes. A mulher pensada como uma “rede
ponsáveis por estes pacientes são mulheres. de hormônios” teria em si mesma a culpa e o ger-
Os relatos femininos apontam para mulheres me da loucura. Desta forma, a intervenção psiqui-
cuidando de mulheres, ou seja, são mães, filhas, átrica viria no sentido de conter os excessos ou
irmãs e amigas que assumem a tarefa de cuidar das falta do bom regulamento psíquico-hormonal.
usuárias do CAPS. Pode-se afirmar que, entre as Se a proposta é avançar na discussão entre os
mulheres solteiras que vivem com suas famílias, campos da saúde mental e os estudos de gênero, a
estas são cuidadas por suas mães. Em casos de saída é contestar a formulação “saúde mental da
falecimento de suas mães, as pacientes mulheres mulher” e no lugar propor “saúde mental e rela-
são acompanhadas por suas irmãs e, em último ções sociais de gênero”. Assim, se desarticula mu-
caso, não existindo familiares do sexo feminino, lher enquanto ser biológico, presa a circuitos hor-
são cuidadas por amigas. Quando se casam e ficam monais, presa a papéis tradicionais e passam a ser
doentes, estas mulheres passam a ser cuidadas por considerados os sujeitos marcados por relações
suas filhas. Já os relatos dos pacientes masculinos sociais de gênero e por experiências de sofrimento
demonstram que a tarefa do cuidado é exercida psíquico.
por mulheres. Portanto, os pacientes solteiros são Enquanto o campo da saúde mental se voltar
cuidados por suas mães e na ausência destas por apenas para a saúde reprodutiva, ou seja, caso todo
irmãs e cunhadas. o esforço científico se concentre em projetos e pes-
Chama atenção que entre as mulheres entrevis- quisas que abordam transtornos relacionados ao
tadas com filhos, estas também exercem a tarefa do ciclo reprodutivo da mulher, tais como transtornos
cuidado, mesmo estando doentes. Elas cuidam de disfóricos pré-menstruais, transtornos de humor e
seus filhos e netos quando já os têm. Portanto, é ansiedade pré-natal e pós-natal e transtornos relaci-
possível concluir que a tarefa do cuidado é social- onados à menopausa, persistirão o silêncio e a ex-
mente atribuída às mulheres que, mesmo estando clusão dos sujeitos em sofrimento psíquico.
doentes, não escapam de tal prescrição social. Dentro da perspectiva de análise “saúde men-
O desafio a ser enfrentado pela sociedade brasi- tal e relações sociais de gênero”, no que tange ao
leira contemporânea consiste em incorporar aque- adoecimento masculino, este também seria con-
les que, pelo fato de serem apenas diferentes, são templado, uma vez que as reflexões advindas desta
destituídos da condição de sujeitos. Incorporar, no chave teriam um olhar atento aos efeitos perver-
entanto, não significa sujeitar, silenciar e pôr ordem sos que a desigualdade de gênero desempenha tam-
na suposta desordem. Significa, sobretudo, que as bém nessas masculinidades subordinadas. Dessa
políticas públicas a serem desenvolvidas na área de forma, ser homem e estar doente dentro da assi-
saúde mental levem em consideração as questões metria vigente corresponde à total exclusão e au-
postas pela perspectiva das relações sociais de gêne- sência de cidadania.
ro e, desta forma, estabeleça-se um exercício de des- Finalmente, faz-se necessário reforçar a impor-
construção das certezas de nossa suposta ordem tância e urgência de se estabelecer uma discussão
racional patriarcal. interdisciplinar sobre a doença mental e a socieda-
de, sendo de suma importância a contribuição so-
ciológica sobre o tema.
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Referências

1. Santos AMCC. Gênero e Saúde Mental: a vivência de


identidades femininas e masculinas e o sofrimento psí-
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Artigo apresentado em 01/12/2008


Aprovado em 26/01/2009
Versão final apresentada em 16/04/2009