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Ezequiel Quister

ESTUDO SOBRE RESCISÃO CONTRATUAL E AÇÃO INDENIZATÓRIA POR


FALTA DE ENTREGA DE MERCADORIA ENVOLVENDO DINAMARCA, BRASIL
E HONG KONG.

APELAÇÃO CÍVEL. DIREITO PRIVADO NÃO ESPECIFICADO.


DIREITO INTERNACIONAL PRIVADO. CONTRATO DE COMPRA E
VENDA INTERNACIONAL DE MERCADORIAS. ILEGITIMIDADE
PASSIVA. AUSÊNCIA DE PRESSUPOSTO DE CONSTITUIÇÃO E
DESENVOLVIMENTO VÁLIDO E REGULAR DO PROCESSO.
CAUÇÃO PROCESSUAL (“CAUTIO JUDICATUM SOLVI”).
RESCISÃO DE CONTRATO. AUSÊNCIA DE ENTREGA DAS
MERCADORIAS, PELA VENDEDORA. RESTITUIÇÃO DO VALOR
PAGO PELA COMPRADORA. PENALIDADE POR LITIGÂNCIA DE
MÁ-FÉ. MAJORAÇÃO DE HONORÁRIOS SUCUMBENCIAIS.

O presente parecer tem por objetivo demonstrar que a prática de comércio


internacional está calcada em jurisprudência, tratados e pactos internacionais que
regulam, dirigem e delimitam a ação dos contratantes em nível internacional. O
artigo se reveste também em estudo de caso, já que analisa uma situação real, cuja
ementa demonstra o resultado de uma demanda impetrada por sujeito estrangeiro e,
cuja fundamentação demonstra o nível e o pragmatismo da legislação e doutrina
comercial em vigor.

DA FUNDAMENTAÇÃO

O resumo fático do caso versa sobre comércio internacional entre empresa


brasileira e uma empresa de origem dinamarquesa.
Consta dos autos que esta empresa dinamarquesa teria comprado da
empresa Anexo Comercial Importação e Distribuição Ltda, 135 toneladas de pés de
galinha congelados. A transação se deu em dólares americanos, cuja importância
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total foi de USD 117.450,00; uma parcela inicial do negócio foi paga pelo autor da
demanda, a empresa dinamarquesa, no valor de USD 79.650,00 em 08/07/2014.
Passados oito meses da efetivação do negócio a empresa dinamarquesa não
obteve a entrega do produto e, nem mesmo conseguiu contato com o responsável
pela empresa brasileira a fim de cobrar-lhe explicações sobre o descumprimento do
negócio ou sobre o atraso na entrega. Assim, ingressou com a presente ação a fim
de ver confirmada a rescisão por quebra contratual bem como para requerer a
restituição dos valores pagos, devidamente corrigidos, é claro.
Em fase de apelação a requerida argumentou pela sua ilegitimidade passiva,
alegando que agiu como preposta da empresa Vilson Gobbato – ME, que foi quem
efetivamente vendeu os produtos à requerente. Requereu, por isso, a extinção do feito
sem resolução de mérito, com amparo no art. 485, VI, do NCPC. Alegou também a
ausência de pressuposto processual por parte da requerente, já que esta deixou de
prestar a caução processual prevista no art. 83, “caput”, do NCPC. Por fim, alegou ainda
“ausência de relação jurídica direta com a empresa autora, aduzindo que o ônus do
pagamento dos prejuízos por ela reclamados não pode recair sobre a pessoa jurídica
que não celebrou o contrato em tese inadimplido” (p. 5).
Do referido resumo partiremos, como maneira de encontrar solução para o caso,
para a resposta das seguintes questões:

* Qual a competência para ajuizar a ação de rescisão e de indenização


contratual?

* O contrato objeto da lide é considerado um contrato internacional? Por qual


(is) motivo (s)?

Visando tornar o estudo mais didático, as respostas às questões elencadas


acima permitirá tratarmos de situações singulares para o entendimento sobre as
regras contratuais internacionais e, principalmente, como resolver os litígios daí
surgidos.
Como resposta à primeira questão, salientamos que a competência para o
ajuizamento de ação não vem expressa naquele que é, há tempos, o documento
norteador das relações comerciais de compra e venda internacionais: a Convenção
de Viena; ou mesmo nos documentos mais modernos, como nos Princípios do
UNIDROIT. Estes documentos, por seu pragmatismo, vislumbram que boa parte dos
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conflitos sejam resolvidos de forma consensual, tendo o litígio judicial como última
ratio. Quando isso não for possível, subentende-se que a lide deverá se instalar a
partir do domicílio das partes.
No caso em tela, como verificado na jurisprudência objeto deste estudo, os
desembargadores agiram de acordo com os princípios constantes da LINDB, em seu
artigo 9º e 12º principalmente. Este último artigo é literal ao determinar que “é
competente a autoridade judiciária brasileira, quando o réu for domiciliado no Brasil
ou aqui tiver de ser cumprida a obrigação”. Vemos que há o conectivo “ou” que
determina uma ou outra situação, não sendo necessárias ambas para que se
cumpra o dispositivo. Assim, não resta dúvida que a competência para ajuizar a
ação de rescisão e de indenização contratual é do judiciário brasileiro.
Quanto ao art. 9º, as razões apresentadas pelo relator justificaram o seu
afastamento. Em que pese o §2º do referido artigo indique que “ a obrigação resultante
do contrato reputa-se constituída no lugar em que residir o proponente”, ao se fazer uma
análise do caso concreto, embora a empresa contratante tivesse domicílio da Dinamarca, o
cumprimento da obrigação de fato se daria em Hong Kong, na China, onde seriam
entregues as mercadorias. Ou seja, local da efetiva ocorrência das relações jurídicas e
comerciais. Assim a aplicação do principio da proximidade, indagado pelo relator na página
24 do acórdão, nos parece mais adequada, pois atenta-se às realidades vividas nesse
cenário econômico.
Com no caso em tela não houve eleição de foro, foi acertada a decisão do relator do
acordão em decidir pela jurisdição brasileira. Contudo, cabe salientar que a cláusula de
eleição de foro é totalmente possível e deve ser respeitada, conforme se posiciona a
jurisprudência atual:

BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Recurso Especial n. 1.177.915.


Terceira Turma, Relator Min. Vasco Della Giustina, Fórmula F3 Brazil S/A
versus Ducati Motors Holding SPA. RECURSO ESPECIAL. EXCEÇÃO DE
INCOMPETÊNCIA. CLÁUSULA DE ELEIÇÃO DE FORO ESTRANGEIRO.
CONTRATO INTERNACIONAL DE IMPORTAÇÃO. OFENSA AO ART. 535
DO CPC NÃO CONFIGURADA. INTERPRETAÇÃO DE CLÁUSULAS
CONTRATUAIS. REEXAME DE PROVAS. INCIDÊNCIA DAS SÚMULAS 05
E 07 DO STJ. AUSÊNCIA DE QUESTÃO DE ORDEM PÚBLICA. Julgado
em 13 de abril de 2010.

Contudo, justifica-se tal posicionamento anteriormente prolatado pelo relator pelo fato
de que, a LINDB regula de forma geral a aplicação da norma, estando desajustada para as
novas necessidades decorrentes do crescimento do comercio internacional, dessa forma,
prestamo-nos de inserir trecho citado pelo relator das palavras de Maristela Basso, vejamos:
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[...] as regras de conexão para determinação da lei aplicável aos contratos


conforme exemplificadas pelo conteúdo normativo do art. 9º da Lei de
Introdução às Normas do Direito Brasileiro (aqui uma referência ao método
conflitual clássico) não estão ajustadas à dinâmica e práticas de
negociações que foram surgindo no domínio do comércio internacional,
especialmente no período do Pós-Guerra no curso das relações
econômicas interestatais. Por isso é que a adoção de regras da nova ‘lex
mercatoria’ aparece, em sua pretensão de validade doutrinária e
jurisprudencial, como uma tentativa de superação dos principais problemas
que apresentava a aplicação das regras de conexão clássicas do direito
internacional privado para os contratos celebrados entre os principais atores
do comércio internacional (p.25)

Logo, é de fato mais correto e coerente utilizar-se da aplicação de norma


específica, já recepcionada pelo ordenamento jurídico brasileiro, voltada à prática de
comércio discutida na lide em questão, dando ao conflito uma resolução mais justa e
adequada, atinente ao que se espera na prática de resoluções que envolvam
contratos internacionais.
Quanto à segunda questão, valemo-nos da citação do relator do Acórdão
objeto desta análise, em que cita o conceito de contrato internacional brilhantemente
definido por Nadia de Araújo:

O que caracteriza a internacionalidade de um contrato é a presença de um


elemento que o ligue a dois ou mais ordenamentos jurídicos. Basta que uma
das partes seja domiciliada em um país estrangeiro ou que um contrato seja
celebrado em um país, para ser cumprido em outro (p. 16 e 17).

Por fim, nos remete o relator ao conceito da doutrinadora Maristela Basso,


sobre o que chama de efeito internacionalizante do contrato:

[...] produz-se como decorrência da conjunção, por um lado, de aspectos


jurídicos, relativamente à produção de efeitos jurídicos simultâneos em mais
de um ordenamento jurídico, e, por outro, de aspectos econômicos, relativos
ao fluxo e refluxo transfronteiriço de bens, valores e capitais.

Assim, a questão sobre ser o contrato objeto da lide um contrato


internacional, afirmamos que sim, já que pelo que se extrai do Acórdão o referido
contrato objeto do litígio cumpre os requisitos mínimos elencados nas duas citações
para ser considerado um contrato internacional. Doutrinariamente também há
entendimento sobre quais critérios estabelecem o que vem a ser um contrato
internacional e as complexidades daí resultantes:
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(...) deve- -se atentar que a conceituação de um contrato como internacional


(ou não) pode trazer uma série de complexidades normativas próprias de
seu regime. Para resumir a questão podem-se mencionar três dessas
principais consequências: (i) a CISG aplica-se apenas a contratos
internacionais, considerando o regime obrigacional brasileiro, unificado pelo
atual Código Civil, teríamos, a partir da definição da internacionalidade de
um contrato, a incidência deste instrumento normativo ou daquela
Convenção; (ii) ainda se discute a conveniência da adoção pela legislação
brasileira, da plena liberdade de escolha do Direito aplicável aos contratos
internacionais, eis uma segunda consequência relevante da distinção e (iii)
a legislação arbitral brasileira, em seu art. 2º, embora ali não faça
expressamente a distinção entre arbitragens internas e internacionais,
poderia ser interpretada de uma ou outra forma a partir deste conceito
internacional, vale dizer, é plenamente defensável sustentar que a escolha
legislativa ali prevista se aplica apenas ao procedimento em casos de
contratos interno (sob pena de fraude à lei) (GLITZ, 2013, p. 209).

Contudo, apesar dos critérios às vezes conflitantes sobre o que configura um


contrato internacional, nota-se que isso não tem tanta relevância ao verificarmos que
a liberdade contratual é fator primordial no comércio internacional, cujos princípios
norteadores são os “costumes, usos comerciais e outras regras cuja autoridade
primária acha-se fora do comando legislativo positivo do Estado (...), bem como da
importância que dedicam à autonomia privada das partes” (GAMA JR, p. 100).
Contudo, na mesma esteira também se verifica que mesmo na modernidade de um
mundo globalizado, certas regras e princípios do comércio internacional, por não
terem origem em fontes estatais, representam um obstáculo à efetividade de suas
normas (GAMA JR. p.142). Verifica-se que os ordenamentos nacionais ainda
exercem grande influência nos negócios em nível mundial, porém, como sua
natureza é circunscrita aos costumes que lhe deram origem, podem ser ineficazes
para tratarem de dilemas e conflitos surgidos no esfacelamento das fronteiras
mundiais.
A criação de uma convenção para regulamentar os contratos de compra e
venda internacionais surge como meio para uniformização das práticas habituais,
adotadas pelos contratantes de forma que seja possível conceder-lhes “vantagens e
igualdades mútuas”, assim promovendo boas relações entre os Estados. Isto
“contribui para a eliminação de obstáculos jurídicos às trocas internacionais e
promoverá o desenvolvimento do comércio internacional”.1

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CONVENÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS SOBRE CONTRATOS DE COMPRA E VENDA INTERNACIONAL DE
MERCADORIAS - Viena, 11 de abril de 1980, p. 01
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CONCLUSÃO

Pelo exposto, confirma-se a utilização recorrente dos Tratados, Convenções e


outros instrumentos jurídicos para regulação e organização do comércio
internacional. Confirma-se ainda a utilização cada vez mais efetiva dos princípios de
direito internacional a regular as transações de um mundo globalizado e conectado.

É claro que há divergências e sempre há discussões no que tange à


aplicação da melhor lei, à aplicação justa dos princípios e à validade do que se foi
avençado. Não poderia ser diferente, já que estamos lidando não somente com
sujeitos distintos, mas culturas diferentes. É inegável que os costumes, como visto
anteriormente, têm forte influência nos ditames comportamentais da sociedade e do
judiciário que a espelha. Se assim o é, a dificuldade é sempre a de se aplicar a
justiça a ambos os lados, que, invariavelmente, sempre divergirão em algum ponto.

REFERÊNCIAS

CONVENÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS SOBRE CONTRATOS DE COMPRA E


VENDA INTERNACIONAL DE MERCADORIAS - Viena, 11 de abril de 1980

GAMA JR, Lauro. Os princípios do unidroit relativos aos contratos do comércio


internacional: uma nova dimensão harmonizadora dos contratos
internacionais. Artigo. Disponível em: < https://www.oas.org/dil/esp/95-142%20Ga
ma.pdf>. Acesso em 13 nov. 2018.

GLITZ, Frederico. E. Z. A jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça e a


construção de um conceito de internacionalidade contratual. Artigo. Revista de
Direito Internacional. Uniceub. Volume 10. Nº 1. 2013. Disponível em:
<https://www.publicacoesacademicas.uniceub.br/rdi/article/viewFile/2375/pdf>.
Acesso em 21 nov. 2018.