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Direito Penal I

Ezequiel Schukes Quister

1- Qual a finalidade do Direito Penal?

Proteger os bens mais importantes e necessários para a própria sobrevivência da sociedade,


ou, nas palavras de Luiz Regis Prado, “o pensamento jurídico moderno reconhece que o
escopo imediato e primordial do Direito Penal radica na proteção de bens jurídicos – essenciais
ao indivíduo e à comunidade”. A missão do Direito Penal é a proteção de bens jurídicos,
através da cominação, aplicação e execução da pena. Objetiva-se tutelar os bens que, por
serem extremamente valiosos, não do ponto de vista econômico, mas sim político, não podem
ser suficientemente protegidos pelos demais ramos do Direito.

2 – Qual a diferença entre Direito Penal objetivo e subjetivo?

Direito Penal objetivo é o conjunto de normas editadas pelo Estado, definindo crimes e
contravenções, isto é, impondo ou proibindo determinadas condutas sob ameaça de sanção
ou medida de segurança, bem como todas as outras que cuidem de questões de natureza
penal, excluindo o crime, isentando de pena, explicando determinando tipos penais.

O Direito Penal subjetivo é a possibilidade que tem o Estado de criar e fazer cumprir suas
normas, executando as decisões condenatórias proferidas pelo Pode Judiciário. É o próprio ius
puniendi. É o dever-poder que tem o Estado de criar os tipos penais, e de exercer o seu direito
de punir caso as normas por ele editadas venham a ser descumpridas.

3- Explique o modelo garantista de Luigi Ferrajoli (10 axiomas).

Para este autor, o garantismo deve ser entendido no sentido do Estado Constitucional de
Direito, isto é, aquele conjunto de vínculos e de regras racionais impostos a todos os poderes
na tutela dos direitos de todos, representa o único remédio para os “poderes selvagens”, e
distingue as garantias em duas grandes classes: “as garantias primárias e secundárias”. As
garantias primárias são os limites e vínculos normativos – ou seja, as proibições e obrigações,
formais e substanciais – impostos, na tutela dos direitos, ao exercício de qualquer poder. As
garantias secundárias são as diversas formas de reparação – a anulabilidade dos atos inválidos
e a responsabilidade pelos atos ilícitos – subsequentes às violações das garantias primárias.

Foi através dos 10 axiomas que Ferrajoli estabeleceu critério que embasam sua teoria. Eles
estipulam, por exemplo, a proteção de determinados bens; o direito penal mínimo, a
reprovação de ações culpáveis. No mais, apontam para um sistema acusatório garantista, com
a presença de um juiz imparcial e competente para julgar a causa. Estabelece ainda o ônus da
prova ao Estado, garantido a ampla defesa do acusado e todos os recursos a ele inerentes. Os
dez axiomas são:

1º - Nulla poena sine crimine;

2º- Nullum crimen sine lege;


3º - Nulla lex (poenalis) sine necessitate;

4º - Nulla necessitas sine injuria;

5º- Nulla injuria sine actione;

6º - Nulla actio sine culpa;

7º- Nulla culpa sine judicio;

8º - Nullum judicium sine accusatione;

9º - Nulla accusatio sine probatione;

10º- Nulla probatio sine defensione;

4 – Quais as espécies de fontes do Direto Penal?

As fontes penais se dividem em:

a) fontes de produção; (oriundas do Estado).

b) fontes de conhecimento, que podem ser, ainda, imediatas ou mediatas (oriundas da


sociedade).

É claro que boa parte da doutrina considera ainda os costumes e os princípios gerais de direito
como espécies de fontes. Todavia, a regra básica é que nossa única fonte de produção do
Direito Penal é p Estado brasileiro, pois somente ele cabe o poder de legislar a respeito.

5- Classifique as normas penais.

Elas se dividem em:

- normais penais incriminadoras;

- normas penais não incriminadoras;

Às normas incriminadoras cabe a tarefa de definir as infrações penais, proibindo condutas, sob
ameaça de pena.

Quanto às não incriminadoras, possuem por finalidade tornar lícitas determinadas condutas;
afastar a culpabilidade do agente, erigindo causas de isenção de pena, esclarecendo
determinados conceitos e fornecendo princípios gerais para a aplicação da lei penal.

6 – Qual a teoria com relação ao tempo do crime? Explique.

Trata-se da teoria da Extra-atividade da lei penal. Nesta teoria há uma subdivisão a fim de se
estudar a relação dos crimes no tempo. São as teorias da atividade; do resultado e teoria mista
ou da ubiquidade.
Pela teoria da atividade, tempo do crime será o da ação ou da omissão, ainda que outro seja o
resultado. Para essa teoria o que importa é o momento da conduta, mesmo que o resultado
dela se distancie do tempo.

Já a teoria do resultado determina que o tempo do crime será o da ocorrência do resultado,


reforçando a importância do momento do resultado.

A teoria mista ou da ubiquidade concede igual relevo aos dois momentos apontados pelas
teorias anteriores, asseverando que o tempo do crime será o da ação ou da omissão, bem
como o do momento do resultado.

7- O que é abolitio criminis?

Quando o legislador, atento às mutações sociais, resolve não mais continuar a incriminar
determinada conduta, retirando do ordenamento jurídico-penal a infração que a previa, pois
passou a entender que o Direito Penal não mais se fazia necessário à proteção de determinado
bem, ocorre o fenômeno jurídico conhecido por abolitio criminis.

8 – Qual a teoria adotada em relação ao lugar do crime?

Teoria ou princípio da territorialidade. É o princípio que diz respeito à aplicação da lei penal e
estabelece o lugar do crime. Primeiramente, cabe destacar que para definição do lugar do
crime há três teorias:

- teoria da atividade;

- teoria do resultado;

- teoria mista ou da ubiquidade;

Na primeira teoria a definição é objetiva: lugar do crime seria o da ação ou omissão, ainda que
outro fosse o da ocorrência do resultado.

A segunda despreza o lugar da conduta e defende a tese de que o lugar do crime será, tão
somente, aquele em que ocorrer o resultado.

Por fim, a terceira adota um misto das duas teorias anteriores. Ou seja, o lugar do crime será o
da ação ou da omissão, bem como onde se produziu ou deveria produzir-se o resultado.

No Brasil não se adotou a teoria absoluta da territorialidade, mas sim uma teoria conhecida
como temperada, haja vista que o Estado, mesmo sendo soberano, em determinadas
situações, pode abrir mão da aplicação de sua legislação, em virtude de convenções, tratados e
regras de direito internacional, tal como previsto no caput do art. 5º do Código Penal.

9 – Quais são os casos de extraterritorialidade?

Art. 7.º Ficam sujeitos à lei brasileira, embora cometidos no estrangeiro:


I - os crimes:
a) contra a vida ou a liberdade do Presidente da República;
b) contra o patrimônio ou a fé pública da União, do Distrito Federal, de Estado, de Território,
de Município, de empresa pública, sociedade de economia mista, autarquia ou fundação
instituída pelo Poder Público;
c) contra a administração pública, por quem está a seu serviço;
d) de genocídio, quando o agente for brasileiro ou domiciliado no Brasil;

II - os crimes:
a) que, por tratado ou convenção, o Brasil se obrigou a reprimir;
b) praticados por brasileiro;
c) praticados em aeronaves ou embarcações brasileiras, mercantes ou de propriedade privada,
quando em território estrangeiro e aí não sejam julgados.
§ 1.º Nos casos do inciso I, o agente é punido segundo a lei brasileira, ainda que absolvido ou
condenado no estrangeiro.
§ 2.º Nos casos do inciso II, a aplicação da lei brasileira depende do concurso das seguintes
condições:
a) entrar o agente no território nacional;
b) ser o fato punível também no país em que foi praticado;
c) estar o crime incluído entre aqueles pelos quais a lei brasileira autoriza a extradição;

10 – Qual o conceito analítico de crime?

- Fato típico: (conduta dolosa ou culposa, comissiva ou omissiva; resultado; nexo de


causalidade e tipicidade).

- Ilícito: (antijuridicidade; antagonismo entre a conduta do agente e o ordenamento jurídico)

- Culpável: (é o juízo de reprovação pessoal; imputabilidade; potencial consciência sobre a


ilicitude do fato; exigibilidade de conduta diversa)

11 – O que é conduta?

Conduta é o sinônimo de ação e de comportamento. Conduta quer dizer, ainda, ação ou


comportamento humano. Não se fala em conduta de pessoa jurídica no sentido de imputar a
esta a prática de alguma infração penal. Embora seja o delito o resultado de uma ação
humana, nosso legislador constituinte previu expressamente em nossa CF a possiblidade de
punir penalmente a pessoa jurídica por ter ela própria praticado uma atividade lesiva ao meio
ambiente, por exemplo.

12 – Diferencie dolo de culpa.

Ao autor da prática do fato podem ser imputados dois tipos de condutas: dolosa ou culposa.
Ou o agente atua com dolo, quando quer diretamente o resultado ou assume o risco de
produzi-lo; ou age com culpa, quando dá causa ao resultado em virtude de sua imprudência,
imperícia ou negligências.

Dolo é a vontade e consciência dirigidas a realizar a conduta prevista no tipo penal


incriminador. Para a nossa lei penal, portanto, age dolosamente aquele que, diretamente, quer
a produção do resultado, bem como aquele que, mesmo não o desejando de forma direta,
assume o risco de produzi-lo.

13 – Quais são as espécies de dolo e culpa?


Há varias espécies de dolo previstas pela doutrina brasileira, como: dolo genérico e especifico;
dolus normativo (dolus malus); dolo subsequente (dolus subsequens). Porem, a doutrina
especifica a maioria dos casos em dolo direito e indireto.

O direto, como a própria definição já nos descreve, é o ato objetivo com consciência e dirigido
a um fim pretendido. O indireto, por seu turno, subdivide-se em alternativo e eventual. Ambos
andam juntos, porém, na ocorrência de um fato é que se determinará quando ocorreu um e
outro, sendo punido e imputado ao autor o dolo mais grave.

14- Quais são as espécies de culpa?

A culpa pode ser consciente ou inconsciente; culpa imprópria; concorrente e presumida.


Enfim, toda conduta, seja culposa ou dolosa, deve ter sempre uma finalidade.

Culpa se dá pela conduta humana voluntária (ação ou omissão) que produz resultado
antijurídico não querido, mas previsível, e excepcionalmente previsto, que podia, com a devida
atenção, ser evitado. Logo, para caracterizar a culpa são necessários:

a) conduta humana voluntária, comissiva ou omissiva;

b) inobservância de um dever objetivo de cuidado (negligência, imprudência ou imperícia)

c) o resultado lesivo não querido, tampouco assumido pelo agente;

d) nexo de causalidade a entre conduta do agente que deixa de observar o seu dever de
cuidado e o resultado lesivo dela advindo;

e) previsibilidade;

f) tipicidade;

15 – O que é relação de causalidade?

É o elo necessário que une a conduta praticada pelo agente ao resultado por ela produzido. Se
não houver esse vinculo que liga o resultado à conduta levada a efeito pelo agente, não se
pode falar em relação de causalidade e , assim, tal resultado não poderá ser atribuído ao
agente, haja vista não ter sido ele o seu causador.

16- Quais as fases do iter criminis? Diferencie explicando o que é desistência voluntária,
arrependimento eficaz e posterior.

Segundo Zaffaroni e Pierangeli, “desde que o desígnio criminoso aparece no foro íntimo da
pessoa, como um produto da imaginação, até que se opere a consumação do delito, existe um
processo, parte do qual não se exterioriza, necessariamente, de maneira a ser observado por
algum espectador, excluído o próprio autor. A este processo dá-se o nome de iter criminis ou
‘caminho do crime’, que significa o conjunto de etapas que se sucedem, cronologicamente, no
desenvolvimento do delito”.

O iter ciminis é um instituto específico para os crimes dolosos, e é composto pelas seguintes
fases:
a) cogitação (cogitatio);

b) preparação (atos preparatórios);

c) execução (atos de execução);

d) consumação (summatum opus);

A desistência voluntária baseia-se nos itens elencados acima, principalmente no item relativo
aos atos de execução, pois é nesta fase que se dá a desistência voluntária.

Se no ato da execução o agente é interrompido, ou esgota tudo aquilo que tinha ao seu
alcance para chegar à consumação da infração penal, que somente não ocorre em virtude de
circunstâncias alheias à sua vontade, diz-se que houve uma tentativa de crime. Se, porém, o
agente interrompe de forma voluntária os atos de execução, impedindo, por ato seu, a
consumação da infração penal, tem-se a figura da desistência voluntária, ou tentativa
abandonada.

Fala-se em arrependimento eficaz quando o agente, depois de esgotar todos os meios de que
dispunha para chegar à consumação da infração penal, arrepende-se e atua em sentido
contrário, evitando a produção do resultado inicialmente por ele pretendido.

Conclui-se que a desistência voluntaria e o arrependimento eficaz são causas que conduzem à
atipicidade do fato, uma vez que o legislador nos retirou a possibilidade de ampliarmos o tipo
penal com a norma de extensão relativa à tentativa (art. 14, II).

Já o arrependimento posterior é considerado uma causa geral de diminuição de pena, porém,


ele só terá cabimento quando o agente praticar uma infração penal cujo tipo não preveja
como seus elementos a violência ou a grave ameaça. O furto, por exemplo, é um tipo penal
cuja natureza permite a aplicação de tal princípio. Ainda que haja destruição ou rompimento
de obstáculo, já que a avaliação da violência recai sobre a vítima, não sobre o objeto.