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A SEGURANO JURIDICA NA ERA DA

VELOCIDADE E DO PRAGMATISMO

Luis Roberto Barroso*

(Reflexeies sobre direito adquirido, ponderacäo


de interesses, papel do PoderJudiaario e dos meios
de comunicacäo)z

SUM/I-RIO: 1. Introdugo: Seguranca juridica


e pOs-modemidade; II. A ordemjuridica como instru-
mento de inseguranca; 11.1. A proteceo constitucio
nal dos direitos adquiridos no Brasil. 111.1. Estudo de
caso: os expurgos inflacionãrios nas contas do FGTS
dos trabalhadores IV. Questdes atuais envolveräo di-
reitos constitucionais e segurancajuridica. IVI. COIN
saes de direitos; 1V2. PoderJudicia.rio, midia e opi-
niäo pablica

1. INTRODUCAo: SEGURANCA JURIDICA E P6S-MODERNIDADE

0 conhecimento convencional, de longa data, situa a seguranga e, no


seu "ambito, a seguranca juridica - como urn dos fundamentos do Estado e do
Direito, ao lado da justica e, mais recentemente, do bem-estar social. As teorias
democrâticas acerca da origem e justificagao do Estado, de base contratualista,
assentaram-se sobre clausula comutativa: recebe-se em seguranga aquilo que
se concede em liberdade. Consagrada no art. 2 2 da Declaragäo dos Direitos do
Homem e do Cidad5o, de 1789, como urn direito natural e imprescritivel, a

* Professor Ttular de Direito Constitucional da UERJ. Mestre pela Universidade de Yale. Procurador do Estado e
advogado no Rio de Janeiro.
1 Apontamentos de uma exposicäo feita no / Congresso Brasileiro de Direito POblico, coordenado pelo Professor
Celso Antonio Bandeira de Mello, abril de 2000. A versáo escrita guardou a informalidade da apresentagâo oral.
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seguranga encontra-se positivada como urn direito individual na Constituicao


brasileira de 1988, ao lado dos direitos a vida, a liberdade, a igualdade e
propriedade, na dicgao expressa do caputdo art. 52.
0 próprio constitucionalismo francés procurou conceituar o termo, no pre-
ambulo da Constituigao de 24 de junho de 1793: "A seguranga consiste na
protecào confenda pela sociedade a cada urn de seus membros para conserve-
cgo de sua pessoa, de seus direitos e de suas propriedades". Tal formulagäo a
aproxima da clausula do del/do processo legal do direito anglo-saxao, incorpora-
da quase literalmente a Constituicao brasileira em vigor, no art. 50, LIV. 2 No seu
desenvolvimento doutrinario e jurisprudencial, a expressao seguranga juridica
passou a designar um conjunto abrangente de idêias e conteCidos, que incluem:

a existência de instituigOes estatais dotadas de poder e garantias,


assim como sujeitas ao principio da legalidade;
a confianga nos atos do Poder PUblico, que deverao reger-se pela
boa-fa e pela razoabilidade;
a estabilidade das relagOes juridicas, manifestada na durabilidade das
normas, na anterioridade das leis em relagâo aos fatos sobre os quais
incidem e na conservagao de direitos em face da lei nova;
a previsibilidade dos comportamentos, tanto os que devem ser segui-
dos como os que devem ser suportados;
5. a igualdade na lei e perante a lei, inclusive corn solugOes isoneimicas
para situagOes idas nticas ou prOximas.

A ideia de seguranga juridica, todavia, enfrenta uma crise de identidade


nesse 'nick) de sêculo e de milénio, uma quadra histOrica identificada pelo rOtu-
lo ambiguo de pOs-modemidade, corn algumas caracteristicas bem delineadas.
Na Politica, vive-se a ampliagão do espago privado e a desconstrucao do Estado
tradicional, pela privatizagao e pela desregulamentacao. No Comportamento,
consolidou-se o gosto pela imagem, pela analise condensada, a impressao su-
perficial. A vitöria do efamero e do volatil sobre o permanente e o essencial.
Vive-se a era (i) do poder dos meios de comunicagão e (ii) da velocidade. Veloci-
dade da informagao e velocidade da transformagao: novas geragOes de compu-
tadores, novos instrumentos de conexao em rede universal, novas fronteiras
nos medicamentos e na genêtica. As coisas sao novas por vinte e quatro horas.

2 Constituicäo Federal, art. 50, LIV: "ninguern sera privado da liberdade ou de seus bens sem o devido processo
legal". Na Emenda 5 a Constituigao dos Estados Unidos da America: "No person shall, be deprived of life,
liberty, or property, without due process of law'.

t4,

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0 prOprio Italo Calvino, em suas Seis propostas para o prOximo mile/710-


que so foram cinco, pois ele faleceu antes de escrever o texto da sexta. -incluiu
dentre elas a leveza e a rapidez. Ninguêm nesses dias parece impressionar-se
com a advertência do grande jurista uruguaio Eduardo Couture, inscrita no set-
mo mandamento do advogado: "0 tempo vinga-se das coisas que se fazem
sem a sua colaboragâo".3
Outra caracteristica desses tempos tem sido o pragmatismo interpretativo,
antes ideolOgico que cientifico, que se nutre da paranOia do horror econOmico e
da hegemonia do pensamento Unico. Nessa variante, principios constitucionais
voltados para a seguranga juridica - como o respeito aos direitos adquiridos, os
direitos de igualdade e o devido processo legal - sào tratados como estorvos
reacion6rios. Nào se teme o horror juridic°. Os tempos nâo parecem estar para
miudezas como pessoas, seus sonhos, seus projetos e suas legitimas expecta-
tivas.

II. A ORDEM JURIDICA COMO INSTRUMENTO DA INSEGURANCA

Um conjunto de conceitos, principios e regras decorrentes do Estado


democraico de direito procura promover a seguranga juridica. A Constituiceo,
assim, demarca o espago pablico e o espago privado, organizando o poder
politico e definindo direitos fundamentais. Tem vocagäo de permanencia e
dotada de rigidez. A lei, por sua vez, opera a despersonalizagäo do poder,
conferindo-lhe o batismo da representagao popular. Visa, sobretudo, a introduzir
previsibilidade nos comportamentos e objetividade na interpretagão. De parte
isto, cada dominio do Direito tem um conjunto de normas voltadas para a segu-
ranga juridica, muitas com matriz constitucional.
Confiram-se alguns exemplos: a) no Direito Constitucional, as garantias
dos membros de cada Poder, para que desempenhem com independ6ncia
suas fungOes constitucionais, e que incluem: a vitaliciedade, inamovibilidade e
irredutibilidade de subsidios dos juizes; as imunidades parlamentares; as
regras especificas para instauragão de processo contra o chefe do Poder Exe-
cutivo, alern da protegäo do direito adquirido, do ato juridic° perfeito e da coisa
julgada; b) no Direito Administrativo, principios como os da legalidade, publici-
dade, razoabilidade e o dever de motivar as decisiies; c) no Direito Penal, os
principios da reserva legal, da anterioridade da lei penal, da presungao de ino-

3 COUTURE, Eduardo. Os mandamentos do advogado, 1979, traducâo Ovidio Batista da Silva.



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cancia e as limitagães ao poder de decretar a prisao; d) na Teoria Geral do


Direito, instituigOes como a prescrigao e a decadência ou, e) no Direito Civil, o
casamento e o estabelecimento de uma ordem de vocagâo hereditaria. Nä° ha
necessidade de prosseguir na enunciagao, que apenas expressa o conhecimen-
to convencional.
A verdade, contudo, é que apesar da expressive ascensäo politica e
cientifica dos Oltimos anos, o constitucionalismo brasileiro e suas instituigOes
ainda não vivem a maturidade plena. E, como conseqUencia, a inseguranga é
um trago de relevo na paisagem juridica do Pais. A Constituigão, a despeito da
vocagao de permanéncia ja deferida, mais se assemelha a urn peri&lico, vitima-
da por uma crOnica distingao: o narcisismo constitucional, pelo qual cada
governante quer urn texto a sua imagem e semelhanga. A lei, por sua vez, tem
sido atingida pelo avango crescente das competencies normativas administrati-
vas, das delegagOes legislativas e, sobretudo, no caso brasileiro, da tentagao
compulsive das medidas provisOrias.4
A ideia de direito adquirido, que desde sempre conviveu corn enormes
complexidades conceituais, tornou-se uma obscuridade nos dias que correnn.
Portal razao, pareceu-me adequado revisitar brevemente o tema, tentando de-
mercer ao menos o sentido minim° da locugao.

HI. A PROTE00 CONSTITUCIONAL DOS DIREITOS ADQUIRIDOS


NO BRASIL

0 conflito de leis no tempo envolve a contraposigäo entre lei nova e lei


velha.5
Nao é incomum em direito a superveniencia de lei que mude o tratamento
juridico dado a determinada questa°. Cabe ao direito intertemporal solucionar
esse conflito, fixarao o alcance de normas que se sucedem. Seu objeto é a
determinagao dos limites do dominio de cada uma dentre duas disposigOes
jurldicas consecutivas sobre o mesmo assunto.6
0 postulado basic° na materia, que comporta exceciies mas tern aceita-
gão universal, é o de que a lei nova nao atinge os fatos anteriores ao inicio de
sua vigencia, nem as conseqUencias dos mesmos, ainda que se produzam sob

4 No inicio de agosto de 2000, já haviam sido editadas, ao longo da viencia da Constituieão de 1988: 571
Medidas Proviserias originarias, terse havido 4.561 reedigOes e 21 rejeigOes.
5 ROUBIER, Paul. Le droit transitoire (conflits des lois dans le temps), 1960, p. 3-4.
6 MAXIMILIAN°, Carlos. Direito intettemporal, 1946, p. 7.

ICY"4 441,44144,044- 4, t

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o impêrio do direito atual. 7 Esse principio, conhecido como principio da nãO


retroatividadedas leis, tern por fundamento filosOfico a necessidade da segu-
ranga juridica, da estabilidade do direito.8
Nos Estados Unidos, a Constituigão de 1787 veda a edigao de leis
retroativas de uma maneira geral (art. 1 9 , segao 9, 1: "ex post facto law") e
proibe aos Estados que elaborem leis que prejudiquem a obrigatoriedade dos
contratos (art. 1 9 , sendo 10, 1: "law impairing the obligation of contracts"). Na
America Latina, a excegao do Mexico, e na Europa, a regra da nao-retroatividade
é de nivel infraconstitucional, podera, mesnno, ser derrogada por legislagao
superveniente.
No Brasil, o terra constou de todas as ConstituigOes, desde a Imperial,
de 1824, excluindo a Carta do Estado Novo, de 1937. No texto presentemente
em vigor, dispóe o inciso XXXVI do art. 59:

"a lei nä° prejudicara o direito adquirido, o ato juridic° perfeito e a


coisa julgada."

Calha observarque, embora a não-retroatividade seja a regra, trata-se de


principio que somente condiciona a atividade juridica do Estado nas hipOteses
expressamente previstas na Constituigao, a saber: a) a protegao da seguranga
juridica no dominio das relagiies socials, veiculada no art. 5 2 , XXXVI, anteri-
ormente citado; b) a protegao da liberdade do individuo contra a aplicagäo
retroativa da lei penal, contida no art. 5 9 , XL ("a lei penal nao retroagira, salvo
para beneficiar o reu"); c) a protegao do contribuinte contra a voracidade retroativa
do Fisco, constante do art. 150, III, a (é vedada a cobranga de tributos "em
relagao a fatos geradores ocorridos antes do inicio da vigência da lei que os
houver instituido ou aumentado"). Fora dessas hipOteses, a retroatividade da
norma é tolerave1.9
E bem de ver que a regra do art. 5 9 , XXXVI dirige-se, primariamente, ao

MAXIMILIANO, Carlos. Direito intertemporal, cit., p. 10.


8 ROUBIER, Paul. Le droit transitoire, cit., p. 223. Sobre o tema, no direito brasileiro, v. R. Limongi Franga, A
irretroatividade das leis e o direito adquirido, 1982.
9 Este e o entendimento acolhido na jurisprudancia do Supremo Tribunal Federal, como se ve em RTJ 145/463,
1993, ADIn 605-DF, Medida Cautelar, rel. Min. Celso de Mello: "0 principio da irretroatividade somente condiciona
a atividade juridica do Estado nas hipôteses expressamente previstas pela Constituicäo, em ordem a inibir a
agao do Poder PUblico eventualmente configuradora de restricao gravosa (a) ao status libertatis da pess0a (CF,
art. 50, LX), (b) ao status subjection's do contribuinte em materia tributaria (CF art. 150, Ill, a) e (c)
seguranca juridica no dominio das relagOes sociais (CF, art. 50, XXXVI)". A doutrina, tanto civilista como
publicista, chancela este ponto de vista, como se colhe, por todos, em: Silvio Rodrigues, Direito Civil, 4. ed., v. ,
1, p. 51 e 53; e Pinto Ferreira, Comentarios a Constituicao brasileira, 1989, v. 1, p. 143.
60 Luis ROBERTO BARROSO. A SEGURANGA JURIDICA NA ERA DA VELOCIDADE E DO PRAGMATISMO

legislador e, reflexamente, aos Orgaos judiciarios e administrativos. Seu alcan-


ce atinge, tambêm, o constituinte derivado, haja vista que a nao retroagao, nas
hipOteses constitucionais, configura direito individual que, como tal, e protegido
pelas limitagOes materiais do art. 60, § 4 2 , IV da CF. Disso resulta que as
emendas a Constituigào, tanto quanto as leis infraconstitucionais, nä° podem
nnalferir o direito adquirido, o ato juridic° perfeito e a coisa julgada. 0 principio da
nao-retroatividade so nä° condiciona o exercicio do poder constituinte originario.
Mesmo assim, por refugir ao principio geral, devera ele dispor de modo expres-
so
SO.
Note-se que nä° ha, nesse ponto, qualquer distincäo entre as chamadas
"leis de ordem piblica" e as demais. A Constituigao não prev6 excegOes. Qual-
quer lei, seja qual for o adjetivo que se the vier a agregar, esta obrigada a respei-
tar essas garantias, como, alias, o Supremo Tribunal Federal ja decidiu
reiteradas vezes.
Confira-se, por todos il , trecho do acOrdao marco na materia, proferido na
ADIn n 2 493-DF, relatado pelo Ministro Moreira Alves, in verbis:

" Se a lei alcangar os efeitos futuros de contratos celebrados ante-


riormente a ela, sera essa lei retroativa (retroatividade minima) porque vai
interferir na causa, que e um ato ou fato ocorrido no passado.
0 disposto no artigo 5 2 . XXXVI, da Constituigao Federal se aplica a
toda e qualquer lei infraconstitucional, sem qualquer distingäo entre lei de
direito pirblico e lei de direito privado, ou entre lei de ordem pGblica e lei
dispositiva.
Alias, no Brasil, sena° o principio do respeito ao direito
adquirido, ao, ato juridic° perfeito e a coisa julgada, de nature-
za constitucional, sem qualquer excecâo a qualquer especie
de legislacão ordinaria, nao tem sentido a afirmagao de mui-
tos - apegados ao direito de !Daises em que o preceito e de
origem meramente legal - de que as leis de ordem pirblica se
aplicam de imediato alcangando os efeitos futuros do ato juri-
dic° perfeito ou da coisa julgada, e isso porque, se se alteram
os efeitos, e Obvio que se esta introduzindo modificagão na
causa, o que e vedado constitucionalmente."12
(negrito acrescentado)

Sobre o tema, v. Luis Roberto Barroso, Interpretacao e aplicaeab da Constituicao, 1999, pp. 51 e ss.
11 Nesse mesmo sentido, dentre outros: Rext n° 205.193-RS, Rel. Min. Celso de Mello, DJU 06/06/97, RTJ 89/
634, 90/296, 107/394, 112/759 e 164/1144.
RTJ 143/724 e ss..

4ar
P4 4 4141111

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Na mesma linha se pronunciou o Ministro Ilmar Galva° - curiosamente ao


decidir pelo nao conhecimento de recurso extraordinario interposto pela Caixa
Econewnica Federal discutindo a mesma questào aqui tratada-, in verbis:

"Leis de ordem pCiblica - Raides de Estado - Motivos que nä° jus-


tificam o desrespeito estatal a Constituicao- Prevalancia da norma inscri-
ta no art. 5 2 XXXVI, da Constituicao.
A possibilidade de intervencäo do Estado no donninio econOmico
nao exonera o Poder PUblico do deverjuridico de respeitar os postulados
que emergem do ordenamento constitucional brasileiro.
Razdes de Estado - que muitas vezes configuram fundamentos
politicos destinados a justificar, pragmaticamente, ex parte principis, a
inaceitIvel adocäo de medidas de carater normative - nao podem ser
Invocadas para viabilizar o descumprimento da prOpria Constituicäo. As
normas de ordem pdblica - que tambem se sujeitam a cldusula inscrita no
art 52, XXXVI, da Carta Polltica (RTJ 143/724) - nao podem frustrar a
plena eficacia da ordem constitucional, comprometendo-a em sua integri-
dade e desrespeitando-a em sua autoridade.)13

Assentado que as raziies de Estado e as leis de ordem pUblica nao exo-


neram a atividade legislativa da observancia da protecao constitucional do art.
5 2 , XXXVI, cumpre agora aprofundar a questäo do direito adquirido. E ainda a
antiga opiniao de Gabba 14 que baliza o tema, ao apontar, como caracteristicas
do direito adquirido: 1) ter sido conseqUancia de urn fato ideineo para a sua
producao; 2) ter sido incorporado definitivamente ao patrimeinio do titular. 0
conhecimento corrente a que havendo o fato necessario a aquisigão de um
direito ocorrido integralmente sob a vigancia de uma determinada lei, mesmo
que seus efeitos somente se devam produzir em urn momento futuro, certo de
ser respeitados na hiptitese de sobrevir uma lei nova. Confira-se, a propOsito, a
limpida licao de Reynaldo Porchat, /psis litter/s:

RTJ 164/1145 e ss.


14 V. Gabba, Teoria della retroativitci defie leggi, 1868, p. 191: "é adquirido todo direito que: a) é conseqaéricia de
urn fato idOneo a produzi-lo, em virtude da lei do tempo no qual o fato se realizou, embora a ocasiho de faze-lo
valer nä° se tenha apresentado antes da atuacOo de uma lei nova a respeito do mesmo, e que b) nos termos
da lei sob o impario da qual se verificou o fato de onde se origina, passou imediatamente a fazer parte do
patrimOnio de quem o adquiriu". V., tambem, Carlyle Popp, A retroatividade das normas constitucionais e os
efeitos da Constituicao sobre os direitos adquiridos, Parana Judiciario, 315:13.

62 LUIS ROBERTO BARROSO. A SEGURANCA JURIDICA NA ERA DA VELOCIDADE E DO PRAGMATISMO

"Direitos adquiridos sdo conseq06ncias de jactosjuridicos passa-


dos, mas conseq06ncias ainda näo realizadas, que ainda nao se tornaram
de todo efetivas. Direito adquirido 6, pois, todo o direito fundado sobre urn
fatojundico quejá sucedeu, mas que ainda nao foi feito vale" 15

Esta é tambêm, como ja assinalado em transcrigão anterior, a posigâo do


Supremo Tribunal Federal, que rejeita a retroagao que nao a lei nova pretender
alterar efeitos futuros de fatos consolidados no ambito da lei antiga, indepen-
dentemente da natureza da lei nova.
0 direito adquirido pode ser melhor compreendido se extremado de duas
outras categorias que Ihe sac) vizinhas, a saber: a expectativa de direito e o
direito consumado. (Sobre ato juridic° perfeito se falarâ mais adiante). Corn
base na sucessao de normas no tempo e na posigao juridica a ser desfrutada
pelo indivkluo em face da lei nova, é possIvel ordenar estes conceitos em
seqUencia cronolOgica: em primeiro lugar, tern-se a expectativa do direito, de-
pois o direito adquirido e, porfim, o direito consumado.
A expectativa de direito identifica a situagao em que o fato aquisitivo do
direito ainda nä° se completou quando sobrevem uma nova norma alteraräo o
tratamento juridic° da mathria. Neste caso, o efeito previsto na norma nao se
produz, pois seu fato gerador nä° se aperfeigoou. Entende-se, sem major dis-
crepancia, que a protegao constitucional nao alcanga esta hipOtese.
Na seqUancia dos eventos, direito adquirido traduz a situagao em que o
fato aquisitivo aconteceu por inteiro, mas por qualquer razao ainda nä° se ope-
raram os efeitos dele resultantes. Nesta hipOtese, a Constituigao assegura a
regular producao de seus efeitos, tal como previsto na norma que regeu, sua
formagao, nada obstante a existancia da lei nova.
Porfim, o direito consumado descreve a Ultima das situagOes possiveis -
quando nao se vislumbra, mais qualquer conflito de leis no tempo - que é aquela
na qual tanto o fato aquisitivo quanto os efeitos ja se produziram normalmente.
Nesta hipOtese nä° é possivel cogitar de retroagao alguma. Como registra, ain-
da uma vez, Reynaldo Porchat, in verbis:

"Como ultimo elemento caracteristico do direito adquirido, exige a


definicäo que o direito ainda nao tenha sido feito valer, isto e, que ainda
nao tenha sido realizado em todos os seus efeitos. Nesta condicão esta
o crit6rio pelo qual se distingue o direito adquirido daquele que ja. foi

PORCHAT, Reynaldo. Da retroatividade das leis civic, 1909, p. 32.



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consumado. Desde que o titular de um direitoja o fez va/er contra quern


ele existia, e desde que jd se realizaram os efeitos dele decorrentes,
esse direito, entrou para a classe dos fatos consumados, diante dos
quaffs nem é possivel cogitar de ac go retroativa de lei alguma. 0 direito
adquirido é urn direito que pertence a - alguem, mas que ainda nä° prodtp
ziu todos os seus efeitos(...)".
(transcricäoipsis litteris)

De modo esquematico, é possivel retratar a exposigäo desenvolvida na


sintese abaixo:
Expectativa de direito: o fato aquisitivo teve inicio, mas nä° se com-
pletou;
Direito adquirido:o fato aquisitivo ja se completou, mas o efeito pre-
visto na norma ainda nao se produziu;
c) Direito consumado:o fato aquisitivoja se completou e o efeito previs-
to na norma ja se produziu integralmente.

E oportuno enfatizar, ainda uma vez, que qualquer lei atribuidora de direi-
tos - seja de ordem pUblica ou nä° - podera gerar direito adquirido, na forma da
qualificagáo acima. Como se demonstrou anteriormente, era equivocada a cren-
ga de que nä° existiria direito adquirido diante da superveniência de lei de ordem
prblica, tese ja rechagada pelo Supremo Tribunal Federal. A distingäo entre leis
de ordem pUblica, que geram relacOes institucionais, e as demais, tern reper-
cussao mais importante sobre o ato juridico perfeito, conceito que se aproxima
mas nä° se confunde corn a de direito adquirido. A utilizagäo de urn exemplo
facilitara a demonstracao do argumento.
Entende-se, sem maior disputa, que a relagao entre o servidor pUblico e a
Uniéo é uma relagéo institucional, regida por lei, e que "nao ha direito adquirido
a determinado regime juridico". 17 Com isso se quer significar que o servidor nä°
tern o direito de ver mantidas as condigOes iniciais de sua relagão corn o ente
pirblico, sena) possivel a modificagäo do regime juridico por uma lei posterior.
Imagine-se, entao, que uma lei alterarao a forma de remuneracao do ser-
vidor seja promulgada no dia 4 (quatro) de determinado més. Imagine-se tarn-

PORCHAT, Reynaldo. Da retroatividade das leis civis, 1909, p. 32.


Constitucional a esse superveniente, lei nova vem disciplinar o regime juridico e o piano de carreira dos
servidores, incorporarao aos vencimentos e proventos as gratificaceies antes recebidas "em cascata" ou
"repique", que nao sac, permitidas pela nova ordem constitucional." No mesmo sentido: RTJ 143/293, RTJ 99/
1.267, RTJ 88/651.

64 Lufs ROBERTO BARROSO. A SEGURANCA JURIDICA NA ERA DA VELOCIDADE E DO PRAGMATISMO

bem que a remuneragão relativa ao més anterior ainda nâo tenha sido creditada,
pois tal somente se verifica no dia 5 (cinco) do riles subseqUente ao trabalhado.
Pergunta-se: a remuneragâo a ser depositada no dia seguinte ao da entrada em
vigor da lei serA por ela atingida? Parece evidente que nä°. Trata-se de direito
adquirido, uma vez que o fato aquisitivo - a prestagäo de servicos ao longo de
um mAs - jA se verificou, restarão apenas os efeitos a serem ultimados.
A lei nova, entretanto, poderA ser aplicada ao mes que se inicia e dali por
diante, sem que o servidor possa contra isso se insurgir, alegando direito as
condigOes vigentes quando de seu ingresso no servigo publico. E este o ponto
fundamental que distingue as chamadas relagOes institucionais das contratuais,
ou meramente privadas. A lei referida no exemplo pode ser aplicada desde logo
as situagOes em curso, respeitado o direito adquirido, apenas por que se tratava
de uma relagäo institucional. Tudo seria diferente se a lei se destinasse a
disciplinar relagOes privadas.
Neste caso, o novo regime legal so poderia aplicar-se as relagOes que
viessem a se formar aptis sua entrada em vigor, e nä° Aquelas em curso, pois
estariam elas protegidas nao apenas pelo direito adquirido, mas tambêm pelo
ato juridico perfeito.
Isso foi o que se passou, por exemplo, com os contratos que se encon-
travam em curso quando da entrada em vigor do COdigo de Defesa do Consumi-
dor, sobre os quais o novo diploma nä° pode incidir 18 ; ou com os contratos de
locagão, em relagäo a nova lei que passou a reger a matAria 18 . A questäo náo
controvertida no Supremo Tribunal Federal, que jA teve oportunidade de manifes-
tar-se reiteradas vezes sobre o ponto, deixarào claro que as relagOes contratuais

" DJU 04.04.94, REsp 31.954-0/RS, STJ - 3a Turma, Rel. p/acördao Min. Waldemar Zveiter: "Por primeiro,
considero que, formalizado o compromisso de venda e compra anteriormente A vigencia da Lei n 2 8.078, de
11.9.90 (COdigo de Protegao e Defesa do Consumidor), nao incide na hipOtese sub judice o preceituado art. 53
do mencionado diploma legal. Conforme ainda ha pouco teve oportunidade de decidir o Sumo PretOrio, no
disposto no art. 50 XXXVI, da Constituicao Federal, se aplica a toda e qualquer norma infraconstitucional, sem
qualquer distingao entre lei de direito pOblico e lei de direito privado, ou entre lei de ordem pUblica e lei
dispositiva (Agao Direita de Inconstitucionalidade n 2 493-0/DF, relator Ministro Moreira Alves). Alias, no sentido
da inaplicabilidade do COdigo de Defesa do Consumidor a contrato celebrado sob a egide do ordenamento
juridic° anterior por igual se orientou a C. Terceira Turma deste Tribunal, em precedente da relatoria do Ministro
Eduardo Ribeiro (REsp n2 36.455-8/SP)." No mesmo sentido REsp 50.871/RS, REsp 45.666-5/SP, REsp
38.518.0/SP, RSTJ 65/393.
19 DJ 28.09.84, RExt 102.216/SP, 21 Turma, Rel. Min. Moreira Alves: "Direito de preferancia de locatario de imOvel
vendido a terceiro. (...) Em face do paragrafo 32 do artigo 153 da Constituigao, que nao faz qualquer distincao
em materia de ato juridic° perfeito e de direito adquirido, e indubitavel que o contrato valid° entre as panes
ato juridic° perfeito, dele decorrerao, para uma ou para ambas, direitos adquiridos. Se a lei posterior cria para
terceiro direito sobre o objeto do contrato e oporrivel a ambas as partes contratantes, nab pode ela, sob pena
de alcangar o ato juridic° perfeito e o direito adquirido entre as partes, ser aplicada a contratos validamente
celebrados antes de sua vigência."

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regem-se, durante toda a sua existéncia, pela lei vigente quando de sua consti-
tuicao20.

III. 1. ESTUDO DE CASO: OS EXPURGOS INFRACIONARIOS NAS


CONTAS DO FGTS DOS TRABALHADORES

Aplicando-se os principios e conceitos acima expostos a polémica ques-


tao dos expurgos inflacionarios no reajuste das contas vinculadas ao FGTS, é
possivel extrair, desde logo, uma conclusâo preliminar: a discussao acerca da
natureza da relagao juridica envolvida no estabelecimento de tais contas - i.e.,
se institucional ou contratual - é irrelevante para a solugao da demanda. De fato,
os empregados titulares das contas nao postulam que Ihes seja assegurado,
ate o término de sua relagao corn o Fundo, o indice vigente quando nele Ingres-
saram.
Na verdade, tudo o que se discute é se tern eles direito adquirido aos
indices previstos pelas leis vigentes quando da entrada em vigor dos atos
normativos que promoveram os chamados "expurgos", relativamente aos me-
ses anteriores a existência de tais normas. 0 que é preciso examinar, portanto,
em coerència corn a argumentagao teOrica desenvolvida, e se o fato aquisitivo
do direito a correcao monetaria ja havia se aperfeigoado quando da entrada em
vigor das novas leis, ainda que o efeito Ultimo desse direito - o crèclito em conta
da correcao monetaria - so viesse a se produzir no futuro. Se assim tiver se
passado, nada importa a natureza da lei - se de ordem pOblica, dispositiva ou
qualquer outra qualificagao: o direito adquirido, por imperativo constitucional,
tera de ser respeitado.
Pois bem: o fato aquisitivo da correcao monetaria era, e é, a perman6ncia
continua dos valores em conta durante determinado periodo, de modo que o
gestor ou administrador da conta possa aplicar esses recursos e obter corn eles
nao apenas a manutengâo do capital (correcao monetaria), mas tambêm a sua
remuneragao. No caso das contas vinculadas ao FGTS, esse periodo aquisitivo

20 RTJ 143/724, ADM 493-DF, Rel. Min. Moreira Alves, j. 25/06/92: "Disso deriva, a nosso ver, que a sobrevivOncia
da eficacia das clausulas livremente pactuadas de um contrato, em mat6ria que, epoca da sua celebragao, era
confiada a autOnoma estipulacOo das partes, nao pode opor-se a lei superveniente, ainda que de ordem

DJU 06.06.97, Rext n2 205.193-RS, Rel. Min. Celso de Mello: "Os contratos submetem-se, quanto ao seu
estatuto de regAncia, ao ordenamento normativo vigente A epoca de sua celebracao. Mesmo os efeitos futuros
oriundos de contratos anteriormente celebrados nao se expOem ao dominio normativo de leis supervenientes.
Os contratos - que se qualificam como atos juridicos perfeitos (RT 547/215) - acham-se protegidos, em sua
integralidade, inclusive quanto aos efeitos futuros, pela norma de salvaguarda constante do art. 51, )000/1, da
ConstituicAo da Reptblica."

66 LUIS ROBERTO BARROSO. A SEGURANCA JURIDICA NA ERA DA VELOCIDADE E DO PRAGMATISMO

era trimestral ou mensal, dependerao do instante considerado, prevengâo se o


primeiro dia do period° aquisitivo subseqUente (o trimestre ou o mas seguinte)
como momento em que esse fato se aperfeigoava. 0 efeito final desse direito-
o cradito em conta da correcao monetaria -, no entanto, so aconteceria urn ma's
ou urn trimestre depois, conforme o caso. ApOs o credit° em conta, evidente-
mente, ter-se-ia ja urn direito plenamente consumado.
Ora, é evidente que nao compeie o fato ideineo a produzir o efeito correcao
monetaria o momento no qual a correcao é creditada em conta, evento que nao
faz parte do fato descrito pela norma e sim do efeito por ela atribuido. Desse
modo, a regra que regula a correcao monetaria, e especificamente o Indice que
a medira, sera definido pela lei em vigor quando do aperfeigoamento do fato
aquisitivo. Reitere-se: defender que o fato idOs neo, no caso, é composto tamb6m
pelo momento de crklito da correcao monetaria representa violar a garantia
constitucional do direito adquirido fazendo-o simplesmente desaparecer, corn
urn truque de magica, por meio da sua equiparacao ao direito ja consumado.
Todos os atos normativos que implementaram os expurgos aqui discuti-
dos entraram em vigor depois de findo o prazo aquisitivo do direito a correcao,
mas antes de ser ela creditada nas contas dos titulares. Ha, portanto, direito
adquirido aos indices ern vigor na data em que se exauriram os periodos aquisi-
tivos, nao podendo a lei posterior alterar o efeito de fato ja perfeitamente verifi-
cado de acordo com a lei anterior.

IV. QUESTOES ATUAIS ENVOLVENDO DIREITOS CONSTITUCIO-


NAIS E SEGURANCA JURIDICA

IV. 1. Colisties de direitos constitucionais

0 direito, como se sabe, é urn sistema de normas harmonicamente arti-


culadas. Uma situagâo nao pode ser regida simultaneamente por duas disposi-
gOes legais que se contraponham. Para solucionar essas hipOteses de conflito
de leis, o ordenamento juridic° se serve de tras criterios tradicionais: o da hierar-
quia -pelo qual a lei superior prevalece sobre a inferior-, o temporal- aide a lei
posterior prevalece sobre a anterior-, e o da especializacab- em que a lei espe-
cifica prevalece sobre a lei geral21.
Esses criterios, todavia, nao sào satisfatOrios quando o conflito se da

Sobre antinomias e criterios para solucionâ-las, v. Norberto Bobbio, Teoria do ordenamento jundico, 1990, pp.
81 e ss.

REVISTA DE DIREITO; PROCURADORIA GERAL DO ESTADO DE GOIAS, 21 (1-1): 55-72, JANIDEz. 2001 67

entre normas constitucionais. Aqui avulta o papel dos principios no processo de


interpretagao. Os principios constitucionais sac) o conjunto de normas que
espelham a ideologia da Constituicao, seus postulados basicos e seus fins.
Dito de forma sumaria, sac) as normas eleitas pelo constituinte originario como
fundamentos ou qualificagOes essenciais da ordem juridica que institui. A atividade
de interpretagao da Constituicao deve iniciar-se pela identificack do principio
major que rege o tema apreciado, partindo-se do mais generic° para o mais
especifico, ate chegar a formulagao da regra concreta que vai reger a especie.
E importante assinalar que ja se encontra superada a distincao que outro-
ra se fazia entre norma e principio. A dogrnatica moderna avaliza o entendimen-
to de que as normas juridicas, em geral, e as normas constitucionais, em parti-
cular, podem ser enquadradas em duas categorias diversas: os principios e as
regras. 22 Estas Ciltimas têm eficacia restrita as situagOes especificas as quais
se dirigem. Ja os principios thm, normalmente, major teor de abstragao e uma
finalidade mais destacada dentro do sistema. Inexiste hierarquia entre ambas
as categorias, o que nab impede, todavia, que principios e regras desempe-
nhem fungOes distintas dentro do ordenamento.
De fato, embora ambos sejam dotados de imperatividade, principios e
regras apresentam caracteristicas diversas. Do ponto de vista estrutural, utiliza-
rao a classificagao de Robert Alexy23 , que teve repercussao na doutrina brasilei-
ra 24 , as regras veiculam comandos de defini0o, ao passo que os principios säo
comandos de otimizacäo. Por essas expressOes se quer significar que as re-
gras (comandos de definicäo)tenn natureza biunivoca, isto é, so admitem duas
espêcies de situagao, dado seu substrato fatico tipico: ou sac) validas e se
aplicam ou nao se aplicam por invalidas 25 . Uma regra vale ou nao vale juridica-
Vejam-se, na doutrina estrangeira; Jorge Miranda, Manual de direito constitucional, tomo II, 1983, p. 198; J.J.
Gomes Canotilho, Direito constitucional, 1986, p. 172; Robert Alexy, Teoria de los derechos fundamentales,
1997, p. 83; Ronald Dworkin, Taking rights seriously, 1977. E na doutrina nacional: Eros Roberto Grau, A ordem
econamica na Constituicao - Interpretacao e critica, 1990, p. 122 e ss; Ruy Samuel Espinola, Conceito de
principios constitucionais, 1999, p. 105 e ss; Daniel Sarmento, A ponderacao de interesses na Constituicao,
2000, pp. 42 e ss; Luis Roberto Barroso, Interpretaceo e aplicagdo da ConstituiCao,3 2 ed. 2000, pp. 147 e ss.
23 ALEXY, Robert. Teoria de los derechos fundamentales, Trad. Ernesto Garthn ValdOs, 1997, p. 83: "Las reglas y
los principids sercin resumidos bajo e/ concepto de norma. Tanto las regras como los principios son normas
porque ambos dicen que debe ser. Ambos pueden ser formuladoscom la ayuda de las expresiones deanticas
bclsicas del mandato, la permisian y /a prohibiciOn. Los principios, al igual que las reglas, son razones para
juicios concretos de deber ser (...)".
2A STUMM, Raquel Denize. Princlpio da proporcionalidade no direito constitucional brasile/ro, 1995, p. 42 e Paulo

Roberto Lyrio Pimenta, eficacia e aplicabilidade des normas constitucionais programéticas, 1999, p. 121 e ss..
ALEXY, Robert. Teoria de los derechos fundamentales, Trad. Ernesto GarzOn Valdris, 1997, p. 88. A'nâo aplicabilidade
da regra decorre, em geral, de sua iny alidagäo (Inconstitucionalidade) ou da perda de sua viencia, como nos
casos em que ela a revogada por norma hierarquicamente superior ou posterior de igual hierarquia. No caso da
relagao entre norma geral e especial, entretanto, a norma geral deixa de ser aplicada nao por qualquer dessas
duas razCies, mas porque os fatos se realizara de forma especifica a prey isäo da norma especial, que afasta a
incicrancia da geral. Sobre os criterios de solugào de conflito de regras (temporal, espacial, hierarquico e por
especialidade), veja-se nosso, Interpretacao e aplicacao da constituicao,3 , ed., 1999.

68 Luis ROBERTO BARROSO. A SEGURANCA JURID/CA NA ERA DA VELOCIDADE E DO PRAGMATISMO

mente. Nä° sac admitidas gradagOes. A excepão da regra ou e outra regra, que
invalida a primeira, ou 6 a sua violacao.
Os principios se comportaram de maneira diversa. Como comandos de
otimizacâo26 , pretenderao eles ser realizados da forma mais ampla possivel,
admitirao, entretanto, aplicagao mais ou menos ampla de acordo com as possi-
bilidades juridicas existentes, sem que isso comprometa sua validade. Esses
r.
limites juridicos, capazes de restringir a otimizacâo do principio, sao (i) regras
que o excepcionam em algum ponto e (ii) outros principios de mesma estatura e
opostos que procurarao igualmente se maximizar, imporao a necessidade even-
tual de ponderacao.27
Pois bem: de acordo com o principio da unidade hierarquico normativa,
normas da Constituinte origin6ria jamais poder6 ser consideradas invalidas, nem
o int6rprete pode deliberadamente escolher uma para prevalecer sobre as de-
mais. A Constituinte, como se sabe, 6 um documento dialetico, fruto de um
compromisso politico, e que, por isso mesmo, abriga principios e direitos poten-
cialmente conflitantes. Quando surgem efetivamente situagOes de conflito- como,
e.g., as que contraponham o principio da livre iniciativa e o da intervencao do
Estado no dominio econOmico, ou o direito de propriedade e o principio da fun-
cao social da propriedade - cabe ao int6rprete buscar a conciliagao possivel
entre as proposigOes aparentemente antagOnicas, procedendo a uma pondera-
cao
- de va/ores.
A ponderacao de valores e tacnica pela qual o interprete procura lidar
com valores constitucionais que se encontrem em linha de colisäo. Como nao
existe um criterio abstrato que imponha a supremacia de um sobre o outro,
deve-se, a vista do caso concreto, fazer concessOes reciprocas, de modo a
produzir-se um resultado socialmente desejavel, sacrificaräo o minimo de cada
um dos principios ou direitos fundamentais em oposicao. 0 legislador nao pode,
arbitrariamente, escoiher um dos interesses em jogo e anular o outro, sob pena
de violar o texto constitucional. Relembre-se: as regras incidem sob a forma de
"tudo ou nada" (Dworkin), ao passo que os principios precisam ser sopesa-
dos.28
Com o refluxo dos positivismos - normativistas, historicistas e sociolOgi-
cos - os principios juridicos deram nova configuragao ao quadro teOrico do

26 Robert Alexy, Teoria de los derechos fundamentales, Trad. Ernesto GarzOn ValdOs, 1997, p. 86.
Confinar-se sobre o terna: Heinrich Scholler, 0 principio da proporcionalidade no direito constitucional e
administrativo da Alemanha, Trad. Ingo Wolfgang Sarlet, Revista Interesse POblico 2, 1999, p. 93 e ss. e Daniel
Sarmento, Os principles constitucionais e a ponderacâO de bens in Teoria dos direitos fundamentals, Org.
Ricardo Lobo Torres, 1999, p. 35 e ss..
Sobre o terna, na literatura nacional, v. o denso estudo de Daniel Sarmento, A ponderacäo de interesses na
Constituicgo Federal, 2000, p. 96.

.1 I

REVISTA DE DIREITO; PROCURADORIA GERAL DO ESTADO DE GoiA,s, 21 (1-1): 55-72, JAN./DEz. 2001 69

pOs-positivismo, introduzirao ou aprofundarao conceitos como os de pondera-


gao, razoabilidade, igualdade e subsidiariedade, dentre outros. A interpretagao
constitucional, ao servir-se dos limites e possibilidades oferecidos pelos princi-
pios para a busca da solugäo justa no caso concreto, amplia o poder de criagao
e a subjetividade do intarprete. Perde-se, assim, em previsibilidade e certeza
das deciseies, embora a norma escrita sempre permanega como urn parâmetro
objetivo, demarcando as fronteiras de atuagao. Mas o que se sacrifica, eventu-
almente, ern seguranga, é devolvido corn lucro na melhor realizagâo da justiga
constitucional.

IV. 2. Judiciario, midia e opiniâo pUblica

Em um Estado democrético, todo poder politico é urn poder represen-


tativo, emana do povo e deve ser exercido em seu nome e interesse. 0 fato
de os agentes politicos do Poder judiciario nao serem eleitos nao desnatura
o principio. 0 constituinte fez a opgão leg Lima de que parte do poder do
Estado fosse exercido por fundamentos predominantemente tecnicos. Mas
a jurisdigao deve ser exercida corn transparéncia e o juiz, ao interpretar a
Constituigao e as leis, nao deve ser alheio ao sentimento social. 0 olimpico
distanciamento que anteriormente se supunha devesse ser mantido pelo
Judiciario em relagao a sociedade e aos outros Poderes já nä° é mais
simbolo de virtude.
Sobre o tema, escrevi eu prOprio em outra oportunidade:

"0 Supremo Tribunal Federal nao é urn tribunal comum. Eoguardiao


da ConstitulOo Suas decisOes transcendem aos meros cases concre-
tes quejulgam, porque väo servir de paradigma pare fazes e tribunals de
todo o Pais. Esta e outras circunstâncias fazem do Supremo urn tribunal
que desempenha relevante papel politico. Mas e precise bem qualificar
isto: ele decide conflitos que tem implicaccies politicas, mas seus criterk
os e metodos häo de serjuridicos. A base de legitimidade da atuacao do
Supremo Tribunal Federal, inclusive quando invalida os atos dos outros
doffs Poderes, e, precisamente, a apkacäo de principles que nao °sal
lam ao saber das circunstäncias. Sem embargo, urnjuiz de urn tribunal
superior nao pode ser indiferente as conseqeiências phéticas e simbOli-
cas que sua posicäo posse acarretar. Dentro dos limites e possibilidades
que o ordenamentojuridico oferece, urn juiz corn visäo de estadista deve

70 Luis ROBERTO BARROSO. A SEGURANCA )URIDICA NA ERA DA VELOCIDADE E DO PRAGMATISMO

saber escolher a linha que melhoratenda aos valores e sentimentos que


the cabe em [alma anglise interpreter ".29

Como natural, a exposick pUblica do Judiciario, na mesma medida em


que o aproxima dos cidadâos e deixa entrar a luz do sol, sujeita os Orgâos
judiciais a criticas de diferentes inspiragOes - justas e injustas, construtivas e
destrutivas. Ademais, al:6s a Constituicao de 1988, o Judiciario transformou-se
em um verdadeiro Poder, que ocupa espagos e os disputa tanto com o Poder
Executivo como corn o Poder Legislativo. Este conjunto de circunstancias — a
aproximagao corn a sociedade, as fricceles corn os outros Poderes, a presenca
no noticiario —exige, todavia, que se estabeleca urn delicado ponto de equilibria
para nao comprometer a seguranca jurldica em favor do populismo judicial.
E preciso ter ern conta que nao se faz justica para as cameras de televi-
sao. Nao ha born direito onde o que se busca é agradar a opiniao
Magistrado dando entrevista coletiva ou julgamento transmitido ao vivo é
indlcio grave de que a boa aplicagao da lei pode nao estar sendo o centro das
atengOes. A ribalta, a fogueira de vaidade ateada pela midia, as paixöes que a
exposicao pUblica desperta sac freqUentemente incompativeis corn a serenida-
de e a imparcialidade de quem julga. Ao Judiciario pode caber, eventualmente,
dar o pao. Nunca o circo. 0 marito de urn juiz nä° pode ser aferido em pesquisa
de opiniao.
Penso ser justo dizer, a bem da verdade, que a preocupagao aqui mani-
festada corn a inseguranga juridica que resultaria daquilo que denominei
,00pulismojudicial eruto de uma reflexão preventiva e nao uma imputagao. Ao
contrario, nao creio que, como regra, esta seja uma disfuncao perceptivel no
PoderJudiciario brasileiro.

IV. 3. A imprensa e a fungäo justiceira

Concluo a exposicao das vias que pretendi aqui alinhavar analisando uma
distorgäo que se generalizou no Pais e que figura como grave fator de inseguran-
pa juridica: os julgamentos pela imprensa. Os meios de comunicacao, no Bra-
sil, generalizadamente, entregam-se a funcao de apurar, julgar e condenar. Nao
é sequer uma questao de apontar se erram ou acertam nesses julzos: simples-

z' As idêias que se seguem baseiam-se em precioso trabaiho de Joaquim Falai), A noticia que virou fato: a
imprensa em questab, in Monitor pliblko ng 6/5, 1995.

REVISTA DE DIREITO; PROCURADORIA GERAL DO ESTADO DE GOIAS, 21 (1-1): 55-72, JAN./DEZ. 2001 71

mente nao integram o legitimo papel dos meios de comunicagao, e sac) realiza-
dos sem conhecimento tecnico, sem o devido processo legal, sem contradithrio
e muito menos ampla defesa.
A explicagão para este feniimeno, todavia, nao é dificil de ser encontra-
da. 0 Poder judiciario tornou-se depositario de urn conjunto de expectativas
apOs a Constituinte de 1988. Novos direitos, novas awes, major consciancia
de cidadania, ampliagao das relagOes de consumo. No entanto, a legislagao, a
cultura judiciaria, aspectos ideolOgicos e de infra-estrutura, o nirmero de juizes,
dentre outros fatores, comprometem a capacidade de as instituigOes judiciais
darem vazao a demanda que se formou. E em qualquer sociedade que aspirë
civilizagao, Justiga é gènero de primeira necessidade. 3° 0 que acontece quando
o Judiciario nao supre de maneira quantitativa e qualitativamente eficaz esta
necessidade? 0 que acontece quando a procura é maior do que a oferta?
Incide a lei do mercado: o cidadão vai procurar justica em outro lugar. E a
imprensa tern suprido a demanda que nä() é atendida pelas instituigOes judicias
prOprias. Desnecessario dizer que corn conseqUancias muitas vezes dramati-
cas. Em passagem inspirada, escreveu Joaquim Falcao:

" 0 brasileiro deposita na imprensa a esperanga que nao se con-


cretiza no Judiciario. (...) A denÜncia impressa é a sentenga adiada no
labirinto do processo. A manchete é o acOrdao esquecido na gaveta do
desembargador. Na falta de punicâo juridica, o brasileiro se satisfaz corn
o escândalo jornalistico. Divulgar, alêm de informar, passou a ser julgar,
que é quase sempre, punir. Estabeleceu-se urn pacto, latente e nao inten-
clonal, entre a imprensa justiceira e o leitor carente.
(...) Imprensa nao é justica. Jornal nao é forum. RepOrter nao é
juiz. Nem editor, desembargador. Equando acreditam ser; transformam a
dignidade da informacäo na arrogáncia da autoridade de que nao dis-
poem".

A substituigão do Judiciario pela imprensa nao é saudavel. Diminui a


urn sem elevar a outra. Como subprodutos, vulneram-se os direitos a honra,
a privacidade, a presungäo de inocancia. E o que é pior: a sociedade satisfaz-
se corn o enxovalho publjco, desinteressando-se a seguir. 0 processo judi-
cial, propriamente dito, freqUentemente é negligenciado, agonizarao por fal-
ta de empenho, por falta de provas ou pela prescrigao. Ao nä. ° cumprir seu

30 Idem, p. 6.

72 LUIS liggERTO DARR050. A SEGRANCA NA ERA BA VELCIL'IDAN E 158 OrtadmAnsmo

papel a tempo e a hora, a Justica deixa urn vazio que os meios de comuni-
cacao ocupam corn vol6pia, e permite, assim, a condenagäo precipitada de
culpados e inocentes.
Ah, sim! Tambêm tern as comissOes parlamentares de inquerito. Mas
esta é uma outra histbria.

I I / ‘" " 11, . n I I