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GERARD JONES

HOMENS DO AMANHÃ

geeks, gângsteres e o nascimento dos gibis

CONRAD

Livro cedido por Eudes Honorato

Digitalização & Revisão:

ÐØØM SCANS

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Copyright © 2004 by Gerard Jones Copyright desta edição © 2006 by Conrad Editora do Brasil Ltda.

Título original: Men of Tomorrow

Capa: Jonathan Yamakami Imagem de Capa: © Bettmann/CORBIS Tradução: Guilherme da Silva Braga e Beth Vieira Preparação: Cristina Carletti e Luiz Maria Veiga Diagramação: Manoel Carlos C. de Araújo (www.macrocomunicação.ppg.br) Índice: Claudia Maki Yanagihara Produção Gráfica: Alexandre Monti (Gerente), Alberto Gonçalves Veiga, André Braga e Ricardo A. Nascimento Gráfica: Cromosete

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Jones, Gerard

Homens do Amanhã / Gerard Jones ; [tradução Guilherme da Silva Braga e Beth Vieira]. — São Paulo : Conrad Editora do Brasil,

2006.

Título original: Men of Tomorrow ISBN 85-7616-160-5

1. História em quadrinhos I.Título. 06-2001 CDD-741.5 Índice para catálogo sistemático:

1. Histórias em quadrinhos 741.5

CONRAD EDITORA Rua Simão Dias da Fonseca, 93 — Cambuci — São Paulo — SP 01539-020 Tel.: 11 3346.6088 / Fax: 11 3346.6078 atendimento@conradeditora.com.br www.conradeditora.com.br

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CONRAD EDITORA

CONSELHO EDITORIAL Cristiane Monti Rogério de Campos

GERENTE DE MARKETING Márcio Carvalho

GERENTE DE TRADE MARKETING Silvio Alexandre

GERENTE DE PRODUTO Cláudia Maria do Nascimento

DIRETOR EDITORIAL Rogério de Campos

COORDENADOR EDITORIAL E DE COMUNICAÇÃO Alexandre Linares

COORDENADORA EDITORIAL E DE DIREITOS INTERNACIO- NAIS Luciana Veit

COORDENADORA DE PRODUÇÃO Rita de Cássia Sam

ASSISTENTES EDITORIAIS Alexandre Boide, Jae HW e Mateus Potumati

REVISORES DE TEXTO Lucas Carrasco e Marcelo Yamashita Salles

EDITOR DE ARTE Marcelo Ramos Rodrigues

ASSISTENTES DE ARTE Ana Solt, Jonathan Yamakami, Marcos R. Sacchi, Nei Oliveira e Vitor Novais

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Ao meu pai, RUSSELL JONES, que me ensinou o que um maço de folhas de papel manchadas de tinta pode significar para um jovem nas horas mais difíceis.

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SUMÁRIO

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NOTA À EDIÇÃO BRASILEIRA

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NOTA DO AUTOR

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PRÓLOGO – IDENTIDADE SECRETA

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A RUA

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2

O OUTRO MUNDO

59

3

A GRANDE FARRA

89

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O HOMEM PERFEITO

127

5

A NOVA DIVERSÃO

169

6

AÇÃO

206

7

RAPAZES AMERICANOS

237

8

ÁUREOS TEMPOS

295

9

O TURBILHÃO

352

10

GUERRAS

400

11

CRIME VERDADEIRO

432

12

ROTA DE COLISÃO

471

13

SÓCIOS SILENCIOSOS

522

14

NOVOS DONOS

546

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CONTINUAÇÃO

583

EXTRAS

631

NOTAS SOBRE AS FONTES

663

ORELHA E QUARTA CAPA

689

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NOTA À EDIÇÃO BRASILEIRA ——————————

Geek: um tipo de performer que realiza atos sensacionalmente mórbidos e desagradáveis como comer cabeças de animais vivos, como cobras ou galinhas.” Assim diz o Random House Historical Dictionary of American Slang. Mas essa é uma acepção do termo já em extinção, graças aos Servi- ços de Proteção aos Animais. Pelo menos é o que todos esperam, inclusive os geeks. Hoje geek nos dicionários tem como principal sinônimo a palavra “nerd”. O mesmo sentido: rapa- zes desajeitados, sem vida social, estudiosos de- mais. Gente que sabe mais de gibis, séries de TV, rockabilly, ficção científica ou computadores do que seria socialmente aceitável. Tanto “nerd” como “geek” são, de maneira ge- ral, termos usados para definir indivíduos do sexo masculino. Até porque o mundo dos nerds é, por princípio, um mundo masculino, onde mulheres não entram. E um mundo em que a castidade é mantida com um rigor que deveria ser abençoada pela Igreja Católica e o governo Bush (em compen- sação, o pecaminoso desperdício de sêmen Saiba-se lá por quê, nerds preferem ser chama- dos de geeks. Tanto que, inclusive, já foram criadas revistas quase mainstream chamadas Geek, tanto nos EUA como no Brasil, ambas especializadas em

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traquitanas tecnológicas. Nerd, que eu saiba, não batiza nada tão glamouroso. Talvez porque seja um termo mais recente, criado no início dos anos 1950 pelo dr. Seuss. Geek tem um passado mais nobre. Shakespeare, por exemplo, que tinha um vocabulá- rio ricamente limitado fala dos geeks. A origem da palavra se perde na origem dos tempos (assim diria o geek fã de Star Wars). Teria surgido do adjetivo alemão geck: tolo, idiota. Mas se nerds preferem ser chamados de geeks, não é o caso de serem contrariados. Até porque o mundo cada vez mais é formatado por eles. De Quentin Tarantino a Kevin Smith, de Step- hen King a Nick Hornby e, é claro, de Steve Jobs a Bill Gates. E tudo começou, como mostra Gerard Jones, com outra dupla típica: Jerry Siegel e Joe Shuster. Por isso, preferimos manter em nossa edi- ção o termo americano geek. Em compensação usamos a palavra “gibi” como sinônima de comic book, ainda que este último des- creva originalmente um objeto específico: revistas no formato 17 x 26 cm, com 32 ou 48 páginas. Muitas vezes se usa equivocadamente a palavra comics (“história em quadrinhos”) como sinônima de comic book (que nós traduzimos “gibi”, mas po- deria ser traduzido como “revista em quadrinhos”). Sem levar em conta que as strips (as tiras de jornal) são também histórias em quadrinhos, sem serem gi- bis. Tanto nos EUA como no Brasil, as evoluções e

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os retrocessos dos gibis e dos quadrinhos de jornal aconteceram independentemente. Nos anos 1950, por exemplo, enquanto os comic books eram mas- sacrados pela onda de paranóia moralista que to- mou os EUA, os quadrinhos de jornal começavam a viver um momento dos mais livres e especiais, com Peanuts, Pogo, Feiffer e outros. Hoje, quando os quadrinhos tomam nova força em todo o mundo, inclusive nos EUA, isso aconte- ce no mundo das edições para livraria, em brochura ou capa dura, à parte o universo dos comic books de super-heróis, que continuam sua decadência de décadas (iniciada ainda nos anos 1940, no final da chamada “Era de Ouro”). Por fim, decidimos manter o nome original dos personagens, colocando o nome brasileiro, quando havia, entre parênteses. Não por qualquer especial preferência pela sonoridade da língua inglesa, mas porque falamos de personagens que foram, com frequência, diversas vezes rebatizados no Brasil. Quantos brasileiros saberiam, por exemplo, que o Aquaman era chamado de Marinho, quando foi pu- blicado no Brasil na década de 1940? E quem se lembra de Mirian Lane e Eduardo (depois conheci- dos, também no Brasil, como Lois Lane e Clark Kent)? Além do mais, com o interesse das grandes multinacionais de consolidarem mundialmente suas marcas, para otimizar seus gastos com marketing, cada vez mais os personagens estão sendo em toda

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a parte rebatizados com seus nomes originais em

inglês. Assim como o ursinho Puff virou ursinho Pooh, o próprio Super-Homem já se apresenta no Brasil como Superman. That’s it!

Rogério de Campos

NOTA DO AUTOR ——————————

Um dos desafios deste livro foi procurar que fundo de verdade havia nas lendas, mal-entendidos etílicos e desculpas mentirosas que moldaram a his-

tória até hoje corrente da mais curiosa forma de arte produzida na América. As entrevistas e conver- sas que tive com muitos dos que sobreviveram aos primórdios dessa indústria, e com suas famílias, mostraram-se a fonte mais importante nesta pesqui- sa. Foi em Westport Marina, durante uma conversa com Irwin Donenfeld acompanhada de peixe frito e cerveja, que compreendi as histórias de Harry Do- nenfeld e Jack Liebowitz. Nos escritórios do De- partamento de Desenvolvimento Urbano em Bea- chwood, comendo roscas doces e tomando café com Irv e Jerry Fine, delineei os contornos da his- tória de Jerry Siegel da maneira como a conto aqui. Muitos outros membros dos clãs Donenfeld, Siegel

e Liebowitz me ajudaram, assim como amigos e

parceiros de negócios dos homens a que este livro é

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dedicado. Alguns pediram para permanecer no ano- nimato, apenas por modéstia ou por causa do litígio que atualmente envolve os direitos sobre o Super- Homem, mas há um a quem eu posso e devo agra- decer: o amigo leal de Harris, Jack Adams. Meus 20 anos de experiência na indústria dos gibis deram-me a oportunidade de conhecer muitas das pessoas que criaram essa forma de arte. Em duas ocasiões durante os anos 1980, tive a sorte de bater um papo com Jerry Siegel e Joe Shuster na San Diego Comic Con (Convenção que é o princi- pal evento dos quadrinhos norte-americanos e acontece anualmente na cidade de San Diego, Cali- fórnia). Algumas das coisas que eles me disseram (até agora não reveladas) acabaram se tornando partes importantes do livro que eu escreveria quase duas décadas mais tarde. Durante esses mesmos anos en- trevistei e tive longas conversas com Jack Schiff, Julius Schwartz, Vin Sullivan, Murray Boltinoff, Jack Kirby e outros desses pioneiros que já não se encontram mais entre nós. Também devo muito àqueles que tão gentilmente aceitaram me dar en- trevistas e responder minhas perguntas, às vezes desconcertantes, relacionadas a este projeto: o fale- cido Will Eisner, Stan Lee, Jack Williamson, Alvin Schwartz, e o generossíssimo Jerry Robinson. Dependi não só daqueles que vivenciaram a his- tória dos quadrinhos, mas também daqueles que a

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estudaram como especialistas e colecionadores, e que me conduziram através da floresta de contradi- ções e enganos até o caminho mais plausível dos acontecimentos reais. Meu Virgílio, meu Tenzing, minha Sacagawea foi Michael Feldman, que passou muitos anos juntando pecinhas do quebra-cabeça e fala com sabedoria e conhecimento sobre o lugar dos quadrinhos no contexto mais amplo das cultu- ras alternativas e sobre o empreendimento judaico num passado quase enterrado da história america- na. Algumas das outras pessoas sem as quais o li- vro não estaria completo são Will Murray, Denis Kitchen, Tom Andrae, Mike Catron, Michael Us- lan, Mark Evanier, Anthony Tollin, Richard Hale- gua, Bob Beerbohm, Mark Waid e Paul Levitz. Mi- nha pesquisa em Cleveland ficou mais agradável e produtiva graças à hospitalidade de Mike Sangiaco- mo do Plain Dealer e Carolyn Johnson da Glenvil- le High School. Agradeço a Art Spiegelman, Jules Feiffer, Paul Buhle e Michael Chabon pelos mo- mentos vitais em que me deram força e me ajuda- ram com correções. Também sou muito grato àque- les que encontraram erros na primeira edição deste livro, possibilitando que fossem corrigidos. Foram eles Roy Thomas, Larry Miller, Alan Light, e prin- cipalmente Michael Siegel e Douglas Nicholson, fi- lhos respectivamente de Jerry Siegel e Malcolm Wheeler-Nicholson. Se a substância deste livro foi um presente das

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pessoas a quem agradeci acima, sua forma foi dada pelos amigos que escutaram meus lamentos, afaga- ram minha cabeça e leram os capítulos à medida que me sentia confiante o suficiente para mostrá- los: Allen Weinberg, Charlie Goldberg, Henry Jenkins, Heidi Anderson, Joe Filice, Joel Millner, Andréa Rundgren, Helene Manheim e Erika Silver, que sem explicação ou motivo me presenteou com uma edição antiga de G. I. Joe muito reveladora. Houve também as duas que leram as tenebrosas páginas de rascunho uma por uma e em suas dife- rentes versões: Melissa McAvoy, que encontra um advérbio perdido mesmo em meio a cachorros e crianças correndo para lá e para cá, e Carla Seal- Wanner, que transformou sua profunda indiferença aos super-heróis num arsenal crítico que repetida- mente me forçava a tentar alcançar a clareza do texto. Por fim, minha gratidão a Jennie, que se tornou uma mãe solteira durante meses para me ajudar a terminar o manuscrito; a Nicky, que encarou o pou- co tempo que o papai passava a seu lado com tanta generosidade; a minha agente Carol Mann, que tan- to me deu forças; e a todos na Perseus Books que trabalharam com tanto afinco nos inúmeros deta- lhes, em especial a Ellen Garrison, Rich Lane, ao príncipe dos editores de texto, Steven Baker, e prin- cipalmente, a Jo Ann Miller, a editora cuja sabedo- ria salomônica, esforços hercúleos, constância de

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Atlas, autoridade de Zeus, furor de Aquiles e rapi- dez de Mercúrio arrancaram-me das garras do caos e do desespero no último instante. Suh-HAZ-am!

Gerard Jones Junho de 2005

PRÓLOGO —————————— IDENTIDADE SECRETA

JERRY EMPURROU o jornal até o outro lado da mesa. — Leia isso — disse, e ficou observando enquanto ela lia os detalhes. O script de Mario Puzo. Os planos de colocar Paul Newman, Clint Eastwood ou Dustin Hoffman no papel principal. As imagens daquele herói — seu herói — projeta- das a laser sobre balões gigantescos no Battery Park davam muito o que falar já antes do lança- mento. Quando viu a raiva brilhar em seus olhos, soube que ela tinha chegado à parte sobre os 3 mi- lhões de dólares. A Warner Brothers tinha torrado uma fortuna pelos direitos do Super-Homem para fazer um filme, e nem um centavo iria para Jerry, Joe ou suas famílias. — Você não pode deixar eles se safarem assim! — disse Joanne. — O que mais posso fazer? — ele retrucou. Já por duas vezes Jerry os tinha desafiado nos tribu-

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nais, e nas duas vezes havia arruinado sua carreira sem conseguir nada, enquanto eles ficavam cada vez mais ricos. — Escreva para a Variety. Conte para eles a verdadeira história — sugeriu ela. Mas ele tinha medo. Tinham dito que poderiam arranjar uma aju-

da financeira para ele caso desistisse de aparecer na Suprema Corte. Qualquer coisa que ele fizesse ago- ra iria acabar com essa possibilidade.

— Nunca vão fazer nada por você! — Joanne

disparou. — A não ser que você os faça passar

muita vergonha. A não ser que você conte para todo mundo o que Jack Liebowitz fez com você.

— Seria demais para mim — respondeu Jerry, e

saiu para o trabalho. Ao longo da vida ele tinha se acostumado a esconder a dor e a perda — a primei-

ra, que despedaçara sua infância, e aquela outra, que experimentava constantemente, a dor de ver sua grande criação arrancada de suas mãos. Fazia tudo para ser mais forte que a dor. Mas, no longo caminho até o trabalho, as palavras começaram a vir. Desde o ataque cardíaco, andava mais de ôni- bus do que de carro, e poucas jornadas são mais sombrias e intermináveis do que atravessar Los An- geles num ônibus. De Westwood aos trechos obs- curos de Beverly Hills, passando pelos restos des- truídos da Miracle Mile e se aproximando das ruí- nas esburacadas no Centro, ele, os aposentados com pensão fixa e os mexicanos que faziam faxina,

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todos naquele ônibus que se arrastava na mesma velocidade em que um jovem saudável caminha. Teve tempo para pensar o que dizer ao mundo so- bre Jack Liebowitz. O duas caras, o traidor, o ban- dido. Por fim o ônibus deixou-o no prédio da reparti- ção onde trabalhava. Lá teria mais tempo para pen- sar, durantes suas oito horas como funcionário dos correios, separando e fazendo entregas, além de pensar em Jack Liebowitz embolsando sua parte daqueles 3 milhões. Algumas das secretárias ti- nham ouvido coisas a respeito de Jerry, e dava para ver o ceticismo em seus olhos quando ele levou as

cartas e encomendas até o escritório. Elas tentavam conciliar a imagem deste homem pequeno e tímido com a do herói dos programas de TV e filmes. — Essa história de que você criou o Super-

Homem

Ele dava um sorriso amarelo e dizia:

— Ah, sim, fui eu! Então se lembrava de 30 anos antes, quando seu nome aparecia em 300 jornais por dia, quando era convidado ao programa de rádio de Fred Allen, transmitido de costa a costa, ouvido por secretárias e carteiros idosos que ficavam imaginando como seria criar algo que todos, no mundo inteiro, conhe- ciam. Naquela noite Joanne aumentou a pressão. E se ele tivesse um outro ataque cardíaco, um mais gra-

não é verdade, é? — elas perguntavam.

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ve, enquanto ficava esperando aqueles mentirosos se darem bem? O que seria de Laura? Jerry sabia como era perder o pai. E de que adiantaria ficar quieto? Eram outros tempos, e já não era problema lavar roupa suja em público. Era 1975, e ninguém tinha segredos. Revelações derrubavam presiden- tes, enchiam os jornais e mudavam a forma de pen- sar das pessoas. — Pelo menos todo mundo ficaria sabendo — disse Jerry. Em seu coração, aquilo queimava tanto quanto a questão do dinheiro: saber que seu nome nunca apareceria nos créditos dos filmes, assim como nunca tinha aparecido no seriado da TV, do

mesmo modo como tinha sido arrancado dos qua- drinhos havia três décadas. Se contasse sua história agora, todos finalmente saberiam do presente que tinha dado ao mundo. E ficariam sabendo o quanto ele sofreu. Por fim Jerry pegou sua máquina de escrever —

a mesma velha máquina manual em que ele tinha datilografado os primeiros originais, alcançado o topo e despencado lá de cima. Colocou o papel ofí- cio e preparou o carbono. Começou a escrever um release. O primeiro, enviaria para a Variety, mas haveria mais. Muito mais. Escrevia pensando na raiva que tinha sentido ao longo de toda a vida, uma raiva que aumentava dia

a dia muito antes das primeiras batalhas envolven- do o Super-Homem. Mas nunca tinha aprendido a

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expressá-la. Seu furor sempre aumentava e ele aca- bava parodiando a si mesmo. “Eu, Jerry Siegel, co- inventor do SUPER-HOMEM, roguei uma praga para o filme do SUPER-HOMEM! Espero que seja

um superfracasso.” E continuava enfurecido por dez páginas, cheias de erros de ortografia e redun- dâncias, arrotando letras maiúsculas e melodrama. “Os editores das revistas em quadrinhos do SU-

assassinaram meus dias, mata-

ram minhas noites, sufocaram minha felicidade, es- trangularam minha carreira.” “COMO É INFER- NAL E NAUSEANTE O SUPERFEDOR QUE EMANA DA NATIONAL PERIODICAL PUBLI- CATIONS.” Ele fundiu décadas de correspondência e batalhas judiciais numa história de vilões e víti- mas. “Penso que os executivos da National são as- sassinos empresariais, monstros enlouquecidos pelo dinheiro.” ‘‘Jack Liebowitz, membro da diretoria da Warner Communications, apunhalou a Joe Shus- ter e a mim, Jerry Siegel, pelas costas. Ele arruinou nossa vida propositalmente.” Por trás dessa história havia uma outra que, mesmo não sendo reconheci- da, ajudou a escrevê-la: a história de um garoto a quem roubaram algo ainda mais precioso, um garo- to que foi separado de sua autoconfiança, de sua energia, e passou a vida inteira tentando recuperá- las. Agora, ao finalmente contar sua história, Jerry Siegel recuperaria um pouco do que tinha perdido. Algumas histórias são importantes já no mo-

PER-HOMEM [

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mento em que acontecem. Outras mostram-se rele- vantes somente após algum tempo. A história dos homens que criaram os gibis americanos e aquela entidade tão singular, hoje conhecida como super-

herói, ficou por quase 30 anos sem ser contada. Es- ses homens estavam sempre correndo, dia após dia

e mês após mês, enchendo as páginas com suas in-

críveis tintas sem nunca parar para ver que o que ti-

nham feito e vivenciado era digno de uma reflexão. Quem por fim juntou as histórias foram os fãs, que compilavam dados para fanzines que não tinham nenhum propósito a não ser entender melhor os quadrinhos que já estavam ficando amarelados no

armário. Jerry Siegel foi o primeiro a trazer a histó- ria ao conhecimento do público. Mas não foi único

a contá-la. A história é escrita pelos vencedores — mas nem sempre. Há histórias escritas pelos perdedores. A das histórias em quadrinhos foi escrita pelos que foram trapaceados e os que simpatizaram com eles. Os homens que fizeram fortuna ficaram calados. Os que fundaram empresas, compraram os persona- gens e criaram o império de marketing e multimídia guardaram suas versões para si mesmos e deixaram os escritores e desenhistas escrever a história. Enquanto Jerry Siegel datilografava suas cartas,

o chofer levava Jack Liebowitz de seu apartamento no Upper East Side até o escritório da Warner Communication no Rockfeller Center. Ele pegou o

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elevador até o último andar, onde fica a sala de reu- niões, e cumprimentou os outros membros da dire- toria. A maioria era de homens muito mais jovens, homens que não existiam na Nova York que ele co- nhecia. Enquanto esperava Steve Ross chegar para

o encontro, viu Manhattan através das grandes ja-

nelas, ao sul da ilha aonde tinha chegado, vindo de um mundo agora destruído. Enquanto olhava pelas janelas, talvez se lembrasse dos carrinhos-de-mão,

do cheiro de tinta nas pilhas de jornal. Ou então dos gritos dos trabalhadores durante os encontros socia- listas, onde ele tinha aprendido como o capitalismo

e a América funcionam. Podia traçar sua própria

trajetória ao longo da ilha, até a Union Square, onde saiu de um sindicato poderoso e tornou-se um pequeno editor de girlie magazines (Revista com fotos de mulheres seminuas) — e percebeu que aquilo era, em alguns aspectos, mais limpo que fa- zer parte do sindicato. Mais ao norte havia o prédio na Lexington Avenue, onde o Super-Homem o tor- nou rico e respeitável de um só golpe. Ser respeita- do era algo importante. Ele deixaria Jerry Siegel contar a história dos quadrinhos — pelo menos as poucas partes que ele sabia. Mas Jack preferia dei- xar a maior parte dela escondida. Jerry Siegel, Jack Liebowitz, Joe Shuster, Harry Donenfeld, Charlie Ginsberg, Bob Kahn, Stanley Lieber, Jake Kurtzberg, Mort Weisinger: todos da mesma geração, conhecidos entre si, todos garotos

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judeus, filhos de imigrantes, muitos à margem de suas próprias comunidades. Embora mantidos à parte do mainstream (Tendência dominante) ameri- cano, estavam mais em sintonia com os desejos e angústias desse mainstream do que as pessoas que faziam parte dele. Em busca de uns trocados fáceis, uma novidade espetacular e um pouco de alívio para seus anseios solitários, inventaram uma forma de cultura que foi como uma revelação para crian- ças de todas as classes e etnias e iria evoluir a pon- to de se tornar parte da fantasia de adolescentes e adultos. Essa cultura sobreviveria por mais de 60 anos após o estouro inicial e estabeleceria a norma de entretenimento numa época muito diferente da- quela em que foi criada. Muitos desses jovens não tinham pais, seja no aspecto físico ou emocional. Muitos deles não tive- ram a oportunidade de ser criados da forma mais apropriada e foram forçados a assumir o papel de adulto muito cedo ou então mantidos no mundo emocional infantil. Em alguns casos, as duas coisas ao mesmo tempo. Disputavam poder e independên- cia como se fossem crescidos, ao mesmo tempo em que alimentavam fantasias de jardim-de-infância. Sonhavam com o amanhã, mas era um amanhã fan- tástico, feito de sonhos de ficção científica juvenil e das mais loucas esperanças de sucesso. No entanto testemunharam e ajudaram a moldar o amanhã americano.

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As relações que mantinham com a masculinida- de, a sexualidade, o poder, a individualidade, a vio- lência, a autoridade e a moderna fluidez do indiví- duo eram tão intrincadas e profundas que seu traba- lho falava diretamente às ansiedades da vida mo- derna — e com um conhecimento de causa que ja- mais julgaram ter. A medida que o tempo passava, suas criações tornaram-se cada vez mais importan- tes. Eles previram e ajudaram a moldar a cultura geek, estabeleceram o padrão de franquia para en- tretenimento, criaram uma fantasia pronta para ser vendida à cultura do narcisismo de consumo. Pro- vocaram o surgimento de subculturas artísticas. E tudo isso sem saber direito o que estavam fazendo. Apenas seguindo adiante, tentando estar sempre um passo à frente, reunindo os fragmentos culturais que encontravam no Lower East Side, em Glenville e no Bronx e transformando-os em algo que pudes- se ser vendido de forma barata e rápida. Tudo isso feito depois de banir da consciência o ontem e ocupá-la com o sonho das riquezas que acumulari- am amanhã.

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A RUA

NO FIM, Harry era uma coleção de histórias. Quase não há registros sobre os primeiros 35 anos

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de sua vida, a não ser pelas histórias que ele e ou- tros contavam a seu respeito em bares, cassinos, reuniões de distribuidores, camarotes do estádio dos Yankees e durante as raras e breves aparições que fazia à mesa de jantar de sua família. Costuma- va dizer que tinha nascido na Romênia, em 16 de outubro de 1893, e chegado via Ellis Island aos 5 anos. Porém, quando seu filho foi atrás disso, um século mais tarde, não havia nenhum registro de que Itzhak Donenfeld, sua esposa ou os filhos Harry e Irving tivessem chegado à América. Harry dizia que tinha terminado seus estudos na New York University para aprender administração, mas lá também não havia nenhum registro. Não havia uma certidão de nascimento, um histórico escolar, um documento de negócios que ajudasse a traçar suas várias carreiras, seus altos e baixos, ou a ori- gem misteriosa do capital com que construiu sua posição na indústria de publicações. Tudo o que ha- via eram as histórias narradas por ele às gargalha- das, histórias difíceis de crer, cheias de descaradas bravatas. Algumas vezes essas histórias beiravam o ridí- culo. A quem lhe perguntasse como, durante a guerra, arranjava suprimentos generosos de papel, afirmava fazer parte do Brain Trust (Grupo de inte- lectuais que aconselhavam o presidente Franklin D. Roosevelt no início de seu mandato, durante a Grande Depressão. O Brain Trust funcionava como

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uma espécie de gabinete presidencial.) do presiden- te Roosevelt. Por que o homem mais poderoso do mundo ia querer Harry Donenfeld, um tampinha que saía para festejar usando uma camiseta do Su- per-Homem, em seu Brain Trust? “O velho me adorava!”, dizia Harry. “Uma vez prendi um fósfo- ro no sapato dele e toquei fogo.” (Então Harry não sabia que Roosevelt andava em cadeira de rodas? Ou será que aí é que estava a graça? Antes que al- guém pudesse perguntar, Harry já tinha descido três lances de escada e estava lá embaixo, cumprimen- tando efusivamente outra pessoa.) Mas às vezes o que parecia ridículo era mesmo verdade. Era fácil dizer que as supostas ligações de Harry com os maiores gângsteres da América não passavam de ficção. No entanto, assim que se deixava de acredi- tar nelas, aparecia alguma evidência. Lá estava Frank Costello (Francesco Castiglia, importante gângster ligado à Máfia que atuou nos EUA), que dava um jeitinho em tudo. A autopromoção descarada, a maneira absurda como glorificava a si mesmo, a recusa a se subme- ter à tirania do real e do possível, a crença de que histórias eram tudo o que importava — essas foram as dádivas de Harry para a indústria que ele ajudou a criar, a indústria que por fim tentaria apagar sua existência da memória, mesmo que carregasse para sempre um eco de suas risadas e mentiras. Harry enterrou muito de seu passado, mas as histórias que

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restaram servem como guias sobre quem ele era e como chegou onde chegou: de que modo um ho- mem que não dava a mínima para publicações, en- tretenimento ou crianças virou o editor da DC Co- mics e trouxe os super-heróis ao mundo. Harry foi parar em Nova York na crista de uma onda, já que 1899 foi o ano da diáspora romena. Havia mais de 20 anos que os judeus não paravam de chegar a Nova York vindos do império russo, mas a Romênia era um lugar melhor para ser judeu. Para ganhar o apoio da França e da Alemanha du- rante a guerra da independência, os romenos pro- meteram respeitar os direitos civis de todos os seus cidadãos. Falantes de iídiche abarrotaram o país, vindos da Rússia, Polônia e Ucrânia, misturando-se a comunidades já estabelecidas havia séculos de fa- lantes de turco, romeno e ladino e criando um mun- do judeu muito complexo e cosmopolita. No final do século XIX, algo entre um terço e metade da po- pulação de Bucareste e outras grandes cidades na Romênia era composto por judeus. Eles ocupavam cargos no governo da capital, e alguns viraram pre- feitos em cidades menores. Os judeus tinham gran- des empresas e dominavam o mercado de têxteis. Advogados e médicos proeminentes eram judeus. Parecia que a Romênia ia virar um paraíso judeu por excelência. Entretanto, depois que o governo romeno assen- tou suas bases, tudo mudou. A promessa de direitos

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iguais para todos os cidadãos foi mantida, mas o conceito de “cidadão” era aplicado somente aos cristãos. Os judeus foram proibidos de fazer comér- cio nas ruas. Finalmente, em 1896, os romenos mostraram, ao expulsar judeus de bairros inteiros e mobilizar jovens desempregados para promover o primeiro pogrom (Massacre de judeus. Ao longo do livro, diversas palavras em iídiche que entraram no vocabulário da língua inglesa são usadas. Tendo em vista a importância que o autor atribui à cultura ju- daica e iídiche, optou-se por preservar os termos nessa língua.) no país, que seu exaltado orgulho na- cional poderia ser tão odioso quanto o dos russos. Para um povo que acreditou nas promessas de futu- ro melhor, foi uma traição imperdoável. Com uma rapidez e uma união desconhecidas em qualquer outro país, os judeus solidarizaram-se. E foram em- bora. Estima-se que, entre 1899 e 1904, um terço dos judeus da Romênia emigraram para outros paí- ses — a maior parte deles para a América, mais es- pecificamente Nova York. Alguns mercadores ricos custearam o transporte da comunidade judaica de cidades inteiras. Milhares de homens e mulheres in- dignados demais para juntar o dinheiro da passa- gem de trem ou navio juntaram-se em um bando que cruzou os montes Cárpatos a pé e saiu do país, cantando canções em iídiche e por vezes usando os uniformes do exército romeno, num último kish mir im tuchus (Literalmente, “beije meu cu”. Usado

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no sentido de “foda-se”) para o país que os havia traído. Harry Donenfeld, assim como muitos de seus compatriotas, tinha uma raiva, uma certa arro- gância, uma tendência a ver os goyim (Pessoa não- judia) não como opressores de longa data, mas sim como trapaceiros e hipócritas. Então os judeus romenos chegaram a Nova York, e com eles os Donenfeld. Juntaram-se em torno da Primeira Sinagoga Romeno-Americana, na Rivington Street, onde se acomodavam e se espre- miam nos 15 quarteirões entre as ruas Allen e Lud- low, Houston e Grand, até que os próprios imigran- tes das redondezas ficaram perplexos e desanima- dos com a situação da vizinhança. Nessa época o Lower East Side já era o bairro mais populoso da história — meio milhão de pessoas em cerca de 2,5 quilômetros quadrados — e a parte romena era a mais densamente povoada, chegando a 1.500, 1.800 pessoas num único quarteirão. Rapidamente eles passaram a se identificar como romenos, encher as ruas de restaurantes famosos pela comida tempera- da e shmalts (Gordura de frango, usada na culinária judaica) e contar piadas sobre a comida e as roupas dos imigrantes recém-chegados dos shtetls (Peque- nos vilarejos judeus no leste europeu) russos. Logo ficaram famosos por suas belas vozes, pavio curto e crueza nos negócios com os goyim. Não se sabe muito bem o que Itzhak Donenfeld fez ao chegar com mulher e filhos. Temos apenas

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histórias da infância de Harry e Irving, em que ele aparece ao mesmo tempo como vendedor ambulan- te e negociante de roupas. Essa falta de documentos era comum entre os imigrantes judeus daquela épo- ca. Para passar por Ellis Island, muitas vezes era preciso desrespeitar a lei, mentir e subornar ofici- ais. Pessoas pagavam famílias para ser incluídas como “irmãos” nelas. Outras tinham que trocar de nome. Já na nova terra, um imigrante poderia ter outras razões para trocar de nome ou mudar sua data de nascimento. A crença popular dizia que o exército convocava primeiro garotos judeus e os mandava primeiro para o front — assim, dava-se um dinheirinho para um funcionário municipal e ele desaparecia com a certidão de nascimento. Ga- rotos de 12 anos passavam a ter 14 para poder tra- balhar, e seis anos mais tarde voltavam aos 16 para escapar da convocação. Anos mais tarde o próprio Harry quase perderia os direitos do Batman porque o pai de um jovem desenhista tinha feito sua certi- dão de nascimento desaparecer. A falta de documentos, nomes fixos e ascendên- cia definida, de fatos concretos a respeito das vidas deixadas para trás no Velho Continente, fazia com que fosse mais fácil e mais importante reinventar a si mesmo no Novo Mundo. Para um garoto como Harry, a realidade não era o que ele era, mas sim o que dizia ser. Cada conhecido era platéia renovada, mais um colaborador na autoria do novo Harry Do-

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nenfeld. Esta foi a tarefa assumida por uma geração inteira de jovens imigrantes: criar um novo “eu”, um novo tipo de jovem judeu, a partir do que esta- va disponível no Lower East Side. O lugar para onde foram trazidos pelos seus pais não era muito diferente das antigas vizinhanças em Vilna, Varsó- via ou Bucareste. O barulho na cidade não era de motores, mas sim de cascos e rodas de madeira. Mercadorias eram transportadas em carrinhos-de- mão e carroças. Os bondes eram puxados a cavalo. Somente os trens que passavam pelos vales escuros das ruas Chrystie e Allen traziam os sons do Novo Mundo. O lixo era jogado em sarjetas e travessas. Encanamento doméstico era uma coisa rara, e todas as manhãs o conteúdo dos penicos era despejado manualmente nos esgotos dos becos. O ar fedia. A luz elétrica começava a ganhar espaço em locais públicos, mas lojas e casas usavam querosene. Fora da sala de aula, a língua falada era o iídiche e, se al- guém ouvisse alguma outra língua na rua, era muito mais provável que fosse o russo, não o inglês. Os adultos se vestiam como sempre — barba, lã negra, chapéus de abas largas e babushkas (Espécie de echarpe triangular usada pelas mulheres ao redor da cabeça e amarrada no pescoço). Quando Harry Do- nenfeld era garoto, ainda era moda os cristãos bur- gueses de famílias tradicionais irem até o centro, aos domingos, para olhar aqueles judeus engraça- dos.

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No entanto eles tinham ido até lá para encontrar um Novo Mundo. Cortar os laços com a terra natal, vender posses de família, dar o último adeus a ir- mãos e pais, enfrentar o terror e o castigo durante a viagem — tudo feito em nome do futuro. A única vantagem imediata de estar na América era escapar do pogrom, e as notícias da imprensa iídiche sobre o crime nas ruas de Nova York e as quadrilhas de jovens goyim assassinos que rondavam a periferia dos bairros judeus não eram exatamente animado- ras. Todas as oportunidades da América — ganhar dinheiro, arranjar emprego, comprar terra — eram ainda apenas uma possibilidade. O sentimento mes- siânico que havia tumultuado o mundo iídiche no século anterior, o anseio de libertação que mantinha os hasidim (Judeus ortodoxos) se lamuriando e dançando nos shtetls enquanto o vizinho com mais senso prático vendia sua carroça e se mudava, tudo isso se transformou em fé ardorosa na promessa de um mundo novo. As crianças ouviam muitas vezes com toda cla- reza: não estavam vivendo para o hoje, mas para o amanhã. Harry disse que chegou a Nova York com 5 anos e sem lembranças do país natal. Só recorda- va a jornada. O novo mundo, entretanto, deu um sentido novo à mensagem repetida pelos pais. As crianças entenderam que teriam de se transformar em seres completamente novos para poder criar e depois ingressar nesse amanhã. E a maioria das fer-

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ramentas para a transformação não estava em casa, no shul (Sinagoga) ou na escola americana. Estava na rua. Os garotos Donenfeld raramente falavam de sua vida doméstica, mas podemos supor que foi tão di- fícil quanto a da maioria dos outros imigrantes do Lower East Side. Quando os dois irmãos mais ve- lhos, Charlie e Mike, atravessaram o oceano para se juntar a eles, seis pessoas tinham de dividir o mi- núsculo espaço no cortiço em que a família mora- va, na Orchard Street. Provavelmente os quatro ir- mãos dormiam na mesma cama, ou, como muitas outras crianças, no “quarto saguão” — arrumavam- se as camas no corredor de entrada do prédio de- pois que todos tivessem se recolhido —, o que os expunha a pisões e pontapés dos que chegavam tar- de ou acordavam cedo. Os excessos populacionais não eram os únicos: havia também os psicológicos. Os pais pressionavam os filhos a ir bem na escola, aprender inglês, um ofício e arranjar um emprego. As brincadeiras eram desestimuladas, especialmen- te as violentas. Um autor lembrou que sua mãe gri- tou “Alter, Alter, você quer me matar?” quando ele quebrou a perna jogando stickball (Jogo de rua com regras similares às do beisebol) “Mãe”, berrou ele, “afinal quem foi que quebrou a perna?” Os pais tentavam evitar que os filhos deixassem a escola para arrumar emprego, mas, quando a situ- ação financeira apertava demais, não havia escolha.

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No fim do século XIX, era proibido a crianças me- nores de 14 anos trabalhar em lojas e fábricas, mas a cidade de Nova York deu um jeito de burlar a lei. Cortiços inteiros foram designados “oficinas”, onde corte e costura e outros serviços poderíam ser exe- cutados sem supervisão oficial. Assim, as mães po- diam colocar seus filhos de 10, 8 ou 6 anos para trabalhar junto com os do vizinho. Um quarteirão podia ter diversas dessas oficinas. Estima-se que a Orchard Street abrigasse 200 delas em suas cinco quadras. Parece que os Donenfeld, às vezes, pega- vam trabalho terceirizado, já que mais tarde os ir- mãos de Harry, em seus relatos, falariam de tecido cortado na cozinha, à luz das lamparinas de quero- sene. Mas mesmo com o aumento na renda as pres- sões não diminuíam. Os pais que podiam pagar co- locavam seus filhos em aulas de hebraico. Alguns conseguiam bancar aulas de piano ou violino. E o tempo todo havia as lições de moral: garotos flagra- dos fumando, fazendo apostas, jogando bola, falan- do com garotas desconhecidas e andando sem cha- péu pelas ruas eram criticados e malhados sem per- dão. A sinagoga era uma extensão do lar, mas a nova geração dela se afastava ao mesmo tempo em que os pais defensivamente se refugiavam cada vez mais nela. Lincoln Steffens escreveu sobre o abis- mo entre as gerações: “uma sinagoga onde uns 20 garotos ficavam sentados sem chapéu, com suas

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roupas velhas, fumando nos degraus da entrada, en-

entravam na

sinagoga, arrancando os cabelos e rasgando os tra-

jes

Moisés: eram almas perdidas.” Mais tarde, lem- branças alteradas pela nostalgia criariam uma ima- gem sentimental do Lower East End como uma vida próspera, uma experiência feliz para o povo judeu, mas naquele momento toda uma geração de jovens ansiava sair dali — ir para longe do bairro, para longe da Yiddishkeit (Condição iídiche). A escola era um alívio para muitas crianças, e uma desculpa para sair de casa que nenhum pai re- criminava. Mas era também muito sufocante: 40 ou 50 crianças numa sala, carteiras encostadas umas nas outras. Dez horas de aula por dia para os que faziam aulas extras de inglês. Além disso, a escola parecia não corresponder à propaganda que dela fa- ziam. Os professores não eram rabinos respeitados pela comunidade, mas jovens irlandesas aguardan- do por um marido que as arrancasse da miséria. Al- guns filhos de imigrantes ascendiam socialmente graças à escola, viravam advogados e médicos, mas possibilidades como essas eram remotas para garo- tos como os irmãos Donenfeld, que não tinham tempo nem dinheiro para isso. Os all-rightniks (Ju- deus emergentes que passaram a constituir uma classe média) que economizavam o suficiente para sair do Lower East Side raramente eram os imi-

quanto seus pais, vestidos de preto [

[

].

]

Os filhos rebelaram-se contra as leis de

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grantes mais cultos. Eram quase sempre os comer- ciantes mais astutos, que abriam suas próprias lo- jas, ou então os sortudos fabricantes de roupas que entraram no ramo quando ele se expandiu, ou ainda os negociantes que se deram bem no ramo imobi- liário do Brooklyn. Para um garoto inquieto, ambicioso e impacien- te, o grande palco da vida não era sua casa, a escola ou o shul, mas a rua. Nela as crianças se encontra- vam e trocavam opiniões a respeito de como vencer na América. A rua se abriu para o mundo. Os pais de famílias imigrantes conheciam pouca coisa fora do gueto além do caminho que eles tinham de per- correr — rapidinho e de cabeça baixa — até as fábricas ou negócios, mas as crianças logo expandi- ram os horizontes geográficos. Aprenderam a esco- lher a rota mais segura para atravessar o território dos irlandeses, eslavos, alemães e italianos ao re- dor. No cais, descobriram esconderijos onde podi- am fumar e ver o mundo além da ilha. Aprenderam a pegar carona em bondes e a dar um jeito de entrar num trem até Coney Island ou o Central Park. Poucos garotos eram tão inquietos, ambiciosos e impacientes como Harry Donenfeld. As histórias de sua infância giravam em torno de sua energia. Língua incansável, jeito matreiro, apetites insaciá- veis. Não há fotos da infância de Harry, mas mes- mo em suas imagens de adulto é possível reconhe- cer um pivete: os olhos acesos como faróis em bus-

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ca de lucro ou travessuras, o sorriso ganancioso e uma gargalhada pronta para emergir. Décadas após a morte de Harry, seu filho falou com tristeza sobre suas longas ausências, sobre o pai mulherengo, jo- gador e desinteressado da vida dos filhos que era. “Ele vivia somente para si mesmo”, disse Irwin. “Sempre tinha mais o que fazer.” Então, sem se dar conta, Irwin abriu um sorriso de admiração: “Ele não sossegava nunca!” Harry cresceu na rua, e foi ali que passou de ca- çula da família a força motriz dela. Charlie e Mike, quando chegaram, já eram adolescentes taludos, não ganharam fluência no inglês, e nunca deixaram de ser imigrantes recém-chegados e desajeitados. Irving e Harry eram os americanos da família, mas Deus deu às suas línguas destinos diferentes: en- quanto Irving gaguejava, para Harry as palavras fluíam como vinho. Harry gostava de contar histó- rias sobre suas implicâncias com o irmão, princi- palmente se ele estivesse ouvindo. Gritava para al- guma garota bonita: “Ei! Meu irmão quer falar com você!” Ao jogar craps (Modalidade de jogo de da- dos), Harry atirava os dados aos berros de “cante os números, Irving!” Irving ficava vermelho, saía chu- tando o ar com raiva, o que deixava Harry feito uma estrela, sorrindo, olhos brilhando. Quando chegou a hora de arrumar um emprego, Irving deu um jeito de dominar as palavras sem precisar falar:

virou tipógrafo. Harry virou anunciador, arrastando

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clientes para uma loja de roupas com seus berros

musicais ou colocando flores na lapela de solitários imigrantes recém-chegados, convidando-os a co- nhecer uma pista de dança onde se podia sentir um pouco de calor feminino por 5 centavos a valsa. A habilidade de Harry para fazer com que as pessoas gostassem dele foi especialmente útil nas gangues. Quase todos os garotos do Lower East Side faziam parte de alguma. Elas se formavam nas entradas dos cortiços, recrutando garotos por meio de ameaças — menos os que já estivessem em ou- tra gangue maior ou mais durona, da pesada. Essas gangues estavam criando algo novo no mundo: cri- anças judias violentas. Os modos que seus pais ti- nham aprendido no Velho Mundo, mantendo a ca- beça baixa e evitando contato com os goyim, não funcionavam no Novo Mundo. As crianças obser- vavam seus camaradas da América — irlandeses e sicilianos — e adotavam aquela arrogância. E isso não foi um processo inconsciente. Um garoto durão lembrou dos adultos discutindo na casa de seu pai,

na Polônia, quando alguém disse: “Judeus [

por

que vocês ficam lá parados como ovelhas estúpidas e deixam que venham e matem vocês, roubem seu dinheiro, matem seus filhos e estuprem suas filhas?

Vocês não têm vergonha disso? É preciso resistir e lutar. Vocês são homens como quaisquer outros

]

Revidem e eles vão sair correndo. Se vocês

vão morrer mesmo, pelo menos morram lutando”.

]. [

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Alguns anos depois, o garoto diria que esse discur- so “ficou gravado na minha memória. Levei as pa- lavras comigo quando viajei com minha mãe para a América e para o Lower East Side. Lembrei dessas palavras quando revidei os ataques dos irlandeses no East Side, quando era garoto. Elas se cravaram como flechas de fogo em meus pensamentos”. Mas esse garoto ainda não fazia parte da vida de Harry. Meyer Lansky pertencia ao futuro. Em apenas uma geração, os garotos judeus pro- varam que tinham tanto talento para roubar e se meter em brigas como quaisquer outros. Ainda em 1890, observadores afirmavam que “o judeu é um imigrante exemplar, sem nenhuma tendência à de- linquência”. Mas em 15 anos o número de crianças judias levadas ao juizado de menores era igual ao número de judeus na rede de ensino. Os mais alar- mistas chegaram a chamar os judeus de “crimino- sos inatos”. Já adulto, Harry afirmava ter feito parte de qua- se todas as gangues existentes no East Side. É fácil imaginá-lo pulando de uma gangue a outra, ga- nhando a simpatia de todos, mas jamais desperdi- çando sua energia em algo como lealdade. Conhe- cia os membros das “gangues da pesada”, que rou- bavam os comerciantes, extorquiam dinheiro dos vendedores ambulantes e, mediante pagamento, promoviam incêndios criminosos e até mesmo co- metiam assassinatos. Eles eram parte da paisagem.

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Jack Kurtzberg, que cresceu no mesmo bairro que Harry e mais tarde desenhou quadrinhos para ele, disse: “Alguns de meus amigos viraram gângsteres. Você também viraria, se quisesse juntar dinheiro rápido para comprar um terno”. Mas Harry nunca gostou de sofrer, e durante toda a vida ele se aper- feiçoaria na arte de ficar longe das brigas e da ca- deia. Aproximou-se quase sempre dum tipo de gan- gue menos perigosa. Participava de brigas por terri- tório, saía atrás de cerveja e cigarros, jogava craps apostando uns trocados e jogando as moedas nos degraus, cometia pequenos delitos e batia carteiras. Harry mostrou-se um especialista em alguns desses delitos. Foi ele quem descobriu que a grama do vizinho era sempre mais verde. Liderando sua gangue, passava pelas ruas Bowery, Kenmare e Mulberry até chegar ao coração da Little Italy. Era fácil para aquele garoto franzino, com sotaque iídi- che, distrair os vendedores ambulantes de comida. Ele enchia o sujeito de perguntas sobre o que era cada coisa e fingia que pechinchava. As pessoas riam e perguntavam que diabos ele estava fazendo longe de seu bairro. Enquanto isso, seus amigos pe- gavam algumas maçãs e saíam correndo. Harry era o último a sair em disparada, mas era bem rápido. Uma vez, ao atravessar a Bowery, uma gangue de garotos italianos cruzou o caminho deles. Os outros levaram uma surra, mas Harry escapou. Quando voltaram mancando para casa, cheios de hemato-

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mas e ensanguentados, encontraram Harry nos de- graus do cortiço, comendo uma maçã. Fingindo es- tar surpreso e zombando deles, disparou: “Cara, o que aconteceu com vocês? Eu disse para entrar na rua Mott!” A criminalidade fez os pais preocupados tirarem suas crianças das ruas, e assim a palavra “rua” pas- sou a ser muito visada pelos imigrantes, professores e reformadores. Mas as ruas não ensinavam apenas o crime: nelas as crianças aprendiam a anunciar al- gum produto, a comprar na baixa e vender na alta. Aprendiam como mentir sem ser apanhados, até que ponto deviam proteger os parceiros e quando era preciso dar um sermão neles. As ruas também ensinavam um tipo de promoção pessoal que se tor- naria de suma importância para o novo estilo indi- vidual americano. Eddie Iskovitz era um ano mais velho que Harry, morava a alguns quarteirões dele, na Henry Street, foi seu colega na escola pública por alguns anos e seu amigo durante os primeiros anos do novo século. Eram membros das mesmas gangues, praticavam os mesmos delitos. Mas Eddie era pobre de dar dó: ficou órfão cedo e foi criado pela avó, uma viúva que trabalhava como vendedo- ra de porta em porta. Eddie tinha de pagar boa parte das despesas com comida e aluguel, então deixou a escola para cantar e dançar nas esquinas em troca de moedas. Havia muitas crianças cantando em es- quinas no Lower East Side. Eddie aprendeu a se

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destacar dando um grande sorriso, agitando os bra- ços e cantando a plenos pulmões. Ele segurava a platéia dando piscadelas, rolando os olhos e dirigin- do insinuações maliciosas às pessoas que o assisti- am. No fim da adolescência ele fazia apresentações cômicas, e Harry já dizia: “Vocês têm que ver esse Eddie Cantor (Eddie Cantor (1892-1964) foi um fa- moso cantor, ator e, principalmente, humorista nos Estados Unidos)! Ele é meu amigo!” O estilo Can- tor virou o estilo de Harry: sorridente, com olhos enormes, moleque, o amigo atrevido de todos. Mas, por baixo de tudo isso, esperto. Sempre atento às reações do público, pronto para aproveitar as opor- tunidades. Sem parar na escola, no trabalho ou nas gan- gues por muito tempo, Harry moldou sua personali- dade a partir de uma série de shticks (Palhaçadas) e histórias. Ninguém dizia que ele era especialmente esperto, durão ou o que quer que fosse, mas as pes- soas que o conheciam o achavam engraçado, gosta- vam de receber sua atenção e acreditavam que um dia no futuro ele era bem capaz de chegar aonde queria. Tinha o dom de perder dinheiro jogando da- dos e cartas, mas também o dom de se recuperar fe- chando um lucrativo negócio, fazendo um serviço misterioso para algum brutamontes ou passando uma rápida temporada como vendedor numa loja de roupas. Harry estava virando um novo tipo de vendedor ambulante, capaz de acompanhar sem di-

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ficuldades uma América que mudava a cada dia, em plena farra da economia superaquecida e co- mandada pela publicidade: um vendedor que ven- dia a si mesmo.

HAVIA OUTRAS maneiras de criar uma nova identidade. Em 1899, em Proskurov, na província de Podolia, na Ucrânia, ou quem sabe em um dos shtetls próximos, uma mulher de vinte e poucos anos chamada Mindl se casou. Ela e o marido tive- ram um filho, em 10 de novembro de 1900, e cha- maram-no Yacov. O pai desapareceu em seguida. Ninguém sabia aonde tinha ido. Mais tarde, Mindl disse que ele foi fraco demais para encarar a res- ponsabilidade de sustentar uma família e se man- dou para algum outro lugar, onde pudesse ganhar dinheiro e guardá-lo para si — quem sabe a Améri- ca. Ela nunca revelou a Yacov o nome do pai:

“Aquele homem nos abandonou. Ele não é o seu pai.” Todas as pistas sobre a paternidade de Yacov, sobre seu verdadeiro sobrenome, ficariam perdidas nas ruas imundas de Proskurov. Quando desistiu de esperar pelo marido, Mindl retornou à casa dos pais, divorciou-se na sinagoga e espalhou a notícia de que uma mulher pobre, aban- donada com seu bebê, estava à procura de um ho- mem que ficasse a seu lado. Esse homem apareceu na forma de Yulyus Lebovitz, quando Yacov tinha 3 anos. A família tinha lá suas dúvidas: Lebovitz

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era um socialista, um peleteiro envolvido com o sindicalismo, uma atividade arriscada no império do czar. Mas ele era honesto e gentil, dedicado a cuidar das pessoas, e um defensor ardoroso de mu- lheres exploradas por homens. Prometeu a Mindl que cuidaria dela e do filho para sempre, e isso já era mais do que qualquer mulher na situação dela podia querer. Casaram-se em seguida e logo ela teve mais filhos: ao completar 10 anos, Yacov tinha cinco meios-irmãos. O socialismo ganhava força entre os judeus rus- sos, porque prometia não apenas livrar os trabalha- dores da exploração, mas também livrar o mundo de mentiras que prejudicavam o bem-estar dos ju- deus. Sob o socialismo, o sentimento de justiça e ajuda mútua dos judeus sobreviveriam, mas as idéi- as religiosas sem sentido poderiam ser eliminadas. Essa ânsia por um futuro melhor foi a mesma que alimentou as idéias messiânicas entre os ortodoxos e o assimilacionismo entre os filhos de imigrantes na América. Mas a luta pelo socialismo também serviu, involuntariamente, é claro, para alimentar ainda mais o anti-semitismo russo durante a infân- cia de Yacov Lebovitz. Os partidários da direita responsabilizavam os socialistas judeus pela revo- lução de 1905, que forçou o czar a aceitar uma constituição. Nos últimos meses daquele ano, 700 pogroms foram promovidos no território do impé- rio, quase 40 só na província de Podolia. Proskurov

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escapou sem grandes estragos, mas todos ficaram sabendo dos 500 mortos em Odessa e dos 100 de Kiev, assassinados com o consentimento da polícia. Mais tarde, Yulyus Lebovitz contaria a seu filho adotivo histórias de encontros sindicais interrompi- dos pelo exército e da perseguição policial que so- freu. Enquanto isso, notícias do novo mundo que es- tava sendo construído na América enchiam as ruas. Tudo o que se publicava na Rússia era duramente censurado, mas jornais em iídiche estrangeiros eram contrabandeados e distribuídos. O jornal nova-iorquino Forverts (“A Vanguarda”) defendia aberta e entusiasmadamente o socialismo e os direi- tos políticos dos judeus. No inverno de 1909 e 1910, Yulyus Lebovitz leu a respeito da “greve das blusas”, organizada por um novo grupo chamado International Ladies Garment Workers Union (Sin- dicato Internacional dos Trabalhadores da Indústria de Roupas Femininas, daqui em diante abreviado SITIRF). Oitenta por cento dos membros eram mu- lheres judias. O Forverts publicou a história de uma “frágil menina” chamada Clara Lemlich que, durante uma reunião do sindicato, deu um jeito de subir no palco e declarou, em iídiche, “sou uma operária”. Então passou a descrever as “condições inadmissíveis” de trabalho e propôs uma greve ge- ral, idéia recebida com aplausos entusiasmados. Al- guns dias depois, 20 mil trabalhadores da indústria

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de roupas interromperam suas atividades. O movi- mento foi chamado de “Levante das 20 Mil”, ou “Grande Revolta”. Na verdade, Clara Lemlich tinha

vinte e poucos anos, era militante socialista, e tudo tinha sido planejado; no entanto, histórias senti- mentais eram bem-recebidas pelos que apoiavam a esquerda e pelas pessoas não politizadas. Foi com certeza uma história bem-recebida por Yulyus Le- bovitz, defensor das mulheres e crianças. Os jornais de esquerda continuaram publicando, por semanas

a fio, notícias das trabalhadoras que enfrentavam o

frio, a polícia e os que furavam a greve. No início da primavera, os fabricantes cederam e aceitaram uma jornada de trabalho de 52 horas semanais, pa- gamento de feriados e permissão de assembléias sindicais. O SITIRF, dominado por socialistas, era

uma importante força política. Na mesma primavera, outra notícia chegou de Kiev: 1.200 famílias judias tinham sido expulsas da cidade. Dezenas delas foram parar em Proskurov, com os recém-chegados implorando a seus amigos

e parentes um canto onde pudessem dormir, no só-

tão ou na entrada, cheios de maus pressentimentos

a respeito do que ainda estava por vir. Para Yulyus

o futuro era óbvio: na Rússia, a morte abateria qualquer judeu disposto a ajudar na construção de um movimento socialista internacional. Mas na América isso seria possível, e lá sua família não te- ria que sofrer. Em 1910, ele levou a família para

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Nova York. Tornou-se Julius Liebowitz, marido de Minnie, trabalhando às vezes na indústria de roupas e dedicando-se em tempo integral ao SITIRF. O pe- queno Yacov, agora com 10 anos, virou Jacob e de- pois Jack. Tanto Julius como Jack descobriram, de dife- rentes modos, as ruas do Lower East Side. Para Ju- lius, elas eram o lugar onde se vendiam jornais so- cialistas e distribuíam-se panfletos dos sindicatos; um lugar onde os trabalhadores podiam se reunir e promover manifestações. Socialistas, comunistas e anarquistas brigavam por idéias e concepções po- líticas, mas no fim concordavam em ridicularizar os democratas corruptos e os tolos religiosos. Jack abriu seu caminho nas ruas como jornalei- ro. As lojas de roupas no cortiço não eram a única forma encontrada pelos empregadores para burlar a lei e explorar o trabalho infantil no novo século:

outro modo evidente dessa exploração eram os ga- rotos que vendiam jornais gritando as manchetes e correndo para cima e para baixo nas ruas da cidade. A indústria de jornais dependia muito de meninos de 9, 10 ou 11 anos que estivessem dispostos a abrir caminho pela cidade, anunciando jornais e ga- nhando 1 dólar por dia. O apelo emocional dos jo- vens jornaleiros, alegres e destemidos que apareci- am nas tiras de quadrinhos da época eram um es- forço para manter o sentimento público do lado da indústria quando os reformadores propuseram que

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as leis contra o trabalho infantil incluíssem também

a venda de jornais. A vida de jornaleiro não era fe-

liz. O expediente era longo, o dinheiro era incerto,

o risco de ser assaltado era alto e as brigas por terri- tório e vendas eram constantes. Mas Jack se deu bem. Ele tinha orgulho de ser jornaleiro. Teve mui- tos outros empregos durante a juventude, mas de- pois de adulto só falava a respeito da época em que gritava as manchetes. Jack era uma criança séria, de olhos escuros e olhar penetrante. Parecia mais alto do que de fato era, graças à sua magreza, à sua forte angulosidade, ao seu modo de ficar em pé tão ereto quanto possí- vel e às suas passadas largas. Não sorria nem brin- cava muito, nem mesmo quando garoto. Trabalha- va, observava, vendia e aprendia. Aprendeu a fazer seus patrões deixarem-no ficar nas melhores esqui- nas e também como vender aos trabalhadores sua dose diária de crime, corrupção, sangue e quadri- nhos. Aprendeu inglês rápido, esforçou-se para aca- bar com o sotaque iídiche e escolheu como modelo não os cafetões e vândalos que povoavam a imagi- nação de Harry Donenfeld, mas os homens de ne- gócios arrumadinhos que compravam seus jornais e os militantes socialistas que iam até sua casa para falar sobre o destino dos trabalhadores. Era extre- mamente leal a seu padrasto, e discutia com ele a organização de seus colegas jornaleiros, as brigas com os garotos que criticavam os sindicatos e o de-

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sejo de entrar para o Partido Socialista Trabalhista (Socialist Labor Party) assim que tivesse idade su- ficiente. Mas a lembrança mais forte de sua infância era

a pobreza. Lembrava das somas irrisórias que o pa- drasto trazia para casa, resultado do trabalho no

sindicato. Lembrava dos empréstimos que a família contraía com outros trabalhadores para cobrir o alu- guel, das roupas esfarrapadas que passavam do ir- mão mais velho para o mais novo, da preocupação constante da mãe com a falta de dinheiro. “Conse- guir pagar todas as contas era sempre complicado para ele, devido aos seus ideais”, afirmou Jack com delicadeza, já adulto. A mãe nunca falava nada contra o pai ou o socialismo: afinal, ele havia sido sua salvação. Mas Jack percebia que aquela não era

a vida que ela desejava. Um sonho de prosperidade

estava sempre no ar, o mesmo sonho que seu pri- meiro marido saiu a perseguir junto com outros ma- ridos e filhos lá da sua terra. Jack trabalhava tanto quanto podia, e com o dinheiro que conseguia guar-

dar ajudava nas despesas da casa. Quando não esta- va trabalhando, estava estudando. Queria estar pre- parado para o que quer que acontecesse em sua vida. Jack sempre falava do período difícil nas ruas com uma certa satisfação, da mesma forma que Harry Donenfeld se realizava com histórias de gân- gsteres e encrenca. Ambos pertenciam a uma gera-

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ção de garotos que nunca foram adolescentes, mas que conservaram para sempre emoções e fantasias adolescentes: passaram direto da infância à vida adulta, virando-se com uma garra que misturava o cinismo mais negro com uma paixão pela aventura típica da juventude. Harry viveria mais intensamen- te sua meninice. Jack já agia como um adulto aos 12 anos, mas sempre era capaz de reconhecer uma boa fantasia adolescente quando encontrava uma. Em março de 1911, poucos meses depois da chegada dos Liebowitz a Nova York, um incidente horrorizou a comunidade judaica. Esse aconteci- mento teria muitos reflexos nas histórias de Jack Liebowitz e Harry Donenfeld. A Fábrica de Blusas Triangle pegou fogo, e centenas de meninas e jo- vens mulheres ficaram presas nove ou dez andares acima do solo. Algumas saltaram das janelas, cain- do com os vestidos esvoaçantes em chamas e mor- rendo ao atingir a calçada. Em apenas 15 minutos, 146 meninas, dezenas das quais com apenas 13 ou 14 anos — quase todas judias — morreram. Nos dias que se seguiram, as pessoas descobriram por que algumas delas pularam: os donos tinham acor- rentado as portas de saída para evitar que fizessem intervalos. Para Julius Liebowitz e os organizadores do SI- TIRF, esse foi um momento decisivo, que deu iní- cio à mais furiosa e bem-sucedida luta pela reforma das condições de trabalho. Para Jack, então com 10

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anos, era uma demonstração da brutalidade decor- rente da pobreza. Ele conhecia crianças na escola que tinham perdido irmãs na fábrica Triangle. As histórias contadas pela família Donenfeld divergem

sobre o efeito que o incêndio teve na vida de Harry. De acordo com uma delas, Harry salvou sua futura esposa, Gussie, ao pedi-la em casamento e implorar que deixasse seu emprego de costureira na fábrica Triangle alguns dias antes do incêndio — mas na época ele tinha apenas 17 anos e provavelmente ainda nem conhecia Gussie. Outra versão conta que ele presenciou o incêndio. Daí em diante, sempre se recordava do episódio quando ficava bêbado e sen- timental, repetindo que o que importava eram as pessoas, não o dinheiro. Talvez nenhuma das histó- rias seja verdadeira, mas ambas dão idéia de como

o incêndio se tornou para ele um símbolo da proxi-

midade da catástrofe e de como somente a sorte ou um certo egoísmo podia mantê-la afastada. Harry correria atrás de dinheiro a vida inteira, mas tam- bém estaria sempre pronto a queimá-lo com jogo

ou paixões. Talvez o incêndio servisse para lembrá- lo quão essencial e ao mesmo tempo insignificante

o dinheiro podia ser. No entanto, o incêndio na fábrica Triangle tam- bém ensinou algumas lições sobre a confusão que poder e dinheiro causavam no Novo Mundo. Na Ucrânia ainda se acreditava que o mundo estava di- vidido entre o povo escolhido e os goyim, que sem-

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pre era melhor para os judeus permanecer juntos. Mas Julius Liebowitz teve que explicar para os imi- grantes que formavam o baixo escalão do sindicato que os donos da fábrica Triangle, Isaac Harris e Max Blanck, também eram judeus, como aliás 90% dos donos da indústria de roupas nova-iorquina. Era fácil odiar os policiais irlandeses lançados con- tra eles em meio a uma greve, mas quem os chama- va eram judeus austríacos e alemães que moravam em meio às famílias gentias no Upper East Side, e foram bombeiros irlandeses que choraram sobre os corpos das meninas da Triangle dispostos na calça- da. Os periódicos que Jack Liebowitz vendia na rua, especialmente o Journal, de William Randolph Hearst, se aproveitaram do incêndio para posar de amigos dos trabalhadores, mas ele sabia que, longe do público, os editores lutavam contra o movimen- to sindical e as leis de trabalho infantil. Liebowitz pai e Liebowitz filho também apren- deram o que era necessário para sobreviver na selva capitalista. A Tammany Hall, a máquina de corrup- ção tocada por irlandeses que controlavam o Parti- do Democrata na cidade, lucrava com prostíbulos e antros de jogatina que tiravam o dinheiro dos traba- lhadores e avançavam no bairro judeu. Assim, na eleição para prefeito de 1896, a comunidade judai- ca entregou seus votos a um candidato reformista do Partido Republicano. Porém, depois de eleito, o prefeito William

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Strong iniciou de imediato processos contra comer- ciantes que abriam suas lojas aos domingos (um golpe mortal para os judeus praticantes que não abriam suas lojas aos sábados), além de ordenar que as carrocinhas dos vendedores ambulantes fos- sem retiradas das ruas. A manobra levou muitos à ruína. A partir daí, o Lower East Side ficou nas mãos corruptas da Tammany, ainda que a contra- gosto. Se a polícia estava do lado dos patrões, sin- dicalistas como Julius Liebowitz teriam que conse- guir o apoio dos criminosos mais perigosos da cida- de.

E os brutamontes já tinham entrado na briga. Fabricantes de roupas contratavam gângsteres para acabar com as greves. Na Grande Revolta de 1910, os donos das fábricas contrataram tantos shlam- mers (Brutamontes) que os sindicatos se viram for- çados a pagar um preço mais alto para contratar gente como “o Viciado Benny” Fein e “o Seboso” Rosenzweig para proteger os trabalhadores. Os gângsteres logo se infiltraram não apenas nos pi- quetes, mas na própria organização dos sindicatos. Em 1915, 23 sindicalistas, entre eles o tesoureiro do SITIRF, foram julgados por cumplicidade no as- sassinato de um trabalhador que furou a greve. Só foram absolvidos graças à intervenção de um juiz corrupto da Tammany. O jovem Jack via os criminosos sob uma outra perspectiva. À medida que as gangues ficaram mai-

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ores e mais violentas, passaram a tomar conta de grandes partes do bairro — de início apenas promo- vendo alguma atividade ilegal, mas logo consegui- ram, através da extorsão, negócios legais. Para ter uma banca de revistas ou colocar jornaleiros nas es- quinas era preciso tratar com a gangue que coman- dava a rua. Jack viu garotos que tentavam invadir o quarteirão de um rival serem surrados e ouviu as histórias de distribuidores iniciantes que foram re- talhados com os canivetes usados para cortar o bar- bante que prendia as pilhas de jornal. Quando He- arst montou sua própria distribuidora para concor- rer com o monopólio da American News Agency, tratou diretamente com as maiores quadrilhas de criminosos para arranjar territórios lucrativos nas grandes cidades da América. A maior “guerra de distribuição” foi em Chicago, entre 1912 e 1913, quando 27 jornaleiros foram assassinados. Alguns anos mais tarde, Hearst contratou um de seus bruta- montes de Chicago, Moe Annenberg, para cuidar da distribuição em Nova York. O jovem Jack nem suspeitava que no futuro teria negócios com Moe Annenberg e, se suspeitasse, provavelmente ia pre- ferir continuar sem saber. Mas ele começou a pen- sar que precisaria colaborar com esses homens se tinha intenção de sobreviver. Jack foi educado de forma a acreditar que os ideais defendidos por socialistas, reformistas e seus mestres eram capazes de trazer ordem ao mundo e

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aumentar o bem-estar das pessoas. Ao mesmo tem- po, aprendeu depressa que tudo que defendiam es- barrava num fundo de competição selvagem e au- sência de qualquer ética. Sabia desde garoto que as coisas nunca eram bem como se apresentavam. Ha- via um grande abismo entre as histórias que a América contava a respeito de si mesma e a reali- dade vivida. Algumas vezes as diferenças causa- vam repulsa, outras eram hilariantes. Quase todos os conhecidos de Jack, além dele próprio, viviam nesse abismo, falando sobre uma realidade e viven- do em outra. Talvez por isso Jack tenha encontrado paz no mundo dos números. Havia pensado em estudar di- reito e contabilidade no colégio, sabendo que o mo- vimento socialista precisava de gente com essas ha- bilidades, mas foi nas práticas contábeis que desco- briu o gosto de fazer o balanço num livro-caixa, de lançar números que não se alteravam e fechavam sem diferenças no rodapé da página. Ele sabia, an- tes da idade adulta, que o que mais queria era ga- nhar dinheiro para sustentar a família e se livrar do horror diário das contas e dívidas. Tinha esperanças de que um dia o socialismo tornaria isso possível, mas enquanto essa hora não vinha tentava garantir o que era seu. Estabeleceu como meta tornar-se contador. Quando Jack começou a estudar, as perspecti- vas de um jovem judeu em Nova York eram razoa-

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velmente boas. A comunidade de imigrantes judeus já tinha passado pelo período mais difícil. O núme- ro de novos imigrantes caiu drasticamente em 1914, com o início da guerra na Europa, e a prospe- ridade crescente levava as famílias ao Bronx, ao Brooklyn e a New Jersey. O velho bairro, agora sem a antiga superpopulação, tivera as ruas asfalta- das, ganhara luz elétrica e bondes, além das pontes Manhattan e Williamsburg, que davam acesso ao mundo. Os movimentos reformistas liderados por judeus melhoraram as condições de moradia e des- barataram muito da jogatina, prostituição e crimi- nalidade que ali havia. A prosperidade econômica que acompanhou a entrada dos Estados Unidos na Primeira Guerra Mundial foi especialmente benéfica para a indústria de roupas. O segmento crescia rapidamente à medi- da que a moda começava a adquirir importância na vida dos trabalhadores e da classe média-baixa. Aliando a guerra a uma economia fortalecida e à interrupção nas importações da Europa, o ramo de vestuário deslanchou. Os sindicatos eram fortes e unidos, capazes de conseguir concessões dos pa- trões sem a necessidade de apelar para a greve. Quando a gangue do Viciado Fein foi desbaratada pela polícia — por certo com ajuda de algum sindi- calista infiltrado — o movimento sindical livrou-se das quadrilhas. Socialistas moderados como Julius Liebowitz mantinham-se firmes na liderança do SI-

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TIRF e outros sindicatos judeus. Julius nunca fora tão feliz: a família ainda não era muito próspera, mas o SITIRF tinha grande potencial. Ele não tinha se revelado um líder, mas sim um organizador consciente e diligente. Uma de suas responsabilida- des era a produção e distribuição de panfletos. Nes- sa atividade, topou com a Martin Press, uma editora que pertencia aos irmãos Charlie, Mike e Irving Donenfeld. Os judeus estavam ganhando espaço na indús- tria gráfica no início do século. Em Nova York, o ramo era dominado por alemães, irlandeses e esco- ceses. Os negócios passavam dos pais tipógrafos para seus filhos e aprendizes, e parecia não haver mais espaço para estreantes. Mas havia algo que os antigos tipógrafos não dominavam: os caracteres hebraicos usados no iídiche. E os judeus eram o grupo étnico mais letrado e os leitores mais vorazes da América. A demanda por panfletos e catálogos para lojas surgiu com a vinda dos imigrantes, e na última década do século XIX florescia um mercado de jornais em iídiche. Os jovens trabalhadores ti- nham um apetite insaciável por livros, especial- mente romances de amor e aventura. E, ainda que os livros em iídiche importados da Europa tenham apaziguado essa fome por um tempo, tipógrafos em Nova York produziam cópias baratas e mais “ian- quecêntricas” deles já no fim do século. Os que conseguiam atender à demanda prosperavam.

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Irving Donenfeld, trabalhando duro sem usar sua língua gaguejante, fez fama como bom tipógra- fo. Os dois irmãos mais velhos juntaram suas eco- nomias às dele para juntos abrirem um negócio. A medida que o bairro mudava, passaram a publicar mais coisas em inglês, e se dedicaram com afinco ao comércio de panfletos, catálogos e páginas para alguns dos mais baratos entre os “livros baratos” e “folhas de histórias” nas bancas de jornais. Ofereceram ao caçula Harry um lugar na firma, mas suas paixões o levaram por outros caminhos.

NÃO ESTÁ registrado quando Harry descobriu as garotas mas, provavelmente em 1906 ou 1907, ele descobriu algo mais interessante do que conver- sar ou fazer apostas. Ele não parecia adequado para o papel de conquistador: era baixo, comum e con- vencido, tinha um senso de humor grosseiro e se expressava sem muito cuidado. Mas tinha energia, visão global e uma fome insaciável quando deseja- va algo. E era isso o que ele queria. Sexo não era nenhum mistério para os garotos que cresciam no Lower East Side. A própria vizinhança acabava com qualquer resquício de pudor ou discrição que os pais tentassem manter a respeito do tema. A Tammany Hall tinha ajudado a transformar a área na mais famosa e talvez maior zona de prostituição do país. Michael Gold escreveu que os pedestres na Allen Street “saíam tropeçando naquele corredor

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formado pelas pernas carnudas das putas”. Lincoln Steffens descreveu garotinhas que moravam num cortiço em que passavam as tardes vendo uma pros- tituta que não tinha dinheiro para comprar cortinas atender os clientes. Décadas mais tarde, quando os censores insistiam que as crianças tinham que ser protegidas de imagens como o traje sumário da Mulher Maravilha nos quadrinhos de Harry, isso deve ter parecido mais loucura e hipocrisia dos goyim. Na adolescência, Harry já tinha aprendido a se vestir como um “cadete”, que era como a vizinhan- ça chamava os cafetões que trabalhavam nos prostí- bulos e salões de dança. Cultivou um bigode bem aparado e passou a usar botas de salto, para que pa- recesse mais alto que seu 1,55 m. Aprendeu a dan-

çar e a ter lábia, a reconhecer as garotas que aceita- riam dar uma volta pelas ruas à noite em troca de cigarros, cerveja e um passeio até Coney. Não dei- xava escapar as oportunidades de entrar numa viela

e levantar uma saia. Harry nunca contava vantagem

sobre a beleza ou qualidade de suas mulheres, mas exaltava a quantidade delas e seu entusiasmo. Conheceu também o poder da moda: o brilho nos olhos de uma garota quando a presenteava com

o mais recente chapéu ou casaco, uma cópia barata

de algum original de Paris comprado numa loja da Second Avenue. Aqui os desejos e o poder de ven- da de Harry se misturavam. A boa apresentação, a

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lábia com mulheres de todo tipo e o olho clínico para o que existia de mais moderno e elegante se combinaram e fizeram dele o vendedor de roupas perfeito. Ninguém lembra em que lojas trabalhou, mas ele se referia a elas como “classudas”. Harry falava com entusiasmo dessa época em que manti- nha uma clientela de jogadores e apostadores à base de descontos em ternos alinhados, recebia convite dos atacadistas para ir beber nos bares da Chrystie Street, para ir aos cassinos da Broadway jogar stuss (Certa modalidade de jogo de cartas) ou para dar uma passada num dos prostíbulos mais refinados do Houston. Era um modo barato de ficar por cima, parecer graúdo. Mas Harry não queria só parecer graúdo. Queria ter sua própria loja. E, para virar um comerciante, precisava de duas coisas: dinheiro e uma esposa. Conhecia muitas garotas, mas um jovem ambicioso não se casaria com nenhuma delas. Ainda assim precisava de uma companheira, de alguém que ad- ministrasse seu dinheiro, lhe desse filhos e mais credibilidade. Encontrou uma garota assim na bibli- oteca pública do Seward Park, que funcionava como um centro comunitário, oferecendo aulas de inglês, contabilidade e outros conhecimentos úteis para o novo americano. Ela era exatamente do que Harry precisava. Devia estar perto dos 30 quando se conheceram. Ela era cinco anos mais nova. A princípio, os pais

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dela não se impressionaram com o vendedor de fala fácil, mas ele era persistente e ela não tinha grandes atrativos. Sabe-se lá como ele escapou da convoca- ção em 1917 (provavelmente graças à falta de do- cumentos), e sem dúvida a guerra diminuiu o nú- mero de pretendentes à mão de Gussie. Por fim ele venceu, e os dois se casaram em 1918. Em seguida, com um pequeno empréstimo dos pais dela, atra- vessaram o rio e abriram sua própria loja de roupas em Newark, New Jersey.

NO FINAL DA GUERRA, o futuro era promis- sor. Julius Liebowitz continuaria lutando por um mundo socialista mais justo. Seu filho adotivo, Jack, cursaria a New York University enquanto tra- balhava para o sindicato e, quando se formasse, se- ria contador do SITIRF. Três dos irmãos Donenfeld prosperariam imprimindo material para o sindicato e outros clientes interessados em preços módicos. Harry e Gussie Donenfeld seriam gordos e felizes vendendo moda feminina em New Jersey. Então vieram os anos 1920.

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—————————— O OUTRO MUNDO

DURANTE TODA A VIDA, nas entrevistas que deu, nas conversas que teve com editores e co-

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legas ou nos ensaios autobiográficos que escreveu, Jerry Siegel nunca revelou o que aconteceu com seu pai. Na história de sua vida contada por ele mesmo, o pai aparece apenas como uma figura se- cundária, alguém que sustentava a casa confortável em uma Cleveland de classe média onde Jerry des- cobriu as maravilhas da ficção científica e sonhou com super-heróis. Os temas da perda, da violência, do isolamento, da invulnerabilidade e do castigo só aparecem nesses sonhos, sob a forma de cartoons esquisitos. Michel Siegel chegou a Nova York na virada do século XX, ajustou seu nome para Mitchell Siegel e foi para Cleveland. Sua esposa, Sarah, e seus dois filhos esperaram na Lituânia até que ele conseguis- se juntar dinheiro para trazê-los. Ele tinha uma in- clinação para a arte e trabalhava como pintor de anúncios publicitários. A crescente comunidade ju- daica de Cleveland forneceu um bom mercado para ele, e rapidamente Mitchell Siegel pôde não apenas mandar vir Sarah e as crianças, mas também ajudar outros membros da família e os cinco irmãos e ir- mãs de Sarah, que também vieram. Em 1914, quan- do se interrompeu a emigração do leste europeu, os membros de uma grande família Siegel-Fine esta- vam espalhados pelas comunidades judaicas ao lon- go da parte leste de Cleveland. Sarah era a matriarca. Há várias versões dife- rentes para a história da família, mas todas concor-

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dam num ponto: Sarah era uma mulher forte. Ela comandava os irmãos e irmãs antes de se casar e, quando o marido e alguns dos primos dele, além de algumas pessoas de sua própria família, atravessa- ram o oceano em busca de sucesso, Sarah passou a ser a força que mantinha as duas famílias unidas. Já em Cleveland, longe da geração de seus pais, virou a líder incontestável da grande família. “Ela dizia para todo mundo o que fazer”, disse Jerry Fine, um dos sobrinhos. “Para os filhos, irmãs, irmãos e para os filhos deles. E para o marido.” Graças a ela, Mitchell largou o ramo de anún- cios publicitários e aplicou seu dinheiro em algo mais rentável: vendas no varejo. Abriu uma loja de trajes masculinos, ganhou dinheiro e comprou uma casa de madeira de três andares para a família, com um grande pátio e varanda numa rua residencial em Glenville, um bairro emergente com grande afluxo de prósperos imigrantes judeus. Sarah teve um nú- mero de filhos que rivalizava com o da família em que tinha sido criada: Minerva, Rosalyn, Harry, Leo, Isabel, e finalmente, em outubro de 1914, Je- rome. Ele era o mais novo por quatro anos, o bebê que permaneceu pequeno e dependente enquanto os outros cresciam e saíam de casa. A Cleveland em que Jerry nasceu era uma cida- de em rápido crescimento. De 1890 aos anos 1920, sua população cresceu de 250 mil para quase 1 mi- lhão de habitantes, e passou de décima à quinta

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maior cidade americana. Era uma meca para os imigrantes: 40% da população era estrangeira ou de pais estrangeiros. Era a cidade que mais produzia gasolina e aparelhos elétricos no país, a segunda na produção de aço e automóveis e a terceira em rou- pas. Durante a crise industrial de 1921, Cleveland foi umas das grandes cidades que menos teve pro- blemas. O acordo que o SITIRF fechou naquele ano com os fabricantes de roupas foi o melhor do país, e eles nem precisaram fazer greve. Era uma cidade de olho no futuro, e sabia disso — foi a pri- meira cidade no país com eletricidade e iluminação pública, bondes elétricos e centro comercial cober- to. Cleveland estabeleceu o padrão de planejamento urbano e da construção de “fábricas modelos” cien- tificamente desenhadas. Os 70 mil judeus de Cleveland eram bem menos do que o milhão que morava em Nova York ou os 350 mil em Chicago, mas bastavam para manter uma cultura muito rica, que incluía imprensa e tea- tro iídiche, algumas sinagogas com influência no país inteiro e dezenas de shuls menores e organiza- ções comunitárias. No início a comunidade ficava espremida no gueto miserável de Woodland, próxi- mo às fábricas, mas por volta de 1910 alcançou di- mensão e prosperidade tais que possibilitaram a ocupação em massa de Glenville. Era um distrito bucólico com bosques e campos, córregos de leitos profundos que corriam em direção ao lago Erie, às

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margens do qual as mais abastadas famílias protes-

tantes tinham suas cabanas e haras. Porém à medi- da que a cidade cresceu e os automóveis facilitaram

a locomoção, os ricos subiram até Shaker Heights e

deixaram os vales para os imigrantes emergentes. Quando Jerry Siegel nasceu, Glenville era 20% ju- dia. Ao completar 10 anos, a proporção passava dos

70%.

A aorta de Glenville no início dos anos 1920 era

a East 105th Street. “Quase todos os quarteirões, da

Superior até Saint Clair, tinham seu próprio shul e mercado de carne kosher (Alimento preparado de forma a respeitar a tradição judaica) — além de quitandas, farmácias, leiterias, padarias e armazéns em abundância.” Os moradores “consumiam, na- moravam e tinham suas discussões amigáveis em numa atmosfera rica em judaísmo e Yiddishkeit”. A Kimberly Avenue, onde Jerry cresceu, era uma rua tranquila de apenas um quarteirão. Uma de suas ex- tremidades conduzia a um barranco cheio de árvo- res, na outra estava a 105th Street na altura do Crown Theater, Spector’s Creamery e Solomon’s Delicatessen (“aberta a noite inteira”). Alguns quarteirões mais ao norte, na Saint Clair, havia lo- jas de departamentos, restaurantes do velho mundo, mais teatros e cafés com música ao vivo. No outro sentido, alguns quarteirões depois, ficava o grande Centro Judaico Anshe Emet, com as estrelas de Davi pairando alto sobre a rua, com suas danças e

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aulas sobre qualquer coisa, de sionismo a “america- nização”. Mesmo que acontecessem alguns crimes na Woodland decadente, onde ainda estava a loja de Mitchell Siegel, e em Mount Pleasant, onde muitos operários moravam, parecia não ocorrer nenhum em Glenville. Pessoas que cresceram lá descreveri- am o bairro com uma ternura que beirava a reve- rência: “As ruas compridas estavam sempre cheias

de crianças jogando beisebol [

das abrigavam grupos de crianças que toda noite sentavam nos balanços e parapeitos para brincar, trocar idéias e dar uns amassos — depois que os adultos fossem embora.” Esse era o sonho america- no, que tinha atraído tantos milhares de pessoas vindas de lugares como Rússia, Romênia, Polônia e Lituânia. Crianças como os Siegel sentiam os efeitos es- tressantes dessa expansão. Crises de superpopula- ção escolar resultaram em salas de aula com 45 ou 50 alunos em todas as séries, professores sem qua- lificação e aulas do ensino primário em porões, si- nagogas e cabanas emprestadas. Apesar disso, as crianças judias se davam bem. Logo as escolas ju- daicas ultrapassaram qualquer outra na cidade em número de alunos laureados. Quando Cleveland, em sua incansável luta pela modernização, passou a ser uma das primeiras cidades nos Estados Unidos a instituir testes de inteligência, a Glenville High

e enormes varan-

]

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School ficou em primeiro lugar. Um educador de Cleveland concluiu que “o judaísmo é muito mais uma educação progressista do que uma doutrina re- ligiosa”. Mas os sucessos não ficaram só no campo acadêmico. Em 1923, quando os irmãos mais ve- lhos de Jerry Siegel estudavam lá, a Glenville High venceu o campeonato municipal de futebol ameri- cano com a ajuda de um halfback brilhante chama- do Benny Friedman. Combinaram então um jogo especial contra a Oak Park High School, de Chica- go, onde Ernest Hemingway tinha estudado. O time dessa escola era considerado o melhor do país. Benny e os magrelas “Morenos Sanguinários” Glen Hi venceram. À luz da ética do começo dos anos 1920, quando o triunfo e o destaque individual eram valorizados como nunca, a geração de Glen- ville brilhava. As esperanças e exigências para crianças como os Siegel eram grandes. Os cinco mais velhos esta- vam bem, todos eram razoavelmente populares e ti- nham bom desempenho na escola. Os garotos saí- am para praticar esportes na escola e se misturavam àqueles que jogavam bola nas ruas e passavam o tempo nas varandas. Quando eram adolescentes, trabalharam na loja do pai, aprendendo a fazer ne- gócios, a se virar longe da força da mãe, aproxi- mando-se do pai. Todos teriam carreiras estáveis, Harry no ramo imobiliário e Leo no funcionalismo público. As duas garotas mais velhas, já com idade

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suficiente para lembrar do gueto de Woodland, eram pragmáticas e trabalhadoras como a mãe e se casaram com homens honestos e decentemente em- pregados. Jerry era o que destoava. Era pequeno e míope e não gostava de brincadeiras violentas. Alguns rela- tos a seu respeito falam de sua “energia”, mas não era a mesma energia social de Harry Donenfeld. O jovem Jerry parece ter sido irrequieto, apesar de mais ansioso que ativo. Era esperto, mas preferia fi- car sonhando a estudar. A mãe o incentivava a ficar em casa, fazendo-lhe companhia e ajudando nas ta- refas domésticas, em vez de ir correr na rua com os outros. Muitas vezes ele se recolhia ao quarto que dividia com Harry, principalmente quando este es- tava fora, jogando bola ou trabalhando com o pai. Então ele podia se dedicar à leitura, ao estudo e a seus sonhos. Quando Jerry tinha 6 anos, um de seus irmão o levou para ver A Marca do Zorro. O pequeno Jerry amou. A escuridão profunda, o teto alto pairando lá em cima como o alto do céu e a orquestra enchendo a sala como a voz divina. Além disso, o clarão na tela branca e a grandeza de Fairbanks: sua estatura e pretensão, o urro silencioso de suas risadas e a ar- rogância cômica que transformava um combate em pastelão e as leis da física em piada. E Fairbanks no papel de Zorro, primeiro atuando de forma contida, no papel de um tímido personagem num mundo

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hostil, até transformar-se secretamente em sua ver- dade interior, metamorfoseando-se, graças à sua vontade e a um uniforme, num redemoinho de vio- lência alegre e habilidades sobre-humanas que manda para os valentões para o chão com um sim- ples gesto. E as outras crianças gritando na escuri- dão, cada uma delas livre, vivendo na pele de Fair- banks. Daí em diante, Jerry incluiu em seus planos ir, sempre que possível, ao cinema, algumas vezes passando uma conversa para entrar de graça. Assim que os pais deixaram, começou a ir assistir aos fil- mes sozinho pedindo uns trocados e caminhando até o modesto Crown Theater, a dois quarteirões. Depois de mais alguns anos ele podia ir até a St. Clair Avenue, atravessar no novo semáforo elétrico e pagar sua entrada no Doan, no Uptown, ou no Sa- voy, em estilo rococó, e desaparecer diante do bri- lho das enormes telas. Quando Jerry falava de sua infância, mencionava pouca coisa além desses fil- mes. Amava todo e qualquer filme, mas acima de tudo gostava daqueles mais estranhos, em que ho- mens superavam a realidade física e viviam proezas de tirar o fôlego. Adorava Harold Lloyd correndo a uma velocidade alucinante em O Calouro e depen- durando-se de um arranha-céu em O Homem Mos- ca. Adorava ver Buster Keaton ser jogado pelos ares e se esborrachar no chão para logo depois se levantar outra vez em Marinheiro de Encomenda.

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Acima de tudo ele adorava Fairbanks: Os Três Mosqueteiros, Robin Hood, O Ladrão de Bagdá — todos os modelos de másculo heroísmo transforma- dos num gesto infantil de “ei, olhem para mim!”. Fairbanks era um menino gigante que de repente le- vantava vôo enquanto se balançava na ponta de uma verga em The Black Pirate (“O Pirata Negro”). Jerry gostava de desenhar cenas dos filmes a que assistia ou fazer cartoons imitando as tiras que ele apreciava: o pastelão de Mutt and Jeff e Os So- brinhos do Capitão, as aventuras fantásticas do ga- roto em Little Nemo. Segundo declarou um de seus primos, Michell Siegel estimulava a veia artística do filho. Ele próprio só deixara de ser pintor e pas- sara a vender chapéus para poder sustentar a famí- lia no conforto da classe média. Jerry foi o primeiro dos irmãos Siegel a ter esse conforto desde o início, o primeiro que não sentiu a pressão de arranjar um emprego antes da adolescência. Além disso, Mit- chell provavelmente se divertia quando o encoraja- va a desenhar e fantasiar. Ocupado com a loja e os outros garotos, Mitchell deixou a criação e a educa- ção do bebê a cargo da forte Sarah, mas a arte pas- sou a ser a maneira como pai e filho mantinham contato. Jerry parece ter sido da espécie de caçula que encontrou seu espaço como artista da família, o filho que pôde decidir seu caminho na vida, aquele que poderia ter ido parar na universidade, num cur-

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so de arte, para depois trabalhar no ramo publicitá- rio. Não há motivo para crer que teria sido um grande artista ou escritor, mas de um jeito ou de outro podia ter seguido uma carreira criativa e pro- gredido, aprendendo a se virar longe da influência da mãe, ganhando o respeito do pai e encontrando seu caminho no mundo dos adultos. Pelo menos é assim que deveria ter sido.

A VIDA REAL ficou difícil para Jerry quando chegou à adolescência. Não conseguia se concen- trar na escola e repetiu um ano. Observou seus co- legas avançando e se distanciando dele. Um primo afirma que ele não tinha amigos nesse período. O próprio Jerry disse mais tarde que ao descobrir as garotas ficou aterrorizado. Cada vez mais começou a buscar um mundo mais longínquo. Sempre tinha sentido uma certa atração pelos pulp magazines — as revistas impressas em papel jornal amarelado que abanavam penduradas nas bancas ao longo da St. Clair Avenue. Mas agora seria tragado por elas. As revistas eram grossas e baratas, impressas em uma tinta de um tom marrom escuro, com cen- tenas de páginas de ficção em cada número. As ca- pas eram coloridas, pintadas para inspirar terror, excitação, desejo e curiosidade. Os enredos eram cheios de brutamontes, orientais sinistros e namora- das seminuas de gângsteres, mas as histórias favori- tas de Jerry giravam em torno de algum machão:

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goyim de rosto quadrado que lutavam com feras e venciam pistoleiros com o poder do olhar. Havia revistas de guerra, westerns, histórias passadas no mundo do crime e na selva. Algumas eram destina- das ao público adulto, mas a maioria visava garotos de 8 a 14 anos — a “idade dos heróis”, como um editor a chamou. Não era possível encontrar essas revistas em bibliotecas escolares e poucos pais as compravam. Na verdade, muitos as arrancavam das mãos dos filhos e as atiravam no incinerador de lixo. Mas os garotos dos anos 1920 e 1930 tinham sede dessas revistas. Senhores idosos, que hoje vendem suas coleções de pulp por pequenas fortu- nas na internet, contam histórias em que todos os garotos juntavam seus trocados para poder comprar as revistas, e depois elas passavam de mão em mão até que a encadernação não aguentasse mais e as folhas caíssem. Will Eisner, filho de um pintor de móveis no Bronx, lembra-se de um hóspede na casa de seus pais que o deixava pegar edições da Black Mask Detective em seu quarto. Quando o pai o pe- gava, as revistas voavam pela janela aos gritos de “isto é lixo!” Somente mais tarde Will se daria con- ta de que o lixo incluía histórias de Dashiell Ham- met, Raymond Chandler e Horace McCoy. Sarah Siegel nunca controlou as leituras de Jerry e cuidou de lhe garantir a mesada com que ele comprava seus pulps. Jerry gostava de histórias de detetive, do Tarzan e da revista favorita dos jovens

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desesperados para escapar de sua realidade cotidia- na, Weird Tales. Foi no verão antes de completar 14 anos que Jerry viu o homem voador. Na arqueologia da cultura popular, a edição de

agosto de 1928 da Amazing Stories foi um ponto crucial para cineastas, escritores de ficção científica

e engenheiros espaciais. Num fundo amarelo claro,

um homem de uniforme vermelho colado à pele, capacete de aviação e botas pretas reluzentes man- tém o corpo deitado, mas levemente inclinado para cima, como se estivesse alçando vôo. Tem a natura- lidade dinâmica de um guerreiro nos frisos do Par- tenon, com a musculatura bem definida em traços

fortes e cores sólidas, num estilo ao mesmo tempo clássico e industrial. Usa instrumentos elétricos e segura uma espécie de bastão que parecia ajudá-lo

a voar. O enorme “A” de Amazing Stories fica logo

acima de seu calcanhar, com as demais letras for- mando uma espécie de arco protetor sobre ele. Está pairando sobre um pátio amplo, onde uma bela ga- rota abana um lenço. Uma linha de árvores, um la- boratório numa garagem e uma bela casa numa par- te plana e segura de um morro arborizado estão ao fundo. A curva do morro acompanha o arco de seu torso e das letras acima. Comparado aos laborató- rios cheios de monstros e planetas devastados que apareciam na maioria das capas da Amazing Stori- es, esse era um mundo ensolarado e seguro, defini- do pela arquitetura, pela ciência e por uma ilustra-

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ção extremamente econômica. Nas bancas abarrota- das com histórias de medo, aquele homem estava sorrindo. Nas bancas abarrotadas de terror, surgia de repente algo alegre, um firme e grandioso futu- ro, nascido bem no coração das crianças que viram naquela capa uma delicada e incansável ascensão rumo a céus claros e dourados. Jerry correu para casa com a revista e a devo- rou. Depois de ler página por página, releu tudo mais uma vez. A história da capa era a primeira parte de um romance chamado The Skylark of Spa- ce, de Edward Elmer Smith, sobre um jovem inven- tor de um aparelho que permitia viajar ao espaço, onde ele descobre impérios interplanetários em guerra, entra para a polícia galáctica e salva sua noiva de uma gangue de criminosos interestelares. O romance corria em ritmo alucinante na imagina- ção ingênua de um garoto que andava para lá e para cá em seu quarto. O romance, graças a seu formato em capítulos, contribuiu para que Jerry se isolasse durante o fim das férias de verão e a renovada ago- nia da volta à escola. Além de Skylark, a edição tra- zia mais uma história, “Armageddon 2491”, de Phi- lip Francis Nowlan, com as aventuras de um solda- do numa guerra futurística, de nome Anthony Ro- gers e armado com um disparador de raios. O traba- lho de Nowlan era mais sombrio que o de Smith, mas as duas histórias ficavam bem uma ao lado da outra por trazerem um mundo em que a violência

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podia ser contida graças às engenhocas e ao know- how americanos. Esses autores deixavam para trás a nostalgia bárbara de Edgar Rice Burroughs (Au- tor americano e criador do Tarzan) e os temores apocalípticos de H. G. Wells (Autor britânico de ficção científica que ficou famoso pelas obras A Guerra dos Mundos, A Máquina do Tempo e A Ilha do Dr. Moreau, entre outras) e asseguravam aos ga- rotos americanos que eles teriam um futuro maravi- lhoso. Juntos, Smith, Nowlan e Frank R. Paul, o ar- tista da capa, tinham criado um novo mundo para Jerry Siegel, mais irresistível e coerente do que qualquer outro que ele tivesse conhecido. A Amazing Stories era uma revista estranha. Já estava nas bancas havia anos misturando artigos so- bre rádios e foguetes com reimpressões da ficção de H. G. Wells e Júlio Verne. Ao contrário de mui- tos pulps, a revista trazia na capa o nome do editor, um certo Hugo Gernsback, que abria cada uma das edições com um ensaio sobre o poder da tecnologia para a transformação do mundo num lugar melhor. Gernsback também editava os títulos Science and Invention, Radio-Craft e All about Television (em 1927), e além desses — ainda que a Amazing Stori- es fosse uma das revistas pulp mais comportadas, que não estampava donzelas seminuas em suas ca- pas — editava uma revista chamada Your Body, com alguns dos mais explícitos artigos de orienta- ção sexual disponíveis nas bancas. Gernsback era

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um visionário divulgador de um modismo dos anos 1920: pregar às massas, por meio de revistas bara- tas, o evangelho da ciência e da razão. Jerry rondava as bancas à espera do próximo ca- pítulo de Skylark. Quando a revista enfim apareceu, ele deparou com as pregações de Gernsback em sua forma mais explícita. A capa da edição de setembro da Amazing Stories tinha tanto de bizarro quanto a edição anterior tinha de libertário. Não ostentava nenhuma imagem de humanos, monstros ou espa- çonaves. Apenas um brasão sobre um fundo bran- co: um escudo triangular com um compasso e di- versos planetas ao fundo. Em duas engrenagens es- tava escrito “Fact” e “Theory”, e o compasso escre- via uma palavra estranha: “Scientifiction” (As pala- vras na capa são, respectivamente, “fato”, “teoria” e “cientificção”). Uma capa assim nunca tinha sido feita, e mesmo um garoto de 14 anos incompletos conseguia ver que seu objetivo ia além de simples- mente arrancar as moedas de algumas crianças. No interior da revista, Gernsback expressava seu inte- resse fervoroso em promover esse novo tipo de lite- ratura, essa “ficção científica” que declarava guerra contra a superstição e a ignorância, lançando luzes sobre o paraíso tecnológico que estava à espera da humanidade. Naquele mesmo instante Jerry Siegel se converteu num fã de cientificção. Outras revistas pulp incluíam cartas de leitores, mas as páginas da Amazing Stories tinham emoções

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a mais, já que adolescentes de toda parte uniam-se

para divulgar a novidade: Forrest J. Ackerman, de Los Angeles, Raymond Palmer, de Milwaukee, Jack Williamson, do interior do Novo México, A. Bertram Chandler, lá da Inglaterra, e muita gente de Nova York, especialmente um certo Mortimer Weisinger, que surgiria mais adiante no futuro de Jerry. Gernsback foi engenhoso e incluiu não ape- nas o nome e o estado de seus correspondentes,

mas seus endereços completos: dessa forma eles podiam entrar em contato direto. A cientificção co- meçou a crescer numa comunidade de leitores que tinham em comum uma causa e uma visão de mun- do. Aprendiam sobre esse novo gênero de ficção uns com os outros, formulavam parâmetros críticos

e logo começaram a escrever suas primeiras histó-

rias. Esperavam vê-las nas páginas da Amazing Stories, mas quase sempre bastava que um colega as lesse para que se dessem por satisfeitos. Grupos de aficionados já tinham se reunido graças à ficção popular no passado — a Weird Tales contava com seguidores bastante comunicativos. Mas nunca ti- nha havido nada com essa determinação e esse fer- vor. Os fãs eram fiéis a Gernsback: quando ele per- deu a Amazing Stories numa disputa financeira no ano de 1929, fizeram campanhas para que o acom- panhassem em sua nova revista, Science Wonder Stories. Para diferenciar a nova revista da antiga,

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ele abandonou o termo “cientificção” e adotou “fic- ção científica” em seu lugar. Os fãs fizeram o mes- mo. “Ficção científica” seria o nome de sua paixão para sempre. Quando o primeiro clube de ficção ci- entífica se reuniu em Nova York, no mesmo ano, seus membros discutiram o que cada um deles tinha feito pela ficção científica no mês anterior. Passa- dos alguns anos, os fãs cunharam a palavra “fan- dom” (Fusão das palavras fan “fã” e kingdom “rei- no”. Indica uma comunidade de pessoas com pro- fundo interesse comum por coisas como quadri- nhos, autores, hobbies etc.) para designar sua co- munidade. Quando adeptos de outros assuntos co- meçaram a adotar o termo, os fãs de ficção científi- ca falavam — e não era apenas de brincadeira — sobre o “Único e Verdadeiro Fandom. Pertenciam a uma raça diferente e não queriam se misturar. Jerry Siegel começou a escrever para os leitores da seção de cartas, e eles respondiam. Tinha encontrado um outro mundo, com o qual conseguia se comunicar. A ficção científica era uma invenção perfeita para a América no final da década de 1920. Os hor- rores do industrialização e o inferno tecnológico da Primeira Guerra já se apagavam da memória. Rá- dios, carros e correio aéreo facilitavam a comunica- ção de forma inédita e davam ao desenvolvimento industrial um rosto novo e humano. Uma economia de produção, que valorizava a parcimônia e a acu- mulação de capital, era pouco a pouco substituída

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por uma economia de consumo, baseada em gastos, crédito, autogratificação e culto às novidades. Em 1927 Charles Lindbergh foi endeusado quando, so- zinho, usou uma máquina moderna para conquistar os ares. Com certeza ainda apareceram reflexos do seu feito e de sua auto-satisfação na capa da Ama- zing Stories um ano depois. Políticos, publicitários e contadores de histórias populares louvavam o mundo dos negócios, a invenção, a América, o in- divíduo sem culpa e o futuro. Pela primeira vez os americanos passaram a ver a busca do novo como dever social e prova do heroísmo individual. Ao mesmo tempo, a ficção científica estava na contracorrente do caráter pragmático da América burguesa, que desconfiava de imaginações muito férteis e ridicularizava tudo o que remetesse aberta- mente à infância. O mesmo leitor que apreciava um dispositivo futurístico descrito na outra revista de Gernsback, Science and Invention, ridicularizava esse mesmo dispositivo caso ele derrotasse um ho- mem-máquina venusiano na Amazing Stories. As- sim a ficção científica permaneceu à margem, e a pouca atenção que recebeu foi o menosprezo da- queles imunes a seu encanto — especialmente ga- rotos atléticos, sociáveis e realistas que viam seus colegas excêntricos lendo sozinhos, na hora do al- moço, essas revistinhas de reluzentes heróis inter- planetários. Os fãs responderam com a arrogância dos excluídos — um debate acalorado atingiu o

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fandom no início da década de 1930 a respeito da seguinte questão: os fãs eram simplesmente pessoas com um gosto específico ou uma “ordem superior de seres humanos”, um nível acima na escala evo- lutiva graças a sua “vasta imaginação e receptivida- de ao novo”? Mas a arrogância do excluído, é cla- ro, está entrelaçada com sua angústia. No início os fãs eram em sua maioria esmaga- dora homens, quase todos de classe média e origem anglo-saxônica ou judaica. Eram pessoas isoladas, fosse pela geografia, personalidade ou deficiência física, até descobrirem o fandom. Nas fotos dos pri- meiros fã-clubes há muitos óculos e poucos portes atléticos. Assim como Jerry Siegel, poucos falavam de suas famílias, mas o pouco que diziam revelava pais ausentes, relacionamentos conturbados e soli- dão. Um fã escreveu sobre seus últimos anos como universitário: “Refleti sobre minha vida naquele momento, achei que ela estava sendo um desperdí- cio e, na medida do possível, tentei me afastar dela.” Assim como Jerry Siegel, a maioria deles não se interessava por garotas antes de concluir o segundo grau. Quando achavam uma companheira, falavam com um romantismo comedido sobre a sintonia intelectual ou o gosto literário que os tinha aproximado. As histórias de que gostavam e as que escreviam não conseguiam sair de um mundo in- fanto-juvenil, muitas vezes nem contavam com uma figura feminina. Quando ela aparecia, a donze-

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la em apuros costumava ser assexuada e dócil, como a noiva na série Skylark, de Smith. Eles des- confiavam da paixão, do mistério e da bagunça que era a vida adulta. Valorizavam detalhes e eficiência mecânica. Escreviam com o otimismo de garotos, mas para isso era preciso negar a dor e a angústia com que lidavam no dia-a-dia. Em sua correspondência, divertiam-se com uma espécie de propaganda pessoal disfarçada de paró- dia. Piadas internas e um humor ácido os aproxima- vam, como acontece com alunos de quinta série que já conhecem algumas gírias dos mais velhos. Exigiam categorias claramente definidas. Promovi- am discussões intermináveis e obsessivas, tentando chegar a uma conclusão sobre a ficção científica:

tudo no gênero deveria ter bases científicas com- provadas ou era permitido cair na especulação? O objetivo das histórias era promover o entendimento científico ou simplesmente narrar aventuras mistu- radas com ciência? Viagens no tempo podiam ser classificadas como ciência ou deveriam ser dispen- sadas como pura fantasia, comparável a feitiços e deuses? Eles rotulavam, listavam, classificavam, incluíam, excluíam e colecionavam com uma pai- xão pela meticulosidade — já que esse ordenamen- to hiper-racional era a forma mais divertida de manter a desordem da vida e das emoções sob con- trole. Registravam suas histórias obsessivamente, mas

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somente as que diziam respeito às atividades que vivenciavam como fãs. Jamais mencionavam fatos pessoais ou sentimentos. Nesse sentido, o silêncio

de Siegel a respeito da família era típico. Os fãs se- guiriam esse código por muitas gerações. Quando chegou a hora de revelar o segredo da criação de Jerry Siegel, esquadrinhavam revistas pulps em busca do termo “super-homem”, examinavam tiras atrás de heróis vestindo capas e roupas agarradas. Viam-se em termos de bibliografia, não de biogra- fia. Faziam perguntas sobre os pais do Super- Homem, mas não sobre o pai de Jerry Siegel. O grau de resistência à confusão humana já apa- rece na primeira história que Jerry enviou a seus colegas. Em 1929 Jack Williamson era um jovem fã que começava a publicar suas histórias na Ama- zing Stories. Então Jerry datilografou uma história e pediu conselhos. “Ele me enviou um manuscrito em que os personagens eram sólidos geométricos:

cubos, esferas e cones. Eu disse que aquilo não ti-

nha valores humanos, emoções humanas [

] a his-

tória precisava de interesse humano.” Essa história está perdida há muito tempo, mas alguns anos mais tarde Jerry publicou no jornal da escola uma vari- ante mais curta e bem-humorada, com o título “A Morte de um Paralelogramo”. Ainda faltava bastan- te para que fosse capaz de lidar com as questões humanas. Foi mais ou menos nessa época que Jerry en-

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controu seu lugar. Ainda gostava de tiras, mas de-

sistiu de desenhar e se dedicou inteiramente a es- crever histórias de ficção científica e a trocar cor- respondência, comentando o trabalho dos outros. Aprendeu a datilografar. A energia frenética que sempre o caracterizou se voltou então para as pala- vras. Enquanto as outras crianças de Glenville joga- vam bola pelas ruas e davam amassos nas varandas, Jerry Siegel ficava sentado junto à janela do sótão, tec-tec-teclando e criando um mundo à parte. Setenta anos depois, seus primos Jerry e Irv Fine estavam na imobiliária de Irv, no subúrbio de Beachwood, em Cleveland, falando sobre o Jerry que conheceram.

— Ele sempre ficava com as crianças mais no-

vas, como eu era na época, durante as reuniões de

família, porque as que tinham sua idade não queri- am nada com ele. Ele era um nerd — disse Irv.

— Oh, eu não diria isso. Ele apenas tinha um

temperamento calmo e ficava muito envolvido com seus assuntos. Costumava levar a gente até o quarto

para nos mostrar a coleção de revistas pulp e todas as cartas dele que tinham sido publicadas, mas fora isso não gostava de falar muito — corrigiu Jerry, que regulava em idade com Siegel. — Ele era um nerd! — retrucou Irv.

— Bem, não existia a palavra nerd naquela épo-

ca — Jerry respondeu baixinho. Na verdade não existia uma palavra para definir

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garotos como Jerry ainda, simplesmente porque eles não eram muitos. Mas aos poucos surgiam mais e mais. Claro, sempre houve garotos perdidos em seus pensamentos e paixões, dominados por suas mães e com tendências a fantasiar sobre o uni- verso masculino em vez de aprender a lidar com ele. Garotos que usavam uma imaginação fértil para escapar do sofrimento. Mas essa era a primeira geração que tinha acesso ao universo alternativo trazido pelo entretenimento comercial, a primeira que crescia entendendo que a natureza da experiên- cia e da percepção poderiam ser transformadas gra- ças a máquinas e artifícios. O “faz-de-conta” tor- nava-se tão palpável e nobre quanto o “real”: Fil- mes, revistas pulp, fonógrafo, tiras — tudo contri- buía para proporcionar um estoque infindável de experiências emocionais e imaginativas à nova ge- ração, sem que fosse necessária interação nenhuma com a realidade. E, graças ao fandom, nasceu uma comunidade. Era possível contar com apoio para permanecer espiritualmente naquele outro mundo mesmo quando a escola ou o trabalho exigiam pre- sença física. Essa geração também atingiu a maturi- dade numa cultura que rejeitava Deus, a tradição e a certeza, e assim encorajava o relativismo de mun- dos individuais. Foi uma geração de desajustados que teve uma alternativa que não as de se esconder do mundo ou de se submeter a ele. Foi dado a eles um outro lugar para ir.

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A geração dos anos 1920 foi também a primeira a crescer em meio a uma cultura de consumo já de- senvolvida, que incentivava as pessoas a definir sua identidade por aquilo que compravam. Numa socie- dade cada vez mais móvel e fluida, os americanos não queriam mais ser identificados por classe, etnia ou região. Mas dirigir um Cadillac, ser fã de Rodol- fo Valentino ou leitor de ficção científica dava um senso de individualidade e de pertencer a uma co- munidade, em especial aos jovens que não deseja- vam se misturar a esse mundo de mudanças cons- tantes. Os primeiros fãs de ficção científica não constituíam uma contracultura que defendia valores radicalmente diferentes do mainstream. Apenas acreditavam no progresso científico e no individua- lismo competitivo. Talvez a única crítica real que dirigiram à sociedade tenha sido a preferência que deram ao intelecto, deixando as emoções e os mús- culos em segundo plano — mas eles também gosta- vam de heróis interplanetários que sabiam brigar. O que os tornava diferentes era a paixão por uma combinação específica das ansiedades e aspirações do mainstream e a aceitação das peculiaridades de cada um enquanto a paixão unificadora durasse. Além disso, a solidão e a falta de perspectiva da infância no mundo moderno os tornava diferentes. Para a classe média faltava, na vida cotidiana, tudo aquilo que tinha sempre sido a essência da vida hu- mana: providenciar comida, fazer roupas, sempre

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com as crianças trabalhando ao lado dos pais. Para os povos do norte europeu, tão puritanos, o caos da vida moderna, a mobilidade e o anonimato, aliados a uma solidão essencial, eram demais. E seus filhos cresciam em pequenas famílias nucleares e passa- vam mais tempo do que nunca sozinhos e dentro de casa. Um número cada vez maior de jovens preci- sou buscar contatos e um sentido que, em outra época, a vida providenciava de forma quase auto- mática. Então um conjunto específico de caracte- rísticas e angústias individuais tornou-se a base de uma subcultura. Os membros dessa subcultura ajus- tavam sua identidade em torno da autodefinição “fã de ficção científica” — caracterizada por indiferen- ça a roupas e aparências, amabilidade extravagante (ainda que não sentimentalóide) durante os encon- tros e um desprezo divertido pelos medíocres que não os entendiam. Na época isso ainda não tinha nome, mas hoje podemos ver aí o nascimento da cultura geek. Cada uma das subdivisões dessa cul- tura — quadrinhos, computadores, bonecos coleci- onáveis — nasceu daí, ou pelo menos adotou mui- tas de suas características. Aos 14 anos, Jerry Siegel já estava virando um membro de destaque do incipiente fandom. Em 1929 ele contribuiu com uma novidade. Parece ter tentado provar que a fascinação com o mundo ima- ginário tinha algum valor no mundo real. Afinal, era filho de um varejista, e o único filho de Mit-

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chell Siegel que não ajudava na loja ou trabalhava fora. E se mostrasse ao pai que ele era mais que um filhinho-da-mamãe que brincava no quarto, lucran- do com seu hobby? Juntou todas as histórias que vinha escrevendo, recusadas pela Amazing Stories, e montou sua própria revista. Conseguia folhas hec- tográficas na biblioteca da escola; assinava suas histórias com uma variedade de pseudônimos, es- perando convencer os leitores de que elas não eram o trabalho do mesmo garoto de 14 anos; escreveu um editorial grandiloquente a la Gernsback anunci- ando a chegada de uma nova revista para expandir as fronteiras da literatura e do amanhã. Chamou-a Cosmic Stories. As páginas eram datilografadas com todo o cuidado de um mau datilografo usando uma máquina manual — cheias de partes raspadas com lâminas e rebatidas — e depois disso ele tirava dez cópias na escola. Então gastou quase todo seu dinheiro guardado colocando anúncios minúsculos na contracapa da Science Wonder Stories. Anos depois, Jerry Siegel não conseguia recor- dar se chegou a vender alguma cópia. Mas havia criado a primeira revista feita por um fã de ficção científica — que em breve seria chamada “fanzi- ne”, e depois “zine” — um órgão vital para os futu- ros geekdoms. Apesar de todo seu amor pela ficção científica, no fundo sua intenção não era ajudar a causa, mas encontrar uma idéia que pudesse ser vendável. Acreditava que em algum lugar havia

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uma idéia capaz de torná-lo, de repente, importante, poderoso, adulto. Os escritos de Jerry não deram em nada, mas ele continuou sonhando e datilografando até acabar

o primeiro grau. Manteve suas amizades por corres- pondência, ainda que tal correspondência tivesse

menos de cartas normais de amigos e mais de troca

de conselhos profissionais. Em outubro, quando es-

tava acabando o primeiro grau, a economia ameri- cana sofreu sua maior reviravolta — o crack da Bolsa de Nova York —, mas no início as repercus-

sões não alcançaram o mundo particular de Jerry. A cultura da Depressão iria moldá-lo, mas não ainda.

O acontecimento que destroçou sua vida veio al-

guns meses mais tarde. Jerry estava em casa com a mãe quando tudo

aconteceu. Mitchell estava no centro, fechando a loja de trajes masculinos. Um comerciante vizinho viu a porta entreaberta e a luz acesa depois do ex- pediente, mas não viu sinal de Mitchell entre as prateleiras. Ele entrou, chamou por Mitchell, e en- tão viu o sangue no chão. Deu a volta no balcão e lá estava Mitchell, caído, já morto, com dois bura- cos de bala no corpo. O dinheiro tinha sumido do caixa. A polícia nunca descobriu quem o matou. Provavelmente apenas um drogado, um bêbado de- sempregado e desesperado, um jovem aspirante a gângster ou um brutamontes que invejava os judeus

e que desapareceu com seu dinheiro e seu sonho no

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coração de Cleveland.

APÓS O ASSASSINATO de Mitchell Siegel, a família se ajudou como pôde. Ninguém falou sobre o que aconteceu: disseram aos membros mais jo- vens da família que o tio Mitchell havia morrido de ataque cardíaco. Os parentes enviaram ajuda finan- ceira. Os irmãos de Sarah e os filhos mais velhos contribuíam com um pouco de seus rendimentos mensais para garantir que ela não perdesse a casa. A escola estava fora de cogitação para as crianças, afinal a sobrevivência vinha antes da educação. E Sarah se tornou mais firme. Em resposta à perda, passou a controlar ainda mais os irmãos e as crian- ças. Os primos mais novos lembram da casa na Kimberly Avenue como o quartel-general da famí- lia, um lugar tenso e grandioso onde havia encon- tros e decisões sobre assuntos familiares. Os adul- tos costumavam reunir-se na sala principal enquan- to as crianças iam para o pátio, para a varanda ou para os quartos no andar superior, tudo para não in- comodar a tia Sarah. Jerry bem que podia ter arrumado um emprego, ocupado uma vaga no duro e assustador trabalho de jornaleiro ou entregador, mas Sarah não queria. So- mente Jerry pôde continuar sendo seu bebê. Os ir- mãos passavam cada vez menos tempo em casa, ao passo que Jerry ficava cada vez mais tempo com a mãe, que o deixava sozinho nos longos períodos

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que passava sofrendo. Quão intensos eram seus so- nhos de liberdade e invencibilidade nessa época? Quão pungentes as histórias de dor e perda? Jerry trouxe todas essas histórias consigo ao entrar na Glenville High School. Já estava um ano atrasado em relação aos colegas e ainda muito distante da vida adolescente. A Glen Hi era um lugar superlo- tado e competitivo. Havia muitas exigências acadê- micas e sociais. Seria difícil para Jerry permanecer lá mesmo se sua vida tivesse sido menos dura. Não havia mais esperança de alcançar o sucesso naque- les termos, de ser apenas mais um garoto na Glen Hi. Sonhava em pular a escola e a adolescência, tornando-se rico e famoso instantâneamente. Se de alguma forma ele conseguisse se dar bem, poderia acabar com a vergonha de ser o único membro da família que não ajudava em casa. Poderia recuperar um pouco do que aquele brutamontes tinha roubado de sua família, tornar-se um homem. Ao mesmo tempo, recolheu-se ainda mais àque- le outro mundo composto de escritores e quadrinis- tas. Começou a sonhar com homens que declara- vam guerra ao crime e estavam acima de qualquer necessidade e acima da dor.

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—————————— A GRANDE FARRA

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OS ANOS 1920 de Harry Donenfeld foram algo muito diferente do que foram os anos 1920 para Jerry Siegel. Em vez de buscar formas de escapar da realidade, Harry enfiou-se mundo real adentro de um modo que nunca tinha imaginado. Assim como Jerry Siegel, seu caminho acabou sendo de- terminado pelas revistas. Seu destino, como o de Siegel, seriam as histórias em quadrinhos. Mas a entrada de Harry não se deu com naves espaciais e fandom. Foi com impressoras e garotas nuas. A aprovação em 1919 da 18ª emenda, que insti- tuiu a Lei Seca, mudou a vida de Harry, ainda que ele mesmo demorasse alguns anos até se dar conta disso. A nova lei deve tê-lo alarmado a princípio. Seus amigos costumavam brincar, dizendo que ele sozinho bastaria para sustentar a fábrica da Hei- neken. Harry gostava de beber enquanto jogava e sabia que o álcool era o caminho mais curto para chegar numa garota. Mas logo soube que a cidade de Nova York não tinha nenhuma intenção de per- der seu tempo com uma emenda constitucional só porque isso agradava a legislatura de Ohio ou Mis- sissippi. Na verdade, Nova York era um dos únicos dois estados que nunca tinham aprovado uma proi- bição de álcool. Em Nova York a tarefa de acabar com a venda de álcool ficou para o governo enca- beçado pela Tammany Hall e para a polícia irlande- sa, com os resultados que se podem esperar. Bares foram fechados, mas, como reclamou um congres-

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sista chamado Fiorello H. LaGuardia (Um ex- alcoólatra que se tornou abstêmio e depois um dos mais famosos prefeitos da história de Nova York). “Agora nós temos armazéns, salões de bilhar, farmácias, chapelarias, clubes particulares e 57 ou- tras variedades de speakeasies (Bares ilegais que ofereciam bebidas alcoólicas durante o período da Lei Seca) vendendo álcool e prosperando”. O único efeito imediato da Lei Seca na vida de Harry foi reforçar sua crença nova-iorquina na fle- xibilidade da lei. Eram muito mais leis do que seria possível para um imigrante obedecer: as leis de Washington, da Tammany, de Moisés, do bairro, da economia. Levava-se o cliente mais importante ao restaurante Delmonico, e lá ele comia lagosta; mas todo mundo sabia que aquela comida era treyf (Co- mida preparada sem respeitar a tradição judaica, considerada imprópria para consumo) e que jamais entraria na cozinha de sua mãe. Levar uma vida so- cial implicava fazer apostas; uma vida sexual im- plicava, geralmente, algum tipo de remuneração. Tudo isso ia contra as leis. Harry cresceu vendo isso como simples fatos da vida em seu país adoti- vo. Colocar o álcool na lista de coisas proibidas era só mais uma pedra em seu caminho, jogada por um bando de protestantes malucos lá do outro lado do rio Hudson. O grande choque para Harry foi a retração da economia americana no período pós-guerra. Ele

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nunca foi um administrador sensato. Era especialis-

ta em fazer novos contatos, fazer com que as pesso-

as lhe dessem uma chance e aproveitar oportunida-

des. Mas não tinha paciência para fazer balanços ou planos para o futuro, nem autocontrole para man- ter-se longe das mesas de pôquer ou dos cassinos de Manhattan. Quando o consumo despencou, entre 1920 e 1921, sua loja de roupas em New Jersey fi- cou endividada. A esposa tomou conta da adminis- tração, lutando para equilibrar créditos e débitos enquanto Harry jogava cartas com algum atacadis- ta. No entanto Gussie era jovem e ainda estava aprendendo e, apesar de todo seu trabalho e das ir- ritadas queixas, a loja faliu. De repente Harry teve de encontrar um novo modo de sobreviver. Não sabemos o quanto Gussie

o pressionou mas, tendo em vista que seu filho

Irwin mais tarde descreveria sua mãe como “A Mu- lher Dragão”, podemos imaginar que tenha sido in- sistente e pouco amistosa. Parece que a família dela se recusou a garantir o apoio para o jovem casal

montar outra loja de roupas, porque em seguida Harry aparece como vendedor e quarto sócio na Martin Press, que pertencia a seus irmãos. O ramo de impressos sentia falta das habilida- des de um bom vendedor, e Harry parece ter levado alguma ambição à firma familiar. Junto com seus irmãos — dois imigrantes recém-chegados e um gago — Harry brilhava como uma estrela. Parece

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que foi ele quem se interessou por fazer trabalhos com maior qualidade, que requeriam papel liso e ajuste de cores. Provavelmente também foi ele quem descobriu como jogar o jogo da consignação:

vendia os serviços da Martin Press como se tivesse a tecnologia fotolitográfica mais avançada, e então terceirizava o serviço para uma gráfica que tinha o equipamento adequado, mas não o vendedor capaz de fechar o negócio. Harry também levou um pou- co de humor para a companhia, que até então era bastante taciturna. Uma vez um cliente entrou no escritório e gaguejou:

— O s-s-senhor D-Donenfeld está? — Um momento, vou chamá-lo! — disse Harry. Ele foi até os fundos e gritou: — Ei, Irving, tem alguém aqui querendo falar com você! Então ficou sentado, esperando Irving encontrar o cliente. Quando voltou, Irving estava furioso e gritando:

— Aq-aq-aquele cara p-pensa que est-tou t- tirando sarro dele! Você tá q-querendo me ver m- m-morto?! Harry dava gargalhadas sempre que contava essa. Mas o maior benefício que Harry trouxe à famí- lia tinha pouco a ver com impressos e muito a ver com a Lei Seca. A geração dos marginais e jogado- res que cresceu com Harry sofreu uma grande transformação, graças à quantidade assombrosa de

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dinheiro que estava disponível a qualquer um que fornecesse álcool ilegal aos americanos. Jovens que até pouco tempo antes se davam por satisfeitos ti- rando algum lucro com cassinos ilegais, fazendo di- nheiro com cavalos de corrida e arranjando lutas de boxe uma vez ou outra viram-se de repente nadan- do em milhões de dólares, comprando juízes e a po- lícia e organizando gangues bagunçadas, transfor- mando-as em exércitos de contrabandistas de álco- ol, sequestradores e conquistadores de novo territó- rios. Um desses jovens, Francesco Castiglia, arran- jou um lugar para Harry Donenfeld no mercado ne- gro. Castiglia sentia orgulho de ser um americano moderno, livre dos códigos tribais de lealdade que tinham jogado as gangues de italianos e judeus da vizinhança umas contra as outras. Sua esposa era judia, e ele era o membro mais velho de um quarte- to de brutamontes ambiciosos que incluía um sicili- ano, Salvatore Lucania, e dois garotos judeus vio- lentos, Benjamin Siegel e Maier Suchowljanski. Para se tornar ainda mais moderno e americano, es- colheu um nome fácil de lembrar, que soava um pouco menos “velho mundo” para quem não fosse italiano: Frank Costello. Dois de seus comparsas fi- zeram o mesmo: Lucania virou Charles “Lucky” Luciano e Suchowljanski adotou o nome Meyer Lansky. Tornaram-se representantes de Arnold Ro- thstein, um homem elegante, nascido em berço de

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ouro no Upper East Side e que sempre apostava até a última ficha. Também organizava o contrabando de bebida em Nova York no seu início. Quando Rothstein se retirou do negócio, que estava se tor- nando cada vez mais violento e arriscado, em 1921, Lansky, Siegel, Luciano e Costello se tornaram os líderes do crime com seu quarteto judaico-italiano. Na época, Lansky e Siegel ainda eram adoles- centes. Luciano tinha apenas 24 anos. Os três esta- vam com muita vontade de mostrar o quão durões e violentos podiam ser nas brigas por território. Com 30 anos, Costello era o mais cauteloso e pragmático do grupo, e rapidamente se retirou das ruas para agir na parte mais segura do negócio: trazer álcool do Canadá para a costa americana, onde outros as- sumiam a tarefa mais arriscada de descarregar, transportar e vender enquanto carregavam espin- gardas. Para isso ele precisava de intermediários com cara de honesto, que pudessem trazer a bebida disfarçada de compra legítima. Como tipógrafos que compravam papel canadense. Não se sabe como Harry Donenfeld conheceu Frank Costello. Durante sua época de glória no fim da década de 1930 e no início da de 1940, Harry se gabava das amizades com gângsteres, mas quando, no final da década de 1940, começou a onda de ata- ques moralistas contra os gibis, ele calou a boca. Décadas mais tarde, enquanto fãs de quadrinhos tentavam farejar o que havia acontecido, Irwin, o

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filho de Harry, jogou gato-e-rato com eles. Numa entrevista contou que uma vez o telefone tocou e a mãe atendeu e escutou uma voz áspera perguntar, “Harry está aí?”. Quando respondeu que não, a voz disse “diga-lhe que Frank Costello ligou”. Segundo Irwin, Gussie tremia quando contou isso a ele. Em

outra entrevista, Irwin disse que um dia a campai- nha tocou, ele foi abrir a porta e encontrou um ho- mem moreno e atarracado, que perguntou, com a mesma voz áspera: “Harry está em casa?” Quando Irwin balançou a cabeça, o homem disse, “diz para ele que Frank Costello deu uma passada”. Irwin se virou em direção à mãe e ambos começaram a tre- mer. Até que um fã-historiador insistiu com Irwin sobre as verdades que não estavam registradas em nenhum lugar. Irwin deu um sorriso meio amarelo

e falou: “Digamos que Frank Costello era meu pa- drinho.” As histórias da família Donenfeld, anedotas

passadas adiante pela mitologia da indústria do gibi

e a história dos negócios dos irmãos, nos fornecem

algumas pistas sobre a relação entre Harry e Frank. Harry tinha muitos contatos entre os apostadores e, antes da Lei Seca, Costello mexia com jogo e apos- tas. Era uma sociedade fácil. Os irmãos Donenfeld compravam papel do Canadá regularmente, e com o pagamento ou a pressão corretos, os agentes da Receita podiam ser facilmente convencidos a não inspecionar os carregamentos a ponto de encontrar

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caixas cheias de cerveja Molson ou de uísque cana- dense. O depósito da Martin Press era usado para guardar essas mercadorias. Os tipógrafos negocia- vam diretamente com os distribuidores de revistas, que levavam a mercadoria até bancas, tabacarias, farmácias e lojas de doces — todos esses eram pon- tos de venda comuns para o álcool contrabandeado. E, como a distribuição de revistas e jornais já esta- va sob o controle de quadrilhas, todo o procedi- mento estava bem seguro. O resultado disso para a Martin Press foi um aumento súbito de capital e uma rápida expansão dos contatos com distribuido- res.

Pode ter sido graças a alguns desses novos só- cios que Harry realizou seu maior feito como ven- dedor. Enquanto expandia as operações de venda de bebida, o time de Luciano e Lansky entrou para a folha de pagamento do macher (Pessoa influente) de distribuição de jornais Moe Annenberg. Moe ti- nha impressionado seu chefe de tal forma durante as guerras de distribuição em Chicago e Milwaukee que Hearst o nomeou responsável pela distribuição de todos os seus jornais e as suas revistas em Nova York, e em 1922 nomeou-o editor de sua nova pu- blicação, o New York Daily Mirror. Moe chegou a aparecer em público chamando a si mesmo de “M. L. Annenberg”, em imitação a “W. R. Hearst”. Mas na vida privada ele continuava um brucutu. Trouxe Dion O’Banion de Chicago para dar um jeito nos

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bairros de irlandeses carolas e contratou Luciano e Lansky para cuidar dos carcamanos e salins. “Eu via o Mirror como meu jornal”, disse Luciano. “Sempre pensei em Annenberg como meu tipo de camarada.” Em 1923 Harry Donenfeld fechou um excelente negócio: imprimiu 6 milhões de cupons de assina- tura para a Cosmopolitan, Good Housekeeping e todas as outras revistas de Hearst. A empresa fami- liar se mudou para um lindo prédio novo de 12 an- dares no distrito de Chelsea, investiu numa rotativa de três cores e se preparou para virar uma empresa de grande porte. Mas já não seria mais a mesma empresa familiar: com alguma artimanha — nin- guém lembra ao certo o quê — Harry tirou seus dois irmãos mais velhos do negócio e tornou-se dono dele. Charlie e Mike Donenfeld voltaram para o ramo de vestuário e, a partir daí, sempre que fala- vam com Harry tratavam-no com frieza. Irving per- maneceu como parceiro e tipógrafo. Harry mudou o nome da firma para Donny Press, por causa de um de seus apelidos nas ruas. Na esfera pessoal, Harry ascendeu a um nível social inatingível para gente do mundo do vestuário barato. Tinha uma vida noturna repleta de jogo, be- bedeiras e mulheres, com despesas muito acima das que podia pagar um vendedor de impressos. Tinha fotos com gângsteres e seus asseclas nos speakea- sies mais luxuosos — fotos que mais tarde iriam

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desaparecer, mas que jovens editores lembram de ter visto em seu escritório até os anos 1940. Essa era a grande farra dos anos 1920 em Nova York, paga com o dinheiro e a decadência social propor- cionados pela Lei Seca, na época em que bruta- montes, policiais, banqueiros, estrelas de cinema e jornalistas juntavam-se com seu uísque em torno do feltro verde; na época em que criminosos que antes só poderia ser astros em espeluncas como o Segal’s Café na Segunda Avenida tornavam-se subitamente alvo de idolatria por parte de debutantes e roman- cistas. E Harry Donenfeld estava lá com eles. Para um homem como Harry, o glamour dos gângsteres não era apenas a vida arriscada ou o cheiro de san- gue a seu redor, mas o fato de eles atravessarem barreiras de classe firmemente mantidas pela velha elite americana. Como percebeu um detetive de Nova York chamado Ralph Salerno, “Gângsteres que nem sequer terminaram o segundo grau rompe- ram barreiras de que ninguém se aproximava 30 anos antes”. Um contador judeu respeitador da lei como Jack Liebowitz ficava se arrastando no cami- nho até a assimilação, trabalhando para clientes ju- deus e impossibilitado de entrar para uma escola em que a cota para judeus estivesse preenchida, en- quanto Harry Donenfeld — ordinário, baixinho, ba- rulhento, com sotaque desprezivelmente Lower East Side — podia pagar uma bebida para um juiz da Tammany e dar uma gorjeta para uma dançarina

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no Texas Guinan’s. O modelo de Harry sempre foi Frank Costello. Para ele, Harry provavelmente era apenas mais um pequeno operador de negócios, uma engrenagem na máquina que ocasionalmente precisava de um pou- co de graxa (era bem fácil aceitar ser o padrinho de mais um bebê), mas Harry queria considerá-lo um amigo. Costello era o mestre dos contatos e da reci- procidade. Sempre fazia com que os capitães de po- lícia e juízes que visitavam seus cassinos saíssem ganhando, e avisava-os de que estava tomando con- ta deles. Sabia como chegar ao centro de informa- ção e de poder: ficou amigo de Walter Winchell logo que ele começou a espalhar lama para tudo quanto é lado em sua coluna de fofocas, e os dois trocaram informações durante anos, Winchell co- nhecendo a sujeira do submundo e Costello convi- vendo com os ricos e famosos. Costello gostava tanto de negócios sem sangue quanto da alta socie- dade: seus camaradas gângsteres chamavam-no de “Primeiro Ministro”. Boatos diziam que ele mesmo havia neutralizado o maior perigo em potencial para as gangues, o FBI. Fosse quando fosse, se ele soubesse que uma corrida de cavalos tinha sido ar- ranjada, passava o nome do vencedor para Win- chell, que o repassava a seu amigo J. Edgar Hoo- ver, que adorava brincar de cavalinho. Segundo a lenda de Costello, foi esse o motivo de Hoover ne- gar a existência do crime organizado na América

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por décadas, mesmo quando até o mais distraído dos americanos sabia a verdade. Harry se vestia como Costello, abandonando os paletós de mau gosto que comprava de caixeiros vi- ajantes, passando a usar ternos escuros e caros, ape- nas um pouquinho mais esportivos que os usados pelos negociantes republicanos. Ele parecia não ter o autocontrole de Costello: há, nas histórias de Harry, alguns detalhes que o revelam piegas ou vi- olento quando enchia a cara, chegando a agredir mulheres. Todavia, assim como Costello, promovia contatos e juntava pessoas de grupos diferentes. Ainda assim, se para Costello essas manobras soci- ais eram calculadas visando poder e lucro, para Harry pareciam justificar-se por si mesmas. A sim- plicidade que ele demonstrava em qualquer encon- tro, não importando se a pessoa em questão podia lhe trazer algum lucro ou não, revela um homem que amava ser conhecido e aceito. Quando Irwin Donenfeld era jovem, seu pai sempre o impressionava por ser “amigo de um monte de juízes”. Para um ex-pivete, esse era o máximo do poder e da aceitação social. O pior medo de um jovem batedor de carteira ou ladrão era ficar cara a cara com o juiz. O juiz era a maior autoridade pública com que uma criança tinha con- tato, já que no juizado de menores, lá de seu assen- to elevado e com sua vestimenta negra infernal, ele podia enviar um garoto para o reformatório por me-

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ses — ou até mesmo um ano — sem direito a ape- lação. Mas, no sistema da Tammany, um juiz era qualquer pau-mandado escolhido para fazer julga- mentos arranjados, e durante a Lei Seca esse siste- ma também servia às gangues de contrabando de bebida. O próprio Frank Costello cuidava de esco- lher os juízes que deveriam ser eleitos em Nova York e New Jersey. Harry Donenfeld teria sido útil como um intermediário aparentemente honesto en- tre o sistema público e essas facções secretas. Mais especificamente, Harry pretendia fechar negócios para imprimir e distribuir material de propaganda política, e lá pela metade da década já estava aju- dando a criar revistas e panfletos para a campanha para governador de Al Smith, o político maioral dentro da Tammany. De fato, ele parece ter feito parte de um grupo de estratégia eleitoral de 1928, quando Smith concorreu à presidência e Franklin D. Roosevelt ao governo do estado — talvez essa tenha sido a origem da história a respeito de sua participação no Brain Trust de Roosevelt. O pivete tinha vencido: juízes e políticos lhe deviam favores. Na mesma época, outras portas se abriram para Harry. Era um negócio que provavelmente não ren- deria tanto dinheiro ou influência quanto sua liga- ção com Frank Costello ou com a máquina do Par- tido Democrata, mas a oportunidade era ainda mais tentadora. Fechou negócio com uma distribuidora

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de revistas chamada Eastern News, fundada por dois jovens idealistas com o dinheiro que suas fa- mílias tinham acumulado no ramo de roupas: Char- les Dreyfus e Paul Sampliner. Graças à estranha va- riedade de títulos que eles publicavam, Harry des- cobriu um outro aspecto da América dos anos 1920: um mundo de fanáticos pela boa forma física e fotógrafos de mulheres nuas, de reformistas das leis de bons costumes e pornógrafos, de distribui- dores de contrabando e visionários sociais, de Hugo Gernsback e Margaret Sanger. Ao passar por aque- la porta Harry iria finalmente, e acidentalmente, fa- zer sua grande contribuição à cultura americana.

TALVEZ SEJA uma medida do peculiar char- me de Harry o fato de diferentes pessoas gostarem das diferentes personificações que ele foi assumin- do. Ao mesmo tempo que fazia amizade com gân- gsteres e democratas corruptos, continuava a des- frutar da confiança daquele organizador dedicado do Sindicato Internacional dos Trabalhadores da In- dústria de Roupas Femininas, Julius Liebowitz. Os melhores anos para os contrabandistas de bebida não foram muito bons para os radicais e para os sindicatos. Diante das consequências da Guerra Mundial e da Revolução Russa, o Secretário de Justiça dos Estados Unidos orquestrou uma lim- pa geral que colocou 16 mil esquerdistas na cadeia por meses, sem julgamento, e deportou centenas

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para a Rússia. (O caso fez de J. Edgar Hoover uma estrela; sua crença de que os escritos anarquistas de Emma Goldman eram uma ameaça maior à vida americana do que os sangrentos negócios envolven- do bebida ilegal estava de acordo com a opinião ge- ral no país.) E isso tudo durante um governo demo- crático progressista. Quando os republicanos assu- miram o governo, em 1921, fingiram não perceber as leis ignoradas, o erário público saqueado e os sindicatos atropelados por cartéis. Nos anos seguin- tes a economia sofreu altas e baixas na montanha russa impulsionada pelo dinheiro que encerrou a úl- tima década do capitalismo emergente americano, década em que os sindicatos perderam membros e influência. Em toda parte, o controle do SITIRF estava nas mãos de socialistas moderados que desejavam man- ter os acordos fechados durante a guerra. Mas em Nova York uma falange de comunistas beligerantes acusou esses mesmos acordos de terem prejudicado os sindicatos. Assim, romperam com o conselho executivo e incitaram o confronto com os donos de fábricas. Os socialistas de Nova York, liderados pelo jovem David Dubinsky e que incluíam Julius Liebowitz, tentavam ajudar o sindicato nacional a se livrar dos comunistas, mas os fabricantes se aproveitaram da ruptura para pressionar o sindicato a ceder. Os sindicalistas passaram a apoiar a greve. O sindicato enfrentava, ao mesmo tempo, os fabri-

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cantes e suas brigas internas — e nesse exato mo- mento Jack, o filho de Julius, começava a trabalhar lá.

Enquanto trabalhava para sustentar a si mesmo

e à família, Jack recebeu seu diploma da NYU aos

24 anos. Já tinha encontrado e cortejado uma garota

chamada Rose, mas não queria se casar com ela até que estivesse formado e pudesse começar uma car- reira. Começou num escritório modesto próximo ao SITIRF, tendo o sindicato como único cliente. Nas fotos dessa época ele aparenta mais idade do que a que de fato tinha — ternos de bom gosto, bigodi- nho, cabelo puxado para trás, mostrando entradas discretas —, enfim, o tipo de homem a quem você confiaria seu dinheiro. Ao fim de um ano, Jack foi nomeado responsá-

vel pelo fundo de greve do sindicato, bem a tempo para seu batismo de fogo. No verão de 1926, 50 mil trabalhadores paralisaram suas atividades. Foi um desastre que durou seis meses. O sindicato gastou quase 4 milhões de dólares para custear a moradia e

a alimentação dos grevistas, o que exigiu do jovem

Jack malabarismos numéricos. E quando a greve terminou sem que o fundo de greve entrasse no ver- melho, Jack passou a ser muito bem-visto pela lide-

rança do sindicato. Infelizmente outros homens também se envol- veram com a liderança. Quando a situação ficou complicada, os proprietários das fábricas contrata-

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ram um brutamontes assassino chamado Jack “Legs” Diamond para acabar com os piquetes. Os comunistas deram o troco chamando o chefe das ruas no Lower East Side, “Little Augie” Orgen. A greve ameaçava transformar-se numa guerra entre Legs e Augie. A seriedade da disputa, aliada ao sentimento pró-empregadores do público em geral e à resistência silenciosa dos socialistas de Du- binsky, tudo isso começou a pesar para os grevis- tas. Por fim os comunistas aceitaram negociar. Mas não se chegou a nenhum algum até que Arnold Ro- thstein, o jogador que era também o conselheiro de quase todos os chefes do crime em Nova York, concordasse em intermediar um cessar-fogo entre Legs e Little Augie. Nesse processo, envolveu as gangues com os sindicatos e patrões. Daí em dian- te, a quadrilha passaria a ser um parceiro invisível em cada local, cada negociação, cada acordo finan- ceiro tanto do SITIRF como da Associação dos Fa- bricantes. Menos de um ano depois, os corpos de Little Augie e Legs Diamond foram encontrados crivados de balas — Augie já morto e Legs quase — num esconderijo na Delancey Street. O homem que fez os disparos, um protegido de Rothstein cha- mado Lepke Buchalter, assumiu o controle da qua- drilha e rapidamente o estendeu a outros sindicatos e indústrias, tornando-se o homem mais poderoso no crime e nos sindicatos americanos. Os comunistas do SITIRF viram-se forçados a

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aceitar um acordo tão ruim que foram afastados de

seus cargos. Em seguida David Dubinsky, o experi- ente e pragmático fugitivo que valorizava resulta- dos mais do que ideologia, estava tocando sozinho

o sindicato — mas um sindicato profundamente

comprometido. Para muitos — ao que parece até mesmo para Julius Liebowitz — era um compro- misso que valia a pena, em nome da causa. Para o

filho Jack, achar o equilíbrio entre corrupção e ide- ais seria mais uma etapa de sua educação pouco sentimental. Enquanto ajeitava o balanço para es- conder os milhões de dólares desviados do sindica-

to

por Lepke Buchalter, Jack começou a questionar

o

socialismo. Se o capitalismo conquistava a tudo e

todos de forma tão irresistível, talvez a única saí- da realmente honesta fosse dominar o próprio capi- talismo.

a

ENQUANTO A NOBRE experiência da Lei Seca continuava, a farra dos anos 1920 ficava mais animada. As quadrilhas profissionais afastaram os contrabandistas novatos e obrigaram todos os que tinham a intenção de ganhar dinheiro vendendo be- bida a jogar seu jogo. Em 1925, outro gângster que Harry declarou conhecer, Irving “Waxey Gordon” Wexler, meteu-se em encrencas quando o capitão de um navio que levava uma carga de bebida cana- dense para ele ficou indignado com sua parte no pagamento e foi denunciá-lo à polícia. A história

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terminou com o capitão morto num quarto de hotel (onde estava sob proteção da polícia). Waxey teve que fugir de sua glamorosa Manhattan para New Jersey. Harry, que não desejava nem uma bala na cabeça nem voltar para New Jersey, parece ter res- tringido seu envolvimento com o contrabando nes- se período. Harry também estava assumindo novos compro- missos. Tinha se mudado para uma vizinhança de classe média na Merriam Avenue, no Bronx, onde em 1926 Gussie deu à luz seu filho Irwin. Dois anos mais tarde ela teve uma filha, que recebeu o poético nome de “Sonia”, mas estava destinada a ser mais conhecida por seu apelido “Peachy”. Harry nunca seria um homem de família — tinha um apartamento só seu em Manhattan e deixava a residência mais ao norte sob os cuidados de Gussie e dos empregados. No entanto era ele quem susten- tava tudo isso, e assim, pressionado pela esposa e pelo dia-a-dia, foi buscar novas formas de expandir os negócios da família. Acontece que Harry não queria ser apenas prós- pero — também queria ser notado. Para esse filho ambicioso de judeus imigrantes de Nova York, nos anos 1920, o ar, as bancas de revista e os cartazes estavam cheios de histórias de sucesso que ao mes- mo tempo o atraíam e atormentavam. Quando um comerciante de peles chamado Adolph Zukor assis- tiu a um peep show (Aparelho ou cabine em que

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um espectador individual espia uma cena de nature- za erótica) de 25 centavos pela primeira vez, em 1903, o comentário que fez foi: “Um judeu poderia fazer muito dinheiro com isso”. Pouco mais de uma década depois, Zukor e um pequeno exército de ou- tros frequentadores de prostíbulos e excluídos com o mesmo objetivo em mente — Laemmle, Lasky, Warner, Loew, Cohn — tinham derrubado figuras tradicionais e influentes, gigantes da indústria cine- matográfica como Thomas Edison e George East- man. Enquanto isso Al Jolson, os irmãos Marx, Jack Benny, George Burns, George Jessel e o velho amigo de Harry Eddie Cantor promoviam grandes transformações no palco e no rádio. Irving Berlin, outro garoto do Lower East Side pouco mais velho que Harry, não apenas transformou a música pop americana e se tornou um milionário como também figurou nas manchetes em 1925, quando roubou, do pai da moça, uma bela herdeira de 17 anos de famí- lia tradicionalíssima e casou-se com ela. Alguém metido a cantor, ordinário e com pouca educação até podia olhar as beldades shiksa (Garotas não- judias) e seus elegantes narizes nas colunas sociais e sonhar com a possibilidade de que elas um dia ha- bitassem o mesmo mundo que ele. Mas ter 38 anos, ainda sem educação, ainda ordinário e levar uma garota daquelas não apenas para a capa do jornal mas para a cama também — isso era o moderno triunfo americano. “Deus abençoe a América”, es-

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creveu Irving Berlin, mas não era o oceano que ele havia conquistado (Referência à letra de “God Bless América”, de Irving Berlin). Para os judeus do início do século XX a rota mais curta para a fama era através do entretenimen- to para as massas, áreas nas quais os americanos tradicionais não estavam interessados em trabalhar, seja por preconceito, esnobismo ou provincianis- mo. As habilidades de vendedor de rua ajudavam:

saber fechar um bom negócio, vender ligeiro, rein- vestir tudo de novo, acompanhar minuciosamente a moda e ir atrás dos gostos da clientela sem se im- portar com o que os outros pensavam a respeito de sua aparência. O ramo disponível para Harry era o da publicação de revistas, que moldaria sua vida desde seus 30 anos até sua morte. Na década de 1920, os americanos começaram a comprar revistas como nunca. Tecnologia de im- pressão barata, distribuição na era dos automóveis, dinheiro para gastar e uma fome de informações so- bre um mundo que mudava a cada dia conspiraram para tornar a banca de revistas uma das principais arenas da cultura nacional. No início da década ha- via nas bancas mais de 2 mil títulos. Os americanos passavam mais tempo lendo revistas do que em qualquer outra atividade de lazer. Cada turma ou grupo com um determinado interesse tinha periódi- cos próprios, e o editor sortudo que descobrisse um gosto ainda inédito do público podia fazer fortuna

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com investimentos ridículos. Ninguém em 1919 es- peraria que a True Stories ou a Ranch Romances vendessem milhões de exemplares, mas elas vende- ram. O ramo de revistas era um ímã para visioná-

rios, pessoas com hobbies excêntricos, oportunistas

e também para os envolvidos com o mercado ne-

gro. Algumas vezes todas essas características se juntavam na mesma pessoa. O modelo de qualquer aspirante a magnata das revistas era William Randolph Hearst, que desafia- ra o monopólio da American News Company para criar sua própria companhia de distribuição inde- pendente. Mas parecia impossível imitar Hearst, já que ele tinha na bagagem uma família rica e suces- so no mundo jornalístico. Quando Harry Donenfeld e outros homens como ele pensavam em lançar

suas revistas, tentavam ser como Bernarr MacFad- den. MacFadden usou sua própria história para fun- dar um império: um garoto raquítico do Missouri que descobriu as virtudes da boa forma física quan- do foi trabalhar na fazenda do tio, criou um novo método de fisicultura batizado como “cinesterapia”

e se mudou para Nova York por volta de 1890 para

formar o primeiro clube de “cultura física”. De-

monstrou ser um mestre em chamar a atenção. Mu- dou seu nome de “Bernard” para “Bernarr”, para

que soasse mais como o rugido de um leão. Deixou

o cabelo crescer, como Hércules, e aparecia em pú-

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blico com tanga de pele de leopardo por cima de uma malha cor de pele. Em 1899 lançou a revista Physical Culture para promover seu plano de dieta, levantamento de pesos e vida racional. Quando ne- nhum distribuidor quis apostar na idéia, usou a rede de contatos que tinha em clubes de fisicultura e sa- natórios para estabelecer seu próprio sistema de distribuição. Logo estaria também nas farmácias, tabacarias e outros pequenos pontos de comércio em todas as cidades da América. Em nome da saúde e da honestidade, MacFad- den desafiou os bons modos da época. Foi julgado culpado de obscenidade por causa de um artigo que discutia com franqueza as doenças venéreas na Physical Culture, e então perdoado pelo próprio presidente Taft. Era atacado pela polícia e pela igreja devido às exibições que organizava para mostrar os corpos de seus discípulos em roupas de natação e malhas colantes. E as pessoas compra- vam suas revistas. Quando a Primeira Guerra Mun- dial acabou e o preço do papel caiu, tentou um novo tipo de revista, com histórias inspiradoras en- viadas pelos leitores da Physical Culture. Passados alguns anos, a True Story, um compêndio dos su- cessos de pessoas comuns em crises de saúde, nas finanças, na família e na vida amorosa, estava ven- dendo 2 milhões de cópias. Bernarr não perdeu tempo e ofereceu mais títulos baseados em histórias reais. Mês a mês ele se afastava cada vez mais da

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saúde e da inspiração, aprofundando-se em escân- dalos, emoções baratas e sexo mal disfarçado: True Confessions, Photoplay, True Ghost Stories. Em 1924, com a True Crime e o pioneiro do que seria chamado “jornalismo sensacionalista”, o New York Graphic, ele deu um giro de 180 graus em sua pro- posta inicial e passou a vender histórias de doença e degradação humana. Isso também vendia aos montes. Um dos pontos-chaves de vendas para MacFad- den foi o corpo humano: aproveitando-se do baixo custo do processo de impressão por rotogravura que ficou disponível no pós-guerra, estampava fisi- cultores, atrizes estreantes e belas vencedoras de concursos para figurar nas capas. Um corpo muscu- loso vestindo malha se tornou a marca registrada das revistas de MacFadden. Suas publicações eram atacadas como pornografia por moralistas e pelo serviço postal, mas ele sempre dava um jeito de es- tar dentro da lei. Continuou promovendo seus ide- ais de cultura física, muitas vezes atraindo as críti- cas da comunidade médica, mas agora muito mais para continuar nas manchetes do que para melhorar a humanidade. Em público ele se fazia de bobo, aparecendo nos escritórios da companhia apenas de tanga, rugindo como um leão e promovendo ses- sões de exercícios calistênicos para sua equipe. Na verdade era um negociante astuto e predatório, que devorava outros distribuidores. Em 1926, vanglo-

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riou-se de vender mais revistas que Hearst. Os críti- cos chamavam-no de demente, charlatão e pornó- grafo. Mas acontece que ele era um demente, char- latão e pornógrafo rico. Muitos dos que imitaram MacFadden eram ape- nas homens de negócios. George T. Delacorte tinha entrado no ramo em 1921, e já estava rico no final dos anos 1920, sempre comprando revistas que es- tavam ganhando espaço e vendendo-as quando atingiam seu ponto máximo. Os irmãos Fawcett, de Minneapolis, deram sorte com uma revista de pia- das chamada Captain Billy’s Whiz-Bang e monta- ram seu negócio como um simulacro do império de MacFadden. Os Delacorte e os Fawcett dos negó- cios vendiam muitas revistas, e mais tarde quadri- nhos, mas trouxeram pouca coisa de original para esses segmentos. Os que expandiam os horizontes das revistas costumavam ser aqueles como Mac- Fadden que, antes de se interessar por negócios ou publicações, tinham chegado a Nova York para promover suas paixões particulares e viam as revis- tas como uma forma de disseminar idéias. Um dos imitadores de MacFadden que cruzaria os caminhos de Harry Donenfeld e Jerry Siegel foi Hugo Gernsbacher. Era um judeu europeu, mas de uma Europa e de um judaísmo desconhecidos dos Donenfeld, Siegel e Liebowitz: filho de um merca- dor de vinhos luxemburguês, fora criado numa aris- tocracia cultural que falava alemão e francês e con-

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fiava ser capaz de criar o futuro dos seus desejos. Ainda na adolescência, apaixonou-se pela tecnolo- gia elétrica e inventou um novo tipo de bateria, mas o sistema legal europeu impediu que patenteasse a invenção. Tinha crescido lendo romances baratos sobre caubóis americanos, trabalhadores heróicos e aventureiros fluviais como os de Mark Twain. Aos 20 anos, em 1904, colocou sua bateria elétrica na mochila e mandou-se para Manhattan. Ao chegar — mal falando inglês, vestido como um dândi fran- cês e com um monóculo no olho — apresentava-se como “Huck Gernsback”. Começou a vender equi- pamento elétrico através de catálogos postais quan- do viu que não conseguia alguém para financiar suas invenções. Mas ele tinha muito o que dizer so- bre a maravilhosa era da Tecnologia e Razão que despontava, e seu catálogo iria refletir isso ao ponto de ser muito mais que um catálogo: os editoriais e as descrições de novos produtos entusiasmavam tanto a ele e seus clientes que, em 1908, lançou a Modern Electrics, e mais tarde a Science and In- vention, uma espécie de versão futurística e utópica da Popular Mechanics. Nessa revista, em 1911, pu- blicou seu estranho romance, “Ralph 124C 41+”, em que antecipou inventos como a televisão, o ra- dar, as luzes fluorescentes, as fitas cassetes e até mesmo as jukeboxes. Era, além disso, uma demons- tração de como idéias de tecnologia e futuro podi- am empolgar as massas.

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Durante o boom dos anos 1920, Gernsback adaptou essa idéia e criou a Amazing Stories, a re- vista que seria tão importante para Jerry Siegel e seus companheiros fãs. Também entrou para o ni- cho de saúde com a Your Body, flertou com revistas de humor e chegou a vender reimpressões das tiras S’Matter Pop? em bancas de revistas. Os esquemas de distribuição permanecem nebulosos, mas no fim da década ele já era um cliente importante de Char- les Dreyfus e Paul Sampliner da Eastern News, para os quais Harry Donenfeld era um dos impres- sores favoritos. Segundo relatos, Gernsback era uma das poucas pessoas imunes ao charme de Harry, e o achava grosseiro e mercenário. Harry pa- recia não gostar do estilo condescendente de Gerns- back. Nada disso surpreende, afinal, era o encontro de um judeu germânico e culto com um de seus ir- mãos do leste europeu. Mas seus interessem con- vergiram o suficiente para torná-los aliados por um tempo. Michael Feldman, editor e jornalista que inves- tigou algumas das misteriosas linhas de distribuição de revistas, afirma que a Eastern News era “o núc- leo de uma cultura alternativa importante e não do- cumentada na América do início do século XX”. Além das publicações de Gernsback, a Eastern News também cuidava de jornais feministas, revis- tas esotéricas, a Psychology e a Sex Monthly, guias- gêmeos para a saúde mental e erótica editados por

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um ministro cristão progressista chamado Henry Knight Miller. Mas os produtos não se restringiam a publicações. O próprio Gernsback era um investidor com muitos interesses. Sua grande paixão era o rádio. Nele enxergava a esperança de um novo mundo, um instrumento que superaria o provincianismo e o primitivismo. Investiu seu dinheiro e conhecimento na construção de uma das primeiras estações co- merciais de rádio em toda a América, a WNRY, e assim que a empresa começou a dar lucro Gerns- back passou a pesquisar a transmissão de imagens. Escrevia sobre “televisão” desde 1910 e foi o prin- cipal responsável por esse termo ter batizado algo que ainda não existia na época. Em 1928, saíram de sua estação as primeiras transmissões de televisão ocorridas no mundo. Segundo Michael Feldman, Gernsback prova- velmente continuou vendendo bugigangas eletrôni- cas e outros bens de consumo por muito tempo após entrar no ramo de publicações, e pode ter ini- ciado a Eastern News na arte de distribuir certos produtos para farmácias e tabacarias junto com suas revistas. Foi por causa desse interesse que Gernsback, a Eastern News e Harry Donenfeld se envolveram com uma figura misteriosa mas onipre- sente durante a época do estouro das revistas — Harold Hersey e sua amante Margaret Sanger. Na segunda década do século XX, Sanger tinha

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se tornado uma líder política radical do Greenwich Village. Foi o trabalho como enfermeira no Lower East Side, cuidando das mulheres que Harry Do- nenfeld conhecia — mulheres que tiveram a vida destroçada pela ignorância e falta de métodos anti- concepcionais — que a levou a promover o contro- le de natalidade. Precisaria de um editor e um escri- tor para ajudá-la a lançar seu jornal, The Woman Rebel, e contratou Harold Hersey, um jovem que ti- nha se mudado de Montana para o Greenwich Vil- lage sonhando em ser poeta. Sanger acreditava na liberdade sexual e era conhecida por seus casos com ícones do período, como H. G. Wells e Have- lock Ellis (Médico e terapeuta sexual britânico en- gajado em movimentos sociais). Hersey ficava ofuscado em meio ao brilho dos outros amantes de Sanger, mas ainda assim era importante, já que em breve estava publicando e distribuindo o jornal e ajudando-a a construir parte da estrutura necessária ao movimento pelo controle de natalidade. “Nós não vendíamos apenas jornais, mas também lâmi- nas de barbear e outros itens.” Os “outros itens” eram contraceptivos. Além de defensora do contro- le de natalidade, Sanger também vendia métodos anticoncepcionais pelo correio. Tinha sua própria linha de preservativos, diafragmas e duchas vagi- nais. A Eastern News era uma das companhias que distribuíam as publicações e contraceptivos de San-

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ger nos anos 1920, segundo Feldman. Harry Do- nenfeld pode ter sido um dos impressores do Birth Control Review e outros periódicos. Mas Harry era mais valorizado na distribuição, uma vez que era ilegal enviar contraceptivos e até mesmo escritos pró-contraceptivos pelo correio. Sanger foi presa diversas vezes pelo envio desse material e, ainda que as prisões tenham rendido alguma publicidade, naquela época ela estava mais interessada em ga- rantir acesso aos contraceptivos e ganhar o apoio do mainstream do que em ser mártir. A Eastern News, como todas as distribuidoras de revistas, de- pendia do serviço postal para chegar até a clientela. Mas Harry Donenfeld tinha acesso a outros siste- mas de distribuição: aqueles que transportavam be- bida canadense até o coração da América. Assim os preservativos de Margaret Sanger, a ficção científi- ca de Hugo Gernsback e o uísque de Frank Costello podiam andar juntos em caminhões e trens e passar por agências de correio em que os inspetores esti- vessem na jogada. E em 1928 a literatura de cam- panha de Al Smith (Político populista do Partido Democrata originário do Lower East Side. Foi elei- to várias vezes governador do estado de Nova York) se juntou a essas mercadorias. Enquanto isso, Harold Hersey estava usando o que aprendera com a publicação das revistas de Sanger para iniciar sua carreira como editor de re- vistas. Foi o criador da Ranch Romances, umas das

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revistas pulp de maior sucesso, e The Thrill Book, um dos precursores da Weird Tales e da Amazing Stories. Trabalhou em diversos projetos para Ber- narr MacFadden, incluindo o New York Graphic, e pode ter dado uma mãozinha a Walter Winchell e Ed Sullivan para que arranjassem seu primeiro em-

prego jornalístico. Entre suas criações estavam al- gumas das revistas mais esquisitas de todos os tem- pos: Strange Suicides, Medical Horrors e Speake- asy Stories. Também lucrou alguma coisa como consultor para diversos editores, mesmo que nunca tenha recebido créditos por isso: ele era muito re- quisitado para simplesmente entrar no escritório de

algum jornalista novato e dizer “Beeeeem ”

que fazemos na MacFadden

popular na Eastern News e deixou sua marca nas publicações de um dos editores mais ousados, um californiano boêmio chamado Frank Armer. E fo- ram essas revistas que fizeram de Harry Donenfeld um dono de editora. Pouco se sabe da infância e adolescência de Ar- mer, mas ele parece ter sido um homem de inclina- ções artísticas que amadureceu em Hollywood na época em que Adolph Zukor e sua turma estavam transformando o paraíso sonolento das famílias protestantes num mundo de ambição, dinheiro, exi- bições artísticas e corpos jovens e belos. Apaixona- do pelo negócio, e especialmente pelas atrizes es- treantes, Armer ajudou, em 1922, a lançar a

isso é o

Hersey era bastante

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Screenland, uma imitação da Photoplay de Mac- Fadden. O gerente de negócios era Paul Sampliner, que em breve fundaria a Eastern News. Harry Do- nenfeld imprimia as capas. Lá pelas tantas Armer tinha se casado com uma judia rica que tinha conta- tos na indústria de roupas e em 1925 ele estava em Nova York. Era afiliado da Eastern News e estava lançando uma revistinha que trazia algumas das mais energéticas contradições da América nos anos 1920: Artists and Models. As capas continham fo- tos glamorosas de garotas do Ziegfeld Follies (Show de variedades apresentado na Broadway de 1907 a 1931) entre elas Joan Crawford e Louise Brooks. Ao olhar o índice, no entanto, era possível encontrar uma reprodução monocromática de um retrato de viúva por Thomas Gainsborough, um ar- tigo sobre “a arte de Goya” e um poema de Dante Gabriel Rossetti. Misturado com tudo isso havia colunas de fofo- ca (“Broadway Flashes”), ficção levemente erótica (“Challenge, the Story of a Model”) e ilustrações de Erté, cenografista e figurinista que estava des- pontando. E o mais importante de tudo: cada edição conti- nha o perfil de algum artista contemporâneo que Armer julgava merecer atenção — e que sempre fo- tografava ou pintava nus femininos. “A arte de Al- fred Barnard” exibia diversas fotos de corpos femi- ninos jovens e lisos, com seios e traseiros empina-

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dos. Ao lado, a seguinte observação: “Nota-se que esse tipo de estudo de figura é especialmente im- portante para o artista aspirante, conforme fica ates- tado pelo número de cartas elogiosas que o sr. Bar- nard recebe de diretores de universidades e acade- mias de arte”. A Artists and Models era sofisticada, pretensiosa, um tanto grosseira e dissimulada. Aci- ma de tudo, era uma maneira esperta de fazer com que fotos de mulheres nuas passassem pelos censo- res e autoridades postais e chegassem até as estan- tes (caso não ficassem escondidas embaixo do bal- cão) de revistas nas tabacarias e bancas. Harry Donenfeld imprimia as capas e as páginas de fotos para Armer, e se realizava com esse servi- ço. Armer deve ter sido uma figura irresistível. Mo- rava nas duas costas ao mesmo tempo, tinha escri- tórios a um quarteirão da Times Square, onde fazia contato social com artistas de teatro e selecionava pessoalmente as garotas que apareciam em sua re- vista, mas apesar disso passava a maior parte do tempo em San Francisco, onde encontrava poetas, nudistas e fotógrafos “pictóricos” que vendiam seus nus a colecionadores de arte, embora o material fosse frequentemente barrado pela polícia como pornografia. Harry queria ganhar sua atenção tanto no nível pessoal quanto profissional. Quando Ar- mer colocou a Art and Beauty, a Modem Art e ou- tras revistas de “mulher pelada” na gráfica de Harry, este arcou com diversos custos. Logo ele se-

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ria mais que o impressor de Armer — era um par- ceiro silencioso nos negócios. Em 1926 Armer dedicou-se a um novo gênero e acertou em cheio. Revistas de humor sacana e his- tórias eram uma das fontes inesgotáveis de publica- ções nos anos 1920: Laughter, La Paree, Snappy

Stories e a French Humor de Gernsback. Todas es- sas tinham ilustrações insinuantes porém discretas, até que uma outra revista, a Paris Nights, começou

a incluir cadernos de fotos de 12 páginas em suas

edições. No início eram apenas garotas com roupas

de baixo e fotos de dançarinas, mas aos poucos, já que a lei mantinha distância, começou a incluir nus. A Pep! de Armer fez o mesmo, alardeando suas “novas, emocionantes e provocantes histórias e ARTE”, arriscando mais do que nunca na parte gráfica, chegando a colocar a foto de uma mulher com os seios à mostra na capa da edição de dezem- bro de 1926. Mas logo chegou a notícia, das bancas

e dos leitores, de que as histórias excitantes e chei-

as de emoção faziam tanto sucesso quanto a tal arte. Os escritores da Pep! eram um bando de es- pertinhos graciosos, que incluía o prolífico e caris- mático Robert Leslie Bedlam. Numa história ele es- creveu: “Mimi L’Enclos tinha uma queda por rou- pas de baixo pretas e com lacinhos — e um marido que aprovava completamente seu gosto nesse as- sunto”. Mas ela ganha um diamante de presente de um outro homem, “e então Mimi esqueceu tudo o

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que estava em sua consciência. Até esqueceu com- pletamente de Henri. Na verdade, esqueceu de qua- se tudo que não fosse a felicidade daquele momen-

to e a alegria que tinha sentido quando viu o quanto as roupas de baixo pretas agradaram Raoul”. Revistas com histórias eram mais baratas e mais seguras de publicar do que as com fotos de nus, e em poucos anos Armer e Donenfeld eliminaram as fotografias, adotaram novamente as capas pintadas

e causaram agitação com um monte de imitações:

Artists and Model Stories, Broadway Nights, Real Story, Ginger Stories e Spicy Stories. Na primavera de 1929, Harry e Irving Donenfeld formaram uma nova companhia, com Gussie Donenfeld na gerên- cia, para publicar suas próprias imitações baratas, Juicy Tales e Hot Tales. Armer e os Donenfeld es- tavam abrindo caminho para um novo gênero, as revistas pulp de sexo — ou smooshes, como eram chamadas. A editora da maioria dessas revistas era a filha de um pastor metodista chamada srta. Merle W. Hersey (“srta.” era para impor um pouquinho de respeito). Ela e Harold Hersey sempre negaram qualquer parentesco, mas os nomes são suspeitos. Os contornos daquela “cultura alternativa não documentada” se definem a partir desses negócios

e dessas relações sociais. Bebida, jogatina e prosti-

tuição num extremo; no outro, feminismo, direito ao controle de natalidade e utopias científicas. En- tre os dois, fotografias de nus, humor pornográfico,

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dançarinas e atrizes estreantes, homens de negó- cios, camelôs e políticos que se opunham à Lei Seca e defendiam os métodos contraceptivos, mas sem poder admitir isso publicamente. A grande far- ra dos anos 1920 ficou mais animada ao chegar perto do fim, e bem no meio do salão Harry Donen- feld dançava — vendedor, impressor, contrabandis- ta, democrata ferrenho e editor de smoosh. Então as luzes começaram a se apagar. O pri- meiro golpe veio com o surgimento do maior pre- dador na selva de revistas baratas, Bernarr MacFad- den. Ele entendia o valor dos títulos e ações da rá- dio de Hugo Gernsback. Algumas semanas após as primeiras transmissões televisivas de Gernsback, seus credores juntaram-se a MacFadden para tirá-lo de cena. “Huck” não era um homem de negócios muito cauteloso e, ainda que a empresa desse lucro, nem sempre ele tinha dinheiro em caixa para saldar as dívidas. MacFadden levou-o à falência em 1929, orquestrando exigências de pagamento simultâneas dos impressores, fornecedores de papel e outros. Então tomou posse rapidamente de suas proprieda- des: a rádio e a estação de TV. Quando Jerry Sie- gel, aos 14 anos, em Cleveland, notou o desapareci- mento de Gernsback da Amazing Stories, ainda não tinha idéia das artimanhas envolvidas na produção das revistas que tanto amava. Gernsback se uniu a novas revistas e sobreviveu como editor, mas nunca mais teria chance de ser o

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magnata das telecomunicações que sonhava ser. A Eastern News estava abalada e especialmente vul- nerável aos choques que se seguiram ao crack da Bolsa. O mês do crack, outubro de 1929, foi o mes- mo mês em que Harry Donenfeld fez sua estréia como editor, lançando a Juicy Tales e a Hot Tales. A grande farra estava acabando, mas Harry ainda tinha mais um contato importante a fazer nos mo- mentos finais.

O AFASTAMENTO DE Jack Liebowitz da causa socialista parece ter acontecido de maneira lenta mas constante durante o fim dos anos 1920.

Para muitos socialistas, a gota d’água foi a execu- ção de Nicola Sacco e Bartolomeo Vanzetti no ve- rão de 1927. A batalha para salvar os dois anarquis- tas da pena de morte mobilizou progressistas do mundo todo e despertou novamente a esperança utópica da esquerda americana depois de anos de reveses sociais e políticos. O desfecho da batalha, com a morte dos dois homens, deixou apenas amar- gura e exaustão. John dos Passos escreveu: “Tudo bem, vocês venceram. Nossa nação, a América, foi derrotada por estrangeiros que viraram nossa língua

do avesso [

contrataram o carrasco para apertar o botão [ ] tudo bem. Somos duas nações”. Os revolucionários mais convictos se uniram, e os menos se afastaram. Jack estava entre os últimos.

]

eles construíram a cadeira elétrica e

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Ele também estava assumindo responsabilida- des. Tinha se casado com Rose e se mudado para um apartamento no Bronx onde os dois pretendiam começar uma família. Jack estava determinado a ser um pai e marido ideal, a garantir conforto e se- gurança para a família. No final da década come- çou a trabalhar para outros clientes além do sindi- cato. Também começou a estudar o mercado de ações. O engajamento que tinha dedicado à causa

socialista se voltava agora para o capital. No início,

os esforços para compreender esse mercado benefi-

ciaram o sindicato também, já que tinha investido o fundo de greve em ações e obtido bons resultados.

Mas, com o crack da Bolsa, o tiro saiu pela culatra.

O valor dos títulos e das ações do sindicato caiu

vertiginosamente. Não se sabe ao certo se Jack foi dispensado pelos líderes sindicais ou se saiu, enoja- do com sua raiva. O certo é que, pelo fim de 1929, estava em busca de um novo cliente. Ao mesmo tempo, Harry Donenfeld estava pro- curando um novo gerente de finanças para sua edi- tora. Mesmo sendo forte e astuta como era, Gussie não tinha condições de cuidar de duas crianças e to- car uma empresa. Foi quando um velho cliente, Ju- lius Liebowitz, do SITIRF, ouviu sobre a fortuna crescente de Harry. Perguntou: “Será que você po- deria arranjar um emprego para Jack, o meu garo- to?” Harry era sentimental e generoso na distribui- ção de dinheiro e empregos. Sempre ficava feliz ao

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contratar um velho amigo ou filho de um amigo da vizinhança. Jack ficou com a vaga, mas não preten- dia ocupá-la por muito tempo. Nem o socialista que tinha sido, nem o pai de família respeitável que queria ser admitiam a idéia de trabalhar como con- tador para um pornógrafo. Nenhum dos dois percebeu como se davam bem juntos. Harry Donenfeld e Jack Liebowitz amadu- receram em meio à selva de negócios da América do início do século XX. Cada um desenvolveu ha- bilidades diferentes para sobreviver nela: Harry ti- nha a rapidez, a esperteza e o poder ilimitado de fa- zer com que as pessoas gostassem dele. Jack tinha autocontrole, cabeça no lugar e era um especialista em analisar todas as variáveis. Juntos, formariam uma entidade completa que iria sobreviver e pros- perar nos difíceis anos que tinham pela frente. E essa entidade emergiria da Grande Depressão como algo que ninguém podia imaginar. Esse foi o berço das histórias em quadrinhos:

contracultural, inculto, idealista, lascivo, pretensio- so, mercenário, de olho no futuro e efêmero, tudo ao mesmo tempo.

4

—————————— O HOMEM PERFEITO

JERRY SIEGEL SAÍA da casa da mãe, na

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Kimberly Avenue, andava meio quarteirão cheio de casas de madeira idênticas, virava à direita na Parkwood e andava mais um quarteirão inteiro até a Everton. Por vezes atravessava a rua e andava ao lado das árvores alinhadas que beiravam a vala que já tinha sido um rio. Nos dias de semana, a Parkwo- od ficava cheia, com os 1.600 estudantes da Glen- ville High School que vinham de ônibus, bicicleta ou a pé. Jerry às vezes passava os olhos pelos ros- tos das poucas crianças em que confiava o suficien- te para dar um oi, mas quase todas as manhãs anda- va ligeiro e com a cabeça baixa, sofrendo sozinho. Rapidinho ele subia os degraus, passava pelas duas colunas cobertas de hera e entrava no formigueiro de pessoas barulhentas, competitivas e no cio que era a Glen Hi. Passava rápido o bastante para evitar que pudesse ser pego ou que implicassem com ele. As poucas fotos de Jerry nos anos do segundo grau exibem uma combinação de vigilância e dis- tanciamento: o rosto imóvel deixa perceber olhos desconfiados, abertos demais, fixos em nós, não para nos observar, mas olhando para ver que tipo de ameaça a câmera representa. Os escritos de Jerry revelam um adolescente infantil demais para a ida- de, mas nas fotos ele parece um garoto velho. A Glen Hi não era um lugar fácil para Jerry Sie- gel. Seu desempenho era fraco, ele não se adaptava, não tinha créditos extracurriculares. Seu único mo- tivo de entusiasmo era The Torch, o jornal semanal

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da escola. Muitas vezes falava sobre virar repórter quando crescesse, como muitas crianças da época, porque era a máxima aspiração romântica da América, o homem das notícias na cidade grande. Os novos heróis hollywoodianos de Jerry eram jor- nalistas enérgicos, falantes e empertigados com seus chapéus diplomata; podiam acabar, por meio da astúcia, com qualquer criminoso, milionário ou dama da sociedade. Mas Jerry estava bem longe de ser aquele típico jornalista falante e extrovertido dos filmes de Hollywood. Seus colegas de The Torch lembram-se dele como um garoto nervoso, ao mesmo tempo convencido e tímido, que facil- mente se apagava no grupo. Esses colegas o intimi- davam. Seymour Heller, responsável pelo lazer da clas- se e rabino iniciante, era dono de um cupê Hutmo- bile comprado com o dinheiro que ganhava tocando clarinete e organizando a banda da escola, e escre- via uma coluna de fofocas de tom arrogante chama- da “Subtleville Slander” (“Muitas das novas-loiras em Glenville estão dizendo que a cor de seus cabe- los mudou por causa do sol. Por causa do sol, é?”). Jerry Schwartz se saía com artigos cheios de pose precoce e empáfia, e foi eleito “o mais popular” da turma. Willie Gomberg fazia todo mundo estourar de rir com as poucas e boas da página de humor “The Blowtorch”. Hal Lebowitz fazia a cobertura de esportes e andava com os melhores atletas da es-

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cola. William Herman, que escrevia para concursos

de artigos e colaborava para revistas técnicas no se- gundo ano, tirava quase mil dólares anuais como escritor freelance antes de se formar. Nathan Zahm estava publicando suas reportagens no Cleveland News. No último ano, Wilson Hirschfeld, um garo- to aparentemente tão tímido quanto Jerry Siegel, conseguiu um emprego na redação do maior jornal da cidade, o Plain Dealer. Dá para adivinhar o ta- lento desses garotos pelas carreiras que mais tarde seguiram: Jerry Schwartz e Willie Gomberg vira- ram escritores de peças da Broadway, como “Jero- me Lawrence” e “Willie Gilbert”; Hal Lebowitz vi- rou o maior repórter esportivo de Cleveland; e Sy Heller, um dos agentes de talentos mais ricos do país. Wilson Hirschfeld fez carreira na imprensa, assumiu o cargo de editor do Plain Dealer e se tor- nou um jornalista nacionalmente reconhecido. E havia as garotas. Martha Yablonsky, bonita e com covinhas no rosto, dois anos mais jovem que Jerry e muito interessada em jornalismo, virou a es- critora mais prolífica da equipe e a editora do jor- nal. Charlotte Fingerhut usava a seção “Thimble Thoughts” para bajular seus colegas: “Na verdade, Reubie Schrank pensa que o motivo que fazia de

Luís XVIII um bom rei [

sofria de gota. Juro, ele disse isso na aula de histó-

ria.” Como Charlotte Plimmer, mais tarde viria a editar a revista Seventeen para os Annenberg. Lois

é que ele era gordo e

]

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Amster era também vencedora do título “mais po- pular”, uma mistura de provocações com espírito colegial. The Torch a chamava de “Petite Lois”. A equipe do livro do ano chamou-a de “anjinha”. Um dos colegas lembra: “Ela era bonita. Os garotos fa- ziam fila.” As garotas trocavam idéias com os rapa- zes, dividiam refrigerantes e sanduíches com eles na confeitaria Bernice ou na Barney’s Deli e apare- ciam para conversas nas varandas ao cair da noite. Mas Jerry Siegel parece ser uma memória quase apagada para eles. Nunca participava da vida social do grupo e não chamou nenhuma atenção no “escri- tório” do jornal escolar. Lois Amster afirmou que tanto Jerry como Joe tinham uma queda por ela e batizaram seus personagens mais famosos com seu nome. Jerry, irritado, disse que ele e Joe mal a co- nheciam. Lois era o tipo de garota que esperava despertar paixões para depois fazer os rapazes so- frer. “Eu era um pouco inibido”, disse Jerry. “Me apaixonei por garotas atraentes que nem sabiam

que eu existia, ou, se sabiam, não davam bola. Na verdade, acho que algumas delas gostariam que eu não existisse.” Então começou a fantasiar sobre for- mas de chamar a atenção das garotas. “E se eu fi- zesse algo de especial, como saltar por cima de pré-

dios ou sair arremessando carros por aí

Talvez

assim elas me notassem.” Em vez disso, começou a escrever sobre caras que tinham essas habilidades.

?

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Jerry fez parte do pessoal de The Torch durante quase todo o segundo grau, mas nunca entrou ofici- almente para a equipe. Não estava interessado em juntar os perfis de alunos exemplares ou em expli- car os novos procedimentos de graduação. Jerry Si- egel respirava tinta: passava as noites e fins-de- semana mergulhado em pulps, revistas, tiras — e à máquina de escrever. Quando enfim começou a tra- balhar para ajudar a família durante o período di- fícil depois do assassinato do pai, arranjou vaga numa gráfica, entregando maços de papel para os clientes quatro dias por semana depois da aula. O desempenho escolar caiu e ele se atrasou nas maté- rias, mas as leituras de ficção científica, histórias de detetives, piratas e terror não foram afetadas. Oca- sionalmente escrevia resenhas de livros para The Torch. Soavam como propaganda empolgada dos livros socialmente mais aceitáveis entre os que tan- to amava: “O Reino do Terror — a lâmina da gui- lhotina descia ligeira sobre culpados e inocentes. A última esperança era o ‘Pimpinela Escarlate’, um inglês misterioso que arrisca a vida para salvar [ ] os injustiçados.” Com certeza nenhum dos esperta- lhões na equipe de The Torch teria babado dessa forma por causa de Child of the Revolution, escrito pela baronesa Orczy, mas Jerry adorava o Pimpine- la, o Zorro e todos aqueles heróis com identidades secretas que se disfarçavam de gente comum. Mas acima de tudo Jerry queria escrever e assi-

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nar suas próprias histórias. Achou um jeito de fazer isso e ao mesmo tempo agradar os colegas, zom- bando de suas próprias paixões. No primeiro ano em Glenville, criou uma paródia do Tarzan chama- da Goober the Mighty. O pessoal do Torch achou engraçado e, no início do ano seguinte, pediram-lhe uma continuação. “Goober, o filho adotivo de Oo- lala, o leão, ergueu a cabeça desgrenhada e inspirou com toda a força. ‘Se eu fizer exercícios respirató- rios cem 100 por dia, durante 100 anos’, pensou para si, ‘terei o maior peito do mundo.”’ E claro que, quando Goober bate no peito, tem um acesso de tosse. Goober foi o primeiro sucesso público de Jerry. Décadas depois já não se lembrava direito dos pri- meiros escritos, mas ainda ria ao lembrar das peri- pécias de Goober: “Ele aparecia correndo sobre fios telefônicos, pulando árvores, enfim, fazia todas as loucuras que eu imaginava”. Ele continuaria contribuindo com paródias para The Torch, histó- rias absurdas inspiradas nos contos de detetive da Weird Tales que tanto amava. Algumas eram hu- morísticas e autopromocionais, estreladas pelo pró- prio Jerry Siegel, “o mestre da dedução”. Outras demonstravam seu desprezo pela inferioridade inte- lectual alheia: “‘Diga, aqueles caras não estão mor- tos?’, ele perguntava. ‘Claro’, respondia Jerry. ‘Do pescoço para cima.”’ Porém, cada vez que contava vantagem ou tentava atingir os outros, incluía uma

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referência humorística a si mesmo. Graças à paró- dia, Jerry revelou que amava os heróis sobre-huma- nos, mas que também era capaz de perceber o que os fazia ridículos. Este foi o espaço que achou em Glenville: o de excêntrico amado por todos, porque fazia rir as pessoas antes que elas se pusessem a rir dele. Seria uma grande vantagem nos anos seguin- tes — usar o humor para baixar a guarda dos leito- res, e depois fazê-los embarcar nas mais inacreditá- veis fantasias. Com as histórias absurdas de Goober, Jerry Sie- gel não zombava apenas de seus adorados pulps. Também satirizava os homens sarados da vida real, esses adeptos da boa forma que vendiam “exercí- cios respiratórios” em anúncios na contracapa de pulps. A “cabeça desgrenhada” não era apenas a do Tarzan, mas também a do fanático pela cultura físi- ca Bernarr MacFadden. Em 1931, qualquer criança em idade escolar podia ver isso. E, de alguma for- ma, Goober era também um ataque ao novo amigo de Jerry, Joe Shuster.

JOE ERA UMA criança baixa e raquítica, muito míope e terrivelmente tímida. A família vinha se mudando havia gerações: os avós tinham nascido na Rússia, o pai, na Holanda, e ele próprio, em To- ronto. Quando tinha 9 anos, seu pai fez as malas novamente e foi procurar emprego no próspero ramo de confecções em Cleveland. Os irmãos mais

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jovens, Frank e Jeanette, se ajustaram rápido ao novo mundo, mas Joe teve problemas e ficou atra- sado na escola. Também não fez nenhum amigo. O pai era alfaiate e, enquanto outros homens da famí- lia Shuster se davam bem no Canadá, Julius came- lava. Sonhava em abrir a própria alfaiataria, mas enquanto isso se virava como tarefeiro e trabalhava como prensador. A mãe, Ida, é uma figura apagada na história da família, que se escondia dentro de casa, incapaz de sequer pensar em trabalhar fora. Joe chegou a trabalhar como jornaleiro nas ruas de Toronto para ajudar a família, e agora tinha que fa- zer o mesmo, de novo, nas ruas de Cleveland. Se Jerry Siegel era um obstinado e irrequieto, Joe era um garoto meigo, frágil e calado. Vender jornais era um suplício para ele. Todas as noites, assim que deixava as ruas e a multidão apressada, ia direto para o quarto desenhar. Às vezes o pai estava com um pouco mais de dinheiro, e então lhe comprava papel. Mas, quando não dava, Joe desenhava em re- talhos de tecido e nos papéis de embrulho que pe- gava do trabalho do pai. Joe tinha o dom de desenhar rostos engraçados, e gostava de desenhar cartoons para fazer rir seus irmãos. No entanto, ao entrar na adolescência, pas- sou a gostar mais de sonhos heróicos, movimento, vôo e liberdade. Tinha acabado de completar 14 anos quando viu o homem voador — a mesma capa da Amazing Stories que estava mudando a vida de

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Jerry Siegel apenas alguns quilômetros ao norte. Adorava as elegantes figuras masculinas, as bugi- gangas maravilhosas e as resplandecentes cidades futurísticas que Frank R. Paul desenhava nas capas da Amazing Stories. Na maioria das vezes, não ti- nha dinheiro para comprar as revistas; então tenta- va memorizar as imagens nas bancas e ia para casa desenhar suas próprias versões. A única fonte de inspiração artística que sempre chegava a suas mãos eram os quadrinhos de jornal. Naquele tempo os quadrinhos tinham quase o do- bro do tamanho atual, o que possibilitava uma vari- edade impressionante de detalhes e idiossincrasias artísticas. Os cadernos de domingo geralmente ti- nham 16 páginas, e uma única HQ chegava a ocu- par uma página inteira, com todas as complexida- des visuais impressas com uma riqueza de cores e uma precisão inconcebíveis em nossa era de jornais degradados. Ler as tiras era um dos grandes rituais de unificação da vida americana. Comparar alguém a Happy Hooligan, Mutt ou Jeff, ou ainda Andy Gump era falar uma linguagem universal que ultra- passava classes, religiões e etnias. Ao mesmo tem- po, os quadrinhos eram um olhar sincero sobre as classes sociais — os vencidos em Barney Google, os irlandeses em plena ascensão social em Brin- ging Up Father (“Pafúncio e Marocas”), o agitado povo urbano em Gasoline Alley — que não estava disponível em outros veículos voltados para o gran-

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de público. As tiras apresentavam maravilhas visu- ais: as metamorfoses fantásticas do mundo criado por Winsor McCay em Little Nemo, as complexida- des de Ruve Goldberg, que necessitavam de tempo para sua devida apreciação, e as surpresas oníricas de George Herriman em Krazy Kat. Enquanto Joe Shuster começava a aprender a fazer cartoons, a habilidade em superar a concorrência, de atrair a atenção do público, virou ponto de honra entre a elite de artistas de quadrinhos. Em 1927 e 1928, quando Joe estava no segundo grau, algo de novo apareceu nos quadrinhos. Uma nova geração de desenhistas, que tinha saído das fraldas assistindo a filmes e lendo histórias de aventura, começou a levar as tiras cômicas a sério, com capacidade de contar histórias mais longas. Little Orphan Annie (“Aninha, a Pequena Órfã”) fugiu de sua mansão e entrou para um circo onde se metia em apuros sempre no último quadrinho. O Thimble Theater de E. C. Segar acabou indo além do que seria uma série de sátiras a Hollywood quando a família Oyl saiu em busca da lendária Ga- linha Mágica e juntou-se a um marinheiro violento chamado Popeye. Washington Tubbs (Tubinho) um boêmio que tinha passado anos correndo atrás das melindrosas, viu-se posto no trono de um reino na Ruritânia e aliado a um mercenário chamado Cap- tain Easy (Capitão César). Wash Tubbs era o qua- drinho favorito de Joe Shuster, criação de um artis-

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ta genial de Indiana chamado Roy Crane que com-

binava personagens empolgantes e humor ingênuo em narrativas leves, rítmicas e fluidas. Joe copiou o trabalho de Crane e adotou sua estética; nunca seria adepto dos malabarismos visuais que tinham a pre- tensão de impressionar o público, preferindo um encanto mais simples e tranquilo.

A arte tirou Joe do anonimato na escola. O edi-

tor do jornal deu uma olhada em alguns dos dese- nhos de belas garotas e máquinas voadoras que ele fazia com longos e curvos traços, e se babou todo:

“Ora, então você sabe desenhar!” Joe ficou emocio- nado com a atenção recebida e desenhou uma tira em sua homenagem, Jerry the Journalist; afinal o editor era Jerry Fine, o primo de Jerry Siegel que no futuro relutaria em chamá-lo de nerd. Quando

Joe lhe contou que queria ir para a Glenville High, Fine disse: “Você deve procurar o meu primo por lá. Ele também adora quadrinhos”.

A maioria dos quadrinhos era escrita para todos

os leitores, adultos e crianças, mas logo algumas das agências começaram a testar tiras totalmente dedicadas a aventuras juvenis. As duas primeiras, Tarzan e Buck Rogers, foram impressas no mesmo dia de janeiro de 1929. Porém, só aos poucos foram ganhando espaço nos jornais de Cleveland. Ambas tinham desenhos desajeitados, feito às pressas para syndicates (Agências que comercializam material (textos, fotos, ilustrações ou quadrinhos) para jor-

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nais e revistas) para os quais não existia algo como “arte” dos quadrinhos. Uma das histórias contava com um homem valente que enfrentava animais selvagens e a outra com um ás da pilotagem que lu- tava no futuro contra orientais malvados. Até mes- mo um artista jovem como Joe Shuster tinha que se esforçar um pouco para não notar a precariedade daquelas HQs. Ainda assim, para Joe e um bando de crianças nascidas por volta de 1914, a chegada da adolescência coincidiu com uma revolução nas tiras que as impulsionou ainda mais para dentro de seus corações. Começaram a ver os quadrinhos como seu mundo particular. Joe Shuster, no entanto, tinha um outro mundo para chamar de seu. Os esforços cotidianos e solitá- rios para moldar e aperfeiçoar uma realidade física não cessaram com o início de seu trabalho de lápis sobre papel. Joe era um fisiculturista. Detestava es- portes — a competição, a imprevisibilidade e a ter- rível socialização necessária para jogar com outros garotos — mas adorava escapar para o ginásio da escola e trabalhar o corpo com pesos, polias e bas- tões. A fisicultura tinha estourado nos anos 1920, mas para muitos jovens ainda era algo suspeito. Frank, o primo de Joe que morava em Toronto, dis- se: “Eu tentava arrastar ele com a gente para jogar bola, porque eu era muito mais ativo e ligado a ati- vidades físicas do que ele. Admito que Joe acredi- tava em levantar pesos e em ficar mais forte, mas

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nunca gostou de atividades esportivas de verdade”.

O fisiculturismo era o território dos malucos por

saúde, dos maricas de Muscle Beach e, acima de tudo, de Bernarr MacFadden. Em Nova York, homens como Harry Donenfeld tomavam MacFadden como modelo de como ficar rico no ramo de revistas de segunda categoria. A pouco mais de mil quilômetros, um garoto fracote como Joe Shuster tomava-o como modelo do que um homem poderia se tornar. A Physical Culture de MacFadden era um veículo central no meio da fisicultura, e influenciou Joe tanto quanto Tarzan e Amazing Stories. Na verdade, MacFadden ajudou a

moldar esse mundo de faz-de-conta: Tarzan vestia uma pele de leão inteira nas primeiras capas de seus livros, que foi substituída por uma tanga quan-

do Bernarr fez dela sua marca registrada. MacFadden prometia sucesso e poder a todos os

seus seguidores, e criava histórias para embasar es- sas promessas. Em 1922, promoveu um fisiculturis-

ta do Brooklyn chamado Ângelo Siciliano sob o

nome Charles Atlas, “o homem com o corpo mais perfeito do mundo”. Depois de alguns anos no cir- cuito de exibições, Atlas se juntou a um publicitá- rio e entrou no ramo de produtos de boa forma ven- didos por catálogo postal. Foi o primeiro fisicultu- rista a usar uma tira para vender a boa forma com violência: um magrelo de 45 quilos podia dar uma surra num brutamontes graças a exercícios iso-

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métricos. Os anúncios apareceram pela primeira vez em 1929, e o clima pesado no início da Grande Depressão rapidamente fez dele um sucesso. Joe Shuster completou 15 anos naquele verão. E fácil imaginá-lo na Euclid Beach ou no Edgewater Park, um filho tímido e franzino de alfaiate em meio aos filhos vigorosos de metalúrgicos alemães e eslova- cos. Deve ter tido a impressão de que Charles Atlas estava lá especialmente para ele. Essas promessas de perfeição se espalharam na- queles anos. A queda da velha ordem e as maravi- lhas da tecnologia, juntas, permitiam imaginar que qualquer futuro seria possível, desde que o sistema ou o instrumento correto fosse encontrado: socialis- mo científico, fascismo, pensamento positivo, pro- gresso tecnológico, espiritualismo e regimes de saúde. Outros falavam de aristocracias naturais a quem bastaria se dar conta de sua própria importân- cia para que assumissem seu poder de direito: capi- talistas, cientistas, protestantes brancos. Edgar Rice Burroughs acreditava na virtude inata da “raça an- glo-saxônica”. Tarzan era um sonho romantizado, em que um bebê inglês, nascido em berço de ouro e largado na selva, acabaria não apenas dominando os animais, mas os negros também. Entretanto, gra- ças à flexibilidade da ficção, para seguidores de MacFadden como Joe Shuster o Homem-Macaco também podia ser uma demonstração das virtudes da força física.

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Mas a realidade em que esses sonhos eram ven- didos geralmente deixava muito a desejar, apesar do que Burroughs e MacFadden prometiam. A fa- mília Shuster estava bem o suficiente lá pelo fim da década e arriscou se mudar para o bairro de Glen- ville, mais nobre. Alugaram um andar num duplex na Amor Street, bem pertinho da 105 e a apenas al- guns quarteirões de distância da casa dos Siegel. Ainda assim, era uma zona muito mais barata, por ser próxima à garagem de Glenville. Mal tinham se mudado quando a recessão dos anos 1930 os atin- giu. Permaneceram em Glenville mas, como o pai de Joe estava tendo dificuldades para arranjar em- prego, sustentar a família ficou muito complicado. Joe saía catando qualquer emprego que aparecia. Houve ocasiões em que teve de fazer seus desenhos em pedaços do embrulho do açougue manchados de sangue, ou então em tiras de papel de parede que juntava das cestas de lixo. Mas nada podia impedi- lo de desenhar. Essa foi a estranha mescla de sonhos e realida- des que Joe Shuster levou consigo para a Glenville High no outono de 1930: um garoto doce, quieto, mais bonito do que bonitão com seus enormes olhos inocentes, propenso a desenhar garotas boni- tas, mas não a falar com elas. Anos mais tarde seus colegas se lembravam vagamente dele, como um cara bonzinho, mas pouca coisa mais. Dedicava-se a desenhar quadrinhos como um garotinho e a le-

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vantar pesos como um machão. Gostava das ativi- dades na escola. Participava do clube de ginástica, desenhava cenários para as peças da escola e foi presidente do clube de arte por um tempo. Entrou para o clube The Torch também, e passou a contri- buir com brincadeiras visuais e ilustrações. O azar foi que Joe, assim como Jerry, tinha dificuldade de aparecer em meio a uma equipe tão talentosa. Os cartunistas habituais do jornal tinham um traço mais confiante e um feeling para descobrir o que fazia rir os colegas. Se Joe pretendesse usar seu jei- to para desenhos fantásticos e de aventura, teria que desenhar melhor do que Bernard Schmittke, um fã de pulps que tinha dinheiro para pagar por aulas de arte e que em alguns anos estaria desenhando para revistas de ficção científica. Em quatro anos na es- cola, Joe conseguiu publicar apenas uma de suas ilustrações em The Torch. Entretanto foi em The Torch que ele e Jerry Sie- gel ficaram amigos. Parece ter sido um longo pro- cesso — mas eles descobriram paixões em comum, e como fãs tímidos da cultura pop descobriram que podiam alegremente falar dela por horas, sem ter que abordar assuntos dolorosos. Os dois adoravam os filmes de Douglas Fairbanks, tiras e pulps de ficção científica. Mas, enquanto Joe se aventurava poucas vezes nos pulps, Jerry tinha dezenas delas socadas em seu quarto no sótão. Jerry sabia que Buck Rogers era baseado em um romance da Ama-

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zing Stories — e não era qualquer romance, mas Armageddon 2499 AD, de Philip Nowlan, que saiu na mesma edição de agosto de 1928 que os tinha conquistado. Jerry tinha um olho crítico bom o su- ficiente para saber que não era uma tira muito boa, mas entendia o valor que havia em expor o mundo diariamente à ficção científica e ao filho adotivo de Hugo Gernsback. Também sabia que a arte do Buck Rogers colorido de domingo era muito me- lhor do que a das tiras semanais porque elas na ver- dade eram desenhadas por um tal Russell Keaton, de 21 anos, apenas quatro a mais que Jerry e Joe. Jerry tinha até escrito para Keaton e descoberto que ele também era fã de ficção científica. Jerry deve ter impressionado Joe completamente. Joe adorava as histórias de humor que Jerry es- crevia, especialmente Goober the Mighty. Jerry gracejava com os exercícios de Joe, mas também o admirava por isso. “Eu costumava ir até o ginásio da escola para ver Joe se exercitar”, afirmou Jerry. “Ele era muito bom.” Alguns colegas lembram que o próprio Jerry chegou a se envolver com progra- mas de boa forma física por um tempo (mas o limi- te entre a realidade e a autoparódia não ficava bem definido no caso de Jerry). Os dois cultivaram uma amizade sincera — compreendiam que qualquer coisa que os empolgasse podia ser compartilhada. Ao lembrar do passado, nenhum dos dois falaria de outras amizades. Aos 16 anos tinham enfim encon-

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trado alguém em quem confiar.

ENQUANTO A VIDA dos garotos girava em torno de quadrinhos, pulps e filmes, havia uma mu- dança em andamento na indústria de entretenimen- to classe B. Para começar, os editores e fabricantes estavam ficando mais atentos ao mercado dos jo- vens. Mesmo que ainda fossem os adultos a fazer a maioria das compras, a voz das crianças começava a ser ouvida nas decisões de família. Uma criança de 10 anos que adorava as tiras do Tarzan podia fa- zer diferença na hora de seu pai escolher qual jor- nal iria assinar. Ao mesmo tempo, coletâneas de ti- ras vendiam bem nas bancas, e Os Sobrinhos do Capitão e Tarzan viraram filmes. Empreendedores começavam a entender o valor de vender o mesmo personagem para diferentes mídias. Quando um pe- queno agente de Chicago viu o homem voador na capa da Amazing Stories de 1928, enxergou uma imagem que podia vender jornais e lancheiras. Aca- bou licenciando um outro personagem da revista, Anthony “Buck” Rogers, mas este também se ocu- pava das mesmas fantasias juvenis, e assim a ado- rada ficção científica de Jerry e Joe começou a che- gar até eles num novo formato. Este é um pequeno milagre do consumismo ca- pitalista: à medida que a indústria se tornou mais mercenária e degradada, passou a produzir um mundo de fantasia mais completo para os fãs mais

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devotos. Foi necessário um certo idealismo zeloso e apaixonado para começar a imprimir as esquisitas visões de Philip Nowlan sobre o século XXV, mas os investidores que o levaram aos jornais, à telona, ao rádio, aos livros e às lojas de brinquedos exami- navam-nas como se fossem um pedaço de pano. Para as crianças isso não importava: agora podiam permanecer imersas naquela realidade ingênua e vi- brante a qualquer hora e com quase todos os senti- dos. No início de 1931, época em que Jerry e Joe es- tavam se conhecendo, o mesmo processo transfor- mou os pulp. Essas publicações não tinham perso- nagens fixos desde 1915, quando a Street and Smi- th converteu a Nick Carter Weekly na Detective Story Magazine. Mas em 1930 a Street and Smith decidiu patrocinar uma radionovela de detetive para promover a Detective Story. Um dos produtores achou que o programa precisava de um locutor fixo de voz assustadora para fazer as narrações e apre- sentar as histórias, e criou um homem misterioso que sabia de tudo, “O Sombra”. Os revendedores logo comunicaram que os clientes estavam pedindo “aquela revista do Sombra”. Como não existia uma “revista do Sombra”, os editores trataram de criar uma rapidamente. Juntaram algumas notas às pres- sas, pegaram na pilha uma velha ilustração para capa e arrastaram Walter B. Gibson — designer de palavras cruzadas, mágico e escritor mercenário

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que escrevia sob pseudônimo para gente como Harry Houdini — e lhe disseram para fazer do Sombra um personagem que prendesse a atenção dos leitores. Gibson não era um escritor de ficção. Sua narra- tiva direta era quase impossível de ler: “Estava ves- tido num manto preto, aquele ser, exceto pelo cha- péu de aba larga na cabeça. Essa peça era quase tão eficiente quanto o manto, porque ambos escondiam o rosto, mas não as mãos.” Ainda assim ele enten- dia, como poucos escritores de ficção, o quanto os jovens americanos adoravam floreios teatrais, ex- cessos vitorianos e o choque causado pelo inacredi- tável. O Sombra era um homem misterioso que se mascarava de playboy e comandava uma rede se- creta, uma espécie de mistura do Pimpinela Escar- late com o Fantasma da Ópera. Com a diferença de fazer uso de um fumegante par de automáticas cali- bre 45 para lutar contra os gângsteres mais brutais. Depois de algumas edições, o artista da capa deu- lhe expressão visual — o chapéu e a capa enrolada escondendo tudo, exceto o nariz e os olhos de ave de rapina — e alguém na Street and Smith cunhou um slogan que ia ao encontro da fome de poder dos jovens num mundo incompreensível e incontrolá- vel: “O Sombra sabe”. O primeiro número de O Sombra esgotou. Em plena depressão econômica, em 1931, pouquíssi- mas revistas esgotavam. No início era um título

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mensal, mas logo, no mesmo ano, começaria a sair quinzenalmente. Graças a uma série de manobras comerciais feitas às pressas, a Street and Smith ti- nha dado aos garotos americanos de imaginação tempestuosa um outro ídolo tão vivo quanto Buck Rogers ou o Little Caesar de Edward G. Robinson. Em 1932 a companhia já estava preparando outros pulps estrelados por combatentes do crime com ha- bilidade sobre-humana e aparência bem particular. Logo, nos escritórios das editoras, já se usava um novo termo para definir esse tipo de personagem:

“super-herói”. A palavra ainda não estava nas capas das revistas, mas já fazia parte do jargão dos profis- sionais da área. Jerry Siegel era fã do Sombra. Sempre gostara de heróis que se passavam por tímidos, mas aqui estava alguém que não era governado pelo código de honra de um Zorro ou Pimpinela. Aqui estava alguém que fazia a morte cair impiedosamente como a chuva sobre os brutamontes urbanos que matavam inocentes. Esses pulps deram forma a fan- tasias mais sombrias e menos otimistas do que as da ficção científica de Gernsback — fantasias que devem ter atingido diretamente o coração de Jerry. Seis meses depois da estréia do Sombra, o mes- mo clima sombrio chegou às tiras. Em outubro de 1931 o Chicago Tribune Syndicate lançou Dick Tracy, a releitura raivosa e insana de pulps deteti- vescos e filmes de gângster feita por Chester

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Gould. O sucesso instantâneo fez com que os qua- drinhos se tornassem mais soturnos. Mais quadri- nhos sobre crime apareceram (Secret Agent X-9), assim como melodramas sociais (Apple Marie) e westerns (Little Joe). Popeye e Little Orphan Annie ficaram sombrios e assustadores. Até mesmo Mickey Mouse passou a participar de aventuras e da luta contra o crime. As páginas de quadrinhos estavam virando uma extensão do mundo dos pulps e filmes de aventura. Ainda assim, permaneciam como o formato mais li- vre e idiossincrático da mídia popular. Filmes e programas de rádio eram produtos de grupos corpo-

rativos e os pulps dependiam da filosofia das edito- ras, mas os melhores quadrinhos saíam direto das mesas dos desenhistas sem grandes interferências editoriais. Eles desafiavam e inventavam gêneros. Os personagens surgiam como alucinações febris: a Bruxa do Mar, Daddy Warbucks, Mandrake, Ming the Merciless, Flattop, Pruneface. Os quadrinhos se tornaram o palco dos grandes dramas populares americanos: os sonhos mais loucos, o aviso de ”

na última página, que todo mundo co-

mentava, os heróis mais famosos, as fantasias mais elementares, a comunicação mais crua entre quem

contava a história e quem a desfrutava. Joe Shuster era membro de uma geração inteira de jovens artistas moldados pelos quadrinhos dos anos 1930, mas havia uma tira que ele e a maioria

“continua

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dos colegas citavam mais do que qualquer outra. No mesmo mês em que Dick Tracy começou, no mesmo mês em que a segunda história de Goober escrita por Jerry Siegel apareceu, um novo artista se encarregou de Tarzan. Harold Foster era um de- senhista clássico capaz de entender que a força de uma história sobre um homem-macaco não estava na interrupção da narrativa no momento mais cruci- al, nem mesmo nos animais selvagens, mas sim na beleza do corpo masculino. Nenhuma figura mas- culina já impressa em papel barato — nem mesmo os fortões das revistas de saúde publicadas por Ber- narr MacFadden — tinha tanta graça e dinamismo. O poder de Tarzan estava ligado ao sexo. Afi- nal, o primeiro corpo nu que um garoto vê é o seu próprio, e ele percebe que o corpo masculino es- conde todos os terrores e alegrias do sexo. Harvey Kurtzman, um cartunista dez anos mais jovem que Joe Shuster, afirmou que a nudez do homem-maca- co o tinha fascinado enquanto garoto, e que algu- mas de suas primeiras experiências masturbatórias foram desencadeadas pelos desenhos de Foster. Mas Tarzan representava mais do que o sexo; re- presentava todos os desejos de um garoto a respeito de seu corpo, sua identidade e seu futuro. O Tarzan de Foster era muito controlado, um macho invencí- vel que não vestia nenhuma das fantasias de poder masculino — apenas seu corpo perfeito. Quando um garoto frágil anseia se tornar um homem mas

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não sabe como chegar lá, um símbolo como Tarzan pode ser uma revelação. Se ele não tiver pai, ou se o pai não for suficiente, então essa revelação será ainda mais poderosa. Tarzan virou o assunto de to- dos os garotos que gostavam de desenhar: “Foster desenha tão bem!” Ele era bom, mas não melhor do que os outros desenhistas a seu redor. Era apenas o melhor que já tinha existido naquilo que os garotos precisavam ver. As garotas também gostavam do Tarzan de Fos- ter. Muitas diziam que só davam uma olhada en- quanto os irmãos estavam lendo, mas elas também liam. Também tinham suas curiosidades sobre o corpo masculino, suas razões para se envolver com símbolos idealizados da potência masculina — e uma vez que o Homem-Macaco não apresentava as mesmas características superficiais que a maioria dos heróis masculinos, ficava mais fácil para elas se identificar com ele. Mesmo sendo másculo como era, Tarzan não estava sujeito ao papel social e à realidade familiar, e isso propiciava às garotas pro- jetar sobre ele seus sonhos de poder individual mais do que nos soldados e caubóis que reinavam nas aventuras juvenis. Não custou muito para Joe Shus- ter se dar conta de que as garotas davam bola para um herói romântico bem desenhado. Assim, garo- tos desajustados descobriram uma nova função para as fantasias da cultura classe B: poderiam chamar a atenção do sexo oposto se conseguissem convertê-

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las em algo simples, belo e romântico. No turbilhão de fantasias e imagens trazidos por Sombra, Tarzan, Buck Rogers, Dick Tracy, Popeye e Wash Tubbs, Jerry e Joe começaram a trabalhar juntos em tiras. Começaram com Goober the Migh- ty, para em seguida experimentar idéias menos hu- morísticas: uma polícia futurista, um bando de aventureiros interplanetários, um homem das caver- nas, um grupo gernsbackiano de combatentes cien- tíficos do crime, equipados com bugigangas para ver através das paredes e amplificar o som. Joe gos- tava de desenhar apenas por desenhar, mas Jerry mandou os trabalhos para agências de jornal. Todos foram rejeitados, mas Jerry começou a acreditar que, no futuro, ele e Joe poderiam fazer carreira no mundo dos quadrinhos.

ENQUANTO MERGULHAVA no mundo das tintas, Jerry começou a se identificar cada vez mais com seu próprio estilo, chegando quase ao ponto de ficar insuportável. Jerry Fine se lembra dele tentan- do impressionar os primos numa reunião familiar:

“Consigo escrever uma história sobre qualquer coi- sa. Estão vendo aquela garrafa de Coca-Cola? Eu podia escrever uma história sobre ela se estivesse a fim.” Mas ele não tinha muito mais que isso na vida. Morava sozinho na casa da Kimberly Avenue com a mãe, e toda noite se fechava no quartinho do sótão para escrever. Continuava enviando histórias

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curtas para os pulps, mas sem sucesso. Essas histó- rias se perderam — não porque Jerry não guardasse seu trabalho (na verdade ele não gostava de se des- fazer das coisas), mas porque esquecia de enviar selos para que lhe devolvessem os trabalhos. Mesmo com tanta energia, faltava foco aos es- critos de Jerry — até que, no fim da primavera de 1932, a terceira edição de The Time Traveller che- gou pelo correio. Tinha gastado um dólar na assina- tura do fanzine feito por Mortimer Weisinger, Ju- lius Schwartz, Allen Glasser e Forrest J. Ackerman, quatro de seus colegas durante a primeira onda de fandom gernsbackiana. Muitos jovens tinham tenta- do vender uma miscelânea de fanzines mimeogra- fados e duplicados dois anos e meio após Jerry pro- duzir seu próprio, Cosmic Stories, mas nenhum era feito por um tão elevado panteão de fãs destacados, espertos e sabichões. Já de saída, The Time Travel- ler vendeu 100 assinaturas, e a terceira edição já era editada e impressa profissionalmente. Assim que a tirou do envelope, Jerry soube que iria criar sua própria revista. Naquele outono Jerry completaria 18 anos. O ano letivo seguinte seria o terceiro na Glenville High e também o último; mas acontece que ele e o parceiro Joe tinham ficado tão atrasados nas maté- rias que não conseguiriam se formar junto com a turma. Jerry nunca falou publicamente sobre isso. Naquele ano, sua primeira aparição em The Torch

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foi um press release exageradamente auto-congra- tulatório que anunciava o nascimento de Science Fiction: The Advance Guard of Future Civilization. Prometia que a revista iria conter trabalhos de “muitos glenvillianos de destaque”, assim como os de escritores “conhecidos”; que “uma grande soma está sendo usada em anúncios, o que deve trazer re- sultados surpreendentes”. Os anúncios, presentes em “praticamente qualquer pulp nas bancas”, seri- am vistos por 5 milhões de pessoas. “Espera-se conseguir alguns milhares de assinaturas com esse recurso.” A revista seria mimeografada somente “até que uma circulação maior justifique a impres- são”. Ele teve a audácia de cobrar 15 centavos por cada número, 50% a mais que a The Time Travel- ler.

Na verdade, a Science Fiction era quase toda es- crita por Jerry Siegel, usando vários pseudônimos, e desenhada por Joe Shuster. A verba para publici- dade de Jerry garantiu apenas anúncios minúsculos na Amazing Stories e na Wonder Tales, e para ven- der assinaturas ele teve que fazer um acordo com Mort Weisinger para encaixar a Science Fiction no formulário de pedidos da Time Traveller. (Mort de- veria enviar a Jerry sua parte do dinheiro das assi- naturas, mas isso não aconteceu). Bernard Sch- mittke, do Torch da Glenville, contribuiu com uma capa moderna e industrial, e Forry Ackerman, um dos principais defensores de filmes de monstros

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dentro do fandom, conseguiu imagens do futuro lançamento King Kong. No entanto, o mais gratifi- cante para Jerry foi a coluna de resenha de livros, já que, enquanto fazia a pesquisa para escrevê-la, ele se deparou com um produto de um universo literá- rio muito diferente daquele que conhecia, um ro- mance que desviou suas fantasias para uma direção significamente nova: Gladiador, de Philip Wylie. Wylie era um representante de uma América do final dos anos 1920 muito diferente daquela que Jerry tinha conhecido. Era filho de um pastor pres- biteriano que rompeu raivosamente com o Deus do pai. Tinha estudado teatro em Princeton, desistido para se tornar um escritor de anúncios, arruinado a carreira por causa de um processo de paternidade, decidido escrever ficção e vendido seu primeiro ro- mance — um ataque bombástico aos presbiterianos reprimidos — a Alfred A. Knopf. Isso tudo antes de completar 26 anos. O segundo romance, com o título sugestivo de Babes and Sucklings, era uma invectiva raivosa contra seu primeiro casamento e um sermão contra a moral moderna. Wylie ficou satisfeito com as acusações de “indecência” feitas por bibliotecários provincianos. O estilo subia e descia, porque de uma página para outra ele tentava imitar Sinclair Lewis, H. L. Mencken, Havelock Ellis ou Elinor Glyn. Um resenhista do New York Times disse que ele escrevia em “um estilo que lembra os homens dos vaudevilles, que tocam toda

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a orquestra com apenas uma mão”. No ano seguinte, 1929, Wylie decidiu que já es- tava na hora de começar a trabalhar numa grande alegoria social. Queria mostrar como um homem

superior era odiado e destruído por nossa sociedade medíocre: “Grandes feitos estavam sempre prestes a acontecer e nenhum deles era alcançado porque envolviam a humanidade, a humanidade que prote- ge suas doenças, sua futilidade, suas convicções e convenções lamentáveis com sua própria essência — a vida. Não uma vida futura indefinida e fecun- da, mas uma vida de lucro imediatista, de seguran-

ça nos lugares-comuns [

da barriga e do útero.” O enredo tinha uma premissa “científica”: um biólogo transforma o filho “num supergaroto, um homem invencível” que então cresce e vira um ser de força e vitalidade incomparáveis e de superiori-

dade moral inata. “Lá na floresta, fora da vista dos olhos humanos, aprendeu que era um super-huma-

‘sou um homem feito de ferro em vez de

carne.’” Chega a tentar usar a força para ajudar o mundo, mas a humanidade é mesquinha demais para ele. Valentões puxam brigas com ele, o exérci- to o pressiona a participar de uma guerra mercená- ria, mulheres entregam-se a ele e depois fogem de seu poder, um pequeno judeu engana-o nos esque- mas do boxe, um comunista interessado em ganhar dinheiro acusa-o de “Idiota! Sonhador! Idealista ab-

no [

]

de necessidades da pele,

]

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surdo!” Ele pensa em destruir o Capitólio como Sansão, mas sabe que isso não resolverá nada. O uso que Wylie faz da fantasia biológica leva- ria mais tarde os fãs de ficção científica a aclamar Gladiator como um produto de seu gênero favorito, mas o modelo que ele seguiu não foram os pulps de Gernsback. Wylie ridicularizava a cultura classe B, ridicularizava o jornalismo sensacionalista, Bernarr MacFadden e os fisiculturistas narcisistas, e com

certeza teria ridicularizado a Amazing Stories caso tivesse se dado ao trabalho de notar que ela existia. Alguns de seus truques eram inspirados nas exibi- ções satíricas de Henry Fielding e William Thacke- ray; alguns dos temas vinham das alegorias intelec- tuais de H. G. Wells e Friedrich Nietzsche. Então ele se apaixonou por seu herói, um homem de “si-

metria impressionante [

mente vivo, um homem com a promessa de um jo- vem deus”, e lançou-o em cenas de descobertas se- xuais, combates e melodramas políticos tão exage- rados e acalorados quanto tudo o que aparecia nas páginas da Cosmopolitan ou da Collier’s. O resultado foi um desastre de romance. Nas passagens intelectualmente ambiciosas, era estúpi- do; nas partes mais apaixonadas, vazio. No fim a história descambava em baboseiras autopiedosas:

um homem esplendida-

]

“‘Agora — Deus — oh, Deus — se é que Deus existe! — Diga-me! Posso desafiá-lo? Posso desafi- ar Seu mundo? Esta é a Sua vontade? Ou Você é

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impotente como toda a humanidade? Oh, Deus!’ Então colocou as mãos ao redor da boca e gritou o nome de Deus em direção ao tumulto lá em cima. A loucura pairava sobre ele e a amarga ironia que lhe escurecia o sangue o contaminava. “Um raio caiu sobre a Terra. Atingiu Hugo e desenhou sua silhueta em fogo. As mãos caíram-lhe dos lábios. A voz se apagou.” Hugo Danner não foi o único atingido por um raio. Jerry Siegel também foi. Quando outros fãs chamaram a atenção de Jerry para Gladiator, em 1932, o livro já estava nas es- tantes havia dois anos. Wylie tinha lançado mais dois livros e estava ocupado com seu primeiro grande romance, Finnley Wren. Estava pouco se li- xando para a adoração de um certo jovem fã de fic- ção científica (e sem dúvida ficaria chocado se sou- besse que oito anos mais tarde processaria esse fã por plágio). No entanto era o momento perfeito para Jerry. Aos 18 anos, ainda no meio do segundo grau, ainda preso àquela tristeza silenciosa pelo as- sassinato do pai, ainda sem uma namorada ou uma carreira de verdade mas lançando uma revista e so- nhando com beldades e fortuna — Gladiator deve ter mexido com tudo o que ele queria e temia ser. O “super-homem” já não era mais uma idéia nova — na verdade era um tema recorrente na alta e na baixa cultura no início dos anos 1930, produto inevitável das doutrinas de aperfeiçoamento pro-

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movidas pelos mais variados autores, de Bernarr MacFadden a Leon Trotsky. A palavra tinha passa- do pelo Übermensch de Nietzsche e chegado ao Man and Superman de Bernard Shaw, mas era fa- cilmente identificável com idéias nem nietzschea- nas, nem shawianas. Na Alemanha, Adolph Hitler proclamava que uma nação inteira de super-homens poderia ser forjada através do racismo instituciona-

lizado e da força militar, e sua popularidade não pa- rava de crescer. Na América, a idéia da eugenia es- tava sendo cuidadosamente investigada nas univer- sidades da Ivy League. A eugenia inspirou o enredo pseudocientífico de Gladiator, e o herói considerou explicitamente a possibilidade de usá-la para me- lhorar a humanidade. Até mesmo os esquerdistas usavam a palavra:

um radical de Cleveland chamado Joseph Piricinin argumentou em suas palestras que os métodos de produção socialista criariam uma “superabundân- cia” de mercadorias e oportunidades e fariam dos cidadãos socialistas do futuro “verdadeiros super- homens” comparados a nossos padrões. Afirmava ainda ter dado certa vez uma palestra no centro co- munitário de Cleveland, onde havia dois jovens ju-

podemos completar a anedo-

deus que mais tarde

ta e desconsiderá-la por ser fantasiosa, mas isso ilustra a onipresença do Super-Homem simbólico. O conceito de Super-Homem foi explorado em boa parte da cultura pulp mais romântica, mesmo

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que o termo não fosse usado: Tarzan e John Carter de Marte, ambos criados por Edgar Rice Bur- roughs, não eram apenas os mais fortes e os mais nobres de suas raças, eram claramente descritos como pertencendo a outra espécie — seres de uma superioridade tão inata e aparente que chegavam ao comando de qualquer outro mundo que adentras- sem. Seus laços com a nobreza da Inglaterra e com a antiga Confederação explicavam o potencial para a superioridade, mas esse potencial se realizava so- mente através de um milagre que os retirava da his- tória: o retorno de Tarzan ao Éden evolutivo dos macacos e a longevidade inexplicável, quase místi- ca, de John Carter. Em 1929, Jack Williamson, o antigo correspondente de Jerry Siegel, escreveu um romance, publicado por Hugo Gernsback, que ex- plicava os superseres na forma de ficção científica. Como o título The Girl from Mars, tinha como pro- tagonista um estranho visitante de outro planeta com poderes muito superiores aos de um homem normal. Porém, até encontrar o Hugo Danner de Wylie, Jerry nunca tinha visto um Super-Homem com fei- tos que apareciam de forma tão convincente à luz de uma realidade familiar e limitante: “Faço algu- mas coisas que me assustam, pai. Consigo pular mais alto que uma casa. Consigo correr mais rápido que um trem.” Hugo transforma os clichês de cenas da guerra de trincheiras na França ao descobrir que

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as balas não furam sua pele e até mesmo tiros de canhão não fazem mais do que derrubá-lo. E Jerry nunca tinha visto um retrato tão humano do Super- Homem, incluindo seus tropeços, suas frustrações, seu isolamento e sua dor. Hugo Donner, quando criança, demonstra sua superforça para os habitan-

tes da cidade, assustando-os. O pai puxa-o para um canto e lhe explica que deve usar a força para “uma causa nobre e boa” se quer evitar que as pessoas o odeiem. De fato, quando vêem toda sua força pela primeira vez, chamam-no de “demônio”. Hugo de- saparece por um tempo para “acostumar-se a seus poderes” e constrói uma fortaleza solitária na flo- resta. Quando traz sua grandeza ao mundo, tem al- guns momentos de triunfo, mas cada um deles o deixa ainda mais isolado. Uma beldade da Ivy Lea- gue leva-o para a cama: “Meio deusa, meio ani-

a vanguarda da emancipação feminina ameri-

mal

cana.” Mas é só por uma vez, porque “ela tinha aprendido uma coisa também, e assim nunca voltou para Hugo, mantendo o desejo que sentia por ele como uma sagrada lembrança numa alma dividi- da”. A breve resenha de Gladiator no fanzine de Sie- gel não dá pistas sobre o impacto que pode ter tido em um garoto revoltado e solitário. Mas sua histó- ria na edição seguinte da Science Fiction, datada de janeiro de 1933, sugere que Gladiator pode ter mu- dado suas idéias a respeito do objetivo da fantasia.

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“The Reign of the Superman”, de “Herbert S. Fine” (um alô para seus primos), foi feita com as ilustrações de Joe Shuster. Seu trabalho ia bem: o vilão de traços intrincados e a cidade futurística com seus arranha-céus desenhados num estilo de li- nhas simples, baseado nos cilindros e círculos do design industrial, mostravam que ele estava bem atento à iconografia da época. Então começa a his- tória datilografada por Jerry e que enche nove pági- nas:

A fila da sopa! Aquela fileira de homens de- caídos e sem esperança; criaturas desafortuna- das que descobriram não haver nada mais na vida além de amargura. A fila da sopa! Último recurso dos andarilhos esfomeados. Com um sorriso de desprezo no rosto, o Pro- fessor Smalley observava aqueles desgraçados avançarem na fila. Para ele, que tinha nascido em família rica e jamais conhecera as dificulda- des da vida, a pobreza desses homens parecia merecida. Pensava que se eles tivessem uma ambição qualquer, poderiam sair desse terrível fosso.

O Professor Smalley escolhe um dos andarilhos como cobaia humana e injeta nele um elemento misterioso que tinha descoberto num meteoro de outro planeta. A cobaia escapa e descobre que o elemento lhe deu poderes sobre-humanos. Conse-

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gue ouvir os pensamentos de estranhos sob a forma de palavras: “O que esse pessoal precisa é de cére- bro, e cérebro é o que eles não têm.” “Passe a gra- na, dona. A grana!” “Ele é apenas uma criança, se- nhora. Por que não deixa ele em paz?” “Pro inferno com os anarquistas!” “Quem ele tá pensando que é? Que cara de pau tirar uma dançarina famosa como eu para dançar um foxtrote com um perna-de-pau como ele.” “Olha aqui, seu moleque, você pode ser o repórter principal deste jornal, mas, se não entre- gar seu texto até as três horas, vai ter que vender cadarços de sapato no olho da rua!” O fim de 1932 foi um momento de agitação po- lítica, e a maioria dos judeus com alguma cultura — especialmente num meio judeu com tendências de esquerda — podia se exaltar falando sobre de- semprego e luta de classes; mas Jerry não conse- guia ir além dos clichês hollywoodianos. As pesso- as em seu mundo pensavam como se estivessem num diálogo mal-escrito da Warner Brothers. E era óbvio que seu interesse por ciência não era maior do que o demonstrado pela realidade e seus proble- mas sociais: o “Super-Homem” vai até a biblioteca para ler “O Universo em Expansão de Einstein”. “Lixo! Bobagem!”, ele grita. Quando a bibliotecá- ria pede que faça silêncio, o Super-Homem respon- de entre dentes, “se tivesse algum tubo de raios por aqui, eu ia te explodir e acabar contigo!” Jerry atro- pelava os pequenos detalhes que teriam deixado

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sua história mais convincente para chegar logo à longa sequência que parecia incitar seus rompantes:

a enfurecida batalha entre o Super-Homem e seu criador. Uma passagem salta aos olhos do leitor que co- nhece a vida posterior de Jerry Siegel:

[Smalley] pegou lápis e papel e começou a escrever uma carta longa e acalorada. Contou como tinha encontrado Dunn na fila da sopa

para torná-lo o nobre participante do maior ex- perimento científico do século. Falou sobre como tinha inoculado nele o composto químico e seu posterior desaparecimento. “Assim,” ele concluía, “a não ser que essa criatura seja captu- rada e morta como um animal, ela vai crescer e ficar cada vez mais poderosa, até o ponto em que terá o mundo na palma da mão!” Ao termi- nar a carta, colocou-a num envelope, endereçou-

a ao editor do maior jornal, saiu do laboratório e

a deixou no correio.

Talvez seja apenas uma premonição acidental das longas e acaloradas cartas que Siegel mais tarde enviaria, durante sua batalha para reaver o controle do Super-Homem, mas esse é o momento em que um personagem sai das amarras do enredo e se comporta de uma forma estranhamente mesquinha e humana. Pode ser que mesmo antes de ter alguma propriedade pela qual batalhar, Jerry já estivesse

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guerreando por direitos em sua imaginação. Smalley também tenta aproveitar-se do meteori- to, mas o Super-Homem o mata primeiro. Agora ele já aprendeu a controlar a mente dos outros e planeja dominar o mundo enviando “os exércitos da Terra para aniquilarem uns aos outros”. “O Con-

selho Conciliatório Internacional estava em sessão

chineses e japoneses, franceses e ingleses, ame-

ricanos e mexicanos, todos sorriam amigavelmen- te”. O Super-Homem envia “pensamentos de ódio” e os representantes começam a “atacar uns aos ou- tros como lobos enlouquecidos e cheios de ódio”. No entanto um repórter lê a carta de Smalley e enfrenta o Super-Homem. (O nome do repórter é Forrest Ackerman; para os fãs, a piada interna é sempre mais real que o drama.) O fim vem numa

cena religiosa, refletindo e fazendo ecoar o raio no final de Gladiator: “Nesse momento de medo e ter- ror o repórter enviou uma oração silenciosa para o Criador deste mundo ameaçado, lá para cima. Im- plorou ao Todo-poderoso que acabasse com esse demônio blasfemo. Será que Forrest tinha visto a máscara de ódio apagar-se do rosto do Super- Homem, substituída pelo terror? Ou era apenas im- pressão?” “Não!”, grita o Super-Homem para o va- zio. Ele se dá conta de que a droga está perdendo o efeito. “A figura arrogante e confiante tinha desa- parecido. Em seu lugar, restava agora um homem

‘Agora vejo como estava

curvado e desiludido [

] [

].

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errado. Se tivesse trabalhado para o bem da huma- nidade, meu nome teria entrado para a história como uma bênção — não como uma maldição.” Jerry Siegel não era um garoto religioso. “Acho que ele nunca foi à sinagoga na vida”, disse Jerry Fine. O Todo-poderoso tinha aparecido via Wylie. Jerry não estava muito interessado em lidar com a idéia de Wylie de que um homem podia ser bom e que isso não faria nenhuma diferença. Preferia o clichê do gênero, a garantia de que todos podem es- colher se a história vai abençoá-los ou amaldiçoá- los. Mas estava usando a idéia de Gladiator: o que um Super-Homem pode e deve fazer num mundo de violência e dor reais? Poucas semanas após a remessa daquela edição de Science Fiction, o mundo pulp deu sinais de que a imaginação de Jerry estava indo pelo caminho certo. Ele folhava a última edição do Sombra quan- do uma palavra em negrito saltou a seus olhos:

“Super-Homem”. Logo abaixo havia a figura de um homem musculoso lutando contra um atirador, e a legenda “Doc Savage — mestre da mente e do cor- po”. Era o primeiro anúncio do novo super-herói da Street and Smith. Doc Savage também devia alguma coisa a Wy- lie. Assim como Hugo Danner, a perfeição de Doc tinha sido cultivada em laboratório, e ele tinha uma Fortaleza Solitária aonde ia para ficar pensando. Seu nome e aparência — um gigante musculoso

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com pele cor de mogno, cabelo cor de bronze e olhos que pareciam gemas preciosas — podiam ter vindo do romance mais recente de Wylie, The Sa- vage Gentleman. Tinha acesso à mesma rede secre- ta que o Sombra, mas em vez de combater o crime urbano percorria o mundo salvando inocentes em perigo. Antes que a revista chegasse às bancas, Jerry e Joe já sabiam que seriam seus fãs. Então, em março de 1933, apareceu um produto esquisito no mercado de revistas que unia as duas paixões de Jerry — ficção e quadrinhos. Enquanto a primavera derretia a neve de Cleveland e a nação esperava para ver o que Franklin D. Roosevelt faria a respeito da Grande Depressão, e enquanto Jerry esperava para ver que tal seria o Doc Savage, uma revista meio desleixada, em tamanho de tablóide e com capa de papel-cartão chamada Detective Dan apareceu nas bancas. Seguindo a onda de Dick Tracy, centenas de jovens desenhistas pegaram suas tiras de policiais durões e foram, de porta em porta, vendê-las às agências. Um deles, Norman Marsh, experimentou imprimir em preto-e-branco parte de seu material inédito e colocá-lo nas ban- cas. Lançado com o nome empresarial de “Humor Publishing”, o material não foi bem distribuído — na verdade mal saiu de Chicago — e provavelmen- te não vendeu nem o suficiente para cobrir os cus- tos de impressão. Detective Ace King, Boh Scully e Two-Fisted Hick Detective desapareceram sem dei-

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xar rastros, mas Detective Dan chegou até Cleve-

land. Essas revistas eram o que os futuros historia- dores dos quadrinhos, sempre em busca das histó- rias que deram origem ao gênero, classificariam posteriormente como as “primeiras revistas em quadrinhos modernas de conteúdo original e perso- nagem único”. Jerry Siegel, com suas sempre aten- tas antenas ligadas à cultura pop, que lhe permiti- ram ser o primeiro criador de um fanzine de ficção científica e um dos primeiros assinantes do The Time Traveller, era um dos poucos a se lembrar de ver um número de Detective Dan nas bancas — e parece também ter sido o único a tomar uma deci- são importante sobre sua carreira por causa disso. Jerry comprou a revista e mostrou-a para Joe. Este achou que aquilo ainda estava longe de ser Dick Tracy, mas era bom. O que importava era que

a revista não era muito melhor do que as coisas que

ele e Joe conseguiam fazer — mas estava publica- da. E aquela publicação não dependia do mundo longínquo e indiferente das agências de jornal, mas

do mundo das revistas baratas, muito mais próximo

e familiar. Pelo menos era isso o que Jerry pensava.

“Nós podemos fazer isso!”, disse ele. Em sua cabeça tudo já parecia real: iam escre- ver e desenhar uma tira com um herói de ação cria- do por eles mesmos e vendê-la para a Humor Pu- blishing. Para deixá-la diferente, não copiariam Dick Tracy ou qualquer outra tira: a inspiração viria

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dos pulps, como acontecia com Tarzan e Buck Ro- gers. Contariam com Gladiator e os anúncios de Doc Savage para criar uma aventura pulp sobre um valentão bonzinho e com força extraordinária. Ele até já tinha nome: O Super-Homem.

5

—————————— A NOVA DIVERSÃO

NO PERÍODO PRÓSPERO dos anos 1920, Harry Donenfeld se contentava em seguir o merca- do. Usar seu charme e experiência nos negócios para estabelecer contatos entre distribuidores, edi- tores e o mercado negro bastava para que o dinhei- ro entrasse. Mas nos tempos difíceis dos anos 1930 não dava para ficar parado. Quando a venda de re- vistas caiu, entre 1930 e 1931, foi preciso agir: ou Harry ficaria pelo caminho, ou teria que chegar até o topo. Pequenos editores geralmente saíam de campo quando as dívidas ficavam muito elevadas e mais tarde reapareciam com novos produtos. Os distri- buidores não podiam se dar esse luxo. Havia lugar para poucos no mercado, e batalhava-se furiosa- mente pelo “espaço nas prateleiras” e território ge- ográfico. A guerra se intensificou à medida que as vendas caíram. O negócio de um distribuidor de- pendia de suas relações com trabalhadores locais e

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varejistas, da entrega semanal de produtos. Isso en- volvia depósitos para estoque, leasing de cami- nhões, licença do correio e rotas de entrega. Um distribuidor bem-sucedido tinha bolsos fundos o suficiente para pagar as contas dos impressores e manter pequenos editores, mas o mecanismo para- va assim que o dinheiro deixava de entrar. O que acontecia era que os editores e varejistas trocavam de distribuidor. Esse período foi especialmente di- fícil para os pequenos distribuidores, já que negoci- antes com dinheiro contado acabavam favorecendo os que davam desconto nas compras em grande quantidade. Uma empresa como a Eastern News podia cair no esquecimento se cortasse despesas para diminuir os custos. Lá pelo fim de 1930, Harry Donenfeld estava publicando quatro smooshes (Joy Stories, Hot Sto- ries, LaParee Stories e Gay Parisienne) e uma li- nha de “nus artísticos”. Parece que também se en- carregou de toda a linha de Frank Armer, incluindo Pep e Spicy Stories, já que o endereço editorial de Armer não era mais na rua 42 e sim na 20, no edifí- cio da Donny Press. O “editor cativo” era uma figu- ra comum durante a Depressão: quando não podi- am saldar dívidas com impressores e distribuidores, os editores davam como pagamento porcentagens de suas companhias. Esse virou um dos métodos de expansão favoritos de Harry durante os anos se- guintes, aquele que o levou a lugares inesperados.

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Então, no início de 1931, a Eastern News anun- ciou que não tinha como pagar a quantia que devia aos editores. Harry fez a única coisa que um editor cauteloso podia fazer: deu calote nos seus credores. Ele já tinha fama de atrasar os pagamentos de escri- tores e artistas para cobrir o fluxo de caixa, o que lhe rendeu um aviso na revista especializada Au- thor and Journalist, na qual se advertia que Harry “não tem a capacidade de pagar pelo material que aceita”. Dessa vez teria que fazer algo mais ousado. Decretou a falência de sua empresa de periódicos, a Irwin Publishing, e em seguida vendeu os títulos para outra empresa que tinha criado, a Merwil. Ain- da tinha as revistas mas, como a Author and Pu- blisher notou, “os escritores que têm dinheiro a re- ceber da Irwin Publishing Company ficam de mãos abanando, e o sr. Donenfeld afirma que a nova em- presa não tem o dever de pagá-los”. A crise seguinte foi no âmbito legal. Era uma época de grandes escândalos em Nova York. Um Partido Republicano que se afundava na confusão de suas próprias políticas desesperadas culpava os democratas corruptos por tudo. O juiz Samuel Sea- bury, um homem de tão marcada linhagem episco- pal que era conhecido como “o Bispo”, abriu um inquérito sobre a Tammany Hall que acabaria der- rubando Jimmy Walker, um prefeito muito popular e imensamente corrupto. Depois disso outros políti- cos, até então indecisos, se juntaram à caçada. O

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Comitê de Decência Cívica dos Cidadãos de Nova York escolheu como alvo as girlie magazines e, na primavera de 1932, pressionou o promotor público a ordenar a prisão de quatro jornaleiros por vender revistas obscenas. As acusações foram retiradas so- mente após alguns editores, entre eles Harry e Ar- mer, concordarem em fazer uma reunião com o co- mitê e ajudá-lo a acabar com as revistas mais ofen- sivas e “ficar atento aos bons costumes” de outras. No encontro com o Comitê de Decência, em ju- lho, Harry concordou em cancelar a LaParee e amenizar os outros títulos. Trocaram-se apertos de mãos e palavras educadas entre os protestantes tra- dicionais dos bairros nobres e o pornógrafo do su- búrbio. Então Harry se despediu e continuou publi- cando discretamente a LaParee. Os exuberantes mamilos rosados que apareceram na capa de de- zembro também não deixam claro se ele chegou a falar com o editor sobre amenizar o conteúdo. Harry estava aprendendo a não dar bola para os berros irados de credores e censores. Sua insolência rendia muitas conversas na mesa de gin rummy (Tipo de jogo de cartas). Mas ele ainda não perce- bera o quanto tinha enfurecido os tais cidadãos de- centes de Nova York. Três meses mais tarde, em outubro de 1932, Paul Sampliner e Charles Dreyfus, da Eastern News, decretaram falência. Tinham tentado segurar as pontas até a esperada volta dos bons tempos,

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mas a economia só piorava. Algumas semanas an- tes da vitória folgada dos democratas nas eleições, a Eastern espalhou seus editores e vendedores aos quatro ventos. Sampliner e Dreyfus deviam quase 30 mil dólares a Harry. Outros editores sobreviveram ao encontrar dis- tribuidores que cobriam seus gastos em troca de participação, mas Harry não queria ser um editor cativo. Ele precisava de dinheiro e de distribuição, mas sem que interferissem em sua propriedade. En- tão pagou algumas bebidas a Paul Sampliner e es- boçou sua idéia para a Independent News Com- pany. Harry seria o principal vendedor. O irmão Ir- ving cuidaria da impressão e da produção editorial. Jack Liebowitz cuidaria das finanças. E, para ban- car tudo isso, Sampliner podia pegar dinheiro em- prestado com a mãe. Harry adorava contar essa história, especial- mente quando Sampliner estava por perto. Con- tava-a com um desprezo afetuoso pelo filhinho-da- mamãe que tinha plantado a semente de sua fortu- na. No mundo de Harry, era sempre o garoto da rua que tomava conta de tudo e se dava bem, e um ga- roto rico e sortudo vinha de carona. De fato, a partir desse momento Sampliner parecia feliz em seguir as iniciativas de Harry e ficar rico em silêncio. Na esfera pessoal, tornou-se um membro proeminente da comunidade judaica e um líder da Liga Antidifa- mação (Anti-Defamation League, organização cria-

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da pela comunidade judaica norte-americana para combater o preconceito anti-semita). Mas a Inde- pendent News evitava a retórica pomposa e as po- líticas pretensiosas que Sampliner tinha defendido na Eastern News e se concentrava naquilo que Harry tinha a certeza de poder vender: sexo e emo- ções fortes. A Independent estava pronta para pôr em circu- lação as mercadorias algumas semanas após o co- lapso da Eastern. Os primeiros e mais fáceis pon- tos-de-venda para as revistas de nu e smooshes eram os teatros burlescos e antigos speakeasies como o Onyx, que tinham “dançarinas”, bandas de jazz e humoristas desbocados. Entre a Depressão e a abolição da Lei Seca (em 1933), muitos desespe- rados donos de bares e pequenos integrantes do mercado negro se dispuseram a apostar no sexo para continuar ganhando dinheiro, e Harry sabia como falar com eles. Sua lábia e disposição para sentar e tomar umas devem ter sido mais atraentes que os brutamontes de última categoria que geral- mente tocavam a indústria pornográfica. Ele pode ter comercializado os produtos de Margaret Sanger também — camisinhas para os rapazes que podiam pagar pelas atenções de uma stripper depois do ser- viço, Spicy Stories para os que não podiam. O his- toriador Michael Feldman disse que “o fato de Ar- mer e Donenfeld batizarem de Trojan Publishing uma das empresas de revistas pode não ter sido co-

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incidência (A Trojan Condons é uma popular mar- ca de preservativo nos EUA). Talvez eles quises- sem deixar claro para os varejistas que estes esta- vam comprando as revistas do mesmo pessoal de confiança que vendia as novidades em látex”. Mas, é claro, para sobreviver a Independent pre- cisava recuperar os trabalhadores, os jornaleiros, os donos de bancas, farmácias e tabacarias que a Eas- tern tinha perdido. Sua arma mais poderosa para isso era o sistema de consignação: em vez de arris- car dinheiro comprando publicações diretamente do distribuidor, os comerciantes poderíam pegar uma remessa em consignação, devolver as revistas que sobravam e pagar somente pelas vendidas. Como as revistas antigas que sobravam não tinham valor ne- nhum para o distribuidor, o comerciante podia eco- nomizar custo de transporte rasgando a parte de cima da capa das revistas e enviando-as de volta como prova de devolução. Era um dever contratual jogar fora o que sobrasse, para evitar que o comer- ciante fizesse concorrência ao próprio distribuidor, com uma cópia de segunda mão da mesma revista. A quantidade de revistas e de quadrinhos que ainda aparecem à venda com a tirinha arrancada demons- tra que muitos comerciantes quebravam o acordo e vendiam os produtos teoricamente devolvidos. Mas Harry Donenfeld quebrou essa concorrência colo- cando outras capas nas revistas devolvidas e reven- dendo-as como edições novas. Os leitores podem

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ter se sentido enganados ao constatar que já tinham lido a revista que acabavam de comprar, mas o pes- soal da indústria dava risadas. Eram crianças de rua como Harry, e os tempos difíceis eram uma boa desculpa para mostrar quem era o pilantra mais es- perto. O problema com a consignação era a pressão fi- nanceira sobre o distribuidor. O tamanho das tira- gens tinha de ser determinado bem antes de serem feitos os pedidos, e baseava-se em previsões elabo- radas com meses de antecedência. O segredo era imprimir um número suficiente para satisfazer os comerciantes, garantir espaço nas prateleiras e ma- ximizar as vendas, mas não um número grande de- mais, para evitar que as devoluções fossem maiores que as vendas e diminuíssem o lucro potencial. A necessidade de expandir a linha de produtos estava em batalha constante com a necessidade de ofere- cer baixo custo. Isso induzia os distribuidores a uma espécie de loucura, tornando-os insensatamen- te ousados assim que surgia um novo nicho no mer- cado ou uma nova tendência se iniciava; mas de re- pente davam-se por derrotados e voltavam ao con- servadorismo. Os distribuidores vinham usando o sistema de consignação havia um bom tempo com alguns pro- dutos e alguns lojistas, mas, durante a Depressão, esse passou a ser o único sistema que os comerci- antes aceitavam (Esse sistema ainda é o praticado

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na distribuição de revistas no Brasil). A Indepen- dent News não tinha outra escolha a não ser ofere- cer as melhores condições que pudesse sustentar. Isso significava que Jack Liebowitz teria que cuidar do fluxo de caixa e equilibrar os riscos financeiros com uma precisão extraordinária. Seria necessário antecipar meses antes o número de exemplares a ser vendido; estimar os lucros e os prejuízos, levan- do em conta custos de produção que oscilavam em curtos períodos (entre eles a estabilidade do dólar canadense, que tinha tudo a ver com o preço do pa- pel); e calcular o tamanho das tiragens sempre de olho numa margem de segurança que permitisse aos comerciantes atingir o máximo em vendas, mas sem que as devoluções trouxessem grandes prejuí- zos. Liebowitz tinha sido um funcionário exemplar na empresa de publicações de Donenfeld por três anos. Tinha demonstrado grande habilidade ao cui- dar das falcatruas de Harry quando este não queria pagar suas dívidas. Agora pediam que regesse uma orquestra sem a partitura. Ninguém no ramo de revistas baratas conhecia contabilidade como Liebowitz, nem tinha a mesma paixão por trabalhar com números. Ele e Rose já ti- nham duas filhas, Linda e Joan, e Jack queria com- prar uma casa para a família. As empresas de Do- nenfeld estavam à beira do abismo, mas não havia muitos empregos disponíveis. Harry também pro- metia tomar conta de Jack se tudo desse certo; ele

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ainda não tinha participação na empresa, mas Harry tinha fama de ser muito generoso nas recompensas.

E Jack compreendia o potencial: como editor,

Harry lucrava o dobro dos concorrentes em cada cópia, porque cuidava da própria distribuição e da impressão das capas. Como impressor e distribui- dor, podia contar com suas próprias publicações para manter o mecanismo funcionando e repassar livremente dívidas e fluxo de caixa de uma empresa

à outra para se manter. Se Harry conseguisse novos clientes confiáveis e propriedades, Jack poderia re- mediar de vez a situação da família. Liebowitz sabia que uma grande firma de distri- buição não sobreviveria às contas pendentes e às manobras de falência que Harry tinha preparado como editor. Tomava cuidado para que as contas fossem pagas sempre em dia e ganhou a confiança dos clientes. Ao mesmo tempo, ganhou a reputação

de controlar despesas com mão de ferro e pressio-

nar incansavelmente os devedores. Também come- çou a buscar propriedades e oportunidades. Se o início da Depressão fez de Harry um líder, também fez de Liebowitz um chefe. Irwin Donenfeld disse

ter aprendido tudo o que sabia a respeito da empre-

sa com os berros do “tio Jack”. Dentro de alguns

anos, ninguém falava de Donenfeld e Sampliner, ainda que eles formassem a parceria proprietária da Independent. Falava-se de Donenfeld e Liebowitz. Eram uma dupla estranha: Harry, pequeno, li-

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geiro, beberrão e risonho, gostava de sussurrar bo- bagens nos ouvidos de quaisquer garotas. Jack, sé- rio e taciturno, com seu bigodinho e seus ternos sem graça, aparência que lembrava um protestante burguês. A primeira vista ele era parecido com Thomas Dewey, o jovem republicano em ascensão que representava tudo o que o pessoal de Harry te- mia. Mas o contraste funcionava bem. Donenfeld fazia promessas, levava os clientes para os bares e puteiros e fechava a venda; então Liebowitz entra- va em cena, enfrentava os números, calculava o lu-

cro líquido, dava as más notícias, saía batendo boca

e fazia o balanço fechar. Jack se dava bem com

Harry e gostava das partidas de gin rummy disputa- das no fim do expediente, antes que Harry saísse para encher a cara e ele fosse para casa encontrar a família, ou de volta ao escritório para trabalhar mais um pouco. Mas ele também aprendeu muito bem a vigiar o que Harry fazia e a consertar suas lambanças.

HARRY ACHAVA que trazia alguma classe às girlie pulps. Pagava 60 paus pelas ilustrações das capas — o dobro do valor pago pela concorrência — e tinha um quadro de artistas ilustres, com ve- lhos nomes americanos — R. A. Burley, Enoch Bolles, Earle K. Bergey, H. J. Ward — que bem

podiam ter ido trabalhar nas revistas “classudas” se

o mercado não tivesse entrado em colapso junto

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com o resto da economia. Pagava um centavo intei- rinho por cada palavra no script, enquanto outros pagavam meio, e assim ficava com os melhores es- critores: Robert Leslie Bellem, mestre do diálogo cheio de gírias, Bob Maxwell, que também escrevia canções divertidas para o rádio, e o estranho Jack Woodford, que uma vez descreveu sua fórmula para escrever histórias assim: “Um rapaz encontra uma garota, a garota mete o rapaz em apuros e en- tão o rapaz se apura para meter na garota”. As histórias ficaram mais assanhadas: “A seda

fina do vestido rasgava com facilidade enquanto ele

Os belos seios, livres e sol-

tos, avolumavam-se como dois cocos, e os olhos de

Helen ficou observando en-

quanto ele baixava a cabeça. Ela começou a tremer e, quando sentiu um puxão no laço do corpete, ge- meu e se deitou de costas no travesseiro.” As ven- das aumentaram. Mas Harry estava de olho em mercados maio- res, especialmente no assunto mais em voga na América da Depressão: o crime. Por 13 anos a Lei Seca vinha transformando cidadãos comuns em cri- minosos e financiando os impérios do mercado ne- gro que dominavam cidades inteiras, e agora esses cidadãos iam à falência e eram dispensados pelo sistema, porque os milionários corruptos já os ti- nham usado para o que precisavam. A diretoria do Mercado de Ações de Nova York estava sendo pro-

Phil se dilatavam [

alcançava a bainha [

].

].

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cessada quase ao mesmo tempo que o prefeito de Nova York e Al Capone. J. Edgar Hoover e os ho- mens do FBI viraram heróis nacionais por metra- lhar ladrões de banco. Fazer justiça com as próprias mãos, uma prática nacional comum que tinha co- meçado a desaparecer, voltava a ganhar espaço em cidadezinhas e povoados. Alguns crimes, como se- questros, desencadearam uma sede de sangue na população. A grande maioria dos americanos ficou feliz ao ver um imigrante alemão desempregado morrer pelo assassinato do bebê de Charles Lind- bergh, mesmo se tratando de uma condenação re- sultante de uma investigação e um julgamento mui- to duvidosos. Um linchamento em San Jose, Cali- fórnia, deu cabo de dois acusados de sequestro an- tes que eles fossem a julgamento, e o governador do estado disse que essa tinha sido “a melhor lição que a Califórnia já tinha dado ao país”. Não sur- preende que o apetite nacional por histórias de cri- mes de todos os tipos, verdadeiros e ficcionais, ele- gantes ou brutais, fosse insaciável. O fascínio da América com o crime tinha o fer- vor que sempre vem com uma profunda ambivalên- cia. Quanto mais malvadas, mais raivosas, mais moralmente questionáveis as histórias ficavam, tan- to mais vendiam. Alma no Lodo e Inimigo Público Número Um venderam tantos ingressos que os estú- dios cinematográficos pouco estavam ligando para os grupos de cidadãos revoltados e continuaram

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produzindo mais melodramas sobre gângsteres. Dick Tracy enchia as páginas diárias com assassi- nos lunáticos morrendo horrivelmente — ver Flat- top ficar preso sob um píer e ir se afogando aos poucos era tão reconfortante quanto ver as fotos dos policiais junto aos corpos crivados de balas de Bonnie e Clyde — e suas vendas aumentaram sem parar. Todos os escritores, editores e redatores no ramo observavam Dashiell Hammett chegar ao topo com a força das histórias de detetive que tinha vendido para um pulp chamado Black Mask; num momento era mais um escritor mercenário numa re- vista barata; no instante seguinte, um autor que vendia como água, com méritos literários e queridi- nho de Hollywood. Harry adquiriu os direitos de um jornaleco vito- riano chamado The Police Gazette e deu a Merle Hersey a tarefa de reformá-lo para a era moderna. “Vamos dar aos barbeiros deste país uma Police Gazette que vai fazer os clientes aparecerem uma vez por semana para cortar os cabelos”, anunciou a filha do pastor, “com muito sexo, coisas sobre o submundo envolvendo sexo, e muitas fotos de dan- çarinas seminuas.” Harry e Armer começaram a de- senvolver um pulp de ficção chamado Super- Detective (o prefixo “super” estava por toda parte em 1933) e pediram a seu time de freelancers que a fizessem acelerada, sugestiva e um pouco sexy. En- tão Armer teve outra idéia: combinar os pulps de

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crime com os smooshes. Na esfera da vida privada já se investigavam prostitutas insaciáveis e herdei- ras seminuas o tempo todo, então por que não dei- xar seus seios avolumarem-se como cocos nas páginas? Assim Harry criou uma nova empresa, ba- tizou-a, num momento de delírio, de “Culture Pu- blications” e preparou a Spicy Detective Stories para publicação em fevereiro de 1934. A capa do primeiro número era adornada uma loira seminua, defendendo-se de um estuprador brutal enquanto uma arma aparecia numa janela. Foi um hit instantâneo. Os homens americanos ti- nham se virado por tanto tempo com dançarinas sorridentes e provocações brandas em revistas mal- feitas porque ninguém tinha percebido antes o quanto eles queriam ter sexo misturado ao sangue e ao terror. Só pela reação dos comerciantes, Harry ordenou que a revista passasse imediatamente de bimestral a mensal. Então Nova York deu seu primeiro golpe. No início de março, o comissário de licenças comerci- ais disse que cancelaria a licença de qualquer banca da cidade que vendesse publicações indecentes. Re- vistas de nus artísticos e smooshes foram retiradas por mais de 3 mil comerciantes e devolvidas aos distribuidores. Donenfeld e um de seus concorren- tes, Henry Marcus, entraram com um mandado ju- dicial mas, até que o tribunal decidisse alguma coi- sa, não tinham o que fazer.

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Passaram-se apenas três semanas e veio o se- gundo golpe. Alguns meses antes, Harry e Frank ti- nham decidido testar os limites da lei e publicaram uma capa da Pep com nudez frontal, sem cobrir os pêlos púbicos com o aerógrafo. O que dava pra ver dos pentelhos era mínimo, mas foi o suficiente para o promotor público. Em 21 de março Harry foi in- diciado por publicar material obsceno, e o promotor já falava em cadeia. Harry custou a entender que a grande farra da Lei Seca já tinha acabado. Depois da queda de Jimmy Walker e da Tammany Hall, a prefeitura fi- cou sob o comando da mais estranha personalidade na política americana: um republicano meio italia- no e meio judeu do Harlem chamado Fiorello La- Guardia, que odiava o mercado negro tanto quanto odiava a Lei Seca. A mistura que fazia de posições liberais e conservadoras — era a favor dos sindica- tos e da previdência social e contra o crime — con- quistou a imaginação dos nova-iorquinos e lhe deu um mandato para erradicar as pessoas que conside- rava inimigas do bem-estar comum. A partir de en- tão, acusações de imoralidade não seriam mais reti- radas mediante uma ligação para a Tammany Hall ou mediante um depósito de fundos. Mas a acusação de obscenidade não era a única coisa que assustava Harry. Não era uma boa hora para ser investigado pelo governo. Dizia-se que ele ainda tinha ligações com Frank Costello. Todos os

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contrabandistas espertos vinham se preparando para o fim da Lei Seca havia anos, e Costello foi um dos mais criativos. Prevendo a necessidade que teriam os donos de speakeasies de encontrar novas fontes de renda para sobreviver com bares e restau- rantes legalizados, Costello criou uma empresa chamada Mills Novelty Company, uma distribuido- ra de jukeboxes e jogos mecânicos de azar, que se passavam por “divertimentos” mas eram facilmente utilizáveis como máquinas de aposta. O mercado negro de distribuição também facilitava apostas com bookmakers. As máquinas de aposta eram muito populares em lojas de doces, tabacarias e bancas de revistas, e uma das distribuidoras que mais contribuíram para sua expansão foi a Indepen- dent News. A pornografia podia chamar a atenção de um promotor, mas ele acharia coisas piores se continuasse investigando. O submundo também estava assustado. Thomas Dewey, o promotor federal draconiano, recém tinha posto atrás das grades Waxey Gordon, um velho amigo de Harry. A acusação era de fraude fiscal. E ele não só foi para a cadeia — também foi humilha- do. Dewey tornou-o motivo de chacota. Isso não acabou com a quadrilha de New Jersey — Abner “Longy” Zwillman assumiu o lugar de Waxey — mas mostrou que os chefões não estavam mais se- guros. Agora Dewey estava atrás de Arthur Flege- nheimer, “Dutch Schultz”. Todos os bandidos de

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Nova York estavam em alerta. Harry tinha 40 anos. Batalhava para sustentar Gussie e as crianças, virava-se como podia após o colapso da Eastern News e tinha acabado de conse- guir meter a mão na grana como editor. Precisava atirar alguém aos lobos. Escolheu Herbie Siegel. Herbie era um bobalhão a quem Harry tinha dado um emprego como favor a um parente. Não tinha muito a perder, e ficava feliz com qualquer coisa que aparecesse. Harry o levou para jantar — prova- velmente em algum lugar muito além dos sonhos de Herbie, como o Stork Club ou o 21 —, pagou al- gumas bebidas e talvez tenha lhe apresentado algu- mas garotas. Fez então sua proposta. Se Herbie ju- rasse no tribunal ter editado aquela edição da Pep e ter sido sua a idéia dos pentelhos, sem que o pobre e inocente Harry soubesse de nada, então teria em- prego para o resto da vida. Mesmo que mudasse de ramo, Harry tinha muitos amigos que pagariam a dívida, caso Herbie aceitasse ficar com toda a cul- pa.

No geral foi um bom negócio. Herbie provavel- mente ficou preso apenas 60 ou 90 dias e ganhou o emprego prometido. Os novos empregados da DC Comics veriam-no 30 anos mais tarde, já velho, carregando pacotes, servindo café e principalmente sentado, lendo sobre as corridas. “Quem é esse Herbie?”, perguntariam depois de um tempo. Então ouviam a história, o primeiro contato que todos ti-

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nham com a lenda de Donenfeld. Harry não hesitou em dissolver a Merwil, edito- ra da Pep, e vendeu todos os bens da empresa para uma outra recém-fundada, a D. M. Publishing, com endereço em Wilmington, Delaware. Com isso, todo dia alguém tinha que dirigir até Delaware para buscar a correspondência e voltar com as respostas, mas o prefeito LaGuardia nada mais podia fazer contra Harry. Em maio, o direito que tinha o comissário de li- cenças para proibir material indecente foi a julga- mento. Isso prejudicou as vendas num primeiro momento, mas também auxiliou Harry a expandir seu pequeno império: o rival Henry Marcus decidiu cair fora do mercado negro de smooshes e lhe ven- deu alguns dos títulos que mais saíam, Tattle Tales e Bedtime Stories. Então Harry ordenou aos edito- res que mantivessem um certo decoro nas capas — ou pelo menos um pouco mais de cetim cobrindo os peitos — para evitar problemas futuros. No mesmo mês, ainda na onda da Spicy Detec- tive, Harry lançou a Spicy Adventure Stories. A capa, magistralmente executada por H. J. Ward, deu um jeito de seguir as leis de decência pública enquanto vendia as fantasias sexuais racistas e sádi- cas mais obscenas. Uma donzela de pele rosada está amarrada a um poste, os lábios carnudos entre- abertos e os olhos, enfeitados com rímel, esbuga- lhados. O corpo se contorce para tentar escapar e

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empurra os seios exuberantes na direção do leitor. As roupas estão rasgadas e tudo que resta é um re- talho de pano branco sobre os mamilos e uma tira cor cáqui entre as pernas, com as belas curvas colo- ridas de seu ventre e coxas oferecendo-se ao leitor, os seios empinados pela corda que a prende ao pos- te logo atrás. Ao fundo, fogo. E em primeiro plano está um negro mostrando os dentes — apenas sua negritude basta para parecer violenta diante daquela maciez cor-de-rosa. Numa das mãos ele segura uma lança ensanguentada e na outra, a cabeça decepada de um homem branco, com os olhos virados nas órbitas e sangue escorrendo sobre os lábios abertos em languidez quase sexual. Era Harry se lixando para os censores. Também foi sua estréia num mer- cado especial de fantasias masculinas violentas. Acabou sendo um mercado muito maior do que se poderia imaginar. As “Spicies” foram os primeiros grandes suces- sos de Harry. Ele trouxe mais dois, Spicy Mysteries e Spicy Western. Spicy Detective saiu do gueto e entrou no mainstream da ficção, em grande parte graças às histórias de “Dan Turner, detetive de Hollywood” escritas por Robert Leslie Bellem — um mergulho em gírias detetivescas que ele mesmo tinha criado: “Meti o cano na queixola dele e disse:

‘fecha a matraca, fedorento, ou vou cuspir chum- bo.”’ S. J. Perelman chamou Turner de “a apoteose dos detetives particulares” num artigo para The

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New Yorker, “Somewhere a Roscoe”. “Espero que ninguém se ofenda com minha declaração pública de amor, mas se a Culture Publications me quiser, me caso com eles”, escreveu Perelman. Harry ficou extasiado. Jack Liebowitz, nem tan- to. Por pouco 1934 não tinha sido um desastre para ele. As Spicies ainda não tinham atraído a ira dos censores, mas isso podia acontecer. Ele queria uma forma de garantir o futuro e evitar desastres, mas não havia nenhuma disponível. Até que a cavalaria americana chegou para salvá-lo. Ou pelo menos um de seus desgraçados ex-membros: o major Malcolm Wheeler-Nicholson.

TIRAS DE JORNAIS já não eram novidade. Li- vros baratos com histórias e sequências de dese- nhos já eram vendidos em Nova York por volta da metade do século XIX. Assim que Joseph Pulitzer e William Randolph Hearst publicaram as primeiras tiras coloridas, em 1890, os editores já estavam dando um jeito de compilar Little Nemo e Buster Brown para colocá-los em livrarias e bancas. Um editor já usava o termo “comic book” em 1917. Quando tiras de jornais com histórias que havia tempo vinham acontecendo estouraram no fim da década de 1920, as reedições estavam por toda par- te.

Em 1929 o empreendedor George T. Delacorte, desejando assegurar um espaço nesse nicho sem in-

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vestir muito capital, como já tinha feito muitas ve- zes, bolou um novo projeto para a Eastern Color Printing, companhia que imprimia grande parte das seções de quadrinhos para os jornais dominicais. O The Funnies era um tablóide semanal que imitava essas seções, mas com tiras que nenhuma agência ou jornal queria. Delacorte acreditou no projeto o suficiente para mantê-lo com diferentes preços e formatos por meses, mas ficava sempre no prejuízo — foi uma das poucas apostas editoriais que ele perdeu. Por alguns anos, ninguém mais aproveitou a idéia. Quando a Humor Publishing de Chicago tentou uma estratégia parecida em 1933, com De- tective Dan e companhia, o resultado não foi muito melhor. Outro jeito de ganhar dinheiro com quadrinhos baratos era dá-los como brindes. Os comerciantes já estavam descobrindo o poderio dos resmungos juvenis e tirando vantagem deles ao dar de brinde pequenos livros infantis e outras cortesias. Em 1932, a Eastern Color produziu revistas em quadri- nhos coloridas em tamanho meio-tablóide — “stan- dard size”, como os editores de pulps o chamavam — como cortesia para os assinantes do Ledger na Filadélfia. A equipe de vendas da Eastern Color, contando com dois homens que em breve iam virar gigantes na indústria de quadrinhos, Harry Wilden- berg e Lev Gleason, tentou vender a idéia para pu- blicitários e fabricantes, sem muito sucesso. Então,

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nos primeiros meses frios de 1933, quando os ban- cos estavam fechando e a economia americana che- gava ao fundo do poço, um vendedor faminto cha- mado Charlie Gaines entrou mancando porta aden- tro.

Ele tinha sido professor e diretor de uma escola usando o nome de Maxwell Charles Ginsberg até certo momento nos anos 1920, quando percebeu que não tinha mais como sustentar a esposa e os dois filhos. Mudou de nome e passou a cuidar de todos os esquemas de publicidade e promoções que encontrasse ou inventasse. Por um tempo vendeu gravatas pintadas. Era um homem esperto mas pou- co amistoso, que mancava por causa de um feri- mento de infância, retorcia o rosto por causa da dor constante na perna e nas costas e tinha o hábito de descontar colericamente suas frustrações em seu fi- lho, Bill. No pior momento da Depressão, viu-se desempregado aos 40 anos. Falou com o amigo Harry Wildenberg, na Eastern Color, e ofereceu-se para trabalhar como vendedor. Aceitaria trabalhar somente pelas comissões, sem salário. Se conse- guisse arranjar clientes para quadrinhos de brinde, ganharia uma parte. Caso contrário, nada. As lendas da indústria, criadas pelo filho de Charlie, atribuem a ele a invenção das revistas em quadrinhos. Uma história conta que Charlie olhou para as prensas paradas da Eastern Color e perce- beu que a arte dos quadrinhos podia ser impressa

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na metade do tamanho, e com isso seria possível grampear as páginas em um formato mais conveni- ente. Teria vendido a idéia sozinho aos publicitá- rios, e sozinho teria percebido que os gibis podiam ser vendidos nas bancas. Essa é mais uma das his- tórias da origem dos super-heróis que as pessoas gostam de imaginar que são verdadeiras, só que não são. O que Charlie Gaines conseguiu foi criar uma fila de clientes que desejavam um brinde gra- tuito chamado Funnies on Parade. Wildenberg também fechou negócios para usar Joe Palooka, Mutt and Jeff e alguns outros quadrinhos populares; a Procter and Gamble encomendou 10 mil cópias, e as crianças americanas enviaram cupons retirados de caixas de sabão até que elas acabassem. Gaines e Wildenberg fecharam o mesmo negócio com a Kinney Shoes, a Canadá Dry, a Wheatena e outros. A Eastern se viu às voltas com pedidos de 100 mil exemplares para a segunda empreitada, Famous Funnies. Quando A Century of Comics foi lançada, com 100 páginas, o sucesso foi ainda maior. No fi- nal de 1933, a Eastern pode ter vendido 30 milhões de páginas de quadrinhos só com esses três brindes. Agora George Delacorte reapareceu. Ele conse- guiu que 35 mil exemplares de Famous Funnies fossem postos à venda no setor infantil de algumas lojas de departamentos. A edição tinha 64 páginas, com uma capa que as envolvia — isso era um “co- mic book”, como as crianças saberiam em poucos

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anos. Chegou às lojas em fevereiro de 1934 e esgo- tou em semanas. Delacorte tentou vender a idéia de uma banca só com revistas em quadrinhos para a American News Company, a maior e mais antiga distribuidora do país — o estabelecimento de quem MacFadden, Donenfeld e todo o resto se diziam “independentes”. A American News achou difícil que as crianças fossem gastar dinheiro em quadri- nhos que já tinham lido no jornal, mas Delacorte acabara de se tornar o cliente favorito ao criar uma série de revistas de palavras cruzadas que vendiam melhor do que quase tudo nas bancas. A Famous Funnies chegou às bancas em junho de 1934, e es- gotou. Delacorte a abandonou prontamente para criar sua própria editora, a Dell Comics, formatada por Charles Gaines. Outros distribuidores começa- ram a procurar por revistas de tiras de jornal. Havia chegado o momento do major Malcolm Wheeler- Nicholson. O major invadiu o mundo das publicações bara- tas usando um chapéu panamá e um terno cor de creme, com o paletó jogado sobre os ombros como uma capa e uma piteira dependurada nos lábios. As histórias que contava sobre si mesmo eram extraor- dinárias. No papel de major mais jovem da cavala- ria americana, ele lutou contra Pancho Villa no México e contra os bolcheviques na Rússia. Tam- bém serviu em Versalhes, em 1919, onde seduziu e se casou com uma condessa sueca. Então, decepci-

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onado com a tradição do exército de recompensar a longevidade em vez do mérito, escreveu uma carta pública de protesto para o presidente Harding, o que lhe rendeu a corte marcial e uma tentativa de assassinato (ele gostava de exibir a marca da bala que tinha na cabeça). Depois disso escreveu um li- vro — Modern Cavalry — e começou a vender his- tórias de guerra para a Argosy e outras revistas. O mais incrível de tudo é que essas histórias eram verdadeiras. Infelizmente o ambioso major tinha in- clinação a dar passos maiores que as pernas, fe- chando negócios com cheques sem fundos e sedu- zindo investidores com mercadorias que ela ainda não tinha. O major ainda estava começando a entender como funcionava o mercado de jornais e revistas quando fez sua primeira tentativa de conquistá-lo. Em 1925 ele montou uma agência para vender sua ficção, artigos de toda espécie e tiras de diversos cartunistas. A maioria delas eram as gracinhas usu- ais, mas ele apostou numa adaptação de A Ilha do Tesouro e Ivanhoé. Preparava-se para publicar um catálogo de seu material em formato de jornal, cha- mado The Syndicator, mas o dinheiro acabou. O major voltou a escrever pulps por mais oito anos, mas com o colapso das empresas de revistas, logo no começo da Depressão, voltou a sonhar em ter sua editora. Estava especialmente interessado nas tiras. Seus filhos estavam no auge de um caso

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de amor com elas. Enquanto muitos jornais reduzi- am a seção dominical de quadrinhos, William Ran- dolph Hearst agressivamente ampliou a sua para 32 páginas, o que era inédito. A circulação e o preço dos anúncios aumentaram. Então o major conven- ceu a distribuidora da revista McCall’s a deixá-lo assumir o comando de uma publicação moribunda que reimprimia tiras inglesas para transformá-la na New Fun, especializadas em quadrinhos inéditos. Wheeler-Nicholson foi franco em seu plano de ne- gócios: “Entendo essas revistas mais como um ca- tálogo, para que as agências de jornais se interes- sem pela idéia. É muito mais fácil vender uma tira se você puder mostrá-la já publicada”. Mas, numa jogada feita às pressas, típica do comércio durante a Depressão, as revistas apareceram nas bancas para que os anunciantes lhes dessem valor, ao mes- mo tempo em que cobravam pelos anúncios para cobrir custos. A McCall’s concordou e os anunci- antes compraram. Um deles era Charles Atlas, que começava sua longa história com os quadrinhos. A New Fun tinha piratas, caubóis e Oswald the Lucky Rabbit (Uma das primeiras séries criadas por Walt Disney). Era um produto mais barato que a Famous Funnies: tamanho tablóide, miolo preto-e- branco e tiras originais que não tinham sido vendi- das para nenhum jornal. Algumas dessas eram so- bras dos anos 1920 que o major ainda tinha. As ou- tras eram fáceis de arranjar com pequenos anúncios

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em publicações para artistas. O major era um mes- tre na arte de impressionar jovens talentos. “Ele sempre se inclinava ao dar um aperto de mão”, dis- se Craig Flessel. Também era um mestre na arte de

fugir dos credores. Seus primeiros chefes de reda- ção, Lloyd Jacquet e Sheldon Stark, demitiram-se após meses sem ganhar nada. Foram substituídos por dois cartunistas, Vin Sullivan e Whitney Ellsworth. Alguns meses depois, Ellsworth também caiu fora.

A New Fun durou seis edições. As vendas não

iam bem, as dívidas eram altas demais e no verão de 1935 a McCall’s deu o cartão vermelho. Dois in- vestidores que trabalhavam com o major pegaram a metade de seu inventário, juntaram-se ao ex-editor Lloyd Jacquet e saíram em busca de apoio para cri- ar a Comics Magazine Company. O major passou o outono procurando alguém que ainda o quisesse. No fim, tudo o que ele pôde achar foi a Indepen- dent News.

O SOL BRILHAVA para Harry Donenfeld. Ele

lançava mais revistas de todos os gêneros e quase todas elas vendiam mais que a concorrência. Gussie estava transformando a casa nova, no norte do Bronx, num centro de entretenimento e jogatina. Ela era popular entre os amigos e associados de Harry. Chamavam-na de “G” (ou “Gea” quando es- creviam). Para garantir que as crianças pudessem ir

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aonde precisassem, Harry mobilizou seu chofer, Frank Moschello. Este era outro exemplo de que Harry cuidava de quem cuidava dele: Frank tinha sido um garoto de rua, boxeador, ex-taxista e pe- queno negociante de bebidas durante a Lei Seca. Passou algum tempo no xadrez ao assumir a culpa por alguma transação de Harry no mercado negro, e em troca lhe prometeram emprego para toda a vida. Todos os amigos de Harry o conheciam, falavam com ele, pagavam-lhe bebidas. Numa homenagem a Harry, que aprontaram de gozação, alguém lhe deu o seguinte discurso: “Admiro de verdade o sr. Donenfeld, principalmente por ele ter aumentado o nível da minha vida intelectual. Já trabalhei para muitos outros no passado que só se interessavam por diversão e mais diversão. No entanto creio que meu emprego atual é muito melhor para minha for- mação: aprendi os caminhos para as mais importan- tes instituições educacionais da cidade, para expo- sições de arte etc.” À noite ele conduzia Harry até os cassinos, clu- bes noturnos e prostíbulos, mas durante o dia Frank estava à disposição de Irwin e Peachy. “Frank Mos- chello era muito mais pai para mim do que Harry Donenfeld”, disse Irwin. “Assistia a todas as parti- das de beisebol que eu jogava. Ficava lá olhando, e no fim vinha falar comigo. Meu pai uma vez foi a um jogo. Depois de algumas entradas ele se levan- tou e foi embora. Frank ficou.” Irwin completou 10

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anos em 1936. Nunca demonstrou interesse por di- nheiro ou negócios. Queria jogar bola e ser boxea- dor. Não importava o quão bom fosse o bairro ao norte do Bronx, nem que escola Harry pagava para ele: Irwin sempre quis ser um garoto de rua. Harry não tinha tempo para jogos infantis. Sua vida era uma aventura. Na posição de principal edi- tor de girlie magazines do país e amigo de gângste- res, era sempre muito bem recebido em mesas de pôquer, clubes noturnos e eventos esportivos. Gra- ças a The Police Gazette, podia dar um jeito de en- contrar qualquer um que desejasse se promover no meio dos trabalhadores: lutadores de boxe, jockeys, chefes de polícia, dançarinas e produtores. Jack Dempsey chegou a ter seu nome no título de uma revista publicada anos depois do campeonato de boxe. Bastava ficar amigo de Harry e tudo podia acontecer. Mas foi outra a razão de ele ter se afasta- do da família: estava apaixonado. Todos os negociantes da mesma geração e do mesmo nível de Harry tinham uma amante. Os fa- bricantes e os contrabandistas iam até o 21 na noite de sexta com suas mulheres e filhos e voltavam no sábado, dessa vez com garotas jovens e bem-arru- madas. O maître sabia o nome de todas elas. Mas Sunny Paley era mais do que um prêmio para Harry. Era pelo menos dez anos mais jovem que ele e mais bonita que sua esposa; mas não era uma shiksa com pernas de dois metros. Era uma garota

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judia, com bons modos e boa educação. Não se sabe ao certo como entrou na vida de Harry, nem se tinha qualquer ligação com a família Paley que vendia cigarros e era dona da Columbia Broadcas- ting System. O certo é que em pouco tempo deixou de ser apenas sua segunda garota: participava com ele das partidas de gin rummy nos escritórios da In- dependent. Viajava como companheira de Harry para as conferências de negócios. Um distribuidor que saía de vez em quando para beber com ele lem- bra que Harry ficava se gabando dela quando se embebedava. Dormia sempre que possível no apar- tamento em Manhattan e sentia saudades quando não se viam. Harry começou a falar em casamento. Gussie sabia. Irwin lembra-se de brigas violen- tas em casa: depois delas, Harry saía ligeiro para voltar ao apartamento em Manhattan. De volta para Sunny. Certa vez, quando tinha 13 ou 14 anos e tra- balhava na Independent, Irwin ficou até depois do expediente para poder escapulir até o escritório do pai e espiar a partida de gin rummy. Queria ver “aquela mulher” que assombrava seu lar, ainda que seu nome nunca fosse dito. Viu-a, um pouco bem- vestida demais, um pouco mais alta que seu pai, jo- gando cartas e fazendo brincadeiras com Jack Lie- bowitz, Paul Sampliner e os outros como se fosse parte da família. Irwin percebeu que ela fazia parte da verdadeira família do pai, mais do que ele pró- prio.

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Cada mudança na vida pessoal fazia com que Harry precisasse de mais dinheiro. Com uma ener- gia sem limites, expandiu seus negócios. Harry pas- sou a fazer viagens em nome da Independent News, estendendo seus contatos muito além de Nova York. Irwin, que tentaria fazer o mesmo anos mais tarde, disse que a essência do negócio era ficar ami- go dos comerciantes. “Ele se embebedava com o comerciante de Pittsburgh, saía para caçar alces com o cara de Detroit, ia pra cama com o cara de Baltimore. Um atacadista não dá as mesmas vanta- gens para a Dell ou para a Fawcett se ele foi pra cama contigo na noite anterior.” Harry foi até onde a Eastern News nunca tinha ido, até aquela outra América que ele via passar quando pegava o trem para Miami: Richmond, Charlotte, Charleston, Savannah, Atlanta. Então voltava para o interior, para lugares de que só tinha ouvido falar nas corridas de cavalo e jogos de fute- bol: Tallahassee, Chattanooga, Birmingham, Bilo- xi. O Sul não tinha fama de gostar de judeus nova- iorquinos que vendiam livros imundos. Harry tinha idade suficiente para se lembrar do caso de Leo Frank, o contador do Brooklyn julgado e condena- do sem provas por estupro e assassinato. Ele foi lin- chado por uma multidão que invadiu a prisão ao mesmo tempo em que pessoas se juntavam por toda a Geórgia aos gritos de “matem o judeu”. Ainda ha- via algumas cidades naquele estado onde vendiam

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cartões-postais com Frank pendurado numa árvore e a legenda “o linchamento do judeu”. Mas Harry foi a essas cidades. Cumprimentou amigavelmente os comerciantes de tabaco, traba- lhadores da indústria livreira, contrabandistas lo- cais, fornecedores de barbeiros — qualquer um que mexesse com revistas de baixo nível. Aprendeu a fazer brincadeiras e achar pontos em comum com batistas, episcopais e católicos franceses. Nas cida- des menores, apertou a mão de homens que nunca tinham encostado num judeu, homens que espera- vam que Harry fosse aparecer de quipá e barba, carregando um saco de mercadorias. Atravessou todo o Sul de trem e de carro, falando alto com o leve acento judaico de sua voz, agindo como o pa- lhaço que todos amavam, conquistando qualquer um que fosse útil para colocar a Pep e a Spicy De- tective na mesma prateleira da última edição de The Fiery Cross (Revista da Ku Klux Klan). Harry também aproximou as pessoas. Assim que chegou ao Sul, encontrou um sistema de distri- buição dividido em feudos que quase impossibilita- va aos comerciantes ter uma variedade maior de publicações. Ele incentivou os distribuidores e tra- balhadores locais a juntar seus interesses. Aos pou- cos, fez da Independent o ponto central na forma- ção da Southern Distributors Federation. Harry estava ganhando importância nos círculos de distribuidores. Uma vez, em Miami, foi convida-

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do a jogar pôquer com Moe Annenberg, ex-segu- rança de William Randolph Hearst, que agora pu- blicava The Racing Form, a mais importante revista de apostas no país. Arranjava muitas corridas e era o novo dono do Miami Tribune e do Philadelphia Inquirer. Harry jogou na mesa de Moe, onde fez gracinhas, soltou perguntas indiscretas e piscou o olho como se fosse um velho amigo. Quando foi embora, Moe perguntou a um outro jogador:

“Quem era aquele sujeitinho?” Apesar disso Harry foi de novo convidado para jogar e assim entrou para o círculo de um dos grandes machers da distri- buição. Mas o tempo estava fechando para Harry. A modesta vitória dos censores contra as girlie maga- zines em 1934 bastou para acalmá-los por um tem- po. Porém, três anos depois, a opinião pública deu novo ânimo à cruzada. A reação americana contra a licenciosidade que a Lei Seca tinha inspirado ga- nhou força. Nunca tantos contrabandistas tinham ido parar na cadeia por causa de narcóticos. A in- dústria de papel vinha tentando há anos usar a ma- rijuana como desculpa para arruinar sua maior ri- val, a indústria de cânhamo, mas nisso a população não tinha muito interesse. Até que o temor nacional por narcóticos virou a situação, e em 1937 o apoio popular, com a ajuda de William Randolph Hearst, enviou leis anticannabis que abarrotaram as legisla- turas estatais.

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O país estava adorando os desmanteladores de quadrilhas, especialmente agora que elas já não for- neciam mais bebida. Os nova-iorquinos ainda ado- ravam fofocas sobre gângsteres importantes, mas não gostavam que eles dirigissem sindicatos, arran- jassem lutas de boxe ou abrissem prostíbulos pelos bairros. No outono de 1936, Thomas Dewey, que agora era o procurador geral de Nova York, reali- zou a proeza mais descarada já feita por um homem da lei. Mandou suas forças prenderem todas as prostitutas que encontrassem, literalmente milhares delas, numa única noite. Manteve-as presas até que deixassem escapar o nome de pelo menos um gân- gster. Assim, usando a palavra das prostitutas para fundamentar a prisão, mandou para o xadrez deze- nas de cafetões e arraias-miúdas, forçando-os a fa- lar o que sabiam. Quando já tinha ouvido o sufici- ente, Dewey foi atrás do peixão: Lucky Luciano. Foi um imenso baque para o submundo. Conde- nações por fraude fiscal e narcóticos eram uma coi- sa, mas a prostituição em Nova York era tão aceita no meio comercial e político que ninguém imagina- va que isso desse cadeia. A maioria dos garotos ti- nha crescido em puteiros e ganhado alguns dólares como olheiros e cafetões. Os gângsteres mais cau- telosos, como Frank Costello, o amigo de Luciano, não se envolveram com esse mercado negro — tal- vez porque fosse confuso e de baixo nível, mas até mesmo eles entenderam que agora ninguém mais

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estava a salvo. Dewey fez seu show de sempre no tribunal, descrevendo Luciano como um simplório, um imigrante da classe baixa que se pretendia ame- ricano. Então o júri considerou o réu culpado de três casos de prostituição forçada. Ele foi condena- do a uma pena que ia de 30 a 50 anos. O submundo começou a se retrair. Os que podi- am passar dinheiro para algum bem legal trataram de fazer isso com mais pressa que nos meses anteri- ores à Revogação da Lei Seca. Investimentos em Nevada, Miami e Cuba aumentaram. Os judeus do mercado negro sobretudo começaram a descobrir novas formas de usar seu capital, seus contatos e sua experiência. Harry conhecia Luciano. Ele tinha feito negó- cios com Frank Costello por 15 ou 16 anos, e Luci- ano tinha sido o parceiro de Costello desde seu pri- meiro dia no crime. Harry sentiu o drama. Quando o prefeito LaGuardia começou a reclamar das pu- blicações indecentes outra vez, no início de 1937, Harry deve ter entendido que isso seria mais do que apenas mais uma pedra no caminho. Era ano de eleição. LaGuardia, que tentava se reeleger, era o favorito e sabia que teria o apoio do eleitorado na guerra contra a corrupção. A Pep, a LaParee e o resto das smooshes e revistas de nus estavam pro- vavelmente condenadas. Seria preciso moderar a Spicy Detective e suas imitações, e ninguém sabia que impacto isso teria nas vendas. Até mesmo a

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Police Gazette e similares teriam que ficar mais limpas — nada de fotos de homens prestes a ser executados na capa. Era o que Jack Liebowitz vi- nha dizendo: precisavam ganhar dinheiro de um jeito mais seguro. Mas o que Harry e Jack podem não ter visto era que a solução de todos esses problemas estava bem debaixo de seu nariz: no final de 1935, o major Malcolm Wheeler-Nicholson apareceu na porta da Independent News procurando um distribuidor. Não se sabe com quem ele falou nem quem tomou a decisão, mas o que lhe disseram foi que a Inde- pendent iria publicá-lo e adiantar dinheiro da pro- dução sob as seguintes condições: mudar para o “tamanho padrão” dos pulps; fazer a revista colori- da; lançar uma outra revista em quadrinhos para ter

mais espaço nas prateleiras; e usar a Donny Press para imprimir as capas. Deve ter sido difícil aceitar. Primeiro, era óbvio que Donenfeld e sua turma queriam ditar os termos. Segundo, o major de cava- laria do Tennessee não gostava de judeus. Mas fez a única escolha possível. Então Harry Donenfeld e Jack Liebowitz entra- ram no ramo de revistas em quadrinhos. Não era algo de muita importância para eles em 1936 ou 1937. Mas o futuro estava tomando forma a partir de uma série de pequenas decisões do major, seus editores e dois jovens de Cleveland.

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AÇÃO

JERRY SIEGEL SEMPRE disse que o surgi- mento do Super-Homem nada mais foi que um sim- ples caso de inspiração e fé. E o mundo sempre se mostrou muito disposto a acreditar nele. Numa noite abafada de verão, sem conseguir pegar no sono, deitado em seu quarto, no sótão da casa da Kimberly Avenue, as idéias foram chegan- do. “Então pulei da cama e anotei tudo”, conta Jerry, “depois tornei a me deitar e passei mais umas duas horas pensando, me levantei de novo e anotei mais coisas. E assim foi, a noite inteira, de duas em duas horas.” Ao amanhecer, ele tinha escrito o equivalente a várias semanas de Superman. “Voei até a casa do Joe e mostrei tudo pra ele.” Joe ficou animado. “Nós simplesmente sentamos e manda- mos ver. Se não me engano, eu tinha levado uns sanduíches, e trabalhamos o dia inteiro.” Quando tornou a escurecer, a dupla estava com várias pági- nas prontas para mostrar. Em seguida começaram a mandar amostras das tiras para os editores. E os editores começaram a mandá-las de volta. No programa de rádio de Fred Allen, Jerry viria a declarar: “Levamos seis anos para vender Superman. Praticamente todos os edi- tores do país recusaram nosso trabalho.” Essa foi sua versão padrão durante muitos anos; havia inclu-

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sive uma série de frases que ele gostava de citar, ti- radas das cartas de recusa. “Um trabalho um tanto imaturo”, sentenciara a United Features Syndicate. “Prestem um pouco mais de atenção ao desenho”, dissera a Esquire Features. Até o dia em que, se- gundo a lenda, quase que por acaso, Superman en- controu um pouso amigo, fazendo sucesso logo de cara, e então todos aqueles editores que o haviam recusado perceberam a tolice que tinham cometido. Não haviam levado Jerry Siegel a sério, mas Jerry sabia o valor do que possuía e no fim mostrou a todo mundo que era bom de fato. E assim se tornou um herói para jovens sonhadores de todas as partes do mundo. Só que existem alguns problemas nessa história. “Seis anos para vender Superman” situaria aquela noite de insônia entre os anos de 1931 ou 1932. Mas acontece que os fãs descobriram o elo com Detective Dan, de 1933. A história de Jerry mudou um pouco. Alguém da Humor Publishing de Chica- go, disse ele, manifestou um vago interesse por al- gumas cenas de Superman. Jerry e Joe, naquela em- polgação ingênua deles, tomaram aquela possibili- dade de venda como negócio fechado e trataram de desenhar a história toda. No entanto, depois de vá- rios meses de silêncio de um lado e diversas cartas insistentes de outro, o editor acabou enviando os quadrinhos de volta com um bilhete em que expli- cava não ter planos de lançar nenhuma nova revista

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naquele momento. Os rapazes ficaram arrasados. “Sou um perfeccionista”, disse Joe, “e acho que o fato de os desenhos terem sido rejeitados me levou àquele impulso destrutivo. Simplesmente rasguei tudo.” Ele e Jerry não guardaram nenhuma lem- brança desse Superman, a não ser o fato de ele ser “um homem de ação” que ainda não se tornara um super-ser vestido a caráter. As únicas coisas que so- braram foram um quadrinho e a capa. A capa mos- tra um sujeito valentão, de camiseta sem mangas, erguendo um criminoso nas mãos enquanto enfren- ta o fogo da metralhadora de outro bandido. Já o quadrinho, de traços duros, mostra um herói de pei- to nu pondo fim a um sequestro, encimado por um slogan que diz: “Uma história de ficção científica em quadrinhos”. A essa altura Jerry já havia transportado para o verão de 1934 as lembranças daquela noite abafada em que as idéias não paravam de surgir, pouco mais de três anos antes de o Super-Homem ser en- fim vendido. Naquela noite, disse ele, foi que pen- sou no Super-Homem como nós o conhecemos hoje, e escreveu os roteiros que acabariam sendo publicados, assim como foi por volta dessa época que teve início a cadeia ininterrupta de recusas. Mas também nessa história existem alguns senões. E aquela correspondência de 1934 com alguém do escritório da Super-Detective Stories, um dos pulps de Harry Donenfeld, em que, ao que tudo indica, a

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pessoa manifestara interesse pelo Super-Homem? E o que dizer da promessa feita em 1935 pelo major Wheeler-Nicholson de conseguir um contrato da HQ com um syndicate? E por que aquela capa de 1933, supostamente a única coisa que restara do Superman original, que Joe destruíra, foi encontra- da, décadas mais tarde, na escrivaninha de Charlie Gaines, vendedor da Famous Funnies? Jerry disse que havia enviado amostras para a Famous Funni- es em 1934, mas que o pacote fora devolvido sem ter sido aberto. Então como foi que Charlie ficou com a capa? Quando juntamos as informações todas, o retra- to que surge de Jerry Siegel aos 20 anos de idade é bem mais complexo e muito mais interessante que a figura ingênua que ele queria parecer. Em junho de 1934, Jerry Siegel e Joe Shuster se formaram na Glenville High School. Os colegas ti- nham todos terminado os estudos um ano antes. Até mesmo alguns garotos mais jovens, como a campeã de popularidade Lois Amster, já tinham se formado em janeiro. Faltava um mês para Joe com- pletar 20 anos e quatro meses para Jerry. Dali em diante, teriam que pegar no batente, fazer parte da força de trabalho; os dias do jornalzinho Torch, da audiência cativa para os devaneios de ambos e do mimeógrafo de graça tinham ficado para trás. Mas eles continuavam morando na casa dos pais, traba- lhando em bicos de meio-período e falando da fama

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e fortuna a ser obtida com pulps e revistas em qua- drinhos. Na tentativa de ser mais comerciais, come- çaram a desenvolver uma tira baseada em O Gordo e o Magro e a produzir uma adaptação livre de P. G. Wodehouse chamada Reggie van Twerp. Foi en- tão que Jerry descobriu que tinha o dom de persua- são. As gravações que temos do jovem Siegel não sugerem nenhuma figura imponente. A voz é fina e meio atrofiada, a timidez parece sufocá-lo, o tom é monótono e é evidente a impaciência com que lida com as amenidades das conversas sociais. No en- tanto, quando fala de uma, idéia que o emociona, surge uma vibração repentina. Nós ouvimos a fé que ele tem naquilo que apresenta. Então não é di- fícil imaginá-lo convencendo o editor do Cleveland Shopping News, um jornal de anúncios, de que po- deria produzir um tablóide em quadrinhos capaz de aumentar a circulação e o número de anunciantes. E também não é difícil imaginar seu otimismo ao fechar o negócio. Em vez de apenas vender para um syndicate ou para uma editora, ele poderia ser tanto uma coisa como outra e vender sua Popular Comics para anunciantes de outras cidades, depois quem sabe para jornais de verdade, e então poderia passar de histórias mensais para histórias semanais, contratar outros escritores e desenhistas para traba- lhar em seu nome. Ele tinha a paixão, tinha as idéi- as e, através do fandom, tinha também os contatos.

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O trabalho que Siegel e Shuster fizeram para a Popular Comics mostra o quanto estavam apren- dendo. Gloria Glamour abre com um magnífico ce- nário cinematográfico no mais puro estilo art déco, que mostra o gosto de Joe pelo monumentalismo e pelo modernismo. De repente surge, em traços flui- dos, econômicos, um assessor de imprensa que in- terpela uma emblemática beldade impecavelmente desenhada — na intensidade desajeitada, descaída e

inábil do corpo do assessor de imprensa e na indife- rença lânguida da estrela, Joe demonstra habilidade para representar a linguagem corporal. O diálogo hollywoodiano de Siegel agora se mostra animado, compacto: “Qual é a piada?” “Esta carta de um fã

de Lone Peak, em Montana

posta de matrimônio!” “Matrimônio

Ei, isso daria o que falar na imprensa!” Ao final da história, de uma única página, Glo- ria arranjou seu próprio noivo e o pobre coitado de Montana se despede na estação de trem de um ban- do habilmente desenhado de gente que lhe deseja boa sorte. O estilo deriva em grande parte da cria- ção de Roy Crane e em certos momentos quase iguala a vivacidade e a capacidade de narração de Wash Tubbs. A história é uma adaptação de Made- moiselle Dinamite, filme lançado um ano antes, e, num meio nem sempre adequado para a sutileza dos personagens, Jerry e Joe conseguem captar um pouco do fogo de Lee Tracy e Jean Harlow. Já aí

uma respeitável pro-

casamento!

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eles demonstram o talento que tinham para levar às páginas dos quadrinhos material dos pulps e do ci- nema. Mas novamente Jerry e Joe se decepcionaram. O Shopping News deu para trás antes que o primei- ro tablóide em quadrinhos fosse impresso. Parte do material foi vendido para uma loja de departamen- tos da região, para ser distribuído durante o Natal — o primeiro trabalho pelo qual Siegel e Shuster receberam remuneração — mas a coisa parou por aí.

As páginas que sobreviveram do Popular Co- mics mostram que Jerry e Joe estavam tentando do- minar todo e qualquer gênero: gags de comédia pastelão, suspense sobrenatural, melodrama operá- rio, ficção científica, humor judaico e até mesmo uma retomada de Jerry the Journalist, dos tempos de colégio de Joe. Mas há uma criação que se faz notar pela ausência. Porque, mesmo enquanto pre- paravam o tablóide, Jerry já estava tentando tirar o Super-Homem de Joe e lançá-lo com outro artista. Quase todas as histórias do Super-Homem, du- rante décadas depois disso, se referiam “aos dois adolescentes de Cleveland” que o criaram. Essa é uma das partes mais encantadoras da lenda: dois garotos solitários que se encontraram e juntos reali- zaram um sonho. E é verdade — só que falta uma parte. Jerry Siegel era um jovem com um bom faro comercial e, quando viu que o Super-Homem não

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estava indo a lugar nenhum com Joe, saiu à procura de outro colaborador. Tony Strobl era um ano mais novo que Siegel e ainda cursava o Cleveland Art Institute; não era do tipo de se arriscar numa nova idéia e se tornou um dos melhores artistas fixos de Walt Disney depois de formado. Mel Graff era alguns anos mais velho e já trabalhava no departamento artístico da Nea, o syndicate que cuidava de Wash Tubbs e de Alley Oop (“Brucutu”). Mais tarde, Graff disse que tinha se interessado pela idéia de Jerry Siegel, mas que, antes do final de 1934, havia se mudado para Nova York para lançar uma nova tira para a Associated Press, uma fantasia infantil chamada Patsy. Na pri- mavera de 1935, Graff apresentou ao público o amigo de Patsy, o Mágico Fantasma, um herói de capa e malha justa no corpo que usava mágica para resolver as coisas. O historiador de quadrinhos Will Murray chegou a se perguntar se Graff teria tirado essa idéia das conversas que manteve com Siegel ou se Siegel tirara de Graff a idéia da capa e da ma- lha colante. Depois de ter perdido Graff para Nova York e para o sucesso, Siegel apelou para Russell Keaton, o artista anônimo das páginas dominicais de Buck Rogers. O estilo alegre e fluído de Keaton não era muito diferente do de Joe Shuster, mas ele tinha um diploma da Chicago Academy of Fine Art e era um profissional respeitado, com uma possibilidade real

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de lançar sua própria tira através de um dos princi- pais syndicates do país. Ele e Jerry trocaram idéias para as tiras do Super-Homem por alguns meses. As esperanças de Jerry cresceram, como sempre acontecia, e quando Keaton acabou decidindo não se arriscar com um escritor tão jovem e inexperien-

te Siegel mandou-lhe uma carta cheia de mágoa. Se

Keaton desse para trás naquele momento, escreveu,

ele ficaria “empacado com um amador”. No início de 1935, Jerry e Joe estavam de volta ao ponto de partida. E foi então que a cavalaria baixou em Cleve- land. O New Fun do major Malcolm Wheeler- Nicholson chegou às bancas da cidade e Jerry Sie- gel prontamente lhe mandou uma lista de idéias para novas histórias em quadrinhos. O major enco-

mendou duas delas e os rapazes puseram as mãos na massa mais do que depressa, produzindo Henri Duval of France, Famed Soldier of Fortune e Dr. Occult, the Ghost Detective. De novo, eles se inspi- raram mais em Hollywood do que em outros qua- drinhos. Henri Duval é uma aventura de capa-e- espada com despropósitos inspirados diretamente por Douglas Fairbanks: Siegel faz de seu herói um dândi que puxa da espada para qualquer um que in- sulte suas roupas. O Dr. Occult (“Dr. Oculto”) é ti- rado do doutor Van Helsing dos filmes do Drácula.

O traço de Joe consegue um belo resultado quando

tenta captar a atmosfera dos filmes de horror, mas

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os personagens ficam duros, sem leveza, quando ele começa a ficar sério demais; a única figura que de fato demonstra ter vida é a de um vampiro que sem querer acabou saindo cômico. O major gostou do que viu. Comprou uma pági- na de cada, pagando 6 dólares a peça, para lançar no seu sexto número. E, no final do verão de 1935, os quadrinhos foram impressos. Ninguém tirou o corpo fora; nada deu para trás. As histórias de Sie- gel e Shuster foram publicadas. Eles continuaram pobres. Numa de suas cartas, o major pede descul- pas a Shuster por ter perdido um material “na con- fusão aqui do escritório, porque parecia ser apenas uma folha de papel de embrulho”. E os dois conti- nuariam pobres ainda por um bom tempo. Os dese- nhistas de Nova York davam plantão no escritório do major para conseguir receber um cheque dele; sem dúvida boa parte do encanto de Siegel e Shus- ter era estar ambos a mais de mil quilômetros de distância. Seja como for, antes de completar 21 anos, já tinham alguns frutos de seus sonhos doidos para mostrar. O major havia encomendado novas histórias, e eles corresponderam. Toda frenética energia que Jerry dedicara a alimentar sonhos grandiosos e a in- ventar macetes autopromocionais foi canalizada para a produção de quadrinhos. Joe desenhava sem parar, numa concentração incansável, sentado horas seguidas numa cadeira dura de cozinha, usando a

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tábua de cortar pão da mãe como apoio para dese- nhar, os olhos fracos grudados na página, comendo os sanduíches que Jerry ou a mãe levavam para ele. Parece que os dois faziam o trabalho conjunto sem- pre na casa de Joe, ainda que fosse menor e tivesse mais gente; a mãe de Jerry nunca aparece nas me- mórias deles. Talvez a presença controladora de Sa- rah Siegel fosse demais para os garotos. Às vezes o irmão de Joe, Frank, ajudava e às vezes Jerry cola- borava na hora de fazer as letras e finalizar os dese- nhos a lápis. Joe continuou fazendo entregas para a mercearia, e Jerry, para uma gráfica, enquanto es- peravam por aqueles primeiros cheques do major; as noites porém eram dedicadas aos quadrinhos. E entre os projetos que eles enviaram para aprovação estava Superman.

NÃO É POSSÍVEL saber qual era a forma do herói naquela época. Temos apenas uma carta do major para Jerry Siegel, de outubro de 1935: “A tira do Super-Homem está aguardando um pedido

iminente de um syndicate nacional

Uma enco-

menda para um tablóide com 16 páginas, em quatro cores, que poderia incluir o Super-Homem lá pelo

Acho que o Super-Homem tem óti-

início do ano

mas chances.” E a essa altura nós tropeçamos em mais uma pe- drinha no caminho da lenda de Siegel e Shuster. Eles supostamente acreditaram que o Super-

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Homem era uma propriedade valiosa demais para ficar à espera de um pedido “iminente” que seria feito ao major e, por esse motivo, recusaram-no. Mas tudo o que Jerry e Joe tinham feito até aquele momento mostra a disposição mútua de mergulhar de cabeça onde quer que houvesse o menor sinal de

incentivo, e nada poderia tê-los deixado mais ani- mados do que o interesse de um syndicate disposto

a negociar quadrinhos coloridos. E, de fato, a única

prova que nos resta sugere que eles levaram muito

a sério esse pedido iminente. Trata-se de uma folha de papel em que Joe ha- via desenhado uma mulher num vestido de noite, possivelmente em alguma aula de desenho. Pelo visto foi a primeira coisa que achou, ou era tudo o que tinha, na hora em que ele e Jerry começaram a pensar em slogans para promover o Super-Homem como “a tira de maior sucesso de 1936”. Eles dizi- am que era “sem dúvida a tira que CONQUISTA- RIA A NAÇÃO! A Supertira! A Melhor de Todos os Tempos! O maior acontecimento desde o surgi- mento das histórias em quadrinhos! A melhor tira de super-herói de todos os tempos!” Eles prometi- am “Velocidade — Ação — Risadas — Emoções — Surpresas. A mais inusitada de todas as tiras de humor e aventura jamais criadas! Uma nova perso- nalidade saúda o mundo! Você vai rir! Você vai se admirar! E preciso ver para crer!” E, em palavras que são provavelmente de Jerry, eles se tornaram

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os heróis de suas próprias imaginações: “Muito de vez em quando surge uma tira em quadrinhos que se mistura à corrente sanguínea de uma nação ape- nas pelo vigor e potência da narrativa.” Entre os slogans, há desenhos de caixas de cere- ais matinais e biscoitos integrais no formato do Su- per-Homem. Siegel sabia como promover um pro- duto e também sabia que o dinheiro grosso, para um syndicate, estava na concessão de licenças. O Super-Homem que Shuster desenhou é rústico, mas parece com o herói que conhecemos hoje. Ele usa uma capa e uma malha colante com um símbolo tri- angular no peito, embora ainda não haja nenhum grande “S”. O estilo é extravagante. O herói exibe um imenso sorriso. E óbvio que Siegel e Shuster ti- nham distanciado bastante seu personagem daquela combinação de Doc Savage e Gladiator que pode- mos inferir do pouco que nos restou dos desenhos de 1933. Esse último se parece com o Super- Homem por quem os Estados Unidos iriam se apai- xonar no início dos anos 1940. O Super-Homem era um herói em desenvolvi- mento, e poderia continuar assim para sempre. Por mais simples que possa parecer por fora, ele conti- nha uma enorme miscelânea de inspirações contra- ditórias, de Philip Wylie a Douglas Fairbanks, pas- sando por Edgar Rice Burroughs e Bernarr Mac- Fadden. Nos primórdios, diria mais tarde Jerry Sie- gel, “os desenhos animados do Popeye foram uma

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das influências mais fortes”. Esses desenhos anima- dos eram crias de uma dupla de imigrantes judeus casca-grossa de Nova York, Max e Dave Fleischer, e nunca houve violência animada mais frenética e fantástica. “A super-força e a ação”, disse Jerry, “eram absolutamente sensacionais. Pensei comigo,

isso é de fato muito bom, mas

fosse um herói de aventura?” E assim foi que a “tira de humor e aventura” que iria conquistar a na- ção fundiu elementos das criaturas ficcionais mais pretensiosamente sérias com o mais cômico paste- lão. E nessa fusão Jerry e Joe injetaram também um pouco de comédia de época. Em 1934, Leslie Howard e Merle Oberon protagonizaram uma adap- tação para o cinema de O Pimpinela Escarlate, um dos romances favoritos de Jerry sobre o tema da dupla identidade. A submissão abjeta de Howard ao desdém de Oberon (tudo para preservar o segredo de sua identidade como Pimpinela, claro) acabou sendo o modelo perfeito para o confuso relaciona- mento de Clark Kent com Lois Lane — e a beleza altiva de Merle Oberon parece de fato presente nos primeiros desenhos que Joe fez da jovem repórter. Ao tentar reunir suas muitas paixões numa úni- ca, Jerry e Joe acabaram criando um personagem que transcendia e redefinia o gênero: o Super- Homem era ao mesmo tempo um símbolo construí- do com as cores primárias da mais pura fantasia e um desenho elaborado a partir do diálogo com qua-

e se o personagem

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se todas as tendências do entretenimento de massa. Ambos sabiam que tinham algo de muito especial em mãos e, no final de 1935, estavam navegando numa onda de otimismo sustentada pela “nova per- sonalidade” que se preparava para saudar e enfren- tar o mundo. E que também ajudou os dois a saudar

e encarar o mundo de uma nova maneira. Joe resol-

veu contratar uma modelo para criar Lois Lane. Até

certo ponto, por razões profissionais. Os ilustrado- res de revistas gostavam de usar modelos de carne

e osso e os diretores de arte se orgulhavam da capa-

cidade que tinham de detectar os impostores que surrupiavam suas mulheres de fotos e outras ilus- trações. Mas havia também motivos pessoais nessa decisão. As inibições, sobre as quais Jerry e Joe fa- lavam tão amiúde, continuaram depois do colégio; na verdade, terminado o contato diário com suas colegas de classe, a distância entre eles e o sexo oposto só fez crescer. No decorrer das décadas, vá- rias mulheres de Cleveland vieram dizer que havi- am conhecido ou Joe ou Jerry, ou mesmo ambos, “naqueles tempos”, mas todas falavam de encon- tros apenas depois de