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PARTE I

A VIRTUDE DA FÉ

O que é a fé? A virtude teologal da fé


caracteriza-se por
uma extrema complexidade. Nas reflexões aqui
desenvolvi-
das não se apresenta a f é à luz da teologia
dogmática, mas
segundo a concepção da vida interior. A fé
neotestamentaria
constitui uma resposta do homem à revelação de
Deus em
Jesus Cristo. E uma participação na vida de Deus, e
uma
experiência da vida divina em nós, que nos permite
vermos
a nós próprios e à realidade que nos rodeia, como
com os
olhos do Senhor. E a adesão à Pessoa de Cristo, nosso
Mestre,
nosso Senhor e Amigo que nos permite apoiarmo-nos
nEle,
Rochedo inabalável da nossa salvação, abandonando-
nos ao
Seu infinito poder e ao Seu incomensurável amor.
Face à
fraqueza humana, a fé torna-se constante recurso à
inesgo-
tável Misericórdia divina e leva a esperar tudo de
Deus. (cf.
G. THILS, Sainteté Chrétiene, 359)

CAPÍTULO 1
CRER É PARTICIPAR
NA VIDA DIVINA

São Tomás de Aquino diz que a fé nos aproxima do


conhecimento
de Deus. Com efeito, ao participarmos na vida de Deus,
começamos
a ver e apreciar tudo, como se o fizéssemos com os Seus
olhos — omnia
quasi óculo Dei intuemur (in Boeth. de Trinitate q.3,a.l).

Semelhante participação na vida divina, por meio da


fé, transfor-
ma-nos em homens novos, permite-nos entender a realidade
de uma
maneira renovada, proporcionando-nos uma nova visão de
Deus e
da realidade terrena que nos rodeia. Nesta realidade
temporal come-
çamos a tomar conhecimento da atuação da Causa Primeira:
Deus.
Descortinamos a Sua Presença e a Sua ação, tanto em nós,
quanto
no universo da natureza e na história. Damo-nos conta de
que Ele é
o Autor, o Criador de tudo, e de que aquilo que conhecemos
apenas
humanamente e de modo profano não é toda a realidade,
mas apenas
uma visão puramente exterior — a percepção das causas
segundas das
quais Deus Se serve.

A fé é uma virtude que torna possível o contato com


Deus, consti-
tuindo, assim, o fundamento da vida sobrenatural; e, visto
que se situa
na base de toda a atividade sobrenatural, tudo se realiza por
meio dela.
A atividade da vida sobrenatural está, conseqüentemente,
determinada
pelos aspectos positivos e pelas deficiências da nossa fé. As
dificulda-
des na vida sobrenatural derivam sempre de uma fraqueza
da nossa
fé. Mas esta é a virtude fundamental por nos oferecer a
possibilida-
de de participarmos na vida divina: uma participação no
pensamento de Deus, que é, por assim dizer, uma espécie
de razão sobrenatural
consentida nas faculdades naturais da alma. Assim, a fé
torna-nos ca-
pazes de pensarmos como Deus, tanto no que diz respeito à
nossa pes-
soa como a tudo aquilo com que contatamos. Crer significa,
portanto,
sintonizar e identificar o nosso pensamento com o de Deus.

A diferença entre o conhecimento natural e o


conhecimento proce-
dente da fé náo consiste numa mera diferença de grau desse
conheci-
mento, mas sim de natureza. A fé leva à união com o
pensamento de
Deus, à participação interior nessa luz em que o próprio
Deus conhece
a Si mesmo. Nesse sentido, conduz à contemplação e é uma
introdução
ao futuro conhecimento de Deus na eternidade.

Uma vez que é pela fé que tem início a nossa vida em


Deus e na vida
de Jesus Cristo, por essa mesma fé Ele gera em nós a Sua
própria vida.
O objetivo final da nossa fé é o de conformarmos os nossos
pensamen-
tos com os de Jesus Cristo e de Lhe permitir, a Ele que pela
fé habita
em nós, servir-Se de nós, pensar em nós e em nós viver.

Graças à fé pode se produzir uma total transformação


da nossa
maneira de ver, de pensar, de sentir e de viver o que quer
que seja. A
fé muda a nossa mentalidade, impele-nos a colocarmos Deus
sempre
em primeiro lugar, leva-nos a orientar para Ele toda a nossa
vida e a
interpretar o mundo à luz divina. A partir daí todos os nossos
juízos,
apreciações, desejos e expectativas serão iluminados por
essa luz e desse
modo se concretiza aquela comunhão de fé que só há de
alcançar a sua
plenitude no amor.

O mundo criado à nossa volta é como que a expressão


de uma voz
que nos fala. Se a nossa fé é fraca, essa voz produz em nós a
dispersão,
afasta-nos de Deus e leva-nos a centrarmo-nos em nós
próprios. Mas,
quando a fé cresce, dá-se o processo inverso: o mundo
exterior começa
a falar-nos de Deus, a atrair-nos para Ele, torna-se sinal da
Sua presen-
ça. Além disso, ajuda-nos a entrar em contato com Ele e
transforma-se
num lugar de encontro com Deus.

É a fé que lhe torna capaz de ultrapassar as


aparências, de distin-
guir a causa primeira das causas segundas e de ver que
aquilo que se
passa em seu redor, não é fruto do poder dos homens. A fé
permite que você descubra os sinais de Deus na Criação,
oferece a possibilidade de
acolher os acontecimentos como expressão da vontade de
Deus e de
vê-los como uma passagem de Deus na sua vida.

O reconhecimento da Presença que


nos ama

Cada momento da nossa vida está impregnado da


divina Presença,
que nos ama e nos cumula dos Seus dons. Viver em fé
significa sa-
ber reconhecer essa amorosa Presença sempre
gratificante. Graças à fé,
Cristo torna-Se, pouco a pouco, a Luz que inteiramente
ilumina a vida
do homem, que ilumina o mundo. Assim, Ele torna-se
Presença viva
e atuante na vida dos Seus discípulos e cada momento da
vida é por-
tador da Sua Presença. O tempo mesmo é a Presença
escrita com "P"
maiúsculo; é a Presença de Cristo na nossa vida, é a
Presença pessoal de
Deus, que Se revela como Alguém que espera algo de
nós.

Deus Se manifesta a nós através da Sua vontade.


Mas, que vontade?
Sempre a do nosso bem, pois Deus é Amor. Cada
instante da sua
vida é um momento de encontro com esta Presença
que lhe ama. Alguém disse que o tempo é como o
sacramento do encontro do ho-
mem com Deus. Ora, assim compreendido, cada instante
é um talento
cristão já que há nele um chamamento dessa Presença.
Deus dá a Sua
graça em todos os momentos, sejam eles fáceis ou
difíceis. São Paulo
diz que nós vivemos em Deus, e n'Ele nos movemos e
somos (At 17,28).
E, portanto, d'Ele que recebemos, não só o dom da
existência, mas
também o da respiração, do alimento, da amizade — a
graça de cada
momento da vida.

A observação de Santa Teresinha do Menino Jesus,


ao afirmar que
"tudo é graça", significa que tudo o que possa suceder na
sua vida está
ligado a uma determinada forma de graça. Deus vem ao
seu encontro
sob a forma de um dom, na Sua graça que você interpela
e, neste senti-
do, "tudo é graça". Ele quer que tudo resulte para você
num "capital" de
bem e até do próprio mal procura extrair algo de bom.
Evidentemente
que o mal não pode ser uma graça, mas na Sua
onipotência e infinita
misericórdia, Deus pode extrair o bem dele. As
conseqüências do mal
podem mesmo dar, como fruto, uma boa oportunidade de
se alcançar a conversão. Então, desse modo, "tudo é
graça" e tudo é um talento,
porque o Senhor, sempre e em toda a parte, concede uma
oportunidade
a você. Como é importante que você acredite nessa
Presença constante
que Se manifesta dos mais diversos modos!

O momento presente, qualquer que seja ele, é


sempre portador do
amor, como disse o Cardeal Stefan Wyszynski. A graça é
uma expres-
são do amor, e, por isso, qualquer momento está ligado
ao amor de
Deus, porque está unido à Sua graça. O pecado em si
nunca será uma
graça, mas o momento em que foi cometido está cheio da
graça de
Deus. Mesmo quando se trata de um pecado grave, Cristo
está junto
de você e o ama. Se você lembrasse e acreditasse de
verdade, que está
constantemente imerso no amor misericordioso de Deus,
que nunca o
abandona, certamente não cairia mais.

Tudo o que lhe sucede está ligado ao amor de Deus


por você, e ao
Seu desejo de cumulá-lo de todo o bem. Ele está bem
presente na sua
vida, independentemente do que você faça. O tempo é o
sacramento
do seu encontro com Deus e com a Sua Misericórdia - com
o Seu
amor por você. E o Seu anseio é que tudo possa servir
para o seu bem
e que cada uma das suas faltas se converta numa "feliz
culpa". Se, des-
ta maneira, considerasse todos os momentos da sua vida,
certamente
nasceria em você uma prece espontânea que tenderia a
tornar-se ora-
ção contínua, pois o Senhor está sempre ao seu lado e
nunca deixa de
amá-lo. Cada momento da sua vida está impregnado do
amor dessa
Presença que constantemente o envolve.

Os sinais de Deus no mundo

A fé nos permite reconhecer em toda a parte os


vestígios da ação
divina, compreendendo que Deus está presente em nós,
tanto na vida
espiritual, como na mental e na física. Se você souber ver
Deus em
tudo o que o rodeia, a sua oração se converterá em uma
prece de fé;
não será apenas uma oração feita de palavras, mas
também de atenção,
de louvor pelo universo: uma oração de ação de graças
por tudo aquilo
com que Deus lhe cumula.
É pela virtude da fé que descobrimos serem apenas
aparente, os protagonistas da História - conforme crêem
os homens -, pois na realida-
de o protagonista é Deus. A presença de Deus na História
diz respeito
tanto aos acontecimentos políticos, às questões sociais e
econômicas,
como aos assuntos familiares e profissionais. Ele está
presente em tudo
e tudo d'Ele depende. Nas Suas mãos encontram-se, não
só os destinos
de cada um de nós, mas também os das nações e do
mundo. Fazendo-
nos conhecer tudo isso, a fé faz nascer em nós a paz
interior, paz essa
que provém da firme certeza de que Aquele que é Poder e
Amor infi-
nitos, Aquele que tudo mantém nas Suas misericordiosas
mãos, tudo
conduzirá até ao fim na Sua infinita sabedoria e no Seu
infinito amor.
A fé nos dá segurança, paz e convicção de que estamos
constantemente
envolvidos pelo amor de Deus. A fé constitui uma
diferente visão do
mundo, um outro modo de ver, principalmente, aquilo que
é difícil.
E é a fé que nos permite reconhecer Deus nos fenômenos
da natureza,
nos quais constantemente podemos descobrir sinais da
Sua ação, do
Seu cuidado conosco e com o mundo que nos rodeia.

Um homem de grande fé, capaz de reconhecer em


toda a parte a
presença de Deus, foi São Francisco de Assis. Que
extraordinária fé
irradia da sua atitude quando reza assim: "Louvado sejas,
Senhor, pela
nossa irmã lua e pelas nossas irmãs estrelas. Louvado
sejas, Senhor,
pelo nosso irmão vento e pelo nosso irmão ar".

Alguma vez já aconteceu de, passando por um


campo ou por uma
floresta, sentindo-se tocado pelo vento, você reconhecer
nele uma carí-
cia de Deus? Se sim, há em você algo dessa fé de São
Francisco de Assis
que em tudo via a ação de Deus.

"Louvado sejas, Senhor, pelo nosso irmão vento;


louvado sejas, Tu,
que estás nesse vento. Louvado sejas pelo ar refrescante
que podemos
respirar, pois Tu és o nosso alento e o nosso ar". Tudo
vem do Senhor:
o céu límpido, o céu nebuloso e o mau tempo também.
Tudo Lhe
pertence. Essa viva fé permite-nos descobrir as
maravilhas divinas, seja
no mundo que nos rodeia, seja na nossa vida cotidiana.
Mesmo o mau
tempo e a chuva são maravilhas que o Senhor realiza para
nós. Na
chuva que, sem dúvida, em mais de uma ocasião
encharcou-lhe até os ossos, há também um dedo do
Senhor e, se der conta disso, essa será a
sua oração de fé.

"Louvado seja, Senhor, pela nossa irmã água". Pode


se experimen-
tar a presença do Senhor sobretudo em dias de grande
calor, quando
se mata a sede com água fresca. E verdade que esta é
uma maneira de
olhar o mundo com a qual não estamos habituados,
contudo, nestas
situações comuns do dia-a-dia, podemos sentir a ação de
Deus que nos
refresca e umidece os nossos lábios ardentes e
ressequidos. Ele está pre-
sente nessa água e a consciência dessa Presença é já uma
atitude de fé.
Por isso São Francisco nos recorda que "a nossa irmã
água" é símbolo
da presença e da ação de Deus.

Os talentos

Deus espera que nós procuremos ver todas as


situações que vivemos e, em particular as difíceis, com os
olhos da fé. Na parábola dos talentos, Jesus diz para que
não nos fechemos ao conhecimento de Deus
procedente da fé e adverte-nos contra a preguiça com
que usamos todos
os dons que Ele constantemente nos concede. Deixando a
um dos seus
servidores dez talentos, ao segundo cinco e ao terceiro
um, o patrão
confiou a eles responsabilidades e ainda lhes deu uma
oportunidade
para trabalhar.

A palavra talento, que nos tempos de Cristo


eqüivalia a um cer-
to valor monetário, é utilizada hoje em dia como um certo
"valor"
intelectual; diz-se, por exemplo, de alguém que é um
músico de ta-
lento, ou um matemático talentoso, etc. O sentido da
parábola dos
talentos é, no entanto, muito mais profundo. O
pensamento bíblico
comporta, por assim dizer, uma virada de cento e oitenta
graus no
nosso pensamento vulgar, puramente humano. É o que
acontece na
parábola dos talentos.

O talento é um dom, uma matéria-prima, mas ao


mesmo tempo,
uma oportunidade. Ao entregar-lhe um determinado
talento. Cristo
dá-lhe mostras de confiança, esperando que este
venha render. Se Ele
lhe deu determinadas capacidades, não é indiferente a Ele
o uso que faço delas. Se, no entanto, não as recebesse,
isso também seria um ta-
lento. Talento não é apenas algo que recebemos de
Deus, mas também
pode ser a carência de alguma coisa. A boa saúde, por
exemplo, é um
talento mas à luz da fé, a falta dela também o é. Em
ambas as situações
Jesus lhe faz a mesma pergunta: "Que faz com esse
talento?". Com efei-
to, tanto podemos desperdiçar a saúde, como - e mais
ainda - a falta
dela. Porém, tudo é dom, e todo talento também é
dom. Deus está lhe
concedendo dons constantemente. Se, por exemplo, você
crê que não é
capaz de rezar, isso também é um talento, ainda que
julgue se tratar de
uma infelicidade. O que conta é o modo como enfrenta as
dificuldades
que acompanham a sua oração. É bem possível que tenha
enterrado
esse talento dizendo consigo: "Pois bem, já que é assim,
desisto de rezar
mais". No entanto, bem que se poderia extrair disso o
seguinte: a in-
capacidade de orar deveria aumentar em você a fome de
Deus e, por
conseguinte, constituir para você um meio de
santificação.

O mesmo pode suceder quando houver problemas


em casa, quando
existir qualquer conflito familiar: são tantos outros
talentos, oportuni-
dades que o Senhor lhe oferece. Que faz com eles? Se
você desanima, se
desencoraja e cruza os braços, significa que os enterra. O
homem de fé
não pode deixar de notar o sentido mais profundo das
suas próprias pro-
vações e, de resto, a própria procura do profundo sentido
dessas provas é
por si mesma uma forma de render-se àquele talento.

Se você já experimentou um sentimento de horror,


por exemplo,
ao temer o sofrimento ou a morte, tal situação também é
uma oportu-
nidade que lhe foi oferecida. Santa Teresinha do Menino
Jesus sentia
uma verdadeira repulsa pelas aranhas. Ela narrou o
quanto teve de se
dominar uma vez para conseguir limpar as aranhas no vão
da escada
(cf. "O Caderno Amarelo", da Madre Inês, 13. VIL 1897). E
isso foi
algo que a ajudou muito em seu caminho ao Senhor:
talento confiado
nas mãos dela que ela soube valorizar.

Se determinadas situações lhe provocam uma certa


tensão, isso quer
dizer que nelas está escondido, como que encoberto pelas
cinzas, um
"diamante": o seu talento. O que você poderá fazer com
ele? Como o
utilizará? Na realidade, tudo deve servir para a sua
santificação e, nesse
sentido, tudo é graça. Mesmo o sofrimento que lhe
esmaga, ou as várias circunstâncias adversas - eis todo
um conjunto de talentos. No entanto, muitas vezes
estamos como cegos, crianças pequenas a quem escapa a
compreensão de inúmeras coisas. Somente um dia,
quando viermos à presença de Deus, veremos e
compreenderemos tudo. Conheceremos,
então, todo esse oceano de dons em que estávamos
imersos.

Todos os talentos são preciosos, embora uns o


sejam menos e ou-
tros mais. Se alguma coisa lhe saiu bem, se obteve bom
resultado, sem
dúvida você fez uso de um talento, todavia se apenas lhe
surgem con-
trariedades, eis um talento ainda mais valioso.

Os próprios insucessos constituem os tesouros


mais inestimáveis que
lhe são oferecidos na sua vida. Deus há de perguntar-
lhe um dia, como
o senhor da passagem bíblica, que ao regressar de uma
viagem pediu
contas aos seus servidores: "Como utilizaste aqueles
insucessos da tua
vida que te dei como oportunidades, como talentos? Tens
sabido tirar
proveito como talentos, dessas ocasiões, que são por
vezes tantas?".

A parábola dos talentos constitui um chamado


bíblico à conversão.
Você deve começar a olhar a sua vida de modo diferente,
isto é, deve
vê-la com os olhos da fé. Só então perceberá que Deus lhe
cumula
continuamente de dons; apenas nessa altura será capaz
de compreender
que toda a sua vida é um conjunto de oportunidades
escondidas, em
ordem a uma contínua transformação interior.
Compreenderá, pois,
que tudo é graça. Ao conceder-lhe graças difíceis, é como
se Deus lhe
forçasse a acolher o seu dom, mas você, pelo contrário,
resiste não que-
rendo aceitá-lo. No entanto, as graças difíceis são os
mais preciosos
talentos da sua vida, sendo por vezes abundantes já que
é vontade de
Deus que os faça render.

Fé é participação na visão de Deus. Ora, Deus vê


a sua vida de modo
totalmente diferente. Se tiver fé, é como se Jesus tivesse
facultado os
Seus olhos, como se observasse cada dia de toda a sua
vida com o Seu
olhar. Só assim você será capaz de perceber as
ininterruptas oportuni-
dades de conversão e de santificação; só então começará
a compreender
que o sofrimento, à luz da fé, é cruz, é algo que, se quiser
aceitar, você
se transformará interiormente. Quando nas suas difíceis
provas reco-
nhecer a cruz e, por isso mesmo, vir nelas uma
oportunidade para a sua
transformação, então essas provações hão de converter-
se realmente em dons para você. Se percebesse esses
incontáveis talentos que Deus, sem cessar, lhe concede,
você nunca ficaria triste. E, então, também
talentos como, por exemplo, a falta de saúde, as situações
de conflito e
os insucessos, poderiam suscitar no seu coração a alegria
de receber de
Deus algo tão precioso. Ele manifesta, desse modo, uma
extraordinária
confiança em você. Confia, de fato, que não enterrará,
nem rejeitará
os Seus dons. Deus conta com a sua fé, pois somente à
luz da fé será
possível a você identificar os talentos que Ele lhe oferece.

É um talento tudo aquilo que até agora aprendeu e


fixou na
mente, mas é também um talento a sua fraca memória e
o fato de
esquecer de tantas coisas. Tudo comporta uma graça e,
nesse senti-
do, tudo é graça.

Somente aquele que crê, sabe ser agradecido


por tudo. Reconhecendo
que todas as coisas são talentos que se deve pôr a render
para o bem,
o seu rosto ficará irradiante de alegria. Esta reflexão sobre
os talentos
entrelaça-se diretamente com os ensinamentos de São
Paulo e retoma
a tese de Santo Agostinho, que disse: "Para os que amam
Deus, tudo
se converte em bem, mesmo o pecado." Assim sendo, até
o pecado, ou
seja, uma grande queda, se bem que seja uma ferida
infligida a Jesus,
pode também chegar a ser ocasião, onde se oculte
igualmente algum
talento donde seja possível tirar proveito. Bastará que
creia e que pro-
gressivamente se converta àquela fé que permite a você
ver com os olhos
de Jesus. Ele, olhando para a sua vida, porventura cheia
de insucessos,
de preocupações, de conflitos, de planos falhados, de
dificuldades quer
na vida exterior quer na interior, jamais Se entristece. O
Seu olhar é de
alegria porque espera que tudo isso venha a produzir
frutos, que você
possa tirar proveito; e que fique cheio de alegria e de
reconhecimento
por tudo o que Ele lhe dá. "Hoje foram muitos os
padecimentos," disse
Madre Inês à Santa Teresinha do Menino Jesus quando
esta já estava
gravemente doente. "Sim", respondeu ela, "mas visto que
os amo...
Amo tudo o que o Bom Deus me dá." (cf. "O Caderno
Amarelo" da
Madre Inês, 14.VIII.897)
Do mesmo modo, toda a vida de Santa Bernadette é
testemunho
da sua gratidão a Deus por todos os dons recebidos.
Marcelle Auclair tomou a liberdade de coligir os seus
pensamentos numa espécie
de "testamento":

"Pela extrema pobreza em que viveram o paizinho


e a mãezinha,
pelo pão da amargura e da fadiga, pela ruína do
moinho, pelas
ovelhas sarnosas... Obrigada, meu Deus!
Pela boca a mais para alimentar que eu já era,
pelas crianças a que se acudiu e pelas ovelhas
guardadas, obrigada!
Dou-Te graças, meu Deus, pelo procurador, pelo
comissário, pelos policiais e pelas duras palavras do
padre Peyramale!
Não saberei agradecer-te senão no Paraíso,
Virgem Maria, pelos dias em que vieste e pelos
outros em que não vieste!
Pela bofetada da Sra. Pailhasson, pela troça e
pelas ofensas, por aqueles que me tinham por louca
ou mentirosa e pelos que me julgavam ambiciosa...
Obrigada, minha Mãe!
Pela ortografia que nunca cheguei a saber, pela
má memória que sempre tive, pela minha ignorância
e pela minha patetice,obrigada!
Agradeço-te, porque se tivesse existido na terra
uma rapariga mais
ignorante e mais parva, Tu a terias escolhido...
Pela minha mãe, que morreu longe de mim, pela
dor que senti
quando o meu pai, em vez de abraçar a sua pequena
Bernadette, me chamou "Irmã Maria Bernarda",
obrigada Jesus!
Agradeço-te por teres enchido de amargura este
coração demasia-
do sensível!
Pela Madre Josefina que disse que não sirvo para
nada, obrigada!
Pelo desprezo da Madre Mestra, pela sua dura voz,
severidade e ironia e pelo pão da humilhação,
obrigada!
Graças por ter sido de tal maneira que a Madre
Maria Teresa tenha
podido dizer de mim: "Não há nenhuma como
tu!".Obrigada por ter sido tão privilegiada na censura
dos meus defeitos que as outras irmãs tenham
podido dizer: "Que sorte eu não ser Bernadette!".
Obrigada por ter sido Bernardette, aquela que
ameaçavam de pri-
são, por ter te visto, Virgem Santíssima..., por ter
sido essa Ber-
nadette tão insignificante e vulgar que, ao me verem,
as pessoas
me diziam: "E ela é isto!", a Bernadette que as
pessoas olhavam
como a um animal raro!
Por este pobre corpo de meter dó, por esta
doença que queima como fogo, pela minha carne
apodrecida, meus ossos cariados, suores e febre,
pelas minhas caladas ou gritantes dores, obrigada,
meu Deus!
E, por esta alma que me deste, pelo deserto
das securas interiores, pelas Tuas noites e pelos Teus
fulgores, Teus silêncios e Teus raios, por tudo, por Ti
ausente ou presente, obrigada, Jesus!"
(cf. M. AUCLAIR, Bernadette, Ed. Bloud et Gay,
1957)
CAPÍTULO 2

CRER É LIGARMO-
NOS A CRISTO

A fé, enquanto atitude de quem crê, não é apenas


uma participação
na vida divina, mas também uma ligação existencial à
Pessoa de Cristo,
único Senhor e único amor. O que requer, por parte do
homem, uma
decisão de escolha consciente e a orientação da sua
vontade para Cristo,
como fim último e valor supremo.

A adesão a Cristo é a nossa resposta ao Seu olhar


cheio de amor e ao Seu chamamento. Trata-se de uma
resposta que leva sempre consigo a
marca da aventura, e também a do risco. Jesus quer que
você se ligue a Ele sem pôr questões acerca dos
pormenores e das conseqüências da sua
decisão, sem perguntas sobre o futuro. Ele quer que você,
como Maria,
responda "sim", manifestando-Lhe, desse modo, um total
abandono.
O essencial do abandono de si próprio e da adesão a Jesus
Cristo, reside
justamente nesse nada saber, que é treva e que, por isso
mesmo, tem
necessidade da luz da fé. A adesão a Cristo constitui as
primícias do
amor que há de encontrar a sua realização na união da
nossa vontade à
Sua vontade. Desse modo se inicia a comunhão pessoal
com Deus.

A nossa adesão a Cristo só será possível quando se


der uma ruptura
com tudo aquilo que exerce domínio sobre nós. Também
os Apóstolos,
para seguirem Cristo, tiveram de abandonar tudo.
Escolher Cristo
como supremo critério pressupõe também consentirmos
que seja Ele
próprio a nos moldar.

"Ninguém pode servir a dois


senhores"

A fé, que é íntima ligação a Jesus Cristo - exclusivo


Mestre, único
Amor - exige que nos voltemos para Ele como o valor
supremo. A
adesão total a Cristo exige liberdade de coração, o que
significa rejeitar
a servidão de mamón (da riqueza que nos escraviza). Diz
o Evangelho:
"Ninguém pode servir a dois senhores, porque, ou há
de odiar um e amar o outro ou se dedicará a um e
desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e às
riquezas" (Mt 6,24). Existem dois senhores: Deus e as
riquezas, e não há um terceiro. Isto o diz Jesus Cristo,
suprema autoridade. A
relação entre Um e outro senhor é de radical oposição. O
Evangelho
indica claramente: "Ou odiará um, ou amará o outro".
Quando se ama
um senhor se tem ódio ao outro: "Dedicar-se-á a um e
menosprezará o
outro". Se você é fiel a um, acaba então por desprezar o
outro. É uma
afirmação categórica! Não podemos, portanto, nos ligar a
Cristo e con-
tinuar a servir a mamón (as riquezas), sempre expostos à
tentação de
consentirmos numa certa transigência e de conciliarmos,
assim, o que
não é conciliável. "Ninguém pode servir a dois
senhores". Quem são esses
"senhores" (no texto grego: kyrios)? Um deles é Cristo, o
nosso único e
verdadeiro Mestre - Kyrios. O outro é mamón, "as
riquezas", um falso
kyrios, um falso mestre. Servir mamón, ou às "riquezas",
eqüivale a nos
deixarmos prender pela dependência e servidão de
qualquer bem ma-
terial ou espiritual. Reparemos que mamón, "as
riquezas", é chamado
"senhor" ao qual podemos servir tal como servimos a um
rei. Ou ser-
vimos e amamos verdadeiramente a Deus e, por
conseguinte, odiámos
mamón, "as riquezas", o nosso apego aos bens
materiais ou espirituais,
ou então — o que é mais difícil de declarar - amamos
de fato o nosso
apego a esses bens e por isso odiámos a Deus. Não
podemos conciliar
essas duas realidades: servir a ambas ao mesmo tempo.

Evidentemente que o nosso serviço pode não ser o


tempo todo.
Podemos estar ao serviço de Cristo até certo ponto,
somente em parte.
Mas o serviço a um exclui o serviço ao outro: são
incompatíveis. Se
você ama os seus apegos e serve a eles, nessa mesma
medida você odeia
a Deus. Isto é terrível, mas é impossível explicar o que nos
diz Cristo de
outro modo: trata-se de uma verdade bíblica. Se serve os
seus próprios
apegos, quer dizer, mamón, "as riquezas", num grau de
oitenta por cento, isso significa que em oitenta por cento
você odeia a Deus. Será possível falar-se no
aprofundamento da sua ligação a Cristo, da sua adesão
a Ele, numa tal situação? Acaso você pode, então, se
surpreender por
estar distraído durante a Santa Missa? Por certo procura
lutar decidi-
damente contra essas distrações, mas a causa deve ser
procurada bem
mais fundo: reside nos seus apegos, em mamou ou nos
bens materiais.
Eis porque a luta contra as distrações deve ser conduzida
em dois ní-
veis. A um nível imediato e direto, quando por exemplo
você procura
se concentrar no momento da Consagração. Mas trata-se
apenas de
um combate aos sintomas. A 'úlcera' está muito mais
profunda, no
próprio mamón, nas próprias "riquezas". Eis a causa mais
profunda, a
raiz última do mal e a fonte das suas distrações. São elas
que dispersam
você durante a Santa Missa, desviam você daquilo que
sucede no altar
durante a Consagração. As "riquezas" são o seu principal
inimigo.

A análise da sua oração poderá ajudá-lo a identificar


que gênero de
caras de mamón se apresentam na sua vida. Se você
tomar consciência
daquilo em que, com maior freqüência, pensa
durante a oração, sabe-
rá então qual é o seu tesouro, "Porque onde está o
teu tesouro y lá também
está teu coração" {Mt 6,21). As suas distrações indicam
o quanto de
mamón e de apegos há dentro de você. Se são muitos,
então não é de
estranhar que seja difícil para você se concentrar durante
a oração do
Rosário, ou durante a Adoração, ou durante a Santa Missa.

A palavra "mestre" - na língua original, em grego,


kyrios - designa
o soberano e senhor absoluto. A palavra douleuein —
servir - ao con-
trário, significa sujeição do escravo ao seu senhor
absoluto, e uma total
dependência dele. O Evangelho diz que, quer o
admitamos, quer não,
somos absoluta propriedade do Senhor. Somos e
ficaremos sendo pro-
priedade do Senhor Jesus.

A palavra "riquezas", em hebraico "mamón”


significava, na sua ori-
gem, um tesouro, dinheiro ou objetos valiosos, colocados
em depó-
sito. Não tinha então o sentido pejorativo que mais tarde
adquiriu.
Produziu-se, sem dúvida, com o decorrer do tempo, uma
notável evolução no significado desse termo. Começaram
a considerar-se que, se
houvessem depositado objetos preciosos, ou seja, um
tesouro, nas mãos
de um banqueiro ou de uma pessoa de confiança, podia-
se efetivamente esperar e contar com esse tesouro. Foi a
primeira etapa daquela evo-
lução: mamón, as "riquezas" tornaram-se, em breve, um
bem material
digno de confiança. A palavra mamón (riqueza) começou
como que a
ter maiúscula e a indicar esse falso soberano e senhor.
Produziu-se, en-
tão, uma estranha alienação: o homem passa a ser
possuído pela coisa.
Tudo aquilo em que o homem depositava a sua esperança
passava a ser
um deus para ele.

E você? Em que coisa, ou em quem, você põe a sua


esperança? Em
quê confia? Quem é o seu Deus? Se firmou a sua
esperança num falso
deus, você experimentará a amargura da desilusão
porque se trata de
um senhor que, mais cedo ou mais tarde, lhe enganará. E
isso será
uma grande graça para você: algo começará a abalar os
alicerces da sua
confiança em mamón, nas "riquezas".

Quais serão essas "riquezas" que prendem o seu


coração? Podem,
pois, ser tanto bens materiais como espirituais. Pode, por
exemplo, ser
a paixão pelo dinheiro, o excessivo apego aos filhos, ao
trabalho, a
tudo aquilo que você faz, o apego à sua tranqüilidade e
mesmo à sua
própria perfeição. Todas essas ligações provocam a
escravização, o tor-
nam servo. Na verdade, o homem apenas se deve apegar
a uma e única
realidade: à vontade de Deus. Tudo o que exerce domínio
sobre você,
fecha-o a Deus e enfraquece a sua fé.

Como fazer para reconhecer o seu próprio mamón,


as suas próprias
"riquezas"? A tensão, o stress, a ansiedade, a agitação, a
tristeza que
acompanham a sua vida, são indicativos de que, de uma
forma ou de
outra, está servindo mamón - "riquezas" escondidas sob
uma determi-
nada capa. Há, por exemplo, pessoas que vivem num
estado de perma-
nente tensão, sinal de que há algo a que têm um enorme
apego. Pelo
contrário, as pessoas livres de todo o apego encontram-se
cheias da
paz de Deus. Essa paz divina constrói e fortalece a saúde
mental, que,
por sua vez, influencia o estado físico. Assim, tanto o
espírito, como a
mente e o corpo, participam nessa grande liberdade da
pessoa. Não se
conhece o rosto franzido ou tenso do homem totalmente
livre de ape-
gos, pois o stress e as doenças da civilização são algo
que desconhece.
Mamón, "as riquezas", destroem sistematicamente o
homem, Não só bloqueiam a sua caminhada para Cristo
como impedem a sua adesão a Ele, contribuindo ainda
para arruinar a sua saúde física e psíquica.

Um outro claro sintoma dos seus apegos é a


tristeza que você experi-
menta nas situações em que Deus o priva de alguma
coisa. Ora, Ele es-
tará tirando de você tudo o que o escraviza, isto é, aquilo
que constitui
a sua maior inimizade, aquilo que faz com que o seu
coração não esteja
disponível para acolher o Senhor. Somente a partir do
momento em
que começa a aceitar esse tipo de situações e a aceitá-las
com serenidade
e de bom humor é que você será cada vez mais livre.

Na oração, você se coloca diante do Senhor, mostra-


Lhe as mãos,
não só vazias, mas também sujas, manchadas pelo apego
de mamón,
das "riquezas", e suplica-Lhe que tenha compaixão de
você. A oração só
pode expandir-se num clima de liberdade. E, na qualidade
de discípulo
de Cristo você é chamado à oração contemplativa.
Todavia, para que a
sua prece possa algum dia tornar-se contemplação —
um amoroso olhar
lançado a Jesus Cristo, seu Bem-amado — é
indispensável a liberdade
do coração. É por esta razão que Cristo tanto luta pela
libertação do
seu coração. E Ele o faz por meio de vários
acontecimentos, através de
dificuldades e tempestades, permitindo que você passe
por situações
difíceis e através delas permite colaborar intensamente
com a graça.
Em todas essas situações Cristo espera que você se
esforce por purificar
o coração manchado pelos apegos e pela submissão
prestada a mamón,
às "riquezas". Conseqüentemente todos os momentos
difíceis, todas
as tempestades, são para você uma graça, uma passagem
do Senhor
Misericordioso que o ama a ponto de desejar oferecer por
você esse
dom magnífico: a plena liberdade de coração. O seu
coração não pode
estar dividido, deve ser só para Ele.

Crer é ver e compreender o sentido da vida segundo


a perspectiva
do Evangelho: o que mais importa é Deus. A sua vida
deve estar
orientada, antes de tudo, para Ele, para a procura e para a
edificação
do Seu Reino, acreditando que tudo o mais lhe será dado
por acrésci-
mo (cf. Mt 6,33). Deus deseja inundar cada homem com o
Seu amor.
No entanto, Ele apenas pode fazê-lo na medida da sua
capacidade, e
na medida em que consinta romper com os seus apegos,
para dar-Lhe
lugar. E a fé que em nós produz esse esvaziamento onde
Deus pode
vir habitar.

A vontade de Deus e a nossa

Fator decisivo para que um dia venha a ser possível


o aprofunda-
mento da nossa fé, até à plena união com Cristo é o nosso
desejo de
cumprirmos em tudo a Sua vontade e o conseqüente
consentimento
de que seja crucificada a vontade própria. Vivermos
unidos a Cristo
eqüivale a submetermos a nossa vontade à d'Ele. A vida
interior desen-
rola-se numa contínua tensão entre a vontade de Deus e a
vontade do
homem. Esta tensão advém do fato de girarmos sempre
em torno da
nossa própria vontade, na procura de tudo o que nos é
mais cômodo,
ainda que saibamos que, indo no encalço dos nossos
planos e desejos,
perseguindo os objetivos que queremos atingir, isso não
coincida com
a vontade de Deus a nosso respeito. O homem resiste ao
aniquilamento
dos desejos próprios. Resiste, quer tendo disso plena
consciência, ao re-
cusar submeter-se à vontade de Deus, quer de forma
inconsciente, que
se traduz muitas vezes num mecanismo defensivo de
racionalização.
Esse dispositivo permite evidenciar até que ponto nos
procuramos a
nós mesmos nos nossos desejos e nas nossas atividades.

Em que consiste tal mecanismo defensivo de


racionalização?
Inconscientemente justificamos a nossa atividade
como sendo baseada em motivações que aceitamos,
enquanto, ao mesmo tempo rejeitamos as verdadeiras
causas. Por outras palavras, poderíamos dizer que, para
realizar os nossos projetos e alcançar o fim em vista,
inventamos uma
teoria de autojustificação que nos deixa tranqüilos.

Um clássico exemplo que ilustra esse sistema de


autodefesa é o da
situação em que uma mãe procura defender o seu filho
diante da sua
nora. Quando se desencadeia o mecanismo defensivo da
racionalização a
mãe está absolutamente convencida de que o único
motivo da sua ação
é o amor. Julga que tem o direito de agir, pois, sentindo-se
mãe, só
deseja o bem do filho. O amor possessivo que geralmente
se manifesta
nesses casos permanece encoberto por esse mecanismo
defensivo in-
consciente e pela teoria subjetiva arquitetada para
justificar o compor-tamento conseqüente. Por isso será
quase impossível convencer uma
mãe que se comporta de tal maneira de que, na pessoa
do seu filho,
quem ela ama é, na realidade, a sua própria pessoa,
pondo em perigo
a família. Deveria, em vez disso, afastar-se e permanecer
na sombra, deixando o esposo tranqüilo, devendo mesmo
tomar mais o partido da
sua nora que o do seu filho.

Porque se trata, antes de mais, de um dispositivo


inconsciente é que
o mecanismo defensivo de racionalização é uma
"muralha" tão forte
e inexpugnável. Quantas vezes construímos uma teoria
com o único
fim de justificar algum comportamento despropositado?
Dizemos, por
exemplo: "Preciso de descansar, não posso ocupar-me
disso"; "Tenho
esse direito, prejudicaram-me, é preciso que me defenda,
etc." Você
pode se entregar apaixonadamente a um suposto
amor, ao apostolado,
a determinados interesses nobres e, no entanto,
haver um egoísmo la-
tente e inconsciente na raiz de tudo isso.

É o egoísmo que faz com que a nossa vida interior


decorra numa
contínua tensão entre a nossa vontade e a vontade de
Deus. Se a vida
de fé significa a aceitação de Cristo e acolhimento da Sua
vontade im-
porta, nesse contexto, entender bem que a procura da
vontade própria
é aqui o pior que pode acontecer. E ela, de fato, a fonte do
mal e do pe-
cado, causa da nossa desgraça e das nossas servidões. A
união a Cristo
e à Sua vontade implica que, no caso da vontade d'Ele
não coincidir
com a nossa, consintamos que Ele deite por terra os
nossos planos, que
Ele os contrarie. A vida dos santos mostra-nos
freqüentemente aconte-
cimentos reveladores de como Deus contrariou os planos
humanos, a
fim de que a vontade deles pudesse unir-se à Sua.

Uma vez, Santa Teresa d'Ávila deslocou-se a Sevilha


com a finali-
dade de fundar naquele lugar um novo convento. Corriam
os tempos
difíceis da reforma da Ordem Carmelita. Teresa fundava
um diferente
ramo, reformado, do Carmelo. A fundação de uma nova
casa em outra
localidade exigia que Santa Teresa, como superiora,
estivesse presente
com um grupo de irmãs. As irmãs viajavam habitualmente
em carru-
agens com as cortinas cerradas, pois as carmelitas
reformadas, ditas
"descalças", sendo uma ordem de clausura, não poderiam
aparecer em
público. Escondidas numa carruagem resguardada,
sentiam-se em se-
gurança e esperançadas de chegar ao seu objetivo sem
que ninguém as
visse, pois não queriam fazer sensação, nem ser alvo de
espetáculo.

Era dia de Pentecostes. As irmãs tinham partido de


manhãzinha,
bem cedo. Teresa decidira que, durante a viagem, fariam
uma parada em uma Igreja, situada na periferia de
Córdova. Ali, o Pe. Julian de
Ávila deveria celebrar para elas a Santa Missa, com o
objetivo de não
serem notadas e de, em seguida, retomarem viagem.
Todavia rapida-
mente verificaram que, para chegarem à Igreja escolhida,
era necessário
atravessar uma ponte. Sucedeu, no entanto, que àquela
hora matuti-
na, a ponte estava fechada, tendo os guardas de vigia
informado que
precisavam pedir a chave ao alcaide. Mas este último,
àquela hora,
dormia e não toleraria que o acordassem por semelhantes
motivos. Foi,
entãoj necessário esperar. Entretanto, o Sol levantara-se
já e começava
a fazer muito calor. Em volta da carruagem, agrupou-se
um grupo
de curiosos. Alguns, mais curiosos ainda, tentaram olhar o
interior.
Finalmente, após duas horas de espera, trouxeram a
chave e abriu-se a
porta. Colocaram a carruagem em marcha, mas
aconteceu que, por ser
demasiadamente larga, não cabia na ponte.

As horas passavam e Teresa, que desejara chegar


cedo à Missa no
dia de Pentecostes e tanto procurara que as irmãs
pudessem chegar
sem serem vistas, foi ficando aflita. Quando por fim as
partes salientes
da carruagem foram serradas e as irmãs chegaram à
Igreja, deu-se, de
novo, algo de inesperado. Verificou-se, com efeito, que
nesta Igreja, a
solenidade do Pentecostes era uma festa de padroeiro e,
como é usual
em tais dias, havia na Igreja e no átrio uma enorme
multidão. Era
demais! Santa Teresa refere no seu relato, que estava
mesmo disposta a
não ir à Missa e o mesmo tencionavam fazer as outras
irmãs. Só mais
tarde, Teresa confessaria que isso teria sido uma falta
grave. Felizmente,
o Pe. Julian ordenou às irmãs que, apesar da multidão,
participassem
na Missa. Abandonam, então, o seu refúgio onde se
sentiam em segu-
rança, para empreenderem a travessia da Igreja repleta
de gente.
Santa Teresa, que habitualmente tinha um estilo
pitoresco, diria mais
tarde que, sobre as religiosas cobertas com os seus véus
e hábitos de lã
grosseira, as pessoas reagiram como nas touradas,
quando o público vê
entrar o touro na arena. Teresa confessará, ainda, que foi
um dos seus
maiores dissabores. Aquela contrariedade, uma das mais
penosas da sua
vida, foi-lhe enviada pelo Espírito Santo, na solenidade da
Sua Vinda!

Mas ainda não ficariam por aí as dificuldades. Após


a Santa Missa,
as irmãs tiveram de novo que atravessar a Igreja, pelo
meio das pessoas alvoroçadas que as acotovelavam e
empurravam. Ao chegarem à saída,
depararam com um calor de tal modo insuportável que
não foi possível
continuar a viagem. Os cavalos recusavam-se a puxar a
carruagem e, por
outro lado, dentro dela estava um calor de tal modo
sufocante, que as re-
ligiosas passaram o resto do dia à sombra, debaixo da
ponte {Fundações,
Cap. XXIV). Os seus planos tinham sido reduzidos a zero.

O Espírito Santo pode descer sobre o homem com


uma graça que
deite mesmo por terra os seus projetos. São as Suas
grandes graças de
despojamento. O grande amor que Ele tinha por Teresa
manifestara-
se no dia de Pentecostes no modo como a tratou. Ela que
planeja-
ra tudo tão bem e com tanta perfeição, mas que Ele
contrariou em
tudo, pois aqueles planos não estavam conforme à
vontade do Senhor.
Contudo, neste episódio, o importante é que algo
perfeitamente li-
near se produziu: o Espírito Santo "desceu" sobre
Teresa e as demais
irmãs, porque aceitaram a Sua ação; e tendo-se
submetido à vontade
de Deus, uniram-se mais profundamente a Cristo. O
Espírito Santo,
o grande Construtor da nossa fé, despojou-as muito,
tornando-as mais
pobres espiritualmente, mais disponíveis, pois, para
acolherem o poder
d'Aquele que, na liturgia da Igreja, é chamado o "Pai dos
pobres".

Os demolidores da Igreja

O que mais impede a nossa total entrega a Cristo é


a procura de nós
mesmos, a procura da nossa vontade. Buscando-nos a nós
próprios,
arruinamos a nossa fé, arriscando-nos mesmo a perdê-la
totalmente.
Comodiano - um asceta cristão que viveu em
Cartago em meados
do século III — deixou dois textos que tratam esta
questão, "Instructiones"
e "Carmen Apologeticum" sobre os quais vale a pena
refletir. Naquele
tempo Cartago era, depois de Alexandria, a maior e mais
esplendoro-
sa cidade do norte de África. Os documentos de
Comodiano abran-
gem um período de vários anos depois do término das
perseguições de
Décio, por volta do ano 251, período no qual os cristãos
puderam sair
dos seus esconderijos e, sem receio, aparecer novamente
à luz do dia.
A perseguição de Décio, a sétima na história da Igreja,
distinguira-se
das outras no seguinte: ele não se contentava em
condenar à morte
mas, com mais freqüência, mandava infligir torturas,
querendo assim intimidar os cristãos. Durou dois anos a
perseguição de Décio, de 249a 251 [d.CJ, e estendeu-se a
todo o Império Romano.

Cartago, tal como outras cidades onde viviam


cristãos, sofreu gran-
des devastações. Quando finalmente, depois desses dois
anos, a Igreja
recuperou a liberdade, os cristãos voltaram a reunir-se
como antes para
celebrar a liturgia em comum. Os escritos de Comodiano
dão-nos a
imagem do que foi a comunidade cristã de Cartago na
seqüência das
perseguições de Décio. Eram três as categorias de
pessoas que a inte-
gravam e nela se destacavam: A primeira era constítuida
pelos simples
fiéis — fideles que nos tempos de perseguição tinham
conseguido esca-
par de Cartago refugiando-se em lugar seguro. A segunda
categoria
pertenciam os lapsi, ou homens decaídos - os renegados -
que eram
numerosos: eram os que não tinham conseguido resistir
às terríveis
torturas. Comodiano escreve que ele próprio era um
desses renegados
e que, como catecúmeno, fazia penitência e sentia grande
compaixão
pelos outros lapsi, os decaídos, renegados que também
se tinham pe-
nitenciado. Finalmente, a terceira categoria, a dos
mártires - martyres
— aqueles que haviam sobrevivido aos tormentos, pois
Décio preferira
freqüentemente não os executar, mas, em vez disso,
torturá-los.

Podemos tentar reconstituir a situação na


comunidade de Cartago
imaginando como decorriam, nesse tempo, os encontros
dos cristãos e
facilmente reparar nos mais ilustres, os mártires, que
decerto trariam
nos seus corpos as marcas das torturas suportadas. Que
comovente não
seria a imagem oferecida por todos aqueles que, tendo
estado dispostos a
dar as suas vidas por Cristo, haviam, contudo,
sobrevivido. Comodiano
continua escrevendo que tais mártires, visivelmente
marcados pelos so-
frimentos suportados por Cristo, considerados portanto, os
melhores
fiéis, achavam que, devido ao martírio suportado,
possuiriam direitos
especiais; que as suas opiniões iriam ter particular peso,
uma vez que
haviam oferecido a vida por Cristo. Pensavam que podiam
se conside-
rar melhores do que os fiéis - aqueles que tinham fugido -
pois, eles
não o tinham feito. Podiam, também, facilmente sentir-se
superiores
aos renegados - os lapsi que haviam sucumbido -
enquanto que eles,
os "martyres" (testemunhas), tinham perseverado. Foi
nessa situação,
como sabemos através de dados históricos, que alguns
anos mais tar-
de se produziu na comunidade de Cartago, o cisma de
Felicissimus e de Novatus. Na origem das tensões então
surgidas na comunidade de
Cartago radicava-se a atitude dos mártires, que
reivindicavam os seus
direitos. E, foram justamente eles, os melhores, que
semearam a confu-
são podendo até afirmar-se, sem nenhuma dúvida, que a
Igreja cartagi-
nesa foi destruída justamente pelos mártires, por aqueles
que se haviam
disposto a dar a vida por Cristo. Os melhores, ou pelo
menos, aqueles
que se julgavam tal, mas que também eram detentores
dos seus planos
próprios e da sua vontade própria, esses destruíam a
Igreja de Cristo. E
verdadeiramente impressionante! Não foram nem os
renegados nem os
fracos, que haviam traído a Cristo, que destruíam e
demoliam a Igreja,
mas sim os mártires.

A situação tornou-se de tal forma dramática, que


depois do pri-
meiro cisma de dimensão relativamente pequena, aquela
Igreja viu-se
ameaçada por um segundo cisma muito mais grave. E,
então, para
que se pusesse fim ao dilaceramento existente no seio
daquela Igreja
provocado pelos mártires, deu-se um novo período de
perseguições, o
oitavo, sob o Império de Valeriano (no qual ocorreu a
morte do bispo
de Cartago, São Cipriano).

Aqueles mártires constituem para nós uma séria


advertência. Nem
mesmo a sua disposição interior de dar a vida por Cristo é
prova da
sua total adesão a Ele. A humildade e o desejo deles de
fazer, não a sua
vontade, mas acima de tudo a de Cristo, é que vão
comprovar a auten-
ticidade dessa adesão.

Será que nos podemos admirar, à luz dos


documentos que acima
analisamos, de que Deus contrarie por vezes a nossa
vontade, se sabe-
mos que a procura dos meios para a realizar é fonte de
grandes males e
da nossa infelicidade? A fé é adesão a Cristo, e como tal,
princípio do
amor. Ora, pelo seu querer, você apenas pode aderir a
Cristo na medida
em que vá deixando despojar da sua vontade própria.
Assim Deus, por-
que nos ama, deve contrariar os nossos planos, deve
varrer a nossa visão
das coisas como quem sopra um castelo de cartas, pois
não passam de
planos ou pontos de vista meramente humanos. Enfim,
aquilo que irá
nos mostrar, será algo bem diferente do que imaginamos,
conforme o
princípio segundo o qual cada um acaba por se tornar um
santo bem
diferente daquele que teria desejado ser.
CAPÍTULO 3

CRER É APOIARMO-
NOS EM CRISTO E A
ELE NOS
ABANDONARMOS
TOTALMENTE

A fé é participação na vida divina, adesão a Deus


como único
Senhor, o apoiar-se total e exclusivamente n'Ele.
Baseando-nos em
Cristo, e abandonando-nos totalmente a Ele, exprimimos-
Lhe a nossa
absoluta confiança. O homem orienta-se naturalmente
para a procura
da sua própria segurança, para a busca de apoio, o que
significa que,
por natureza, é levado a confiar. E tal a sua estrutura que
o leva a que-
rer ter um sistema que lhe garanta a segurança,
desejando qualquer
coisa, ou alguém, com que possa contar e em quem
confie. O senti-
mento de segurança é a mais elementar e fundamental
necessidade do
psiquismo humano. A sua ausência na seqüência de uma
situação de
risco, o desaparecimento do apoio que nos descansava,
suscitam, então,
a angústia. E essa angústia que se apodera de nós, que
nos leva a pro-
curar intensamente a segurança.

Apoiar-se em algo ou em alguém e ter a sensação


de segurança,
pode ser entendido objetivamente do seguinte modo:
contamos com
o que possuímos, por exemplo, dinheiro, capacidades e
aptidões. É
também possível querer reforçar a própria segurança em
sentido pessoal, quando contamos com certos
conhecimentos e relações huma-
nas que podem vir a servir à realização dos nossos
projetos. O senti-
mento de segurança baseado nos bens materiais, prende-
se geralmente
com a nossa orientação para o futuro. A pessoa que for de
forte res-
sonância psíquica procura até prever o que vai acontecer
no futuro,
esforçando-se mesmo por desvendá-lo nos mínimos
detalhes e por não
ser apanhada desprevenida. Quer, desse modo, exercer
domínio sobre o
porvir, alimentando assim aquela procura de apoio e de
segurança.

Na nossa vida, a necessidade de nos sentirmos em


segurança está
constantemente presente. O estudante que se prepara
para passar no
exame baseia a sua segurança na memória que possui,
nos conhecimen-
tos que apreendeu, ou nas suas capacidades. Pode
também contar com
o fator sorte, mas procurará sempre apoiar-se em alguma
coisa, seja ela
de tipo material ou pessoal. No entanto, todos os sistemas
de segurança
humanos são sempre deficientes. Não podem ser
perfeitos, porque se
baseiam unicamente nos nossos projetos ou cálculos. E,
então, inevitá-
vel que falharão, estando assim na origem das crises.

Se você confia nas próprias forças, conta com as


suas capacidades,
com aquilo que possui ou com as relações que mantém
com as pessoas
a quem está ligado, é bem certo que, mais tarde ou mais
cedo, ficará
desiludido.
Para que a nossa fé seja, de fato, um total apoio e
abandono a Cristo, devemos reconhecer que só Ele
constitui a nossa verdadeira segurança. A confiança total
em Cristo, nascida da nossa fé na Sua palavra, é a única
resposta adequada ao Seu insondável amor por nós.

Deus - único apoio

A fé consiste em nos firmarmos unicamente em


Deus. Não podemos nos apoiar em nenhum dos Seus
dons, mas apenas e exclusivamente nEle, no Seu poder
infinito e no Seu infinito amor.

É comovente a cena passada no átrio do templo, na


qual Deus
observava os fiéis que colocavam os seus donativos na
caixa das esmo-
las. Ouvia-se o tilintar das moedas que caíam, na caixa
uma após outra e Deus, - Jesus Cristo - ali sentado a um
lado com os Apóstolos, obser-
vando aqueles que faziam ofertas. Ao ver uma viúva
depositar duas
pequenas moedas, uns magros tostões, o Senhor fez-lhes
notar: "Esta
pobre viúva, (...) doou mais do que todos os outros,
pois (...), da sua po-
breza, ofereceu tudo quanto possuía, todo o seu
sustento" {Mc 12,43-44).
Podemos admirar o gesto dela - doou tudo - enquanto que
os ricos se
limitavam a dar uma pequena parcela do supérfluo. No
entanto, ver
este gesto isoladamente é demasiado pouco. Há que
sublinhar que ela,
ao dar tudo o que tinha, assinou a sua condenação à
morte', pois ficara
sem dinheiro, sem mais nada para sobreviver. Ela
acabava de romper
com o seu esquema material de segurança, provocando
desse modo o
assombro do próprio Deus, que de forma solene proclama
estas pala-
vras: "Em verdade vos digo ela deu daquilo que lhe fazia
falta, tudo o
que possuía, tudo o que tinha para viver." Inconcebível fé,
a daquela
mulher!

À pessoa desprovida de tudo, sem sistemas de


segurança, restam apenas duas coisas: o desespero ou o
total abandono a Deus proveniente da fé. Naquela mulher
existia, certamente, uma fé a toda a prova,
porque deu tudo e o fez livremente. Para ela, Deus era
tudo, o seu
único apoio. Deus pode nos despojar dos nossos
esquemas de segurança, mas também podemos ser nós
próprios a darmos esse passo.
Depuramo-nos, assim, de forma ativa daquilo que
constitui para nós
uma servidão. Foi esse o caso daquela viúva do
Evangelho, porque ela
mesma se despojou de tudo.

Podemos falar de um abandono análogo no caso da


viúva de Sarepta que encontrou Elias. A viúva tinha um
filho pequeno e naquelas terras a fome se alastrava.
Todas as suas reservas de alimentos eram apenas
dois punhados de farinha ressequida e um pouco de
azeite. E foi em
semelhante situação que Elias lhe disse: a Traze-rne, por
favor, um pe-
daço de pão" {lRs 17,11). De nada serviram as
explicações da viúva, de
que aquele era o último alimento que lhe restava. Elias
repetiu o seu
pedido: "Traz-mo". Respondeu-lhe a mulher: "Sim, farei o
que pedes e,
em seguida, eu e o meu filhinho morreremos". Tratava-se
efetivamente
da aceitação da morte, porque depois já nada mais lhe
restaria, não
havia nada com que pudesse contar, nem sequer com
aquele punhado
de comida. Ficou, então, sem nada.

Que Deus faz com tais pessoas? Diz a Bíblia que


pouco depois, a
quantidade da farinha começou a aumentar e que, apesar
de continua-
rem a consumi-la, ela era cada vez mais abundante, tendo
acontecido
o mesmo com o azeite. A viúva e o seu filho não
morreram. Deus não
pode abandonar aquele que, tendo-se entregue a Ele
inteiramente, se
purifica por sua livre iniciativa, das riquezas, rompendo
com o sistema
de segurança que destrói a sua fé. Deus olha com
admiração, o milagre
da fé humana e sobretudo dessa ousada fede criança
que se expressa na
renúncia integral a tudo. O homem que possui tal fé é
capaz de dizer:
"Meu Deus, se o desejas, estou mesmo disposto a morrer,
porque creio
que Tu me amas". E esta fé, assim tão profunda, que
gera santos.

Quando a Madre Teresa de Calcutá deixou o


convento das irmãs
do Loreto para se dedicar aos moribundos, perto do
templo de Kali,
na citada cidade da índia, tinha consigo uns escassos
haveres pessoais
e algum dinheiro. Mas, num breve trecho, tudo distribuiu
aos mori-
bundos. E depois disso? Ao cair da noite, uma só coisa lhe
resta di-
zer: "Meu Deus, se quiseres, estou disposta a morrer". Na
índia, em
Calcutá, decerto que ninguém a ajudara, porque
vulgarmente se olha
com indiferença aos moribundos. No contexto da religião
hindu e se-
gundo a lei de karma, esse estado de coisas é
considerado quase nor-
mal. Um seguidor do hinduísmo dirá que, se você morrer
de fome,
isso significa que o mereceu; que, se morrer à fome, em
contrapartida,
renascerá com uma existência melhor depois da morte.
Madre Teresa
de Calcutá se deu conta de que não encontraria ninguém
que desejasse
ajudá-la mas, ao mesmo tempo, teve fé que Deus está
sempre consigo,
e a partir de então apenas n Ele se apoiará.

A escola de fé e de santidade para a Madre Teresa


de Calcutá foram
aqueles dias e noites em que, depois de ter distribuído
tudo, se deitava
morta de cansaço, com a certeza de nada ter para o dia
seguinte, nem
para si, nem para algumas futuras postulantes, nem para
a multidão
de moribundos que urgia socorrer. Nada restava. E, em tal
situação,
numa total ausência de segurança no plano humano,
nasceu a Madre
Teresa de Calcutá, aquela por quem hoje o mundo tem
tanta veneração
e respeito. Uma mulher de fé, de um crer até à loucura,
alguém que
passou pela dificílima escola de aquisição da fé nas
situações em que,
humanamente falando, há total carência de apoios.
Quando se desmorona todo o nosso sistema de
segurança, restam somente o desespero
ou a fé; ou um terrível desespero ou uma heróica fé.

Se não há em você a loucura da fé e se não confia


até ao extremo
no amor louco de Deus, o seu avanço pelo caminho da fé
continuará a
fazer-se a passo de tartaruga, ou andará mesmo para
trás. Ao construir
os seus sistemas humanos de segurança você impede o
crescimento da
sua fé. Esta só será aprofundada a partir do momento em
que aceite
que seja Deus o seu único fundamento e a sua única
segurança. Com
efeito, Ele tem, o direito de reclamar que Lhe
entregue tudo; tudo, no
sentido do total abandono.

À luz da fé é bom que, de vez em quando, você


sinta o chão fugir
dos seus pés, pois a tal situação está vinculada uma
graça. Na verdade,
você não pode se apoiar em mais nada senão em Deus.
Você não pode
apoiar nem nos Seus dons, nem mesmo em qualquer um
dos sinais da
Sua presença.

No Antigo Testamento, na época dos Juizes^ nos


são descritos os
tempos das lutas entre os filisteus e os israelitas e como,
depois de uma
grande derrota, a Arca da Aliança cai em mãos inimigas.
Através do
Primeiro Livro de Samuel, sabemos que os filisteus se
mobilizaram para
lutar contra Israel e se travou uma luta em que os filisteus
venceram
os israelitas, tendo infligido a morte a quatro mil dos seus
homens.
"Quando o exército israelita voltou para o acampamento,
os anciãos
de Israel disseram: 'Por que permitiu hoje o Senhor, que
fôssemos
derrotados pelos filisteus? Vamos trazer de Silo, a Arca da
Aliança,
para que caminhe conosco e nos livre da mão dos nossos
inimigos.'
Os israelitas mandaram buscar em Silo a Arca da Aliança
do Senhor
Todo-Poderoso, que tem o Seu trono sobre os querubins, e
trouxeram-
na. Acompanharam-na também, Hofni e Finéias, os dois
filhos de Eli.
Aconteceu que, quando a Arca da Aliança chegou ao
acampamento,
todos os israelitas lançaram um forte brado a ponto de
fazer estremecer
a terra. Quando os filisteus ouviram tal clamor, disseram: )
ai de
nós'" (cf. ISam 4,2-8). Mas, efetivamente, os filisteus
atacaram e der-
rotaram os israelitas, que se puseram em fuga para o seu
acampamento.
A derrota foi tremenda, pois caíram trinta mil da infantaria
israelita. Também capturaram a Arca da Aliança e
mataram Hofni e Finéias, os
dois filhos de Eli (cf. ISam 4,10-11).

Poderíamos nos colocar a seguinte questão: Por que


razão os israe-
litas sofreram tão desastrosa derrota? Na verdade, tendo
mandado bus-
car a Arca da Aliança, sinal da Presença de Deus no meio
deles, ligan-
do a essa Presença a esperança da vitória, demonstraram
que desejavam
apoiar-se em Deus. Como interpretar, então, o fato dos
israelitas, ape-
sar de quererem aparentemente fundar-se no Senhor,
haverem sofrido
tão grande derrota e terem mesmo perdido a Arca,
símbolo da especial
Presença de Deus?

Esse texto é muito importante, já que nos permite


entender de
maneira mais profunda o que significa apoiarmo-nos
unicamente em
Deus. A Arca da Aliança não é Deus, mas apenas sinal da
presen-
ça d'Ele. Os israelitas ousaram fazer uma singular
manipulação deste
símbolo divino. A época dos Juizes foi um período
decadente na his-
tória do povo eleito. Sabemos que havia muita
perversidade na vida
dos israelitas e também na dos filhos do sumo sacerdote
Eli, os quais
"eram homens desonestos que não se preocupavam
com Yahveh" (ISam
2,12). Nesse contexto, o texto bíblico mostra-nos como
aqueles israeli-
tas, que, no fundo, não faziam caso de Deus, tratavam de
manipular o
símbolo da Sua Presença. Pensaram que depois de terem
trazido a Arca
da Aliança, a vitória estava automaticamente
assegurada.

Todavia, a fé consiste em nos apoiarmos em Deus,


apenas n'Ele, no
Seu poder e no Seu amor, não nos Seus dons, nem apenas
nos símbolos
da Sua Presença. Ora, esse poder e esse amor não estão
sujeitos a qual-
quer manipulação.

Ocorreu o mesmo no caso do Templo, que também


era, para o
povo eleito, um símbolo especial da Presença de Deus,
acabando por
ser destruído, pois não era ele que devia constituir o
fundamento dos
israelitas. Deus chamava aquele povo a apoiar-se
exclusivamente n'Ele,
apoio esse que não devia resultar senão da fé.

A atitude de abandono total

Cristo que espera nos confiemos a Ele inteiramente,


ensina-nos,
com o exemplo da Sua própria vida, a atitude de
abandono. Ele veio
até nós sob a forma de uma criança, como um bebê que
por si só nada
pode fazer e depende totalmente dos cuidados dos
adultos. Portanto,
desde o momento da Sua vinda ao mundo, Jesus torna-Se,
por nossa
causa, o despojamento extremo. E por que o Senhor Se
despojou a tal
ponto? Tente, de vez em quando, responder a essa
pergunta.

Se Jesus Cristo tivesse chegado ao mundo com todo


o Seu poder,
se pela força houvesse suprimido a ocupação romana e se
pela força,
igualmente, tivesse instaurado a justiça social, se
houvesse eliminado o
mal pela força, acaso seria mais fácil para você se
entregar a Ele? O mais
provável é que Lhe tivesse medo, porque o homem sente
medo perante
a violência, mesmo quando usada em nome do bem, seja
ele verdadeiro
ou aparente. Porém, você não deve sentir medo desse
Jesus que chega
até nós totalmente indefeso, sem poder algum. Se há na
sua relação
com Deus alguma parcela de receio, o mistério de Belém
o recorda que
não se deveria ter medo de Deus. Ele humilhou-Se tanto,
despojou-Se
de tal modo dos Seus atributos e apresentou-Se ao mundo
de modo tão
vulnerável, para permitir a você se unir e confiar n Ele
mais facilmen-
te! Desse modo, manifestou o Seu amor levado até à
loucura. Cristo,
despojado e pobre, quer nos preceder no caminho da
nossa renúncia às
seguranças humanas. Para nós, o verdadeiro e autêntico
despojamento
é o caminho da imitação de Jesus.

Quando Deus quis fazer de Abraão o nosso pai na


fé, teve que
desenraizá-lo. Abraão tornou-se um peregrino, que
parecia avançar por
entre as trevas, pois não sabia para onde se dirigia. Ao
deixar a sua terra
e a sua casa tornava-se um homem despojado, um
homem que nada
possuía à exceção de Deus. Devia, pois, pôr sempre em
Deus toda a
sua confiança, apelando sempre para Ele. A liberdade que
advém do
despojamento do nosso sistema de segurança^
conquista-se no deserto
que liberta o homem.

Os diferentes sistemas humanos de segurança, nos


quais você se
apoia, têm no Evangelho o nome de mamón, "riquezas".
Você pode crer nelas e fazer os seus planos baseando-se
nelas, mas elas não são o ver-
dadeiro Deus. Ora o Senhor quer justamente defender
você dessa falsa
fé, e está tão empenhado por isso para que você rejeite
os seus falsos
deuses. Tudo aquilo em que depositamos a nossa
esperança se converte
para nós num deus e, se você põe a sua esperança num
falso deus, essa
torna-se absurda. A pessoa que possui um falso deus, não
tem fé ou
então ela é muito fraca, quase insignificante. Se na sua
vida há um falso
deus no qual você se apoia, forçosamente você
experimentará o gosto
da amargura e da desilusão, porque se trata de um falso
senhor, esse
em que confia e em quem deposita a sua esperança.
Indiscutivelmente
que, mais cedo ou mais tarde, ele o desiludirá e, então, a
sua confiança
nesse falso deus há de cair por terra.

Ao dizer que não se pode servir a dois senhores',


Cristo desenvolve
o Seu pensamento utilizando imagens simbólicas, com as
quais nos
ensina o modo como devemos confiar e chegar ao pleno
abandono a
Ele, o verdadeiro Senhor. No Sermão da Montanha fala-
nos sobre os
'lírios do campo', os quais se caracterizam pela
maravilhosa e efêmera
beleza. Esta flor vive apenas um dia. Na Palestina, os lírios
do campo
são as papoulas e as anêmonas. E surpreendente que
Deus tenha criado
uma flor de tão curta vida mas espantosamente bela, da
qual o próprio
Jesus dirá "que ultrapassa a magnificência de Salomão".
Como Deus
cuida dessa flor revestindo-a de tão deslumbrante beleza!
Aquelas flo-
res são, tal como você, propriedade do Senhor. Mais
adiante, ao falar
das aves despreocupadas, Jesus apela à conversão,
exorta-nos a que nos
libertemos das tensões humanas, das preocupações
inúteis e das vãs
inquietações (cf. Mt 6,26-34). Devemos ser como os
lírios do campo e
como as aves do céu, que Ele, o verdadeiro Senhor,
cuida com amor.

A súplica contida no Pai Nosso, "Dai-nos o pão-nosso


de cada dia",
é um chamamento ao aprofundamento da nossa fé, para
que Deus se
converta no nosso único apoio. Encontramos aí uma direta
referência
àquela situação em que se encontrava o povo eleito no
deserto, durante
a caminhada para a terra prometida. E sabido que o
deserto cria situa-
ções difíceis. Por esse motivo existiam revoltas e
desobediência. Mas o
Senhor ardia de um amor zeloso, segundo diz a Bíblia, e
compadeceu-
Se desse povo pecador que bradava contra Si, enviando-
lhes diariamen-
te o maná, que caía do céu.

Os períodos de deserto fazem vir à tona no homem


o egoísmo, a
desconfiança e o desejo de criar para si sistemas de
segurança que ha-
bitualmente se ocultam no mais profundo do seu ser. Veio
a tona, no
povo eleito, durante o tempo em que permaneceu no
deserto, a falta
de confiança deles para com Deus, apesar dos milagres
que aconte-
ceram diante dos olhos deles. Tornou-se também evidente
a cobiça
deles, traduzida pelo desejo de acumular a maior
quantidade possí-
vel de maná, ainda que Moisés, em nome do Senhor, lhes
houvesse
dito: "Somente podereis recolher maná para o dia de
hoje". Muitos
não fizeram caso de Moisés e continuaram a recolher todo
o maná
que podiam. Deu-se, então, a continuação do milagre, se
bem que
noutra dimensão: o maná recolhido para além das
necessidades diá-
rias, como medida de segurança para o dia seguinte,
aquele que não
deveriam acumular, apareceu no dia seguinte apodrecido
e infestado
de vermes (cf. Ex 16,14-21). O povo eleito não deveria
assegurar-se do
amanhã de uma maneira tipicamente humana, quer dizer,
mediante
a acumulação de reservas, visto que Deus o conduzira ao
deserto
precisamente para de tudo o despojar.

"Dá-nos o pão-nosso de cada dia? Dá-nos hoje,


para hoje e não
para amanhã, nem para todo o mês. Nós somos Sua
propriedade. Tu
cuidas daquilo que é Seu. O Senhor, no deserto, teve que
combater o
egoísmo humano, que fazia com que o povo eleito não
quisesse confiar
no Senhor, nem sequer perante um milagre. Teve que
lutar pela fé do
Seu povo.
A maturidade da fé é a disponibilidade para
entregar ao Senhor
tudo o que Ele nos dá, é o nosso total abandono nEle.
Não devemos
apegar-nos a nada, nem aos dons espirituais, nem sequer
à Sagrada
Comunhão. Há somente uma coisa a que nos é permitido
apegar e ao
fazê-lo não cometemos apropriação: a vontade de Deus.
Para além da
vontade de Deus, tudo o mais são dons e meios que nos
servem para
alcançar o nosso objetivo, mas não são o fim em si. Se nos
apropriamos
de alguma coisa, Deus vê-se forçado a destruir esse dom
que roubamos
ou, provando-nos pelo sofrimento, nos demonstrará que,
de nós pró-
prios, nada temos, que somos impotentes, e que é Ele
quem tudo nos
dá, tudo o que somos e possuímos.

Era extraordinariamente eloqüente o gesto de fé de


São Leopoldo
Mandic: o seu gesto das mãos vazias. Esse gesto das
mãos vazias por
ele dirigido a Deus era expressão do seu desejo de não se
apropriar de
qualquer dos dons de Deus. Era esse gesto de uma fé
extraordinária
que fazia milagres no seu trabalho de confessionário. Não
é apenas
nos assuntos espirituais, como era o caso de São Leopoldo
Mandic,
que o nosso gesto de mãos vazias pode ser dirigido a
Deus. Esse gesto,
expressão da nossa atitude de tudo esperarmos das mãos
de Deus, deve
também acompanhar-nos em todos os momentos da
nossa vida: na
nossa atividade profissional, na educação dos filhos, no
contato com os
outros e na oração. O gesto das mãos vazias deveria estar
também as-
sociado à sua expectativa do maior dos dons de Deus que
é Ele próprio,
ou seja, o amor que o penetra e em que você está
mergulhado.
Abandonarmo-nos a Deus

Se você quer apoiar-se em Deus, num ato de


autêntica confiança
n Ele, deve fazer-Lhe total oferta de si mesmo, porque
pode acontecer,
que confie em Deus, porém apenas na expectativa de que
se realize a
sua vontade: "Meu Deus, confio que faça a minha
vontade". Isso ainda
não é mais do que uma egoísta procura de nós mesmos.
Apoiarmo-nos
em Deus tem de ser decididamente um ato de abandono:
"Senhor, que
se faça como Tu queres, porque creio que Tu me amas e
sabes melhor
que ninguém o que me faz falta, a mim e àqueles a quem
eu amo e, pe-
los quais Te suplico". Na vida interior e na nossa
caminhada para Deus,
a confiança deverá traduzir-se num total abandono ao
Senhor.

Por ocasião do Natal de 1887, Celina, a irmã de


Santa Teresinha
do Menino Jesus, queria proporcionar-lhe uma alegre
surpresa. Fez um
barquinho de papel que colocou no centro de uma linda
bacia com
água. Esse pequeno barco trazia dentro o Menino Jesus
dormindo e
a seguinte inscrição: "Abandono" (cf. "Manuscritos
Autobiográficos" —
Ms.A,68r° — de Santa Teresa do Menino Jesus). Para
Teresinha e para
Celina esta era a palavra que norteava a sua oração. A
água simbolizava
as ondas da vida pelas quais Deus iria conduzi-las
enquanto elas deve-
riam se abandonar ao Seu amor.

A teologia da vida espiritual afirma que a paz


interior só nasce
no homem quando este se abandona a Deus. Enquanto
você não
procurar abandonar-se ao Senhor estará inquieto e o seu
coração se
debaterá como a borboleta que voa ao redor da lâmpada,
cheio de
inquietações, de problemas e preocupações. Não há
outro caminho
para alcançar a paz, senão o do pleno abandono à
vontade de Deus,
isto é, ao Seu amor.

A Santa Gertrudes, que rezava pela saúde de uma


amiga, Jesus disse:
"Incomodas-me, Gertrudes, ao pedires pela tua saúde,
pois essa doença
é uma grande graça e ela submetendo-te à Minha vontade
rapidamente
te santifica". A palavra abandono, escrita por Celina a
Teresinha no
barquinho de papel, tem uma grande profundidade.
Significa a renún-
cia aos planos e idéias próprios; significa o abandono de
tudo para
uma total entrega ao Senhor. E nós, que estamos tão
cheios dos nossos
próprios planos e projetos, enquanto a vontade e os
planos de Deus são
tantas vezes diferentes? É por isso que Deus nos deve
alterar os planos,
e essas contrariedades que se opõem aos nossos
projetos são, assim, ben-
ditas porque originadas pelo amor que sempre quer o
nosso bem.

Na nossa intenção de nos abandonarmos a Deus, a


imagem defor-
mada que muitas vezes fazemos d'Ele, pode ser um
obstáculo muito
sério. Essa deformação pode ser originada pelo fato de ver
Deus mais
como um juiz e, por essa razão, sentir receio d'Ele. Será
possível expe-
rimentar receio de Deus, ter medo d Aquele que é o amor?
Pode ser que
você tenha receio de se abandonar a Ele, temendo o que
Ele possa vir
a fazer de você. Mas deve, no entanto, saber que esse
receio consciente
de Deus, fere profundamente o Seu Coração. Outra
coisa é o medo
instintivo, que nasce por si só, espontaneamente, na
esfera psicofísica,
escapando por isso mesmo ao nosso controle. Contudo, se
consciente-
mente você aceita o receio de Deus na esfera espiritual
(nos pensamen-
tos, na vontade) prova, desse modo, uma grande
infidelidade. Se, na
verdade, sente medo de Deus, das pessoas, do mundo, é
porque em
você não há nem abandono, nem fé no amor de Deus,
nesse amor que
incessantemente o envolve.

Santa Teresinha do Menino Jesus dirá sucintamente:


"Há que
se ser como uma criança e não se preocupar com nada"
(Conselhos e lembranças; de Santa Teresinha do Menino
Jesus). Nesta curta fra-
se está contido todo um programa! Abandonar-se ao
Senhor significa
não se preocupar com nada, porque Ele nos ama e de
tudo se ocupa.
Somente quando isso acontecer, a nossa alma e o nosso
coração poderão
começar a ser impregnados da verdadeira Paz. Não
podemos desfazer-
nos dos perigos que geram o medo, mas é muito
importante eliminar
esse medo através de um ato consciente de abandono ao
Senhor.

Quando São Paulo suplicou a Jesus que afastasse da


sua vida uma
grande dificuldade, algo que contrariava os seus planos, o
Senhor res-
pondeu-lhe: "Basta-te a Minha graça, porque é na
fraqueza que a Minha
força se revela totalmente" (2Cor 12,9). Santa Teresa
escreverá: A con-
fiança e a fé aperfeiçoam-se na angústia. Isto quer dizer,
portanto, que
o seu receio desempenha um papel relevante na
economia de Deus: é
necessário para provocar em você um ato de fé. A
angústia é uma pro-
va de fé e, por isso, Deus a permite para que a sua fé se
aprofunde. A
confiança e a fé aperfeiçoam-se no meio das angústias.

O medo pode ser também um fator gerador de


doenças e acaba
por sê-lo, efetivamente, num bom número de pessoas;
costuma até ser
uma das causas das neuroses e das psicoses. Mas pode
também ser o
ponto de partida para um grande abandono. Tudo
depende de você.
A angústia é um desafio que lhe é lançado. Que fará com
ela? Aceitará
ser esmagado sob o seu peso? Ou optará por se
abandonar Aquele que é
poder e amor infinitos? Tudo depende da nossa decisão.
Na esfera dos
sentimentos não somos capazes de nos libertar dos
estados emocionais
de angústia ou, pelo menos, quase nunca. Mas a angústia
pode ser
um fator que conduza ao aprofundamento da nossa fé,
como acontece,
igualmente, com toda e qualquer tentação.

A Santa Margarida Maria Alacoque, grande apóstola


do Coração
de Jesus, disse o Senhor com grande ardor: "Deixa-Me
agir". O
Cristianismo é a religião da graça, uma religião que nos
predispõe para
que seja Cristo a agir em nós, a que nos abramos cada
vez mais à Sua
ação, devendo procurar ter uma tal abertura de coração
que permita
ao Senhor viver em nós em toda a Sua plenitude. Quando
assim o for,
Ele poderá fazer de você a Sua obra-prima, como o fez
com Maria, que
viveu na fé, na confiança e em total abandono ao Senhor.
O princípio fundamental da ação divina é que Deus não
quer ser
um intruso. Se a porta do seu coração permanece
fechada, Ele não
tentará forçá-la. "Jesus fará tudo por mim", escreveu
Santa Margarida
Maria, "desde que eu consinta que aja em mim. Em mim
amará, dese-
jará e suprirá abundantemente todas as minhas faltas". O
abandono a
Deus é a suprema forma de confiança e de apoio no
Senhor. "Já não de-
sejo mais o sofrimento nem a morte", dizia Santa
Teresinha do Menino
Jesus" e, no entanto, amo-os, mas apenas é o amor que
me atrai... agora
só me guia o abandono, já não tenho outra bússola!...
Com ardor, nada
mais posso pedir do que o perfeito cumprimento da
vontade do Bom
Deus na minha alma, sem que a isso as criaturas possam
de qualquer
modo obstar." ^Manuscritos Autobiográficos" — Ms.A,
83r° — de Santa
Teresinha do Menino Jesus). Teresa reconhece que
precisou de bastante
tempo para atingir esse grau de abandono à vontade do
Senhor, mas
finalmente o conseguiu. Deus ergueu-a em Seus braços e
lá a colocou
(cf. Manuscritos Autobiográficos; Ms.Cy3r°). O seu
abandono a Deus e a
aceitação da Sua vontade em todas as circunstâncias só
serão completos
quando você for capaz de dizer: amo tudo o que Deus me
envia.

O amor zeloso de Deus

O Senhor foi tomado de um amor cioso por


você. Tomado de um
amor cioso, quer dizer que Ele quer ser o seu único
Senhor, o seu único
amor. O Senhor chama-nos à conversão, que comporta
sempre dois ele-
mentos: convertermo-nos "de" e convertermo-nos "a".
Devemos afas-
tar-nos de tudo o que nos afasta d'Aquele que é o único
Senhor e a
quem exclusivamente pertencemos. Devemos desviar-nos
dos elemen-
tos destruidores que nascem no mais fundo do nosso eu,
isto é, do
egoísmo que procura seguranças.
J

Se você criou para si um sistema de segurança e se,


em seguida,
Deus fez com que o seu "maná" apodrecesse, não se
esqueça de que Ele
o fez por amor. Deus o despoja daquilo que o escraviza
e que e sinal da
sua falta defé no Seu amor y porque Ele é o único
Senhor, o Seu Senhor
e Senhor do seu "maná", isto é, do pão de cada dia, da
sua existência.
Tudo depende d'Ele. Reconhecendo-O ou não, Ele
continuará a ser
o seu único Senhor, porém um Senhor que o ama. Ele não
quer que você se perca no enganoso reino de um falso
deus, porque esse reino o
destrói. Você é propriedade do Senhor, com tudo o que
possui, com o
seu corpo e alma, com o seu trabalho que também
depende d'Ele, com
a sua casa que é Sua propriedade e com os seus filhos
que Lhe perten-
cem, tal como o seu tempo também Lhe pertence, esse
tempo que, por
vezes, Lhe regateia como um avarento.
O Evangelho diz que não se pode servir a dois
senhores. "Servir",
em grego, significa viver em sujeição absoluta ao seu amo
como um
escravo. No tempo da escravatura, um escravo não tinha
tempo para
si, era o amo quem dispunha totalmente do seu tempo e
para sempre. A
Deus devemos dar tudo, há que saber devolver-Lhe o
que é d'Ele, e esse
é o programa da nossa conversão. Há também que
aceitar o Seu amor
cioso, recebê-Lo como único Valor e único Amor. Nas
palavras "amor
cioso" está contida toda a profundidade do amor de Deus,
porque se
trata de um amor que é cioso não para Si, mas por você;
zeloso de que
você não se perca ao serviço dos falsos deuses.

O homem que chega à união com Deus e à


santidade é alguém que
recebeu Cristo até às últimas conseqüências, como único
amor.

Há dois tipos dos que crêem: aqueles que


acumulam méritos e aque-
les que simplesmente procuram amar. Ora, amar não
significa somente
dar, mas até e em maior grau receber, acolher o amor da
outra pessoa.
Amar a Deus significa aceitar o Seu amor, o Seu amor
ciumento, amor
zeloso e louco, que deseja protegê-lo de tudo aquilo que
possa represen-
tar um risco para a sua liberdade ou para a sua fé.

O Senhor arde num cioso amor por você. Esse amor


é o tormento
de Deus, é a ânsia que Deus sente por você, que é Seu
filho, proprieda-
de Sua. Ele lutará para possui-lo. O Seu amor zeloso será
por vezes di-
fícil, porque às vezes você escapa das Suas mãos e
caminha em direção
ao abismo, sem que, com freqüência, disso aperceba.
Porém, de vez em
quando, Deus terá que sacudi-lo, terá que lhe dar graças
"difíceis", mas
o fará para o salvar, para que em definitivo você se
abandone a Ele, ao
Seu zeloso amor.
CAPÍTULO 4

CRER E
RECONHECER
A PRÓPRIA FRAQUEZA
E ESPERAR TUDO DE
DEUS

À luz da fé podemos descobrir a nossa fraqueza e


assim esperar
tudo de Deus. Walter Kasper escreve que segundo os
sinópticos "a fé é
o conhecimento da própria impotência e a confiança no
poder divino
que atua em Jesus" (cf. "Introdução à Fé", cap.V). Aquele
que crê nada
espera de si mesmo, toda a sua esperança está posta em
Deus. O Seu
poder será capaz de agir em nós, quando na fé
reconhecermos a nossa
fraqueza, tornando-nos, assim, pobres em espírito.

A moral do evangelho não é apenas a dos


mandamentos, mas é,
em primeiro lugar, a das Bem-aventuranças. E
sobretudo a moral da
primeira B em-aventurança: "Benditos os pobres de
espírito, porque deles é
o Reino dos céus' (Mt 5,3)- São felizes porque
verdadeiramente entram
no Reino.

"Bem-aventurados os pobres de
espírito"

Aquele que procura prioritariamente o Reino de


Deus, ou seja,
aquele que procura a santidade, há de encontrá-la, bem
como todos
os outros dons espirituais e temporais necessários à sua
vida. "Bem-aventurados os pobres de espírito", que não
estão apegados a coisa al-
guma, que nada possuem e tudo esperam de Deus. Bem-
aventurados
sejam, pois nos seus corações há espaço para Deus. A
estes pertence
o Reino do Céu, pois Deus habita neles. E o Evangelho da
alegria
dos Bem-aventurados cujos corações estão inteiramente
livres para o
Senhor.

A sua fé é proporcional à sua pobreza de espírito. A


palavra "pobre",
na Bíblia, nem sempre designa a indigência no sentido
material. 'Pobre
em espírito' era, por exemplo, o rei Davi, apesar de
ocupar o lugar mais
elevado na escala social. O homem pobre de coração é
aquele que vive
despojado de toda a segurança, que sabe que as suas
forças não lhe
bastam. Tal homem está disposto a receber tudo de Deus,
a não lançar
raízes na vida temporal.

Se você se sente forte no que diz respeito às suas


capacidades natu-
rais, a sua fé não pode desenvolver-se nem aprofundar-se.
Você deve,
por isso, reconhecer a sua fraqueza e que há coisas das
quais você não
é capaz. Será uma experiência para fazer apelo à sua fé. A
sua fraqueza,
a sua impotência e incapacidade serão essa espécie de
fenda através da
qual poderá infiltrar no seu coração a graça da fé. Através
das nossas
feridas, Deus concede-nos a graça do aprofundamento da
fé.
Charles Péguy, um grande convertido dos nossos
tempos, escreveu
o seguinte: "Há uma quantidade tão incrível de luzes de
graça pene-
trando mesmo a alma má e perversa, que vemos salvo
aquele que pa-
recia perdido. Mas, jamais se viu deixar-se impregnar o
que era enver-
nizado, repassar o que era impermeável, nem se viu
tornar-se brando o
que era duro... Daqui provém as numerosas falhas que
observamos na
eficácia da graça que, enquanto alcança vitórias
inesperadas nas almas
dos grandes pecadores, com freqüência fica inoperante
naquelas pes-
soas 'de bem'" {Nota conjunta sobre M. Descartes e a
filosofia cartesiana
- sábado, 1 de agosto 1914).

Acontece assim porque a essas pessoas "de bem", a


esses adultos no
sentido bíblico, nada lhes falta, nunca foram feridos, são
fortes e au-
tosuficientes. Numa palavra: são adultos. "A sua pele
moral invariavel-
mente intacta" - escreve Péguy — "tornou-se para eles rija
como couro
e couraça lisa impenetrável, sem beliscão. Esses não
apresentam aquela abertura produzida por ferida
dolorosa, nem por algum inesquecível
tormento, nem sequer aquela dor jamais superada, um
ponto de sutura
eternamente mal ajustado, a inquietação mortal, uma
secreta amargu-
ra, uma ruptura inconfessável, uma cicatriz nunca
fechada. Eles nem
sequer apresentam essa abertura à graça que pode ser
essencialmente
o pecado. Como não estão feridos, não se encontram
vulneráveis. Já
que nada lhes falta, nada recebem. Como nada lhes custa,
tampouco
podem receber Aquele que é Tudo. O Amor de Deus não
pode curar
aquele que não apresente ferimentos. O bom samaritano
levantou do
chão aquele homem justamente porque ele jazia por terra.
Foi porque
a face de Jesus tinha sido suja, que a Verônica pôde limpá-
la. Porém,
quem nunca caiu", afirma Péguy, "nunca poderá ser
levantado e, quem
não está manchado não se tornará limpo" (ibid.) Aqueles a
quem cha-
mamos "pessoas como deve ser", os adultos, são
impermeáveis à graça.

Talvez na sua vida haja também algo dessa terrível


ferida que não
cicatriza, talvez haja um inesquecível tormento, uma dor
pelo que pas-
sou, uma angústia de morte, talvez uma amargura
dissimulada - uma
das muitas que o mundo proporciona - qualquer coisa que
se desmoro-
nou. Você acha, então, que tudo acabou, quando na
realidade se passa
o contrário. Tudo isso deve ser para você um canal de
graça. Deus per-
mite que você sofra todas essas feridas e dificuldades
para que se sinta
fraco, e por meio dessa fraqueza, se abra à Graça.

Quando o sofrimento dolorosamente o atingir,


lembre-se que essa
dor é bendita e que na sua carapaça blindada de pessoa
adulta, irre-
preensível, ela o ajuda a abrir espaço para a Graça. Tudo
isso constitui
para você uma oportunidade de aprofundar a fé. A sua
fraqueza torna
possível que, pela fé, o poder de Deus habite em você.
Deus, para Se
aproximar de você, tem que torná-lo mais fraco, para que
precise d'Ele,
e para que, pela fé e confiando cada vez mais, procure
n'Ele o seu
apoio. Deus tem que vergá-lo porque você é demasiado
grande. Ora, o
ferimento obriga a vergar. Daí que cada ferimento possa
ser para você
uma oportunidade de se tornar cada vez mais criança no
sentido bíbli-
co. As vezes são precisas tantas feridas para nos
tornarmos "crianças" e
podermos enveredar pelo "pequeno caminho".
O poder de Deus e a fraqueza do
homem

Ao aproximar-Se do homem, Deus debilita-o. Faz


exatamente o
contrário do que poderíamos esperar. Parece-nos que
somos nós que
nos aproximamos d'Ele e que, assim sendo, deveríamos
ser cada vez
mais fortes e, por nós mesmos, resolver tudo cada vez
melhor. No en-
tanto, é Ele quem se aproxima de você, e ao aproximar-
Se, torna-o
mais fraco, quer física, psíquica ou espiritualmente. Deus
faz isso para
poder habitar em você todo o Seu poder, porque é a sua
fraqueza que
abre espaço para Ele agir. Quando você está em situação
de fraqueza,
náo pode confiar nem acreditar em si mesmo e é então
que a você é
oferecida uma oportunidade de voltar e de se apoiar n'Ele.

Com muita freqüência você se defende da maior


das graças, a graça
da fraqueza, apesar de São Paulo ter escrito: "'Basta-te a
Minha graça,
pois é na fraqueza que a Minha força se revela
totalmente'. Por conse-
guinte, prefiro gloriar-me das minhas fraquezas para que
habite em mim
a força de Cristo. (...) Pois quando me sinto fraco, então é
que sou forte"
(2Cor 12,9-10). O seu poder e a sua força, mais tarde ou
mais cedo,
terão que ruir. Na realidade não há qualquer força que
pertença a você,
porque ela é um dom - um dom do qual você se apropria e
que, por
isso, lhe deve ser tirado.

São Maximiliano Maria Kolbe, durante muitas das


suas extraor-
dinárias viagens apostólicas, sentia-se perfeitamente
desamparado. As
vezes encontrava-se em climas muito difíceis de serem
suportados por
seus pulmões doentes. Sofria muito o incômodo das
viagens, sobretudo
por mar, por causa da umidade que, muitas vezes, quase
o impedia de
respirar. Tudo isto, porém, não deteve o seu desejo de
anunciar o reino
da Imaculada no mundo inteiro, apesar de mais do que
uma vez, ter
sentido que não poderia sequer agüentar uma hora de
barco. Dizia,
então, à Virgem Maria: "Se não posso agüentar nem uma
hora, como
poderei dilatar o seu reino?". Verdadeiramente, aquela
mesma fraqueza
era toda a sua força.

Se Deus quer servir-Se de você, o faz unicamente


baseando-Se na sua fraqueza. Quando você procura ser
apóstolo apoiado na sua força e no
seu poder, você se torna um contra-sinal. As pessoas não
desejam o seu poder, a sua própria força, pois isso para
elas se torna humilhante. Deus, tão pouco, necessita da
sua força, para fazer de você um sinal
e para Se servir de você, mas pelo contrário, precisa da
sua fraqueza. Esta idéia foi exposta de uma maneira
muito eloqüente já no Antigo
Testamento, no exemplo de Gedeão (Jz 7,1-8,10). O
adversário de
Gedeão tinha um exército de 135 mil homens, enquanto
Gedeão dispunha apenas de 32 mil, ou seja quatro vezes
menos. No entanto, a
história conhece vitórias obtidas apesar de proporções
desfavoráveis.
Para Deus, aquela desproporção apresentava-se, contudo,
ainda peque-
na. Ordenou que fosse reduzido o número dos guerreiros
de Gedeão.
Numa primeira seleção a sua quantidade foi reduzida de
32 mil para
10 mil. A tropa de Gedeão é agora treze vezes menos
numerosa. Na
história da estratégia militar desconhecem-se vitórias
alcançadas com
tanta desvantagem, mas mesmo assim, o homem poderia
ter atribuído o triunfo a si próprio, atribuí-lo à sua própria
genialidade. Gedeão
continuava a ser demasiadamente forte, continuava em
condições de
contar com as suas potencialidades. Deus, submeteu-o,
ainda, a nova
prova tendo ordenado que ficasse unicamente com 300
guerreiros.
Nessa altura, já não se sabia se a situação era trágica ou
cômica. Parece
totalmente ridículo defrontar-se com um inimigo que é
450 vezes mais
forte. A vitória só poderia ser obtida por Deus, porque já
estava fora
do alcance de Gedeão. Mas Gedeão combateu com aquele
punhado de
homens e venceu. Aquela esmagadora desproporção fez
com que nem
sequer sentisse a tentação de se julgar o autor da vitória.
Toda a situ-
ação foi levada até ao absurdo, como se Deus sorrindo
dissesse: "Vês,
Gedeão, querias vencer graças à sua habilidade e à força
do seu exérci-
to. Repara, ficaste com 300 homens para enfrentar 135
mil inimigos.
Que te parece?". Gedeão confiou no Senhor, e obteve um
triunfo sem
precedentes na história.

O Senhor guarda o Seu tesouro em frágeis vasos de


argila, para que
esse incomparávelpoder se reconheça vir de Deus e não
de nós (cf. 2Cor
4,7). Deus despojou Gedeão do seu poder humano,
tornou-o pequeno
e fraco, fez algo que humanamente parecia um absurdo.
Algo seme-
lhante pode também ocorrer na sua vida. Se há em você
esses 32 mil
elementos de poder humano, o Senhor os reduzirá,
primeiro a 10 mil e
posteriormente a 300. Então você ficará realmente muito
fraco, quase desfalecido, mas graças a essa fraqueza
poderá ir alcançando vitórias.
Essas serão devidas, náo ao seu poder, mas ao poder de
Deus.

A pobreza de Cristo

A fé entendida como expressão da pobreza


espiritual, encontra o
seu modelo na Vida e na Pessoa de Jesus Cristo. Ser pobre
significa ser
dependente. Na vida de Jesus vemos três momentos nos
quais a sua
pobreza atinge o extremo, em que Ele — Deus — se torna
totalmente
dependente e Se apresenta na Sua impotência, como que
atingido pelo
fracasso: em Belém, no Calvário e no Santíssimo
Sacramento.
Se ser pobre significa estar em completa carência,
Jesus tornou-se
totalmente dependente já em Belém. Lá já se manifestava
essa extrema
impotência, podendo até dizer que chegou a haver
fracasso, porque
Jesus não foi aceito pelos Seus, tendo de nascer em
condições quase
desumanas.
Cada vez que você experimenta a sua incapacidade
em situações
em que se sente ultrapassado, você está participando
dessa total fra-
queza de Jesus.

O Calvário foi a segunda situação de despojamento


de Jesus: e
ele é de uma terrível eloqüência. Naquele lugar tão pouco
podia se
valer de alguma coisa, porque as Suas mãos, mãos que
haviam aben-
çoado multidões, agora estavam cravadas na Cruz,
ensangüentadas.
Tampouco pode servir-se dos pés, porque esses pés que
haviam levado
o amor e a Boa-nova a toda a parte, estão agora
pregados. No Calvário,
Jesus viu-se despojado de tudo. A Cruz é a expressão da
loucura do
amor de Deus. O despojamento a que Jesus Se viu
submetido, naquele
lugar chegou ao extremo.

A outra expressão do despojamento de Jesus é o


Santíssimo Sa-
cramento. Também aqui se manifestam a impotência e o
aniquila-
mento, apesar de que se trata naturalmente de uma
impotência e de
um fracasso aparentes, como sucedeu no Calvário. No
Santíssimo
Sacramento, Jesus guarda também silêncio quando nos
dirigimos a
Ele. No tabernáculo permanece despojado, a tal ponto que
qualquer um pode retirá-Lo e trasladá-Lo aonde queira:
pode recebê-Lo mas
pode também profaná-Lo. Pode, pois, fazer literalmente o
que quiser.
Aqui vemos o impressionante mistério do despojamento
de Cristo, da
Sua pobreza, da Sua "kenosis", do dom total de si mesmo
ao homem.

Nessas três situações: Belém, Calvário e Santíssimo


Sacramento, o
amor de Jesus chega à loucura, ao extremo da pobreza.
Mas é precisa-
mente graças a essa loucura e a essa pobreza que Jesus
traz para você
a Redenção, a fé. O silêncio de Deus, a Sua impotência e o
Seu "fra-
casso", são um escândalo para o mundo que desejaria
antes um Deus
cheio de poder visível. A Cruz foi, e continua sendo,
escândalo para
aqueles que não crêem, mas para os que crêem, ela é o
poder supremo.
Também, a Sua Cruz deve ser entendida como
despojamento e pobre-
za, que faz em você o espaço para a graça - a graça da fé.
Reconhecer que tudo é dom

A fé é o reconhecimento da fraqueza própria, é o


reconhecimento
de que nada se possui e de que tudo é dom. E esperar
tudo, esperar
todos os dons das mãos de Deus. O contrário da fé assim
entendida é
o orgulho. O homem orgulhoso considera todos esses
dons como seus
e apropria-se deles. Considera que tudo depende de si,
como se na sua
vida não existisse esse constante dom de Deus.
Evidentemente que a
fé é algo difícil. Viver na fé é nascer de novo, nascer para
a pobreza de
coração, para a atitude de infância espiritual.

O dom deve ser sempre recebido com tal


desprendimento que per-
mita a sua restituição a qualquer momento. Trata-se de
um admirável
paradoxo. Somos obsequiados para que, ao aceitar os
dons de Deus,
estejamos prontos a devolvê-los. Estarmos sempre
dispostos a entregar
a Deus os dons recebidos é sinal de que não houve
apropriação; é ex-
pressão da verdade de que nada nos pertence. Então, o
dom que devol-
vemos a Deus recebêmo-lo redobrado. Tudo é graça: a
sua alma e o seu
corpo, o seu cônjuge, os seus filhos, o que você tem e o
que faz - tudo
é propriedade do Senhor. Você está disposto a entregar
em qualquer
momento cada um desses dons?
O episódio do jovem que tristemente se afastou
depois do Senhor
lhe ter proposto a renúncia aos seus bens materiais, tem
um epílogo.
Quando o jovem foi embora, Jesus disse: "Quão
dificilmente entrarão
no reino de Deus os que têm riquezas" (Mc 10,23).
Notemos que aquele
jovem cumpria todos os mandamentos. Isso significa que
não basta
cumprir os mandamentos. Referindo-se a ele e a outros
como ele, Jesus
diz: "E mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma
agulha do que um
rico entrar no Reino de Deus" (Mc 10,25). E uma
afirmação tão forte,
que os Apóstolos, impressionados, perguntaram: "Quem
poderá então
salvar-se?" (Mc 10,26).

Aquele jovem que parecia estar aberto a Deus era


escravo das coi-
sas temporais, escravo do seu patrimônio e da sua
situação social. São
Lucas falando sobre Ele, disse que era pessoa ilustre, o
que significaria
que ocupava algum cargo importante (cf. Lc 18,18). Tais
circunstâncias
têm a prerrogativa de criar obstáculo na relação entre o
homem e Deus
e podem revelar-se impedimentos de tamanhas
proporções que muito
dificultem a salvação da pessoa. O apego ao temporal,
àquilo que Deus
criou, àquilo que é apenas um dom Seu, mas não é Ele
próprio, pode
escravizar-nos a tal ponto que, não só dificulta a nossa
salvação, mas até
a compromete totalmente.

Numa viagem que fiz a San Giovanni Rotondo


encontrei um cien-
tista que viajou comigo para visitar o Padre Pio e pedir-lhe
a bênção
para a sua obra. Trazia dois volumes dessa obra que
acabara de publicar
e que qualificou como opus vitae, isto é, a obra da sua
vida. Durante a
confissão fez a apresentação da obra ao Padre Pio e
pediu-lhe a bênção.
A reação do Padre Pio foi aterradora, mas sobretudo cheia
de assombro:
"Esta é a tua opus vitae, é a obra da tua vida?" Pegou nos
dois livros
e voltou a perguntar: "E esta a obra da tua vida? Quer
dizer" - disse
quase gritando — "que viveste quase sessenta anos para
escrever estes
dois livros e que foi esse o objetivo da tua vida? Essa é a
tua opus vitae
e, foi para isso que viveste? E a tua fé, onde está?" Em
seguida suavizou
o seu tom de voz, como se tivesse notado a inconsciência
daquele ho-
mem e com a doçura de um pai, perguntou: "Decerto
investiste neste
trabalho um grande esforço, não foi? Porventura passaste
muitas noites
em branco. E a tua saúde? Pois, claro, sofreste um
enfarte. E tudo ao
serviço da ambição de criar este tipo de opus vitae.
Repara", continuou, "o que significam os ídolos e os
apegos. Se tivesses feito o mesmo, mas para o Senhor,
tudo seria diferente. Mas, te dás conta de que te apro-
priastes de tudo? Tudo isso, será de fato a tua opus vitae,
obra tua?" O
final daquela confissão foi também ao estilo do Pe. Pio.
Subiu uma vez
mais a voz: "Se somente vieste por esse motivo, podes ir
embora!" O
Padre Pio era rude, mas na sua aspereza estava refletido o
seu grande
amor por cada homem e por cada penitente. Ele era um
homem cheio
de amor, porém, o amor é algo muito forte. Esse amor do
Pe. Pio fez
com que a comovedora conversa, juntamente com a
confissão, tivesse
se transformado num momento de conversão na vida
daquele cientista.
Aquele homem começou realmente a pensar e a olhar o
mundo de
modo diferente.

Abraão, nosso pai na fé, recebeu um dom


admirável: um filho nas-
cido tardiamente na sua velhice. Aquela foi a sua maior
alegria, pois
tinha recebido o maior tesouro para um ser humano: um
filho, um
sucessor. Os pais habitualmente apropriam-se dos seus
filhos, e é pos-
sível que Abraão tivesse sucumbido a essa tentação. Mas,
quando Deus
pediu a Abraão a vida do filho, ele imediatamente a
cedeu. E, aceitou
mesmo entregar da forma mais dramática aquele dom
recebido. Mas,
que teria acontecido se Abraão tivesse decidido não
entregar o seu fi-
lho? Se ele tivesse se revoltado e considerado que a
ordem de Deus era
demasiado cruel? Que teria então sucedido? Isaac teria
morrido. Pouco
importa quais poderiam ter sido as circunstâncias da sua
morte, fosse
na seqüência de uma doença, ou que tivesse perecido
numa luta, ou
até sido devorado por algum animal selvagem. De uma ou
de outra
forma, seria tirado de Abraão, porque se interpunha entre
ele e Deus.
Isaac teria se tornado para Abraão um obstáculo ao seu
total abandono
a Deus na fé. A recusa de entregar o filho, teria significado
que Abraão
se apropriara dele. De fato, a apropriação de um dom
eqüivale sempre
à sua destruição, é como um golpe contra si mesmo e
contra o próprio
dom. Ao ceder entregar o seu filho não só o recuperou
mas, ao mesmo
tempo, recebeu o dom multiplicado: a graça da santidade
na qual o
filho também participou. Abraão e Isaac são os primeiros
santos pa-
triarcas da Antiga Aliança.

A semeadura da desconfiança

Quando analisamos o mecanismo da formação do


mal no homem,
damo-nos conta de que nas raízes do mal se situa a falta
de simplicida-
de e de confiança em Deus, própria da criança. Assim foi
desde a ori-
gem da humanidade, quando o primeiro casal humano foi
submetido
à prova da fé. No próprio início da história do homem, a
sua confiança
em Deus foi posta à prova. Era como se Deus perguntasse
ao homem:
"Confias em Mim? Tens, para Comigo, a simplicidade e a
confiança
próprias da criança?". O texto bíblico diz-nos claramente
que o homem
foi atacado por Satanás precisamente nesse ponto.
Satanás não per-
suadiu o primeiro casal humano da prática do mal
enquanto tal, não
incitou-os diretamente ao pecado. O que faz é semear a
desconfiança,
de maneira psicologicamente perfeita, como só ele sabe
fazer. Não diz:
"Sejam infiéis, desobedientes!". Não! O que ele procurou
foi convencê-
los de que em Deus não há amor, não há sinceridade,
nem verdade.

Na base do mecanismo do mal, que gerou o pecado


original, está
a semeadura da desconfiança, que tem grande
repercussão psicológi-
ca. O homem que não confia entra em estado de
insegurança. Se te-
nho falta de confiança em determinada pessoa, essa como
que se torna
numa ameaça para mim e começo a ter-lhe medo. O
pecado da falta
de confiança origina a insegurança e a ansiedade de que
tanto se fala
em psicologia e em psiquiatria e que são indicadas como
algumas das
principais causas do sofrimento humano.

Assim, como não estamos livres do pecado, não


podemos estar li-
bertos de tudo o que deriva dele, como a inquietação, o
medo e o sen-
timento de insegurança. Também nós somos tentados
pela semente de
desconfiança. Se existe, pois, falta de confiança na
relação com Deus,
o homem sente-se como que enjaulado e o decorrer da
vida no interior
dessa espécie de "jaula" de insegurança torna-se uma
coisa terrível. O
pecado destrói também o homem, porque está
atormentado pela an-
gústia ligada ao próprio pecado. Considerando que uma
das necessida-
des psicológicas fundamentais do homem é a segurança,
a falta desta é,
então, algo que nos atinge particularmente. Por
conseguinte, estamos
apenas a um passo da constatação de que merecemos a
ansiedade con-
tra a qual não lutamos.

A Obra Redentora de Cristo, na qual, pela fé, somos


participantes,
continua ainda hoje e abrange não só o nosso pecado mas
também
todo o seu contexto. Assim, a ansiedade e a insegurança
tornam-se
igualmente objeto da Redenção. Ao morrer na Cruz, Jesus
redimiu-nos
da ansiedade e da insegurança, do mesmo modo que nos
redimiu do
pecado. Por isso, toda a sua vida deve ser orientada cada
vez mais para
uma maior abertura à ação salvífica de Cristo. Com efeito,
da Cruz
flui incessantemente a graça para que você possa ser
salvo do pecado e
também da angústia.

Como lutar contra a angústia, que nos cerca por


todos os lados? Se
você se envolver em luta direta com ela, acabará em
fiasco. Só existe
um caminho infalível: Abrir-se à ação redentora de Cristo,
por meio
de uma fé semelhante à de crianças, como a citada na
Bíblia. Você
tem que acreditar que Jesus o redimiu de tudo aquilo que
o ameaça,
que você é livre e deve dizer a si mesmo: "Não há nada
que me possa
ameaçar, porque Ele me salvou e me libertou de tudo;
devo somente ter
disso plena consciência". A f é é a aceitação, é o processo
de acolhimento
da ação salvífica de Cristo.

Um dia, quando São Pedro passava, por uma das


portas do tem-
plo de Jerusalém, encontrou um paralítico que pedia
esmola: "Não
tenho ouro nem prata, disse, mas o que tenho, dou-te: Em
nome de
Jesus Cristo Nazareno, levanta-te e andar ( A t 3,6). Logo, o
enfer-
mo se levantou. Se bem que aquele pobre paralítico,
pedinte, estava
totalmente desamparado, mas tinha muita esperança.
Decerto teria
também muita daquela fé de criança, pois recebeu muito
mais do que
esperava. Você, que está paralisado pela ansiedade e pela
inseguran-
ça, não pode ficar, necessariamente curado de imediato,
como aquele
doente do relato bíblico. A sua cura dependerá, a priori,
da intensi-
dade da sua fé. Será preciso que tenha realmente uma
confiança de
criança. De fato, a sua cura pode acontecer num só
instante ou pouco
a pouco. Esse paralítico, que simboliza a sua situação
será, neste caso,
levantado cada vez mais alto, mas gradualmente, pela
mão de Cristo,
até que possa erguer-se com firmeza. No entanto, esse
lento levantar-
se é também fruto da Redenção de Cristo.

Crer é difícil, mas mais difícil ainda é não acreditar.


Procure o mais
freqüentemente possível, tomar consciência de que você
não está só. De fato, Cristo, o seu Salvador, está junto de
você. Procure opôr-se
às angústias que o abatem, através duma interior atitude
de criança
impotente. Diga a Jesus: "Sei que queres purificar-me
dessa espécie
de lepra, e também que já me redimiste dela." Você sabe
que pode ser
testemunha de um milagre? Recorde o que Cristo disse:
"Se tivésseis fé
do tamanho de um grão de mostarda, diríeis a este
sicômoro: Arranca-te e
vai plantar-te no mar. Ele obedecer-vos-iá* (Lc 17,6). Você
veria, então
que, apesar de aos olhos do mundo a fé ser algo
"desvalorizado", como
a semente de mostarda, como o mais minúsculo grão,
essa fé possui
verdadeiramente o poder ilimitado de Deus. Você veria
que é ela que o
abre à ação redentora de Cristo e que, de modo
miraculoso, elimina a
angústia. Então, num ápice, você se sentiria um homem
livre.

Você foi criado para a liberdade e para a paz, por


meio da fé que
abre você à Redenção realizada em Cristo, você deve
permanentemente
converter-se a essa mesma fé, pois ela é um processo
contínuo. Esse
processo atinge maior profundidade através de atos de fé,
que nascem
com maior freqüência diante de situações ameaçadoras.
Despertando
no seu intimo, atos de fé, em todas as situações,
conhecerá o tranqüilo
repouso da criança aconchegada nos braços de Seu Pai
que o ama.

O essencial do "pequeno caminho" de Santa


Teresinha do Menino
Jesus é a atitude de criança, livre de toda a espécie de
medos graças à
confiança própria da infância. Se, na origem da
humanidade, o pe-
cado surgiu como resultado da semeadura da
desconfiança, então o
"pequeno caminho", que sublinha a importância da
atitude de criança
na confiança e no abandono a Deus, constitui o antídoto
que podemos
aplicar e é, por excelência, a antítese daquele
acontecimento. O progra-
ma do "pequeno caminho" atinge o mal na sua própria
raiz, porque a
falta de confiança, essa semente de desconfiança para
com Deus, é a
origem de todos os seus pecados, de todas as suas
angústias existen-
ciais ou psíquicas e, indiretamente, também físicas. Se
você confiar
no Senhor, poderá extirpar pela raiz aquilo que o destrói.
Confia no
Seu amor! A prova de fé a que foram submetidos os
nossos primeiros
pais não foi excessivamente difícil, mas a Bíblia fala-nos
também da
tremenda provação a que Deus submeteu Abraão. Ele
recebeu a ordem
terrível de matar o seu próprio filho. Tratava-se, então, de
uma situa-
ção em que teria sido fácil expôr-se à germinação da
desconfiança: não confiar, mas revoltar-se. Abraão, no
entanto, e apesar das trevas que
o envolviam, confiou. Como é importante uma confiança
assim tão
plena em Deus, confiar como criança n Aquele a Quem
tanto ferimos
com o nosso pecado de desconfiança!
Se porventura lhe sucedeu alguma vez que alguém
a quem mui-
to amava, tenha perdido a confiança em você, então você
sabe bem
como é doloroso. E, não se tratando de uma mera
situação de amizade
humana lesada pela desconfiança, mas de idêntica
situação ligada ao
amor infinito de Deus, podemos imaginar como deve ser
grande a dor
infligida, pela nossa desconfiança, Aquele que é o Amor.
Se você diz:
"Tenho medo de tudo entregar a Deus", esteja certo de
que O estás
ferindo como com uma bofetada, pois é como se Lhe
dissesse: "Não
confio em Ti, não sei o que pretendes fazer comigo." Se
uma criança
dissesse semelhante coisa a sua mãe lhe causaria grande
mágoa. Qual
não será, pois, a dor de Deus, quando o homem O flagela
com seme-
lhante falta de confiança?! A desconfiança é, em certo
sentido, pior do
que o pecado, pois ela é a raiz e a própria causa do
pecado. Se você
não quer confiar, se o seu inimigo conseguiu semear no
seu coração
a desconfiança, as conseqüências vão surgir: ansiedade e
sensação de
insegurança e ainda o sofrimento delas resultante. Serão
as conseqüên-
cias desse mal a mostrar-lhe o quanto você se afastou de
Deus.

O sofrimento, a angústia e a insegurança serão para


você um inces-
sante apelo à conversão. Deverá carregar o fardo da
angústia até que
se converta, até que seja como um pequenino que com
simplicidade se
entrega nos braços do Seu amado Pai. "É preciso aplicar o
tratamento
ao doente demoradamente", diz L. Szondi, "até que
aprenda a orar".
Não consiste, porém, no mero recitar de uma prece, antes
de uma pro-
funda atitude de oração, oração da criança confiante que
se abandona
plenamente nos braços de Seu Pai.

A pobreza de coração enquanto


atitude de infância

Crer, como já referimos, é reconhecer a própria


fraqueza esperando
receber tudo das mãos de Deus e equivale, portanto, a ter
atitude de criança. A criança reconhece, de fato, que
carece de tudo e que não é
capaz de nada. Está cheia de expectativas e acredita que
há de receber
tudo quanto necessita. "Se não vos tornardes como
crianças não entra-
reis no Reino dos Céus" {Mt 18,3). A conversão à atitude
de criança, é
condição indispensável para entrar no Reino de Deus. E
preciso que
algum dia você se torne criança, ou seja, confiante,
humilde, esperan-
do tudo do Senhor. Se isso não acontecer aqui, terá que
se realizar no
Purgatório. O estado de infância espiritual é
absolutamente indispen-
sável, não apenas para a santificação, mas também para
a salvação.

Aquele que é criança na perspectiva bíblica espera


tudo de Deus, li-
teralmente tudo. A dimensão de infância da nossa fé
eqüivale a que não
nos apoiemos em cálculos vulgares, humanos, mas que,
em vez disso,
esperemos algo a que a criança chamaria surpresa, ou
seja a espera de
um milagre. Na medida em que você for criança será
também jovem
de espírito. Uma pessoa pode ser já velha aos vinte anos.
Mas, pode
também ter oitenta anos e graças ao espírito de infância,
permanecer
jovem. Deus é sempre jovem e a Igreja, instituída por
Cristo, também
o é, e por isso é que precisa de pessoas de espírito jovem;
daí que precise
que haja em você, aquela criança capaz de crer em tudo.
O "velho", habituado a calcular tudo, a fazer o
permanente balanço
do positivo e do negativo, limita as possibilidades da ação
de Deus,
porque põe entraves ao Seu amor e à Sua misericórdia.
Calcular e
contabilizar continuamente - se isto pode ou não ser bem
sucedido, se
aquilo terá ou não hipóteses de êxito - são características
próprias da ve-
lhice. A criança quer a lua e está certa que a terá. Ora, na
realidade Deus
quer dar a você bem mais do que a lua. Quer dar-lhe o
Seu Reino, mas,
se você não tem atitude de criança, é como se Lhe
amarrasse as mãos.

Crianças são também os "violentos" do Evangelho,


de quem Jesus
diz que arrebatam o Reino dos Céus (cf. Mt 11,12).
Quando a criança
quer entrar em casa o faz a todo o custo, desfechando na
porta socos
e pontapés até que esta seja aberta. Jesus disse: "Batei e
abrir-se-vos-ã"
(Lc 11,9). Se soubéssemos bater insistentemente às
portas que en-
contramos cerradas - fechadas para que batamos como as
crianças -
então estas haveriam de se abrir. Deus precisa da sua
fede criança para
poder operar milagres, em você e através de você, pois
para Deus não há impossíveis. "Tudo é possível para
quem crê" {Mc 9,23). Tudo é pos-
sível para aquele que é como a criança que Jesus aponta
no Evangelho.

O Evangelho mostra-nos duas anunciações: a


anunciação a Zacarias
e a anunciação à Virgem Maria. Zacarias mostrou ser
velho, tanto em
idade, como em espírito, um homem que atava as mãos a
Deus por não
ser capaz de acreditar na possibilidade do milagre. Para
que chegasse
a crer, teve que ser atingido por outro milagre, doloroso
para ele: o da
privação da fala. Tal velhice espiritual do homem, incapaz
de crer em
milagres, é para Deus algo terrível. O homem a quem falta
a atitude de
criança reduz, de certo modo e antecipadamente, a nada
a eficácia das
suas orações, uma vez que há nele algo da atitude de
Zacarias. Aquele
ancião irrepreensível, "justo diante de Deus", não possuía
descendentes
e suplicava um filho. Rezava, mas a verdade é que, ao
mesmo tempo,
não acreditava sinceramente que Deus quisesse atendê-
lo. Quando o
Anjo lhe anunciou: "O seu pedido foi atendido, Isabel sua
mulher dará
à luz um filho" {Lc 1,13), ele reagiu como se não quisesse
receber o fi-
lho: não acreditou no milagre. Expôs um argumento
contrário ao seu
próprio pedido: "Sou velho e a minha mulher já de
avançada idade" {Lc
1,18). Homem "velho" que perdera a fé no seu Deus!
Também nós nos
parecemos freqüentemente com Zacarias.

Certo prior, conta A. Pronzato, que reunira os seus


paroquianos
para, numa cerimônia especial, pedir a Deus a chuva,
observou-lhes
pertinentemente: "Vieram para pedir chuva. Mas, onde
estão os vossos
guarda-chuvas?"

A segunda anunciação é a Anunciação à Virgem


Maria, que de-
monstrou de tal modo ser "criança" a ponto de estar
disposta a aceitar
tudo. Maria está numa tal disponibilidade, que Deus por
Ela pode
fazer maravilhas. Ela aceitou tudo, em tudo acreditou,
porque a sua
atitude para com Deus estava repassada daquele espírito
de infância,
que é o verdadeiro poder.

Você já pensou alguma vez que o mundo é


governado pelas crianças
e não pelos velhos? Sim. Os pequeninos governam o
mundo, porque
aquele que em seu espírito é criança "tem poder sobre
Deus" isto é,
Deus não lhe pode resistir; não pode resistir a um olhar de
criança
cheio de verdadeira fé.

Quando Pedro caminhava sobre as águas, em


direção a Jesus, dei-
xou, a certa altura, de ser "criança". Pôs-se a fazer
cálculos em termos
vulgares: "Avancei até aqui porque a superfície da água
estava calma,
mas vejo que se aproxima uma onda... serei capaz de
continuar a
avançar?". Chegaram a lógica e os cálculos humanos e
extinguiu-se
a fé. Nesse mesmo instante, e porque deixou de ser
"criança", Pedro
começou a afundar. Reagiu como um velho e,
posteriormente, du-
rante largo tempo ainda, continuará "velho" e,
precisamente por isso,
negará Jesus.

Pode-se dizer que você peca porque é "velho",


porque a velhice es-
piritual bloqueia a sua abertura à graça e ata as mãos de
Deus. Deus
é jovem e quer, como por encanto, conceder-lhe a lua. Se,
à Santa
Teresinha do Menino Jesus, Deus deu aquela neve no dia
da sua to-
mada de hábito, que foi essa neve senão a sonhada lua?
Deus ama essa
atitude de quem não estabelece limites. Ora, tal é a
atitude da criança.
A criança desconhece os limites do possível, é
perseverante até à loucu-
ra, aberta a tudo o que é novo - a criança sabe acreditar.

Deus é sempre jovem e não acaba de surpreender o


homem. A ex-
periência de Deus é a de uma realidade surpreendente e o
homem que
tenha aquela atitude de infância bíblica, é sempre capaz
de se extasiar.
Tal homem, ao observar o universo, consegue se
maravilhar com tudo
o que o rodeia. Mas no momento em que você deixar de
ser criança
diante do Senhor, sobrevirá a crise na sua vida interior,
você começará
a retroceder e deixará de crer e de amar. Apenas dois
tipos de pesso-
as acreditam em milagres: os santos e as crianças. Mas,
na realidade,
trata-se de uma e mesma categoria de pessoas, já que os
santos são, es-
piritualmente, crianças. O próprio Deus Sefez criança em
Jesus Cristo.
E isso aconteceu não apenas em Belém, mas também na
Cruz, onde
estava totalmente indefeso e em tudo dependente dos
homens. Esse
Deus feito Menino deseja que a nossa fragilidade e a
nossa fraqueza
nos impulsionem a que em tudo nos abandonemos a Ele e
que elas nos
conduzam a uma ilimitada confiança na Sua Misericórdia.

A parábola do filho pródigo deveria chamar-se, de


preferência, pa-
rábola do pai misericordioso. O filho mais velho, uma das
três per-
sonagens do drama, não desperta a nossa simpatia: é
ciumento e impertinente para com o seu pai. Á nossa
simpatia dirige-se para o filho
pródigo regressado a casa, tanto mais que é o nosso
"gênero". Quase de
imediato nos identificamos com ele. Mas, será que se
trata realmente
de um tipo de pessoa autenticamente bíblica? O
Evangelho mostra
que o seu regresso foi calculado. Voltou na esperança de
que com seu
pai viveria melhor, pois bem sabia que ele pagava aos
seus empregados
mais do que aquilo que ele recebia do patrão. "Levantar-
me-ei e irei ter
com meu pai, e dir-lhe-ei: (...) já não sou digno de ser
chamado seu filho,
trata-me como a um dos seus trabalhadores" (Lc 15,18).
A parábola do filho pródigo parece inacabada. Nela
se delineia a
continuação do drama do filho pródigo - o drama da sua
atitude de
mercenário. Ele quer ser para seu pai alguém com quem
se pode com-
binar o salário, como os trabalhadores da vinha que
ajustam com o seu
patrão em trabalhar por um denário (cf. Mt 20,1-16).

Portanto, se o regresso do filho pródigo não é feito


em atitude de
criança, mas na de mercenário, decerto voltará a partir,
uma e outra
vez, não se sabe quantas. O filho que tem alma de
mercenário é inca-
paz de se maravilhar com o amor. O filho pródigo não se
deu conta da
ferida feita a seu pai, não notou a dor dele, só foi capaz
de ver a sua
própria desgraça e empenhou-se em encontrar uma saída
para ela.

Na parábola dos trabalhadores da vinha, aqueles


que se admiraram
com a bondade do patrão foram os que trabalharam a
última hora sem
contrato e não aqueles que, logo na primeira hora,
ajustaram por uma
quantia certa. Somente a criança como a citada na Bíblia
é capaz de
se maravilhar, porque a admiração supõe contraste. A
criança sabe que
é um pequeno "nada" e que é constantemente cumulada
de algo gran-
de. Esse enorme contraste, entre o seu próprio "eu" e o
dom recebido,
geram a sua admiração.
O homem só chega a ser cristão quando se torna
"criança", quan-
do começa a maravilhar-se com a loucura do amor de
Deus, seu Pai.
Encontramos aqui um novo aspecto da infância cristã:
uma certa iden-
tidade entre a criança e o pecador arrependido. Em que
consiste a con-
trição? Trata-se do arrependimento, do pesar sentido
diante da Cruz
quando, consciente da miséria própria e da sua condição
de pecador,
você contempla a Cruz e as chagas abertas de Jesus;
quando, em espírito, você procura beijar essas feridas que
você mesmo provocou, isso
ê a contrição. No filho pródigo faltava esta contrição. Será
somente a
partir do momento em que, contrito, beije as chagas de
Jesus, crendo
no Seu amor, que você se volta para Deus em atitude de
"criança" e,
somente um tal regresso tem sentido. Não torne nunca a
Deus como
mercenário, senão de novo O voltará a trair.
Vemos verdadeiro arrependimento na pecadora do
Evangelho du-
rante o seu encontro com Jesus na casa do fariseu Simão.
A sua simpli-
cidade, a sua espontaneidade e a sua autêntica contrição,
testemunham
a atitude da criança citada por Jesus. Para manifestar a
Jesus o seu
arrependimento, aproximou-se d'Ele e, sem fazer caso de
respeitos hu-
manos, ungiu-O com perfume, banhou-Lhe os pés com as
suas lágri-
mas e secou-lhos com os seus cabelos (cf. Lc 7,36). Eis a
simplicidade,
a espontaneidade e a contrição dos pecadores que
possuem essa atitu-
de de infância referida no Evangelho. Aqueles que
verdadeiramente
amam a Deus são os pecadores arrependidos, aos quais
muito perdoou,
e os santos, porque uns e outros têm natureza de
"criança" - sabem
maravilhar-se diante do amor de Deus e da loucura do
Seu amor por
eles. Não os mercenários, mas as "crianças", náo aqueles
que acumu-
lam méritos e se esforçam por fazer contratos com Deus,
mas aqueles
que crêem na Sua Misericórdia. Porque, na realidade, só a
criança crê
verdadeiramente.
PARTE II

O DINAMISMO DA FÉ

A fé entendida como expressão da nossa


relação com Deus
é um fenômeno dinâmico, é um processo sujeito a
contínuas
transformações. Esse processo realiza-se em nós por
inicia-
tiva de Deus e resulta da resposta do homem,
contendo em
si a plena confiança. O Senhor destrói a nossa
estabilidade
e y servindo-se das situações difíceis, põe em causa a
nossa
anterior confiança para proceder à sua dinamização
através
deste despojamento. As situações difíceis, sejam
internas ou
externas, sendo um apelo à nossa conversão,
deveriam tornar
mais dinâmica a nossa adesão a Cristo, deveriam
conduzir-
nos a apoiarmo-nos nEle, a confiarmos e a
esperarmos tudo
das mãos d'Ele.

Se a nossa fé não cresce, pode se tornar um


talento enter-
rado, embora Deus não queira permitir isso. Ele não
quer
que a nossa fé seja inerte. E por isso que, na
esperança de que
ela se aprofunde e se dinamize, Deus permite as
situações
difíceis que nos obrigam a optar constantemente. O
dina-
mismo da fé torna-se efetivo em conseqüência das
provas que
polarizam as atitudes humanas, que conduzem quer
à crise
de fé quer à sua decisiva intensificação. A nossa fé
está sem-
pre em mudança. Do mesmo modo que há um ano
atrás a
sua fé tinha outra intensidade, também daqui a um
ano ela
já será diferente. Surge assim uma questão muito
importan-
te: Estará a sua fé a aumentar ou a diminuir? A
realidade é
que nós não somos ainda tão crédulos e tão cristãos
quanto
havemos de vir a ser. Do mesmo modo, não podemos
dizer
que vivemos já o Evangelho, mas que tendemos a
vivê-lo
sempre cada vez mais.
CAPÍTULO l

A CONVERSÃO
COMO
DIMENSÃO DA FÉ

A dimensão estável e fundamental da fé é a


conversão. E ela que faz
com que a nossa fé não permaneça estática e que possa
sofrer um cons-
tante processo de aprofundamento. A conversão,
enquanto dimensão
da fé, não é um ato único mas antes um processo, que
eqüivale a uma
mudança do pensamento e a uma manifesta mudança de
atitudes. No
processo da conversão a pessoa afasta-se do mal e volta-
se para Deus.
Afastar-se do mal não significa apenas o afastamento do
pecado, mas
também o afastamento daquilo que está na sua própria
origem: o amor
próprio.

As repreensões que Jesus dirigia aos Apóstolos


visavam quase sem-
pre a falta de fé que neles via. O Senhor criticava-lhes
freqüentemente,
o fato de não crerem, ou de crerem demasiadamente
pouco. Podemos
ver nisso um específico paradoxo bíblico: Jesus reprova a
falta de fé pre-
cisamente àqueles que O haviam seguido, que tinham
acreditado n'Ele
e retoma essa repreensão em diversas ocasiões. A Sua
atitude de pôr em
dúvida a fé dos Apóstolos tinha como objetivo a sua
conversão. Você
também é convidado a questionar a sua fé, para que
possa concluir que
ela deve crescer continuamente; que na sua forma atual
deixará em
breve de te servir, segundo o princípio que diz que o
alcançado hoje já
não será suficiente amanhã.
Felix culpa

A nossa fé deve desenvolver-se num contínuo


processo de conversão.
Cristo ressuscitou e isso quer dizer que não há derrotas
definitivas na
nossa vida, que não há nenhuma vida desperdiçada e que
não há mal
que sempre dure'. Depois de cada falta, após cada
fracasso ou cada
pecado. Deus oferece-nos um plano de Redenção melhor
do que se não
tivéssemos pecado. É aquilo que dizia o texto da antiga
Liturgia do
Ofertório: "O Deus, que maravilhosamente criaste a
dignidade da na-
tureza humana e que de forma ainda mais maravilhosa a
regeneraste."
Deus não permitiria a existência do mal se dele não
pudesse retirar o
bem. O nosso pecado pode ser a "falta feliz" de que nos
fala a liturgia
de Sábado de Aleluia. Deus nos propõe continuamente
uma maravi-
lhosa reparação daquilo que o pecado destruiu. Tudo pode
se tornar
ainda mais belo do que se não tivéssemos pecado. Deus
pode fazer de
cada uma das nossas faltas, uma "felix culpa"— culpa feliz
— falta essa
que, à luz da fé, nos irá despertar e mostrar como nos
ama Aquele que
morreu e ressuscitou por nós; falta que nos vai mostrar, à
luz da fé, a
paciência, a ternura e a alegria com que o Senhor perdoa
as nossas fal-
tas. Todos os seus pecados se deveriam tornar culpas
felizes. "Você não
entrará no Céu enquanto todas as suas faltas não se
transformarem
em culpas felizes" (Touis Evely, "O caminho da alegria").
Uma "falta
feliz" é, com efeito, a descoberta na fé, da ternura, da
delicadeza, do
amor e da alegria com que Jesus abre os braços para
acolhê-lo. É uma
descoberta, na fé, da loucura de Deus: Deus que tanto o
ama e tanto
deseja perdoá-lo.

Se à sua volta você vê predominar o mal e o pecado


é porque a sua
fé é unilateral. Não percebe que esses pecados são uma
ocasião para a
Misericórdia divina Se derramar — e isso é o mais
importante. Pense
que, se todos os homens fizessem das suas faltas "culpas
felizes" que
oceano de Misericórdia poderia inundar o mundo! Como
este have-
ria de mudar! Mas, ao contrário, você se desencoraja e se
fecha em si
mesmo considerando que Jesus já não pode amá-lo
porque você é mau.
Essa é uma deformação do Seu rosto e uma deformação
da sua fé; é
uma ferida feita ao Seu Amor.

O Pe. Huvelin, confessor de Carlos de Foucauld,


revelou certa vez
que Deus lhe concedera a graça de sentir dentro de si um
ardente de-
sejo de conceder a absolvição. Nesse desejo que Deus
inspirara ao Pe.
Huvelin exprimia-se justamente aquela constante e
insaciável vontade
que o Senhor tem de nos dar continuamente o Seu
perdão. É por essa
razão que você deve combater a tristeza. Se você se
afastou de Deus, não
importa em que medida, poda sempre regressar. Depois
de cada queda,
lembre-se de que Ele o espera, que você Lhe proporciona
alegria quando
regressa e pede perdão, pois permite a Ele amá-lo, por
meio do perdão.
Alguém disse que a queda é uma ruptura do laço que nos
liga a Deus, é
como se cortássemos a corda que simboliza esse laço. No
entanto, quan-
do você pede perdão a Jesus e se volta para Ele, essa
corda é novamente
apertada. Fica um nó, é certo, mas a corda tornou-se mais
curta e você
mais próximo do Senhor. A sua falta torna-se uma "culpa
feliz™.

As conseqüências do mal

O extraordinário amor de Deus para com os


pecadores e a pedago-
gia que usa conosco estão bem evidenciados na parábola
do filho pró-
digo. Ele pode permitir a sua queda, se a sua fé é
inexpressiva e morna.
Deus não quer o mal, mas pode consentir nas suas
conseqüências, pois
estas trazem-nos a graça, trazem consigo o apelo à
conversão. Vêmo-lo
claramente no exemplo do filho pródigo»

Nesta parábola de Jesus Cristo, encontramos o pai


que ama e os
dois filhos que não amam. Vemos de forma nítida que o
filho mais
velho não ama seu pai, pois a sua atitude impertinente
para com ele e
o ciúme que mostra ter do irmão sobressaem no final da
parábola. O
filho mais novo também não tem amor a seu pai já que o
deixou, não
por algum tempo, mas definitivamente. Se bem que
podendo ter-se
oposto à partida do filho, o pai não o fez. Permitiu-lhe que
tomasse
o seu quinhão e partisse, pois não se pode obrigar alguém
a amar.
Sabemos quais foram as conseqüências da partida do
filho, sabemos
que foi caindo cada vez mais baixo e que a sua vida se foi
tornando
mais e mais penosa.

No nosso comentário podemos procurar fazer valer


certos elemen-
tos que não estão diretamente na parábola. Podemos, por
exemplo,
supor que o pai tenha tomado conhecimento do que se
passava com
o filho mais novo pelos seus servidores, sabendo assim
que ele quase
morria de fome, que estava sem abrigo e que andava
completamente
perdido. Suponhamos que, querendo poupar o filho de tal
sorte e de
tal humilhação, o pai tenha decidido enviar um servidor
seu, às claras
ou em segredo, com uma bolsa de dinheiro, o que lhe
permitiria levar
uma vida normal, ou ainda o regresso à vida desregrada.
Seria este
tipo de ajuda que o pai poderia proporcionar repetidas
vezes, capaz
de provocar o regresso do filho? Tudo parece indicar que
não. Quer
isto dizer que, ao amar o filho, o pai não deveria protegê-
lo das conse-
qüências do mal que o próprio filho desencandeara. Pelo
contrário, o
seu coração paternal devia arcar com o sofrimento
infligido pelo filho.
Em resultado do mal cometido por aquele filho pródigo,
duas pessoas
são "crucificadas": o pai, que sofre por causa da
decadência e da queda
do filho e o próprio filho que deve suportar as
conseqüências das suas
próprias quedas. No entanto o pai, com o amor que lhe
dedica, deve
esperar, mesmo que isso comporte algum risco; esperar
que o mal atin-
ja o seu limite e que as suas conseqüências comecem a se
fazer sentir.
São precisamente elas que, agindo sobre o amor próprio
do filho, o
incitarão ao regresso.

Sabemos que a um dado momento a medida atingiu


o limite má-
ximo e que a degradação do filho se traduziu, não apenas
por uma
queda moral das mais fundas, mas também pela sua
degradação física.
Na verdade, o filho teria aceitado, inclusive, comer as
bolotas destina-
das à alimentação dos porcos que, segundo a crença dos
habitantes da
Palestina, eram animais impuros. Aquela referência
simboliza, portan-
to, o grau de baixeza da queda. Nessa altura, as
conseqüências do mal
começaram a fazer efeito.

O filho já se encontrava numa tal miséria que uma


idéia friamente
calculada lhe veio ao espírito: valia mais voltar à casa
paterna, pois lá
servidores e operários eram melhor tratados do que na
casa do seu atual
patrão. Na verdade, não foi o amor ao pai que impeliu o
filho pródigo a
regressar à casa paterna, mas foi um vulgar e interesseiro
amor próprio,
o cálculo frio de que essa idéia seria a melhor, não para
seu paiy mas para si mesmo. Só quando vê o pai correr ao
seu encontro, quando vê
as suas lágrimas de alegria, quando se encontra nos seus
braços, quan-
do mais tarde é vestido com a mais bela túnica, quando
no dedo lhe é
metido um anel e quando vê que o pai prepara um festim
para celebrar
o seu regresso surge então a oportunidade para que
descubra o amor
do pai. Eis por que as conseqüências do mal poderão estar
associadas à
graça. Deus pode consentir que assim seja, para que as
conseqüências
do mal nos levem à conversão. Por vezes, só a queda e o
sofrimento
dela decorrentes são susceptíveis de produzir no homem
a comoção e
de o incitarem à conversão. Pelos seus efeitos, o mal
torna-se então uma
" falta feliz”.

Não se pode conhecer Cristo sem


conhecer o homem

Para que o nosso pecado se possa converter numa


"falta feliz' é
preciso primeiro reconhecer que o cometemos. São João
transmite-nos
no seu Evangelho a promessa de Cristo de que o Paráclito,
o Espírito
Santo, pela Sua vinda, convencerá o mundo do pecado (cf.
Jo 16,8).
Uma das operações do Espírito Santo, que desce sobre o
mundo, é,
portanto, fazer-nos tomar consciência do nosso pecado.
Trata-se de
uma graça preliminar e fundamental na vida interior que
nos é con-
cedida pelo Espírito Santo, para que possamos reconhecer
os nossos
pecados, a nossa condição de pecadores.

Não basta, no entanto, recebermos esta primeira


graça do Espírito
Santo. Se nos limitássemos a conhecer a realidade do
pecado em nós,
esta nos poderia destruir. Deste modo, a nossa vida seria
um contínuo
abatimento sob o peso do nosso mal, seria inquietação,
stress e tristeza.
Devemos permanecer abertos aos outros dons do Espírito,
à descober-
ta, por meio da fé, do amor de Deus por nós.

Na homília proferida na Praça da Vitória, em


Varsóvia, o Papa João Paulo II pronunciou estas
memoráveis palavras: “Sem Cristo não é possível
compreender, até ao fim, o homem" (Varsóvia, 2,VI.79).
Isso
significa que, se você não notar de que Cristo entrou na
sua vida, a imagem que tem de si próprio estará
incompleta e, por isso mesmo,
falseada. Se o Espírito Santo lhe mostra que é pecador e
se você não
descobre Cristo que o ama, você pode vir a cair no
abatimento. Para o
homem, determinadas relações são de tal modo
importantes que fazem
parte da sua essência. Uma delas é a relação de amor.
Sem Cristo não
podemos conhecer a nós mesmos, já que sem Cristo não
reconhecere-
mos que somos amados e que fomos salvos e eleitos. Esta
eleição, este
amor, constituem uma parte essencial do nosso "eu" a
que não nos
podemos opor.

Há ainda uma segunda vertente nesta verdade: não


podemos conhe-
cer Cristo sem conhecer o homem. Não podemos
compreender quem é
Deus, nem tão pouco crer na Sua grandeza e no Seu amor
para conosco
se não nos descobrirmos a nós próprios. Se Cristo o
amasse por ser digno
de ser amado nada haveria de particular nisso. Mesmo o
homem des-
crente é capaz de amar aquele que é amável. O amor de
Cristo, enquanto
"ágape" de Deus, é um amor que desce das alturas e ama
o que é indigno
de ser amado, a fim de torná-lo digno. Quanto mais você
reconhecer a
sua condição de pecador e a confessar, tanto mais
descobrirá Cristo e
mais plenamente acreditará ríEle. Tal é o paradoxo da fé.
Não se pode
conhecer Cristo sem conhecer o homem. E por isso que se
pode dizer
que somente os santos conheceram verdadeiramente a
Cristo, porque se
conheceram a si mesmos até ao mais íntimo do seu ser e
deram-se conta
da imensidão da sua condição de pecado. A descoberta
dessa realidade
permitiu-lhes deparar com a loucura de Deus que
expressaram, várias
vezes, em oração, deste modo: "Enlouqueceste, meu
Deus, se a mim, tão
grande pecador, me tens tão grande amor!". Chega assim
aquele carac-
terístico momento de deslumbramento que acompanha
toda a vivência
autenticamente religiosa. O homem que fez a descoberta
da sua con-
dição de pecador e que acreditou no Amor começa a
compreender que
Deus enlouqueceu verdadeiramente de amor por ele.

Como reconhecer o mal que existe


em nós

O combate da fé7 entendido como processo de


conversão, comporta em si a luta contra a agitação, a
inquietação, o stress e sobretudo contra a tristeza. A
tristeza é uma evidente manifestação do amor próprio
que
corta pelas raízes a fé e o abandono. Não se trata
somente daquela tris-
teza que nos invade no desenrolar das dificuldades
temporais, quando
somos privados, parcial ou totalmente, de algo, mas, mais
ainda, se
trata da melancolia que nos aflige em face das
dificuldades espirituais;
quando caímos, quando cometemos alguma infidelidade.
A tristeza
exerce um efeito paralisante sobre a nossa fé. Depois de
uma queda não
devemos ficar abatidos, pois causamos maior dor a Deus
do que pro-
priamente quando pecamos. Além disso, dizem os santos,
que depois
de termos caído devemos esperar receber ainda maiores
graças do que
antes da queda.

A luta pela aceitação dos fracassos e insucessos da


nossa vida deveria abarcar todas as situações, mesmo as
mais insignificantes. Quando São Maximiliano Maria Kolbe
jogava dama com os seus confrades preferia
perder. Era o seu "agir contra, a sua maneira de se
desligar do amor-
próprio a fim de poder voltar inteiramente para o Senhor.

Para não se entristecer com as suas imperfeições


procure olhá-las à
luz da fé na certeza de que Cristo o aceita tal como você
é. Pode ir ao Seu encontro com todas as suas
imperfeições e todas as suas fraquezas.
Ele reparará o que você fez de mal e suprirá todas as suas
imperfeições.

Diante de nós coloca-se um problema de


extraordinária importân-
cia: devemos por um lado odiar o mal que há em nós
mesmos e, por
outro lado, temos que nos aceitar como somos. De fato,
você não pode
amar a sua própria imperfeição enquanto tal, a única
coisa que pode
amar nela são as suas conseqüências. Essas servirão
unicamente para
que você seja mais humilde, mais confiante e mais fiel. O
fato de co-
meter pecados não deveria surpreendê-lo. Seria mais
conveniente que,
com espírito de humildade, se admirasse antes quando
não os cometa.
Se você se surpreende ou desanima com as suas quedas,
isso prova que,
em lugar de se deixar levar nos braços de Jesus, você
colocou a sua
confiança nas suas próprias forças.

Na verdade, "num único ato de amor, mesmo não


sentido, tudo é
reparado", afirma Santa Teresinha do Menino Jesus {Carta
à Celina
20.X. 1888). "Não nos devemos, pois de modo algum,
desencorajar
com as faltas próprias, já que as crianças caem com
freqüência sendo embora demasiado pequenas para
muito se magoarem" {Caderno
Amarelo, da Madre Inês 6.VIII.1897). Santa Teresinha do
Menino
Jesus gostava muito de confiar a Jesus as suas faltas e
infidelidades.
Dizia ela que desse modo procurava atrair a Sua
misericórdia, dado que
Ele veio para os pecadores e não para os justos. Como isto
é importante
para nós, que nos entristecemos com as nossas quedas!

"Que importa, meu Jesus, se caio a cada instante,


vejo nisso a mi-
nha fraqueza e para mim é grande ganho... Vedes assim
do que sou
capaz e logo sereis tentado a levar-me nos Vossos
braços..." {Carta à
Celina, 26.IV.1889).

À medida que nos aproximamos do fim último, que


é Deus, Ele
parece estar cada vez mais longe. E normal e está certo.
Vendo a distân-
cia que a separava de Deus, Teresinha, de modo algum,
se entristecia:
"Oh! Como sou feliz por ver-me imperfeita e por tanto
precisar da
Misericórdia do bom Deus na hora da morte!" {Caderno
Amarelo, da
Madre Inês 29.VII.1S97).

Se você se sente fraco e pecador, então tem


especial direito a estar
nos braços de Jesus, pois Ele é o Bom Pastor que procura
as Suas ove-
lhas perdidas, fracas e desvalidas, as que não conseguem
acompanhar
o andamento do rebanho. Permita a Jesus que o tome nos
Seus braços,
consente que o ame, creia no Seu amor.

Para ter direito a estar nos Seus braços importa que


haja em você
uma atitude de humildade, deve reconhecer e crer que é
fraco e pe-
cador. Mas, simultaneamente, tem que acreditar no Seu
amor; deve
acreditar que Jesus o toma nos Seus braços precisamente
porque você é
pecador, fraco e, que por si próprio, de nada é capaz. Será
então a fé a
gerar em você a gratidão pelo amor incessante que o
Senhor lhe dedi-
ca - a você que é fraco, pecador e impotente - tanto na
vida temporal
como na espiritual.

O Sacramento da Conversão

Cada vez que você se aproxima com sincero


arrependimento do Sacramento da Reconciliação, ao
qual podemos chamar também de "Sacramento da
Conversão", é oferecida uma grande oportunidade
para que a sua fé aumente. Acontece com freqüência na
nossa vida que
o Sacramento da Reconciliação não desempenhe o papel
que deveria
ter, devido à rotina, ao hábito e à falta de preparação e de
disposição
interior. Talvez você não se dê conta de que, tal como a
Eucaristia, este
sacramento é também um canal particular de graça e de
encontro com
Jesus Cristo. É possível, também, que você nem sequer se
lembre de re-
zar pelo seu confessor ou diretor espiritual, para que ele
possa ser para
você um instrumento de Deus, cada vez mais perfeito e
como auxílio
eficaz no desenrolar da sua conversão.
O exame de consciência deve constituir um
profundo olhar dirigi-
do ao seu interior, a fim de observar para onde se orienta
a sua vida, o
que é que para você tem maior valor e quem épara você
Jesus Cristo.
E é sobretudo disto que devemos confessar a nós
mesmos: Quem é
Jesus Cristo para você? Qual é a sua principal opção? Você
está certo
de que, verdadeiramente, O escolheu com radicalidade? E
por aqui
que deve começar a confissão dos nossos pecados,
porque é isto o mais
importante. Se você não fez ainda a sua opção por Jesus
Cristo, pode
ter a certeza de que todos os seus outros pecados não são
mais do que a
conseqüência e o resultado do seu pecado fundamental.
Os pecados podem ser de vários tipos: os pecados
cometidos e os de
omissão. E estes últimos são, em geral, os piores. Entre
eles encontra-se
aquele que consiste em deixar Jesus, O abandonar, não
Lhe conceder
senão uma pequena parcela do seu coração. E esse é o
seu maior mal,
precisamente ser acomodado e ter falta de radicalidade,
essa realidade
de que Jesus ainda não é para você o valor máximo, que
Ele não é tudo
para você, o que eqüivale dizer que a sua fé continua
frouxa. '
Entre as cinco condições necessárias para uma boa
Confissão, a
mais importante é o ato de contrição. Como você se
prepara para a
confissão? A preparação direta para o seu encontro com
Cristo deve
consistir em primeiro lugar no arrependimento, porque é o
que melhor
pode abrir você ao canal de graças que é o "Sacramento
da Conversão".
Pode acontecer que não dê o devido apreço ao tempo que
antecede o
Sacramento da Reconciliação, mas você tem que saber
que esse é um
tempo precioso. Deveria dedicá-lo, prioritariamente, a
suscitar atos de arrependimento. A contrição deve ser a
sua atitude diante da Cruz, a
dor por ter ferido o Senhor com o seu pecado, o desejo de
pedir perdão
a Deus e de reparar o mal cometido. O seu
arrependimento deve ser
cada vez mais profundo, pois dele dependerá a eficácia do
Sacramento
da Reconciliação. Você não pode se converter enquanto
não estiver ple-
na e sinceramente arrependido.
Existem dois tipos de religiosidade: uma delas
poderia ser qualifi-
cada como "egocêntrica" e a outra "teocêntrica". No
primeiro caso, o
homem centra a atenção em si próprio; não toma Deus
em conside-
ração mas somente a sua própria situação. Vai à confissão
com a idéia
de se purificar por lhe pesar o seu pecado e para estar de
"bem" com
Deus. Para tal homem, a confissão pode funcionar como
uma "aspiri-
na" específica para a dor de consciência, uma pílula que o
apazigua e
lhe restitui o bem-estar moral. E, portanto, uma atitude de
quem está
permanentemente centrado em si próprio. Uma tal
pessoa, ao receber
a absolvição, retira-se do confessionário sem tristeza, mas
também sem
alegria, pois há de continuar concentrada no mal que
acaba de descar-
regar da sua consciência.
Quando analisamos a pessoa e o comportamento de
Judas depois
de ter traído Jesus, encontramos muitos elementos da
confissão. Há o
exame de consciência, pois Judas reflete no que fez e
toma consciência
do mal Vjue praticou. Há também o arrependimento,
porque Judas ar-
rependeu-se do que fez. Quer mesmo mudar de atitude, o
que significa
que também tem propósito de emenda. Há também a
confissão dos
pecados, quando Judas afirma diante dos sumos
sacerdotes: "Pequei
ao entregar sangue inocente" (Mt 27,4)- Há mesmo a
reparação do mal
feito, pois ele atira aos sumos sacerdotes as trinta moedas
de prata que
deles recebera: não quer o preço do sangue. Em verdade,
todas as con-
dições para uma confissão aparecem no comportamento e
na atitude
de Judas. Apenas uma faltou, a mais importante: a fé na
Misericórdia
de Jesus (Louis Evely, "O Caminho da Alegria").
Precisamente por isso
a "confissão" de Judas é tão triste, tão trágica e acaba no
desespero e
no suicídio.

A nossa confissão deve ser do tipo da de São Pedro


que acreditou
na misericórdia de Cristo e se centrou, não tanto no seu
pecado, mas no perdão. O homem de religiosidade
"teocêntrica' não se fixa tanto
nos seus pecados mas, pelo contrário, toma-os como
ponto de partida
para, através da fé, fazer a descoberta da Misericórdia de
Deus. Ao
aproximar-se do confessionário, pensa, sobretudo, que
feriu Jesus e de-
seja renovar a amizade que voluntariamente lesou. Quer,
pelo arrepen-
dimento e pela contrição, dar a Cristo a possibilidade de
ser perdoado e
sabe que, dessa maneira, Lhe proporciona grande alegria.
"Crucificaste
Cristo" - dizia o Santo Cura d'Ars - "mas quando vos ides
confessar,
ides libertá-Lo da Cruz."

Se você feriu a Cristo, as Suas chagas estão


sangrando; se quer que
elas sarem, você deve procurar receber o Sacramento da
Reconciliação.
Deve ir por causa d'Ele, não para obter a sua
tranqüilidade interior,
mas para proporcionar a Jesus a alegria de formar em
você o homem
novo através das graças do sacramento.

Algumas pessoas lastimam-se depois da confissão


por não conse-
guirem corrigir-se. Talvez você também pense que a
confissão existe
para que se torne melhor e, se assim não acontece,
considere que as suas
confissões não têm sentido. Talvez pense ainda que, deve
procurar ser
melhor mas não se corrige, mais vale não se confessar,
visto que não
vê qualquer progresso. Porém, quando há em você grande
desejo de
maior perfeição e se empenha muito em progredir,
significa que o seu
objetivo não é tanto Deus e a Sua Misericórdia, mas,
principalmente, a
sua própria perfeição. Mostra, com efeito, que a sua fé é
deficiente e que
se confessa é para depois poder se sentir tão "bom" que
Deus já não lhe
fará falta, Deus que é Misericórdia. De fato, toma a
iniciativa de se di-
rigir a Deus pedindo o Seu perdão, para não mais voltar a
precisar des-
se perdão; a fim de prescindir comodamente d'Ele, se
bem que Deus
sempre deseje continuamente perdoar-lo e perdoar-lo
com alegria.

Quão pouco acreditamos nessa ânsia incontida de


Deus de nos per-
doar incessantemente! Como é raro encontrar, entre as
pessoas que
vemos retirarem-se dos confessionários, uma cara que
reflita alegria! E,
no entanto, depois da confissão o mundo deveria ser
outro, mais cheio
de luz, resplandecente de fé na Misericórdia do Senhor.
No Evangelho, todas as "confissões" terminam com
uma festa: "No
caso de Zaqueu, faz-se o Mestre convidado para jantar em
sua casa. O publicano Mateus convida todos os seus
companheiros, todos os peca-
dores daquele meio e lhes oferece uma mesa farta. Para o
filho pródigo,
o pai preparou um vitelo gordo e música" (Louis Evely, O
Caminho da Alegria). No Evangelho, o perdão vem sempre
associado a uma mani-
festação de alegria.

A conversão vem determinada pelo


arrependimento. No Sacramento
da Reconciliação encontramo-nos com Cristo desejoso de
nos perdoar
e de curar as feridas produzidas pelo nosso pecado. Mas,
se não Lhe
expõe as suas feridas, Ele não pode curá-las.

Se o seu arrependimento não tiver limites, a


Misericórdia do
Senhor também não os possuirá. Examine como são as
suas confissões.
O arrependimento é ato de humildade. A humildade deve
aumentar
continuamente em você e, por essa razão, o seu
arrependimento não
deve também parar de crescer. Mas o arrependimento e a
contrição
nunca serão suficientes. Quanto mais pecador e pior que
os outros você
sc sinta, tanto maior abertura terá para as graças e para a
fé.

O Sacramento da Reconciliação deve ser um


sacramento esperado
porque é um particular momento do nosso encontro com
Cristo. O
Amor quer ser esperado e quando o não é, fica ferido.

Os santos patronos do "Sacramento


da Conversão"

Um dos patronos do "Sacramento da conversão" é


Zaqueu. Quando
o mencionamos, esta insólita figura nos vem também à
mente, devido ao
forte contraste, a pessoa do jovem rico. Para este homem
ainda jovem,
pessoa "de bem", era sem dúvida difícil ter uma
verdadeira contrição.
Uma vez que se tratava de alguém que cumpria os Dez
Mandamentos,
poderia porventura ter motivo para se sentir arrependido
de alguma
coisa? Contudo, Jesus disse que, para uma pessoa como
ele, seria muito
difícil entrar no Reino do Céu. O jovem rico não viu, em si
mesmo, o
maior dos males, isto é, o seu enorme apego às riquezas e
cargos, acres-
cido do fato de que não fizera ainda a opção radical por
Deus. Como
cumpria os mandamentos parecia-lhe que estaria "bem
visto" diante de
Deus. O que lhe aconteceu, mais tarde, não sabemos,
mas depois da sua partida, a visível dor de Jesus mostra
bem a má condição espiritual
daquele jovem.

A par deste jovem "irrepreensível", mostra-nos o


Evangelho um
exemplo singularmente oposto, o de um patife e vigarista
chamado
Zaqueu. E lícito empregar a seu respeito tais adjetivos já
que Zaqueu,
chefe de publicanos, ou antes, dos colaboracionistas e
ladrões, se torna-
ra digno de lástima, tanto a seus próprios olhos como aos
dos demais.
E, quando aquele grande pecador encontrou o olhar
misericordioso
de Jesus, estremeceu de comoção e teve uma reação
extraordinária:
"Senhor, eis que eu vou dar metade dos meus bens aos
pobres e se defraudei
a alguém, restituo-lhe o quádruplo" (Lc 19,8).

Qual de nós seria capaz de entregar aos pobres


metade dos seus
bens e de compensar até ao quádruplo os prejuízos
causados a alguém?
Há nele a loucura da generosidade de um grande pecador
arrependido
que descobriu ser amado. Zaqueu ficou, verdadeiramente,
louco de
surpresa e de alegria.

Ao jovem "irrepreensível", foi Jesus a aconselhar


que se separas-
se de todas as suas riquezas, enquanto que a Zaqueu
nada disse. Foi,
pois, ele mesmo que tornou aquela iniciativa sem que a
isso tivesse sido
pressionado. Assim nos apresentam um homem "como
deve ser", que
não soube corresponder ao olhar afetuoso de Jesus e que
tristemente se
afastou, enquanto um chefe de ladrões se demonstrou tão
sensível ao
amor de Deus.

No idioma polaco, os candelabros laterais colocados


em numerosas
igrejas, têm o nome de 'zaqueus'. E muito profundo o seu
simbolismo
já que nos recorda aquele acontecimento singular no qual
Jesus, em
lugar de ir tomar a sua refeição em casa de alguém
honrado, como
por exemplo o jovem "irrepreensível", se dirige ao chefe
dos ladrões:
"Zaqueu, desce depressa, pois preciso de ficar em sua
casa" (Lc 19,5).
Naquele tempo, aceitar um convite de alguém para sua
casa signifi-
cava estreitar com ele laços de relação espiritual. Não era
apenas uma
simples visita, uma refeição ou uma recepção. Não se
tratava somente
de comer, porém de entrar numa particular relação de
intimidade com
alguém. Jesus elegera Zaqueu, porque tinha intenção de
estabelecer
com ele uma singular comunhão pessoal. Ao entrar na
casa daquele que era, provavelmente, o maior ladrão de
Jerico, consagrou-a com a
Sua Presença. A casa de Zaqueu tornava-se assim uma
espécie de tem-
plo e de santuário.

Talvez tenhamos, por vezes, vontade de dizer a


Jesus: "Senhor Jesus; que mau gosto mostra ter, ao
escolheres para Seu santuário, a casa e
o coração de um ladrão." Mas assim é Deus: louco no Seu
amor pelo
homem. Deus visitou Zaqueu para levar à sua casa a
salvação: à sua
casa significava também ao próprio Zaqueu, à sua família
e ainda a
todos aqueles que nela entravam e se sentavam à sua
mesa, portanto,
publicanos e pecadores do seu gênero. Jesus veio para
estabelecer co-
munhão com eles, para aí, nesse templo por Si
consagrado, os acolher.
O coração de Zaqueu tornou-se santuário de Deus por ser
um coração
verdadeiramente contrito. Somente de um coração
verdadeiramente
arrependido Deus pode fazer o Seu santuário.
Um outro patrono do Sacramento da Reconciliação
é o "bom la-
drão". A sua "confissão" foi feita sobre a Cruz. Ele mesmo
reconhece
as suas faltas quando diz: "Quanto a nós fez-se justiça
pois recebemos o
castigo que as nossas ações mereciam" {Lc 23,41). O que
naqueles mo-
mentos se passou na alma daquele ladrão permanecerá
para sempre
em segredo. Não podemos entrever o extraordinário
milagre da graça
senão pelos seus efeitos. Aquele homem estava,
indubitavelmente, mui-
to arrependido. Um bandido, desprezado pela opinião
pública, cer-
tamente se considerava pior do que os demais. A
crucificação era, de
fato, não só uma condenação à morte física, como
também significava
para o condenado a privação de todos os seus direitos.
Entre tormentos
e aos olhos de todos, o ladrão morria aceitando a sua
sorte. Através da
sua constatação: "Recebemos o castigo que as nossas
ações mereciam",
parecia querer dizer: "Sim, mereço-o, é justo que assim
seja". Naquele
momento tomou plena consciência da sua completa
condição de peca-
dor e foi tomado de um profundo arrependimento. Foi
essa atitude de
contrição e de profunda humildade que tornou o seu
coração receptivo
a acolher de Deus o dom da fé. E como teria que ser
grande a sua fé,
já que havia sido capaz de reconhecer o Rei naquele Jesus
a seu lado,
moribundo, espancado, coberto de escarros e ultrajado:
"Jesus, lembra-
te de mim quando estiveres no seu Reino" {Lc23,42).

A nossa conversão torna-se difícil porque nos nossos


corações há
muito pouca contrição e sendo ela pouca, forçosamente, a
nossa fé
é superficial.

A conversão à radicalidade

O processo da sua conversão deveria conduzi-lo à


radicalidade bí-
blica, à radicalidade da fé a que Deus nos chama com as
palavras do
Apocalipse de São João: " Oxalá fosses frio ou quente! Mas
como és morno
e não és frio nem quentey vomitar-te-ei da minha boca"
(Ap 3,15-16).

Para nos ensinar e melhor nos fazer compreender a


importância
da radicalidade da fé, São João da Cruz serve-se da
imagem de dois
pássaros atados (cf A Subida do Monte Car me lo, 111,4).
Um deles está
atado por um fio grosso e o segundo por um fino. De fato,
a situação
deles é praticamente igual, já que nenhuma das aves
pode voar. Esse
estado de coisas apenas sofrerá alguma alteração,
quando se quebrarem
todas as ataduras.

O contrario de radicalidade é o ser conformista nos


desejos, nas ati-
tudes, na oração. Deus é maximalista, quer lhe dar tudo,
mas você de-
seja sempre demasiadamente pouco e pouco pede. Não
procura o mais
importante, aquilo que lhe poderá conduzir à realização
da finalidade
da sua vida: que Cristo possa viver e reinar em você,
plenamente. Acaso
você se dá conta do modo como amarra as mãos de Deus
quando Lhe
pede tão pouco e quando se contenta com esse pouco?

Na nossa vida tudo deve estar subordinado a um


objetivo único:
que Cristo cresça em nós e, em nós, atinja a Sua
plenitude. Tudo deve
servir a este objetivo. É por isso que Deus exige de nós
também a ra-
dicalidade nas nossas súplicas. Se pedimos
"demasiadamente pouco"
podemos não ser atendidos. Se, depois de ter atendido
uma súplica
relativa à saúde, ao trabalho, à habitação, Deus já nos
parecesse desne-
cessário e, se o atendimento dessa súplica viesse a ser
mais obstáculo
que incentivo a seguir o Senhor até ao fim, como poderia
Ele atender
tal oração? Deus está "louco", quer dar-lhe tudo, quer dar-
lhe o Reino,
mas você, ao desejar tão pouco, nada mais faz do que O
impedir. "Procurai primeiro" - quer dizer, antes de tudo o
mais - "o Reino
de Deus e a Sua Justiça e tudo o mais vos será dado por
acréscimo" (cf.
Mt 6,33). Alguém disse que se você não procura em
primeiro lugar o
Reino de Deus, mesmo o resto, ou seja todas as outras
coisas, lhe serão
tiradas. Cada problema que enfrenta, cada dificuldade,
não é mais do
que um apelo de Deus a que deseje mais, infinitamente
mais. É ainda
convite a que sobre todas as coisas busque o Seu Reino,
porque então
todo o resto lhe será dado por acréscimo. É o
chamamento de Deus
para que se converta, para que tenha fé.

Escrevendo sobre a radicalidade de Santa Teresinha


do Menino
Jesus, referia sua irmã Maria: "Estás possuída por Deus"
{Carta de
Maria, 17.IX.1896). Possuída no sentido de que está
desejosa de tudo
entregar ao Senhor. Procure, a exemplo de Teresinha,
querer mais,
sempre mais, de modo a que a radicalidade bíblica invada
a sua von-
tade, para que você também seja "possuído" por Deus e
possas então
dizer, seguindo as pisadas de Santa Teresinha: "Escolho
tudo o que Vós
quereis." (ManuscritosAutobiográficos, Ms.A,10v°).
Quando morreu, na
noite de 30 de setembro de 1897, disse: "Nunca pensei
que fosse pos-
sível sofrer tanto...nunca, nunca! Não encontro outra
explicação disso
a não ser meu ardente desejo de salvar almas" (Caderno
Amarelo, sub
data cit.). Santa Teresinha sofreu por você também
também, para que,
à sua semelhança, sejas "possuído" por Deus, a fim de
que, como ela,
viva da radicalidade bíblica.

Santo Ambrósio acentua que Deus não olha tanto ao


que Lhe ofe-
recemos como àquilo que guardamos para nós, pois Deus
é um Deus
ciumento. Ele que o amou até ao extremo quer que você
se abra com-
pletamente ao Seu dom, para tudo lhe poder dar.

O encontro de Jesus com o jovem rico, relatado três


vezes nos
Evangelhos - por Mateus, Marcos e Lucas - foi,
efetivamente, um
encontro pouco vulgar. " Tendo-Se Jesus posto a caminho
alguém veio
correndo ao Seu encontro e tendo-se ajoelhado fez o
seguinte pedido: 'Bom
Mestre, que devo fazer para alcançar a vida eterna? —Se
queres receber
a vida eterna', diz Jesus, 'cumpre os mandamentos. Não
matarás, não
cometerás adultério, não roubards, não levantards falso
testemunho, hon-
ra seu pai e sua mãe e ama o seu próximo como a ti
mesmo'. O homem retorquiu: 'Mestre, tudo isso tenho
guardado desde a minha juventude'.
Jesus fitou-o com amor e respondeu-lhe: 'Uma coisa te
falta, vai vende o
que tens, dá o dinheiro aos pobres e terds um tesouro no
Céu, depois vem e
segue-Me \ Mas, ao ouvir tais palavras ensombrou-se-lhe
o rosto e retirou-
se pesaroso, pois tinha grande fortuna". (cf. Mt 19,16-22,
Mc 10,17-22,
Lc 18,18-30)

Na seqüência desta cena, São Lucas transmite-nos


algo ao mesmo
tempo insólito e surpreendente: ao vê-lo, Jesus diz: "Como
é difícil aos
que têm riquezas entrar no Reino de Deus” (Lc 18,24). Os
discípulos
estavam perfeitamente desconcertados com tais palavras.
Também nós
por certo nos surpreendemos, pois, com efeito, o jovem
rico, cumpria
todos os mandamentos. Mesmo assim Jesus disse-lhe:
"Como é difícil
a quem possui riquezas entrar no Reino de Deus!" O texto
é impressio-
nante. Repete Jesus aos Apóstolos: "Meus filhos" — em
tom indulgente
cheio de compreensão de quem sabe como aquilo devia
ser difícil para
eles - "Meus filhos, como se torna difícil aos que possuem
riquezas, entrar
no Reino dos Céus! E mais fácil um camelo passar pelo
fundo de uma
agulha do que um rico entrar no Reino de Deus". Estavam
eles cada vez
mais assombrados e diziam entre si: "Então quem poderá
salvar-se?" (Mc
10,24-26).

Podemos compreender que não basta cumprir os


mandamentos da
lei de Deus, mas que também nós nos empenhemos em
responder a
Cristo que nos chama à loucura de fé, isto é, à
radicalidade bíblica.
Para isso requere-se uma conversão contínua a uma tal
radicalidade.
Ao comentar este texto, Santa Teresa d Ávila dirá que ao
jovem rico
faltou uma partícula de loucura (Mor.111,1,5 segs.). Como
refere São
Lucas, deveria se tratar de alguém que ocupava
provavelmente algum
cargo de prestígio. Seria, pois necessário a ele que
renunciasse a um
bom número de coisas, em boa verdade, a tudo. Na sua
situação, seme-
lhante gesto implicava resignar-se a que os demais o
julgassem fora de
si. Para ele não era assim tão fácil deixar tudo. No
entanto, Jesus diz:
"Só aquele que tiver deixado tudo é que entrará no Reino
do Céu". Não
basta amar o próximo como a si mesmo. O certo é que
aquele jovem há
muito cumpria os mandamentos.

Todos nós somos chamados à loucura de fé. Sem


essa dose de lou-
cura não podemos seguir o Senhor até ao fim. Mais tarde
ou mais
cedo, você deverá deixar tudo, desligar-se de tudo. O
momento mais
difícil, será no final, quando tiver que deixar tudo, na hora
da morte.
Renunciar a tudo, nesse momento, significará um
sofrimento terrível.
Porém, o Senhor deseja poupá-lo de tal sofrimento. E de
Sua vontade
que desde já você deixe toda a sua "riqueza", não
necessariamente em
sentido literal mas no sentido do desapego dela. Poderia
surpeender-
nos que o Senhor exiga tanto de nós, mas essa divina
exigência tem
como objetivo a nossa liberdade e o nosso bem. A loucura
bíblica con-
siste em darmos a Deus tudo o que nos pertence e Ele dá-
nos em troca
tudo o que é Seu. Nós damos o nosso miserável todo,
enquanto Ele nos
dá o Seu maravilhoso todo, o Seu divino todo.
E uma atitude que devemos aprender com a Virgem
Maria, pois
é Ela o nosso modelo. Ela que deu verdadeiramente tudo
a Deus e O
seguiu até às últimas conseqüências. Ela, a Mãe do nosso
abandono,
Mãe da nossa radicalidade.
CAPÍTULO 2

A "VIRTUDE" DO
HUMOR A SERVIÇO DA

Deus é infinitamente misericordioso. A Davi


desculpou o adulté-
rio e o assassínio cometidos, perdoou ao publicano que
era traidor e
ganancioso, e ao ladrão crucificado concedeu também o
Seu perdão.
Há, porém, uma coisa que impede Deus de derramar
sobre você a
Sua misericórdia e que Ele não suporta: é a sua intocável
seriedade, é
o fato de você se considerar alguém de grande
importância. Pode-se
então dizer que condiciona Deus como que a cruzar os
braços' por-
que com esse seu sentimento de importância, torna-se a
Seus olhos,
ridículo e absurdo. "Aquele que mora nos Céus ri-se" (SI
2,4). Quando
você se vê à luz da fé, acaba descobrindo como todas as
suas preten-
sões de absoluta seriedade e de ser considerado aos
olhos dos outros
são verdadeiramente ridículas,
A convicção da importância própria contrapõe-se
fortemente a "vir-
tude" do humor. Acontece que esta é muito necessária,
para que em
nós cresça a fé enquanto percepção do mundo na sua
correta dimensão
e nas suas justas proporções. O bom humor é o modo de
ver a realidade
pelo seu lado absurdo e incoerente. Temos mesmo um
santo patro-
no do humor: Santo Thomas More. Há também abundante
literatura
acerca deste assunto de autores como: G.K. Chesterton,
CS. Lewis, B.
Marshal, F. Sheed e ainda outros. Escreveram sobre o
valor religioso do
cômico, sobre o humor enquanto comportamento religioso
a serviço
da fé e sobre a "teologia" do humor.

O jansenismo - uma ameaça para a


No século XVII apareceu o jansenismo, heresia


muito perigosa para
a fé. O teólogo de Lovaina, Cornélio Jansen, ensinava
então que o
pecado original causava a completa corrupção da
natureza humana
tornando-se esta presa da concupiscência. Segundo ele,
Deus apenas
predestinava a Sua graça aos eleitos e destinaria os
outros à condenação
eterna. Esta visão pessimista da natureza humana
associava-se à afir-
mação de que Cristo não morrera por todos os homens
sem exceção,
mas somente por alguns eleitos.

O jansenismo impunha, entre outras coisas, normas


de rigidez in-
superáveis, e uma delas referia-se à Sagrada Comunhão.
Para poder
recebê-la era necessária uma disposição que o cristão
comum, em geral,
não possuía. Exigia-se total ausência de pecados mortais
e veniais e um
amor a Deus absolutamente puro. A Sagrada Comunhão
tornava-se,
desse modo, uma recompensa pela virtude e não um
alimento para
reforçar a fé e o amor. Nas Igrejas influenciadas pelo
jansenismo co-
meçou a reinar a tristeza, o medo, o terror. O homem
começou a ter
medo de Deus e só muito raramente ousava aproximar-se
da Sagrada
Comunhão.
A abadia cistercense de Port-Royal tornou-se o
centro do jansenis-
mo. Uma das monjas compôs o "Rosário ao Santíssimo
Sacramento”
que exemplifica bem a atmosfera que reinava no
convento. Naquele
"Rosário" vinham salientados todos os atributos que
separavam Deus
do homem. Deus era apresentado, não como um Pai cheio
de Amor
e de Misericórdia, mas como um Senhor absoluto,
inacessível, seve-
ro e implacável. Segundo as idéias jansenistas, o cristão
tinha de ser
um pecador em permanente penitência pelos seus
pecados e, por causa
disso, não podia permitir-se estar alegre. Pelo contrário,
na sua vida
deveria predominar a tristeza motivada pela lembrança
dos pecados
cometidos. A superiora do pensionato feminino de Port-
Royal, a irmã
de Blaise Pascal, havia incluído no regulamento das suas
pupilas a proi-
bição de rir. Mesmo um simples sorriso era mal visto.
O jansenismo foi repetidas vezes condenado pela
Santa Sé, mas Santa Teresinha de Lisieux sentiu ainda os
seus efeitos na obrigatoriedade que tinha de solicitar uma
autorização especial à superiora para rece-
ber com mais freqüência a Sagrada Comunhão. Outra
conseqüência
do jansenismo é o terror a Deus, tão freqüente na vida
dos cristãos
contemporâneos, pois era visto em Deus apenas um juiz a
exercer a
Justiça. Ora, ao contrário, a fé cristã exprime-se mais
plenamente na jubilosa
descoberta do amor pessoal de Deus, no qual podemos
nos apoiar e
abandonar. A fé assim vivida suprime também a atitude
do fatalismo
dramático, perante o próprio mal, aquele mal que o nosso
arrependi-
mento pode transformar em "falta feliz". A alegria cristã
proveniente da
fé é como um reflexo do amor de Deus. Esta fé o leva a
sorrir para Deus,
a viver no alegre gozo do Seu amor, enquanto o induz
também a olhar
a sua seriedade com uma certa ironia e numa perspectiva
de humor.
A "virtude" do humor lhe permite combater o veneno da
tristeza que
Satanás se esforça por infiltrar na sua alma. Além disso,
desviando a
atenção de si mesmo, lhe permite viver na alegria que
brota da fé.

O humor como "exorcismo"

A "virtude" do humor, essa capacidade de ver o


mundo sob o ângu-
lo do absurdo, é um recurso que no contexto religioso
pode ter valor de
"exorcismo". Quando você se depara com uma vaga de
tentações, ou
quando se vê atormentado por um turbilhão de
pensamentos obsecan-
tes, não lute com o diabo, pois ele é mais forte que você.
Procure antes
zombar dele, menosprezá-lo. Faça uso desse exorcismo
que é o sentido
religioso do humor. Zombando do diabo, você repele o seu
ataque do
modo mais eficaz. A zombaria é o golpe mais certeiro
que você pode
infligir a Satanás, pois ele, que é de uma seriedade
mortal, tem horror
da zombaria; logo será compelido a afastar-se.

O sentido cristão do humor o ajudará também nos


seus confron-
tos com o outro adversário, que é o seu próprio "eu".
Também este é
um ídolo mortalmente sério e intocável. Um soberano
absoluto. Não é
permitido atingi-lo ou escarnecê-lo, nem sequer suporta
ser ofendido
ou criticado. Na luta contra o nosso "eu", o humor torna-
se, não só um
método religioso, mas também um ato de fé, quando, ao
olhar para si mesmo, procura ver o seu "eu" em verdade,
dizendo: na realidade sou
um pequeno "nada". Porque faço, então, de mim o centro
do mundo,
porque razão considero que os meus assuntos são os mais
importantes,
porque suporto tão mal os meus fracassos e as minhas
dificuldades,
revestindo-me de uma seriedade mortal? Bastaria apenas
olhar tudo
isso com uma pitada de indulgência, para ver que todas
essas coisas
que me preocupam, me assustam e me atormentam são
absolutamente
ridículas, face à única realidade importante, que é Deus.

O humor cristão é um processo eficaz para


destronar o ídolo do seu
"eu". Quando você se der conta da comicidade de
situações nas quais o
seu "eu" se instala no trono, pelo menos por um certo
tempo esse tipo
de situações surgirão ridicularizadas e serão inofensivas a
você. A sua
vaidade e o seu orgulho serão desmascarados e aquilo
que em você é
pretensão de grandeza, ou ainda, aquilo que o ameaça e
angustia, pa-
recerá ridículo e despido de qualquer máscara. Eis o
motivo pelo qual
o recurso religioso ao humor desempenha igualmente um
importante
papel na conservação do equilíbrio mental do homem.

Cinza e pó

O humor é um recurso terapêutico de valor


religioso, graças ao qual
você será capaz de dizer para si mesmo: "Que absurdo!
Preocupando-
me desmedidamente com coisas de nada, não só estarei
acumulando,
com esse procedimento, inúmeros desgostos, mas ainda,
arruinando
a minha própria saúde. No fim das contas, tudo isso não é
mais que
poeira e lixo; em conclusão, não se possui qualquer valor".
Procure ver
a sua vida à luz da fé, procure fazer humor consigo
mesmo. Pode não
ser fácil, pois a "virtude" do humor exige, por vezes,
autêntico hero-
ísmo. Mas, essa tática permitirá a você ver mais
facilmente, nas suas
justas proporções, essas duas realidades: Deus e você.
Por meio desse
reconhecimento você é purificado do egoísmo e a sua fé
sairá fortaleci-
da. Terá também oportunidade de ver claramente que
Deus é o que é,
verdadeiramente, importante na sua vida. Não faça,
portanto, de você
o centro do mundo.

Repare que você não é mais do que um


pequeno grão de areia -
i( y
como escrevia Santa Teresinha - um nada pequeno
com o qual não
vale a pena ocupar-se excessivamente, nem importunar-
se ou inquie-
tar-se. "Reza, minha irmã" — exortava a Santa — "para
que o grãozinho
de areia se possa tornar um átomo, unicamente sensível,
ao olhar de
Jesus". ( cf. Carta à Inês, julho-agosto 1889)

O sentido cristão do humor liberta você de si


próprio. Permite
reequacionar à luz da fé todos os seus valores, e o
capacita, ainda, para
reconhecer que tudo o que se passa ao seu redor é,
simplesmente de
bem pouca importância; tudo, à exceção de Deus.
Permitirá a você
desmascarar os valores ilusórios: o seu trabalho, os seus
projetos e as
suas dificuldades, a política e tudo o que se passa no meio
em que você
vive. Tudo isso em comparação com Deus, supremo valor,
é em con-
clusão, cinza e pó.

É nesse espírito que começa a liturgia de Quarta-


feira de Cinzas,
em cada Quaresma, quando o padre impõe as cinzas
sobre as cabeças
dos fiéis dizendo: "Lembra-se de que é pó e em pó há de
se tornar".
Pó, portanto, algo ridiculamente insignificante. Não só
você é pó, mas
também é pó tudo aquilo a que está preso, tudo aquilo
que muito aca-
lenta, bem como o que o assusta. Graças à "virtude" do
humor, você
poderá se abrir mais amplamente a Deus, criando em
você mais espaço
para Ele, porque estará então mais apto a ver todo o resto
nas suas
devidas proporções: pó e cinza. Será, então, possível a
você ver tudo na
perspectiva do absurdo.

A conversão de São Francisco de Assis pode


também ser vista nes-
te plano.

Quando, para seguir o chamamento de Deus, deitou


tudo aos pés
do pai, sentiu-se repentinamente livre e foi como se o
mundo inteiro se
tivesse, de certa forma, virado às avessas. "Quem viu o
mundo inteiro
suspenso pelo fio da misericórdia de Deus, viu a verdade.
Quem teve
a visão da cidade natal de cabeça para baixo, viu-a à luz
adequada. A
pessoa que viu a hierarquia completamente virada de
cabeça para bai-
xo, esboçará sempre um ligeiro sorriso diante das suas
prerrogativas".
(G.K. Chesterton, São Francisco de Assis, cap. 5)

O mundo de Francisco de Assis - o seu país e a sua


pátria - eram em
suma, Assis, pequena cidade feudal rodeada por um fosso,
contornada
de muralhas, flanqueadas por torres nos seus ângulos. A
sociedade de
Assis, naquele tempo, estava estruturada como uma
rígida pirâmide,
composta de vários grupos sociais subordinados uns aos
outros e que se
tomavam muito a sério: os notáveis da cidade, a nobreza,
a burguesia e
os camponeses. E, num ápice, aos olhos de Francisco todo
esse mundo
se inverteu por completo, apresentando-se-lhe como algo
ridiculamen-
te insignificante. Bastou um gesto para que a importante
Assis, esse
mundo respeitável de gente notável, de senhores, de
nobres, estreme-
cesse e se desmoronasse definitivamente. Tudo aquilo,
encarado por
Francisco na perspectiva do absurdo, tornava-se, por
assim dizer, cinza
e pó. Em face de Deus, as forças humanas mostravam-se
pequenas e
insignificantes até à gargalhada. Francisco compreendera
que a realida-
de importante e digna de respeito para a qual valia a pena
viver era uma
só: Deus e a Sua vontade. Da vontade de Deus jamais se
pode rir, só
se pode amá-la. E preciso, com toda a confiança, como
criança, ater-se
àquilo que é verdadeiramente importante.

Na base da maioria dos pecados reside a inabalável


convicção da
própria importância e uma seriedade imutável. Você cai
no pecado por-
que se sente imensamente importante. "A rejeição
desta importância,
segundo o humor cristão" - escreve W. Kasper - "torna-nos
aptos a vi-
ver uma existência serena e verdadeiramente humana."
(cf "Introdução
à Fé" y cap. 7). O humor póe a descoberto o ridículo das
nossas pre-
tensões à importância. Ao contrário, a falta de sentido de
humor e a
irritação que com freqüência a acompanham, são das
acusações mais
sérias atualmente dirigidas aos cristãos.

Os fariseus eram também pessoas com um mortal


sentido da sua
importância. De tal forma estavam convictos da sua
respeitabilidade
e importância, e tão agarrados à própria visão do mundo e
de Deus,
que reagiam com agressividade diante das críticas. O
farisaísmo é o
contrário da simplicidade que se caracteriza pela
liberdade decorrente
da vida e da visão de si próprio segundo a verdade. O
farisaísmo é tam-
bém uma negação da atitude de infância proposta no
Evangelho, que
reconhece a própria fraqueza e que, graças a isso,
permanece livre da
convicção da própria importância. Devemos ter presente
que o pecado contra o Espírito Santo consiste, entre
outras coisas, em não haver por
parte do homem, nem a vontade de reconhecer a verdade
sobre si mes-
mo, nem a de querer reconhecer a fraqueza própria.

O sentido de humor sobrenatural, permitindo-nos


ver a realidade
humana e a divina nas suas justas proporções, possibilita-
nos atingir
um maior distanciamento, um acrescido desprendimento,
e abre ca-
minho para uma liberdade maior. O distanciamento em
relação aos
acontecimentos e a nós próprios, obtido graças ao
sentido de humor,
permite-nos assim viver mais segundo o Evangelho.
Esse distanciamen-
to permite-nos reordenar os valores de modo a que a
nossa vida e os
nossos assuntos deixem de ser o mais importante.
Permite ainda evitar
a agitação, as preocupações exageradas, a absorção
excessiva pelo traba-
lho, para escutar o chamamento de Cristo: "Uma só coisa
é necessária"
(cf. Lc 10,42). Graças à "virtude" do humor as derrotas e
os fracassos
não chegam a adquirir a dimensão de catástrofes. A fé
sustentada pelo
humor pode te levar aos cumes do desapego e da
liberdade bíblica,
expressas no princípio paulino de que é preciso usar as
coisas deste
mundo como se não as usássemos: "Os que têm mulher
vivam como se
não a tivessem; os que choram como se não
chorassem; os que se alegram,
como se não se alegrassem; os que compram, como
se não possuíssem; os que
usam deste mundo, como se dele não se usassem"
(ICor 7,29-31). São João
da Cruz também o encoraja: "Procede de tal sorte que as
coisas tempo-
rais não representem coisa alguma para ti e tu nada para
elas" ("Avisos
e Máximas — Ditos de Amor '92).

Dizia Santa Teresinha do Menino Jesus, falando de si


própria, que
era um grãozinho de areia - um ínfimo "nada". Exprimia
dessa forma a
sua "atitude de criança", atitude na qual não havia o mais
leve vestígio
daquela gravidade mortal que está na base de tantos dos
nossos pecados.
Com efeito, a maior parte dos pecados que cometemos
contra os nossos
semelhantes advém precisamente do fato de, com a
mínima coisa, nos
sentirmos ofendidos, melindrados, e ainda por sermos
extremamente
sensíveis e susceptíveis no que nos diz respeito. E
imprescindível a to-
dos os sensíveis, hiper-sensíveis e susceptíveis, o sentido
libertador do
humor que os libertarão de si mesmos. Para a pessoa
hiper-sensível em
tudo o que lhe diz respeito, até o pormenor mais
insignificante, pode
converter-se num drama de enormes proporções. Se, ao
contrário, pro-curássemos reagir a todos estes conflitos,
desavenças e mal-entendidos
com um pouco de humor, se deixássemos que se rissem
um pouco de
nós, quanto haveria de crescer a nossa humildade, a
nossa fé e o nosso
amor! A luz da fé, com efeito só de uma realidade
verdadeiramente
importante não nos é lícito gracejar: de Deus.

Procure observar-se a si mesmo, e a tudo quanto o


rodeia, com
menor seriedade e mais à luz da fé. Você verá, então,
como tantas vezes
o que vive é digno de riso e de dó. Tente encarar-se com
um sorri-
so e ria de si próprio. Procure imitar Deus que, na
verdade, deve ter
um extraordinário sentido de humor. Basta pensar que Ele
o escolheu
como colaborador na grande obra que realiza. Não é, pois,
esta a mais
eloqüente expressão do Seu extraordinário sentido de
humor?
O santo patrono do humor

Nos santos, a "virtude" do humor atingia por vezes


tão elevado grau
de heroísmo que brilhava, mesmo em momentos de forte
sofrimento
ou em face da morte. Thomas More, humano como era,
mesmo na sua
santidade, decerto conheceu como nós as angústias que
nascem subita-
mente na esfera psicofísica e das quais ninguém está
livre, e nem mesmo
o nosso Salvador esteve. Esse santo temia certamente as
atrocidades e as
torturas que lhe anunciavam, se bem que, mais tarde, em
lugar de ser
torturado acabasse por ser decapitado. Antes de subir ao
cadafalso, apro-
ximou-se dele o filho banhado em lágrimas a pedir-lhe que
o abençoasse.
A atmosfera era densa, dificilmente suportável e para
aliviar a tensão
tornava-se necessário o recurso religioso ao humor.
Thomas More disse
então ao oficial que presidia à execução com ar grave:
"Ajude-me, senhor
Tenente, a subir, pois, se cair ficarei desamarrado". Que
dito cheio de
humor em face da sua própria morte!

O rei Henrique VIII proibira-o de falar, porque sabia


do impacto
que alguém capaz de conservar o sentido de humor,
mesmo peran-
te a morte iminente, tinha nas pessoas. Um homem com
autêntico
sentido de humor religioso é até temido pelo diabo;
imagina, então,
por Henrique VIII! Sem qualquer discurso, o condenado
ajoelhou-se e
depois de breve oração dirigiu-se ao carrasco dizendo-lhe
serenamente: "Coragem, bom homem, não tenhas medo
de cumprir o seu dever.

Como tenho o pescoço curto toma atenção para não


golpeares mal e
perderes, assim, a sua reputação" (W. Roper, A vida de
Sir Thomas).
Estas foram as derradeiras palavras de Thomas More.
Soubera gracejar
consigo mesmo, soubera ver-se a si próprio e à sua
situação, mesmo
perante a morte, sob o ângulo do absurdo.

E que, com efeito, aos olhos de Deus, única


realidade pela qual vale
a pena viver, a nossa morte não tem importância. Era
mesmo preciso
ter uma alma de criança e agarrar com muita força a mão
do Pai para
ser capaz de brincar mesmo com a própria morte! Fê-lo
um homem que
para obter o sentido de humor, decerto rezara,
freqüentemente, assim:

"Peço-Te que me concedas uma alma que


não conheça o aborrecimento, nem as
murmurações, nem os suspiros, nem os
lamentos e não permitas que gire demasiado
em torno desse algo que sempre quer imperar,
que se chama "eu".
Senhor, concede-me o dom do sentido de
humor. Dá-me a graça de me conhecer por
entre risos, para que saboreie nesta vida um
pouco de felicidade e possa partilhá-la com os
outros. Amém."
CAPÍTULO 3

AS PROVAS DE FÉ

Para se fortalecer, a fé deve ser posta à prova, deve


passar pela pe-
neira das provas, pelo crisol das experiências e das
tempestades. A fé
superficial, fundada unicamente na educação, nos
sentimentos e em
certos hábitos, cede perante as dificuldades. Deus quer
que através das
provações o homem seja despojado de tudo aquilo que,
para a fé, é
apenas um suporte, isto é, de tudo aquilo que não é a
adesão autêntica
a Cristo, que não é o apoiar-se e abandonar-se
exclusivamente a Ele.

A fé autêntica é a fé privada de todos os suportes


naturais, tal como
a compreensão, os sentimentos, as experiências
sensitivas ou imagina-
tivas: crer é alicerçar-se unicamente em Deus e na Sua
palavra. Deus
não aceita que você se apóie na força das suas práticas,
nem nos seus
sentimentos, ou nas suas experiências. Ele permite,
portanto, que a sua
fé seja submetida a provas, cuja diversidade depende da
variedade de
coisas em que esta se apóia para além de Deus. Se você
alicerça a sua
fé na compreensão natural, será preciso que um dia
desapareçam todas
as luzes do seu entendimento e, a um certo momento,
aquilo em que
acreditava começará a já não ter qualquer sentido. Se
acaso você baseia
a sua fé em certas pessoas, leigos ou sacerdotes, no
comportamento
deles, virá o momento em que isso deverá vacilar ou
mesmo desabar.
Se você a fundamenta nos sentidos, na satisfação e nas
experiências
de alegria que nascem da oração ou de outras práticas
religiosas não
poderá, então, surpreender-se quando chegar o tempo em
que experi-
mente a secura e a rejeição dessas práticas. Você deve
passar por estas
dolorosas purificações para chegar à fé pura, autêntica e,
com o tempo,
à verdadeira contemplação.

A espera de Deus
Colocando o homem perante situações difíceis,
Deus como que o
provoca a despertar em si atos de fé. Tais situações, que
nos levam a
tomar consciência da nossa fraqueza, podem fazer crescer
a nossa sede
de Deus. Porém, Deus não quer se apresentar a nós como
um intruso.
O Amor quer ser esperado e, quando não o é, torna-se
um amor des-
prezado. Neste sentido a fé é uma expectativa. O grau
de intensidade
dessa expectativa do Senhor testemunha a nossa fé no
Seu poder e no
Seu amor. A nossa expectativa de Deus jamais seria
suficiente. A inten-
sidade da sua expectativa d'Aquele que deseja vir até
você e que quer
ser acolhido, deve crescer continuamente. E um processo
que se realiza
não só graças ao seu esforço de esperar o seu Senhor,
mas é sobretudo
resultado da Sua Graça, pois é a graça que aumenta e que
aprofunda a
sua ânsia de Deus. Deus tem os Seus métodos para
animar a expecta-
tiva da Sua vinda e das Suas novas graças.

Esses meios divinos podem dividir-se em duas


categorias específi-
cas: para despertar nos nossos corações o desejo da Sua
vinda, Deus
pode, por exemplo, suscitar alguma inquietação
estimulante ou uma
necessidade muito forte. Nesses casos, a fé expressa-se
pelo desejo de
Deus e o seu desenvolvimento manifesta-se num contínuo
aumento da
expectativa e da fome de Deus. Outras vezes, pelo
contrário, pode Ele
permitir ou fazer mesmo, com que você passe por difíceis
provas de fé
nas quais se sentirá incapaz de enfrentar ou de resolver
os seus proble-
mas. Poderão ser problemas de natureza moral, como por
exemplo, os
pecados que você continua a cometer, ou ainda
problemas familiares,
como o seu casamento à beira da ruína, um filho caído no
álcool, ou
que porventura não tenha se casado na Igreja, ou que
tenha perdido a
fé. Pode também tratar-se de problemas de saúde,
quando ela começa
faltar, a você ou a algum daqueles que lhe são queridos,
quando você
experimenta a sua incapacidade para resolver
determinada situação e
a desorientação que isso provoca, naturalmente o
predispõem muito
mais a ansiar e a esperar a Sua vinda. É uma
oportunidade que lhe é
oferecida para desenvolver e para aprofundar a sua fé. A
todos esses
problemas ou dificuldades que Deus provoca, ou permite
que surjam
na sua vida, podemos chamar "provas de fé" e a sua
finalidade é a de
suscitar em você um desejo ardente de Deus.

Considerando todas essas coisas à luz da fé, você


conhecerá a chamada espiritualidade dos acontecimentos
a lhe dizer que cada um deles é
uma passagem de Deus e que determinadas passagens
Suas destinam-se
a despertar em você o desejo da Sua Presença, da Sua
ajuda e da Sua in-
tervenção salvífica. Quanto mais doente você se sentir,
mais necessidade
terá do médico. Quanto mais desnorteado e esmagado
por toda a espécie
de dificuldades, mais crescerá em você o desejo da vinda
d'Aquele que
pode ajuda-lo, que envolve na graça da Redenção todos
os seus proble-
mas e o salva. Basta que creia que Ele quer dar tudo
aquilo de que você
necessita, basta que creia no Seu Poder e no Seu infinito
Amor.

Deus, ao querer que você alcance toda a


profundidade da fé, pode
submeter-lo a provas muito difíceis, pode lhe retirar
muitas coisas e lhe
despojar totalmente. E que Deus pode querer o seu total
desenraiza-
mento para que, carecido das seguranças humanas, só
d'Ele você possa
esperar a ajuda salvadora.
A fé de Abraão

O santo patrono da nossa expectativa de Deus é o


nosso pai na fé:
Abraão. Qual foi a atuação de Deus para suscitar em
Abraão a atitude
de expectativa? Foi a de desenraizá-lo. O primeiro
chamamento divi-
no na revelação bíblica apresentou-se do seguinte modo:
"Deixa a sua
terra, a sua família e a casa de seu pai e parte para o
país que te indicar"
(Gn 12,1). E Abraão, enraizado em Harã, perto de Ur dos
Caldeus,
fez como o Senhor lhe havia dito. E, após ter deixado a
terra de seu
pai, depois de se ter despojado de tudo aquilo que poderia
constituir a
sua segurança, precisou ter mais atenção à escuta da
palavra de Deus.
Desse modo, havia de crescer a sua fé, quando Abraão
começou, pro-
gressivamente, a apoiar-se na vontade de Deus e a
interrogar-se acerca
do que Deus esperava dele.

Nasce, assim, na história da humanidade, um


fenômeno novo:
o acontecimento da fé cristã. Apareceu este na seqüência
do chama-
mento pessoal de Deus e como resultado do
despojamento existencial
do homem. A fé de Abraão e o seu abandono a Deus
nasceram do
fundamento do seu desenraizamento e da sua
perplexidade, fazendo amadurecer o homem de fé. O
nosso nascimento para a fé, tampouco
será um processo fácil. A realização desse nascimento
será o resultado
de contínuas provações e dificuldades que podem chegar
a situações de
risco e de falta de apoio, resultantes do despojamento.

Deus é o Deus da promessa e da bênção. Abraão


recebeu a promes-
sa de um país, de uma descendência e de uma particular
bênção de
Deus. No entanto, não era uma promessa clara, pois
estava como que
encoberta por uma certa escuridão. Diz Deus: "Parte (...)
para o país
que te vou indicar", mas Abraão não viu esse país, porque
não existia
nenhum país disponível à espera da sua chegada. Abraão
não sabia
como se cumpriria a promessa de Deus, mas entregou
tudo nas mãos
do Senhor. Precisamente nisto consiste a grandeza da fé
de Abraão.
A questão da sua descendência é também pouco clara e
mesmo um
pouco vaga, pois Abraão era já de idade avançada. Do
ponto de vista
humano, tudo parece irreal. Abraão teve que acreditar em
algo que,
encarado humanamente, se manifestava impossível.

Quanto mais uma promessa divina for desprovida


de realismo, tan-
to mais Deus há de esperar e exigir de nós, e tanto maior
será o mérito
da nossa resposta confiante. A promessa feita a Abraão
era tão pouco
provável que este deve ter confiado em Deus como o
Senhor do impos-
sível, do improvável. Seria para ele um longo processo de
crescimento
contínuo na fé.

Ao chegar à terra prometida, Abraão não obterá de


imediato a sua
posse, permanecerá sempre um estrangeiro. O passo
mais forte para o
aprofundamento da sua fé deverá se produzir, enfim, em
condições dra-
máticas, quando Deus lhe. pede o sacrifício do filho, ou
seja, de alguém
muito querido e que, do ponto de vista humano, deveria
constituir o
seu maior tesouro e o seu maior valor. Era uma situação
incontesta-
velmente difícil. Abraão deveria estar suspenso na
expectativa de que
Deus fosse resolver, de uma ou de outra maneira, a
situação provocada
por aquela terrível ordem. Tinha, então, de se decidir a
mostrar que a
sua confiança era sem limites. As exigências colocadas
por Deus à fé de
Abraão, que atingiam profundamente os seus sentimentos
paternais,
para com o seu único e querido filho, feriam o seu maior
amor, atingi-
ram também fortemente os próprios fundamentos da sua
fé de então. Com efeito, Abraão tinha acreditado que,
daquele filho, viria a
nascer numerosa descendência, o que fazia supor que o
que Deus lhe
estava a pedir parecesse ainda mais absurdo: aquele de
quem haveria
de nascer a numerosa descendência prometida deveria
agora perecer.
Deus fazia-lhe uma exigência tão grande porque lhe
queria oferecer um
dom extraordinário: queria elevar ao mais alto grau o
seu abandono. A
prova a que foi submetida a fé de Abraão, não era um
teste, Deus sabia
como ele reagiria, destinava-se antes a suscitar nele a
confiança no meio
da escuridão, e a fazê-lo avançar para Si na sua
peregrinação de fé.
As situações mais difíceis são assim particularmente
privilegiadas, pois
reclamam da nossa parte decisões amadurecidas. Ora, a
fé desenvolve-
se através das decisões pelas quais o homem se submete
a Deus na
"obediência da fé" (cf Dei Verbum 5).
O mesmo acontecerá também na sua vida, pois
Deus, porque o
ama, quererá por vezes colocá-lo em situações difíceis.
Ele permitirá,
ou causará, que você se sinta muito mal em certas
situações, que nelas
se sinta em grande dificuldade, que não as possa
solucionar e tudo isso
para que comece a ansiar pela Sua vinda, e para que A
deseje. E um
meio de impedi-lo que fique em marasmo espiritual. As
provas de fé que
porventura venha a enfrentar serão assim um meio de
forçá-lo a uma
posição definida: ou você não responde às expectativas
de Deus e a sua
fé começará a retroceder ou, à semelhança de Abraão,
tomará a decisão
de segui-Lo nas trevas do abandono. Assim, a sua fé há de
crescer e com
ela crescerá também a sua sede de Cristo e da Sua
Redenção, tal como
a ânsia da Sua Graça. E o Espírito Santo poderá descer ao
seu coração,
proporcionalmente à intensidade da sua sede d'Ele.

As provas de fé na vida da Virgem


Maria

A Igreja inicia o ano civil com um dia dedicado à


Mãe de Deus.
Vem nos apresentar, no dia de Ano Novo, a figura daquela
que nos
"precede na peregrinação da fé" {Lumen Gentium 58). Dia
após dia, na
vida de Maria, cumpria-se a bênção pronunciada por
Isabel: "Bendita
Aquela que acreditou" (Lc 1,45). A Igreja vê nela o
exemplo mais per-
feito da nossa fé.

A Virgem Maria vai adiante de nós, precede-nos "na


peregrinação
da fé", como se antecipasse os nossos passos e a nossa
caminhada; mas
Ela está constantemente junto de nós. No pensamento
conciliar, a Mãe
de Deus nos é apresentada como aquela que ocupa na
Igreja o lugar
mais elevado mas, simultaneamente, o mais próximo de
nós. Neste
sentido, se poderia dizer que chegamos a prejudicar a
Mãe de Deus se
nos limitamos a falar dos Seus méritos e a enaltecê-la,
pois estamos,
desse modo, a criar um distanciamento entre ela e nós.
Fala-se dema-
siadamente nas suas glórias e extremamente pouco no
fato de que Ela é
o nosso caminho no contexto de uma vida centrada
em Cristo, No caminho da fé a ser percorrido, Maria é o
nosso caminho, no sentido de que nos precede e nos
indica o itinerário. Tudo o que nós experimentamos, neste
caminho, ela já o viveu, razão pela qual a resposta aos
nossos problemas, encontramos olhando para a sua vida.

Quando nos limitamos a exaltar Maria e a falar dos


méritos da Mãe
de Deus fazemos do mesmo modo que os hagiógrafos
procederam com
os santos. Alguém disse que os santos sofreram mais com
os hagiógra-
fos do que com os seus perseguidores, pois aqueles
eliminaram da vida
deles todo o traço humano, tornando-os, tantas vezes,
figuras piegas e
sem vida. Não basta, portanto, prestar homenagem à
Virgem Maria,
venerá-la e colocar-lhe uma coroa sobre a cabeça. Isso
são, por assim
dizer, "meios ricos", meios que ela nunca utilizou durante
a sua vida.
Amar a Virgem Maria significa imitá-la, segui-la, pois ela é
aquela que
nos precede, é para nós o modelo da fé.

Se vemos que Deus reduz a nada os nossos projetos


e nos conduz
por um caminho diferente daquele que tínhamos
imaginado, lembre-
mo-nos que está agindo conosco como o fez na vida da
Mãe de Deus.
Também ela imaginara de maneira diferente o seu
caminho de santi-
dade e a sua missão. Aquela que renunciara a ser mãe foi
chamada a
uma maternidade extraordinária e tal chamamento
deitava por ter-
ra todos os seus projetos. Ao pronunciar o seu "sim" no
momento da
Anunciação, Maria não vislumbraria plenamente toda a
extensão do
seu consentimento. Mas isso não veio diminuir em nada o
valor da
sua aceitação, que toda a vida havia de confirmar num
ininterrupto
"Sim". Deus amou de tal modo a Virgem Maria que
propositadamente escolheu um modo tão duro de a tratar.
Sabemos que é assim que trata
os Seus amigos, por ser esse o melhor método para
moldar o homem à
imagem de seu Filho.

Vejamos como é que Deus modelou a fé de Maria,


que tipo de "fu-
racões" irromperam na vida dela e que difíceis provas
foram as suas. A
princípio, pouco depois do seu "fiat", depois de ter
recebido o anúncio
do Anjo de que havia de conceber e de dar à luz o Filho de
Deus, deu-
se conta de que José nada sabia. Foi a primeira tragédia
daquelas duas
pessoas. Maria e José, não sabendo como fazer, devem ter
sofrido mui-
to. Devia ser perturbador para José tomar conhecimento
de que Maria
estava grávida e também para ela, logicamente, devia ser
um tormento.
Naturalmente que Deus poderia facilmente explicar a José
o que se
estava a passar. Naqueles dias, a Virgem Maria punha-se,
constante-
mente a seguinte questão: "Que devo fazer?" Decerto foi
um período
difícil e cheio de escuridão.

A fé não anula a obscuridade mas, pelo contrário,


pressupõe-na.
Nesta realidade se oculta o sentido profundo da fé. A Mãe
de Deus,
vivendo na fé, passava, simultaneamente, por densas
trevas. Era, por-
tanto, submetida a provas de fé, muitas vezes,
excepcionalmente difí-
ceis. Uma delas foi o nascimento de Jesus em Belém.
Naturalmente
que para qualquer mãe prestes a dar à luz, o momento e
o local do
nascimento são da maior importância. A mulher que está
para ser mãe
quer dar à luz num bom local em condições dignas e isso
é um direito
fundamental. Maria não poderia ter tido o mesmo desejo
também? No
entanto, isso não lhe foi concedido. Uma vez que Jesus
deveria nascer
em Belém, não teria sido mais simples prevenir José? Com
efeito, já que
uma vez tinha recebido indicações durante o sono, não
poderia recebê-
las novamente: "Vai para Belém pois lá há de nascer o
Menino"? Em
vez disso, Deus decide de maneira diferente. O Menino
nasceria, de
fato, em Belém, mas em resultado de circunstâncias
particulares ori-
ginadas pelo recenseamento geral da população. Seria
justamente por
causa dessa situação que Jesus havia de nascer em
circunstâncias em
que era total a ausência de segurança humana. Por causa
da multidão
dos que chegaram, será impossível a eles encontrar
qualquer lugar. Que
fácil teria sido, então, ceder à tentação da incerteza e da
angústia!

Foi, precisamente, naquele difícil contexto de prova


de fé que o
Menino veio a nascer. O Anjo apareceu à Virgem Maria
apenas no
momento da Anunciação e depois não voltou a haver
qualquer outra
informação, mensagem ou anúncio. No momento do
nascimento de
Jesus, os Anjos apareceram aos pastores que cuidavam
dos rebanhos
e não a Maria.

Pouco depois, com a chegada dos Magos, houve um


novo "abalo de
terra": a perseguição de Herodes. Uma prova de fé muito
dura, que po-
deria ter levantado a seguinte objeção: "Por que razão se
cala Deus? Por
que não intervém para defender o Seu Filho? Por que
parece impotente
perante a tirania de Herodes?". Enfim, ei-los obrigados a
fugir para
terras desconhecidas onde não tinham qualquer apoio
humano.

Maria passou por outra penosa prova de fé quando


Jesus, aos doze
anos de idade, se demorou no Templo sem prevenir os
pais. Diz-nos o
Evangelho que quando o encontraram não foram capazes
de compre-
ender o que lhes dizia, mas que Maria guardava todas
aquelas coisas no
coração. E os momentos de trevas continuaram presentes
na vida dela.
Por que Jesus não quer explicar-lhe nada? A razão está no
fato de que
ela, a Mãe de Deus y tinha que aprender a interpretar
de modo correto
os acontecimentos; devia aprender a "espiritualidade
dos acontecimen-
tos". Deus nada Lhe simplificou na sua vida. Tudo deveria
continuar a
ser extremamente difícil!

O "Sim" da Anunciação parece tão cheio de alegria


e de facilidade
em comparação com o último "Sim", aquele que foi
pronunciado aos
pés da Cruz. Normalmente a pessoa de vida espiritual
muito avançada,
quando se trata de oferecer-se e de se sacrificar a si
própria, declara-se
pronta a fazê-lo. E bem mais difícil aceitarmos o
sofrimento dos que
nos são mais chegados e daqueles a quem mais amamos.
A Virgem
Maria, pelo contrário, firme aos pés da Cruz, pronunciou
um "Sim"
que tem como que um duplo valor: - "Que assim se faça
em nós – n’LEle
e em mim. Se o meu Filho querido deve sofrer e ser
torturado, que
assim seja".

Este consentimento foi o supremo sacrifício. O


"fiat" de Maria aos
pés da Cruz fez dela a Mãe da Igreja, a Mãe de todos nós.
A maternidade espiritual da Virgem Maria tem a sua
origem neste "Sim", que foi de
todos o mais difícil.

Se você se sente completamente destroçado ou


particularmente es-
magado por qualquer acontecimento, pensa em como
estás tão próximo
daquela cuja vida foi tão difícil. Deus amou Maria de forma
particular
e excepcional e, contudo, a sua vida foi cumulada de
tanto sofrimento!
É precisamente assim que Deus trata todos os Seus
amigos.
Quando Deus quer que não Lhe exijamos
demonstrações da Sua
ternura, trata-se, na verdade, de uma Sua particular forma
de amor e
de confiança que Lhe permite agir livremente.
Imaginemos um casal
ideal, numa situação em que o marido se encontra muito
ocupado por
determinado trabalho. Sua mulher, que o ama muito, não
o quer inco-
modar e procura por sua própria iniciativa encontrar todo
o material
necessário de que ele precise, ajudando-o desse modo
como pode. Só
pensa nele. E esse é o amor ideal: quando o ser humano
renuncia a si
próprio para cuidar de outra pessoa, quando apagando-se,
não deseja
sequer a mínima atenção para si. Sendo este tipo de amor
extremamen-
te difícil de pôr em prática, era o amor que Cristo exigia
de Sua mãe.

Há um relato bíblico que nos fala daquele encontro


entre Jesus,
Maria e alguns dos Seus familiares mais chegados. Vêm
dizer-Lhe: "A
Sua mãe e os Seus irmãos estão lã fora e querem
falar-Te" (Mt 12,47).
Jesus tratou, naquele momento, Sua mãe do modo como
trataria uni-
camente alguém extremamente querido e digno da
máxima confian-
ça. Pareceu, contudo, recusar o encontro: "Quem é
minha mãe e quem
são os meus irmãos?" {Mt 12,48). Aparentemente,
Cristo parece ter
sido muito seco para com Sua Mãe, porém tratava-se
justamente de
uma das suas provas de fé, prova do seu total abandono a
Deus. Para
Maria aquela dureza era como que expressão da maior
confiança que
Seu Filho depositava nela. Sabia que Cristo contava
consigo e que não
precisava de se sentir na obrigação de lhe manifestar
atenções. Maria
nunca foi obstáculo à missão apostólica de Jesus,
provando-Lhe, as-
sim, o seu total e desinteressado amor. Se, por vezes,
Jesus parecer as-
sim duro para com você, isso quer dizer que muito o ama,
que confia
que não O desiludirá e não O abandonará. Cristo sujeitava
continua-
mente Sua mãe a provas ligadas ao despojamento e ela
continuamente respondia "Sim", assemelhando-se, desse
modo, cada vez mais ao divino exemplo: seu Filho.

Poderemos dizer que uma vida assim é muito difícil?


Sim e não.
Essa ambivalência deriva do fato de que, para a pessoa
que ama a Deus
e que vive em comunhão com Ele, os despojamentos
podem converter-
se em alegria e felicidade, pois são ocasião de
declarar a Deus o próprio
amor e de Lhe manifestar a própria fidelidade.

Se, porventura, você passa por momentos penosos


e difíceis nos
quais Deus parece calar-Se, recorde que esse silêncio de
Deus não é
senão uma forma diferente da Sua palavra e que a Sua
ausência é ape-
nas outra forma da Sua presença que incessantemente o
envolve. Quer
o silêncio, quer a ausência de Jesus são sempre apenas
aparentes. Com
efeito, à Santa Teresa d'Ávila Jesus disse o seguinte: "Nas
ocasiões em
que mais te parecia estares só, era quando Eu estava
mais perto de ti".
E precisamente quando você se sente muito só, quando
tudo parece
demasiadamente difícil ou quando experimenta alguma
forma de des-
pojamento, que o Senhor está mais próximo de você. Se
Ele não lhe
dá sinais da Sua presença é porque deseja que confie,
sempre, mais
n'Ele. Certamente que, permanecendo aparentemente
silencioso e au-
sente fesus se expõe a um grande risco. Muitos O
abandonam em tais
ocasiões. Certa vez, aconteceu que uma enorme multidão
dos que O
escutavam resolveram deixá-Lo porque lhes parecia que
Jesus exigia
demasiado. Afastar-se de Jesus na seqüência de uma
prova de fé é um
fenômeno que se repete freqüentemente. Algumas
pessoas, confiando
em Deus, saem dessas provas fortalecidas, enquanto
outras, pelo con-
trário, se afastam.

A atitude da Virgem Maria, face a provas de fé tão


difíceis, é para nós como que um espinho na consciência.
Na vida dela, todas as provas de
fé contribuíram para um abandono a Deus mais profundo.
Apesar de
ter passado através de tantas provações, Maria jamais
desiludiu Deus.
Nela não houve divergência entre o modelo e a realização.
O ideal de
Deus realizou-se na vida dela em toda a plenitude, de tal
forma que
Maria se tornou obra-prima de Deus, a mais perfeita
encarnação dos
Seus desígnios. Nós, ao contrário, estabelecemos
constantemente um
divórcio entre a fé e a vida, entre o que dizemos e o que
fazemos, entre o ideal e a sua realização. Na seqüência
das provas de fé, retrocedemos
ou nos afastamos mesmo. E neste contexto que podemos
dizer que a
Virgem Maria é, para nós, um 'espinho' na nossa
consciência.

Maria, modelo do abandono, pode ser chamada


Nossa Senhora da
Aceitação, ou Mãe do Abandono, porque dizia sempre a
Deus: "Que em
mim se cumpra a Sua palavra". O acontecimento mais
importante da
história do mundo cumpriu-se nas trevas da noite em
Getsêmani: esse
acontecimento foi o "Sim" pronunciado por Cristo ao Pai.
Também
na sua vida, os acontecimentos mais importantes se dão
quando você
escolhe o caminho da aceitação, como a Virgem Maria. No
caso dela,
a aceitação abrangeu toda a sua vida e da mesma
maneira tem que
suceder na sua vida. As anunciações contínuas de que se
compõe a sua
vida devem ser compreendidas por você como apelos da
graça de Deus
e como provas de fé.

O tempo é um valor inestimável pois é presença de


Deus. O mo-
mento presente constitui para você um chamamento e
uma prova para
a sua fé, enquanto que para Deus é expectativa: "Me dirá
sim?" O
essencial do Cristianismo está em dizer
continuamente a Deus: "Seja
feita a Sua vontade."A Mãe de Deus repetia sem cessar
estas palavras.
Se poderá amar mais?
A Virgem Maria foi sempre cheia de graça e contudo
nela a graça
não cessava de crescer. A sua fidelidade e o seu
abandono fizeram desta
alma excepcional um receptáculo que, embora estando já
repleto de
graça, tinha capacidade para receber sempre mais. Não é
porventura
um paradoxo? Deus ampliava, incessantemente, o
coração dela e cada
nova prova de fé e cada um dos seus "sim" contribuíam
para o seu cres-
cimento em graça. A vida da Mãe de Deus, ainda que
fosse simples e
comum, foi santificada por esse contínuo "fiat".

Se existe alguma distância entre nós e Maria é


sempre por nossa
culpa, pois somos nós que a tornamos distante e
inacessível. E essa
distância é denunciadora da nossa mediocridade, da
nossa frivolida-
de, de sermos conformistas e de termos receio de nos
abrirmos sem
reservas à graça de Deus. E muito mais cômodo para nós
dizer: "Ela
foi concebida Imaculada, foi a Mãe de Deus, era
diferente... Não es-
tou à altura de imitá-la". Pensando deste modo buscamos
pretextos e erguemos barreiras a Deus, que nos convida
insistentemente a seguir-
mos as Suas pegadas.
Poderíamos querer perguntar qual a razão pela qual
Jesus deseja
tanto que sigamos o exemplo de Maria e que nos
dirijamos a Ele per-
correndo o caminho mariano. Encontramos uma das
respostas a esta
questão na radicalidade da Mãe de Deus - a radicalidade
da entrega de
si mesma a Deus - que Lhe permite entregar-Se a nós. O
amor que Jesus
dedicou a Maria foi extraordinário e excepcional. Amou-a
mais do que
a qualquer outra criatura precisamente porque ela soube
dar-Lhe tudo.
Tendo escolhido a virgindade, Maria veio a realizá-la não
apenas no
sentido da conservação da pureza em castidade, mas
ainda no sentido
do dom total de si mesma a Deus por amor e nisso
consiste a realização
da sua virgindade citada na Bíblia: uma virgindade que se
exprime na
firme vontade de viver em castidade para poder dar-se
totalmente a
Deus e viver assim exclusivamente para Ele. Aquela que
desde o primei-
ro momento da sua existência se uniu com todas as forças
da sua vonta-
de e do seu amor ao Verbo Eterno, realizou na sua vida o
mais alto ideal
da virgindade. Maria, tendo-se oferecido a Deus, de modo
perfeito e
sem limites, torna-se primeiro Esposa e, logo, Mãe do
Verbo.

Deus dá-Se à alma na medida em que esta se dá a


Ele. Se conside-
rarmos a dimensão do dom total que Maria fez de si
mesma ao Verbo,
não podemos, sequer, imaginar com que intensidade o
Verbo a Ela
Se entregou! Maria é o exemplo para aquelas almas
que Jesus ama
pela entrega total de si mesma. Se Jesus deseja tanto
que nós também
percorramos o caminho de Maria é porque quer que a
nossa realiza-
ção espiritual aconteça, modelando a nossa alma por
aquele tipo de
alma que Ele ama devido ao dom total de si. O Seu
ardente desejo é
o de encontrar almas que se assemelhem à Virgem Maria,
no desejo
de segui-Lo até às últimas conseqüências, permitindo-Lhe
assim que
derrame sobre elas as torrentes infinitas do Seu Amor e
das Suas gra-
ças. O desejo ardente dessas almas é para Jesus "fome"
que está sempre
por saciar. Ele chama você a empreender o caminho de
Maria para lhe
revelar a imensidade do Seu desejo de você.

Se quiser seguir o exemplo da Virgem Maria, se


você se assemelhar
cada vez mais a ela, permitirá a Jesus, na medida do
seu abandono, amá-Lo com o mesmo amor com que a
amou. A Virgem Maria, apre-
sentada como modelo da alma entregue a Deus sem
reservas, exorta-O
a realizar o ideal do radicalidade da fé.

As tempestades da vida

Tempos particularmente privilegiados para o


crescimento da fé são
os das tempestades que, por vezes, se abatem sobre a
nossa vida. A tem-
pestade no mar, descrita no Evangelho, simboliza de certa
maneira a
nossa situação quando nos momentos difíceis de provas
de fé, variando
o temporal de intensidade, temos a impressão que Jesus
nos abando-
nou, que Se ausentou. Podem ser diversas as nossas
tempestades: de
tentações, de escrúpulos, de inquietações com o trabalho,
tempestades
que envolvem a saúde ou o trabalho profissional, ou
ligadas a conflitos
no matrimônio...

Em face de uma tempestade há duas atitudes


possíveis: a angústia,
como foi o caso dos Apóstolos atemorizados; e a calma,
simbolizada
na pessoa de Jesus adormecido na barca. Numa situação
que huma-
namente se apresenta trágica, em que a barca batida
pelas ondas está a
ponto de afundar, Jesus dorme. O Senhor devia estar
verdadeiramente
fatigado, mas seria mesmo só cansaço? Se bem que na
barca estivesse
Jesus a dormir, aos Apóstolos afigurava-se que tudo
estava perdido,
pelo que, tomados de forte tensão, de angústia e de
pânico, decidem
acordá-Lo. Eis que durante a tempestade se evidenciam
duas atitudes:
por um lado os rostos dos Apóstolos aterrorizados de
medo e, por ou-
tro lado, a calma estampada no rosto de Jesus
adormecido. A atitude
de Cristo deve lhes ter parecido de tal modo estranha que
até suscitou
protestos: "Mestre, não te importa que pereçamos?"
{Mc 4,38).

Cada tempestade tem o seu sentido, pois é uma


passagem de Deus
que nos traz uma grande graça e, em particular, a do
abandono. Em cada
situação de tempestade você deve imediatamente dirigir
o seu olhar in-
terior para o rosto sereno de Jesus. Poderíamos falar aqui
de "teologia5
do sono de Deus. Durante as nossas tempestades Deus
parece dormir.
Na revelação bíblica, Deus não se manifesta apenas por
palavras, mas
também por gestos. Na verdade, como está carregada de
sentido aquela atitude do sono de Jesus precisamente
num momento dramático e de
perigo iminente! Evidentemente que isto não significa
que, face a uma
situação de perigo, se deva ficar na passividade. O
quietismo é contrá-
rio aos ensinamentos da Igreja. Jesus não faz qualquer
repreensão aos
Apóstolos pelo fato de terem querido salvar o barco,
reprova-lhes antes
a falta de fé que os levou a sucumbirem à tentação do
medo e até do
pânico. Por meio da Sua atitude e do Seu repouso, em que
dormia pro-
fundamente, quisera Jesus dizer-lhes: "Eu estou convosco,
acalmai-vos,
porque à barca em que Eu estou, nada pode suceder".

A atitude de fé é, ao mesmo tempo, uma oração de


fé. Esta é uma
oração que se exprime pela calma em face do perigo, pela
paz na es-
fera espiritual, já que no âmbito psicofísico não podemos
exercer uma
direta influência. E normal que nesta última sejamos
freqüentemente
sacudidos pelas inquietações, mas isso não tem
importância. O que
é importante é que o medo que nasce na esfera
emocional, psíquica,
não contagie a nossa esfera espiritual, que esse medo não
provoque
qualquer alteração na nossa atitude, nos nossos atos,
pensamentos ou
desejos. Só a fé na presença de Jesus junto de nós pode
fazer com que
permaneçamos tranqüilos, apesar dos vários estados
emocionais que
possamos atravessar. A Sua presença é, com efeito, a
presença de um
Amor e de um Poder infinitos.

Quando as tempestades, exteriores ou interiores, se


arremessarem
também contra a sua vida dirija o seu olhar para o rosto
sereno de
Jesus. Se assim fizer, compreenderá que você não está só
e que com a
Sua presença, o Senhor quer lhe dizer: "Esta tempestade
há de passar,
com certeza, vai passar".

Nos momentos de tempestade, ou quando a nossa


fé for posta à
prova, não devemos esquecer a contínua presença, junto
de nós, da-
quela que é a Mãe do nosso abandono. Peçamos-Lhe que
nos ensine
a viver num abandono como foi o Seu, para que, deixando
de confiar
em nós próprios, nas coisas ou nas pessoas, possamos
sempre ver junto
de nós a presença de seu Filho, Aquele que é a nossa
única segurança.
Pecamos à Virgem Maria que, seguindo o seu exemplo,
nos abandone-
mos totalmente a Deus: "Mãe do Grande Abandono,
entrego-me a ti,
sem reservas".

A inquietação proveniente da falta


de fé

Nem sempre as provas de fé têm como resultado a


sua consolidação
e dinamização. Se, na verdade, você resiste ao
despojamento que estas
implicam, dá-se um retrocesso no seu abandono a Deus.
Defrontando-
se com as dificuldades, a sua fé, começará a vacilar e a
sua vida passará
a ser dominada pela inquietação, pela agitação e pelo
stress. Esses sinto-
mas denotam a imaturidade da sua fé ou mesmo a
ausência dela e, sem
dúvida, negações da própria existência de uma vida de fé.

Cada vez que, perante alguma prova de fé - seja de


um perigo ou de
uma dificuldade — você se deixa dominar pela agitação,
pela inquieta-
ção ou pela tensão, você fere o amor de Cristo. Fere-lo
porque parece
querer tomar nas próprias mãos as situações de
dificuldade para as
resolver sozinho. Por outras palavras, conta consigo
mesmo, e em você
não há espaço para a fé. A fé, de fato, consiste em confiar
no Amor e
no Poder infinitos de Deus. A partir do momento em que
você cede
à agitação, ao stress e à inquietação, é como se pusesse
Jesus de lado,
como se Lhe dissesse: "Agora não posso contar Contigo,
devo ser eu
a resolver esta situação".

Existem manifestamente no homem duas esferas


que é preciso saber distinguir: a psicofísica e a espiritual.
Perante qualquer situação difícil
ou perigosa, a agitação, a inquietação e o stress invadem
inicialmente a
esfera psicofísica, a dos seus sentimentos. Enquanto este
tipo de tensão,
conducente à agitação ou à inquietude, permanecer na
esfera psicofísi-
ca você não fere Jesus. Somente quando permite que essa
inquietação e
agitação provocadas por uma situação psicologicamente
insuportável,
invadam as suas faculdades espirituais — os pensamentos
e a vontade —
então sim, pode-se falar em infidelidade e falta de fé.
Neste caso não se
trata de eliminar o medo, a inquietude e o nervosismo da
esfera psico-
física, pois muitas vezes isso é impossível. O que se trata
é de evitar, na
sua atitude, o pânico na esfera espiritual, que é aquela
que determina e
forma as atitudes, de modo a que aí reine a paz
decorrente da fé.

Não é fácil conservar a paz. Sabemos que também


os santos se viram freqüentemente confrontados com as
dificuldades. São Maximiliano
Maria Kolbe, por exemplo, padecia de uma úlcera no
estômago, o que nos leva naturalmente a pensar que a
tensão nervosa não lhe foi desco-
nhecida. Houve na sua vida períodos em que foi
necessário impôr-se a
calma em face do perigo, tendo então muito que lutar
pela sua fé.

A virtude da coragem não consiste na total ausência


de medo ou da
inquietação na esfera psicofísica, mas antes em não ceder
a esses senti-
mentos, crendo que nunca estamos sós, que junto de nós
está sempre
Aquele que nos ama e de quem tudo depende. As graças
difíceis das
provas de fé, freqüentemente associadas ao sofrimento,
têm de ser acei-
tas por nós na consciência da proximidade de Cristo e na
fé de que Ele
há de sair vitorioso, que depois de Sexta-feira Santa virá o
Domingo
da Ressurreição. Devemos ter uma fé inabalável na
presença junto de
nós - particularmente nos momentos das provações e de
sofrimento -
d Aquele que é Paz, Poder, Alegria e Ressurreição.

O dinamismo da fé e da nossa luta contra as


tentações da inquieta-
ção, da agitação, do stress, exprimem-se na vivência do
momento pre-
sente santificando-o como momento de graça.
"Entrega-te inteiramente
nas mãos da misericordiosa providência, por outras
palavras, entrega-te
à Imaculada e fica tranqüilo", escreve São Maximiliano a
um dos seus
confrades (K.Strzelecka, Maximiliano Maria Kolbe). Vive
como se se
tratasse do seu último dia. O amanhã é incerto, o passado
já não lhe
pertence, só é seu o dia de hoje. Deus não quer que olhe
para trás,
pois quase sempre cede às tentações. "Quem, depois de
deitar a mão ao
arado, olha para trás, não é apto para o Reino de
Deus" (Lc 9,62). Deus
não quer que se inquiete com o futuro. No Sermão da
Montanha, Jesus
diz claramente: "A cada dia hasta o seu cuidado" (Mt
6,34). Se você se
volta para o passado ou para o futuro e não vive a graça
do momen-
to, desperdiça os dons que Ele deseja lhe conceder
precisamente nesse
momento.
Para melhor compreendermos este conceito
podemos servir-nos de
uma imagem fictícia, semelhante a uma parábola:
Imagine estar numa
estação que está no meio de um pequeno caminho de
ferro e que à sua
frente passa um interminável comboio com uma enorme
quantidade
de pequenos vagões, que você deve encher com pacotes
que lhe estão
próximos. Porém, pode acontecer que você fixe o olhar
nos vagõezi-
nhos que se afastaram e se dê conta sobressaltado que
deixou passar muitos sem carregar. Logo você se apressa
a fixar os olhos nos que vão
chegando e, é horrorizado que vê a enorme quantidade
que falta para
encher. Nesse preciso instante, distraído com os que
passaram e com os
que chegam, passa diante de você mais um vagão
que se afasta sem ser
carregado.

As inquietações, do passado ou do futuro, que o


atormentam são
também uma prova a que é submetida a sua fé. Deus
espera que você co-
loque tudo em Suas mãos e se entregue mais a Ele até o
abandono total.

A paz procedente da fé
Se as provas a que é submetida a sua fé fortalecem
a sua adesão a
Cristo e o seu desejo de se apoiar n'Ele, você verá como
na sua vida sur-
girá a verdadeira paz. As palavras: "a paz esteja
convosco", em hebrai-
co "shalom", exprimem uma saudação muito íntima. É
uma saudação
para desejar aquela paz que emana da comunhão íntima
com Deus.
Assim era compreendida no Antigo Testamento. Era,
também, dessa
forma que Cristo saudava os Seus discípulos - "Shalom".
Durante a
Ultima Ceia disse-lhes: "Deixo-vos a minha paz, dou-vos
a minha paz.
Não vo-la dou como o mundo a dá? (Jo 14,27).

O mundo também quer nos dar a paz, mas a paz


humana. Existem,
com efeito, duas espécies de paz, bem como dois tipos de
alegria: a
paz e a alegria humanas, caracterizadas pela caducidade
e pela preca-
riedade, e a paz e a alegria de Cristo, que nascem em nós
como algo
duradouro, enraizado na fé. Que coisas são a paz e a
alegria humanas?
Correspondem a algo que recebemos das pessoas. A
nossa paz humana
é como que uma esmola mendigada junto do próximo,
porque, na rea-
lidade, procurando nós esse tipo de paz e de alegria é
como se buscás-
semos uma esmola. Esta bagatela de estima humana,
este "retalho" de
elogio, de aplauso ou de olhar complacente, não são mais
do que ninha-
rias. E nós queremos construir a nossa paz sobre isto!
Pode até aconte-
cer que alguém consiga alcançar o sucesso e a
consideração dos outros,
que obtenha essas vulgares insignificâncias humanas que
o enchem
de satisfação. Mas essa é a paz humana, a paz mendigada
que o mun-
do pode dar. Como é precária! Basta um pequeno
incidente, sermos, por exemplo, alvo de alguma
indelicadeza, de alguma maldade, ou de um olhar de
desconfiança, para que essa serenidade se desvaneça e a
alegria se esfume. A paz abandona-nos porque perdemos
essas ninha-
rias que mendigamos.

Quando vem a faltar essa paz humana aparece o


seu oposto: o medo
gerador de doenças e de neuroses. O medo e a angústia
derivam da
nossa procura da tranqüilidade humana e é conseqüência
da perda
dessas nesgas de serenidade mendigada que perdemos.
Outras vezes
pode a angústia ser originada pelo receio de se perder a
estima de al-
guém, pela falta de um complacente olhar, por perdermos
essa migalha
de aceitação que conseguimos pelas nossas realizações,
ou ainda pelo
medo de perder um sorriso de alguém. Expomo-nos,
assim, à mercê
dos caprichos e dos humores dos nossos semelhantes, à
mercê daquilo
que o mundo nos possa proporcionar.

A outra paz, a paz de Cristo, flui da Sua


presença. E um dom
Seu. "Dou-vos a Minha paz", diz-nos Jesus. E Ele que é a
nossa paz,
concedida pela fé (cf. Ef 2,14). Acolher a paz de Cristo
por meio da fé,
significa acolher a Sua pessoa, significa abrir-Lhe, de
par em par, as
portas do nosso coração.

Aquela inquietação, aquela tristeza são sempre


más, porque constan-
temente derivam do amor próprio. Porém, a paz e a
alegria nem sempre
vêm de Cristo e nem toda a paz, nem toda a alegria são
boas. Se a mi-
nha alegria advém do fato de ter sido bem sucedido em
alguma coisa,
trata-se, então, de uma alegria humana, muito instável,
em suma, uma
autêntica ninharia! Se corremos atrás desse tipo de paz e
de alegria,
encontramo-nos sempre diante de uma espécie de castelo
de cartas'
que ao mais leve sopro se desmorona, pois Deus não
consentirá que
a paz humana, a tranqüilidade que o mundo proporciona,
seja algo
duradouro na nossa vida.

A verdadeira paz é fruto da vida interior, fruto da fé


fortalecida
pelas provas, uma serenidade que não obtemos à partida,
mas na meta.
Ela não é tanto resultado de conquista nossa, mas antes
uma questão
de escolha. Não poderá haver paz na sua vida enquanto
nela existirem
apegos, ídolos e servidões a lhe prender. Enquanto entre
Deus e você se
interpuser algo ou alguém, você não poderá se unir
plenamente a Ele, no sentido da fé, não haverá em
você paz. Só se pode lastimar que os
seus sofrimentos daí decorrentes sejam em vão.

A paz de Cristo deriva do processo de contínua


eleição da Sua pes-
soa. O mais importante é a sua escolha principal, a sua
opção funda-
mental. Cristo é para você verdadeiramente o valor
supremo? Na Cruz
Ele salvou você e, ressuscitando, deu-lhe a possibilidade
de conquistar
a verdadeira paz e a verdadeira alegria. Graças à Morte e
à Ressurreição
de Cristo essa serenidade e esse júbilo duradouros ficam,
por assim
dizer, ao alcance da sua mão. Mas, a você compete, no
entanto, esco-
lher, porque para colher verdadeiro proveito dos frutos da
Cruz e da
Ressurreição você deve optar por Cristo e pela Sua paz.
Esse há de ser o
processo da sua aceitação de Cristo. De qualquer modo,
você não pode
escolher a paz e a alegria se primeiro não escolher Cristo,
dado que é
Ele próprio que o ajuda a fazer essa escolha, libertando-o
de tudo o que
o prende e escraviza. E Ele que deita por terra os seus
ídolos. Se você
consentir, essa será a sua opção e a sua afirmação pela
paz, pela alegria
e pela liberdade: é a sua opção pela fé.

Se na sua vida surgem as neuroses, talvez cada vez


mais persistentes,
isso significa que em você continua a não haver suficiente
vida interior,
que a escolha por Cristo é ainda demasiado débil; significa
que você
ainda não escolheu verdadeiramente o seu Divino Amigo,
que a fé ge-
radora de paz continua ainda a ser pouca. Procure
aprender a aceitação
que é contínua escolha de Cristo. Ao aceitar a Sua
vontade escolhe, e
aceite, o Seu amor.
Porém, na base de tal escolha deve situar-se
qualquer coisa que de-
finitivamente resulta ser essencial: a fé no Amor. Que
espera Jesus de
mim, que quer Ele? O Seu desejo é que você, ao amar a
Sua vontade,
queira o seu próprio bem. Cristo de nada necessita para
Si. Se alguma
coisa quer de você é sempre para seu bem. Ele quer amá-
lo e quer que
aceite o Seu desejo, quer dizer, o Seu amor. Você é como
uma crianci-
nha que não se apercebe daquilo que é verdadeiramente
bom para si.
A criança de tenra idade deve ser levada a aprender a
comer, a vestir-se,
porque a criança não sabe amar a si própria. São os pais
que a amam
e cuidam dela. A criança não é capaz de querer o bem
próprio e de
tomar conta de sL Conosco acontece o mesmo, não
sabemos o que é verdadeiramente bom para nós, não
sabemos amar-nos a nós próprios.
Somente amando a vontade de Cristo, amando o Seu
amor por nós e
a Sua solicitude para conosco poderemos amar-nos pura e
desinteres-
sadamente.

Cristo é alguém que espera de você alguma coisa,


Ele é, antes de
tudo, uma vontade que se manifesta. Crer e amar Cristo
significa amar
o que Ele quer para nós, é amar a Sua vontade. E
deste modo que de-
vemos fazer a nossa opção por Ele: amando o que Ele
ama. Escolher
Cristo nas situações de prova a que é submetida a nossa
fé confirma o
nosso amor à Sua vontade: essa é a única coisa que nos
dará a paz e a
verdadeira alegria, que nada nem ninguém nos poderá
tirar.

CAPÍTULO 4
O DESERTO

Na simbologia bíblica, o deserto é uma etapa no


caminho para
Deus que todos os que são chamados à fé devem
atravessar. Fê-lo
Abraão, quando foi necessário abandonar Harã para
encontrar a Terra
Prometida. Analogamente, a história de Moisés inicia-se
no deserto,
quando Deus Se lhe revela na sarça ardente e aí, no
silêncio do deserto,
o chama à particular missão de libertar o povo eleito. E
também no
deserto que Elias se refugia quando, por meio da fuga,
procura salvar a
vida. Deus fê-lo caminhar durante 40 dias e 40 noites para
finalmente
Se lhe revelar numa delicada brisa e confiar-lhe, em pleno
deserto, uma
missão especial. Deus não Se manifesta a Elias no meio
do barulho,
nem de um furacão, do fogo ou de um tremor de terra,
mas no silêncio
da natureza e no recolhimento do coração. Não Se revela
num momen-
to de excitação, mas na quietude, quando Elias, livre das
preocupações
e do temor, fica face a face com Ele.

Pela boca do profeta Oséias, Deus fala de Israel


como da Sua Bem-
Amada, que por amor quer conduzir ao deserto: "Por isso,
a atrairei,
conduzi-la-ei ao deserto e falar-lhe-ei ao coração" (Os
2,16). Deus con-
duz o homem ao deserto por amor, porque o deserto é um
dom Seu.
O deserto realiza aquilo que pedia Santo Agostinho
quando orava:
"Senhor faz que Te conheça a Ti e que me conheças a
mim".

O simbolismo do deserto

O deserto, enquanto lugar geográfico e enquanto


símbolo da si-
tuação do homem, não deve necessariamente aparecer
de repente em toda a sua amplitude, ou na sua forma, ou
nas suas características. O
deserto geográfico aparece gradualmente. A quantidade
de árvores vai
diminuindo cada vez mais, deixando pouco a pouco, maior
lugar à
areia e às dunas. No início, pode se encontrar, de vez em
quando, um
oásis. Acontece o mesmo com o deserto humano: pode
manifestar-se
plenamente com um completo despojamento, com uma
tempestade
de tentações e com a particular presença de Deus
misericordioso. Mas
pode também aparecer gradualmente, apenas com alguns
dos seus ele-
mentos. O deserto entendido como prova de fé, isto é,
entendido como
chamamento a uma vida de fé, pode, por exemplo,
identificar-se com
qualquer tipo de situação difícil como, por exemplo, as
dificuldades
decorrentes das nossas relações com os outros, uma
doença, o senti-
mento de solidão que o deprime e outros. O "deserto", por
excelência,
são os difíceis estados espirituais de aridez e secura,
quando Deus pare-
ce tê-lo abandonado, quando você não sente a Sua
presença e seja mais
difícil para você crer nela.

O deserto pode ser "imposto" por Deus a uma


pessoa ou mesmo
a uma comunidade inteira, quando Ele para lá os conduz.
Todavia,
o deserto também pode ser fruto de uma escolha. Pode
acontecer
que seja você mesmo a desejar uma situação de deserto
para buscar o
silêncio, o despojamento e a presença do Senhor. Aí
encontrará então
o seu adversário, embora, sobretudo venha a encontrar
Deus. Você po-
derá entrar no mais fundo de si e descobrir a verdade
sobre si mesmo,
porém, ao mesmo tempo, descobrirá o que é mais
importante, a ver-
dade sobre Deus. Do mesmo modo Jesus, antes de
iniciar a Sua vida
pública, andou no deserto. Ele parece querer lhe dizer:
"Repara, você
não está só. Eu estive aqui antes. Durante quarenta dias
padeci fome
e também para Mim foi muito duro. Você nunca está só.
Procure
acreditar no Meu amor."

O deserto pode dizer respeito a uma pessoa ou


pode também en-
volver toda uma nação e ter assim caráter social. Uma só
coisa é certa:
uma vez que lá entrar, você sairá modificado. Seguro
é também que
um dia você terá de entrar nele. Virá o tempo em que
por meio de
acontecimentos exteriores ou interiores, Deus lhe colocará
numa situ-
ação difícil, quem sabe talvez até de extrema dificuldade,
na qual você
deverá fazer uma opção. Então, será necessário que se
recorde que se trata de uma graça: a graça do deserto. E,
se neste momento você se
encontra neste tipo de deserto, deve agradecê-lo a Deus.
Dê-Lhe graças
pelas dificuldades, por estar doente ou pela sua solidão,
se você se sente
incompreendido, quem sabe por estar vivendo um
pesadelo em casa ou
no trabalho, ou ainda por ter dificuldades consigo mesmo.
Todas essas
situações são elementos do deserto. Procure ver que em
tudo isso Deus
está presente e o ama.

Oxalá fosse ou frio ou quente

O deserto é um local de prova, um local onde se


radicalizam ati-
udes. Para mais facilmente compreendermos, vejamos a
história de
quatro estudantes, grandes amigos, que planearam uma
viagem ao
deserto líbio. Projetam atravessá-lo de "jeep". A história
desenrola-se
como num filme. E a primeira vez que se encontram no
deserto e, em
breve, irão se perder não sabendo que direção tomar. De
repente o
"jeep" sofre danos, transformando-se assim a aventura
num drama.
Não sabem mais o que fazer e a única alternativa é
esperar um even-
tual socorro. Como se sabe, o deserto é atemorizador e
apavorante,
especialmente quando se perde a orientação. Durante o
dia o calor
é insuportável e à noite o frio é glacial. Os mantimentos e
a água
daqueles companheiros vão se gastando rapidamente e a
tensão en-
tre eles começa a aumentar continuamente. A uma dada
altura foi
necessário repartir a restante água pelas quatro pessoas.
Ela é já tão
escassa que o olhar de todos se concentra nas mãos
daquele que se
prepara para a verter. E a desgraça acontece.
Provavelmente por causa
da crescente tensão e do olhar dos outros, a mão começa
a tremer e
parte da água derrama-se na areia. Subitamente a tensão
nervosa dos
quatro transforma-se em agressividade descontrolada e
começam a
acusá-lo: "Como pode entornar a água? Por sua causa
morreremos!".
E, imediatamente, começou uma espécie de avalanche.
As emoções
tomaram a dianteira. A restante água acabou derramada
pelo chão
enquanto os corpos dos quatro amigos envolvidos em luta
rolavam
pela areia. Quando finalmente voltaram a si, já um deles
não se podia
erguer. Tinha sido estrangulado. Uma cena de horror!

Quando mais tarde um helicóptero os descobre e


recolhe, três vivos e o corpo sem vida do quarto, isso não
teve grande importância. O importante foi que entre eles
algo de verdadeiramente horrível acontecera. Já não eram
os mesmos. No deserto líbio fora cometido um crime entre
amigos que, pouco antes, se encontravam prontos a dar a
vida uns pelos outros.

A situação do deserto traz à tona aquilo que no


homem se encontra mais profundamente escondido.
Revela resíduos de paixões humanas e do mal, que não se
manifestam plenamente senão em situações limite. Eis
porque o deserto mostra como na verdade é o homem. É
no deserto que o homem se dá conta de que coisas é
capaz, da sua fraqueza, da sua condição de pecador, da
sua dureza de coração. Aí o homem encontra-se face a face
com a aterradora verdade daquilo que é sem a ajuda de Deus,
A nudez do deserto despoja também o homem, põe a
descoberto a sua miséria e revela a sua nudez, porque aí
se dissipam as ilusões e não existem esconderijos
possíveis. Normalmente o homem vive de uma maneira
muito superficial, como se vivesse apenas à flor da pele.
Só as situações difíceis, as situações de deserto, o
constrangem a tomar decisões, revelando, ao mesmo
tempo, as camadas mais profundas do bem ou do mal.

O deserto, porém, não só revela a verdade sobre


você, mas o transforma interiormente, polarizando as suas
atitudes. O dom do deserto permite-lhe vencer a tibieza,
porque o obriga a fazer opções. Ao optar, perceberá de
que coisas você é capaz, pois conhecerá mais de perto as
duas realidades mais importantes: a realidade do
inconcebível Amor e da infinita Misericórdia de Deus e a
realidade da sua condição de pecador e da sua
impotência. Enquanto você for um cristão tíbio, para quem a
vida corre sem problemas e tudo vai bem, a sua situação,
vista à luz da fé, é dramática, porque pensa ser aquele que
soluciona tudo e Deus deixa, assim, de ser necessário:
está, desse modo, numa condição de ateísmo prático.

A razão suprema pela qual um homem, um povo ou


uma comunidade inteira são introduzidas no deserto
ressalta claramente nestas palavras do Apocalipse:
"Conheço as suas obras e sei que não és frio , nem quente.
Oxalá fosses frio ou quente! Mas, corno és morno e não és
frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca" {Ap 3 ,15-
16).

Para Deus o estado de tibieza humana é inaceitável,


é algo abominável que não suporta em você. Por esse
motivo, mais tarde ou mais cedo, deverá introduzir-lo no
deserto. A situação do deserto polariza as nossas atitudes,
faz com que o homem não possa permanecer na tibieza,
mas que se torne quente ou frio.

Também Moisés, esse grande santo da Antiga


Aliança, se santificou no deserto. Muitos dos que
estiveram com Moisés no deserto tornaram-se criminosos,
desordeiros e adoradores de falsos ídolos. À luz da fé,
seria preferível que você blasfemasse do que permanecer
na tibieza. Ao blasfemar, vê, ao menos, claramente o seu
mal. A blasfêmia volta para você como um eco e você tem
então uma oportunidade de reconhecer como é grande o
mal que há em você e será então mais fácil se converter.
Os padres da Igreja afirmam que Deus conduz ao deserto
para que o homem tenha fé ou se torne blasfemo. Ou a fé
ou a blasfêmia, mas nunca a tibieza. Assim era também no
deserto bíblico. Muitos blasfemavam contra Deus, mas
muitos outros se santificavam. O dom do deserto não
permite que se persista num estado de ateísmo prático.
A situação de deserto permite compreender como
todo e qualquer juízo negativo a respeito de outra pessoa
é absolutamente destituído de sentido. Será de grande
proveito para você combater a tendência de julgar os
outros. Que você pode, com efeito, saber a respeito de
alguém que surge no seu caminho e em quem julga ver
tanto mal? E a situação existencial deste alguém que
conta. Porventura, pode estar vivendo um período de
provas, pode encontrar-se na etapa do deserto. Eis uma
razão pela qual é preciso acabar com a tendência para
julgar os outros.

O deserto é um lugar privilegiado para Satanás já


que ali o homem está em estado de fraqueza e sucumbe
mais facilmente às tentações. O diabo explora essa
situação. O deserto acentua as possibilidades de revolta.
Ao fazer a travessia do deserto, o povo eleito esteve
sujeito a particulares tentações e a revoltas que levaram à
infidelidade para com Deus, como no caso do bezerro de
ouro.

No deserto o homem muda, torna-se diferente,


porque ali se produz uma evidente radicalização de
atitudes. Muda, portanto, para melhor ou para pior. Pode
tornar-se um criminoso, embora possa também tornar-se
um santo.

O deserto - lugar de despojamento


A simbologia bíblica do deserto está ligada, por
excelência, à vocação do povo eleito que devia sair do
Egito e entrar na Terra Prometida. A distância entre o
Egito e Canaã é de cerca de 400 quilômetros. Essa
distância podia ser vencida, mesmo por uma caravana de
milhares de homens, em cerca de duas ou três semanas.
No entanto, a caminhada do povo eleito durou quarenta
anos. Deus, ao chamar o Seu povo ao deserto, quer em
certo sentido, levá-lo a desistir da sua presunção de auto-
suficiência; quer levá-lo a se submeter a uma vida dura, a
se submeter a um processo de despojamento que resulta
ser indispensável no caminho da fé e do total abandono a
Deus.

O deserto é, em primeiro lugar, símbolo do


despojamento. O homem é confrontado não só com a
imensidão do céu e com a vastíssima extensão de areia,
mas também é confrontado consigo mesmo. No deserto
tudo se reduz aos elementos essenciais e indispensáveis:
o espaço, o céu, a terra, a areia, Deus e o próprio homem.
Entrar no deserto significa despojar-se das coisas
fundamentais, conhecer a fome e a sede, tanto físicas
como espirituais. O despojamento, que vem gerar a fome
e a sede, faz com que entre essas sensações de caráter
físico e aquelas que surgem na esfera espiritual exista
uma estreita ligação. São estas dificuldades que fazem vir
à tona tudo o que no homem normalmente permanecia
oculto em zonas muito profundas.

O deserto é o local e o tempo propícios à libertação


dos apegos e dos próprios esquemas de segurança. O
homem que caminha pelo deserto nada tem. Dado que
não possui o que quer que seja que possa constituir uma
segurança, a sua situação existencial é precária: falta-lhe
tudo. Aqueles que fazem a travessia do deserto aprendem
por experiência própria a contentar-se com o que Deus
lhes dá e a tudo esperar d'Ele. Experimentam a
necessidade de se apoiarem exclusivamente em Deus,
porque Deus deseja ser tudo para aquele que peregrina
pelo deserto.

O povo eleito, viajando pelo deserto, tendo recebido


o maná do céu, não pôde, porém, acumulá-lo e fazer
provisões para o dia seguinte. Dia após dia deve confiar
que o maná cairá de novo. Tem de acreditar que Deus
cuida dele continuamente. O deserto é, portanto, o lugar
onde nasce a fé e esta se aprofunda na medida do nosso
despojamento. Deus pode invadir mais o homem se o seu
despojamento for crescente, se ele desejar
progressivamente responder ao apelo do seu Senhor e
abrir-se a esse amor que sente. Quanto mais o homem
aceitar ser despojado do seu "eu" e das suas seguranças
mais Deus poderá descer a ele e tornar-Se o seu único
apoio. A medida que as misteriosas relações entre Deus e o
homem se vão aprofundando. Deus reclama um despojamento
sempre maior, que é insistente apelo a um dom de si
próprio cada vez maior. Daquele que O ama, Deus espera
que queira ultrapassar as suas possibilidades puramente
humanas, que consinta em ser totalmente despojado do
que é e do que possui, para se tornar sinal Seu e para que
Deus seja nele uma presença viva no mundo.

O deserto é local de nascimento de uma fé cada vez


mais dinâmica, que transforma a vida do homem. Deus
espera que no deserto o homem tíbio, de fé débil, se torne
ardente na sua fé e na submissão ao seu Senhor. Foi
graças ao despojamento do povo ocorrido no deserto que
Deus pôde concluir a Aliança; aí se consumaram as
núpcias entre Israel e Deus, pelas quais o Senhor Se
tornou um dom para o Seu povo e o povo fez, por seu
lado, um voto de fidelidade a Ele.

O deserto - experiência do amor de


Deus

O despojamento a que o homem é submetido no


deserto permite-lhe, não só conhecer a verdade sobre si
próprio, mas também a verdade a respeito de Deus que é
Amor. Permite-lhe experimentar a Sua particular Presença
e Poder, mas, acima de tudo, permite-lhe conhecer a Sua
divina Misericórdia. Deus, com efeito, responde com amor e
com paternal solicitude ao pecado e à fraqueza do homem. Ao
povo que se revolta e peca, Deus responde com o milagre
do maná e da água de que tanto careciam nesse
momento.

Apesar da maldade humana se manifestar mais


vincadamente no deserto, Deus encontra-se aí presente
de forma singular. O povo eleito era conduzido por Ele.
Deus era visível e, ao mesmo tempo, mantinha-Se velado
por trás da nuvem e do fogo. A nuvem, que indicava a
presença de Deus, ao mesmo tempo ocultava-O a seus
olhos. Foi para os israelitas, simultaneamente, um tempo
de claridade e de trevas, que simbolizavam tanto a
presença como a inacessibilidade de Deus.
Deus tinha conduzido ao deserto uma multidão
desorganizada, mas aqueles que o atravessaram
tornaram-se homens novos constituindo já uma nação
ligada a Deus por uma Aliança.

A finalidade do deserto é de formar o homem,


fortalecer a sua fé, eliminar a sua mediocridade, formar
verdadeiros discípulos de Cristo.

Ao entrar na Terra Prometida, o povo eleito


constituía uma pequena comunidade enriquecida pela
experiência do deserto. Eles experimentaram a ação de
Deus, quer por entre os horrores, quer por entre os
fulgores e conheceram, simultaneamente, a sua própria
fraqueza e pecaminosidade. Experimentaram, de forma
evidente, a sua própria miséria e em resultado disso
conheceram muito fortemente a misericórdia de Deus.

No deserto é que você vai se dar conta de que Ele


realmente nunca o abandona. E verdade que no deserto
Deus Se oculta, mas, na realidade, Ele está,
particularmente perto de você. Nunca como nessas ocasi-
ões se encontra tão próximo. Somente espera que Lhe
demonstre a sua fé, espera que Lhe estenda os seus
braços confiantemente.

Foi na sua própria fragilidade que o povo eleito


descobriu o verdadeiro mistério de Deus. Se experimentar a
fraqueza própria, significa que Deus o chama, que o convida a
se lançar nos braços da Sua misericórdia. O deserto existe
para que você tenha oportunidade de se voltar para
Aquele que é a própria misericórdia.
A experiência de deserto o ajudará a sentir a
necessidade de Deus e a reconhecer a sua completa
dependência d'Ele. Serão os momentos cm que passa por
difíceis horas de obscuridade, de desânimo e de ten-t
ações, que lhe proporcionarão maior consciência da sua
incapacidade e da sua impotência. Quando tiver
descoberto a verdade sobre você mesmo e suplicar a
Deus que o perdoe, reencontrará, como o filho pródigo, a
grande ternura do Pai e a Sua extrema alegria pelo seu
regresso. Você poderá olhar para os Seus olhos repletos
de amor. Perdoando, Deus edifica ao mesmo tempo em
você a humildade.

O deserto não é uma pátria, mas somente um


percurso, um caminho que conduz ao conhecimento do Amor
misericordioso de Deus. Todos aqueles que procuram Deus
devem passar por ele, pois a experiência do deserto está
estreitamente ligada ao aprofundamento da nossa fé na
Sua misericórdia.

No deserto realiza-se a formação do homem,


segundo o princípio de que somente o que é difícil e
oferece resistência, forma o homem. O seu amor a Deus,
que então nasce, deve se tornar definitivamente
comunhão com Ele: "Amar a Deus", diria São João da Cruz,
"é por Ele despojar-se de tudo aquilo que não é Deus"
(Subida do Monte Carmelo, 11,5-7). Por fim, o deserto não
constitui somente o berço da sua fé, mas torna-se a pátria
da contemplação.

No deserto da sua vida você encontrará sempre a


Virgem Maria. Ela estará junto de você olhando-o com
maternal solicitude. Aquela que é Medianeira de Todas as
Graças, Medianeira da Misericórdia, intercederá por você
e esperará com emoção que, a seu exemplo, pronuncie o
seu próprio "fiat", que também diga o seu "sim" e que
veja Deus em todas as situações. O povo eleito não tinha
a Virgem Maria. Mas você tem e por isso não caminhará
só. Ela, que viveu tantos momentos difíceis, caminhará à
sua frente, será a sua luz a lhe mostrar o caminho para o
seu Filho. Os períodos de escuridão do seu deserto serão
iluminados pela Sua presença.
CAPÍTULO 5

OS MEIOS RICOS E
OS MEIOS POBRES NA
IGREJA

Segundo Jacques Maritain, os recursos de que a


Igreja dispõe para fins espirituais podem se dividir em
meios ricos - rich temporal means — e em meios pobres
— humble temporal means — (cf. J. Maritain "On the
Philosophy of History", 1957). Podemos chamar ricos aos
meios que podem ser observados e formulados
estatisticamente. Enquanto meios tipicamente deste
mundo "requerem, por sua própria natureza, um resultado
palpável" (Ibidem). Fazem parte de tais meios, por
exemplo, as organizações, as reuniões, as procissões, a
arquitetura e a decoração das igrejas, os meios
audiovisuais e de comunicação social, etc. Um traço
característico dos meios ricos é a influência que exercem
sobre o amor próprio, através dos seus efeitos e
resultados visíveis. Daí procede a perigosa tendência de
nos apropriarmos dos resultados, o que vem a gerar uma
atitude de triunfalismo.

Para aquele autor, um outro tipo de meios são os


meios pobres. Estes são caracterizados pela marca da
cruz e exprimem uma das mais profundas verdades
bíblicas: "Se o grão de trigo, caído na terra, não morrer,
fica só; se morrer, produzirá muito fruto" (Jo 12,24).
Nestes meios podemos observar o paradoxo singular do
dinamismo da fé: quanto mais pobres, isto é, despojados
de tudo, insignificantes e menos visíveis são estes meios,
tanto maior a sua eficácia. Ao contrário dos ricos, os
meios pobres não se ligam a um sucesso palpável e,
assim, não contêm em si a menor necessidade de um
triunfo temporal.

Jesus pobre

Estamos habituados a contar, na nossa vida e na


vida da Igreja, com os meios ricos. Muito nos agradaria
ver o triunfo e a vitória de Cristo, a manifestação da Sua
força e do Seu poder! Mas, pelo contrário, Ele se esconde:
é pobre em Belém, mais pobre ainda no Calvário pobre,
da forma mais extrema, na Eucaristia. Levando tão longe
a Sua pobreza e o Seu aniquilamento, sublinha a
importância dos meios pobres.

Na Sua ação salvífica, Jesus escolhe, acima de tudo, os


meios pobres e humildes. Nenhum sinal de poder
acompanha o Seu nascimento. Jesus vem até nós sob a
aparência de uma criancinha inteiramente à mercê
daqueles que a rodeiam. Depende deles completamente,
é incapaz de oferecer resistência a alguém, não pode nem
defender-Se, nem impor a Sua vontade. Dá-Se a conhecer
primeiramente na Sua pobreza, humildade e fraqueza.
Assim Se manifestou no momento do Seu nascimento e assim
será na Sua Paixão. Mostra a você como deve ser
despojado, que deve morrer para si mesmo, que deve
escolher os meios mais eficazes: os meios pobres.

Isso não significa que Jesus não tenha Se servido


dos meios ricos. A entrada triunfal em Jerusalém foi um
meio rico, foi o triunfo de Cristo. Jesus quis demonstrar
que, se o quisesse, podia fazer com que as multidões Lhe
rendessem a maior homenagem, que estendessem os
mantos no caminho à Sua passagem, quis deixar claro
que a Ele tudo é possível. Mas trata-se do Domingo de
Ramos e, é precisamente após esta entrada triunfal em
Jerusalém, que Jesus pronuncia essas palavras que irão
chocar um grande número de pessoas: "Em verdade, em
verdade vos digo: Se o grão de trigo caído na terra, não
morrer, fica só; mas se morrer, produzirá muito fruto" (Jo
12,24). Fê-lo para que os Apóstolos não caíssem na
vertigem do Seu triunfo — como por vezes acontece —
para que não se enganassem.

Na vida de Jesus houve milagres, houve o Tabor,


mas existiram, sobretudo, os meios pobres. Quando da
Sua prisão, vemos ainda uma vez, o Seu recurso aos
meios ricos. Quando os soldados chegaram ao Horto das
Oliveiras, para prendê-Lo, às Suas palavras, caíram por
terra mostrando-lhes desse modo Jesus, a Sua força e o
Seu poder (cf. Jo 18,6). Mas, em seguida, permitirá que
riam d'Ele, que Lhe cuspam e gritem junto à Cruz: "Ah! Tu
que destróis o Templo e em três dias o edificasy salva-te
a ti mesmo, desce da Cruz! (...) A outros salvou, a Si
mesmo não Se pode salvar!" {Mc 15,29-31). Jesus aceita
tudo isso com uma paz divina, servindo-Se justamente
desses recursos pobres para a salvação do mundo.

A eficácia dos meios pobres

O sofrimento aceito por amor a Deus, os joelhos


doloridos durante a oração, as renúncias que fazemos e
que ninguém conhece, a anulação da vontade própria, a
vida em recolhimento, no silêncio e na contemplação, são
meios pobres. São meios invisíveis, dos quais quase nada
se sabe, pois não podem ser recolhidos em estatísticas
sociológicas; mas são estes meios pobres que, vistos à luz
da fé, se revelam determinantes dos destinos do mundo.

Os meios ricos são aqueles que, como tal, surgem


aos olhos do mundo, mas que à luz da fé são considerados
de outro modo. "Pois o que é loucura de Deus é mais
sábio do que os homens" - diz São Paulo -"e o que é
fraqueza de Deus é mais forte do que os homens' (ICor
1,25). O que é pobre aos olhos dos homens é rico aos
olhos de Deus. Os meios mais ricos são, pois, os meios pobres,
porque são os mais eficazes, constituindo uma manifestação da
verdadeira sabedoria, a sabedoria divina. A utilização dos
meios ricos apenas poderá se revelar eficaz quando
assente nos meios pobres: numa vida interior profunda,
na vida de oração, de mortificação do próprio "eu" e de
total abandono a Deus. A eficácia dos meios pobres flui da
presença de Cristo na alma, de acordo com o princípio de
que Deus Se dá à alma, na medida em que esta se
entrega a Ele.
"A obra da vida ativa" - diz São Tomás de Aquino -
"nasce da plenitude da vida contemplativa" (Summa
Theologica, 2,2,188). A eficácia dos meios ricos no
apostolado organizado, deriva da riqueza dos meios
pobres e não o contrário. Os meios ricos podem sofrer
restrições devido a fatores externos, como por exemplo, a
falta de tempo, de forças físicas, de capacidade
organizativa ou perseguições à Igreja. Os meios pobres
permanecem inexpugnáveis aos fatores externos, não
podem ser arrebatados à Igreja. A falta deles é
injustificável, pois, para que existam, são suficientes o
amor e a boa vontade.

Os meios ricos também são úteis à Igreja e não


seria justo excluí-los. Deus não quer nada que seja
unilateral e quer, por isso, que haja, entre outras coisas,
imprensa católica, assim como as mais diversas formas de
apostolado visível. São Maximiliano Kolbe é, em certo
sentido, o patrono dos meios ricos. Sonhava com eles e
conseguiu que um milhão de exemplares do periódico
"Cavaleiro da Imaculada 'se difundisse pelo mundo. Ele
mesmo distribuía nas ruas das cidades japonesas o que
chamava de "balas", isto é, exemplares da "medalha
milagrosa". Sonhava ter uma emissora radiofônica, poder
utilizar aviões e barcos a serviço da Imaculada. Não
devemos desvalorizar os meios ricos, pois estes também
terão de ser aproveitados para o serviço do Senhor.
Devemos, no entanto, lembrar-nos de que a sua eficácia
resulta da presença dos meios pobres.

São Maximiliano foi um homem de sucesso, pois


conseguiu ser bem sucedido em muitíssimas coisas.
Fundou, perto de Varsóvia, um Centro de Apostolado
Mariano {Niepokalanow) - A Cidade da Imaculada - que se
tornou motivo de admiração para toda a Igreja. Fundou
ainda centros parecidos em outros continentes. Aquele in-
contestável êxito era contudo obtido graças aos meios
pobres, o que o próprio São Maximiliano testemunhava:
"Quando todos os meios fracassaram" - confessou ele -
"quando se reconheceu que eu estava perdido e os
superiores constataram que eu para nada servia, então a
Imaculada tomou nas suas mãos este instrumento que já
só servia para pôr de lado" (M. Winowska, "O Louco da
Imaculada"). Foi Maria, a quem ele inteiramente se
entregou, que tomou conta daquele pequeno "nada" para
o utilizar na proclamação da glória de Deus e na conquista
das almas.

A eficácia do apostolado de São Maximiliano e do


seu trabalho a serviço da Imaculada começou a
manifestar-se nele e quando, tendo caído gravemente
doente, os seus confrades e superiores concluíram que
devido à sua tuberculose aguda deixara de estar apto
para o trabalho; quando todos deixaram de contar com
ele e ele se viu totalmente despojado, à imagem do grão
de trigo que morre para dar fruto. Este é o paradoxo de
Deus. Um homem que, na perspectiva humana, não serve
para nada, torna-se instrumento mais eficaz nas mãos do
Senhor, porque é Ele, quem vive e age nessa pessoa; é Deus
quem nela alcança o sucesso.

Crer é reconhecer o próprio nada e tudo esperar de


Deus. Ora, o experimentar da própria incapacidade junto com a
atitude de esperar tudo da intervenção de Deus é o meio pobre
por excelência. Você é capaz de reconhecer o valor dos
meios pobres na sua vida? Decerto Deus não lhe poupa
tais ocasiões. Qual de nós não conhece momentos de
sofrimento, ou de especiais dificuldades, períodos de
deserto espiritual? Qual de nós não terá que lutar consigo
mesmo ou com as condições externas nas quais lhe cabe
viver? São coisas que não se podem ver, classificar ou
avaliar. Estão de tal modo escondidas que jamais se
encontrará qualquer dado estatístico sobre elas. Quem
poderá, de fato, saber que um dia, num momento crucial
da sua vida, você disse a Deus: "Sim, quero. Quero tudo o
que esperas de mim". Quem pode saber que um dia
quando o fardo era demasiado pesado, você disse a Deus
- talvez por entre lágrimas - que O amas e que O queres
amar? Quem pode saber quantas vezes venceu a si
mesmo, se privou de algo, dobrando a sua vontade?

Estes são os meios pobres, os mais importantes para


você, para a Igreja e para o mundo, os que atraem o poder do
Senhor. Quantas vezes Deus lhe deu oportunidade de
utilizá-los? Talvez tenha desperdiçado tais ocasiões e
recusado aceitar esses dons inestimáveis de Deus. Talvez
tenha mesmo experimentado um certo ressentimento se
revoltando, enquanto Ele procurava, inclusivamente, lhe
dar quase à força, e implorava que deu não rejeitasse
tudo isso, que tanta importância tem na obra da salvação
do mundo!

Aquele a quem chamaram o "Mendigo Divino"


conhece melhor do que ninguém o valor dos meios
pobres. Portanto, você não deve esquecer como é
importante que suporte, com alegria, todas as humilha-
ções, que tente sorrir na tristeza e que, não obstante as
experiências que atravesse, tente olhar o mundo com
serenidade, na fé em que o amor efetivamente triunfará.
Não há nada que Deus receba com ligeireza, nem os
joelhos que lhe doem quando reza, nem as pernas
cansadas quando tem de ficar, muito tempo, de pé na
Igreja. Ele conhece todos os meios pobres que foram
colocados à sua disposição e que você, no segredo do
coração, decide acolher ou rejeitar. Ao mesmo tempo é aí,
nas profundezas do seu coração, que se decide o destino
daqueles que lhe são mais queridos e o seu próprio
destino. Os meios pobres, que por si mesmos são ineficazes
para alcançar qualquer objetivo, atuam no plano da fé; são um
sinal da atuação do próprio Deus.

Você diz que reza por alguém que não crê, que reza
fervorosamente pela conversão ou pela saúde de alguém.
No entanto, tudo depende do que é a sua oração. Por
vezes, poderia ser suficiente o seu "sim" dito com alegria:
um meio simples, pobre e modesto, mas que pode real-
mente fazer milagres. Quando você sofrer, quando o
Senhor lhe propor uma parte naquilo que há de mais
precioso para a salvação das almas, pensa em João Paulo
II, na sua coroa de espinhos' que eram as críticas
agressivas; no seu grande cansaço, sobretudo durante as
suas inúmeras viagens pelo mundo. Pensa em São
Maximiliano, esse santo que obteve tantos sucessos, mas
a preço dos "meios pobres". Chegava freqüentemente a
ficar abafado com a falta de ar, principalmente durante as
viagens em que — como escrevia nas suas cartas — não
podendo quase respirar, ficava completamente exausto.
Aquele a quem chamaram de "louco da Imaculada" era
louco na utilização dos meios pobres.
Se você não compreendeu bem o valor dos meios
pobres, significa que ainda não compreendeu verdadeiramente
em que consiste, na sua mais profunda essência, o
Cristianismo. Se, de fato, não compreende o valor e o
sentido dos meios pobres, não pode compreender a Cruz
que está no centro da Igreja. E do alto da Cruz que Cristo
atrai tudo para Si, do alto dessa Cruz junto à qual se
encontrava Sua mãe que nunca retirou o seu "Sim", nem
mesmo diante dos pavorosos sofrimentos do seu
Salvador. E da Cruz que flui incessantemente a graça
divina da Redenção e da santificação do mundo. O
Salvador o atrai, não pela Sua entrada triunfal em
Jerusalém, mas pela Cruz e é do alto da Cruz que o
convida para segui-Lo, para que o ame, como Ele amou
"Até ao fim".

A Virgem Maria é a padroeira dos meios pobres.


Olhando a sua vida do ponto de vista humano, não vemos
nenhuma grande obra. Na sua vida não aparecem
quaisquer meios ricos, mas sim a pobreza, o silêncio, a
vida oculta, a humildade, a obediência, a oração, a
contemplação, o abandono a Deus. A sua vida, marcada
pela simplicidade e pela utilização dos meios pobres, era
uma vida oculta em Deus. Ela o convida também, a este
modelo de vida. Quer que viva da fé; que no seu coração
prevaleça - como em Nazaré - o desejo de utilizar os
meios pobres. Ela quer que compreenda a verdade
encerrada na constatação de São João da Cruz, de que
"uma migalha de puro amor" - meio pobre - "vale mais aos
olhos de Deus e à alma e dá mais proveito à Igreja do que
todas as outras obras juntas" (cf. Cântico Espiritual,
XXIX,2).
A vitória pela fé

A cena da luta contra os amalecitas é um clássico


texto bíblico que mostra à luz da fé o valor e o sentido dos
meios pobres. Durante a sua travessia do deserto, quando
estavam a caminho da Terra Prometida, os israelitas
tiveram de lutar contra os amalecitas, um povo que
dominava as pistas do deserto (cf. Ex 17,8-13). Moisés,
como homem de Deus que era, sabia qual o modo de
assegurar a vitória ao seu exército. Se tivesse sido um
estrategista, raciocinando unicamente à maneira humana,
para fazê-los combater valorosamente, segundo as regras
da estratégia, teria se colocado a frente dos seus
guerreiros tentando arrastá-los pelo exemplo, ciente de
que o olhar deles lhe estava dirigido. Moisés, ao contrário,
procedeu de forma aparentemente absurda do ponto de
vista humano e da estratégia militar. Retirou-se e, tendo
deixado o exército sob a chefia do seu adjunto Josué,
subiu ao cimo de uma colina para orar. Moisés, homem de
Deus, homem de oração, sabia bem quem é que decide a
sorte do mundo e dos destinos das nações. Assim se
explicam os seus braços erguidos no cume da colina,
voltados para o alto num gesto de fé. Entre ele e o vale
onde o combate se desenrolava estabelecera-se uma
estreita ligação. Quando os seus braços se abaixavam
devido ao cansaço, o exército recuava. Moisés sabia a
razão: Deus queria que continuasse a esforçar-se levantando
constantemente os braços para Ele. Quando estes se lhe
entorpeceram completamente, Aarão e Hur que o tinham
acompanhado, ampararam-no. Durante todo aquele dia o
gesto das mãos erguidas para o Senhor acompanhou os
israelitas em luta e quando a noite caiu, a vitória lhes
pertencia. No entanto, não foi Josué que venceu, nem o
seu exército combatendo no vale, mas foi Moisés lá no
alto, foi a fé dele que venceu.

Se semelhante cena se repetisse nos nossos dias,


toda a atenção dos jornalistas, as câmeras de televisão,
os focos dos projetores haveriam de concentrar-se no
local onde Josué chefiava o combate. Pareceria que era ali
que tudo se decidia. Qual de nós perderia tempo em olhar
na direção daquele lugar perdido, onde um homem
solitário rezava? Contudo, é precisamente o homem
solitário que alcança a vitória, porque é Deus quem nele
triunfa.

Aquelas mãos de Moisés estendidas para o alto são


como um símbolo mostrando que é Deus quem tudo
decide. "Tu estás presente, Senhor, Tu governas. De Ti
tudo depende. Para o homem, as possibilidades de
sucesso podem ser ridiculamente escassas, mas para Ti, ó
Deus, não existem impossíveis". O gesto dos braços
erguidos, cansados pelo esforço, é um gesto de fé, um pobre
meio que exprime a loucura de fé no infinito poder e no infinito
amor do Senhor.

A maternidade espiritual

A maternidade espiritual torna-se efetiva graças aos


meios pobres, uma vez que se realiza por meio da
participação na Morte de Cristo: "Se o grão não morrer,
fica só" e, na Sua Ressurreição: "Se morrer, dará fruto em
abundância". A participação na Morte de Cristo cumpre-
se, primeiramente, pela aceitação do sofrimento (que
infringe a morte ao egoísmo), enquanto a participação na
Ressurreição é o nascimento em nós do homem novo,
formado à imagem de Cristo que é o Amor. O apostolado é
dar Cristo, presente na alma daquele que se consagra ao
apostolado: é cooperar para que Cristo nasça nas almas.

Segundo São Paulo, o apostolado é uma


maternidade espiritual: *Fui eu que vos gerei em Cristo
Jesus pelo Evangelho" (1Cor 4,15). Graças à fé, o nosso
apostolado entendido como maternidade espiritual torna-
se uma participação na maternidade espiritual da Igreja.
Geramos almas para Cristo por meio da fé, que se exprime de
modo mais pleno na utilização dos meios pobres. A
maternidade espiritual realiza-se graças à palavra viva
que é fruto do contato contemplativo com Deus, graças à
oração de pleno abandono e ainda, muito particularmente,
pelo sacrifício e pelo sofrimento.

Na vida de Santa Teresinha do Menino Jesus houve


dois grandes pecadores que tiveram um papel de
particular importância. Um deles surgiu na sua vida
quando ela tinha catorze anos. Foi Pranzini, culpado pelo
assassinato de três pessoas e que, apesar de ter sido
condenado à morte, não manifestava o mais leve
arrependimento. Todavia, Teresinha não podia aceitar a
idéia de que ele viesse a morrer sem se reconciliar com
Deus e decidiu durante um mês e meio oferecer todas as
suas orações e sofrimentos por intenção de Pranzini. E
Deus deu à Teresinha um sinal: no derradeiro momento
antes da execução, aquele grande pecador arrebatou o
crucifixo e por três vezes beijou as chagas do Salvador.
Quando Teresinha ficou sabendo, disse emocionada à
Celina: "Ele é o meu primeiro filho". Aquela que já aos
catorze anos tinha tão clara noção da maternidade
espiritual, escreveria mais tarde: "Somente o sofrimento
pode gerar almas para Jesus" (cf. Carta à Celina, 8. VIL
1891). Pranzini era o protótipo de todos os pecadores
pelos quais Teresinha desejava especialmente rezar e por
quem queria oferecer o seu sofrimento. Ela entendia que
só a oração poderia não ser o suficiente, pois para salvar
as almas era necessário colocar no prato da balança
também o próprio sofrimento, o maior dom para oferecer
a Deus.

A outra figura de grande pecador foi um


personagem que, segundo confessou Teresinha, se
revelou caso ainda mais dramático: o padre Hyacinthe
Loyson. Este nome não figura na autobiografia, nem na
correspondência de Teresinha, nem sequer na "História de
uma Alma". Só por duas vezes, nas cartas a Celina, se
refere a um certo "lírio fanado e maculado" e de "um
grande culpado" (Carta à Celina, 26.IV.1895).

É a partir das atas do processo de beatificação e de


canonização que se soube o seu desejo de salvar aquela
alma,

Hyacinthe Loyson, carmelita descalço, superior do


convento de Paris, era um excelente orador,
extremamente inteligente. As suas conferências
emocionavam os seus ouvintes por toda a França; até o
Papa o felicitara pelos seus sucessos. A uma dada altura,
no entanto, aquele eminente sacerdote, de grande
pregador que era, tornou-se apóstata e o pior: apóstata
militante. Começou a percorrer as dioceses da França e,
apesar dos numerosos protestos, proclamava que a Igreja
tinha abandonado o verdadeiro Evangelho. Continuou a
combater a Igreja durante quarenta e três anos.

No convento de Lisieux aquela luta aparecia como


algo pavoroso, a ponto de ninguém ousar pronunciar o
seu nome. Pura e simplesmente não se falava dele, o que
explica o motivo de seu nome não figurar nos escritos de
Santa Teresinha que, entretanto, durante nove anos
consecutivos ofereceu orações e sofrimentos por sua
intenção.

No caso de Pranzini, bastara um mês e meio, porém


neste foram nove anos e parecia que isso não teria sido
suficiente. O Pe. Loyson acabou sendo excomungado.
Mais tarde escreveu uma carta aberta na qual acusava a
Igreja e o Carmelo, carta essa que suscitou veementes
protestos e grande indignação. Mesmo assim, Teresinha
não perderia a esperança. Confessou a Celina, com o
coração a latejar de ardor, que a conversão do Pe. Loyson
era o seu maior desejo. "Querida Celina", escreve numa
carta, "sei que a sua culpa é grande e que ultrapassa pro-
vavelmente a de qualquer outro pecador, mas não é
verdade que Jesus pode vir a fazer uma vez algo que
ainda não tenha feito? E, se não fosse esse o Seu desejo,
acaso teria colocado no coração destas suas pobres
pequenas esposas um anseio que não tencionasse
realizar?" (Carta à Celina, 8. VIL 1891). Foi tese sua, que
sempre defendeu, que se Jesus dá determinado desejo, é
p a r a poder satisfazê-lo. "De certeza absoluta" - escreve
— "que Ele deseja muito mais do que nós recolher no redil
essa pobre ovelha desgarrada e virá decerto o dia em que
lhe abrirá os olhos..." (Ibid.).
Quando nos debruçamos sobre a fé de Santa
Teresinha podemos constatar que esta traduzia uma
certeza: Ela sabia que Hyacinthe Loyson havia de se
converter. "Não nos cansemos de rezar, a confiança opera
milagres... além disso, não são os nossos méritos que
oferecemos ao nosso Pai que está nos Céus, mas os do
nosso Esposo que são os 'nossos', a fim de que este nosso
irmão, filho da Santíssima Virgem, regresse vencido a
refugiar-se sob o manto da mais misericordiosa das
Mães..." {Carta à Celina, 8VIL1891).

Era tal o desejo que Teresinha tinha de salvar a


alma daquele padre, que quis oferecer a sua última
comunhão por sua intenção. Se bem que tivesse morrido
com a consciência de que o Pe. Loyson não se convertera,
essa realidade não impediu que a sua fé permanecesse
inabalável. Aquele padre veio a morrer quinze anos depois
da morte de Teresinha, com a idade de oitenta e cinco
anos. Jesus amava de tal maneira Teresinha que daquela
vez não se sentira na obrigação de lhe dar qualquer sinal.
Sabia, o Senhor, que ela não deixaria de acreditar naquela
conversão. Em 1912, n o dia da morte do Pe. Loyson, não
havia à sua cabeceira qualquer padre católico e , por
isso, não conseguiu confessar-se, N o entanto, sabemos
que antes da sua morte recebeu o manuscrito da "História
de uma Alma" e que de um só fôlego leu esses escritos de
Santa Teresinha, que qualificou como "loucos e impressio-
nantes". Durante a sua penosa agonia, as pessoas
presentes ouviram estas suas últimas palavras: "Meu doce
Jesus." O último ato de amor dirigido a Jesus permite
supor que se salvou graças às orações e aos sofrimentos
de Teresinha. Ele também foi para Teresinha um filho es-
piritual.

"Só o sofrimento pode gerar almas para Cristo".


Com esta afirmação mostra-nos Teresinha em que
consiste a maternidade espiritual. A mãe é a pessoa que
gera a vida e depois a sustenta. O homem receia o
sofrimento, embora não possa evitá-lo, do mesmo modo
que não consegue obviar ao peso da vida cotidiana. No
entanto, os nossos sofrimentos e penas podem ser
infrutíferos. Somente quando os aceitamos e os unimos à
Cruz de Jesus nos é permitido penetrar no extraordinário
mistério da maternidade espiritual.

Em virtude da nossa participação no sacerdócio real dos


fiéis, a maternidade espiritual, assim entendida, constitui a
nossa vocação. Somos chamados a conquistar e a gerar almas
para Jesus, Pense em quantas dificuldades há na sua vida:
talvez a falta de saúde, um conflito familiar, as crianças
rebeldes, ou qualquer outro pesado fardo espiritual que o
oprima. Pode se tratar mesmo de coisas pequeninas mas
que, sendo aceitas e oferecidas a Deus, lhe permitem
participar na maternidade espiritual da Igreja, que gera
almas para Cristo. Nada há mais importante. Também
podemos realizá-lo pelo apostolado da palavra e da
oração, mas o sofrimento é, sem dúvida, o meio mais
eficaz. É a forma mais fecunda de apostolado, porque nela
reside um maior despoja mento (meio pobre), o mínimo
de nós mesmos e o máximo de Cristo — no sofrimento
intensifica-se, ao máximo, a ação da Cruz.

O testemunho de João Paulo II


No dia 25 de maio de 1985, na Praça de São Pedro
em Roma, o Papa João Paulo II impôs o barrete cardinalício
ao arcebispo Andrzej Maria Deskur. Foi um consistório
bastante singular, que suscitou a comoção e a surpresa
geral. Que motivo levaria o Papa a nomear cardeal um
homem paralisado? A dignidade cardinalícia não é, com
efeito, nem um título nem uma recompensa do trabalho
desenvolvido pelo bispo. Os cardeais, sendo os primeiros
conselheiros do Papa e os seus colaboradores diretos,
desenvolvem funções muito importantes na Igreja. Por
qual razão terá sido nomeado cardeal um homem assim
marcado pelo sofrimento, incapacitado de trabalhar? O
mistério dessa nomeação foi discretamente revelado por
João Paulo II, quando na tarde do consistório, esclareceria
o enigma dessa nomeação aos peregrinos da Polônia, a
quem referiu a respeito do Cardeal Deskur: "Unem-nos
laços particulares desde o tempo de estudantes, depois na
passagem pelo Seminário Maior, nos anos sacerdotais, em
inúmeros encontros em Roma e, de modo muito
particular, no último encontro antes do conclave. Nessa
ocasião a Providência divina provou o Monsenhor Deskur
com a grave invalidez da qual ainda sofre. Dentre todos os
cardeais nomeados atualmente, apenas ele se apresenta
como um inválido em cadeira de rodas, introduzindo
assim naquele colégio um sinal particular, o sinal do
sofrimento que se chama sacrifício. Não conhecemos os
desígnios de Deus nem os Seus mistérios divinos, mas
pessoalmente me é difícil resistir à convicção de que este
sacrifício do arcebispo Andrzej, hoje cardeal, está
estreitamente ligado ao conclave que se desenrolou em
meados de outubro de 1978". O Santo Padre vê, assim, no
sofrimento do arcebispo Andrzej Deskur, como que o
preço dele, cardeal Wojtyla, ter podido tornar-se vigário
de Cristo. Sabemos, de resto, que imediatamente depois
da sua eleição, o Papa dirigiu os seus primeiros passos
para a Clínica Gemelli, onde se encontrava então,
gravemente doente, o arcebispo Andrzej Maria Deskur,
aquele a quem o Papa, na sua convicção, tanto devia e a
quem tinha sido dada a melhor parte - ajudá-lo pelo
sofrimento - uma parte difícil, mas seguramente a mais
eficaz, como aliás todos os meios pobres. Elevando o
arcebispo à dignidade cardinalícia é como se,
indiretamente, João Paulo II quisesse sublinhar o valor dos
meios pobres.

O cardeal Deskur tinha sido anteriormente


presidente da Comissão Pontifícia para os meios de
comunicação social. Ocupava-se, portanto, da difusão e
do funcionamento dos meios ricos na Igreja, trabalhando
muitíssimo nesse campo. Deu grande contribuição à
preparação de documentos eclesiásticos que deviam
traçar a orientação da atividade dos meios de
comunicação católicos. No entanto, o Santo Padre quase
não se referiu aos seus méritos, ao grande contributo que
deu ao desenvolvimento daqueles meios de transmissão.
Tem-se a impressão de que ele queria, com isso, sublinhar
o valor dos meios pobres, o valor do estigma do
sofrimento de que foi vítima e que ele introduziu no
Colégio dos cardeais.

Na tarde de primeiro de junho, o cardeal Andrzej


Maria Deskur tomou posse da sua Igreja titular, San
Cesareo in Palatio, a mesma que o cardeal Wojtyla
recebera em 1967. Na grandeza do sofrimento, o cardeal
celebrava a Santa Missa sentado. No lugar do trono
cardinalício, a ladear um altar, mais baixo do que o
habitual foi colocado uma cadeira de rodas. A sua mão
paralisada mal conseguia suster a cruz. Que particular
paradoxo: o presidente da comissão pontifícia para os
meios ricos, assinalado com o estigma dos meios pobres!

É também no contexto da doutrina dos meios


pobres que devem ser entendidas as palavras de João
Paulo II relativamente ao atentado contra a sua vida.
Chama ele, a esse acontecimento, uma graça particular.

A 14 de outubro de 1981, durante a audiência geral


na praça de São Pedro, dirigindo-se aos milhares de
peregrinos, pronunciou estas significativas palavras: "Nos
últimos meses, Deus permitiu que eu experimentasse o
sofrimento, permitiu que me encontrasse em perigo de
morte. Ao mesmo tempo, deu-me a possibilidade de
compreender clara e profundamente que se trata de uma
graça particular que, a mim enquanto homem, Ele
concedeu. Ao mesmo tempo, em virtude do meu
ministério de sucessor de Pedro, trata-se de uma graça
simultaneamente concedida a toda a Igreja. Cristo
concedeu-me a graça de, pelo sofrimento e pela ameaça
caída sobre a minha vida e sobre a minha saúde, dar
testemunho do Seu amor. Considero-o realmente um dom
particular e por ele dou, de modo muito especial, graças
ao Espírito Santo e à Virgem Imaculada".

Por acaso seria possível a João Paulo II exercer com


tal eficácia a missão de pastor da Igreja, atrair as
multidões, sem os meios pobres, sem o sofrimento com o
que foi marcada a sua vida? De novo o Papa, em 4 de
novembro de 1981, seu dia onomástico, se referiu aos
dramáticos dias do atentado: "O acontecimento de 13 de
maio deu-me muito que ponderar. Vi com maior clareza, a
minha vida humana e cristã à luz do Evangelho, à luz das
palavras que falam do grão, que para poder dar fruto,
primeiro deve morrer".
PARTE III

A ATUALIZAÇÃO DA

A fé deve impregnar toda a nossa vida. Se assim


suceder, quem crê, com toda a sua humanidade e com
todo o seu cotidiano, entra em relação com Deus. A
atualização da fé dá-se nos sacramentos, de modo
particular nos sacramentos da iniciação cristã. Graças à fé
podemos ver neles a ação salvífica de Cristo e acolhê-la.

O primeiro sacramento de iniciação cristã é o


Batismo. Nele recebemos, com a vida sobrenatural, o dom
da fé. Mediante a sua incorporação em Cristo realiza-se,
naquele que recebe o batismo, a sua consagração
fundamental — o oferecimento da pessoa humana a Deus
e o seu chamamento à santidade.

O Crisma, segundo sacramento de iniciação cristã,


amplifica o dinamismo da fé, confere ao crismado a força
extraordinária do Espírito Santo e compromete-o a
propagar e a defender a fé.
Na Eucaristia, o sacramento da culminação da fé e
terceiro sacramento de iniciação, podemos unir-nos de
modo particular a Cristo Crucificado e Ressuscitado. O
ponto mais alto da vida de fé é a participação no Sacrifício
Redentor de Cristo, no qual, na Oferenda de Cristo a Deus
Pai, nós próprios nos oferecemos também. Da Eucaristia,
durante a qual juntos oferecemos o sacrifício e juntos nos
unimos a Cristo, surge a comunidade da fé.

A fé realiza-se, de modo muito especial, na oração,


que ê um diálogo do homem com o Pai, por Jesus Cristo,
no Espírito Santo, diálogo esse inaugurado e desenvolvido
por meio da fé. A fé desenvolve-se também graças àquela
espécie de diálogo com Deus que é a escuta da palavra de
Deus quando o homem, voluntariamente, se entrega a
Deus que Se revela submetendo-Lhe razão e vontade na
obediência da fé.

E também necessário que a fé se exprima em atos


de amor, sem os quais morre. Sendo um contínuo
processo de conversão, a fé é abertura incessante ao
amor de Deus e um permanente acolhimento deste amor
para levá-lo aos outros.
CAPÍTULO 1

O BATISMO

O batismo, tal como os outros sacramentos, é uma


suprema forma de realização da fé. E ainda o fundamento
e o início deste processo, "o princípio e o pórtico, pois
tende à obtenção da plenitude de vida em Cristo"
(Unitatis Redintegratio, 22). No pensamento Conciliar,
tanto o Sacramento do Batismo como os outros
sacramentos são chamados Sacramentos da fé, porque
todos a requerem, pressupõem-na, exprimem-na e, ao
mesmo tempo, asseguram o seu crescimento. Precedendo
O batismo e sendo, ao mesmo tempo, a via para
este, a fé cria a disposição que permite recebê-lo.
No batismo morremos para o pecado. Esta é uma
morte autêntica, pois é a destruição, no homem, daquilo
que é mal por resgatar, para lhe permitir renascer como
filho de Deus, tornando-se assim uma nova criatura —
participante da natureza divina e chamado à santidade. É
também pelo batismo que o homem é consagrado a Deus,
tornando-se Seu verdadeiro adorador e filho adotivo.
Referindo-se ao batismo, o Concilio revela-nos
verdades que ultrapassam o pensamento e a imaginação
humanos. Diz-nos que naquele Sacramento se dá a nossa
configuração e enxertia em Cristo Crucificado e Glorioso.
Revela-nos que o homem recebe o dom da fé pelo
batismo e, a partir desse momento, começa a participar
no Sacerdócio Real de Cristo, tornando-se desse modo, co-
participante no Seu ministério sacerdotal, profético e real.
Finalmente, o homem é incorporado no Corpo Místico de
Cristo, embora ainda não o seja de um modo perfeito.

A imersão na Morte e na
Ressurreição de Cristo

Devido à pouca fé dos cristãos, o batismo continua


a ser, para eles, um sacramento por descobrir. É
necessária uma fé profunda para compreender estas
palavras de São Paulo: "Vós estais mortos e a vossa vida
está escondida com Cristo em Deus" (Colò3)- A expressão
paulina, "vós estais mortos", encerra a mesma idéia
expressa pelo apóstolo na Carta aos Romanos, quando,
detendo-se no significado do batismo que nos introduz na
vida de Cristo, escreve: "Ignorais que todos nós batizados
em Jesus Cristo é na Sua morte que fomos batizados?"
(Rom 6,3). E em virtude da Sua morte que, pelo batismo,
entramos na Vida Nova. Este primeiro sacramento da
Igreja é o prelúdio da nossa "vida escondida com Cristo
em Deus". O batismo é a fonte da fé, pois inaugura em
nós a vida sobrenatural que é uma vida de fé, de
esperança e de caridade.

A partir daquele momento somos, com Cristo,


sepultados para o pecado, para o mal moral, para tudo o
que não provém d'Ele. Trata-se de uma morte autêntica,
pois todo o apego ao mundo e aos valores alheios a Deus,
deve morrer em nós, para que possamos transitar à vida
nova, iniciada pela Ressurreição de Cristo.

O fenômeno do 'duplo nascimento' surge em todos


os sistemas religiosos. O homem nasce não só física, mas
também espiritualmente. A gênese no sentido espiritual
toma a forma de uma espécie de iniciação. Em algumas
religiões não cristãs, esta desenvolveu-se a ponto de
chegar a formas extremamente dramáticas, baseadas no
simbolismo da morte e de um novo nascimento. O
dramatismo desses ritos deriva da utilização da
iconografia mais atemorizante da morte e, por outro lado,
o simbolismo mais esplendoroso da nova vida a receber.
Muitas das representações desses ritos apelam a símbolos
e a imagens particularmente impressionantes como, por
exemplo, o enterro do 'iniciado', a sua passagem através
de uma abertura circundada de fachos incandescentes, o
ser devorado por um monstro mítico ou o ser enterrado
junto de cadáveres. Tudo isto é calculado para provocar
uma violenta comoção, um choque, cujo impacto é
susceptível de causar uma profunda impressão na
imaginação humana. Com efeito, nestes sistemas não
cristãos, a iniciação faz apelo exclusivamente ao plano
imaginário uma vez que pode se referir somente a esta.

No Cristianismo, a iniciação - entendida como


renascimento para a vida sobrenatural — realiza-se por
meio de três Sacramentos: Batismo, Crisma e Eucaristia.
O simbolismo e os sinais sacramentais, neles, apelam à fé
e não à imaginação. A referência à imaginação seria,
aliás, Inútil no caso dos sacramentos, porque o significado
dos sinais sacramentais ultrapassa todo o pensamento
humano e toda a imaginação.
Graças ao batismo, uma espécie de novo organismo
sobrenatural é incorporado à natureza humana. Na vida
levada até então, uma nova é enxertada. Se algum
cientista obtivesse êxito no transplante da vida animal em
qualquer coisa que antes tivesse uma vida vegetal, por
exemplo, numa planta, o mundo acolheria com o maior
assombro aquele acontecimento. As testemunhas de tal
experiência certamente se espantariam ao se deparar
com uma planta a ver, a ouvir, a sentir e a reagir à voz.
Sem dúvida, tal acontecimento apareceria como o maior
milagre do gênero humano. No entanto, a presença
operada pelo Sacramento do Batismo ultrapassa de
maneira inimaginável semelhante transplante fictício de
um novo tipo de vida.

Se observarmos os sinais sacramentais, por


exemplo, a pequena quantidade de água derramada na
cabeça do recém-nascido, ou do catecúmeno adulto, a
unção do Santo Crisma, a vela e a veste branca, vemos
que estes não estão à altura de nos indicar a realidade
que então se realiza; sem a fé o homem é incapaz de
compreendê-la e de abarcá-la. Só uma fé viva nos
permite entrever, no batismo, a ação salvífica de Cristo
e de aceitá-la. O batismo nos proporciona a participação
nessa vida absolutamente nova que Cristo inaugurou na
história do homem com a Sua Ressurreição. A novidade
dessa vida consiste na libertação da herança do pecado e
da sua "escravidão"; é a santificação na verdade. E a
descoberta da nossa vocação à união com Deus e a
vivermos com Cristo, n’Ele. Todas as vocações humanas
encontram a sua origem nesta novidade, pois, em última
análise, toda a vocação, quer se trate do estado
sacerdotal ou da vida religiosa, da paternidade ou da
maternidade, tende à plena realização do Sacramento do
Batismo.

Como a semente lançada à terra deve morrer para


dar frutos de vida nova, também nós, pelo batismo,
começamos a morrer com Cristo para partilharmos com
Ele os frutos da Sua Ressurreição. No batismo realiza-se
a consagração principal — a oferenda do homem a
Deus, como Sua propriedade. Esta consagração
fundamental pode se realizar por meio das graças
decorrentes da Redenção de Cristo e, ao mesmo tempo,
exprime a nossa própria resposta à Redenção.

Devemos constantemente voltar às graças do


Sacramento do Batismo, a fim de que pela fidelidade
àquelas graças extraordinárias e particulares possamos
alcançar, ao menos em parte, o estado de pureza de alma
recebido no momento da iniciação batismal. Na verdade,
mediante a nossa imersão na Morte e na Ressurreição de
Jesus, que tem lugar no batismo, alcançamos um estado
de pureza que, em seguida, freqüentemente
desperdiçamos. As graças do batismo nos são dadas para
sempre, mas nós as desperdiçamos habitualmente, logo
que cedemos ao mal. Mas, quando desejarmos caminhar
para a santidade, poderemos recuperar novamente
aquele particular estado de pureza, perdido devido à
nossa infidelidade às graças batismais, passando, então,
por sucessivas etapas de purificação. Todo o nosso
caminho de santificação não é mais do que a
reaproximação ao estado de alma recebido no momento
do batismo.
O progresso na vida interior consiste no desejo,
cada vez mais forte, de deixar atuar as graças do batismo,
graças essas que nos tornam semelhantes a Cristo por
meio de uma vida vivida no espírito das Bem-
aventuranças. "Quem perder a vida por Minha causa, há
de ganhá-la" (Mt 16,25). Este "perder a vida" tem já o seu
início no Sacramento do Batismo e deve se realizar no
desenrolar de toda a nossa existência. Devemos perder a
nossa vida por causa de Cristo, esforçando-nos por seguir,
sempre mais e mais, o Seu exemplo de forma cada vez
mais plena no caminho concreto da nossa vida, em
conformidade com a Sua vontade e com os Seus desígnios
a nosso respeito. Temos de ser "sepultados" com Cristo;
devemos, então, passar pela nossa morte. Eis por que a
nossa "vida escondida, com Cristo, em Deus", ou seja, a
nossa santidade, apenas pode se realizar na proporção da
nossa morte em relação a tudo aquilo que nos separa de
Deus. Ao perdermos a nossa vida por Cristo realizamos a
nossa vocação de nos encontrarmos a nós próprios n Ele
que é "toda a plenitude" (cf. Col 2,9).

O "dom da fé", concedido no Sacramento do


Batismo (Gravissimum Educationis, 2) deve conduzir a um
aumento progressivo da nossa ligação a Cristo. O batismo
se apresenta a nós, não somente como algo já realizado,
mas também como tarefa que somente terá o seu pleno
cumprimento no momento da nossa união a Cristo,
quando, à semelhança de São Paulo, pudermos dizer "Já
não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim” (Gal
2,20).

A incorporação no Corpo de Cristo


A conseqüência salvífica essencial do santo batismo
é a incorporação daquele que é batizado na comunhão
eclesial. A fé que nasce do batismo provoca a saída do
isolamento do próprio "eu" e a entrada na comunhão com
Jesus e com todos aqueles que constituem uma parcela do
Seu Corpo Místico. A Igreja torna-se, assim, o lugar da sua
fé que é, por sua vez, um fragmento da fé da Igreja, fora
da qual não teria qualquer condição para se desenvolver.

Nos termos das formulações do Concilio são os


sacramentos da iniciação cristã que edificam o Corpo
Místico de Cristo, no qual somos incorporados pelo
batismo e em seguida fortalecidos pelo Crisma e pela
Eucaristia. É, no entanto, impossível perceber nossa
pertença ao Corpo Místico de Cristo e viver essa pertença
sem uma fé viva.

Muito freqüentemente, as pessoas que rodeiam


aquele que se vai batizar estão como cegas, olham mas
não vêem, nem compreendem. Inconscientes perante o
acontecimento extraordinário que se vai produzir, estão
bem mais interessados no comportamento da criança, se
ai chorar ou se ficará sossegadinha. Se, ao invés, tivessem
fé, ficariam profundamente impressionados com a
grandiosidade do acontecimento que se opera no
momento em que a água escorre pela fronte do batizando
e no qual se pronunciam as seguintes palavras: "Eu te
batizo cm nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo".

Somente uma fé viva permite penetrar os simples


sinais sacramentais e chegar à compreensão da
inconcebível realidade que se consuma aquele momento.
A falta de fé pode conduzir a uma compreensão mágica
dos efeitos do Sacramento do Batismo ou a entendê-lo
apenas como uma atividade eclesiástica puramente
exterior.

A sua fé pessoal, cuja fonte é o batismo, não é algo


que possa construir ou aprofundar unicamente mediante
um diálogo íntimo com Jesus, porque a fé tem uma
dimensão de comunhão, necessária para o seu
nascimento e desenvolvimento. O Sacramento do Batismo
é um fato importantíssimo para toda a comunidade
paroquial. A comunidade mais próxima dos que crêem
tem a obrigação de acompanhar, pela oração e pela sua
atitude de fé, aquele que recebe o seu primeiro sacra-
mento da Igreja. Na verdade, por meio deste, Deus inunda
de graças excepcionais, não só o recém-batizado, mas
também toda a comunidade que, ao acolhê-lo, recebe no
seu seio um novo membro santificado. É, deste modo,
importante que todos nós recebamos esse grande dom de
Deus, em profunda fé e gratidão.

Pelo Sacramento do Batismo você entra na


Comunhão dos Santos. Como fonte inesgotável de vida, a
graça de Cristo penetra todos os que pertencem ao seu
Corpo Místico e também em todos atua o mesmo Espírito
Santo. Nenhum de nós recebe as Suas graças apenas para
si mesmo, mas também para os outros; propaga-as pela
palavra, pelo pensamento e pelas obras de amor. O
crescimento em graça, mediante uma maior fidelidade a
Deus, intensifica a nossa irradiação específica sobre os
outros, e isso é concretizado, não só na palavra falada ou
escrita e no bom exemplo, mas também
independentemente da ação direta e da distância física.
Romano Guardini diria que "a oração dos outros lhe
pertence também", como de resto lhe pertencem também
as suas ações, o seu crescimento espiritual e a sua pureza
de coração. Você já refletiu alguma vez na comunhão do
sofrimento, no fato de que as graças decorrentes do
sofrimento de alguém serem canalizadas também para
outros? Quando, unindo-se aos sofrimentos de Cristo, você
oferece a Deus em benefício dos outros, as suas
experiências dolorosas, essas se tornam, então, para eles
uma força viva, benéfica e redentora. Vencendo, assim,
todos os obstáculos e distâncias, a sua ajuda chega até
onde nada mais pode ajudar (cf. R. Guardini, II semi delia
Chiesa).
Ninguém é uma ilha solitária. Enquanto Corpo
Místico de Cristo formamos um sistema de vasos
comunicantes. Cada um dos seus atos, bons ou maus, tem
uma dimensão social e produz uma certa pressão
sobrenatural que age internamente nos outros, para o
bem ou para o mal. Compreendida à luz da fé, a oração
situa-se no contexto do sistema dos vasos comunicantes.
Como tal, a oração em si nunca é um ato solitário.
Enquanto membro do organismo místico da Igreja, você
também pode enriquecê-la ou empobrecê-la com a sua
oração de fé. Esta realidade determina o caráter eclesial
da oração e define a sua responsabilidade para com a
Igreja e para com os outros. Não se trata da simples
recitação de orações, mas da oração autêntica que,
enquanto expressão da realização da fé, chega até Deus.
Para poder chegar a atuar nos outros, a oração, não
precisa de ser nominativa nem de ter necessariamente
uma índole concreta de intercessão. Basta que em você
cresçam a fé, a esperança e a caridade e que por meio
delas se intensifique a sua vida de oração para que,
simultaneamente, a Igreja, os outros, ou seja todo o Corpo
Místico de Jesus, possam experimentar os seus efeitos
benéficos e salvíficos.

No âmbito do Corpo Místico de Cristo assim


compreendido, surgem laços recíprocos que variam na
sua proximidade e na sua profundidade. O princípio físico
dos vasos comunicantes pode ilustrar mais de perto o
mistério dos laços recíprocos estabelecidos no contexto do
Corpo Místico de Cristo. E, por exemplo, um sistema de
vasos comunicantes a família na sua qualidade de igreja
doméstica. Geralmente, quando Deus quer agir sobre um
determinado grupo de pessoas, serve-Se, de modo
especial, de um deles para usá-lo como veículo de graças
para os outros. Tomemos o exemplo de uma família de
quatro pessoas, das quais três se encontram fechadas à
vida da graça, semelhantes a provetas hermeticamente
fechadas. Se, porém, a primeira procura converter-se a
Deus torna-se para os seus familiares um canal de graça.
Ao seu alcance estão duas possibilidades de ação.
Continuemos a nos servir da imagem dos vasos
comunicantes: a pessoa pode retirar as rolhas das
"provetas" pela parte superior, do mesmo modo que se
retiram as rolhas das garrafas com um saca-rolhas. Se,
porém, aquela rolha é tecido vivo da personalidade
humana, tal extração feita pelo alto estará sempre
associada ao sofrimento, a feridas dolorosas e, em certa
medida, destruidor as, bem como a um constrangimento
limitador da liberdade do outro. Isso Deus não quer,
porque deseja que a decisão do homem a favor da fé e de
uma experiência mais plena do amor seja tomada em
liberdade.
Mas, voltemos à imagem do sistema de vasos
comunicantes. Deus prefere que aquelas rolhas sejam
retiradas pela parte inferior, em resultado de um aumento
singular da pressão da graça no interior da proveta, da
sua proveta. Antes de começar a converter os outros, se
esforce por se converter, pois o mais importante é a
intensidade da sua fé, da sua adesão a Cristo. "Pouco
importa o que fazes", disse João Paulo II, "o importante é o
que tu és". Quanto mais o bem reinar em você, mais fiel
será à graça e tanto mais a incidência da sua ação sobre
os outros se revelará eficaz. Se, porventura, a mulher quer
converter o marido que, por exemplo, bebe e se
embriaga, deve principiar por si própria. Para começar, é
ela quem se deve converter. Somente quando a graça
crescer nela e a sua conversão se tornar mais profunda,
aquela força do bem crescente, vinda de baixo, provocará
a conversão do casal. A reforma do mundo e a
transformação dos outros começa em nós. E em você que
deve crescer a vida de Cristo a tal ponto que as graças e o
bem recebidos provoquem a conversão dos outros. Pode,
por outro lado, suceder também que esta forma de
conversão dos outros resulte ineficaz, o que será um forte
indício de que a "pressão" da sua "proveta" tem de se
tornar ainda mais forte. Será, desse modo, Deus a exigir
de você uma vida interior mais intensa e talvez em
absoluto, o dom total de si mesmo, uma orientação radical
da sua vida para a santidade. Tais são as conseqüências
da sua pertença ao Corpo Místico de Cristo, as
conseqüências da extraordinária verdade de que,
mediante o batismo, você se tornou membro do Cristo
total, do Seu Corpo Místico.
Escreve G. K. Chesterton que na história da Igreja a
fé cristã conheceu, no mínimo, cinco vezes uma morte
aparente (cf. The Everlasting Man). Um desses períodos
dramáticos de "morte lenta da Igreja" foi o tempo de São
Francisco de Assis. Desta imagem particularmente
lúgubre da Igreja do século XII dão testemunho as
inúmeras bulas do Papa Inocêncio III que condenavam os
abusos mais escandalosos como a usura, a corrupção, a
gula, a embriaguez, a libertinagem. Tendo como pano de
fundo aquela enorme dissolução de costumes, surgem na
Europa grandes heresias fanáticas e agressivas. Dentre
estas conta-se o movimento dos Albigenses e dos
Valdenses que quase destruíram o Cristianismo. Outro
golpe infligido à Igreja foi igualmente o aumento dos
pregadores itinerantes, que sistematicamente criticavam
os eclesiásticos, freqüentemente tomados pela ganância
das riquezas, e aos quais se contrapunham propagando
modelos de pobreza contados na Bíblia.

Pelo contrário, Francisco nunca criticava ninguém. A


sua opinião era a de que, se o mal reinava ao seu redor,
devia em primeiro lugar converter-se a ele próprio e não
os outros. Se um tal luxo e uma tal libertinagem reinavam
à sua volta, era ele quem deveria tornar-se radicalmente
pobre e puro, assumindo a responsabilidade de tudo. Os
santos distinguem-se dos propagadores de heresias no
pormenor destes últimos quererem converter os outros
em vez de começarem por si próprios, enquanto os santos
dirigem o gume de toda a crítica contra a sua própria
pessoa. Para que o mundo se torne melhor esforçam-se
por se converter a si mesmos. Quanto mais Francisco se
dava conta da corrupção e dos escândalos que o
rodeavam, mais desejava assemelhar-se a Cristo, puro,
humilde e pobre. Se o mundo era assim tão perverso, o
culpado era Francisco, e assim sendo era ele próprio
quem deveria converter-se radicalmente - e a história
deu-lhe razão. De fato, quando Francisco se converteu,
quando se tornou tão "transparente" ao Senhor que o
rosto de Cristo podia refletir-Se nele, a Europa começou a
levantar-se da sua queda. Realizou-se, desse modo, o
sonho no qual Inocêncio III vira uma figura semelhante a
Francisco a amparar as paredes periclitantes da Basílica
de Latrão, também chamada a "mãe e a primeira de todas
as Igrejas" - símbolo de toda a Igreja - e assim salvá-la.

Com a força da santidade de Francisco, Cristo


levantou a Sua Igreja da "morte" da fé. A sua santidade
enriqueceu o mundo, não tanto pelo fato de ter sido ele
um homem que realizou o espírito do Evangelho de modo
invulgar e heróico, mas antes porque, segundo o princípio
dos vasos comunicantes, a sua santidade influenciou real-
mente outras pessoas que ele nunca chegou a conhecer.
A luz da fé lhe permite descobrir que, pelo batismo, você
pertence ao Corpo de Cristo e foi inserido no sistema de
vasos comunicantes desse Corpo, que tanto precisa de
convertidos e de santos, e em especial precisa da sua
conversão e da sua santidade. Graças à luz da fé você
toma consciência de que a transformação dos outros deve
principiar sempre pela sua.

Cada parcela de bem que realiza incide nos outros;


a sua fidelidade é força para aqueles que você ama. A
Sagrada Comunhão que recebe não fortalece apenas a
você, mas é também alimento para o seu marido, esposa,
filhos, irmãos e amigos, para a paróquia, para a Igreja ou
para o mundo inteiro. Começa, portanto, por você próprio,
pela sua abertura a Cristo. Deus quer que se santifique e
que, através da sua santificação, sejam santificados o
meio em que vive, os seus queridos, a Igreja e o mundo.

O sacerdócio dos fiéis

O sacerdócio universal dos fiéis procedente do


batismo exprime-se, de modo mais pleno, no Sacrifício
Eucarístico. Ao celebrar a Santa Missa, o sacerdote não só
representa Cristo, mas também os fiéis que, com ele e por
seu intermédio, apresentam o sacrifício de Cristo,
oferecendo-se, igualmente, eles próprios a Deus. O
Concilio Vaticano II confirma explicitamente que em
virtude do santo batismo, os fiéis obtêm a participação no
sacerdócio régio de Cristo (Lumen Gentium, 26). "Pela
regeneração e pela unção do Espírito Santo, os batizados
são consagrados para serem edifício espiritual e
sacerdócio santo, de modo que ofereçam, em toda a sua
atuação cristã, sacrifícios espirituais, (...) ofereçam-se
todos os discípulos de Cristo como hóstia viva, santa,
agradável a Deus" (Lumen Gentium, 10). Durante a Santa
Missa realiza-se uma particular assimilação do batizado a
Jesus Cristo, porque não é somente alguém que coopera
no sacrifício, mas ele próprio se torna dom propiciatório.

O sacerdócio universal dos fiéis prende-se ao


chamamento a uma total entrega a Deus e à vocação para
a santidade. A sua participação na Santa Missa, celebrada
no contexto do sacerdócio universal dos fiéis, torna-se
verdadeiramente eficaz, quando você se entrega realmen-
te a Cristo e por Ele se entrega sem reservas ao Pai;
quando nada quer conservar para si e consente em ser
despojado como Cristo. Deus, cioso do Seu amor, deseja
que você se faça dom total para Ele. O sacerdócio dos
fiéis deve conduzi-lo a uma configuração sempre maior
com Cristo. Deve, como Ele, tornar-te dom total para o
Pai, sem nada reter para si próprio, porque só assim
poderá Ele Se dar plenamente a você e preenchê-lo com a
Sua presença.

A presença sempre crescente de Cristo em você


deve ser transmitida aos outros. Pelo batismo fosse
chamado à "contemplata aliis tradere" — a transmitir aos
outros aquilo que está vivendo. De fato, em virtude do
batismo, você se torna participante no ministério profético
de Cristo. Você é, portanto, chamado a exercer funções
apostólicas e evangelizadoras. Na sua primeira carta, São
Pedro liga o sacerdócio dos fiéis ao dever do apostolado e
da evangelização: "Vós sois sacerdócio real (...) a fim de
proclamardes por toda a parte o amor d Aquele que vos
chamou das trevas para a Sua luz admirável (cf. I P 1,9).

Na homilia pronunciada em 29 de janeiro de 1979,


no México, o Santo Padre, o Papa João Paulo II disse: "Em
virtude do Sacramento do Batismo e da Confirmação,
todos os fiéis são levados a confessar publicamente a fé
que receberam de Deus por intermédio da Igreja. Importa,
pois, propagá-la e defendê-la como verdadeiras
testemunhas de Cristo, porque chamados à evangelização
- dever fundamental de todos os membros do povo de
Deus". Lembre, porém, que a eficácia da sua ação
apostólica decorre de uma profunda vida interior, da vida
de oração e do seu pleno abandono a Cristo Sacerdote, a
exemplo da Virgem Maria cujo abandono, virginal e total a
Deus, se tornou a fonte da sua maternidade espiritual em
favor das almas. Gerando-o para a fé, o batismo chama-
te, também a você, ao mesmo tipo de maternidade.
CAPÍTULO 2

O CRISMA

O Sacramento da Confirmação, ou Crisma, está


estreitamente vinculado ao Batismo e à Eucaristia por ser,
também como estes, um sacramento de iniciação cristã.
Se o batismo incorpora o batizado na Igreja, o Crisma
realiza uma inserção ainda mais perfeita no Corpo Místico
de Cristo. "Pelo Sacramento da Confirmação, os fiéis, vin-
culam-se mais perfeitamente à Igreja e recebem um
especial vigor do Espírito Santo: ficam assim mais
seriamente comprometidos a difundir e a defender a fé,
por palavras e obras, como testemunhas verdadeiras de
Cristo" (Lumen Gentiumy 11). A confirmação, tal como o
Batismo e a Eucaristia, é um sacramento que determina e
aprofunda o processo sempre crescente de configuração,
do crente com Cristo.

Mediante o Crisma recebemos a graça do


Pentecostes - a plenitude do Espírito Santo. A Igreja
compara, nos textos litúrgicos, as graças deste
sacramento àquelas graças extraordinárias de que foram
participantes os Apóstolos no dia de Pentecostes. O
Crisma é a "descida" solene do Espírito Santo sobre os
batizados para conduzir à maturidade aquilo que, de uma
vez por todas, teve já o seu cumprimento no Sacramento
do Batismo. Fruto particular deste sacramento é o dom de
uma fé amadurecida, concedida pelo Espírito Santo
através das graças do despojamento.
O despojamento - condição para
alcançar a plenitude

O aprofundamento da nossa fé realiza-se por meio


da renúncia aos sistemas de segurança que possuímos e
de tudo aquilo que suscita em nós uma sensação de força,
de poder e de importância própria. Despojarmo-nos
significa criar em nós espaço para a fé que exige a
humildade. E uma graça inestimável esta, em que Deus,
despojando-o das suas forças e do seu poder, o aproxima
mais d'Ele e, pondo-o em verdade, faz com que precises,
cada vez mais, d'Ele.

Disse São João da Cruz que Deus dedica maior amor


a uma alma quando a despoja, pois desse modo o homem
pode, então, ter acesso à plenitude da fé.

Se você não encontra apoio em qualquer sistema de


segurança, Deus pode atraí-lo de modo a que se apóie
exclusivamente n Ele, verdadeiro rochedo da sua
salvação. A graça do despojamento ê um dom particular
do Espírito Santo que despoja o homem antes de descer
sobre ele. Mas freqüentemente não compreendemos a
atuação do Espírito Santo. Sabemos que Ele é Poder,
Consolação, Amor do Pai e do Filho, todavia esquecemos
quase sempre que é Ele o principal construtor da nossa
santidade. E, pois, Ele que realiza todo o processo
indispensável para percorrermos o caminho de união com
Deus, caminho que compreende, quer elementos
atrativos, quer elementos purificadores, ou seja, ele-
mentos do nosso despojamento. O nosso despojamento é
executado pelo Espírito Santo, é Ele quem nos torna
pobres porque Ele é, como dizemos na seqüência da Missa
do dia de Pentecostes, o Pai dos pobres, é, pois, Ele quem
prodigaliza os dons.

Pode porventura dizer-se que o Espírito Santo


prodigaliza os Seus dons para nos tornar mais ricos?
Decerto que não, pois isso estaria em desacordo com o
Evangelho que define a riqueza como uma "maldição". O
Seu dom consiste em nos despojar e em nos empobrecer
ainda mais para nos tornar abertos ao Seu Poder e ao Seu
Amor. Só então Ele próprio Se tornará um dom para nós,
uma vez que pode então descer nesse vazio do nosso
despojamento e enchê-lo com o Seu infinito Poder e com o
Seu infinito Amor.

Um dos aspectos mais importantes deste


despojamento por meio do qual o Espírito Santo nos
prepara para a Sua "descida" é o despojamento da
imagem falsa que temos de nós próprios, libertando-nos,
desse modo, da mentira. São João, no seu Evangelho,
transmite-nos a promessa de Cristo, de que o Consolador -
o Espírito Santo - pela Sua vinda há de convencer o
mundo do pecado (cf. Jo 16,8). Portanto, uma das funções
do Espírito Santo ao descer em nós no Sacramento do
Crisma é a de convencer-nos do nosso pecado, o que
eqüivale a dizer: concede-nos o dom da humildade. Trata-
se de uma graça fundamental do Espírito Santo, através
da qual podemos descobrir quem somos realmente,
reconhecermos que somos pecadores, homens de pouca
fé.

Se você se sente seguro de si, se até agora não


descobriu a sua condição de pecador e se, pelos seus
próprios meios, se desenvencilha de tudo, significa então
que, na realidade, não precisa do Espírito Santo. A atitude
de presunção e de falta de humildade fecham a porta do
seu coração à Sua vinda. Se você não se sente pecador,
não pode desejar a intervenção salvífica do Espírito Santo
na sua vida e, por conseguinte, não consegue receber as
graças inerentes ao Sacramento do Crisma. A humildade e
a fé são dons fundamentais do Espírito Santo que nos
abrem à Sua descida cada vez mais intensa e a receber o
dom que Ele faz de Si próprio.

A eficácia do Sacramento do Crisma

As graças próprias de cada sacramento não agem


automaticamente. O Crisma não apaga os defeitos do
caráter, não elimina as faltas originadas pelo seu
temperamento nem substitui o seu esforço pessoal.
Depois de ter recebido este sacramento é possível que
continue miserável, receoso e morno na sua fé; escravo,
como habitualmente, das atenções humanas. O poder do
Espírito Santo concedido no Sacramento da Confirmação,
a princípio apenas lhe é proposto para que, mediante a fé,
você possa recebê-lo em perfeita liberdade. De fato, esta
graça pode se deparar da sua parte com uma recusa ou
com o desinteresse. É com grande delicadeza que o
Espírito Santo desce ao coração do homem, sem se impor;
vem para aquele que no silêncio espera a Sua vinda.

Ele só vem quando perseverante na espera, você se


põe à escuta de cada uma das Suas palavras no desejo de
que Ele atue na sua vida. Não virá a você senão na
medida da fome que nasce no seu coração, fome da Sua
presença e da Sua ação.

O avanço para a maturidade da fé não é um


movimento regular, projetado em linha reta; está, em
geral, assinalada por inúmeros altos e baixos. Para atingir
a maturidade da fé é preciso primeiro experimentar as
conseqüências dos erros motivados pela sua imaturidade.
Antes de qualquer coisa é necessário que você se torne
humilde, pois só a partir desse momento a fé poderá
crescer em você. O crescimento na humildade, que é
também a verdade, lhe permite ter uma abertura cada
vez mais ampla às graças do Crisma, para que nelas
cresça completamente.

Depois do Crisma você pode julgar que algo na sua


vida religiosa teve o seu epílogo, que uma etapa já está
vencida quando na realidade você está apenas no limiar
do seu caminho para a plenitude da fé. Trata-se de um
sacramento que requer a sua cooperação, e que
inaugurou, de fato na sua vida algo extremamente
importante: um novo processo da sua colaboração com o
Espírito Santo que veio e que espera o seu coração
inteiramente aberto à Sua descida, mediante o
crescimento na humildade e na fé. Imediatamente, antes
da recepção do Sacramento do Crisma, no decurso da
renovação das promessas do batismo, a Igreja se dirige a
você com a seguinte pergunta: "Crês no Espírito Santo,
Senhor que dá a Vida, que hoje vais receber no
Sacramento do Crisma, do mesmo modo que O receberam
os Apóstolos no dia do Pentecostes?". Para poder hoje
responder mais uma vez a esta questão, você deve se
colocar na presença de Deus em verdade.
Apreciando a sua vida, com espírito de humildade,
isto é em verdade, você não deveria pôr em questão a sua
fé? Como deve ser pequena a sua fé se não vive das
graças decorrentes do Batismo e do Crisma! Contudo,
você recebeu a plenitude do dom do Espírito Santo, e o
que é que mudou na sua vida? Se você recebeu o batismo
enquanto criança, não podia ter consciência da grande
transformação que se produziu em você, nem da
realidade desse seu 'segundo nascimento'. As promessas
batismais foram feitas em seu nome pelos pais e pelos
padrinhos mas, mais tarde, quando durante o crisma,
você as renovou, poderá dizer que as pronunciou
plenamente consciente de estar fazendo a sua opção por
Cristo para Lhe pertencer completamente? Esforçando-se
por perseverar na verdade, você deve se questionar
freqüentemente: que fiz dos dons do Espírito Santo, que
fiz do próprio Espírito Santo que recebi como um dom
indizível?

Para a pessoa que o recebe, a validade do


sacramento não eqüivale à sua eficácia. Se bem que o
sacramento permaneça válido, a pessoa, no entanto, pode
não acolher as graças a ele inerentes, ou pior ainda, pode
se tornar culpada por o ter recebido indignamente. Ao
falar da Eucaristia, São Paulo advertia: "Todo aquele que
comer o pão ou beber o cálice do Senhor indignamente
será réu do Corpo e do Sangue do Senhor" (ICor 11,27). As
graças dos sacramentos são infundidas unicamente
naqueles que não lhes opõem resistência. O Espírito Santo
precisa da sua abertura e da sua disponibilidade interior.
Ele está à porta e bate, mas não entrará se não for
convidado. Você é livre, portanto, para se fechar a Ele,
mas pode também se decidir pela fé, pela humildade e
abrir-Lhe, de par em par, as portas do seu coração.

O Sacramento do Crisma recebido em pecado


mortal ou sem fé é válido, mas estéril. No entanto, se
surge na pessoa a disposição necessária, Ele pode
ressurgir. Se você recebeu este sacramento com pouca fé,
sem se dar conta do extraordinário acontecimento - a
descida do Espírito Santo — você pode agora reparar esse
estado de coisas por meio de uma melhor disposição
interior. As graças deste sacramento devem reviver e
crescer em você ao longo de toda a sua vida - até que
chegue à plenitude da união com Cristo no Espírito Santo.

O dom do Espírito concedido aos


Apóstolos

Durante a Última Ceia, disse Jesus aos Apóstolos:


"Ainda tenho muitas coisas para vos dizer, mas não as
podeis suportar agora. Quando vier o Espírito da Verdade,
Ele guiar-vos-á para a verdade total" {Jo 16,12-13). Na
véspera da Morte de Cristo, os Apóstolos ainda não
estavam aptos a receber todo o Seu ensinamento, porque
o Espírito Santo não tinha ainda descido sobre eles.
Porque é que o Espírito Santo não veio sobre eles logo ao
princípio, quando encontraram Jesus e O seguiram? Se
assim tivesse sido, eles poderiam ter compreendido o
ensinamento de Cristo na Sua totalidade. Em vez disso,
durante todo aquele tempo, eles compreendiam bem
pouco do que Jesus lhes dizia. A razão é que o Espírito não
podia descer sobre eles num primeiro momento, pois não
possuíam a disposição necessária para acolhê-Lo, não
estavam ainda suficientemente despojados. Ainda não
havia neles a autêntica humildade, nem tinham uma fé
autêntica — aquela fé que eqüivale a sentir-se impotente
e a tudo esperar de Deus.

E indispensável que quem crê fique despojado dos


seus sistemas de segurança. Na vida dos Apóstolos, o
traçado deste processo pode ser visto nitidamente. O
processo de despojamento conduz ou à revolta, e em
seguida ao abandono de Deus, ou à dinamização da fé e a
um reforçar da confiança n'Ele. O jovem rico que
perguntou com tanto fervor a Jesus o que havia de fazer
para ganhar a vida eterna, recusou-se, por fim, a seguir o
Senhor. Ele não queria abandonar tudo: rejeitou o
despojamento. Eis porque Jesus pensando nele declara: "E
mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do
que um rico entrar no reino de Deus" {Mc 10,25), ao que
se seguiu o espanto dos Apóstolos e a reação de Pedro:
"Aqui estamos nós que deixamos tudo e Te seguimos" (Mc
10,28).

Na alma de Pedro poderia ter despontado um


sentimento de superioridade e de satisfação: - Aquele não
seguiu o Senhor, mas, quanto a nós, de fato, deixamos
tudo. E é inegável que, de fato, Pedro deixou a família e a
profissão, tendo acontecido o mesmo com Tiago e João.
Sabemos pelo Evangelho que deixaram seu pai Zebedeu,
que provavelmente seria proprietário de uma empresa de
pesca, pois tinha alguns pescadores ao seu serviço, e era,
decerto, um homem abastado. Também eles tinham
deixado a família, o ofício e a sua segurança: deixaram
tudo para seguir Jesus. Mas, tal como acontece
freqüentemente, o homem num primeiro rasgo de
espontaneidade está pronto para entregar tudo ao
Senhor, tendo tendência a voltar a se apropriar de tudo.

Também os Apóstolos, como por exemplo, João e


Tiago, que tinham abandonado tudo por Cristo, sentiram-
se, mais tarde, demasiado seguros de si. Tinham
construído a sua própria visão do reino de Israel e
sonhavam fazer carreira. Além disso, parece provável que
tenham até chegado a ter um certo ciúme de Pedro por
ele ter sido distinguido dos outros. Foi a mãe dos dois,
decerto com o conhecimento deles, que pediu que
pudessem vir a sentar-se um à direita e outro à esquerda
de Cristo.

Deste modo se vê como é possível deixar tudo para,


em seguida, voltar a apropriar-se de tudo. Nos seus
desejos, de fato, aqueles dois Apóstolos já tinham se
apropriado dos primeiros lugares no reino de Jesus. Em
espírito, eram já verdadeiros fariseus, apesar de não o
serem, nem de nome, nem de fato. O farisaísmo deles
mostra-se evidente, por exemplo, naquela situação em
que Jesus, a caminho de Jerusalém, quer atravessar uma
aldeia samaritana, mas os habitantes não O acolhem por
causa da aversão que tinham aos judeus. Então, Tiago e
João, chamados "filhos do trovão" exclamaram: "Senhor
queres que digamos que desça fogo do céu e os consuma?" (Lc
9,54). E já um traço nítido de farisaísmo o fato de eles,
sentindo-se os melhores, pretenderem o castigo para os
piores.

Pode acontecer que alguém deixe tudo para seguir


o Senhor e se sinta depois superior, e melhor do que os
outros, mas isso eqüivale a deixar-se penetrar pelo
veneno do farisaísmo, Foi o que sucedeu no caso dos
Apóstolos. Vemos, de resto, que enquanto foram presas
do espírito farisaico, enquanto continuaram a apropriar-se
dos dons recebidos, o Espírito Santo esteve impedido de
descer sobre eles. Poderia se pensar que tudo teria sido
bem mais simples se, logo ao princípio, o Consolador —
Aquele que santifica e que endireita as veredas da alma
humana, Aquele que é luz - tivesse imediatamente
descido e esclarecido os ensinamentos de Jesus. Porém, o
Espírito Santo não descerá ao homem rico de espírito, do
qual Jesus dirá: "Ai de vos os ricos" (Lc 6,24). O Espírito
não poderá descer àquele que se sente seguro de si, que
é espiritualmente rico, porque tal pessoa é refratária ao
Seu poder, ao poder do Pai dos pobres.

Observamos claramente, na vida dos Apóstolos, as


etapas da sua reaproximação de Deus. De início surgiu na
vida deles a "primavera da Galiléia", um período cheio de
alegria e de sonhos. Só mais tarde algumas nuvens
sombrias começaram a se evidenciar no horizonte,
quando no início dos conflitos com os fariseus suscitaram
o receio e o medo - seriam aqueles os primeiros fulgores
de purificações e as primeiras provas de fé na vida dos
Apóstolos. Foi então que Tome, testemunha das recentes
tentativas de apedrejarem e de prenderem Jesus, diria vi-
sivelmente desencorajado e quase em desespero: "Vamos
nós também, para morrermos com Ele" (Jo 11,16).
Aqueles, já não eram os Apóstolos triunfantes da
primavera da Galiléia! Agora começavam verdadeira-
mente a ter medo, pois existiam conflitos abertos com a
elite da nação, com o poder representado, naquele tempo,
pelos fariseus e saduceus.
O despojamento mais completo e a prova mais dura
de fé virão inesperadamente com a Paixão de Cristo.
Sexta-feira Santa, dia da Paixão de Jesus, graças à qual é
consumada a Redenção do mundo, foi para os Apóstolos a
noite total da purificação. Para eles, ali, tudo se desmo-
ronou, tudo caiu por terra. O Reino já não existia, Jesus
parecia-lhes um derrotado, nada mais restava, nada mais
havia a esperar, nenhuma esperança, somente sobrava o
desespero. Se bem que o Evangelho não se refira
explicitamente, a João, de pé junto à Cruz, não teria sido
estranho esse sentimento de desespero. Também ele
sentiria naturalmente que tudo se despedaçara.

Alguém afirmou: "Se não passaste pelo teste do


desespero, pode dizer-se que nada sabes". Para os
Apóstolos, este teste teve lugar na Sexta-Feira Santa. Foi
então que eles, fariseus de espírito, foram completamente
despojados. Depois da Ressurreição, aquela "noite" viu-se
iluminada pelo resplendor de Cristo ressuscitado, quando
puderam ver que Ele vivia, que estava no meio deles.
Porém, tratava-se de uma outra forma de presença, que já
não dava plena segurança nem estabilidade. Já não era a
anterior humanidade de Cristo. Agora ela é distinta,
gloriosa e como se não fosse deste mundo. Viram-no
passar através de portas fechadas, de tal forma que
chegaram a duvidar de que tratasse verdadeiramente do
seu Mestre.

Não chegara ainda o termo das provações às quais


os Apóstolos foram submetidos, não terminou ali a noite
da sua purificação. Os dez dias decorridos entre a
Ascensão e a descida do Espírito Santo também foram
para os Apóstolos uma prova de fé e de um despojamento
contínuo. Eis como Garrigou-Lagrange descreve essa
situação: "Nos meses precedentes, a intimidade deles
com Jesus crescia diariamente. Ele tornara-se a vida
deles, e agora decide deixá-los para sempre, aqui
embaixo, privados da Sua presença visível e da Sua
palavra que os sustentava. Como deviam sentir-se sós e
isolados... Os Apóstolos, na tarde da Ascensão, devem ler
experimentado uma fortíssima impressão de solidão bem
como uma impressão de deserto e de morte..." (Les trois
ages de la vie intérieure, t.II). Fora-lhes arrebatada a
presença humana de Jesus que até então tinha sido o seu
principal apoio. Careciam agora de todo e qualquer
suporte. A jovem Igreja que nasce no Cenáculo, e que
persevera em oração, está assim completamente despojada.

Ensina a Teologia da vida interior que no decurso da


"segunda noite", aliás a mais penosa, surge a Virgem
Maria que, com a Sua presença, a alumia. Foi o que
aconteceu naquele Cenáculo. Os Apóstolos não se
encontravam ali sozinhos, a Virgem Maria estava com
eles, Aquela que nunca tinha caído em desânimo e cuja fé
nunca vacilara. Permanece constantemente com eles,
como exemplo de fé e de perseverança na oração, modelo
de espera da vinda do Espírito Santo. Os Apóstolos,
totalmente pobres, despojados já de tudo, sem qualquer
sinal visível da humanidade de Jesus, esperam com Ela. E
é então que o Espírito Santo, que como diz a liturgia é o
Pai dos Pobres, desce sobre eles quando estavam assim
despojados e no mais completo vazio. Nessa altura
invade-os o Seu Poder e fortalecendo-os dessa maneira
são enviados a conquistar o mundo para Cristo.
Amar a Igreja

Pelo Crisma você se une mais intimamente à Igreja.


Ao receber este sacramento estabelece-se um estreito
vínculo pessoal entre você e o bispo que o ministra e que,
na qualidade de dispenseiro do Sacramento do Crisma,
participa na maternidade sobrenatural da Igreja.
Tornando-se para você um canal particular da graça e dos
dons do Espírito Saiu o, o bispo "gera-o" para a plenitude
da vida cristã. Os textos litúrgicos falam de uma marca
espiritual que fica impressa na alma do crismado uma
marca que exprime a íntima e perfeita ligação com Cristo
e com a Igreja. O estabelecimento de um vínculo
espiritual entre o crismado e o bispo compromete-os no
amor à Igreja. Você deve amai a I g r e j a como Cristo
que "Se entregou por ela” (Ef 5,25). Amar como Cristo é
amar até ao dar da própria vida.

A Igreja é nossa Mãe. Se dela não temos uma visão


sobrenatural isso é devido à atual secularização
generalizada. No Credo nós professamos: "Creio na Igreja
universal". O sentido desta declaração d e v e refletir a
atitude de entrega confiante à Igreja, porque entregando-
se à Igreja, você se entrega a Cristo, dado que a Igreja é
o Seu Corpo Místico.

Daniel-Rops, no seu livro "Noturnos", tece a


descrição de um painel de mosaicos do século IV d.C, que
se encontra no Museu Bardo, em Tunis, (mosaicos...):

"Que um cristão não pode olhar sem emoção.


Desajeitadamente, como se reproduzisse no desenho das
suas pedras um qualquer 'graffiti' traçado por mão furtiva,
representa este o pórtico e a co-lunata de uma daquelas
basílicas constantinianas edificadas um pouco por toda a
parte no Ocidente mediterrânico, quando a revolução da
Cruz começou a instalar, nos escombros cercanos do
Império, a soberania da Boa-nova. E uma breve inscrição
a elevar aquela humilde imagem à dignidade de um
símbolo, deixa à nossa meditação estas duas inesgotáveis
palavras: Ecclesia Mater. Século IV! O tempo das grande
lutas não chegara ao seu termo. O mundo não optara
ainda definitivamente entre o Panteão de múltiplo
prestígio e a revelação do Deus vivo. Constantino havia já
reconhecido o imenso fato histórico que representava o
surgimento do Cristianismo e o seu desenvolvimento no
universo de Roma. Mas os retrocessos eram sempre
possíveis, como o foi por exemplo, o de Juliano, o
Apóstata. Não era ainda totalmente seguro afirmar-se por
Cristo... Existia no Império uma angústia crescente, um
feixe de confusos temores e de incertezas, de que a
anarquia política, a inquietação religiosa e o perigo
bárbaro, eram sinais. E nessa atmosfera de problemas e
de riscos, naquele mundo sob ameaça, naquela
Cristandade de dor na qual o sangue dos mártires estava
ainda fresco na areia dos anfiteatros, que é preciso ouvir
pronunciar, na doçura apaziguadora de uma oração,
aquelas palavras consoladoras.

Será preciso muita imaginação para as


compreender tal como as compreendia aquele longínquo
irmão nosso em Cristo, que com a ajuda de pequenas
pedras as traçou no cimento úmido? Estando o mundo
cheio de incerteza, estando a história como que opaca
não se ousava perscrutar demasiadamente longe o
horizonte da Promessa. Porém, havia um local onde os
próprios perigos tinham um sentido, onde tudo era
ordenado numa grande esperança, onde se pressentia o
porquê' e o como'. Havia também um lugar onde as piores
explosões de injustiça e de raiva cessavam, onde a
fraternidade humana existia para além das barreiras de
raças e de classes, onde o amor era mais forte do que a
morte'. Esse lugar privilegiado, do qual as colunas e as
paredes da Basílica de Tabarkha são apenas a imagem
visível, aquele lugar do qual o apóstolo dissera que havia
de ser para sempre "a casa do Deus vivo", era a Igreja, a
Mãe-Igreja, Ecclesia Mater.

Vários séculos decorreram, épocas e impérios, as


circunstâncias parecem ter se transformado. No entanto,
através da sucessão de acontecimentos e incertezas
humanas, houve uma realidade que sobreviveu a todas as
vicissitudes da história e que para os milhões de homens
do nosso tempo aparece exatamente como aos fiéis dos
tempos heróicos nos atributos eternos da maternidade.
(...) O mais ignorante dos cristãos sabe ainda que, de
forma confusa, a palavra "filho da Igreja" com a qual ele
se auto-define, exprime uma pertença de aspecto diverso
daquela proporcionada pela formação humana e pelos
partidos, uma adesão bem diferente daquela que se
consente aos filósofos ou aos sistemas. E o nome que
chamamos à pessoa que a nossos olhos mortais
personifica e representa a Igreja - Papa (Papá) - acaso não
exprimirá o eco dos mesmos sentimentos de filial afeição
e de absoluta confiança exprimidos pela inscrição de
África, há mil e seiscentos anos: Mãe-Igreja? Igreja-Mãe,
ignorada, caluniada, traída até por aqueles que devem
aos seus ensinamentos a dignidade de homens que
reivindicam contra ela; é nas horas de inquietação e de
ameaça que o seu papel, como nos primeiros tempos da
nossa era, aparece mais em evidência. Tinham-na dado
por morta, ou abolida, relegada juntamente com as mais
velhas indumentárias do passado; as componentes do
mundo pareciam não lhe deixar qualquer espaço. Mas
basta que a humanidade sinta estremecer o destino pelas
suas bases, para que logo se note que ela continua lá no
seu lugar 'a cidade situada sobre a montanha e que se vê
de todo o lado'. Basta que uma guerra estoure para se ver
reconhecido o seu poder, não procurando senão cada uma
das partes opostas colher para seu proveito um
irrevogável prestígio. Basta que a civilização seja
ameaçada, que o homem descubra nele, e diante dele,
abismos que por si só cavou e o mesmo grito de súplica
irromperá dos seus lábios como na noite da tempestade:
'Salva-nos, que perecemos!'.

Apesar de tudo a Mãe continua a estar sempre


presente para acolher o filho pródigo, para colocar
ternamente aos ombros a ovelha negra do rebanho (...)
Ela vive na convicção de que em nenhum coração
humano há traição tão grande que a palavra "perdão" não
possa aí encontrar o seu lugar. E, voltando-se para
aqueles que durante muitos anos fingiram não a
conhecer, olha-os com infinita piedade e murmura: 'Que
importa que vos tivésseis afastado de mim se eu estava
sempre perto de vós?'.

E eis que precisamente, como nos tempos


primitivos em que a Cruz conquistava o mundo, a Igreja, a
Mãe-Igreja, do fundo da sua maternidade, oferece aos
homens do século XX o que os do século IV já lhe pediam.
(...) Em face de um mundo que duvida de tudo, a começar
de si próprio, que já não sabe qual o sentido de uma vida
que se lhe escapa e lhe foge, só ela dá a impressão de
saber com exatidão para onde vai e, segura de si, de
possuir para além de todas as intenções sociais e políticas
que lhe são atribuídas, a certeza de uma verdade sagrada.
Em face de um universo fustigado pela violência na qual o
homem parece obcecado pela fatalidade lógica da própria
vontade de destruição, o que ela lhe repete é uma simples
mas necessária lição, aquela lição de amor que ela própria
recolheu nas encostas das colinas da Galiléia e que o
sangue de Deus selou no Calvário".

Pelo Crisma ficou estreitamente vinculado à Igreja.


Enriquecido com as graças que dele dimanam, interroga-
se então a respeito do seu amor por ela, se a ama como
Cristo a amou. Você se interessa pela sua vida e a sente
como "a sua Igreja"? O desejo de se unir cada vez mais a
Jesus, fará crescer também a consciência de ser filho da
Igreja. Se procurar Jesus, irá encontrá-Lo plenamente no
Seu Corpo Místico. Ao amá-Lo começará também a amar a
Igreja, como Ele o fez, até ao fim, até doar a própria vida.

O compromisso do apostolado

O amor a Cristo, intensificando-se graças à fé, faz


nascer o desejo de dar testemunho d'Ele. Analogamente,
a sua vocação para a santidade e o seu amor à Igreja vinculam-
se fortemente com o chamado à ação apostólica. Recordando
a obrigação que cada cristão tem de dar testemunho de
Cristo, o Papa João Paulo II dizia que somente um amor
firmado à Igreja pode sustentar aquele fervor de dar
testemunho e que não se pode separar a fidelidade a
Cristo da fidelidade à Igreja.

"Os cristãos, inseridos pelo batismo no Corpo


Místico de Cristo -sublinha o Concilio — e fortificados pelo
poder do Espírito Santo no crisma, são incumbidos pelo
próprio Deus da ação apostólica. (...) O apostolado exerce-
se na fé, na esperança e na caridade que o Espírito Santo
infunde nos corações de todos os membros da Igreja. Já o
mandamento do amor, que é o maior preceito do Senhor,
estimula todos os fiéis a procurarem a glória de Deus e a
vida eterna para todos os homens" (Apostolicum
Actuositatem)”. Daí que tudo o que você fizer deve
contribuir para edificar e difundir o Reino de Deus.

Você recebeu um tesouro e um extraordinário dom


que não pode guardá-lo só para si. Se procedesse assim,
isso seria enterrar o tesouro. Pelo contrário, a sua missão
consiste em transmitir esse tesouro inestimável aos
outros, em partilhá-lo com eles. Você deve dar
testemunho de tudo o que lhe foi concedido como dom,
das descobertas que fez, do que ama e de tudo aquilo que
o Espírito Santo realiza em você. Quanto mais dócil for ao
Espírito Santo, tanto mais Ele reproduzirá em você a
imagem de Cristo e, tornando mais profundo no seu
coração o amor à Igreja, fará com que seja fiel à vocação
de apostolado.

Certa vez, João Paulo II interpelou do seguinte modo


a França: "Es fiel à graça do seu batismo?" A mesma
questão é também dirigida a você: "Você é fiel à graça do
santo batismo? Você é fiel às graças do crisma?
Desenvolve-se em você o sentido de responsabilidade
pelo rosto e pela vitalidade da sua Igreja, da sua diocese,
da sua paróquia?"

O rito do Crisma está diretamente ligado a formas


concretas de testemunhar Cristo, testemunho que deve
sempre fluir da fé e do amor. Você deve, com efeito,
testemunhar Aquele que morreu e ressuscitou por você e
por todos aqueles a quem leva o Seu testemunho. O seu
apostolado deve exprimir-se numa atitude de serviço aos
outros, sempre fortalecida pelo Espírito Santo. Além disso,
você tem de Lhe suplicar a graça da fortaleza tão
necessária para defender a fé e para empreender o labor
do apostolado.

Enquanto não descobrir o Espírito Santo e não se


der conta que é Ele que continuamente o purifica e o
renova, que é Ele que forma em você a atitude filial para
com Deus Pai, rezando em você com palavras de criança,
"Abba-Pai", o Crisma permanecerá para você um
sacramento desconhecido, Se realmente vier a descobri-
lo, Ele há de cumulá-lo com a paz de Cristo, aquela Paz
que o mundo não lhe pode dar. E, antes de tudo, há de
guiar o seu coração para os pobres, fazendo-o correr em
sua ajuda, não só com socorro material, mas também
espiritual, anunciando-lhes a Boa-nova da salvação e do
amor de Deus que você mesmo há de experimentar cada
vez mais.

Durante a primeira peregrinação à sua pátria, na


vigília da solenidade do Pentecostes, João Paulo II
exclamou:

"Que o Seu Espírito desça!


Que venha a nós o Seu Espírito
e que renove a face da terra.
Desta terra!"

Com os olhos do corpo você não pode ver o Espírito


Santo embora Ele esteja presente. Somente por meio da fé
lhe será possível divisar e acolher a Sua ação salvífica. Se ao
invés, você não tem fé, se não procura escutá-Lo, mas até
sufoca e abafa a Sua voz, habitualmente tênue, "você
entristece o Espírito Santo" (cf. Ef 4,30). Tal atitude é causa
do Seu tormento — kénosis — do Seu aniquilamento no
contato com você. Ele, que é o Espírito de Jesus, Amor do Pai
e do Filho - Amor que lhe é dirigido - recorda-lhe
constantemente as palavras de Jesus, falando até por vezes
com a violência do furacão, posto que mais freqüentemente
com a doçura da brisa sussurrante. E tão fácil abafar a Sua
voz C desperdiçar esse dom inefável que lhe foi concedido
no Sacramento do Crisma!

A f é , essa condição indispensável para a ação do


Espírito Santo na alma do crismado, é um autêntico encontro
entre duas pessoas. O Espírito Santo deseja continuamente
aprofundar esse encontro, e justamente desse modo,
conduzir a alma a uma união com Cristo cada vez maior, à
contemplação e à santidade, e sempre ao serviço da Igreja
amada.
CAPÍTULO 3

A EUCARISTIA

Entre a fé e os sacramentos existe uma estreita


relação. Na "Constituição Sobre a Sagrada Liturgia", o
Concilio Vaticano II sublinha que os sacramentos não só
pressupõem a fé naqueles que os recebem, mas, mais
ainda, alimentam-na, fortalecem-na e exprimem-na (n°
59). A fé é sempre a condição preliminar que garante a
eficácia dos sacramentos, cujo poder se fundamenta
sempre na força da fé. A teologia dogmática sublinha
que o sacramento, se bem que atue por força intrínseca,
"ex opera operato", nos casos em que falta a fé,
permanece estéril.

Se bem que recebam com freqüência os


sacramentos, um grande número de cristãos não se
desenvolve espiritualmente devido à sua reduzida fé.
Falta-lhes um verdadeiro empenho na participação na
obra salvífica da Morte e Ressurreição de Cristo, que se
realiza precisamente através dos sacramentos.

A expectativa da Eucaristia
Talvez você estranhe por que a Eucaristia ou o
Sacramento da Reconciliação continuem a não lhe
transformar, a não lhe trazer resultados visíveis. Pois
importa dizer que a graça, para poder atuar, requer
abertura e disponibilidade interior. Repare como a Igreja,
na sua sabedoria, se esforça no ano litúrgico por nos
preparar para o acolhimento das graças do Natal.
A esse objetivo dedica as semanas do A d v e n t o ,
durante as quais reza incessantemente para que Jesus
venha e desça à terra. "Que os céus, das alturas
derramem o seu orvalho" (Is 45,8), canta ela nas suas
orações litúrgicas. A Igreja pretende que cresça em nós a
fome de Jesus, a fome da Sua vinda. Quer que, no quadro
do ano litúrgico, Jesus nasça de novo no decurso das
celebrações do Natal e que venha até nós na medida em
que dentro de nós cresça a fome e o desejo pela Sua
vinda. As graças do Natal atuam no nosso coração na
medida em que estamos preparados e abertos para
recebê-las, ou seja, na medida da nossa fé. Se não
vivermos o Advento, não podemos viver verdadeiramente
o Natal. Se você não vive o Advento e se não espera
Jesus, não se surpreenda que, de certa forma, o Natal se
escape sem deixar em você qualquer rasto na alma.

Tal como a vinda de Jesus no Natal é precedida pela


espera do Advento, a Sua vinda na Eucaristia deve
igualmente ser antecedida pela espera. Jesus desce
sempre de novo ao altar para lá voltar a nascer. Esse
nascimento sobre o altar deveria também ser precedido
por um "advento" - o advento eucarístico. Este advento
eucarístico é, antes de mais, uma atitude de fé, fé no
amor de Jesus que o espera. Como é importante que creia
que Jesus deseja vir ao seu coração, que é Ele que deseja
a celebração da Eucaristia, que Ele anseia o momento da
comunhão para Se dar plenamente a você, na maior fonte
de graças: o Santíssimo Sacramento.

Uma das necessidades psíquicas fundamentais da


pessoa humana é a necessidade de aceitação e de amor.
Todavia, não procure encontrar essa compreensão junto
dos homens, porque rapidamente conhecerá a decepção e
a amargura. Pelo contrário, a fé diz a você que,
verdadeiramente, necessita apenas de um tipo de
aceitação - a aceitação de Cristo, Aquele que o acolhe
sempre. Disse João Paulo II: "Na Sagrada Comunhão, não
és tanto tu que aceitas Jesus mas é antes Ele que te
acolhe. Ele te recebe tal como és. Recebe-te, quer dizer,
te aceita e te ama".

O filósofo pagão sincretista Celso, escreveu por


volta do ano 178 d.C, uma obra transbordante de ódio e
de sarcasmo na qual ridiculariza os dogmas cristãos da
Encarnação e da Redenção, troçando ainda da Santa
Missa. Na sua idéia, os cristãos são loucos pelo fato de
crerem que Deus Se tenha tornado num deles e que Se
lhes entrega no Pão Eucarístico. Segundo ele é pura e
simples loucura. Esta opini ã o de Celso deveria ser
apresentada ao inverso: não são os cristãos que são loucos
pelo fato de acreditarem que Cristo Se lhes dá sob as
Sagradas Espécies, mas é Deus quem enlouqueceu no Seu
amor pelo homem: a Eucaristia é a manifestação da loucura
de Cristo, do Seu amor louco pelo homem, do Seu louco amor
para contigo. E com esta fé que você deve se preparar para
a vinda de Cristo na Eucaristia.
São Francisco de Sales esforçava-se por se preparar
para a Santa Missa ao longo de todo o dia, mesmo
desenvolvendo as suas tarefas cotidianas. Em qualquer
momento, se lhe perguntavam o que estava fazendo,
respondia que estava se preparando para o Sacrifício
Eucarístico.

É deveras importante que cresça em você a fé no


amor de Cristo e a fé na Sua sede de Se encontrar com
você na Eucaristia. Quando verdadeiramente acreditar no
quanto Jesus o ama e o anseia, descobrirá que, se você
retarda a Sua chegada, Deus no Seu amor louco por você,
experimenta aquilo que em psicologia se designa por "tormento
da espera". Quando você acreditar que Jesus o ama e que
Ele o espera então, como resultado dessa fé, há de nascer
em você o anseio ardente da Sua vinda, o desejo, a fome
e a sede da Eucaristia.

O tormento que acompanha a espera de uma


pessoa querida é tanto maior quanto mais o amor é
desprezado. Uma mãe que espera o encontro com um
filho que não quer regressar sofre na medida da in-
tensidade do amor que lhe tem. Mas, quando se trata do
amor infinito de Deus, de um Amor que você não está
sequer à altura de imaginar, pense no tormento que
experimenta quando Ele o aguarda em vão!

A fé no Seu desejo de encontrá-lo protege você da


rotina que é uma das maiores ameaças à sua fé. Só
quando acreditar plenamente no amor infinito de Deus,
quando descobrir o tormento que padece ao esperá-lo na
Mesa Eucarística, é que não poderá mais viver sem a
Eucaristia. Quando existir em você a fome da Eucaristia e o
desejo ardente do encontro com o Senhor, a rotina não
poderá instalar-se.

Eucaristia - o culminar da fé

Segundo São Tomás de Aquino, o Sacrifício


Eucarístico só é eficaz para aqueles que, por meio da fé e
do amor, se associam à Paixão de Cristo. Quanto mais fé e
amor houver em você, mais a Eucaristia se torna eficaz na
sua vida. A fé é participação na vida de Deus e realiza-se
de modo particular nos sacramentos, que são os
sacramentos da fé. Pela Eucaristia você participa com a
comunidade dos que crêem na Morte e na Ressurreição de
Cristo, e com a mesma comunidade se submerge no
mistério insondável da Sua Morte e Ressurreição. "A
liturgia reúne-nos todos na celebração explícita da nossa
fé, de modo particular no momento da Eucaristia. Em
parte alguma a fé da Igreja é tão completa como nesse
instante. Em nenhum outro caso ela alcança um nível tão
alto de consciência da união a Cristo Morto e
Ressuscitado, cujo regresso à Igreja espera. Em parte
alguma podemos participar de modo tão intenso na fé da
nossa comunidade como nesse instante em que rezamos
juntos, em que juntos nos oferecemos e em que juntos
comungamos no amor de Deus que reside em Cristo
Jesus" (J. COLOMB, Le devenir de la Foi, IV).

Em virtude do sacerdócio universal e real somos


chamados a unir-mo-nos a Cristo que Se sacrifica, e a
darmo-nos totalmente como Ele o fez. Na Eucaristia,
Cristo o submerge no mistério da Sua Morte,
concretizando assim a sua transformação e conversão: a
morte do homem “Velho". Graças à ação do sacramento e
ao poder da Paixão salvífica de Jesus podem também
realizar-se em você a Ressurreição e um novo
nascimento. A imersão na Ressurreição de Cristo inicia o
processo de nascimento do homem novo, formado à Sua
imagem.

Se crer significa unir-se à Pessoa de Cristo, a


Eucaristia é o momento no qual o nosso acolhimento de
Cristo e a nossa ligação a Ele encontram a sua expressão
mais plena. A Eucaristia é, pois, o ponto culminante da fé.
Durante a Eucaristia, Cristo torna-Se o dom oferecido ao
Pai por nós. Em virtude do sacerdócio universal e real dos
fiéis somos também chamados a fazer oblação total de
nós mesmos a Deus, juntamente com a oferenda que
Cristo faz de Si.

A união a Cristo significa entrar em comunhão com


o dom que Ele faz de Si próprio e assim entregar a própria
vida para colocá-la ao serviço da Igreja e dos irmãos. O
objetivo da Eucaristia é a conversão. Você deve se afastar
da sua vontade, de modo a que esta, diminuindo sempre
mais, possa criar espaço para o serviço do próximo. Se
você se aproxima da Sagrada Comunhão, faz para se
converter, para permitir a Cristo que reine no seu coração
de uma vez por todas, para que a Sua vontade se torne
para você o valor supremo. Cada comunhão deveria reforçar
a sua união à vontade de Cristo. Eis porque você não deve se
surpreender que Jesus venha contrariar os seus planos. A
Eucaristia deve prepará-lo para isso, deve contribuir para
dar a morte ao seu egoísmo a fim de que Cristo possa
crescer em você.
Dado que a fé se exprime na confiança e no
abandono que depositamos em Cristo, a Eucaristia deve
ser o momento em que lhe confia todos os seus trabalhos,
as suas preocupações e as suas inquietações. A Eucaristia
há de, então, lhe dar a paz nascida da fé na força
redentora do Sacrifício de Jesus, da fé em que Ele também
o salvou da angústia, da incerteza e do stress, isto é, de
tudo aquilo que destrói a sua vida, não só a espiritual,
mas também a mental e a física. Por meio da fé você
poderá receber os frutos da Redenção.

Se crer é reconhecer a própria impotência e a


condição de pecador para pôr toda a esperança em Deus,
a Eucaristia, o sacramento da fé por excelência, requer de você
uma atitude de criança impotente e pecador a, como alguém
que não deseja nada mais do que a cura do seu mal.
Procura participar na Santa Missa com a atitude do
leproso do Evangelho e suplica a Jesus que o purifique da
lepra do egoísmo, da lepra do orgulho e da preocupação
sobre si mesmo, da agitação, da inquietação e da tristeza,
da lepra da procura exagerada dos bens materiais porque
tudo isso entrava o crescimento de Cristo em você.

Graças à fé, durante a Santa Missa você pode fazer


a descoberta de si próprio, da sua condição de pecador e
da sua necessidade de Redenção. Com o aprofundamento
da sua fé poderá se ver sempre mais em verdade, porque
descortinará a lepra do pecado que há em você.
Reconhecerá, então, como é indigno de se aproximar da
Eucaristia, mas ao mesmo tempo se dará conta de quanto
precisa na sua vida da Sua ação salvífica.
O crescimento na fé lhe permitirá descobrir, durante
o Sacrifício Eucarístico, a presença real de Jesus e que se
realiza a atualização do Seu Sacrifício Redentor. Descobre
quem Ele é e o que se desenrola sobre o altar.

Para evitar que a recepção cotidiana da Comunhão


provoque a rotina que destrói a sua fé, procura participar
em cada Santa Missa como se fosse a primeira ou a última
vez na vida. Pense na profunda vivência que deve ter sido
para um sacerdote a celebração da sua primeira Missa, da
sua Missa Nova. Sem dúvida que, quando tomou nas suas
mãos o Corpo de Cristo, estas lhe tremeram pois, para ele,
nesse momento, a hóstia foi (e é) Alguém. Eis a fé ainda
não corroída pela rotina.

Pense na primeira comunhão de um convertido que,


depois de se ter preparado e de ter recebido o batismo,
recebe pela primeira vez a Eucaristia. Talvez os seu lábios
também tremam ao receberem pela primeira vez o Corpo
do Senhor, porque na sua fé bem viva, crê que naquele
momento Deus, de fato, repousa nos seus lábios, entra
em seu coração, encontrando-se em face de um
insondável mistério, pleno de temor e de majestade -
mysterium tremendum.

A "kénosis" de Cristo

A fé permite a você tomar consciência de que as


suas mãos e os seus lábios quando recebem Jesus, estão
sempre sujos, sempre, mesmo quando em estado de
graça, porque permanece sempre a sua condição de
pecador e as mãos e os lábios de um pecador são sempre
indignos e, nesse sentido, conspurcados. Realmente
recebe Cristo com os mesmos lábios que por vezes são
capazes de matar com palavras, porque o que você diz, às
vezes, em lugar de abençoar, fere, tornando-se fonte de
mal e de desgraça. Lábios pecadores que entram em
contato com a suprema santidade - Deus. Você chega,
deste modo, ao conhecimento de um mistério que em
teologia se denomina "kénosis", um termo grego que
significa 'aniquilamento'.

A Eucaristia é kénosis, isto é, o aniquilamento de


Deus feito Homem, porque Ele, a suprema Santidade,
encontra-Se com a sua culpa e com a sua indignidade. Isto
não quer dizer que deva deixar de receber a Eucaristia,
porque é recebendo-a que você pode se tornar sempre
mais digno. Jesus o espera com amor e quer vir ao seu
encontro para transformá-lo e santificá-lo a fim de que
você se torne cada vez mais digno da Sua vinda.

O Apóstolo São João escreve: "Se dissermos que não


temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos e a verdade
não esta em nós" (Jo 1,8). Somos todos pecadores e todos
indignos de receber Jesus. Fique, pois, consciente do fato
de que os seus lábios estão sujos e espere que seja a
Eucaristia que os limpe, e limpe ainda a sua alma e o seu
coração da lepra do pecado e do egoísmo. Jesus deseja
tanto que tal suceda que está disposto a pagar por isso o
preço do Seu aniquilamento, da Sua kénosis.

É a fé que vai lhe dar luz para poder ver até que
ponto a Eucaristia significa o aniquilamento de Cristo. Ele
despoja-Se e aniquila-Se, além do mais pelo fato de
ocultar a Sua Majestade e a Sua Humanidade sob a
aparência de um fragmento de matéria - o pão e o vinho.
Ele priva-Se da homenagem e do respeito que Lhe são
devidos e, por isso, quando com mãos e com lábios
manchados pelo pecado, com coração de pecador, você
se aproximas d'Ele, aumenta a Sua "kénosis".

São Luís Maria Grignion de Monfort aconselha que


convidemos sempre a Santíssima Virgem a participar
conosco na Eucaristia. A presença oculta da Virgem
Imaculada junto de nós, de modo especial na Eucaristia,
resta um grande mistério, é a solução para o problema da
"kénosis" de Cristo. Algumas pessoas dificilmente
reconhecem a necessidade e a importância de um
caminho mariano para Cristo, porque não vêem a
necessidade de Maria se interpor entre nós e Cristo, com a
idéia de que a imagem do Salvador ficaria obscurecida.
Porém, quando graças à luz da fé você se der conta da
santidade de Deus e da sua indignidade e condição de
pecador reconhecerá que a situação é diametralmente
oposta. Quando você suplica à Virgem Maria que
desempenhe o Seu papel de intermediária entre você e
Cristo você se aproxima ainda mais d'Ele, porque
convidando-a a interpôr-se entre a sua pessoa e a de
Cristo atenuas-Lhe a Sua "kénosis" o Seu aniquilamento,
Pois só as mãos de Maria não estão, nem nunca estiveram
impuras, eram e são sempre imaculadas - as únicas mãos
e os únicos lábios humanos que são puros e imaculados,
dignos de receber o Corpo de Cristo.

Se você quer evitar o aniquilamento a Cristo e


quiser prestar homenagem à "kénosis" do Deus-Homem,
peça à Maria que seja Ela a recebê-Lo em você. Essa é
uma atitude com que exprime simultaneamente, que
reconhece a sua própria pecaminosidade e que crê que
Ele o ama loucamente, ao desejar cumulá-lo com os frutos
da Redenção, mesmo a preço de um inconcebível
aniquilamento por você.

CAPÍTULO 4

A ESCUTA DA
PALAVRA DE DEUS

Da mesma maneira que há uma relação direta entre


os sacramentos e a fé, ela também se verifica entre a fé e
a palavra divina. A leitura da Sagrada Escritura não só
pressupõe a fé, mas estimula-nos à colaboração ativa, à
conversão e à realização dos seus ensinamentos na vida
cotidiana, que deve converter-se numa vivência em fé.
Esta é, na verdade, uma resposta à palavra de Deus, uma
atenta escuta da palavra para vivê-la em cada dia.

A relação "coisificada" e a relação


personalizada" com a palavra de Deus

A nossa relação com o texto escrito pode ser de dois


tipos: coisificada, quando aquele se torna num objeto de
estudo ou num auxiliar de aprofundamento de um assunto
que nos interessa ou para a solução de algum problema;
e, personalizada, quando o texto se torna para nós,
segundo a definição de Gabriel Mareei, um mistério. Se ao
ler a Sagrada Escritura você tem em vista o
aprofundamento dos seus conhecimentos religiosos, isso
significa que tem para com ela um relacionamento de
caráter coisificado. Numa relação deste tipo a Sagrada
Escritura fica simplesmente reduzida a uma "coisa".
Porém, trata-se de uma relação insuficiente, mesmo se
necessária.
Para a Igreja, a palavra de Deus constitui a fonte
fundamental do conhecimento objetivo de Deus, e daí que
a leitura eclesial da Sagrada Escritura seja e deva ser
também objetiva.

Todavia, a Sagrada Escritura é um texto inspirado e


revelado, razão pela qual, a nossa relação com ela deve
ser prioritariamente “personalizada”. A Sagrada Escritura,
com efeito, não é "uma coisa" mas é "Alguém". É verdade
que Cristo está presente no meio de nós de modo mais
completo, na Eucaristia, mas está também presente e
vive, se bem que de modo diferente, na Sagrada Escritura.
Folheando as páginas da Bíblia você se encontra com
Cristo vivo e real, por meio do dom da fé, da fé que Ele
próprio lhe concedeu.

A Igreja nos fala de duas mesas. Na mesa da


palavra os fiéis recebem, pela fé, a revelação da palavra
de Deus, enquanto que na mesa eucarística, celebrando o
"Sacramento da fé", que é a Eucaristia, os fiéis
alimentam-se do Corpo e do Sangue do Senhor. Assim, é
justa a afirmação de que é necessário aproximarmo-nos
da Sagrada Escritura como mesa do Senhor. Portanto,
quando tomar nas mãos a Sagrada Escritura você deve
fazê-lo com respeito, com veneração e com profunda fé.
Há de ser um gesto diferente daquele que você faz para
pegar em qualquer outro livro religioso, pois a Sagrada
Escritura é um livro cheio da presença de Deus.

A presença de Deus na Sua palavra

A presença de qualquer pessoa estabelece em torno


de si como que um raio de ação, fato que não se verifica
no caso dos objetos inanimados. O encontro com alguém
é encontro com uma presença e, comporta a entrada num
círculo de influência que pode ser, para nós, desejado ou
incômodo. A Sagrada Escritura é "alguém", é a presença
de Deus. Tomando-a nas mãos você entra no raio de ação
da Sua presença. Ela torna-se para você um "mistério", a
verdade que o envolve e na qual está mergulhado.

Na Sagrada Escritura você encontra o seu Senhor,


razão pela qual o contato com o texto revelado assume
um significado particular: o de um encontro com Deus que
o ama e que deseja i agir em você por meio da Sua graça.
Através desse contato, Deus pretende conduzi-lo à fina-
lidade mais importante: a conversão interior. Você não
deve, portanto, ler a Sagrada Escritura apenas para
satisfazer a curiosidade, ou para resolver algum dos
problemas que o inquietam, apesar de, por vezes, isso se
tornar necessário. Deveria aproveitar dessa forma de
intimidade com o Senhor na esperança de que Ele lhe
conceda a t graça da conversão.

Quando você entra numa relação pessoal com


Cristo, presente no texto inspirado, esse texto o penetra
até ao fundo e você começa assim a verdadeira escuta da
palavra de Deus, começa a aprofundar o conhecimento do
pensamento e dos desejos de Jesus, começa a conhecê-Lo
cada vez melhor. Disse São Jerônimo que "co
desconhecimento da Sagrada Escritura é o
desconhecimento de Cristo".

Uma escuta receptiva da palavra de Deus


repercute-se nas suas escolhas e nas suas decisões,
porque desejará que sejam de acordo ao Seu ensinamento
e aos Seus desejos. A leitura da Sagrada Escritura é o
fator fundamental que determina o seu crescimento na fé
e, por ela, também a sua participação na vida de Deus.
Graças a ela você começa a ver-se a si próprio e à
realidade que o rodeia, como se o fizesse com os olhos de
Deus. Servindo-Se da palavra, Deus se revela a nós para
nos conduzir pelo conhecimento ao Amor. Revela-Se para
criar entre Ele e nós uma relação de amor, a fim de que,
tendo fé na Sua palavra, possamos aderir e abandonar-
nos a Ele. Se você se identificar, com espírito de fé, aos
pensamentos e aos desejos de Jesus, com o tempo verá
que eles também são os seus. Permanecendo
freqüentemente no ambiente da presença de Jesus, da
Sua "Presença" com "EP" maiúsculo, você se torna cada
vez mais semelhante a Ele, conforme: o provérbio: "Diz-
me com quem andas, dizer-te-ei quem és". Colocando-se
à escuta da palavra de Deus, bebendo avidamente o seu
conteúdo, você começa a ficar impregnado dele e a
assimilar tudo aquilo que constituía e constitui a vida de
Cristo. O contato com Cristo presente na palavra de Deus
fará com que você se torne progressivamente um com
Ele.

Cada palavra e cada gesto de Jesus, imortalizados


no Novo Testamento, são expressão do mistério da Sua
presença. A sua tarefa consiste em aprender a escutá-la e
a permitir que o envolva porque Se trata de uma presença
inefável que exige uma particular abertura de tal forma
que, com o tempo, possa significar a sua total
transformação, qualquer coisa que possa ser descrita
como transformação em Cristo. Desse modo se cumprirá o
objetivo da sua vida: que Cristo possa crescer em você e
que, crescendo, chegue à Sua plenitude.

O papel da palavra de Deus na


oração
A presença de Cristo na palavra divina tenderá a
abraçar a sua vida interior e a sua oração. Deixar-se
invadir por esta presença na leitura e na escuta da
palavra de Deus fará com que os textos que medite
deitem profundas raízes no seu coração. Mais tarde, as
passagens lidas virão à sua memória durante a oração
que começará assim a ser uma oração alicerçada na Bíblia
e hão de aparecer também nos momentos de tomada de
alguma decisão. Acaso já se perguntou sobre o papel que
ocupa a Sagrada Escritura na sua oração?

Quando falava, Cristo utilizava com freqüência um


gênero literário específico, a parábola, isto é, um símbolo
desenvolvido capaz de atrair e envolver o ouvinte. É, pois,
graças a isso que, ao ler a parábola do Bom Pastor, você
pode se identificar verdadeiramente com uma daquelas
ovelhas guiadas pelo Bom Pastor. Pode ainda identificar-
se com essa ovelha perdida que Cristo Bom Pastor tanto
ama e que, por isso mesmo, não cessa de procurar. Ao
encontrá-la, alegremente a envolve nos Seus braços. O
simbolismo das parábolas de Cristo introduz-nos na órbita
da Sua ação. Ele o ensina de um modo extremamente
simples e acessível o que é o amor e o que é a fé no amor.
Mas caso aconteça de ter tido uma queda grave e que se
sinta envolvido por densas trevas é possível que se
recorde da parábola do filho pródigo que lhe permite crer
uma vez mais que Deus o ama e que nunca deixou de
amá-lo. Aquela parábola ensina-o a adotar a atitude do
filho arrependido que aceita, cheio de assombro e de
gratidão, a alegria do pai que perdoa. Do mesmo modo,
quando surgirem, na sua vida as tormentas, você pode se
lembrar da tempestade no lago de Tiberíades durante a
qual Jesus dormia tranqüilamente na barca dos Apóstolos
sacudida pela tormenta. Também presentemente, nas
suas tempestades, Jesus "dorme" na barca do seu
coração, mas está presente e, estando Ele presente, nada
de mal lhe pode suceder. Tudo o que acontece pode
ajudá-lo a viver na sua oração a palavra de Deus que lhe
permitirá recuperar a paz interior.

A leitura da Sagrada Escritura há de formar em você


uma imagem de Deus cada vez mais verdadeira e evitará
que lhe suceda esse fenômeno tão freqüente da
deformação do Seu rosto. Talvez você tenha medo d'Ele,
talvez creia de modo insuficiente no Seu Amor porque
você próprio também O ama pouco. Mas o seu amor por
Ele deve crescer cada vez mais e por toda a sua vida. A
Sagrada Escritura meditada na oração o fará conhecer o
incessante amor de Deus por você, porque Ele é Amor.

O encontro com Cristo presente na palavra de Deus


também o ajudará a descobrir Deus no mundo que lhe
rodeia. Ensinará você a interpretar os numerosos símbolos
através dos quais é possível descobrir a Sua presença não
só na natureza, mas também nos fenômenos da
civilização e da cultura.

Para São João Maria Vianney, por exemplo, as


ovelhas faziam-no pensar no amor do Bom Pastor. Ao vê-
las, sentia crescer em si a consciência do grande amor de
Jesus para com ele - pastor da sua paróquia e para
aqueles que o Bom Pastor confiara à sua solicitude e ao
seu amor de pastor. O murmúrio de um riacho na
montanha recordava-lhe as palavras da Sagrada Escritura
sobre a "água viva" que brota para a vida eterna (cf./fl
7,37-39). Alguém contava como, à noitinha, lhe agradava
ver acesas as luzes da rua, das casas e dos carros que
passavam, pois levavam-no a pensar na Sagrada Escritura
e em particular no texto de São João que se refere a Jesus
como a luz do mundo. Cada luz se tornava, assim, para
ele, símbolo de Cristo recordando-lhe Aquele que "vindo
ao mundo a todo homem ilumina" (Jo 1,9).

Se você deseja que também a sua oração seja


apoiada na Sagrada Escritura deve ser como Maria de
Betânia. Em Betânia, na casa de Maria, Marta e Lázaro,
Jesus encontrava abrigo e repouso. Quando se
aproximaram os últimos tempos da Sua vida, sabendo que
os fariseus O seguiam, refugiou-Se em Betânia.
Precisamente ali, algum tempo antes, quando Jesus os
visitara, Maria tinha sentado aos Seus pés escutando
atentamente todas as Suas palavras; comportara-se como
se estivesse diante do tabernáculo. Quando Marta
atarefada pedira a Jesus para fazer notar a sua irmã que
não a deixasse sozinha com o serviço doméstico recebeu
a seguinte resposta: "Maria escolheu a melhor parte que
lhe não será tirada (Lc 10,42).

Essa melhor parte ê estar junto a Cristo, é sentar-se


a Seus pés e escutar com fé as Suas palavras, que nos
chegam por meio da Sagrada Escritura. Maria, que
escutava e contemplava Jesus - o Verbo feito Homem -
devia ser a Sua grande alegria. Nós, pelo contrário, quase
sempre atarefados e presos a tantos cuidados,
consideramos que não temos tempo para ler a Sagrada
Escritura. Mas para Maria o mais importante era a Sua
presença, a presença do Mestre na sua casa. E ela sabia
que o lugar mais apropriado para estar era aos pés do seu
Senhor.

Socorrendo-nos do pensamento de Jean Guitton (em


A Virgem Maria) seria apropriado chamar a Mãe de Deus
"Virgem Meditante" -Virgo Meditans. O conteúdo do
Magnificat testemunha bem o quanto ela estava
penetrada pela Bíblia. E um exemplo da oração
fundamentada na palavra de Deus que para ela era
"alimento" e fonte de oração.

Durante trinta anos a Virgem Maria "absorveu", por


assim dizer, a presença divina de seu Filho. E este o
motivo pelo qual a sua imagem é a reprodução mais
perfeita da Face de Cristo e nisto consiste a sua grandeza.
Se Jesus dedicou trinta anos da Sua vida à Maria, mostra o
quanto Lhe importava criar aquela obra-prima, a
reprodução mais perfeita da Sua Imagem. Ela absorvia
continuamente os Seus pensamentos, os Seus desejos e a
Sua vontade, tornando-se, desse modo, sempre cada vez
mais uma só com o seu Filho.

Nas páginas da Bíblia você encontra a presença de


Jesus. Portanto você também, como a Virgem Maria, devia
deixar-se impregnar dos Seus pensamentos e dos Seus
desejos para os poder viver no cotidiano. Deveria querer
imitar totalmente e até o fim a Virgem Maria na sua
disponibilidade e abertura à grande obra de Cristo que
consiste em moldar cada um de nós à Sua semelhança.

A Bíblia tem de se tornar para você um espaço de


encontro com Aquele que o amou até ao limite e que
deseja formar também em você o Seu Rosto, como o fez
com a Sua amada Mãe.

CAPÍTULO 5
A ORAÇÃO COMO
ATUALIZAÇÃO DA FÉ

A fé e a oração não constituem duas realidades


separadas, ou simplesmente dependentes uma da outra,
nem tampouco coexistentes. A oração e a realidade da fé
estão sempre muito estreitamente ligadas. A oração
constitui o encontro entre Deus e o homem na fé e é,
finalmente, uma forma de realização da fé. Se a fé é
aderir e abandonar-se a Cristo; a oração é entregar-se e
consagrar-se a Ele, para, uma vez mais, ser acolhido e
transformado. Se crer significa reconhecer a fraqueza
própria e esperar tudo de Deus, a prece exprime o
chamado existencial da pobreza espiritual e do vazio
interior do homem que suplica ao Espírito Santo a graça
de enchê-lo com a Sua presença e com o Seu poder. À
medida que a fé se desenvolve, a oração torna-se mais
pura e mais ardente. Enquanto atualização da fé é
marcada pelo dinamismo da conversão, também a oração
- como a Eucaristia e a palavra de Deus - conduzem o
homem à transformação e à conversão.

O exemplo de Cristo
Quando lemos o Evangelho, em breve reparamos
que a Boa-nova nos desconcerta. O conteúdo do
Evangelho difere de tal forma das nossas tendências
naturais que nos parece ser um contínuo paradoxo. O
Evangelho produz uma reviravolta nos nossos conceitos
humanos. Era precisamente o que Cristo também fazia.

A humanidade esperava-O há milhares de anos.


Tudo se orientava para esse acontecimento da História do
mundo que era a vinda do Messias, Aquele que havia de
cumprir a obra da Redenção. Quando finalmente após tão
longo período de expectativa, Jesus vem, revela-Se
apenas aos pastores e aos três Reis Magos. Depois, vive
isolado durante trinta anos, abstendo-Se da ação, ou pelo
menos não age do modo esperado para o Messias. Aos
olhos do mundo, todos aqueles anos parecem
desperdiçados. Se alguém é desejado durante milênios
espera-se também que dê o máximo de si. Mas, pelo
contrário, enquanto as multidões esperam, Cristo
"desperdiça" trinta anos em Nazaré.

Quando, por fim, termina aquele período de tempo,


que na perspectiva do ativismo humano poderia parecer
desperdício, Cristo aparece nas margens do Jordão para
ser exaltado pelo próprio Espírito Santo e novamente o
Seu comportamento nos desconcerta: Jesus retira-se e
dirige-se para o deserto. Também não somos capazes de
compreender isso. Quase nos agradaria agarrá-Lo pela
mão e dizer-Lhe como certa vez o fez também o Apóstolo
Pedro: "Senhor que fazes? Vais de novo rezar quando
tanta gente te aguarda? Mas, já rezas te durante tantos
anos!" No entanto, Aquele que mais tarde diria "A messe é
grande, mas os trabalhadores são poucos" (Lc 10,2),
naquele momento deixa a messe e dirige-se ao deserto
para rezar ininterruptamente durante quarenta dias. Não
nos surpreende tudo isto?

O evangelista Marcos escreve: "De manhã, muito


cedo, levantou-Se e saiu; retirou-Se para um lugar
solitário e ali Se pôs em oração" (Mc 1,35). Reparemos
neste pormenor particular: "de manhã muito cedo".
Significa que era ainda de madrugada. Para rezar, Cristo
privava-Se do sono. Muito admirados, nós quase teríamos
vontade de exclamar: "Senhor, por que é que tens de
rezar de noite, esqueces a saúde?" O dia de trabalho
apostólico de Jesus devia ser extenuante. À tardinha ainda
socorria gente da cidade e dos arredores trazendo os
doentes e os endemoninhados. Seria difícil dizer a hora
que terminaria o Seu labor de cada dia. Talvez por volta
da meia-noite, uma vez que as multidões não O deixavam
de livre vontade. Depois de um dia assim tão fatigante,
Jesus privava-Se ainda do sono, desse sono já bastante
reduzido.

Quando falamos de como Jesus era constantemente


assediado pelas multidões devemos também precisar que
esse fato estava sempre relacionado com o Seu
isolamento na oração. Aí se esconde uma indicação
extremamente importante também para você: se quer
que os seus contatos com os outros sejam frutuosos,
primeiro precisa aprender a estar em solidão, tem que
aprender a valorizar os momentos de deserto na sua vida.

Estes momentos de deserto desempenharam um


grande papel na vida dos santos. Basta pensar na grande
necessidade de solidão no deserto de São João Batista, ou
como foi decisivo na vida de Santo Inácio o período de
Manresa, ou ainda na vida de São Bento, o tempo de
eremitério em Subiaco.

Porém, o homem moderno contaminado pelo


ativismo, tem a impressão de que deve dar sempre mais.
Mas dar o quê? Pode-se pensar que Cristo, vivendo em tão
estreita comunhão com o Pai, já não tivesse precisão de
rezar. No entanto, Ele assim fazia, mesmo à custa do
próprio sono. E sempre será do mesmo modo. Para se ser
assediado pelos homens será sempre necessário um
prévio encontro com Deus na solidão. Mas, se você não se
isola para se recolher e orar, e, outrossim, se o faz para
fugir das pessoas, para se esconder no mundo dos seus
afazeres pessoais, então conhecerá outro tipo de assédio:
o do egoísmo. Também este poderá ser para você um
deserto, todavia não há de ser um deserto vivificante
como no caso de Jesus e dos santos; não será o deserto
da vida, mas o da destruição" (cf. A. PRONZATO, Ho voglia
di pregare).

A prioridade da oração

Aqui nasce, e se coloca, uma pergunta fundamental:


que espaço você concede à oração na sua vida cotidiana?
Que lugar ocupa na lista das suas tarefas cotidianas mais
importantes? Coloca-a à frente ou atrás de quê? Tem o
primeiro lugar ou, em vez disso, situa-se na periferia das
suas ocupações diárias? Como se passa o seu dia no que
respeita ao recolhimento e como faz o seu exame de
consciência, esse olhar sobre si próprio na presença de
Deus? A resposta a este tipo de questão trará à tona
aquelas coisas que na sua vida parecem ser mais
importantes do que Deus.

E aí você pode imediatamente justificar que com a


avalanche das suas obrigações é tremendamente difícil
encontrar tempo para rezar. O cardeal Lercaro, arcebispo
de Bolonha, durante um encontro com sacerdotes, falava
com o fervor e o ardor que lhe eram próprios a respeito da
necessidade de uma meditação diária de meia hora.
Depois da conferência, durante a discussão, um dos
jovens padres levantou-se e disse: "Sem dúvida,
Eminência, que em teoria tudo é claro e simples: é preciso
fazer meditação..., mas quando? Porque o meu dia
desenrola-se assim: levanto-me às 6h30min, às 7 horas
celebro a Missa, depois as confissões, a catequese, o
almoço, depois as atividade com os rapazes do oratório,
visita aos doentes, o trabalho na secretaria paroquial e os
encontros de caráter pastoral. A tardinha tenho as
ocupações com os jovens que se prolongam mais ou
menos até à meia-noite. Com um dia assim tão cheio,
onde posso encontrar o tempo para uma meia-hora de
meditação, se mal tenho tempo de ler o breviário?" -
"Tens razão", responde o cardeal, "efetivamente não te
sobra tempo para uma meia-hora de meditação. As suas
obrigações 'sufocam-te' a ponto de nem sequer poderes
tirar tempo para a oração. Dado que não podes fazê-lo,
então é preciso que dediques não meia-hora, mas hora e
meia à meditação" (cf. A. Pronzato, Ho voglia de pregare,
113).

Obviamente que o cardeal não formulou esta


resposta com o intuito de fazer uma observação brilhante
e paradoxal, mas quis mostrar que a tragédia do nosso
ativismo cristão consiste no fato de que as nossas
atividades realmente nos sufocam. Aquele jovem e zeloso
sacerdote que tanto se sacrificava por Deus e pelas
almas, tinha necessidade de um antídoto ainda mais
poderoso.

Esforçando-se por ver à luz da fé, você


compreenderá que, quanto mais assoberbado pelas suas
ocupações se veja, tanto mais tempo deve dedicar à
oração. Caso contrário, fica vazio, apenas tendo a
impressão de dar alguma coisa aos outros embora isso
não passe de uma ilusão. Ninguém pode dar aquilo que
não possui. Aquele jovem padre que discutira com o
cardeal Lercaro se poderia dizer: "Que importa que de-
diques tanto tempo aos trabalhos pastorais, aos jovens do
oratório, que visites os doentes e que confesses e que
tenhas colóquios pastorais se tudo isso é como querer
encher de água um passador". Em face de um sacerdote
agitado, extenuado e num permanente corropio a recolher
água num passador sem se dar conta de quem é que, na
realidade, tudo decide, seria demasiado forte dizer que
ele não tem fé, mas evidentemente que a sua fé é tíbia.
Pela sua atitude é como se dissesse: "Sou eu, homem, que
faço a história pelo menos no "meu terreno", ou seja, nas
atividades paroquiais ou noutro lugar. Sou eu quem
decide quem vai acreditar em Deus, é exclusivamente do
meu trabalho que depende a salvação dos outros."

No entanto, tudo depende de Deus, é Ele quem


decide, é Ele quem dá as forças necessárias para agir. Se
o convida a colaborar no Seu trabalho, não o faz porque
considere você insubstituível. Quantas vezes Deus já
mostrou que pode resolver tudo sem nós. Se observou
isso na sua vida recebeu uma grande graça. Nós somos
necessários a Deus somente na medida em que Ele o
determine. Somos, por vezes, testemunhas de que Ele
pode salvar os homens sem que tenham recebido
qualquer catequese. À Igreja e ao confessionário vêm, de
fato, pessoas que nunca escutaram uma única lição de
catecismo, mas não obstante nas suas almas a semente
de Deus germinou. Deus não necessita da ingerência
humana mas, apesar disso, quer que participemos na obra
da salvação do mundo. Se, no entanto, nós julgamos que
tudo depende de nós e do nosso trabalho estamos
recolhendo água com um passador. Quando nos
encontramos sobrecarregados pelo trabalho é fácil
esquecer que, sobretudo, é preciso ir ao encontro d
Aquele de quem realmente tudo depende, que tem em
Suas mãos os destinos do mundo e de cada um de nós.
A luz da fé, a ocupação mais importante do nosso
dia, é a oração. Entre todas as atividades que levamos a
cabo é esta que deve ocupar o primeiro lugar. O contato
com Deus determina o valor e o sentido do nosso
trabalho. A sua eficácia depende de algo passado na
retaguarda, por exemplo, os seus joelhos doloridos por ter
permanecido em oração demoradamente.

"O importante não é aquilo que faz" - disse João


Paulo II - "mas aquilo que é". O importante é que seja,
como o Papa, um homem de fé e de oração. Se o cristão,
enquanto discípulo de Cristo, cessa de ser um homem de
oração, torna-se inútil para o mundo, porque se torna
como sal insípido, bom para ser pisado pelos homens (cf.
Mt 5, 13).
O problema da oração é, na nossa vocação cristã,
uma questão fundamental. Rezando, não só prestamos
homenagem a Cristo, mas adoramo-O em nome do mundo
que não sabe, não pode ou não quer rezar. Uma coisa é
certa: se não rezamos ninguém precisará de nós. O
mundo não necessita de corações e de almas vazias.

Quando perguntamos qual é a relação existente


entre a oração e a ação, importa sublinhar a prioridade da
oração e do sacrifício em relação à ação. Às crianças que
catequizamos, em casa ou na escola, damos-lhes Deus na
medida em que O tenhamos previamente pedido de
joelhos. O problema da relação entre a oração e a ação
pode reduzir-se a esta constatação: todo o autêntico agir
nasce da oração e da vida contemplativa. Pois tudo o que
é grande neste mundo provém do sacrifício e da oração.

Formas de oração

O problema da oração é um problema fulcral para


todo o cristão. Você ê cristão na medida em que é capaz
de rezar. A oração e posteriormente as suas etapas
específicas, marcam, ou definem, a sua proximidade ou o
seu afastamento de Deus. As distintas etapas do seu
caminho para Deus estão determinadas pelos graus da
sua oração. Em cada um desses níveis surge uma nova
forma e um distinto modo de orar, porque a oração é
sempre expressão dos laços que o unem a Deus.

É preciso aprender sempre de novo a rezar. A


oração é constantemente uma tarefa a realizar. O modo
como rezamos hoje, amanhã já não será o bastante.
Devemos ir sempre mais além procurando desenvolver a
nossa oração.

Quando se fala de prece vem quase sempre à idéia


a oração da palavra. Nesta forma de oração deveremos
pôr, antes de mais, a tônica nos atos pelos quais nos
humilhamos diante de Deus, exprimindo-Lhe a nossa
gratidão ou pedindo-Lhe a santidade. Ao fazermos oração
verbal devemos nos lembrar de rezar por aquilo que Deus
quer de nós. A prece não pode ser um atropelo de
palavras. Jesus adverte-nos claramente a que não
rezemos como os pagãos que “pensam que, por muito
falarem, serão atendidos” (Mt 6,7).

A fé tem uma influência determinante sobre a


intensidade e o conteúdo da oração. Se a fé transforma a
nossa mentalidade e nos faz colocar Deus em primeiro
lugar, então à medida que a nossa fé se desenvolva, a
nossa oração será cada vez mais simples, cada vez mais
submetida à ação do Espírito Santo (cf. Rom 8,26-27) e
sempre mais centrada nas tarefas do Reino: "Procurai
primeiro o Seu reino e a Sua justiça e tudo o mais se vos
dará por acréscimo" (Mt 6,33). A palavra "primeiro" toma
neste contexto um significado fundamental. Trata-se de
colocar Deus em primeiro lugar e de que, sem renunciar
ao seu esforço pessoal, deixe o cuidado de si mesmo e
dos resultados da sua ação Aquele cuja vontade ê cumulá-
lo de um amor sem limites. Realizará, então, na sua
oração, o apelo de Jesus dirigido à Santa Catarina de
Sena: "Pensa tu em Mim que Eu pensarei em ti."
Para além da oração verbal, que pode adotar a
forma de súplica, de ação de graças ou de adoração,
existe ainda outra forma mais simples de contato com
Deus. O Senhor quer que simplifiquemos cada vez mais a
nossa oração. Se um dos princípios bíblicos é que
'rezemos sem cessar', para que isso possa vir a realizar-
se, a nossa oração deve tornar-se mais simples, porque se
a fazemos de uma maneira complicada não estaremos
nunca em condições de rezar durante longo tempo.

Na nossa vida interior virá no tempo em que nos


será mais fácil pensar em Deus do que rezar a Ele. Trata-
se do momento de passagem à oração mental a que
podemos igualmente chamar memória da presença de
Deus. E uma oração mais simples do que a oração da
palavra, exige muito menos esforço. Basta que dirija a
mente para Jesus para que compreenda que Aquele que o
ama está perto de você. Do mesmo modo, quando você se
prepara para a Sagrada Comunhão basta que nas horas
que a precedem oriente a sua vontade e o seu
pensamento, cheios de amor, para a Eucaristia. A oração
mental pode também ser uma expressão de fé que
consista em conformar os próprios pensamentos com os
de Jesus ou de Maria. Pensamentos esses que deveriam
ser repletos de serenidade e de alegria. Verdadeiramente,
a Virgem Maria é a "Causa da nossa alegria". Por
conseguinte, se o nosso modo de meditar é repassado de
um otimismo entendido no sentido sobrenatural é como
se sintonizássemos os nossos pensamentos com os da
própria Virgem Maria. Apesar da oração mental ser
qualquer coisa de muito simples, para que se torne, na
nossa vida, um fenômeno freqüente, requer vigilância e
solicitude. Procure, pois, recordar-se e pensar sim-
plesmente no fato de que Jesus o ama, que Ele ama
aqueles que você ama e com quem se preocupa. Uma tal
oração feita com fé lhe dará a paz interior.

O Senhor pode querer simplificar a nossa oração


ainda mais, pode querer que guardemos um silêncio
absoluto. Conforme rezamos por meio de pensamentos e
de palavras, podemos também orar por meio do silêncio.
Certas pessoas, no entanto, não aprovam esta forma de
oração. Para muitos apresenta-se a dúvida de que talvez
se trate de um desperdício de tempo, pois durante
semelhante oração, nada parece suceder. Não obstante,
permanecer em silêncio diante do Santíssimo Sacramento,
ou na presença da Santíssima Virgem, é uma forma de
oração bastante avançada. Carlos de Foucauld escreveu
que "rezar é olhar Jesus, amando-O". Este tipo de oração
pode adquirir a forma da chamada oração de simplicidade
ou do simples olhar. Se você está junto de uma pessoa a
quem sente que deve entreter, procurando para isso
temas de conversa, significa que em maior ou menor grau
se trata de uma pessoa estranha. Diante de alguém que
nos é chegado podemos perfeitamente guardar silêncio
sem que isso se torne embaraçoso. Trata-se de fato de um
silêncio tão eloqüente na sua simplicidade que é um
critério de proximidade entre duas pessoas. Jesus deseja
que também diante d'Ele saibamos guardar silêncio, que
simplesmente O contemplemos para estar com Ele sem
palavras inúteis.

Pode acontecer que a oração de silêncio nos torne


demasiado difícil. Nessa altura podemos adotar uma outra
forma de oração: a oração do gesto. Podemos rezar com
um simples sorriso, mesmo que à primeira vista nos
pareça algo estranho. Deus quer verdadeiramente que o
nosso contato com Ele seja extremamente simples, como
o de uma criança com seu pai ou com sua mãe. Quando
se ama alguém é tão fácil estreitar uma relação com um
sorriso e dizer, por meio dele, tanta coisa! Então, por que
não sorrir a Deus e à Virgem Maria? C) sorriso, esse gesto
simbólico com o qual podemos exprimir a alguém a nossa
proximidade, a gratidão, o amor e a alegria, é uma
espécie de símbolo que pode significar uma enormidade
de coisas. De fato, o sorriso pode, em cada momento, ter
um significado diferente. Você não tem, pois, de se
esforçar para exprimir tudo por palavras. Deus sabe que
Lhe sorri e sabe porque o faz. O seu sorriso diante de
Deus e a alegria proveniente da fé são uma oração por
excelência.

Santa Teresinha de Lisieux mostra-nos ainda uma


outra forma comovente de oração do gesto simbólico.
Cerca de duas semanas antes da sua morte, estando já
gravemente doente, ofereceram-lhe uma bela rosa do
jardim do convento. Ela começou a tirar-lhe as pétalas
uma por uma e com elas foi cobrindo o seu crucifixo cheia
de piedade e de amor. Depois começou a limpar
delicadamente as chagas das mãos e dos pés
transpassados de Jesus. Com aquele seu gesto simbólico,
confidenciou ela, desejar aliviar os sofrimentos do Senhor
crucificado, enxugar-lhe as lágrimas dos olhos (cf.
Caderno Amarelo da Madre Inês 14.IX. 1897). "Noutra
altura", relata Celina, "vendo-a tocar docemente a coroa
de espinhos e os cravos do seu Jesus com a ponta dos
dedos, disse-lhe: ‘Que fazes?’ Então, com um ar um pouco
surpreendido da minha admiração, confessou: 'Arranco-
Lhe os cravos e tiro-Lhe a Sua coroa de espinhos'"
(Conselhos e Lembranças, 88). Nada poderia substituir
semelhante gesto. Aquela oração exprimia o seu desejo
de aliviar os sofrimentos de Jesus crucificado. Era a
expressão de um particular amor para com Aquele que,
crucificado pelos pecados, era o Esposo da sua alma.

São Leopoldo Mandic de Pádua, grande confessor do


seu tempo que passava diariamente horas a fio no
confessionário, orava com o gesto das mãos vazias.
Quando confessava tinha, sob os olhos, as mãos vazias,
pousadas nos joelhos, querendo com aquele gesto dizer a
Jesus: "Vê bem, Senhor, que não estou à altura de ajudar
esta pessoa aqui ajoelhada. Nada lhe posso dar, enche as
minhas mãos com a Sua graça." Obviamente que se
tivesse resolvido repetir constantemente aquelas palavras
a Jesus, teria acabado por renunciar ao esforço. Além
disso, lhe seria impossível elevar ao Senhor uma súplica
oral e simultaneamente escutar as confissões. Você pode
também rezar, em diversas ocasiões, com esta atitude do
pobre de coração, pondo as mãos nessa posição, com a
consciência de que é um gesto de permanente súplica a
Jesus, para que encha com a Sua graça as suas mãos
vazias e se converta num instrumento da Sua ação.

A oração do homem pobre

Existe uma estreita ligação entre a fé e a oração,


bem como entre humildade e oração. Alguém disse que se
aprende melhor a rezar precisamente a partir do
momento em que se descobre que não se é capaz de o
fazê-lo. E exatamente o contrário do que nos possa
parecer. Na verdade, quando é muito difícil rezar e
quando você quer e não consegues fazer oração, você
está a receber de Deus uma oportunidade excepcional
para aprender. O segredo da oração consiste na fome de
Deus. Fome que nasce em nós muito mais profundamente
que ao nível dos nossos sentimentos e das palavras. Uma
pessoa cuja memória e imaginação estão assaltadas por
um sem número de pensamentos e de imagens inúteis e
até nocivas pode, por vezes, sob essa pressão, rezar
muito melhor com o seu coração atormentado, do que
aquele cuja mente se deleita com claras noções e fáceis
atos de amor. Trata-se de experiências que nos fazem
nascer no coração a chamada oração do homem pobre.
Na oração deveríamos mantermo-nos como pobres, e sem
nada, e se não soubermos rezar, será o próprio Espírito
Santo a descer à nossa pobre alma para rezar em nós com
"gemidos inefáveis" (Rom 8,26).

Você pode vir a experimentar diversas dificuldades


durante a oração, mas não se esqueça de que elas são
precisamente que farão da sua prece a oração de um
homem pobre. Deveria, pois, dar graças por experimentá-
las. Estas dificuldades podem ser de diferentes tipos e
uma delas pode, por exemplo, ser o cansaço. Santa
Teresinha do Menino Jesus escreveu: "Devia estar
desolada por adormecer (desde há sete anos) durante as
minhas orações e as minhas ações de graças mas não,
não me sinto desolada. Penso que as criancinhas agradam
aos seus pais tanto quando dormem como quando estão
acordadas. (...) O Senhor vê a nossa fragilidade. Ele
recorda-Se de que nós não passamos de pó" {Manuscritos
Autobiográficos). Portanto, o cansaço pode se tornar essa
matéria por meio da qual Deus modela em você a oração
do homem pobre, do homem pobre de espírito. Talvez
você possa também tirar proveito de situações similares
que converterão a sua oração na oração dum pobre.

Se a oração irrompe em você facilmente é também


um dom de Deus que não pode ser desprezado. No
entanto, o desenvolvimento apropriado da oração realiza-
se num processo que comporta, por um lado, o esforço
que empreendemos para ir ao encontro de Deus, que é
uma expressão do seu anseio de Deus, anseio este que
por sua vez, é a própria essência da oração — epor outro
lado, o desejo de entrar em contato com Ele, de se abrir a
Ele e de permitir que Ele, Deus, o Espírito Santo, reze em
você. E este desejo que, na oração, é o fator essencial;
que importância podem, pois, ter os resultados?
Importante é que você deseje, que tenha grande vontade
de rezar. Quanto maior for a ânsia de Deus, tanto melhor.
Então, por meio da oração você deve empreender a sua
própria caminhada para Deus e é preciso que ame este
modo de se aproximar d'Ele. Deus aceitará todos os seus
desejos mesmo que a você pareçam sem grande valor.
Ele ama as oferendas pobres não querendo as flores mais
belas, mas preferindo as florinhas silvestres, as mais
pequenininhas, as insignificantes, porque não alimentam
o nosso orgulho. Alguém disse que, entre todos os
presentes, Deus prefere os pobres, aqueles que, no
homem, não fomentam o orgulho. E também disto que se
trata na oração. Deus acolhe todos os seus dons mesmo
que tenham menos valor do que um punhado de areia. A
sua oração pode não ser mais preciosa do que esse
punhado de areia e, no entanto, ter um valor inestimável
só porque Ele, o Senhor, o Pai que o ama, a acolhe. Ele a
acolhe com enorme alegria, tal como uma mãe recebe
uma simples florzinha do seu filho, porque não é o
presente em si que conta, mas o gesto.

Durante a oração pode acontecer também que lhe


pareça nada ter para oferecer ao Senhor. Se não tem
nada para Lhe oferecer, oferece-Lhe o seu "nada", a sua
total impotência. Ofereça sempre tudo ao Senhor, se
ponha à Sua disposição assim como és: pequeno, fraco e
pobre de espírito. A oração assim feita será a melhor
porque estará de acordo com a primeira Bem-
aventurança. A oração do homem pobre é a oração de um
homem que se encontra vazio, vazio no sentido de que
clama pela vinda do Senhor, pela descida do Espírito
Santo. Quando Deus vê uma alma assim, despojada das
suas próprias forças, então desce a ela com o Seu poder.
Bem-aventurados os pobres de espírito, bem-aventurados
aqueles que rezam com a oração do homem pobre.

O Rosário da Virgem Maria

No primeiro dia do ano, na solenidade da Santíssima


Virgem Maria, na basílica de São Pedro em Roma, João
Paulo II rezava nestes termos: "Salve, ó Maria, tu que
acreditaste, salve. De ti o evangelista diz: 'Maria
conservava e meditava todas estas coisas no coração'. Tu
és a memória da Igreja e a Igreja aprende de ti, ó Maria,
que ser Mãe significa ser uma memória viva, quer dizer,
guardar e meditar no coração os acontecimentos gozosos,
dolorosos e gloriosos. Os acontecimentos de seu Filho e os
seus, Maria guardava-os na memória, conservava-os e
meditava-os no seu coração. Ela era memória na Igreja
primitiva e permaneceu memória por todos os séculos da
história da Igreja".

Segundo as palavras do Santo Padre, Maria é a


memória da Igreja. Na sua vida houve a Anunciação, a
Apresentação de Jesus no Templo, o reencontro de Jesus
quando era um adolescente de doze anos. Se o Evangelho
diz que ela guardava e meditava tudo no seu coração, isso
significa que Ela rezava com aqueles acontecimentos. Era
como se rezasse o seu rosário, sem desfiar as contas, mas
voltando em memória a tudo o que tinha sido importante
na vida do Filho e na sua própria vida. Não era possível
que Maria alguma vez pudesse esquecer o primeiro de
todos aqueles acontecimentos tão importantes na sua
vida, a Anunciação. Ela revivia quer os acontecimentos
jubilosos, quer os outros ligados à Paixão e à Ressurreição
de seu Filho. Era essa a sua oração.

Se você reza o Rosário, reza com a oração de Maria,


você se torna como que imagem da Mãe de Deus, porque
a imita no guardar e no meditar os mistérios do Filho e da
Mãe. Ela é a Memória da Igreja, a memória de cada um de
nós que guarda aqueles acontecimentos. Cada um
daqueles acontecimentos deve ser para nós algo vivo. Ao
meditá-los você entra em contato com esses mistérios
que, assim, se convertem em canal de graça para você.
Amar o Rosário significa amar o Evangelho, significa
também amar Maria e todas as coisas que ela conservava
e meditava no seu coração, as coisas que formavam o
conteúdo da sua vida.

O homem de oração contínua


Um homem excepcional de oração foi Guy de
Larigaudie. Parecia que Deus nada lhe tinha recusado:
grande explorador de continentes, foi o primeiro a
percorrer, em automóvel, o trajeto França-Indochina; foi
dirigente de um movimento francês para a juventude. Era
alguém que, por amar a Deus de todo o coração, pode,
amar plenamente o próximo e o mundo. Por baixo de uma
fotografia sua havia uma eloqüente inscrição: "Santidade
sorridente". A sua religiosidade caracterizava-se antes de
mais por uma oração, cheia de fé, de afirmação pelo
mundo criado por Deus, e de admiração pela sua beleza. É
que, se se ama Deus ama-se também o mundo. Entre as
suas anotações encontramos esta: "E preciso amar tudo: o
desabrochar espontâneo da orquídea na selva, a beleza
de um corcel, o gesto da criança, a finura de humor ou um
sorriso de mulher. E preciso, ao passar, admirar toda a
beleza, descobri-la mesmo que manchada pela lama e
elevá-la até Deus" (Etoile au grand largé). Naturalmente
que tudo isto não significa que na sua vida não tivessem
existido lutas e sacrifícios, que a sua fé não tenha sido
submetida a provas de fé que não tenha tido que tomar
decisões corajosas, porque a santidade não é fácil. "Sentir
dentro de si toda a lama, toda a luxúria e a efervescência
dos instintos humanos e, todavia manter-se acima deles
sem se enterrar, como se caminhasse na superfície de um
pântano enxuto, deixando-se, ao mesmo tempo, envolver
por transportes de um regozijo de todo o ser, pois que o
pé não penetra. Permanecer no amor de Deus como na
pureza da manhã; sobre a vastidão do pântano sem que o
corpo resvale no lodaçal" (ibidem).
"Era seguramente uma mestiça. Tinha uns ombros
magníficos e aquele tipo de beleza selvagem de sangues
misturados, de lábios carnudos e olhos imensos. Era bela,
de uma beleza selvagem. Na realidade só havia uma coisa
a fazer. Mas não a fiz", confessa G. de Lariguaudie.

"Montei a cavalo e num desenfreado galope afastei-


me sem sequer me voltar, chorando de desespero e de
raiva. Creio que no dia do julgamento final, se nada mais
tiver a apresentar, poderei oferecer a Deus como que num
ramalhete, todos esses amplexos que por Seu amor não
quis conhecer" (ibidem).

A pureza é possível se for construída sob o alicerce


da oração. "Ela é possível, bela e enriquecedora quando
se apóia numa base positiva: o amor de Deus, vivo, total,
o único capaz de preencher a enorme necessidade de
amor que invade o coração do homem", diz G. de
Larigaudie (ibidem).
Guy de Larigaudie amava o risco, a dança e o canto.
Era um excelente nadador e esquiador. Colhia todas as
alegrias da vida mas, no decurso de tudo aquilo que
experimentava e que vivia, fluía o ritmo do seu diálogo
ininterrupto com Deus impregnado de fé. "Aquelas belas
estrangeiras não podiam compreender", confessa ele,
"que mesmo ao som das músicas de dança mais
envolventes, o meu coração pudesse pulsar na cadência
de uma oração bem mais forte do que o encanto e do que
os atrativos delas" (ibidem). Na sua oração pela beleza,
pedia: "Meu Deus, fazei que as nossas irmãs sejam
harmoniosas de corpo, sorridentes e que se vistam com
gosto. Faz com que sejam sãs e que a sua alma seja
transparente. Que elas sejam a pureza e a graça das
nossas vidas rudes. Que elas sejam conosco, simples,
maternais, sem falsidade nem coqueterias. Fazei que
nenhum mal se infiltre entre nós e que, rapazes e moças,
sejamos uma fonte recíproca, não de pecado, mas de
enriquecimento. De Taiti a Hollywood", continua ele, "nas
praias de coral ou nas pontes dos paquetes, tive nos meus
braços, ao ritmo de uma dança, as mais belas mulheres
do mundo. Não pretendi colher qualquer dessas flores
oferecidas ou apaixonantes de conquistar. Renunciava
não por razoes humanas; foi única e exclusivamente por
amor a Deus que, reprimindo o meu corpo, manifestei
indiferença" (ibidem).

Falando sobre a Eucaristia dizia: "A Comunhão


diária foi para mim, em cada manhã, o banho de água
viva que fortalece e distende os músculos, a refeição
substancial antes do início da etapa, o olhar de ternura
que dá audácia e confiança. (...) Passeei pelo mundo como
num jardim circundado de muros; lancei-me em busca de
aventura nos cinco continentes (...), e, no entanto, os
muros do jardim não fizeram mais do que recuar e eu
permaneci sempre encarcerado. Mas há de chegar o dia
em que poderei cantar o meu cântico de amor e de
alegria. Todas as barreiras cairão por terra e eu possuirei
o Infinito" (ibidem).

Como era a oração de fé deste santo dos nossos


tempos? "Ao assistir à peça teatral mais insípida, ao filme
mais pungente, é possível rezar desfiando dentro de si, ao
ritmo das imagens ou da música, orações maquinais.
Umas pelos atores, pelo realizador ou pelos figurantes, ou-
tras pelo público que se diverte ou se aborrece, pelo
vizinho da esquerda ou pela vizinha da direita. O tempo
assim passado não terá sido inútil" (ibidem). Ele encontra
para si, na oração, a força nos momentos difíceis que
exigem de forma particular a fidelidade ao Senhor. "Há
horas pesadas, nas quais a tentação do mal vos agarra
com tanta força, tão irresistivelmente, por todo o corpo
que nada mais se pode do que sussurrar maquinalmente e
quase já sem o crer: 'Senhor, apesar de tudo, amo-vos,
mas peço-vos: tende piedade de mim'. Há certas tardes,
nas quais sentado ao fundo de uma igreja incapaz de
rezar (...) não se pode mais do que repetir aquela pobre
frase, à qual nos agarramos qual náufrago à tábua de
salvação: 'Meu Deus, mesmo assim, amo-vos!'" (ibidem).

"Ceifando a golpes de chicote a cabeça das


cenouras bravias, mascando um talo de erva, fazendo a
barba pela manhã, podemos repetir sem cessar a Deus,
muito simplesmente, que O amamos muito (...), contar a
si próprio, por entre um canto, toda a sua vida passada e
os sonhos para os dias vindouros e desse modo falar ao
seu Deus, a cantar. E, falar-lhe ainda a dançar de alegria
em pleno Sol, na praia ou deslizando nos esquis pela
neve. Ter sempre junto de si Deus, como um companheiro
a quem nos confiamos. (...) De tal modo me acostumei à
presença de Deus em mim", continua G. de Lariguaudie,
"que no fundo do meu coração há sempre uma oração que
me aflora aos lábios. Esta oração, quase inconsciente, não
termina nunca, nem mesmo na sonolência do rodar de um
comboio sobre os carris ou no roncar de uma hélice, nem
mesmo nos momentos de exaltação do corpo ou da alma,
mesmo na agitação da cidade ou na tensão de espírito de
uma ocupação absorvente. Existem, no fundo de mim
mesmo, umas águas infinitamente calmas e transparentes
que não podem ser atingidas nem pelas sombras nem
pelos remoinhos da superfície. (...) Toda a minha vida não
foi mais do que uma longa procura de Deus. Por todo o
lado, a toda a hora, em toda a parte do mundo, busquei as
Suas pegadas e a Sua presença. A morte, para mim, será
unicamente o maravilhoso desprender do grilhão que me
acorrenta" (ibidem). A morte marcará para ele o fim dessa
maravilhosa e embriagante aventura, a chegada à
plenitude a que desde sempre aspirou.

CAPÍTULO 6

O AMOR ENQUANTO
ATUALIZAÇÃO DA FÉ

Num momento precedente à Sua Ascenção, Cristo


assegurou-nos que estaria conosco todos os dias até ao
fim dos tempos {Mt 28,20). E está, não só na Igreja, não
apenas na Eucaristia que atualiza a Sua obra salvífica,
mas também está presente no nosso próximo, com o qual
Ele Se quis identificar: "Todas as vezes que fizerdes algo a
um destes pequeninos a Mim o fizestes" {Mt 25,40).
Graças à presença do próximo na nossa vida, o cotidiano
converte-se num desafio à nossa fé, pois é ela que nos
permite olhar o mundo, com os olhos de Cristo, e
descortinar a presença de Deus oculta na outra pessoa.
A fé "atua pelo amor" (Gal 5,6) e no amor encontra
a sua plena vida e convida à convivência, à "comunhão"
com Deus e com os irmãos. Deus revela-nos o Seu amor -
"ágape" — que nós recebemos pela fé, para em seguida o
transbordarmos aos outros. Dizia João Paulo II que, no
amor, o abandono de nós próprios a Deus adquire o seu
justo caráter e a dimensão de dom recíproco.

Ágape

Há duas espécies fundamentais de laços entre os


homens e, conseqüentemente, dois conceitos de amor. O
primeiro conceito, que remonta à Antigüidade, transmitido
por Platão, definiu o amor com a palavra "Eros". O
segundo conceito, tal como o apresenta o Cristianismo, é
o amor definido ainda em grego pela palavra "ágape".
Existem, pois, “Eros” e “ágape” dois tipos de amor que
estão na base de dois gêneros de laços diferentes que
possam sobrevir entre os homens. "Eros", em Platão é o
afeto que deseja o que é digno de ser amado. Trata-se de
um amor emocional. Se alguém ou alguma coisa
corresponde às suas expectativas, por exemplo, pelo seu
aspecto belo e estético, se sente prazer na companhia de
alguém ou em qualquer coisa, ou se lhe agrada possuir
determinada coisa, tudo isso procede unicamente dos
seus sentimentos puramente naturais e é o 'eros'
platônico. Ama algo que lhe proporciona satisfação, que o
faz sentir-se bem. Esse amor é egocêntrico porque
sempre se trata de você, do seu prazer.
Este amor, apesar das suas falhas e das suas
limitações, apesar do seu caráter interesseiro e da sua
fugacidade, não deve ser condenado nem destruído.
Pertence à ordem natural das coisas procedentes de Deus
embora tenha sido manchado pelo pecado original. E
necessário purificá-lo e transformá-lo em amor
sobrenatural, aquele amor tão essencialmente ligado à
vida da graça e que, segundo o próprio Evangelho e o
pensamento de São Paulo, constitui o reflexo da caridade
do próprio Deus. E o que indica o célebre texto de São
Paulo na sua Carta aos Coríntios: "O amor é paciente, é
serviçal... (...) não procura o seu interesse, não se irrita
não guarda rancor... (...) tudo desculpa, tudo crê, tudo
espera (ICor 13,4-7). Um tal amor, na língua original gre-
ga, designa-se pelo termo "ágape". Segundo o conceito
cristão, Deus é "ágape"— Ele é o amor que desce até ao
homem e ama o que não merece ser amado. E um amor
espontâneo que se dá porque é amor. "Agape" é o amor
desinteressado que invade o homem. Por vezes pode
parecer-nos que é preciso agradar a Deus, que o Seu
amor deve ser merecido. No entanto Ele o ama porque
você é o Seu filho e não pelo seu valor. "Agape" é um
amor criador, um Amor que ama, não porque você seja
digno de ser amado, mas unicamente para que o venha a
ser. "Ágape" deseja criar em você o bem, um bem cada
vez maior. Aquele que recebe de Deus graças
excepcionais fica maravilhado porque o Senhor lhas quis
conceder. Mas isso só acontece porque o amor-ágape
desce sobre os indignos, inclina-se sobre todos nós que
somos indignos e temos necessidade deste amor criador
que produz o bem. Deus é caridade e o Seu drama
consiste em não poder derramar plenamente o Seu amor,
em não poder inundar a alma humana que Ele ama
desmedidamente. E Deus procura sempre corações
abertos em que possa, sem medida, derramar esse Seu
infinito amor.

Para uma mãe que ama o seu filho, por mais feio
que este seja, será sempre o mais bonito porque é seu
filho. Pouco importa quantos defeitos você tenha, é
possível até que sejam muitos e que até você se sinta
esmagado sob esse peso a ponto de não agüentar mais.
Mesmo assim, Deus quer envolver-se no Seu Amor, quer
criá-lo dentro de você, quer descer para fazer de você,
pecador e indigno, uma obra-prima do Seu Amor.

O amor-ágape que das alturas, de Deus, desce até


você e que você recebe pela fé, não pode ficar encerrado
em você. O amor, sendo um bem, deve transbordar, tem
de se transmitir. "Ágape" é Cristo que vive em você e que,
por você e em você, quer amar os outros. O homem
dotado do amor- ágape, da caridade desinteressada,
começa ele próprio a amar ou, mais precisamente, é
Cristo presente nele que começa a amar os outros.
"Ágape" é um amor, não emocional, mas proveniente da
ardorosa vontade de levar o bem aos outros. Assim, os
laços inter-humanos criados por Ele são tão fortes que
perduram para além da morte. Pouco importa como possa
ser esse outro, feio ou bonito, amável ou simpático, cheio
de defeitos e de pecados ou sem eles. O que importa é
que o Amor quer amá-lo, para que se possa ir tornando
melhor. Este amor "ágape" cresce em você, como
resultado da descida de Cristo ao seu coração, e
manifesta-se com freqüência em pequenos pormenores
como num simples gesto ou num olhar. E muito
importante que você reparta esse amor com o calor do
seu olhar, na aceitação, no apreço e no acolhimento
constante e afetuoso do seu próximo.

O papel dos sentimentos

"Ágape" não é só um amor criativo, é também um


amor que instaura a comunhão, cria comunidade entre as
pessoas. O contato entre pessoas é, normalmente, uma
questão de sentimento. São três as variantes principais
nas relações emocionais interpessoais. A primeira
exprime-se nas relações que são norteadas por afetos
positivos, por exemplo, quando alguém próximo se
harmoniza com você, lhe agrada e, por esse motivo, você
quer estar na sua companhia. Trata-se de um gênero de
sentimentos positivos que podemos experimentar, quer
nos contatos com Deus, quer com as pessoas. Assim
sucede, quando, por exemplo, você se sente bem com
Deus. Acontece, por vezes, alguém experimentar
literalmente uma alegria esfuziante no contato com Deus,
podendo isso perdurar algumas horas, alguns dias ou até
meses. A alma pode ser inundada por sentimentos
positivos. Na segunda variante, os sentimentos positivos
podem desaparecer, criando-se uma espécie de vazio
emocional, quando você nada sente, quando nada o atrai
para tal pessoa. Isto pode suceder de repente ou como
resultado de um processo que se vai intensificando com o
tempo. Do ponto de vista da psicologia pode se falar de
uma certa desintegração emocional. Existe, por fim, uma
terceira variante, a mais difícil, onde surgem as emoções
negativas. O sentimento de aversão pode manifestar-se
tanto na relação com outra pessoa como nos contatos
com as coisas de Deus. E algo que aparece
freqüentemente durante os períodos de purificação. Pode
acontecer que você sinta rejeição por estar na Igreja, pela
confissão ou pela Comunhão, você pode se confrontar
com dificuldades no contato com Deus na oração. De igual
modo os sentimentos negativos podem aparecer nas re-
lações com os outros. A certa altura alguém chegado e
amigo começa simplesmente a lhe causar irritação e se
torna repulsivo para você.

Os laços humanos baseados nos afetos positivos


são laços naturais. Este gênero de sentimentos e de
ligações podem formar-se em qualquer grupo humano,
mesmo num bando de delinqüentes. Pode tratar-se, por
exemplo, de um grupo que se une solidariamente para
lograr os seus fins. Encontramos, freqüentemente,
pessoas que mantêm entre si um entendimento perfeito,
ao nível dos laços naturais; a razão da sua harmonia está
na comunidade de interesses. Contudo, os sentimentos
positivos naturais são muito instáveis. Podem, por
exemplo, aparecer no início do matrimônio e depois
dissiparem-se. Que se passa quando se desvanecem por
completo? Surge a crise motivada por um vazio emocional
crescente, difícil de suportar. Na relação com Deus
manifesta-se numa certa aridez: não sinto nada no
contato com Deus, não há nada que me atraia à oração,
nem à confissão, nem à Eucaristia. O mesmo tipo de crise
se desencadeia, quando se desvanecem os afetos que
você dedicava a outra pessoa, quando de repente algo
deixa de atraí-lo naquele que antes lhe era muito
chegado. Nasce então uma certo vazio emocional no
relacionamento com os amigos e os conhecidos.
Finalmente, na terceira situação, a mais difícil,
aparece o afastamento emocional para as coisas de Deus,
ou o afastamento em relação a alguém. Nesse caso, por
vezes, é necessário heroísmo para se vencer a si próprio.
Mas é justamente então, quando deixam de existir as
ligações naturais ou quando, de certo modo, se quebram
ou afrouxam, que aparece a oportunidade para se
estabelecerem ou aprofundarem os laços sobrenaturais.
No matrimônio pode dar-se a situação em que os esposos
se harmonizam perfeitamente, que se assemelham a duas
metades de um todo que, juntando-se, aderem
completamente. Do ponto de vista da fé isso não é o ideal.
Trata-se, com efeito, apenas de uma harmonia de
sentimentos positivos, puramente natural. Não é ainda
aquele amor cristão elaborado, o amor ágape. O mesmo
sucede também na família, com os filhos. Não é
indispensável que estejam numa concordância perfeita
uns com os outros, que não haja problemas entre eles. E
mais necessário que procurem amar-se apesar dos seus
defeitos e das suas disparidades e não que estejam
idealmente de acordo e estejam sempre de harmonia
entre si.

A crise dos laços naturais

Não há comunidade, quer se trate da conjugal, quer


simplesmente da comunidade de amigos ou de qualquer
outro grupo, que tenha grandes hipóteses de sobreviver
se se basear exclusivamente num vínculo natural: mais
tarde ou mais cedo acabará por se desintegrar ou, então,
há de passar a um superior nível de existência. Do ponto
de vista da fé podemos até dizer que, quando na nossa
vida se manifestam crises dessa natureza é sempre um
bem. E bom quando subitamente uma pessoa se nos
torna menos simpática, menos agradável, já que disso
decorre uma extraordinária oportunidade. E que,
justamente, nessa altura, o chamado de Cristo para
colocar em prática o Evangelho, torna-se de particular
atualidade. O mesmo sucedendo na relação com Deus, no
caso concreto das purificações, por vezes até violentas,
quando você não se sente nada unido a Ele, quando
parece não O amar de iodo, quando sente que alguma
coisa o afasta para longe de Deus mas, apesar de tudo,
você se esforça por Lhe continuar fiel. Como é, então,
valiosa, a Reconciliação sempre que não sente vontade de
a fazer, quão preciosa a Eucaristia quando a ela nada o
atrai mas, mesmo assim, você vai porque sabe que Ele,
Cristo o ama, está lá e espera por você! A sua oblação
aumenta na medida em que os laços naturais falhem
porque o seu esforço é maior. Ainda bem que entre nós se
desencadeiam crises; que surjam, por vezes, no
matrimônio os mal-entendidos; que as crianças,
desentendidas, às vezes, briguem, pois é, desse modo,
que se abre uma ruptura, uma fenda que há de tornar
viável o nascimento e a fundamentação do vínculo e do
amor sobrenatural. Amor este que é obra de Cristo e cujo
crescimento garante a sua mesma perenidade. Somente
um tal amor é forte, forte em Cristo, em Deus. O matrimô-
nio assim firmado em Deus é aquele que, tendo passado
por essa espécie de desagregação, acabou por se saber
reintegrar a um nível superior. Abençoado aquele que, na
sua relação com Deus, tenha experimentado tais
momentos difíceis, sem O atraiçoar e permanecendo
sempre fiel, pois foi então que verdadeiramente o seu
amor lançou raízes.
Em tudo isso há uma grande esperança, sobretudo
para os que se afligem ao ver como a vida é, por vezes,
tão dura. O nosso próximo, esse outro, muitas vezes não é
fácil, parece por vezes fazer tudo para que nos afastemos
dele, para nos repelir. Mas, é precisamente então que,
para nós, esse próximo constitui uma graça especial, já
que traz consigo o chamamento à superação dos laços
naturais e para se elevar aos laços sobrenaturais: ao
ágape. Do ponto de vista da fé, as pessoas que menos nos
agradam são, até as mais preciosas, para nós, porque
criam melhores oportunidades para uma polarização das
nossas atitudes, permitindo-nos ver que amar não
eqüivale a gostar.

Permitir que Cristo ame em nós

A especificidade do amor cristão é o cristocentrismo,


no duplo sentido da palavra. Em primeiro lugar, Cristo é o
único e o supremo modelo do amor. Você deve amar
como Ele. "Dou-vos um mandamento novo: "Amai-vos uns
aos outros como Eu vos amei' (Jo 13,34). Toda via, para
que você possa amar como Cristo, deves primeiro, pela fé,
descobrir o Seu Rosto desvendado na palavra revelada. O
conhecimento teórico da pessoa de Cristo não basta. Será,
com efeito, o crescimento da fé a fazer aumentar em você
o amor porque se fortalecerão os vínculos existenciais
com o ideal personificado do amor que é Jesus Cristo. Por
meio da fé, que lhe permite se por à escuta do Verbo
revelado e assim O conhecer e se ligar a Ele, conhecerá
Aquele que é o modelo perfeito do amor e desejará amar
como Ele amou: até às últimas conseqüências. Pela fé,
você irá assimilando o Seu pensamento e os Seus desejos,
aprenderá a pensar como Ele, a desejar o que Ele deseja e
a amar como Ele ama.

Em segundo lugar o amor cristão é o amor de Cristo


em nós. Ele é o nosso Caminho, a nossa Verdade e a
nossa Vida. Ele pensa, reza, vive em nós e em nós ama
com o Seu amor. Do seu grau de fé, dessa fé que lhe
permite participar na vida de Deus, depende o nível do
seu amor. A imitação de Cristo não consiste na imitação
superficial das Suas ações exteriores, mas na adesão a
Ele, pela fé, de maneira que a Sua vontade se torne
também a nossa e que a Sua vida, em nós, possa
transparecer continuamente na nossa maneira de viver.
Abandonar-se a Cristo mediante a fé é acolher o Seu amor
que desce até nós, é permitir-Lhe que nos ame e que
possa, em nós e por meio de nós, amar os outros com o
Seu amor. A fé possibilita a união a Cristo, permite o
abandono e a entrega a Ele, para que essa mesma fé se
venha a fundir, como num todo, na confiança e no amor.
Com efeito, a fé que penetra a totalidade da existência
cristã contém em si, a esperança e o amor como duas
formas da sua realização.

Amar alguém por quem sentimos aversão não é


coisa fácil. Por isso devemos abrir-nos a Cristo e, perante
a onda esmagadora de sentimentos negativos, sentirmo-
nos qual criança desamparada e impotente. Em nós tem
que aparecer a atitude de infância, de criança impotente
perante tudo o que diz respeito a Deus e aos homens, ao
nosso ambiente e à realidade que nos rodeia. Só este tipo
de atitude exprime uma fé total na intervenção de Jesus,
no fato de que será Ele que virá e, por nosso intermédio,
amará mesmo aqueles que não nos são simpáticos.
Somente uma tal atitude nos permite que passemos ao
amor-ágape. Realmente, nas situações em que nascem e
crescem as emoções negativas, ou cm que pelo menos
desaparecem os sentimentos positivos, só Cristo c capaz
de amar em nós. Pela nossa vontade e graças a Ele,
deveríamos atingir a liberdade em relação às
sensibilidades ou, no mínimo, tendermos a uma tal
libertação. A presença de Cristo em nós traz-nos a
conversão, liberta-nos, cumula-nos de graças e, desse
modo, dá-nos também a liberdade. Mas essa presença
realiza-se apenas na medida em que somos humildes, isto
é, na medida em que formos pequenos e desamparados
porque só assim estaremos em condições de acolher, pela
fé, o amor de Jesus. Encaradas nessa perspectiva, as
dificuldades que surgem na nossa vida no relacionamento
com os outros tornam-se oportunidade para nos abrirmos
às graças e ao amor de Jesus que, reparando quanto
somos impotentes face às nossas emoções e vendo que
tudo esperamos d'Ele, se inclina até nós como ágape de
Deus.

Descendo ao seu coração, Cristo quer amar, quer


dar-Se aos outros e desejar o seu bem, quer amar cada
vez mais e desejar-lhe o maior bem possível, o que à luz
da fé significa desejar a sua santidade. Se ama alguém
preocupando-se exclusivamente com o seu bem-estar
material e temporal, você deve cair na conta de que
realmente lhe falta o amor autêntico. Não basta o cuidado
das coisas terrenas da instrução, da saúde e da existência
material. Só chegará a amar verdadeiramente quando
você próprio desejar a santidade e também quiser
comunicar esse desejo aos outros.

Não se pode amar o homem sem


amar a Deus

A verdade que é Cristo em nós a amar o nosso


próximo, leva-nos a concluir que não se pode amar o
homem sem a Deus amar. Por você mesmo é, de fato,
incapaz de amar. É Cristo que ama em você. Se ama
Cristo e se disponibiliza para Ele, abrindo o coração à
descida do divino ágape, permite-Lhe que o ame e que
ame os outros por meio de você. O que o permite amar o
próximo é a sua abertura à vinda de (Insto, concretizada
quer nos sacramentos quer na oração. Na medida cm que
acolher Cristo e se deixar envolver por Ele é que O poderá
transmitir aos outros. Amar o próximo é dar-lhe Cristo.
Mas, não se pode partilhar o que não se possui. Quanto
mais ama a Deus, e nesse amor O acolhe permitindo-Lhe
viver e agir em você, tanto maior será a sua capacidade
de amar os outros.

Amar significa dar-se e transmitir o bem aos outros.


Não basta, no entanto, prodigalizar bens materiais. A luz
da fé os bens espirituais são os mais importantes. Se não
o transmite aos que lhe são queridos praticas um
verdadeiro "roubo" espiritual, causas um "prejuízo" espi-
ritual. E que, na verdade, os outros têm direito a esses
bens. Aqueles que vivem ao seu redor têm direito a que,
crescendo você na graça santificante e na aspiração à
santidade, se converta para eles num canal puro da graça.
O seu crescimento em santidade torna-se, à luz da fé, o
dom mais precioso para os que lhe são próximos. Você
deve pôr em questão o seu amor, deve se ver em verdade
e se perguntar se ama verdadeiramente. Decerto que está
plenamente convicto de que ama o seu filho porque não
só lhe assegura os bens materiais como, mas também
reza por ele. Todavia, o valor e a eficácia da sua oração
não dependem dos sentimentos, mas sim do grau de
graça santificante, da intensidade da sua fé e do seu amor
a Deus. Se não existe, em você, vida interior nem
crescimento da fé e do amor de Deus, você se torna para
os que o rodeiam um "ladrão" em sentido espiritual.

Uma mãe que seja uma cristã "tíbia" e não tenha


aderido ainda, pela Fé, Cristo, deveria tomar consciência
de que, pelo fato de não amar verdadeiramente Cristo,
não pode amar completamente o seu filho. Se, na
realidade, não recebe a Sagrada Comunhão, priva de
graças também o seu filho que para ela é um tesouro.
Inconscientemente, rouba a essa criança as graças que
desceriam sobre ela por meio das suas comunhões. E que
de fato, em virtude do sistema de vasos comunicantes,
isto é, da nossa íntima união no Corpo Místico de Cristo,
cada participação na Eucaristia, cada recepção do
Sacramento da Reconciliação, a recepção dos outros
sacramentos e cada oração são sempre simultaneamente
um bem partilhado com os outros. Você ama o seu
marido, o seu filho, a sua filha, os seus pais, as pessoas
mais chegadas ou mais afastadas, na medida em que
você mesmo se converta a Deus, aspira santidade e
consinta em 'não ser já você a viver, mas Cristo a viver
em você'. Ele, que é o único Amor e o único Bem, deseja
nos amar sem limites e procura incessantemente almas
nas quais possa transbordar a imensidade do Seu amor.
Não se pode amar o homem sem amar a Deus. Na
realidade, só os santos amam verdadeiramente os outros
homens, porque se abriram totalmente a Cristo e, neles,
Cristo pode plenamente viver e amar.

A auto-realização em Cristo

A psicologia fala do "eu" ideal e do "eu" real. Cada um


de nós tem uma certa visão de como quereria ser e do
tipo de imagem e parecença com alguém que quereria ver
realizada em si. Esses desejos refletem o "eu" ideal. O
"eu" real, por outro lado, pode ser por vezes tão desagra-
dável que alguns se ressentem consigo mesmos ou se
irritam contra o seu "eu" real. Essa não é uma atitude
correta. Demonstra, sem dúvida, que o homem não quer
ser como é, que tem o seu "eu" que idealizou e que
prefere ser alguém diferente daquilo que é.

Se, pela fé, você se abrir a Cristo, Ele torna-Se o seu


"caminho", a sua "verdade" e a sua "vida" (cf. Jo 14,6).
Será, então, Ele mesmo a lhe mostrar o Seu "eu" ideal e
ao mesmo tempo a realizá-lo. Será, assim, o próprio Cristo
a dar cumprimento à sua auto-realização.

No homem crente, a imagem do "eu" ideal


aperfeiçoa-se sempre mais com a intensificação da vida
interior, com o aprofundar da própria identificação com
Cristo. O conhecimento sempre mais perfeito de Cristo e a
adesão a Ele geram em nós o desejo de nos identificarmos
com Ele. Deste modo, Ele se torna no nosso ideal pessoal,
o nosso "eu" ideal. O crescimento na fé e a graça fazem
sobressair mais o seu "eu" ideal, pois Cristo lhe confere
uma, sempre maior, luz sobrenatural e Se revela a você
cada vez mais plenamente.

Assim como estamos predestinados a ser a


conformes à imagem do Seu Filho' (Rom 8,29), só Cristo
pode ser o nosso verdadeiro ideal pessoal. Deste modo, à
medida em que a imagem do seu "eu" pessoal se
aproxima da imagem de Cristo, você se aproxima da
verdade. Cristo torna-Se o seu caminho e verdade. E Ele
próprio que fortalece a sua vontade para que possa
formar o seu "eu" real a exemplo do seu "eu" ideal.

(lada um de nós somente encontra a sua realização


quando ama. Mi o me posso realizar senão graças àqueles
que amo. Tal é a economia divina e assim é também a
minha estrutura mental. Nenhum de nós se pode realizar
sem referência a outra pessoa. Sem essa referência você
nunca poderá ser plenamente você. Por vezes, na nossa
relação com outrem, tudo corre pelo melhor e não vemos
então nenhuma necessidade de heroísmo. Porém, o nosso
próximo é capaz de nos colocar numa tal situação que,
sem o heroísmo, apenas restaria negação do amor.
Durante a II Guerra Mundial muitas pessoas se viram
subitamente colocadas diante do apelo ao amor heróico:
ou agride ou é vencido; ou abate ou é abatido. Tratavam-
se de situações excepcionais mas pode igualmente
acontecer, em situações menos dramáticas, que Deus nos
convide, também a nós, a um amor de alto preço.
Seremos, então, convencidos de que não somos capazes
de amar e será para nós nessa altura mais fácil
compreender o sentido profundo das palavras de Cristo:
"Eu sou a videira, vós os ramos; quem está em Mim e eu
nele, esse dá muito fruto; porque sem Mim nada podeis
fazer" (Jo 15,5), sem Cristo nada podemos fazer. Cristo é a
nossa vida. Sem Ele somos como sarmentos cortados da
videira que logo secam. O homem não pode realizar-se
sem Cristo.

A auto-realização de cada um de nós tem o seu


cumprimento na medida em que nos abrimos a Cristo, na
medida em que deixamos que Ele ame em nós, que viva
em nós. Se você se abrisse totalmente a Cristo poderias
também dizer como São Paulo: "Já não sou eu que vivo, é
Cristo que vive em mim" (Gal 2,20). E Cristo tem mesmo
este desejo extraordinário: quer amar cada um de nós
com especial amor, quer ter tantos rostos quantos os
homens sobre a terra.

A Igreja ensina-nos que não há amor sem a Cruz:


para poder amar o próximo, o meu "eu" tem de ser
crucificado. Mas sem a graça, nunca serei capaz de o
aceitar; só a graça me poderá tornar capaz disso. Ora, a
ação da graça é tal que é o próprio Cristo que penetra o
meu "quero", essa expressão humana da vontade: "quero
amar, quero optar pelo bem". É Deus, com efeito, que
produz em nós o "querer e o agir segundo o Seu
beneplácito" (Fil 2,13).

A nossa vontade, graças à qual podemos eleger o


bem e o amor, é fraca. A vontade do homem é demasiado
fraca para escolher o que lhe é difícil, o que exige a
superação do seu egoísmo. Se alguém ainda não o
experimentou, certamente chegará o dia em que se
convencerá de que, na verdade, não sabe amar, que não
sabe morrer para si próprio. Ora, cada um de nós só é
plenamente homem pelo amor.

O amor é um ato da vontade, é o nosso desejo de


dar aos outros o bem. Como sabemos, cada um de nós
pode querer determinada coisa, por exemplo, num grau
de cinco, setenta ou de cem por cento. Se o nosso desejo
é o de realizarmos o amor a "dez por cento", isso é
excessivamente pouco para estabelecer a harmonia entre
as pessoas, para que possa cumprir-se o processo de
integração das pessoas; é demasiado pouco para amar
como Jesus amou. Porém, o meu "quero" pode ser, cada
vez mais, fortalecido pela graça de Cristo de tal modo que
eu comece a querer pôr em prática o mandamento de
Cristo: "Assim como Eu vos amei, vós também vos deveis
amar uns aos outros" (Jo 13,34); já não a "cinco por cento"
mas a sessenta por cento ou mesmo mais. Deste modo se
manifesta a vida de Cristo em nós.

A descoberta de Cristo nos outros não diminui


absolutamente em nada o valor do próximo. Ao amar
Cristo amo ao mesmo tempo esse outro. E graças a Cristo
que o outro me começa a fascinar porque se torna cada
vez melhor e cada vez mais belo. Associando-se à vontade
desse homem, Cristo faz com que ele deseje sempre cada
vez mais o bem, que haja nele mais e mais o bem. E
embora a graça acolhida pelo homem se torne um bem
seu, é simultaneamente o bem de Cristo. Cristo insere-Se
na nossa vida de modo tão perfeito que é Ele que, pelo
meu amor, ama o meu próximo e eu amo no Seu amor.
Trata-se de um fenômeno que não produz nem divisão,
nem alienação, mas, pelo contrário, graças à presença de
Cristo em mim, me faz amar e crescer no amor.
Se Cristo se torna o meu "eu" ideal, é a minha auto-
realização que se efetiva. Inversamente, quando peco,
quando digo "não" a Cristo, despojo-me do meu "eu" e
torno-me progressivamente menos eu próprio. O meu
pecado e o meu coração fechado a Cristo alienam-me. Se
me fecho a Cristo torno-me triste, deprimido, mau e, no
entanto, não é assim que eu desejaria ser, esse não é o
meu "eu" ideal. Cristo é que é o meu "eu" ideal: o seu, o
meu, o de cada um de nós - eis porque Ele adota tantos
rostos. Ao mesmo tempo, é Ele quem realiza este "eu"
ideal em cada um de nós. E esta realidade maravilhosa é
uma confirmação das palavras de Cristo: "Eu sou o
Caminho, a Verdade e a Vida".

A nossa auto-realização encontra a sua


concretização mediante a vida em verdade e pela
resposta ao chamamento de Deus ao amor. Sem uma vida
vivida em verdade não se pode sequer falar de amor no
sentido sobrenatural. Esse amor, de fato, é o amor do
próprio Cristo em nós. E Ele vive em nós, na medida em
que, vendo-nos na verdade, isto é, reconhecendo a nossa
fraqueza, nós O invocamos, na medida em que queiramos
que seja Ele a nossa vida. Por si o homem tem uma
inaptidão para o bem espiritual. Se bem que a Igreja não
diga que a natureza humana esteja corrompida, pelo
menos deveríamos estar conscientes de que por nós
próprios somos incapazes do bem sobrenatural, não
sabemos amar. Sós não somos capazes de responder ao
apelo de Deus, para nós tão difícil, sobretudo no que se
refere ao amor ao próximo que, por vezes, chega a exigir
autêntico heroísmo. Durante o Seu diálogo com o jovem
rico, Jesus disse: "Porque me chamas bom? Ninguém é
bom senão só Deus" (Mc 10,18). Todo o bem que há em
nós vem de Deus. "Que tens tu que não hajas recebido?"
(ICor 4,7).

Devemos retornar constantemente a estas palavras,


porque não se pode falar de auto-realização em Cristo se
não se vive em verdade. Falando de Si próprio, Cristo diz:
"Para isto nasci e para isto vim ao mundo, a fim de dar
testemunho da Verdade" (Jo 18,37). Deus é parti-
cularmente sensível no que diz respeito à verdade. Se
quisermos fazer antropomorfismo poderemos dizer que
este é o Seu "ponto fraco". Se você deve se tornar
semelhante a Cristo não pode haver em você mentira.
Cristo identifica-Se com a verdade e é intransigente no
tocante à falsidade e à soberba, no que toca à apropriação
daquilo que Ele realiza em nós. Quanto mais nos
atribuímos as graças de Deus, tanto maior é a nossa
asneira. Para defender-nos desse erro Deus vê-Se
obrigado a limitar as Suas graças.

O fundamento da nossa auto-realização é a


humildade. Se ela é tão importante é porque Deus está
disposto a dar tudo àquele que não se apropria de nada.
Se você vive na verdade e se reconhece que sem Cristo
você nada pode é como se Lhe suplicasse: "Vem e vive
em mim". E é só então que Cristo vem.

Para não atribuir a si próprio a ação de Cristo,


procure repetir muitas vezes no seu íntimo: "E graças a Ti,
Senhor Jesus, que posso ser eu mesmo, é graças a Ti que
o meu cônjuge é tão fascinante, é graças a Ti que as
pessoas que encontro são tão boas". Essa será uma
expressão de humildade. Tudo o que me atrai no outro
homem pertence a Cristo e simultaneamente a essa
pessoa. Se pensarmos que alguém que nos fascina,
devido ao bem sobrenatural que emana, é digno de
admiração, seria ceder à ilusão. Cada um de nós há de
convencer-se um dia, do quanto é fraco e pecador. No
entanto, Cristo quer justamente fazer de nós, de você,
uma obra-prima que há de atrair os outros. Assim o
tornará cada vez mais você mesmo e simultaneamente
Cristo crescerá cada vez mais em você.

Cada um dos santos realizou a imagem de Cristo em


si de uma maneira diferente. E extraordinário que
tenhamos uma tão grande variedade de santos. Por
exemplo, Santa Edwiges, rainha da Polônia, era um
modelo de elegância. Fascinava não só pelo seu delicado
gosto estético, mas também pelo seu nível intelectual e
espiritual. E temos também São Bento José Labre que
morreu como indigente e mendigo. E São Camillo de Lellis
foi, desde jovem, um jogador de cartas, um "brigão",
levava uma vida, sem dúvida, pior do que a dos soldados
expulsos da legião estrangeira. Mas, um dia, quando se
tornara já num alcoólico inveterado, viu um frade e, de
repente, alumiou-se nele uma fagulha de esperança:
também eu poderei ser diferente. Quando mais tarde
perdeu tudo no jogo e ficou reduzido à mendicidade,
cobriu o rosto com um pano, sentiu reviver nele o desejo
de romper com tudo aquilo, compreendeu que o que fazia
era degradante, que não estava a ser ele próprio e que
não passava de uma caricatura de homem. Começou a
sonhar tornar-se um homem normal. Decidiu converter-se.
Foi então que Cristo consumou a sua auto-realização
fazendo dele, não só uma pessoa normal, mas ainda uma
obra-prima porque o conduziu à santidade.
E assim que Cristo age conosco porque Ele quer ser
o nosso tudo: o nosso amor, o nosso caminho, verdade e
vida.