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Súmula 535-STJ

Márcio André Lopes Cavalcante

DIREITO PROCESSUAL PENAL


EXECUÇÃO PENAL
Falta grave e comutação de pena ou indulto

Súmula 535-STJ: A prática de falta grave não interrompe o prazo para fim de comutação de
pena ou indulto.
STJ. 3ª Seção. Aprovada em 10/06/2015, Dje 15/06/2015.

Falta grave
A Lei de Execução Penal (Lei nº 7.210/84) prevê as situações que configuram falta grave.
As situações de falta grave irão variar conforme o condenado esteja cumprindo pena privativa de
liberdade ou restritiva de direitos.
 Hipóteses de falta grave para réus que estejam cumprindo pena privativa de liberdade: estão
previstas no art. 50 da LEP;
 Hipóteses de falta grave para réus que estejam cumprindo pena restritiva de direitos: estão elencadas
no art. 51 da LEP.
 Hipótese de falta grave aplicável tanto para réus que estejam cumprindo pena privativa de liberdade
como para condenados a pena restritiva de direitos: prática de crime doloso (art. 52, caput, 1ª parte).

Hipóteses de falta grave para condenado que esteja cumprindo pena privativa de liberdade
A Lei de Execução Penal (Lei nº 7.210/84) prevê um rol de situações que configuram falta grave do
condenado que esteja cumprindo pena privativa de liberdade.
Art. 50. Comete falta grave o condenado à pena privativa de liberdade que:
I — incitar ou participar de movimento para subverter a ordem ou a disciplina;
II — fugir;
III — possuir, indevidamente, instrumento capaz de ofender a integridade física de outrem;
IV — provocar acidente de trabalho;
V — descumprir, no regime aberto, as condições impostas;
VI — inobservar os deveres previstos nos incisos II e V, do artigo 39, desta Lei;
VII — tiver em sua posse, utilizar ou fornecer aparelho telefônico, de rádio ou similar, que permita a
comunicação com outros presos ou com o ambiente externo.
Parágrafo único. O disposto neste artigo aplica-se, no que couber, ao preso provisório.

Além dessas situações acima, a LEP prevê uma hipótese que constitui falta grave tanto para condenados
que estejam cumprindo pena privativa de liberdade como para os que estejam cumprindo pena restritiva
de direitos. Trata-se da prática de crime doloso, situação trazida pelo art. 52, caput, 1ª parte da LEP. Veja:
Art. 52. A prática de fato previsto como crime doloso constitui falta grave (...)

Anistia, graça e indulto


Vamos fazer uma breve revisão de anistia, graça e indulto:
 São formas de renúncia do Estado ao seu direito de punir.
 Classificam-se como causas de extinção da punibilidade (art. 107, II CP).
 A anistia, a graça e o indulto são concedidas pelo Poder Legislativo (no primeiro caso) ou pelo Poder
Executivo (nos dois últimos); no entanto, somente geram a extinção da punibilidade com a decisão judicial.
 Podem atingir crimes de ação penal pública ou privada.
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ANISTIA GRAÇA INDULTO
(ou indulto individual) (ou indulto coletivo)
É um benefício concedido pelo Concedidos por Decreto do Presidente da República.
Congresso Nacional, com a sanção do
Presidente da República (art. 48, VIII, Apagam o efeito executório da condenação.
CF) por meio do qual se “perdoa” a
prática de um fato criminoso. A atribuição para conceder pode ser delegada ao(s):
Normalmente incide sobre crimes  Procurador Geral da República
políticos, mas também pode  Advogado Geral da União.
abranger outras espécies de delito.  Ministros de Estado
É concedida por meio de uma lei Concedidos por meio de um Decreto.
federal ordinária.
Pode ser concedida: Tradicionalmente, a doutrina afirma que tais benefícios só podem
 antes do trânsito em julgado ser concedidos após o trânsito em julgado da condenação. Esse
(anistia própria) entendimento, no entanto, está cada dia mais superado,
 depois do trânsito em julgado considerando que o indulto natalino, por exemplo, permite que
(anistia imprópria) seja concedido o benefício desde que tenha havido o trânsito em
julgado para a acusação ou quando o MP recorreu, mas não para
agravar a pena imposta (art. 5º, I e II, do Decreto 7.873/2012).
Classificação: Classificação
a) Propriamente dita: quando a) Pleno: quando extingue totalmente a pena.
concedida antes da condenação. b) Parcial: quando somente diminui ou substitui a pena
b) Impropriamente dita: quando (comutação).
concedida após a condenação.
a) Incondicionado: quando não impõe qualquer condição.
a) Irrestrita: quando atinge
b) Condicionado: quando impõe condição para sua concessão.
indistintamente todos os autores
do fato punível.
a) Restrito: exige condições pessoais do agente. Ex: exige
b) Restrita: quando exige condição
primariedade.
pessoal do autor do fato punível.
b) Irrestrito: quando não exige condições pessoais do agente.
Ex: exige primariedade.
a) Incondicionada: não se exige
condição para a sua concessão.
b) Condicionada: exige-se
condição para a sua concessão. Ex:
reparação do dano.
a) Comum: atinge crimes comuns.
b)Especial: atinge crimes políticos.
Extingue os efeitos penais Só extinguem o efeito principal do crime (a pena).
(principais e secundários) do crime.
Os efeitos de natureza civil Os efeitos penais secundários e os efeitos de natureza civil
permanecem íntegros. permanecem íntegros.
O réu condenado que foi O réu condenado que foi beneficiado por graça ou indulto, se
anistiado, se cometer novo crime cometer novo crime será reincidente.
não será reincidente.
É um benefício coletivo que, por É um benefício individual (com É um benefício coletivo (sem
referir-se somente a fatos, atinge destinatário certo). destinatário certo).
apenas os que o cometeram. Depende de pedido do É concedido de ofício (não
sentenciado. depende de provocação).

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Indulto natalino
É bastante comum o Presidente da República editar um Decreto, no final de todos os anos, concedendo
indulto. Esse Decreto é conhecido como “indulto natalino”.

Indulto e comutação de pena


Desse modo, o indulto é um benefício concedido por Decreto do Presidente da República por meio do qual
os efeitos executórios da condenação são apagados (deixam de existir).
Comutação é o mesmo que indulto parcial, ou seja, ocorre quando o Presidente da República, em vez de
extinguir os efeitos executórios da condenação, decide apenas diminuir a pena imposta ou substitui-la por
outra mais branda.
Assim, temos:
a) Indulto pleno: quando extingue totalmente a pena.
b) Indulto parcial: quando somente diminui ou substitui a pena. Neste caso, é chamado de comutação.

A fata grave interfere, em regra, na concessão de indulto ou comutação de pena?


NÃO. Em regra, não.
O cometimento de falta grave não interrompe automaticamente o prazo para o deferimento do indulto ou
da comutação de pena.
A concessão do indulto e da comutação é regulada por requisitos previstos no decreto presidencial pelo
qual foram instituídos.
Assim, a prática de falta disciplinar de natureza grave, em regra, não interfere no lapso necessário à concessão
de indulto e comutação da pena, salvo se o requisito for expressamente previsto no decreto presidencial.

Exemplo:
O Presidente da República editou um Decreto Presidencial concedendo o “indulto natalino” para aqueles
que tivessem cumprido 1/3 da pena.
João já cumpriu 1/3 da pena (requisito objetivo). Ocorre que ele praticou, há um mês, falta grave.
O juiz negou a concessão do indulto, afirmando que, como o condenado praticou falta grave, a contagem
do prazo deverá ser interrompida (reiniciar-se do zero).
Ocorre que o Decreto não previu isso.
Desse modo, essa exigência imposta pelo juiz é ilegal e não pode ser feita.
Não cabe ao magistrado criar pressupostos não previstos no Decreto Presidencial, para que não ocorra
violação do princípio da legalidade.
Assim, preenchidos os requisitos estabelecidos no mencionado Decreto, não há como condicionar ou
impedir a concessão da comutação da pena ao reeducando sob nenhum outro fundamento, sendo a
sentença meramente declaratória.

Redação incompleta do enunciado


Ressalte-se que a redação do enunciado, com a devida vênia, poderia ser mais completa. Isso porque o
cometimento de falta grave não interrompe o prazo para o deferimento do indulto ou da comutação de pena.
Ocorre que é possível imaginar que o Presidente da República decida prever, no Decreto, a interrupção do
prazo em caso de falta grave. Se isso for fixado no Decreto, tal consequência poderá ser exigida.
Logo, o ideal seria que a súmula tivesse dito: a prática de falta grave não interrompe o prazo para fim de
comutação de pena ou indulto, salvo disposição expressa em contrário no decreto presidencial.

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Cuidado para não confundir. Consequências decorrentes da prática de falta grave:

EXECUÇÃO PENAL
Consequências decorrentes da prática de FALTA GRAVE:

ATRAPALHA NÃO INTERFERE

 PROGRESSÃO: interrompe o prazo para a  LIVRAMENTO CONDICIONAL: não


progressão de regime (Súmula 534-STJ). interrompe o prazo para obtenção de
 REGRESSÃO: acarreta a regressão de regime. livramento condicional (Súmula 441-STJ).
 SAÍDAS: revogação das saídas temporárias.  INDULTO E COMUTAÇÃO DE PENA: não
 REMIÇÃO: revoga até 1/3 do tempo remido. interfere no tempo necessário à concessão
 RDD: pode sujeitar o condenado ao RDD. de indulto e comutação da pena, salvo se o
 DIREITOS: suspensão ou restrição de direitos. requisito for expressamente previsto no
 ISOLAMENTO: na própria cela ou em local adequado. decreto presidencial (Súmula 535-STJ).
 CONVERSÃO: se o réu está cumprindo pena
restritiva de direitos, esta poderá ser convertida
em privativa de liberdade.

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